CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL

CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL

 

DIRETRIZES GERAIS

DA AÇÃO PASTORAL DA IGREJA

NO BRASIL

 

 1975/1978

 

 

APRESENTAÇÃO

 

A XIV Assembléia Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), reuniu-se em Itaici, SP, de 19 a 27 de novembro de 1974, e resolveu "conservar as diretrizes, isto é, o mesmo objetivo geral e os seis objetivos específicos com as conseqüentes seis linhas" do Plano de Pastoral de Conjunto (aprovado inicialmente para os anos 1966-1970 e confirmado para os anos 1971-1974), embora "reformulando suas justificativa com documento e dados posteriores ao Vaticano II e enriquecendo-as com elementos de reflexão teológica e da experiência pastoral dos últimos anos". Além disso, a assembléia definiu "áreas prioritárias de ação pastoral da Igreja no Brasil". Estas decisões se referem a um período de quatro anos: 1975-1978

Cumprindo a determinação da Assembléia, a Presidência e a CEP (Comissão Episcopal de Pastoral) da CNBB apresentam este documento que contém os seguintes elementos:

1.   Uma introdução, que descreve brevemente a situação religiosa do Brasil e a evolução que a pastoral, graças também ao Plano de Pastoral de Conjunto, realizou nos últimos anos.

2.   A transcrição do objetivo geral e dos objetivos específicos do P.P.C, seguida por um comentário atualizado, que procura mostrar a interdependência das seis "linhas de trabalho" que deles decorrem.

3.   As diretrizes gerais de cada uma das linhas de trabalho, contendo os princípios fundamentais da ação e a sugestão de atividades específicas.

4.   A sistemática geral do processo de planejamento, isto é, as condições e encaminhamentos da aplicação da técnica do planejamento à pastoral em âmbito nacional.

Inspirado neste conjunto de "Diretrizes Gerais", a CEP preparou um plano bienal de atividades, em nível nacional, composto de cinco programas. Além de um programa que reúne as atividades especiais que mantém o trabalho dos vários setores, o plano contém ainda 4 programas de atividades especiais referentes às quatro prioridades decididas, a partir da XIV Assembléia Geral da CNBB, para o biênio 1975/1976. Essas prioridades são: Comunidades Eclesiais de Base, Pastoral da Família, Religiosidade Popular e Pastoral dos grupos de influência. Inspirando-se neste mesmo conjunto de "Diretrizes Gerais" e levando em consideração as mesmas prioridades, certamente a Ação Pastoral da Igreja no Brasil será enriquecida, nos próximos meses, por numerosos e variados planos de Pastoral em nível regional e em nível diocesano.

Para o quadriênio que ora se inicia (1975/1978) e para o qual foram definidas estas "Diretrizes Gerais" a CEP pretende publicar uma série de subsídios que auxiliem o processo de planejamento em âmbito nacional.

No próprio 3º Plano Bienal estão previstos um estudo teológico pastoral mais amplo sobre as "Diretrizes Gerais" (1975) e um estudo comparativo de experiências de planejamento pastoral (1976).

 

Presidência

e a Comissão Episcopal de Pastoral

Rio de Janeiro, 28 de janeiro de 1975

 

 

CAPÍTULO I

 

SITUAÇÃO RELIGIOSA E EVOLUÇÃO DA AÇÃO PASTORAL

 

A ação pastoral inspira-se, de um lado, na missão de Cristo e da sua Igreja: é aí que  encontra uma fonte permanente de diretrizes e de princípios.

Voltando-se, de outro lado, para o mundo, para a humanidade a salvar, tal ação se vê profundamente condicionada pelas situações concretas e pelo próprio evoluir da história e de suas realizações.

Ao apresentar diretrizes pastorais para um novo período - 1975/1978 - é natural que não só nos refiramos aos princípios fundamentais que devem inspirá-las, mas que também procuremos descobrir sua adequada formulação, face à realidade a ser atingida hoje. Acrescenta-se ainda que estas diretrizes pretendem retomar e continuar as que foram formuladas, há dez anos, pelo Plano de Pastoral de Conjunto 1966/1970 da CNBB.

Embora muito brevemente, procuraremos descrever, em linhas gerais, a atual situação religiosa do Brasil e suas principais exigências pastorais, situação essa que é resultado de uma longa história, como também do esforço pastoral recente, particularmente do que foi orientado e organizado através do "Plano de Pastoral de Conjunto''1.

 

1.   A sociedade brasileira em mudança

 

1.1       Na formulação de novas diretrizes para a ação pastoral devemos, em primeiro lugar, ter em vista a rapidez das mudanças sociais e culturais do povo brasileiro.

Alguns dados essenciais expressam muito significativamente o fenômeno:

    a população brasileira tende a duplicar em pouco mais de 20 anos (50.000.000 em 1950; 93.000.000 no censo de 1970; cerca de 100 milhões no final de 1972); quando foi lançado o "PPC" (início de 1966), havia cerca de 82.000.000 de habitantes; no fim do novo período (1978), haverá cerca de 120 milhões!

    no mesmo período, até 1978 ou 1979, a renda "per capita" poderá chegar a cerca de 1.000 dólares, ou seja, três vezes o valor de 1960;

    como conseqüência do crescimento demográfico e econômico, a população urbana aumentará mais que proporcionalmente e deverá ser cerca de 62,2% em 1978 contra 44,75% em 1960.

Todas essas transformações implicariam uma rápida adequação das estruturas e dos meios da ação pastoral, o que sabemos muitas vezes difícil. Um só dado expressivo e conhecido pode ser lembrado: enquanto os 11.252 padres de 1960 significavam um padre para 6.200 habitantes (em média), a situação para 1978 poderá ser de aproximadamente o mesmo número de padres para uma população 2/3 maior, ou seja, um padre para 10 mil habitantes.

 

1.2       Quais as alterações, na situação religiosa do Brasil, nos últimos dez anos?2.

 

1.2.1         No país ainda predominantemente católico, a religiosidade popular continua viva e se multiplicam suas manifestações.

Uma análise do próprio catolicismo revela a existência — ao lado de uma importante minoria praticante, cuja vivência religiosa se inspira no Evangelho e especialmente na prática sacramental — de uma maioria de fiéis cujas devoções e práticas religiosas não estão bastante integradas na comunidade eclesial e obedecem predominantemente a uma relação individual com o sagrado (Deus, os santos),3.

 

1.2.2         Embora subsista em vários lugares uma forte religiosidade, parece ter aumentado o número e a multiplicidade das várias formas de sincretismo. Filosofias ou práticas religiosas de origem oriental ou totalmente nova parecem ser também procuradas por um número significativo de pessoas, especialmente no meio urbano.

 

1.2.3         Junto com a urbanização, também o fenômeno da secularização, com todas as suas ambigüidades, aumentou sua influência, embora sem se alastrar ainda a massas importantes da população. Em certo sentido, a secularização atingiu também a sociedade brasileira em geral, uma vez que as grandes decisões a respeito da vida política, social e econômica, com profundas repercussões sobre o perfil cultural da nação, são tomadas sem levar em conta formas de influência ou de opinião da Igreja, consideradas num passado recente. Tal situação está também ligada ao fato de as grandes decisões políticas estarem sendo tomadas por uma elite restrita, sem participação do povo.

Uma forte secularização, contudo, marca as atitudes de alguns grupos sociais urbanos e certas faixas da juventude, ao menos no sentido de que uma série de comportamentos, antes "regulados" por uma ética cristã são hoje totalmente desvencilhados de uma referência à Igreja institucional e mesmo a valores transcendentes. Com relação a esses grupos, o fenômeno da secularização já se reveste de aspectos de um verdadeiro secularismo enquanto fechamento a qualquer referência ao Absoluto transcendente na vida humana.

 

1.2.4         A sociedade brasileira em geral passou por um rápido processo de modernização, alterando profundamente relações sociais, costumes, mentalidades, estilos de vida ele., com a introdução predominante de técnicas e mesmo de uma "tecnocracia" antes desconhecidas.

Entre essas mudanças merece especial atenção a grande difusão e penetração em todos os ambientes, dos diversos meios de comunicação social (televisão, rádio, imprensa...), que ao mesmo tempo sofreram um processo de sofisticação técnica e de concentração nas mãos de poucos com fortes riscos de condicionamento de informação e de manipulação da opinião pública.

 

1.2.5         Entre as conseqüências das mudanças sociais e culturais, deve-se assinalar o forte impacto sofrido pela família, cuja existência e convivência estão ameaçadas por fortes tensões econômicas e sociais e por uma concepção da sexualidade e do lucro veiculada facilmente pela propaganda comercial e pelos MCS, a qual contrasta com a concepção cristã dos valores familiares.

 

2.   Novos impulsos da pastoral

 

Em relação à ação pastoral, houve certamente o desafio da realidade que descrevemos e, ao mesmo tempo, a influência benéfica da mensagem conciliar que estimula progressos significativos se comparados com a situação predominante há dez anos e que era descrita na introdução ao "PPC" 4.

 

2.1       Sob a influência do Concílio Vaticano II, o ministério da palavra está assumindo a importância que lhe cabe, e a renovação bíblico-catequética tomou dimensões notáveis. Também a renovação litúrgica foi muito marcada por uma preocupação de evangelização,  pela valorização da Palavra de Deus e da pregação, pelo cuidado em suscitar e preparar as condições para que os fiéis participem conscientemente das celebrações.

 

2.2       A pastoral sacramental foi profundamente renovada pela introdução em muitas comunidades, de encontros de preparação aos sacramentos (Batismo, Crisma, Matrimônio, além da Primeira Eucaristia), que mais recentemente receberam orientações gerais por parte do Episcopado (cf. "Pastoral do Batismo", 1972; "Pastoral da Eucaristia", 1973; "Pastoral da Confirmação", 1974).

Da ênfase sobre a catequese infantil, característica de um período anterior, passou-se à acentuação da evangelização de adultos. Essa evangelização recebeu também um caráter mais bíblico e vital e procurou articular-se numa perspectiva mais ampla de formação das comunidades cristãs e de engajamento dos cristãos no mundo. Em muitas regiões o trabalho de promoção humana e a ação evangelizadora foram estreitamente associados.

Se, de um lado, não se notou grande desenvolvimento de uma teologia científica e sistemática, percebeu-se entretanto, de outro lado, uma crescente preocupação de se elaborar uma teologia pastoral mais adaptada à realidade nacional e regional.

 

2.3       Além da acentuação da evangelização e da Palavra, procurando superar uma pastoral demasiadamente dependente de uma concepção estreita da administração dos sacramentos, deu-se ênfase muito grande ao desenvolvimento da dimensão comunitária da Igreja. Já o Plano Pastoral de Emergência (1962-65) tinha enfatizado o aspecto comunitário da Pastoral, dando-lhe caráter prioritário. Desde então aumentou fortemente a convicção e consciência da necessidade de articular as estruturas e a vida da Igreja de modo a permitir experiências de vida fraterna, evangélica, através de comunidades à dimensão da convivência pessoal. Embora numerosas e válidas, as primeiras experiências de "comunidades eclesiais de base" não conseguiram ainda indicar os caminhos para uma extensão maior e verdadeiramente ampla dessas experiências. Particularmente certos meios (urbanos, por exemplo) carecem de uma metodologia e de experiências mais adequadas. Continua, contudo, a convicção de que este caminho é essencial para o progresso da ação pastoral e da vivência cristã, como o Episcopado nacional reafirmou na última Assembléia, definindo essa área como de importância prioritária.

Até mesmo onde não se chegou a novas formas de vida comunitária, as paróquias procuraram uma renovação interna, melhorando sua organização e sobretudo favorecendo a participação ativa e corresponsável dos fiéis, e estenderam sua atenção a grupos e pessoas que se acham distantes ou marginalizados no que diz respeito à Igreja.

 

2.4       Cresceu também a consciência missionária, o que se pode notar especialmente através de uma série de iniciativas generosas, das Igrejas mais dotadas de recursos humanos e materiais para com as Igrejas-Irmãs que enfrentam etapas mais difíceis de seu processo de implantação e crescimento.

Embora seja muito grande a ajuda que recebe das Igrejas de outros Países, a Igreja no Brasil também aumentou sua participação no esforço missionário mundial e nas diversas iniciativas de nível continental ou internacional contribuição qualificada por uma experiência pastoral criativa e inovadora em muitos aspectos.

É, de outro lado, motivo de alegria poder assinalar como a colaboração de missionários e agentes de pastoral de origem estrangeira foi marcada nos últimos anos por uma vontade mais explícita e consciente de inserção na realidade pastoral brasileira e de autêntica integração na cultura e na Igreja local.

 

2.5       A renovação pastoral trouxe significativamente uma nova consciência da originalidade e da responsabilidade própria de cada Igreja particular ou local. (O tema foi objeto de reflexão especialmente na XIII Assembléia Geral do Episcopado, em São Paulo, fevereiro de 1973 e do programa 1º. do 2º Plano Bienal).

Esta consciência não se acompanha de um estéril fechamento sobre si mesma de alguma Igreja, mas, pelo contrário, como já vimos, se expressa num fortalecimento do espírito de comunhão fraterna com as Igrejas vizinhas, com as Igrejas em situação de missão ou de dificuldade, e com a Igreja universal.

 

2.6       Entre os progressos que o espírito de integração e de comunhão trouxe à pastoral, deve ser assinalada ainda a multiplicação dos órgãos de coordenação, planejamento e decisão colegial da ação pastoral.

A criação dos Conselhos Pastorais, a multiplicação das assembléias diocesanas e dos "sínodos" locais, a invenção de formas originais de ministérios de coordenação diocesana ou setorial contribuem para fazer participar mais eficaz e responsavelmente nas diversas forças do Povo de Deus na comum responsabilidade pastoral.

O desenvolvimento do planejamento e da coordenação da ação pastoral, nos diferentes níveis, não significou a uniformização ou a restrição das diversas iniciativas. Pelo contrário, o período dos últimos dez anos é marcado por uma grande criatividade na ação pastoral, testemunhada pelo surgimento de nossos ministérios (nos quais é dever ressaltar a notável participação da mulher, leiga ou religiosa, assumindo responsabilidades pastorais das quais até então estava excluída) e pelo crescimento da ação pastoral dos religiosos, que de outro lado buscavam e experimentavam novas formas de vida consagrada.

 

2.7       Papel essencial na formação da nova mentalidade pastoral, especialmente pela introdução de uma nova sistemática em termos de planejamento e de colegialidade, deve ser atribuído às atividades da Conferência Nacional dos Bispos, tanto em nível nacional como regional, e particularmente ao próprio "Plano de Pastoral de Conjunto" e "Planos Bienais", em que se destaca a crescente influência e aceitação da Campanha da Fraternidade.

A testemunhar a intensidade da participação da CNBB no processo de renovação pastoral estão suas Assembléias (oito entre 1965 e 1974, contra seis entre 1953 e 1964), seus documentos e suas inúmeras atividades nacionais, enquanto os Secretariados Regionais, de recente fundação, assumiam papel decisivo.

 

3.   Crises e perspectivas

 

3.1       Esses anos de renovação, transformações e mudanças, estão marcados também pela "crise", particularmente de uma parte importante do ministério presbiteral, mais diretamente atingido por esse processo.

A Igreja, que até o Concílio Vaticano II, "repousava maciçamente sobre os padres", caminha para uma nova fase e uma nova repartição dos ministérios, a fim de se sustentar sempre mais sobre a responsabilidade comum e a participação ativa de todos os fiéis.

A mudança profunda de perspectivas que isto implica no ministério presbiteral, juntamente com a rápida transformação de valores e costumes, trouxe um período de alteração da imagem e do papel dos presbíteros, com conseqüentes reflexos de incerteza para as pessoas, especialmente os próprios padres e os seminaristas: durante vários anos o número das vocações sacerdotais diminui fortemente, os seminários atravessaram "crises" e se esvaziaram em boa parte, uma porcentagem significativa do clero deixou o ministério.

Há recentemente sinais de um aumento de vocações, enquanto surgem novas formas de ministérios, embora talvez seja muito cedo para defini-las. É certo que a formação sacerdotal sai profundamente transformada desses acontecimentos e que o próprio ministério presbiteral poderá ainda encontrar novos caminhos e novas expressões, conservando seu papel específico num novo contexto, em que será circundado por novos ministérios.

 

3.2       A atuação dos movimentos leigos, sob a influência das transformações da Igreja e ainda mais das novas condições político-sociais, também sofreu uma crise e uma transformação. Contudo, o testemunho extremamente valioso e muitas vezes sofrido que movimentos de liderança e de vanguarda deixaram, foi recolhido, embora em formas diversas, por uma nova geração de movimentos o por novas atitudes de pessoas. Constata-se de um modo geral a passagem da fase de instrumentalização ou utilização do leigo, para uma verdadeira situação de corresponsabilidade eclesial.

O empenho no campo social, além de se tornar um imperativo de toda a Igreja (cf. o Documento do Sínodo de 1971 "A Justiça no mundo" e o documento da CEP/CNBB, "Igreja e Política" 1974), continua a ser assumido individualmente por muitos cristãos, dentro das próprias estruturas sociais e políticas.

O apostolado e a vivência religiosa são também assumidos por novos movimentos, alguns de cunho mais carismático, atentos a muitos valores espirituais, conscientes das novas responsabilidades pastorais que a situação atual da Igreja lhes impõe.

Manifesta-se intensamente, também entre os jovens, a busca e o apreço de uma vida de fraternidade, de oração, de serviço, de empenho na construção de um mundo inspirado pelo Espírito de Cristo.

 

3.3       A presença e a atuação direta da Igreja institucional nas realidades terrestres, no conjunto, parece ter diminuído, embora ela conserve uma responsabilidade muito grande no campo da educação, dos socorros de urgência, da assistência social e do desenvolvimento. A evolução recente da sociedade brasileira, a que já nos referimos, e a assunção mais efetiva, por parte do Estado, de um papel que lhe compete, libertando a instituição eclesiástica de muitas tarefas supletivas, são algumas das causas dessa situação.

Se tal situação contribuiu para tornar a Igreja menos poderosa, mais pobre e, às vezes, mais ameaçada em suas estruturas pastorais, contribuiu todavia para ajudá-la a redescobrir a primazia de sua missão profética, a libertá-la de condicionamentos nem sempre favoráveis ao Evangelho, a restituí-la mais plenamente à sua vocação própria e essencial de anúncio da Boa-Nova de Cristo, sinal de esperança, unidade e paz para todos os homens.

 

3.4       Uma atuação marcadamente profética caracterizou muitas vezes a atitude de cristãos ou da comunidade eclesial nos últimos anos, levando às vezes a conflitos com situações incompatíveis com a dignidade do homem e a verdade do Evangelho.

 

3.5       Cresceu também na Igreja a consciência de que ela não tem a exclusividade do Espírito. Ela se abre por isso aos irmãos separados, às outras religiões e ao próprio mundo, recebendo, pelo mesmo Espírito, o estímulo e a ajuda para viver mais fielmente segundo a vontade de Deus e para edificar, apesar de todos os obstáculos, o Reino da verdade, do amor, da justiça e da paz.

Neste esforço incessante se insere a nova etapa da ação pastoral da Igreja no Brasil, para que possa continuar a fazer progredir o que já foi realizado.

 

ESTATÍSTICAS GERAIS DA IGREJA CATÓLICA NO BRASIL

 

 

ANO

 

 

 

1995

1970

1972

Nº de Circuns-

crições ecles

 

 

182

197

...

Área ter-

ritórial

 

 

8.465.591

8.456.508

8.456.508

Habitantes

 

 

 

81.301.000

94.058.000

99.598.200

Paróquias

 

 

 

4.764

5.577

5.712

Habitantes

por

Paróquias

 

17.065

16.865

17.436

      SACERDOTES    

Total          Secular            Religiosos

 

 

12.790       4.872              7.918

13.152       5.086              8.066

12.929       5.036              7.893

Habitantes

P/1

Sacerdotes

 

6.366

7.151

7.703

 

Fonte: CERIS, Departamento de Estatística

 

 

ESTATÍSTICAS DA ORDEM, CONGREGAÇÕES, SOCIEDADES E INSTITUTOS MASCULINOS E FEMININOS

 

 

 

ANO

Número de Sedes de Governo e Represen-tações de Congrega-ções

 

Casas e Residências

 

Religiosos

Não Sacerdotes

 

Religiosas

Professas

 

 

1965

1970

1972

Masculino

 

206

231

239

Feminino

 

377

462

463

Masculino

 

2.013

2.450

2.540

Feminino

 

3.854

4.524

4.611

Int. Cler.

 

1.805

1.722

1.700

Inst. Laic.

 

1.879

1.439

1.320

Vida Mista

 

37.781

39.152

39.475

Vida Cont.

 

1.284

1.310

1.252

 

Fonte: CERIS, Departamento de Estatística

 

 

VOCAÇÕES PARA A VIDA SACERDOTAL E RELIGIOSA

(1960 — 1972

 

 

 

 

CLERO SECULAR

 

 

CLERO RELIGIOSO

 

IRMÃOS NOVIÇOS

 

IRMÃS NOVIÇAS

 

ANO

SeminaristasMaiores

Seminaristas Menores

Seminaristas Maiores

Seminaristas Menores

 

Inst. Clericais.

 

Inst. Laicais

 

Vida Mista

 

Vida Cont.

 

1960

1.066

6.503

1.937

10.005

131

164

3.897

82

 

1961

...

...

1.802

7.983

...

180

3.897

82

 

1962

922

5.094

1.772

9.341

...

176

2.881

91

 

1963

841

4.427

1.875

9.584

81

142

3.353

93

 

1964

885

5.020

1.951

10.910

118

43

3.362

63

 

1965

642

4.363

1.923

11.421

119

92

3.252

76

 

1966

898

5.100

1.964

11.539

159

83

3.054

90

 

1967

932

5.458

1.700

11.149

105

65

2.816

107

 

1968

870

4.576

1.665

10.077

62

58

2.322

81

 

1969

...

...

1.525

9.220

40

85

1.663

55

 

1970

757

3.424

1.444

7.937

67

34

1.493

67

 

1971

820

2.239

1.292

6.970

32

27

1.167

66

 

1972

801

2.552

1.303

6.117

26

18

1.192

54

 

 

Fonte: CERIS, Departamento de Estatística

Rio de Janeiro, 31-01-1975

 

 

 

CAPÍTULO II

 

OS OBJETIVOS DA AÇÃO PASTORAL

 

   Para o planejamento pastoral do período 1975 — 1978, a Assembléia Geral do Episcopado Brasileiro (Itaici, SP, novembro de 1974), resolveu manter o objetivo geral e os seis objetivos específicos formulados no "Plano de Pastoral de Conjunto 1966-1970".

Transcrevemos deste documento a formulação dos objetivos, com algumas explicações que os acompanhavam, e acrescentaremos um novo comentário, procurando indicar como a compreensão desses objetivos foi-se aprofundando nos últimos anos.

 

1.   Objetivo geral da ação da Igreja no "Plano de Pastoral            de Conjunto"

 

Sintetizando as grandes perspectivas da Lumen Gentium, e em especial do capítulo primeiro, podemos afirmar que o objetivo geral de ação da Igreja é:

 

Levar todos os homens à plena comunhão de vida com o Pai e entre si, em Jesus Cristo, no dom  do Espírito Santo, pela mediação visível da Igreja.

 

"O objetivo último de todo o mistério de salvação é esta comunhão de vida interpessoal dos homens em Cristo, e, por Cristo, com toda a Trindade. Esta relação interpessoal de amor é dom gratuito de Deus que tanto amou o mundo, que lhe deu seu Filho Unigênito (Jo 3,16), mas exige igualmente dos homens uma resposta livre e pessoal de amor".

 

2.   Objetivo geral desdobrado nos seus objetivos

    específicos

 

2.1       "Este desígnio de salvação, Cristo o realiza e manifesta na comunidade visível da Igreja, de tal modo que a sociedade provida de órgãos hierárquicos e o Corpo Místico, a assembléia visível e a comunidade espiritual... formam uma só realidade constituída de elementos divinos e humanos" (LG 8).

"Como primeiro objetivo específico, nossa ação pastoral visa renovar e dinamizar a Igreja no seu próprio ministério de comunidade, estreitando sua unidade visível".

Mais exatamente, o l.º  objetivo foi assim formulado:

 

— Levar o Povo de Deus, reunido na Igreja Católica, a uma maior comunhão de vida em Cristo, através da realização sempre mais plena de sua unidade visível.

 

"Este objetivo requer a renovação de todos os membros do Povo de Deus para uma vida evangélica mais autêntica, para o melhor desempenho da missão a que foi chamado, para um aproveitamento mais pleno e comunitário dos carismas que lhes foram comunicados pelo Espírito Santo. Exige especialmente o pleno exercício do ministério hierárquico: do colégio episcopal, tendo o Papa como cabeça visível, da Conferência Episcopal, do bispo em sua diocese ou no desempenho da tarefa especial que lhe foi confiada, do presbitério unido a seu bispo.

Este objetivo requer ainda a renovação das diversas estruturas em que se realiza esta comunidade de Igreja: comunidade de base, a paróquia, a zona pastoral, a diocese, as regiões pastorais, a Conferência episcopal, o Conselho continental, a Igreja universal".

 

2.2      "Nossa segunda reflexão visa a renovar as atividades fundamentais da comunidade de Igreja e seus níveis de realização. A semelhança do organismo humano, a Igreja possui uma dinâmica permanente de crescimento extensivo. Aprofundando a unidade do todo, exerce atividades diversas em níveis diversos.

A atividade máxima e o nível supremo da realização da Igreja é o ministério eucarístico, que constitui a fonte e o ponto culminante de toda a sua vida. Em função da Eucaristia, e dela dimanando, desenvolve-se toda a vida sacramental e litúrgica, especialmente os sacramentos do Batismo e da Confirmação, que com ela constituem os sacramentos da iniciação cristã".

Em função dos sacramentos e especialmente da Eucaristia, mas os precedendo e preparando, aprofundando e continuando, a Igreja proclama, explicita e interioriza em todos os seus membros o ministério da Palavra de Deus, na pregação, na catequese, na comunicação da doutrina, para que a vida de fé, esperança e caridade, a vida no Espírito Santo, nele cresça e se intensifique.

Para aqueles que ainda não chegaram à fé e ao conhecimento de Cristo, e ainda não estão inseridos na comunidade visível, para aqueles que, embora batizados, vivem apenas uma fé implícita, a Igreja, pela Palavra e pelo testemunho de vida, desenvolve uma ação missionária, anuncia a mensagem que os leva à primeira conversão, a adesão pessoal a Cristo, à inserção consciente e participante na comunidade visível.

 

2.3       "São essas as atividades básicas e os três níveis fundamentais de realização da Igreja. Não são três compartimentos estanques, mas três fases crescentes de um mesmo processo vital. Para aqueles que já vivem uma fé explícita e uma participação pessoal e efetiva na comunidade de Igreja, a ação pastoral desenvolverá o nível litúrgico e a explicitação e interiorização da Palavra de Deus. Para todos aqueles que ainda não chegaram à fé ou a vivem apenas implicitamente, será decisivo o desenvolvimento de uma ampla e intensa ação missionária".

 

2.4       "Baseados nessas reflexões, podemos situar o segundo, terceiro e quarto objetivos específicos de nossa ação pastoral assim enunciados:

 

                    Levar os homens à primeira adesão pessoal a Cristo, através do anúncio missionário da Palavra e do testemunho de vida evangélica.

 

                    Levar o Povo de Deus a uma maior comunhão de vida em Cristo, através da Palavra e do testemunho de vida evangélica, que iluminam e alimentam.

 

                    Levar o Povo de Deus a uma maior comunhão de vida em Cristo, através do culto litúrgico integral e das celebrações da Palavra.

 

Anotamos nesta enumeração a ordem mais vital: o homem que se converte e adere a Cristo e inserido na comunidade visível da Igreja, nela aprofunda sua vida cristã, interiorizando a Palavra de Deus, e participa de sua realização máxima, que é a Eucaristia".

 

*

 

2.5       "Esta é a única Igreja de Cristo, que subsiste na Igreja católica, governada pelo sucessor de Pedro e pelos Bispos, em comunhão com ele. Hoje, porém, são numerosas as comunhões cristãs que se apresentam aos homens como legítima herança de Jesus Cristo. Todos se professam discípulos do Senhor, mas têm pareceres diversos e caminham por rumos diferentes. Quase todos, porém, se bem que de modo diverso, aspiram a uma Igreja una e visível que seja verdadeiramente universal e enviada ao mundo inteiro.

Esta situação histórica levou o Concílio a imprimir em toda a ação da Igreja uma perspectiva ecumênica. Além de renovar a Igreja no seu ministério de comunidade, nas suas atividades básicas e nos seus três níveis de realização, a pastoral deve, pois, renová-la nas suas relações e no diálogo com os irmãos separados". A ação ecumênica constitui o nosso quinto objetivo específico, que assim enunciamos :

 

                    Levar o Povo de Deus a uma maior comunhão de vida em Cristo, através de uma autêntica ação ecumênica.

 

*

 

2.6       "A Igreja não se identifica com a comunidade dos homens e sua História, mas nela vive e está presente. Esta sua presença no temporal e sua relação com a História dos homens faz parte do seu próprio mistério, embora nas diversas épocas e nos diversos lugares se expresse e concretize de maneira peculiar. O Vaticano II significou uma viva tomada de consciência, aprofundamento e explicitação deste aspecto do mistério da Igreja. A ação pastoral deve, pois, à luz do Concílio, repensar e renovar, em cada contexto humano, as relações da Igreja com a família humana e sua presença concreta na História dos homens. Este constitui nosso sexto objetivo que assim formulamos:

 

                    Levar o Povo de Deus a uma maior comunhão de vida em Cristo, através de sua inserção como fermento na construção de um mundo segundo os desígnios de Deus''5.

 

3.   Para uma compreensão mais profunda dos objetivos

   pastorais

 

3.1       Os objetivos do "PPC", como vimos, estão fundamentados nos documentos do Concílio Vaticano II e, particularmente, na constituição sobre a Igreja, Lumen Gentium.

Após o Vaticano II, a renovação da Igreja, conduzida pelo Santo Padre, o Papa Paulo VI, e pelo episcopado mundial, com ampla participação de todas as comunidades católicas, levou a aprofundar os princípios doutrinais e a reconhecer melhor os caminhos e meios práticos da ação missionária e pastoral da Igreja.

É o que reconhece também o Episcopado Brasileiro, votando na XIV Assembléia Geral (Itaici, novembro de 1974), ao mesmo tempo, a continuidade dos objetivos e das linhas de ação pastoral e a renovação das "justificativas" e das diretrizes concretas. Em outras palavras, a ação pastoral no Brasil se inspira na fidelidade aos princípios do Vaticano II e no dinamismo e progresso da própria atuação desses princípios.

Sem pretender sintetizar aqui dez anos, entre os mais fecundos na reflexão teológica e na criatividade pastoral, tanto para a Igreja universal como para nossas Igrejas locais, sugerimos algumas reflexões que ajudem a compreender e aprofundar melhor os objetivos da ação pastoral inspirados pelo Concílio, assim como agora se apresentam.

 

*

 

3.2       Já o próprio Concílio havia completado a doutrina da Lumen Gentium com a constituição pastoral Gaudium et Spes e com vários decretos, que permitem explicitar de modo mais amplo a missão da Igreja.

Longe de conceber a Igreja como fechada em si mesma, o Vaticano II ressaltou ainda mais o caráter missionário da Igreja, sua relação com o mundo e a humanidade inteiro, dando pleno vigor à afirmação da Lumen Gentium, que na Igreja vê o "sacramento" ou o "sinal e instrumento" da unidade de todo o gênero humano.

A relação  peculiar  entre a Igreja e o  mundo (cf. GS c.I; c.IV, 40-45) faz que a Igreja não só leve ao mundo a contribuição insubstituível e única do anúncio do Evangelho e da salvação eterna, mas que também preste ao mundo sua colaboração para a promoção da dignidade humana e a solução de problemas terrenos (cf. GS 42 e 43), e de outro lado receba do mundo valores sociais e culturais (GS 44).

Contra possíveis dúvidas, o  Sínodo dos Bispos de 1971 achou por  bem  reafirmar: "A ação  pela justiça e a participação  na  transformação  do mundo  aparecem-nos  claramente  como uma dimensão constitutiva da  pregação do  Evangelho, que o mesmo  é dizer, da  missão da Igreja, em prol da  redenção e da libertação  do gênero humano de todas as situações opressivas" (Introdução ao Doc. do Sínodo de 1971).

Nesta mesma perspectiva, no Sínodo dos Bispos de 1974, encontraremos repetidas afirmações, assim resumidas nos documentos finais: "A ação evangelizadora da Igreja inclui necessariamente, como parte integrante, também a solidariedade e a colaboração com os homens que se esforçam por alcançar uma libertação plena e um desenvolvimento integral. Porque a Igreja é sinal de Cristo, deve realizar em toda situação sua obra de libertação... Deve cumprir sua missão profética, julgando a sociedade humana e a si mesma, condenando o mal, as decisões perversas, as estruturas injustas. Deve ajudar a que mudem os corações dos homens e as condições de vida... Tarefa da Igreja não é só dar ajuda material para resolver os problemas e as dificuldades da miséria e da injustiça, mas dar uma inspiração cristã a toda a obra de progresso e de libertação. (...) É necessário que a obra do cristão seja  sempre  testemunho  de sua fé  e de seu  amor  para com  Cristo... A  questão  não é entre  evangelização e progresso, nem mesmo se um ou outro é  mais  importante. A  Igreja  considera  ambos  partes  integrantes  de  sua missão  total" (Síntese das intervenções, III, A. 4). "Experimentamos uma profunda unidade em reafirmar a íntima conexão entre a obra da evangelização e a libertação (plena)... A Igreja pode fazer muito para procurar a salvação integral, ou seja, a plena libertação dos homens" (Declaração final).

 

3.3       Parece essencial, teologicamente, aprofundar o conceito de Igreja-sacramento. Se ela é sinal, e também instrumento da salvação de todos, não significa que a graça de Deus não possa agir fora das fronteiras da Igreja institucional e visível. Pelo contrário, a Igreja manifesta de modo mais consciente e mais pleno o que o Espírito de Deus suscita e prepara em toda a História dos homens. O Concílio Vaticano II já tinha ressaltado fortemente como todos estão, de algum modo, unidos ou ordenados ao Povo de Deus (cf. LG 13, § 4º).

Também entre aqueles que não chegaram a um conhecimento expresso de Deus, a graça divina está agindo e oferecendo caminhos de salvação. "Tudo o que de bom e verdadeiro se encontra entre eles, a Igreja julga o como uma preparação evangélica dada por Aquele que ilumina todo homem, para que enfim tenha a vida" (LG 16). Tanto  mais    entre  os   que  praticam as diversas  religiões  da  humanidade  encontramos  "sementes   do    Verbo"  ou  "lampejos da Verdade'' (AG 11, § 2º;   NA 2, § 2º; cf. LG 16).  Nas     religiões    não-cristãs   não   mais   devemos   ver   "rivais"    ou    "obstáculos"   à   obra   da   evangelização,  mas   a   elas  devemos   prestar   estima   e   até   amizade   (cf. Discurso de Paulo VI, na abertura do Sínodo, 27/9/1974). Ainda mais em relação aos cristãos separados, "que não guardam a unidade da comunhão sob o sucessor de Pedro", o Concílio nos ensinou a ver o que nos une a eles mais do que aquilo que nos divide. Fez-nos reconhecer "certa união verdadeira no Espírito Santo" que  temos  com  eles; fez-nos  praticar a  fraternidade (cf. GS 92).

Este novo enfoque da ação da graça divina nos homens, retifica o nosso modo de conceber a Igreja e sua ação missionária e pastoral. Não se trata de salvar algo que estava totalmente perdido, mas a fidelidade ao Espírito de Cristo, no diálogo e no respeito mútuo, no intercâmbio espiritual e na fraternidade.

 

3.4       Nasce daí, sem dúvida, a maior atenção ao reconhecimento e à apreciação dos valores religiosos e culturais próprios de cada povo e dos diversos grupos sociais, o que, aliás, o próprio Concílio Vaticano II desejava, o Sínodo de 1974 enfatizou de modo particular, e nossa experiência pastoral sempre mais exige.

Em diversos continentes e países sente-se hoje a necessidade de maior "aculturação" do cristianismo. Já há tempo se exige, na América Latina, nova compreensão da cultura e da religiosidade do povo (cf. Doc. de Medellín, 1968, c.6). Esta "encarnação" mais profunda do catolicismo implica maior responsabilidade das Igrejas locais, sua crescente vitalidade, sem prejuízo da comunhão universal e do espírito de responsabilidade colegial que o Vaticano II avivou em toda a Igreja Católica.

A consciência de que a Igreja deve ser "sinal" para o mundo, aumentou sua preocupação para com a "imagem" que dela têm os homens de hoje. Como foi recordado no Sínodo de 1974, a "credibilidade da Igreja não se pode contentar com ser interior; deve ser também exterior". Daí a necessidade de adotar os meios que podem levar a isso, mudando certos aspectos exteriores, que os cristãos ainda podem entender, mas que não falam mais aos homens de hoje, a muitos jovens.

 

3.5       A Igreja é, ao mesmo tempo, santa e pecadora. Pede a Deus o dom da coerência, da simplicidade evangélica, da fidelidade plena e generosa a missão e ao exemplo de Jesus Cristo; mas reconhece também seus limites, suas falhas, suas fraquezas, e pede perdão. Seu testemunho assim é autêntico. Ela encontra, desse modo, o caminho do seu progresso, que é um caminho de conversão, de incessante "penitência e renovação" (cf. LG 8, § 3º; GS 43, § 6º).

Todas essas reflexões convergem numa só, particularmente importante em relação aos objetivos do planejamento e da ação pastoral.

A Igreja, nos últimos anos, nesse período de renovação e mudanças profundas, foi levada a reconhecer e a experimentar mais profundamente a interdependência e a unidade profunda de suas tarefas ou ações. Se em outra situação, mais estável, determinada por tradições e costumes seculares, era menos evidente a inter-relação entre os diversos aspectos da ação pastoral ou entre as diversas atuações da Igreja, hoje é muito mais evidente a interdependência entre evangelização e "sacramentalização", entre proclamação do Evangelho e ação pela justiça, entre edificação da comunidade cristã e atuação missionária entre vida "interna" da Igreja e sua significação para o mundo.

 

3.6       Nem é possível, em certo sentido, distinguir-se rigidamente uma atividade "interna" (ad intra) e uma atividade "externa" (ad extra) da Igreja. Tudo o que se faz na Igreja tem valor de sinal para o mundo. Toda a existência da Igreja é evangelizadora, missionária. Como, de outro lado, toda atividade catequética, litúrgica ou comunitária da Igreja não se desenvolve fora do mundo, mas assumindo a realidade humana (antropológica, cultural), que  já é trabalhada pela graça, embora também sempre ameaçada pelo pecado.

 

3.7       A distinção de dois objetivos específicos da ação pastoral não tem, portanto, de modo algum, o sentido de separar linhas de ação que devem ser coordenadas e convergem num único objetivo. Essa distinção serve, antes, para descrever, de modo mais pormenorizado e completo, aspectos de uma ação complexa mas unitária.

Nasce daí uma regra que poderíamos chamar de "autenticidade" da ação pastoral. Uma linha de ação será autêntica, isto é, inserida no esforço comum da missão de Cristo e da Igreja, na medida em que não pretenda se separar ou isolar das outras linhas de ação. Uma unidade da Igreja fim em si mesma, que sentido teria? Uma evangelização só voltada para a transmissão de uma doutrina, mas esquecida da dimensão comunitária da vida cristã? Uma liturgia desligada da evangelização? Um empenho na construção do mundo sem perspectiva de fé ou, ao contrário, uma vivência religiosa que pretendesse voltar-se para Deus esquecendo a fraternidade e a justiça nesta terra? Tudo isto constituiria uma deformação da missão da Igreja o da existência cristã.

 

3.8       Os diversos objetivos específicos evidenciam, como podemos procurar, o único objetivo geral de um modo adequado, completo, sem deformações ou falhas demasiadamente grandes. E quando a força das circunstâncias leva alguém — uma pessoa ou uma comunidade — a se empenhar especialmente numa linha de trabalho, em vista de um objetivo específico, a autenticidade do empenho o levará a estender e abranger gradualmente os outros aspectos essenciais da ação pastoral e da missão da Igreja. Diante de prioridades urgentes e de apelos imediatos, o planejamento tem por finalidade importante não só dispor do modo mais racional de nossos recursos e meios, mas também nos garantir contra possíveis deformações dos objetivos de nossa pastoral e nos ajudar a edificar a Igreja de Cristo como Ele a quer: como aquela Humanidade adulta "que realiza a plenitude de Cristo". "Vivendo segundo a verdade e na caridade, cresceremos de todas as maneiras para Aquele que é a Cabeça, o Cristo, cujo corpo recebe coesão e concórdia pelas articulações de muitos membros, realizando  seu  próprio  crescimento  e edificando-se no amor" (Ef 4,15-16).

 

CAPÍTULO III

 

LINHAS FUNDAMENTAIS DE TRABALHO

 

A partir dos seis objetivos específicos já estabelecidos, são aqui propostas seis "linhas de trabalho", cada uma correspondente a um dos objetivos

 

Para cada "linha" são fornecidas:

           uma "justificativa", ou seja, a indicação de elementos que fundamentam e orientam o trabalho;

           algumas sugestões de atividades, que poderão ser integradas em "projetos" de programas ou planos de trabalho pastoral dos diversos níveis (diocesano, regional, nacional).

 

       LINHA 1  - UNIDADE VISÍVEL

 

Promover vida a comunitária da Igreja e sua unidade visível, para que seja sempre mais sacramento da unidade de todos os homens.

 

1.     O mistério da caridade

 

Cristo rezou: "Eu te peço, ó Pai... que todos sejam um — como tu estás em mim e eu estou em ti — para que o mundo creia..." (Jo 17,20-21). De modo semelhante, o Apóstolo pede: "esforçai-vos por conservar a unidade do espírito no vínculo da paz. Há um só corpo e um só espírito, uma só vocação a esperança...  Há um só Senhor, uma só fé, um só batismo. Há um só Deus e Pai de todos, que está acima de todos, por todos e em todos" (Ef 4,3-6).

A unidade da Igreja, cujo fundamento é a unidade de Deus, sinal de esperança da unidade de todos os homens, é dom da graça, mas exige o empenho dos cristãos. É algo que deve ser continuamente edificado sobre o fundamento estabelecido uma vez para sempre (cf. Ef 2,20; 1Cor 3,10ss).

As linhas diretrizes desse trabalho de edificação têm como alicerces:

 

a) a concepção da unidade própria da Igreja;

 

b) a articulação concreta da Igreja no mundo;

 

c) o papel dos diversos membros da Igreja.

 

1.1       É a partir de sua realização escatológica, quando os eleitos serão o Povo de Deus (Ap 21,3) e Deus será tudo em todos (1Cor 15,28), que se esclarece plenamente o mistério de unidade da Igreja.

Sendo a Igreja este povo reunido por Deus, é Ele que lhe comunica a unidade do Pai, do Filho e do Espírito Santo (Cf. Cipriano, De Orat. Dom. 23).

É pelo Espírito Santo, enviado permanentemente pelo Cristo glorioso para a santificação dos fiéis (Cf. LG 2;4), que Deus congrega o seu povo. "Deus enviou o Espírito de seu Filho, Senhor e Fonte  de  vida  que  congrega  toda a  Igreja, cada  um  e todos os  crentes; é  ele o princípio  da  unidade  na  doutrina  dos Apóstolos,  na  comunhão  (fraterna),  na  fração  do  pão  e nas orações" (LG 13, § 1º).

 

1.2       A unidade de Deus não é uniformidade. Deus, no mistério da Santíssima Trindade, é comunhão das três pessoas: Pai, Filho e Espírito Santo.

Analogamente, a unidade dos cristãos é unidade de pessoas diversas "na verdade e no amor" (cf. UR 2 § 5º). "Resguardando a unidade nas coisas necessárias, todos na Igreja, segundo o múnus dado a cada um, conservem a devida liberdade, tanto nas várias formas de vida espiritual e de disciplina, quanto na diversidade de ritos litúrgicos, e até mesmo na elaboração teológica da verdade revelada. Mas em tudo cultivem a caridade" (UR 4, § 7º).

A unidade da Igreja é a expressão da multiplicidade dos dons daquele "que sopra onde quer" (Jo 3,8; cf. LG 4). A Igreja universal se enriquece pela diversidade de tradições, ritos e costumes das diversas Igrejas particulares (cf. OE 5; SC 38) e pelo patrimônio espiritual e cultural dos diversos povos (LG 13, § 3º). Toda Igreja local se desenvolve pela diversidade de seus membros, pela variedade das funções que desempenham, pela multiplicidade de dons e carismas que recebem e colocam no serviço da comunidade (cf. AA 3, § 4º; LG 12, § 2º; 13, § 3º).

O Apóstolo Paulo apresentou uma imagem exata dessa unidade orgânica da Igreja, comparando-a com o corpo que Deus dispôs de tal modo que não haja divisão, mas que os membros tenham o mesmo cuidado uns para com os outros. "Se um membro sofre, todos padecem com ele; se um membro é honrado, todos se regozijam com ele..." (1 Cor 12,24-26).

A unidade da Igreja não exclui a diversidade ou o legítimo pluralismo; pelo contrário, com ele se enriquece. Mais exatamente: só a diversidade pode constituir o fundamento daquela unidade orgânica que é própria da Igreja. Se isto foi esquecido por algum tempo e se agora uma situação histórica manifesta mais claramente o pluralismo (cf. Documento CEP/CNBB "Unidade e Pluralismo na Igreja" 29.2.1972, nº 20-22), devemos acolher esse fato com serenidade e perceber nele a ocasião de melhor testemunhar a unidade e a catolicidade da Igreja.

 

1.3       A unidade externa, visível da Igreja, é sinal de sua unidade interior e profunda. Esta é fundamento daquela. Seria vão buscar uma unidade externa aparente, que não fosse realmente fundada sobre o Cristo, como não tem valor de salvação a adesão à Igreja daquele que lhe pertence "com o corpo" mas não "com o coração" (cf. LG 14).

Deus por seu Filho, no Espírito, une para si na Igreja um povo pela Fé e pelo Evangelho, pelos sacramentos e pela Eucaristia, pelo Serviço Apostólico e pelos Carismas.

A fé é o princípio primeiro de existência e de unidade da Igreja.

Mediante o Evangelho e a Eucaristia, (cf. CD 11), por meio da Palavra de Deus e dos sacramentos, o Espírito Santo reúne o Povo de Deus. Em outras palavras, a unidade da Igreja — cujo princípio está na própria ação do Espírito — constrói-se concretamente ao redor da palavra de Cristo, o Evangelho, e dos sinais eficazes de sua graça, os sacramentos, especialmente a Eucaristia.

Pelo Serviço Apostólico, ou o que dele se deriva, ao qual está especialmente confiado o ministério da Palavra e dos Sacramentos, se promove a comunhão na caridade dos fiéis. "O Romano Pontífice, como sucessor de Pedro, é o perpétuo e visível princípio e fundamento da unidade, quer dos Bispos quer da multidão dos fiéis. E os Bispos individualmente são o visível princípio e fundamento da unidade em suas Igrejas particulares, formadas a imagem da Igreja universal, nas quais e pelas quais subsiste a Igreja católica una e única" (LG 23). Mas, Deus reúne seu povo e constrói a Igreja de seu Filho, também, por todos os dons e serviços que o Espírito suscita na comunidade cristã.

 

1.4       A unidade da Igreja, que o Espírito Santo realiza pela Palavra, pelos sacramentos e pelos ministérios, não é fim em si mesma. Tem por finalidade suscitar a fé em Cristo, alimentar e promover a esperança da unidade e da paz entre todos os homens. "Todos os homens são chamados a esta católica unidade do povo de Deus, que prefigura e promove a paz universal. A ela pertencem ou são ordenados de modos diversos quer os fiéis católicos, quer os outros crentes em Cristo, quer enfim todos os homens em geral, chamados à salvação pela graça de Deus" (LG 13, § 4º).

O Concílio Vaticano II sublinhou fortemente, em diversos documentos,  essa  missão  da Igreja: ser  sacramento, isto é, sinal e instrumento da unidade de todo o gênero humano (LG 1; SC 2; UR 2; NA 1). "Promover a unidade e a caridade entre os homens é seu dever..." (NA 1).

Para ser sinal, a Igreja cuidará que seu testemunho seja entendido pelos homens de sua época. Procurará discernir nos acontecimentos, nas exigências e nas aspirações de nossos tempos, quais sejam  os  sinais  verdadeiros  que podem  revelar aos homens o  plano  divino e os caminhos  de sua plena realização  (cf. GS 11, § 1º). Procurará, por exemplo, "a caridade fraterna dos fiéis, que colaboram unânimes para a fé do Evangelho e se apresentam como um sinal da unidade" (GS 21, § 5º).

Para ser sinal de unidade para todos os homens, a Igreja empenhar-se-á também, de modo especial, na reconstrução da unidade entre os cristãos e do diálogo entre as religiões (cf. UR, NA e a linha 5 do Plano de Pastoral).

 

2.     Articulação da Igreja no mundo

 

2.1       A Una, Santa, Católica e Apostólica Igreja se manifesta, no mundo, através das Igrejas particulares ou locais (cf. LG 13, § 3º; OE 2; CD 11). No presente texto as expressões "Igreja Particular" e "Igreja Local" são equivalentes: indicam uma porção do Povo de Deus tendo à frente um bispo. Assim ela se torna presente em diversas situações históricas, geográficas e culturais. Por isso a Igreja particular ou local pode ser dita "a principal manifestação da Igreja" (cf. SC 41) e deve possuir legítima autonomia, quer dizer, ser dotada de todos os meios necessários para conservar sua identidade na ordem da fé, dos sacramentos e dos serviços hierárquicos, para que possa cumprir sua missão.

 

2.2       Para que na Igreja local, extensão territorial e populacionalmente, seja visível o mistério de comunhão, é necessário que se estruture em comunidades menores, sempre vinculadas ao ministério apostólico, quais sejam: a paróquia e as comunidades de base. Particularmente as paróquias confiadas a um pastor local, que as governa, fazendo as vezes do bispo, "representam de algum modo a Igreja visível estabelecida por toda a terra" (cf. SC, 42).

Comunidades menores, enquanto se esforçam para permanecer em comunhão com a Igreja local e seus pastores, representam também uma genuína manifestação da Igreja, pois "onde dois ou três estão congregados em meu nome, aí estou eu no meio deles", diz o Senhor (Mt 18,20).

Um dos principais desafios da ação pastoral no Brasil é, certamente, a multiplicação das "comunidades de base", que possam responder ao anseio do povo para uma vida plenamente eclesial, alimentada pela palavra de Deus e os sacramentos, especialmente a Eucaristia.

Essas  comunidades  assumirão  dimensões  e  formas  tais que  permitam  uma  vida  realmente  comunitária,  fraternal,  que  as  torne "sinal de  comunhão  e  de  unidade"  em   seu  meio (cf. AA 18, § 2º e 3º). Elas são chamadas a constituir, nos diversos lugares e ambientes, "comunidades de amor" e "comunidades de fé": "É no amor que tiverdes uns pelos outros que vos reconhecerão por meus discípulos" (Jo 13,35).

 

2.3       A Igreja Particular ou local manifesta plenamente a Igreja de Cristo não somente criando, no seu âmbito, formas de vida comunitária e testemunhos de fé e fraternidade, mas também através do exercício ativo de sua comunhão com as Igrejas-Irmãs e especialmente com a Igreja de Roma, centro e princípio da comunhão católica.

O estreitamento das relações com o Santo Padre, a solicitude para com as necessidades da Igreja universal, a cooperação entre Igrejas particulares, o exercício colegial das responsabilidades pastorais especialmente em nível nacional e regional, através da organização da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), são não somente modos de atender mais eficazmente à missão comum, mas também um sinal indispensável de unidade e fraternidade perante o mundo.

Até mesmo as possíveis divergências entre Igrejas locais, ou seus pastores, podem ser ocasião para um testemunho profundamente eficaz de compreensão e caridade, quando a solução do conflito é procurada em espírito de diálogo e de comunhão (cf. "Unidade e Pluralismo na Igreja", nºs 33-34).

 

3.     Os diversos membros da Igreja

 

3.1       Por instituição divina, a Igreja é estruturada e regida com admirável variedade (LG 32, § 1º). "Pois, como em um só corpo temos muitos membros, mas todos os membros não têm a mesma função, assim nós, embora sejamos muitos, somos um só corpo em Cristo, e cada um de nós somos membros uns dos outros" (Rm 12,4-5).

Em virtude dessa estrutura, os membros da Igreja têm uma responsabilidade comum e tarefas específicas. Comum é a dignidade dos membros. Comum é a graça. Comum é a vocação à perfeição. Há pois na Igreja "igualdade quanto à dignidade e à ação comum" entre todos os fiéis (cf. LG 32, § 3º).

 

3.2       Esta corresponsabilidade de todos pela missão da Igreja deve-se traduzir não somente pela fraternidade e serviço mútuo, mas também pela participação nas decisões que interessam a todo o corpo da Igreja.

As estruturas eclesiais de corresponsabilidade e de co-participação assumiram formas diversas no decorrer da História. Em nosso tempo, o Concílio Vaticano II, as disposições da Santa Sé e a experiência pastoral instituíram várias formas concretas de participação de todos os fiéis — diretamente ou através de representantes — na elaboração das decisões que afetam a vida pastoral e comunitária (Conselhos Pastorais, Assembléias, "sínodos" locais etc.).

Tais instituições, bem como os órgãos de coordenação da ação pastoral e os que facilitam o exercício colegial dos ministérios, em (diversos níveis, devem ser mantidos e desenvolvidos, sempre visando a maior participação de todos na ação comum.

 

3.3       No exercício da responsabilidade comum e na edificação da obra comum, cada um dará a contribuição específica conforme os dons que recebeu e as funções que lhe foram confiadas.

Todo cristão tem um papel próprio e insubstituível a realizar para  o  crescimento  do  corpo  de  Cristo,  pois a vida cristã é, por sua  natureza,  serviço (cf. Mt 20,26-27;  23,11; Mc 9,35; 10,43; Lc 22,26).

"Os leigos são especialmente chamados para tornarem a Igreja presente  e  operosa  naqueles  lugares e  circunstâncias  onde apenas  através  deles ela  pode chegar como sal da terra" (LG 33, § 2º). "Cristo, o grande Profeta que proclamou o Reino do Pai, quer pelo testemunho da vida, quer pela força da palavra, continuamente exerce sua missão... não só através da hierarquia que ensina em seu nome e com seu poder, mas também através dos leigos... Constituiu-os testemunhas e os ornou com o senso da fé e a graça da palavra, para que brilhe a força do Evangelho na vida cotidiana, familiar e social" (LG 35, § 1º). "São chamados por Deus, para que... guiados pelo espírito evangélico, a modo do fermento, de dentro, contribuam para a santificação do mundo" (LG 31). E, como os problemas transcendem as forças de cada um, também para os leigos vale a necessidade da conjunção de esforços e da inserção na "pastoral de conjunto" (cf. AA 18).

 

3.4       A vocação batismal do cristão é reassumida hoje na Igreja, em sentido mais radical, por aqueles que, sem abandonar a secularidade de vida peculiar aos leigos, assumem o compromisso de consagração, seja em institutos seculares seja de outra maneira dentro das Igrejas Particulares. Tal carisma confere a esses cristãos uma possibilidade rica e fecunda de disponibilidade maior para a construção do Reino, na sociedade moderna.

 

3.5       Os religiosos também são chamados a uma função apostólica peculiar na Igreja. Por sua natureza, a vida religiosa tende a expressar o que a Igreja é enquanto Igreja: novidade escatológica. A totalidade do que a Igreja é em todos os seus membros deve tornar-se mais nitidamente consciente naqueles que, na alegria da fé, se entregam sem restrições à vocação cristã. O que todos são torna-se mais evidente nos religiosos. Assim, a vida religiosa é importante Para a Igreja toda. O mesmo Espírito que dá este carisma e eleva à entrega radical ao Amor divino, suscita também as diversas formas concretas de solidariedade  com o mundo a salvar. A Igreja  não só  não deve  "apagar o Espírito" (1Ts 5,19), mas deve dar lugar aos diversos carismas. Os religiosos, por sua parte, devem colocar seus carismas ao serviço da Igreja, especialmente da Igreja local, para o "maior proveito possível de todos" (1Cor 12,7).

 

3.6       Entre os diversos ministérios, sobressai o ministério hierárquico, por ser mais decisivo para a estruturação da Igreja. O bispo, sucessor dos Apóstolos, tem a missão e o poder de promover a unidade de sua Igreja Particular, de vinculá-la a outras Igrejas Particulares e de representá-la na comunhão da Igreja Universal. De modo semelhante, os presbíteros, postos para dirigirem as comunidades locais, são nelas sinal de unidade e animadores daquela vida de fraternidade e de fé que alimentam pela Palavra e pela Eucaristia. Em união com o ministério ordenado, muitos outros ministérios — para o serviço da comunidade cristã e do mundo — são suscitados pelo Espírito. Por eles os cristãos participam ativamente na edificação da Igreja e se edificam mutuamente. E o ministério ordenado, não sobrecarregado de outras funções, é ressaltado e valorizado em seu papel próprio e insubstituível.

 

3.7       A unidade da Igreja é uma unidade que deve ser construída permanentemente. Também ela é exposta à desunião e ao pecado. Devemos saber superar, no amor, nossas fraquezas e nossas divisões.

Haverá "certos aspectos humanos e deploráveis da Igreja" a corrigir. Mas não devemos chegar à atitude de alguns que "se arrogam esta função com tanta arbitrariedade e radicalismo que — talvez sem o perceberem — ofendem e até quebram aquela comunhão, não só institucional, mas espiritual, à qual — no fundo — querem ficar ligados. Eles chegam a cortar o ramo, separando-o do fluxo vital da planta que o sustentava ..." (Paulo VI, 28.11. 1973).

Devemos amar a Igreja concreta, em cada lugar, em cada paróquia, em cada diocese. A unidade, na humildade e no amor, é a primeira forma de testemunhar nossa fé no mistério da Igreja, que nos ultrapassa, porque é o próprio Senhor glorioso. Só pelo testemunho que empenha todo o nosso ser podemos atestá-lo, "para que o mundo creia".

A unidade da Igreja, sinal da unidade de todos os homens é um bem que devemos pedir na oração, pela intercessão da Mãe de Deus, "para que interceda junto a seu Filho até que todas as famílias dos povos, tanto as que estão ornadas com o nome de Cristão, como as que ainda ignoram seu Salvador, sejam felizmente reunidas na paz e concórdia, no único Povo de Deus, para a glória da Santíssima e indivisa Trindade" (LG 69).

 

 

       Atividades propostas

 

   A)         SETOR — ESTRUTURA DE IGREJA

 

   1.         Incentivar a renovação das estruturas eclesiais diocesanas, paroquiais, e de base para que sejam realmente comunitárias.

 

   2.         Criar clima de diálogo e participação entre os membros da Igreja em todos os níveis e em todas as estruturas.

 

   3.         Promover intensa comunicação (contatos pessoais, encontros, boletins etc.) entre as pessoas em cada nível de Igreja, e entre os vários níveis.

 

   4.         Intensificar a criação e animação dos organismos de corresponsabilidade em todos os níveis.

 

   5.         Incentivar todas as iniciativas que dentro da estrutura paroquial visem criar condições para uma pastoral mais comunitária, corresponsável e participada.

 

   6.         Suscitar e apoiar processos pastorais que visem a criação de comunidades eclesiais na base, seja a partir das paróquias, e através de grupos na zona urbana, seja a partir das capelas nas zonas rurais.

 

   7.         Promover, ao nível da Igreja particular, um constante esforço de reflexão a partir da realidade, em busca de uma pastoral que expresse a fisionomia original de cada Igreja e seja uma resposta aos desafios do mundo em que está inserida.

 

   8.         Promover em todos os níveis o processo de planejamento pastoral.

 

   9.         Dinamizar as coordenações de pastoral e os serviços e assessorais ao nível zonal (vicariatos, comarcas etc.), diocesano, regional e nacional.

 

   10.       Promover a capacitação de coordenadores diocesanos de pastoral.

 

   11.       Dinamizar e atualizar o sistema de bens eclesiásticos, dentro de um profundo sentido pastoral, e criar meios para a ação pastoral em todos os níveis.

 

   12.       Racionalizar a administração diocesana e criar o conselho administrativo de forma a poder caminhar progressivamente para um orçamento e programa que possibilitem reais planos de pastoral.

 

   13.       Incentivar, ao nível diocesano, paroquial e de base, o processo de substituição do sistema de taxas pelo sistema do dízimo como contribuição sistemática e periódica, através do qual cada comunidade assume corresponsavelmente sua sustentação.

 

   14.       Promover a corresponsabilidade entre as Igrejas ao nível regional e nacional, através da ajuda concreta, troca de serviços pastorais, apoio e solidariedade real frente às dificuldades.

 

   15.       Promover uma sempre mais crescente representatividade das Igrejas particulares nas assembléias regionais e nacionais da CNBB, sobretudo através da participação do presbitério e lideranças dos membros da Igreja junto ao bispo diocesano na preparação das assembléias e posterior discussão e estudo de seus resultados e conclusões.

 

   16.       Refletir, ao nível regional, aprofundar e assumir o sentido e as condições de uma real representatividade do regional nas várias promoções do nacional e sobretudo nas reuniões da Comissão Nacional de Pastoral e da Comissão Representativa.

 

   B)         SETOR — MINISTÉRIOS HIERÁRQUICOS

 

   1.         Promover a vivência do ministério hierárquico como animador e promotor da  unidade eclesial em todos os níveis.

 

   2.         Promover a unidade e a corresponsabilidade hierárquica ao nível da Igreja particular através do presbitério e do Conselho de Presbíteros, e ao nível regional e nacional através do clero.

 

   3.         Criar condições para uma sempre maior atualização dos ministros hierárquicos, através de cursos para Bispos e presbíteros, em nível diocesano, regional e nacional.

 

   4.         Criar condições de apoio para a vida comunitária e trabalho em equipe, entre os ministros hierárquicos, seja ao nível da Igreja particular, seja ao nível regional e nacional para aqueles Bispos e presbíteros que prestam serviço nos organismos regionais e nacionais da CNBB.

 

   5.         Prosseguir na reflexão, em todos os níveis, sobre as condições, dificuldades e perspectivas do exercício do ministério hierárquico na Igreja e no mundo de hoje.

 

   6.         Aprofundar a reflexão e a busca de uma verdadeira espiritualidade pastoral apropriada aos ministros hierárquicos, sobretudo através de estudos dos presbíteros diocesanos e comissões regionais e nacionais do clero.

 

   7.         Promover, em todos os níveis, oportunidades e instrumental de animação espiritual para Bispos e presbíteros (retiros, dias de espiritualidade, publicações etc.).

 

   8.         Quanto ao ministério diaconal, desde que o problema do diaconato permanente cede lugar diante da importância da diversificação dos ministérios, sua progressiva configuração e implantação tem melhores condições de visualização a partir da problemática geral dos ministérios.

 

 

   C)         SETOR — PASTORAL VOCACIONAL

 

   1.         Encontrar soluções para o problema vocacional respeitando as características específicas e a originalidade da Igreja local, isto é, verificar até onde o pluralismo dos ambientes (rural, urbano etc.) influenciam decisivamente na sua configuração como comunidade de salvação inserida em determinado contexto.

 

   2.         Caracterizar melhor os agentes de pastoral liberados para maior e criatividade na promoção vocacional.

 

   3.         Assessoria para criação de Centros Vocacionais (nível regional, diocesano).

 

   4.         Conhecimento e análise crítica das experiências de encontros, informais ou não, entre aqueles que pensam seriamente numa definição vocacional mais específica.

 

   D)         SETOR — FORMAÇÃO

 

   1.         Levando em conta as tendências na formação (aperfeiçoamento das atuais instituições e busca de novas formas), conhecer mais detalhadamente tais experiências (problemática formativa; pontos positivos, negativos e perspectivas).

 

   2.         Breves encontros de formadores (levando em conta as várias tendências) e preparar uma avaliação da "Ratio" adaptada à situação brasileira.

 

   3.         Conhecimento e acompanhamento mais sistemático da experiência de formação de presbíteros, adaptada a determinados ambientes (p. ex. rural etc.).

 

   4.         Como analisar e programar iniciativas que prevejam a íntima dependência da ação evangelizadora da Igreja nos próximos anos sob o impacto de profundas transformações, e o surgimento de novos ministérios e vocações específicas (ministérios, presbíteros, vida religiosa).

 

   5.         Dado de realidade: é cada vez mais nítida a consciência dos responsáveis formadores, quanto à necessidade de que os futuros presbíteros se formem dentro de uma perspectiva das necessidades das Igrejas Particulares. Necessária diversificação da formação para atender a estas necessidades.

 

   6.         De que maneira a dimensão e as opções pastorais prioritárias influenciarão nas atuais instituições de formação dos presbíteros.

 

Obs.:  Levar em consideração o necessário equilíbrio entre formação intelectual, profissional e  pastoral.

 

   7.         Intensificar o conhecimento e estímulo de experiências de formação de vocacionados na sua própria base eclesial.

 

   E)         SETOR — NOVOS MINISTÉRIOS

 

   1.         Levar em consideração um melhor conhecimento das experiências de estímulo e formação dos novos ministérios, tanto os ligados ao culto como os ligados a outras dimensões da comunidade cristã.

 

   2.         Levar em consideração a seguinte perspectiva da realidade: os novos ministérios surgem, aperfeiçoam-se formam-se e são autenticados lá onde é intensa a participação do laicato e desenvolvida a ação missionária da comunidade eclesial (Igreja voltada para novas situações, desafio à sua ação evangelizadora).

 

   3.         Visitas mais detalhadas e tecnicamente conduzidas às experiências. Análise das questões e tensões eventualmente surgidas, encaminhamento de pistas de solução.

 

   4.         Isto para que a figura dos ministros diversificados apresente-se, cada vez mais, identificada à experiência de Povo de Deus, e não seja uma casta isolada.

 

   5.         Reflexão mais esclarecedora do que seja Ministério (nível teológico-pastoral):

 

           O que é ministério.

 

           Diferença do ministério ordenado e o sacerdócio comum dos fiéis.

 

           A escolha dos ministros e o reconhecimento dos carismas.

 

           A participação da comunidade na escolha e formação dos diferentes ministérios.

 

 

   F)         SETOR — RELIGIOSOS

 

   1.         Incentivar e sustentar a renovação da Vida Religiosa pedida pelo Vaticano II e Medellín, baseando-a na sua fonte evangélica e no aprofundamento do carisma próprio dos Institutos Religiosos e nos apelos da realidade local.

 

   2.         Alimentar nos Religiosos e Religiosas dois pólos fundamentais de renovação: a experiência de Deus e o espírito de discernimento, individual e comunitário, como elementos imprescindíveis a uma conversão que leve a uma vida religiosa mais coerente e exigente.

 

   3.         Fomentar nos Religiosos e Religiosas simultaneamente a inserção ambiental e a vivência da dimensão transcendental, através da oração, da pobreza, justiça e consciência da disponibilidade.

 

   4.         Fomentar nos Religiosos e Religiosas o elan missionário e a dimensão de gratuidade.

 

   5.         Fazer com que as estruturas da Vida Religiosa sejam flexíveis de modo a estimular a criatividade dos membros, e principalmente a comunhão recíproca na experiência de Deus.

 

   6.         Levar os Religiosos a manifestarem sua comunhão não tanto numa uniformidade de costumes (horários, estilo de vida), mas numa complementaridade de carismas, trabalhos e vivência.

 

   7.         Levar os Religiosos a passarem de estruturas de isolamento a uma atitude de inserção, não para se diluírem, mas para serem fermento do Evangelho no mundo.

 

   8.         Que cada comunidade tenha como objetivo prioritário ser um centro de comunhão e irradiação espiritual e apostólica na Igreja local.

 

   9.         Levar os Religiosos (os Religiosos presbíteros principalmente), a tomarem consciência explícita de sua vocação religiosa e das exigências de pertencer a um Instituto Religioso, como sendo o caminho escolhido para serem fiéis ao Evangelho.

 

   10.       Trabalhar para uma melhor redistribuição geográfica dos Religiosos, estudando os critérios mais evangélicos de prioridade.

 

   11.       Levar os Religiosos a julgar suas obras próprias em função do bem prioritário da Igreja e da comunidade local.

 

   12.       Incentivar a integração das obras dos Institutos Religiosos na Pastoral orgânica.

 

   13.       Apoiar, de modo especial, o aspecto contemplativo da Vida Religiosa e incentivar o surgimento de novas expressões da mesma.

 

   14.       Dar condições às Religiosas para que se dediquem à orientação de retiros para as diversas faixas do Povo de Deus.

 

   15.       Levar as Religiosas a terem o devido preparo, e dar-lhes condições para serem co-responsáveis na Pastoral, participando em igualdade, do processo de planejamento e de decisão.

 

   16.       Levar os Religiosos e Religiosas nas atividades pastorais a trabalharem em equipes integradas com padres diocesanos e leigos, visando a complementariedade dos carismas, trabalhando pela unidade.

 

   17.       Fazer com que os Religiosos estejam atentos aos desejos de seus irmãos, sabendo deixar-se questionar por eles.

 

   18.       Levantamentos:

 

18.1     Atualizar a localização e os dados numéricos sobre entradas, saídas e falecimentos nas Províncias religiosas.

 

18.2     Incentivar os Programas de levantamento da realidade das Congregações religiosas.

 

18.3     Continuar a sondagem sobre novas formas de Vida Religiosa.

 

18.4     Atualizar o levantamento sobre a formação dada na Congregação.

 

   19.       Reflexão:

 

19.1     Fomentar, em nível nacional e regional, encontros inter-congregacionais de reflexão sobre a teologia da Vida Religiosa, com periodicidade regular; e em nível diocesano e setorial fomentar encontros inter-congregacionais de oração e reflexão, e estes mesmos encontros com Padres diocesanos e leigos.

 

   20.       Formação:

 

20.1     Consolidar em nível regional os noviciados e junioratos inter-congregacionais, com direta participação dos respectivos formadores.

 

20.2     Proporcionar cursos de formação continuada, tanto de ordem espiritual como de ordem técnica, por setores ou cargos.

 

20.3     Assessorar, de modo especial, os Mosteiros contemplativos femininos e as Pequenas Comunidades, tanto as inseridas na Pastoral direta, como as profissionalizadas.

 

   21.       Coordenação:

 

21.1     Constituir ou consolidar equipes de animação da Vida Religiosa e de coordenação das atividades inter-congregacionais, em todos os níveis — nacional, regional, diocesano e setorial.

 

21.2     Incentivar o aproveitamento de subsídios já existentes e a criação de novos, para o aprofundamento e atualização da Vida Religiosa, especialmente a partir de revistas, publicações em geral e gravações.

 

21.3     Incentivar o intercâmbio entre as equipes de coordenação segundo os diferentes níveis e entre a coordenação nacional e os organismos internacionais de Igreja.

 

   G)        SETOR — INSTITUTOS SECULARES

   E NOVAS FORMAS DE VIDA CONSAGRADA NO MUNDO

 

   1.         Conhecer, ao nível da Igreja Particular, os Institutos Seculares e os grupos de pessoas que vivem a consagração no mundo.

 

   2.         Promover o entrosamento e intercâmbio entre os Institutos em vários grupos.

 

   3.         Promover a reflexão sobre essa vocação específica e sua integração na Pastoral da Igreja Particular.

 

   H)         SETOR — LEIGOS

 

   1.         Leigos em geral

 

1.1       Desenvolver as duas linhas de ação, que são, ao mesmo tempo, provocadoras e frutos de um engajamento maior dos leigos na vida da Igreja:

a)     corresponsabilidade

        — na Igreja

        — na sua missão

 

b)     participação

                   na vida (culto, governo) e ação da Igreja.

 

1.2       Incentivar a criação dos organismos de corresponsabilidade e participação

                      Conselhos:

 

                   Analisando, nos que já existem, os frutos, as          dificuldades etc.

 

                   Observando e incentivando a participação de todas as categorias: jovens, casais, meios e classes.

 

   2.         Movimentos de Leigos

 

2.1       Deixá-los viver e crescer; incentivar, através de encontros e participação em suas realizações e atividades, um aprofundamento e um assumir, em nível de Igreja, de seus objetivos específicos (carismas).

 

2.2       Ver como grupos organizadores podem assumir e responder às necessidades das Igrejas locais e das comunidades, emergentes atualmente. Isto para não se prender somente aos movimentos e associações atualmente existentes.

 

2.3       Canalizar os carismas dos movimentos de leigos para uma pastoral orgânica, fazendo-os participar das coordenações de pastoral, diocesanas e regionais.

 

2.4       Respeitar a autonomia reconhecida aos leigos no assumir posições como Igreja dentro da sociedade.

 

2.5       Criar um ambiente de diálogo para evitar rupturas na unidade e na comunhão. Para isso, incentivar os organismos de coordenação dos movimentos de leigos, em todos os níveis, que poderão ser os porta-vozes dos mesmos junto aos Bispos.

 

2.6       Refletir sobre a ação evangelizadora ambiental a partir dos movimentos de Igreja e mesmo não confessionais existentes, respeitando suas características (p. ex., sobre pastoral familiar: os movimentos familiares e outras instituições que se dedicam à família; sobre meio operário etc.).

 

2.7       Promover encontros entre as Associações de Leigos (mais de ordem da espiritualidade do que da ação), segundo suas afinidades, para aprofundar sobre o sentido de sua ação pastoral.

 

2.8       Promover momentos de reflexão e questionamento da Pastoral de Juventude, para   analisar:

sua pedagogia e conteúdo

sua dinâmica

sua inserção na pastoral orgânica

sua ligação com a pastoral vocacional.

 

Isto sobretudo em nível regional, inicialmente. Portanto, também incentivar as coordenações regionais de juventude. Este trabalho deve ser feito juntamente com o setor catequese e ação missionária.

 

2.9       Atualizar constantemente, através do CERIS, os dados sobre os movimentos de leigos, sobretudo para conhecer e acompanhar os mais regionais. Alguns ainda são desconhecidos da CNBB.

 

2.10     Procurar acompanhar os grupos de leigos, descomprometidos, mas que se dizem da Igreja, os grupos de reflexão, sobretudo os mais caracterizados segundo a profissão liberal, ou segundo faixas etárias. Também continuar acompanhando o movimento de renovação carismática.

 

   3.         Quanto à Ação dos Movimentos

 

3.1       Respeitar as associações de leigos, enquanto agentes do evangelização na comunidade humana; tentar enquanto possível, ligá-los aos projetos da linha seis e da pastoral especial.

 

3.2       Promover reuniões ou contatos para sentir suas aspirações, e para questioná-los quanto à sua ligação com a Igreja.

 

3.3       Organizar grupos de reflexão especializados, que poderão assessorar a CNBB, segundo suas características de meio, culturais e sociais, p. ex. equipes de pastoral familiar, operária, meios de comunicação, de promoção social etc.

 

3.4       Incentivar e apoiar a organização do já decidido Conselho Nacional de Leigos, mantendo um relacionamento constante; eventualmente o assessor de leigos poderá ser seu assistente.

 

3.5       Esclarecer a função do assistente eclesiástico nos movimentos, e as modalidades de escolha.

 

3.6       Continuar e atualizar a edição do boletim de comunicação entre os movimentos de leigos e com as coordenações diocesanas de pastoral.

 

3.7       Utilizar, para o planejamento pastoral, as colaborações dos movimentos que, estando encarnados em seus meios, mais facilmente podem detectar os sinais do Evangelho lá presentes.

 

 

        LINHAS    2 - 3 - EVANGELIZAÇÃO          AÇÃO MISSIONÁRIA

 

L.                   2.  "Promover a educação da fé".

 

L.                   3.  "Promover a evangelização através da ação missionária e em setores especiais de pastoral".

 

1.     A Palavra de Deus na Igreja

 

1.1       A revelação de Deus é História que começou com o próprio mundo (Gn 1; Jo 1,3), e intervenção epifânica que, iniciada na Antiga Aliança mediante a palavra da Lei e dos Profetas, chegou à sua plenitude no Novo Testamento com a Encarnação da própria Palavra Cristo Jesus, Logos de Deus.

Hoje já não ressoa do mesmo modo a voz de Cristo sobre a Serra, pois que Ele foi exaltado como Senhor (Kyrios) à direita do Pai. Sua voz todavia continua a chegar até nós através da Igreja que, tendo recebido o seu Espírito, realiza o prolongamento dessa Palavra, feita carne. Presença continuada da Encarnação do Verbo, a Igreja com seu múnus profético "torna presente" a Sua missão profética (cf. LG 10-12; 34-36).

 

1.2       A efusão do Espírito Santo  no  dia de  Pentecostes (At 2,4) não foi ocasional e transitória, mas inaugurou uma nova economia, pois assegurava a presença permanente do Espírito na Igreja. O Espírito que "falou pelos profetas" é o mesmo que vivifica a Igreja e Lhe inspira a pregação da Boa Nova de Salvação para que todos ouçam nas suas próprias línguas as grandezas de Deus (At 2,11).

Os Apóstolos receberam a missão e os poderes de Cristo, incluindo o carisma profético. O próprio Pedro, no seu primeiro discurso de Pentecostes, reconhece esta continuidade do ministério profético, citando o texto do profeta Joel (2,28-29).

Há, todavia, algo novo na nova economia salvífica: a comunidade eclesial, tomada em seu conjunto, é sujeito do carisma profético e sinal dos novos tempos messiânicos; além disso, o carisma profético eclesial não é esporádico, mas presença permanente do Espírito.

A verdadeira agente de evangelização é, portanto, a Igreja — comunidade profética — enquanto comunidade que pelo próprio Cristo foi constituída como lugar eficaz e sinal vivo de Sua própria profecia.

 

1.3       Função essencial da Igreja e razão própria de sua existência, a evangelização é consequentemente tarefa da Igreja toda, isto é, tarefa que todos os seus membros, sob o influxo do Espírito Santo, devem exercer, ainda que sob títulos diversos e conforme sua condição.

Por ser membro da Igreja e, por isso, participante do múnus profético de Cristo, todo autêntico cristão é, por natureza, um evangelizador: deve sentir-se co-responsável e ser exortado e preparado para o exercício de sua missão profética.

 

2.     Dimensão evangelizadora da formação cristã

 

2.1       É tendência muito acentuada hoje empregar-se "evangelização" num sentido mais amplo e abrangente, incluindo, além do primeiro anúncio, a promoção humana, a catequese propriamente dita, o testemunho e até o ministério da Palavra nas celebrações litúrgicas.

Parece, de fato, inútil procurar  atualmente uma distinção nítida entre evangelização catequese como se fossem fases separadas  no  processo  da  formação  religiosa. O  próprio Diretório Catequético Geral explicitamente declara que, na prática, a evangelização e a catequese não podem separar-se, mas que devem acompanhar-se e complementar-se: "Isto mostra que a evangelização pode preceder ou acompanhar, de acordo com as circunstâncias, o trabalho da catequese propriamente dita. Em qualquer caso, c preciso não esquecer que a conversão é uma dimensão que está sempre presente no dinamismo da fé. Por isso, qualquer que seja a forma de catequese, deve ela exercer também uma função de evangelização" (nº 18).

 

2.2       O que importa, portanto, é a dimensão evangelizadora de toda a formação religiosa; em outras palavras, não "evangelização e catequese como fases distintas, mas uma formação cristã verdadeiramente evangelizadora em todos os seus graus. O que importa não é tanto a terminologia, mas a correta compreensão da função evangelizadora na medida em que levar a uma fé sempre mais profunda, comprometida.

 

3. Evangelização e libertação

 

3.1       Por ser proclamação explícita de Cristo no seu Mistério Pascal, e da vinda do seu Reino, a evangelização deve levar os cristãos fiéis às exigências do mandato supremo do amor — a se comprometerem na libertação total do homem, e a se integrarem, de acordo com seus ministérios e carismas, no processo de libertação que emerge e se propaga em nosso povo. Assim, a Igreja, por fidelidade à sua missão salvadora e para responder às legítimas aspirações do povo, deve anunciar a mensagem de salvação realizada por Cristo, isto é, da libertação dos homens da escravidão do pecado e de todas as suas conseqüências, como são todas as formas de injustiça e de opressão.

Esta libertação ou redenção começa já na terra mas realizar-se-á plenamente na vinda gloriosa de Cristo. A proclamação evangélica começa pelo convite à conversão do coração, por meio da qual, mediante a graça do Espírito Santo, se forma o homem novo à imagem de Cristo, o que constitui a missão principal da Igreja. Esta conversão, entretanto, não diz respeito só à vida particular do crente, mas exige imperiosamente que o cristão se entregue à transformação do mundo, segundo o espírito das bem-aventuranças.

 

3.2       Não se pode entender em nosso país uma evangelização que não seja também verdadeira libertação do homem e de todos os homens. A evangelização não se identifica com qualquer modelo de promoção humana. A libertação pode ser chamada verdadeira evangelização, quando responde as legítimas aspirações de salvação de todos os homens e de todos os povos, referindo-se explicitamente ao anúncio do Reino, a obra de Cristo Salvador, ao mistério pascal, pelo qual todos os homens se libertam da lei do pecado e da morte e de suas conseqüências pessoais e sociais (Rm 8,2).

A ação libertadora sócio-política anuncia, prepara ou acompanha o Evangelho, no sentido de que os homens nela engajados, mesmo sujeitos a contradições e ambigüidades, oferecem campo para um diálogo com o Evangelho, enquanto buscam a verdade, a justiça, o amor, a liberdade. Anunciam assim o reino futuro, cujas primícias querem construir. O Evangelho de sua parte anuncia e reforça esta ação, enquanto lhe abre os horizontes para além do sócio-político. Revela a última raiz de toda opressão: o pecado, fruto da decisão livre do homem, não oculta o caminho pascal da libertação, que passa pela paixão e morte a fim de chegar a ressurreição da vida. Dá sentido a todas as lutas, às mortes acontecidas nelas, ao sofrimento não retribuído dos que se comprometem em tal missão. O Evangelho confere chave de intelecção do paradoxo de uma libertação que a um tempo é presença e promessa, porvir; simultaneamente impossível somente com as forças humanas e obrigatória com o impulso da graça; ao mesmo tempo obra dos homens e dom gratuito de Deus, presente no centro da História (cf. Comissão Justiça e Paz, A paz, destino e missão de todos os homens em SEDOC 7, 1974, 175-198).

 

4.     Religiosidade popular

 

4.1       Estamos diante de um povo com profunda religiosidade popular. Muitas razões de ordem histórica, antropológica e psico-social explicam o fato. Há, na religiosidade popular, um sinal especial da presença do Espírito Santo. Não pode ser encarada como fase atrasada de uma evolução religiosa que será superada na medida em que o progresso cultural avançar, como pensa a ideologia secularista. Há grandes valores religiosos, ao lado de encurtamentos e desvios, que devem ser levados em conta, pela evangelização. Valores desta religiosidade são: especial sentido e experiência de Deus e da sua Providência; sentido da transcendência da vida humana; confiança viva na Virgem Maria; fraternidade que junta pessoas de tendências diversas e até contrárias; facilidade em expressar a própria fé por meio de sinais e atos religiosos.

 

4.2       Desvios dessa mesma religiosidade são: concepção fatalista da Providência, manipulação mágica dos ritos religiosos, atitude mercantilista das promessas, multiplicação ou majoração dos Santos em detrimento do Deus desconhecido.

 

4.3       Aqueles valores representam apreciável abertura aos valores evangélicos: filiação divina, dimensão pascal da vida, profunda unidade do homem em Cristo, participação mais perfeita na liturgia. Ignorar ou negar estes valores, seria grave ofensa às comunidades humanas que devem ser evangelizadas, e seria fechar caminhos à Boa Nova de Cristo.

 

5.     Educação permanente da fé

 

Sempre mais se impõe hoje a necessidade de uma "educação permanente da fé" que acompanhe o homem por toda a vida e se integre em seu crescimento global.

É na direção dos adultos que a evangelização deverá orientar seus melhores agentes. Longe de ser um prejuízo da educação de crianças e adolescentes, esta abertura para os adultos é, certamente, uma perspectiva de esperança para todo o povo de Deus.

A evangelização precisa atingir o adulto em todos os estratos sócio-profissionais e em todos os níveis de vivência cristã em que se possam reencontrar.

Supera-se também hoje o individualismo e mais se firma a convicção de que a maturação da fé acontece em nível de pessoas e em nível de grupos que compõem a comunidade eclesial, de modo que esta possa tornar-se uma comunidade adulta, não de indivíduos mas de pessoas.

 

6.     Ação missionária e setores especiais

 

Como educação permanente da fé, a evangelização supõe certa integração das pessoas nas estruturas evangelizadoras da Igreja, principalmente na comunidade eclesial que é a primeira e mais fundamental de todas elas.

No Brasil, porém, é preciso levar em consideração que em muitas regiões há pessoas que vivem à margem da comunidade eclesial e isso acontece não só porque foram insuficientemente evangelizadas. Há populações (indígenas) e regiões (sobretudo a área coberta pelas prelazias) em que a Igreja ainda não encontrou condições de uma presença mais estabelecida ou nem mesmo as populações dispersas chegam a estar realmente integradas na cultura e sociedade nacionais. É o que constitui o que chamamos "regiões missionárias". Aí a evangelização depende de métodos especializados, e toda a obra evangelizadora está na dependência de uma atualização e capacitação de missionários o que vem ocorrendo com grandes benefícios e de uma animação missionária de todas as Igrejas particulares no Brasil.

 

6.1       A evangelização precisa ainda atender aos aspectos especiais que a ação evangelizadora deve revestir frente a certas áreas, setores e situações especiais. Tal preocupação se refere tanto a situações de vida (enfermos, encarcerados, anciãos), como a marginalização social (prostitutas, menores abandonados), e as  situações pastorais características (pastoral de santuários).

 

6.2       Importância crescente para a evangelização constituem os setores secularizados da sociedade. Aberta a todos os homens, a Igreja tem que proclamar a Palavra, anunciando aos homens e ao mundo o seu destino, apontando criticamente as ideologias que aprisionam a História em seu próprio contexto temporal. Aqui mais do que nunca a evangelização precisa se revestir de atitudes dialogais e do verdadeiro espírito de serviço.

 

7.     Inserção na igreja local

 

Toda atividade evangelizadora isolada do contexto eclesial é destinada à ineficácia. Os movimentos e grupos de jovens e adultos, o "ensino religioso" nas escolas e quaisquer outras atividades evangelizadoras poderão tornar-se ineficazes sem a inserção na pastoral da Igreja local. É indispensável hoje que toda atividade evangelizadora se desenvolva em conexão e colaboração com as demais atividades eclesiais. Deve-se sublinhar particularmente a necessidade da toda atividade evangelizadora referir-se a uma comunidade concreta de fiéis que vivem efetivamente a própria fé.

 

8.     Diálogo

 

A evangelização de adultos, considerada como forma principal de evangelização, deve ser promotora de uma grande compreensão humana e de um diálogo efetivo entre todos os homens. Tudo isso porém deve ser feito sem cair num irenismo nivelador e contrário à verdade. Deve em todo caso fazer os cristãos e as comunidades cristãs saírem de círculos fechados. Esta perspectiva deve inspirar as dimensões ecumênicas e o empenho missionário da evangelização, promovendo sempre o respeito da liberdade religiosa dos não-crentes, embora afirmando a própria convicção da verdade do catolicismo.

 

LINHA 2 - Atividades propostas

 

1.     Promover e organizar a evangelização de adultos, tendo em vista uma educação permanente da fé, que acompanhe o homem por toda a vida e que se integre em seu crescimento global, pessoal e comunitário. Longe de ser em prejuízo da educação de crianças e adolescentes, essa abertura para os adultos, é sem dúvida, uma perspectiva de esperança para todo o Povo de Deus em nossa pátria. A evangelização de adultos se desenvolve nas seguintes modalidades:

 

1.1       Catecumenato para adultos não-batizados e para adultos já batizados, mas sem fé atualizada e educada.

 

1.2       Preparação próxima para o sacramento do matrimônio e acompanhamento pós-matrimonial.

 

1.3       Preparação de pais e padrinhos por ocasião do batismo de crianças.

 

1.4       Cursos para pais de família, como meio mais adequado de uma cristianização autêntica da comunidade.

 

1.5       Planejamento e orientação das várias modalidades de movimentos, cursos, cursilhos, encontros e círculos bíblicos.

 

        2.    Promover as instituições e as iniciativas que visam despertar e alimentar a vocação evangelizadora do povo de Deus.

 

2.1       Promover, numa ação conjugada de toda a comunidade eclesial, uma coordenação de esforços pastorais que tenham por escopo a educação da fé, na comunidade. Esta coordenação deve ser una e total: envolvendo as instituições (família, escola) e os organismos de Igreja, cada um participando da tarefa da evangelização, com sua especificidade.

 

2.2       Promover e organizar a preparação de agentes qualificados, sem deixar de valorizar igualmente os colaboradores mais humildes, que não são menos preciosos.

 

2.3       Incentivar os leigos a não só adquirirem maior patrimônio doutrinal da fé, mas a se tornarem verdadeiros evangelizadores, co-responsáveis pelo crescimento dos irmãos na fé.

 

2.4       Empenhar os pais na evangelização dos filhos, ampliando assim os conteúdos e as finalidades da evangelização, que não mais se limitará a uma pedagogia de um saber abstrato e doutrinal, mas terá presente todo o plano da educação, as esperanças e as interrogações que a sociedade dos adultos apresenta em torno do futuro de seus membros mais jovens.

 

2.5       Promover a formação permanente dos evangelizadores, através de uma constante atualização, complementação, enriquecimento periódico, cursos de aprofundamento. Os próprios formadores de evangelizadores e todos os responsáveis pelo Ministério da Palavra necessitam de renovação e atualização.

 

2.6       Promover e organizar cursos que preparem professores para o "ensino religioso" nas escolas oficiais, e técnicos para a elaboração de programas e textos.

 

2.7       Promover a formação de evangelizadores que não somente saibam usar os meios audiovisuais, mas que sejam capazes de traduzir a Boa-Nova na linguagem audiovisual do homem contemporâneo e, além disso, interpretar, à luz do Evangelho, o próprio conteúdo veiculado pelos Meios de Comunicação Social. É necessário que os evangelizadores aprendam a expressão e a linguagem dos MCS para que se tornem capazes de re-exprimir a mensagem do Evangelho nas formas da cultura audiovisual (v. Linha 6 "Meios de Comunicação Social").

 

   3.         Promover maior conhecimento e visão mais ampla das condições antropológicas locais, das religiões primitivas, do sincretismo religioso e das expressões do catolicismo popular.

 

Face a essas situações, assumir as seguintes atitudes e tarefas:

 

3.1       Respeitar as etapas diversas no caminho de Deus e procurar descobrir as "Sementes do Verbo" nas várias expressões religiosas.

 

3.2       Purificar as formas de religiosidade popular de ele mentos que a tornam inautêntica e valorizar seus elementos positivos.

 

3.3       Impregnar da palavra evangélica as manifestações populares: romarias, procissões, devoções diversas.

 

3.4       Descobrir a função pastoral do folclore religioso de cada região e incentivar seu emprego na evangelização.

 

3.5       Impregnar de espírito cristão as festas populares e tradicionais de cada região.

 

3.6       Recordar que a evangelização deve levar a pessoa humana a encontrar o sentido pleno da vida; levar, portanto, o homem a um crescimento integral, tendo porém sempre em conta o ritmo de maturação de cada um.

 

3.7       Descobrir nas expressões de religiosidade popular, o grau de responsabilidade histórica. A evangelização não pode ser focalizada só pelo lado da religiosidade popular, pois visa transformar o homem todo, em sua dimensão política, econômica, social e religiosa.

 

3.8       Trabalhar para que as celebrações litúrgicas sempre mais se tornem expressão da cultura do nosso povo (v. Linha 4).

 

   4.         Promover a evangelização da juventude, em todos os níveis (estudantil, profissional) e nas várias modalidades (cursos, grupos, movimentos, dias de reflexão). A pastoral da juventude deve inserir-se na pastoral da família, no contexto das comunidades eclesiais (v. Linha 1).

 

   5.         Promover e incentivar todas as atividades que visam a humanização integral. "Humanização" e "Evangelização" não são duas etapas sucessivas mas duas dimensões ou aspectos de uma mesma realidade. Todo autêntico crescimento em humanidade é crescimento em direção de Cristo. Tal conceito de evangelização não se opõe a uma tendência para o anúncio explícito da mensagem cristã. Pelo contrário: todos os esforços realizados nessa perspectiva, visam criar condições para um encontro autêntico com a Palavra e os gestos sacramentais de Cristo, a se exprimir num testemunho pessoal e comunitário (v. Linha 6: "Ação social").

 

   6.         Promover a evangelização como animação cristã dos Divertimentos, do Turismo, dos Grupos de Lazer e do Esporte.

 

LINHA 3 - Atividades propostas

 

   A)         AÇÃO MISSIONÁRIA

 

   1.         Formação de agentes pastorais capazes de anunciar a Palavra e formar comunidades.

 

   2.         Promover o anúncio da Palavra:

 

           em todos os instrumentos de educação sistemática ou permanente:

 

*  escolas dos vários graus;

*  cursos de formação de professores de religião;

*  semanas de estudos;

*  treinamentos;

*  encontros;

*  meios de comunicação social.

 

   3.         Promover cursos de preparação de agentes pastorais diversos:

 

*  monitores de grupos de evangelização;

*  animadores de CEB;

*  coordenadores de pastoral;

*  líderes setoriais;

*  várias diaconias e serviços.

 

   4.         Cursos de atualização para os diversos membros do Povo de Deus: Bispos, sacerdotes, leigos, religiosos, religiosas, capacitando-os para desenvolver uma ação missionária conforme sua vocação específica.

 

   5.         Intensificar o Programa Igrejas-Irmãs para que maior número de dioceses adotem sua Igreja-Irmã, havendo assim uma verdadeira animação missionária.

 

   6.         Promover cada vez maior entrosamento entre os vários Organismos da animação e ação missionária: COMINA, CIMI, PUM, PPOOMM, J.M. etc. para que os vários programas e projetos possam ser organizados e realizados com maior eficiência.

 

   7.         Engajar maior número de religiosos (dando-lhes previamente uma preparação adequada) nas várias atividades missionárias.

 

   B)         SETORES ESPECIAIS

 

Promover e organizar a evangelização nos seguintes Setores Especiais de Pastoral: Pastoral Carcerária, Pastoral das Migrações, Pastoral junto à Mulher Marginalizada, Pastoral do Menor Abandonado, Pastoral do Ancião, Pastoral do Excepcional, Pastoral dos Nômades, Pastoral dos Enfermos, Pastoral das Domésticas, Pastoral do Mar (Homens que se dedicam a pesca), Pastoral das Rodovias, Pastoral Militar e outros eventuais setores.

 

 

      LINHA 4 - LITURGIA

 

Promover condições para que a Liturgia seja celebrada pela comunidade eclesial com participação plena e fé consciente.

 

1.            Mistério Pascal

 

1.1       Cristo, enviado do Pai para salvar todos os homens (cf. 1 Tm 2,4), completou sua obra redentora pelo mistério pascal (cf. SC 5). Ao mesmo tempo que por ele se realiza de modo manifesto a salvação, nele também se encontra a "plenitude do culto divino" (SC 6).

Na sua oferta obediencial, na sua carne que é "levantada" para atrair todos e reunificá-los, está a visibilidade da relação do Cristo com seu Pai e de Deus com toda a humanidade, santificada por mãos daquele que se entrega (cf. 2 Cor 5,15). Nesta sua exaltação e glorificação é que Cristo pode enviar o Espírito Santo prometido para a nossa santificação.

 

1.2       A Igreja, pois, celebra o mistério da redenção, crendo na presença daquele que se torna Espírito vivificante  (2 Cor 3,17; 1 Cor 15,45) e que assegura a constituição e santificação da própria Igreja (cf. At 2,1; 9,31).

Os membros deste corpo com efeito se santificam à medida em que se unem àquele que é Cabeça da humanidade, primogênito de toda criatura, na HORA de sua páscoa, isto é, no seu ato de oferta e glorificação. É neste instante de supremo amor, em que ele se entrega ao Pai por todos os homens, que o Cristo faz de todos que não o rejeitaram, o Seu corpo, a Igreja santificada.

A vida da Igreja, pois, se resume no serviço do Cristo que salva, tornando-se ela mesma sinal e instrumento da salvação visibilizada na Carne de Cristo, que nos leva ao Pai, sob a moção do Espírito Santo. Este serviço é de modo especial a liturgia ("leitourgia" = serviço em favor do povo).

Por ela a Igreja, ao atualizar o mistério pascal de Cristo para a salvação do mundo, exerce a sua diaconia de louvar a Deus em nome de toda a humanidade.

A liturgia não é a única atividade salvadora que a Igreja exerce, mas é sem dúvida um momento culminante da vida da Igreja, da atuação do Espírito Santo e da presença do Cristo glorificado. A liturgia é "o cume para o qual tende a sua ação (da Igreja) e é, ao mesmo tempo, a fonte donde dimana toda a sua força" (SC 10).

 

2.            A Assembléia reunida

 

Um sinal privilegiado da "reunificação de tudo em Cristo" é a constituição da assembléia, reunida pela convocação da Palavra que ilumina, pela fé, a consciência dos fiéis, fazendo-os perceber a presença do Senhor.

Uma pastoral litúrgica que presta serviços oferecendo apenas cerimônias, mas que não reúne e não logra unir, poderia facilmente ser classificada de ativismo cultual, pois que lhe faltaria o embasamento eclesial. A celebração litúrgica exige, portanto, um real esforço e atenção para a constituição de assembléias conscientes da presença do Senhor (cf. SC 7 e 48).

Por isso, para que a pastoral litúrgica seja realmente "um serviço em favor do povo", significando para ele a presença da salvação, é preciso que os sinais sensíveis (gestos, palavras, canto, arte cênica, arquitetônica e decorativa), que realizam a santificação do homem, lhe sejam compreensíveis, falem à sua consciência e suscitem sua participação ativa e frutuosa.

 

3.            Fidelidade a Deus e ao homem

 

Uma dupla exigência de FIDELIDADE parece teologicamente indispensável para que a liturgia atinja sua plena realidade:

 

3.1       É preciso enraizamento profundo da liturgia na história da salvação, tal como nos é revelada, com seus temas, seus sinais permanentes da ação de Deus entre os homens. É necessária uma fidelidade total à mensagem cristã (ortodoxia).

Só uma evangelização autêntica fará com que a fé na pessoa de Jesus Cristo, manifestação do Pai, purifique uma fé em mistérios transcendentes, apenas confusamente acolhidos pelo homem.

Aspectos essenciais da formação litúrgica são:

 

3.1.1       A INICIAÇÃO à própria natureza do culto (a "MISTAGOGIA" dos Santos Padres), procurando corrigir as motivações ambíguas que levam a deformar a compreensão dos sacramentos.

 

3.1.2       O caráter COMUNITÁRIO das celebrações, a fim de que haja uma vivência eclesial e não aconteça o que o Apóstolo lastimava: "Quando vos reunis, já não é a Ceia do Senhor que celebrais! Mal vos pondes à mesa, cada um se apressa a tomar sua própria refeição" (1 Cor 11,20-21).

 

3.1.3       O caráter MISSIONÁRIO da liturgia que "envia" ao mundo. Longe de isolar os fiéis de sua vida de cada dia e de suas atividades "profanas", a liturgia bem compreendida deverá tornar-se o fermento que faz crescer toda a nossa vida e nos torna mediadores da salvação do mundo.

 

3.1.4       O caráter SIMBÓLICO da liturgia. O símbolo é uma realidade intrínseca e essencial ao Sacramento. Na verdade, os sinais sacramentais realizam o que significam e enquanto significam. O elemento material dos sinais (água, óleo, pão, vinho, gestos), desprovido de sua significação própria, não tem valor sacramental. Um empobrecimento da teologia do símbolo é responsável pelo aparato mecanicista das cerimônias como instrumentos para conferir a graça. Só a redescoberta da força significativa do símbolo vai dar bases sólidas para toda e qualquer renovação e aculturação dos ritos sacramentais.

 

3.2       Outra exigência é a fidelidade à índole de cada povo (cf. SC 40) e à vida concreta dos cristãos.

 

3.2.1       Embora transcendente em seu conteúdo, o cristianismo só é autêntico em toda a sua extensão, quando se encarna na cultura e índole própria dos povos aos quais se dirige. Seria demasiado estreita a visão de um cristianismo que impedisse as culturas de preservarem e de exprimirem a seu modo a fé em Cristo. Os elementos de toda e qualquer cultura, não contrários a mensagem libertadora de Cristo, podem autenticamente expressar o mistério da salvação. Tudo o que é profundamente humano pode e deve ser conservado na sua genuína origem, sem perigo para a fé. O cristianismo tem uma tradição sacrossanta a esse respeito. A princípio se encarnou no mundo semítico e se exprimiu semiticamente; depois, no mundo greco-romano; depois adotou culturas e costumes de outros povos, tanto no Ocidente como no Oriente; agora se abre para uma encarnação na tradição cultural de todos os povos, e compete a nós procurar de modo sério e perseverante uma encarnação no mundo brasileiro.

A cultura e índole do povo brasileiro devem encontrar na liturgia, seu modo de viver e expressar a fé. A significação dos gestos, palavras e outros sinais usados na liturgia, devem tornar verdadeiros os modos de expressão do nosso povo. É esse o desafio que a pastoral litúrgica terá de enfrentar no Brasil.

 

3.2.2       A Liturgia, além disso, deve estar em perfeita consonância e em íntima ligação com toda a vida extra litúrgica dos fiéis. O mistério pascal de Cristo, celebrado e tornado sacramentalmente presente na ação litúrgica deve informar e transformar todos os instantes e todas as ações da vida diária dos cristãos. Ao mesmo tempo, é preciso levar a vida para dentro da Liturgia. A vida é feita de tudo o que somos e realizamos e de tudo o que nos acontece no dia a dia. Falando dos leigos, ensina o Vaticano II: "Todas as suas obras, preces e iniciativas apostólicas, vida conjugal e familiar, trabalho cotidiano, descanso do corpo e da alma, se praticados no Espírito, e mesmo os incômodos da vida pacientemente suportados, tornam-se "hóstias espirituais, agradáveis a Deus por Jesus Cristo" (1 Pd 2,5), hóstias que são piedosamente oferecidas ao Pai com a oblação do Senhor na celebração da Eucaristia" (LG 34).

Esta fidelidade da Liturgia à vida concreta dos fiéis faz exigências sérias aos agentes da pastoral litúrgica e à equipe de celebração. Mas também confere à Liturgia um cunho de realismo, sinceridade e espontaneidade de inestimável valor.

 

       Atividades propostas

 

1.            Conhecer a situação da Liturgia no Brasil,

a religiosidade popular,

a linguagem popular,

a cultura e índole do nosso povo, com sua diversificação.

 

2.            Promover a reflexão teológica em torno da Liturgia, para orientar a pastoral litúrgica..

 

3.            Aprofundar constantemente a evangelização, explicando os ritos litúrgicos, celebrando de maneira a aprofundar a fé, fornecendo subsídios de instrução e orientação litúrgica, dando cursos, palestras, catequese, cuidando da diligente preparação para a recepção dos sacramentos, utilizando os Meios de Comunicação Social.

 

4.            Educar os fiéis para a vida em comunidade e a celebração comunitária da Liturgia.

 

5.            Formar agentes e especialistas de Liturgia, desde as equipes de celebração até os especialistas na matéria.

 

6.            Fornecer textos litúrgicos e subsídios de celebração.

 

7.            Promover o canto e a música sacra, bem como a arte sacra.

 

8.            Trabalhar sistematicamente na adaptação e aculturação dos ritos litúrgicos.

 

      LINHA    5 - AÇÃO ECUMÊNICA E DIÁLOGO RELIGIOSO

 

 

"Promover a ação ecumênica e o diálogo religioso"

 

1.            Ação ecumênica

 

A ação ecumênica é uma exigência dos sinais dos tempos (cf. UR 4). Os esforços que, por inspiração da graça do Espírito Santo, se fazem, pela oração, pela palavra e pela ação, para se chegar à plenitude da unidade querida por Jesus Cristo, consistem principalmente:

 

1.1       em eliminar as palavras, juízos, ações, que não mais correspondem, segundo a eqüidade e a verdade, à condição dos irmãos separados;

 

1.2       no diálogo entre pessoas bem informadas pertencentes às várias Igrejas, no qual cada participante explica a doutrina de sua comunhão e apresenta de maneira clara o que a caracteriza;

 

1.3       na colaboração em iniciativas que a consciência cristã exige, em vista do bem comum;

 

1.4       na oração unânime, quando permitida;

 

1.5       no exame da fidelidade a vontade de Cristo com relação a Igreja (cf. UR 4).

 

2.            Diálogo religioso

 

Seguindo os ensinamentos do Concílio Vaticano II e de Paulo VI (cf. Enc. Eclesiam Suam), a Igreja, em nossos dias, por respeito a dignidade da pessoa humana e à liberdade religiosa, tanto no plano individual quanto no comunitário (cf. DH 2,4,5,10), renuncia a qualquer tipo de violência e coação (ibid. 10) e adota o caminho mais difícil, mais evangélico, do diálogo. Diálogo que, quando se estabelece entre Igrejas ou comunidades cristãs, se chama ecumênico, mas que é também exigência do Evangelho, com relação às religiões não cristãs. Aliás, todo diálogo é ecumênico, porque visa a estabelecer a "ecumene", isto é, a comunidade universal da fé, que nós cristãos chamamos a Igreja de Cristo, cuja realização plena esperamos ver consumada na ressurreição final.

 

3.            Pluralismo religioso

 

A ação ecumênica e o diálogo religioso correspondem certamente à nova situação em que se vê a Igreja, em nosso país: referimo-nos ao pluralismo religioso. O Brasil, integrado pelos colonizadores na Igreja Católica de tradição ibérica, considerou se, desde a origem, país totalmente católico. Os resíduos da população indígena, não assimilados pela cristandade, jamais constituíram problema, pois sempre estiveram a margem da comunidade nacional e eclesial. A homogeneidade religiosa da nação pareceu rompida quando da separação entre Igreja e Estado, no advento da República. Mas, o dualismo antagônico das elites dominantes, civis e eclesiásticas, nunca se consumou de fato. A divisão não chegou a atingir as bases. O povo fiel manteve a fé e perseverou na comunhão católica.

Em nossos dias, porém, essa unidade religiosa está em processo de fragmentação. Quatro fatores contribuíram para a quebra da unidade religiosa no país:

 

a)            a imigração de não católicos e de não cristãos;

 

b)            a vinda de missionários de outras denominações cristãs, portadores de hereditária atitude anti-católica, que se exacerbou nos prosélitos;

 

c)            a reviviscência do substrato religioso africano e indígena presente na população intensamente miscigenada;

 

d)            a modernização, que teve conseqüências paradoxais: por um lado, a secularização, com tendência a extremar-se em secularismo ateu; por outro, a procura dos caminhos da sabedoria oriental, para fugir ao cerco da modernidade unidimensional.

 

Em outros países, o catolicismo encontrou as diferenças religiosas como fato consumado, ou aconteceu que estas se consolidaram como componentes da vida nacional. Mas, no Brasil, o processo se dá na própria Igreja Católica. São adultos batizados no catolicismo, que abandonam a Igreja Católica e se filiam a outras denominações, ou que se consideram desligados de toda forma institucional de Igreja. O certo é que, em nossos dias, o povo, no Brasil, não mais apresenta aquela unidade, que Jesus Cristo pediu para sua Igreja (cf. Jo 17,21) e que Paulo quis estendida ao mundo inteiro (cf. Ef 2,14-16; Cl 1,18-20). Somente uma atitude ecumênica e o diálogo religioso podem responder pastoralmente a tal situação.

 

4.            Dificuldades do diálogo religioso

 

Duas dificuldades se apresentam ao diálogo religioso:

 

4.1       A primeira dificuldade consiste na impressão que temos de que procuramos o diálogo com quem se separou da Igreja, e de que, dialogando com essas pessoas, nos tornamos coniventes com sua separação. Não há dúvida de que o afastamento da Igreja Católica, do Cristo, e do Deus Criador, de que resulta o pluralismo religioso ou a-religioso, no plano visível, analisado na sua materialidade, é afastamento do  caminho da salvação. Mas, quem poderá afirmar que é isso o que, de fato, acontece no íntimo das consciências? Tomando-se em conta que a evangelização deve ser adequada às possibilidades subjetivas, para poder tocar a alma e abrir os olhos de quem há de reconhecer Aquele que fala e confessá-lo, não se deveria dizer que os que se afastam são simplesmente não evangelizados?

Pode bem ser, que aqueles que abraçaram, de coração aberto e generoso, o "caminho da salvação", apresentado embora de maneira incorreta e falha mas de alguma forma correspondente à sua fome de absoluto, é que foram iluminados pela luz que ilumina todo homem (cf. AG 2).

 

4.2       A segunda dificuldade é a tentação de reagir pela violência, e com as mesmas armas, ao proselitismo agressivo, que veio criar a situação incômoda do pluralismo religioso. Dificuldade essa realmente espinhosa e causa de perplexidade da consciência (cf. Diretório Ecumênico 63, 1-19).

 

5.   Critérios para a ação ecumênica e o diálogo religioso

 

Poder-se-iam propor alguns critérios para a ação ecumênica e o diálogo religioso.

 

5.1       Nós da Igreja Católica não podemos deixar de confessar que quem se salva já está na Igreja. Há no mundo uma realidade que representa efetivamente o Dom de Deus destinado aos homens para sua salvação, isto é, a comunhão de vida com Deus e com os homens: é Jesus Cristo, morto e ressuscitado, que, por seu Espírito, nos comunica a vida. Há uma comunidade na qual se encontram, em totalidade, os instrumentos salvíficos, as palavras, os gestos, pelos quais se visibiliza e se expressa a salvação oferecida e a graça a todos os homens de todos os tempos e culturas (cf. LG 8).

A Igreja é o sacramento visível da unidade salvífica: nela se vê o que Cristo (a graça) opera no mundo, e não só nos limites reduzidos da Igreja visível.

 

5.2       Igualmente professamos a vontade salvífica universal de Deus, a presença do Espírito no universo, que fala a língua de cada um, e que conduz a História e os homens nela envolvidos para uma meta: congregar, em Cristo, os filhos de Deus dispersos nesse mundo.

 

5.3       Reconhecendo que todos somos irmãos, embora tenhamos disso consciência não muito clara, ou mesmo nenhuma consciência, ou até anti-consciência (cf. NA 2), torna-se necessário o diálogo:

 

5.3.1       universal, porque ninguém pode ser excluído dele;

 

5.3.2       diferenciado, porque tem ponto de partida onde começa o que nos une;

 

5.3.3       reciprocamente aberto, porque os dialogantes mutuamente se corrigem, se enriquecem e crescem, para, um dia, se reconhecerem como irmãos.

 

5.4       A  plenitude  desse  mútuo  reconhecimento,  como irmãos,    advirá  com  a  manifestação   plena   de   Cristo   (cf.  2 Cor 3,18; 4, 5-6). Desde já, porém, é nossa tarefa preparar este dia, e preparar-nos para ele. A dimensão do "desde já e ainda não" torna o diálogo permanente na história salvífica, onde terá seus altos e baixos. A sua meta é historicamente impossível, mas realizável escatologicamente. Por isso, é obra de paciência e esperança (LG 6,9).

 

Atividades Propostas

 

1.            Promover a ação ecumênica em sua dupla dimensão de:

 

1.1       Pastoral ecumênica, como atividade específica de relacionamento através do diálogo e trabalho comum entre católicos e não católicos.

 

1.2       Ecumenismo  na  pastoral,  que  busca  dar  abertura ecumênica   a   todas   as   linhas   pastorais   da   Igreja   (cf. Diretório Ecumênico para o Brasil, 2).

 

2.            Promover a coordenação regional e diocesana da pastoral ecumênica para evitar dispersão e desvirtuamento da ação ecumênica, que compreenda os três setores:

 

  diálogo com os cristãos de outras Igrejas,

 

  diálogo com os não cristãos (crentes de outras religiões),

 

  diálogo com os não crentes.

 

3.            Promover a formação ecumênica dos presbíteros e dos candidatos ao presbiterato, através de cursos sobre a evolução teológica das diferentes Igrejas, os fundamentos teológicos, pastorais e jurídicos do Ecumenismo.

 

4.            Promover a formação ecumênica do povo católico através de pregações, cursos, celebrações e orações em prol da unidade, nas comunidades.

 

5.            Incentivar a celebração de atos ecumênicos com os irmãos de outras Igrejas cristãs (semana da unidade, palestras etc.).

 

6.            Promover o diálogo entre pastores de várias Igrejas para analisar problemas pastorais comuns e entre peritos de nível teológico e especializado.

 

7.            Promover o diálogo entre os leigos e a colaboração concreta no domínio sócio-econômico, político, cultural, artístico etc.

 

      LINHA 6 - PRESENÇA NO MUNDO

 

Promover a ação profética do Povo de Deus e a consciência de sua responsabilidade, como fermento de libertação do mundo, segundo os desígnios de Deus.

 

1.            A ação social da Igreja em evolução

 

1.1       A ação pastoral da Igreja no Brasil hoje, presente no social, é condicionada por uma variedade de questões sócio-culturais e políticas, que poucos percebem em toda sua extensão e profundidade.

Sabe-se do amplo esforço positivo que se faz em todos os campos no país, através de crescente modernização. O Brasil moderno é contudo contraste, pois os benefícios desta adaptação aos padrões das sociedades modernas não são proporcionais às expectativas da maioria da população. As medidas tomadas no campo social esbarram com problemas estruturais e quase sempre apenas contornam as situações conflitivas. Uma minoria privilegiada usufrui, no momento, das melhorias que, hipoteticamente, poderão, a longo prazo, também atingir a maioria, que por enquanto continua à margem daquele esforço.

As verdadeiras mudanças exigem tomada de posição, serena e objetiva, encarando como desafios à missão evangelizadora da Igreja problemas, tais como:

 

  a freqüente violação dos direitos humanos fundamentais;

 

  a ordem institucional vigente;

 

  a marginalização do povo em relação ao processo decisório;

 

  a não participação das elites sindicais, estudantis e pensantes na elaboração de possíveis opções diferentes do modelo de desenvolvimento nacional;

 

  a censura ou auto-censura junto aos meios de comunicação social;

 

  a inquietante ausência de participação do mundo operário nos benefícios da riqueza nacional;

 

  a angústia da situação dos posseiros em regiões de colonização agrária recente e o mundo rural em geral.

 

1.2       A ação evangelizadora da Igreja no campo social é condicionada pela conjuntura sócio-cultural e política e as situações concretas, muitas vezes viciadas por erros e egoísmos. Por outro lado, ela se esforça para intensificar o clima de corresponsabilidade e participação, a ação educativa de base e maior unidade entre fé e vida humana. Pois a fé nunca pode deixar de se expressar em ação e obras. Isto foi bem evidente no passado da vida da Igreja, que ativamente se empenhou em obras caritativas, intensificou o genuíno sentido da vida religiosa consagrada, ocupada particularmente com a educação e assistência aos doentes, pobres e sofredores. Inúmeras foram as instituições, tais como as Escolas e Universidades Católicas, empenhadas em incrementar a cultura ao mesmo tempo que transmitiam a fé.

Isto continua hoje, seja através das mesmas instituições — cuja função porém é entendida e orientada à luz das novas condições sociais e da consciência atual da missão da Igreja — seja através de novos caminhos.

A Igreja hoje é levada a renunciar a certos papéis em campo social e educativo que o Estado ou outras instituições passam a assumir. Mas, de outro lado, a Igreja — mais pobre e menos comprometida com certas estruturas sociais — assume com mais vigor sua missão crítica e profética de denúncia da injustiça e de promoção da solidariedade e das legítimas aspirações dos homens.

 

2.            Justificativas

 

A prática pastoral da Igreja no campo social justifica-se por alguns critérios:

 

2.1       A ação eclesial revela-se essencialmente por um profundo senso de uma permanente educação comunitária.

A longa e paciente pedagogia, tendo em vista criar a corresponsabilidade e participação consciente de todos e cada um dos membros da Igreja, é exigência básica do próprio ser eclesial.

É desta prática fundamental que extravasa sua presença e ação no campo social, como verdadeiro sinal. Este anuncia uma nova consciência da humanidade, que são os núcleos de vida preparando "novos céus e nova terra" (Ap 21,1).

 

2.2       A constante chamada de atenção aos problemas concretos. É impossível agir para promover algo no campo social, sem que se situe no centro dos acontecimentos, através da linguagem concreta dos fatos, pessoas e instituições. Tal linguagem move as consciências dos indivíduos e questiona as organizações, na busca de soluções viáveis para os problemas, que são desafios. Ao mesmo tempo, o uso de tal linguagem realista não pode fazer esquecer a necessidade de uma análise mais profunda, que busque a raiz e as causas dos males sociais. Se de um lado não se pode deixar de prestar serviços concretos, bem reais, por outro lado é igualmente um grande serviço lutar para que se erradiquem os defeitos estruturais, fruto de decisões conscientes ou inconscientes.

 

2.3       A ação da Igreja deve ser continuamente uma tentativa de colocar o problema religioso não apenas no âmbito cultural e litúrgico. Ou melhor, há uma nova consciência do religioso, envolvendo toda a vida humana nos seus diferentes matizes.

Daí porque a penetração aparentemente desmedida da Igreja em todos os campos de promoção humana, leva aos poucos, à reafirmação da justa autonomia da comunidade eclesial, face a todo e qualquer poder sócio-econômico e político. Conseqüentemente, há um esforço pura ampliar a faixa da religião evangélica a todas as dimensões da vida, dentro do sentido de unidade do plano de Deus. Assim, tem sentido o envolvimento da comunidade fiel, através de testemunhos qualificados, em questões ordenadas à busca do bem comum das pessoas na vida social.

 

2.4       A ação da Igreja é válida não só a partir de suas numerosas instituições de serviço. Para se alargarem os horizontes e se revisarem as instituições, deve-se ter, corajosamente, como ponto de referência, o bem comum e a vida de um povo concreto em relação a Jesus Cristo e à Fé na sua Ressurreição.

Enfatiza-se como fundamental a pedagogia educativa na ação social, capaz de colocar toda e qualquer promoção humana ao alcance do povo, através da assimilação de sua sensibilidade aos valores evangélicos. Tal atitude coloca em relevo a importância de que toda ação seja um trabalho com o povo e não apenas para o povo.

Observa-se ainda que, se de um lado é importante uma ação educativa organizada, não menos importante é contar com a precariedade de instrumentos e a disponibilidade dos que são mais fracos.

 

2.5       Irrestrito apoio aos direitos fundamentais da pessoa humana.

Ressalta-se, no campo de toda ação pastoral e social, a necessidade de continuamente se organizar à luz da igualdade e dignidade de qualquer um e do caráter social da propriedade privada. O que também implica na denúncia, oportuna e importuna, com objetividade serena, de toda e qualquer violação desses direitos, a partir do fatos concretos.

Há uma unidade inerente à preservação desses direitos e ao plano de Deus, que quer salvar através de constante esforço, capaz de garantir a vida e a sobrevivência necessária a cada um e a todos, superando-se toda e qualquer carência.

 

2.6       É clara a necessidade de continuamente relativizar toda e qualquer ação no campo social. Nenhum projeto social é definitivo, na medida em que é uma expressão concreta de uma tentativa de solucionar problemas, desafios, que trazem no seu interior luz e sombras. O importante é projetar a luz como capaz de estabelecer etapas de um processo, em permanente superação, tendo em vista que sempre surgirão novos desafios ao esforço humano-divino de libertação.

Ao longo deste processo, o importante são as atitudes, a maneira permanentemente ativa, corajosa e construtiva, que desperta ações livres, conscientes, em busca de expressões mais válidas para a justa construção de uma vida fraterna, no âmbito das pequenas comunidades e grandes instituições da vida nacional.

 

2.7       Face à crescente manipulação dos mecanismos de opinião pública e das instituições educacionais, propõe-se como fundamental a educação permanente para fazer frente a tais situações. Os pequenos instrumentos ao alcance da massa, transformando-a em grupos de reflexão e decisão, livre e corresponsável, são capazes de fazer frente aos sistemas e ideologias, que permanentemente ameaçam os mais justos e autênticos valores humanos. O importante é que esta pastoral educativa da Igreja crie núcleos vitais, capazes de fazer frente aos sistemas de veiculação de mensagens, numa atitude permanentemente crítica.

As Comunidades Eclesiais de Base, enquanto manifestam novas forças emergentes, superando as antigas e diferentes lideranças, são testemunho de que algo semelhante pode ser levado a efeito junto às forças vivas dos meios de comunicação social e instituições educacionais.

 

       Atividades propostas

 

   A) SETOR — AÇÃO SOCIAL

 

   1.         Levantar dados e informações que aprofundem aspectos regionais e nacionais, capazes de iluminar diferentes  projetos de desenvolvimento mais justos e conformes aos direitos fundamentais da pessoa humana, particularmente quanto à posse da terra, melhor distribuição das riquezas, caráter social da propriedade privada, maior valorização do trabalho humano etc.

 

   2.         Refletir sobre estes dados e criar subsídios acessíveis às Comunidades Eclesiais e grupos interessados para uma maior explicitação dos conteúdos sociais da fé.

 

   3.         Promover cursos ou encontros para responsáveis de organismos de promoção social (Obras sociais paroquiais, Cáritas, MEB FASE* etc.), para juntos refletirem sobre a justa autonomia de suas organizações e necessária pedagogia comum que ressalte o sentido comunitário, corresponsável, livre e participativo de toda e qualquer ação social da Igreja.

 

   4.         Promover reflexão mais ampla com pessoas particularmente sensíveis ao aprofundamento de uma pedagogia atenta ao valor dos instrumentos humanos precários, capazes de conduzir a uma autêntica promoção humana e mudanças sociais.

 

   5.         Análise mais detalhada e sistematicamente verificada das experiências no campo social que promovem os direitos fundamentais da pessoa humana, ressaltando a dignidade, igualdade e o caráter social da propriedade privada.

 

   6.         Conhecimento e contato com instituições, eclesiais ou não, que atuam no campo da defesa jurídica das violações dos direitos fundamentais da pessoa humana.

 

   7.         Dinamização das Comissões de Justiça e Paz em todos os níveis.

 

   8.         Promover reflexão mais global e elaborar subsídios, através de grupos competentes e representativos, para uma análise das causas mais profundas das violações dos direitos humanos.

 

   9.         Promover reflexão mais ampla e elaborar subsídios com grupos representativos, sobre o problema religioso, enquanto envolve toda a vida humana, ressaltando a autonomia da Comunidade Eclesial e qualificação dos seus membros para agir no campo social.

 

   10.       Promover cursos ou encontros para divulgação da reflexão sobre as causas mais profundas das violações dos direitos humanos e a legítima colocação do problema religioso, envolvendo toda a vida humana.

 

   11.       Localizar,  junto aos grandes órgãos de comunicação social, os núcleos de pessoas capazes de rever, à luz da fé, as ambigüidades e valores de tais órgãos.

 

   12.       Criar subsídios capazes de ajudar as comunidades e os núcleos de vida cristã a tomar uma posição crítica face aos meios de comunicação social.

 

 

   B)         SETOR — MEIOS DE COMUNICAÇÃO SOCIAL

 

 

   1.         Assumir os MCS como instrumentos a serviço de toda a Pastoral da Igreja.

 

   2.         Promover estudos e cursos, encontros, seminários sobre a importância, influência e uso adequado dos MCS.

 

   3.         Estimular a organização e aperfeiçoamento dos Setores Regionais e Diocesanos dos MCS.

 

   4.         Estudar com as Escolas Católicas de Comunicação a problemática da formação cristã dos comunicadores.

 

   5.         Estabelecer uma pastoral permanente, em nível nacional, regional e diocesano, com os profissionais da comunicação.

 

   6.         Estimular a colaboração dos profissionais católicos de Rádio e Televisão, para assumirem a problemática da rádio difusão das Emissoras de orientação católica.

 

   7.         Estabelecer uma ação pastoral junto aos profissionais de cinema e teatro, visando a promoção e produção de filmes e peças que ressaltem os valores humanos e espirituais.

 

   C)         SETOR — EDUCAÇÃO

 

 

   1.         Desenvolver a ação pastoral não só nos centros docentes mas em todos os demais setores de influência educativa (família, ambiente externo, Meios de Comunicação Social, grupos de lazer).

 

   2.         Promover e dinamizar os organismos que oferecem aos homens oportunidade de ascenderem a um crescimento global.

 

   3.         Promover, organizar, apoiar (onde já existe) uma educação de base que não vise só alfabetizar mas também capacitar o homem e torná-lo agente consciente do seu desenvolvimento.

 

 

CAPÍTULO IV

 

SISTEMÁTICA GERAL DO PROCESSO DE PLANEJAMENTO NA AÇÃO PASTORAL DA IGREJA NO BRASIL

 

Mais do que uma técnica sofisticada, o planejamento é a explicitação metódica de um processo natural de ação racional. Busca, através da reflexão, elaborar decisões lúcidas que atendam às necessidades da realidade, e orientem uma ação em que os recursos limitados tenham o melhor emprego em vista a maiores resultados. Uma de suas características mais marcantes é a convivência dos esforços resultando num trabalho mais unido e fecundo.

Aplicado à ação pastoral, o planejamento significa, da parte da Igreja, a consciência do valor de um instrumental humano e sua fidelidade em assumir os meios humanos mais adequados para que o desígnio salvífico de Deus aconteça com fecundidade em cada momento da História. Em sua introdução, o Plano de Pastoral de Conjunto citava, a propósito, a palavra de Paulo VI "A atividade pastoral não pode processar-se às cegas. O apóstolo não ocorre no encalço do incerto e bate no ar (1Cor 9,26). Hoje foge a acomodação e ao perigo do empirismo. Um sábio planejamento pode oferecer também à Igreja um meio eficaz e um incentivo de trabalho".

A Igreja no Brasil, sobretudo na época imediatamente pós conciliar, retomou em maior profundidade a ação pastoral planejada anteriormente pelo Plano de Emergência. O Plano de Pastoral de Conjunto e os posteriores Planos Bienais dos organismos nacionais da CNBB, bem como os vários planos regionais e os inúmeros planos diocesanos, formam uma caminhada expressiva. Hoje em dia não é temerário afirmar que a Igreja no Brasil chegou a uma expressiva e talvez rara experiência no campo do planejamento pastoral.

A XIV Assembléia Geral (Itaici, SP, novembro de 1974) marcou o último momento importante dessa caminhada. Nela as Diretrizes Gerais da Ação Pastoral foram atualizadas e uma renovada consciência do lugar e sentido do planejamento pastoral foi explicitada, a partir da experiência vivida nos últimos dez anos.

Justamente a consciência do "como" a técnica de planejamento deve ser aplicada à pastoral e algumas opções de seu encaminhamento em âmbito nacional, constituem o que chamamos de "Sistemática Geral do Planejamento Pastoral", cujas principais notas delineamos a seguir. Elas se referem aos critérios ou condições aos encaminhamentos gerais do processo de planejamento aplicado à pastoral em âmbito nacional.

 

*

 

   1.         Critérios ou condições gerais do processo de

               planejamento aplicado à pastoral

 

Tais critérios dizem respeito à dimensão eclesial no processo de Planejamento em sua adoção implantação e concretização.

 

1.1       A dimensão eclesial à adoção do processo

 

Ao adotar o processo de planejamento em sua ação pastoral, a Igreja do Brasil não visa simplesmente introduzir uma técnica de maior eficácia na obtenção de resultados. Igualmente não pretende substituir a presença do Espírito e a corresponsabilidade de toda a comunidade eclesial por uma tecnocracia pastoral.

A sistemática, isto é, a maneira de se aplicar o processo de planejamento deve marcar a consciência das perspectivas e dos riscos da técnica colocada a serviço da construção do Reino.

A técnica de planejamento deve ser assumida não apenas como processo mais acurado de ação, mas como instrumento de expressão da própria vivência eclesial. Na medida em que a emprega, a Igreja visa não apenas uma ação mais racionalizada, mas uma ação mais eclesial, isto é, uma ação que expresse suas notas características de comunidade e corresponsabilidade. Assim o processo de planejamento não será apenas um instrumental para a Igreja agir mais e melhor, mas um caminho para ser mais e melhor na prática e naquilo que anuncia de si mesma.

 

1.2       A dimensão eclesial na implantação do processo

 

Na ação pastoral, a própria implantação do processo de planejamento deve ser marcada, desde o início, por uma sistemática coerente com a natureza da ação eclesial. Essa sistemática deve abrir mão de qualquer pretensão de imposição vertical tipo rolo compressor, onde as pessoas se vissem coagidas a executar as coisas ou a se isolarem da ação pastoral na atitude de desinteresse ou protesto.

A sistemática de planejamento deve ser assumida numa visão dinâmica e educativa. Na verdade, o planejamento não é apenas uma nova maneira de fazer as mesmas coisas, mas supõe novos hábitos, novas atitudes, nova mentalidade. Mas o próprio processo, quando aplicado pedagogicamente, tem virtualidades para provocar essas mudanças. Isso supõe que a sistemática do processo de planejamento pastoral atenda a três condições básicas:

 

1.2.1       A despretensão. O planejamento não pode aparecer como a panacéia de solução para a ação pastoral. Ele não é uma fórmula mágica capaz de ser resposta para qualquer situação. Por outro lado, é preciso, desde o início, estar consciente dos limites da técnica aplicada à ação pastoral. A construção do Reino não é quantificável como a produção industrial ou a obtenção de lucros. A ação pastoral não se guia por critérios exclusivamente rentáveis e aceitáveis; muitas vezes será preciso empreender ações difíceis que trazem em seu bojo a possibilidade de contradições e ataques. Não se planeja a salvação, não se controla os dons do Espírito. Na ação pastoral, o planejamento, desde o início, deve ter consciência de que os objetivos visados e perseguidos, pelo processo mesmo, extrapolam o instrumental técnico e são igualmente atingidos pela ação incontrolável da generosidade e fidelidade dos agentes, pela presença da graça e ação do Espírito.

 

1.2.2       A participação. Na ação pastoral a técnica do planejamento deve visar a participação de todos os que se empenham na ação Pastoral. Embora com possível prejuízo de uma eficácia maior a curto prazo, é preciso encontrar uma sistemática que evite a nítida divisão de trabalho entre planejadores e meros executores.

 

1.2.3       O gradualismo. A não ser em casos muito especiais, o processo só será educativo e propiciará uma participação progressiva, na medida em que sua implantação for gradual. Isso não significa deixar simplesmente as coisas correrem, esperando que o tempo resolva, o que é o risco de todo gradualismo. Significa, sim, que se defina uma sistemática muito precisa de trabalho em várias etapas e que os passos dentro de cada etapa sejam visualizados refletidos e definidos de antemão. Antes de chegar a um plano diocesano, é possível, já dentro do processo, prever fases mais ou menos longas de reflexão e decisão, ainda em grau de diretrizes.

O mesmo se diga quanto à amplidão dos planos: pode ser bom que um plano diocesano global de ação pastoral seja elaborado só depois de um tempo de experiência do processo aplicado a planos setoriais menores.

 

1.3       A dimensão eclesial na concretização do processo

 

O processo de planejamento se concretiza através de 4 fases fundamentais, que no desenrolar do tempo se interpenetram e se alimentam num movimento circular acumulativo: fase de reflexão e decisão, fase de montagem do plano, fase de acompanhamento, fase de avaliação. Na ação pastoral, todas essas fases, empregando o máximo de recursos e dados técnicos, têm que ultrapassar os limites da técnica através de conteúdos e clima onde a eclesialidade da ação seja marcada.

 

1.3.1       A fase de reflexão, sem prejuízo da objetividade científica, será realizada dentro do aprofundamento da própria missão, numa constante busca de fé e numa fidelidade sempre renovada.

O conhecimento da realidade, lançando mão de todo instrumental disponível das ciências sociológicas, é projetado no pano de fundo de busca de fidelidade aos apelos do Espírito, que se manifestam nos sinais dos tempos e são perceptíveis apenas no clima de fé e oração.

As decisões não são meras conclusões lúcidas da autoridade, mas exercício e expressão de corresponsabilidade do presbitério e da comunidade, através dos organismos de participação.

 

1.3.2       Na montagem do plano, as atividades (projetos e programas) são definidos a partir das necessidades da base, respeitando sua originalidade e a criatividade. A precisão na elaboração dos programas não se confunde com apelos a projetos grandiosos, que extrapolam a capacidade das Igrejas em termos de recursos humanos, técnicos e financeiros. Os meios humildes e pobres são extremamente fecundos e aptos na construção do Reino. O próprio documento que resulta da redação do plano tem que ser um instrumento simples de trabalho a altura dos agentes, e jamais uma publicação que tenha mais o sabor de proclamação triunfal de um pequeno grupo de iluminados.

 

1.3.3       A terceira etapa do processo, o acompanhamento, é, em termos pastorais, sobretudo um serviço de animação e auxílio fraterno que supre as deficiências na execução das atividades. A firmeza do acompanhamento, já que está em jogo todo um plano — pois as atividades se inter-relacionam e interdependem — deve abrir mão de qualquer pretensão policialesca e centralizadora, tão comuns em outras esferas onde a técnica do planejamento é adotada.

 

1.3.4       A quarta e última etapa, a avaliação, deve ultrapassar de muito a simples intenção de medir os resultados imediatos e distribuir as culpas. A avaliação é o momento privilegiado de uma profunda e humilde revisão da vida e ação da Igreja. Ela deve, além do rigor dos dados positivos e negativos levantados, questionar a fidelidade, a generosidade e disponibilidade dos agentes e das comunidades.

As várias etapas do planejamento, vividas e executadas nessa dimensão de "eclesialidade", fazem do processo de planejamento um instrumento apto para cada Igreja particular moldar sua fisionomia própria e original de sinal-instrumento de salvação, encarnado numa realidade concreta, consciente de seus caminhos característicos e capaz de passos para percorrê-lo.

 

2.   Encaminhamentos gerais do processo de planejamento pastoral em âmbito nacional

 

Podemos explicitá-los em quatro pontos:

 

  Unidade pastoral nacional através de Diretrizes Gerais

 

  Planejamento por objetivos

 

  Planejamento a partir de prioridades

 

  Distinção e interação dos vários níveis.

 

 

2.1       Unidade pastoral nacional através de Diretrizes Gerais

 

A unidade da ação pastoral em âmbito nacional é procurada através de Diretrizes Gerais da ação pastoral e não através de um Plano Nacional de Pastoral. A grande diferença reside no fato de colocar o grau de unidade pastoral apenas em grandes linhas, em grandes direções e opções, sem descer a ações específicas, determinadas e particulares.

Por isso mesmo, a Igreja no Brasil, através de seus Bispos, definiu um conjunto de diretrizes gerais para a ação pastoral. Essas diretrizes devem inspirar variados e diferentes conjuntos de atividades, que são os planos de pastoral. Esses planos, elaborados à luz das mesmas diretrizes e expressando as mesmas opções fundamentais, serão bastante diferentes entre si quanto às atividades, à maneira concreta de encaminhá-las (sistemática operacional, duração etc.).

A razão dessa primeira e fundamental opção de encaminhar o processo, é a situação diferente das várias Igrejas particulares quanto ao contexto da realidade sóciocultural e quanto aos recursos disponíveis. Por outro lado, se pretende uma unidade pastoral em âmbito nacional (pastoral de conjunto), será preciso elaborar também planos de ação dos organismos regionais e nacionais de Igreja. Ora, estes planos são de natureza distinta dos planos diocesanos, já que se situam em outros níveis, como veremos abaixo.

A opção feita pelo Episcopado garante a unidade da pastoral em âmbito nacional (Diretrizes Gerais comuns, para todos), ao mesmo tempo que atende ao pluralismo de situações pastorais diversas (planos de pastoral diversos).

 

2.2       Planejamento por objetivos

 

Ao definir o conteúdo e os caminhos fundamentais da ação pastoral (Diretrizes) em termos de objetivos, a Assembléia dos Bispos fez uma opção metodológica importante. Essa opção define a maneira básica do encaminhamento do processo para todos os níveis. É um planejamento por objetivos. Como um dos pontos de sistemática geral, ela garante a fidelidade contínua e sempre mais aprofundada à missão específica da Igreja.

Planeja-se bem à medida em que constantemente se é capaz de responder a duas questões fundamentais:

a)            O que pretendemos fazer? (qual o objetivo desta atividade concreta?)

b)            Em que medida e de que maneira o pretendemos fazer? Nosso objetivo operacional, ou determinada atividade concreta está ligada à missão da Igreja (objetivos gerais) e conduz a sua realização?

Aplicado à pastoral, o planejamento por objetivos concretos, sempre buscados e definidos à luz dos objetivos gerais impede que a pastoral seja unilateral e que as atividades sejam tomadas como um fim em si mesmas, ao mesmo tempo que propicia um constante aprofundamento da missão da Igreja e sua adaptação e encarnação na realidade concreta.

O planejamento por objetivos tem ainda outras vantagens na ação pastoral. Ele não coloca a unidade entre os vários níveis, nem entre os agentes e instituições de um mesmo nível (a diocese, por exemplo) nas coisas que se fazem, nem na maneira de fazê-las, nem no ritmo da ação.

A unidade está no objetivo a ser conseguido, objetivo que deve em cada nível ser adaptado, concretizado, explicitado e precisado com o máximo de dados. São as chamadas metas. Uma vez definidas, todos buscam convergir para elas seu trabalho, dentro de suas possibilidades e carismas diferentes. Dessa maneira, no caso de uma diocese, todos os agentes, instituições e organismos de Igreja podem realizar uma ação unitária, não precisando fazer a mesma coisa ao mesmo tempo. Basta que cada um, naquilo que faz, tenha bem clara a meta comum e faça de sua ação própria uma contribuição ao esforço comum para atingi-la.

 

2.3       Planejamento a partir de prioridade

 

Na elaboração de seus planos de pastoral, a Igreja no Brasil decidiu identificar, em cada período, certas áreas cuja importância e urgência merecem uma concentração de atenção, esforços e recursos. É o que se chama prioridade pastoral.

Em termos concretos, planejar a partir de áreas prioritárias significa fundamentalmente duas coisas:

a)            Uma atenção e uma relevância especial, em toda a ação pastoral, com referência àquela área.

b)            Um programa especial de atividades (onde isso for necessário) com relação a essa mesma área.

O Episcopado não só decidiu que a ação pastoral fosse planejada a partir de áreas prioritárias, mas, inclusive, indicou as prioridades para o próximo exercício pastoral em âmbito nacional6.

As prioridades são de âmbito nacional, isto é, são válidas para todos os níveis de Igreja (nacional, regional, diocesano e de base com seus respectivos organismos e instituições). Mas o tratamento concreto dessas prioridades varia conforme os níveis.

No nível nacional, elas indicam obrigatoriamente certos programas fundamentais de atividades do biênio, devendo ser assumidas todas elas por dois anos.

No nível regional e sobretudo no nível diocesano, elas supõem ulteriores decisões, tais como:

*  Deverão ser todas assumidas ao mesmo tempo?

*  Deverão ser todas assumidas com igual peso?

*  Por quanto tempo serão trabalhadas?

*  Há, em âmbito regional ou no âmbito de cada diocese, alguma outra prioridade característica que deve ser assumida?

O planejamento a partir de prioridades deve levar em consideração sempre o conjunto da ação pastoral, e, à luz dos objetivos gerais, impedir que a pastoral se torne unilateral, trabalhando apenas alguns aspectos determinados.

 

2.4       Distinção e interação dos vários níveis

 

Em âmbito nacional, o processo de planejamento pastoral é executado em vários níveis.

O nível "central", como ponto de referência do planejamento pastoral, é o nível diocesano. Realmente a Igreja particular é a unidade fundamental das decisões que orientam, condicionam e expressam a ação da Igreja. Por isso, quando falamos em Plano de Pastoral, pensamos, antes de mais nada, num plano diocesano de pastoral. Pensamos na Igreja que existe num determinado lugar concreto, num contexto específico sócio-cultural. Essa Igreja, para melhor realizar sua missão, reflete sobre seus objetivos, perscruta sua realidade, faz suas opções concretas, organiza um conjunto de atividades a partir de seus recursos, acompanha a execução dessas atividades, avalia seu conjunto refletindo sobre o que realizou para fazer novas opções, definir novas atividades etc., num processo dinâmico permanente.

Esse nível "central" compreende outros níveis interiores a si mesmos isto é, o nível de base, comunidades, paróquias, organismos, instituições e os níveis intermediários, onde isso for útil: (zonal, vicarial etc.). Esses níveis interiores são níveis de concretização do processo de ação pastoral: é aí que tudo o que a Igreja; particular decidiu, passa a ser realidade na ação pastoral do dia-a-dia.

Em outra esfera, circundando o nível "central encontramos os níveis regional e nacional. São fundamentalmente os níveis de serviço subsidiários, para que o nível "central" possa ter todos os dados e instrumentos necessários à sua ação pastoral.

O nível regional, sobretudo, promove a aproximação entre as várias Igrejas da região, através de auxílio e apoio mútuo; a troca de serviços; a reflexão sobre a realidade regional; o aproveitamento e adaptação no regional, do material e subsídios do nível nacional.

No nível nacional, os serviços são sobretudo a produção de subsídios, o levantamento máximo de dados e a organização de instrumental mais amplo para os regionais e dioceses (grandes projetos de reflexão; pesquisas e levantamentos maiores; capacitação mais especializada de pessoal e organização de serviços e organismos necessários à pastoral em âmbito nacional).

Percebe-se assim — embora o objetivo, o conteúdo e o encaminhamento geral da ação pastoral (diretrizes) sejam único para todos os níveis — que a natureza particular dessa ação, os tipos de atividades e os caminhos concretos de realizá-la (planos de pastoral) são múltiplos e diferentes entre si.

Isso supõe que as organizações concretas que promovem o processo e a própria maneira concreta de planejar, executar e acompanhar as atividades (sistemática operacional) sejam diversas nos vários níveis.

 

Assim as organizações do nível nacional para o processo de planejamento:

 

  Comissão Episcopal de Pastoral (órgão de decisão)

  corpo de assessores permanentes (órgão de assessoria)

  coordenação (órgão de acompanhamento) e

  Comissão Nacional de Pastoral (órgão de reflexão), não são um modelo a ser repetido nos regionais e dioceses.

 

O essencial é que se defina em cada nível as responsabilidades em termos de reflexão, de decisão, de coordenação, e de serviços especiais para apoio ao processo (assessoria).

No nível diocesano, de âmbito menor e mais homogêneo, o mesmo órgão (Conselho de Pastoral e Conselho Presbiteral, por exemplo), podem ser ao mesmo tempo o órgão de reflexão e de decisão corresponsável com o bispo. Igualmente, uma pequena equipe pode cumular as funções de assessoria e coordenação. A criação desses órgãos pode, aliás, seguir o processo gradualista de progressivo enriquecimento, alargamento de participantes e de atribuições.

O essencial é que se perceba que não existe um modelo a ser copiado de um nível por outro e nem dentro de um mesmo nível.

Igualmente, a sistemática operacional não pode ser copiada. O fato de o Plano dos organismos nacionais ter quatro ou cinco programas, não indica modelo para qualquer regional ou diocese. Planos bienais reconhecidos como mais adaptados ao nível nacional podem não expressar o melhor tempo para planos regionais ou diocesanos. A técnica de reflexão em grupo, o método de elaboração de atividades, o sistema de acompanhamento e avaliação devem, da mesma forma, ser definidos em cada nível a partir de seus recursos e preferências.

O essencial é que haja fidelidade às diretrizes, isto é, aos grandes objetivos e as grandes linhas da sistemática geral. Isso garante o grau de unidade pastoral desejável e necessária em âmbito nacional e possibilita a permeabilidade dos vários níveis, o aproveitamento maior dos trabalhos de um nível por outro, e uma organicidade pastoral que não abafa a criatividade nem impõe modelos estereotipados a realidades diversificadas.

 

 

 

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Fonte: Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB

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