CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL

CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL

 

DIRETRIZES GERAIS DA AÇÃO PASTORAL DA IGREJA NO BRASIL

 

1991/1994

 

 

APRESENTAÇÃO

 

O Conselho Permanente da CNBB, cumprindo o mandato que recebeu da 29ª Assembléia Geral, aprovou, no dia 28 de junho de 1991, o texto das Diretrizes Gerais da Ação Pastoral da Igreja no Brasil, para o período 1991 - 1994.

Estas Diretrizes são fruto de ampla consulta aos agentes e organismos de pastoral e às dioceses. A Assembléia Geral acolheu as ricas contribuições, aprofundou-as e definiu o Objetivo Geral e as grandes linhas das Diretrizes.

Entregamos hoje o documento a todos os católicos — leigas e leigos, religiosas e religiosos, diáconos e presbíteros — para que, unidos a seus Bispos e segundo os seus dons, participem do projeto que as Diretrizes oferecem para uma Nova Evangelização.

O texto das Diretrizes é introduzido pelo lema "Jesus Cristo ontem, hoje e sempre", que nos coloca em sintonia com a próxima Conferência do Episcopado Latino-Americano, em Santo Domingo.

Está organizado de forma nova:

 a primeira parte, o Objetivo Geral, comentado globalmente, apresenta os horizontes da Evangelização no Brasil de hoje;

 a segunda parte — os caminhos da Evangelização — está dividida em cinco capítulos: I a evangelização: missão da Igreja; II as dimensões da evangelização; III mudanças na sociedade e desafios à evangelização; IV novas acentuações na evangelização; V os evangelizadores.

O texto propõe orientações para a ação pastoral em suas dimensões permanentes e em suas novas urgências da evangelização. Indica exigências e responsabilidades para os evangelizadores. Tudo isto à luz da missão permanente da Igreja — evangelizar , tendo presente a dinâmica atual da sociedade e da cultura.

A elaboração das Diretrizes, desde os estudos preparatórios e a avaliação do quadriênio passado até a redação final, nos fez ressaltar a urgência da "nova evangelização". Não foi esquecido nenhum dos aspectos fundamentais: da missão "ad gentes" à ação pastoral que acompanha e sustenta as comunidades eclesiais. À Igreja no Brasil se impõe uma nova prioridade: o trabalho evangelizador e missionário dirigido aos católicos não praticantes, a maioria da população. Apesar do batismo e de certa religiosidade, eles se acham, de fato, afastados da comunidade eclesial ou só ocasionalmente dela se aproximam.

Este afastamento tende a crescer, se não houver um "renovado ardor missionário" e uma mudança de atitude dos próprios católicos que participam da vida litúrgica e eclesial. Todos somos chamados a nos converter em apóstolos ativos, em missionários incansáveis. Todos somos chamados a tomar consciência de nossa dignidade como cristãos, de nossa missão como evangelizadores.

A nova consciência da responsabilidade eclesial e a necessidade da presença cristã no coração das realidades humanas tornam urgente uma atuação profética dos leigos. "Os fiéis leigos, por força de sua participação do múnus profético de Cristo, estão plenamente envolvidos nesta tarefa da Igreja (a "nova evangelização"). Cabe-lhes dar testemunho de como a fé cristã é a única resposta plenamente válida para os problemas e as esperanças que a vida impõe a cada homem e a cada sociedade. Isso será possível se souberem ultrapassar em si mesmos a ruptura entre o Evangelho e a vida, refazendo na sua cotidiana atividade em família, no trabalho e na sociedade, a unidade de uma vida que, no Evangelho, encontra inspiração e força para se realizar em plenitude" (João Paulo II, cf. 34).

Assim, poderemos alcançar o nosso Objetivo: a caminho do Reino, formar o Povo de Deus e participar da construção de uma sociedade justa e solidária, a serviço da Vida e da Esperança.

 

Brasília, 28 de junho de 1991

 

Dom Antônio Celso de Queiroz

Secretário Geral da CNBB

 

 

     I PARTE: HORIZONTES DA EVANGELIZAÇÃO

 

     1.       Jesus convidava os discípulos a olhar os campos prontos para a colheita1 e a levantar a cabeça para perceber a libertação já próxima.2 Também a Igreja no Brasil convida os cristãos a descobrirem os novos horizontes que se descortinam. São os horizontes do atual momento histórico, que conclamam todos os católicos para uma "nova evangelização". Celebrando o 5º centenário da chegada dos primeiros evangelizadores à América Latina, no limiar do terceiro milênio cristão, interrogamo-nos: Que atitudes devemos assumir como resposta a esses desafios da evangelização?

A Igreja no Brasil busca responder a tais desafios, assumindo com renovado ardor missionário sua missão evangelizadora.

 

     2.       "JESUS CRISTO: ONTEM, HOJE E SEMPRE"3 é o lema que escolhemos como fonte e motivação da ação pastoral da Igreja no Brasil. Nele se proclama Cristo como protagonista permanente da História, da Evangelização e da Salvação. É o mesmo lema que nos faz proclamar o Aleluia da Vigília Pascal e vai inspirar a próxima Conferência de Santo Domingo. Nós o vamos repetir, interiorizar e vivenciar, para que contagie o nosso ser e venha a constituir-se em luminosa bandeira de esperança e de zelo apostólico para todos.

 

     3.       A 29ª Assembléia Geral da CNBB, atendendo às urgências do tempo presente, aprovou o OBJETIVO GERAL da ação pastoral para o período de 1991-1994.

 

     EVANGELIZAR com renovado ardor missionário, testemunhando Jesus Cristo, em comunhão fraterna, à luz da evangélica opção preferencial pelos pobres, para formar o Povo de Deus e participar da construção de uma sociedade justa e solidária, a serviço da vida e da esperança nas diferentes culturas, a caminho do Reino definitivo.

 

     4.       EVANGELIZAR — Palavra-chave que resume toda a ação de Jesus.4 Evangelizar é fazer chegar a Boa Nova a todos. E a Boa Nova, que Jesus anuncia, é o Reino de Deus e a salvação para toda a humanidade. Cristo realiza, em sua pessoa e em sua vida, o que Isaías preanunciara: Cumpriu-se o tempo. "O Reino de Deus está no meio de vós".5

 

     5.       "Evangelho" não é apenas anúncio da salvação: é toda a existência de Jesus, desde seu nascimento até sua morte e ressurreição gloriosa. Viver como Jesus há de ser também o projeto de todo cristão evangelizador.

 

     6.       Só evangeliza quem aceita e segue o caminho de Jesus: "Vem e segue-me" é o convite fundamental que o Senhor continua fazendo a todos os que querem participar da aventura do Reino.6 Para ser verdadeiro evangelizador, é necessário, antes de tudo, deixar-se evangelizar, sendo ouvinte atento ao que Deus fala, a exemplo da Virgem Maria. É necessário acolher a Palavra "com a alegria do Espírito Santo"7 e aceitá-la "não como palavra humana, mas como verdadeiramente é: Palavra de Deus que está produzindo efeito entre vós".8

 

     7.       Só uma Igreja missionária e evangelizadora experimenta a fecundidade e a alegria de quem realmente realiza sua vocação. Assumir permanentemente a missão evangelizadora é, para todas as comunidades e para cada cristão, a condição fundamental para preservar e reviver o clima pascal de "alegria no Espírito" que animou a Igreja em seu nascimento e a sustentou em todos os grandes momentos de sua história. Por isso, o apóstolo Paulo podia afirmar com todo o vigor: "Anunciar o Evangelho não é título de glória para mim. É, antes, uma necessidade que se me impõe. Ai de mim se não evangelizar"!.9

 

     8.       Evangelizar COM RENOVADO ARDOR MISSIONÁRO — O evangelizador deve comunicar o Evangelho com vibração, entusiasmo e alegria, na certeza de ser instrumento de Deus e sabendo que está cumprindo a missão recebida no batismo. O mundo precisa de uma nova evangelização, com a descoberta de novas formas e de novas possibilidades, para que a Palavra de Deus se torne fonte de inspiração para a vida das pessoas e para a construção da sociedade.

 

     9.       O renovado ardor missionário exige que a pregação do Evangelho responda aos novos anseios do povo, no contexto de uma sociedade marcada por rápidas e profundas mudanças. Evangelizar é colocar a Boa Nova como fonte de esperança no meio de tantos conflitos que surgem no coração do homem e na sociedade desigual, impedindo a realização do projeto de Deus.

 

     10. O renovado ardor missionário exige ainda dos evangelizadores uma nova disposição que leve a romper com as acomodações e a rotina na ação missionária. Superando a mera atitude de espera, é preciso ir, com coragem evangélica, às pessoas, grupos e ambientes onde o nome de Jesus não foi ainda proclamado ou onde sua ressonância perdeu o vigor. Na força do Espírito Santo, sobre nós derramado, somos chamados a superar todo medo e timidez no testemunho explícito da fé no coração das realidades terrenas.

 

     11. Evangelizar TESTEMUNHANDO JESUS CRISTO — Não basta falar de Deus. É necessário testemunhá-lo por uma vida de santidade encarnada em nossos dias. O testemunho de vida é a primeira e insubstituível forma de missão.10 O homem contemporâneo escuta muito mais as testemunhas que os mestres. E se escuta os mestres, é porque são testemunhas.11 Em nosso tempo, muitas são as testemunhas coerentes e perseverantes na fé e no amor a Cristo, até mesmo com o sacrifício da própria vida.12

 

     12. Evangelizar EM COMUNHÃO FRATERNA — Cristo mandou que todos se amassem como Ele amou.13 A fraternidade parte de um Deus-Comunhão e de um Deus que se faz irmão, para que todos sejam um.14 O testemunho cristão é essencialmente comunitário. Jesus envia seus discípulos "dois a dois"15 e Ele mesmo vive em comunhão com seus apóstolos. A comunhão fraterna era o ideal das primeiras comunidades cristãs, que queriam ser "um só coração e uma só alma". Fraternidade que não se expressava apenas nos bens materiais, mas também nos bens espirituais.16 Caridade fraterna que se deve manifestar entre os próprios evangelizadores, e entre todos os que crêem no Cristo.

 

     13. A comunhão fraterna é fruto necessário da própria ação evangelizadora. A resposta ao anúncio só se completa com a adesão ao Reino "nova maneira de ser, de viver, de estar junto com os outros, que o Evangelho inaugura. Essa adesão não pode permanecer abstrata e desencarnada, mas se manifesta concretamente pela entrada visível numa comunidade de fiéis".17 A nova evangelização "tem por fim formar comunidades eclesiais maduras".18

 

     14. A Igreja no Brasil procurou concretizar essa fraternidade no espírito da experiência comunitária, reconstruindo na sua base aquele tecido de pequenas comunidades eclesiais, ligadas com profundos vínculos de fraternidade, sempre abertas, no meio social em que vivem, à solidariedade com o povo.

Viver a comunhão fraterna é também sentir solidariedade com toda a criação, que vem de um Deus-comunhão, que deseja a promoção da vida e a busca da harmonia entre todos os seres criados.

 

     15. "A EVANGÉLICA OPÇÃO PREFERENCIAL PELOS POBRES" é uma atitude de Jesus, que deve ser assumida pela Igreja. Cristo veio evangelizar a todos e, por isso, teve como preferência específica: "evangelizar os pobres".19 "Os primeiros destinatários da missão são os pobres, sendo a sua evangelização sinal e prova, por excelência, da missão de Jesus".20

 

     16. A opção pelos pobres pode e deve impulsionar a Igreja a descobrir, sempre de novo, a exigência radical do Evangelho, libertando-a da acomodação e do conformismo aos "esquemas deste mundo".21

 

     Jesus, ao aproximar-se dos marginalizados pela sociedade e das vítimas da rejeição e do desprezo, fá-los sentir e viver uma experiência de libertação, e uma partilha junto à mesma mesa.22

 

     Entre o anúncio evangélico e a promoção do homem, entre a caridade cristã e a promoção humana, há uma estreita e profunda conexão, como mostra o ensino social da Igreja.

 

     17. Evangelizar PARA FORMAR O POVO DE DEUS E PARTICIPAR DA CONSTRUÇÃO DE UMA SOCIEDADE JUSTA E SOLIDÁRIA.

 

FORMAR O POVO DE DEUS — Desde o Antigo Testamento Deus quis formar um povo, que lhe fosse fiel e que preparasse a chegada do Messias. Com ele estabeleceu uma aliança e lhe deu meios e mensageiros: "Para que sejam o meu povo e eu seja o seu Deus".23 O Povo de Deus continua e se aperfeiçoa na comunidade de salvação que é a Igreja, novo Povo de Deus, comunidade congregada daqueles que crêem em Cristo.24 Formar o Povo de Deus é também construir a comunidade para viver em comunhão e participação. A grande comunidade eclesial expressa sua vida em comunidades concretas através da comunhão na fé, vivida, celebrada e testemunhada. A nova evangelização busca criar novas comunidades e exige profunda revisão nas estruturas comunitárias.

 

     18. PARTICIPAR DA CONSTRUÇÃO DE UMA SOCIEDADE JUSTA E SOLIDÁRIA é realizar o projeto de Deus na solidariedade e na busca do bem comum. A justiça exige que se dêem condições de viver com dignidade e com oportunidades iguais; e a solidariedade descobre as necessidades e os problemas dos outros, particularmente dos mais empobrecidos.

 

     19. A sociedade concreta em que vivemos, em nosso país e em grande parte do mundo, está marcada pelas desigualdades, egoísmos e injustiças. Por isso, "a evangelização comporta uma mensagem sobremaneira vigorosa em nossos dias, sobre a Libertação".25 Para a Igreja, o amor ao ser humano se concretiza na promoção da justiça. "A solidariedade ajuda-nos a ver o outro — pessoa, povo ou nação — não como um instrumento qualquer de que se explora, a baixo preço, a capacidade de trabalho e a resistência física, para o abandonar, quando já não serve; mas, sim, como um nosso semelhante".26

 

     20. A SERVIÇO DA VIDA E DA ESPERANÇA NAS DIFERENTES CULTURAS — A edificação de uma sociedade justa e solidária depende de uma nova "cultura", de novos valores que inspirem a vida humana. Infelizmente, a cultura contemporânea, sob certos aspectos, pode ser denominada uma "cultura de morte" pelas múltiplas formas de sacrifício da vida humana aos ídolos da riqueza, do poder e do prazer. A vida hoje vem sendo desprezada e até eliminada, desde a concepção até as mais variadas formas de destruição. O Deus da vida exige o respeito e a promoção da vida em todas as suas formas e estágios.

 

     21. Diante de tantos sinais de morte, o evangelizador não pode perder a esperança. Esperança que não é apenas uma virtude humana, mas dom do Deus da vida. Num mundo dominado pelo temor e desespero, deve-se proclamar a esperança pascal. Cristo ressuscitado, vencedor da morte, é a certeza de vitória e de total libertação. "Sem esmorecer continuemos a afirmar a nossa esperança, porque é fiel quem fez a promessa".27 A esperança em Cristo é também compromisso para mudar as situações de pecado, existentes no mundo e na sociedade.

 

     22. O anseio por uma sociedade mais justa, o ressurgimento das culturas oprimidas, a valorização dos direitos fundamentais da pessoa humana, a solidariedade entre os povos, o clamor contra as mais variadas formas de injustiça, a sensibilidade pelas situações de miséria e de fome, o crescente interesse pela ecologia: são aspirações do homem de hoje e alguns sinais dos tempos em que vivemos e que representam sementes de esperança.

 

     23. A Igreja tem consciência de que sua missão exige respeito pelas diferentes culturas. A cultura deve ser considerada como "o bem comum de cada povo ou grupo étnico, a expressão de sua dignidade, liberdade e criatividade, o testemunho do seu percurso histórico".28 Evangelizar as culturas não é deformá-las ou destruí-las, mas propiciar seu pleno desabrochar à luz do Evangelho. A Igreja sente necessidade de redobrar seus esforços na defesa dos direitos dos povos indígenas, dos negros, das minorias étnicas e no respeito pelas variadas tradições culturais.

 

     24. A evangelização exige a inculturação da fé e o respeito pelos valores próprios de cada grupo humano. Nesse sentido, a religiosidade popular é um caminho privilegiado de evangelização, e nela os pobres manifestam seu potencial evangelizador.29

 

     25. A caminho do Reino Definitivo, os cristãos são reconfortados pela certeza da esperança na difícil luta pela libertação integral da pessoa humana e pela construção de uma sociedade justa, solidária e fraterna. O cristão tem consciência de seu compromisso na edificação da cidade terrena, mas sempre com seus olhos voltados para a Jerusalém celeste, para o triunfo final de Deus, quando todas as coisas lhe serão submetidas e quando Deus será "tudo em todos".30 É o desfecho glorioso da História da salvação, com a vitória absoluta e definitiva de Deus.

 

 

II PARTE: OS CAMINHOS DA EVANGELIZAÇÃO

 

CAPÍTULO I - EVANGELIZAR: MISSÃO DA IGREJA

 

     26. Cristo, Evangelizador do Pai, escolheu Doze "para que ficassem com ele, para enviá-los a pregar"31 e a eles associou discípulos e discípulas. O Senhor Ressuscitado confirma e amplia a tarefa da evangelização, quando ordena: "Ide por todo o mundo e proclamai o Evangelho a toda a criatura".32 A prática evangelizadora de Jesus continua na Igreja.

 

     27. Olhando a urgência e os desafios da missão, na atual sociedade brasileira, sentimos a necessidade de despertar ainda mais a consciência missionária da Igreja.

 

     1.       ORIGEM E CONTEÚDO DA MISSÃO

 

     Jesus Cristo: ontem, hoje e sempre

 

     28. A Bíblia revela um Deus Criador e Redentor, presente e atuante no mundo e na História, que se comunica "por acontecimentos e palavras".33

 

     29. Deus coloca no centro de sua obra Cristo, "imagem do Deus invisível e o primogênito de toda criatura, porque nele foram criadas todas as coisas".34 Foi em Cristo que Deus criou o universo e, de modo especial, o homem e a mulher, feitos à sua imagem e semelhança.35

     Cristo é o mediador e a plenitude da revelação, que vem nos manifestar as maravilhas do Pai, estabelecendo sua morada no meio de nós.36 Cristo continua na sua Igreja, que mostra como se realiza o Plano do Pai, num diálogo salvífico e misterioso no coração do homem, na marcha da História e na busca constante dos povos e suas culturas.

 

     30. Deus não quer salvar os homens isoladamente. Por isso, congregou na Igreja os que crêem em Cristo. Desde a origem do mundo, ela foi prefigurada, preparada na história de Israel, fundada por Cristo, manifestada ao mundo com a efusão do Espírito Santo, e será gloriosamente consumada no final da História.37

 

     31. Assim, a Igreja se torna "sinal e instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o gênero humano" e "povo reunido na unidade do Pai e do Filho e do Espírito Santo".38

     Cristo permanece na Igreja até o final dos tempos39 e leva à plenitude a história da salvação, que desabrochará no Reino definitivo de Deus. "Tudo é vosso; mas vós sois de Cristo, e Cristo é de Deus".40

 

     O Valor da Criação

 

     32. A criação é a expressão do poder do Deus vivo, manifestando sua sabedoria, bondade e amor. Nas coisas criadas, Deus proporciona permanente testemunho de si. Através da ação criadora, as Pessoas divinas comunicam algo de sua própria vida trinitária.

 

     33. O ser humano, imagem de Deus e senhor da terra, é chamado a aperfeiçoar-se no exercício do seu domínio sobre o mundo e a respeitar, com sabedoria, valores e leis das realidades terrestres, em harmonia com a obra do Criador.

 

     34. Reconhecer o valor da criação é também preservá-la. A questão ecológica não é apenas ambiental. É, sobretudo, antropológica. O homem deve descobrir sua capacidade de transformar e, de certo modo, criar o mundo com seu próprio trabalho, mas sempre levando em conta o plano originário do Criador. Realiza, assim, "seu papel de colaborador de Deus na criação".41

 

     35. Colaborar com Deus na criação é ainda denunciar a utilização da ciência e da técnica, fora de qualquer padrão ético, contra a vida e o futuro da criação. Isso se refere, de modo especial, à energia atômica, às drogas químicas, às armas biológicas, ao controle das fontes da vida e à exploração predatória e mau uso da natureza.

 

     O Povo de Deus

 

     36. Na busca de sua realização, a humanidade tropeçou no pecado e se afastou do caminho do bem. Deus, porém, veio apontar o caminho da salvação e reunir novamente o seu povo. Desde Abraão, inicia um novo diálogo que se aprofunda na história de Israel.

 

     37. Em sua pedagogia humano-divina, Deus escolhe este povo, o liberta da escravidão, firma com ele uma aliança e o conduz à terra prometida. Assim, através dos séculos, Ele prepara o caminho para a chegada do Messias.42

 

     38. A Antiga Aliança, ordenada a preparar a chegada de Cristo e seu Evangelho, adquire seu pleno significado na Nova Aliança.43

     A Igreja, novo Israel, é a comunidade daqueles que, crendo, voltam seu olhar a Jesus Cristo, autor da salvação e sacramento visível de unidade. Assim, os cristãos são "constituídos em linhagem escolhida, sacerdócio régio, nação santa, povo escolhido e Povo de Deus".44

 

     Jesus Cristo, plenitude da revelação

 

     39. Deus, após ter falado, antigamente, de muitas maneiras pelos profetas, fala agora, de forma definitiva, por seu próprio Filho, herdeiro de todas as coisas e resplendor da glória do Pai, que veio revelar o coração de Deus.45

 

     40. Cristo tem em tudo a primazia e nele habita corporalmente a plenitude da divindade.46 Ele é também quem dá novo sentido à existência humana e resposta às grandes questões da vida.

     Em Jesus, Verbo encarnado na História humana, se realiza plenamente o plano salvífico do Pai.

 

     O Reino Anunciado aos Pobres

 

     41. O Reino de Deus constitui ponto fundamental da pregação e ação de Jesus. Ele anuncia o Reino de Deus, contempla-o já presente e trabalha pela sua plena e total realização. Este Reino estabelece um novo relacionamento filial dos homens com o Pai e um relacionamento fraterno com os outros.

 

     42. Jesus foi o evangelizador de todos. Para isso, aproximou-se particularmente dos mais necessitados, já que viera para anunciar a Boa Nova aos pobres e marginalizados. A opção da Igreja deve ser a mesma que a de Cristo: "Uma opção preferencial pelos pobres no intuito de sua integral libertação",47 como "forma especial do primado da caridade cristã".48 Esta opção não é passageira ou circunstancial, mas constitutiva de sua missão.

 

     43. O Reino de Deus diz respeito às pessoas, às estruturas, e à sociedade, ao mundo inteiro. "Trabalhar pelo Reino significa reconhecer e favorecer o dinamismo divino, que está presente na História humana e a transforma. Construir o Reino significa trabalhar pela libertação do mal, sob todas as suas formas".49

 

     A Missão dos Discípulos

 

     44. Cristo envia seus discípulos para dar continuidade à missão que recebeu. "Como o Pai me enviou, eu também vos envio".50 Este mandato do Senhor, fortalecido no Pentecostes, fez com que os discípulos assumissem a tarefa de evangelizar todos os povos.

 

     45. A fé nasce do anúncio. A comunidade eclesial cresce, se consolida e se manifesta na medida em que responde fielmente ao Deus que se comunica, tornando-se experiência de vida. O anúncio deve revestir-se de uma linguagem concreta e adaptada às circunstâncias, dentro do contexto vivencial das pessoas e dos povos, no respeito às condições da época e das culturas.51

 

     46. A comunhão sustenta e impulsiona a missão, também na hora da perseguição e da denúncia profética. Quando necessário, a Igreja deve assumir posição corajosa e profética em face do poder político ou econômico e dirigir-se aos "novos areópagos" para proclamar, como Paulo, a força transformadora do Evangelho.

 

     O Espírito Santo, Agente e Termo da Evangelização

 

     47. Os discípulos são animados pelo Espírito Santo que é o protagonista da missão eclesial, agente principal da evangelização. A presença e a ação do Espírito não atingem apenas os discípulos, mas também os povos, a sociedade e a própria História. Prepara a acolhida do Evangelho e a constituição da comunidade eclesial nas diferentes culturas.

 

     48. O Espírito Santo leva pessoas, comunidades, povos e culturas, à plenitude da história da salvação, fazendo conhecer toda a verdade e levando o universo à sua plena glorificação.

     A plenitude da História, onde Deus será "tudo em todos", realizará a comunhão da humanidade na Trindade, comunhão de amor do Pai e do Filho no Espírito.

 

     2.       CAMINHOS DA MISSÃO

 

     De Jesus Evangelizador à Igreja Evangelizadora

 

     49. O caminho da evangelização parte de Jesus Cristo, que não é apenas o primeiro e maior evangelizador, mas o próprio Evangelho. Jesus é, portanto, a referência e o modelo da missão evangelizadora da Igreja, que está essencialmente a serviço da mesma obra do Senhor Jesus. Existe uma ligação profunda entre Jesus, a Igreja e a evangelização.

 

     50. Portanto, para poder evangelizar, a Igreja deve deixar-se evangelizar, sendo assídua ouvinte da palavra do Senhor. É exigência do evangelizador ouvir aquilo que deve acreditar e, por uma conversão e renovação constantes, praticar na comunhão fraterna e no serviço.52 Assim pode transmitir com autenticidade aquilo que vive.

 

     51. A Igreja, evangelizada, é enviada também a evangelizar. A obra da evangelização é dever fundamental do Povo de Deus. Deve ser uma proclamação clara: em Jesus Cristo, Filho de Deus feito homem, morto e ressuscitado, a salvação é oferecida a todos.

 

     52. Como Cristo se encarnou num povo e numa cultura do seu tempo, assim a Igreja deve encarnar o Evangelho nas diferentes culturas. Inculturação é "a íntima transformação dos valores culturais autênticos pela sua integração ao cristianismo e o enraizamento do cristianismo nas várias culturas". Por ser um processo profundo e globalizante, os pastores e as comunidades cristãs têm a responsabilidade do discernimento e do estímulo para tal realização.53

 

     A Solidariedade dos Discípulos de Cristo

 

     53. "O caminho da Igreja é o caminho do homem", diz o Papa João Paulo II.54 E ainda repete de maneira mais incisiva: "A Igreja, também no terceiro milênio, permanecerá fiel ao assumir como próprio o caminho do homem, sabendo que não caminha só, mas com Cristo, seu Senhor. Foi ele que fez seu o caminho do homem, e o guia, mesmo quando este não se dá conta".55

 

     54. Para exercer sua missão na História humana e nela distinguir sementes e sinais do Reino, a Igreja deve, antes de tudo, tornar-se solidária com as alegrias e esperanças, tristezas e angústias da humanidade.56 Por isso ela procura:

  descobrir e ajudar a promover o valor inviolável da pessoa humana;

  solidarizar-se com a situação do outro, de modo especial dos mais pobres, pela promoção da justiça e do desenvolvimento integral da pessoa humana;

  testemunhar os valores evangélicos da gratuidade e das bem-aventuranças, vivendo em comunhão existencial com os pequenos e os que sofrem;

  partilhar a experiência religiosa com todos os que buscam a Deus, no respeito à diversidade e na procura da verdade.

 

     55. Estas e outras iniciativas haverão de abrir caminho para que se "conheça o único Deus verdadeiro e aquele que por ele foi enviado, Jesus Cristo".57 Assim, o Espírito abrirá os corações para que todos possam acreditar no Senhor e confessá-lo. Dessa forma, a Boa Nova, proclamada pelo testemunho e expressa pela palavra, leva a acolher a pessoa e a mensagem de Jesus de Nazaré, o Filho de Deus.

 

     56. Surgem muitas oportunidades para lançar sementes de evangelização. A sensibilidade do evangelizador saberá descobri-las e concretizá-las. Paulo, diante do areópago, serve-se de uma inscrição no monumento ao deus desconhecido, para pregar sobre o culto ao verdadeiro Deus. Filipe entra em diálogo com o funcionário da rainha Candace, que lhe pede explicações sobre trechos da Bíblia.58 É a pastoral ambiental a exigir a descoberta de melhores meios e estratégias de evangelização nas situações, as mais variadas, e com interlocutores, os mais diversos.

 

     Situações diversificadas de Evangelização

 

     57. A Igreja no Brasil se acha, hoje, de fato, diante de três grandes situações que desafiam sua ação pastoral.

 

     58. Situação dos não-evangelizados: São grupos humanos e contextos sócio-culturais, onde o Cristo e seu Evangelho ainda não são conhecidos, ou, pelo menos, não são devidamente acolhidos e considerados.

 

     59. Batizados não praticantes: São aqueles que, apesar de terem tido uma tradição cristã, perderam o sentido da fé e não mais se reconhecem membros da Igreja, ficando distantes de Cristo e de sua palavra. Por vezes, a própria prosperidade material, mergulhando cada vez mais no consumismo, pode ter ocasionado esse afastamento. Outras vezes, trata-se de pessoas que reduziram a sua prática religiosa a uma participação rara ou ocasional. De qualquer forma, todos necessitam de uma forte reevangelização ou de uma nova evangelização.

 

     60. Os fiéis pertencentes ao rebanho: Vivem sua vocação batismal dentro da comunidade cristã e, muitas vezes, irradiam o testemunho do Evangelho em seus ambientes e nas atividades pastorais da Igreja. Sentem-se cristãos coerentes com sua fé e membros vivos da comunidade eclesial. Para esses, a ação evangelizadora deve consistir, sobretudo, em dar uma consciência sempre mais lúcida do que é ser Igreja, oferecer formação permanente, desenvolver os diversos ministérios, alimentar o aprofundamento da fé numa vida eclesial, participativa e sacramental.59

 

     61. A urgência e a novidade dos desafios à evangelização do tempo presente aparecerão mais nitidamente nos capítulos que se seguem.

 

CAPÍTULO II - AS DIMENSÕES DA EVANGELIZAÇÃO

 

     1.       ORIGEM E FUNÇÃO DAS DIMENSÕES

 

     62. O atual quadro das dimensões nas Diretrizes Gerais da Ação Pastoral começou a ser definido na 7ª Assembléia Geral Extraordinária da CNBB, realizada em Roma, 1965, durante a última sessão do Concílio. É fruto da rica experiência pastoral da Igreja no Brasil e da acolhida atenta e fiel do próprio Concílio, que se fez vida na nossa Igreja. Foi seguidamente reformulado e melhorado à luz da caminhada da Igreja na AL.

     O resultado dessa 7ª Assembléia Geral da CNBB foi o Plano de Pastoral de Conjunto (PPC), para os anos 1966-70. Nele se apresentava o Objetivo Geral desdobrado em seis objetivos específicos.60

 

     63. Estes seis objetivos foram tomados "como ponto de partida" para o estabelecimento de "seis linhas fundamentais de trabalho", a saber: a unidade visível da Igreja, a ação missionária, a catequese, a liturgia, o ecumenismo e a presença da Igreja no mundo. Elas se tornaram um "quadro de referência para a nossa ação pastoral".

 

     64. Na 14ª Assembléia Geral, em 1974, surgiu uma das regras de "autenticidade" da ação pastoral. "Uma linha de ação pastoral só será autêntica, isto é, inserida no esforço comum de missão de Cristo e da Igreja, na medida em que não pretenda se separar ou isolar das outras linhas de ação". Em outros termos: os diversos objetivos específicos devem evidenciar o único Objetivo Geral de um modo adequado, levando a compreender e abranger gradualmente os outros aspectos essenciais da ação pastoral e da missão da Igreja, e a empenhar-se por eles.61

 

     65. Em 1983, a 21ª Assembléia Geral começou a chamar as seis linhas também de "dimensões". A palavra "linhas" não parecia feliz para exprimir a "unidade global da ação pastoral". Poderia sugerir paralelismo ou ação pastoral em compartimentos estanques. A expressão "dimensões", ao contrário, mostra que os vários aspectos da única realidade global, que é a missão da Igreja, estão ligadas entre si.62

 

     66. De fato, "as seis linhas correspondem às grandes dimensões da vida eclesial". Constituem, desta forma, um esquema interpretativo dos vários aspectos da missão, sem esgotar o mistério da Igreja. Exprimem, de maneira funcional e prática, tanto a inserção da Igreja na diversidade de situações, quanto a unidade da missão na variedade das vocações e tarefas.63

 

     67. Foi assim que elas começaram a ser chamadas: dimensão comunitária e participativa (linha 1), dimensão missionária (linha 2), dimensão catequética (linha 3), dimensão litúrgica (linha 4), dimensão ecumênica e do diálogo religioso (linha 5), dimensão profética e transformadora (linha 6). Deve-se observar, no entanto, que tanto o número quanto a ordem delas têm caráter pedagógico e prático. Podem e devem se abrir a posteriores explicitações para enriquecer nossa compreensão do mistério da Igreja.

 

     68. O importante é que se considere: 1) que o conjunto das linhas ou dimensões "constitui o quadro de referência geral da Ação Pastoral da Igreja no Brasil em todos os níveis"; 2) que "cada nível da Igreja, cada Igreja Particular pode e deve organizar seus planos ou ação pastoral, a partir de um quadro operacional que melhor se adapte à sua realidade".64

 

     69. A 26ª Assembléia Geral de 1988 aprovou o documento "Igreja: Comunhão e Missão", "como desdobramento das Diretrizes Gerais da Ação Pastoral". Comunhão e missão aparecem como duas faces do mesmo ser da Igreja: diante de Deus uno e trino e diante do mundo a ser salvo.65

 

     70. Por fim, a 29ª Assembléia Geral de 1991 votou a continuidade das seis dimensões e a mudança de nomenclatura da linha 3, que passa a se chamar "bíblico-catequética", e da linha 6, que passa a se chamar "sócio-transformadora".

 

     2.       FUNDAMENTAÇÃO TEOLÓGICA DAS DIMENSÕES

 

     71. As seis linhas ou dimensões têm seu amplo quadro teológico de referência no Concílio e na sua acolhida na Igreja do Brasil. Segundo o mesmo Concílio, a Igreja deve viver o mistério de Deus a nós revelado como "comunhão", ao mesmo tempo una e pluriforme, na diversidade de vocações e ministérios (Lumen Gentium — linha 1). Deve alimentar-se da Palavra de Deus (Dei Verbum — linha 3) e da Sagrada Liturgia (Sacrosanctum Concilium — linha 4). Assim vivendo e se alimentando, ela acolhe a missão (Ad Gentes — linha 2), busca uma comunhão cada vez mais ampla com os demais cristãos e com outras religiões (Unitatis Redintegratio — diálogo ecumênico; Nostra Aetate — diálogo religioso: linha 5) e se coloca a serviço do mundo (Gaudium et Spes — linha 6).

 

     72. Propondo, ainda em 1965, um Objetivo Geral desdobrado em seus objetivos específicos, o episcopado se fundamentou nas "riquezas insondáveis do Mistério de Cristo e da Igreja", buscando no Concílio "um ensinamento mais preciso sobre a natureza e a missão universal da Igreja".66

 

     73. De fato, o Concílio ensina que a Igreja é, ao mesmo tempo, Povo de Deus e Mistério. Povo de Deus, enquanto "constituído por Cristo para a comunhão de vida, caridade e verdade, por Ele ainda assumido como instrumento de redenção de todos e enviado ao mundo inteiro como luz do mundo e sal da terra". Mistério, enquanto enraizada na comunhão trinitária, que se torna visível no "organismo social" da Igreja.67

 

     74. Pode-se sintetizar, ainda, essa visão de Igreja como "comunhão missionária". Ela haure da intimidade com o Pai, o Filho e o Espírito, em atitude de adoração e ação de graças, o ardor missionário e o vigor profético para enfrentar os desafios que o mundo de hoje lhe apresenta.

 

3. COMPREENSÃO ATUAL DAS SEIS DIMENSÕES

 

     75. As seis dimensões, adotadas como quadro referencial da Ação Pastoral, sem esgotar o mistério da Igreja, têm a função de mostrar ao mesmo tempo a variedade de aspectos e a unidade dinâmica que deve existir entre eles. De fato, elas se interpenetram e se exigem mutuamente. A tarefa de integrá-las entre si nas Diretrizes é exercida pelo Objetivo Geral.

     As seis dimensões são descritas, a seguir, em seus aspectos essenciais e permanentes. No Capítulo IV elas serão novamente retomadas, à luz das novas acentuações que a ação pastoral deve assumir, em face dos desafios da modernidade.

 

     Linha 1 — Dimensão Comunitária e Participativa68

 

     76. É a dimensão que revela a natureza íntima da Igreja, a sua identidade básica. A Igreja é convocada para ser comunhão pela participação de todos e cada um dos seus membros no mistério da comunhão trinitária. Incorporados a Cristo, todos se tornam filhos de Deus, pelo Espírito Santo, e irmãos para viverem entre si uma profunda comunhão fraterna.

 

     77. A dimensão comunitária abrange, de um lado, a consciência da presença do Espírito vivificador, que distribui dons e carismas para o bem de todo o Corpo. Por outro, abrange também a vivência de uma crescente comunhão, pela qual, acolhendo e incentivando as diversas vocações e carismas, a Igreja se organiza em estruturas sempre mais participativas para a construção da unidade orgânica, sinal da comunhão dos homens com Deus e dos homens entre si.

 

     78. A Igreja se caracteriza essencialmente como comunidade. Enquanto tal, ela toma consciência de si mesma, da sua natureza, do que ela é na vida íntima.

 

     79. Inseridas nos mais variados contextos humanos e permanecendo em comunhão entre si e especialmente com a Igreja de Roma, "as Igrejas particulares, formadas à imagem da Igreja universal", são, por excelência, o sujeito eclesial. "Nelas e por elas existe a Igreja católica, una e única".69 Por elas se manifesta o próprio desígnio de Deus. Nelas as várias comunidades eclesiais, movimentos ou grupos apostólicos, leigos ou religiosos, se reconhecem membros vivos do Povo de Deus pelo batismo e exercem suas vocações e ministérios.

 

     Linha 2 — Dimensão Missionária 70

 

     80. A comunhão exige a missão como seu dinamismo essencial. A Igreja, que se percebe como comunidade de fé, é impelida naturalmente a continuar a missão de Jesus que a convocou, constituiu e enviou. Ela é chamada a assumir ativamente, em todos os seus membros, a mesma missão de Cristo, proclamando o Reino de Deus e testemunhando o Evangelho em todo tempo e lugar, em todas as épocas e nações, reconhecendo a riqueza evangélica das diferentes culturas.71

 

     81. A dimensão missionária exprime, pois, um aspecto particular da única e abrangente missão da Igreja, correspondente à primeira evangelização, para despertar a fé nos não-cristãos, integrando novos membros em sua comunhão visível.72

 

     82. Neste sentido, o Papa João Paulo II, em sua recente Encíclica sobre "a validade permanente do mandato missionário", identifica, "no âmbito da única missão da Igreja", a dimensão missionária, como "atividade missionária específica, cuja peculiaridade deriva do fato de se orientar para "não-cristãos". É propriamente a missão "ad gentes". Esta "tarefa especificamente missionária, que Jesus confiou e continua cotidianamente a confiar à sua Igreja, não se deve tornar uma realidade diluída na missão global de todo o povo de Deus, ficando desse modo descurada ou esquecida".73

 

     83. Lembramos ainda que a dimensão missionária deve sempre enfrentar o constante desafio da inculturação da fé, procurando encarnar o Evangelho nas culturas dos povos. O nosso Objetivo Geral atual inclui a preocupação pelo respeito às diversas culturas. Esse é um ponto em que deveremos nos diferenciar em relação à prática missionária daqueles que realizaram a primeira evangelização da América, cujo V Centenário estamos comemorando.

 

     84. A Igreja no Brasil, nos últimos anos, tem manifestado seu dinamismo por um novo ardor missionário "ad gentes", não apenas se preocupando com as situações missionárias presentes no país, mas ampliando seu horizonte missionário para "além-fronteiras".74

 

     Linha 3 — Dimensão Bíblico-Catequética 75

 

     85. Fonte da vivência comunitária e da missão da Igreja é a Palavra de Deus, que se expressou plenamente na pregação e na existência de Jesus Cristo e se encontra na Bíblia e Tradição. Ela suscita a fé que reúne os membros da Igreja e os integra no corpo de Cristo.

 

     86. Pela vivência do Mistério de Cristo na vida cotidiana, o povo de Deus aprofunda constantemente o sentido da fé. Por ele, "adere indefectivelmente à fé e, com reto juízo, penetra-a mais profundamente e, mais plenamente, a aplica na vida".76

 

     87. Pelo mesmo sentido da fé, o Povo de Deus realiza uma constante "interação" entre Palavra de Deus, as formulações da fé cristã e as situações da vida, interligando a experiência da fé com o crescimento humano da vida eclesial, nos níveis pessoal, comunitário e social.

 

     88. A dimensão bíblico-catequética visa promover um processo de educação pessoal e comunitária, progressiva e contínua, orgânica e sistemática do cristão na fé, na esperança e na caridade. Nesse processo, o cristão amadurece sua relação filial com o Pai, pelo Filho, no Espírito Santo. No exercício dos dons e carismas, faz crescer a comunidade eclesial na comunhão e participação. No compromisso com a justiça e a solidariedade, empenha-se na construção de uma sociedade justa e solidária.77

 

     89. Na 29ª Assembléia Geral, com muita pertinência, essa dimensão passou a se chamar de "dimensão bíblico-catequética". Com isso pretende-se valorizar a Palavra de Deus contida na Bíblia para a nossa salvação. A fé, como "um grão de mostarda", cresce e se desenvolve a partir da palavra de Deus, contida especialmente na Bíblia, "ecoando" nas pessoas, grupos e comunidades.

     Ela promove assim a educação e o crescimento permanente de sua fé. Esse destaque dado à dimensão bíblica vem em boa hora responder ao dinamismo das comunidades eclesiais, dos grupos apostólicos e movimentos que se aproximam da Sagrada Escritura, com novos métodos e nova sensibilidade.

 

     90. A dimensão bíblico-catequética expressa o chamado de toda a Igreja a se fazer permanente ouvinte da Palavra, assimilando-a sempre mais profundamente ao confrontá-la com a vida dentro do mundo e da História. Como afirma a Constituição "Dei Verbum", da mesma palavra da Sagrada Escritura também se nutre salutarmente e santamente floresce o ministério da palavra, a saber, a pregação pastoral, a catequese e toda a instrução cristã.78

 

     Linha 4 — Dimensão Litúrgica79

 

     91. Essa dimensão expressa a Igreja como comunidade sacerdotal organicamente estruturada pelos sacramentos, nos quais celebra os mistérios da fé. "Na liturgia, especialmente na Eucaristia, celebra-se a realidade fundamental da Páscoa: morte e ressurreição de Jesus Cristo, morte e ressurreição do batizado com Cristo. Na ação litúrgica, devem encontrar espaço todas as realidades da vida cotidiana do cristão, pois é com todos os aspectos da sua pessoa que ele tem de passar deste mundo ao Pai. Ao participar na celebração, o cristão terá presente suas aspirações, alegrias, sofrimentos, projetos, bem como os de todos os seus irmãos. E colocará todas estas intenções na oração que sua comunidade, com toda a Igreja, dirige ao Pai, com Cristo Salvador, na unidade do Espírito Santo".80

 

     92. A dimensão litúrgica exprime, pois, o caráter celebrativo da Igreja. Constitui, na terra, a expressão mais significativa da comunhão eclesial. Na liturgia, o Povo de Deus encontra seu momento maior de festa e de comunhão eclesial.

 

     93. A Liturgia é, acima de tudo, fonte e lugar de comunhão e evangelização, pois ela é a própria Boa Nova presente e celebrada como acontecimento no agora da Igreja. Não pode ser vista, apenas, como meio e instrumento pedagógico para aprofundar o conhecimento dos fiéis.

 

     94. Nenhuma atividade pastoral pode realizar-se sem se referir à liturgia. Toda e qualquer celebração tem dimensão evangelizadora e catequética, enquanto aceita o homem como ser sacramental. Por ela, a criação inteira se torna, de certa forma, sacramento de Deus.

 

     95. Levando-se em conta a sensibilidade cultural do nosso povo, é meta da adaptação da liturgia, num justo e sadio processo de inculturação, a introdução de novos símbolos, de novos ritos de sacramentais para diversas necessidades e circunstâncias da vida, mais compreensíveis ao povo de hoje, porque criados pela piedade popular, experimentados nas CEBs e outros grupos de oração, ou ainda, provenientes das exigências da modernidade.81

 

     Linha 5 — Dimensão Ecumênica do Diálogo Religioso 82

 

     96. O testemunho missionário da Igreja procede da sua tendência dinâmica a ser, ao mesmo tempo, una e católica. Só assim ela pode constituir-se na terra "o germe e o início do Reino de Cristo e de Deus", Reino único e universal. Por outro lado, o principal motivo de credibilidade do seu testemunho é a unidade dos seus membros. Para que todos creiam que o Pai enviou seu Filho ao mundo é preciso que todos os discípulos de Jesus sejam "perfeitos na unidade".

     Diante da lastimável divisão dos cristãos em confissões e Igrejas diferentes, "escândalo para o mundo", a Igreja, una e católica, sente a urgência de buscar o diálogo com as outras Igrejas cristãs em vista do crescimento da comunhão visível sob o único bom pastor, Jesus.83

 

     97. "Este movimento de unidade é chamado de movimento ecumênico. Dele participam os que invocam o Deus Trino e confessam a Jesus como Senhor e Salvador, não só individualmente, mas também reunidos em Assembléia, onde ouviram o Evangelho, e que declaram, cada um, ser sua Igreja e de Deus".84

 

     98. Esse diálogo, próprio da dimensão ecumênica, acabou se estendendo, nas devidas proporções e formas, às outras religiões e a quantos estão à procura da Verdade, mesmo "às apalpadelas".

 

     99. O diálogo religioso — ou mais propriamente inter-religioso — aproxima-se pedagogicamente do diálogo ecumênico. No mundo pluralista e secularizado de hoje, por vezes fechado à transcendência, importa unir esses dois tipos de diálogo para uma abertura "àquele supremo e inefável mistério que envolve nossas existências, donde nos originamos e para o qual caminhamos".85

 

     100. No diálogo religioso (ou inter-religioso), distinto do diálogo ecumênico, exige-se reconhecer a peculiaridade da relação dos membros de cada uma das religiões com a Igreja de Cristo. Merece atenção especial o diálogo com os judeus que têm em comum com os cristãos "um tão grande patrimônio espiritual".86

 

     Linha 6 — Dimensão Sócio-Transformadora87

 

     101. A Igreja, embora não seja do mundo, está presente no mundo, no meio das sociedades humanas. Por esta presença, ela deve agir como fermento na massa, contribuindo para que essas sociedades humanas se organizem em conformidade com os valores e exigências do Reino de Deus. Solidarizando-se com as aspirações e esperanças da humanidade, é levada pela "fome e sede de justiça"88 a colocar-se a serviço da causa dos direitos e da promoção da pessoa humana, especialmente dos mais pobres, denunciando as injustiças e violências, para que possa surgir uma sociedade verdadeiramente justa e solidária.

 

     102. Estando presente na sociedade, a Igreja como um todo — tanto os fiéis individualmente como os grupos, instituições e organizações eclesiais — vive profunda relação de influência mútua com essa mesma sociedade. Crescendo na fé, o Povo de Deus vai tomando consciência da missão que lhe cabe de contribuir para a transformação da sociedade.

 

     103. A 29ª Assembléia Geral decidiu chamar esta dimensão de "sócio-transformadora" e não "profético-transformadora". É que o exercício da função profética não é exclusivo da tarefa de transformar as sociedades humanas. Ele penetra em todas as outras dimensões do mistério da Igreja.

 

     104. Essa dimensão na Igreja do Brasil desenvolve-se, sobretudo, em três áreas de capital importância para a presença do Evangelho na sociedade: nas áreas da educação, da comunicação social e da pastoral social. Na atuação dessa dimensão, a comunidade cristã situa-se e age profeticamente em áreas de fronteira do mundo das comunicações sociais, da educação formal e informal e, sobretudo, no amplo espectro da realidade social do país.

 

CAPÍTULO III - MUDANÇAS NA SOCIEDADE E DESAFIOS À EVANGELIZAÇÃO

 

     105. O Concílio Vaticano II apontou a principal característica do mundo atual: "O gênero humano encontra-se, hoje, em fase nova de sua História, na qual mudanças profundas e rápidas estendem-se progressivamente ao universo inteiro".89

 

     106. O processo de modernização encontra-se na raiz dessas transformações, que atingem todas as dimensões da vida humana. É um processo complexo que se manifesta mais claramente nas transformações técnicas, econômicas e políticas, trazendo consigo uma nova visão do homem e da sociedade.

 

     107. Como o Concílio observa, este processo tende a difundir-se rapidamente por todo o mundo. Uma das características da modernidade é a "planetarização", através da crescente internacionalização da economia, da técnica e dos meios de comunicação de massa.

 

     108. Um dos fatores que desencadearam a modernidade foram as descobertas científicas, com suas aplicações técnicas, dando ao homem uma capacidade de transformar a natureza, multiplicando a produção de bens. A economia assumiu, na prática, uma influência determinante na nova sociedade. Os meios de produção foram adquirindo tanta importância, que o próprio pensamento passou a ser reduzido à "razão funcional" ou "instrumental", enquanto se perdia o sentido da ética ou dos valores morais.

 

     109. Os sistemas implantados procuraram o domínio desses meios: o capitalismo, privilegiando o poder econômico; o "socialismo real", privilegiando o poder político como instrumento de dominação.

 

     110. Esta obsessão de dominação leva à perda do sentido de convivência e de liberdade, bem como à ameaça de desequilíbrio ou mesmo da destruição predatória da natureza. A consciência ecológica levanta hoje, dramaticamente, a questão dos limites do crescimento econômico e da própria sobrevivência da humanidade.90

 

     111. É nas grandes transformações econômicas que mais aparecem os frutos do progresso tecnológico, e ao mesmo tempo suas contradições e limites. É preciso reconhecer que essas transformações econômicas vieram agravar a questão social, que adquiriu dimensões mundiais, aumentando o número de indivíduos e de povos inteiros desprovidos do mínimo necessário, difundindo a exploração e o empobrecimento, tornando o mundo mais desigual que nunca.

 

     112. Diante dos desastres ecológicos e do crescente empobrecimento de muitos povos, a modernidade começa a reconhecer seus limites e a questionar sua concepção da razão e do progresso. Em nossa análise pastoral, convém ter presente este fato. Fica, assim, facilitado o caminho para perceber as oportunidades de evangelização que o mundo de hoje oferece. Isto não dispensa o discernimento crítico para apontar deficiências e indicar caminhos de superação.

     Nosso olhar sobre a modernidade quer perceber valores, identificar limites e discernir as atitudes pastorais mais adequadas. Ele se voltará especialmente para o Brasil, sem ignorar, contudo, o contexto internacional que o condiciona.

 

     113. O fenômeno da modernidade, porém, é extremamente complexo e diversificado. Não é aqui o lugar de uma análise exaustiva.91 Aliás, é importante frisar, desde já, que o fenômeno da modernidade deve ser estudado e acompanhado permanentemente, se quisermos manter atualizada a nossa ação pastoral. Aqui selecionamos e salientamos três aspectos, particularmente significativos, que questionam a nossa consciência de cristãos e oferecem desafios inéditos para a evangelização.

 

     1. INDIVIDUALISMO E EMERGÊNCIA DA SUBJETIVIDADE

 

     114. O processo de modernização, iniciado há séculos, atingiu gradativamente as várias áreas da sociedade (ciência, técnica, economia, religião...) e transformou a própria concepção de vida das pessoas, primeiro entre as elites, depois em todos os níveis.

 

     115. O desejo de autonomia do homem moderno, formulado de início filosoficamente, como afirmação do sujeito livre, dono de si mesmo, senhor da natureza, construtor do seu mundo, manifesta-se hoje — em larga escala — através da emergência não apenas da reivindicação sempre mais consciente e difusa de direitos individuais e de participação, mas também em múltiplas formas de expressão e de defesa da subjetividade. Pode-se citar como exemplo:

 

     116. A recusa de sacrificar a felicidade pessoal a ideais coletivos que se tornaram incertos (daí a chamada "crise do militantismo"); a busca de realização no plano afetivo, com uma conseqüente valorização (às vezes excessiva e frustrante) da vida sexual, com rejeição dos padrões de comportamento até há pouco socialmente aceitos; a busca de liberação de papéis impostos pela sociedade tradicional, em favor de maior liberdade de escolha subjetiva; a reivindicação de uma efetiva igualdade de direitos para todas as pessoas, o que aparece mais vivamente nas reivindicações das mulheres, dos jovens e das minorias culturais; a procura de uma espiritualidade mais pessoal, menos padronizada por esquemas exteriores e menos diluída nas práticas coletivas e comunitárias.

 

     117. Um outro fenômeno que revela a tendência ao individualismo nos países ricos é a diminuição do tamanho da família e o aumento do número das pessoas adultas, homens ou mulheres, que vivem sozinhas. Esta mesma realidade começa a se manifestar também no Brasil, particularmente nas camadas mais abastadas.

 

     118. A modernidade pode proporcionar um desenvolvimento mais autêntico da pessoa, para assumir de maneira mais livre a configuração de sua vida. Homem e mulher modernos sentem-se protagonistas de sua realização pessoal, rica de possibilidades, sem a rigidez dos papéis que a sociedade tradicional lhes impunha. Aí podemos encontrar um dos pilares da tradição cristã, que afirma o valor da pessoa humana, de sua liberdade e de sua realização integral.

 

     119. Mas existe também a possibilidade de interpretar ideologicamente a autonomia humana de forma radical, em oposição a qualquer reconhecimento da transcendência, podendo resvalar na auto-suficiência e no ateísmo. A autonomia do homem é saudável, faz parte do dom que recebeu de Deus em sua natureza humana. O que está errado é transformar esta autonomia em auto-suficiência. Errada é a autonomia que exclui o "outro" na pessoa do próximo, e exclui o "Outro", na recusa de Deus.

 

     120. Nesse sentido não se deve confundir o individualismo com o egoísmo. Como fato cultural que caracteriza a sociedade moderna, o individualismo contém valores positivos (por exemplo, incentiva a responsabilidade pessoal), embora esteja sempre ameaçado pelo risco do fechamento sobre si mesmo. O egoísmo, entendido como atitude moral negativa, rompe os laços de solidariedade com o próximo.

 

     121. A efetivação dos ideais modernos de liberdade e de realização individual está condicionada pela situação real (cultural, religiosa, política, econômica). No Brasil, a grande maioria da população tem possibilidades muito escassas até quanto às necessidades básicas para sua sobrevivência: alimentação, educação, saúde...

 

     122. Mesmo assim, as pessoas não perdem a esperança de um futuro melhor, para si ou para os filhos. Essa esperança pode ser nutrida de ilusões, alimentadas pelos meios de comunicação social. Pode traduzir-se em ativa solidariedade e luta em defesa dos próprios direitos. Pode expressar-se na participação em movimentos sociais, políticos e religiosos. De qualquer forma, tende a crescer a consciência da dignidade de toda pessoa humana e a reivindicação de direitos fundamentais.

 

     123. Entre as classes médio-superiores e entre os ricos, difunde-se a tendência ao consumismo e à imitação dos padrões de vida dos países "avançados". Chega-se, às vezes, ao desperdício e à ostentação, mais escandalosos ainda em face do crescente empobrecimento do povo. O consumismo constitui uma forma de alienação da pessoa, como mostra perspicazmente a "Centesimus Annus".92

 

     124. Assim, o sonho moderno de uma plena realização da pessoa e de sua liberdade pode tragicamente transformar-se em novas formas de escravidão: a dos pobres, que lutam pela sobrevivência e não têm o necessário; a dos ricos, que acabam tornando-se dependentes de uma corrida incessante para ter mais, e frustram sua realização humana no consumismo e no materialismo.

 

     125. Analisando a sociedade moderna sob outro ponto de vista, constata-se que ela difere notavelmente da sociedade tradicional, onde predominava a comunidade rural, relativamente auto-suficiente. Nela, as atividades econômicas, políticas, religiosas e de lazer eram realizadas juntamente, num espaço restrito, familiar. A vida das pessoas era determinada pela tradição, apoiada e controlada pela comunidade. A própria estruturação do tempo e do espaço fazia convergir a vida comunitária para um centro e para "tempos fortes" onde a comunidade se reunia e se reconhecia, constituindo-se tanto como comunidade humana (ou civil) quanto como comunidade cristã. Isto gerava uma identificação, de fato, entre comunidade humana (civil) e comunidade eclesial.

 

     126. Na sociedade moderna, urbana, a atividade humana tende a se dividir em áreas autônomas: economia, política, ciência, lazer, religião.... A pessoa não está mais ligada a uma "comunidade" (no sentido tradicional), mas desenvolve sua vida em diversos ambientes, multiplicando seus relacionamentos. Nesse espaço complexo e diversificado, abre-se a possibilidade tanto para o individualismo (o indivíduo vive suas relações tendo como centro a si mesmo), quanto para a adesão a um novo tipo de comunidade (religiosa ou não) que dá apoio ao indivíduo e, às vezes, o controla e absorve quase completamente. Não é mais a sociedade que lhe impõe uma única visão do mundo. O indivíduo tem que construir sua identidade, fazendo escolhas, valorizando traços de sua experiência, ligando-se a grupos ou comunidades caracterizados por uma visão do mundo, uma tradição, uma cultura.

 

     127. A escolha do individualismo é mais freqüente entre as classes médias e superiores, porque nelas o indivíduo tem recursos para escolher como quer. Nas classes populares, as possibilidades de escolha são menores as opções são impostas pela família ou pelo meio social, e o indivíduo necessita muito mais da solidariedade de um grupo ou de uma comunidade. De qualquer forma, os indivíduos não se acham mais — na sociedade moderna — diante de uma única "cultura" (conjunto de padrões de comportamento, valores, concepções de vida), mas diante de um fato novo: o pluralismo.

 

     2. PLURALISMO CULTURAL E RELIGIOSO

 

     128. Ainda antes de compreender suas causas, o homem moderno constata que vive num mundo pluralista, onde coexistem lado a lado (tolerando-se mutuamente ou, às vezes, em conflito aberto) grupos humanos que possuem culturas, religiões, valores morais diferentes.

 

     129. A sociedade tradicional tendia a reduzir ou submeter todos a uma única cultura, religião, visão do mundo. A sociedade moderna, promovendo o individualismo, incentivando a opção pessoal, defendendo em princípio a liberdade de pensamento e de religião, aos poucos, gerou um mundo diferenciado e pluriforme.

 

     130. Embora as tradições culturais e étnicas continuem fortes, o indivíduo hoje pode se subtrair a elas e "converter-se" a outra visão do mundo, religião ou cultura, abandonando a de sua família ou de seu grupo de origem. Pode até criar sua visão do mundo pessoal, selecionando elementos de procedência diferente, operando um "sincretismo" cultural segundo seu próprio gosto.

 

     131. O fenômeno é evidente também no plano religioso, onde encontramos, na sociedade moderna, um amplo leque de posições, desde o indiferentismo, o agnosticismo e o ateísmo, até a adesão fanática a movimentos fundamentalistas ou sectários. A maioria, geralmente, permanece ligada às grandes religiões tradicionais, seja por simples adesão formal ou ocasional, seja pela participação plena e ativa. Outros preferem grupos novos, fervorosos, exigentes, às vezes, exotéricos.

 

     132. A situação do pluralismo cultural tornou-se mais complexa e contraditória pela presença de uma "indústria cultural". Ela se serve principalmente dos meios de comunicação de massa (imprensa, cinema, rádio, TV, discos etc.) e seleciona seus produtos basicamente segundo um critério de rentabilidade. Esta cultura de massa entra em conflito, não apenas com a cultura intelectual ou erudita, mas também com a cultura do povo. Este se vê agredido ou seduzido por produtos muitas vezes alheios e alienantes, aos quais nem sempre consegue opor uma resistência consciente e crítica.

 

     133. Resultado desses fatos é também uma situação de pluralismo ético. A sociedade moderna considera os valores morais uma questão de escolha pessoal. O resultado é uma fragmentação que torna problemática também a atuação das instituições. O Estado não encontra valores comuns sobre os quais fundar sua ação. Tende a gerir tecnicamente a administração pública, protegendo ou conciliando os interesses de grupos. Reforça-se assim o corporativismo, de um lado e o clientelismo, do outro. A escola e a educação encontram uma tarefa muito mais difícil que na sociedade tradicional. Seus esforços são, muitas vezes, solapados pela influência poderosa dos meios de comunicação social, a desorientação das famílias, a pluralidade de valores e modelos que a sociedade oferece.

 

     134. A tarefa educativa torna-se, ao mesmo tempo, mais difícil, e mais necessária, para ajudar a criança e o jovem a adquirir uma personalidade coerente, madura, capaz de opções firmes e de discernimento crítico dos valores. O mesmo vale para missão da família.

 

     135. No caso brasileiro, o pluralismo cultural possui raízes étnicas que não se encontram em outras sociedades modernas mais homogêneas. No momento atual é evidente a reivindicação do direito à existência das culturas indígenas, longamente reprimidas quando não eliminadas, e das culturas negras ou afro-brasileiras, que reivindicam liberdade de expressão e reconhecimento de sua dignidade.

 

     136. O Brasil está marcado também por uma rápida transição da cultura rural para a cultura urbana. A população urbana, que não atingia 35% do total em 1950, está hoje próxima dos 75%. Além desse fenômeno global de migração do campo para a cidade, envolvendo boa parte da população brasileira, há um fluxo migratório constante e parcelas significativas da população trabalhadora (bóias-frias, garimpeiros etc.), que vivem em permanente instabilidade e, muitas vezes, em condições subumanas. Esses fenômenos contribuem para a desagregação da família e da cultura tradicional, sem introduzir condições de vida modernas ou mesmo, simplesmente, suportáveis.

 

     137. Outros fenômenos de pluralismo cultural estão ligados à emergência de grupos que reivindicam liberdade de expressão e pleno reconhecimento de seus direitos em face de uma tradição patriarcal, que desconhecia — por exemplo — a igualdade de direitos de jovens e mulheres.

 

     138. No plano religioso, que nos questiona mais diretamente, é possível fazer uma análise um pouco mais aprofundada, corroborada por dados estatísticos.

     Antes de tudo, permanece no povo brasileiro uma religiosidade de fundo, que se expressa de muitas maneiras. Quase todos os brasileiros acreditam em Deus (mesmo nas grandes cidades, os que declaram "não acreditar em nada" não passam de 1% a 1,5% dos adultos). A Igreja continua confiável para a grande maioria da população e por ela prestigiada (78%, segundo recente pesquisa do IBOPE), muito acima das outras instituições (MCS, políticos etc.).

 

     139. A porcentagem dos que se declaram católicos, porém, continua diminuindo lentamente, como vem acontecendo há mais de um século, na medida em que se difunde o pluralismo religioso. Segundo os censos, os católicos eram 98,9% em 1890; 95% em 1940; 91,8% em 1970; 89,1% em 1980. Estimativas recentes fazem pensar que o número atual dos católicos se aproxime de 85% da população.

 

     140. Ao mesmo tempo, cresceu o número dos seguidores de outras religiões. Os evangélicos (protestantes tradicionais e pentecostais) subiram de 1% em 1890 para 2,6% em 1940; 5,2% em 1970; 6,6% em 1980. Hoje, podem ser estimados em cerca de 8% da população.

 

     141. As pesquisas mais recentes, por amostragem ou por observação direta, revelam novos fenômenos qualitativos, debaixo dos números citados. Estas pesquisas dizem respeito à população adulta das cidades médias e grandes (outro discurso deveria ser feito a respeito do interior rural ou das pequenas cidades).

 

     142. Um primeiro fenômeno a ser assinalado, coerente com a tendência moderna para o individualismo, é o elevado número de brasileiros que reduzem a religião a uma convicção interior, pessoal, a uma religião "invisível", que abandona totalmente ou quase as práticas comunitárias. As pesquisas recentes indicam, nas grandes cidades, que 8% a 9% das pessoas (sobretudo homens abaixo dos 50 anos) declaram-se desligados de qualquer religião. Além disso, há uma porcentagem elevada de católicos (cerca de 2/3) que têm uma prática religiosa rara ou nula. É este, certamente, o maior desafio para a ação evangelizadora da Igreja.

 

     143. Entre os que aderem a outras igrejas cristãs ou a outras religiões, a prática religiosa é alta. Estas mesmas pessoas, porém, freqüentam não raro, mais de uma religião, ou trocam de Igreja com relativa facilidade, ou ainda misturam elementos e práticas de religiões diferentes. Entre os próprios católicos, embora em medida menor, há alguma tendência a confundir crenças e práticas de outros cultos (por exemplo, muitos acreditam na reencarnação, sem ter clara consciência nas implicações espíritas dessa doutrina).

 

     144. Na origem da situação atual, existe não apenas o impacto da modernidade, com o processo de desagregação e desenraizamento da cultura tradicional, uma acelerada urbanização, as contínuas migrações, atividade missionária de igrejas e seitas etc.

     Existe também, e principalmente, a história do catolicismo brasileiro, em grande parte constituído por devoções aos santos, transmitidas de geração em geração no ambiente rural e nas famílias, mas, desde o século passado, pouco assistido pastoralmente por um clero escasso e mal distribuído. Isto trouxe como conseqüência a falta de uma iniciação cristã e de uma ligação estável e consciente com os sacramentos e com a instituição eclesial.

 

     145. Compreende-se, assim, como muitos católicos não receberam claramente o primeiro anúncio de Jesus Cristo, nem passaram pelo processo de crescimento e amadurecimento pessoal da fé, através de uma verdadeira experiência catequética. Não é, então, de se estranhar que estes católicos não sintam uma vinculação atual com a Igreja e sejam atraídos por outras religiões, agora que mudaram as condições culturais, em especial pela acelerada urbanização.

 

     146. Um outro fato, que ajuda a compreender os dados e as pesquisas, é a coincidência da renovação conciliar com a aceleração do processo de modernização de nossa sociedade. Um terço dos católicos declaram participar regular ou assiduamente da vida da Igreja. Neles podemos reconhecer o contingente de leigos mais conscientes, que assumiram a renovação conciliar. A grande porcentagem dos que estão desligados de qualquer prática religiosa católica coincide com expressivo número dos que têm enfraquecido os laços religiosos tradicionais. Não se identificam mais com suas devoções antigas, nem aderiram à nova situação da Igreja.

 

     147. A renovação pastoral recente tem melhorado notavelmente a prática religiosa e o apostolado social dos católicos mais ligados às comunidades eclesiais e aos novos movimentos (desde a Ação Católica até os mais recentes). Mas a maioria dos católicos é ainda pouco atingida pela ação do clero, que continua escasso (menos de um padre para 10.000 habitantes) e pelo apostolado leigo, ainda pouco desenvolvido institucionalmente.

 

     148. O contexto da modernidade, gerador de mudanças e, portanto, de provisoriedade e incerteza, tem gerado também fenômenos religiosos de apego ao passado e de busca de segurança dentro e fora do âmbito católico.

 

     149. Esta busca de segurança pode se manifestar por duas atitudes religiosas: o fundamentalismo, que encontra a segurança na aceitação cega de formulações históricas da fé, e o sentimentalismo, que valoriza a religiosidade pelo simples fato de fazer parte dos seus sentimentos, nos quais o indivíduo encontra a afirmação de sua subjetividade.93

 

     150. O quadro da situação religiosa não seria completo, sem mencionar o esforço amplo e multiforme da ação pastoral da Igreja católica. A multiplicação das iniciativas tem até levado, nos últimos anos, a uma certa fragmentação da ação pastoral, algumas vezes por influência da modernidade, outras como fruto de divergências metodológicas e falta de diálogo e comunhão.

 

     151. Problemas e desafios da ação pastoral, bem como orientações e caminhos para torná-la mais adequada e coerente, serão refletidos nos capítulos seguintes. Neles, procurar-se-á aproveitar a experiência acumulada em vinte e cinco anos de renovação conciliar, a tradição religiosa e pastoral mais antiga e, sobretudo, os esforços mais lúcidos já empreendidos para responder à modernidade e às mudanças recentes.

 

     3. CONTRADIÇÕES SOCIAIS E CAUSAS ESTRUTURAIS

 

     152. Os aspectos da modernidade que analisamos — individualismo e pluralismo — estão condicionados pela transformação da própria estrutura da sociedade. A sociedade tradicional era hierarquizada e tinha como eixo central ou referência, a religião. A sociedade moderna, voltada de forma obsessiva para a produção e o domínio da natureza, valoriza antes de tudo a economia e o poder político necessário para regulá-la ou, no mínimo, protegê-la. Ao mesmo tempo, ela gera um processo de diferenciação das instituições e de especialização, separando mais nitidamente ciência, religião, artes, lazer etc. A especialização contribui para a fragmentação da vida social e intelectual, e torna difícil a comunicação entre os diversos campos do saber e da existência humana.

 

     153. A religião não mais é a guardiã de valores da sociedade. Hoje, com maior evidência, a política, a ciência, a técnica, a economia, as artes e as diversas expressões culturais reivindicam e praticam, de fato, uma autonomia pela qual não vêem razão de manter relações com a esfera religiosa e dela receber orientações.

 

     154. A separação entre economia, ética e política94 manifesta-se tragicamente no enorme poder e na imensa riqueza acumulada por poucos, e na condição de penúria da maioria da humanidade.

 

     155. Especialmente na última década, nos anos 80, década "perdida" para o desenvolvimento, na América Latina e em quase todo Terceiro Mundo, o nível de vida dos pobres decaiu mais ainda. Enquanto isso, aumentava a concentração de renda e os capitais eram drenados para os países ricos, inclusive através dos serviços da dívida externa. Esta é uma das causas que contribuem para diminuir os investimentos e perpetuar a situação de empobrecimento do nosso povo. O endividamento externo representa uma forma moderna do tributo que as metrópoles cobravam dos povos colonizados.95

 

     156. A concorrência da economia internacional, nos anos 90, pode agravar ainda mais a situação, exigindo do Brasil um empenho maior em favor de investimentos produtivos e aumento de empregos.

 

     157. Os indicadores sociais mostram que as condições de vida do povo estão se deteriorando. Dados educacionais revelam que, em 1988, o Brasil ainda contava com 18,9% de analfabetos na população de 15 anos ou mais, índice que sobe para 30,5% no Nordeste. O investimento estatal em obras e serviços como escolas, hospitais vem caindo a cada ano. A questão da habitação aflige grande parte da população, sobretudo os que são obrigados a sobreviver com o salário mínimo.

 

     158. Os dados estatísticos comprovam o processo de concentração de renda e de marginalização dos pobres. Conforme Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, realizada pelo IBGE em 1989, os 10% mais ricos da população brasileira detinham 53,2% da renda nacional, contra 0,6% dos 10% mais pobres. O que mostra o agravamento da situação, pois em 1981 os 10% mais ricos detinham 46,6% da renda contra 0,9% dos 10% mais pobres.

 

     159. Uma outra pesquisa, do IPEA, revela que, de 1980 a 1989, o contingente de brasileiros absolutamente pobres, isto é, com rendimento inferior a um quarto de salário mínimo, aumentou de 29,4 milhões para 44,8 milhões. Com a estagnação econômica, a desvalorização dos salários e o desemprego, a população acaba por recorrer cada vez mais à economia informal. O departamento de Contas Nacionais do IBGE calculou em 1989 que a economia informal chegava a 46 bilhões de dólares, ou seja, a cerca de 13% do Produto Interno Bruto (PIB).

 

     160. Uma inversão efetiva dessa tendência, para nosso país, supõe uma opção política bem definida e um projeto global coerente, metas claras, critérios de moralidade na administração da coisa pública, valorizando nosso potencial em recursos materiais e em recursos humanos.

 

     161. Após o período de autoritarismo militar, a Constituição de 1988 alimentou a esperança de solidificação do processo democrático. No entanto, a efetivação da ordem democrática tem se defrontado com numerosos obstáculos no campo sócio-político, sócioeconômico e sócio-cultural.

 

     162. A democracia não se realiza, de fato, quando o sistema econômico exclui parcelas da população dos meios necessários a uma vida digna: acesso ao trabalho com justa remuneração, à moradia, à terra, à educação, à organização sindical, à participação nos lucros e na gestão da empresa.96

 

     163. A existência de milhões de empobrecidos é a negação radical da ordem democrática. A situação em que vivem os pobres é critério para medir a bondade, a justiça e a moralidade, enfim, a efetivação da ordem democrática de uma nação.97

 

     164. A situação de desigualdade social tem tornado pequeno o peso político da massa popular, concentrado nos meios de comunicação, que têm se tornado mais instrumento de alienação do que de educação do povo para o ideal democrático.

 

     165. A Igreja do Brasil, reafirmando a evangélica opção preferencial pelos pobres, tem dado crédito à democracia. Ela olha o conjunto do país a partir das "massas sobrantes" da modernização, cujo grito não cessa de clamar aos céus. E aponta a solidariedade, a união e a organização do povo como caminho para uma sociedade justa e solidária, para uma sociedade democrática.

 

     166. "Uma autêntica democracia só é possível num Estado de direito e sobre a base de uma reta concepção da pessoa humana. Aquela exige que se verifiquem as condições necessárias à promoção, quer dos indivíduos através da educação e da formação nos verdadeiros ideais, quer da "subjetividade" da sociedade, mediante a criação de estruturas de participação de corresponsabilidade".98

 

CAPÍTULO IV - NOVAS ACENTUAÇÕES NA EVANGELIZAÇÃO

 

     167. No capítulo III, foram ressaltados três aspectos da modernidade que questionam fortemente a ação pastoral:

  individualismo e emergência da subjetividade;

  pluralismo cultural e religioso;

  contradições sociais e causas estruturais.

 

     168. A esses desafios, propomos três respostas:

  valorização da pessoa e da experiência subjetiva;

  vivência comunitária e diversificação das formas de expressão eclesial;

  presença mais significativa da Igreja na sociedade.

 

     1.       VALORIZAÇÃO DA PESSOA E DA EXPERIÊNCIA SUBJETIVA

 

     Fundamentação teológica

 

     169. A valorização da pessoa é um ponto central da antropologia cristã, da prática de Jesus e da tradição eclesial, desde os primeiros séculos até os desenvolvimentos recentes do magistério e da teologia.

 

     170. Ao lado da caridade a favor dos pobres e da prática da justiça, o testemunho evangélico a que o mundo de hoje é mais sensível é o da atenção às pessoas.99 Somos, pois, convocados a "evangelizar, testemunhando Jesus Cristo, em comunhão fraterna".

 

     171. Tanto o Concílio Vaticano II, como o atual Código de Direito Canônico, afirmam claramente o direito e o dever de todo cristão de participar da missão da Igreja e recordam a igualdade fundamental de direitos de todos os seus membros. O Papa João Paulo II tem reafirmado esses mesmos princípios, especialmente na Exortação Apostólica sobre os leigos ("Christifideles Laici") e em sua recente encíclica sobre "a validade permanente do mandato missionário" ("Redemptoris Missio"). Este dever de todo cristão é, também, dever e missão de toda família.

 

     172. A própria dinâmica da fé faz apelo à dimensão pessoal e subjetiva, pois "a fé nasce do anúncio, e cada comunidade eclesial consolida-se e vive da resposta pessoal de cada fiel a esse anúncio".100

 

     173. Associa-se ao sentido da subjetividade, uma forte consciência da liberdade. Na visão cristã, a subjetividade deve estar subordinada à solidariedade e à doação. A liberdade deve ser vivida em Cristo, na perspectiva da caridade e do serviço aos outros, especialmente ao pobre, como fez Jesus que veio anunciar a Boa Nova aos pobres e apontou o serviço ao pobre como sinal da presença do Reino.101 A liberdade, entendida como capacidade de escolher o bem, leva diretamente à busca da verdade.

 

     Indicações práticas e conseqüências pastorais

 

     174. A todo cristão reconheça-se a condição de sujeito, no sentido pleno do termo, abrindo espaço para a experiência subjetiva e pessoal da fé, valorizando o sacerdócio comum dos fiéis e o consenso na fé de todo o Povo de Deus.102

 

     175. A experiência religioso-cristã não se realiza em mera experiência subjetiva, mas no encontro com a Palavra de Deus confiada ao Magistério e à Tradição da Igreja, nos sacramentos e na comunhão eclesial.

 

     176. A vocação, os dons e carismas pessoais sejam colocados a serviço da comunidade eclesial e de sua edificação, fazendo-se da participação ativa uma forma de realização cristã da pessoa.

 

     177. Importância especial seja dada ao acolhimento às pessoas. Para isso, algumas medidas podem ser postas em prática: "ministério da acolhida"; visitas às famílias que chegam; visitas domiciliares nos momentos marcados pela alegria ou pela tristeza; postura acolhedora, alegre, disponível e bem humorada, por parte do presbítero e demais agentes de pastoral.

 

     178. A atitude de amizade e de acolhimento acentua a valorização da pessoa, num mundo onde a técnica e o progresso nem sempre deixam espaço para a comunicação pessoal. Assim, imita-se o gesto de Cristo acolhendo Zaqueu que, por sua vez, o recebe alegremente em sua casa. Ou a atitude de Jesus ao acolher as crianças ou, ainda, o gesto de Filipe e André que acolhem alguns gentios desejosos de ver o Cristo e os apresentam ao Mestre.103

 

     179. A acolhida poderá traduzir-se também em formas sistemáticas e organizadas: aconselhamento, com a colaboração de pessoas especificamente preparadas; revalorização do sacramento da reconciliação; disposição para o diálogo e a direção espiritual; diminuição da burocracia e prontidão para servir.

 

     180. A pessoa precisa ser acolhida na comunidade, com abertura e sensibilidade para os diversos aspectos e dimensões de sua identidade e existência. A comunidade, seguindo o princípio da liberdade cristã, evite um controle excessivo sobre as pessoas, ajude seus membros a não cair em atitudes unilaterais, como o intelectualismo, o intimismo, a excessiva importância à experiência emocional, a busca desmedida do "maravilhoso" e a fuga do compromisso com a transformação social.

 

     181. Ao acolhimento segue-se o acompanhamento. Após o primeiro anúncio, haja continuidade de contatos para envolver a pessoa na vida da comunidade eclesial.

 

     182. Com relação aos que recebem o primeiro anúncio de Cristo, merecem especial atenção as condições reais da pessoa e sua predisposição subjetiva para receber a semente.104 Seja ressaltado como a palavra do Evangelho introduz no mistério do amor de Deus, chama-nos a um estreito relacionamento pessoal com ele e predispõe a vida para a conversão.

 

     183. A primeira e fundamental estrutura a favor da "ecologia humana" é a família, no seio da qual o homem recebe as primeiras e determinantes noções acerca da verdade e do bem, aprende o que significa amar e ser amado e, conseqüentemente, o que quer dizer, em concreto, ser uma pessoa.105

 

     184. Na experiência que a pessoa faz da comunidade cristã, deve predominar o primado da experiência espiritual, no sentido forte de uma autêntica experiência de Deus, emocionalmente envolvente, levando à conversão pessoal, a uma vivência da fé e a uma mística profundas, nas quais a liberdade humana se abre à comunicação de Deus, em Cristo. A experiência espiritual cristã de alteridade encontra no Outro sua origem e fundamento. Cada um de nós é escolhido e amado primeiro para entrar em aliança e comunhão.

 

     185. Daí decorre a missão. O Espírito chama e envia. A resposta ao chamado é sempre uma resposta ativa, de serviço. Para realizar a missão é necessário, porém, ser discípulo, pôr-se à escuta e entrar na escola do seguimento de Jesus, aprendendo com ele a construir o Reino. Isto desperta no cristão a consciência de sua responsabilidade missionária para que saiba, respeitando os outros, manifestar e comunicar a sua fé.

 

     186. O católico deve ser levado a evangelizar "com renovado ardor missionário" e a promover a presença cristã nos diversos ambientes da sociedade, recordando-se que o êxito da evangelização depende, em grande parte, da espiritualidade e da mística de quem evangeliza.

 

     187. Haja maior empenho na evangelização das pessoas marginalizadas, aproximando-se delas e acolhendo-as sem discriminação ou preconceito, buscando-se vivenciar concretamente a evangélica opção preferencial pelos pobres.

 

     188. Na catequese, busque-se a necessária conexão entre a experiência pessoal e comunitária e a doutrina; entre a experiência de vida e a formulação da fé; entre a vivência atual e o dado da tradição, à luz da Palavra de Deus.106

     Promova-se uma catequese mais atraente e diferenciada, respeitando os níveis de engajamento cristão das pessoas e procurando levá-las pedagogicamente à inserção na comunidade eclesial e não retardar o início da catequese infantil, pois, desde cedo, a criança está exposta a muitas influências, especialmente dos meios de comunicação.

 

     189. Nas celebrações litúrgicas, articulem-se melhor a Tradição da Igreja e a experiência atual dos fiéis, valorizando as pessoas e sua vivência.

     É preciso redescobrir o aspecto simbólico da liturgia, enfatizar o sentido do mistério e recuperar as dimensões de festa, alegria e esperança. As celebrações sejam menos apressadas e menos intelectualizadas, proporcionando maiores momentos de silêncio, interiorização e contemplação.

     Na Liturgia, valorizem-se os gestos, as posturas, as caminhadas e a dança. Nosso corpo, sensível e dócil ao movimento é uma fonte inesgotável de expressão.107

     Promova-se maior aproximação entre as celebrações litúrgicas e o universo simbólico das comunidades, através de uma legítima criatividade, adaptação e inculturação.

 

     190. Pratique-se ecumenismo com as outras Igrejas cristãs e incentive-se o diálogo com pessoas e grupos de outras religiões.

     A Igreja promova sempre o pleno respeito à liberdade religiosa e mantenha uma atitude de cooperação, com quantos se mostrem retamente interessados na busca da verdade e da justiça. Diante dos novos movimentos religiosos autônomos (seitas), a Igreja é chamada a realizar um discernimento conforme as indicações do Concílio Vaticano II.108 Faça um trabalho de esclarecimento, quando julgar necessário. No entanto, a melhor resposta da Igreja à situação de pluralismo religioso é seu esforço missionário, o empenho em conseguir a autenticidade evangélica de seu testemunho, a santidade de seus membros, a adequação de sua ação pastoral ao contexto em que se situa.

 

     191. Respeite-se a liberdade do cristão na escolha de formas específicas de seu empenho na sociedade. Esta liberdade, porém, não deve ser abandonada a si mesma. No contexto da sociedade moderna e no meio urbano, criou-se uma dicotomia entre a fé e a vida, entre a esfera da religião e as esferas da ciência, da política, da economia e das atividades profissionais. É, portanto, necessário e urgente um esforço para descobrir modelos de vida cristã na sociedade moderna e estimular melhor integração entre fé e vida.

 

     192. Uma das maiores expressões da valorização da pessoa por parte da Igreja é certamente o empenho com que a Igreja tem promovido a educação, seja no âmbito familiar, seja na escola ou por outros meios. Através da educação, o indivíduo torna-se pessoa e amplia as dimensões de seu ser e de seu agir. É preciso, portanto, continuar e multiplicar as atividades educativas da Igreja, através das escolas católicas ou pelo empenho em levar a presença cristã às escolas públicas, dando-lhes nova qualidade e maior eficácia evangélica.

 

     193. Num mundo tão fragmentado, será muitas vezes ao redor da preocupação com a educação dos filhos que comunidades, movimentos, paróquias e instituições católicas de ensino poderão reunir os pais e envolver ativamente jovens e adultos num trabalho de evangelização, concretizando diversificadas formas de pastoral familiar. Na família evangelizada, pais e filhos tornam-se evangelizadores.109 Hoje, com o preceito constitucional, instituindo a pré-escola, deve-se atender ao despertar precoce da criança para o sentido dos valores no relacionamento com os outros. Não falte nessa fase da infância o despertar para a presença de Deus, que ama a cada um com ternura.

 

     194. A maior parte da população no Brasil de hoje mora na cidade. A Igreja deve estimular os cristãos a assumir a realidade urbana em sua complexidade. O ambiente da cidade é fragmentário e fragmenta as pessoas. Se o caminho da Igreja é o caminho do homem e da mulher, a Igreja deve melhor imitar o exemplo de Jesus que conhece suas ovelhas e elas o conhecem.110

 

     2.       VIVÊNCIA COMUNITÁRIA E DIVERSIFICAÇÃO DAS FORMAS DE EXPRESSÃO ECLESIAL

 

     Fundamentação teológica

 

     195. Teologicamente, um novo impulso para repensar a comunidade eclesial veio da redescoberta da Igreja local, especialmente a partir do Vaticano II. A teologia da Igreja local procura critérios para estabelecer a "eclesialidade" dos diversos grupos.

     Segundo o Concílio, só a diocese pode ser chamada Igreja particular. Todavia, outras comunidades ou grupos, devidamente articulados com a Igreja particular, podem oferecer uma experiência de Igreja. O próprio Concílio, que às vezes parece tomar como modelo da Igreja local a diocese antiga, de pequenas dimensões, reconhece que as paróquias "de algum modo representam a Igreja visível estabelecida por toda a terra".111 De fato, a paróquia "permanece um ponto capital de referência para o povo cristão".112

 

     196. Mas o que propriamente constitui a Igreja e a torna presente em determinado tempo e lugar? Conforme o próprio Concílio Vaticano II, a comunidade eclesial é edificada pelo Espírito Santo, mediante o anúncio da Palavra (Evangelho), a celebração da Eucaristia e dos outros sacramentos, a vida de comunhão do povo de Deus com seus carismas e ministérios, entre os quais sobressai o ministério episcopal-presbiteral, que tem a responsabilidade de garantir a autenticidade dos laços que unem a comunidade de hoje com a Igreja apostólica e com o projeto missionário, evangelizador, que lhe foi confiado até o fim dos tempos.

 

     197. A conversão e o batismo inserem na Igreja. Aprouve a Deus "chamar os homens a participar da sua própria vida, não um a um, mas constituí-los como povo, no qual os seus filhos dispersos fossem reconduzidos à unidade". A atividade missionária tem como objetivo fundar comunidades cristãs, desenvolver Igrejas até à sua completa maturação". A evangelização tem, pois, como um de seus principais objetivos "formar o Povo de Deus".113

 

     198. A comunidade eclesial deverá estar aberta especialmente aos pobres. Acolhendo-os, acolhe a Cristo. A eles dirige-se prioritariamente o anúncio do Evangelho. Eles trazem à Igreja uma experiência privilegiada da revelação.114 Assim, eles tornam-se sujeitos da evangelização, trazendo à Igreja um potencial missionário e uma estreita ligação entre fé e vida, testemunho significativo no mundo moderno que freqüentemente ignora a solidariedade e a comunhão fraterna.

 

     199. A valorização do aspecto pessoal nas comunidades eclesiais não deverá diminuir a dimensão da comunhão. A comunhão fortalece o relacionamento e enriquece a própria pessoa, abrindo-a aos outros. A atenção à dimensão comunitária evita também, que se caia nos extremos do individualismo ou da massificação que a sociedade moderna favorece.

 

     Indicações práticas e conseqüências pastorais

 

     200. Especial importância merece a pastoral urbana, com a criação de novas estruturas eclesiais que, sem desconhecer a validade da paróquia renovada, permitam que se enfrente a problemática apresentada pelas enormes concentrações humanas de hoje.115

 

     201. Na cidade é que se encontram em gestação os novos modos de cultura. Daí a necessidade de se buscar caminhos, na experiência e na imaginação, para a pastoral urbana.116

     Multiplicar e diversificar, especialmente no meio urbano, comunidades eclesiais que suscitem, eduquem e apóiem a experiência da fé a partir da Palavra, da Eucaristia, da comunhão fraterna e do empenho no serviço aos irmãos.

 

     202. É preciso que se reconheça a possibilidade de diversas formas de vida comunitária, integração e associação dos fiéis, sem querer impor um único modelo de comunidade. Deve-se buscar a unidade na diversidade.

 

     203. A paróquia busque adequar-se às mudanças de nosso tempo. Ela não é principalmente uma estrutura, um território, um edifício, mas é sobretudo a família de Deus e comunidade dos fiéis. A paróquia está fundada sobre uma realidade teológica, pois ela é uma comunidade eucarística. Na Eucaristia, está a raiz viva de sua edificação e o vínculo sacramental de sua comunhão com toda a Igreja.117

 

     204. Nos anos recentes, especialmente em face das grandes paróquias urbanas, caracterizadas por uma baixa prática religiosa e o anonimato dos fiéis, reivindica-se a transformação da paróquia em "comunidade de comunidades" ou a subdivisão da paróquia em comunidades de dimensões humanas, possibilitando relações pessoais fraternas. Seja, pois, estimulada a formação de comunidades também em nível ambiental, especialmente nas cidades.

 

     205. Transformando-se em "comunidade de comunidades", a paróquia deveria formar comunidades não só no meio popular, mas também em outros ambientes e estimular a formação de pequenas comunidades de fé por categorias profissionais.

 

     206. Os fiéis leigos podem e devem fazer muitíssimo para o crescimento de uma autêntica comunhão eclesial, no seio de suas paróquias, e para o despertar do impulso missionário em ordem aos não crentes e, mesmo, aos crentes que tenham abandonado ou arrefecido a prática da vida cristã.118

 

     207. Urge estimular as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), dar maior apoio e formação aos leigos e abrir espaço para a diversificação dos ministérios, favorecendo as diferentes formas de participação e valorização das pessoas na Igreja.

 

     208. As CEBs representam uma rica experiência eclesial, seja pela participação do laicato, seja pela criatividade pastoral, seja pelo empenho na transformação social. Elas são "força de evangelização".119 Entre os desafios das CEBs, hoje, destacam-se:

  trabalhar mais com as massas e não se fechar em pequenos grupos;

  acolher melhor a religiosidade popular e respeitar mais seu universo simbólico, evitando o perigo de um excesso de racionalismo, principalmente por parte dos agentes de pastoral mais intelectualizados;

  abrir-se ao pluralismo;

  empenhar-se para que a experiência das CEBs se consolide e continue acompanhando as mudanças da sociedade;

  manter uma relação dinâmica entre fé e vida, dando maior atenção à espiritualidade.

 

     209. As CEBs podem ajudar também a descentralizar e articular melhor a ação pastoral da Igreja local. Radicadas nos ambientes simples, sejam elas fermento de vida cristã e de transformação da sociedade. Sejam instrumento de evangelização e primeiro anúncio, fonte de novos ministérios e, animadas pela caridade de Cristo, cooperem para a superação das divisões.120

 

     210. A comunidade eclesial, pequena ou grande, territorialmente definida ou constituída a partir de outro critério de agregação, não deve se fechar em si mesma. Deve estar aberta em duas direções:

  de um lado, para a pessoa, com sua singular experiência que quer encontrar na comunidade aquela valorização e participação que lhe permitam alcançar o que anseia;

  de outro lado, para as outras comunidades eclesiais e para a Igreja universal com sua missão. Esta missão abrange a atenção aos que devem ser evangelizados e a presença solidária dos cristãos na sociedade.

 

     211. É necessário reconhecer a liberdade associativa dos fiéis leigos na Igreja. Trata-se de uma liberdade reconhecida e garantida pela autoridade eclesiástica e que deve ser exercida sempre e só na comunhão da Igreja: nesse sentido, o direito dos fiéis leigos em associar-se é essencialmente relativo à vida de comunhão e à missão da própria Igreja.121

 

     212. Os movimentos eclesiais integrem-se nas Igrejas Particulares, trazendo a contribuição de seu próprio carisma, porém sem se deixar condicionar totalmente pelas características do seu país de origem. Embora respondam muitas vezes a anseios das classes médias, procurem assumir a evangélica opção preferencial pelos pobres. Valorizem a fé como experiência pessoal, sem esquecer a dimensão comunitária e social. Cuidem da formação de seus membros, pondo sua organização moderna a serviço da evangelização.

 

     213. Os pastores na Igreja, mesmo perante possíveis e compreensíveis dificuldades de algumas formas agregativas e perante novas formas que vão se impondo, não podem abdicar do serviço da sua autoridade, não apenas pelo bem da Igreja, mas até pelo bem dessas mesmas agregações laicais. Nesse sentido, eles devem acompanhar a sua ação de discernimento com a orientação e, sobretudo, com o encorajamento em ordem a um crescimento das agregações dos fiéis leigos na comunhão e na missão da Igreja.122

 

     214. Todos, pastores e fiéis, temos a obrigação de favorecer e de alimentar constantemente os vínculos e as relações fraternas de estima, cordialidade e colaboração entre as várias formas agregativas de leigos. Só assim, a riqueza dos dons e dos carismas que o Senhor nos dá pode dar sua contribuição fecunda e ordenada para a edificação da casa comum.123

 

     215. É necessário valorizar e articular os mecanismos de comunhão e participação e melhorar a comunicação interna na Igreja para criar um clima de corresponsabilidade.

 

     216. As pastorais específicas ajudem nossas Igrejas a enfrentarem problemas e desafios urgentes da sociedade. Algumas "pastorais específicas" facilmente se articulam com a paróquia ou a diocese. Outras, mais especializadas e ligadas com realidades mais conflitivas, às vezes, desenvolvem concepções de Igreja e de pastoral que nem sempre se integram com a Igreja particular. Elas têm o mérito de buscar responder a desafios da modernidade e da realidade social, constituindo-se numa das formas mais eficazes de presença da Igreja no mundo. Daí a necessidade de se aprofundar o diálogo, na perspectiva da missão, visando à superação de certas dificuldades que ainda persistem.

 

     217. Especial atenção seja dada à família, também quando incompleta ou dividida. Seja dada atenção aos graves obstáculos que ela encontra na sociedade atual para realizar a sua missão. "É necessário voltar a considerar a família como o "Santuário da Vida". Contra a denominada cultura da morte, a família constitui a sede da cultura da vida".124 Continua atual o apelo de João Paulo II: "Fazei todos os esforços para que haja uma pastoral familiar. Atendei um campo tão prioritário com a certeza de que a evangelização do futuro depende em grande parte da "Igreja doméstica".125

 

     218. Urge levar adiante também, com grande empenho, a opção preferencial pelos jovens, "para que evangelizados, evangelizem e contribuam para a libertação integral da pessoa humana e da sociedade, levando a uma vida de comunhão e participação".126

 

     219. Não se pode perder de vista a necessidade de uma pastoral para as massas, revalorizando-se as missões populares, romarias, peregrinações, concentrações e outras formas de expressão religiosa do povo.

 

     220. Percebemos a emergência de novos movimentos sociais não-eclesiais, nos quais os católicos participam (por exemplo: movimento ecologista, feminista, de cultura negra e outros). Neles, os cristãos atuam como fermento na massa. Muitas vezes esses movimentos sociais colocam grandes desafios para a ação da Igreja no que se refere à evangelização, à catequese, à liturgia.

 

     221. A história da América Latina impôs uma política de assimilação ou integração cultural, submetendo e sacrificando muitas vezes as culturas indígenas e africanas. Impõe-se hoje, urgentemente, à consciência cristã, não apenas reconhecer claramente suas responsabilidades históricas e seus pecados nesta matéria, mas afirmar, com absoluta firmeza, o princípio do respeito a todas as culturas e particularmente a defesa das culturas oprimidas e injustiçadas.

 

     222. É necessário que se aprofunde a questão da inculturação, tanto na evangelização de grupos caracterizados por uma cultura própria (por exemplo: negros, índios, nômades etc.), como na maioria do povo que vive um processo de fragmentação cultural.

 

     223. É preciso formar a consciência missionária nas comunidades e, em particular, apoiar atividades missionárias além-fronteiras, em sintonia com Puebla, que nos propõe "dar da nossa pobreza".127

 

     224. A Catequese busque formar para a consciência e vivência comunitária da fé. Isso exige que se continue investindo com vigor na Catequese Renovada e se dê atenção às diferentes culturas.

 

     225. Na Liturgia, sejam valorizadas as expressões simbólicas e culturais da comunidade humana que celebra. Aprofunde-se a consciência comunitária pela celebração da Palavra, da Eucaristia, dos outros sacramentos e demais expressões litúrgicas.

 

     226. No âmbito ecumênico, aprofunde-se a reflexão teológica e pastoral sobre o pluralismo religioso e estimulem-se as ações comunitárias que facilitem o diálogo ecumênico e o clima de cooperação.

 

     3.       PRESENÇA MAIS SIGNIFICATIVA DA IGREJA NA SOCIEDADE

 

     Fundamentação teológica

 

     227. Do ponto de vista teológico, a Igreja não pode se limitar a orientar a experiência religiosa individual, nem a formar grupos ou comunidades que vivam isolados. A tradição bíblica e eclesial, bem como o Magistério atual, querem que a Igreja, para ser fiel à sua missão, assuma uma posição explícita em face da sociedade e das macro-estruturas. A Igreja no Brasil quer decididamente "participar da construção de uma sociedade justa e solidária, a serviço da vida e da esperança nas diferentes culturas, a caminho do Reino definitivo".

 

     228. Essa posição foi assumida pelo Vaticano II, que apresenta a Igreja como "Sacramento de Salvação", sinal e instrumento que aponta para o destino de toda a humanidade.128 Isso é claramente manifesto também na "Gaudium et Spes" que, ao tratar das relações da Igreja com a política afirma: "A Igreja que, em razão de sua finalidade e competência, de modo algum se confunde com a comunidade política e nem está ligada a nenhum sistema político, é, ao mesmo tempo, sinal e salvaguarda do caráter transcendente da pessoa humana".129

 

     229. Em sua encíclica "Redemptoris Missio", o Papa João Paulo II afirma: "Com a mensagem evangélica, a Igreja oferece uma força libertadora e criadora de desenvolvimento, exatamente porque leva à conversão do coração e da mentalidade, faz reconhecer a dignidade de cada pessoa, predispõe à solidariedade, ao compromisso e ao serviço dos irmãos, insere o ser humano no projeto de Deus, que é a construção do Reino de paz e de justiça, já a partir desta vida".130

 

     230. A missão implica no cuidado da Igreja de não se nivelar com as forças políticas em busca do poder, mas em refletir a imagem de Cristo, Servidor da humanidade, sobretudo dos mais pobres. Veio para servir e não para ser servido.131

 

     231. A "nova evangelização", da qual o mundo moderno tem urgente necessidade, deve incluir entre os seus aspectos essenciais o anúncio da doutrina social da Igreja, a qual nos convida a reafirmar uma autêntica teologia da libertação.132

 

     232. A Igreja encara com simpatia o sistema da democracia, enquanto assegura a participação dos cidadãos na política e garante aos governados a possibilidade, quer de escolher e controlar os próprios governantes, quer de substituir os participantes, quando tal se torne oportuno; ela não pode, portanto, favorecer a formação de grupos restritos de dirigentes que usurpam o poder do Estado a favor dos seus interesses particulares ou dos objetivos ideológicos.133

     A Igreja no Brasil procura contribuir para que se torne realidade não apenas uma democracia formal, mas uma justa repartição dos bens e oportunidades, permitindo a todos o exercício pleno da cidadania e garantindo ao povo uma efetiva participação econômica, social e política.

 

     233. No esforço de promoção da democracia e da justiça social, a Igreja colabora com todas as forças sociais e movimentos populares que buscam a defesa dos direitos da pessoa humana, a valorização da cultura popular, a promoção de uma formação política autêntica, respeitando o pluralismo das opções partidárias.134

 

     234. No plano religioso, a atitude democrática comporta, ainda, respeito ao pluralismo e atitude ecumênica de diálogo.

 

     235. No plano cultural, essa mesma atitude democrática exige a defesa dos direitos das minorias étnicas, dos povos indígenas, dos negros, a promoção das culturas oprimidas, em que a Igreja hoje se mostra particularmente empenhada.

 

     236. A Igreja Católica, ciente de sua missão universal, testemunha também seu interesse ativo pela paz e solidariedade entre todos os povos e partilha, de forma significativa, a partir de sua pobreza, seus recursos humanos e materiais com as Igrejas de outros Países, em apoio à missão "ad gentes".

 

     Indicações práticas e conseqüências pastorais

 

     237. A Igreja no Brasil quer continuar seu ensino social e sua atuação específica na sociedade. Todavia, diante dos novos desafios e das rápidas mudanças na sociedade, é importante prever também novas iniciativas e tornar mais significativas, do ponto de vista da evangelização, as atividades da Igreja no campo social.

 

     238. A partir de uma atenta análise da realidade, a Igreja continuará a elaborar e desenvolver sua doutrina ou ética social, tornando-a mais acessível à compreensão da maioria do povo, de modo que possa inspirar uma efetiva ação de transformação da sociedade no sentido de maior justiça e solidariedade. Tal elaboração pode ser feita por pastores e leigos, com a colaboração de cientistas sociais e de todos os que possam contribuir para a mesma finalidade. Para superar a tendência de aceitar uma representação esquemática e simplificada da realidade social, é oportuno incentivar a pesquisa, o estudo da evolução da sociedade e o discernimento dos novos problemas e tendências.

 

     239. Na reflexão sobre a ética social, a Igreja no Brasil procurará não se limitar apenas às grandes orientações gerais, mas descer às situações concretas e às realidades específicas. Esse tipo de reflexão entra mais diretamente nos problemas que angustiam o povo. Sendo objeto de debate na opinião pública, tem chance de ser mais significativo e de obter mais repercussão, também em nível de comunicação de massa.

 

     240. Um ponto particular da ética social, que no atual contexto merece aprofundamento, é a crítica da ideologia liberal (ou neo-liberal) que, no fundo, apenas encobre sua incapacidade de subordinar a economia à política e à ética, segundo as exigências da democracia e da justiça. No contexto do capitalismo liberal e do consumismo, a Igreja se vê desafiada a desmascarar a idolatria do dinheiro e de um estilo de vida baseado sobre a acumulação da riqueza e, às vezes, o exibicionismo e o desperdício, tão mais graves e escandalosos em face da fome e da miséria de milhões de brasileiros.

 

     241. Além de propor uma ética social, a Igreja mostre a raiz de tal ética, isto é, a revelação de Deus, em Cristo. Neste sentido, é importante superar a dicotomia entre mística e política, entre individual e social.

 

     242. A Igreja não apenas proclama uma doutrina social, mas também presta serviços concretos à sociedade. Sobretudo, deve ser coerente e viver efetivamente a evangélica opção preferencial pelos pobres. O Papa João Paulo II exorta os discípulos de Cristo, as comunidades cristãs desde as famílias às dioceses, das paróquias aos institutos religiosos, a fazerem uma revisão da própria vida na perspectiva da solidariedade com os pobres.135

 

     243. A Igreja não pode limitar-se à análise, à reflexão e à denúncia. Com as forças sociais e políticas e com os diversos movimentos que expressam o anseio do povo, especialmente dos mais pobres, a Igreja reivindica condições de saúde, alimentação, educação, moradia, trabalho, segurança a que todos têm direito. Ela deve também promover e incentivar a todos a fazer o que possam para aliviar os problemas dos necessitados, em particular dos mais abandonados (menores, doentes, idosos, marginalizados...). Deverá esforçar-se para que suas iniciativas apontem para a meta da "construção de uma sociedade justa e solidária, a serviço da vida e da esperança".

 

     244. Este empenho prioritário pelos mais necessitados e pela defesa dos direitos dos mais fracos não pode ser apenas uma expressão exterior da ação da Igreja, uma pastoral de tipo assistencialista. Deve levá-los a assumir o próprio destino, numa metodologia personalizante e de compromisso.

     Tal empenho penetre a vida e a ação eclesial, como opção evangélica, inspirando também a catequese e a liturgia. Este mesmo empenho deveria determinar as opções pastorais de paróquias, dioceses, a distribuição dos recursos humanos e materiais, tornando efetivamente visível a evangélica opção preferencial pelos pobres.

 

     245. Diante das graves e urgentes necessidades do povo brasileiro, especialmente dos pobres, a Igreja sente-se chamada, muitas vezes, a exercer uma função de suplência no campo social, assumindo serviços que deveriam ser realizados pelo Estado ou outros organismos da sociedade.

 

     246. Nesta mesma perspectiva, incentive-se a solidariedade com os outros países pobres, em especial, com os outros povos da América Latina, levando em conta as relações entre Norte e Sul.

 

     247. No contexto da modernidade e da atual fase de economia brasileira, merecem atenção especial, por parte da Igreja, os problemas do trabalho e dos trabalhadores. A Campanha da Fraternidade de 1991 e as orientações pastorais referentes ao "Mundo do Trabalho" do Doc. 40 da CNBB devem ser levados adiante por todas as forças vivas da Igreja no Brasil.

 

     248. É urgente promover a atuação dos leigos nas diversas esferas da sociedade (política, ciências, técnica, artes, MCS) e nos vários campos profissionais. Por isso, é preciso valorizar e reforçar as organizações do laicato.

 

     249. A influência atual dos Meios de Comunicação Social na opinião pública e na formação das consciências requer da Igreja uma atitude mais ativa. A Igreja contribua também para que, na própria opinião pública cresça a consciência crítica em face dos MCS. A própria Igreja empenhe-se para oferecer um tipo alternativo de comunicação, marcada pela transparência, pela capacidade de escutar, pelo esforço em dar a palavra a todos, especialmente aos que "não têm voz" na sociedade. Finalmente, atualize e aprimore seus próprios meios de comunicação, colocando-os efetivamente a serviço da evangelização e prepare seu pessoal para torná-lo mais apto a comunicar melhor.

 

     250. Diante dos conflitos na sociedade e na Igreja, busque-se, antes de tudo, aceitar as diferenças e aprofundar a reflexão sobre os modos de manter o diálogo e expressar a comunhão.

 

     251. É preciso levar adiante o esforço de formação específica, preparando os cristãos para uma inserção ativa na sociedade, inclusive, despertando as Assembléias Litúrgicas para a dimensão social e política da caridade.

 

     252. Para tornar mais claras as exigências do Evangelho e mais significativo o testemunho cristão na sociedade, procure-se a cooperação com outras Igrejas cristãs e com o Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (CONIC).

 

     253. A pastoral da educação, tanto na escola católica quanto nas escolas públicas, seja estimulada e assumida com empenho nos diferentes níveis da Igreja no Brasil.

 

     254. A presença pública da Igreja deve se manifestar em nível nacional. Isso exige reforçar iniciativas comuns, particularmente através da Conferência Episcopal e de outros organismos do povo de Deus, levando a Igreja a ser chama profética a serviço do Reino.

 

CAPÍTULO V - OS EVANGELIZADORES

 

     255. Jesus Cristo continua sua missão evangelizadora pela ação do Espírito Santo, o "agente principal da Evangelização", através de sua Igreja.136

 

     256. A Igreja, toda ela evangelizadora, encarna-se de fato nas Igrejas particulares. "Todo o mistério da Igreja está contido em cada uma das Igrejas particulares, desde que não se isole, mas permaneça em comunhão com a Igreja universal e, por sua vez, se faça missionária".137

 

     257. Em sua Igreja, universal e particular, por graça e ação do Espírito Santo, "Cristo a uns concedeu ser apóstolos, a outros profetas, a outros evangelistas, a outros pastores e mestres, para aperfeiçoar os santos em vista do ministério, para a edificação do Corpo de Cristo".138 No entanto, "evangelizar não é para quem quer que seja, um ato individual e isolado, mas profundamente eclesial", que deve ser exercido em "união com a missão da Igreja e em nome da mesma".139

 

     258. Tendo em vista as mudanças na sociedade, e suas repercussões na ação evangelizadora, parecem emergir algumas urgências e alguns desafios para as mesmas Igrejas particulares, entre os quais queremos destacar a formação permanente dos agentes, a articulação da ação evangelizadora e os novos sujeitos eclesiais.

 

     1.       URGÊNCIAS NO CAMPO DA FORMAÇÃO PERMANENTE

 

     Vocação e Missão dos Leigos

 

     259. O Concílio Vaticano II, o Sínodo sobre os Cristãos Leigos e o ensinamento do Magistério apontam fortemente para um novo perfil de Igreja, aberta à presença ativa dos leigos, "que tem o seu fundamento sacramental no Batismo e na Confirmação, bem como, para muitos deles, no Matrimônio".140 Eles são insistentemente chamados a viverem sua vocação e assumirem sua missão, quer na Igreja, quer na sociedade. À luz de tais orientações, torna-se necessário reexaminar a prática eclesial com relação à vocação e à missão dos leigos, bem como em relação à sua formação.

 

     260. a) Em relação à presença dos leigos nas atividades da comunidade eclesial, constatam-se alguns avanços. Em muitas comunidades, paróquias e Igrejas particulares, exercem tarefas importantes no ministério da Palavra, nas celebrações, de ação social e caritativa e na administração. Sua presença destaca-se nas comunidades eclesiais de base, nas pastorais específicas, seja na animação e coordenação, seja na assessoria nos vários níveis. Participam ativamente nos conselhos e assembléias.

     Outros leigos têm encontrado espaço para sua vocação e oportunidade de ação apostólica nos variados movimentos. Receberam incentivo também as organizações próprias dos leigos em seus conselhos diocesanos, regionais e nacional. As mulheres, por sua vez, estão buscando espaço para o verdadeiro reconhecimento de sua responsabilidade pessoal e própria.

 

     261. Constata-se também que a presença dos leigos e seus serviços na comunidade eclesial dão-se, com freqüência, num clima de suplência do ministro ordenado. Esta situação levou, quer à clericalização de muitos leigos, quer à sua permanência numa condição diminuída e dependente em face de uma Igreja fortemente centrada no clero. Sua participação nas decisões pastorais, com efetiva responsabilidade, é ainda muito reduzida.

 

     262. Chegou, certamente, o momento de as Igrejas assumirem uma maior definição quanto à presença e ação dos leigos na comunidade eclesial. A experiência já adquirida deve ser amplamente alargada e aprofun-dada.

 

     263. b) A missão dos leigos na sociedade é conhecida: "O campo próprio de sua atividade evangelizadora é justamente o vasto e complicado mundo da política, da realidade social e da economia, como também o da cultura, das ciências e das artes, da vida internacional, dos "mass média", e ainda outras realidades abertas à evangelização, como sejam o amor, a família, a educação das crianças e dos adolescentes, o trabalho profissional e o sofrimento".141

 

     264. Constata-se, no caso brasileiro, que as realidades deste vasto e complicado mundo — campo próprio dos leigos — estruturam-se, em geral, à margem das exigências cristãs e do pensamento da Igreja. É generalizado o fenômeno de separação entre Evangelho e cultura, entre fé e vida, entre fé e política, entre ética e economia. Já não subsiste, de maneira natural, um modelo de comportamento inspirado pela fé cristã. O referencial da vida social e profissional é, antes, o utilitário ou o funcional, sem abertura para o transcendente. Em todas essas áreas a Igreja precisa contar com militantes competentes, em número expressivo e suficiente peso nas decisões sociais.

 

     265. c) Apesar dos esforços já empreendidos, seja através de campanhas por ocasião de eventos políticos, regionais e nacionais, seja através de cursos, encontros, até mesmo com certa regularidade, em Centros de Treinamento, de Evangelização e de Formação, os cristãos leigos encontram-se ainda despreparados, quer para as atividades na comunidade eclesial, quer para sua função cristã na sociedade. Eles não tiveram acesso, em número significativo, a uma formação teológica mais sólida, que os habilite a um compromisso eclesial e social mais responsável e competente. Da mesma forma, é ainda insuficiente a sua preparação para animar e exercer responsabilidades públicas (políticas) como testemunho do Evangelho a serviço do bem do povo.

 

     266. As "coisas novas" do complicado mundo atual foram analisadas sucessivamente pelo magistério da Igreja, com rica reflexão doutrinal. Da mesma forma, a vocação e missão dos cristãos leigos na sociedade receberam lúcidos ensinamentos teológicos. Mas tais análises, reflexões e ensinamentos não são suficientes. Fazem-se necessárias novas posturas pastorais, entre as quais destacamos:

 

     267. —           partir da problemática dos leigos, trazida de seu próprio ambiente temporal, com maior aproximação à sua real situação, em diálogo franco e adulto com eles;

 

     268. —           socorrer-se do indispensável trabalho de especialistas, sobretudo leigos, na reflexão teológica sobre questões como "fé e modernidade", "fé e ciência", "fé e o mundo da tecnologia", "ética social e princípios cristãos" para uma presença no mundo contemporâneo;

 

     269. —           criar adequados organismos de reflexão e participação. Nossos conselhos e assembléias pastorais, pensados até agora prevalentemente em função daqueles que atuam no interior da comunidade eclesial, devem estender seu alcance à missão dos leigos na sociedade;

 

     270. —           realizar maiores investimentos, inclusive financeiros, na formação de lideranças, quer entre os "construtores da sociedade", quer nos meios populares, sem os quais as estruturas temporais não serão permeáveis aos valores evangélicos;

 

     271. —           retomar, com novo vigor de formação, a pastoral da juventude, seja dos meios populares, seja dos meios colegiais e universitários, indispensável para a renovação da sociedade.

 

     272. Em síntese, cabe-nos acolher o apelo e a orientação de João Paulo II aos Bispos do Brasil, no sentido de que "uma prioridade importante e inadiável seja a de formar leigos.... Formar leigos significa favorecer-lhes a aquisição de verdadeira competência e habilitação no campo em que devem atuar; mas significa, sobretudo, educá-los na fé e no conhecimento da doutrina da Igreja naquele campo".142

 

     Renovação do Ministério Ordenado

 

     273. As urgências de uma Igreja evangelizadora, nas circunstâncias atuais do mundo e da sociedade brasileira, levam a uma reflexão sobre a forma de atuação dos ministros ordenados, em todos os seus graus, particularmente dos presbíteros. Tal reflexão é também exigida pelo reconhecimento do direito e do dever de participação dos leigos, bem como pelo testemunho e ação dos membros de Institutos de Vida Consagrada, na tarefa comum da evangelização.

 

     274. Não é possível chegar a uma Igreja, toda ela responsável pela evangelização, sem reformular a posição e o papel tradicionalmente assumido pelos ministros ordenados. É o próprio Concílio que o afirma: "O mesmo Espírito Santo, enquanto impele a Igreja a abrir novos caminhos para abordar o mundo de nosso tempo, sugere e encoraja também adaptações que se impõem ao ministério".143 Não se trata, evidentemente, de reformular o ministério ordenado no que o constitui essencialmente. Não estão em jogo suas características como dom do Senhor à sua Igreja, transmitido pelo sacramento da Ordem, com todas as suas conseqüências de ordem pessoal e ministerial. Trata-se do exercício do ministério ordenado, que se realiza em circunstâncias absolutamente novas, tais como se manifestam nas novas necessidades dos homens e no tipo de civilização atual.144

 

     275. A ação pastoral de nossas Igrejas, em que pese os esforços realizados e os avanços alcançados, é ainda excessivamente dependente dos ministros ordenados, especialmente do bispo e do presbítero. Ao invés de uma comunhão "orgânica" na diversidade e complementariedade, constata-se freqüentemente uma verdadeira dependência que diminui a responsabilidade dos demais agentes, em face de uma espécie de monopólio pastoral por parte dos pastores. Às vezes, as iniciativas mais dinâmicas de evangelização (CEBs, pastorais específicas, movimentos apostólicos e os leigos em geral) ficam condicionadas à boa vontade dos pastores, muitas vezes absorvidas pela pastoral de manutenção e de administração. Pode-se, assim, compreender as manifestações que reivindicam "autonomia" por parte de leigos, CEBs, movimentos e pastorais específicas, e, mais recentemente, por parte das mulheres.

 

     276. O ministério ordenado necessita recuperar sua vivência colegial. A forma individualista do exercício do ministério ordenado é um dos principais entraves à realização de uma Igreja toda ela responsável pela missão. É ao presbitério como um todo e não aos presbíteros separadamente, nem ao bispo isolado, que é confiado o pastoreio da Igreja particular.

 

     277. Entre outros, podemos destacar alguns pontos para a reformulação da prática pastoral do ministério ordenado. Em primeiro lugar, o ministério ordenado só adquire seus contornos verdadeiros se assumido e exercido como serviço à comunidade eclesial, visando torná-la adulta, responsável e atuante.145 Isto exige, de um lado, profunda compreensão e senso comunitário e, de outro, o acolhimento dos carismas, abertura aos ministérios e o reconhecimento da justa autonomia dos estados de vida na Igreja e de suas organizações.

 

     278. Em segundo lugar, impõe-se a diversificação do exercício do ministério ordenado diante das múltiplas exigências da ação evangelizadora. A imensa maioria dos presbíteros ocupa-se de tarefas paroquiais. Sente-se a carência de ministros capacitados para outros ministérios, tais como a formação permanente, a coordenação pastoral, o acompanhamento dos movimentos, a animação de áreas pastorais, mesmo tradicionais, como a família e a juventude, a assessoria de pastorais específicas. A maior ausência está no campo da educação, na universidade, na comunicação social e no mundo técnico-científico e da intelectualidade. Não se trata de ser especialista nestes campos, mas de saber levar a eles o específico do ministério ordenado: a educação da fé, o aprofundamento da vivência, o testemunho evangélico.

 

     279. Em terceiro lugar, é necessária a evangelização pelo contato e diálogo pessoal, superando o distanciamento da vida concreta dos homens. Tal distanciamento, provocado também pelo excesso de atividades e pela falta de planejamento, impede uma visão mais abrangente da problemática vivida pelos cristãos leigos. Ora, "não podemos dizer nunca e enaltecer bastante todo o bem que fazem os sacerdotes que, através do sacramento da Penitência ou através do diálogo pastoral, demonstram-se dispostos a orientar as pessoas pelas sendas do Evangelho...".146

 

     280. Estes e outros pontos, que indicam a necessidade da reformulação do ministério ordenado, implicam no problema crucial da formação inicial, mas especialmente da formação permanente.

     Esta parece ser mais necessária e, ao mesmo tempo, mais difícil. Não são suficientes as costumeiras reuniões pastorais, nem mesmo os cursos e encontros de curta duração. É necessário oferecer oportunidade para uma formação permanente mais profunda, através de cursos mais longos a nível regional e nacional, e através de organismos de apoio acessíveis. São louváveis as primeiras iniciativas já realizadas.

 

     281. O mesmo se deve dizer da formação permanente dos diáconos. Em virtude de sua formação inicial nem sempre muito profunda, faz-se necessário um processo continuado de atualização, quer teológica, quer pastoral. Como em sua maioria devem cuidar simultaneamente de sua família, de sua profissão e de seu ministério diaconal, é necessária muita criatividade na busca de um processo formativo que harmonize todas essas dimensões de sua existência.

 

     282. No Brasil, já estão sendo tomadas iniciativas para a atualização do ministério episcopal, tanto em nível regional, quanto em nível nacional. A necessidade de atualização permanente é cada vez mais sentida, e as iniciativas estão sendo bem recebidas. Os novos desafios da evangelização recomendam que se ampliem as oportunidades.

 

     Renovação da Vida Religiosa

 

     283. Em recente carta, o Papa João Paulo II resume a participação dos religiosos e religiosas da AL na nova Evangelização nestes termos: pôr-se a serviço do Reino, a partir de uma profunda experiência de Deus, com o espírito dos Fundadores, em estreita colaboração com os sacerdotes e os leigos, participando da evangelização da cultura e da evangelização fora das próprias fronteiras. No que se refere à evangelização, os religiosos e religiosas do Brasil, nos últimos anos, redescobrem sua dimensão eclesial, através da inserção nas Igrejas particulares, num crescente compromisso com a pastoral de conjunto.147

 

     284. Além das tarefas tradicionais nas áreas da educação, da saúde e das obras de assistência e caridade e da participação nas atividades pastorais na comunidade eclesial, a Vida Religiosa, sobretudo feminina, redescobriu recentemente novos campos. Exerce seu ministério profético, através de comunidades inseridas no mundo rural e nas periferias das cidades. Igualmente o faz através da participação na pastoral, pela animação de comunidades eclesiais de base e de pastorais específicas de natureza social, tais como a CPT, CPO, CIMI, Pastoral do Menor, Pastoral da Criança etc.

     Nesse processo, a Vida Religiosa tem-se renovado também por dentro dela mesma, aprofundando sua consagração a Deus na vivência dos Conselhos Evangélicos. Esse é, sem dúvida, o melhor serviço que o Povo de Deus espera dela. Com efeito, sua "força pastoral" lhe vem sobretudo do fato de ser expressão do seguimento de Cristo no meio do Povo de Deus e sinal de esperança para ele.

 

     285. Contudo, pela inserção na Igreja particular e na sociedade, ela pode se defrontar com alguns riscos. Em sua relação com a Igreja particular, de um lado, há o risco de fazer uma pastoral sem ligação orgânica com a Igreja local e, de outro, o de reduzir a Vida Religiosa a tarefas pastorais. Em sua relação com a sociedade, há riscos a evitar, tais como o do isolamento da realidade conflitiva da sociedade, formando um mundo à parte ou então, o da redução da Vida Religiosa ao ativismo social. O desafio consiste em cuidar para que a Vida Religiosa se insira na realidade como fermento novo e como testemunho evangélico.

 

     286. Para a renovação da Vida Religiosa, além das iniciativas no interior dos respectivos Institutos, há o vasto serviço da Conferência dos Religiosos do Brasil, com as secções regionais e diocesanas, com inúmeras iniciativas intercongregacionais de formação inicial e de formação permanente. Todo esse esforço de renovação, realizado em comunhão com a Igreja, deve ser estimulado. Assim, a Vida Religiosa, por força de seu carisma específico, tornar-se-á cada vez mais evangelizadora, como testemunho do absoluto de Deus e da dimensão transcendente da vida num mundo em mudança.

 

     2.       EXIGÊNCIAS NO CAMPO DA ARTICULAÇÃO PASTORAL

 

     287. Constata-se na ação pastoral, de um lado, a fragmentação e dispersão de atividades e, de outro, a busca de uma articulação. A fragmentação da ação pastoral é fruto de muitas causas, já conhecidas. A busca de uma articulação manifesta-se na prática da planificação pastoral, na instituição de organismos de reflexão e avaliação, nos encontros de comunicação de experiências.

 

     288. A necessidade da articulação decorre também do fato que, no mundo moderno, as realidades peculiares de um território e da respectiva população ultrapassam suas fronteiras, numa permuta de influências. Valores e condições existenciais são fortemente condicionados por dinamismos que extrapolam as divisões territoriais. Os meios de comunicação social fazem com que vivamos numa aldeia global. A colegialidade efetiva na Igreja é, assim, condição indispensável para responder a problemas modernos amplos e para a realização plena de sua missão.

 

     289. Podemos indicar os seguintes princípios que devem orientar o processo de articulação: 1) o da variedade-complementariedade; 2) o da autonomia, 3) o da subsidiariedade e 4) o da participação responsável.

 

     290. a) A articulação pastoral decorre da própria natureza da Igreja-comunhão. Ensina João Paulo II: "A Comunhão eclesial configura-se, mais precisamente, como comunhão "orgânica", análoga à de um corpo vivo e operante: ela, de fato, caracteriza-se pela presença simultânea da diversidade e da complementariedade das vocações e condições de vida, dos ministérios, carismas e responsabilidades".148

 

     291. b) Pelo princípio da autonomia, todos os membros da Igreja, individualmente ou associados, têm o dever e o direito de cultivar, por si mesmos, os próprios carismas, a própria identidade eclesial e a própria espiritualidade, para o enriquecimento da Igreja. Conseqüentemente, a articulação pastoral, longe de nivelar os carismas eclesiais, deve visar ao seu pleno desenvolvimento na comunhão orgânica da Igreja.

 

     292. c) Pelo princípio da subsidiariedade, deve ser dado a cada pessoa, à pequena comunidade, à paróquia, maior autonomia possível, em tudo o que cada uma delas é capaz de fazer. Em virtude deste princípio, a articulação pastoral deverá ajudar a estabelecer uma melhor distribuição de tarefas entre os diversos agentes e organismos, definindo as atribuições de cada um. Conexo com o princípio da subsidiariedade está o princípio da descentralização.

 

     293. d) Pelo princípio da participação responsável, a articulação deve envolver o maior número possível de interessados, seja na reflexão, seja na decisão, seja na execução, seja na avaliação. A participação não suprime as responsabilidades específicas e nem as nivela. É fundamental ter claro e definir com nitidez, dentro de um grande processo participativo, as competências, de acordo com a natureza das decisões.

 

     294. Decorrente da comunhão orgânica da Igreja, a articulação não significa imposição rígida de esquemas fixos para todos. É, antes, a efetiva comunicação entre agentes e instâncias da evangelização e da pastoral, através de intercâmbio de experiências, melhor distribuição de tarefas em que haja espaço para o pluralismo, sem que um destrua o trabalho do outro, mas o complemente.

 

     A articulação envolve pessoas e atividades

 

     295. a) A articulação de pessoas é normalmente realizada mediante reuniões e encontros. Através deles, além da comunicação de experiências e da troca de conhecimentos, desenvolve-se a solidariedade, a fraternidade e a compreensão mútua. Para que não se multipliquem além da necessidade, dever-se-á cultivar o senso da representação, habituando-se a agir com representantes das "bases" junto às instâncias superiores e como multiplicadores junto às "bases", das decisões comuns. O êxito das reuniões e encontros depende da capacidade e até mesmo da virtude de aceitar e acolher as diferenças das pessoas e das opiniões.

 

     296. b) A articulação das atividades, significando a adequada distribuição de tarefas entre agentes e organismos, com suas respectivas atribuições, é normalmente realizada através do processo de planejamento pastoral. "A ação pastoral planejada é a resposta específica, consciente e intencional às exigências da evangelização. Deverá realizar-se num processo de participação em todos os níveis da comunidade e pessoas interessadas, educando-as numa metodologia de análise da realidade, para depois refletir sobre essa realidade do ponto de vista do Evangelho e optar pelos objetivos e meios mais aptos e fazer deles um uso mais racional na ação evangelizadora.149

 

     297. Ao se elaborar o conteúdo da ação pastoral, os agentes, grupos ou organismos deverão ter presente todas as "dimensões da evangelização". Mesmo atuando numa área específica, ou privilegiando uma "linha" determinada, não se esquecerão da integração orgânica do todo. Assim, uma atividade catequética não poderá esquecer que ela deve levar a uma melhor participação na vida litúrgica, a uma consciência missionária, a um empenho social efetivo....

     O mesmo se deve dizer das demais dimensões. Além disso, toda a ação pastoral, com as suas dimensões, deve alcançar os níveis pessoal, comunitário e social. Assim, cada dimensão deve também ser pensada e planejada em referência a esses diferentes níveis, atingindo pessoas, comunidades e a sociedade global.

 

     298. Igualmente no planejamento pastoral é importante articular as "atividades permanentes", tais como a catequese, a liturgia, e "as atividades conjunturais", como a Campanha da Fraternidade. Essas atividades não podem-se desenvolver de forma paralela ou até ignorarem-se mutuamente. A atividade permanente pode vir a ser questionada e renovada pelo que se descobre no curso de uma atividade conjuntural. As experiências adquiridas durante as atividades conjunturais devem ser incorporadas nas atividades permanentes. Por sua vez, as atividades permanentes devem contribuir para inspirar com os valores evangélicos fundamentais a ação da Igreja em face dos desafios conjunturais que, muitas vezes, envolvem situações novas, diante das quais não é fácil discernir a posição autenticamente cristã. Importa, pois, articular corretamente os dois tipos de atividade, de modo que se reforcem mutuamente.

 

     299. Por fim, a advertência de Paulo VI, válida também para a articulação pastoral: "As técnicas de evangelização são boas, obviamente; mas, ainda as mais aperfeiçoadas, não poderiam substituir a ação discreta do Espírito Santo. A preparação mais apurada do evangelizador nada faz sem ele. De igual modo, a dialética mais convincente, sem ele, permanece impotente em relação ao espírito dos homens. E, ainda, os mais bem elaborados esquemas com base sociológica e psicológica, sem ele, em breve se demonstram desprovidos de valor".150

 

     3.       NOVOS SUJEITOS ECLESIAIS: FORMAÇÃO E ARTICULAÇÃO

 

     300. Constata-se hoje na sociedade, nas religiões e na Igreja, a emergência de novos agentes, atores ou interlocutores, comumente chamados "novos sujeitos históricos", os quais, em razão de sua forte consciência coletiva, apresentam-se de forma mais ou menos organizada em movimentos, associações, comitês e comunidades. Surgem de diversas inspirações em torno de várias "bandeiras", tais como a terra e a moradia, a justiça social e os direitos humanos, a vida e a paz, a defesa do meio ambiente e a preservação das culturas, a dignidade da mulher.

 

     301. Os novos sujeitos históricos, sejam sociais, religiosos ou eclesiais, manifestam-se e apresentam-se ora como o "novo" diante do "estabelecido", ora como o "divergente" diante do "definido", ora como o "dissidente" diante do "oficial". Caracteriza-os, inicialmente, a tendência ao questionamento, à denúncia, à contestação e à reivindicação. Mas progridem para a proposta de novas relações e de novas estruturas, em que haja maior participação e maior autonomia, em vista à construção de uma nova sociedade e de uma Igreja rejuvenecida, numa nova humanidade.

     Muitas pessoas e grupos reencontram o sentido da vida, até mesmo o caminho do transcendente, de Deus e da Igreja, através dessa luta por novas causas. Assim, vão surgindo muitos dos "novos mártires" de nossa época. Seus questionamentos contêm muitos desafios, que podem tornar-se fatores de renovação da Igreja e da sociedade.

 

     302. Os novos sujeitos eclesiais vão construindo seu próprio processo de formação, com novos métodos e novas expressões. No caso dos novos sujeitos populares, predomina a formação na ação, através da conhecida seqüência "ver, julgar e agir", com o auxílio de assessores sociais e teológicos. Suas fontes de inspiração são a Bíblia, lida à luz das novas situações de nosso tempo, e a liturgia, em que se unem com rica simbologia, as lutas do Povo de Deus com o sacrifício de Cristo. Por sua vez, os movimentos apostólicos ou de espiritualidade possuem seus próprios métodos de formação.

 

     303. Os novos sujeitos eclesiais ensaiam também seu processo de articulação, quer dentro de suas organizações, quer entre elas, bem assim como os novos sujeitos sociais. Deve ser impulsionado o processo de articulação entre os "antigos" e os "novos" sujeitos eclesiais, especificamente entre estes e as Igrejas particulares e as paróquias. Como devem ser tais articulações, de modo que resulte maior enriquecimento para a Igreja? O assunto deve ser aprofundado a partir da prática e à luz dos sãos princípios da teologia, em comunhão com o magistério da Igreja.

 

     304. É de fundamental importância o acompanhamento dos novos sujeitos eclesiais por parte dos pastores (Bispos, presbíteros e diáconos), bem como da própria comunidade eclesial. Vivendo na fronteira entre fé e vida social, os novos sujeitos eclesiais atuam, não raro, ao lado e nas mesmas causas que os agentes sociais. Ora, às vezes, entre esses existem variadas "tendências" de interpretação da realidade e nas formas de ação. Os novos sujeitos eclesiais podem pender para um lado ou para o outro, sob influência de ideais e líderes significativos de sua vida. Um acompanhamento afetivo e efetivo pode garantir a desejada coerência entre fé e vida em sua ação evangelizadora.

 

 

CONCLUSÃO

 

     305. As Diretrizes Gerais da Ação Pastoral (1991-1994) são uma resposta da Igreja, no Brasil, neste momento histórico, aos desafios da sua missão, que é EVANGELIZAR.

 

     306. Três situações principais se apresentam hoje ante os evangelizadores: 1) as populações e os ambientes sócio-culturais que ainda não acolheram a palavra do Evangelho; 2) os católicos batizados, que conservam certa religiosidade, mas que, de fato, encontram-se afastados da comunidade eclesial ou procuram-na apenas ocasionalmente; 3) os católicos que participam assiduamente da vida litúrgica, mas nem sempre assimilaram, em profundidade, a mensagem evangélica, nem assumiram uma atitude missionária ou evangelizadora.

 

     307. Especialmente, através da revitalização dos católicos praticantes, poderemos exercer uma ação evangelizadora nas outras áreas e aproximar os católicos que se acham, de fato, afastados. Esta revitalização supõe uma espiritualidade missionária, uma acolhida do apelo à nova evangelização e um investimento prioritário na FORMAÇÃO DE EVANGELIZADORES.

 

     308. A nova evangelização não é apenas nova no ardor ou na diversidade de evangelizadores. É nova nas expressões e nos métodos. Só pode ser eficaz se adequada aos anseios e desafios do nosso tempo. A complexidade da sociedade moderna, também no Brasil, exige uma ação pastoral que se estenda até ao nível da PESSOA, VALORIZANDO a liberdade e responsabilidade de mulheres e homens, acolhendo-os com sua afetividade e sua experiência religiosa e subjetiva.

     Exige DIVERSIFICAÇÃO DA AÇÃO PASTORAL e melhor articulação das atividades realizadas, no respeito das diversas culturas, a serviço da VIDA e da ESPERANÇA, particularmente entre os jovens. Exige ATITUDE CRÍTICA em face das contradições da modernidade e da radicalização dos conflitos sociais. Numa sociedade profundamente desigual, a Igreja é chamada a ser sinal de unidade do gênero humano e de esperança no Reino de Deus. Por isto testemunhará autenticamente sua missão pela OPÇÃO EVANGÉLICA PREFERENCIAL PELOS POBRES e por um serviço às massas populares excluídas não apenas do progresso, mas até dos bens essenciais, numa sociedade que ignora a solidariedade e a dignidade da pessoa humana.

 

     309. A complexidade e os contrastes da modernidade revelam-se, antes de tudo, no MEIO URBANO, exigindo urgente esforço para pensar e criar uma pastoral adequada ao contexto atual das cidades.

 

     310. Em toda a sua ação pastoral, principalmente no serviço à sociedade, as comunidades eclesiais procurarão trabalhar em diálogo e corresponsabilidade com outras pessoas, grupos e movimentos, que buscam a transformação da sociedade.

 

     311. Em tudo, estarão ATENTAS AOS APELOS DO ESPÍRITO, agente principal da evangelização, ao qual pedimos, pela intercessão de Maria, Mãe da Igreja, o dom do discernimento, para que nossos planos humanos não se afastem do coração de Deus e realizem sua vontade de vida plena para todos.

 

 

ABREVIATURAS

 

CA   ATIVIDADES Encíclica Centesimus Annus

CfL   Exortação Apostólica Christifideles Laici

CR   Doc. 26 da CNBB: Catequese Renovada

CT   Exortação Apostólica Catechesi Tradendae

DV   Vaticano II: Constituição Dogmática Dei Verbum

EN   Exortação Apostólica Evangelii Nuntiandi

FC   Exortação Apostólica Familiaris Consortio

GS   Vaticano II: Constituição Pastoral Gaudium et Spes

ICM        Doc. 40 da CNBB: Igreja: Comunhão e Missão

LG   Vaticano II: Constituição Dogmática Lumen Gentium

NA   Vaticano II: Decreto Nostra Aetate

P     Doc. de Puebla

PO   Vaticano II: Decreto Presbyterorum Ordinis

PPC       Plano de Pastoral de Conjunto 1966-70

RH   Encíclica Redemptor Hominis

RMi        Encíclica Redemptoris Missio

SC   Vaticano II: Constituição Sacrosanctum Concilium

SRS                 Encíclica Sollicitudo Rei Socialis

 

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Fonte: Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB

Web site: www.cnbb.org.br