CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL

CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL

 

DIRETRIZES GERAIS DA AÇÃO EVANGELIZADORA DA IGREJA NO BRASIL

 

1995 - 1998

 

 

APRESENTAÇÃO

 

O texto das DIRETRIZES GERAIS DA AÇÃO EVANGELIZADORA DA IGREJA NO BRASIL, que ora entregamos a todos os católicos — leigos e leigas, religiosos e religiosas, diáconos e presbíteros — foi aprovado por unanimidade pela 33ª Assembléia Geral da CNBB, de 10 a 19 de maio de 1995. As Diretrizes dos quadriênios anteriores foram estudadas pela Assembléia Geral e por ela remetidas ao Conselho Permanente para a redação final e promulgação.

Deve-se logo observar a novidade no enunciado: Diretrizes Gerais da Ação EVANGELIZADORA. Conforme a Redemptoris Missio, a ação evangelizadora refere-se aos grupos de batizados que perderam o sentido vivo da fé, conduzindo a vida distante de Cristo e do seu Evangelho. A ação pastoral é a que se destina às comunidades cristãs que possuem sólidas e adequadas estruturas eclesiais, são fermento de fé e de vida, com testemunho do Evangelho e compromisso com a missão universal.

Este documento das Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil é fruto de uma ampla e longa sondagem da realidade feita pela Secretaria Geral da CNBB, assessorada pelo Centro de Estatística Religiosa e Investigações Sociais (CERIS) junto às Dioceses, Regionais, Organismos Nacionais do Povo de Deus, Congregações Religiosas e outras Instituições eclesiais para avaliar as Diretrizes Gerais do período de 1991-1994.

As respostas diziam que as Diretrizes de 1991-1994 "continuam plenamente válidas para o próximo quadriênio (23%) e "continuam válidas com reformulação" (72%). Menos de 3%, apenas, pediam uma redefinição das Diretrizes.

Um novo empenho da Igreja na Evangelização se justifica pela insistência do Magistério pontifício e episcopal para poder enfrentar três desafios principais na vida dos católicos de hoje: o secularismo, o "devastador e humilhante flagelo" da situação de pobreza em que vivem milhões de brasileiros, o pluralismo religioso, que exige o diálogo e o anúncio missionário.

O objetivo geral é o mesmo, precedido, porém, de uma breve introdução que o situa no horizonte do terceiro milênio cristão e da celebração do grande Jubileu do ano 2000. Sua explicitação constitui a primeira parte — Horizontes da Evangelização.

A segunda parte — Os Caminhos da Evangelização — está organizada da seguinte maneira:

O capítulo I é uma síntese histórica para ajudar a entender como se chegou às atuais Diretrizes. Começa situando o início da renovação que deu origem, no Brasil, mesmo antes do Concílio Vaticano II, ao planejamento pastoral. Os dados históricos mostram como se chegou à elaboração, a cada quadriênio, das Diretrizes Gerais da Ação Pastoral da Igreja no Brasil. Isto torna mais clara a interação entre o contexto histórico, a caminhada da Igreja como Povo de Deus e a formulação das Diretrizes pastorais por parte do episcopado. O capítulo II contém uma teologia da Evangelização, à luz do Magistério eclesiástico recente, particularmente as Conclusões de Santo Domingo, não disponíveis quando da elaboração das Diretrizes para 1991-1994. O capítulo III, como o mesmo capítulo de 1991-1994, apresenta uma análise da sociedade brasileira. O capítulo IV organiza as orientações práticas a partir de um esquema teológico que quer ser uma expressão da própria natureza da evangelização e de suas exigências. Ele tem cinco itens: o primeiro, a inculturação, é um critério geral, uma orientação válida para todos os aspectos da evangelização. Os outros quatro itens são aspectos da evangelização. São chamadas exigências intrínsecas da evangelização, sem as quais não há evangelização em sentido pleno: serviço, diálogo, anúncio, testemunho de comunhão. A escolha destas quatro exigências foi feita a partir da terminologia do Novo Testamento. O capítulo V procura explicitar as conseqüências das novas Diretrizes para os agentes da evangelização e da pastoral. Quer ajudar aos sujeitos da ação evangelizadora — leigos(as), religiosos(as), ministros ordenados — a fazer frutificar a formação recebida, a tornar as comunidades eclesiais dinâmicas e acolhedoras, a rever as prioridades do próprio trabalho em função dos desafios da hora presente.

Fazemos votos para que estas novas Diretrizes da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil dêem às nossas Igrejas Particulares renovado impulso à evangelização, à vida comunitária e à ação transformadora na sociedade, em preparação do grande Jubileu do ano 2000, a caminho do Reino Definitivo. O Espírito Santo PROTAGONISTA DA EVANGELIZAÇÃO, nos dê a necessária docilidade para perceber e responder aos desafios pastorais e missionários de hoje. Maria, primeira redimida e primeira crente, a mais perfeita discípula e evangelizadora, nos ajude a fazer tudo o que ele, seu Filho nos diz para a realização da Missão que nos confiou.

 

Brasília-DF, 22 de maio de 1995

 

Dom Raymundo Damasceno Assis

Secretário-Geral da CNBB

 

 

I - PARTE

HORIZONTES DA EVANGELIZAÇÃO

 

1.           O Papa João Paulo II, com sua Carta Apostólica "Sobre o Terceiro Milênio que se aproxima",1 convida todos os católicos e todas as pessoas de boa vontade a voltar seu olhar para a pessoa de Jesus Cristo, em preparação ao ano 2000.

"Jesus Cristo é o mesmo ontem, hoje e sempre".2 É o Senhor do tempo. Portanto, cada ano, cada dia e cada momento devem ser santificados e reconhecidos como tendo um infinito valor de graça.

Mas o ano 2000 desde o nascimento de Cristo não será como qualquer outro ano. Será diverso e maior. Será um GRANDE JUBILEU.

2.           Jubileu é um ANO DE GRAÇA. Um ano da manifestação mais plena da bondade de Deus para conosco. Um ano, por conseguinte, de júbilo, alegria, louvor, ação de graças. Um ano também para reconduzir nossa vida pessoal e social mais perto de Deus. Segundo a antiga tradição bíblica, o ano do jubileu é tempo de perdão: das dívidas para com Deus, nossos pecados; das dívidas dos irmãos, a fim de que volte a se restabelecer a igualdade e a fraternidade na família humana.

 

3.           Para ser dignamente celebrado o Jubileu do ano 2000 exige dos cristãos:

           uma nova tomada de consciência da missão que Cristo confiou à Igreja: a evangelização

           uma nova experiência de conversão e penitência, pedindo perdão pelos pecados dos cristãos na sua história e nas injustiças do presente;

           uma nova busca de santidade, através da identificação com Cristo, a comunhão mais profunda com a Trindade, a prática das virtudes evangélicas.

 

4.           Entre nós, a celebração dos 2000 anos do nascimento do Senhor Jesus coincide com outra data histórica significativa: os 500 anos da chegada dos primeiros evangelizadores à nossa terra.

Na fé em Jesus Cristo, olhamos para o nosso passado e para o nosso futuro.

O nosso passado está carregado de pecados: para com as culturas indígenas que a colonização destruiu; para com os africanos, que a escravidão arrancou violentamente de sua pátria e trouxe para um regime de exploração e de injustiça, cuja herança perdura até hoje. A eles e a Deus, pedimos perdão.

O nosso passado está carregado muito mais de graça. A pessoa do Senhor Bom Jesus, trazido ao povo pelos braços de sua Mãe, Maria Santíssima, alimentou a esperança e suscitou o amor misericordioso nos sofredores e humilhados. Tornou-se também e continua sendo, em nosso presente, o Juiz da História, que reprova a humilhação de seus irmãos e irmãs e a todos convoca para edificar uma sociedade fraterna, prelúdio do Reino que ele promete como coroação da História.

Olhando para o futuro — o século XXI, o início do Terceiro Milênio Cristão — para todos ressoa esse apelo a fazer do Brasil uma sociedade nova, justa e solidária, que supera a triste condição de desigualdade e exclusão para garantir a brasileiros e brasileiras condições de vida digna na justiça e na paz.

 

5.           Se o desafio é grande, maior é a graça de Deus com que contamos. A mensagem do Evangelho é a "força da salvação de todo o que crê".3 A Igreja no Brasil vai preparar o Jubileu segundo as orientações do Papa e através do esforço evangelizador que juntos estamos empreendendo com estas novas "Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil". Elas hão de nos levar não apenas a proclamar e celebrar, mas também a testemunhar e a viver sempre melhor o Evangelho do amor de Deus pela humanidade, Evangelho da vida para todos, Evangelho da dignidade da pessoa humana.

 

6.           JESUS CRISTO ONTEM, HOJE E SEMPRE:

Em preparação ao seu Jubileu do ano 2000,

na força do Espírito que o Pai nos enviou,

sob a proteção da Mãe de Deus e nossa,

queremos:

EVANGELIZAR

com renovado ardor missionário,

testemunhando Jesus Cristo,

em comunhão fraterna,

à luz da evangélica opção preferencial pelos pobres,

para formar o Povo de Deus

e participar da construção de uma

sociedade justa e solidária,

a serviço da vida e da esperança

nas diferentes culturas,

a caminho do Reino Definitivo.

 

7.           EVANGELIZAR — Palavra-chave que resume toda a ação de Jesus.4 Evangelizar é fazer chegar a Boa Nova a todos. E a Boa Nova, que Jesus anuncia, é o Reino de Deus e a salvação para toda a humanidade. Cristo realiza, em sua pessoa e em sua vida, o que os profetas preanunciaram: Cumpriu-se o tempo. "O Reino de Deus está no meio de vós".5

 

8.           "Evangelho" não é apenas anúncio da salvação: é toda a existência de Jesus, desde seu nascimento até sua morte e ressurreição gloriosa. Viver como Jesus há de ser também o projeto de todo cristão evangelizador.

 

9.           Só evangeliza quem aceita e segue o caminho de Jesus: "Vem e segue-me" é o convite fundamental que o Senhor continua fazendo a todos os que querem participar da aventura do Reino.6 Para ser verdadeiro evangelizador, é necessário, antes de tudo, deixar-se evangelizar, sendo ouvinte atento ao que Deus fala, a exemplo da Virgem Maria. É necessário acolher a Palavra "com a alegria do Espírito Santo"7 e aceitá-la "não como palavra humana, mas como "verdadeiramente é: Palavra de Deus que está produzindo efeito entre vós".8

 

10. Só uma Igreja missionária e evangelizadora experimenta a fecundidade e a alegria de quem realmente realiza sua vocação. Assumir permanentemente a missão evangelizadora é, para todas as comunidades e para cada cristão, a condição fundamental para preservar e reviver o clima pascal de "alegria no Espírito" que animou a Igreja em seu nascimento e a sustentou em todos os grandes momentos de sua história. Por isso, o Apóstolo Paulo podia afirmar com todo o vigor: "Anunciar o Evangelho não é título de glória para mim. É, antes, uma necessidade que se me impõe. Ai de mim se não evangelizar!".9

 

11. Evangelizar COM RENOVADO ARDOR MISSIONÁRIO — O evangelizador deve comunicar o Evangelho com vibração, entusiasmo e alegria, na certeza de ser instrumento de Deus e sabendo que está cumprindo a missão recebida no Batismo. O mundo precisa de uma nova evangelização com a descoberta de novas formas e de novas possibilidades, para que a Palavra de Deus se torne fonte de inspiração para a vida das pessoas e para a construção da sociedade.

 

12. O renovado ardor missionário exige que a pregação do Evangelho responda aos novos anseios do povo, no contexto de uma sociedade marcada por rápidas e profundas mudanças. Evangelizar é colocar a Boa Nova como fonte de esperança no meio de tantos conflitos que surgem no coração do homem e na sociedade desigual, impedindo a realização do projeto de Deus. Evangelizar é suscitar a esperança de um novo milênio de justiça e de paz.

 

13. O renovado ardor missionário exige ainda dos evangelizadores uma nova disposição que leve a romper com as acomodações e a rotina na ação missionária. Superando a mera atitude de espera, é preciso ir, com coragem evangélica, às pessoas, grupos e ambientes onde o nome de Jesus não foi ainda proclamado ou onde sua ressonância perdeu o vigor. Na força do Espírito Santo, sobre nós derramado, somos chamados a superar todo medo e timidez no testemunho explícito da fé no coração das realidades terrenas.

 

14. Evangelizar TESTEMUNHANDO JESUS CRISTO — Não basta falar de Deus. É necessário testemunhá-lo por uma vida de santidade encarnada em nossos dias. O testemunho de vida é a primeira e insubstituível forma de missão.10 O homem contemporâneo escuta muito mais as testemunhas que os mestres. E se escuta os mestres, é porque são testemunhas.11 Em nosso tempo, muitas são as testemunhas coerentes e perseverantes na fé e no amor a Cristo até mesmo com o sacrifício da própria vida.12

 

15. Evangelizar EM COMUNHÃO FRATERNA — Cristo mandou que todos se amassem como ele amou.13 A fraternidade parte de um Deus-Comunhão e de um Deus que se faz irmão, para que todos sejam um.14 O testemunho cristão é essencialmente comunitário. Jesus envia seus discípulos "dois a dois"15 e ele mesmo vive em comunhão com seus Apóstolos. A comunhão fraterna era o ideal das primeiras comunidades cristãs, que queriam ser "um só coração e uma só alma". Fraternidade que não se expressava apenas nos bens materiais, mas também nos bens espirituais.16 Caridade fraterna que se deve manifestar entre os próprios evangelizadores, e entre todos os que crêem no Cristo.

 

16. A comunhão fraterna é fruto necessário da própria ação evangelizadora. A resposta ao anúncio só se completa com a adesão ao Reino, "nova maneira de ser, de viver, de estar junto com os outros, que o Evangelho inaugura. Essa adesão não pode permanecer abstrata e desencarnada, mas se manifesta concretamente pela entrada visível numa comunidade de fiéis". 17 A nova evangelização "tem por fim formar comunidades eclesiais maduras".18

 

17. A Igreja no Brasil procura concretizar essa fraternidade no espírito da experiência comunitária, reconstruindo na sua base aquele tecido de pequenas comunidades eclesiais, ligadas com profundos vínculos de fraternidade, sempre abertas, no meio social em que vivem, à solidariedade com o povo.

Viver a comunhão fraterna é também sentir solidariedade com toda a criação, que vem de um Deus-comunhão, que deseja a promoção da vida e a busca da harmonia entre todos os seres criados.

 

18. "A EVANGéLICA OPçãO PREFERENCIAL PELOS POBRES" é uma atitude de Jesus, que deve ser assumida pela Igreja. Cristo veio evangelizar a todos, e, por isso, teve como preferência específica: "evangelizar os pobres".19 "Os primeiros destinatários da missão são os pobres, sendo a sua evangelização sinal e prova, por excelência, da missão de Jesus".20

 

19. A opção pelos pobres pode e deve impulsionar a Igreja a descobrir, sempre de novo, a exigência radical do Evangelho, libertando-a da acomodação e do conformismo aos "esquemas deste mundo".21

Jesus, ao aproximar-se dos marginalizados pela sociedade e das vítimas da exclusão e do desprezo, faz que sintam e vivam uma experiência de libertação, e uma partilha junto à mesma mesa. 22

Entre o anúncio evangélico e a promoção do homem, entre a caridade cristã e a promoção humana, há uma estreita e profunda conexão, como mostra o ensino social da Igreja.

 

20. EVANGELIZAR PARA FORMAR O POVO DE DEUS E PARTICIPAR DA CONSTRUÇÃO DE UMA SOCIEDADE JUSTA E SOLIDÁRIA.

FORMAR O POVO DE DEUS — Desde o Antigo Testamento, Deus quis formar um povo, que lhe fosse fiel e que preparasse a chegada do Messias. Com ele estabeleceu uma aliança e lhe deu meios e mensageiros: "Para que sejam o meu povo e eu seja o seu Deus".23 O Povo de Deus continua e se aperfeiçoa na comunidade de salvação que é a Igreja, novo Povo de Deus, comunidade congregada daqueles que crêem em Cristo.24 Formar o Povo de Deus é também construir a comunidade para viver em comunhão e participação. A grande comunidade eclesial expressa sua vida em comunidades concretas através da comunhão na fé, vivida, celebrada e testemunhada. A nova evangelização busca criar novas comunidades e exige profunda revisão nas estruturas comunitárias.

 

21. PARTICIPAR DA CONSTRUÇÃO DE UMA SOCIEDADE JUSTA E SOLIDÁRIA é realizar o projeto de Deus na solidariedade e na busca do bem comum. A justiça exige que se dêem condições de viver com dignidade e com oportunidades iguais; e a solidariedade descobre as necessidades e os problemas dos outros, particularmente dos mais empobrecidos.

22. A sociedade concreta em que vivemos, em nosso País e em grande parte do mundo, está marcada pelas desigualdades, egoísmo e injustiças. Por isso, "a evangelização comporta uma mensagem sobremaneira vigorosa em nossos dias, sobre a Libertação".25 Para a Igreja, o amor ao ser humano se concretiza na promoção da justiça. "A solidariedade ajuda-nos a ver o outro — pessoa, povo ou nação — não como um instrumento qualquer de que se explora, a baixo preço, a capacidade de trabalho e a resistência física, para o abandonar, quando já não serve; mas, sim, como um nosso semelhante."26

 

23. A SERVIÇO DA VIDA E DA ESPERANCA NAS DIFERENTES CULTURAS — A edificação de uma sociedade justa e solidária depende de uma nova "cultura", de novos valores que inspirem a vida humana. Infelizmente, a cultura contemporânea, sob certos aspectos, pode ser denominada uma "cultura de morte" pelas múltiplas formas de sacrifício da vida humana aos ídolos da riqueza, do poder e do prazer. A vida hoje vem sendo desprezada e até eliminada, desde a concepção até seu fim natural pelas mais variadas formas de destruição. O Deus da vida exige o respeito e a promoção da vida em todas as suas formas e estágios.

 

24. Diante de tantos sinais de morte, o evangelizador não pode perder a esperança. Esperança que não é apenas uma virtude humana, mas dom do Deus da vida. Num mundo dominado pelo temor e desespero, deve-se proclamar a esperança pascal. Cristo ressuscitado, vencedor da morte, é a certeza de vitória e de total libertação. "Sem esmorecer continuemos a afirmar a nossa esperança, porque é fiel quem fez a promessa."27 A esperança em Cristo é também compromisso para mudar as situações de pecado, existentes no mundo e na sociedade.

25. O anseio por uma sociedade mais justa, o ressurgimento das culturas oprimidas, a valorização dos direitos fundamentais da pessoa humana, a solidariedade entre os povos, o clamor contra as mais variadas formas de injustiça, a sensibilidade pelas situações de miséria e de fome, o interesse pela ecologia: são aspirações do homem de hoje e alguns sinais dos tempos em que vivemos e que representam sementes de esperança.

 

26. A Igreja tem consciência de que sua missão exige respeito pelas diferentes culturas. A cultura deve ser considerada como "o bem comum de cada povo ou grupo étnico, a expressão de sua dignidade, liberdade e criatividade, o testemunho do seu percurso histórico".28 Evangelizar as culturas não é deformá-las ou destruí-las, mas propiciar seu pleno desabrochar à luz do Evangelho. A Igreja sente necessidade de redobrar seus esforços na defesa dos direitos dos povos indígenas, dos negros, das minorias étnicas e no respeito pelas variadas tradições culturais.

 

27. A evangelização exige a inculturação da fé e o respeito pelos valores próprios de cada grupo humano. Nesse sentido, a religiosidade popular é um caminho privilegiado de evangelização e nela os pobres manifestam seu potencial evangelizador.29

 

28. A CAMINHO DO REINO DEFINITIVO, os cristãos são reconfortados pela certeza da esperança na difícil luta pela libertação integral da pessoa humana e pela construção de uma sociedade justa, solidária e fraterna. O cristão tem consciência de seu compromisso na edificação da cidade terrena, mas sempre com seus olhos voltados para a Jerusalém celeste, para o triunfo final de Deus, quando todas as coisas lhe serão submetidas e quando Deus será "tudo em todos".30 É o desfecho glorioso da História da salvação, com a vitória absoluta e definitiva de Deus.

 

 

II - PARTE

OS CAMINHOS DA EVANGELIZAÇÃO

 

 

1. O PLANEJAMENTO PASTORAL NA IGREJA DO        BRASIL

 

Sumário

 

— O Concílio Vaticano II: uma nova autoconsciência da Igreja

— A renovação conciliar no Brasil:

   precedida por Movimentos renovadores, como Ação Católica, Movimentos Sociais, MMM, CNBB, CRB, Plano de Emergência;

   concretizada pelo PPC (Plano de Pastoral de Conjunto, 1966-70);

   estimulada pelo intercâmbio com as Igrejas da América Latina (Rio de Janeiro, 1955; Medellín, 1968; Puebla, 1979; Santo Domingo, 1992) e os Sínodos dos Bispos;

   prolongada nas Diretrizes Gerais da Ação Pastoral, no compromisso com a defesa dos direitos humanos, nas novas pastorais específicas, no apoio aos Movimentos populares;

   retomada nas Diretrizes Pastorais de 1979-82, na atuação da Igreja na década de 80 e no processo constituinte, enquanto novas mudanças sociais e culturais abrem a década de 90 e levam a uma nova proposta evangelizadora (DGAP 1991-1994), que enfrenta a questão da modernidade.

— A história do planejamento pastoral no Brasil ressalta a continuidade da pedagogia pastoral e as metas da vivência comunitária, da inculturação e da transformação social.

 

 

29. O Concílio Vaticano II significou um tempo novo para a vida da Igreja, um sopro do Espírito que se difundiu para além dos quadros intra-eclesiais e dos ambientes religiosos. Ao repensar a missão da Igreja e a sua relação com o mundo, gerou uma nova autoconsciência da Igreja e uma eclesiologia de amplas perspectivas para o trabalho pastoral. Lembramos aqui suas principais características:

   a) a superação da concepção de Igreja "sociedade perfeita", repartindo o espaço com a sociedade civil, em direção a uma concepção de Igreja comunidade, inserida no mundo, a serviço do Reino;

   b) a superação da oposição entre Igrejas da cristandade e Igrejas das missões, pelo reencontro da consciência de uma Igreja toda e sempre missionária;

   c) a consciência mais clara de que a Igreja não é só a hierarquia, mas todo o Povo de Deus, ressaltando o papel dos leigos e a corresponsabilidade de todos, pastores e fiéis, na ação pastoral e na missão evangelizadora, sem deixar de reconhecer e valorizar a vocação específica missionária "ad'gentes";

   d) a redescoberta da Igreja Particular ou Local, como realização viva e característica da Igreja Universal, em comunhão com as demais e com a sede primacial de Pedro;

   e) a mudança para uma pastoral mais atenta à necessidade de uma nova linguagem catequético-litúrgica e para uma evangelização das massas afastadas da vida eclesial;

   f) a valorização do mundo e das realidades terrestres e o reconhecimento de sua justa autonomia;

   g) a abertura ao ecumenismo e ao diálogo com as religiões e as culturas. Essas novas atitudes reconhecem a possibilidade de aprender algo do mundo moderno,31 mesmo dos adversários. Por isso, levam a admitir que os membros da Igreja nem sempre foram isentos de culpas ou de erros.32

 

30. A caminhada da Igreja Católica no Brasil, nas últimas décadas, segue muito de perto as pegadas da renovação conciliar. Na verdade, as novas perspectivas pastorais abertas pelo Concílio encontraram entre nós uma Igreja que já vivia um surto renovador claramente perceptível. Herdeira de uma rica tradição de mais de quatro séculos de evangelização, cristalizada antes de tudo na fé simples do povo, a Igreja no Brasil foi fortemente enriquecida por Movimentos renovadores nas décadas que precederam o Concílio. Eles não só facilitaram a recepção do Concílio como possibilitaram as contribuições de Bispos brasileiros para a reflexão conciliar. Entre eles é preciso ressaltar os Movimentos Litúrgico e Bíblico, a Ação Católica e os Movimentos Familiares, a abertura para as questões sociais e as iniciativas de renovação da Vida Religiosa e do Ministério Presbiteral.

 

31. A Ação Católica, principalmente em sua fase especializada, caracterizada por forte espírito missionário, foi uma valiosa experiência de presença organizada do testemunho cristão nos vários campos da sociedade, sobretudo no mundo operário, estudantil e agrário. A sua metodologia característica do "ver-julgar-agir" perpassa a pastoral até os dias atuais. Igualmente o seu pioneirismo na formação de lideranças deu frutos que ainda hoje são identificáveis em diversos campos da vida nacional.

 

32. No campo social, os anos 50 assistiram a uma mudança qualitativa da presença da Igreja. No mundo rural e operário, a Igreja evoluiu de uma atuação marcadamente assistencial, para uma presença conscientizadora e fortalecedora das reivindicações sociais. A sociedade brasileira começava a viver as grandes transformações sócioeconômicas que provocaram maior consciência da real situação do povo, especialmente do mundo rural. São dessa época o Movimento de Educação de Base, os Círculos Operários, as Semanas Ruralistas e a expansão do sindicalismo rural. Muitas lideranças de projeção nacional foram formadas neste período.

 

33. De menor duração e atuando mais dentro das estruturas eclesiais, o Movimento por um Mundo Melhor empolgou sobretudo aos Bispos, presbíteros, religiosos e religiosas, na busca de novos caminhos para uma Igreja que, vivendo o mistério do Corpo Místico de Cristo, testemunhasse a fraternidade evangélica e novo zelo missionário.

Devem, também, ser lembrados os numerosos movimentos apostólicos de leigos que desde o ano de 1945, vieram se difundindo amplamente como novas expressões da vitalidade da Igreja no Brasil.

 

34. Dois grandes organismos eclesiais nasceram antes do Concílio e contribuíram amplamente para a sua aplicação. O surgimento da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, desde 1952, inaugurou uma nova e promissora fase de vida na Igreja do Brasil. A CNBB nasceu no contexto de uma Igreja despertada por novos movimentos e, sobretudo, pelas organizações nacionais dos leigos da Ação Católica, que postulavam uma articulação dos pastores. Não por acaso, o Assistente Nacional da Ação Católica foi o organizador da Conferência Episcopal. Outro organismo, estimulado pelo primeiro, foi a Conferência dos Religiosos do Brasil, cuja criação, em 1954, fortaleceu a formação e a atualização dos religiosos e religiosas e a sua inserção na vida e missão da Igreja.

 

35. A Conferência Nacional dos Bispos encontrou no planejamento pastoral o instrumento para animar e articular a ação pastoral em nível nacional e regional a partir das Igrejas locais, garantindo, ao mesmo tempo, a presença da Igreja numa sociedade em profundo processo de transformação. A experiência do planejamento pastoral teve início com o Plano de Emergência (1962), urgido pelo Papa João XXIII. Bastante simples em sua organização, ele se propunha quatro metas ambiciosas: a renovação da paróquia, do ministério presbiteral, da escola católica, e a promoção da ação da Igreja no campo sócio-econômico. O Plano de Emergência, às vésperas do Concílio, teve o significado pedagógico de reconhecimento oficial do "novo" e de treinamento para a co-responsabilidade que as propostas do Concílio iriam exigir.

 

36. Entretanto, foi o Plano de Pastoral de Conjunto (PPC) para 1966-1970 que possibilitou a aplicação articulada de toda a riqueza do Concílio, por parte da Igreja no Brasil. O seu objetivo, aliás, era expressamente: "criar meios e condições para que a Igreja no Brasil se ajuste, o mais rápida e plenamente possível, à imagem de Igreja do Vaticano II". Para isso, ele definiu orientações expressas, principalmente em um Objetivo Geral e seis Objetivos Específicos que geravam, dinamicamente, seis Linhas de Trabalho.

 

37. O Objetivo Geral era: "Levar todos os homens à comunhão de vida com o Pai e entre si, por Cristo, no dom do Espírito Santo, pela mediação visível da Igreja". As seis Linhas de Trabalho eram promover:

   a)         uma sempre maior unidade visível no seio da Igreja Católica;

   b)         a ação missionária;

   c)         a ação catequética, o aprofundamento doutrinal e a reflexão teológica;

   d)         a ação litúrgica;

   e)         a ação ecumênica;

   f)          a melhor inserção do Povo de Deus como fermento na construção de um mundo segundo os desígnios de Deus.

 

38. O Objetivo Geral deixa perceber, claramente, a concepção conciliar da Igreja como mistério de comunhão trinitário. As Linhas de Trabalho explicitam os grandes documentos do Concílio: "Lumen Gentium" (L.1), "Ad Gentes" (L.2), "Dei Verbum" (L.3), "Sacrosanctum Concilium" (L.4), "Unitatis Redintegratio" e "Nostra Aetate" (L.5), "Gaudium et Spes" (L.6).

 

39. A dinâmica da renovação conciliar levou a Igreja Católica do Brasil a alargar a sua abertura para as outras Igrejas particulares na América Latina. Avivaram-se a consciência dos laços culturais e dos problemas sociais comuns, bem como a necessidade da busca de caminhos pastorais para uma evangelização encarnada. Os grandes acontecimentos eclesiais em nível continental (Rio de Janeiro e fundação do CELAM, 1955; Medellín, 1968; Puebla, 1979; e Santo Domingo, 1992), revelam urgências desafiantes para a prática pastoral e vão criando uma mística evangelizadora latino-americana.

 

40. Estes acontecimentos latino-americanos e os sucessivos Sínodos dos Bispos e documentos pontifícios vão levando a missão da Igreja a ser entendida mais claramente como evangelização, serviço do Evangelho, tendo como centro Jesus Cristo e seu Reino. Neste sentido, destacam-se o Sínodo de 1974 e a subseqüente Exortação Apostólica de Paulo VI sobre a "Evangelização do mundo de hoje"33 e, mais recentemente, a encíclica de João Paulo II, "A Missão do Redentor",34 sobre a atividade missionária da Igreja.

 

41. A prática eclesial, animada pelos acontecimentos e documentos acima lembrados, despertou para a consciência das várias dimensões constitutivas da evangelização e dos seus desafios. Eles, por sua vez, vão encontrando resposta na prática evangelizadora e nos vários níveis da ação pastoral.

 

42. As orientações do PPC, prorrogadas em 1970 e atualizadas no final de 1975, iluminaram, por quinze anos, o amplo projeto de renovação da Igreja em busca de uma Pastoral Orgânica ou de Conjunto. A partir de 1970, adotou-se uma sistemática de planejamento mais flexível. Buscou-se a unidade em nível nacional através das Diretrizes Gerais da Ação Pastoral da Igreja no Brasil (1975), deixando-se a definição de planos para os Regionais e as Dioceses, apoiados por planos bienais dos organismos nacionais. Sob o impulso recente do Concílio, a Igreja viveu esse período em clima de grande alegria e esperança. A Assembléia de Medellín (1968), partindo da análise estrutural da realidade latino-americana, abriu caminhos para uma aplicação mais concreta das exigências conciliares na situação de injustiça vivida pelos povos do continente.

Ao mesmo tempo, o Sínodo de 1971 sobre "A Justiça no Mundo", enfatizava o empenho pela justiça e pela libertação integral da pessoa humana como dimensão constitutiva da evangelização.

43. Vivendo os tempos difíceis e sofridos da ditadura militar, a Igreja assumiu um compromisso sempre mais claro e conseqüente com a defesa dos direitos humanos, sobretudo dos mais pobres e oprimidos: camponeses, operários e estudantes. O testemunho de solidariedade com os oprimidos foi selado pela perseguição e o sangue de agentes de pastoral e estimulou os pronunciamentos de algumas Igrejas locais ou regionais, em documentos tais como "Testemunho de Paz" (Sul 1, S. Paulo, l972), "Eu ouvi os clamores do povo" (Nordeste, l973), "Marginalização de um povo — Grito das Igrejas" (Centro-Oeste, 1973). A Assembléia Geral, reunida em Brasília em l970, apesar das pressões oficiais, denunciou a prática da tortura e, em 1977, publicou o documento "Exigências Cristãs da Ordem Política", de singular importância histórica para a sociedade brasileira.

 

44. Data também desse período a consolidação de novas iniciativas pastorais. Surgem pastorais específicas em áreas particularmente desafiantes e conflitivas, como o CIMI (Conselho Indigenista Missionário, 1972) e a CPT (Comissão Pastoral da Terra, 1975), cuja atuação persiste e se atualiza até hoje. As Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) vinham crescendo desde os inícios da década de 60. A eclesiologia que as impulsionava valorizava elementos significativos do Concílio Vaticano II: a comunidade, a diversificação dos ministérios, a consciência missionária, a sensibilidade para com os apelos da realidade. Elas se revelam agora como uma grande "esperança da Igreja".35 Promovem o 1º Encontro Intereclesial em Vitória do Espírito Santo (1975), seguido de tantos outros. Comunidades Religiosas descobrem novos apelos missionários e se inserem nos meios populares.

 

45. A ação da Igreja era claramente favorável às reivindicações de liberdade associativa e melhoria de vida dos Movimentos populares e sindicais. Não obstante as constantes tensões intra-eclesiais, a Igreja no Brasil conheceu um período de raro reconhecimento por parte da sociedade civil, sobretudo de certos setores (universidades, imprensa, profissionais liberais) tradicionalmente menos propensos a olhá-la com simpatia.

 

46. Na segunda metade dos anos 70, a Igreja no Brasil recebeu notável impulso do Sínodo sobre a Evangelização do mundo contemporâneo,36 e da preparação e realização da Conferência de Puebla (1979), para a qual, aliás, colaborou de maneira significativa.

 

47. Com a preocupação de reintegrar o laicato e organizá-lo com expressão e representatividade nacional, a CNBB incentivou a criação do Conselho Nacional de Leigos.

48. No início dos anos 70, consegue-se também reverter a crise que atingiu a muitos presbíteros e reduzir o número das vocações ao ministério presbiteral. Por volta de 1982, o número dos seminaristas maiores já supera o dos anos mais favoráveis do período pré-conciliar. Logo após, o número de ordenações cresce, expressivamente, permitindo que o número de presbíteros por habitante volte a aumentar após 1990. Por outro lado, os padres, sobrecarregados de trabalhos pastorais, partilham as suas tarefas com ministros leigos e redobram as formas de intercâmbio e colaboração, promovendo também os Encontros Nacionais de Presbíteros.

49. As Diretrizes do período 1979/82 expressam bem esse momento histórico. Conservadas para o quadriênio de 1983/1986 e, novamente, para o de 1987/1990, elas foram recebendo esclarecimentos e matizes a cada novo período, mas mantiveram a sua fisionomia original. Durante mais de um decênio, iluminaram o trabalho pastoral da Igreja no Brasil, organizado ao redor de um amplo projeto de "Evangelização Libertadora". Em sua última formulação, enunciavam assim o seu objetivo geral:

           "Evangelizar

           o povo brasileiro em processo de transformação social,   econômica, política e cultural,

           a partir da verdade sobre Jesus Cristo, a Igreja e o homem,

           à luz da evangélica opção preferencial pelos pobres,

           pela libertação integral do homem,        

           numa crescente participação e comunhão,

           visando formar o Povo de Deus e participar da construção de uma sociedade justa e fraterna,

           sinal do Reino definitivo".

 

50. Do PPC, as Diretrizes conservaram as seis linhas, concebidas sempre mais como dimensões constitutivas da evangelização. A opção pelos pobres foi amadurecendo em seu sentido evangélico e em suas conseqüências. A luta pela justiça marcou, fortemente, a ação pastoral, como é visível nos sucessivos temas das Campanhas da Fraternidade. O empenho pela inculturação do Evangelho e a busca de uma mais profunda ligação entre "fé e vida" encontraram fecunda expressão na Assembléia Geral de 1983 com a publicação do documento "Catequese Renovada", que recebeu a maior divulgação entre os documentos da CNBB.

 

51. A Igreja participou, ativamente, do processo de redemocratização do País, valorizando a participação e apoiando as emendas populares à nova Constituição. Dois documentos importantes marcaram a presença da Igreja no ciclo do processo constituinte: "Por uma nova Ordem constitucional" (1986) e "Exigências éticas da Ordem democrática" (1989). No período pós-Puebla, as pastorais sociais tiveram grande incremento em todos os campos. As tensões intra-eclesiais igualmente cresceram, seja devido à própria proposta de evangelização libertadora numa sociedade profundamente marcada pelas injustiças, seja por uma compreensão deformada dessa proposta. As instruções romanas sobre a Teologia da Libertação (1984 e 1986), a "Carta aos agentes de pastoral e às comunidades" da Assembléia Geral de l985 e a Carta pessoal do Papa à CNBB, de 1986, balizaram os rumos da ação pastoral. Mas novos horizontes e desafios começavam a surgir para a Igreja no Brasil.

 

52. No final da década de 80, cresce na Igreja a consciência de que a situação da sociedade é profundamente diversa daquela da época pós-conciliar. A missão evangelizadora se dá numa sociedade pluralista, secularizada, estruturada sobre os valores da modernidade. O crescente pluralismo religioso se torna objeto de estudos, com a colaboração de outras Instituições reunidas no Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (CONIC). A Igreja Católica, que por seu compromisso com os pobres se abrira aos valores das culturas oprimidas, se defronta cada vez mais com os desafios da evangelização da cultura moderna. O pluralismo cultural, vivido dentro mesmo da Igreja, exige respostas pastorais diversificadas. A consciência disso levou a Assembléia Geral de 1988 a publicar o documento "Igreja, Comunhão e Missão". O documento, aprofundando o mistério da comunhão eclesial, reforça a identidade das comunidades católicas e as estimula a uma nova e mais vigorosa atuação missionária.

53. Um dos sinais dessa consciência foi o novo impulso dado à organização do laicato, com a preparação e realização do Sínodo sobre os Leigos (1987) e a conseqüente recepção da Exortação "Christifideles Laici" (1989). A valorização dos "sujeitos da evangelização", suscitados e formados dentro dos vários grupos culturais e situações sociais características, reforça a responsabilidade missionária da comunidade eclesial, abrindo-se para a missão "além-fronteiras", junto de outros povos e países.

54. As Diretrizes Pastorais dos anos 90, cuja primeira formulação foi feita para o período 1991/1994, acolheram esses aspectos novos e os reelaboraram de maneira orgânica, dentro de uma nova proposta evangelizadora, conforme bem expressa o seu Objetivo Geral:

           "Evangelizar,

           com renovado ardor missionário,

           testemunhando Jesus Cristo,

           em comunhão fraterna,

           à luz da evangélica opção preferencial pelos pobres,

           para formar o Povo de Deus e

           participar da construção de uma sociedade justa e solidária,

           a serviço da vida e da esperança

           nas diferentes culturas,

           a caminho do Reino definitivo".

 

55. O quadro histórico da definição das Diretrizes em 1991 foi marcado por acontecimentos que contribuíram para enriquecê-las. A criação da "Assembléia Nacional dos Organismos do Povo de Deus" (1991) possibilitou uma participação mais efetiva de representantes de todos os segmentos da comunidade eclesial na elaboração das novas Diretrizes. A encíclica missionária sobre a Missão do Redentor (1990) e a sua insistência na "Nova evangelização" e, a seguir, a preparação de Santo Domingo (1992) com a temática da evangelização e cultura, por ocasião dos 500 anos de evangelização do continente americano, ofereceram novos conteúdos e acentuações.

O apelo a uma nova evangelização foi acolhido pela Igreja no Brasil, sobretudo como oportunidade para uma retomada do ardor missionário, com ênfase na centralidade de Jesus Cristo e um desafio a se posicionar frente à modernidade. Na sociedade brasileira ela é sentida, dramaticamente, nas formas de vida urbana transferidas, também, às populações rurais pelos meios de comunicação de massa. A rapidez e o radicalismo das mudanças culturais permitem que formas avançadas e modernas de vida convivam com outras tradicionais.

 

56. As Diretrizes de 1991/1994 abordaram a questão da modernidade a partir de três aspectos principais: o individualismo; o pluralismo cultural e religioso; as contradições sociais e suas causas estruturais. Novos acentos pastorais correspondentes são propostos: valorização da pessoa e da experiência subjetiva; vivência comunitária e diversificação das formas de expressão eclesial; presença mais significativa da Igreja na sociedade. Essa mesma sociedade, no penoso caminho da democratização, defronta-se com uma crise ética de proporções sempre mais vastas.

A Igreja procurou iluminar os caminhos de solução com os documentos sobre Educação (1992) e "Ética, pessoa e sociedade" (1993), bem como com as Semanas Sociais Nacionais, realizadas dentro de nova e envolvente metodologia. O quadriênio assistiu, também, a um aprofundamento e redefinição da Igreja frente aos Meios de Comunicação Social, na esteira da Campanha da Fraternidade sobre o tema (1989). O ano de 1994, proclamado Ano Missionário, recebeu da Assembléia Geral um valioso subsídio sobre "Desafios e Protagonistas da Missão", num esforço de concretização do sentido eminentemente missionário das Diretrizes.

 

57. No final de 1994, um levantamento, realizado pela CNBB junto a Dioceses, províncias religiosas e institutos eclesiásticos, confirmou uma notável influência das Diretrizes Gerais de 1991-1994 sobre os planos pastorais e o desejo de que as Diretrizes encontrassem continuidade no período 1995-1998. A ênfase dos planos diocesanos, no período passado, recaiu especialmente sobre as dimensões comunitário-participativa e bíblico-catequética e sobre a exigência da formação, o que pode ser interpretado como sinal da necessidade de uma preparação mais adequada para os novos desafios da evangelização.

58. No momento histórico atual, somos convocados pelo Papa João Paulo II, a preparar, cuidadosamente, e a celebrar, pastoralmente, o grande Jubileu do ano 2000. Valiosas reflexões e sugestões estão contidas na Carta Apostólica "Tertio Millennio Adveniente", as quais, certamente, irão marcar os trabalhos pastorais do próximo quadriênio. Ao mesmo tempo, cabe-nos lembrar o que significa o ano 2000 na história do Brasil: o quinto centenário da chamada "descoberta" e do início da evangelização.

A missão continua. Como os hebreus chegando à Terra Prometida após 40 anos de travessia, descobriram novos obstáculos e se espantaram face ao que lhes pareceu um desafio gigantesco,37 assim, nós estamos diante de um mundo em mudança sempre mais rápida, que parece questionar ainda mais radicalmente a comunidade cristã e todas as formas de solidariedade da sociedade. Os novos questionamentos nos impõem duas atitudes diversas, mas necessárias e complementares:

           reavivar a memória da missão evangelizadora que nos foi confiada, recordar e assumir com novo ardor a vocação própria da Igreja: a evangelização;

           considerar com realismo as mudanças que estão ocorrendo, para nelas discernir os "sinais dos tempos" e os apelos de Deus, que nos chama a criar novas expressões e a buscar novos caminhos na missão de encarnar o Evangelho nas novas realidades culturais e sociais.

É o que vamos fazer nos capítulos II (A evangelização) e III (As mudanças da sociedade brasileira), para discernir com maior clareza as diretrizes da nossa ação (capítulo IV) e as nossas responsabilidades próprias e intransferíveis como evangelizadores (capítulo V).

 

59. A história do planejamento pastoral aqui lembrada, ajudar-nos-á a compreender melhor a situação atual e a reconhecer preciosas indicações para a nossa ação futura. A primeira delas diz respeito à importância do planejamento pastoral seja em nível nacional, através das Diretrizes e dos Planos Bienais (onze) que seguiram ao PPC, seja em nível regional e diocesano, com inúmeros planos e iniciativas.

A experiência do planejamento pastoral ensina que ele deve ser assumido mais como pedagogia do que como técnica. Mais rico do que os simples planos é o processo de planejamento, que possibilita o envolvimento das pessoas e a sua sustentação numa dinâmica de compromisso. A visão global, garantida pelas Diretrizes, supera o risco da redução da pastoral a aspectos parciais ou meramente conjunturais. A articulação ao redor de metas objetivas garante a integração contra a fragmentação pastoral. O planejamento tem-se revelado, enfim, como um eficaz instrumento de participação de grupos e comunidades no serviço do Reino de Deus. O êxito mais pleno é alcançado quando o planejamento se traduz numa mística de serviço ao Evangelho e de identificação com a missão da Igreja como continuação da missão de Jesus Cristo.

 

60. A segunda indicação a ressaltar é a presença, na caminhada pastoral, de algumas constantes que marcaram o período pós-conciliar e que serão referências relevantes também para os próximos anos. Entre elas destaca-se uma metodologia pastoral que, na forma do "Ver-Julgar-Agir" ou de outra maneira, sempre procura ligar fé e vida, reflexão teológica e análise da realidade, ideal evangélico e consideração realista das condições humanas.

Esta perspectiva metodológica foi e continuará se enriquecendo, na medida em que perceber melhor as diferenças entre as culturas, apreciando os valores de cada uma e aprofundando a inculturação do Evangelho. Esta perspectiva conduziu, ainda antes, à procura da solidariedade dos evangelizadores com o povo e à opção preferencial pelos pobres, numa atitude dinâmica de busca da transformação da sociedade desigual e injusta. Nesta busca construtiva de uma sociedade mais justa e fraterna, a serviço da vida e da esperança, o Povo de Deus é o sujeito da evangelização e da sua própria libertação. Assim a Igreja continua a missão de Cristo, enviado para "evangelizar os pobres", abrir os olhos e os ouvidos, libertar os oprimidos.38

 

2. EVANGELIZAÇÃO HOJE

 

Sumário

 

           Necessidade de aprofundar a teologia da evangelização.

 

   Que é evangelizar?

 

           A evangelização deve ser repensada em cada nova época

           A evangelização é continuar a missão de Jesus, o que exige que a Igreja seja discípula, viva o Evangelho, imitando o próprio agir de Jesus, e esteja atenta aos apelos do mundo, indo ao encontro das situações humanas.

 

   A ação salvífica de Deus no mundo

 

           Deus quer a salvação de todos

           Deus age pelo Espírito, dentro e fora das fronteiras visíveis da Igreja, em sintonia com a ação do Filho, o Verbo Encarnado, pois o Espírito de Deus é o Espírito presente na vida e na ação de Jesus.

 

   Caminhos da evangelização

 

           O evangelizador procura os caminhos da evangelização na docilidade ao Espírito, tendo por critério a inserção no ambiente humano ou "contextualização", num aprendizado constante, que exige:

a)            Inculturação: processo global e complexo, que tem analogia com a Encarnação e comunica a fé;

b)            Exigências intrínsecas da evangelização: podem ser reconduzidas a quatro aspectos fundamentais: serviço, diálogo, anúncio e vivência comunitária da fé;

c)            Por uma nova evangelização: um novo contexto, de pluralismo e secularismo, exige uma nova evangelização mesmo em países já evangelizados, há séculos.

 

   Sujeitos da evangelização

 

           A missão deve ser assumida por todos, não apenas por alguns

           A responsabilidade de animar a missão cabe principalmente à Igreja Particular

           Novo papel de protagonistas da missão cabe aos leigos

           A missão exige também renovação das estruturas e unidade na diversidade.

 

   Espiritualidade

 

           A missão exige superação de uma espiritualidade de "anulação de si" por uma espiritualidade de testemunho de vida

           A espiritualidade missionária hoje une docilidade ao Espírito, uso dos instrumentos disponíveis e valorização dos carismas pessoais e comunitários.

61. A Igreja no Brasil, nos últimos decênios, deu grandes passos na renovação de suas estruturas e no planejamento pastoral, mas não pode contentar-se com os resultados alcançados. Novos contextos a desafiam a ser fiel ao mandato de Cristo. Impelida pela Palavra de Deus e pelos acontecimentos, ela deve buscar respostas novas às novas exigências da evangelização no atual processo de transformação da sociedade brasileira.

62. Para ser fiel à vontade de Cristo, é fundamental que ela atualize a compreensão de si mesma, e de sua consciência missionária, reconhecendo que ela não existe para si mesma, mas para a missão como "graça e vocação própria, a sua mais profunda identidade".39 E sua missão é evangelizar, como "dever que lhe incumbe, por mandato do Senhor Jesus, a fim de que os homens possam acreditar e ser salvos".40

63. As exigências da evangelização hoje a impulsionam a:

   a) aprofundar o sentido da evangelização como anúncio atual e libertador do Reino;

   b) alargar a compreensão da salvação para além de seus próprios limites visíveis, como salvação para todos;41

   c) discernir os caminhos da missão da Igreja em continuidade com a missão evangelizadora de Jesus;

   d) envolver nessa missão não apenas grupos especializados de cristãos, mas todos os batizados, organizados em suas Igrejas locais, para que com novo ardor se coloquem a serviço do Reino;

   e) buscar uma autêntica espiritualidade cristã.

 

Que é evangelizar?

 

64. Em cada tempo e lugar, provocada pelo Evangelho, a comunidade cristã colocou-se frente a esta pergunta: que é para nós evangelizar? A resposta a essa questão foi sempre vivida como sinal de sua fidelidade a Cristo. De fato, a Igreja só se realiza como comunidade viva no seguimento do seu Mestre, pela realização da missão evangelizadora.

Como o Apóstolo, ela exclama: "Anunciar o Evangelho não é título de glória para mim; é, antes, uma necessidade que se me impõe. Ai de mim se eu não anunciar o Evangelho!".42 Ela mesma se edifica como Igreja de Deus quando coloca no centro de suas preocupações não a si mesma, mas o Reino que ela anuncia como libertação de todos e cada um dos seres humanos para que vivam a plena comunhão com Deus e entre si.43

 

65. A urgência da evangelização hoje, por um lado, vem ao encontro desse mandato claro e evidente para a consciência dos discípulos de Jesus. Por outro, depara-se, mais que em outras épocas, com a complexidade dos novos contextos em que a Palavra viva deve ressoar.

Esses novos desafios nos ajudam a superar visões parciais da evangelização e a compreendê-la em sua "realidade rica, complexa e dinâmica", integrando todos os seus elementos essenciais44 de modo que ela implique não apenas o anúncio do Evangelho por palavras, mas também a vida e ação da Igreja; que envolva não apenas gestos sacramentais, dentro da comunidade viva que celebra o mistério do amor de Deus em Cristo, mas também a promoção da justiça e da libertação; que se apresente não apenas como caminho que vai da comunidade cristã para o mundo, mas também como acontecimento do mundo, dentro do qual Deus continua sua obra salvífica, para a vida da Igreja.

 

66. No espírito dos Jubileus bíblicos — e o Papa o acentua fortemente — cabe-nos pedir perdão pelas falhas da História passada e presente, para assim dispor-nos para uma evangelização sempre mais autêntica.45

 

67. Evangelizar consiste essencialmente no anúncio de Jesus Cristo, morto e ressuscitado, como "Boa-Nova" do Reino e sinal do amor salvífico e libertador de Deus para com o mundo, presença vitoriosa de sua graça sobre o pecado e a morte. O Reino de Deus chega à sua plena realização no acontecimento único e irrepetível de Jesus de Nazaré, professado como Cristo, Filho de Deus vivo.46 Assim sempre o entendeu a comunidade cristã. Ou seja: o Reino chega em sua vida e ação; em sua morte e ressurreição. "Não haverá nunca evangelização verdadeira se o nome, a doutrina, a vida, as promessas, o Reino, o mistério de Jesus de Nazaré, Filho de Deus, não forem anunciados".47

 

68. Pela evangelização a Igreja realiza hoje a missão de Jesus. A vocação própria da Igreja consiste em percorrer o mesmo caminho de Jesus, com humildade e confiança, a fim de comunicar aos homens a salvação, plenamente manifestada no Filho, morto e ressuscitado. Neste sentido, evangelizar para a Igreja nada mais é do que fazer o que Jesus fez: por palavras e ações expressar o amor misericordioso e compassivo para com todos, em especial os pequenos, os pobres, os mais necessitados e esquecidos de nossa sociedade injusta e excludente. Nessa atitude fundamental de seguir a Jesus, a comunidade eclesial, no entanto, deve prestar atenção à sua condição de peregrina na História. À diferença de Cristo, que não conheceu pecado, ela, "reunindo em seu próprio seio os pecadores, ao mesmo tempo santa e sempre necessitada de purificar-se, busca sem cessar a penitência e a renovação".48

 

69. O anúncio da Palavra de Deus visa a conversão cristã, isto é a adesão plena e sincera a Cristo e ao seu Evangelho, mediante a fé. A conversão é dom de Deus, que exige uma aceitação total e radical, sem limites. Ao mesmo tempo, porém, determina um processo dinâmico e permanente que se prolonga por toda a existência, uma passagem contínua da "vida segundo a carne" à "vida segundo o Espírito".49

 

70. Em vista disso, a mais fundamental atitude da comunidade cristã é a de tornar-se discípula, aprendendo a ser fiel e deixando-se constantemente evangelizar, por um lado, pela Palavra da vida que ela acolhe com fé e reparte aos seus filhos com amor de mãe; por outro, pelos próprios acontecimentos da História humana, nos quais Deus continua a dar-se a conhecer como salvação para todos. Só uma comunidade evangelizada é capaz de tornar-se evangelizadora.50

 

71. A ação evangelizadora da Igreja se inspira no Bom Pastor, o primeiro e mais fiel evangelizador. Ele é, na verdade, o Evangelho vivo do Pai, porque nele a própria palavra se faz Evangelho em ação. Nele não há distância e muito menos separação entre palavra e ação.

O agir libertador de Jesus vem constantemente confirmado e explicitado pela sua pregação. E sua palavra adquire vigor profético nos seus gestos que mostram a presença do Reino de Deus.51 Por isso mesmo, o modo mais completo e perfeito de evangelizar é o testemunho da fé na vida. Em outras palavras, os discípulos de Jesus, em qualquer tempo e lugar, devem reescrever o Evangelho com sua própria vida, de tal forma que neles se reconheça que Deus continua sua obra de salvação no mundo. A presença da Igreja no mundo, expressa em sinais e gestos proféticos, indica a vitória do Reino de Deus sobre as potências do mal, como se realizou em Jesus de Nazaré, morto e ressuscitado.

 

72. No mesmo sentido, seguindo a Jesus, a Igreja não pode dissociar a dimensão humana, histórica e social de sua ação no mundo, da dimensão divina, que lhe vem de sua origem, no mistério da Trindade. A obra de Deus, inaugurada em Jesus de Nazaré, não é diferente daquela que se realiza na Igreja, pois nela age e se faz presente hoje, na força do Espírito, o mesmo Senhor Ressuscitado.

O que, pois, se realizou no tempo de Jesus, como sinal do amor de Deus, promoção da justiça e da libertação,52 a Igreja é chamada a realizar. É o mesmo Cristo que opera, com pleno vigor, na Igreja hoje. Por isso a Igreja não pode, sob pena de trair a missão de Jesus, separar a salvação da promoção da justiça e da libertação. Essa dimensão é, pois, constitutiva de sua missão evangelizadora.

 

73. A Igreja realiza sua missão evangelizadora no vasto campo do mundo. O grande desafio missionário da Igreja no mundo de hoje está em abrir-se ao vasto campo da missão para além de suas fronteiras. Fiel ao Espírito, ela descobre que, apesar do pecado, o mundo continua sendo criatura boa de Deus e amada por ele. Nele Deus continua sua obra criadora e salvadora, antes mesmo de ser por nós reconhecido como Senhor e Salvador. Abrindo-se à História humana, a Igreja aprende "a descobrir e a reconhecer os sinais da presença de Cristo e da ação do Espírito".53

 

74. Ser fiel ao plano de Deus significa para a Igreja ir ao encontro do ser humano em sua situação, procurando encarnar o Evangelho nas culturas, a partir de sua identidade evangélica. Esse dinamismo da encarnação faz a Igreja ser evangelizadora no seu ser e agir, no que ela diz e faz, continuando a missão de Jesus até o fim dos tempos.

 

A ação salvífica de Deus no mundo

 

75. "Deus quer que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade."54 E se o quer, deve ser de maneira adequada à situação de cada ser humano. Por isso mesmo, a ação salvífica de Deus precede a Igreja e sua missão. Desde a criação do mundo e do homem, Deus, em sua infinita sabedoria, percorre os caminhos de sua criatura e lhe promete sua salvação. Mais: para que pudéssemos conhecê-lo e amá-lo, ele se deu a conhecer a si mesmo e a seu plano salvífico, em "acontecimentos e palavras". Estes revelam o sentido profundo do mistério de comunhão que Deus quer viver com todos em Cristo.55 Cabe, pois, à comunidade eclesial, estar atenta ao agir de Deus no mundo e aos "sinais dos tempos".

 

76. Deus age no mundo pelo Espírito. Cremos que "o Espírito manifesta-se particularmente na Igreja e em seus membros, mas sua presença e ação são universais, sem limites de espaço ou de tempo".56 É ele que faz germinar as "sementes do Verbo" não apenas nos indivíduos, mas também nas sociedades e na História dos povos, em suas culturas e religiões, fazendo-as maturar em Cristo.57 É esse mesmo Espírito Santo que predispõe os acontecimentos e prepara os corações dos homens em direção a Cristo.58

 

77. Esse é o mesmo Espírito "que agiu na encarnação, vida, morte e ressurreição de Jesus e atua na Igreja". Ele não pode, pois, ser dissociado da presença e da ação do Filho de Deus, como se fosse uma alternativa. Na verdade, "tudo o que o Espírito opera no coração dos homens e na História dos povos, nas culturas e religiões, assume um papel de preparação evangélica". Por isso, essa "ação universal do Espírito não pode ser separada da obra peculiar que ele desenvolve no Corpo de Cristo, que é a Igreja".59

 

78. O Espírito preparou a História humana para o Evangelho. Na plenitude dos tempos, a encarnação do Filho de Deus iniciou a manifestação definitiva do Reino. O Jubileu do ano 2000 nos oferece uma oportunidade única de apreciar o sentido plenificador, cósmico, da encarnação e do nascimento de Jesus Cristo, bem como da centralidade da sua presença na História.60 Jesus Cristo assume nossa História no seio de um povo e de uma cultura. Vive conscientemente a experiência do agir salvífico de Deus no mundo e o expressa em sua pessoa, em seu ministério pelo Reino e, de forma radical e suprema, na sua entrega na cruz. No poder desse mesmo Espírito é que a obra evangelizadora da Igreja continua a missão de Jesus.

Presente na inauguração dos tempos messiânicos, ele manifesta a Igreja aos povos em Pentecostes, para que da dispersão se forme um só povo sobre o fundamento que é Cristo.

 

79. Edificada sobre esse fundamento, que é Cristo, e sobre os Apóstolos, testemunhas da Ressurreição, a Igreja se estrutura nos diferentes contextos históricos, na variedade multiforme dos tempos e dos povos, como "sacramento", ou seja, "sinal e instrumento" de comunhão profunda dos homens com Deus e entre si. Ele deseja, desta forma, iluminar "com a claridade de Cristo que resplandece em sua face"61 o caminho dos povos e das culturas.

 

Caminhos da evangelização

 

80. A evangelização, como obra da Igreja no mundo, só se compreende no horizonte do mistério da comunhão trinitária. Ela se explica pela missão do Filho e do Espírito como sinal do amor de Deus Pai para conosco. Ela tem como protagonista o próprio Espírito, enviado pelo Pai e pelo Filho como expressão do supremo interesse de Deus por nós. O evangelizador humano, pois, é sujeito de um agir divino no mundo, colocando a serviço do plano de Deus suas potencialidades humanas, seus talentos. Ele não é o centro da ação evangelizadora, mas simples operário de Cristo e administrador dos mistérios de Deus. 62 Ele é chamado a realizar essa missão sublime em perfeita obediência e docilidade ao Espírito.

 

81. Enquanto Jesus de Nazaré atuou dentro de um povo concreto, num tempo próprio, na singularidade de sua pessoa e de seu ministério, o Espírito do Senhor Ressuscitado se faz presente e operante em todo tempo e lugar, na diversidade de contextos e situações humanas. Deste modo, ele vai moldando os tempos e a História para o Reino em Cristo. Sendo assim, o critério fundamental da evangelização é a aproximação às situações concretas, aos contextos de todos e de cada um dos seres humanos, ou seja: a contextualização da evangelização.

 

82. Esse processo exige um aprendizado constante a fim de se descobrir em cada situação a pessoa humana "como primeiro caminho que a Igreja deve percorrer no cumprimento de sua missão".63 Para isso não são suficientes as técnicas de aproximação ao destinatário do Evangelho. É preciso, acima de tudo, uma atitude de espírito, evangelicamente respaldada pela experiência de fé pessoal, no seguimento de Jesus Cristo, e uma abertura aos outros, pela qual o evangelizador se coloca como servidor de Deus, servindo aos outros, em especial, os mais necessitados.

 

a) Inculturação 64

 

83. Esse processo de penetração do Evangelho no cotidiano de um povo, de tal forma que ele possa expressar sua experiência de fé em sua própria cultura, é chamado de inculturação. Ela não é uma etapa prévia da evangelização, mas uma dimensão que a acompanha permanentemente, pois o Evangelho transcende toda cultura e a questiona. "Jesus Cristo é, com efeito, a medida de toda a cultura e de toda obra humana".65

 

84. A inculturação é, na verdade, um processo globalizante e complexo, que "integra tanto a mensagem cristã como a reflexão e a práxis da Igreja",66 conduzido pelo Espírito, como um imperativo do seguimento de Jesus.67 Por ele, "a Igreja encarna o Evangelho nas diversas culturas e, simultaneamente, introduz os povos, com suas culturas, na sua própria comunidade, transmitindo-lhes seus próprios valores, assumindo o que de bom nelas existe, e renovando-as a partir de dentro".68

Por esse processo as comunidades eclesiais, em formação, "poderão exprimir, progressivamente, a própria experiência cristã, em modos e formas originais, em consonância com as próprias tradições culturais".69

 

85. A inculturação, na verdade, deve ser compreendida em analogia com a encarnação.70 Na encarnação, o Filho de Deus vem desde o Pai e se insere na História humana, partilhando de sua fragilidade, marcada pelo sofrimento, pelo pecado e pela morte, assumindo-a para redimi-la. Na inculturação, o evangelizador parte do Evangelho assimilado em sua própria cultura. A comunicação do Evangelho se dá no interior de um diálogo intercultural entre o evangelizador e o sujeito histórico da cultura.

Acolhendo a fé, ele se torna também sujeito da evangelização inculturada. Esse diálogo enriquece tanto o evangelizador quanto o evangelizado, num intercâmbio e numa interação enriquecedora. Por outro lado, a cultura que acolhe o Evangelho é redimida e purificada, num processo pascal de morte para seus aspectos negativos, provenientes do pecado. Desse processo surge uma cultura renovada pelo sopro de Pentecostes para uma nova e mais plena forma de realização humana.71

No intercâmbio, o que se transmite fundamentalmente é a . Não é uma idéia abstrata, mas a certeza de que Deus está presente e atua em cada cultura.

 

b) Exigências intrínsecas da evangelização72

 

86. Impulsionada pelo Concílio Vaticano II e pela experiência dos anos que se lhe seguiram, a Igreja se defronta mais lucidamente com novas situações e novos desafios para a evangelização. Ela toma consciência, de um lado, das exigências intrínsecas da evangelização; de outro, da unidade profunda que deve presidir a todo o processo de evangelização inculturada.

 

87. A primeira exigência da evangelização é, pois, o serviço, como testemunho do amor gratuito de Deus para com cada pessoa humana. Por ele se reconhece a dignidade fundamental do ser humano, criado à imagem e semelhança de Deus. Pelo serviço ao mundo, ela se solidariza com as aspirações e esperanças da humanidade, levada pela "fome e sede de justiça", a colocar-se a serviço da causa dos direitos e da promoção da pessoa humana, especialmente dos mais pobres, em vista de uma sociedade justa e solidária.

 

88. A segunda exigência consiste em abrir-se ao diálogo, não como mera tática de conquista ou como jogo de interesses, mas como reconhecimento do real valor do outro como pessoa humana, querida e amada por Deus.73 O diálogo supõe reconhecer o outro como diferente de nós mesmos, como interlocutor, sujeito de valores que pertencem desde já ao Reino. O diálogo é exigido "pelo profundo respeito por tudo o que o Espírito operou em cada homem".74 Assim, o reconhecimento da presença operante do Espírito de Deus nos fiéis de outras religiões constitui o fundamento teológico do diálogo inter-religioso.

 

89. O diálogo supõe maturidade na fé, pela qual, abrindo-se ao diferente a partir da própria identidade, o fiel possa oferecer ao interlocutor o testemunho de uma vida coerente com o Evangelho. Neste contexto, diálogo e missão não se excluem. Antes, exigem-se mutuamente, de tal forma que o diálogo deve ser considerado como constitutivo da própria missão. De fato, o evangelizador se encontra com pessoas humanas, ricas de experiência cultural e religiosa.

90. A terceira exigência é o anúncio explícito de Jesus Cristo e de seu Evangelho. "A Igreja não pode esquivar-se ao mandato explícito de Cristo, não pode privar os homens da "Boa-Nova" de que Deus os ama e salva".75 O centro e o ápice do dinamismo evangelizador da comunidade eclesial há de ser sempre "uma proclamação clara que, em Jesus Cristo, Filho de Deus feito homem, morto e ressuscitado, a salvação é oferecida a todos os homens como dom da graça e da misericórdia do mesmo Deus".76 Deve-se notar que o anúncio é um acontecimento salvífico em que ouvintes já despertados para a esperança do Reino, são chamados a participar na comunhão visível com a Igreja.

 

91. A quarta exigência está na vivência comunitária da fé eclesial, de tal modo que as comunidades cristãs sejam "sinal da presença divina no mundo".77 A comunidade cultiva sua ligação profunda com o mistério de Deus em Cristo, pela fé vivida no cotidiano de suas tarefas humanas; alimenta essa fé na celebração da Palavra e dos sacramentos; e se fortalece, desta forma, para o serviço ao mundo, articulando dons, carismas e ministérios para a plena realização de sua missão evangelizadora.

 

92. A comunidade cristã promove a educação pessoal e comunitária, progressiva e contínua, orgânica e sistemática do cristão na fé, na esperança e na caridade, pela constante interação entre Palavra de Deus, as formulações da fé cristã e as situações da vida. Ela interliga, desta forma, a experiência da fé com o crescimento da vivência eclesial, nos níveis pessoal, comunitário e social.

 

93. Como comunidade sacerdotal, organicamente estruturada pelos sacramentos, celebra os mistérios da fé. Colocando no seu centro a memória do Mistério pascal de Cristo e dos cristãos, que revela o amor do Pai para conosco e nos comunica o seu Espírito, a liturgia é fonte de comunhão com a Trindade e nos envia para a missão para proclamar o mistério de Cristo até que ele volte.78

 

94. Por fim, a Igreja alimenta constantemente a consciência de que a unidade com Deus em Cristo, fundamento e alicerce da vida eclesial, há de ser vivida como comunhão entre irmãos na fé, entre comunidades vivas e apostólicas, entre Igrejas particulares que buscam alimentar constantemente a corresponsabilidade de todos os batizados no anúncio do Evangelho. Essa comunhão profunda se expressa nos diversos níveis de articulação eclesial, desde a colegialidade episcopal afetiva e efetiva para os Bispos, à partilha de corresponsabilidade colegial no presbitério por parte dos presbíteros, aos diáconos em comunhão com as Igrejas locais e às mais diferenciadas comunidades eclesiais, grupos apostólicos ou movimentos eclesiais inseridos em seus variados contextos.

 

95. Essa unidade vivida na Igreja Católica não dispensa o esforço de buscar, com perseverança e confiança na graça de Deus, a comunhão com outras Igrejas e comunidades eclesiais.79 Inspirada pelo documento conciliar Unitatis Redintegratio, a Igreja sabe que "esta unidade consiste na profissão de uma só fé, na celebração comum do culto divino, na concórdia fraterna da família de Deus".

E mais, que essa unidade "exige uma plena comunhão visível de todos os cristãos, sem sacrificar a rica diversidade de espiritualidade, de disciplina, de ritos litúrgicos e de elaboração da verdade revelada que se desenvolveram entre os cristãos, na medida em que essa diversidade se mantenha fiel à tradição apostólica".80

 

96. A evangelização, como bem ressaltou a "Evangelii Nuntiandi", é uma realidade "rica, complexa e dinâmica", da qual nenhuma definição parcial chega a dar razão.81 A descrição que aqui fizemos da evangelização poderia ser completada a partir de outros pontos de vista. Vamos concluir citando mais uma exigência da evangelização, que textos do Magistério apontam como a primeira,82 mas que podemos considerar como um aspecto que se expressa através de todos os que já mencionamos: serviço, diálogo, anúncio, vivência comunitária. Queremos falar do testemunho de vida.

Ele é insubstituível, 83 pois não poderia convencer aos outros quem não vive a própria fé. Ele é eficaz, como já lembrava São Pedro, "para que, se alguns não obedecem à Palavra, venham a ser conquistados, sem palavras, pelo comportamento".84

c) Uma nova evangelização

 

97. No limiar do Terceiro Milênio do cristianismo, o papa João Paulo II lançou o projeto de uma "Nova Evangelização". Ele observa que, além dos destinatários estritos da missão "ad gentes" e daqueles fiéis e comunidades que realmente "são fermento de fé e de vida, irradiando o testemunho do Evangelho no seu ambiente",85 "especialmente nos países de antiga tradição cristã, mas também nas Igrejas mais jovens, (há) grupos inteiros de batizados que perderam o sentido vivo da fé, não se reconhecendo já como membros da Igreja e conduzindo uma vida distante de Cristo e de seu Evangelho".86 Já o Concílio Vaticano II acenava a situações que requerem de novo a "ação missionária" da Igreja.87

 

98. Na verdade, estamos diante de tempos novos que "apresentam problemas e dificuldades mais graves em relação àqueles descritos pelo Concílio na Constituição Pastoral Gaudium et Spes",88 tais como o indiferentismo religioso, o ateísmo, o secularismo,88a o consumismo,89 o fenômeno de novos movimentos religiosos que se espalham como resposta a aspirações e necessidades religiosas que não podem facilmente extinguir-se.90 Tudo isso revela uma profunda crise de fé no mundo atual.

 

99. Estamos diante de novos contextos, num mundo plural tanto do ponto de vista cultural quanto religioso. Esse mundo de fenômenos sociais e áreas culturais novos ou modernos areópagos é que desafia hoje o impulso missionário da Igreja e lhe apresenta novas prioridades para a evangelização. A comunidade eclesial, provocada pelo Espírito, não deve temer essas novas dificuldades, mas reconhecer nelas novas chances para a obra evangelizadora, renovando o seu ardor, seus métodos e suas expressões, e empenhando com força particular a ação dos fiéis leigos.

100. No contexto da sociedade brasileira, à luz dos nossos 500 anos, uma nova evangelização exige superar os limites históricos do nosso cristianismo, por um empenho mais profundo na articulação entre fé e vida; pela superação do "mais devastador e humilhante flagelo" da miséria extrema91 a que são submetidos milhões de brasileiros, atingidos por diversas formas de exclusão social, étnica e cultural, através da promoção da justiça e da libertação integral; pela renovação da experiência viva da fé através de uma evangelização inculturada,92 visando refazer o tecido cristão das comunidades eclesiais.

101. A evangelização nesses novos contextos exige, além da renovação das atuais estruturas pastorais e a criação de novas estruturas que correspondam às exigências de uma nova evangelização, novo ardor, novos métodos, novas expressões e, sobretudo, uma espiritualidade que torne a Igreja cada vez mais missionária.

 

Sujeitos da Evangelização

 

102. A tarefa da evangelização hoje pede uma nova resposta à pergunta sobre os portadores da missão evangelizadora da Igreja. Quem deve assumir na Igreja a tarefa da evangelização? Tradicionalmente tal tarefa foi levada adiante, em grande parte, por pessoas e grupos que cultivavam e viviam sua vocação missionária em situações de fronteira. Assim, a primeira evangelização do continente latino-americano teve generosos protagonistas membros de Ordens religiosas ou do clero.93 Hoje, a renovação da consciência eclesial e da responsabilidade missionária do povo de Deus, que se expressa exemplarmente nas orientações do Concílio Vaticano II, amplia os sujeitos eclesiais da missão, passando da missão de alguns para a missão de todos. O desafio para a Igreja hoje está justamente em despertar cada batizado e cada comunidade eclesial para essa responsabilidade primeira e intransferível.

 

103. A principal responsabilidade da renovação missionária de toda a Igreja está na Igreja particular (que geralmente é uma Diocese). Ela é o principal sujeito histórico da missão evangelizadora, como Igreja encarnada num espaço humano concreto, atenta às "sementes do Verbo" presentes na realidade humana, nas culturas e na busca religiosa do povo no qual ela se insere como fermento evangélico. Por essa proximidade à realidade humana, a ela cabe a tarefa da inculturação da fé.94

 

104. Essa consciência missionária da Igreja Particular se aprofunda por uma nova compreensão da missão como comunhão entre Igrejas, em substituição a uma visão de submissão e dependência entre Igrejas que "enviam missionários" e Igrejas em formação, que "acolhem missionários". Tanto umas como outras, num caminho de dupla direção, se enriquecem e se edificam como Igreja de Cristo no dar e no receber.95

 

105. Na Igreja Particular todos são constituídos sujeitos da missão pela graça do Batismo e da Crisma. Tornar cada batizado sujeito ativo da missão constitui realmente a meta da ação pastoral e tarefa indispensável para fazer frente aos novos contextos da missão evangelizadora. No entanto, na Igreja sempre há quem é chamado à evangelização "ad gentes", enviado aos povos que ainda não receberam a pregação do Evangelho ou às Igrejas ainda carentes de ajuda.

 

106. A primeira evangelização se deu num momento cultural diverso do de hoje. Então, a religiosidade e a religião estavam no centro da sociedade e das culturas. Havia uma certa conaturalidade entre Evangelho e as culturas, impregnadas pela busca religiosa dos povos. O drama da nossa época, na Palavra de Paulo VI, revela uma "ruptura entre o Evangelho e a cultura".96 Para fazer frente a essa nova situação, o projeto da nova evangelização convoca os fiéis leigos para assumirem o papel de protagonistas, impregnando com o fermento novo do Evangelho as realidades terrestres em que estão inseridos no trato cotidiano com a economia, a política e a cultura.

Com ele devem modificar "os critérios de julgar, os valores que contam, os centros de interesse, as linhas de pensamento, as fontes inspiradoras e os modelos de vida da humanidade, que se apresentam em contraste com a Palavra de Deus e com o desígnio da salvação".97

 

107. Situar o mundo, como horizonte concreto da missão, e dos cristãos leigos, como atores da missão evangelizadora, exige levar adiante o projeto de renovação da Igreja, fazendo com que suas estruturas respondam às exigências do mundo de hoje. A Igreja não pode, pois, ficar voltada sobre si mesma ou sobre alguns de seus membros, mas deve, com olhar firme na meta, o Reino, voltar-se para o mundo, em atitude de serviço, envolvendo todos os seus membros, conforme seus dons e capacidades.

 

Espiritualidade

 

108. A missão evangelizadora exige não só estruturas adequadas, mas também que os sujeitos sejam alimentados por uma espiritualidade missionária conforme a própria vocação, os dons, carismas e ministérios recebidos do Espírito para a realização do Reino. Técnicas e instrumentos são importantes, mas não substituem a "ação discreta" do Espírito Santo que faz arder o coração do seguidor de Jesus e o coloca no caminho dos irmãos para expressar sua experiência.98 Fazem parte da própria missão evangelizadora a alimentação interior que sustenta a eficácia de seu agir, a fidelidade ao Evangelho e a autenticidade do testemunho.

 

109. A ação evangelizadora e pastoral, como serviço da missão e obediência ao Espírito, exige do evangelizador cuidar da própria competência, para que, por negligência, não venha a perder o Evangelho. Exige sábia aplicação dos instrumentos modernos, com critérios evangélicos. Mas nada substitui a experiência do Deus vivo, alimentada constantemente pela escuta da Palavra de Deus tanto no livro da Escritura quanto no livro da vida; pela participação na Eucaristia e demais celebrações; pela oração generosa e aberta a Deus e à sua presença na realidade humana; pelo abandono ao Espírito que precede a ação do evangelizador, o assiste, cotidianamente, confortando-o nas dificuldades e mesmo no fracasso; enfim, pela doação de si mesmo no serviço aos demais.

 

110. Seguir a Cristo no mundo de hoje, complexo e fragmentado, comporta superar certo tipo de espiritualidade, marcada pela "negação de si" ou pela "anulação" da própria personalidade. Uma espiritualidade para os nossos dias exige estimular aqueles dinamismos pessoais e sociais pelos quais sejamos capazes, por graça divina, de superar o individualismo e a fragmentação: a abertura aos outros, reconhecidos em sua dignidade inalienável, sujeitos de valores; a atitude de diálogo, entrando numa dinâmica de interação ou intercâmbio na busca dos sinais de Deus nos caminhos de mulheres e homens hoje; a solidariedade pela qual se renova o tecido da sociedade humana, desde a família e as diversas comunidades humanas , pela vivência do amor e da fraternidade.

 

111. Num mundo saturado pela propaganda e por informações de toda espécie, percorrido por discursos e apelos religiosos variados e, no mais das vezes, contraditórios; num mundo cansado de tantos mestres, o evangelizador hoje deve ser, antes de mais nada, testemunha mais do que mestre. Será "pelo testemunho vivido com fidelidade ao Senhor Jesus, testemunho de pobreza, de desapego e de liberdade frente aos poderes deste mundo", que ele há de evangelizá-lo.99

 

3. NOVOS DESAFIOS DA REALIDADE

 

Sumário

 

           Diante das mudanças profundas e rápidas que caracterizam a sociedade de hoje, o evangelizador não deve cair na incerteza ou no imediatismo, mas se esforçar para compreender os novos desafios.

 

   Mudanças sócioeconômicas recentes

 

           Mudanças demográficas: redução da taxa de natalidade; migrações; urbanização; crescimento das cidades médias

           Mudanças econômicas: crise dos anos 80; concentração da renda; aumento do trabalho feminino e de menores; expansão do setor terciário; aumento da pobreza.

 

   Causas das mudanças e perspectivas

 

           Novo contexto internacional (globalização da economia); políticas liberais; enfraquecimento do Estado e dos partidos; limites da participação; aumento da violência; fenômeno da exclusão

           Por uma retomada do primado da política sobre a economia.

 

   Mudanças culturais

 

           Características do processo de modernização; crise atual da modernidade ou pós-modernidade; pluralismo cultural; individualismo

           Resistências culturais e avanço da modernidade nas grandes cidades e entre os jovens.

 

   Crise ética

 

           Crise da ética pública e subjetivismo ético na vida privada

           As conseqüências negativas do relativismo ético e a necessidade de conciliar liberdade e verdade.

 

   Pluralismo religioso

 

           A religiosidade continua fortemente presente na cultura brasileira, mas se acentua o pluralismo das crenças e se reduz o número dos que se dizem católicos

           O pluralismo é maior nas grandes metrópoles e varia segundo as regiões

           Por baixo das religiões institucionalizadas, duas tendências: a religião "invisível" (sem práticas externas), intimista e individualista, e a religião sectária, fundamentalista e rigidamente enquadrada

           Origem destas tendências no impacto da modernidade sobre o catolicismo tradicional

           Um quadro complexo — sócio-cultural e religioso — desafia a evangelização.

 

112. É nosso objetivo, neste capítulo, salientar os traços e as tendências da nossa sociedade que mais diretamente questionam a nossa responsabilidade pastoral. Temos consciência de que se trata de uma situação complexa no presente e incerta quanto ao futuro.

 

113. Diante disso, há cristãos e agentes de pastoral que assumem atitudes passivas e resignadas, olhando com ceticismo para uma realidade que não conseguem compreender. Outros refugiam-se numa atitude imediatista, lutando por valores em que acreditam, mas a partir de uma visão simplificada da sociedade, sem cuidar de compreender sua diversidade e de se abrir ao diálogo com outros grupos. Há também cristãos que, movidos pela fé, buscam a transformação da sociedade, guiados pelos princípios da Doutrina Social da Igreja. Para isso, envolvem-se na luta pela justiça social para que se realize um novo modelo de sociedade fraterna e solidária, segundo o projeto de Deus.

 

114. A posição correta do cristão é aquela que une o esforço de compreensão racional dos acontecimentos com a firme esperança no Senhor da História e na presença já atuante do Reino de Deus. É, portanto, uma atitude de vigilância constante, de atenção à emergência do que é novo, sem confiar excessivamente em esquemas de interpretação da realidade social que freqüentemente falham quando pretendem prever o curso da História.

A atitude cristã é, necessariamente, empenho perseverante pela transformação da sociedade rumo à realização dos autênticos valores humanos e invocação constante — como na oração de Jesus — da vinda do Reino.

 

Mudanças sócioeconômicas recentes

 

115. Os resultados do Censo de 1991, só recentemente divulgados, e de outras pesquisas permitem descrever e quantificar as mais recentes mudanças sociais do País e suas tendências.

 

116. Do ponto de vista demográfico, os principais fenômenos são:

aumento da população no período 1980/1991 de 119 para cerca de 147 milhões de habitantes (+ 23,5%); mas a taxa anual de crescimento é nitidamente inferior à dos períodos anteriores (1950/1960: 3% ao ano; 1960/1970: 2,9%; 1970/1980: 2,5%; 1980/1991: 1,9%!) e o fenômeno é bastante diversificado por Regiões;100

117. — a taxa de crescimento da população nas Regiões é influenciada não apenas pela natalidade, mas também pelas migrações, que no período 1980/1991 se dirigem especialmente para as Regiões Norte e Centro-Oeste;

 

118. — a diminuição da natalidade está ligada a uma queda notável da taxa de fecundidade, que passou da média de 4,4 filhos por mulher em 1980 para 2,7 filhos em 1991 (pesquisas recentes entre os jovens indicam que os novos casais querem apenas dois filhos); a queda da fecundidade está relacionada com a situação econômica (diminuição da renda por pessoa) e com o uso de anticoncepcionais101

 

119. — o processo de urbanização continuou; a população urbana passou de 67,6% (1980) para 75,5% (1991), enquanto a população rural diminuiu, seja relativamente (de 32,4 para 24,5%), seja absolutamente (de cerca de 38,5 milhões para 36 milhões);

 

120. — o aumento maior da população se deu nos municípios entre 100.000 e 500.000 habitantes (+ 30,4% entre 1980 e 1991), enquanto cresceu menos a população dos municípios com menos de 100.000 habitantes (+ 22,3%) e, principalmente, nos municípios com mais de 500.000 habitantes (+ 18%).102

121. Do ponto de vista econômico, as principais mudanças são:

— à diferença dos anos 70 e mesmo do período 1945-70, a economia brasileira pára de crescer rapidamente, entrando numa fase de estagnação e crise; o resultado é que os brasileiros, em 1991, são — em média — mais pobres que em 1980; a renda per capita é cerca de 5% inferior à de dez anos antes; a situação não é pior por diversos motivos, como a queda da natalidade (que já observamos), o aumento do número das pessoas que trabalham, a expansão da "economia informal" etc.;

 

122. — na realidade, se o nível médio dos rendimentos caiu um pouco, a situação melhorou para os ricos e piorou para os pobres, contribuindo para tornar a distribuição de renda no Brasil uma das mais perversas no mundo; o IBGE calcula que 1% dos brasileiros mais ricos em 1990 detinha 13,9% da renda nacional (contra 12,1% em 1981), enquanto os 50% mais pobres só dispunham de 12,1% (contra 14,5% em 1981); isto significa que a renda média brasileira por pessoa era de 2.885 dólares em 1990, mas o 1% mais rico tinha uma renda anual de 40.100 dólares e os 50% mais pobres, uma renda anual inferior a 700 dólares (ou 58 dólares por mês);

123. — o empobrecimento exerce uma pressão que faz aumentar, nas famílias pobres ou de classe média-baixa, o número das pessoas que trabalham; na década de 80, aumenta especialmente a mão-de-obra feminina (entre as mulheres, a porcentagem das que trabalham fora de casa passa de 32,9% para 39,2%); o número de crianças e adolescentes que trabalham não aumenta em termos relativos (também pelo envelhecimento da população), mas é muito expressivo, um dos mais altos da América Latina, com quase 3 milhões de crianças de 10 a 14 anos e 4,4 milhões de adolescentes, de 15 a 17 anos, trabalhando;

 

124. — outra mudança importante na economia diz respeito à redução do emprego no setor primário (agricultura) e secundário (indústria) e à expansão da população empregada no setor terciário (comércio, serviços...), que em 1990 absorve 55,2% da população ativa; essa mudança é acompanhada também por modificações no perfil do trabalho: os salários perdem cerca de 15% de seu valor; aumenta o número dos trabalhadores sem carteira assinada e com remuneração baixa (sobretudo mulheres e jovens); aumenta o número dos trabalhadores autônomos, especialmente na chamada "economia informal" (quase duplica o número dos ocupados no comércio ambulante!);

 

125. — apesar desse esforço da grande maioria dos trabalhadores de garantir um rendimento mínimo para sobreviver, a pobreza — medida em termos de rendimentos — é extremamente grande; dos 29,5 milhões de pobres de 1980 (24,8% da população) se passa aos 39,2 milhões de 1990 (27% da população);103 a pobreza se concentra especialmente na área rural (onde atinge mais de 50% da população) e nas áreas metropolitanas, onde são evidentes as diferenças regionais;104

 

126. — a situação não é pior, porque melhoraram alguns serviços essenciais no período 1981-1990: abastecimento de água por rede geral (de 70% dos domicílios para 82,7%), instalação sanitária com rede de esgoto (de 38% para 50,9% dos domicílios), coleta de lixo (de 65,8% para 80,5%). Tudo isso trouxe uma expressiva diminuição da mortalidade infantil (de 75 por mil para 45 por mil, em média; mas as diferenças regionais e por classe social são muito altas) e um aumento da expectativa de vida que, em 1984, era estimada em 57,5 anos nas famílias com renda até 1 salário mínimo e em 73,4 anos para as famílias com mais de 5 salários mínimos;

 

127. — também a situação da educação melhorou, ao menos em alguns aspectos, entre 1981 e 1990: menos analfabetismo (que cai de 22,3% para 17,8% na população de 10 anos ou mais); aumento das pessoas com 8 ou mais anos de estudos (de 18,3% para 25%); duplicação da freqüência ao pré-escolar; aumento da taxa de escolarização entre os 7 e os 9 anos (de 70% para 85%) e na faixa de 10-14 anos (de 78,7% para 84,2%).

 

Causas das mudanças e perspectivas

 

128. A crise da economia brasileira nos anos 80 não é um fato puramente interno, com o esgotamento do modelo até então aplicado de "substituição das importações", mas se inscreve num contexto internacional mais amplo.

 

129. O fator mais próximo da crise é a fuga de capitais e a dificuldade de pagar a dívida externa. A declaração da moratória pelo México (1982) é o sinal de alarme. Nos anos seguintes, a América Latina não somente vê cair a entrada de capital externo, mas assiste a uma elevação do "serviço" (juros) da dívida a níveis insustentáveis e à fuga de capitais que buscam em outras áreas um lucro maior. Assim, paradoxalmente, a América Latina — e nela o Brasil — se torna exportadora de capitais.

 

130. O fator fundamental da crise é representado pelas transformações da economia internacional. Desde 1975, aproximadamente, o sistema capitalista mundial se volta para a "acumulação flexível", modificando profundamente o sistema de produção e o comércio internacional. A mudança é possível graças ao emprego de novas tecnologias — que diminuem o emprego do trabalho manual e das matérias-primas — e graças a formas aperfeiçoadas de organização e gestão dos processos produtivo e distributivo, possibilitadas pela informatização crescente. Um dos resultados das mudanças é aumentar as vantagens dos países que mais geram conhecimento e controlam a informação ("Primeiro Mundo"), em prejuízo dos países que fornecem matérias-primas ou mão-de-obra barata ("Terceiro Mundo").

 

131. Outra mudança na economia, cujas causas são estruturais, mas que é justificada teoricamente por um ressurgimento do liberalismo — é a chamada "desregulação", praticada especialmente por Estados Unidos e Grã-Bretanha nos anos 80 e proposta como "receita" aos países dependentes da ajuda do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional. A proposta prega a diminuição da intervenção estatal na economia, a privatização das empresas estatais (com poucas exceções), a livre competição, a remoção de barreiras ou proteções alfandegárias, etc. O êxito destas medidas parece ter sido apenas parcialmente benéfico e, geralmente, favorável aos mais fortes, com freqüentes retrocessos dos serviços públicos, dos direitos dos trabalhadores, da qualidade de vida das massas, não apenas no Terceiro Mundo, mas também nos países hegemônicos.

 

132. Estes têm procurado ampliar seus mercados. Não podendo ainda abranger o mundo inteiro, apesar de uma crescente "globalização" ou "mundialização" da economia, têm promovido "blocos" ou áreas de livre comércio e cooperação econômica, como a Comunidade Econômica da Europa, o N.A.F.T.A. entre Estados Unidos, Canadá e México, as relações comerciais do Japão com certos países do Oceano Pacífico, e o MERCOSUL (Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai).

 

133. As mudanças econômicas tiveram importantes repercussões políticas, provocando um enfraquecimento dos Estados nacionais, que nos últimos anos têm encontrado crescentes dificuldades na regulação da economia, sempre mais dependente de decisões que envolvem outros países e centros financeiros internacionais. A isto se acrescenta a dificuldade técnica de planejar ou dirigir uma economia sempre mais complexa, o que contribuiu para a crise mais ampla das economias socialistas e seu envolvimento — cheio de contradições — com o capitalismo mundial.

 

134. A crise política, no final dos anos 80 e início dos anos 90, desembocou na crise dos governos e dos partidos que os sustentavam desde o fim da Segunda Guerra Mundial, em quase todos os países do Primeiro e do Segundo Mundo. Ela revelou o enfraquecimento do Estado, seja pela perda de poder efetivo na área econômica, seja pela corrupção interna e principalmente, pela dificuldade de satisfazer às exigências de uma sociedade extremamente fragmentada, em que se multiplicam as reivindicações contraditórias por parte dos sempre mais numerosos e diversificados grupos de interesses. A crise desafia também os sindicatos e os movimentos sociais, exigindo deles uma lucidez maior sobre as novas condições da sociedade e os meios de superar o individualismo crescente.

 

135. A fragmentação da sociedade civil, de um lado, e a complexidade da administração pública, do outro, dificultam a participação democrática, a não ser que as próprias instituições políticas se renovem e a democratização se estenda a todos os níveis da vida social, inclusive ao controle da informação. O que se tem visto, porém, inclusive no Brasil, é que, ao lado de avanços democráticos relevantes, continua a pesar sobre a vida pública a intervenção de grupos economicamente fortes, com interesses corporativos e restritos, que usam intensamente dos meios de comunicação social de massa para influenciar a opinião pública, aproveitando-se da crise de credibilidade do sistema político tradicional. O cidadão, nestas circunstâncias, tende a virar mero expectador, enquanto os meios de comunicação apresentam sempre mais a vida pública de forma sensacionalista e espetacular, esvaziando ou escondendo as questões de real interesse geral.

 

136. O empobrecimento das massas, o crescimento do crime organizado e do tráfico de drogas, o enfraquecimento do Estado, a persistência e até o revigoramento de uma cultura autoritária que despreza os direitos do fraco, o esgarçamento — especialmente na grande metrópole — dos antigos vínculos comunitários têm gerado — no nosso País e em muitos outros — um assustador aumento da violência e da criminalidade, cujas vítimas são, antes de tudo, os jovens do proletariado urbano, mas também — em grande medida, principalmente nos casos de violência doméstica — crianças e mulheres. Testemunho disso são, nas cidades, os numerosos "meninos de rua" e a formação de "gangues" de adolescentes.

 

137. O resultado mais perverso de todas essas causas da crise social da atualidade é o fenômeno da exclusão (sobre o qual se debruçou a Campanha da Fraternidade de 1995 da Igreja no Brasil). A exclusão significa que o atual sistema econômico-político, que até há pouco era criticado pela exploração das massas de trabalhadores, tende agora a rejeitá-las, porque desnecessárias como mão-de-obra e desinteressantes como consumidores de baixa renda. Antes, chega a vê-las como perigosas para a sociedade e a considerá-las como criminosos em potencial, após tê-las marginalizado.

 

138. As perspectivas para o próximo futuro dependem principalmente das decisões políticas a serem tomadas. Somente uma enérgica retomada do primado da política — e, portanto, da ética na política: do bem comum, da democratização, do interesse público — sobre a economia e os interesses privados ou particulares poderá inverter as atuais tendências de uma sociedade que, abandonada à lei do mais forte, só pode caminhar para um aprofundamento das desigualdades, o acirramento dos conflitos, a difusão do arbítrio e da violência.

Esta mudança não é possível sem uma mudança ética e cultural. Mas, antes de aprofundar estas perspectivas, é preciso completar nossa análise. É necessário despertar a consciência ética diante dos problemas sociais, percebendo-se que a existência de milhões de empobrecidos é a negação radical da ordem democrática. Exige-se a busca de uma nova articulação entre políticas econômicas e políticas sociais para uma justa distribuição de rendas.

 

Mudanças culturais

 

139. O processo de mudança cultural que deu origem ao que se costuma chamar de "modernidade" dura há quatro ou cinco séculos nas sociedades ocidentais. Interessa-nos aqui colher seus traços característicos e sua influência atual na sociedade brasileira.

 

140. A modernidade se caracteriza, antes de tudo, por um processo de diferenciação da sociedade, que perde a unidade orgânica que a caracterizava no período pré-moderno, interligando profundamente cultura, religião, economia, política e vida quotidiana. Resultado dessa diferenciação, evidente nas últimas décadas, é a tendência dos "subsistemas" econômico e político a tornar-se autônomos, auto-referenciais, sem vinculação com a ética e a religião (neste sentido a sociedade moderna é "secularizada").

Outra conseqüência é que a cultura, entendida aqui como o "mundo vital", onde as pessoas e os grupos formulam seus comportamentos e sua visão da realidade, passa a ser separada nitidamente do "sistema" econômico e político, o que abre o espaço a um conflito entre cultura (vida) e sistema (organização da sociedade). Acrescente-se que, na sua formulação ideológica, este conflito foi pensado por muitos como conflito entre uma conduta dominada pela tradição e uma conduta "moderna", dominada pela  razão crítica e pela contínua experimentação do novo.

 

141. Na modernidade, ocupa um lugar central e sempre mais decisivo a tecnologia. As sociedades tradicionais também dispunham de tecnologias, criadas a serviço da própria sociedade, para satisfazer suas necessidades. Na sociedade moderna, sobretudo nos últimos anos, assistimos a uma inversão paradoxal: não é mais a tecnologia que está a serviço de um projeto humano, mas ela determina os rumos da sociedade, põe as pessoas humanas ao seu serviço, cria novas necessidades. O resultado é contraditório: de um lado, a tecnologia trouxe indubitáveis vantagens à humanidade. "Tornou a vida mais fácil, mais limpa e mais longa".

Por outro lado, o mau uso da tecnologia aumentou a desigualdade social e as discriminações, oferecendo a alguns muito mais do que necessitam e negando a muitos o mínimo necessário, condenando precocemente à morte milhões de seres humanos.105 O mais recente Relatório da ONU sobre o desenvolvimento (1994) atesta progressos relevantes: a extrema pobreza atinge ainda 32% da população mundial (contra 70% em 1960), enquanto um nível de vida satisfatório foi alcançado por cerca de 60% da população (contra 25% em 1960). Mas a distância entre pobres e ricos duplicou e 1 bilhão de pessoas gozam de uma renda 60 (sessenta) vezes superior à renda do bilhão de pessoas mais pobres. Junto com a desigualdade cresceram as guerras, a violência, o consumo de drogas, o crime organizado.

 

142. Nos últimos anos, no Ocidente e no Brasil, cresceu a consciência da crise da modernidade. Ela se revelou, antes de tudo, na falência das promessas modernas de "liberdade e igualdade" ou de "progresso" em favor de todos, promessas que — nos anos 60 do nosso século — tomaram a forma do "mito do desenvolvimento", prevendo um relativamente rápido acesso de todos os povos aos níveis de bem-estar e consumo dos países "desenvolvidos".

Já no final dos anos 60, a teoria do desenvolvimento foi criticada radicalmente na América Latina pela teoria da "dependência", que acabava propondo um corte nítido das relações econômicas com o Primeiro Mundo e uma libertação dos laços de dependência. No início dos anos 70, difundiu-se a crítica ecológica dos limites do crescimento, apontando a inviabilidade da extensão do nível de consumo dos países ricos ao mundo inteiro, o que traria o rápido esgotamento dos recursos naturais, e propondo em troca o desenvolvimento "auto-sustentável", que não prejudicaria as gerações futuras.

 

143. Há um consenso bastante generalizado quanto à crise da modernidade. Mas há divergências profundas em sua interpretação e nas propostas de superação. Começou-se a falar em pós-modernidade, mas com vários sentidos: esgotamento e superação da modernidade; exasperação dos aspectos negativos da modernidade; primeiros sinais de uma nova época, que realizaria os sonhos ideais da modernidade (liberando-a dos "efeitos perversos" que a acompanharam até agora) ou que começaria uma sociedade diferente.

 

144. O consenso se estende ao diagnóstico dos traços característicos da modernidade e de suas tendências atuais. Parece claro que a separação sistema/cultura facilitou a diversificação desta última e a expansão do pluralismo cultural. O fenômeno é evidente também em sociedades modernas, até há pouco tidas por culturalmente homogêneas e que agora assistem ao ressurgimento de antigos particularismos étnicos, regionais, lingüísticos etc., ao renascimento de nacionalismo e racismo, ou à fragmentação do universo cultural numa multiplicidade de "novas tribos".

O Brasil (e outros países semelhantes), que historicamente nasceu da convergência forçada de etnias, culturas e religiões diversas (índios, africanos, portugueses e outros imigrantes, inclusive do Extremo Oriente), ainda mais vai revelando um mosaico extremamente variado e apenas precariamente unificado de tradições ou núcleos culturais diferentes.

 

145. Mais típica ainda da modernidade é a tendência, estruturalmente ligada ao seu dinamismo econômico e político, para o individualismo. Ele não é apenas uma conseqüência do enfraquecimento dos laços comunitários e de solidariedade da sociedade tradicional. Ele é um valor proclamado e justificado pelos autores modernos, desde o século XVIII, época do Iluminismo.

Hoje, em medida crescente, é assimilado pelas massas e condiciona o comportamento popular. A mudança cultural traz também uma valorização da subjetividade, da livre escolha pessoal, da liberdade e da consciência dos direitos fundamentais, decisivos para uma autêntica promoção humana. O outro lado dessa tendência seria o subjetivismo exacerbado, que leva ao narcisismo do indivíduo demasiadamente preocupado consigo mesmo, e que exalta o consumismo materialista como grande objetivo de vida, empobrecendo as relações pessoais e sociais. No limite extremo desse horizonte cultural encontramos "uma espécie de atitude prometeica do homem que se ilude de poder apropriar-se da vida e da morte para decidir delas, quando na realidade acaba derrotado e esmagado por uma morte irremediavelmente fechada a qualquer perspectiva de sentido e a qualquer esperança".106

 

146. À difusão do individualismo não são estranhos os grandes meios de comunicação social, particularmente a televisão. Ela gera um número crescente de espectadores e consumidores de imagens, que dedicam sempre menos tempo à vida social e comunitária, mesmo dentro de casa. Os espectadores estão expostos a maciços fenômenos de manipulação política, como se viu no Brasil e em outros países, sobretudo onde os meios de comunicação estão concentrados nas mãos de pouquíssimos e faltam condições para a democratização da informação. A televisão e a informatização da comunicação contribuem também para estimular a difusão e o consumo dos mesmos bens materiais e culturais nos diferentes países, criando as condições de uma cultura global de massa, sem fronteiras, que abafa as culturas locais ou regionais.

147. Recentemente, no clima cultural que alguns classificam como "pós-modernidade", o ritmo das mudanças e o caráter efêmero das contínuas novidades se tornaram exasperados. O fenômeno é facilitado pelo novo poder dos meios de informação, que permitem a comunicação instantânea com qualquer parte do mundo e induzem a decisões imediatas e emocionais, não refletidas e amadurecidas. Em conseqüência, as pessoas — especialmente as novas gerações — são induzidas a considerar provisórias e passageiras todas as atitudes e encontram dificuldade para aceitar um compromisso estável e definitivo, inclusive no Matrimônio e na vida consagrada e sacerdotal.

 

148. As reações a essas tendências variam, antes de tudo, segundo a condição sócio-cultural de indivíduos e comunidades (onde estas ainda existem!). A resistência à modernidade, sem deixar de assimilar seus avanços técnicos, é mais forte onde melhor se conservam as raízes da cultura tradicional e onde é possível exercer, com espírito crítico, um discernimento. Apesar do seu extraordinário poder, os modernos meios de comunicação de massa conseguem transmitir apenas parcialmente a mentalidade "moderna", alterando concepções e costumes a respeito de família, relacionamento, valores materiais e espirituais, política, religião... A cultura popular evolui, mas nem por isso desaparece ou se submete passivamente à nova cultura de massa.

 

149. As resistências à modernidade são menores nas grandes cidades e no meio da juventude. Entre os jovens convivem elementos aparentemente contraditórios, como: o cultivo de relações amorosas passageiras e a valorização da família, o refluxo sobre si mesmos e a busca de grupos de referência, como rapp, funk, gangues. A comunidade eclesial ainda atrai um número significativo de jovens e a prova disso são os 40 mil grupos que formam a Pastoral da Juventude do Brasil. Há muitos sinais de vida surgindo no meio dos jovens, apesar de poucos estarem engajados e preocupados com as grandes questões do País.

 

150. As reações às tendências dominantes da cultura atual variam, também, segundo a forma de pensamento ou a ideologia de seus críticos. Há um consenso bastante generalizado sobre a necessidade de uma nova postura ética e cultural, que leve não apenas à crítica dos valores da modernidade, mas também à transformação das estruturas econômicas e políticas (do" sistema").

 

Crise ética

 

151. A evolução da sociedade moderna tem trazido também uma grave crise ética, da qual a opinião pública tomou consciência, ao menos parcialmente, nos últimos anos, sobretudo com relação à ética pública.107 Aqui basta retomar o resultado desse processo histórico e ressaltar os desafios que ele apresenta à ação da Igreja neste final de século.

 

152. A tese característica dos pós-modernos é que o pluralismo ético não é somente um fato inevitável, mas um valor e uma garantia das liberdades individuais e das diferenças culturais. Um  pluralismo ético "de fato" era reconhecido, geralmente, desde o século XVIII e, sobretudo, após o desenvolvimento dos conhecimentos antropológicos no século XIX. Significava tomar consciência de que as diversas etnias, civilizações e culturas se inspiravam em valores ou princípios éticos diferentes. Mas era convicção da modernidade que a razão humana, considerada única e universal pelo pensamento iluminista, poderia reconduzir a ética a princípios igualmente universais e aceitáveis por todos.

 

153. A pós-modernidade, ao contrário, desconfia desta razão universal, à qual atribui pretensões totalitárias, historicamente responsáveis pelo esmagamento ou a tentativa de eliminação das diferenças e das minorias e, em última análise, da liberdade individual. Teoriza, ao invés, as vantagens práticas do pluralismo ético, enquanto ele reconhece igual valor a todas as formas concretas e particulares de "ethos", assumidas por indivíduos ou grupos. Além disso, considera inviável a superação teórica das diferenças éticas, pois não haveria ética universal capaz de unificá-las.

 

154. A afirmação de que "nenhuma proposição universal é válida" é, em si mesma, contraditória, pois nega validade universal à própria afirmação. Assim não se pode afirmar a impossibilidade de uma ética universal, embora ainda não se possa dizer — neste momento do debate — qual ela é. Mas reconhecemos que existem esforços neste campo como na Declaração Universal dos Direitos Humanos, na defesa da Democracia como valor e nas buscas de consenso em questões de proteção do meio ambiente. Esta contradição intrínseca da afirmação de um pluralismo ético absoluto torna-se ainda mais clara no plano prático.

Admitindo que todas as concepções éticas sejam igualmente válidas e que não exista uma ética universal, as democracias modernas se encontram diante de um impasse. Não podendo reduzir todos os problemas da convivência social a questões meramente técnicas, racionalmente solúveis, nem podendo apelar para uma concepção ética partilhada por todos, acabam recorrendo ao voto da maioria. Assim fazendo, questões eminentemente éticas (como, por exemplo, as leis sobre o aborto, a assistência a doentes e pobres, a acolhida a imigrantes e estrangeiros...) são resolvidas pelo voto. Isto significa que a concepção da maioria desconsidera ou sacrifica a concepção ética e os direitos das pessoas. "Amplos setores da opinião pública justificam alguns crimes contra a vida em nome dos direitos da liberdade individual" (EV 4). A "defesa das diferenças" acaba se transformando simplesmente na afirmação da vontade do mais forte.

 

155. Esta tendência é hoje dominante nas sociedades "desenvolvidas" e se choca com o ensinamento da Igreja, inspirado na busca de uma liberdade que não sacrifique a verdade, mas sobre ela se fundamente.108 Em outras palavras, a Igreja reconhece uma ética universal, com fundamento ontológico, embora admitindo que o discernimento da norma universal nos casos particulares — na historicidade da existência — possa apresentar sérias dificuldades. A Igreja tem consciência de um particular dever de defesa do valor da pessoa humana porque "pela sua encarnação, Cristo, o Filho de Deus, uniu-se, de certo modo, a cada homem" (GS 22). O Papa João Paulo II não hesita em afirmar: "O Evangelho do amor de Deus pelo homem, o Evangelho da dignidade da pessoa e o Evangelho da vida são um único e indivisível Evangelho" (EV 2).

 

156. Os desafios, que a crise ética atual põe à Igreja, podem ser reduzidos fundamentalmente a dois:

           contribuir para que a sociedade democrática reconheça a necessidade de um fundamento ético comum, além da mera vontade subjetiva dos indivíduos;109

           contribuir para a educação da consciência moral dos cidadãos nas condições específicas da sociedade brasileira, o que exige a superação de um "ethos" tradicional marcado pelo autoritarismo e particularismo, bem como evitar as armadilhas do individualismo moderno na busca de uma ética da solidariedade e do reconhecimento da dignidade de toda pessoa humana.110

 

Pluralismo religioso

 

157. Junto com o pluralismo cultural e ético, a sociedade brasileira é hoje marcada pelo pluralismo religioso. Este pluralismo se acentuou nos últimos anos, tanto no plano quantitativo quanto na variedade das formas. As pesquisas mais recentes parecem confirmar que permanece, no povo brasileiro, uma religiosidade de fundo. Bem poucos são os brasileiros que se declaram ateus ou dizem não acreditar em nada. A Igreja continua como a instituição mais confiável (com 58 % de "confia sempre" e 16% de "confia na maior parte das vezes").111

 

158. A porcentagem dos que se declaram católicos, porém, continua diminuindo. O fenômeno é mais evidente nas cidades e, com o aumento da urbanização, tornou-se ultimamente mais visível. Hoje estão disponíveis os dados de pesquisas por amostragem que, mesmo podendo ter pequena margem de erro, são adequados para delimitar o fenômeno. Uma pesquisa de agosto/setembro de 1994, que sondou as preferências eleitorais de quase 21.000 eleitores, encontrou uma porcentagem de cerca de 75% de católicos, de 20% de outras religiões e 5% sem religião nenhuma.112

 

159. Entre os que declaram pertencer a outras religiões, 3,4% dos eleitores são protestantes "históricos" ou tradicionais; 9,9% são protestantes pentecostais; 3,5% são espíritas kardecistas; 1,3% se dizem ligados a cultos afro-brasileiros; e 2% pertencem a outras religiões ainda (como islamismo, judaísmo, budismo, Seicho-no-iê, Perfeita Liberdade etc.).

 

160. Uma novidade dessa pesquisa é que ela procurou medir também a diversidade interna do catolicismo. Assim os católicos incluiriam 1,8% dos eleitores (ou seja, quase dois milhões de pessoas) ligados às CEBs, 3,8% dos eleitores (ou quase 4 milhões de pessoas) ligados à RCC (Renovação Carismática Católica) e 7,9% dos eleitores (ou quase 8 milhões de pessoas) ligados a outros movimentos católicos (de jovens, de casais etc.). Os outros católicos (61,4% da população) não estão ligados a nenhum movimento específico e são classificados como "tradicionais". As diferenças nas intenções de voto dos diversos grupos confirmam a diferenciação interna, ao menos no plano ideológico e político, dos católicos.

 

161. O pluralismo é maior nas grandes cidades, onde a porcentagem de católicos é a mais baixa; por exemplo: Rio de Janeiro, 59,3%; São Paulo, 65,2%; Salvador, 65,3%. Os católicos são proporcionalmente menos numerosos nas Capitais e Regiões metropolitanas; estão próximos da média geral nas cidades grandes e médias do interior; são proporcionalmente mais numerosos que as outras religiões nas cidades pequenas. Os números apontam, portanto, para os católicos, o desafio da pastoral das grandes cidades. Mas também as outras religiões têm uma distribuição geográfica que não é uniforme. Em geral, todas elas são relativamente mais numerosas nas Capitais e Regiões metropolitanas do que no interior. Muito fraca é a presença de espíritas e kardecistas nas cidades pequenas. Os pentecostais estão mais presentes nas cidades pequenas do que nas médias e grandes do interior.

 

162. Há diferenças notáveis também entre Estados e Regiões. A Região mais católica do Brasil é o Nordeste (80,4% de católicos entre os eleitores), seguida pela Região Sul (78,4%). Mais fraca é a presença católica no Sudeste (71.4%) e nas Regiões Norte e Centro-Oeste (71,2%). Nestas últimas há a maior concentração de pentecostais (14,6%, enquanto a média nacional é 9,9%). Os protestantes históricos (no caso, principalmente luteranos) são mais numerosos no Rio Grande do Sul (7,4% da população com direito a voto). Os espíritas kardecistas (média nacional: 3,5%) são mais freqüentes nas Cidades de São Paulo (8%) e Rio de Janeiro (7,5%). O candomblé é mais numeroso em Salvador (mesmo assim apenas 2,1% se declaram ligados a esta religião) Os cultos afro-brasileiros em geral são mais presentes na cidade do Rio de Janeiro (4,9%), que também é o lugar onde um maior número (11,1%) se declara sem religião.

 

163. A simples declaração da pertença a uma ou outra religião, como na pesquisa acima citada, permite traçar um quadro apenas geral da configuração religiosa do País. É sabido, por exemplo, que há muitos brasileiros com dupla pertença religiosa ou que transitam com facilidade de uma religião a outra, ou ainda constróem sua própria visão religiosa com elementos de diversas procedências. Além do mais, a pesquisa citada não considera a maior ou menor assiduidade à prática religiosa. É importante, por isso, procurar fazer uma análise qualitativa do fenômeno. Ela não difere muito daquela que já fazíamos há quatro anos.113

 

164. Um primeiro fenômeno a ser assinalado, ligado à tendência moderna para o individualismo, é o elevado número de brasileiros que reduzem a religião a uma convicção interior, pessoal, a uma religião "invisível", que abandona total ou quase totalmente as práticas comunitárias. As pesquisas recentes indicam, nas grandes cidades, que 8 a 10% das pessoas — principalmente homens abaixo dos 50 anos — declaram-se desligados de qualquer religião. Além disso, há uma porcentagem elevada de católicos (cerca de 2/3) que têm uma prática religiosa rara ou nula. É este, certamente, o maior desafio para a ação evangelizadora da Igreja.

 

165. Entre os que aderem a outras Igrejas cristãs ou a outras religiões, a prática religiosa é alta. Entre elas, porém, há pessoas que freqüentam, não raro, mais de uma religião ou trocam de Igreja com relativa facilidade, ou ainda misturam elementos e práticas de religiões diferentes. Entre os próprios católicos, embora em medida menor, há alguma tendência a confundir crenças e práticas de outros cultos (por exemplo, muitos acreditam na reencarnação, sem ter clara consciência das implicações espíritas dessa doutrina).

 

166. As causas da situação atual estão, de um lado, no impacto da modernidade, com o processo de desagregação e desenraizamento da cultura tradicional, uma acelerada urbanização, contínuas migrações, atividade missionária de Igrejas e seitas etc. Por outro lado está a história do catolicismo brasileiro, em grande parte constituído por devoções aos santos, transmitidas de geração em geração no ambiente rural e nas famílias, mas pouco assistido pastoralmente por um clero escasso e mal distribuído. Isto trouxe como conseqüência a falta de uma iniciação cristã e de uma ligação estável e consciente do povo com os sacramentos e com a instituição eclesial.

 

167. Compreende-se, assim, como muitos católicos não receberam claramente o primeiro anúncio de Jesus Cristo, nem passaram pelo processo de crescimento e amadurecimento pessoal da fé, através de uma verdadeira experiência catequética. Não é, então, de se estranhar que estes católicos não sintam uma vinculação atual com a Igreja e sejam atraídos por outras religiões, agora que mudaram as condições culturais, em especial pela acelerada urbanização.

 

168. Outro fato, que ajuda a compreender os dados e as pesquisas, é a coincidência da renovação conciliar com a aceleração do processo de modernização de nossa sociedade.          Um terço dos católicos declaram participar regular ou assiduamente da vida da Igreja. Neles podemos reconhecer o contingente de leigos mais conscientes, que assumiram a renovação conciliar. A grande porcentagem dos que estão desligados de qualquer prática religiosa católica coincide com o expressivo número dos que têm enfraquecido os laços religiosos tradicionais. Não se identificam mais com suas devoções antigas, nem aderiram à nova orientação da Igreja.

 

169. A renovação pastoral recente tem melhorado notavelmente a prática religiosa e o apostolado social dos católicos mais ligados às comunidades eclesiais e aos novos movimentos, desde a Ação Católica até os mais recentes. Mas a maioria dos católicos ainda não participa da vida da Igreja, nem é alcançada pela ação evangelizadora. Depois de quase 500 anos de evangelização, o Brasil ainda é um País de missão. O clero é ainda relativamente escasso (1 padre para cerca de 7.500 católicos). Apesar dos recentes progressos, a evangelização precisa da multiplicação das vocações sacerdotais e religiosas e da atuação dos leigos.

 

170. O contexto da modernidade, gerador de mudanças e, portanto, de provisoriedade e incerteza, tem produzido reações diversas. Alguns rejeitam radicalmente a modernidade e se apegam exclusivamente ao passado. Muitos buscam alguma forma de segurança.

Esta busca de segurança pode se manifestar em duas atitudes religiosas tendencialmente opostas: o fundamentalismo, que encontra a segurança na aceitação cega de formulações históricas da fé, tidas como originárias e imutáveis, e o sentimentalismo, que valoriza a religiosidade enquanto faz parte dos sentimentos e emoções do indivíduo, e, portanto, constitui uma experiência pessoal e subjetiva indiscutível.

 

171. Terminamos esboçando, com base na sugestão de um estudioso,114 um quadro de conjunto, procurando cruzar os dados sócio-culturais com as atitudes propriamente religiosas. Podemos distinguir cinco situações ou faixas de população:

            pessoas ou grupos de inspiração católica e cristã de tipo tradicionalista, com uma visão fixista da fé, desvinculada da vida, que não percebem as exigências éticas do Evangelho e geram ou conservam as estruturas injustas da sociedade, a pobreza e a violência;

            pessoas ou grupos com profunda religiosidade católica popular que têm uma vivência profunda da fé, mas em termos pré-modernos, com pouca articulação entre a fé e a ética; são, porém, as vítimas e não os responsáveis pela situação de injustiça, que os faz sofrer; são a grande maioria dos pobres, talvez um terço da nossa população;

            pessoas ou grupos que pertencem ao Brasil "moderno" e que geralmente não têm uma inspiração religiosa (ou evangélica) em sua vida; são "secularizados", mas ocupam um lugar privilegiado nos modernos meios de comunicação social e como formadores de opinião, propondo novos sentidos, valores, padrões de comportamento e relações;

            pessoas e grupos, talvez pouco numerosos ainda, que representam a emergência de uma nova cultura e de um empenho de inspiração cristã na transformação da sociedade, na busca de uma convivência mais humana e de relações sociais mais justas;

            pessoas e grupos marginalizados, que a Igreja atinge apenas em parte e com grande dificuldade; pessoas marcadas por um contexto opressor e desumano, como é o mundo do crime, da prostituição, das drogas, dos menores abandonados...

 

172. O quadro da situação religiosa é hoje particularmente complexo e diversificado. Ele se apresenta com múltiplos desafios à ação evangelizadora e pastoral da Igreja. Ele exige que esta ação, para ser eficaz, também se diversifique e se adapte às diversas situações a que se dirige, sem perder com isso sua unidade fundamental de inspiração e uma articulação adequada. A isso visam as diretrizes pastorais, que agora, com a graça de Deus, vamos procurar discernir e explicitar.

 

4. ORIENTAÇÕES PRÁTICAS PARA A AÇÃO     EVANGELIZADORA E PASTORAL

 

Sumário

 

           A evangelização é uma realidade complexa, que inclui exigências irrenunciáveis. Desde o Novo Testamento se destacam serviço (diakonia), diálogo, anúncio (kérygma), testemunho (martyria) da comunhão eclesial (koinonia)

           No processo da evangelização, essas exigências podem representar etapas, mas na comunidade eclesial madura e vital, devem estar todas presentes e integradas.

 

Por uma evangelização inculturada

 

           A evangelização, nos seus diversos aspectos, tem como critério geral a inculturação

           Na América Latina, hoje, a evangelização é desafiada a inculturar-se: 1) nas culturas indígenas, afro-americanas e mestiças; 2) na cultura moderna e urbana

           Particularmente desafiantes são o conflito entre tradição e modernidade e o discernimento crítico dos valores e limites da modernidade

           A inculturação é um longo processo, que tem por sujeito o povo que acolhe o Evangelho em sua cultura e que exige dos evangelizadores uma atitude de solidariedade, mas também de discernimento ou crítica.

 

    Serviço e participação na transformação da sociedade pelo bem dos pobres

 

           Os cristãos são solidários com a sociedade humana e empenhados na luta pela justiça e a libertação integral, a partir de uma opção evangélica e preferencial pelos pobres

           Dois desafios urgentes no Brasil, hoje:

a)            Na luta contra a pobreza, unir ao socorro imediato e urgente a busca de reformas das estruturas geradoras de exclusão, em colaboração com a sociedade civil

b)            Na proposta da ética pública, dialogar com os diversos setores da sociedade e formar a consciência moral dos católicos, com ênfase na responsabilidade social.

 

    Diálogo com as culturas e outras religiões

 

           O diálogo com as outras religiões nasce da certeza de que o Espírito Santo opera também nelas e nas diversas culturas humanas

           Importância peculiar do ecumenismo entre as Igrejas cristãs

           Compromisso da Igreja no Brasil com a defesa e promoção das culturas indígenas e afro-brasileiras

           Urgência do diálogo com a cultura moderna e os setores da nossa sociedade que a representam

           Necessidade, para a Igreja católica, de investir no estudo e na promoção do diálogo inter-religioso e ecumênico e de acentuar a dimensão ecumênica em toda a sua catequese e pedagogia pastoral.

 

    Anúncio do Evangelho

 

           O anúncio de Jesus Cristo é o centro ou vértice da evangelização

           O anúncio é missão de todos os cristãos, mas deve ser feito no contexto de um diálogo com a cultura dos destinatários do anúncio

           O desafio que o mundo de hoje põe ao anúncio do Evangelho é enorme: no Brasil, há uma maioria de católicos não-praticantes, pessoas que não aderem publicamente a nenhuma religião, não-cristãos... no mundo, especialmente na Ásia e na África, há inúmeros não-cristãos...

           Orientações para a evangelização dos católicos não-praticantes, com especial atenção à pastoral urbana e aos jovens.

 

    Vivência e testemunho da comunhão eclesial

 

           A evangelização gera a fé e constrói, no fiel, um itinerário de amadurecimento do "homem novo" em Cristo

           A evangelização, suscitando a fé nas pessoas, cria a comunhão entre elas e entre as várias comunidades cristãs

           Na atualidade, é extremamente importante oferecer a jovens e adultos um itinerário de crescimento na fé e uma catequese articulada com a vida cristã, considerando que família e sociedade pouco contribuem para a educação da fé

           Esta tarefa exige comunidades eclesiais acolhedoras, que valorizem as pessoas e as ajudem a integrar fé e vida

           Exigências decorrentes: reconhecer todo cristão como sujeito; favorecer o acolhimento e a participação; estimular o encontro com a Palavra de Deus e a celebração vital dos sacramentos; valorizar as diversas dimensões da pessoa humana e da família, acompanhando e orientando a experiência espiritual, o empenho na sociedade, a educação, as associações de fiéis; dinamizar a paróquia como rede de comunidades, favorecendo a participação e o diálogo de CEBs e movimentos eclesiais, na busca da comunhão fraterna.

 

173. As orientações pastorais deste capítulo têm como base a experiência pastoral da Igreja no Brasil (cap. I), a teologia da evangelização desenvolvida no âmbito de toda a Igreja (cap. II ) e as recentes mudanças sócio-culturais (cap. III ). Elas foram organizadas ao redor de cinco itens: o primeiro, a inculturação, representa um critério geral da ação evangelizadora, como mostra o documento de Santo Domingo;115 os outros quatro itens — serviço, diálogo, anúncio e testemunho da comunhão — são exigências ou aspectos distintos, mas complementares, da própria ação evangelizadora e pastoral.

 

174. A escolha dessas quatro exigências, embora não sendo a única possível, certamente tem fundamento no próprio Novo Testamento. Nele emergem como aspectos constitutivos da evangelização o serviço ("diakonia"), que a Igreja presta ao mundo e, especialmente, aos pobres;116 o diálogo, que ela mantém com os fiéis de outras religiões;117 o anúncio ("kérygma") da morte salvífica e da ressurreição de Cristo;118 o testemunho (martyria) da comunhão fraterna ("koinonia"), em que os primeiros cristãos repartem o pão e a palavra, os bens materiais e os bens espirituais.119

 

175. Recentes documentos do Magistério, como aquele do Secretariado para os não-crentes de 10.6.1984, retomando uma intuição da "Evangelii Nuntiandi",120 descrevem a missão da Igreja ou evangelização como uma realidade complexa, que inclui vários elementos. "A missão apresenta-se, na consciência da Igreja, como uma realidade unitária, mas complexa e articulada. Podem ser indicados os seus elementos principais. A missão é constituída já pela simples presença e pelo testemunho vivo da vida cristã,121 mesmo se se deve reconhecer que levamos este tesouro em vasos de argila,122 e por isso a diferença entre o modo como o cristão aparece, existencialmente, e aquilo que afirma ser, nunca desaparece. Há, depois, o empenho concreto ao serviço dos homens e toda a atividade de promoção social e luta contra a pobreza e as estruturas que a provocam. Há a vida litúrgica, a oração e a contemplação, testemunhos eloqüentes de uma relação viva e libertadora dos membros da Igreja entre si, com o mundo e com o Deus vivo e verdadeiro, que nos chama ao seu Reino e à sua glória.123

Há o diálogo, no qual os cristãos encontram os que seguem outras tradições religiosas para caminhar juntos em direção à verdade e colaborar em ações de interesse comum. Há o anúncio e a catequese, quando se proclama a boa notícia do Evangelho e se aprofundam as conseqüências para a vida e a cultura. Tudo isto faz parte do conceito de missão".124

 

176. Os diversos aspectos da evangelização podem ser vistos como etapas, quando se considera idealmente a aproximação de uma cultura ou de um grupo não evangelizado. Neste caso, o evangelizador começa pela presença e presta serviços de promoção humana; gradativamente pode encaminhar o diálogo religioso e, a partir daí, anuncia explicitamente o Evangelho, até criar condições plenas de vivência e comunhão cristã. Em nossa realidade brasileira, o mais das vezes toda a comunidade cristã é chamada a viver conjuntamente os diversos aspectos da missão da Igreja.

Confirma-o, inclusive, a recente pesquisa sobre as comunidades católicas, onde mais de 40.000 respostas atestam que raramente as comunidades desenvolvem um só aspecto da existência cristã, mas ou são comunidades vivas — que unem a celebração à oração, à reflexão à luz da Palavra, o compromisso do serviço aos irmãos na promoção social e na conscientização política e o empenho missionário — ou são — algumas vezes — comunidades que definham na passividade e na acomodação. De qualquer forma, o evangelizador — mesmo que empenhado especialmente numa das tarefas da evangelização — não deixará de se manter em comunhão profunda com a Palavra, a Liturgia e a vida fraterna da comunidade cristã, se não quiser se tornar — mais cedo ou mais tarde — o ramo seco que perdeu a seiva vital que provém do tronco.125

 

177. No planejamento pastoral, desde o PPC de 1966-1970,126 foram adotadas seis linhas de ação, depois pensadas mais exatamente como dimensões. Elas correspondem fundamentalmente às exigências intrínsecas da evangelização agora descritas:

            o serviço se concretiza especialmente na dimensão sócio-transformadora (linha 6);

            o diálogo se concretiza na dimensão ecumênica e do diálogo religioso (linha 5);

            o anúncio se concretiza na dimensão missionária (linha 2);

            o testemunho da comunhão se concretiza na dimensão comunitário-participativa (linha 1), que se alimenta nas fontes da Palavra (dimensão bíblico-catequética — linha 3) e da liturgia (dimensão litúrgica — linha 4).

A nossa apresentação das exigências da evangelização acentua o aspecto missionário da vida da Igreja e por isso foi assumida nestas Diretrizes. A organização pastoral segundo as 6 linhas ou dimensões tem caráter mais prático e deve ser mantida onde continua funcional.

 

Por uma evangelização inculturada

 

178. A evangelização sempre se realizou dentro de um processo de inculturação, por vezes, conflitivo. Mas o termo "inculturação" só nos anos 60 foi usado pela missiologia e entrou pela primeira vez num documento pontifício, "Catechesi Tradendae" (1979), onde designa o processo de inserção da Igreja na cultura de um povo, o que "significa a íntima transformação dos valores culturais autênticos, pela sua integração no cristianismo e o enraizamento do cristianismo nas várias culturas".127 O termo quer distinguir nitidamente a inculturação da Igreja ou da fé cristã frente a contatos entre culturas diferentes, que a antropologia designa como adaptação, aculturação etc.128

Desafios atuais

 

179. Atualmente, na América Latina e no Brasil, a evangelização é desafiada a tornar-se "inculturada", principalmente por dois processos que estão em ato, distinta mas simultaneamente: 1) o encontro do Evangelho com as culturas indígenas, afro-americanas e mestiças;129 2) o encontro com a cultura moderna particularmente no meio urbano.130

 

180. Tomar consciência desses desafios implica:

            admitir a necessidade de que a evangelização das culturas indígenas, afro-americanas e mestiças parta do acolhimento de seus valores humanos e das "sementes do Verbo" nelas presentes,131 contrariamente às atitudes de desprezo e opressão praticadas muitas vezes no passado e pelas quais se pede perdão;132

            procurar, portanto, aproximar-se dessas realidades culturais em atitude de escuta, simpatia e compreensão, para também crescer "no conhecimento crítico" destas culturas, "para apreciá-las à luz do Evangelho";133

            reconhecer as características específicas e inéditas das culturas moderna e pós-moderna de origem ocidental, que — diferentemente das outras culturas — não têm a religião como eixo central e estão marcadas por um forte pluralismo, até à fragmentação, e por tendências secularistas.134

 

181. Na situação que acabamos de evocar, dois problemas se destacam como mais urgentes para a evangelização:

            o conflito entre tradição e modernidade;

            o discernimento cristão dos valores da modernidade.

 

182. O conflito entre tradição e modernidade não desafia apenas a fé cristã e a evangelização. É um problema atual para todas as culturas. A modernidade se constituiu a partir da pretensão de rejeitar a tradição. Ela pretendeu submeter tudo ao exame crítico da razão e à experimentação. Por isso, a modernidade tende para um dinamismo e uma mudança incessantes. Questiona suas próprias conquistas e busca continuamente inovações. No plano ético, valoriza a liberdade individual e incentiva o indivíduo a buscar os critérios de seu comportamento a partir de si mesmo, de sua razão e liberdade, assumindo uma atitude autônoma e crítica face aos valores tradicionais.

 

183. A Igreja, diante da modernidade, representada pelo iluminismo e pelo liberalismo, assumiu no século XIX uma atitude predominantemente defensiva, reafirmando seus conceitos de verdade, de Revelação e de Tradição.135 Face, porém, aos totalitarismos do século XX, a Igreja se empenhou sempre mais na defesa da liberdade e dos direitos fundamentais da pessoa humana. O Concílio Vaticano II, com a declaração "Dignitatis Humanae" (1965), reconheceu que o regime moderno das liberdades civis é o mais conveniente também em matéria de liberdade religiosa. Isso significa que a pessoa não pode ser forçada na escolha da sua religião; por outro lado, a pessoa conserva a obrigação moral de buscar a verdade.

 

184. Mas a recente evolução da mentalidade moderna reabriu o debate, também dentro da Igreja, sobre valores e limites da modernidade. Esta tende hoje para um subjetivismo absoluto, que caminha para a negação de qualquer verdade e valor universal e para o niilismo e a "morte do homem". Em reação a este radicalismo, alguns cristãos optam pelo fundamentalismo e a rejeição total da modernidade. O Magistério da Igreja, em particular o Papa João Paulo II, estimula os católicos a um discernimento.136 Trata-se de reafirmar o valor incomparável da pessoa e da vida humana, mas sem cair na armadilha do subjetivismo e da negação da verdade, que acabariam destruindo exatamente aquela liberdade que o homem moderno deseja gozar.

 

185. Neste contexto, a tradição religiosa não é mais transmitida com tranqüilidade e segurança pelas famílias e, tanto menos, pela sociedade. Por isso, a fé deve ser comunicada por um trabalho consciente de iniciação e educação cristã. A nossa sociedade tornou-se "terra de missão", onde a evangelização inculturada é a primeira exigência para a Igreja.

 

Algumas exigências práticas

 

186. As exigências práticas da inculturação da fé são aqui indicadas em linhas gerais. Serão concretizadas mais amplamente nos itens seguintes, tratando da inculturação, no serviço, no diálogo, no anúncio, na liturgia e catequese.

 

187. A primeira exigência da inculturação é pensá-la como um processo de longa duração,137 o que implica prever de antemão uma caminhada com diversas etapas, sem a pretensão de alcançar imediatamente as metas que indicam o rumo do processo.

 

188. A segunda exigência é reconhecer que sujeito da inculturação não é o Evangelho (abstratamente considerado), nem o missionário ou o evangelizador, mas o povo ou comunidade que se abre ao Evangelho, o acolhe e se deixa por ele transformar. Isto, evidentemente, não exclui um papel inicial ou intermediário do evangelizador ou missionário, mas subordinado ao crescimento na fé e discernimento cristão da própria comunidade. Tanto menos exclui a ação do Espírito, que prepara pessoas e comunidades para o encontro com o Evangelho

 

189. A terceira exigência é que a atitude inicial e básica da comunidade que busca a inculturação do Evangelho seja uma atitude de abertura à graça do Evangelho a partir dos valores de sua própria cultura: uma atitude de escuta e de acolhida, como a do discípulo, que está em busca da verdade sem preconceitos e sem antecipar conclusões.

 

190. A quarta exigência é que, na medida em que uma comunidade cristã avança na inculturação do Evangelho, mantenha firmes tanto a atitude de solidariedade com a cultura em que está inserida quanto a atitude de crítica ou discernimento à luz do Evangelho, que ilumina, purifica, transforma toda cultura, pois a todas elas transcende. A experiência missionária e da história mesmo recente do cristianismo assinalam acentuações diversas, ora da solidariedade, ora da crítica, em razão das circunstâncias concretas ou dos "sinais dos tempos".

 

         Serviço e participação na transformação

         da sociedade pelo bem dos pobres

 

a) Fundamentação

 

191. O Novo Testamento atesta claramente que os primeiros cristãos se sentiram chamados por Deus a prestar um serviço (diakonia) aos pobres, dentro e fora da comunidade eclesial.138 O ideal, inspirado pelo Antigo Testamento, é que não haja necessitados entre eles.139 Mesmo quando se recomenda uma atenção prioritária aos "irmãos na fé", não falta o apelo a "fazer o bem a todos".140 E se, dentro das circunstâncias da época, houve pouca participação política dos cristãos, eles não faltaram às suas obrigações civis e não deixaram de rezar pelos governantes, mesmo os perseguidores.141 Nisto os primeiros cristãos têm consciência de seguir o exemplo de Jesus, enviado para evangelizar os pobres142 e, ele mesmo, exemplo de pobreza voluntária.143

 

192. A solidariedade com todos os seres humanos é, para os cristãos de hoje, cidadãos de uma sociedade muito mais complexa que a do tempo de Jesus, uma exigência igualmente irrenunciável, intrínseca à própria fé no Deus, Pai de todos. É o que afirma o Concílio Vaticano II na abertura da "Gaudium et Spes": "As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos os que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo".144 Por outro lado, o Concílio afirma — juntamente com a exigência da solidariedade — o respeito da justa autonomia das realidades terrestres ou temporais.145

 

193. A evolução do Magistério eclesiástico, nos anos seguintes, trouxe novas acentuações, que complementam as teses do Concílio. Já o Sínodo dos Bispos de 1971 afirma que "a ação pela justiça e a participação na transformação do mundo aparecem claramente como uma dimensão constitutiva da pregação do Evangelho, isto é, da missão da Igreja para a redenção do gênero humano e a libertação de toda opressão".146 A Evangelii      Nuntiandi 147 do Papa Paulo VI, à luz do Sínodo de 1974, retoma a tese e explicita seus fundamentos. Mostra os laços de ordem antropológica, teológica e evangélica que unem evangelização e promoção humana (ou libertação ou desenvolvimento integral). Outros esclarecimentos foram trazidos pelas Instruções Libertatis nuntius (1984) e Libertatis conscientia (1986).

No mesmo período, o Episcopado brasileiro explicitou as conseqüências para a sociedade brasileira da ética social cristã e apontava desde as "Exigências cristãs da Ordem Política" (1977) até os princípios "Por uma nova Ordem Constitucional" (1986) e as "Exigências éticas da Ordem democrática" (1989). Recentemente, o documento de Santo Domingo não hesitou em definir, ao menos para a América Latina, a promoção humana como "dimensão privilegiada da nova evangelização",148 como de certo modo já tinha feito Redemptoris Missio149 com relação aos países pobres do Sul do mundo.

 

194. Junto com a reflexão sobre a responsabilidade da Igreja na promoção do desenvolvimento "do homem todo e de todo homem",150 avançou também a consciência da evangélica  opção preferencial pelos pobres. Ela encontra uma primeira expressão no n. 8 de "Lumen Gentium", é explicitada nas Conferências do Episcopado latino-americano de Medellín (1968) e Puebla (1979), confirmada em Santo Domingo (1992) 151 e assumida pela Igreja no Brasil.152 A opção pelos pobres se revela como tendo uma dupla motivação e finalidade: 1) ela é condição necessária e irrenunciável do caráter evangélico da ação da Igreja, ou seja, de sua fidelidade a Cristo que "se fez pobre... para nos enriquecer com sua pobreza";153 2) ela é condição necessária para discernir criticamente entre as políticas sociais, que se pretendem ao serviço de todos, mas freqüentemente beneficiam apenas os mais fortes e descuidam dos últimos e dos excluídos, os "preferidos de Deus".

 

               b) Urgências

 

195. As urgências do desenvolvimento e da promoção humana no plano mundial têm sido objeto de análises pertinentes e apelos dramáticos por parte dos últimos Papas.154 As urgências da promoção humana em nosso País têm sido objeto de cuidados do Episcopado brasileiro e das pastorais sociais, desde os primeiros movimentos de renovação pastoral.155

 

196. À luz da análise da atual situação sócioeconômica e ético-política,156 parece-nos que os serviços mais urgentes que as comunidades cristãs podem prestar à sociedade brasileira são o empenho na luta contra a pobreza e a exclusão 157 e a contribuição para a criação de um novo sentido de responsabilidade na ética pública.158

 

c) Indicações práticas

 

197. Os documentos citados contêm orientações práticas que se estendem aos numerosos campos em que atuam nossas pastorais sociais: o cuidado com as crianças e as gestantes, a assistência aos menores abandonados, a defesa dos direitos de índios e posseiros, o apoio a movimentos sociais e sindicais, a pastoral da saúde e as obras educacionais, os cuidados específicos a doentes, idosos, drogados, aidéticos, vítimas da prostituição etc.         A tarefa do serviço ou diakonia, contudo, não deve ficar restrita às pastorais sociais ou a grupos especializados, mas deve ser assumida por toda a comunidade eclesial — CEB, paróquia, Diocese, movimentos... — como sinal privilegiado do seguimento daquele que veio para servir e não para ser servido.159 Uma comunidade insensível às necessidades dos irmãos é um contra-testemunho, que celebra a liturgia indignamente.160

 

198. Os católicos devem contribuir também para o melhor conhecimento da realidade social e de seu dinamismo. Recentemente a Santa Sé criou a Pontifícia Academia de Ciências Sociais e encorajou a realização de Semanas Sociais em diversos países.

 

199. O empenho da Igreja pela promoção humana e pela justiça social exige também um amplo e decidido esforço para educar os católicos ao conhecimento da Doutrina Social da Igreja, para que ela penetre nas consciências como decorrência ética impreterível da própria fé cristã. É lamentável que a ética social cristã apareça a muitos, mesmo entre o clero, apenas como opção facultativa ou generoso empenho de poucos. Ela deve ocupar lugar de destaque em nossos programas de formação e na própria pregação inspirada pelo Evangelho.161

 

200. Convém que, sem adiar o socorro imediato e urgente às situações de maior carência (fome, doenças...), as iniciativas das pastorais sociais se voltem para o combate às causas destas carências, promovendo — em parceria com outras organizações da sociedade civil e as autoridades públicas — a criação de empregos, a multiplicação das oportunidades de educação, a assistência sanitária, a melhoria das condições de higiene e saneamento etc. O empenho consciente neste trabalho social levará a questionar e lutar por transformar as estruturas e as decisões políticas que influem sobre estas situações e o absolutismo da economia de mercado, que se sobrepõe às outras dimensões da vida humana e gera a exclusão daqueles que não são economicamente úteis.

 

201. Nossa participação na transformação social e no serviço aos pobres seja feita em colaboração com outras instituições da sociedade civil e em parceria com instituições públicas, em todos os níveis, começando pelo nível local. O trabalho social deve promover a organização dos movimentos sociais ou populares, visando a que os oprimidos e excluídos se tornem sujeitos de sua própria libertação e da edificação de novas formas de solidariedade.

 

202. Num mundo de reestruturação produtiva e de aceleradas mudanças, há que estar atento à grande rotatividade de migrantes em busca de trabalho e de moradia. As estruturas pastorais devem adaptar-se aos que vivem na mobilidade forçada e não se enquadram nos limites e esquemas territoriais de paróquias e Dioceses. Igualmente merecem atenção os novos migrantes estrangeiros, sobretudo latino-americanos sem documentação, que em busca de sobrevivência se encontram em situação de não cidadania e discriminação.

 

203. A mesma preocupação de formar uma consciência moral e uma prática social de inspiração cristã leva a Igreja a incentivar o diálogo e a reflexão de teólogos, cientistas e profissionais acerca dos novos problemas de ordem ética que o avanço das ciências suscita em vários campos do saber e do agir humanos.

Sejam lembradas, a título de exemplo, as novas responsabilidades na defesa da vida, na preservação do meio ambiente, na manipulação do patrimônio genético, no tratamento das doenças, na proteção dos direitos à informação e à privacidade etc. Especial atenção seja dada à recente Encíclica do Papa João Paulo II, "Evangelium Vitae", que traça diretrizes para anunciar, celebrar e servir o "Evangelho da Vida", visando contribuir para uma nova cultura da vida humana.162

 

204. Finalmente, todos procurem fortalecer e estender a ativa participação na cidadania, em todos os níveis da vida social, de modo que o exercício da democracia se torne efetivo através do exercício de direitos e deveres para com a sociedade por parte de todos.

 

Diálogo com as culturas e as outras religiões

 

a) Fundamentação

 

205. O Concílio Vaticano II considera as diversas religiões dos povos ordenadas ao único Povo de Deus163 e declara nada rejeitar "do que há de verdadeiro e santo nestas religiões".164 A encíclica Redemptoris Missio, bem como o documento Diálogo e Anúncio reconhecem que o Espírito Santo age sem limites de tempo ou espaço, fazendo germinar as sementes do Verbo nas religiões e nos esforços humanos à procura da verdade e do bem.165 Por isso — continua a Encíclica — as relações da Igreja com as religiões baseiam-se numa dupla consideração: "respeito pelo homem na sua busca de respostas às questões mais profundas da vida, e respeito pela ação do Espírito nesse mesmo homem".166

206. A Igreja vê nesta ação o mesmo Espírito que prepara o anúncio do Evangelho e o reconhecimento de Cristo e da Igreja. Em Pentecostes, o Espírito se dirige a todos os povos, em suas línguas e culturas.167 Assim se revela que o mistério de Cristo preexiste à encarnação do Verbo,168 a qual por sua vez "manifesta plenamente o homem ao próprio homem e lhe descobre a sua altíssima vocação".169

 

207. A Igreja crê, portanto, na importância do diálogo entre as religiões e, mais amplamente, entre as culturas, das quais a religião é muitas vezes a alma.170 Trata-se de um diálogo a respeito da salvação, que prolonga o diálogo com que o próprio Deus "ofereceu e continua a oferecer a salvação à humanidade".171 No diálogo inter-religioso não se procuram apenas a compreensão mútua e relações amistosas. "Mediante o diálogo, os cristãos e os outros são convidados a aprofundar o seu empenho religioso e a responder, com crescente sinceridade, ao apelo pessoal de Deus e ao dom gratuito que ele faz de si mesmo...".172 Em outras palavras, o diálogo é apelo para uma conversão mais profunda de todos para Deus.173

 

208. O diálogo inter-religioso não deve ser instrumentalizado a outras finalidades. Ele é legítimo e necessário na missão evangelizadora da Igreja.174 Ele contribuirá, normalmente, para criar condições favoráveis para que o cristão possa dar testemunho da sua fé e anunciar Cristo Salvador de toda a humanidade.175

 

209. O diálogo já possui em si mesmo seu próprio valor. Pode ser praticado de diversas formas: a partir da vida, na cooperação em obras comuns de serviço, através do intercâmbio da experiência religiosa ou espiritual ou mesmo no diálogo teológico dos peritos.176 O mais importante é reconhecer e praticar as disposições que tornam o diálogo autêntico e proveitoso: equilíbrio, que une abertura e realismo; convicção, que permite expressar com sinceridade e integridade a própria fé; busca do aprofundamento da verdade, inclusive da compreensão mais completa da própria fé; disposição para acolher com gratidão os dons de Deus e os frutos do próprio diálogo.177       Dessa forma, o diálogo contribuirá, não para dar impressão de relativismo religioso, nem para pôr em dúvida a identidade católica, mas para torná-la mais consciente e firme, mais rica e madura.

 

210. Premissa e fundamento do diálogo é o reconhecimento da liberdade religiosa, assim como é formulada pelo Concílio Vaticano II178 e o Magistério pontifício.179 Ela não é exaltação de um subjetivismo sem limites, mas a condição mais conveniente à dignidade da pessoa humana na procura da verdade, procura que faz parte dos direitos e obrigações de todo ser humano.

 

211. O diálogo com os cristãos de outras Igrejas e Comunidades Eclesiais — o "ecumenismo" em sentido estrito — merece uma atenção especial, pela comunhão em Cristo que nos une, embora imperfeita em certos aspectos.180 Fundamentos e orientações do ecumenismo cristão, além de encontrar sua expressão básica no decreto conciliar "Unitatis Redintegratio", são hoje formulados e atualizados no recente "Diretório Ecumênico" da Igreja Católica.

 

b) Urgências

 

212. Em nosso contexto brasileiro e latino-americano, é urgente, antes de tudo, assegurar a subsistência das diversas culturas indígenas, discernindo nelas os verdadeiros valores, nos quais a Igreja reconhece a presença de "sementes do Verbo". A Igreja, com seus pastores e fiéis, particularmente através de dedicados e corajosos missionários, empenha-se para que as comunidades indígenas tenham seus direitos reconhecidos, suas terras demarcadas e protegidas, suas culturas preservadas dentro do dinamismo que lhes é próprio.181

 

213. Igualmente a Igreja se empenha para que as tradições culturais e religiosas afro-brasileiras e afro-americanas sejam respeitadas, valorizadas e apoiadas, na busca de sua continuidade e de seu desenvolvimento, abrindo caminho para uma maior aproximação com o catolicismo.182 Além de contribuir para combater toda forma de discriminação social e de racismo, a Igreja se sente na obrigação de rever suas atitudes pastorais e de valorizar pastoralmente a tradição afro-americana, por muito tempo descuidada ou negada.183

 

214. Não menos urgente é, para a Igreja, o diálogo com as formas culturais da modernidade, na sua complexidade e diversificação. Deve-se prestar especial atenção pastoral àqueles grupos humanos ou setores da sociedade que mais intensamente são influenciados pela modernização e àqueles grupos que exercem uma influência privilegiada na formação da opinião pública, nas mudanças de comportamento, na proposta de novos sentidos e valores. A modernidade cria espaço para esses grupos, que geralmente se beneficiam dos avanços técnicos e da expansão do consumo, caindo, porém, freqüentemente num individualismo egoísta e amoral.

Mas ela marginaliza as massas e gera "novos pobres", inclusive entre as classes médias menos favorecidas pela modernização. Tudo isso repercute não só em nível de promoção humana,184 mas também no plano do diálogo religioso e cultural. Neste plano, a modernidade trouxe uma valorização do indivíduo e da subjetividade, uma exigência de igualdade fundamental de todos os seres humanos, uma busca de autenticidade e qualidade no relacionamento intersubjetivo. Esses valores podem questionar expressões religiosas tradicionais e devem estimular a busca de novas expressões da vida cristã, que reconhece o valor central e incomparável da pessoa humana.185

 

215. No diálogo religioso, exigem maior atenção o diálogo ecumênico e a cooperação com as outras Igrejas cristãs. É preciso redescobrir e alimentar o espírito de diálogo ecumênico em todos os católicos, pois ele é uma dimensão constitutiva e irrenunciável da missão: "que eles sejam um para que o mundo creia!".186 Faz parte dos objetivos atuais e urgentes do movimento ecumênico em nosso País oferecer serenamente, aos nossos fiéis e aos irmãos de outras Igrejas, elementos para que possam distinguir o trigo e o joio, a adesão convicta e o fanatismo cego, o zelo missionário e a exploração interesseira das emoções do povo, a busca perseverante da vontade de Cristo e o autoritarismo sectário e sem escrúpulos. Impressionam-nos o vigor e a clareza com que o Papa, na carta "Tertio Millennio Adveniente", acentua a necessidade de aprofundar e pôr em prática o ecumenismo e o diálogo inter-religioso.187

 

c) Indicações práticas

 

216. Em nível regional e nacional, procure-se discernir atentamente quais são, entre as urgências enumeradas acima, aquelas que os afetam mais diretamente e devem tornar-se prioridades da ação pastoral. Sejam promovidas iniciativas adequadas, destinando-lhes os recursos humanos e materiais necessários.

 

217. Mesmo onde o diálogo não parece imediatamente possível, promovam-se centros permanentes ou atividades conjunturais com uma dupla finalidade:

   a) ter em conta a influência das novas tendências religiosas ou de tradições não-cristãs sobre o próprio povo católico, contribuindo para o discernimento dos valores, a crítica dos elementos incompatíveis com a fé e a elaboração de respostas autenticamente cristãs aos novos questionamentos e à nova sensibilidade;

   b) encaminhar estudos aprofundados das novas tendências culturais, bem como das tradições características do lugar.

 

218. Toda a ação pastoral e catequética da Igreja Católica deve assumir conscientemente uma dimensão ecumênica. Isto significa valorizar, na justa medida, tanto os bens da tradição cristã comum quanto apreciar a contribuição específica à espiritualidade e à prática cristãs que cada Igreja traz, tendo o cuidado de expor integralmente a doutrina católica, mas de forma que resulte mais facilmente compreensível pelos irmãos separados.188 Promovam-se também, oportunamente, momentos de oração comum e de diálogo,189 em particular a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, entre Ascensão e Pentecostes.190

 

219. Os católicos demonstrem sempre sincero respeito pela liberdade religiosa e pelas convicções dos outros em matéria de religião e costumes. Recordem a palavra do Concílio Vaticano II: "Se há de reconhecer ao homem a liberdade em sumo grau e não se há de restringi-la a não ser quando e quanto for necessário".191 Lembrem também a palavra do Papa: "A Igreja, reafirmando constantemente a dignidade transcendente da pessoa, tem por método o respeito à liberdade".192

 

220. Diante de atitudes sectárias e proselitistas, os pastores advirtam serena e firmemente os fiéis, evitando polêmicas estéreis, quando não contraproducentes. "A Igreja também não fecha os olhos ao perigo do fanatismo, ou fundamentalismo, daqueles que, em nome de uma ideologia que se pretende científica ou religiosa, defendem poder impor aos outros homens a sua concepção da verdade e do bem".193 O recente Diretório para o Ecumenismo pede que, onde este trabalho ecumênico "encontrar oposições ou impedimentos por atitudes sectárias, os católicos sejam pacientes e perseverantes". Eles devem atuar "com honestidade, prudência e conhecimento dos fatos. Esta forma de proceder, gradual e cautelosa, sem iludir as dificuldades, é também uma garantia para não sucumbir à tentação do indiferentismo e proselitismo, o que seria ruína do verdadeiro espírito ecumênico".194

 

221. Como base para a formação católica ao ecumenismo são muito úteis os subsídios fornecidos pelo Diretório Ecumênico,195 pelo CONIC e pelo setor de ecumenismo da CNBB.196 A boa formação é a primeira condição para que os católicos possam levar uma contribuição proveitosa ao diálogo com os irmãos das outras Igrejas.

 

Anúncio do Evangelho

 

a) Fundamentação

 

222. "A evangelização há de conter também sempre — ao mesmo tempo como base, centro e vértice do seu dinamismo — uma proclamação clara que, em Jesus Cristo, Filho de Deus feito homem, morto e ressuscitado, a salvação é oferecida a todos os homens, como dom da graça e da misericórdia do mesmo Deus".197 O Apóstolo Paulo ressalta a necessidade do anúncio ou da proclamação ("kérygma") para que se possa tornar explícita a fé em Cristo: "Como hão de invocar aquele em quem não acreditam? E como hão de acreditar naquele que não ouviram? E como ouvirão se ninguém lhes pregar? (...) A fé vem da pregação, e a pregação pela palavra de Cristo".198 Sobre a importância do anúncio insistem os documentos mais recentes.199

 

223. Aqui é relevante ressaltar dois aspectos do anúncio ou querigma. O primeiro é que ele é claramente uma missão apostólica.200 Mas esta missão — como se vê pelo Novo Testamento e a história do cristianismo — não se restringe aos Doze e a seus sucessores, embora eles tenham um especial encargo de garantir a autenticidade do anúncio e de promover a unidade na atuação da Igreja. A missão evangelizadora é confiada a todos os discípulos de Cristo e dela participam, de direito, todos os fiéis.201

 

224. O segundo aspecto a ser ressaltado é que o querigma ou anúncio da salvação em Jesus Cristo não se faz através de fórmulas repetidas, mas em diálogo com a compreensão e as expectativas dos destinatários da mensagem. Por isso, diálogo e anúncio são aspectos complementares da evangelização.202 Muitas vezes o diálogo ajudará a formular o anúncio da maneira mais adequada às circunstâncias e à ação do Espírito.203

 

225. Um exemplo claro de anúncio atento às condições dos ouvintes se encontra nos Atos dos Apóstolos. Basta comparar os discursos de Paulo aos judeus,204 aos camponeses da Licaônia205 e aos intelectuais de Atenas.206 A conseqüência da procura de um querigma inculturado, ou de um anúncio de Jesus atento às aspirações e inquietações das pessoas humanas, é que também no anúncio — como, depois, na catequese que o aprofunda — deve valer o método da interação entre Palavra e situação do ouvinte, como o documento "Catequese Renovada" já mostrou.207

 

226. Mesmo que muitas vezes a obstinação pessoal ou o peso de uma tradição cultural e religiosa diferente criem obstáculos radicais ao anúncio, isto não dispensa nenhum cristão do esforço sério de anunciar a salvação em Cristo e de testemunhar a fé com a vida.

 

b) Urgências

 

227. Tendo em vista os que precisam ouvir o anúncio de Cristo na sociedade brasileira de hoje, marcada pelo pluralismo religioso,208 podemos apontar três situações de urgência:

            a dos católicos não-praticantes, que receberam o Batismo, mas cujo contato com a vida e a palavra da Igreja é tão pouco freqüente que eles precisam de uma "nova evangelização" (isto não exclui que haja, entre os que não freqüentam os sacramentos e as reuniões eclesiais, pessoas muito próximas de Deus e muito generosas na prática do amor fraterno!); situam-se aqui também largas faixas de população flutuante, que, devido aos frequentes deslocamentos geográficos, encontram sérias dificuldades de ter uma evangelização mais continuada, inclusive de receber os sacramentos da iniciação cristã e o do Matrimônio, e participar da comunidade; e ainda os católicos que, vivendo em nova união matrimonial, sem o sacramento, encontram dificuldade em participar da comunidade e da Eucaristia;

            a dos cidadãos que se declaram sem religião e cuja vida pessoal e social parece fortemente influenciada pelo secularismo ou pelo indiferentismo religioso;

            a dos não-cristãos de algumas Regiões brasileiras (como certas comunidades indígenas e comunidades vindas de outros continentes, como orientais etc.), para com os quais nossa Igreja tem uma dívida com relação à evangelização, mesmo que possa apenas "dar da própria pobreza".209

 

228. Em geral, diante do dinamismo das mudanças da cultura atual,210 o anúncio da Salvação em Cristo — a boa nova do Evangelho — deve ser repetido permanentemente e renovado em sua formulação, pois mudam a sensibilidade e a perspectiva com as quais é recebido. Ele, contudo, não será muito eficaz se não for precedido pelo diálogo e pelo esforço de compreender a evolução das mentalidades e se não for acompanhado pelo testemunho de vida dos cristãos.

 

229. Os ouvintes que o nosso anúncio deve atrair constituem uma massa imensa de pessoas. Os católicos não-praticantes são, ao menos, 50% da população adulta. Os cidadãos "sem religião" são relativamente poucos (10% nas grandes cidades, menos de 5% no conjunto da população adulta), mas pertencem muitas vezes a setores influentes da sociedade. Face a esses imensos desafios, é preciso mobilizar muito mais recursos humanos e materiais a serviço da evangelização, revendo seriamente a tendência a concentrar quase todos os esforços nos cuidados pastorais do "rebanho" que já está no redil.

 

c) Indicações práticas

 

— Com relação aos católicos não-praticantes ou pouco assíduos

 

230. Os católicos não-praticantes constituem o maior desafio missionário que a Igreja no Brasil enfrenta, ao menos do ponto de vista quantitativo.211 Eles conservam com as comunidades eclesiais dois laços pastoralmente relevantes: 1º — a herança do catolicismo popular, especialmente através da devoção a Maria Santíssima e aos santos; 2º — a procura dos sacramentos nos momentos decisivos da vida: nascimento, primeira Eucaristia e Crisma dos filhos; Matrimônio; doença grave e morte. As orientações pastorais que se impõem nesta situação são:

            a atenção e o cuidado para com as práticas de religiosidade popular, que podem estabelecer ou reforçar os vínculos entre os católicos não-praticantes e a comunidade eclesial;

            um renovado esforço para promover ou fortalecer aquelas manifestações religiosas de massa que atraem, ao menos ocasionalmente, grandes parcelas da população;

            um tratamento diferenciado e, quanto possível, personalizado para com os não-praticantes, quando procuram os sacramentos;

            uma revisão séria e atenta das críticas e motivações que afastam os católicos da prática eclesial. Privilegiar a pastoral do contato pessoal, visitas às famílias, particularmente às que estiverem em situações de sofrimento ou alegria, como doenças, falecimentos, nascimento, aniversário etc. e a acolhida aos migrantes;

            uma reforma de estruturas e práticas pastorais inadequadas ao contexto urbano e alheias à mentalidade moderna.

 

231. Especial importância merece a pastoral urbana, com a criação de estruturas eclesiais novas que, sem desconhecer a validade da paróquia renovada, permitam que se enfrente a problemática apresentada pelas enormes concentrações humanas de hoje.212 As divisões entre as paróquias devem ser flexibilizadas, colocando o bem do povo acima de uma concepção territorial estreita e inadequada à realidade da cidade grande. Equipes pastorais podem servir mais eficazmente áreas urbanas compostas por várias comunidades.

 

232. Na cidade é que se encontram em gestação as novas formas da cultura. Daí a necessidade de se buscar caminhos, na experiência e na imaginação, para a pastoral urbana. Por um lado, é preciso multiplicar e diversificar, segundo as especificidades do meio urbano, dentro de interesses e necessidades grupais, comunidades eclesiais que suscitem, eduquem e apóiem a experiência da fé a partir da Palavra, da Eucaristia, da comunhão fraterna e do empenho no serviço dos irmãos.

Por outro lado, é preciso criar ou desenvolver pólos ou centros de evangelização, que atendam à mobilidade da população urbana, que ofereçam oportunidades múltiplas de contato com a mensagem evangélica e a experiência eclesial, que possam tecer uma rede de contatos com aqueles cidadãos que mais dificilmente conseguem se ligar de forma permanente com uma comunidade estável.

 

233. Uma atenção especial deve ser dada aos jovens, seja em consideração da sua situação social e religiosa,213 seja em consideração da opção preferencial assumida pela Igreja latino-americana em Puebla214 e retomada com ênfase em Santo Domingo.215 Os jovens "são um grande desafio para o futuro da Igreja".216 Eles não são apenas destinatários da evangelização, mas dela devem tornar-se sempre mais sujeitos ativos, "protagonistas da evangelização e artífices da renovação social" .217

 

234. Sendo muito diversificada, a situação dos jovens exige respostas adaptadas às necessidades concretas e aos meios específicos.218 A título de exemplo, indicamos algumas ações que a Igreja deve privilegiar ou reforçar:

            atuação junto aos menores abandonados e às situações de miséria, visando oferecer a crianças e adolescentes — junto com os serviços públicos, muitas vezes precários — oportunidades de educação e cuidados com a saúde, especialmente através da prevenção de doenças;

            atuação pastoral, propiciando oportunidades de conscientização e de ação aos grupos de jovens mais abertos aos valores cristãos e mais dispostos a um empenho coletivo para a transformação da sociedade; esta atuação visará a ajudar, também, no crescimento humano-afetivo e, sobretudo, tornar estes jovens evangelizadores, protagonistas da evangelização;

            atuação evangelizadora e missionária voltada para a juventude urbana, especialmente para os jovens mais influenciados pela cultura do individualismo e mais isolados, menos apoiados pela família ou a escola, mais afastados dos padrões morais e religiosos tradicionais.

 

235. Este tipo de ações exige uma preparação específica e a busca de novas metodologias pedagógicas. Os presbíteros e outros agentes de pastoral precisam de ajuda para superar a distância entre as gerações. A nova geração tem outras perguntas, outras linguagens. As escolas católicas, também, devem renovar seu trabalho educacional para oferecer chances de educação autêntica e socialmente aberta a uma juventude marcada, especialmente nas classes médias, por uma visão utilitarista e individualista da vida e da profissão. São necessários ainda recursos financeiros para esta tarefa pastoral.

 

 — Com relação às pessoas indiferentes ou sem religião

 

236. Entre as pessoas que se mostram indiferentes ou se declaram sem religião, não encontramos — a não ser excepcionalmente — contatos com a pregação e a prática sacramental católica. As pessoas são atingidas pela "presença pública" da Igreja, seja que se manifeste através de pronunciamentos ou ações no campo social, seja que consiga comunicar algo de sua fé através dos meios de comunicação de massa ou outras manifestações públicas. (Como se vê, há aqui uma conexão relevante entre o "serviço" que a Igreja presta à sociedade e o "anúncio" do Evangelho).

 

237. Está aberto, também, o caminho do testemunho pessoal (e, mais raramente, comunitário) dos leigos cristãos, que se encontram continuadamente com colegas de trabalho ou vizinhos ou amigos, cuja atitude religiosa está mais ou menos próxima do indiferentismo. Será que o comportamento destes cristãos leva os indiferentes a lhes perguntar "as razões da esperança" que está neles?219

Poderão "dar testemunho de como a fé cristã, mais ou menos conscientemente ouvida e invocada por todos, seja a única resposta plenamente válida para os problemas e as esperanças que a vida põe a cada homem e a cada sociedade"? "Será isso possível se os fiéis leigos souberem ultrapassar em si mesmos a ruptura entre o Evangelho e a vida, refazendo na sua quotidiana atividade em família, no trabalho e na sociedade, a unidade de uma vida que no Evangelho encontra inspiração e força para se realizar em plenitude".220

 

238. Outro caminho aberto é o diálogo sobre as grandes questões de ética, levantadas por uma sociedade que precisa sempre mais urgentemente escolher entre a insensatez de um egoísmo desenfreado e a racionalidade de uma ordem social construída sobre valores universais ou, em última instância, sobre o reconhecimento da dignidade de toda pessoa humana, criada e amada por Deus como filha, e sobre a preservação do meio ambiente, condição de vida dos seres humanos.

 

239. Os meios de comunicação de massa são dominados, na grande maioria dos casos, por interesses econômicos e por uma mentalidade que podemos definir como "secularista". É urgente traçar orientações mais eficazes para a ação da Igreja na cidade. A Igreja tem os meios para manter, com seus fiéis, uma boa comunicação em nível interpessoal. Goza também de grande estima na opinião pública. Mas a presença da Igreja nos meios de comunicação é escassa e o tratamento que deles recebe é ambíguo. É necessário verificar as causas do fenômeno para buscar soluções realistas e eficazes. Devemos nos interrogar sobre nossa própria  linguagem, que conserva traços de uma cultura em grande parte desconhecida pela modernidade e que está sobrecarregada de elementos secundários, relevantes em outras épocas, mas cujo acúmulo arrisca hoje fazer perder de vista o essencial e dificultar a comunicação.

 

240. Outro questionamento inevitável é a reivindicação moderna da liberdade de informação, da democratização do acesso aos meios de comunicação, da formação da consciência crítica, da exigência de veracidade e transparência. É desejável que haja uma presença católica mais coordenada e eficaz nos grandes meios de comunicação. A presença de instituições religiosas é forte, no Brasil, no campo das editoras e do rádio. Em áreas onde a presença é mais fraca, é preciso usar de criatividade para desenvolver atividades compatíveis com a escassez de recursos financeiros (programas televisivos específicos, agência de notícias, etc.). Além disso, o desenvolvimento tecnológico facilita a cooperação (criação de redes) e a multiplicação de pequenas iniciativas locais, onde Dioceses, paróquias, congregações ou movimentos podem produzir informativos, subsídios didáticos e catequéticos, especialmente vídeos, atividades alternativas de formação da consciência crítica, visando aperfeiçoar gradativamente a tecnologia, a pedagogia e o conteúdo evangelizador.

As Igrejas locais devem investir na formação de comunicadores de inspiração cristã, com boa preparação profissional e pastoral, e na própria ação pastoral junto aos comunicadores em geral.

 

— Com relação à missão "além-fronteiras" ou em áreas carentes

 

241. Durante séculos, a Igreja no Brasil dependeu fortemente da atividade missionária "além-fronteiras" das Igrejas das nações européias e, recentemente, da América do Norte. Hoje firma-se sempre mais a consciência de que a situação está mudada. As Igrejas de antiga cristandade vêem diminuir sua capacidade de enviar missionários. De outro lado, "finalmente chegou para a América Latina a hora de intensificar a ajuda mútua entre Igrejas particulares e de se abrir para além de suas próprias fronteiras, "ad gentes".... É verdade que também nós precisamos de missionários; devemos dar, porém, de nossa pobreza". 221 "Uma Igreja local não pode esperar atingir a plena maturidade eclesial e, só então, começar a preocupar-se com a Missão para além de seu território.

A maturidade eclesial é conseqüência e não apenas condição de abertura missionária. Estaria condenando-se à esterilidade a Igreja que deixasse atrofiado seu espírito missionário, sob a alegação de que ainda não foram plenamente atendidas todas as necessidades locais".222

 

242. Mantendo-se aberta ao mundo, a Igreja no Brasil olha para a América Latina e a África como áreas geográficas prioritárias de sua Missão "além-fronteiras". A América Latina, por razões compreensíveis de vizinhança e destino comum, tornadas mais claras ainda dentro de um novo desenho geopolítico dos blocos de nações. A África, pela raiz comum da população negra, e como pagamento da dívida contraída por séculos de escravidão. Dentro da África, os países de língua portuguesa têm merecido maior atenção. Um outro desafio é apresentado pela maciça migração de latino-americanos e brasileiros para os Estados Unidos (cerca de 30 milhões).

 

243. O programa missionário "além-fronteiras" da Igreja no Brasil já está em pleno andamento com cerca de mil missionários trabalhando fora do País. A imensa maioria é constituída de religiosas, mas há, também, um bom número de presbíteros, alguns diocesanos, e uma pequena, mas significativa, presença de leigos. É importante enfatizar que os leigos precisam assumir um papel mais ativo também no campo da missão "ad gentes".

 

244. Um novo impulso para o trabalho missionário da Igreja no Brasil exige esforços de animação missionária em três direções. A primeira é o aprofundamento da consciência da vocação e responsabilidade missionária nas Igrejas particulares, em todas as paróquias, comunidades eclesiais e organizações de leigos. A segunda área diz respeito ao próprio perfil dos missionários. É necessário um intenso trabalho nos presbitérios e nos seminários para ajudar os presbíteros das Dioceses a descobrirem a Missão "além-fronteiras" como um caminho também próprio e particularmente rico, de realização de sua vocação de evangelizadores. Nos Seminários deve-se cultivar o espírito missionário e dar o devido destaque ao ensino da Missiologia.

Trabalho semelhante deve ser iniciado junto aos leigos e suas organizações. A terceira é a da criação de novas formas de cooperação, diálogo e intercâmbio entre a nossa Igreja e as Igrejas de outros continentes. O envio missionário deve ser complementado pela criação de organizações específicas de apoio e de diálogo inter-religioso e intereclesial em torno de iniciativas e assuntos de comum interesse.

 

245. A Missão "além-fronteiras", pela complexidade de sua própria natureza e execução, exige uma formação cuidadosa de seus agentes e uma organização capaz de garantir a continuidade. As iniciativas missionárias devem fazer parte de um programa orgânico, coordenado com o apoio dos organismos da CNBB, da CRB e das Pontifícias Obras Missionárias. É desejável que se dêem novos passos para concretizar um Centro Missionário Nacional, para estudos e formação permanente, e um Instituto Brasileiro de Missões "além-fronteiras".223

 

246. A Igreja do Norte do País, particularmente na Amazônia e em outras Regiões de ocupação recente, se configura como profundamente carente de recursos próprios e fortemente dependente de gestos missionários das Igrejas já constituídas de outras Regiões do País. Com freqüência, os Bispos e agentes pastorais da Amazônia sentem a ausência de corresponsabilidade missionária e clamam por uma maior entreajuda eclesial.

 

247. É necessário, porém, reconhecer que essa situação evoluiu positivamente nas últimas décadas. A Igreja no Brasil, através da CNBB e de iniciativas de Igrejas particulares e Institutos de Vida Consagrada, marcou uma progressiva presença na problemática pastoral da Amazônia. A questão indígena foi assumida com força em nível nacional, e vários apoios missionários foram prestados, sobretudo às regiões de novas fronteiras de ocupação. Merece, também, destaque especial o papel de missionários e missionárias, de outros países, e sua presença religiosa, social, educacional e humana na evangelização e defesa dos povos indígenas e de seus direitos.

 

248. Outra iniciativa, historicamente importante no despertar das Igrejas do Brasil para a Amazônia, as Regiões do Oeste e o Nordeste, foi o programa "Igrejas-Irmãs". Foi sobretudo aí que o programa encontrou, desde o início, maior motivação e expansão. O programa "Igrejas-Irmãs" vive, atualmente, uma fase de avaliação. Sua revitalização será, certamente, importante para uma nova e mais decisiva fase de empenho missionário que favoreça o amadurecimento e a originalidade das Igrejas locais e suscite projetos concretos de solidariedade e reciprocidade.

 

249. No mesmo espírito, mas fora do programa propriamente dito, encontram-se várias iniciativas de serviço missionário por parte de Igrejas de outras Regiões, com fins pastorais específicos. Prioritário é o serviço da formação de presbíteros e outros ministros autóctones. Também merecem especial e pronta atenção as novas áreas de ocupação, como, por exemplo, a cidade de Palmas, capital do novo Estado do Tocantins.

 

Testemunho da comunhão eclesial

 

a) Fundamentação

 

250. Quando a palavra do Evangelho, anunciada pelos Apóstolos e seus sucessores e discípulos até hoje, é acolhida por uma pessoa, o Espírito Santo suscita a fé e vai progressivamente modificando sua vida e atitudes, fazendo brotar — na medida da resposta ao dom de Deus — as virtudes cristãs e os frutos do Espírito: caridade, alegria, paz, paciência, afabilidade, fidelidade, brandura, temperança... 224 Paulo, que não despreza as virtudes "humanas", aquelas que também os pagãos apreciam,225 vê a perfeição cristã na imitação de Cristo, melhor, na identificação com ele.226 A primeira recomendação da exortação prática que conclui a maior carta de Paulo é: "Eu vos exorto, irmãos, a oferecerdes vossos corpos em sacrifício vivo, santo, agradável a Deus: é este o vosso culto espiritual".227 O cristão torna-se, assim, participante do tríplice ministério de Cristo, pelo qual Ele ofereceu sua própria vida.228

 

251. No plano das pessoas, a finalidade da ação evangelizadora e pastoral está toda aqui: transformar o homem velho em homem novo santo que desde já experimenta a comunhão com Deus.229 "A finalidade da evangelização é (...) esta mudança interior: e se fosse necessário traduzir em breves termos, o mais exato seria dizer que a Igreja evangeliza quando (..) procura converter ao mesmo tempo a consciência pessoal e coletiva dos homens, a atividade em que eles se aplicam, e a vida e o meio concreto que lhes são próprios".230

 

252. Suscitando os fiéis em Cristo e levando-os à comunhão com ele e entre si, a ação evangelizadora e pastoral constrói a Igreja ou, melhor, faz que a Igreja aconteça. Pelo dom de Deus, no Espírito e pela Palavra, se reúnem fiéis e pastores para louvar o Senhor, celebrar a Eucaristia, meditar o ensinamento dos Apóstolos, partilhar seus bens materiais e espirituais.231 Em todas as comunidades reunidas pelo Espírito e pelo Evangelho ao redor dos sucessores dos Apóstolos, "embora muitas vezes pequenas e pobres",232 Cristo está realmente presente.233 Está presente o Deus Uno e Trino — comunhão do Pai, do Filho e do Espírito — de onde tira sua origem a comunhão eclesial.234

 

253. Com fundamento na Palavra e na Liturgia, cume e fonte de sua ação, a Igreja organiza e mantém sua pedagogia da iniciação cristã, sua catequese, suas celebrações, sua vida comunitária e articula as diversas comunidades para que estejam solidariamente a serviço do Evangelho e ofereçam aos cristãos a experiência inicial do Reino.

 

254. A variedade dos dons concedidos à Igreja, os sacramentos de Cristo, os diversos ministérios e vocações, que sustentam a Igreja na sua caminhada para a plena realização do Reino, são descritos com riqueza e profundidade na constituição conciliar "Lumen Gentium". Ela permanece como referência fundamental de nossa visão da Igreja. O mesmo Concílio quis renovar e ilustrar a compreensão das fontes da vida eclesial, dedicando à Palavra de Deus e à Liturgia as constituições Dei Verbum e Sacrosanctum Concilium. Elas são os marcos que apontam a direção da Igreja que devemos continuamente construir para que possa ser o "sinal da salvação" e da "unidade do gênero humano",235 apontando o destino de todos em Cristo.

 

255. A própria variedade de dons e a diversidade de ministérios podem originar tensões na comunidade eclesial.236 Esta, ao longo da história do cristianismo, conheceu dolorosas lacerações que contradizem abertamente a vontade de Cristo e são escândalo para o mundo, "algumas vezes não sem culpa de pessoas de um ou de outro lado".237 Igrejas e Comunidades eclesiais que não estão em plena comunhão com a Igreja católica não foram privadas do seu significado e valor dentro do mistério de salvação. O Batismo une em fraterna comunhão de graça todos os cristãos.

Os católicos devem corresponder com solidariedade aos esforços empreendidos para superar as divisões herdadas do passado e construir de novo, entre os cristãos, uma comunhão de amor cada vez mais profunda e plena.

 

256. O testemunho da comunhão eclesial tem também uma dimensão missionária e evangelizadora, como recorda a oração de Jesus: "Para que todos sejam um ... a fim de que o mundo creia".238 Ainda antes, a evangelização inicia quando um cristão ou um grupo de cristãos manifesta — através de sua compreensão e acolhimento, em sua comunhão de vida com os irmãos e em sua solidariedade com todos — a sua fé e a sua esperança em algo que não se vê.239 Este testemunho é manifestado pela comunidade cristã reunida para partilhar a sua fé, celebrar o louvor do Senhor e viver a caridade; assim aparecerá como lugar da adoração do verdadeiro Deus. Até o incrédulo deve reconhecer: "Deus está realmente no meio de vós!".240

 

b) Urgências

 

257. A primeira urgência da atuação da Igreja em ordem à fé dos fiéis é oferecer-lhes a real possibilidade de descobrir e percorrer o roteiro da iniciação cristã — a experiência do seguimento de Cristo — adequada à idade e maturidade pessoal. A urgência se tornou maior para boa parte das novas gerações, porque em nossa sociedade muitas famílias não sabem ou não querem propiciar a educação na fé. No contexto atual de pluralismo religioso e de confusão das informações, é extremamente importante que a Igreja ofereça algo semelhante ao antigo catecumenato para a educação na fé e a experiência do seguimento de Cristo.

Promovam-se formas renovadas de catequese, articuladas com a vida, inculturadas no presente, não reduzidas à mera transmissão de noções formuladas em linguagem pouco significativa; estas formas devem ser procuradas, aperfeiçoadas e difundidas hoje.

 

258. Na mesma perspectiva, é urgente vivificar e atualizar as diversas formas de celebração litúrgica e de comunicação da Palavra aos adultos, buscando formulações adequadas à rápida evolução das mentalidades e da cultura. É preciso cuidar da autenticidade e qualidade pastoral das celebrações dos sacramentos, evitando que a preocupação com a quantidade leve à pressa e ao ritualismo minimalista. Critérios da qualidade são a fidelidade objetiva à Palavra de Deus e à tradição eclesial, a atenção à participação subjetiva dos fiéis, visando ao enriquecimento da experiência religiosa de cada um, e a consciência do compromisso missionário.

 

259. Outro desafio é estabelecer uma efetiva unidade de fé e vida na vivência cristã dos nossos fiéis.241 Causas históricas complexas têm enfraquecido esta conexão, reduzindo muitas vezes a prática religiosa a formalismos e devocionismos, enquanto o comportamento ético andava se afastando e se tornando incompatível com o espírito cristão.

 

260. A mesma urgência pode ser formulada positivamente como necessidade de harmonizar e articular a dimensão pessoal e a dimensão social da existência cristã. Ou, ainda, unir e fortalecer mutuamente a prática da oração, com sua dimensão contemplativa, e a prática da ação, com sua dimensão coletiva e histórica.

 

261. Condição para tornar acessíveis a educação na fé e a vivência cristã é a existência de comunidades eclesiais "com rosto humano", cuja dimensão e espírito permitam a acolhida e a valorização de cada pessoa, segundo sua idade e necessidades espirituais. Isto, no pluralismo hodierno, implica em diversificação das comunidades (e associações, movimentos ou pastorais) a fim de estabelecer uma melhor correspondência entre estruturas eclesiais e situações sócio-culturais.

 

c) Indicações práticas

 

262. A todo cristão reconheça-se a condição de sujeito, no sentido pleno do termo, abrindo espaço para a experiência subjetiva e pessoal da fé, valorizando o sacerdócio comum dos fiéis e o consenso na fé de todo o Povo de Deus.

 

263. A experiência religioso-cristã se realiza através do encontro com a Palavra de Deus, com os Sacramentos e com a comunhão eclesial, com a tradição e o Magistério da Igreja, não através de uma experiência meramente subjetiva.

 

264. A vocação, os dons e carismas pessoais sejam colocados a serviço da comunidade eclesial e de sua edificação, fazendo-se da participação ativa uma forma de realização cristã da pessoa.

 

265. A pastoral da reconciliação deve encontrar amplo espaço na vida da Igreja. A reconciliação das pessoas consigo mesmas, com o próximo e com Deus se realiza de forma dinâmica e transformadora no sacramento da Penitência. Recordamos os ensinamentos do novo Catecismo da Igreja Católica: "Quem está consciente de um pecado grave deve receber o sacramento da reconciliação antes de receber a comunhão". 242 Pois, recorda o mesmo Catecismo, "a confissão individual e integral dos pecados, seguida de absolvição, continua sendo o único modo ordinário pelo qual os fiéis se reconciliam com Deus e com a Igreja".243

 

266. Importância especial seja dada ao acolhimento às pessoas. Para isso, algumas medidas podem ser postas em prática: "ministério da acolhida", visitas às famílias que chegam; visitas domiciliares nos momentos marcados pela alegria ou pela tristeza; postura acolhedora, alegre e disponível, por parte do presbítero e demais agentes de pastoral.

 

267. A atitude de amizade e de acolhimento acentua a valorização da pessoa. Assim, imita-se o gesto de Cristo acolhendo Zaqueu que, por sua vez, o recebe alegremente em sua casa. Ou a atitude de Jesus ao acolher as crianças ou, ainda, o gesto de Filipe e André que acolhem alguns gentios desejosos de ver o Cristo e os apresentam ao Mestre.244

 

268. A acolhida poderá traduzir-se também em formas sistemáticas e organizadas: aconselhamento, com a colaboração de pessoas especificamente preparadas; revalorização do sacramento da reconciliação; disposição para o diálogo e a direção espiritual. Especial atenção deve ser dada ao acolhimento das pessoas que procuram ocasionalmente um sacramento, apesar de serem católicos pouco assíduos ou não-praticantes. Os chamados "cursos de preparação" (ao Batismo das crianças e ao casamento) devem ser encontros o mais possível personalizados, adequados às pessoas que os freqüentam, e podem ser substituídos, especialmente no caso da preparação ao Batismo, por visitas às casas dos pais.

Em qualquer caso, quem procura a comunidade eclesial sinta que é recebido com cordialidade e fraternidade cristã. E a comunidade se lembre de que não deve apenas aguardar quem a procura, mas deve ir ao encontro do outro com espírito evangélico e coração aberto. Não devem ser criadas exigências, além das normas diocesanas, como condição para receber os sacramentos.

 

269. A pessoa precisa ser acolhida na comunidade, com abertura e sensibilidade para os diversos aspectos e dimensões de sua identidade e existência. A comunidade, respeitando o princípio da liberdade cristã, ajude seus membros a não cair em atitudes unilaterais, como o intelectualismo, o intimismo, a excessiva importância dada à experiência emocional, a busca desmedida do "maravilhoso" e a fuga do compromisso com a transformação social.

 

270. Ao acolhimento segue-se o acompanhamento. Após o primeiro anúncio, haja continuidade de contatos para envolver a pessoa na vida da comunidade eclesial. Procure-se o apoio e envolvimento da família, especialmente com relação à educação cristã das crianças. A família é a primeira e fundamental estrutura a favor da "ecologia humana", no seio da qual o ser humano recebe as primeiras e determinadas noções acerca da verdade e do bem, aprende o que significa amar e ser amado e, conseqüentemente, o que quer dizer, em concreto, ser uma pessoa.

 

271. Na experiência que a pessoa faz da comunidade cristã, deve predominar o primado da experiência espiritual, no sentido forte de uma autêntica experiência de Deus, emocionalmente envolvente, levando à conversão pessoal, a uma vivência de fé e a uma mística profundas, nas quais a liberdade humana se abre à comunicação de Deus, em Cristo. A experiência espiritual cristã da alteridade encontra no Outro sua origem e fundamento. Cada um de nós é chamado à vida e amado primeiro para entrar em aliança e comunhão com Deus e os irmãos.

 

272. Na catequese, busque-se a necessária conexão entre a experiência pessoal e comunitária e a doutrina; entre a experiência de vida e a formulação da fé; entre a vivência atual e o dado da tradição, à luz da Palavra de Deus.245 Promova-se uma catequese mais atraente e diferenciada, respeitando os níveis de engajamento cristão das pessoas e procurando levá-las pedagogicamente à inserção na comunidade eclesial e na vida litúrgica. Não se retarde o início da catequese infantil, pois, desde cedo, a criança está exposta a muitas influências, especialmente dos meios de comunicação. O recente Catecismo da Igreja Católica será referência doutrinal segura na formação inicial e permanente de todo batizado e de todo agente de pastoral.

 

273. Nas celebrações litúrgicas, articulem-se melhor a tradição da Igreja e a experiência atual dos fiéis, valorizando as pessoas e sua vivência. É preciso redescobrir o aspecto simbólico da liturgia, enfatizar o sentido do mistério e recuperar as dimensões de festa, alegria e esperança e a riqueza da espiritualidade do Ano Litúrgico. As celebrações sejam menos apressadas e menos intelectualizadas, proporcionando maiores momentos de silêncio, interiorização e contemplação. Valorizem-se os gestos, as posturas, as caminhadas e a dança.246 Promova-se maior aproximação entre as celebrações litúrgicas e o universo simbólico das comunidades, através de uma legítima criatividade, adaptação e inculturação.

A busca de uma simbologia mais adequada ao meio urbano deve ser hoje uma preocupação prioritária da pastoral litúrgica. Promova-se a constituição de Equipes de Liturgia e a formação para o desempenho da presidência e demais ministérios e serviços da celebração.

 

274. Respeite-se a liberdade do cristão na escolha das formas específicas de seu empenho na sociedade. Esta liberdade, porém, não deve ser abandonada a si mesma. No contexto da sociedade moderna e no meio urbano, criou-se uma dicotomia entre a fé e a vida, entre a esfera da religião e as esferas da ciência, da política, da economia e das atividades profissionais. É, portanto, necessário e urgente um esforço para descobrir modelos de vida cristã na sociedade moderna e estimular uma melhor integração entre fé e vida.

 

275. Uma das maiores expressões da valorização da pessoa por parte da Igreja é certamente o empenho com que ela tem promovido a educação, seja no âmbito familiar, seja na escola ou por outros meios. Através da educação, o indivíduo torna-se pessoa e amplia as dimensões de seu ser e de seu agir. É preciso, portanto, continuar e multiplicar as atividades educativas da Igreja, através das escolas católicas ou pelo empenho em levar a presença cristã às escolas públicas, dando-lhes nova qualidade e maior eficácia evangélica.

 

276. Cuide-se de uma pastoral da educação que não seja restrita ao Ensino Religioso ou à formação doutrinária dos professores, mas que trate do mundo da educação e de seus problemas e ajude os educadores a vivenciar a mística deste trabalho que envolve o direito dos filhos de Deus às melhores condições para o seu desenvolvimento integral. Nesse processo, dê-se especial acompanhamento aos que atendem aos educandos mais carentes.

 

277. Num mundo tão fragmentado, será muitas vezes ao redor da preocupação com a educação dos filhos que paróquias, comunidades, movimentos e instituições católicas de ensino poderão reunir os pais e envolver ativamente jovens e adultos num trabalho de evangelização, concretizando variadas formas de pastoral familiar. Na família evangelizada, pais e filhos tornam-se evangelizadores.247 Hoje, com o preceito constitucional, instituindo a pré-escola, deve-se atender ao despertar precoce da criança para o sentido dos valores no relacionamento com os outros. Não falte nessa fase da infância o despertar para a presença de Deus, que ama a cada um com ternura.

 

278. É preciso que, nas Igrejas particulares e especialmente no meio urbano, se reconheça a possibilidade de diversas formas de vida comunitária, integração e associação dos fiéis, sem querer impor um único modelo de comunidade eclesial. No contexto urbano, o fiel é exposto a um número muito grande de solicitações e tem relações com diversos meios profissionais, culturais e residenciais.

Nesse contexto, a pastoral não poder ser uniforme ou ligada exclusivamente a um único centro de agregação. Ela se torna, necessariamente, uma rede de relações com diversos aspectos da experiência cristã e diversos níveis da organização eclesial. Por isso a organização pastoral, especialmente na grande cidade, deverá prever a articulação e a complementação entre os diversos tipos de comunidades, movimentos e formas ocasionais ou provisórias de participação dos fiéis na vida da Igreja. É urgente promover a formação de comunidades eclesiais inseridas nos ambientes culturais e profissionais.

 

279. A paróquia busque adequar-se às mudanças de nosso tempo. Ela não é principalmente uma estrutura, um território, um edifício, mas é sobretudo família de Deus e comunidade dos fiéis. A paróquia constitui uma referência fundamental pela sua identidade teológica, pois ela é uma comunidade eucarística. Na Eucaristia, está a raiz viva de sua edificação e o vínculo sacramental de sua comunhão com toda a Igreja, que a torna referência privilegiada para comunidades menores, movimentos e pastorais.

 

280. Nos anos recentes, especialmente em face das grandes paróquias urbanas, caracterizadas por uma baixa prática religiosa e o anonimato dos fiéis, reivindica-se a transformação da paróquia em comunidades de dimensões humanas, possibilitando relações pessoais fraternas. Seja, pois, estimulada tal prática, com a ajuda de novos ministérios confiados aos leigos, e seja incentivada também a formação de comunidades não territoriais, ligadas por interesses culturais ou laços pessoais e espirituais, especialmente nas grandes cidades.

Tais comunidades fraternas permaneçam unidas entre si por uma rede de contatos e intercâmbios e recebam o apoio das estruturas mais amplas, paroquiais ou setoriais, segundo o princípio de subsidiariedade, para realizar atividades de aprofundamento e para manter viva a comunhão com a Igreja em seus diversos níveis.

 

281. Os fiéis leigos podem e devem fazer muitíssimo para o crescimento de uma autêntica comunhão eclesial, no seio de suas paróquias, e para o despertar do impulso missionário em ordem aos não crentes e, mesmo, aos crentes que tenham abandonado ou arrefecido a prática da vida cristã.

 

282. Uma especial atenção pastoral deve ser dirigida às populações ou categorias que, por motivo de trabalho, de turismo ou outros, têm grande mobilidade e raramente podem ser atendidas pelas estruturas pastorais dos locais de residência. É necessário prever um acompanhamento tempestivo, ágil e que use de locais e horários adequados às diversas situações.

 

283. As Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) representam uma rica experiência eclesial, seja pela participação do laicato, seja pela criatividade pastoral, seja pelo empenho na transformação social. Elas são "força de evangelização". Entre os desafios das CEBs, hoje, destacam-se:

            trabalhar mais com as massas e não se fechar em pequenos grupos;

            acolher melhor a religiosidade popular e respeitar mais seu universo simbólico, evitando o perigo de um excesso de racionalismo, principalmente por parte dos agentes de pastoral mais intelectualizados;

            abrir-se criticamente aos novos desafios da cultura urbana, do pluralismo cultural e religioso, da televisão;

            empenhar-se para que a experiência das CEBs se consolide e continue acompanhando as mudanças da sociedade;

            manter uma relação dinâmica entre fé e vida, dando grande atenção à espiritualidade e à inculturação;

            encorajar a formação de grupos permanentes de reflexão (Círculos Bíblicos ou outros), para fortalecer sua fé e dinamizar sua atuação;

            continuar o intercâmbio entre as próprias CEBs e buscar permanentemente a comunhão com o conjunto da Igreja.

 

284. Os movimentos eclesiais, trazendo a contribuição de seu próprio carisma, integrem-se nas Igrejas particulares, assumindo a evangélica opção preferencial pelos pobres. Valorizem a fé como experiência pessoal, sem esquecer a dimensão comunitária e social. Cuidem da formação de seus membros, pondo sua organização moderna a serviço da evangelização. Em geral, procurem seguir as orientações traçadas recentemente pelo Episcopado para a Renovação Carismática Católica naquilo que se aplica a todos.

 

285. Todos, pastores e fiéis, têm a obrigação de favorecer e de alimentar constantemente os vínculos e as relações fraternas de estima, cordialidade e colaboração entre as várias formas agregativas de leigos. Só assim, a riqueza dos dons e dos carismas que o Senhor nos dá pode oferecer sua contribuição fecunda e ordenada para a edificação da casa comum.

 

286. É necessário valorizar e articular os mecanismos de comunhão e participação em todos os níveis e melhorar a comunicação interna na Igreja para criar um clima de corresponsabilidade. O ideal é uma Igreja em que a busca da comunhão e do diálogo respeita e valoriza a diversidade de dons e vocações de cada pessoa e de cada comunidade. Estes dons e carismas, tanto os mais simples quanto os extraordinários, distribuídos pelo Espírito "a cada um como lhe apraz",248 devem ser acolhidos com alegria e gratidão, por serem úteis para a renovação da Igreja, a nova evangelização e as necessidades do mundo atual.249

Compete especialmente à hierarquia o discernimento e a aplicação pastoral dos carismas. Nesse dinamismo de comunhão, cada pessoa e cada grupo eclesial, sem nada perder de sua identidade, se disponha a partilhar seus dons com os outros e a "caminhar juntos", na direção que o Senhor aponta. Sobre as modalidades concretas da articulação pastoral, o capítulo V oferecerá indicações mais completas.

 

5. OS EVANGELIZADORES

 

Sumário

 

           Todos os batizados são evangelizadores

           O que as Diretrizes exigem dos evangelizadores?

           Cada evangelizador deve questionar-se, à luz das Diretrizes, e rever suas prioridades, sua inserção na Igreja Particular, seu papel específico, a formação de que precisa, sua articulação com o conjunto.

 

    As responsabilidades da Igreja Particular

 

           A Igreja Particular é o lugar de comunhão e articulação das tarefas e dos agentes da evangelização

           Deve promover a reflexão participada, a elaboração de um projeto comum, pesquisa e avaliações, planos de pastoral, organismos permanentes de participação

           Para isso, deve cuidar da espiritualidade, da formação e da articulação entre todos os agentes

a) Formação

           A formação exige capacidade de "dar conta da própria esperança", conhecimento adequado da realidade, capacidade de comunicar, realizar e avaliar

b) Articulação

           É uma necessidade, particularmente sentida hoje, num contexto de especialização e fragmentação

           Tem na evangelização seu eixo unificador

           Envolve especialmente as exigências ou dimensões da evangelização. Tem por princípios: a variedade-complementariedade das vocações, a autonomia, a subsidiariedade e a participação responsável.

 

   Exigências específicas

 

a) Leigos

           São protagonistas da evangelização inculturada no mundo de hoje

           Necessitam da consciência de serem sujeitos da evangelização, de formação adequada e de espiritualidade profunda

           Têm diversas vocações e campos de atuação, dentro da missão comum

           Os leigos precisam de formação, organismos permanentes de participação, justa autonomia

b) Vida Consagrada

           Evangeliza pela sua própria existência e entrega radical ao seguimento de Cristo

           Na ação pastoral deve assumir um papel pioneiro de renovação

           Deve aprofundar sua disponibilidade missionária em ligação com a Igreja Particular e seu empenho na formação de leigos

c) Ministério ordenado

           É o elo visível de ligação entre as diversas categorias do Povo de Deus

           Tem um papel decisivo para impulsionar a Igreja local para a evangelização

           Espera-se dele um especial esforço no desempenho de sua missão e na animação da comunidade evangelizadora

           Deve estar prioritariamente ao serviço do "sacerdócio comum" dos fiéis

           Para isso, precisa de formação permanente e de reavivar a espiritualidade presbiteral numa perspectiva missionária.

 

               Espiritualidade dos Evangelizadores

 

           Exigência de uma espiritualidade sólida e capaz de dar conta da esperança do evangelizador, de uma mística que o torne capaz de entregar a vida toda pela causa do Reino

           Para isso, o evangelizador deverá cultivar os fundamentos da espiritualidade cristã e desenvolver especialmente as características de uma espiritualidade da nossa época

 

Conclusão

 

287. Jesus Cristo continua sua missão evangelizadora pela força do Espírito Santo, o "agente principal da Evangelização",250 que suscita e inspira a ação da Igreja. A Igreja universal é o sujeito por excelência da Missão. Todo o povo santo de Deus é por Cristo "assumido como instrumento de redenção de todos e enviado ao mundo inteiro".251 A ação do Povo de Deus se manifesta e se concretiza em cada Igreja Particular, onde atuam, de forma diferenciada e corresponsável, leigos(as), ministros ordenados, consagradas e consagrados.

 

288. Todos os batizados, seguidores de Jesus evangelizador, são chamados a se tornarem, por sua vez, evangelizadores. Por graça e ação do Espírito Santo, "Cristo a uns concedeu ser apóstolos, a outros profetas, a outros evangelistas, a outros pastores e mestres, para aperfeiçoar os santos em vista do ministério, para a edificação do Corpo de Cristo".252 No entanto, "evangelizar não é, para quem quer que seja, um ato individual e isolado, mas profundamente eclesial", que deve ser exercido em "união com a missão da Igreja e em nome da mesma".253

 

289. A Igreja do Brasil, consciente de sua missão evangelizadora (cap. II), considerando as atuais mudanças da sociedade (cap. III), procurou formular novas Diretrizes para sua ação pastoral (cap. IV). O que as Diretrizes exigem dos evangelizadores? O quinto e último capítulo quer responder a esta questão.

 

290. Cada evangelizador deve colocar a si mesmo esta questão, buscando conformar sua vida e sua ação aos apelos do Espírito. Cada evangelizador dever perguntar-se à luz dos novos desafios e das novas Diretrizes da ação evangelizadora da Igreja do Brasil:

            quais são as novas prioridades que devo assumir?

            quais, conseqüentemente, as tarefas menos urgentes ou relevantes, que devo deixar?

            onde a Igreja local quer que eu invista minha generosidade e minha competência?

            qual é o papel específico que me cabe como leigo(a), consagrado(a), agente de pastoral, diácono, presbítero, Bispo?

            Qual é a formação ou a atualização de que preciso para desempenhar minha missão com a dedicação e competência que os outros esperam?

            Como articular melhor meu esforço pessoal com o dos meus irmãos, colegas, companheiros, com minha comunidade, congregação, Diocese?

 

As responsabilidades da Igreja Particular

 

291. A Igreja, toda ela missionária, encarna-se de fato na Igreja Particular e nela concretiza a sua ação evangelizadora. É nela que a evangelização entra na História de um lugar, de um povo e de uma cultura. Por sua vez, a Igreja Particular, nascida da missão evangelizadora, torna-se missionária e educa os batizados a se tornarem evangelizadores, seja de seus irmãos mais próximos, seja no serviço da missão "além-fronteiras", de outros povos ou culturas. Nela a diversidade de vocações, carismas e ministérios se coloca a serviço da evangelização.

Na prática, isso significa que ela deve converter-se num lugar de Comunhão e Participação dos agentes e das tarefas pastorais, para conseguir a união na diversidade e promover a realização de um projeto comum. A serviço deste projeto, deve ela oferecer aos evangelizadores condições de formação atualizada, de articulação das responsabilidades e tarefas, de desenvolvimento de uma espiritualidade ou mística da evangelização.

 

a) Formação

 

292. A formação dos evangelizadores, hoje tão solicitada, tem como centro e fonte de dinamismo o mistério de Cristo e exige principalmente:

   a) capacidade de "dar conta da própria esperança". Por isso é necessária uma formação específica quanto aos conteúdos fundamentais da fé e da moral católicas, que ajude a compreender e a explicitar melhor a vivência do mistério cristão, que fez surgir a vocação do evangelizador. Referência privilegiada dessa formação será o novo Catecismo da Igreja Católica;

   b) conhecimento adequado da realidade, sem aceitar o puro empirismo ou as falsas certezas. Seria útil que cada evangelizador ou comunidade conhecesse de maneira concreta pessoas e grupos aos quais se dirige: quais inquietações sentem; quais instâncias congregam as pessoas e influenciam suas vidas; como encarnam os valores evangélicos (gratuidade, solidariedade, fé, perdão, partilha, entrega da vida, ...); como expressam sua experiência religiosa...

   c) capacidade de comunicar, tanto em nível pessoal como através dos meios, sempre mais numerosos, que a cultura atual põe à disposição dos evangelizadores;

   d) capacidade de avaliar e mudar, para poder medir os efeitos da ação evangelizadora e reorientar os rumos, quando oportuno.

 

293. Além disso, é preciso que a formação dos evangelizadores satisfaça às exigências específicas de cada categoria do Povo de Deus.

294. Com relação aos conteúdos e métodos da formação específica, será preciso distinguir grupos diferentes segundo as situações pessoais, a participação na Igreja, a função na sociedade. Para isso, a Igreja Particular procurará: contar com a orientação de especialistas experientes; valer-se dos meios humanos adequados, inclusive daqueles oferecidos pelas ciências sociais; criar adequados organismos de estudo e pesquisa; realizar maiores investimentos, inclusive financeiros, na formação de lideranças; retomar, com novo vigor, a formação nos movimentos de juventude.

 

295. Um amplo programa de formação sistemática, tendo por objetivo o revigoramento da fé e do testemunho de todos os fiéis católicos, será promovido no triênio 1997-1999, conforme orientações da Assembléia dos Bispos, com base nas sugestões do Papa João Paulo II, para a preparação do Jubileu do ano 2000.

 

b) Articulação

 

296. A articulação é uma necessidade hoje muito sentida, face à tendência à segmentação, especialização e fragmentação, que atingem tanto a sociedade e a cultura em geral quanto a evangelização e a pastoral. A articulação não visa a criar relações de subordinação de certas atividades a outras ou uniformidade na ação, mas a estabelecer uma efetiva comunicação entre os interlocutores, que permita o intercâmbio de informações e, eventualmente, pelo diálogo, a elaboração de um consenso. Respeita a pluralidade, mas evita o isolamento. Cria o que, na linguagem atual, é chamado de "rede". Do ponto de vista prático, evita falhas desnecessárias: visão estreita das responsabilidades da missão; acúmulo de trabalhos em poucos agentes; repetição e desperdício por um lado e tarefas não atendidas por outro; preocupação com o imediato em prejuízo do importante... Do ponto de vista teológico e eclesial, a articulação é, também, um testemunho de comunhão e participação.

 

297. A missão evangelizadora é o objetivo de toda a ação eclesial e, portanto, seu eixo unificador. Organismos e agregações, conforme seus próprios dons e carismas, têm na missão um critério essencial para a programação, execução e avaliação das suas atividades. Este é, também, o critério de articulação entre os diversos evangelizadores e organismos que os congregam. Um aspecto especial da articulação se refere às exigências e dimensões da evangelização: elas devem ser entendidas e realizadas como um conjunto e não como atividades isoladas.

 

298. Seguindo as Diretrizes254 anteriores, reafirmamos como úteis para a articulação os seguintes princípios:

   a) o da variedade-complementariedade das vocações e condições de vida, dos ministérios, carismas e responsabilidades, como num corpo vivo, onde se realiza a "comunhão orgânica" entre seus membros;255

   b) o da autonomia, que garante a cada um dos membros do corpo eclesial o direito a cultivar a própria identidade e o próprio carisma, evitando todo nivelamento;

   c) o da subsidiariedade, que atribui às pessoas e às comunidades intermédias a maior autonomia possível, em tudo o que elas podem fazer, sem recurso a níveis superiores a não ser quando necessário. A aplicação deste princípio exige a descentralização da organização e, em muitos casos, uma redistribuição de tarefas e responsabilidades;

   d) o da participação responsável, que visa a envolver o maior número possível de interessados na reflexão, decisão, execução e avaliação. Ao mesmo tempo, a participação exige uma definição clara das competências e responsabilidades.

 

299. Com vista a uma efetiva articulação, sugerem-se algumas ações concretas, em nível de Diocese, setor ou paróquia:

   a) realizar reflexões em comum com os agentes;

   b)apontar os rumos, específicos, para a evangelização na realidade concreta;     

   c) estabelecer temas e prioridades de interesse comum;

   d) fazer a avaliação da caminhada, promovendo pesquisas sobre a realidade local, fazendo a crítica, atualização e adaptação necessárias;

   e) realizar Assembléias ou Sínodos diocesanos, que suscitem um processo amplo de avaliação e planejamento;

   f) elaborar Planos de Pastoral, que orientem a tarefa comum e facilitem a avaliação;

   g) criar mecanismos de participação, onde os leigos, e entre eles mulheres e jovens, tenham possibilidade de apresentar, conhecer, estudar e refletir os problemas da evangelização e exercer a sua iniciativa;

   h) estabelecer Conselhos ou Comissões permanentes e realizar Assembléias periódicas para garantir a continuidade da ação pastoral e da vida comunitária;

   i) buscar os meios adequados para a formação necessária e a sustentação de uma espiritualidade missionária;

   j) garantir a necessária renovação dos ministérios.

 

300. Promova-se, em particular, a formação de Conselhos Diocesanos de Leigos e sua articulação com os Conselhos regionais e nacional "em plena comunhão com os pastores e adequada autonomia, como lugares de encontro, diálogo e serviço, que contribuam para o fortalecimento da unidade, da espiritualidade, da organização do laicato"256 e as Igrejas locais cuidem para que as organizações de leigos "não esgotem seus esforços apenas no cuidado de sua própria formação e espiritualidade, mas se voltem para o vasto campo do mundo dos afastados, dos católicos não-praticantes, dos excluídos da sociedade, abrindo seu coração à caridade e, mesmo, abrindo novos campos de promoção humana e de missão no mundo".257

 

301. A Igreja Particular ou local pode e deve promover momentos ou eventos em que se expressem mais visivelmente a comunhão e o compromisso com a evangelização de todos, e todos possam reconhecer melhor os dons de cada um.

 

302. A Igreja Particular alimenta a comunhão eclesial, articulando-se com as demais Igrejas do Regional, com a Igreja no Brasil e no mundo, procurando permanentemente reforçar os vínculos de comunhão e contribuir, segundo seus recursos, mesmo com sacrifícios generosos, para a missão universal e a ajuda a Igrejas-Irmãs particularmente carentes.

 

303. Na Igreja Particular compete ao Bispo a responsabilidade principal pela articulação da tarefa evangelizadora. Antes de tudo, ele mesmo, pessoalmente, deve ser testemunha do espírito evangélico e da tradição apostólica. É, pois, elo de comunhão e sinal de unidade da sua Igreja diocesana. Assuma, com zelo, a tarefa de incentivar e coordenar a ação evangelizadora, a ser realizada com a participação de toda a comunidade eclesial, com suas forças vivas e os diversos carismas que lhe foram concedidos. O Bispo dedique particular empenho à animação do seu presbitério, que lhe está estritamente associado no governo da Diocese, 258 sem deixar de exortar todos os seus fiéis à ação apostólica e missionária.259

 

Exigências específicas

 

a) Leigos

 

304. A participação dos leigos na Missão é fundamental e necessária não só porque são eles que podem penetrar no tecido humano das várias esferas da sociedade moderna (economia, política, ciência e técnica, cultura, meios de comunicação...), mas, sobretudo, porque, por força da graça batismal, estão plenamente habilitados ao exercício da fé na vida. "A necessidade de que todos os fiéis compartilhem tal responsabilidade não é apenas questão de eficácia apostólica, mas um dever-direito, fundado sobre a dignidade batismal".260 Diante dos desafios atuais, eles têm um papel de vanguarda na inculturação do Evangelho no mundo de hoje.261

 

305. Para participar mais plenamente nas tarefas da missão comum, os leigos devem ter viva consciência da sua responsabilidade. A Missão hoje exige que eles assumam ativamente seu papel de sujeitos e se percebam como evangelizadores,262 ultrapassando a concepção pastoral que os considerava "objeto" ou destinatários da tarefa evangelizadora.

 

306. Deve ser reconhecida e valorizada a diversidade das vocações laicais. Não há uma vocação leiga única. Os dons e carismas do Espírito e a diversidade de situações que a realidade apresenta criam também uma grande diversidade de apelos e respostas.

Poderíamos distinguir quatro campos nos quais se desenvolvem as vocações leigas: o amplo campo do serviço de transformação da sociedade, da assistência aos pobres, da promoção social e dos direitos humanos, da justiça e da política; o campo do diálogo religioso e da colaboração com pessoas de outras religiões ou credos; o campo do anúncio missionário de Jesus Cristo, tanto entre os que não o conhecem quanto entre os que o esqueceram ou nunca o conheceram suficientemente; e o campo dos ministérios e serviços para a construção e sustentação da vida da comunidade cristã. Nas diversas vocações, porém, deve transparecer claramente a única missão evangelizadora.

 

307. Especial menção merece a tarefa evangelizadora das mulheres e dos jovens. De fato, exercem responsabilidades significativas nas tarefas da evangelização, como catequese, educação, animação de comunidades, associações de bairro, entidades estudantis, sindicatos, política, ecumenismo, defesa da ecologia e cultura. Apreciamos os avanços acontecidos e insistimos na necessidade de continuar este processo para que a ação evangelizadora seja mais plenamente evangélica. Santo Domingo exige que "a opção preferencial pelos jovens" aconteça "não só de modo afetivo, mas também efetivamente", 263 e que se aceitem e valorizem as mulheres na comunidade eclesial "não só pelo que elas fazem, mas sobretudo pelo que elas são".264 Em nossas comunidades dê-se atenção especial aos jovens, à Pastoral da Juventude, às Pastorais Específicas da Juventude e à Pastoral da Mulher.

 

308. A ação evangelizadora dos leigos implica no aprofundamento de sua identidade e missão específica, através de uma adequada formação, assim como na sua articulação e organização em Conselhos. Entre os critérios da formação, o Papa destacava: "Formar leigos significa favorecer-lhes a aquisição de verdadeira competência e habilitação no campo em que devem atuar; mas significa, sobretudo, educá-los na fé e no conhecimento da doutrina da Igreja naquele campo".265

 

309. "A formação dos fiéis leigos tem como objetivo fundamental a descoberta cada vez mais clara da própria vocação e a disponibilidade cada vez maior para vivê-la no cumprimento da própria missão".266 Tem que levar a "uma união mais íntima entre a vida prática e a própria fé".267 E, para ser integral, deve incluir as dimensões espiritual, doutrinal, formação da consciência social, articulada através da Doutrina Social da Igreja e o crescimento pessoal no campo dos valores humanos.268 Como campos prioritários, o Papa colocou em destaque a família, o trabalho e a ação sócio-política. 269

Nos programas de formação, é preciso distinguir os programas voltados para a formação de agentes de pastoral e para as elites militantes, chamadas a assumir um papel de liderança dentro das estruturas eclesiásticas, na comunidade ou na sociedade civil, e os programas dirigidos à massa de praticantes, que devem ser despertados para o seu papel de evangelizadores, e não de meros ouvintes passivos da Palavra.

 

310. Concretamente, é oportuno que a formação dos leigos:

   a) seja programada e sistemática, não apenas ocasional;

   b) ligue o aspecto antropológico e o teológico, não sendo apenas uma reprodução empobrecida da teologia dos seminários;

   c) seja integrada e tenha como ponto de partida os problemas e perguntas dos leigos, oferecendo-lhes respostas para uma presença cristã no mundo;

   d) seja orientada predominantemente para a atuação nas transformações sociais, onde o testemunho dos leigos é especialmente qualificado;

   e) desenvolva especialmente a capacidade de comunicação e diálogo, aprimorando o relacionamento humano;

   f) seja diversificada e, nos seus métodos, tempos e conteúdos seja adaptada à diversidade de situações e tarefas dos cristãos leigos. Especial atenção merece a formação dos cristãos que atuam no campo da vida pública e política.

 

311. É preciso desenvolver nos leigos uma espiritualidade autenticamente evangélica e missionária, que supere o mero devocionismo, para sustentar o leigo em sua atuação humana e cristã na família, no trabalho, na sociedade, na vida quotidiana e nas diversas formas de apostolado e evangelização. A espiritualidade dos leigos se alimenta nas fontes de toda espiritualidade cristã: a Palavra, a Liturgia, a Comunhão eclesial. Mas ela busca especialmente a união da fé e da vida. Os leigos se encontram num lugar central no diálogo entre Deus e o mundo. Daí que a união com Deus, a oração, a vivência comunitária e o compromisso no mundo — como serviço, diálogo e anúncio — se revestem para os leigos de um acento especial.

 

b) Vida consagrada

 

312. A Vida Consagrada, em suas diversas formas, tanto apostólica como contemplativa e monástica, já é evangelizadora pela sua própria existência, pois vive radicalmente a experiência cristã e testemunha a entrega total no seguimento de Cristo. Por sua disponibilidade ao serviço do Evangelho, ela tem também condições de assumir um papel pioneiro na renovação pastoral, buscando iniciativas inovadoras. Dela se espera, hoje, um empenho especial na linha da evangelização inculturada.

 

313. Além das tarefas tradicionais nas áreas da educação, saúde e obras de caridade, nos últimos anos a Vida Consagrada descobriu novos campos para a tarefa pastoral, novas maneiras de viver em comunidades inseridas e de animação das comunidades eclesiais de base e das pastorais específicas. Neste processo, a Vida Consagrada tem-se renovado também por dentro, aprofundando sua consagração a Deus na vivência dos conselhos evangélicos. Esse é, sem dúvida, o melhor serviço que o Povo de Deus dela espera. Com efeito, sua "força pastoral" lhe vem sobretudo do fato de ser expressão do seguimento de Cristo no meio do Povo de Deus e sinal de esperança para ele.270

 

314. Outras exigências para a Vida Consagrada decorrem das novas situações e diretrizes pastorais:

            incentivar a disponibilidade para a missão "além-fronteiras" e em campos de "fronteira" (intelectuais, universidade, comunicação, ação social,...);

            empenhar-se na formação dos leigos e ministros, contribuindo assim para responder a um dos pedidos mais freqüentes e urgentes das Igrejas locais;

            aprofundar a ligação com a Igreja Particular e suas opções pastorais, pois esta é o lugar onde adquirem concretude histórica os carismas específicos. O Papa João Paulo II dizia aos Superiores Gerais:271 "A vossa vocação à Igreja Universal realiza-se dentro das estruturas da Igreja local... A unidade com a Igreja universal, através da Igreja local: eis o vosso caminho".

 

315. A Vida Consagrada e os Institutos religiosos são chamados à renovação exigida pelas mudanças da sociedade e pelas exigências da nova evangelização. A serviço dessa renovação, a Vida Religiosa, além das iniciativas específicas dos respectivos Institutos, conta com o vasto serviço da Conferência dos Religiosos do Brasil e com inúmeras iniciativas intercongregacionais de formação inicial e de formação permanente.272

 

c) Ministério ordenado

 

316. O ministério ordenado tem a função de unir as diversas categorias do Povo de Deus, na Igreja Particular. Pela sua autoridade e função peculiar, instituídas por Cristo, o ministério ordenado é decisivo para imprimir elã missionário à Igreja local. Mal exercido pode — eventualmente — prejudicar seu dinamismo missionário. Por isso, neste momento, a Igreja no Brasil espera dos ministros ordenados um esforço muito especial em aprimorar o exercício do seu ministério.

 

317. Exigências desse aprimoramento são:

— a caridade pastoral

É preciso intensificar a vivência da "caridade pastoral", que assume como núcleo da identidade ministerial e da própria vida, a missão evangelizadora e o cuidado pastoral por todos e cada um dos irmãos, e que anima a entrega pessoal e o serviço da comunidade.

 

318. Quanto à espiritualidade presbiteral, além das orientações fundamentais da "Pastores Dabo Vobis"273 e do "Diretório para o Ministério e a Vida do Presbítero", 274 levem-se em conta as acentuações necessárias no contexto brasileiro atual, nacional e local. A encarnação do presbítero na vida do povo e a solidariedade com suas causas são exigências fundamentais de uma espiritualidade baseada na "identificação com Cristo Pastor e Servo de seus irmãos".275

O múnus de pastor não se reduz ao cuidado individual dos fiéis, mas abarca, como tarefa própria, a formação de uma autêntica comunidade cristã, que tem por raiz e centro a celebração da Eucaristia, impulso para as obras de caridade e auxílio mútuo, para a ação missionária, como ainda para as várias formas de testemunho cristão.276

 

319. — a colegialidade e a corresponsabilidade pastoral

O Presbitério é o ambiente propício para a vivência fraterna, a periodização e distribuição das tarefas pastorais e o cuidado pelo irmão.

 

320. O ministério ordenado necessita recuperar sua vivência colegial. O Concílio Vaticano II redescobriu a natureza comunitária do ministério ordenado. Essa "comunhão ministerial" deve ser vivenciada, afetiva e efetivamente em todos os graus do ministério: na colegialidade episcopal e na corresponsabilidade presbiteral no interior de cada Igreja Particular. A forma individualista do exercício do ministério ordenado, além de ser uma traição à sua própria essência, é um dos principais entraves à realização de uma Igreja toda ela responsável pela       missão.

 

321. O presbítero é, antes de tudo, membro de um presbitério e somente em comunhão com ele pode exercer sua tarefa específica. Ao presbitério como um todo, presidido pelo Bispo, e não aos presbíteros separadamente, é confiado o pastoreio da Igreja Particular. Isso não isenta ninguém de sua responsabilidade pessoal. A ação pastoral do presbitério deve ser vivida como expressão de solidariedade fraterna, na qual todos se sentem corresponsáveis pela tarefa comum e, ainda mais, pela vida e ministério de cada um dos irmãos presbíteros. "O ministério ordenado tem uma radical 'forma comunitária' e pode ser assumido apenas como obra coletiva ".277

 

322. — qualidade do ministério e autenticidade do testemunho

Na atual conjuntura, o presbítero deve procurar, antes de tudo, a qualidade do seu ministério e a autenticidade do seu testemunho, e deve se sentir corresponsável pela qualidade do serviço pastoral e do testemunho do presbitério como um todo.

 

323. Para conseguir estas metas, o presbítero deve seriamente rever as prioridades de seu ministério, evitando a sobrecarga com tarefas burocráticas ou secundárias, descentralizando os serviços que podem ser confiados a outros agentes de pastoral.

 

324. O ministério ordenado está a serviço do "sacerdócio comum" dos fiéis.278 Tarefa básica do ministério pastoral é contribuir para a edificação da comunidade cristã, toda ela missionária, onde os fiéis leigos possam alcançar a maturidade cristã (PO 6) e tenham liberdade de ação e de iniciativa (PO 9).

 

325. Por isso suas prioridades são:

            a formação dos leigos, com vista à sua atuação como protagonistas da evangelização;

            a animação da espiritualidade dos mesmos, que tem suas fontes na Palavra de Deus e na liturgia da Igreja;

            a garantia da autenticidade e apostolicidade da vida e ação dos cristãos.

 

326. Uma melhor distribuição das tarefas do ministério presbiteral deve ser realizada em dois níveis: 1º dentro do próprio presbitério, procurando que os presbíteros, na medida do possível, além ou em lugar da responsabilidade por uma paróquia ou conjunto de comunidades, assumam tarefas especializadas, a serviço de outros colegas ou de toda a Diocese, valorizando dons pessoais ou carismas de cada um; 2º dentro da própria comunidade ou paróquia, entregando com confiança a agentes de pastoral ou ministros leigos as tarefas que lhes convêm e que não são exclusivas do ministério presbiteral, e respeitando a iniciativa e a justa autonomia de todos os que se entregarem ao serviço do Evangelho.

Será oportuno promover um intenso e constante diálogo entre padres e leigos, para enriquecimento mútuo da espiritualidade e da capacidade de trabalhar pastoralmente. Em certos casos, poderá ser oportuno constituir equipes integradas de padres, leigos e outros agentes de pastoral.

 

327. — abertura e interesse para um processo de formação continuada ou permanente

A formação permanente é um processo que acompanha o presbítero em toda a sua existência; os próprios presbíteros devem ser sujeitos de todo o processo; deve contemplar as dimensões humana, afetiva, espiritual, teológica e pastoral; respeitar a diversidade cultural; favorecer o desenvolvimento dos carismas pessoais a serviço da missão; garantir uma qualificação especializada segundo os vários campos da pastoral, em especial a pastoral urbana; contar com investimentos específicos por parte das Dioceses e Institutos Religiosos; envolver os Seminários Maiores e os Institutos de Teologia em sua execução.279

 

328. Os diáconos permanentes, nas Dioceses onde exercem o seu ministério, contribuem de maneira significativa para a tarefa da evangelização. Há que reconhecer o amplo campo de seu serviço, a geração de uma "cultura de solidariedade, fundamentada no testemunho de comunhão e caridade".280 Para o melhor desempenho desta tarefa, a Igreja espera que cresça seu número e que eles se empenhem cada vez mais na evangelização. Precisam, também eles, como todos os ministros ordenados, de aprofundar a vivência da espiritualidade cristã, de fortalecer seu compromisso evangelizador, aprimorar sua formação teológica e pastoral, e viver seu compromisso com o serviço à comunidade. É necessário grande empenho de Bispos e padres para a articulação dos diáconos permanentes com o presbitério.281

 

Espiritualidade dos evangelizadores

 

329. A exigência maior para cada evangelizador é de viver uma espiritualidade sólida e capaz de dar conta da própria esperança.282 Só uma espiritualidade firme pode dar sustentação ao testemunho cristão, especialmente se levarmos em conta que a cultura atual aprecia a religiosidade e os valores espirituais, mas numa perspectiva fortemente individualista e subjetivista, e tende a atribuir o mesmo valor às várias opções religiosas.

 

330. Do evangelizador exige-se uma profunda mística cristã e missionária, que tenha força para envolvê-lo totalmente, ajudando-o a renovar as expressões do anúncio, o ardor evangélico e a busca de novos métodos. Mística que o auxilia a sintetizar as coisas do coração e da razão, tornando-o capaz de entregar a vida toda pela causa do Reino, a exemplo de Jesus, como prova maior de seu amor ao Pai e a seus irmãos. Mística que lhe dá coragem e audácia para exercer sua insubstituível missão de profeta e homem de Deus hoje.

 

331. O evangelizador deverá, portanto, viver e cultivar a espiritualidade autenticamente cristã, que tem seus fundamentos na Palavra de Deus e na Eucaristia, nas celebrações dos mistérios de Deus, na vida comunitária e no serviço ao mundo. Alguns aspectos são particularmente importantes:

 

332. — Deixar-se conduzir pelo Espírito, capaz de transformar tímidos discípulos em testemunhas corajosos, atentos aos "sinais" da presença do Reino em ação (cf. RMi 87). A docilidade ao Espírito exige do evangelizador contínua revisão de vida, para que suas atitudes correspondam aos apelos que lhe chegam da realidade.

 

333. — Viver em íntima comunhão com Cristo.283 Enviado para evangelizar, o Filho de Deus se desveste de si mesmo, renuncia a projetos humanos e se dedica totalmente ao projeto do Pai. A comunhão com Cristo, diariamente cultivada, exige hoje do evangelizador um processo contínuo de conversão para assumir com generosidade e alegria o projeto de uma evangelização inculturada. Este processo exige-lhe renúncia a projetos particulares, colocando sua realização pessoal na doação de si pela causa do Reino.

 

334. — Abrir-se a uma profunda sensibilidade com a maneira de ser do nosso povo, em sua fé, de modo especial, em sua piedade mariana. Para o evangelizador, a Virgem Maria, Mãe de Cristo e da Igreja, a mais perfeita discípula, é o modelo de todos os discípulos e evangelizadores. É exemplo, por seu testemunho de oração, de escuta da Palavra de Deus, de pronta e fiel disponibilidade ao serviço do Reino até a cruz. Ela nos precede na peregrinação da fé e no caminho da glória, até que nos encontremos definitivamente com o seu Filho. Por isso é a Estrela da primeira e da nova evangelização.284

 

335. — Pautar-se por uma profunda caridade apostólica. Percorrer o caminho de Jesus como evangelizador hoje, exige-nos descobri-lo como servo de todos,285 numa atitude de abertura e de diálogo, 286 anunciando a Boa-Nova do Reino,287 vivendo em íntima comunhão com o Pai e com os discípulos,288 com eles celebrando a ação de graças e de louvor ao Pai.289 Essa caridade apostólica é "feita de atenção, ternura, compaixão, acolhimento, disponibilidade e empenho pelos problemas da gente".290

 

336. — Abraçar uma atitude missionária que, vencendo o comodismo e o medo, anuncia explicitamente a Jesus Cristo e a seu Reino. Este anúncio explícito deve ser inserido no meio da vida das pessoas e dos grupos e deve levar muito em conta as culturas. O esforço para realizar a inculturação é sinal de um amor semelhante ao que levou o Filho de Deus a se encarnar e assumir a nossa História.

 

337. — Cultivar uma atitude de fortaleza e perseverança diante das perplexidades, adversidades e conflitos. Esta atitude é fruto da esperança a que somos chamados, que está fundada nas promessas do Senhor e não em nossos projetos. Não deve ser confundida com fundamentalismo, fanatismo ou teimosia.

 

338. — Desenvolver uma atitude de criatividade e coragem para propor novos caminhos. Há valores e brechas na mentalidade moderna que favorecem as propostas evangélicas. É preciso descobrir as aberturas do coração humano e seus anseios como, por exemplo, daqueles que estão à procura de solidariedade, de paz, de novas relações com a natureza, de defesa dos direitos humanos, das minorias, da mulher...

 

339. — Abrir-se para uma atitude de acolhida do outro, em especial de quem pertence a tradições religiosas e culturais diferentes. A acolhida se refere especialmente às suas experiências espirituais mais profundas. Esta atitude está alicerçada num espírito de tolerância e respeito e se realiza mediante o diálogo aberto, que valoriza a experiência do outro e o ajuda na sua busca, sem julgar nem condenar nem impor.

 

340. — Assumir uma atitude de misericórdia, daquela misericórdia do próprio Deus, que encontrou a sua expressão mais alta nas atitudes de Jesus para com pobres, aflitos e pecadores, para com todos os crucificados desta terra, que o evangelizador deve amar como os preferidos de Deus.

 

341. — Participar generosa e alegremente na vida e na missão da comunidade, sinal e germe do Reino, vencendo os perigos do individualismo e do fechamento em grupos restritos. Um testemunho particularmente válido hoje é uma comunidade solidária e alegre, imagem e início da comunhão com a Trindade Santa. A comunhão eclesial exige também o reconhecimento da legítima pluralidade das formas de organização e de espiritualidade dos fiéis.291

 

342. Em resumo, o evangelizador de hoje deve ser um santo. Deve estar cheio de ardor missionário,292 e que seu zelo "brote de uma verdadeira santidade de vida, alimentada pela oração e, sobretudo, pelo amor à Eucaristia".293 Assim se imitarão tantos exemplos de fidelidade do passado e se alongará o martirológio, segundo a sugestão do Papa.294

 

CONCLUSÃO

 

343. As Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora295 são uma resposta da Igreja, no Brasil, aos desafios de sua missão, que é EVANGELIZAR.

 

344. Mais que as anteriores, estas Diretrizes foram pensadas e formuladas fazendo da EVANGELIZAÇÃO a prioridade real e o eixo central da ação da Igreja, procurando assim atender ao apelo missionário da "Redemptoris Missio", da IV Conferência Geral do Episcopado latino-americano em Santo Domingo, do Ano Missionário e do V Congresso Missionário latino-americano. A própria ação pastoral, entendida como cuidado das comunidades cristãs já sólidas e maduras,296 foi orientada para a formação de evangelizadores e, de certo modo, subordinada à missão de anunciar o Evangelho e de testemunhá-lo diante daqueles que não estão vitalmente inseridos na comunidade eclesial.

 

345. A NOVA EVANGELIZAÇÃO exige, como sabemos, que ela seja nova em seu ardor, em seus métodos e em sua expressão.297 A complexidade e a mobilidade da sociedade atual nos impõem um esforço redobrado de compreensão das aspirações dos homens e mulheres de hoje e um empenho generoso e firme no anúncio da boa nova evangélica. Esta preocupação anima nossas Diretrizes e se apresenta a nós como um grande desafio.

 

  346. Temos certeza de que poderemos responder a esse desafio, unindo ao empenho generoso e à lucidez do olhar, a disposição de procurar a colaboração de todos, especialmente dos que buscam conosco os valores da verdade, da liberdade e da justiça. Confiamos principalmente na docilidade ao ESPÍRITO, PROTAGONISTA DA EVANGELIZAÇÃO, ao qual renovamos o nosso pedido, pela intercessão de Maria, Mãe da Igreja, do dom do discernimento, para que nossos planos humanos não se afastem do coração de Deus e realizem sua vontade de vida plena para todos.

- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -

Fonte: Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB

Web site: www.cnbb.org.br