CONFERÊNCIA
NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL
PASTORAL
DA PENITÊNCIA
Documento Aprovado
pela Comissão Representativa da CNBB
18 a 25 de outubro de 1976
e Referendado pela
XV Assembléia Geral
Itaici, 7 a 17 de
fevereiro de 1977
INTRODUÇÃO
A Igreja, no Concílio Vaticano II, reafirmou a sua solicitude para com o
Sacramento da Penitência, determinando o seguinte: "O rito e as fórmulas
da Penitência sejam revistos de tal modo
que expressem mais claramente a
natureza e o efeito do Sacramento" (SC 72).
A Sagrada Congregação para o Culto Divino, procurando satisfazer ao
preceito conciliar, publicou, a 2 de dezembro de 1973, o novo Rito da
Penitência.
A Comissão Nacional de Liturgia vem realizando estudos, dentre os quais
um foi publicado sob o título "Renovação da Pastoral da Penitência".
(Comunicado Mensal
n° 236, maio de 1972, pp. 59-70). A tradução do novo Rito foi outro trabalho
relevante na linha de oferecer à Igreja no Brasil os meios de uma celebração
renovada do sacramento da Penitência.
Desta forma, desde há mais tempo, a CNBB vinha preparando o clima para a
vinda do novo Rito.
A Assembléia Geral dos Bispos, em Itaici, no mês de novembro de 1974, de
posse do Rito da Penitência e de diversos documentos e estudos realizados na
Conferência, bem como da experiência pastoral do Sacramento da Penitência no
País, votou sobre algumas adaptações e tomou decisões a respeito dos pontos que
eram de sua competência (cf. Rito da Penitência n° 38). Agora, quando o rito é
lançado a público e entregue aos sacerdotes e demais agentes pastorais, a CNBB
com o objetivo de servir à pastoral dos sacramentos no Brasil vem, mais uma
vez, como o fez com a Pastoral dos Sacramentos da Iniciação Cristã, oferecer
subsídios pastorais.
I -
SITUAÇÃO DA PASTORAL DA PENITÊNCIA
Analisando a realidade, constatamos, entre os fatos sociais, vários
processos e certas tendências sócio-históricas que marcam a Sociedade e a
Igreja. Algumas destas tendências incidem na prática penitencial.
1.1 — Processos e tendências na sociedade
Entre as mudanças, desequilíbrios, aspirações e questionamentos atuais,
provocados pelos processos de industrialização, urbanização, migração e
socialização personalizante ou massificante, multiplicados pelo processo de
comunicação social, constata-se uma série de tendências, tais como:
* continuidade e possibilidade de individualismo no anonimato das massas;
* busca de autenticidade pela
integração em pequenos grupos;
* tentativas de valorização da pessoa como resposta crítica à
massificação e à coisificação;
* consciência de um egoísmo de grupos ou classes, provocado pela
sociedade de consumo, onde novas formas de egoísmo criam a marginalização
crescente, pela qual os ricos ficam mais ricos e os pobres se tornam cada vez
mais pobres;
* formação de uma consciência permissiva, a qual, partindo da
contestação de normas duma moral cujos valores não mais são percebidos como
personalizantes, não reconstrói um quadro de valores autênticos, mas se perde
na desintegração individual e social;
* reações positivas de solidariedade, na construção da paz, da
fraternidade e do desenvolvimento;
* procura de Deus manifestada na sensibilidade a formas religiosas e
místicas de diversas proveniências.
1.2 — Processos e tendências na Igreja e nos
Sacramentos
Descobre-se, na Igreja, um processo de encarnação na realidade do mundo
atual, provocado em grande parte pelo espírito do Vaticano II. Este processo
vai, aos poucos, desenvolvendo nos católicos um sentido crítico que os leva a
libertar-se de falsos valores espirituais e morais, com o conseqüente
desabrochar do senso de responsabilidade pessoal. Tais processos ajudam a
Igreja a salientar o fato de que deve prevalecer o espírito sobre a letra da
lei (cf. Rm 7,7; Gl 2,19).
Verifica-se, assim, uma mudança de mentalidade. As tendências da
sociedade atual repercutem sobre tal mudança de mentalidade, desencadeando nos
fiéis um questionamento da fé, exigindo deles uma convicção mais sólida desta
fé, provocando uma adesão mais pessoal e comprometedora com Cristo, pelo
engajamento numa comunidade concreta. Evidentemente, tudo isto atinge a forma
de celebração e a pastoral dos sacramentos.
1.3
— Processos e tendências na prática
penitencial
Os processos e tendências supramencionados repercutem também sobre a
compreensão do sacramento da penitência, criando novas exigências para a sua
pastoral e suas formas de celebração. Esta repercussão manifesta-se, sobretudo,
nos seguintes pontos:
* na
atitude de conversão, como busca cada vez mais explícita de Deus, com crescente
consciência eclesial;
* na
situação de perplexidade, enquanto conseqüência da época de transição
pós-conciliar;
* na
atitude tradicionalista, enquanto expressão de formas superadas de
evangelização e catequese;
* na
diversificação de procedimento dos pastores e demais agentes de pastoral, face
às três posições anteriores.
Examinando mais detalhadamente estes pontos de: conversão, perplexidade,
tradição e diversificação de procedimento, podemos caracterizar e concretizar
mais a visão sobre a situação pastoral da penitência.
1.3.1 — Quanto à atitude de conversão
O tipo de conversão que se verifica é, em grande parte, reflexo da
catequese recebida. Notamos elementos positivos e negativos nas atitudes de
conversão:
1.3.1.1 — Elementos positivos
* maior
maturidade pessoal, quanto ao modo de agir;
* busca
de orientação, através do sacramento da penitência;
* mudança
de mentalidade, quanto ao sentido de pecado, abrindo perspectivas para uma
maior consciência da dimensão social e eclesial do mesmo;
* insatisfação
dos fiéis com relação à simples absolvição, quando necessitam de conselho ou de
apoio por parte do confessor;
* melhoria
do espírito comunitário na vivência sacramental e na celebração eucarística.
1.3.1.2 — Elementos negativos
* conversão
encarada como fruto apenas da vontade humana;
* desconhecimento
dos valores evangélicos e, até mesmo, dos mandamentos da lei de Deus e da
Igreja;
* perda
ou falta do sentido de pecado;
* consideração
da vida conjugal como setor estritamente privado, que não entra no campo da confissão;
* perda
do sentido da renúncia e da ascese cristãs;
* falta
de consciência a respeito das situações de pecado existentes nas estruturas da
sociedade e da família;
* concepção
individualista da salvação.
1.3.2 —
Quanto à situação de perplexidade
A perplexidade de muitos fiéis, na prática penitencial, parece provir de
quatro grandes conjuntos de fatores: crise da moral, formas diferentes de
celebração, inutilidade aparente da confissão, certos esquemas de exame de
consciência defasados em relação à situação atual.
1.3.2.1 — Elementos de
perplexidade, relacionados com a crise da moral:
* falta
de noção clara de pecado;
* em
alguns, laxismo (nada é pecado), em outros, rigorismo (tudo é pecado);
* busca
do processo de conversão, mas sem saber nem onde nem como;
* mudança
de mentalidade moral e social, que provoca o afastamento ou a diminuição de
freqüência ao sacramento;
* pecado
não mais considerado como ato contrário à moral, mas apenas como problema
psicológico;
* consideração
de que pecado grave é apenas matar e roubar;
* desvios
e abusos de ordem sexual não mais encarados como pecado;
* desconhecimento
da realidade batismal, não se percebendo a diferença entre ser cristão e ser
pagão;
*
tomada de consciência da dimensão cristã do social.
1.3.2.2 — Elementos de perplexidade
relacionados com
as formas diferentes de celebração:
* aceitação
da confissão comunitária, com reservas e ressalvas;
* maneira
apressada e massificante com que se fazem certas confissões comunitárias;
* busca
de perdão diretamente em Deus com rejeição da mediação eclesial, por motivos
diversos.
1.3.2.3 —
Elementos de perplexidade relacionados com a idéia de inutilidade da confissão
quanto a seus efeitos:
* alguns
confessam-se, mas não se entrosam na comunidade;
* opinião
de que a confissão é inútil porque se volta a repetir os mesmos pecados;
1.3.2.4 —
Elementos de perplexidade relacionados com
certos esquemas de exame de consciência defasados em relação à
situação atual:
* a
afirmação "não tenho pecado", como sintoma da falta de critérios no
reconhecimento dos próprios pecados;
* dificuldade
psicológica em acusar os pecados;
* busca
da confissão apenas em determinadas épocas do ano, como Natal e Semana Santa;
* dificuldade
em perceber os limites da própria responsabilidade e o exercício da liberdade
pessoal.
1.3.3 — Quanto à atitude tradicionalista
Eis alguns elementos, que podem ajudar a caracterizar tal atitude:
* fidelidade
no recurso à confissão freqüente;
* utilização
do sacramento como meio de progresso espiritual;
* acusação
de atos moralmente graves, sem penetrar na raiz do mal;
* acusação
de situações psicológicas como pecados, mais por motivo de angústia ou
compensação do amor próprio, do que por reconhecimento da culpa com percepção
da necessidade de voltar à Aliança, como projeto de vida e de conversão;
* divergência entre os pecados acusados em confissão e a vida real;
* incoerência
entre confissão e vida cotidiana posterior;
* não
reconhecimento da gravidade dos pecados contra a justiça;
* maior
preocupação com pecados relativos à castidade;
* consideração
do pecado como ato meramente individual e procura do sacramento da penitência
unicamente para purificação pessoal;
* confissão
apenas como condição para comungar;
* preponderância
do "medo do castigo" como motivo da confissão;
* falta
de uma verdadeira conversão como expressão de uma vida reconciliada e
integração na comunidade.
1.3.4 — Quanto à atitude dos pastores e de-mais agentes
de pastoral, frente às posições de conversão, perplexidade e tradicionalismo
Neste sentido, podemos elencar alguns fatos que completam a visão da
situação da pastoral da penitência entre nós:
* a
introdução da absolvição geral em atenção ao direito dos fiéis a celebrar
sacramentalmente o perdão dos pecados;
* a
opção por novas prioridades pastorais ou pela profissionalização do clero que
reduz o tempo antigamente empregado em ouvir confissões;
* a
insegurança e a busca de um conteúdo teológico moral, face a este sacramento;
* o
grande número de comunhões, inclusive de pessoas que necessitariam de prévia
confissão, segundo as atuais determinações da Igreja;
* falta
de unidade na orientação da pastoral penitencial, quanto à pluralidade de
formas de celebração;
* insegurança
quanto ao que seja atualmente considerado pecado;
* falta
de espírito de pastor, por parte de confessores que realizam absolvições
mecânicas e aceitam, por comodismo, a absolvição geral ou confissão comunitária
como meio mais fácil e mais rápido de se celebrar este sacramento;
* falta
de valorização da tarefa penitencial como estímulo à conversão e como reforço à
dimensão social do sacramento;
* catequese
não adequada para fazer aparecer mais claramente a natureza e os efeitos do sacramento
da penitência.
Toda esta realidade complexa exige de nós, a seguir, um esforço de
reflexão teológica.
II -
ENFOQUES TEOLÓGICOS
2.1 — O pecado na vida do homem
2.1.1 — Vocação do homem à santidade
O homem se sente intimamente atraído a
realizar, na sua História, a imagem segundo a qual foi criado, já que Deus o
constituiu dotado da capacidade de conhecer e amar, para poder, ao governar e
transformar toda a criação, glorificar o mesmo Deus e assim santificar-se (cf.
GS 12; 22).
Em virtude de sua vocação à filiação divina,
deve o homem realizar, na sua História, a imagem de Filho de Deus, pois nesta
realidade foi constituído desde a sua origem, tendo sido dotado da capacidade
de viver em comunhão com Deus e, em Deus, com todos os outros homens, no
perfeito domínio de si mesmo e de toda a criação e assim, feliz, glorificar a
Deus.
A realização da santidade é crescer nesta
linha em solidariedade com todos os outros que receberam a mesma vocação. Esta
santidade promove um nível de vida mais humano em todas as suas dimensões (cf.
GS 12; LG 40).
2.1.2 — Pecado, destruição do homem
A indiferença a esse esforço de crescimento
a que o homem é chamado por seu Criador, é a primeira manifestação do pecado,
que pode se agravar até à total desintegração da pessoa humana e à ruptura com
Deus.
A visão teológica do pecado, assentando-se
sobre as dimensões antropológicas do mal que se verifica na realidade do mundo,
vem completá-las. Com efeito, a fé denuncia a gravidade do desprezo do homem
pelos imensos benefícios com que Deus o dotou (cf. 2Sm 12).
2.1.3 — O homem e o pecado
Com a entrada do pecado no mundo (cf. Rm
8,12), o homem experimenta uma ambigüidade no íntimo de seu ser quanto à
realização do ideal a que é chamado e, não raro, passa a buscar sua própria
realização prescindindo de Deus (cf. GS 13).
2.1.4 — O homem e sua orientação de vida
Sem uma referência ao seu fim último, que é
Deus no seu plano de amor em que o homem é chamado a participar da vida e da
felicidade de Deus, como filho, o mesmo homem viverá desorientado tanto no que
se refere à sua pessoa, como na sua relação com os demais e com o resto da
criação. Sem uma orientação de vida para o bem, o homem submerge-se em muitos
males. Estes não têm
sua origem no Criador,
que é bom (cf. GS 13).
O homem livre se dignifica pela adesão
consciente a esse plano de Deus que encaminha sua existência terrena para a
plena e feliz realização de seu próprio anseio de perfeição (Cf. GS 14; 17).
2.1.5 — Cristo, revelação da vocação do homem
Cristo é aquele que revela plenamente o
homem ao próprio homem e lhe descobre a sublimidade de sua vocação. Toda recusa
consciente e consentida de aceitá-lo e tomar a sério sua mensagem, para
assemelhar-se a Ele, é pecado que destrói o próprio homem. Conseqüentemente é
também uma ofensa a Deus e ruptura de comunhão com Ele, que quer que todo homem
viva de acordo com o que é, a saber, sua imagem e semelhança (cf. Gn 1,26-27a).
No entanto, desde o princípio da História, o
homem, instigado pelo demônio, procurou seu próprio caminho, desviando-se da
direção traçada pelo Criador. Rejeitou, pois, a salvação, multiplicando seus
desvios por responsabilidade pessoal e criando na sociedade humana um clima de
injustiça onde a responsabilidade de cada um se dilui no anonimato duma
responsabilidade coletiva (cf. GS passim).
Não obstante esse afastamento do homem, Deus
quis vir ao seu encontro, fazendo com ele Aliança, e assim libertá-lo de seus
males e de suas aflições, convocando-o para reunir-se em povo que buscasse a
plena realização de suas aspirações íntimas (cf. Oração Eucarística IV).
2.1.6 — Aliança e atitude dos homens
A aceitação ou a rejeição desta aliança
entre Deus e o seu povo é uma tomada de posição fundamental de cada homem face
a seu Deus e face à vida que Ele propõe (cf. Ez 36,27s; Jr 31,31s). A rejeição
da Aliança é a morte para o homem (Sl 1,12), acarreta sua exclusão do povo e a
separação de Deus.
A aceitação da Aliança não torna o homem
imune ao pecado. Com efeito, este pode pecar, mas, por causa do obscurecimento
de sua inteligência e enfraquecimento da vontade, seus pecados nem sempre
significam total negação da orientação de vida para Deus e, por isso, não
acarretam a terrível ruptura de comunhão com Deus.
Grandes moralistas do passado asseguram ser
dificílimo determinar o que é ou não é "pecado mortal".
Os atos, então, do homem, se tornam tanto
mais graves quanto mais profundamente atingem a pessoa e a afastam da direção
de vida para a qual Deus o chama.
Por outro lado, o homem só pode libertar-se
do pecado impulsionado pelo Espírito, que o leva a empenhar-se com todas as
suas forças em conhecer a Deus e a praticar o que é bom diante de Deus e dos
homens. Só a atitude constante de conversão liberta o homem do pecado. Cristo,
voltando para o Pai, pôde afirmar: "Eu venci o mundo" (Jo 16,33; cf.
Jo 12,31; 1Jo 2,14).
2.1.7 — A consciência, norma de decisão
No mais profundo de si mesmo, o homem
descobre a existência de uma lei. Ele não a dá a si mesmo, mas a ela deve
obedecer. A voz dessa lei ressoa, oportunamente, aos ouvidos de seu coração,
advertindo-o de que deve amar e praticar o que é bom e evitar todo mal.
É, pois, no íntimo de sua consciência que o
homem decide seus atos e sente a culpa de seu pecado. É também no íntimo de seu
coração que todo homem percebe o apelo para buscar o que é verdadeiramente bom
e resolver com acerto os numerosos problemas morais com que se defronta pessoal
e socialmente. E é só através de sua liberdade que o homem pode readquirir sua
própria dignidade, quando tenha pecado (cf. GS 16 e 17).
2.1.8 — A lei moral
A responsabilidade da pessoa diante de sua
própria dignidade e diante de Deus é que justifica o predomínio da reta
consciência no julgamento de seus atos. Não se deve, contudo, ignorar que as
pessoas e a sociedade não podem guiar-se pela cegueira dos caprichos
individuais, e sim pelas normas de uma moralidade que corresponda à dignidade
do homem, cuja imagem, revelada por Deus na História, resplandeceu
admiravelmente na pessoa de Jesus de Nazaré. A lei moral fundamenta e forma a
reta consciência dos indivíduos e da sociedade.
2.1.9 — Situação de pecado no mundo
Há situações no mundo que se apresentam em
total desacordo com a dignidade da pessoa humana e com o plano de Deus, sem que
ninguém sinta o grito de uma consciência culpada. Há situações de injustiça,
marginalização, comercialização da pessoa, corrida desenfreada para valores que
não satisfazem plenamente aos anseios da pessoa humana e até a adoção de
contravalores que destróem e tornam os homens insensíveis aos bens maiores: são
o pecado que impera no mundo e sufoca a
voz da consciência (cf. Jo 8,21).
Ao denunciar tais situações estamos chamando
a todos para assumir a própria responsabilidade de reagir construtivamente face
a tais situações pecaminosas, a fim de conseguirmos nos encaminhar para uma
sociedade mais humana, e assim libertar os homens de tais situações.
O pecado do mundo, também chamado pecado
social, criando situações que condicionam a própria liberdade das pessoas, é o
desafio aberto à missão da Igreja. Essa missão é de libertar o homem do pecado,
para formá-lo, em Cristo, homem novo, numa comunidade em que reine a paz,
fundada na justiça, na verdade, no amor e na liberdade.
A libertação do pecado só pode acontecer em
Cristo que vence o mundo e vence o pecado, na sua Morte e Ressurreição, pelo
dom do seu Espírito que dá testemunho da verdade no íntimo do homem e o atrai
para o amor do Pai e dos irmãos.
2.2 — A Reconciliação em Cristo
2.2.1 — Cristo, Sacramento da Reconciliação
A Boa Nova da Reconciliação é Jesus Cristo.
Nele resplandeceu, para todos os homens, o amor salvífico do Pai. Pelo mistério
da Encarnação ele assumiu o pecado dos homens; entrou no mundo e, para salvar,
entrou na casa dos pecadores. Por sua palavra e por sua vida entre os homens,
revelou a misericórdia do Pai e denunciou o pecado dos homens, ensinando a
todos o caminho da volta, do amor e da libertação.
Esta é a vontade do Pai: que por Ele todos
os homens sejam salvos No mistério de sua passagem por este mundo, consumada na
morte/ressurreição e ascensão, tornou-se o único sacramento da reconciliação
dos homens com o Pai e dos homens entre si.
2.2.2 — A Igreja, Sacramento da Reconciliação
A Igreja é o sinal e instrumento visível do
Cristo invisível no meio dos homens. Na comunidade eclesial Jesus Cristo, no
Espírito, continua a sua missão reconciliadora e libertadora. Por isso o grande
desafio da Igreja é crescer na comunhão com Cristo, por meio da conversão,
renovação e purificação, a fim de espelhar, sempre com mais fidelidade, a
santidade do Esposo e denunciar ao homem a presença do pecado nas estruturas do
mundo que se afasta do seu Deus. Pois "o Espírito com sua vinda,
convencerá o mundo do Pecado, da Justiça e do Juízo" (Jo 16,8s).
Pela Igreja e na Igreja, o Pai, por meio do
Cristo e no Espírito Santo, continua convidando todos os homens à salvação,
oferecendo-lhes, na Palavra e nos Sacramentos, caminhos de libertação até a
total plenitude em Cristo Jesus.
2.2.3 — O Batismo, inserção na comunidade dos
reconciliados
Pelo Batismo, o homem é inserido em Cristo,
e por Ele torna-se membro da comunidade dos reconciliados com o Pai no Espírito
Santo. Povo santo e pecador, é enviado a celebrar, na História, a comunhão do
Corpo e do Sangue de Cristo e anunciar a todos o perdão dos pecados e a viver,
no dia a dia, um novo relacionamento com Deus e com o homem e sua História.
No Batismo, o homem também recebe um convite
especial para tomar parte na mesa do Senhor, para fazer memória das grandes
maravilhas operadas na comunidade do povo pelo Deus que perdoa os pecados dos
homens, mas que quer viver com eles e levá-los à plena comunhão. Por Jesus
Cristo, na comunidade eclesial hoje reunida, o Corpo é dado e o Sangue é
derramado para remissão dos pecados de todos e assim reconciliar o mundo com o
Pai.
A participação no Sacramento da Eucaristia
renova a caridade dos batizados, unindo o Sacrifício espiritual de sua vida ao
Sacrifício de Cristo que se oferece, na obediência, pela vida do mundo (cf. Rm
passim).
2.2.4 — Eucaristia e Reconciliação
A Eucaristia completa a incorporação com
Cristo realizada no Batismo. Tornando presente a ceia sacrifical do Senhor —
síntese do Mistério Pascal — a celebração eucarística proporciona aos homens a
participação na Morte e Ressurreição do Senhor (cf. Intr. Geral ao Missal
Romano, passim).
Quando oferecemos ao Pai o mesmo sacrifício
de reconciliação do Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo, satisfazemos
por nossos pecados, pois "o Senhor, aplacado por esta oblação e concedendo
a graça e o dom da Penitência, perdoa-nos
os crimes e os pecados, por maiores
que eles sejam" (Conc. de Trento XXII Sessão,
cf. Denzinger S. 1743).
É por isso que na III Prece Eucarística
dizemos: "Olhai com bondade a oferenda de vossa Igreja, reconhecei o
sacrifício que nos reconcilia convosco... Que este sacrifício da nossa
reconciliação estenda a paz e a salvação ao mundo inteiro".
No momento da consagração dizemos também que
o sacrifício foi e é oferecido para a remissão dos pecados.
2.2.5 — A vida do batizado é uma existência
reconciliada
O cristão vive no mundo uma História de
tensão, História de guerra e de paz, de pecado e de graça, de divisão e de
unidade, de egoísmo e de comunhão, de individualismo e de fraternidade, de
isolamento e de participação, de sociedade e de comunidade
Enquanto espera pela vinda do Senhor, o
cristão é chamado a viver, em Igreja, o mistério de uma existência
reconciliada, no meio do mundo, experimentando em si a fragilidade e as
conseqüências do pecado.
Nesta realidade histórica de tensão, o homem
de fé é chamado a viver, dia após dia, uma conversão contínua e renovada,
respondendo aos apelos do Espírito Santo. Mas uma certeza o acompanha neste
caminhar: a presença da misericórdia reconciliadora do Senhor Ressuscitado,
aceita por ele no Batismo. A experiência do pecado, para o batizado, deve
levá-lo a uma nova abertura para o perdão, que é a experiência da misericórdia
do Senhor.
2.2.6 — Na misericórdia do Senhor, os diversos
caminhos do perdão
Deus Pai sempre toma a iniciativa e oferece
de novo a graça da comunhão no Espírito Santo a todo homem. Na graça do
mistério reconciliador do Cristo, o homem pode abrir-se e acolher a salvação de
Deus, na atitude de conversão.
O convite de Deus e a resposta do homem
devem acontecer e se expressar na vida e na reunião da comunidade, tornando-se
assim visibilidade sacramental.
Na sua história, a Igreja tem reconhecido
diversos modos, atitudes e lugares para expressar a conversão e a
reconciliação, como sejam: a vida de fé, os gestos de fraternidade, o perdão
das ofensas mútuas, a caridade da esmola, as formas de jejum interior e
exterior (4º mandamento da Igreja), a oração comum (especialmente o Pai Nosso),
a unção dos enfermos e a celebração eucarística.
Todos estes modos e atitudes constituem momentos
fortes que manifestam a conversão cristã e oferecem certa eficácia de
reconciliação, pois participam da ação ministeria1 e reconciliadora da Igreja
(cf. GS 37).
O novo Rito da Penitência reconhece o valor
das celebrações penitenciais (cf. n° 37), pois a Igreja-sacramento tem diversos
caminhos que levam ao perdão dos pecados e ao crescimento na comunhão com o Pai
e com os irmãos. Extremamente rica é a história deste sacramento na vida da
Igreja.
2.2.7 — A Igreja, Comunidade Ministerial, celebra o
Sacramento da Penitência
A Igreja é uma comunidade a serviço da
reconciliação e da salvação dos homens. Dentro desta realidade salvífica da
Igreja é que deve se situar a celebração do sacramento da penitência.
A Igreja-comunidade tem consciência de que
traz em seu seio santos e pecadores: "povo santo e pecador", reza-se
na Oração Eucarística V. Contemplando-se no Cristo, sempre descobrirá que ainda
não é a Esposa sem mancha, a noiva preparada para as núpcias com o Cordeiro (Ap
21,2.9), e que não é ainda a revelação perfeita do Amor do Pai, assim como foi
o Cristo histórico.
As comunidades sempre tiveram consciência de
serem compostas de cristãos que pecam e que, portanto, precisam voltar-se para
Deus, o qual nunca nega seu perdão ao coração contrito e humilhado (Sl 50).
Pecado e infidelidades sérias levam a uma
ruptura de comunhão com Deus e a um afastamento da comunidade eclesial, fazendo
o homem voltar ao jugo do poder das trevas, além de causarem escândalo para os
irmãos que têm o direito de ver, na comunidade,- o sinal e o testemunho da
mensagem evangélica e da presença do Senhor.
Para tais situações infelizes, exige-se um
processo de reparação e de reconciliação, cujas expressões concretas sofreram
mudanças através dos tempos, mas que no sacramento da penitência sempre
encontram a graça do perdão e a reintegração na comunidade eclesial pela
mediação visível da Igreja.
2.2.8 — A Comunidade Ministerial necessita de
ministros da Reconciliação
Na celebração do mistério da reconciliação,
toda a comunidade eclesial desempenha um papel de mediação pela oração comum
que é a intercessão em favor dos pecadores e dos próprios membros da
comunidade. Mas a estrutura teológica da assembléia litúrgica sempre exigiu
ministros que presidissem aos fiéis reunidos em nome do Senhor, que é Cabeça e
Pastor de seus membros (cf. LG 28; 25) .
Aos apóstolos, Cristo confiou um ministério
de confirmar os irmãos na fé e de os animarem na caminhada para o Pai. Os
sucessores dos apóstolos, os Bispos com seus cooperadores, os presbíteros,
exercem pois a função de estar à frente da comunidade presidindo à fé e à
oração, bem como à comunicação no amor mútuo de irmãos. Com efeito, pode-se
dizer com acerto: "Quando o ministro batiza é o mesmo Cristo que
batiza" (cf. SC 7). Os ministros, portanto, agem à frente da comunidade
como a pessoa do próprio Cristo que preside à sua Igreja.
Compete aos ministros avaliar a fidelidade e
a intensidade de conversão que traz os penitentes à comunidade, a fim de
perdoar seus pecados ou retê-los para
um tempo de salutar
penitência (cf. Jo 20,23).
É ministério dos que presidem conduzir a
comunidade de tal modo que esta possa encontrar os caminhos para servir ao
Senhor e viver na caridade com os irmãos.
2.2.9 — Necessidade e utilidade deste sacramento
O recurso ao sacramento da penitência,
conforme doutrina de Cristo e da Igreja, torna-se normalmente indispensável
para os fiéis que tiveram a infelicidade de ofender gravemente a Deus. A recusa
de submeter-se ao "poder das chaves" (cf. Mt 16,13-19; 18,18) nega a
mediação da própria Igreja que é sinal e instrumento de salvação.
Ainda mais, a Igreja tomou consciência de
que o sacramento da penitência é de grande utilidade para todos os batizados
penitentes, quando retamente
compreendido e celebrado (cf. Rito n. 7b). O sacramento se
torna a expressão culminante da virtude da penitência e do perdão na vida da
Igreja. A própria virtude da penitência está orientada para a expressão
sacramental do perdão (cf. Rito n. 4), assim como as celebrações não sacramentais
recebem sua plena significação no contexto da celebração sacramental da Igreja
que tem múltiplas manifestações .
O sacramento da penitência exprime, de modo
pleno, a vida de conversão e de reconciliação da Igreja. Pode, pois, ser
celebrado como meio de progresso espiritual, como impulso para um crescente
dinamismo de conversão e reafirmação continuada de uma vida para Deus e o
próximo. Neste sentido temos as recomendações do Concílio Vaticano II (cf. PO
nº 6; veja-se também a Instrução "Dum canonicarum legum" de 8 de
dezembro de 1970; AAS LXIII-30 aprilis-1971, p. 318).
A confissão de pecados leves renova o
encontro com o Cristo misericordioso, salvaguardando a liberdade de consciência
de quem tem dúvidas ou pecado venial de maiores conseqüências. Resguarda
outrossim a fama dos que se aproximam do sacramento da penitência por
necessidade estrita, por pecados graves.
2.3 — Dimensões do Sacramento da Penitência
2.3.1 — Um sacramento da Igreja
Ao celebrar este sacramento, a Igreja tem
consciência de que todos e cada um desempenham um papel mediador que manifesta
a dimensão eclesial do universo sacramental. Se bem que compete ao ministro dar
a absolvição, todos participam, em Igreja, da reconciliação dos irmãos (cf.
Rito nº 8).
É claro que as formas comunitárias da
reconciliação manifestam melhor esta dimensão (Rito n. 22). É bom lembrar,
porém, que mesmo na confissão individual o penitente não é um membro isolado,
passivo, mas desempenha um papel ativo de Igreja e faz parte da própria
estrutura eclesial do sacramento (cf. Rito n. 11).
2.3.2 — Um sinal de reconciliação e de amizade
A teologia subjacente no Ritual até há pouco
em vigor usa sobretudo a simbologia do julgamento, enquanto que a teologia do
cristianismo primitivo, retomada no novo Rito, acentua o aspecto da consciência
de ser pecador e a necessidade de conversão.
Isto reaparece no novo modo de se expressar
na Igreja (cf. Rito nn. 15, 22, 31), que insiste sobre o reconhecimento da
distancia que se instalou entre amigos, ligados por uma Aliança não cumprida e
que, portanto, tem aspectos de ruptura da relação amical. A reconciliação se
inicia com o propósito de voltar, continua num processo de conversão que se
acentua no íntimo do penitente, fazendo seu coração desejar e se esforçar por
conseguir o estado anterior de amizade.
Nesta dimensão, o encontro do
pecador/penitente com o confessor ou com a comunidade presidida por seus
ministros, se torna o momento de significar o reencontro de seu lugar no seio
da Igreja. É neste sentido que se insiste mais sobre a gratuidade do gesto
penitencial e da Palavra de perdão, do que sobre a minuciosa acusação dos
pecados.
2.3.3 — Sacramento de louvor e ação de graças
A percepção do sentido do pecado está
diretamente ligada ao sentido de Deus, para o cristão. É diante da bondade
imensa do Pai, revelada em Jesus de Nazaré, que o pecado do homem aparece com
toda sua gravidade: recusar o amor, resistir Aquele que atrai o homem para si,
romper a Aliança, calcar aos pés o Filho de Deus, profanar seu sangue e ultrajar
o Espírito Santo (cf. Hb 10,29).
Tudo isso é que agrava o pecado do homem que
conheceu Deus em Jesus Cristo. Ao ser perdoado, o cristão sente necessidade de
louvar a misericórdia e a benignidade do Senhor, bem como de render graças ao
Deus do perdão. Só a confissão da grandeza de Deus permite ao homem a alegria
de quem se sente perdoado por amor. Sem essa dimensão de louvor e de gratidão,
o Sacramento da Penitência poderá ser uma humilhação, mas não será o sacramento
da libertação. A oração conclusiva, proposta pelo Rito da Penitência (cf. n°
207) retoma o estilo literário de prefácio que evoca uma forma de
"eucaristia".
2.3.4 — Sacramento da alegria pascal
A páscoa do Cristo é que confirma a
possibilidade de passar deste mundo de pecado para o Pai. Jesus, ao falar de
sua Hora, pede ao Pai para glorificá-lo na glória que tinha antes (cf. Jo 17).
Assim, na Páscoa do Cristo todos os homens somos libertados nele e obtemos a
remissão dos nossos pecados. "Elevado da terra, ele atrai para si todos os
homens" (Jo 12,32).
A libertação dos pecados pelo Sangue
derramado e pelo Corpo entregue para a vida do mundo, faz com que os pecadores
redimidos conscientemente pelo sacramento da penitência, cantem hinos de louvor
e dêem graças ao Deus de misericórdia que perdoa seus filhos para reintegrá-los
na glória com que coroou seu próprio Unigênito.
A alegria do perdão deve, pois, transparecer
na celebração em cantos e em atitudes. Se o pecado é a degradação do homem, o
perdão o reabilita; se o pecado humilha, o perdão restabelece na dignidade de
filho; se o afastamento entristece, a volta traz consigo o júbilo que provoca a
festa de um banquete (cf. Filho Pródigo — Lc 15,11-32; Zaqueu — Lc 19,1-10).
III
- NOVO MODO DE CELEBRAR A PENITÊNCIA
3.1 — Singularidade
"Raras vezes a pastoral de um
sacramento dependeu tanto da renovação de um Ritual como, no momento, está
dependendo a do sacramento da Penitência. Trata-se de um sacramento que, ao
longo da história da Igreja, conheceu em sua disciplina, vicissitudes e praxes
diversificadas, e que se encontra, atualmente, mais que qualquer outro, em
plena fase evolutiva, procurando sua verdadeira imagem. Todos lamentam o
crescente afastamento deste sacramento por parte do povo cristão, ou a revolta
dos que o dispensam, dizendo que se confessam diretamente a Deus. Mas ninguém
poderia pensar em voltar à disciplina e à pastoral deste sacramento anteriores
ao Concílio Vaticano II" (Apresentação ao "Rito da Penitência").
3.2 — Objetivo
A Igreja, ao apresentar o novo Rito da
Penitência, manifestando sua solicitude, quer pôr em evidência o ensinamento
conciliar: "Aqueles que se aproximam do sacramento da penitência obtêm da
misericórdia divina o perdão da ofensa feita a Deus, e, ao mesmo tempo, são
reconciliados com a Igreja que feriram pecando e a qual colabora para sua
conversão com caridade, exemplos e orações" (LG 30).
3.3 — Novos enfoques do Rito
Analisando o novo Rito da Penitência,
queremos, aqui, salientar seus novos enfoques:
3.3.1 — A Palavra: nos três ritos da
celebração sacramental do perdão e nas demais celebrações penitenciais
realça-se a importância da Palavra de Deus. Como Cristo e os Apóstolos
iniciaram sua pregação com o anúncio da penitência e o chamado à conversão (cf.
Mt 3,2; 4,17; Mc 1,4; 2,14-15; Lc 3,3 etc.), assim também a Igreja principia a
celebração da penitência com a proclamação da Palavra, "capaz de salvar
nossas almas" (Tg 1,21). Desta forma, sublinha-se o papel importante da
Palavra no processo da conversão, pois ela move à conversão e assim é
proclamada na celebração penitencial. Aparece também viva e eficaz no ato da
absolvição, através da fórmula sacramental, que deve ser pronunciada de tal
modo que permita ao penitente ouvi-la como a voz do Cristo que, pela Igreja,
perdoa seus pecados.
3.3.2 — A intercessão: nas celebrações
comunitárias, com ou sem absolvição, aparece a prece dos fiéis, ocupando um
lugar bastante amplo e de destaque: é a função mediadora da comunidade no
serviço de reconciliação dos seus filhos, que se exprime através das preces de
intercessão.
Além disso, vejam-se os exemplos para
determinados tempos e diversas categorias de pessoas (cf. Apêndice 2).
3.3.3 — Dimensão social do pecado: o novo
Rito frisa o pecado, não apenas enquanto ofensa a Deus, mas também como dano
causado à comunidade eclesial, cuja santidade é ofuscada pelo pecado. Também os
pecados mais pessoais e ocultos não deixam de ter repercussão desfavorável
sobre o Corpo Místico de Cristo e sobre o próprio mundo. Assim, a Igreja, fiel
a seu próprio ensinamento (cf. SC 109 b), no ministério da reconciliação, leva
o homem a considerar, hoje, de modo especial, as conseqüências sociais do
pecado, sem se esquecer de insistir na natureza própria da penitência, que
detesta o pecado como ofensa a Deus.
3.3.4 — A ação de graças: como o grande salmo
da penitência (Sl 50) tem palavras de júbilo pelo perdão concedido por Deus,
assim a celebração do sacramento da penitência, no espírito eclesial, encontra
expressões de alegria pascal e de profunda gratidão pela manifestação da misericórdia
de Deus, pela purificação do penitente e por sua reintegração na comunidade.
3.3.5 — A formação da consciência: o homem,
inserido na comunidade eclesial pelo
batismo, é responsável pelo crescimento
da comunidade, que procura atingir a plenitude em Cristo (Ef 3,19). Isso aparece em cada rito, bem como no apêndice
3, onde se apresentam esquemas de exame de consciência que devem ser
considerados como um impulso para a formação da consciência. Pois, por sua natureza,
o sacramento da penitência, bem administrado e bem recebido, "contribui,
em grau bem elevado, para fomentar a vida cristã" (CD 30), porque tende a
favorecer a formação da consciência (LG 36; GS 16; DH 14), e, por conseguinte,
ajuda a levar os fiéis à maturidade cristã tão necessária (PO 6).
3.3.6 — O incentivo ao espírito penitencial:
as celebrações penitenciais não são apenas formas de preparação à celebração
mais frutuosa do Sacramento, mas têm um valor em si e uma real eficácia; além
disso são modalidades que incentivam o verdadeiro espírito penitencial da
pessoa e da comunidade.
3.3.7 — A pluralidade de formas: o novo Rito
apresenta várias formas de celebrar a vida penitencial da Igreja. Em algumas
dessas celebrações, realiza-se o sacramento da penitência. Nestes casos, depois
das leituras e da homilia, usar-se-á: — ou o Rito para a Reconciliação de
vários penitentes, com confissão e absolvição individuais (nn. 54-59); — ou o
Rito para a Reconciliação de vários penitentes, com confissão e absolvição
gerais (nn. 6063), nos casos particulares previstos pelo direito e
regulamentados pelo bispo diocesano. Além das celebrações sacramentais, o novo
Rito da Penitência apresenta outros modos que ilustram a riqueza da pluralidade
de formas na celebração penitencial da Igreja.
3.3.8 — A vida penitencial: a vida cristã não
somente deve ser marcada pelo espírito penitencial, em dias ou tempos altos de
penitência (SC 109; Const. "Paenitemini" AAS 31 de março de 1966),
mas "toda ela há de ser penitência perpétua" (Concílio de Trento DS
1964). Nesta vida penitencial, enquadra-se o sacramento da penitência como
expressão suma de conversão, pela qual o cristão, procurando continuamente
purificar-se, busca, através do ministério da Igreja (2Cor 5,18), o perdão de
seus pecados pós-batismais, que são verdadeiras ofensas a Deus, ferem a Igreja
e têm conseqüências pessoais e sociais que, hoje, de modo especial, devem ser
levadas em consideração (LG 11; SC 109b; PO 5).
IV - PERSPECTIVAS PASTORAIS
4.1 — Medidas Gerais
4.1.1 — É preciso continuar a missão fundamental da
Igreja de anunciar a penitência e a conversão, apresentando o Cristo como
libertador das situações de pecado que se verificam no Mundo e na Igreja.
A volta às comunidades eclesiais de base é
sem dúvida uma resposta e um convite a esta conversão concreta, capaz de
instaurar um contexto de conversão sempre renovada e contínua. Essa é a tarefa
primeira da Igreja, a missão fundamental dos apóstolos (cf. Mt 3,2;4,17 e
paralelos; Lc 24,46; Atos, passim e Hb 6,1).
4.1.2 — Para isso, tendo diante dos olhos as
situações atuais, é necessário formar a consciência moral dos fiéis, dando-lhes
a verdadeira noção de pecado. A catequese e a pregação em geral não podem
empregar critérios rígidos nem deixar na insegurança. A situação de pecado e a
vocação a uma vida perfeita devem estar presentes no ensinamento da Igreja.
4.1.3 — A conversão para o batizado se manifesta em
todos os momentos e ambientes de sua vida e o leva, inclusive, à freqüência
assídua a uma comunidade que vive da Palavra e do Sacramento, no aprendizado do
ensinamento de Jesus e onde se expressa, em gesto, a atualidade da presença do
Cristo.
4.1.4 — Apresenta-se a comunidade como o lugar
concreto da realização da vida cristã enquanto sinal da conversão. A entrada no
Reino de Deus não pode ser apenas um desejo ou uma interioridade da pessoa
humana; há uma dimensão de sinal da salvação e de instrumento que requer uma
atitude de participação concreta na comunidade.
4.2 — Tempos fortes de Penitência na Liturgia
4.2.1 — Na pastoral da penitência é preciso
revalorizar aqueles tempos litúrgicos que por sua natureza têm um espírito
capaz de levar à conversão (Quaresma, Advento, Rogações, Peregrinações - cf. SC
110).
* A
Quarta-feira de cinzas não poderá reduzir-se ao simples rito de distribuir as
cinzas, mas deve tomar um cunho de entrada na Quaresma que poderá ser um
encaminhamento para uma celebração penitencial a ser realizada sacramentalmente
em tempo oportuno.
* O
rito penitencial da missa deveria tomar especial relevo nestes tempos
litúrgicos e em outras ocasiões em que se queira dar realce à atitude
penitencial. Pode ser usado como reativação pastoral de todas as práticas
penitenciais. Essas práticas devem possibilitar uma mais digna aproximação da
Eucaristia.
Em grupos pequenos, pode haver até acusação
pública de uma ou outra falta exterior, o que contribui para maior intimidade e
auxilio mútuo. Isto é particularmente possível com assembléias de maior
vivência cristã. Depois de cada falta, pode-se levar toda a assembléia a
responder: "Perdoai-nos Senhor" — ou outra fórmula semelhante — como
prova de solidariedade e corresponsabilidade.
4.2.2 — A preparação para os sacramentos do batismo,
da primeira eucaristia, da confirmação, do matrimônio, deve criar um espírito
de reintegração mais consciente na comunidade eclesial.
A celebração do Sacramento da Penitência,
nessas ocasiões, pode significar um reinício da atitude de conversão, além de
revalorizar este sacramento na consciência dos fiéis.
4.2.3 — Nos lugares e momentos em que o anúncio da
conversão deve ter prioridade por causa dos aglomerados de pessoas não
explicitamente evangelizadas (peregrinações, romarias, santuários...), as
celebrações penitenciais ganham especial importância e são mesmo necessárias.
Cuide-se, pois, de preparar celebrações comunitárias que correspondam à índole
própria destas circunstâncias.
4.2.4 — Nas novenas e tríduos de padroeiros(as), nos
retiros espirituais, é oportuno que se dedique um dia à celebração da
Penitência.
4.2.5 — No caso de a penitência estar sendo abandonada
ou caindo na rotina, é conveniente que se promovam periodicamente celebrações
em dia e hora determinados. Sendo necessário, poder-se-á substituir a
celebração da Eucaristia, num dia de semana, pela celebração comunitária da
penitência. Isto pode ocorrer tanto na paróquia como em comunidades religiosas.
É importante que nessas celebrações se imponha, como penitência, uma tarefa
concreta, com perspectivas comunitárias, a ser executada.
4.2.6 — Onde o contexto permitir, se renovem e
valorizem as procissões penitenciais do Tempo da Quaresma e das Rogações (cf.
SC 109).
4.2.7 — Nas comunidades religiosas, sobretudo por
ocasião de ingresso no noviciado, emissão de votos ou em reuniões provinciais,
seja expressa a dimensão de conversão da comunidade pela celebração
penitencial.
4.3 — Educação para o espírito de penitência
O quarto preceito da Igreja — "Jejum e
abstinência" — seja incentivado
não só como ascese pessoal, mas como participação nos sofrimentos de Cristo e
sobretudo como possibilidade de auxílio aos pobres. É este mesmo espírito que
deve permear toda a Campanha da Fraternidade, durante a Quaresma, com
ressonância durante o ano todo.
* Dar
a devida ênfase ao caráter penitencial das sextas-feiras, orientando-o, quando
possível, para uma tentativa de restauração da justiça no atendimento aos
pobres.
* Dar
um caráter de prática penitencial à caridade organizada, por exemplo, Natal dos
pobres, socorro de emergência a flagelados, como tentativa de despertar em
todos a fraternidade, como sinal de conversão a Deus e ao próximo.
* Convidar
grupos de fiéis a reservar algo, semanalmente, fruto de abstenção, para
entregar aos pobres, numa perspectiva de ajudar a promoção humana.
* Valorizar
e incentivar a colaboração comunitária entre famílias, comunidades eclesiais de
base, grupos, em todas as ocasiões necessárias e oportunas.
* Aproveitar
os sofrimentos diários como prática de penitência. Quanto possível deve-se
levar o povo a não se acomodar aos sofrimentos, mas a remediá-los. Mas quando
independem de nossos esforços, suportar esses sofrimentos na consciência de que
Deus os aceita como redenção de nossos pecados.
* Elaborar,
com especial cuidado, ritos para o dia das Cinzas, Finados, Missões populares e
outras ocasiões.
* As
devoções populares sejam aproveitadas para educação do espírito da penitência,
tendo-se, porém, sempre presente que devem ter um cunho de derrota do pecado
pela ressurreição.
* Nas pregações
levar o povo
a uma atitude penitencial em
suas dimensões pascais
de libertação, máxime
quando se trata
de celebração sacramental
da penitência (cf. "Rito da Penitência" —
Introdução, nn. 3-4).
4.4 — Celebração do Sacramento da Penitência
4.4.1 — Confissão individual
Na 14ª Assembléia Geral dos Bispos do Brasil
ficou aprovado em votação que "o local normal para ouvir confissões seja o
confessionário tradicional ou outro recinto apropriado".
4.4.1.1 — Seja no entanto providenciado um local
discreto, anexo ao corpo da própria igreja e de fácil acesso, para que os fiéis,
ao entrarem e saírem do templo possam ver claramente o "recinto
apropriado" ou uma clara indicação deste e assim se sintam convidados à
prática do sacramento.
4.4.1.2 — Quanto aos gestos, é importante que sejam
expressivos e se situem no contexto de uma ação eclesial.
4.4.1.3 — Para as confissões individuais haja horários
certos e visivelmente afixados. Elimine-se confissão durante a missa e durante
qualquer outra celebração da comunidade no mesmo recinto (Euch. Myst. 17).
4.4.1.4 — A confissão individual se desenvolva numa
linha de diálogo e colóquio fraternal entre penitente e confessor. Procure este
ter para com o penitente atitudes de paciência, compreensão e misericórdia,
inspirados nos exemplos de Cristo.
A penitência celebrada de modo individual,
não pode reduzir-se ao perdão dos pecados, mas deve colocar em realce o valor
personalizante do aconselhamento, da orientação de vida e da direção
espiritual. Sem confundir os campos, a acusação individual dos pecados espera,
por parte do confessor, uma resposta da Igreja como formadora da consciência e
uma crítica do juízo interpretativo quanto aos atos do penitente. Não se negue
a ninguém o direito de ser ouvido quando manifeste o desejo de atendimento
pessoal.
4.4.1.5 — A tarefa penitencial não seja apenas uma
formalidade, mas o confessor tenha o cuidado de dialogar com o penitente,
pedindo sua sugestão ou motivando para uma prática concreta que vá ajudar o
processo de conversão por um esforço convergente de atos que possam servir de
remédio às faltas acusadas.
4.4.1.6 — Em caso de grande concurso de povo (Natal,
Páscoa, Romaria...), providencie-se número suficiente de confessores. Caso isto
seja impossível, recorra-se à celebração comunitária em pequenos grupos,
oferecendo, porém, um tempo razoável para a conveniente confissão individual.
4.4.2 — Celebrações comunitárias da
penitência
4.4.2.1 — A celebração comunitária é sem dúvida meio
de formação da consciência do povo. As perguntas porém que se devem fazer são:
Como despertar o povo para uma nova visão na vivência da fé e tirá-lo da rotina
de ir pedir perdão sem mudar de vida? Como evitar uma sacramentalização
indiscriminada?
Eis algumas pistas de idéias/força:
* necessidade
de um ideal comunitário e condições para que os fiéis possam se integrar numa
comunidade concreta;
* necessidade
de celebrações temáticas, por exemplo: as injustiças sociais, a solidariedade
humana e cristã, a "geração da Igreja em termos de fraternidade", a
ausência nas assembléias eucarísticas, os mandamentos de Deus...
* indicar
a situação de pecado em que vivemos e mostrar que estamos comprometidos com
esta situação. Há pecados/causas e pecados/efeitos. Despertar, através da
celebração, para a vitória sobre os pecados/causas.
4.4.2.2 — Quanto ao sentido: as celebrações podem
tomar um caráter autenticamente comunitário ou ter apenas um cunho coletivista.
Um exame de consciência individualista, em
que cada um considera só sua relação com Deus, faz da celebração um ato
coletivo mas não comunitário.
À medida que todos tomam consciência da
dimensão comunitária do pecado e de suas implicações sociais e querem
contribuir para que a comunidade saia do pecado, então temos uma celebração
comunitária.
4.4.2.3 — Quanto à satisfação a ser imposta: sejam
tarefas concretas que ajudem o povo a sentir-se solidário. Há dificuldades
reais em descobrir tarefas concretas que atinjam a comunidade. Existe mesmo o
perigo de a comunidade se fechar sobre si mesma, procurando resolver apenas
seus problemas e não comprometer-se numa luta para vencer o pecado no mundo. É
indispensável que se leve a uma abertura maior.
4.4.2.4 — Quanto ao rito e à escolha dos textos, é
deixada grande margem à criatividade dos presidentes e ministros da celebração.
Para isto basta verificar os exemplos de celebrações temáticas apresentadas
pelo próprio Rito, onde se diz claramente que em tais celebrações pode-se,
oportunamente, dar a absolvição sacramental (cf. Apêndice 2 n. 4).
4.4.2.5 — Mais
ainda do que na
penitência individual, a celebração comunitária deve sublinhar
a dimensão de
ação de graças pelo
perdão concedido, bem
como de louvor à
misericórdia do Senhor. Note-se, a respeito, o estilo de
prefácio ou de "eucaristia menor"
das orações propostas
pelo Rito (n. 39 das normas, nn.
56-57 e n. 206).
4.4.2.6 — O gesto concreto a ser pedido aos penitentes
que desejam receber a absolvição, quando esta é dada de modo geral, visa
distinguir as pessoas que aceitam a penitência sacramental das
demais presentes no
mesmo recinto, mas
que não estão
dispostas ou não
julgam necessária a
absolvição (cf. Rito n. 35b). Compete ao Bispo diocesano determinar ou
indicar os gestos capazes de significar claramente esta participação no perdão
concedido sacramentalmente (cf. Assembléia da CNBB, Itaici, novembro de 1974
em: Comunicado Mensal, novembro, 1974, p. 1060).
4.4.2.7 — Para a satisfação penitencial, indiquem-se
boas obras a praticar, como seja a visita a um doente, a um presídio, lugar
pobre... No caso de se impor uma oração como penitência, seja ela orientada
para determinada intenção e relacionada com os pecados confessados ou mais
acentuados no tema da celebração, quando se trata de confissão geral.
Mais do que um ato passageiro, a tarefa
penitencial poderá tomar um cunho educativo, se o confessor sugerir um
"breve exercício" a ser conservado ou repetido por alguns dias
consecutivos.
4.5 — Situações especiais
4.5.1 — Quando houver grande afluência de
penitentes, sejam estes preparados em grupos e com a ajuda de catequistas, para
que o rito da Palavra e a ação de graças se realizem em comum, atendendo o
confessor a grupos menores e assim evitando longa espera por parte das pessoas.
4.5.2 — Insista-se na utilidade das celebrações
penitenciais sem absolvição sacramental (Rito n. 37). Estas podem, com grande
proveito, ser celebradas também sob a direção de outros ministros que não sejam
presbíteros. A prática de tais
celebrações educará a consciência dos
fiéis a buscar o perdão não apenas no sacramento, mas na oração da Igreja, máxime na vivência
renovada da caridade. 'Celebrações de várias espécies podem desempenhar um
papel na formação litúrgica das crianças" (cf. Diretório das missas
com crianças n. 13) e também dos adultos. Alerte-se, no entanto, para a
diferença entre esta celebração e a absolvição sacramental.
4.5.3 — Especial destaque merece a possibilidade de
variar as formas de celebrar o Rito Penitencial no início da celebração
eucarística. Além das três propostas pelo ordinário do missal romano e que já
oferecem inúmeras possibilidades de variações, o Rito de aspergir os fiéis com
água benta pode tomar o lugar do Ato Penitencial, máxime nos dias em que se
faça uma adequada motivação e se ligue o rito da água com o batismo e se dê um
cunho penitencial a esta recordação do batismo por parte da comunidade (cf.
Missal Romano, Apêndice n. 1).
4.5.4 — Assim como entre os Pastores há alguns que
são especializados em determinados setores da Pastoral, haja também preocupação
de preparar ministros da Penitência, mediante estudo mais profundo de
Psicologia e de Moral, bem como de Espiritualidade.
CONCLUSÃO
A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil espera que essas
constatações de alguns aspectos da situação pastoral da Penitência, os enfoques
teológicos propostos à meditação de pastores e demais agentes de pastoral, a
riqueza do Novo Rito do Sacramento da Penitência e as sugestões de algumas
iniciativas práticas, venham ao encontro das necessidades do Povo de Deus e do
desejo de melhor servir, por parte dos responsáveis pelo anúncio da Boa-nova.
Bendito seja, pois, Aquele que nos reconciliou consigo em Cristo e nos
confiou o ministério da reconciliação.
Foi Deus, Pai de misericórdia, que reconciliou o mundo em Cristo, seu
Filho, não mais levando em consideração nossos pecados, mas depositando
gratuitamente em nós a Palavra da reconciliação.
Somos, portanto,
embaixadores do Cristo: é como se Deus mesmo exortasse por nosso intermédio: —
"Convertei-vos e crede no Evangelho" (Mc 1,18). Nós vos suplicamos em
nome do Senhor Jesus: deixai-vos reconciliar com Deus (cf. 2Cor 5,18-20) .
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Fonte: Conferência
Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB
Web site: www.cnbb.org.br