CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL

CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL

 

DAS DIRETRIZES  A SANTO DOMINGO

 

Agosto de 1992

 

 

APRESENTAÇÃO

 

A definição das novas Diretrizes Pastorais 1991-1994 e a preparação para a Assembléias  de Santo domingo foram processos que caminharam juntos na Igreja do Brasil. Ambos se situaram no mesmo horizonte, o da nova evangelização, e sob a mesma luz, "Jesus Cristo, ontem, hoje, e sempre". Comuns são também os grandes desafios identicados: o crescente empobrecimento do povo, o neo-liberalismo e o povo cenário latino-americano e internacional, a irrupção da modernidade, o pluralismo cultural e religioso.

 

A 30ª Assembléia Geral da CNBB (1992) considerou a contribuição do Brasil para a reflexão teólogica dos temas que emergiram na preparação a Santo Domingo estava suficientemente expressa nas Diredrizes Gerais publicadas em 1991. Assim sendo, optou por definir dez temas amplos e fazer sobre elas um reflexão pastoral, buscando chegar a posições que expressassem a posição do episcopado brasileiro.

 

Os  dez tema escolhidos foram:

 

I. Evangelização da Cultura Urbana

 

II.            Evangelização e Comunicação

 

III Povos Indíginas e Afro-americanos: Evangelização a partir de sua história e cultura

 

IV. Opção pelos Pobres e Solidariedade

 

V.           Pela Defesa da Vida e da Pessoa

 

VI.           Família  Educação  Jovens

 

VII.          Participação na Sociedade Pluralista e Democrática

 

VIII.         A Responsabilidade da Igreja diante da Situação Internacional

 

IX.           Nova Religiosidade e Grupos Religiosos Autônomos

 

X.            Participação do Laicato e da Mulher na Igreja

 

A Assembléia realizou seu trabalho a partir de grupos e contribuições pessoais ao plenário. Uma comissão elaborou o relatório final que não foi votado e que, com o nome de "Subsídios para Santo Domingo", teve publicação apenas interna.

Em agosto deste ano o Conselho Permanente reuniu-se com os delegados e demais participantes à Conferência de Santo Domingo para aprofundar a preparação. À luz do Instrumento de Trabalho da IV Conferência, já então publicado, os 10 pontos do subsídio foram reestudados, aperfeiçoados e votados, passando a constituir o Documento Oficial da CNBB com o título "Das Diretrizes a Santo Domingo".

Ele se destina à delegação brasileira para um posicionamento mais harmônico e coerente na Assembléia de Santo Domingo. Destina-se também a todos os Bispos, comunidades e agentes de pastoral para que participem da reflexão e do clima de preparação da IV Conferência do Episcopado Latino-Americano.

Desta forma, assim como todo o trabalho de elaboração das Diretrizes Gerais ajudou-nos a preparar Santo Domingo, assim também, as reflexões de Santo Domingo, certamente, auxiliarão a concretizar sempre mais as pistas levantadas pelas nossas Diretrizes Gerais.

 

Conselho Permanente

Brasília, 24 de agosto de 1992

Festa do Apóstolo São Bartolomeu

 

 

I - EVANGELIZAÇÃO DA CULTURA URBANA

 

                          INTRODUÇÃO

 

1.           A América Latina encontra-se hoje num acelerado processo de urbanização. A cidade pós-industrial não representa apenas uma variante do tradicional hábitat humano, mas constitui, de fato, a passagem da cultura rural para a cultura urbana, a sede e o motor da nova civilização universal (DP 429).

Nela altera-se sobremaneira a modalidade peculiar como, dentro de um grupo social, de um povo, de uma nação, os homens cultivam sua relação com a natureza, com os outros e com Deus. Enquanto as relações com a natureza se limitam, em geral, à produção de bens de consumo e de serviço, e as relações com os demais, de pessoais se transformam em funcionais, as relações com Deus passam por uma acentuada crise devido, talvez, à falta da mediação da natureza, que tanta influência exerceu na religiosidade rural.

 

2.           A grande cidade moderna além de transtornar os modos de vida e as estruturas habituais de convivência, como os da família, vizinhança e organização do trabalho, condiciona igualmente a consciência religiosa e a vida cristã (DP 431-432). Tudo isso é decorrência do fato de que a cidade pós-industrial, além de um espaço habitacional denso, extenso, heterogêneo, de uma organização funcional, é também um "horizonte mental", isto é, um espaço onde se forjam uma nova cultura, um novo modo de ver, de sentir, de pensar, de ser, de conviver, de trabalhar e descansar, de celebrar e festejar, de viver e de morrer. A cultura urbana já está penetrando no mundo rural, através dos meios de comunicação e da aplicação da tecnologia moderna aos trabalhos do campo.

 

3.           Ao lado de autênticos valores da modernidade, que o próprio Vaticano II reconhece (GS 57), a cidade oferece também desvalores que o mesmo Concílio denuncia. Aos primeiros é preciso incorporá-los ao cristianismo; aos segundos cumpre, ao evangelizar, purificá-los e elevá-los (GS 58).

 

4.           As cidades constituem hoje, talvez, o maior desafio à evangelização. E não é para menos! A Igreja nasce, cresce, se desenvolve e se organiza no seio da cultura agrária, no máximo de uma cultura urbano-agrária tradicional; de um momento para outro, se depara, contudo, diante de um novo estilo de vida, de um mundo novo. Pode ocorrer então  como de fato está acontecendo  que ela continue dando respostas rurais a problemas urbanos. Daqui a necessidade de criar novas respostas a partir da verdade eterna de que é portadora. Com razão afirma Puebla que para a pastoral da cidade é necessário "traçar caminhos e critérios, baseados na experiência e na imaginação" (DP 441).

 

 

   Proposições

 

               1          Inculturação urbana do Evangelho e do pensamento e da práxis da Igreja.

 

5.           Sendo a inculturação o processo adequado da evangelização da cultura, para que aconteça em profundidade o anúncio do Evangelho ao homem da cidade, exige-se, em primeiro lugar, integrar na mensagem de salvação de Cristo a linguagem e os símbolos da cultura urbana, incorporando os seus valores. Só então o Evangelho penetrará na cultura urbana e a fé poderá exercer sua função crítica e inspiradora de cultura. O processo de inculturação abrange o anúncio, a assimilação e a re-expressão da fé.

 

     2 — Redimensionamento da organização da Igreja na cidade.

 

 

6.           Devido ao fato de ser a cultura rural um estilo de vida homogêneo e tradicional, a Igreja organizou sua ação pastoral com o fito de conservar a fé e a vida religiosa. Predominou então uma pastoral de conservação, que aliás funcionou naquele contexto. Hoje, porém, diante de uma cultura dinâmica, marcada pela criatividade, só poderá funcionar uma pastoral de índole essencialmente missionária. É preciso propor o "primeiro anúncio" a  cada  geração,  ou  melhor, a  cada  pessoa,  mesmo    batizada  (EN 52).

 

7.           Daí surge a necessidade de uma pastoral planejada para a cidade. Nela é necessário levar em conta que a paróquia, mesmo renovada, se mostra contudo insuficiente (DP 152), porquanto na cidade não funciona o limite geográfico e o domicílio perde seu sentido de morada do homem. A setorização da cidade exige diversidade de organização paroquial. E a ação pastoral não pode esquecer que a cidade rompe os ritmos da natureza e transforma a noite em dia. A paróquia deverá ser comunidade de comunidades, ou "rede de comunidades", cabendo aqui valorizar a rica experiência das CEBs, que merecem sempre receber atenção e apoio.

 

       3      — Uma comunidade de fé, de cultura e de serviço da caridade participativa.

 

8.           A consciência moderna, que emerge na cidade, se mostra particularmente sensível à autonomia do homem e, conseqüentemente, ao direito e ao dever de assumir a vida e a História. Este valor da modernidade deveria, dentro de justos limites, encarnar-se na comunidade eclesial, já que a evangelização é tarefa de todo o Povo de Deus (LG 31), e a Igreja deveria ser um modelo do valor da pessoa humana e da convivência entre os homens (DP 273).

 

       4      — Formação de agentes para a pastoral urbana.

 

9.           João Paulo II insiste na inculturação dos evangelizadores na cultura à qual se propõe a mensagem do Evangelho. Isto exige a formação de agentes de pastoral para a cidade, tanto sacerdotes como religiosos e leigos. Daqui nasce, igualmente, a necessidade de uma pastoral vocacional urbana para os diferentes ministérios.

 

       5      — Uma evangelização para a solidariedade urbana.

 

10. A interdependência é uma característica marcante da vida da cidade, ao contrário da vida rural. Na cidade todos dependem de todos. Contudo, dada a heterogeneidade própria dos aglomerados urbanos, há uma tendência a fechar-se em si mesmo e desinteressar-se pelo bem comum, como já denunciou Paulo VI (OA 11). Não obstante isso, a solidariedade constitui a única resposta à interdependência da vida moderna. Se, de um lado, a pastoral urbana deve responder aos angustiantes problemas pessoais através do anúncio da Boa-Nova; do outro, tem que criar novas formas de presença pública na sociedade, suscitando a consciência ética no campo das ciências, das instituições e das expressões para a defesa do bem comum, dos direitos humanos, da vida, da ecologia.

 

        6     — Uma pastoral atenta ao fenômeno da migração para a cidade.

 

11. A grande cidade continua no seu crescimento demográfico, em grande parte devido às migrações forçadas, com graves conseqüências negativas. Na América Latina, o processo de urbanização se caracteriza por uma constante oferta de mão-de-obra, impossibilitada de ser absorvida. Desta forma, ao desenraizamento do campo, segue a marginalização de muitos irmãos nossos na periferia das grandes cidades. Trata-se, no comum dos casos, de pessoas ligadas às comunidades do campo, que se sentem desamparadas e desorientadas em seu novo hábitat. A pastoral das migrações deve ser parte integrante da pastoral urbana, sendo uma de suas formas de atuação, com equipes dedicadas a acolher, ajudar e criar novas raízes e a animar a fé destes irmãos que migram do campo para a cidade.

 

       7      — Uma pastoral junto aos centros de decisão e aos grupos de influência e de vivência.

 

12. Enquanto predominam no campo as relações primárias, pessoais; na cidade prevalece o tipo de relações secundárias. As pessoas se encontram não porque vivem perto, mas porque exercem a mesma função ou trabalham na mesma empresa. Só uma estrutura supra-paroquial poderia responder a essa exigência da pastoral urbana de evangelizar os grupos especializados, mediante encontros de reflexão para operários, empresários, médicos, advogados, técnicos, políticos etc.

 

 

II - EVANGELIZAÇÃO E COMUNICAÇÃO

 

                          INTRODUÇÃO

 

13. "O primeiro areópago dos tempos modernos é o mundo das comunicações" (cf. RMi 37). Os MCS criam uma nova cultura, "que nasce, menos dos conteúdos do que do próprio fato de existirem novos modos de comunicar, com novas linguagens, novas técnicas, novas atitudes psicológicas" (RMi 37). "Os meios de comunicação têm a capacidade de influir não só nas maneiras de pensar, mas também nos conteúdos do pensamento. Para muitas pessoas a realidade corresponde ao que os meios de comunicação definem como tal; o que eles explicitamente não reconhecem, parece insignificante" (Aetatis Novae, 4).

 

14. A comunicação nem sempre está a serviço da Verdade, da Justiça, do Amor e da Paz. Valores humanos e cristãos estão sendo destruídos.

 

15. Nas sociedades latino-americanas, os MCS de massa estão organizados industrialmente, funcionam segundo critérios de rentabilidade e/ou ideológicos e concentram-se nas mãos de poucos, muitas vezes a serviço de um projeto de dominação. Raramente são colocados a serviço da educação, do desenvolvimento integral da pessoa humana e da evangelização.

 

16. Na Igreja, considerada como um todo, ainda não há suficiente sensibilidade para a Comunicação. Não se tem consciência de sua importância para a evangelização, a promoção humana e a inspiração cristã da cultura. Também não se conseguiu ver que os MCS criam uma "nova cultura", na qual a mensagem da Igreja deve ser integrada (cf. RMi 37). A própria comunicação interna da Igreja é falha. Há muitos exemplos e símbolos da força comunicadora da fé cristã no passado, no entanto, recentemente, a comunicação deu um enorme avanço, que a Igreja não conseguiu acompanhar.

 

17. Na busca de uma comunicação autêntica, que contribua à união dos homens com Deus e dos homens entre si, a Igreja tem como fontes inspiradoras a comunicação entre as Pessoas divinas e a missão de Cristo e do Espírito (cf. DT 544; 665).

       

       Proposições

 

18. Impõe-se uma conversão da Igreja, em todos os seus níveis, para a valorização da comunicação e uso dos MCS. A comunicação é prioridade para a evangelização.

 

19. 1) Deve-se investir, utilizando os bens patrimoniais disponíveis, na tecnologia e na educação de pessoal especializado (= comunicadores), e, em geral, na formação do espírito crítico de toda a comunidade eclesial, especialmente nas novas gerações. Deve-se buscar a integração, em todos os níveis, dos MCS da Igreja e o diálogo  respeitoso, mas crítico  com todos os comunicadores.

 

20. 2) A ação da Igreja, no campo dos MCS, incluirá programas de formação para candidatos ao presbiterato, padres, Bispos, agentes de pastoral religiosos ou leigos; aperfeiçoamento da administração do pessoal e da cooperação entre emissoras católicas; pesquisas; apoio a entidade de comunicadores católicos, especialmente as organizações internacionais (OCIC, UCIP, UNDA); videotecas; valorização e premiação de pessoas e entidades que se distingam na comunicação a serviço da evangelização.

 

21. 3) Deve-se planejar globalmente a política de comunicação e informação a serviço da pastoral (cf. DT 674).

 

22. 4) Deve-se trabalhar, de forma conjunta, na Igreja, para que os MCS sejam um serviço à sociedade, conforme as orientações de "Aetatis Novae".

 

23. 5) Organize-se a pastoral de comunicação em cada diocese e paróquia, criando sala de imprensa, elaborando e difundindo notícias.

 

24. 6) Estude-se a possibilidade de a Igreja entrar, no campo da Televisão, com canal próprio.

 

25. 7) Avaliem-se os jornais católicos, diocesanos ou regionais, e suas perspectivas.

 

26. 8) Incentive-se também a comunicação alternativa, através de boletins, jornais, folhetos, diapositivos, "rádios populares", artistas e poetas do povo.

 

27. 9) Procure-se criar condições para uma efetiva colaboração ecumênica.

 

28.10) Pede-se que em Santo Domingo:

 

a)            a comunicação seja uma nova opção;

 

b)            o texto do documento final seja breve e de impacto;

 

c)            a redação do documento final seja revista por jornalistas, visando uma linguagem acessível a todos.

 

 

III - POVOS INDÍGENAS E AFRO-AMERICANOS:  EVANGELIZAÇÃO A PARTIR  DE SUA HISTÓRIA E CULTURAS

 

INTRODUÇÃO

 

29. Não é possível atingir um povo com a mensagem de Cristo, a não ser através de sua cultura. Negros e índios têm cultura que não se pode considerar inferior à dos povos europeus, conquanto seja diversa. A primeira evangelização, em terras de América, não levou em conta esse dado importante. Menosprezou a história e a cultura dos autóctones e das multidões transportadas cativas da África; considerou deploráveis alguns de seus costumes, e satânicas suas práticas religiosas.

 

30. Por isso, o Evangelho não os atingiu em profundidade. Só quando se identificam "as sementes do Verbo", espalhadas pelo Espírito no coração dos povos e no âmago de suas culturas, é que o anúncio do Deus vivo e libertador lhes toca o coração, lhes retifica as mentes e lhes purifica e renova o viver.

 

31. A nova evangelização pretende situar-se nessa perspectiva condizente com o mistério da Encarnação.

 

        Proposições

 

32. 1) A Igreja confessa ter cometido erros na primeira evangelização da América Latina. Muitos erros, no passado, surgiram de um contexto em que havia escassa consciência do pluralismo cultural. Em atitude penitencial, como pastores:

 

33.   — pedimos perdão aos povos indígenas e aos negros americanos pelas vezes que não soubemos reconhecer a presença de Deus em suas culturas;

 

  34. — pedimos perdão pelas vezes que confundimos evangelização com imposição da cultura ocidental;

 

   35. — pedimos perdão pela tolerância ou participação na destruição das culturas indígenas e africanas;

 

      36.    — pedimos perdão aos negros americanos pelas vezes que nos servimos do Evangelho para justificar sua escravidão;

 

      37.    — pedimos perdão pelas vezes que nos beneficiamos desta escravidão nos conventos, paróquias ou cúrias.

 

38. 2) Ao pedir perdão aos povos indígenas e aos negros pela omissão e cumplicidade aberta ou velada com seus conquistadores e opressores, confessamos que os erros do passado persistem em muitas circunstâncias até os dias de hoje. Os povos indígenas e os negros da América Latina continuam ameaçados pelo sistema de dominação e pelo racismo vigentes e continuam vivendo à margem da Igreja institucional e da sociedade.

 

39. Sabemos que o perdão é um longo processo. Consideramos nossa solidariedade incondicional e nosso compromisso com a causa dos povos indígenas e dos negros nas Américas parte integrante da Nova Evangelização.

 

40. 3) Conscientes de que o Espírito Santo já atua nos povos indígenas e afro-americanos muito antes da chegada do missionário, a Igreja quer, num novo esforço de evangelização, retomar a prática da era apostólica, que valorizava o passado dos povos e sua diversidade religiosa, convidando-os a voltar-se ao Deus verdadeiro e a Jesus, a quem Deus enviara (cf. RMi 25). Por isso é necessária uma pastoral específica e diferenciada.

 

41. 4) Para que a Igreja possa hoje apresentar o Evangelho aos povos indígenas e negros do nosso continente, é necessário que, juntamente com o primeiro anúncio, procure explicitar tudo o que há de valor humano e "sementes do Verbo" neste povo. Ao mesmo tempo, a Igreja procura aprofundar sua fidelidade ao Evangelho no diálogo com os valores das culturas indígenas e afro-americanas. É a inculturação que, de nossa parte, exige:

 

           Renúncia a todo etnocentrismo e colonialismo pastoral.

 

           Respeito às pessoas e apreço por suas culturas.

 

           Atitude de escuta com amor e docilidade.

 

           Conhecimento da linguagem, dos valores históricos e culturais, e das aspirações vitais desses povos.

 

           Especial atenção e respeito aos símbolos e ritos, à mística indígena e afro-americana e à função da mulher na religião e na sociedade tribal.

 

42. 5) Para desencadear, de fato, o processo de inculturação, exige-se uma preparação remota e providências imediatas:

 

a)       Como preparação remota, haja nos seminários curso específico de Missiologia e Antropologia Cultural. É a base para a compreensão e respeito às diversas raças e culturas.

 

b)       Como providência imediata, criem-se, em todos os níveis, grupos de reflexão teológica e litúrgica em que participem indígenas, negros e outros representantes de culturas minoritárias, para que o discernimento dos valores autênticos e a escolha dos símbolos seja feita com eles e por eles, e não somente por teólogos e liturgistas vindos de fora de suas culturas.

 

c)       Acentuar a importância da inculturação da liturgia e por isso criar institutos de pesquisa de expressões e símbolos que possam ser incorporados na celebração da fé.

 

43. 6) Face à marginalização a que foram relegados os negros em nosso continente, torna-se urgente o apoio às organizações por eles criadas para ajudá-los na recuperação de sua identidade e na luta contra os preconceitos que os mantém como humanamente inferiores.

 

44. 7) Com relação aos povos indígenas, a Igreja incorpora, como parte integrante da evangelização, o apoio às lutas, reivindicações referentes a terra e território, bem como autonomia, organização própria, identidade e especificidade étnica e cultural, religião e teologia.

 

45. 8) A Igreja reconhece e valoriza elementos das religiões dos povos indígenas e afro-americanos, considerando-as como experiências válidas de Deus, e se propõe a desenvolver com elas um autêntico diálogo inter-religioso, que procure purificar, elevar e aperfeiçoar suas expressões religiosas (cf. RMi 54).

 

46. 9) A Igreja denuncia os mecanismos de dominação e integração nos campos político, econômico, cultural e religioso, que negam aos povos indígenas o direito de afirmarem o livre exercício de sua autonomia.

 

47. 10) Por ocasião do Vº centenário da evangelização da América Latina, a IVª Conferência faça uma clara opção pelos povos indígenas, opção específica, que deve ser articulada com a evangélica opção preferencial pelos pobres.

 

48. 11) Que a presidência da CNBB encaminhe, com urgência, pedido ao Santo Padre para que se digne incluir entre os participantes da IVª Conferência indígenas e afro-americanos, indicados por suas próprias entidades representativas.

 

 

IV - OPÇÃO PELOS POBRES E SOLIDARIEDADE 

 

INTRODUÇÃO

 

49. A Igreja da América Latina reconheceu, em Medellín e Puebla, a urgência da opção preferencial pelos pobres, fundamentando-a na constatação da brecha crescente entre ricos e pobres, "ricos cada vez mais ricos às custas de pobres cada vez mais pobres".

 

50. Treze anos depois de Puebla, a Igreja constata que esta opção se faz ainda mais urgente, porque o nível de vida dos pobres se deteriorou depois da "década perdida" dos anos 80, que aumentou a concentração da riqueza e drenou recursos de nossos pobres para países ricos, sobretudo através dos serviços da dívida externa.

 

51. Os mecanismos da economia de mercado produziram no Terceiro mundo (e também no primeiro) massas, excluídas dos benefícios do modelo de desenvolvimento adotado pelo sistema capitalista neo-liberal, que tem sacrificado tantas vidas humanas.

 

52. "A doutrina social católica repudiou sempre a organização da sociedade baseada num determinado modelo de capitalismo liberal, justamente qualificado de "capitalismo selvagem" que tem como notas dominantes a procura desenfreada do lucro, unida ao desrespeito pelo valor primordial do trabalho e pela dignidade do trabalhador. Esta procura não raro é acompanhada pela corrupção dos poderes públicos e pela difusão de fontes impróprias de enriquecimento e de lucros fáceis, fundados em atividades ilegais" (João Paulo II, em Vitória).

 

53. Já no Antigo Testamento, Deus demonstra seu amor preferencial pelos fracos e oprimidos, pelos mais pobres e pequeninos.

 

Jesus manifesta em sua vida o mesmo amor pelos prediletos do Pai. Cristo mesmo se fez pobre e escolheu os pobres como os primeiros destinatários do seu Evangelho. Ele associa ao mistério de sua cruz todos os que sofrem, especialmente os que são vítimas da maldade humana.

 

54. Este caminho, percorrido por Jesus, é o caminho a ser percorrido por todos os cristãos e pela Igreja através dos tempos. A opção pelos pobres diz respeito a cada cristão, porque é dimensão essencial do seguimento de Jesus. Brota de nossa fé e é sinal de sua autenticidade. Nenhum cristão pode recusá-la sem trair o Evangelho.

 

55. A opção pelos pobres exige de todos nós e de toda a Igreja profunda conversão e contínua vigilância para não nos envolvermos na mentalidade do mundo, que considera os pobres fardos pesados e importunos, obstáculo ao progresso e bem-estar da sociedade.

 

56. A opção pelos pobres leva ao compromisso evangélico e à solidariedade com eles e ao compromisso evangélico com suas causas e aspirações, suas organizações e movimentos. Esta solidariedade se expressa concretamente pela participação consciente e ativa na "nobre luta pela justiça" e pelo desenvolvimento humano integral.

 

57. A opção pelos pobres deve marcar todas as dimensões de vida de cada discípulo de Jesus como critério no desempenho de suas responsabilidades no campo social e político. Servirá também para iluminar evangelicamente o discernimento dos cristãos na aquisição, no uso e na partilha dos bens deste mundo.

 

58. O amor pelos prediletos de Deus pede à Igreja que transforme estruturas, métodos e expressões, afim de abrir espaços para que os pobres venham a ser participantes ativos da comunidade eclesial e sujeitos da ação evangelizadora.

 

Proposições

 

59. 1) É preciso que a Igreja na América Latina intensifique a busca de uma conversão mais radical ao seguimento do Cristo pobre. O testemunho de uma Igreja pobre com os pobres e a favor dos pobres será o primeiro passo de uma evangelização nova no ardor, no método e na expressão.

 

60. 2) A opção preferencial pelos pobres já vem influenciando positivamente o processo de conversão e mudança na vida interna da Igreja na AL em vários aspectos. Propomos que essa renovação seja reconhecida, estimulada e intensificada:

 

61. Cresce o espírito comunitário e missionário na Igreja; os pobres dão da sua própria pobreza e se tornam missionários, sobretudo nas CEBs.

 

62. Muitos estão se tornando sujeitos da evangelização.

 

63. A leitura e interpretação da Palavra de Deus parte do Cristo histórico, socialmente pobre.

 

64. Maria é venerada como mulher vinda do povo pobre e comprometida com a sua libertação.

 

65. A liturgia adota símbolos da cultura dos pobres e usa cânticos populares inspirados pela vida do povo;

 

66. Difunde-se, pouco a pouco, um novo estilo de pastor, mais simples e próximo dos pequenos, influenciando a formação presbiteral.

 

67. A inserção dos religiosos, e sobretudo das religiosas, no meio dos pobres tem recuperado formas radicais de pobreza, como vivência solidária com os pobres.

 

68. A mulher está sendo mais valorizada nas comunidades eclesiais.

 

69. 3) A tensão entre países ricos e países pobres (Norte-Sul) está sendo considerada o mais grave problema político-econômico do mundo, sobretudo após a queda do socialismo real. A nova ordem mundial deve ser construída sobre a fraternidade, justiça e solidariedade. Isto supõe um novo estilo de desenvolvimento.

 

70. O desenvolvimento até agora foi orientado pelo crescimento econômico, socialmente injusto, predador da natureza. O conceito de desenvolvimento precisa integrar as exigências éticas às quais devem se subordinar suas dimensões políticas e econômicas. Desenvolver "o homem todo e todos os homens", conforme a "Populorum Progressio", se constituem meta do desenvolvimento integral, à luz dos valores do Reino de Deus.

 

71. A opção pelos pobres tem como exigência metodológica indispensável a educação para o compromisso personalizante, criativo e transformador, superando o assistencialismo que cria dependência e passividade. Ponto de partida pode ser a realidade social com suas estruturas econômicas e políticas ou o fato salvífico de Jesus e seu Evangelho, provocando uma consciência ética capaz de viabilizar mudanças estruturais a nível social. O processo metodológico, que parte do anúncio de Jesus Cristo, parece ser mais compreensível e aceito pelo nosso povo pobre e religioso.

 

   72. Que a IV Conferência proclame um grande jubileu consistindo em:

 

           reconciliação entre todos;

 

           perdão das dívidas;

 

           destinação primordial da terra à produção de alimentos;

 

           destinação dos recursos públicos em primeiro lugar à eliminação da fome e do desemprego;

 

           apelo aos países credores do primeiro mundo para que convertam a dívida externa em projetos de desenvolvimento nos respectivos países.

 

 

V - PELA DEFESA DA VIDA E DA PESSOA

 

INTRODUÇÃO

 

73. A sociedade contemporânea, também na América Latina, é ameaçada por aquela que pode ser denominada "cultura da morte", pelas múltiplas formas de sacrifício da vida humana aos ídolos da riqueza, do poder e do prazer. "A vida hoje vem sendo desprezada e até eliminada, desde a concepção até as mais variadas formas de destruição. O Deus da vida exige o respeito e a promoção da vida em todas as suas formas e estágios" (DGAP 20).

 

74. "O ser humano é a única criatura que Deus quis por si mesma e para a qual tem seu projeto de salvação" (CA 53). "Deus enviou o  seu  Filho  unigênito  ao  mundo  para que  vivamos por ele" (1Jo 4,9). Jesus trouxe-nos a vida plena (Jo 10,10), e com sua ressurreição venceu o pecado e a morte, inaugurando o Reino e abrindo-nos o caminho para a vida eterna.

 

75. Por isso a Igreja, especialmente na América Latina, deve assumir como sua a defesa e promoção da vida em todas as suas formas, fases e situações. "Descobrir e ajudar a descobrir a dignidade inviolável de cada pessoa humana constitui uma tarefa essencial, diria mesmo em certo sentido, a tarefa central e unificadora dos serviços que a Igreja e cada um dos fiéis são chamados a prestar à família dos homens (CfL 37).

 

76. "O reconhecimento efetivo da dignidade pessoal de cada ser humano exige o respeito e a promoção dos direitos da pessoa humana. Trata-se de direitos naturais, universais e invioláveis: ninguém, nem o indivíduo, nem o grupo, nem a autoridade, nem o Estado, pode modificar e, muito menos, eliminar esses direitos que emanam do próprio Deus" (CfL 38).

 

77. "Entre os principais, recordem-se: o direito à vida, do qual é parte integrante o direito a crescer à sombra do coração da mãe depois de ser gerado; o direito a viver numa família unida e num ambiente moral favorável ao desenvolvimento da própria personalidade; o direito a amadurecer a sua inteligência e liberdade na procura e no conhecimento da verdade; o direito a participar no trabalho para valorizar os bens da terra e a obter dela o sustento próprio e dos seus familiares; o direito a fundar uma família e a acolher e educar os filhos, exercitando responsavelmente a sua sexualidade" (CA 47).

 

78. "Tudo quanto se opõe à vida, como seja toda espécie de homicídio, genocídio, aborto, à integridade da pessoa humana, como as mutilações, os tormentos corporais e mentais, e as tentativas para isolar as próprias consciências; tudo quanto ofende a dignidade da pessoa humana, como as condições de vida infra-humanas, as prisões arbitrárias, as deportações, a escravidão, a prostituição, o comércio de mulheres e de jovens e também as condições degradantes de trabalho, em que os operários são tratados como meros instrumentos de lucro e não como pessoas livres e responsáveis; todas essas coisas são sem dúvida, infamantes; ao mesmo tempo que  corrompem a civilização humana, desonram mais aqueles que assim procedem  do que os que as padecem e ofendem gravemente a honra devida ao criador" (GS 27). Esse triste panorama hoje se acresça o comércio de crianças e a prática da eutanásia.

 

79. Como afirma João Paulo II a respeito da América Latina, "Cinco séculos de presença do Evangelho naquele continente não alcançaram ainda uma eqüitativa distribuição dos bens da terra; isso é particularmente doloroso quando se pensa nos mais pobres dentre os pobres: os grupos indígenas e, juntamente com eles, muitos camponeses, feridos em sua dignidade por ser mantidos inclusive à margem do exercício dos direitos mais elementares" (CA 35).

 

        Proposições

 

80. 1) É preciso promover a EDUCAÇÃO para a cultura da vida, dom de Deus, à luz dos princípios da fé cristã. Insista-se, conforme a Doutrina social da Igreja, na dignidade de cada pessoa humana, na prioridade dos valores éticos, na superação da violência, na formação para a solidariedade cristã que assume o dever de defender e promover a vida, especialmente daqueles cuja existência corre maior risco, como as populações indígenas, os menores abandonados, as vítimas de AIDS e o povo da rua.

 

81. 2) Denunciem-se as campanhas antinatalistas nacionais e internacionais, a esterilização em massa que destrói homens e mulheres como mediadores da vida, com dano moral, causando efeitos deletérios irreparáveis na ordem física, psíquica e social. A consciência cristã, que traz em si o divino dom e a mensagem da vida, deve ser acordada e questionada diante do hediondo crime do aborto, gravíssimo, que viola o direito da vida nascente, inocente e indefesa.

 

82. 3) O covarde assassinato de adolescentes e jovens, com impunidade, requer uma ação conjunta por parte da Igreja e de todos os homens de boa vontade, para que seja erradicado esse crime que brada ao céu. Faça-se verdade o brado do Santo Padre em Salvador da Bahia: "Que não se matem mais menores!"

 

83. 4) Toda questão social gira em torno do mundo do trabalho. Sem verdadeiro equacionamento da política salarial não há como encontrar solução para tão grave problema. É indispensável que se estabeleça a prática de um justo e eqüitativo salário. O salário infra-humano conduz à instabilidade social, à violência, à doença, à própria morte. Chame-se a atenção à gritante desproporção existente entre salários exorbitantes e salários insuficientes, de miséria e de fome.

 

84. 5) Como condição inalienável da defesa da vida e da pessoa, há de se criar e manter condições adequadas e acessíveis no tratamento da saúde na prevenção das doenças, ainda mais hoje, diante dos espectros da AIDS, cólera, malária e câncer. A Igreja há de assumir a pastoral da saúde e dos enfermos como premência factual e como exigência evangélica (cf. Mt 25,36). A Igreja estimula a participação nos movimentos populares e a atuação governamental neste dever primordial.

 

85. 6) Que a situação específica dos deficientes seja levada em conta na ação pastoral da Igreja, superando atitudes assistencialistas e protecionistas para desenvolver seus valores próprios e suas potencialidades, no sentido de integrá-los na vida de sociedade e na ação evangelizadora da Igreja.

 

86. 7) A situação dos encarcerados e condenados em nossos países é um escândalo. É flagrante a agressão à vida dos detentos em quase todas as dimensões: física, psíquica, afetiva, espiritual e até jurídica.

 

87. 8) A omissão e morosidade na administração da justiça fomenta a impunidade, a tentação de fazer justiça com as próprias mãos, os bárbaros linchamentos, justiceiros, grupos de extermínio e as campanhas questionáveis pela pseudo-solução da pena de morte.

 

88. 9) A Igreja deve levantar a voz diante de uma das violações dos direitos humanos que atingirá as futuras gerações de nossos países: a depredação do meio-ambiente, que destrói os recursos naturais na busca de lucros rápidos e imediatos. Os próximos anos serão determinantes para a ecologia e, portanto, para a sobrevivência da humanidade (cf. DT 160).

 

89. 10) Diante das novas pesquisas científicas no campo da genética, é preciso respeitar os princípios éticos para que não haja comércio de órgãos, manipulações e até eliminação da vida humana. Chamamos a atenção em especial para o risco de manipulação da vida humana através do patenteamento de micro-organismos que se quer introduzir na legislação de nossos países.

 

90. "A redescoberta da dimensão ecocêntrica e das limitações da natureza devem-nos levar a apreciar e cultivar um estilo de vida sem ganância ou esbanjamento... para o cristão isto é mais do que um ato político: é uma prática espiritual" (CMI, Carta às Igrejas).

 

 

VI - FAMÍLIA — EDUCAÇÃO — JOVENS

 

FAMÍLIA

 

INTRODUÇÃO

 

91. A família deve ser assumida como grande prioridade pastoral.

 

Com   base   também   no   DT   de   Santo   Domingo   (cf.  19; 221-223; 540; 628-630), consideramos a seguinte tipologia da família na AL:

 

a)       Há um apreço generalizado pela família nas diversas culturas, mas ao mesmo tempo ela sofre de grande fragilidade e falta de educação.

 

b)       Dois terços das famílias da AL vivem na miséria e no abandono, muitas vezes em situações irregulares. Estas famílias merecem especial atenção pastoral na Conferência de Santo Domingo.

 

c)       Um terço das famílias latino-americanas é constituído por pessoas das classes médias ou abastadas. É nos vários segmentos da classe média que situam-se movimentos e serviços familiares, que deveriam ser integrados numa pastoral familiar mais ampla.

 

d)       O drama da má constituição da família manifesta-se em diversos níveis:

 

           nível social: salários indignos, desemprego, falta de moradia e saúde, e tc.

 

           nível pedagógico: falta de preparação para o casamento e de educação para o amor; falta de consciência de um projeto de vida familiar.

 

           nível religioso: falta de catequese e prática cristã; falta de consciência da grandeza do sacramento do matrimônio, do plano de Deus a respeito do casal e da família; idéias incorretas a respeito de paternidade responsável e planejamento familiar; falta de consciência de a família ser sinal de evangelização etc.

 

           nível ambiental (ou prático): veiculação de falsos valores pela sociedade de consumo, TV etc.; famílias que se dobram sobre si mesmas, ignorando necessidades de outras famílias (individualismo, indiferença).

 

           Proposições

 

   92. 1) Fornecer orientações e subsídios para a pastoral familiar.

 

   93. 2) Implantar nas dioceses as diversas etapas da pastoral familiar:

 

   — Preparação remota ao matrimônio através da própria família, valorizada como "Igreja doméstica", da escola, da catequese para a crisma, de orientações para os namorados.

 

   — Preparação próxima através de cursos de noivos.

 

   — Celebração litúrgica do matrimônio.

 

   — Pastoral de acompanhamento de grupos de casais, diálogo conjugal e familiar, aconselhamento etc.

 

94. 3) Formar leigos para assumir a pastoral familiar.

 

95. 4) Entrosar a pastoral familiar com outras pastorais, movimentos, CEBs e paróquias.

 

96. 5) Levar em conta que, para a maioria da classe popular, a escassez de recursos não permite uma situação digna para o matrimônio dos jovens. Precisa haver uma política de trabalho e emprego, que dê condições de realização pessoal e profissional dos jovens.

 

97. 6) Olhar com solicitude pastoral para as famílias incompletas e separadas, no espírito de misericórdia e paciência, que tem como exemplo o Cristo pastor.

 

 

EDUCAÇÃO

 

  INTRODUÇÃO

 

98. A educação é um ato abrangente e se dá pela convivência social, de maneira formal ou informal, com modalidades alternativas, atingindo a todos os homens, em todas as idades e culturas. Educa-se para a cidadania e para os valores, às vezes menosprezados pela sociedade moderna. Educa-se para o sentido crítico diante dos MCS, que modificam critérios e valores. A educação é grande meio de nova evangelização, de promoção humana e de formação dos valores cristãos nas diferentes culturas.

 

99. Dentro da realidade educativa brasileira e latino-americana, os Bispos brasileiros chamaram a atenção, no documento "Educação, Igreja e Sociedade", a partir dos princípios da educação evangélico-libertadora, sobre 15 teses elaboradas com a participação de educadores brasileiros. Dentre elas destacamos: Educação  prioridade nacional; direito de todos a uma educação de qualidade; políticas educacionais coerentes; valorização da escola católica; ensino religioso escolar etc.

 

100. O enfoque dado à pastoral da educação, inserida na pastoral orgânica, quer que ela seja abrangente e desenvolva os processos educativos em todos os níveis da educação formal, informal e alternativa.

 

        Proposições

 

101. 1) Para que seja evangélico-libertadora, a pastoral educacional deve se expressar e encarnar num conjunto de processos, lembrados pelos educadores latino-americanos em reunião preparatória para Santo Domingo (Bogotá 1-5/08/92): conversão e educação a partir dos mais pobres; valorização da cultura; formação de valores; libertação; personalização e humanização; formação para a cidadania e política; educação para o trabalho; formação da consciência ecológica; formação da religiosidade e vivência da fé.

 

102. 2) "É urgente dedicar mais energia, recursos materiais e humanos, na educação de massa através dos meios de comunicação".

 

 

JOVENS

 

INTRODUÇÃO

 

103. Quase metade da população da AL é de jovens. A percentagem de jovens, principalmente a partir dos 15 aos 16 anos, que participa da vida da Igreja, é mínima.

 

104. Os organismos formadores de opinião e de valores (ou contra-valores) que atinge especialmente os jovens, não estão no horizonte do Evangelho e veiculam uma filosofia de vida totalmente naturalista e permissivista. Urge um trabalho sério, orgânico, eficaz da Igreja com a juventude latino-americana.

 

        Proposições

 

105. 1) O 1º Congresso latino-americano de Jovens, realizado em Cochabamba, apresentou "contribuição à IVª Conferência Geral do Episcopado latino-americano", onde são apresentados 10 tópicos principais. Há um apelo para que Santo Domingo:

 

           confirme a opção preferencial pelos jovens;

 

           dê mais atenção ao protagonismo juvenil (jovens evangelizando jovens);

 

           maior apoio e acompanhamento aos grupos de pastoral de juventude;

 

           mais atenção à formação dos jovens e aos grandes desafios e problemas que os jovens enfrentam hoje.

 

106. 2) Deve-se apoiar a PJ orgânica com sua metodologia de nucleação, organização e formação, dando espaço às pastorais específicas (rural, operária, estudantil, universitária).

 

107. 3) Estimular o recrutamento e a formação de assessores adultos para a Pastoral da Juventude.

 

108. 4) Dar especial atenção à pastoral vocacional dentro da Pastoral da Juventude.

 

109. 5) A Igreja deve ter preocupações e solicitude com os jovens drogados e marginalizados, e com os que se encontram no caminho do vício.

 

 

VII - PARTICIPAÇÃO NA SOCIEDADE PLURALISTA E DEMOCRÁTICA

 

INTRODUÇÃO

 

110. A Ordem social que concilia justiça e liberdade, participação e pluralismo, é a ordem democrática.

Na América Latina a democracia é uma aspiração do povo mais que uma realidade efetiva. A Igreja quer colaborar na promoção de uma democracia autêntica, apontando antes de tudo suas exigências. Constata-se a ausência de Igreja nos dois extremos da sociedade: as elites e os empobrecidos. Os primeiros caminhando para o agnosticismo, os segundos para as seitas.

 

111. "A Igreja do Brasil procura contribuir para que se torne realidade não apenas uma democracia formal, mas uma justa repartição dos bens e oportunidades, permitindo a todos o exercício pleno da cidadania e garantindo ao povo uma efetiva participação econômica, social e política" (DGAP 232).

 

112. Para isto, a Igreja está pronta para colaborar "com todas as forças sociais e movimentos populares que buscam a defesa dos direitos da pessoa humana, a valorização da cultura popular, a promoção de uma formação política autêntica, respeitando o pluralismo das opções partidárias" DGAP 233).

 

113. A Igreja também encoraja a participação política dos fiéis católicos e de todos os cidadãos.

"Tende a coragem de assumir vossa liberdade pessoal responsável, e de intervir ativamente na vida política, econômica e social, animados pelo espírito de Cristo, seguindo aquele critério moral que já indicava a Constituição Gaudium et Spes: Como cidadãos guiados pela sua consciência de cristãos' (nº 76). É certamente dever e função dos pastores da Igreja ajudar a formar essa consciência com os princípios do Evangelho e a doutrina do Magistério" (João Paulo II, Campo Grande, 17/10/91).

 

        Proposições

 

114. 1) Na construção de uma sociedade justa, é necessário reconhecer que a pessoa a antecede. Sendo essencialmente social, ela se organiza e, procurando realizar seus objetivos, se insere numa sociedade.

É dever do cristão participar na vida da sociedade, contribuindo com os valores evangélicos, que explicitam as "sementes do Verbo" já presentes.

 

115. 2) São exigências de uma verdadeira democracia:

 

           que tenha como centro a pessoa humana no exercício pleno de sua cidadania;

 

           que tenha como parâmetros: a primazia do ético sobre o econômico, a promoção da solidariedade, da liberdade, da verdade, da convivência fraterna, do bem comum e da justiça social.

 

116. 3) O pluralismo é um fenômeno moderno, com expressões pessoais e grupais, que deve ser respeitado, quando apresenta ou defende valores. Numa sociedade pluralista cultiva-se o diálogo, ou, quando na sua impossibilidade, a tolerância e o respeito mútuo. Para tanto, requer-se uma educação contínua e permanente.

Este pluralismo exige direito à liberdade religiosa. É um direito anunciar, bem como ouvir o Evangelho.

 

117. 4) Numa sociedade pluralista e democrática, a necessidade do engajamento de leigos cristãos no mundo das realidades temporais, é tarefa própria de sua vocação e missão. Se é dever dos leigos, é também dever dos pastores articular iniciativas com a obrigação de dar aos leigos formação adequada no terreno social, dentro das perspectivas da fé. Dê-se especial atenção à educação do povo para o exercício da política e ao incremento das escolas de fé e política.

 

118. 5) Para se alcançar a construção de uma sociedade justa e solidária, promova-se a Doutrina Social da Igreja. Ajude-se a instaurar uma ética social, que melhore as condições de vida dos mais empobrecidos, tornando-os sujeitos e protagonistas de mudanças para uma nova Sociedade. A Igreja busque, para isso, a colaboração de entidades que promovem os direitos fundamentais da pessoa humana.

 

119. 6) A denúncia profética sobre a idolatria do dinheiro, tão presente no modelo de Sociedade de hoje, faz parte da missão da Igreja. Neste sentido deve-se denun-ciar a clamorosa diferença entre o menor e o maior salário vigente, que chega a ser escandalosa.

 

120. 7) Na construção da sociedade democrática, deve-se prestar atenção às condições das minorias étnicas  para que resgatem sua identidade cultural,  dos grupos minoritários e da maioria silenciosa, oferecendo-lhes meios para que se organizem, se integrem e participem da sociedade no uso pleno de seus direitos.

 

121. 8) Transcorridos os anos de regimes autoritários, no atual empenho de constituição de regimes cada vez mais democráticos, o tríplice poder seja exercido de forma competente, honesta e aberta à participação popular, como um serviço à coletividade, principalmente aos mais necessitados.

 

122. 9) Exigências externas exorbitantes sobre as frágeis economias latino-americanas aumentam os riscos para a vivência democrática.

 

123. 10) Numa sociedade democrática, a participação de todos deve se dar tanto no exercício do poder, quanto no uso dos bens, quer materiais quer culturais.

 

 

VIII - A RESPONSABILIDADE DA IGREJA DIANTE DA SITUAÇÃO INTERNACIONAL

 

INTRODUÇÃO

 

124. A responsabilidade da Igreja diante da situação internacional se fundamenta em sua missão de anunciar o Reino de Deus: Reino de vida, justiça, solidariedade, paz entre os povos. Em conseqüência, a Igreja deve indicar, antes de tudo, critérios éticos para as relações internacionais.

 

125. Também a dimensão universal da Igreja e sua efetiva presença nos diversos países trazem, para ela, a obrigação moral de cooperar na busca da paz e justiça internacional.

 

126. De outro lado, há muitos problemas não resolvidos na convivência entre as nações: desde o crescente distanciamento entre países ricos e pobres, até a reivindicação de autonomia de muitas minorias étnicas; desde a crescente interdependência tecnológica e econômica, até a busca de cooperação e integração, seja em vista do desenvolvimento econômico, seja para proteger da poluição e da destruição o ambiente da vida: ar, água, terra.

 

127. Sobre a América Latina pesa especialmente a ameaça da dívida externa e de políticas que levam à fome e ao desespero a maior parte da população, o tráfico de drogas, a destruição do meio ambiente.

 

128. A queda do comunismo no Leste Europeu mudou a ordem internacional e exerceu grande impacto na América Latina, onde a concretização político-econômico-so-cial do marxismo era um projeto assumido por alguns setores latino-americanos.

 

        Proposições

 

   129. 1) Diante da queda do comunismo, a Igreja na América Latina deve propor com mais ênfase e coragem, a Doutrina Social da Igreja, tanto na prática pastoral, como na elaboração da teologia, como um serviço, aos que procuram corrigir o neo-liberalismo dominante ou buscam elaborar novos projetos políticos, econômicos e sociais.

 

É importante estimular maior conhecimento da Doutrina Social da Igreja, tanto no interior da Igreja, como na Sociedade em geral, através de cursos, semanas sociais, publicações etc.

 

130. 2) Por outro lado, a Igreja deverá estar atenta à tentativa do capitalismo neo-liberal que, por sua vez, tenta manipular nossa teologia.

Seria bom que, em Santo Domingo, a Igreja da América Latina fizesse apelo às Igrejas do Primeiro Mundo, para que nos auxiliem a encontrar soluções a partir da Doutrina Social da Igreja para os grandes problemas da pobreza na América Latina e das injustiças sociais.

 

131. 3) É necessário denunciar fortemente o imperialismo das grandes potências. Sem modificação da estrutura da ONU, que mantém a dominação de 5 sobre todas as demais não poderá haver maior justiça para o desenvolvimento dos povos do Terceiro Mundo. É preciso suprimir o direito de veto das 5 potências.

 

132. É necessário, também, se criar instância internacional de apelação, para julgamento de certas políticas ditadas pelo FMI e similares, ocasionando gravíssimos problemas às sofridas populações de países do Terceiro Mundo.

 

133. 4) Com a queda dos regimes comunistas, para muitos parece ter ficado o liberalismo como a ideologia vencedora, que agora iria se impondo inexoravelmente. A Conferência de Santo Domingo, consciente do atual momento histórico, rico em acontecimentos questionadores, não pode ignorar suas conseqüências. Em especial a urgência de denunciar o neo-liberalismo como o "o único Evangelho" dos tempos modernos, que, ao invés do Evangelho de Cristo, sob a capa do livre mercado, quer na verdade anunciar às minorias ricas a "Boa Nova" da preservação dos seus privilégios às custas das maiorias pobres. Isto tanto mais se faz necessário diante da fácil aceitação das teses neo-liberais por parte de muitos governos latino-americanos. Nesta ideologia se encontram as raízes de muitas distorções produzidas pelo mercado internacional, e encontram justificativas os "mecanismos econômicos" que produzem dominação e exploração dos países ricos sobre os mais pobres.

 

134. 5) As Igrejas da América Latina confirmem e concretizem o compromisso missionário, assumido em Puebla, de ir além de suas fronteiras, "Ad Gentes" (DP 368).

Ofereça-se, como um serviço, a experiência pastoral e espiritual de nossa Igreja, enviando missionários às Igrejas do Leste europeu, da África e da Ásia. Especial atenção e solicitude sejam dedicadas aos milhões de migrantes e refugiados, vítimas de um contexto internacional de injustiça e de uma sociedade cada vez mais fechada em seu egoísmo e em seus objetivos político-econômicos.

As Conferências Episcopais da América Latina aprofundem seu relacionamento com as outras Conferências para maior inter-ajuda e cooperação missionária.

 

135. 6) O CELAM seja cada vez mais um serviço de integração e comunicação entre as Igreja da AL. Especialmente os países, que passam por momentos difíceis, recebam ajuda fraterna para não se sentirem isolados e abandonados. Como organismo eclesial, o CELAM se coloque a serviço da paz em todas as nações latino-americanas e promova solidariedade e integração entre elas. Para que o CELAM possa realizar efetivamente seu serviço de integração das Igrejas da AL, necessita de uma revisão de sua estrutura e funcionamento para adequar melhor sua organização às necessidades da hora presente.

 

136. 7) A Igreja, em defesa da vida, deve propor a diminuição dos orçamentos militares na medida em que excedem as necessidades de uma prudente defesa do país, excedentes que deveriam ser aplicados para as necessidades sociais do povo (educação, saúde etc.).

A indústria bélica e o comércio internacional de armas, por sua vez, vão muito além das necessidades de uma defesa prudente do país e buscam grandes lucros comerciais à custa da vida humana.

 

137. 8) A Igreja deve condenar o tráfico e consumo da droga, fora do uso legal da medicina, e denunciar e condenar o uso de crianças e menores de idade nesse tráfico.

É preciso afirmar que no tráfico de drogas o lucro é buscado com a destruição de vidas humanas e do tecido social, além de potenciar a criminalidade.

A Igreja deve empenhar-se na prevenção e recuperação dos drogados, e no estudo da questão da droga nos grupos que se reúnem em nossas comunidades.

Quanto ao fato que grande parte da população pobre de certos países latino-americanos sobrevive com a plantação da coca, a Igreja deve propor a carreação de recursos para dar a esses povos condições de partir para outro tipo de produção com que possam ganhar honestamente a vida.

 

138. 9) Em princípio deve-se apoiar e estimular o intercâmbio comercial e a organização de mercados comuns na América Latina, buscando-se aperfeiçoar os mecanismos, corrigindo possíveis falhas, defendendo decididamente a efetiva participação na sociedade: de organismos como sindicatos rurais e urbanos, das universidades e movimentos populares.

A Igreja deve assumir conscientemente sua missão específica como mensageira dos critérios éticos que devem presidir os passos da implantação progressiva de um mercado comum.

 

139. 10) É preciso recolocar a visão teológica que fundamenta a responsabilidade do homem diante da natureza, afirmando claramente a criação como obra de Deus colocada nas mãos do homem para ser por ele conservada, cultivada e preservada e por Cristo remido da corrupção do pecado (Rm 8). A criação deve ser entendida, também, cristologicamente, na linha de colossenses e efésios: "Tudo foi criado por Ele e para Ele". Também o cosmos, a criação toda está "a caminho do Reino definitivo".

 

140. 11) Necessita-se enfatizar o homem como centro da criação e os valores da vida e da solidariedade como eixos centrais da questão ecológica; e desenvolver a noção de "ecologia humana", da Centesimus Annus, para ressaltar a necessidade de todas as nações assumirem solidariamente a situação de miséria existente nos países subdesenvolvidos, e mostrar que as atuais preocupações ecológicas não podem servir de pretexto para a manutenção dos privilégios dos países ricos.

 

141. 12) Ao falar da ecologia, a Igreja deve sempre recordar que "o mundo é a casa de todos". A sorte da natureza é a sorte do próprio ser humano. Deus nos deu a terra não para ser explorada de modo irracional, mas para ser cultivada com amor. A ganância e a sede de lucros levam o homem a arrancar do seio da terra toda sua riqueza até à exaustão. Não temos o direito de esgotar as fontes de riqueza do planeta sem pensar nas futuras gerações.

 

 

IX - ECUMENISMO, NOVA RELIGIOSIDADE E GRUPOS RELIGIOSOS AUTÔNOMOS

 

INTRODUÇÃO

 

142. O ecumenismo, no sentido definido pelo Concílio Vaticano II e posteriores documentos da Santa Sé, deve ser consolidado e praticado sempre melhor na América Latina, que busca ser fiel às exigências de uma nova evangelização. A difusão dos grupos religiosos autônomos não deve impedir ou atemorizar o espírito ecumênico, até porque tal difusão constitui um desafio e preocupação também para as chamadas Igrejas cristãs históricas, verdadeiramente ecumênicas.

 

143. A Igreja vem observando que as seitas se têm multiplicado nas últimas décadas. Não se pode negar que, na origem desta situação, está a própria história do catolicismo latino-americano, muito devocional, mas pouco assistido pastoralmente pelo número insuficiente e distribuição desigual de clero, que impediu uma consciência mais profunda da vida de fé e de participação eclesial.

Na falta desta consciência e com a influência de outros fatores culturais, sobretudo a acelerada urbanização, a busca de outra religião ou de seitas foi muito acentuada.

 

144. Além disto, o pluralismo cultural, as migrações  que rompem laços sociais de origem e causam perda de identidade, o subjetivismo, influem muito na busca de novos movimentos religiosos. A pessoa se sente solicitada a aderir a novos grupos por força de um proselitismo intenso, às vezes até por meios escusos.

 

145. Há, sem dúvida, na crise do que se pode chamar de pós-modernidade, uma incoercível fome do sagrado, do misterioso, da experiência religiosa. Ao invés da secularização das décadas anteriores, o que marca esta "nova era" (= new age), constituindo verdadeiro sinal dos tempos, é a volta ao sagrado: a busca de bênçãos, de exorcismos, de curas, de experiências de misticismo. A busca do sagrado deve ser encaminhada com uma celebração consciente e participativa da liturgia, fonte e cume da vida da Igreja.

 

        Proposições

 

146. 1) É necessária maior presença da Igreja nos meios populares:

 

           Criar comunidades ou células cristãs entre os migrantes, lideradas por leigos que tenham profunda fé e entusiasmo.

 

           A multiplicação dessas pequenas comunidades nos bairros periféricos e nas vilas suburbanas deve ser prioridade nas opções pastorais.

 

147. 2) É também necessário voltar-nos para as classes médias, vítimas do hedonismo e consumismo, num esforço criativo de cursos, encontros, retiros etc. para lhes oferecer uma visão cristã em grupos homogêneos que se reúnam para oração, a Palavra de Deus, a troca de experiências, e assim constituir células de vida cristã.

 

148. 3) O espírito missionário deve ser despertado e incentivado, na busca pastoral dos "areópagos" modernos  como a classe operária, o meio universitário, o mundo da indústria, as associações classistas etc. Neste ponto é indispensável valorizar a presença dos leigos, bem como a valorizar os religiosos e religiosas, para que, contribuindo na pastoral orgânica, assumam este espírito missionário, com ardor e alegria. Deve-se ainda dinamizar as visitas domiciliares, a bênção das casas, as novenas dos tempos fortes.

 

149. 4) Favorecer a pastoral do acolhimento: saber acolher, valorizando as pessoas e seus problemas; ouvi-las; ajudá-las. Ocasião propícia é a celebração do batismo e das exéquias, e a preparação canônica do casamento. É importante abrir-se à compreensão do outro, evitando-se assim a busca de meios fáceis (que não podem ser caminho para Cristo), e convidando a participar da pastoral, dos organismos e dos movimentos.

 

150. 5) Intensificar os ministérios não-ordenados, formando-os, diversificando-os para a valorização dos dons do batismo e da crisma. Na formação dos futuros e atuais ministros ordenados, procure-se levá-los à compreensão do mundo atual para que saibam assumir o papel que lhes cabe na nova evangelização, junto com os demais ministérios e carismas da Igreja Mistério, Comunhão e Missão (cf. PDV 3 e 19). As paróquias sejam comunidades de comunidades, e as comunidades eclesiais de base um lugar privilegiado dos ministérios laicais.

 

151. 6) Apesar das dificuldades do diálogo teológico com as seitas, cumpre valorizar os espaços para o contacto ecumênico com as outras Igrejas cristãs tradicionais, não esquecendo que no campo social e da assistência caritativa, é possível um trabalho comum com as seitas. Procurar também diálogo com grupos de religiões não-cristãs. O primeiro diálogo é o da caridade, que tem por fundamento o respeito mútuo.

 

 

X - PARTICIPAÇÃO DO LAICATO E DA

MULHER NA IGREJA

 

INTRODUÇÃO

 

152. O Concílio Vaticano II e os recentes documentos pontifícios, particularmente a Exortação "Christifideles Laici", revelam claramente a consciência que, hoje, a Igreja tem da dignidade e da plena participação dos leigos, homens e mulheres, na missão da própria Igreja.

 

153. Esta consciência ainda não transformou hábitos seculares e nem sempre se traduziu numa prática efetiva e consistente.

 

154. "Chegou, certamente, o momento de as Igrejas particulares assumirem uma maior definição quanto à presença e ação dos leigos na comunidade eclesial. A experiência já adquirida deve ser amplamente alargada e aprofundada". (DGAP 262)

 

 

        Proposições

 

    155. 1) Urge reconhecer o "status eclesiológico" do cristão leigo(a), como batizado(a), crismado(a), membro do Povo de Deus.

O leigo faz parte da estrutura eclesial porque inserido sacramentalmente no Corpo de Cristo. Nesta visão eclesiológica, é a Igreja toda  leigos, leigas, religiosos(as) e ministros ordenados  que se constitui sujeito da missão. Por conseguinte, todos são corresponsáveis pela missão e pelas opções pastorais.

 

     156. 2) Seja reconhecida e valorizada a competência própria do(a) leigo(a) no campo que lhe é próprio, dentro do mundo. Os pastores devem, em diálogo permanente, ouvir os leigos, seja individualmente, seja através de seus organismos.

 

     157. 3) Seja reconhecida, e não só tolerada, a presença de leigos, homens e mulheres, nas instâncias importantes de paróquias e Dioceses, com direito à livre manifestação de opiniões e contribuições, destacando-se um insubstituível funcionamento de Conselhos Diocesanos de Leigos, como organismos reveladores do pensamento e atitudes apostólicas do laicato.

 

     158. 4) Apliquem-se investimentos indispensáveis para realizar a formação de leigos, tanto para ministérios e atuação dentro da Igreja, como para sua missão específica: construir uma sociedade fraterna, justa e solidária.

 

     159. 5) Que haja apoio e troca de experiências entre institutos, escolas e cursos de leigos, dando-se ênfase ao embasamento doutrinário e à prática missionária. Esta formação deve levar os leigos a uma participação nos organismos de comunhão nas Dioceses, Paróquias e Comunidades, e a serem elementos decididos na transformação das atuais estruturas sociais, políticas e econômicas.

 

    160. 6) Considere-se a gravíssima situação de milhares de irmãos e irmãs nossas, que, imersos em profunda miséria material ou marginalização, se encontram freqüentemente afastados da possibilidade de pertencerem visivelmente à Igreja e de viverem a alegria da gloriosa liberdade dos filhos de Deus.

 

    161. 7) Propõe-se que, diante da constatada ausência de cristãos engajados das classes profissionais, no mundo da Universidade e da Comunicação, da Política e da Atividade Sindical, se promova e se incentive uma adequada presença do Evangelho nestes meios, com métodos apropriados e a necessária coragem de um apostolado consistente.

    Que se criem espaços regulares de acompanhamento e de intercâmbio eclesial para os leigos engajados nas estruturas sindicais, econômicas, políticas e culturais.

 

      162. 8) Que os documentos da Igreja, destinados ao laicato, além de sólidos na doutrina, sejam de fácil exposição e se voltem para aspectos práticos e metodológicos do engajamento dos leigos em suas várias missões.

 

    163. 9) Sobre a formação dos leigos: deverá caber ao Conselho diocesano de leigos elaborar o plano de formação dos leigos, levando em conta as oportunidades e horários mais propícios, bem como insistindo na formação ética das diversas profissões e até a formação afetiva pelos próprios leigos, que estão mais aptos para isso, isto é, utilizar os leigos de acordo com a sua especialização. É preciso também acentuar a espiritualidade do leigo, incluindo-se sua vivência conjugal e seu campo de trabalho.

 

      164. Sobre a formação sacerdotal: é preciso acentuar mais e melhor a participação do leigo(a) em todo o processo de formação sacerdotal.

 

      165. 10) Esteja presente no conteúdo e na prática da catequese o mesmo empenho formador de autênticas lideranças cristãs que possam servir à Igreja e à Sociedade.

 

     166. 11) Seja sempre valorizado dentro de uma Igreja, toda ministerial, o papel da mulher, reconhecendo-se a sua presença e dinamismo nas CEBs e em vários ministérios oficiais da vida eclesial, especialmente o Ministério da Palavra, dando oportunidade a que seus dons valiosos, capacidade e dedicação, se manifestem livres da tutela masculina.

 

       167. 12) "De acordo com o novo estilo de ser mulher que vem surgindo na AL, sejam as mulheres aplaudidas e estimuladas a assumir responsabilidades sociais ao lado dos homens, oferecendo a contribuição feminina ao progresso dos povos, na ciência, na arte, na política, na economia e, de modo geral, em todos os âmbitos da convivência humana" (DT 274).

 

    168. 13) Seja cada vez mais enfatizado na Igreja o papel fundamental dos leigos dentro da família, tornando-a firme e resistente à atual desagregação, capaz de realizar a missão de formadora de gerações.

 

     169. 14) Articule-se nas instituições de educação a qualidade de ensino das várias disciplinas com perspectiva evangélica, especialmente no que tange às exigências da justiça, da solidariedade e da transformação social.

 

      170. 15) Os movimentos apostólicos se insiram cada vez mais na vida das Igrejas particulares, aclimatando-se à nossa cultura. Seria necessário reconhecê-los e acompanhá-los: eles constituem um espaço de evangelização, principalmente da classe média dos centros urbanos.

 

171. 16) As dificuldades e tensões entre pastorais e movimentos sejam resolvidos na aproximação, no diálogo, na busca de colaboração e amadurecimento dos apelos da missão.

 

      172. As CEBs, constituídas de acordo com as características indicadas por Paulo VI na EN, são para nossos leigos um novo modo de ser Igreja e representam para eles um meio excelente de realizar sua missão na Igreja e no mundo. Merecem pois, toda a atenção e apoio por parte dos pastores.

 

 

XI - ENFOQUES TEOLÓGICOS DO DOCUMENTO

 DE TRABALHO

 

 

173. 1) Explicitar melhor a ligação da teologia com a realidade da AL para uma contextualização da teologia.

 

174. 2) Evitar a impressão de cristomonismo e para isso explicitar melhor o tema da Trindade.

 

175. 3) Esclarecer que o Reino de Deus se estende além das fronteiras visíveis da Igreja: o que fundamenta o diálogo com as culturas e as religiões não-cristãs.

 

176. 4) Inverter a ordem dos capítulos 1 e 2, da seção A, da II parte: "Jesus Cristo, perfeita revelação do Pai" viria antes de "Jesus Cristo, salvação de Deus".

 

177. 5) Dar mais ênfase ao tema "Eucaristia", procurando ligar o sacramento à vida.

 

178. 6) Dar um enfoque mais sapiencial à reflexão teológica sobre a vida cristã, propondo uma teologia e uma espiritualidade do quotidiano, acessível aos leigos. Base desse enfoque seja uma teologia da criação que supere o dualismo profano X sagrado.

 

179. 7) Procurar fazer desembocar a reflexão teológica numa visão sintética da espiritualidade, acentuando suas características latino-americanas.

 

180. 8) Melhorar a fundamentação teológica do ecumenismo e do diálogo religioso, com uma reflexão crítico-realista sobre os abusos de determinados grupos.

 

181. 9) Desenvolver mais a dimensão pneumatológica da eclesiologia.

 

182. 10) Recuperar a dimensão do pecado nas causas da morte de Cristo e na soteriologia.

 

  183. 11) Afirmar a necessidade de reconhecimento da importância das Conferências Episcopais, como expressão teológica da colegialidade episcopal, ressaltando a legítima autonomia de que devem gozar para exercer suas funções em ordem à inculturação na realidade do seu povo. Essa legítima autonomia, recomendada pelo Vaticano II (cf. LG 23), corresponde à vitalidade e originalidade da Igreja dos primeiros séculos do cristianismo. Garantirá, outrossim, a riqueza das várias formas de expressão pastoral, dentro da necessária unidade de fé e adesão à sucessão apostólica desde o apostólo Pedro.

 

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Fonte: Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB

Web site: www.cnbb.org.br