|
ANO 1995 1970 1972 |
Nº de Circuns- crições ecles 182 197 ... |
Área ter- ritórial 8.465.591 8.456.508 8.456.508 |
Habitantes 81.301.000 94.058.000 99.598.200 |
Paróquias 4.764 5.577 5.712 |
Habitantes por Paróquias 17.065 16.865 17.436 |
SACERDOTES Total
Secular Religiosos 12.790 4.872
7.918 13.152 5.086
8.066 12.929 5.036
7.893 |
Habitantes P/1 Sacerdotes 6.366 7.151 7.703 |
Fonte: CERIS,
Departamento de Estatística
ESTATÍSTICAS DA
ORDEM, CONGREGAÇÕES, SOCIEDADES E INSTITUTOS MASCULINOS E FEMININOS
|
ANO |
Número de Sedes
de Governo e Represen-tações de Congrega-ções |
Casas e
Residências |
Religiosos Não Sacerdotes |
Religiosas Professas |
||||
|
1965 1970 1972 |
Masculino 206 231 239 |
Feminino 377 462 463 |
Masculino 2.013 2.450 2.540 |
Feminino 3.854 4.524 4.611 |
Int. Cler. 1.805 1.722 1.700 |
Inst. Laic. 1.879 1.439 1.320 |
Vida Mista 37.781 39.152 39.475 |
Vida Cont. 1.284 1.310 1.252 |
Fonte: CERIS,
Departamento de Estatística
VOCAÇÕES PARA A
VIDA SACERDOTAL E RELIGIOSA
(1960 — 1972
|
|
CLERO SECULAR |
CLERO RELIGIOSO |
IRMÃOS NOVIÇOS |
IRMÃS NOVIÇAS |
|||||||||||||||||||||
|
ANO |
SeminaristasMaiores |
Seminaristas
Menores |
Seminaristas
Maiores |
Seminaristas
Menores |
Inst. Clericais. |
Inst. Laicais |
Vida Mista |
Vida Cont. |
|
||||||||||||||||
|
1960 |
1.066 |
6.503 |
1.937 |
10.005 |
131 |
164 |
3.897 |
82 |
|
|||||||||||||||||
|
1961 |
... |
... |
1.802 |
7.983 |
... |
180 |
3.897 |
82 |
|
|||||||||||||||||
|
1962 |
922 |
5.094 |
1.772 |
9.341 |
... |
176 |
2.881 |
91 |
|
|||||||||||||||||
|
1963 |
841 |
4.427 |
1.875 |
9.584 |
81 |
142 |
3.353 |
93 |
|
|||||||||||||||||
|
1964 |
885 |
5.020 |
1.951 |
10.910 |
118 |
43 |
3.362 |
63 |
|
|||||||||||||||||
|
1965 |
642 |
4.363 |
1.923 |
11.421 |
119 |
92 |
3.252 |
76 |
|
|||||||||||||||||
|
1966 |
898 |
5.100 |
1.964 |
11.539 |
159 |
83 |
3.054 |
90 |
|
|||||||||||||||||
|
1967 |
932 |
5.458 |
1.700 |
11.149 |
105 |
65 |
2.816 |
107 |
|
|||||||||||||||||
|
1968 |
870 |
4.576 |
1.665 |
10.077 |
62 |
58 |
2.322 |
81 |
|
|||||||||||||||||
|
1969 |
... |
... |
1.525 |
9.220 |
40 |
85 |
1.663 |
55 |
|
|||||||||||||||||
|
1970 |
757 |
3.424 |
1.444 |
7.937 |
67 |
34 |
1.493 |
67 |
|
|||||||||||||||||
|
1971 |
820 |
2.239 |
1.292 |
6.970 |
32 |
27 |
1.167 |
66 |
|
|||||||||||||||||
|
1972 |
801 |
2.552 |
1.303 |
6.117 |
26 |
18 |
1.192 |
54 |
|
|||||||||||||||||
|
Fonte: CERIS,
Departamento de Estatística |
Rio de Janeiro,
31-01-1975 |
|
|||||||||||||||||||||||
CAPÍTULO
II
OS
OBJETIVOS DA AÇÃO PASTORAL
Para o planejamento pastoral do
período 1975 — 1978, a Assembléia Geral do Episcopado Brasileiro (Itaici, SP,
novembro de 1974), resolveu manter o objetivo geral e os seis objetivos
específicos formulados no "Plano de Pastoral de Conjunto 1966-1970".
Transcrevemos deste documento a formulação dos objetivos, com algumas
explicações que os acompanhavam, e acrescentaremos um novo comentário,
procurando indicar como a compreensão desses objetivos foi-se aprofundando nos
últimos anos.
1. Objetivo geral da ação da Igreja no "Plano de Pastoral de Conjunto"
Sintetizando as grandes perspectivas da Lumen Gentium, e em especial do
capítulo primeiro, podemos afirmar que o objetivo geral de ação da Igreja é:
Levar todos os
homens à plena comunhão de vida com o Pai e entre si, em Jesus Cristo, no
dom do Espírito Santo, pela mediação
visível da Igreja.
"O objetivo último de todo o mistério de salvação é esta comunhão
de vida interpessoal dos homens em Cristo, e, por Cristo, com toda a Trindade.
Esta relação interpessoal de amor é dom gratuito de Deus que tanto amou o
mundo, que lhe deu seu Filho Unigênito (Jo 3,16), mas exige igualmente dos
homens uma resposta livre e pessoal de amor".
2. Objetivo geral desdobrado nos seus objetivos
específicos
2.1 — "Este desígnio de salvação, Cristo o
realiza e manifesta na comunidade visível da Igreja, de tal modo que a
sociedade provida de órgãos hierárquicos e o Corpo Místico, a assembléia
visível e a comunidade espiritual... formam uma só realidade constituída de
elementos divinos e humanos" (LG 8).
"Como primeiro objetivo específico, nossa ação pastoral visa
renovar e dinamizar a Igreja no seu próprio ministério de comunidade,
estreitando sua unidade visível".
Mais exatamente, o l.º objetivo
foi assim formulado:
— Levar o Povo de Deus, reunido na Igreja Católica, a uma maior comunhão
de vida em Cristo, através da realização sempre mais plena de sua unidade
visível.
"Este objetivo requer a renovação de todos os membros do Povo de
Deus para uma vida evangélica mais autêntica, para o melhor desempenho da
missão a que foi chamado, para um aproveitamento mais pleno e comunitário dos
carismas que lhes foram comunicados pelo Espírito Santo. Exige especialmente o
pleno exercício do ministério hierárquico: do colégio episcopal, tendo o Papa
como cabeça visível, da Conferência Episcopal, do bispo em sua diocese ou no
desempenho da tarefa especial que lhe foi confiada, do presbitério unido a seu
bispo.
Este objetivo requer ainda a renovação das diversas estruturas em que se
realiza esta comunidade de Igreja: comunidade de base, a paróquia, a zona
pastoral, a diocese, as regiões pastorais, a Conferência episcopal, o Conselho
continental, a Igreja universal".
2.2 — "Nossa segunda reflexão visa a renovar as
atividades fundamentais da comunidade de Igreja e seus níveis de realização. A
semelhança do organismo humano, a Igreja possui uma dinâmica permanente de
crescimento extensivo. Aprofundando a unidade do todo, exerce atividades
diversas em níveis diversos.
A atividade máxima e o nível supremo da realização da Igreja é o
ministério eucarístico, que constitui a fonte e o ponto culminante de toda a
sua vida. Em função da Eucaristia, e dela dimanando, desenvolve-se toda a vida
sacramental e litúrgica, especialmente os sacramentos do Batismo e da
Confirmação, que com ela constituem os sacramentos da iniciação cristã".
Em função dos sacramentos e especialmente da Eucaristia, mas os
precedendo e preparando, aprofundando e continuando, a Igreja proclama,
explicita e interioriza em todos os seus membros o ministério da Palavra de
Deus, na pregação, na catequese, na comunicação da doutrina, para que a vida de
fé, esperança e caridade, a vida no Espírito Santo, nele cresça e se
intensifique.
Para aqueles que ainda não chegaram à fé e ao conhecimento de Cristo, e
ainda não estão inseridos na comunidade visível, para aqueles que, embora
batizados, vivem apenas uma fé implícita, a Igreja, pela Palavra e pelo
testemunho de vida, desenvolve uma ação missionária, anuncia a mensagem que os
leva à primeira conversão, a adesão pessoal a Cristo, à inserção consciente e
participante na comunidade visível.
2.3 — "São essas as atividades básicas e os
três níveis fundamentais de realização da Igreja. Não são três compartimentos
estanques, mas três fases crescentes de um mesmo processo vital. Para aqueles
que já vivem uma fé explícita e uma participação pessoal e efetiva na
comunidade de Igreja, a ação pastoral desenvolverá o nível litúrgico e a
explicitação e interiorização da Palavra de Deus. Para todos aqueles que ainda
não chegaram à fé ou a vivem apenas implicitamente, será decisivo o
desenvolvimento de uma ampla e intensa ação missionária".
2.4 — "Baseados nessas reflexões, podemos
situar o segundo, terceiro e quarto objetivos específicos de nossa ação
pastoral assim enunciados:
2º — Levar
os homens à primeira adesão pessoal a Cristo, através do anúncio missionário da
Palavra e do testemunho de vida evangélica.
3º — Levar
o Povo de Deus a uma maior comunhão de vida em Cristo, através da Palavra e do
testemunho de vida evangélica, que iluminam e alimentam.
4º — Levar
o Povo de Deus a uma maior comunhão de vida em Cristo, através do culto
litúrgico integral e das celebrações da Palavra.
Anotamos nesta enumeração a ordem mais vital: o homem que se converte e
adere a Cristo e inserido na comunidade visível da Igreja, nela aprofunda sua
vida cristã, interiorizando a Palavra de Deus, e participa de sua realização
máxima, que é a Eucaristia".
*
2.5 — "Esta é a única Igreja de Cristo, que
subsiste na Igreja católica, governada pelo sucessor de Pedro e pelos Bispos,
em comunhão com ele. Hoje, porém, são numerosas as comunhões cristãs que se
apresentam aos homens como legítima herança de Jesus Cristo. Todos se professam
discípulos do Senhor, mas têm pareceres diversos e caminham por rumos
diferentes. Quase todos, porém, se bem que de modo diverso, aspiram a uma
Igreja una e visível que seja verdadeiramente universal e enviada ao mundo
inteiro.
Esta situação histórica levou o Concílio a imprimir em toda a ação da
Igreja uma perspectiva ecumênica. Além de renovar a Igreja no seu ministério de
comunidade, nas suas atividades básicas e nos seus três níveis de realização, a
pastoral deve, pois, renová-la nas suas relações e no diálogo com os irmãos
separados". A ação ecumênica constitui o nosso quinto objetivo específico,
que assim enunciamos :
5º — Levar
o Povo de Deus a uma maior comunhão de vida em Cristo, através de uma autêntica
ação ecumênica.
*
2.6 — "A Igreja não se identifica com a
comunidade dos homens e sua História, mas nela vive e está presente. Esta sua
presença no temporal e sua relação com a História dos homens faz parte do seu
próprio mistério, embora nas diversas épocas e nos diversos lugares se expresse
e concretize de maneira peculiar. O Vaticano II significou uma viva tomada de
consciência, aprofundamento e explicitação deste aspecto do mistério da Igreja.
A ação pastoral deve, pois, à luz do Concílio, repensar e renovar, em cada
contexto humano, as relações da Igreja com a família humana e sua presença
concreta na História dos homens. Este constitui nosso sexto objetivo que assim
formulamos:
6º — Levar
o Povo de Deus a uma maior comunhão de vida em Cristo, através de sua inserção
como fermento na construção de um mundo segundo os desígnios de Deus''5.
3. Para uma compreensão mais profunda dos objetivos
pastorais
3.1 — Os objetivos do "PPC", como vimos,
estão fundamentados nos documentos do Concílio Vaticano II e, particularmente,
na constituição sobre a Igreja, Lumen Gentium.
Após o Vaticano II, a renovação da Igreja, conduzida pelo Santo Padre, o
Papa Paulo VI, e pelo episcopado mundial, com ampla participação de todas as
comunidades católicas, levou a aprofundar os princípios doutrinais e a
reconhecer melhor os caminhos e meios práticos da ação missionária e pastoral
da Igreja.
É o que reconhece também o Episcopado Brasileiro, votando na XIV
Assembléia Geral (Itaici, novembro de 1974), ao mesmo tempo, a continuidade dos
objetivos e das linhas de ação pastoral e a renovação das
"justificativas" e das diretrizes concretas. Em outras palavras, a
ação pastoral no Brasil se inspira na fidelidade aos princípios do Vaticano II
e no dinamismo e progresso da própria atuação desses princípios.
Sem pretender sintetizar aqui dez anos, entre os mais fecundos na
reflexão teológica e na criatividade pastoral, tanto para a Igreja universal
como para nossas Igrejas locais, sugerimos algumas reflexões que ajudem a
compreender e aprofundar melhor os objetivos da ação pastoral inspirados pelo
Concílio, assim como agora se apresentam.
*
3.2 — Já o próprio Concílio havia completado a
doutrina da Lumen Gentium com a constituição pastoral Gaudium et Spes e com
vários decretos, que permitem explicitar de modo mais amplo a missão da Igreja.
Longe de conceber a Igreja como fechada em si mesma, o Vaticano II
ressaltou ainda mais o caráter missionário da Igreja, sua relação com o mundo e
a humanidade inteiro, dando pleno vigor à afirmação da Lumen Gentium, que na
Igreja vê o "sacramento" ou o "sinal e instrumento" da
unidade de todo o gênero humano.
A relação peculiar entre a Igreja e o mundo (cf. GS c.I; c.IV, 40-45) faz que a Igreja não só leve ao
mundo a contribuição insubstituível e única do anúncio do Evangelho e da
salvação eterna, mas que também preste ao mundo sua colaboração para a promoção
da dignidade humana e a solução de problemas terrenos (cf. GS 42 e 43), e de
outro lado receba do mundo valores sociais e culturais (GS 44).
Contra possíveis dúvidas, o
Sínodo dos Bispos de 1971 achou por
bem reafirmar: "A ação pela justiça e a participação na
transformação do mundo aparecem-nos claramente como uma
dimensão constitutiva da pregação
do Evangelho, que o mesmo é dizer, da
missão da Igreja, em prol da
redenção e da libertação do gênero
humano de todas as situações opressivas" (Introdução ao Doc. do Sínodo de
1971).
Nesta mesma perspectiva, no Sínodo dos Bispos de 1974, encontraremos
repetidas afirmações, assim resumidas nos documentos finais: "A ação
evangelizadora da Igreja inclui necessariamente, como parte integrante, também
a solidariedade e a colaboração com os homens que se esforçam por alcançar uma
libertação plena e um desenvolvimento integral. Porque a Igreja é sinal de
Cristo, deve realizar em toda situação sua obra de libertação... Deve cumprir
sua missão profética, julgando a sociedade humana e a si mesma, condenando o
mal, as decisões perversas, as estruturas injustas. Deve ajudar a que mudem os
corações dos homens e as condições de vida... Tarefa da Igreja não é só dar ajuda
material para resolver os problemas e as dificuldades da miséria e da
injustiça, mas dar uma inspiração cristã a toda a obra de progresso e de
libertação. (...) É necessário que a obra do cristão seja sempre
testemunho de sua fé e de seu
amor para com Cristo... A
questão não é entre evangelização e progresso, nem mesmo se um
ou outro é mais importante. A Igreja considera ambos
partes integrantes de
sua missão total" (Síntese
das intervenções, III, A. 4). "Experimentamos uma profunda unidade em
reafirmar a íntima conexão entre a obra da evangelização e a libertação
(plena)... A Igreja pode fazer muito para procurar a salvação integral, ou
seja, a plena libertação dos homens" (Declaração final).
3.3 — Parece essencial, teologicamente, aprofundar
o conceito de Igreja-sacramento. Se ela é sinal, e também instrumento da
salvação de todos, não significa que a graça de Deus não possa agir fora das
fronteiras da Igreja institucional e visível. Pelo contrário, a Igreja
manifesta de modo mais consciente e mais pleno o que o Espírito de Deus suscita
e prepara em toda a História dos homens. O Concílio Vaticano II já tinha
ressaltado fortemente como todos estão, de algum modo, unidos ou ordenados ao
Povo de Deus (cf. LG 13, § 4º).
Também entre aqueles que não chegaram a um
conhecimento expresso de Deus, a graça divina está agindo e oferecendo caminhos
de salvação. "Tudo o que de bom e verdadeiro se encontra entre eles, a
Igreja julga o como uma preparação evangélica dada por Aquele que ilumina todo
homem, para que enfim tenha a vida" (LG 16). Tanto mais
entre os que
praticam as diversas
religiões da humanidade
encontramos "sementes do
Verbo" ou "lampejos da Verdade'' (AG 11, §
2º; NA 2, § 2º; cf. LG 16). Nas
religiões não-cristãs
não mais devemos
ver "rivais" ou
"obstáculos" à obra
da evangelização, mas
a elas devemos
prestar estima e
até amizade (cf. Discurso de Paulo VI, na abertura do Sínodo, 27/9/1974). Ainda mais em
relação aos cristãos separados, "que não guardam a unidade da comunhão sob
o sucessor de Pedro", o Concílio nos ensinou a ver o que nos une a eles
mais do que aquilo que nos divide. Fez-nos reconhecer "certa união
verdadeira no Espírito Santo" que
temos com eles; fez-nos praticar a fraternidade
(cf. GS 92).
Este novo enfoque da ação da graça divina nos homens, retifica o nosso
modo de conceber a Igreja e sua ação missionária e pastoral. Não se trata de
salvar algo que estava totalmente perdido, mas a fidelidade ao Espírito de
Cristo, no diálogo e no respeito mútuo, no intercâmbio espiritual e na
fraternidade.
3.4 — Nasce daí, sem dúvida, a maior atenção ao
reconhecimento e à apreciação dos valores religiosos e culturais próprios de
cada povo e dos diversos grupos sociais, o que, aliás, o próprio Concílio
Vaticano II desejava, o Sínodo de 1974 enfatizou de modo particular, e nossa
experiência pastoral sempre mais exige.
Em diversos continentes e países sente-se hoje a necessidade de maior
"aculturação" do cristianismo. Já há tempo se exige, na América
Latina, nova compreensão da cultura e da religiosidade do povo (cf. Doc. de
Medellín, 1968, c.6). Esta "encarnação" mais profunda do catolicismo
implica maior responsabilidade das Igrejas locais, sua crescente vitalidade,
sem prejuízo da comunhão universal e do espírito de responsabilidade colegial
que o Vaticano II avivou em toda a Igreja Católica.
A consciência de que a Igreja deve ser "sinal" para o mundo,
aumentou sua preocupação para com a "imagem" que dela têm os homens
de hoje. Como foi recordado no Sínodo de 1974, a "credibilidade da Igreja
não se pode contentar com ser interior; deve ser também exterior". Daí a
necessidade de adotar os meios que podem levar a isso, mudando certos aspectos
exteriores, que os cristãos ainda podem entender, mas que não falam mais aos
homens de hoje, a muitos jovens.
3.5 — A Igreja é, ao mesmo tempo, santa e
pecadora. Pede a Deus o dom da coerência, da simplicidade evangélica, da
fidelidade plena e generosa a missão e ao exemplo de Jesus Cristo; mas
reconhece também seus limites, suas falhas, suas fraquezas, e pede perdão. Seu
testemunho assim é autêntico. Ela encontra, desse modo, o caminho do seu
progresso, que é um caminho de conversão, de incessante "penitência e renovação"
(cf. LG 8, § 3º; GS 43, § 6º).
Todas essas reflexões convergem numa só, particularmente importante em
relação aos objetivos do planejamento e da ação pastoral.
A Igreja, nos últimos anos, nesse período de renovação e mudanças
profundas, foi levada a reconhecer e a experimentar mais profundamente a
interdependência e a unidade profunda de suas tarefas ou ações. Se em outra
situação, mais estável, determinada por tradições e costumes seculares, era
menos evidente a inter-relação entre os diversos aspectos da ação pastoral ou
entre as diversas atuações da Igreja, hoje é muito mais evidente a
interdependência entre evangelização e "sacramentalização", entre
proclamação do Evangelho e ação pela justiça, entre edificação da comunidade
cristã e atuação missionária entre vida "interna" da Igreja e sua
significação para o mundo.
3.6 — Nem é possível, em certo sentido,
distinguir-se rigidamente uma atividade "interna" (ad intra) e uma
atividade "externa" (ad extra) da Igreja. Tudo o que se faz na Igreja
tem valor de sinal para o mundo. Toda a existência da Igreja é evangelizadora,
missionária. Como, de outro lado, toda atividade catequética, litúrgica ou
comunitária da Igreja não se desenvolve fora do mundo, mas assumindo a
realidade humana (antropológica, cultural), que já é trabalhada pela graça, embora também sempre ameaçada pelo
pecado.
3.7 — A distinção de dois objetivos específicos da
ação pastoral não tem, portanto, de modo algum, o sentido de separar linhas de
ação que devem ser coordenadas e convergem num único objetivo. Essa distinção
serve, antes, para descrever, de modo mais pormenorizado e completo, aspectos
de uma ação complexa mas unitária.
Nasce daí uma regra que poderíamos chamar de "autenticidade"
da ação pastoral. Uma linha de ação será autêntica, isto é, inserida no esforço
comum da missão de Cristo e da Igreja, na medida em que não pretenda se separar
ou isolar das outras linhas de ação. Uma unidade da Igreja fim em si mesma, que
sentido teria? Uma evangelização só voltada para a transmissão de uma doutrina,
mas esquecida da dimensão comunitária da vida cristã? Uma liturgia desligada da
evangelização? Um empenho na construção do mundo sem perspectiva de fé ou, ao
contrário, uma vivência religiosa que pretendesse voltar-se para Deus
esquecendo a fraternidade e a justiça nesta terra? Tudo isto constituiria uma
deformação da missão da Igreja o da existência cristã.
3.8 — Os diversos objetivos específicos
evidenciam, como podemos procurar, o único objetivo geral de um modo adequado,
completo, sem deformações ou falhas demasiadamente grandes. E quando a força
das circunstâncias leva alguém — uma pessoa ou uma comunidade — a se empenhar
especialmente numa linha de trabalho, em vista de um objetivo específico, a
autenticidade do empenho o levará a estender e abranger gradualmente os outros
aspectos essenciais da ação pastoral e da missão da Igreja. Diante de
prioridades urgentes e de apelos imediatos, o planejamento tem por finalidade
importante não só dispor do modo mais racional de nossos recursos e meios, mas
também nos garantir contra possíveis deformações dos objetivos de nossa
pastoral e nos ajudar a edificar a Igreja de Cristo como Ele a quer: como
aquela Humanidade adulta "que realiza a plenitude de Cristo".
"Vivendo segundo a verdade e na caridade, cresceremos de todas as maneiras
para Aquele que é a Cabeça, o Cristo, cujo corpo recebe coesão e concórdia
pelas articulações de muitos membros, realizando seu próprio crescimento
e edificando-se no amor" (Ef 4,15-16).
CAPÍTULO
III
LINHAS
FUNDAMENTAIS DE TRABALHO
A partir dos seis objetivos específicos já estabelecidos, são aqui
propostas seis "linhas de trabalho", cada uma correspondente a um dos
objetivos
Para cada "linha" são fornecidas:
— uma
"justificativa", ou seja, a indicação de elementos que fundamentam e
orientam o trabalho;
— algumas sugestões de
atividades, que poderão ser integradas em "projetos" de programas ou
planos de trabalho pastoral dos diversos níveis (diocesano, regional,
nacional).
LINHA 1 - UNIDADE VISÍVEL
Promover vida a comunitária da Igreja e sua unidade visível, para que
seja sempre mais sacramento da unidade de todos os homens.
1. O mistério da caridade
Cristo rezou: "Eu te peço, ó Pai... que todos sejam um —
como tu estás em mim e eu estou em ti — para que o mundo creia..." (Jo
17,20-21). De modo semelhante, o Apóstolo pede: "esforçai-vos por
conservar a unidade do espírito no vínculo da paz. Há um só corpo e um só
espírito, uma só vocação a esperança...
Há um só Senhor, uma só fé, um só batismo. Há um só Deus e Pai de todos,
que está acima de todos, por todos e em todos" (Ef 4,3-6).
A unidade da Igreja, cujo fundamento é a unidade de Deus, sinal de
esperança da unidade de todos os homens, é dom da graça, mas exige o empenho
dos cristãos. É algo que deve ser continuamente edificado sobre o fundamento
estabelecido uma vez para sempre (cf. Ef 2,20; 1Cor 3,10ss).
As linhas diretrizes desse trabalho de edificação têm como alicerces:
a) a concepção da unidade própria da Igreja;
b) a articulação concreta da Igreja no mundo;
c) o papel dos diversos membros da Igreja.
1.1 — É a partir de sua realização escatológica,
quando os eleitos serão o Povo de Deus (Ap 21,3) e Deus será tudo em todos
(1Cor 15,28), que se esclarece plenamente o mistério de unidade da Igreja.
Sendo a Igreja este povo reunido por Deus, é Ele que lhe comunica a
unidade do Pai, do Filho e do Espírito Santo (Cf. Cipriano, De Orat. Dom. 23).
É pelo Espírito Santo, enviado permanentemente pelo Cristo glorioso para
a santificação dos fiéis (Cf. LG 2;4), que Deus congrega o seu povo. "Deus
enviou o Espírito de seu Filho, Senhor e Fonte
de vida que
congrega toda a Igreja, cada um e todos os crentes; é
ele o princípio da unidade
na doutrina dos Apóstolos, na comunhão (fraterna),
na fração do
pão e nas orações" (LG 13,
§ 1º).
1.2 — A unidade de Deus não é uniformidade. Deus,
no mistério da Santíssima Trindade, é comunhão das três pessoas: Pai, Filho e
Espírito Santo.
Analogamente, a unidade dos cristãos é unidade de pessoas diversas
"na verdade e no amor" (cf. UR 2 § 5º). "Resguardando a unidade
nas coisas necessárias, todos na Igreja, segundo o múnus dado a cada um,
conservem a devida liberdade, tanto nas várias formas de vida espiritual e de
disciplina, quanto na diversidade de ritos litúrgicos, e até mesmo na
elaboração teológica da verdade revelada. Mas em tudo cultivem a caridade"
(UR 4, § 7º).
A unidade da Igreja é a expressão da multiplicidade dos dons daquele
"que sopra onde quer" (Jo 3,8; cf. LG 4). A Igreja universal se
enriquece pela diversidade de tradições, ritos e costumes das diversas Igrejas
particulares (cf. OE 5; SC 38) e pelo patrimônio espiritual e cultural dos
diversos povos (LG 13, § 3º). Toda Igreja local se desenvolve pela diversidade
de seus membros, pela variedade das funções que desempenham, pela
multiplicidade de dons e carismas que recebem e colocam no serviço da
comunidade (cf. AA 3, § 4º; LG 12, § 2º; 13, § 3º).
O Apóstolo Paulo apresentou uma imagem exata dessa unidade orgânica da
Igreja, comparando-a com o corpo que Deus dispôs de tal modo que não haja
divisão, mas que os membros tenham o mesmo cuidado uns para com os outros.
"Se um membro sofre, todos padecem com ele; se um membro é honrado, todos
se regozijam com ele..." (1 Cor 12,24-26).
A unidade da Igreja não exclui a diversidade ou o legítimo pluralismo;
pelo contrário, com ele se enriquece. Mais exatamente: só a diversidade pode
constituir o fundamento daquela unidade orgânica que é própria da Igreja. Se
isto foi esquecido por algum tempo e se agora uma situação histórica manifesta
mais claramente o pluralismo (cf. Documento CEP/CNBB "Unidade e Pluralismo
na Igreja" 29.2.1972, nº 20-22), devemos acolher esse fato com serenidade
e perceber nele a ocasião de melhor testemunhar a unidade e a catolicidade da
Igreja.
1.3 — A unidade externa, visível da Igreja, é
sinal de sua unidade interior e profunda. Esta é fundamento daquela. Seria vão
buscar uma unidade externa aparente, que não fosse realmente fundada sobre o
Cristo, como não tem valor de salvação a adesão à Igreja daquele que lhe
pertence "com o corpo" mas não "com o coração" (cf. LG 14).
Deus por seu Filho, no Espírito, une para si na Igreja um povo pela Fé e
pelo Evangelho, pelos sacramentos e pela Eucaristia, pelo Serviço Apostólico e
pelos Carismas.
A fé é o princípio primeiro de existência e de unidade da Igreja.
Mediante o Evangelho e a Eucaristia, (cf. CD 11), por meio da Palavra de
Deus e dos sacramentos, o Espírito Santo reúne o Povo de Deus. Em outras
palavras, a unidade da Igreja — cujo princípio está na própria ação do Espírito
— constrói-se concretamente ao redor da palavra de Cristo, o Evangelho, e dos
sinais eficazes de sua graça, os sacramentos, especialmente a Eucaristia.
Pelo Serviço Apostólico, ou o que dele se deriva, ao qual está
especialmente confiado o ministério da Palavra e dos Sacramentos, se promove a
comunhão na caridade dos fiéis. "O Romano Pontífice, como sucessor de
Pedro, é o perpétuo e visível princípio e fundamento da unidade, quer dos
Bispos quer da multidão dos fiéis. E os Bispos individualmente são o visível
princípio e fundamento da unidade em suas Igrejas particulares, formadas a
imagem da Igreja universal, nas quais e pelas quais subsiste a Igreja católica
una e única" (LG 23). Mas, Deus reúne seu povo e constrói a Igreja de seu
Filho, também, por todos os dons e serviços que o Espírito suscita na
comunidade cristã.
1.4 — A unidade da Igreja, que o Espírito Santo
realiza pela Palavra, pelos sacramentos e pelos ministérios, não é fim em si
mesma. Tem por finalidade suscitar a fé em Cristo, alimentar e promover a
esperança da unidade e da paz entre todos os homens. "Todos os homens são
chamados a esta católica unidade do povo de Deus, que prefigura e promove a paz
universal. A ela pertencem ou são ordenados de modos diversos quer os fiéis
católicos, quer os outros crentes em Cristo, quer enfim todos os homens em
geral, chamados à salvação pela graça de Deus" (LG 13, § 4º).
O Concílio Vaticano II sublinhou fortemente, em diversos
documentos, essa missão
da Igreja: ser sacramento, isto
é, sinal e instrumento da unidade de todo o gênero humano (LG 1; SC 2; UR 2; NA
1). "Promover a unidade e a caridade entre os homens é seu dever..."
(NA 1).
Para ser sinal, a Igreja cuidará que seu testemunho seja entendido pelos
homens de sua época. Procurará discernir nos acontecimentos, nas exigências e
nas aspirações de nossos tempos, quais sejam
os sinais verdadeiros
que podem revelar aos homens
o plano divino e os caminhos de
sua plena realização (cf. GS 11, § 1º).
Procurará, por exemplo, "a caridade fraterna dos fiéis, que colaboram
unânimes para a fé do Evangelho e se apresentam como um sinal da unidade"
(GS 21, § 5º).
Para ser sinal de unidade para todos os homens, a Igreja empenhar-se-á
também, de modo especial, na reconstrução da unidade entre os cristãos e do
diálogo entre as religiões (cf. UR, NA e a linha 5 do Plano de Pastoral).
2. Articulação da Igreja no mundo
2.1 — A Una, Santa, Católica e Apostólica Igreja
se manifesta, no mundo, através das Igrejas particulares ou locais (cf. LG 13,
§ 3º; OE 2; CD 11). No presente texto as expressões "Igreja
Particular" e "Igreja Local" são equivalentes: indicam uma
porção do Povo de Deus tendo à frente um bispo. Assim ela se torna presente em
diversas situações históricas, geográficas e culturais. Por isso a Igreja
particular ou local pode ser dita "a principal manifestação da
Igreja" (cf. SC 41) e deve possuir legítima autonomia, quer dizer, ser
dotada de todos os meios necessários para conservar sua identidade na ordem da fé,
dos sacramentos e dos serviços hierárquicos, para que possa cumprir sua missão.
2.2 — Para que na Igreja local, extensão
territorial e populacionalmente, seja visível o mistério de comunhão, é
necessário que se estruture em comunidades menores, sempre vinculadas ao
ministério apostólico, quais sejam: a paróquia e as comunidades de base.
Particularmente as paróquias confiadas a um pastor local, que as governa,
fazendo as vezes do bispo, "representam de algum modo a Igreja visível
estabelecida por toda a terra" (cf. SC, 42).
Comunidades menores, enquanto se esforçam para permanecer em comunhão
com a Igreja local e seus pastores, representam também uma genuína manifestação
da Igreja, pois "onde dois ou três estão congregados em meu nome, aí estou
eu no meio deles", diz o Senhor (Mt 18,20).
Um dos principais desafios da ação pastoral no Brasil é, certamente, a
multiplicação das "comunidades de base", que possam responder ao
anseio do povo para uma vida plenamente eclesial, alimentada pela palavra de
Deus e os sacramentos, especialmente a Eucaristia.
Essas comunidades assumirão
dimensões e formas
tais que permitam uma
vida realmente comunitária, fraternal, que as
torne "sinal de
comunhão e de
unidade" em seu
meio (cf. AA 18, § 2º e 3º). Elas são chamadas a constituir, nos
diversos lugares e ambientes, "comunidades de amor" e
"comunidades de fé": "É no amor que tiverdes uns pelos outros
que vos reconhecerão por meus discípulos" (Jo 13,35).
2.3 — A Igreja Particular ou local manifesta plenamente
a Igreja de Cristo não somente criando, no seu âmbito, formas de vida
comunitária e testemunhos de fé e fraternidade, mas também através do exercício
ativo de sua comunhão com as Igrejas-Irmãs e especialmente com a Igreja de
Roma, centro e princípio da comunhão católica.
O estreitamento das relações com o Santo Padre, a solicitude para com as
necessidades da Igreja universal, a cooperação entre Igrejas particulares, o
exercício colegial das responsabilidades pastorais especialmente em nível
nacional e regional, através da organização da Conferência Nacional dos Bispos
do Brasil (CNBB), são não somente modos de atender mais eficazmente à missão
comum, mas também um sinal indispensável de unidade e fraternidade perante o
mundo.
Até mesmo as possíveis divergências entre Igrejas locais, ou seus
pastores, podem ser ocasião para um testemunho profundamente eficaz de
compreensão e caridade, quando a solução do conflito é procurada em espírito de
diálogo e de comunhão (cf. "Unidade e Pluralismo na Igreja", nºs
33-34).
3. Os diversos membros da Igreja
3.1 — Por instituição divina, a Igreja é
estruturada e regida com admirável variedade (LG 32, § 1º). "Pois, como em
um só corpo temos muitos membros, mas todos os membros não têm a mesma função,
assim nós, embora sejamos muitos, somos um só corpo em Cristo, e cada um de nós
somos membros uns dos outros" (Rm 12,4-5).
Em virtude dessa estrutura, os membros da Igreja têm uma
responsabilidade comum e tarefas específicas. Comum é a dignidade dos membros.
Comum é a graça. Comum é a vocação à perfeição. Há pois na Igreja
"igualdade quanto à dignidade e à ação comum" entre todos os fiéis
(cf. LG 32, § 3º).
3.2 — Esta corresponsabilidade de todos pela
missão da Igreja deve-se traduzir não somente pela fraternidade e serviço
mútuo, mas também pela participação nas decisões que interessam a todo o corpo
da Igreja.
As estruturas eclesiais de corresponsabilidade e de co-participação
assumiram formas diversas no decorrer da História. Em nosso tempo, o Concílio
Vaticano II, as disposições da Santa Sé e a experiência pastoral instituíram
várias formas concretas de participação de todos os fiéis — diretamente ou
através de representantes — na elaboração das decisões que afetam a vida
pastoral e comunitária (Conselhos Pastorais, Assembléias, "sínodos"
locais etc.).
Tais instituições, bem como os órgãos de coordenação da ação pastoral e
os que facilitam o exercício colegial dos ministérios, em (diversos níveis,
devem ser mantidos e desenvolvidos, sempre visando a maior participação de todos
na ação comum.
3.3 — No exercício da responsabilidade comum e na
edificação da obra comum, cada um dará a contribuição específica conforme os
dons que recebeu e as funções que lhe foram confiadas.
Todo cristão tem um papel próprio e insubstituível a realizar para o
crescimento do corpo
de Cristo, pois a vida cristã é, por sua natureza,
serviço (cf. Mt 20,26-27; 23,11;
Mc 9,35; 10,43; Lc 22,26).
"Os leigos são especialmente chamados para tornarem a Igreja
presente e operosa naqueles lugares e
circunstâncias onde apenas através
deles ela pode chegar como sal
da terra" (LG 33, § 2º). "Cristo, o grande Profeta que proclamou o
Reino do Pai, quer pelo testemunho da vida, quer pela força da palavra,
continuamente exerce sua missão... não só através da hierarquia que ensina em
seu nome e com seu poder, mas também através dos leigos... Constituiu-os
testemunhas e os ornou com o senso da fé e a graça da palavra, para que brilhe
a força do Evangelho na vida cotidiana, familiar e social" (LG 35, § 1º).
"São chamados por Deus, para que... guiados pelo espírito evangélico, a
modo do fermento, de dentro, contribuam para a santificação do mundo" (LG
31). E, como os problemas transcendem as forças de cada um, também para os
leigos vale a necessidade da conjunção de esforços e da inserção na
"pastoral de conjunto" (cf. AA 18).
3.4 — A vocação batismal do cristão é reassumida
hoje na Igreja, em sentido mais radical, por aqueles que, sem abandonar a
secularidade de vida peculiar aos leigos, assumem o compromisso de consagração,
seja em institutos seculares seja de outra maneira dentro das Igrejas
Particulares. Tal carisma confere a esses cristãos uma possibilidade rica e
fecunda de disponibilidade maior para a construção do Reino, na sociedade
moderna.
3.5 — Os religiosos também são chamados a
uma função apostólica peculiar na Igreja. Por sua natureza, a vida religiosa
tende a expressar o que a Igreja é enquanto Igreja: novidade escatológica. A
totalidade do que a Igreja é em todos os seus membros deve tornar-se mais
nitidamente consciente naqueles que, na alegria da fé, se entregam sem
restrições à vocação cristã. O que todos são torna-se mais evidente nos
religiosos. Assim, a vida religiosa é importante Para a Igreja toda. O mesmo
Espírito que dá este carisma e eleva à entrega radical ao Amor divino, suscita
também as diversas formas concretas de solidariedade com o mundo a salvar. A Igreja
não só não deve "apagar o Espírito" (1Ts 5,19),
mas deve dar lugar aos diversos carismas. Os religiosos, por sua parte, devem
colocar seus carismas ao serviço da Igreja, especialmente da Igreja local, para
o "maior proveito possível de todos" (1Cor 12,7).
3.6 — Entre os diversos ministérios, sobressai o ministério
hierárquico, por ser mais decisivo para a estruturação da Igreja. O bispo,
sucessor dos Apóstolos, tem a missão e o poder de promover a unidade de sua
Igreja Particular, de vinculá-la a outras Igrejas Particulares e de
representá-la na comunhão da Igreja Universal. De modo semelhante, os presbíteros,
postos para dirigirem as comunidades locais, são nelas sinal de unidade e
animadores daquela vida de fraternidade e de fé que alimentam pela Palavra e
pela Eucaristia. Em união com o ministério ordenado, muitos outros ministérios
— para o serviço da comunidade cristã e do mundo — são suscitados pelo
Espírito. Por eles os cristãos participam ativamente na edificação da Igreja e
se edificam mutuamente. E o ministério ordenado, não sobrecarregado de outras
funções, é ressaltado e valorizado em seu papel próprio e insubstituível.
3.7 — A unidade da Igreja é uma unidade que deve
ser construída permanentemente. Também ela é exposta à desunião e ao pecado.
Devemos saber superar, no amor, nossas fraquezas e nossas divisões.
Haverá "certos aspectos humanos e deploráveis da Igreja" a
corrigir. Mas não devemos chegar à atitude de alguns que "se arrogam esta
função com tanta arbitrariedade e radicalismo que — talvez sem o perceberem —
ofendem e até quebram aquela comunhão, não só institucional, mas espiritual, à qual
— no fundo — querem ficar ligados. Eles chegam a cortar o ramo, separando-o do
fluxo vital da planta que o sustentava ..." (Paulo VI, 28.11. 1973).
Devemos amar a Igreja concreta, em cada lugar, em cada paróquia, em cada
diocese. A unidade, na humildade e no amor, é a primeira forma de testemunhar
nossa fé no mistério da Igreja, que nos ultrapassa, porque é o próprio Senhor
glorioso. Só pelo testemunho que empenha todo o nosso ser podemos atestá-lo,
"para que o mundo creia".
A unidade da Igreja, sinal da unidade de todos os homens é um bem que
devemos pedir na oração, pela intercessão da Mãe de Deus, "para que
interceda junto a seu Filho até que todas as famílias dos povos, tanto as que
estão ornadas com o nome de Cristão, como as que ainda ignoram seu Salvador, sejam
felizmente reunidas na paz e concórdia, no único Povo de Deus, para a glória da
Santíssima e indivisa Trindade" (LG 69).
Atividades
propostas
A) SETOR — ESTRUTURA DE IGREJA
1. Incentivar a renovação das estruturas eclesiais diocesanas,
paroquiais, e de base para que sejam realmente comunitárias.
2. Criar clima de diálogo e participação entre os membros da
Igreja em todos os níveis e em todas as estruturas.
3. Promover intensa comunicação (contatos pessoais, encontros,
boletins etc.) entre as pessoas em cada nível de Igreja, e entre os vários
níveis.
4. Intensificar a criação e animação dos organismos de
corresponsabilidade em todos os níveis.
5. Incentivar todas as iniciativas que dentro da estrutura
paroquial visem criar condições para uma pastoral mais comunitária,
corresponsável e participada.
6. Suscitar e apoiar processos pastorais que visem a criação de
comunidades eclesiais na base, seja a partir das paróquias, e através de grupos
na zona urbana, seja a partir das capelas nas zonas rurais.
7. Promover, ao nível da Igreja particular, um constante
esforço de reflexão a partir da realidade, em busca de uma pastoral que
expresse a fisionomia original de cada Igreja e seja uma resposta aos desafios
do mundo em que está inserida.
8. Promover em todos os níveis o processo de planejamento
pastoral.
9. Dinamizar as coordenações de pastoral e os serviços e
assessorais ao nível zonal (vicariatos, comarcas etc.), diocesano, regional e
nacional.
10. Promover a capacitação de coordenadores diocesanos de
pastoral.
11. Dinamizar e atualizar o sistema de bens eclesiásticos, dentro
de um profundo sentido pastoral, e criar meios para a ação pastoral em todos os
níveis.
12. Racionalizar a administração diocesana e criar o conselho
administrativo de forma a poder caminhar progressivamente para um orçamento e
programa que possibilitem reais planos de pastoral.
13. Incentivar, ao nível diocesano, paroquial e de base, o
processo de substituição do sistema de taxas pelo sistema do dízimo como
contribuição sistemática e periódica, através do qual cada comunidade assume
corresponsavelmente sua sustentação.
14. Promover a corresponsabilidade entre as Igrejas ao nível
regional e nacional, através da ajuda concreta, troca de serviços pastorais,
apoio e solidariedade real frente às dificuldades.
15. Promover uma sempre mais crescente representatividade das
Igrejas particulares nas assembléias regionais e nacionais da CNBB, sobretudo
através da participação do presbitério e lideranças dos membros da Igreja junto
ao bispo diocesano na preparação das assembléias e posterior discussão e estudo
de seus resultados e conclusões.
16. Refletir, ao nível regional, aprofundar e assumir o sentido e
as condições de uma real representatividade do regional nas várias promoções do
nacional e sobretudo nas reuniões da Comissão Nacional de Pastoral e da
Comissão Representativa.
B) SETOR — MINISTÉRIOS HIERÁRQUICOS
1. Promover a vivência do ministério hierárquico como animador
e promotor da unidade eclesial em todos
os níveis.
2. Promover a unidade e a corresponsabilidade hierárquica ao
nível da Igreja particular através do presbitério e do Conselho de Presbíteros,
e ao nível regional e nacional através do clero.
3. Criar condições para uma sempre maior atualização dos
ministros hierárquicos, através de cursos para Bispos e presbíteros, em nível
diocesano, regional e nacional.
4. Criar condições de apoio para a vida comunitária e trabalho
em equipe, entre os ministros hierárquicos, seja ao nível da Igreja particular,
seja ao nível regional e nacional para aqueles Bispos e presbíteros que prestam
serviço nos organismos regionais e nacionais da CNBB.
5. Prosseguir na reflexão, em todos os níveis, sobre as
condições, dificuldades e perspectivas do exercício do ministério hierárquico
na Igreja e no mundo de hoje.
6. Aprofundar a reflexão e a busca de uma verdadeira
espiritualidade pastoral apropriada aos ministros hierárquicos, sobretudo
através de estudos dos presbíteros diocesanos e comissões regionais e nacionais
do clero.
7. Promover, em todos os níveis, oportunidades e instrumental
de animação espiritual para Bispos e presbíteros (retiros, dias de
espiritualidade, publicações etc.).
8. Quanto ao ministério diaconal, desde que o problema do
diaconato permanente cede lugar diante da importância da diversificação dos
ministérios, sua progressiva configuração e implantação tem melhores condições
de visualização a partir da problemática geral dos ministérios.
C) SETOR — PASTORAL VOCACIONAL
1. Encontrar soluções para o problema vocacional respeitando as
características específicas e a originalidade da Igreja local, isto é,
verificar até onde o pluralismo dos ambientes (rural, urbano etc.) influenciam
decisivamente na sua configuração como comunidade de salvação inserida em
determinado contexto.
2. Caracterizar melhor os agentes de pastoral liberados para
maior e criatividade na promoção vocacional.
3. Assessoria para criação de Centros Vocacionais (nível
regional, diocesano).
4. Conhecimento e análise crítica das experiências de
encontros, informais ou não, entre aqueles que pensam seriamente numa definição
vocacional mais específica.
D) SETOR — FORMAÇÃO
1. Levando em conta as tendências na formação (aperfeiçoamento
das atuais instituições e busca de novas formas), conhecer mais detalhadamente
tais experiências (problemática formativa; pontos positivos, negativos e
perspectivas).
2. Breves encontros de formadores (levando em conta as várias
tendências) e preparar uma avaliação da "Ratio" adaptada à situação
brasileira.
3. Conhecimento e acompanhamento mais sistemático da
experiência de formação de presbíteros, adaptada a determinados ambientes (p.
ex. rural etc.).
4. Como analisar e programar iniciativas que prevejam a íntima
dependência da ação evangelizadora da Igreja nos próximos anos sob o impacto de
profundas transformações, e o surgimento de novos ministérios e vocações
específicas (ministérios, presbíteros, vida religiosa).
5. Dado de realidade: é cada vez mais nítida a consciência dos
responsáveis formadores, quanto à necessidade de que os futuros presbíteros se
formem dentro de uma perspectiva das necessidades das Igrejas Particulares.
Necessária diversificação da formação para atender a estas necessidades.
6. De que maneira a dimensão e as opções pastorais prioritárias
influenciarão nas atuais instituições de formação dos presbíteros.
Obs.: Levar em
consideração o necessário equilíbrio entre formação intelectual, profissional
e pastoral.
7. Intensificar o conhecimento e estímulo de experiências de
formação de vocacionados na sua própria base eclesial.
E) SETOR — NOVOS MINISTÉRIOS
1. Levar em consideração um melhor conhecimento das
experiências de estímulo e formação dos novos ministérios, tanto os ligados ao
culto como os ligados a outras dimensões da comunidade cristã.
2. Levar em consideração a seguinte perspectiva da realidade:
os novos ministérios surgem, aperfeiçoam-se formam-se e são autenticados lá
onde é intensa a participação do laicato e desenvolvida a ação missionária da
comunidade eclesial (Igreja voltada para novas situações, desafio à sua ação
evangelizadora).
3. Visitas mais detalhadas e tecnicamente conduzidas às
experiências. Análise das questões e tensões eventualmente surgidas,
encaminhamento de pistas de solução.
4. Isto para que a figura dos ministros diversificados
apresente-se, cada vez mais, identificada à experiência de Povo de Deus, e não
seja uma casta isolada.
5. Reflexão mais esclarecedora do que seja Ministério (nível
teológico-pastoral):
— O que é ministério.
— Diferença do ministério
ordenado e o sacerdócio comum dos fiéis.
— A escolha dos ministros
e o reconhecimento dos carismas.
— A participação da
comunidade na escolha e formação dos diferentes ministérios.
F) SETOR — RELIGIOSOS
1. Incentivar e sustentar a renovação da Vida Religiosa pedida
pelo Vaticano II e Medellín, baseando-a na sua fonte evangélica e no
aprofundamento do carisma próprio dos Institutos Religiosos e nos apelos da
realidade local.
2. Alimentar nos Religiosos e Religiosas dois pólos
fundamentais de renovação: a experiência de Deus e o espírito de discernimento,
individual e comunitário, como elementos imprescindíveis a uma conversão que
leve a uma vida religiosa mais coerente e exigente.
3. Fomentar nos Religiosos e Religiosas simultaneamente a
inserção ambiental e a vivência da dimensão transcendental, através da oração,
da pobreza, justiça e consciência da disponibilidade.
4. Fomentar nos Religiosos e Religiosas o elan missionário e a
dimensão de gratuidade.
5. Fazer com que as estruturas da Vida Religiosa sejam
flexíveis de modo a estimular a criatividade dos membros, e principalmente a
comunhão recíproca na experiência de Deus.
6. Levar os Religiosos a manifestarem sua comunhão não tanto
numa uniformidade de costumes (horários, estilo de vida), mas numa
complementaridade de carismas, trabalhos e vivência.
7. Levar os Religiosos a passarem de estruturas de isolamento a
uma atitude de inserção, não para se diluírem, mas para serem fermento do
Evangelho no mundo.
8. Que cada comunidade tenha como objetivo prioritário ser um
centro de comunhão e irradiação espiritual e apostólica na Igreja local.
9. Levar os Religiosos (os Religiosos presbíteros
principalmente), a tomarem consciência explícita de sua vocação religiosa e das
exigências de pertencer a um Instituto Religioso, como sendo o caminho
escolhido para serem fiéis ao Evangelho.
10. Trabalhar para uma melhor redistribuição geográfica dos
Religiosos, estudando os critérios mais evangélicos de prioridade.
11. Levar os Religiosos a julgar suas obras próprias em função do
bem prioritário da Igreja e da comunidade local.
12. Incentivar a integração das obras dos Institutos Religiosos na
Pastoral orgânica.
13. Apoiar, de modo especial, o aspecto contemplativo da Vida
Religiosa e incentivar o surgimento de novas expressões da mesma.
14. Dar condições às Religiosas para que se dediquem à orientação
de retiros para as diversas faixas do Povo de Deus.
15. Levar as Religiosas a terem o devido preparo, e dar-lhes
condições para serem co-responsáveis na Pastoral, participando em igualdade, do
processo de planejamento e de decisão.
16. Levar os Religiosos e Religiosas nas atividades pastorais a
trabalharem em equipes integradas com padres diocesanos e leigos, visando a
complementariedade dos carismas, trabalhando pela unidade.
17. Fazer com que os Religiosos estejam atentos aos desejos de
seus irmãos, sabendo deixar-se questionar por eles.
18. Levantamentos:
18.1 — Atualizar a localização e os dados numéricos
sobre entradas, saídas e falecimentos nas Províncias religiosas.
18.2 — Incentivar os Programas de levantamento da
realidade das Congregações religiosas.
18.3 — Continuar a sondagem sobre novas formas
de Vida Religiosa.
18.4 — Atualizar o levantamento sobre a formação
dada na Congregação.
19. Reflexão:
19.1 — Fomentar, em nível nacional e regional,
encontros inter-congregacionais de reflexão sobre a teologia da Vida Religiosa,
com periodicidade regular; e em nível diocesano e setorial fomentar encontros
inter-congregacionais de oração e reflexão, e estes mesmos encontros com Padres
diocesanos e leigos.
20. Formação:
20.1 — Consolidar em nível regional os noviciados e
junioratos inter-congregacionais, com direta participação dos respectivos
formadores.
20.2 — Proporcionar cursos de formação continuada,
tanto de ordem espiritual como de ordem técnica, por setores ou cargos.
20.3 — Assessorar, de modo especial, os Mosteiros
contemplativos femininos e as Pequenas Comunidades, tanto as inseridas na
Pastoral direta, como as profissionalizadas.
21. Coordenação:
21.1 — Constituir ou consolidar equipes de animação
da Vida Religiosa e de coordenação das atividades inter-congregacionais, em
todos os níveis — nacional, regional, diocesano e setorial.
21.2 — Incentivar o aproveitamento de subsídios já
existentes e a criação de novos, para o aprofundamento e atualização da Vida
Religiosa, especialmente a partir de revistas, publicações em geral e
gravações.
21.3 — Incentivar o intercâmbio entre as equipes de
coordenação segundo os diferentes níveis e entre a coordenação nacional e os
organismos internacionais de Igreja.
G) SETOR — INSTITUTOS SECULARES
E NOVAS FORMAS DE VIDA
CONSAGRADA NO MUNDO
1. Conhecer, ao nível da Igreja Particular, os Institutos
Seculares e os grupos de pessoas que vivem a consagração no mundo.
2. Promover o entrosamento e intercâmbio entre os Institutos em
vários grupos.
3. Promover a reflexão sobre essa vocação específica e sua
integração na Pastoral da Igreja Particular.
H) SETOR — LEIGOS
1. Leigos em geral
1.1 — Desenvolver as duas linhas de ação, que são,
ao mesmo tempo, provocadoras e frutos de um engajamento maior dos leigos na
vida da Igreja:
a) corresponsabilidade
—
na Igreja
—
na sua missão
b) participação
— na vida (culto, governo) e ação da
Igreja.
1.2 — Incentivar a criação dos organismos de
corresponsabilidade e participação
— Conselhos:
— Analisando,
nos que já existem, os frutos, as dificuldades
etc.
— Observando
e incentivando a participação de todas as
categorias: jovens, casais, meios e classes.
2. Movimentos de Leigos
2.1 — Deixá-los viver e crescer; incentivar,
através de encontros e participação em suas realizações e atividades, um
aprofundamento e um assumir, em nível de Igreja, de seus objetivos específicos
(carismas).
2.2 — Ver como grupos organizadores podem assumir
e responder às necessidades das Igrejas locais e das comunidades, emergentes
atualmente. Isto para não se prender somente aos movimentos e associações
atualmente existentes.
2.3 — Canalizar os carismas dos movimentos de
leigos para uma pastoral orgânica, fazendo-os participar das coordenações de
pastoral, diocesanas e regionais.
2.4 — Respeitar a autonomia reconhecida aos leigos
no assumir posições como Igreja dentro da sociedade.
2.5 — Criar um ambiente de diálogo para evitar
rupturas na unidade e na comunhão. Para isso, incentivar os organismos de
coordenação dos movimentos de leigos, em todos os níveis, que poderão ser os
porta-vozes dos mesmos junto aos Bispos.
2.6 — Refletir sobre a ação evangelizadora
ambiental a partir dos movimentos de Igreja e mesmo não confessionais
existentes, respeitando suas características (p. ex., sobre pastoral familiar:
os movimentos familiares e outras instituições que se dedicam à família; sobre
meio operário etc.).
2.7 — Promover encontros entre as Associações de
Leigos (mais de ordem da espiritualidade do que da ação), segundo suas
afinidades, para aprofundar sobre o sentido de sua ação pastoral.
2.8 — Promover momentos de reflexão e
questionamento da Pastoral de Juventude, para
analisar:
sua pedagogia e conteúdo
sua dinâmica
sua inserção na pastoral orgânica
sua ligação com a pastoral vocacional.
Isto sobretudo em nível regional, inicialmente. Portanto, também
incentivar as coordenações regionais de juventude. Este trabalho deve ser feito
juntamente com o setor catequese e ação missionária.
2.9 — Atualizar constantemente, através do CERIS,
os dados sobre os movimentos de leigos, sobretudo para conhecer e acompanhar os
mais regionais. Alguns ainda são desconhecidos da CNBB.
2.10 — Procurar acompanhar os grupos de leigos,
descomprometidos, mas que se dizem da Igreja, os grupos de reflexão, sobretudo
os mais caracterizados segundo a profissão liberal, ou segundo faixas etárias.
Também continuar acompanhando o movimento de renovação carismática.
3. Quanto à Ação dos Movimentos
3.1 — Respeitar as associações de leigos, enquanto
agentes do evangelização na comunidade humana; tentar enquanto possível,
ligá-los aos projetos da linha seis e da pastoral especial.
3.2 — Promover reuniões ou contatos para sentir
suas aspirações, e para questioná-los quanto à sua ligação com a Igreja.
3.3 — Organizar grupos de reflexão especializados,
que poderão assessorar a CNBB, segundo suas características de meio, culturais
e sociais, p. ex. equipes de pastoral familiar, operária, meios de comunicação,
de promoção social etc.
3.4 — Incentivar e apoiar a organização do já
decidido Conselho Nacional de Leigos, mantendo um relacionamento constante;
eventualmente o assessor de leigos poderá ser seu assistente.
3.5 — Esclarecer a função do assistente
eclesiástico nos movimentos, e as modalidades de escolha.
3.6 — Continuar e atualizar a edição do boletim de
comunicação entre os movimentos de leigos e com as coordenações diocesanas de
pastoral.
3.7 — Utilizar, para o planejamento pastoral, as
colaborações dos movimentos que, estando encarnados em seus meios, mais
facilmente podem detectar os sinais do Evangelho lá presentes.
LINHAS 2 - 3 - EVANGELIZAÇÃO — AÇÃO MISSIONÁRIA
L. 2. "Promover a educação da fé".
L. 3. "Promover a evangelização através da ação
missionária e em setores especiais de pastoral".
1. A Palavra de Deus na Igreja
1.1 — A revelação de Deus é História que começou
com o próprio mundo (Gn 1; Jo 1,3), e intervenção epifânica que, iniciada na
Antiga Aliança mediante a palavra da Lei e dos Profetas, chegou à sua plenitude
no Novo Testamento com a Encarnação da própria Palavra Cristo Jesus, Logos de
Deus.
Hoje já não ressoa do mesmo modo a voz de Cristo sobre a Serra, pois que
Ele foi exaltado como Senhor (Kyrios) à direita do Pai. Sua voz todavia
continua a chegar até nós através da Igreja que, tendo recebido o seu Espírito,
realiza o prolongamento dessa Palavra, feita carne. Presença continuada da
Encarnação do Verbo, a Igreja com seu múnus profético "torna
presente" a Sua missão profética (cf. LG 10-12; 34-36).
1.2 — A efusão do Espírito Santo no
dia de Pentecostes (At 2,4) não
foi ocasional e transitória, mas inaugurou uma nova economia, pois assegurava a
presença permanente do Espírito na Igreja. O Espírito que "falou pelos
profetas" é o mesmo que vivifica a Igreja e Lhe inspira a pregação da Boa
Nova de Salvação para que todos ouçam nas suas próprias línguas as grandezas de
Deus (At 2,11).
Os Apóstolos receberam a missão e os poderes de Cristo, incluindo o
carisma profético. O próprio Pedro, no seu primeiro discurso de Pentecostes,
reconhece esta continuidade do ministério profético, citando o texto do profeta
Joel (2,28-29).
Há, todavia, algo novo na nova economia salvífica: a comunidade
eclesial, tomada em seu conjunto, é sujeito do carisma profético e sinal dos
novos tempos messiânicos; além disso, o carisma profético eclesial não é
esporádico, mas presença permanente do Espírito.
A verdadeira agente de evangelização é, portanto, a Igreja — comunidade
profética — enquanto comunidade que pelo próprio Cristo foi constituída como
lugar eficaz e sinal vivo de Sua própria profecia.
1.3 — Função essencial da Igreja e razão própria
de sua existência, a evangelização é consequentemente tarefa da Igreja toda,
isto é, tarefa que todos os seus membros, sob o influxo do Espírito Santo,
devem exercer, ainda que sob títulos diversos e conforme sua condição.
Por ser membro da Igreja e, por isso, participante do múnus profético de
Cristo, todo autêntico cristão é, por natureza, um evangelizador: deve
sentir-se co-responsável e ser exortado e preparado para o exercício de sua
missão profética.
2. Dimensão evangelizadora da formação cristã
2.1 — É tendência muito acentuada hoje empregar-se
"evangelização" num sentido mais amplo e abrangente, incluindo, além
do primeiro anúncio, a promoção humana, a catequese propriamente dita, o
testemunho e até o ministério da Palavra nas celebrações litúrgicas.
Parece, de fato, inútil procurar
atualmente uma distinção nítida entre evangelização catequese como se
fossem fases separadas no processo
da formação religiosa. O próprio Diretório Catequético Geral explicitamente declara
que, na prática, a evangelização e a catequese não podem separar-se, mas que
devem acompanhar-se e complementar-se: "Isto mostra que a evangelização
pode preceder ou acompanhar, de acordo com as circunstâncias, o trabalho da
catequese propriamente dita. Em qualquer caso, c preciso não esquecer que a
conversão é uma dimensão que está sempre presente no dinamismo da fé. Por isso,
qualquer que seja a forma de catequese, deve ela exercer também uma função de
evangelização" (nº 18).
2.2 — O que importa, portanto, é a dimensão
evangelizadora de toda a formação religiosa; em outras palavras, não
"evangelização e catequese como fases distintas, mas uma formação
cristã verdadeiramente evangelizadora em todos os seus graus. O que importa
não é tanto a terminologia, mas a correta compreensão da função evangelizadora
na medida em que levar a uma fé sempre mais profunda, comprometida.
3. Evangelização e libertação
3.1 — Por ser proclamação explícita de Cristo no
seu Mistério Pascal, e da vinda do seu Reino, a evangelização deve levar os
cristãos fiéis às exigências do mandato supremo do amor — a se comprometerem na
libertação total do homem, e a se integrarem, de acordo com seus ministérios e
carismas, no processo de libertação que emerge e se propaga em nosso povo.
Assim, a Igreja, por fidelidade à sua missão salvadora e para responder às
legítimas aspirações do povo, deve anunciar a mensagem de salvação realizada
por Cristo, isto é, da libertação dos homens da escravidão do pecado e de todas
as suas conseqüências, como são todas as formas de injustiça e de opressão.
Esta libertação ou redenção começa já na terra mas realizar-se-á
plenamente na vinda gloriosa de Cristo. A proclamação evangélica começa pelo
convite à conversão do coração, por meio da qual, mediante a graça do Espírito
Santo, se forma o homem novo à imagem de Cristo, o que constitui a missão
principal da Igreja. Esta conversão, entretanto, não diz respeito só à vida
particular do crente, mas exige imperiosamente que o cristão se entregue à
transformação do mundo, segundo o espírito das bem-aventuranças.
3.2 — Não se pode entender em nosso país uma
evangelização que não seja também verdadeira libertação do homem e de todos os
homens. A evangelização não se identifica com qualquer modelo de promoção humana.
A libertação pode ser chamada verdadeira evangelização, quando responde as
legítimas aspirações de salvação de todos os homens e de todos os povos,
referindo-se explicitamente ao anúncio do Reino, a obra de Cristo Salvador, ao
mistério pascal, pelo qual todos os homens se libertam da lei do pecado e da
morte e de suas conseqüências pessoais e sociais (Rm 8,2).
A ação libertadora sócio-política anuncia,
prepara ou acompanha o Evangelho, no sentido de que os homens nela engajados,
mesmo sujeitos a contradições e ambigüidades, oferecem campo para um diálogo
com o Evangelho, enquanto buscam a verdade, a justiça, o amor, a liberdade.
Anunciam assim o reino futuro, cujas primícias querem construir. O Evangelho de
sua parte anuncia e reforça esta ação, enquanto lhe abre os horizontes para
além do sócio-político. Revela a última raiz de toda opressão: o pecado, fruto
da decisão livre do homem, não oculta o caminho pascal da libertação, que passa
pela paixão e morte a fim de chegar a ressurreição da vida. Dá sentido a todas
as lutas, às mortes acontecidas nelas, ao sofrimento não retribuído dos que se
comprometem em tal missão. O Evangelho confere chave de intelecção do paradoxo
de uma libertação que a um tempo é presença e promessa, porvir; simultaneamente
impossível somente com as forças humanas e obrigatória com o impulso da graça;
ao mesmo tempo obra dos homens e dom gratuito de Deus, presente no centro da
História (cf. Comissão Justiça e Paz, A paz, destino e missão de todos os
homens em SEDOC 7, 1974, 175-198).
4. Religiosidade popular
4.1 — Estamos diante de um povo com profunda
religiosidade popular. Muitas razões de ordem histórica, antropológica e
psico-social explicam o fato. Há, na religiosidade popular, um sinal especial
da presença do Espírito Santo. Não pode ser encarada como fase atrasada de uma
evolução religiosa que será superada na medida em que o progresso cultural
avançar, como pensa a ideologia secularista. Há grandes valores religiosos, ao
lado de encurtamentos e desvios, que devem ser levados em conta, pela
evangelização. Valores desta religiosidade são: especial sentido e experiência
de Deus e da sua Providência; sentido da transcendência da vida humana;
confiança viva na Virgem Maria; fraternidade que junta pessoas de tendências
diversas e até contrárias; facilidade em expressar a própria fé por meio de
sinais e atos religiosos.
4.2 — Desvios dessa mesma religiosidade são:
concepção fatalista da Providência, manipulação mágica dos ritos religiosos,
atitude mercantilista das promessas, multiplicação ou majoração dos Santos em
detrimento do Deus desconhecido.
4.3 — Aqueles valores representam apreciável
abertura aos valores evangélicos: filiação divina, dimensão pascal da vida,
profunda unidade do homem em Cristo, participação mais perfeita na liturgia.
Ignorar ou negar estes valores, seria grave ofensa às comunidades humanas que
devem ser evangelizadas, e seria fechar caminhos à Boa Nova de Cristo.
5. Educação permanente da fé
Sempre mais se impõe hoje a necessidade de uma "educação permanente
da fé" que acompanhe o homem por toda a vida e se integre em seu
crescimento global.
É na direção dos adultos que a evangelização deverá orientar seus
melhores agentes. Longe de ser um prejuízo da educação de crianças e
adolescentes, esta abertura para os adultos é, certamente, uma perspectiva de
esperança para todo o povo de Deus.
A evangelização precisa atingir o adulto em todos os estratos
sócio-profissionais e em todos os níveis de vivência cristã em que se possam
reencontrar.
Supera-se também hoje o individualismo e mais se firma a convicção de
que a maturação da fé acontece em nível de pessoas e em nível de grupos que
compõem a comunidade eclesial, de modo que esta possa tornar-se uma comunidade
adulta, não de indivíduos mas de pessoas.
6. Ação missionária e setores especiais
Como educação permanente da fé, a evangelização supõe certa integração
das pessoas nas estruturas evangelizadoras da Igreja, principalmente na
comunidade eclesial que é a primeira e mais fundamental de todas elas.
No Brasil, porém, é preciso levar em consideração que em muitas regiões
há pessoas que vivem à margem da comunidade eclesial e isso acontece não só
porque foram insuficientemente evangelizadas. Há populações (indígenas) e
regiões (sobretudo a área coberta pelas prelazias) em que a Igreja ainda não
encontrou condições de uma presença mais estabelecida ou nem mesmo as
populações dispersas chegam a estar realmente integradas na cultura e sociedade
nacionais. É o que constitui o que chamamos "regiões missionárias".
Aí a evangelização depende de métodos especializados, e toda a obra
evangelizadora está na dependência de uma atualização e capacitação de
missionários o que vem ocorrendo com grandes benefícios e de uma animação
missionária de todas as Igrejas particulares no Brasil.
6.1 — A evangelização precisa ainda atender aos
aspectos especiais que a ação evangelizadora deve revestir frente a certas
áreas, setores e situações especiais. Tal preocupação se refere tanto a
situações de vida (enfermos, encarcerados, anciãos), como a marginalização
social (prostitutas, menores abandonados), e as situações pastorais características (pastoral de santuários).
6.2 — Importância crescente para a evangelização
constituem os setores secularizados da sociedade. Aberta a todos os homens, a
Igreja tem que proclamar a Palavra, anunciando aos homens e ao mundo o seu
destino, apontando criticamente as ideologias que aprisionam a História em seu
próprio contexto temporal. Aqui mais do que nunca a evangelização precisa se
revestir de atitudes dialogais e do verdadeiro espírito de serviço.
7. Inserção na igreja local
Toda atividade evangelizadora isolada do contexto eclesial é destinada à
ineficácia. Os movimentos e grupos de jovens e adultos, o "ensino
religioso" nas escolas e quaisquer outras atividades evangelizadoras
poderão tornar-se ineficazes sem a inserção na pastoral da Igreja local. É
indispensável hoje que toda atividade evangelizadora se desenvolva em conexão e
colaboração com as demais atividades eclesiais. Deve-se sublinhar particularmente
a necessidade da toda atividade evangelizadora referir-se a uma comunidade
concreta de fiéis que vivem efetivamente a própria fé.
8. Diálogo
A evangelização de adultos, considerada como forma principal de
evangelização, deve ser promotora de uma grande compreensão humana e de um
diálogo efetivo entre todos os homens. Tudo isso porém deve ser feito sem cair
num irenismo nivelador e contrário à verdade. Deve em todo caso fazer os
cristãos e as comunidades cristãs saírem de círculos fechados. Esta perspectiva
deve inspirar as dimensões ecumênicas e o empenho missionário da evangelização,
promovendo sempre o respeito da liberdade religiosa dos não-crentes, embora
afirmando a própria convicção da verdade do catolicismo.
LINHA 2 - Atividades propostas
1. Promover
e organizar a evangelização de adultos, tendo em vista uma
educação permanente da fé, que acompanhe o homem por toda a vida e que se
integre em seu crescimento global, pessoal e comunitário. Longe de ser em
prejuízo da educação de crianças e adolescentes, essa abertura para os adultos,
é sem dúvida, uma perspectiva de esperança para todo o Povo de Deus em nossa
pátria. A evangelização de adultos se desenvolve nas seguintes modalidades:
1.1 — Catecumenato para adultos não-batizados e
para adultos já batizados, mas sem fé atualizada e educada.
1.2 — Preparação próxima para o sacramento do
matrimônio e acompanhamento pós-matrimonial.
1.3 — Preparação de pais e padrinhos por ocasião
do batismo de crianças.
1.4 — Cursos para pais de família, como meio mais
adequado de uma cristianização autêntica da comunidade.
1.5 — Planejamento e orientação das várias
modalidades de movimentos, cursos, cursilhos, encontros e círculos bíblicos.
2. Promover as instituições e as
iniciativas que visam despertar e alimentar a vocação evangelizadora
do povo de Deus.
2.1 — Promover, numa ação conjugada de toda
a comunidade eclesial, uma coordenação de esforços pastorais que tenham por
escopo a educação da fé, na comunidade. Esta coordenação deve ser una e total: envolvendo
as instituições (família, escola) e os organismos de Igreja, cada um
participando da tarefa da evangelização, com sua especificidade.
2.2 — Promover e organizar a preparação de agentes
qualificados, sem deixar de valorizar igualmente os colaboradores mais
humildes, que não são menos preciosos.
2.3 — Incentivar os leigos a não só
adquirirem maior patrimônio doutrinal da fé, mas a se tornarem verdadeiros
evangelizadores, co-responsáveis pelo crescimento dos irmãos na fé.
2.4 — Empenhar os pais na evangelização dos
filhos, ampliando assim os conteúdos e as finalidades da evangelização, que não
mais se limitará a uma pedagogia de um saber abstrato e doutrinal, mas terá
presente todo o plano da educação, as esperanças e as interrogações que a sociedade
dos adultos apresenta em torno do futuro de seus membros mais jovens.
2.5 — Promover a formação permanente dos evangelizadores,
através de uma constante atualização, complementação, enriquecimento periódico,
cursos de aprofundamento. Os próprios formadores de evangelizadores e todos os
responsáveis pelo Ministério da Palavra necessitam de renovação e atualização.
2.6 — Promover e organizar cursos que preparem
professores para o "ensino religioso" nas escolas oficiais, e
técnicos para a elaboração de programas e textos.
2.7 — Promover a formação de evangelizadores que
não somente saibam usar os meios audiovisuais, mas que sejam capazes de
traduzir a Boa-Nova na linguagem audiovisual do homem contemporâneo e, além
disso, interpretar, à luz do Evangelho, o próprio conteúdo veiculado pelos
Meios de Comunicação Social. É necessário que os evangelizadores aprendam a
expressão e a linguagem dos MCS para que se tornem capazes de re-exprimir a
mensagem do Evangelho nas formas da cultura audiovisual (v. Linha 6 "Meios
de Comunicação Social").
3. Promover maior conhecimento e visão
mais ampla das condições antropológicas locais, das religiões
primitivas, do sincretismo religioso e das expressões do catolicismo popular.
Face a essas situações, assumir as seguintes atitudes e tarefas:
3.1 — Respeitar as etapas diversas no caminho de
Deus e procurar descobrir as "Sementes do Verbo" nas várias
expressões religiosas.
3.2 — Purificar as formas de religiosidade popular
de ele mentos que a tornam inautêntica e valorizar seus elementos positivos.
3.3 — Impregnar da palavra evangélica as
manifestações populares: romarias, procissões, devoções diversas.
3.4 — Descobrir a função pastoral do folclore
religioso de cada região e incentivar seu emprego na evangelização.
3.5 — Impregnar de espírito cristão as festas
populares e tradicionais de cada região.
3.6 — Recordar que a evangelização deve levar a
pessoa humana a encontrar o sentido pleno da vida; levar, portanto, o homem a
um crescimento integral, tendo porém sempre em conta o ritmo de maturação de
cada um.
3.7 — Descobrir nas expressões de religiosidade
popular, o grau de responsabilidade histórica. A evangelização não pode ser
focalizada só pelo lado da religiosidade popular, pois visa transformar o homem
todo, em sua dimensão política, econômica, social e religiosa.
3.8 — Trabalhar para que as celebrações litúrgicas
sempre mais se tornem expressão da cultura do nosso povo (v. Linha 4).
4. Promover a evangelização da
juventude, em todos os níveis (estudantil, profissional) e nas várias
modalidades (cursos, grupos, movimentos, dias de reflexão). A pastoral da
juventude deve inserir-se na pastoral da família, no contexto das comunidades
eclesiais (v. Linha 1).
5. Promover e incentivar todas as
atividades que visam a humanização integral. "Humanização" e
"Evangelização" não são duas etapas sucessivas mas duas dimensões ou
aspectos de uma mesma realidade. Todo autêntico crescimento em humanidade é
crescimento em direção de Cristo. Tal conceito de evangelização não se opõe a
uma tendência para o anúncio explícito da mensagem cristã. Pelo contrário:
todos os esforços realizados nessa perspectiva, visam criar condições para um
encontro autêntico com a Palavra e os gestos sacramentais de Cristo, a se
exprimir num testemunho pessoal e comunitário (v. Linha 6: "Ação
social").
6. Promover a evangelização como animação
cristã dos Divertimentos, do Turismo, dos Grupos de Lazer e do Esporte.
LINHA 3 - Atividades propostas
A) AÇÃO MISSIONÁRIA
1. Formação de agentes pastorais capazes
de anunciar a Palavra e formar comunidades.
2. Promover o anúncio da Palavra:
— em
todos os instrumentos de educação sistemática ou permanente:
* escolas
dos vários graus;
* cursos
de formação de professores de religião;
* semanas
de estudos;
* treinamentos;
* encontros;
* meios
de comunicação social.
3. Promover cursos de preparação de
agentes pastorais diversos:
* monitores de grupos de
evangelização;
* animadores de CEB;
* coordenadores de pastoral;
* líderes setoriais;
* várias diaconias e serviços.
4. Cursos de atualização para os diversos
membros do Povo de Deus: Bispos, sacerdotes, leigos, religiosos, religiosas,
capacitando-os para desenvolver uma ação missionária conforme sua vocação
específica.
5. Intensificar o Programa Igrejas-Irmãs
para que maior número de dioceses adotem sua Igreja-Irmã, havendo assim uma
verdadeira animação missionária.
6. Promover cada vez maior entrosamento
entre os vários Organismos da animação e ação missionária: COMINA, CIMI, PUM,
PPOOMM, J.M. etc. para que os vários programas e projetos possam ser
organizados e realizados com maior eficiência.
7. Engajar maior número de religiosos
(dando-lhes previamente uma preparação adequada) nas várias atividades
missionárias.
B) SETORES ESPECIAIS
Promover e organizar a evangelização nos seguintes Setores Especiais
de Pastoral: Pastoral Carcerária, Pastoral das Migrações, Pastoral junto à
Mulher Marginalizada, Pastoral do Menor Abandonado, Pastoral do Ancião,
Pastoral do Excepcional, Pastoral dos Nômades, Pastoral dos Enfermos, Pastoral
das Domésticas, Pastoral do Mar (Homens que se dedicam a pesca), Pastoral das
Rodovias, Pastoral Militar e outros eventuais setores.
LINHA 4 -
LITURGIA
Promover condições para que a Liturgia seja celebrada pela comunidade
eclesial com participação plena e fé consciente.
1. Mistério
Pascal
1.1 — Cristo, enviado do Pai para salvar todos os
homens (cf. 1 Tm 2,4), completou sua obra redentora pelo mistério pascal
(cf. SC 5). Ao mesmo tempo que por ele se realiza de modo manifesto a salvação,
nele também se encontra a "plenitude do culto divino" (SC 6).
Na sua oferta obediencial, na sua carne que é "levantada" para
atrair todos e reunificá-los, está a visibilidade da relação do Cristo com seu
Pai e de Deus com toda a humanidade, santificada por mãos daquele que se
entrega (cf. 2 Cor 5,15). Nesta sua exaltação e glorificação é que Cristo pode
enviar o Espírito Santo prometido para a nossa santificação.
1.2 — A Igreja, pois, celebra o mistério da
redenção, crendo na presença daquele que se torna Espírito vivificante (2 Cor 3,17; 1 Cor 15,45) e que assegura a
constituição e santificação da própria Igreja (cf. At 2,1; 9,31).
Os membros deste corpo com efeito se santificam à medida em que se unem
àquele que é Cabeça da humanidade, primogênito de toda criatura, na HORA de sua
páscoa, isto é, no seu ato de oferta e glorificação. É neste instante de
supremo amor, em que ele se entrega ao Pai por todos os homens, que o Cristo
faz de todos que não o rejeitaram, o Seu corpo, a Igreja santificada.
A vida da Igreja, pois, se resume no serviço do Cristo que salva,
tornando-se ela mesma sinal e instrumento da salvação visibilizada na Carne de
Cristo, que nos leva ao Pai, sob a moção do Espírito Santo. Este serviço é de
modo especial a liturgia ("leitourgia" = serviço em favor do povo).
Por ela a Igreja, ao atualizar o mistério pascal de Cristo para a
salvação do mundo, exerce a sua diaconia de louvar a Deus em nome de toda a
humanidade.
A liturgia não é a única atividade salvadora que a Igreja exerce, mas é
sem dúvida um momento culminante da vida da Igreja, da atuação do Espírito
Santo e da presença do Cristo glorificado. A liturgia é "o cume para o
qual tende a sua ação (da Igreja) e é, ao mesmo tempo, a fonte donde dimana
toda a sua força" (SC 10).
2. A
Assembléia reunida
Um sinal privilegiado da "reunificação de tudo em Cristo" é a constituição
da assembléia, reunida pela convocação da Palavra que ilumina, pela fé, a
consciência dos fiéis, fazendo-os perceber a presença do Senhor.
Uma pastoral litúrgica que presta serviços oferecendo apenas cerimônias,
mas que não reúne e não logra unir, poderia facilmente ser
classificada de ativismo cultual, pois que lhe faltaria o embasamento eclesial.
A celebração litúrgica exige, portanto, um real esforço e atenção para a
constituição de assembléias conscientes da presença do Senhor (cf. SC 7 e 48).
Por isso, para que a pastoral litúrgica seja realmente "um serviço
em favor do povo", significando para ele a presença da salvação, é preciso
que os sinais sensíveis (gestos, palavras, canto, arte cênica, arquitetônica e
decorativa), que realizam a santificação do homem, lhe sejam compreensíveis,
falem à sua consciência e suscitem sua participação ativa e frutuosa.
3. Fidelidade
a Deus e ao homem
Uma dupla exigência de FIDELIDADE parece teologicamente
indispensável para que a liturgia atinja sua plena realidade:
3.1 — É preciso enraizamento profundo da liturgia
na história da salvação, tal como nos é revelada, com seus temas, seus sinais
permanentes da ação de Deus entre os homens. É necessária uma fidelidade total
à mensagem cristã (ortodoxia).
Só uma evangelização autêntica fará com que a fé na pessoa de Jesus
Cristo, manifestação do Pai, purifique uma fé em mistérios transcendentes,
apenas confusamente acolhidos pelo homem.
Aspectos essenciais da formação litúrgica são:
3.1.1 — A INICIAÇÃO à própria natureza do culto (a
"MISTAGOGIA" dos Santos Padres), procurando corrigir as motivações
ambíguas que levam a deformar a compreensão dos sacramentos.
3.1.2 — O caráter COMUNITÁRIO das celebrações, a fim
de que haja uma vivência eclesial e não aconteça o que o Apóstolo lastimava:
"Quando vos reunis, já não é a Ceia do Senhor que celebrais! Mal vos
pondes à mesa, cada um se apressa a tomar sua própria refeição" (1 Cor
11,20-21).
3.1.3 — O caráter MISSIONÁRIO da liturgia que
"envia" ao mundo. Longe de isolar os fiéis de sua vida de cada dia e
de suas atividades "profanas", a liturgia bem compreendida deverá
tornar-se o fermento que faz crescer toda a nossa vida e nos torna mediadores
da salvação do mundo.
3.1.4 — O caráter SIMBÓLICO da
liturgia. O símbolo é uma realidade intrínseca e essencial ao Sacramento. Na
verdade, os sinais sacramentais realizam o que significam e enquanto
significam. O elemento material dos sinais (água, óleo, pão, vinho, gestos),
desprovido de sua significação própria, não tem valor sacramental. Um
empobrecimento da teologia do símbolo é responsável pelo aparato mecanicista
das cerimônias como instrumentos para conferir a graça. Só a redescoberta da
força significativa do símbolo vai dar bases sólidas para toda e qualquer
renovação e aculturação dos ritos sacramentais.
3.2 — Outra exigência é a fidelidade à índole de
cada povo (cf. SC 40) e à vida concreta dos cristãos.
3.2.1 — Embora transcendente em seu conteúdo, o
cristianismo só é autêntico em toda a sua extensão, quando se encarna na
cultura e índole própria dos povos aos quais se dirige. Seria demasiado
estreita a visão de um cristianismo que impedisse as culturas de preservarem e
de exprimirem a seu modo a fé em Cristo. Os elementos de toda e qualquer
cultura, não contrários a mensagem libertadora de Cristo, podem autenticamente
expressar o mistério da salvação. Tudo o que é profundamente humano pode e deve
ser conservado na sua genuína origem, sem perigo para a fé. O cristianismo tem
uma tradição sacrossanta a esse respeito. A princípio se encarnou no mundo
semítico e se exprimiu semiticamente; depois, no mundo greco-romano; depois
adotou culturas e costumes de outros povos, tanto no Ocidente como no Oriente;
agora se abre para uma encarnação na tradição cultural de todos os povos, e
compete a nós procurar de modo sério e perseverante uma encarnação no mundo
brasileiro.
A cultura e índole do povo brasileiro devem encontrar na liturgia, seu
modo de viver e expressar a fé. A significação dos gestos, palavras e outros
sinais usados na liturgia, devem tornar verdadeiros os modos de expressão do
nosso povo. É esse o desafio que a pastoral litúrgica terá de enfrentar no
Brasil.
3.2.2 — A Liturgia, além disso, deve estar em
perfeita consonância e em íntima ligação com toda a vida extra litúrgica dos
fiéis. O mistério pascal de Cristo, celebrado e tornado sacramentalmente
presente na ação litúrgica deve informar e transformar todos os instantes e
todas as ações da vida diária dos cristãos. Ao mesmo tempo, é preciso levar a
vida para dentro da Liturgia. A vida é feita de tudo o que somos e realizamos e
de tudo o que nos acontece no dia a dia. Falando dos leigos, ensina o Vaticano
II: "Todas as suas obras, preces e iniciativas apostólicas, vida conjugal
e familiar, trabalho cotidiano, descanso do corpo e da alma, se praticados no
Espírito, e mesmo os incômodos da vida pacientemente suportados, tornam-se
"hóstias espirituais, agradáveis a Deus por Jesus Cristo" (1 Pd 2,5),
hóstias que são piedosamente oferecidas ao Pai com a oblação do Senhor na
celebração da Eucaristia" (LG 34).
Esta fidelidade da Liturgia à vida concreta dos fiéis faz exigências
sérias aos agentes da pastoral litúrgica e à equipe de celebração. Mas também
confere à Liturgia um cunho de realismo, sinceridade e espontaneidade de
inestimável valor.
Atividades
propostas
1. Conhecer a situação
da Liturgia no Brasil,
a religiosidade popular,
a linguagem popular,
a cultura e índole do nosso povo, com sua diversificação.
2. Promover a reflexão
teológica em torno da Liturgia, para orientar a pastoral litúrgica..
3. Aprofundar
constantemente a evangelização, explicando os ritos litúrgicos, celebrando de
maneira a aprofundar a fé, fornecendo subsídios de instrução e orientação
litúrgica, dando cursos, palestras, catequese, cuidando da diligente preparação
para a recepção dos sacramentos, utilizando os Meios de Comunicação Social.
4. Educar os fiéis para
a vida em comunidade e a celebração comunitária da Liturgia.
5. Formar agentes e
especialistas de Liturgia, desde as equipes de celebração até os especialistas
na matéria.
6. Fornecer textos
litúrgicos e subsídios de celebração.
7. Promover o canto e a
música sacra, bem como a arte sacra.
8. Trabalhar
sistematicamente na adaptação e aculturação dos ritos litúrgicos.
LINHA 5 - AÇÃO ECUMÊNICA E DIÁLOGO
RELIGIOSO
"Promover a
ação ecumênica e o diálogo religioso"
1. Ação
ecumênica
A ação ecumênica é uma exigência dos sinais dos tempos (cf. UR 4). Os
esforços que, por inspiração da graça do Espírito Santo, se fazem, pela oração,
pela palavra e pela ação, para se chegar à plenitude da unidade querida por
Jesus Cristo, consistem principalmente:
1.1 — em eliminar as palavras, juízos, ações, que
não mais correspondem, segundo a eqüidade e a verdade, à condição dos irmãos
separados;
1.2 — no diálogo entre pessoas bem informadas
pertencentes às várias Igrejas, no qual cada participante explica a doutrina de
sua comunhão e apresenta de maneira clara o que a caracteriza;
1.3 — na colaboração em iniciativas que a
consciência cristã exige, em vista do bem comum;
1.4 — na oração unânime, quando permitida;
1.5 — no exame da fidelidade a vontade de Cristo
com relação a Igreja (cf. UR 4).
2. Diálogo
religioso
Seguindo os ensinamentos do Concílio Vaticano II e de Paulo VI (cf. Enc.
Eclesiam Suam), a Igreja, em nossos dias, por respeito a dignidade da
pessoa humana e à liberdade religiosa, tanto no plano individual quanto no
comunitário (cf. DH 2,4,5,10), renuncia a qualquer tipo de violência e coação
(ibid. 10) e adota o caminho mais difícil, mais evangélico, do diálogo. Diálogo
que, quando se estabelece entre Igrejas ou comunidades cristãs, se chama
ecumênico, mas que é também exigência do Evangelho, com relação às religiões
não cristãs. Aliás, todo diálogo é ecumênico, porque visa a estabelecer a
"ecumene", isto é, a comunidade universal da fé, que nós cristãos
chamamos a Igreja de Cristo, cuja realização plena esperamos ver consumada na
ressurreição final.
3. Pluralismo
religioso
A ação ecumênica e o diálogo religioso correspondem certamente à nova
situação em que se vê a Igreja, em nosso país: referimo-nos ao pluralismo
religioso. O Brasil, integrado pelos colonizadores na Igreja Católica de
tradição ibérica, considerou se, desde a origem, país totalmente católico. Os
resíduos da população indígena, não assimilados pela cristandade, jamais
constituíram problema, pois sempre estiveram a margem da comunidade nacional e
eclesial. A homogeneidade religiosa da nação pareceu rompida quando da
separação entre Igreja e Estado, no advento da República. Mas, o dualismo
antagônico das elites dominantes, civis e eclesiásticas, nunca se consumou de
fato. A divisão não chegou a atingir as bases. O povo fiel manteve a fé e
perseverou na comunhão católica.
Em nossos dias, porém, essa unidade religiosa está em processo de
fragmentação. Quatro fatores contribuíram para a quebra da unidade religiosa no
país:
a) a imigração de não
católicos e de não cristãos;
b) a vinda de
missionários de outras denominações cristãs, portadores de hereditária atitude
anti-católica, que se exacerbou nos prosélitos;
c) a reviviscência do
substrato religioso africano e indígena presente na população intensamente miscigenada;
d) a modernização, que
teve conseqüências paradoxais: por um lado, a secularização, com tendência a
extremar-se em secularismo ateu; por outro, a procura dos caminhos da sabedoria
oriental, para fugir ao cerco da modernidade unidimensional.
Em outros países, o catolicismo encontrou as diferenças religiosas como
fato consumado, ou aconteceu que estas se consolidaram como componentes da vida
nacional. Mas, no Brasil, o processo se dá na própria Igreja Católica. São
adultos batizados no catolicismo, que abandonam a Igreja Católica e se filiam a
outras denominações, ou que se consideram desligados de toda forma
institucional de Igreja. O certo é que, em nossos dias, o povo, no Brasil, não
mais apresenta aquela unidade, que Jesus Cristo pediu para sua Igreja (cf. Jo
17,21) e que Paulo quis estendida ao mundo inteiro (cf. Ef 2,14-16; Cl
1,18-20). Somente uma atitude ecumênica e o diálogo religioso podem responder
pastoralmente a tal situação.
4. Dificuldades
do diálogo religioso
Duas dificuldades se apresentam ao diálogo religioso:
4.1 — A primeira dificuldade consiste na impressão
que temos de que procuramos o diálogo com quem se separou da Igreja, e de que,
dialogando com essas pessoas, nos tornamos coniventes com sua separação. Não há
dúvida de que o afastamento da Igreja Católica, do Cristo, e do Deus Criador,
de que resulta o pluralismo religioso ou a-religioso, no plano visível,
analisado na sua materialidade, é afastamento do caminho da salvação. Mas, quem poderá afirmar que é isso o que,
de fato, acontece no íntimo das consciências? Tomando-se em conta que a
evangelização deve ser adequada às possibilidades subjetivas, para poder tocar
a alma e abrir os olhos de quem há de reconhecer Aquele que fala e confessá-lo,
não se deveria dizer que os que se afastam são simplesmente não evangelizados?
Pode bem ser, que aqueles que abraçaram, de
coração aberto e generoso, o "caminho da salvação", apresentado
embora de maneira incorreta e falha mas de alguma forma correspondente à sua
fome de absoluto, é que foram iluminados pela luz que ilumina todo homem (cf.
AG 2).
4.2 — A segunda dificuldade é a tentação de reagir
pela violência, e com as mesmas armas, ao proselitismo agressivo, que veio
criar a situação incômoda do pluralismo religioso. Dificuldade essa realmente
espinhosa e causa de perplexidade da consciência (cf. Diretório Ecumênico 63,
1-19).
5. Critérios para a ação ecumênica e o diálogo religioso
Poder-se-iam propor alguns critérios para a ação ecumênica e o diálogo
religioso.
5.1 — Nós da Igreja Católica não podemos deixar de
confessar que quem se salva já está na Igreja. Há no mundo uma realidade que
representa efetivamente o Dom de Deus destinado aos homens para sua salvação,
isto é, a comunhão de vida com Deus e com os homens: é Jesus Cristo, morto e
ressuscitado, que, por seu Espírito, nos comunica a vida. Há uma comunidade na
qual se encontram, em totalidade, os instrumentos salvíficos, as palavras, os
gestos, pelos quais se visibiliza e se expressa a salvação oferecida e a graça
a todos os homens de todos os tempos e culturas (cf. LG 8).
A Igreja é o sacramento visível da unidade
salvífica: nela se vê o que Cristo (a graça) opera no mundo, e não só nos
limites reduzidos da Igreja visível.
5.2 — Igualmente professamos a vontade salvífica universal
de Deus, a presença do Espírito no universo, que fala a língua de cada um, e
que conduz a História e os homens nela envolvidos para uma meta: congregar, em
Cristo, os filhos de Deus dispersos nesse mundo.
5.3 — Reconhecendo que todos somos irmãos, embora
tenhamos disso consciência não muito clara, ou mesmo nenhuma consciência, ou
até anti-consciência (cf. NA 2), torna-se necessário o diálogo:
5.3.1 — universal, porque ninguém pode ser excluído
dele;
5.3.2 — diferenciado, porque tem ponto de partida
onde começa o que nos une;
5.3.3 — reciprocamente aberto, porque os dialogantes
mutuamente se corrigem, se enriquecem e crescem, para, um dia, se reconhecerem
como irmãos.
5.4 — A
plenitude desse mútuo
reconhecimento, como irmãos, só
advirá com a
manifestação plena de
Cristo (cf. 2 Cor 3,18; 4, 5-6). Desde já, porém, é
nossa tarefa preparar este dia, e preparar-nos para ele. A dimensão do
"desde já e ainda não" torna o diálogo permanente na história
salvífica, onde terá seus altos e baixos. A sua meta é historicamente
impossível, mas realizável escatologicamente. Por isso, é obra de paciência e
esperança (LG 6,9).
Atividades Propostas
1. Promover a ação
ecumênica em sua dupla dimensão de:
1.1 — Pastoral ecumênica, como atividade específica
de relacionamento através do diálogo e trabalho comum entre católicos e não
católicos.
1.2 — Ecumenismo
na pastoral, que
busca dar abertura ecumênica a todas as
linhas pastorais da
Igreja (cf. Diretório Ecumênico
para o Brasil, 2).
2. Promover a
coordenação regional e diocesana da pastoral ecumênica para evitar dispersão e
desvirtuamento da ação ecumênica, que compreenda os três setores:
— diálogo
com os cristãos de outras Igrejas,
— diálogo
com os não cristãos (crentes de outras religiões),
— diálogo
com os não crentes.
3. Promover a formação
ecumênica dos presbíteros e dos candidatos ao presbiterato, através de cursos
sobre a evolução teológica das diferentes Igrejas, os fundamentos teológicos,
pastorais e jurídicos do Ecumenismo.
4. Promover a formação
ecumênica do povo católico através de pregações, cursos, celebrações e orações
em prol da unidade, nas comunidades.
5. Incentivar a
celebração de atos ecumênicos com os irmãos de outras Igrejas cristãs (semana
da unidade, palestras etc.).
6. Promover o diálogo
entre pastores de várias Igrejas para analisar problemas pastorais comuns e
entre peritos de nível teológico e especializado.
7. Promover o diálogo
entre os leigos e a colaboração concreta no domínio sócio-econômico, político,
cultural, artístico etc.
LINHA 6 -
PRESENÇA NO MUNDO
Promover a ação profética do Povo de Deus e a consciência de sua
responsabilidade, como fermento de libertação do mundo, segundo os desígnios de
Deus.
1. A ação
social da Igreja em evolução
1.1 — A ação pastoral da Igreja no Brasil hoje,
presente no social, é condicionada por uma variedade de questões
sócio-culturais e políticas, que poucos percebem em toda sua extensão e
profundidade.
Sabe-se do amplo esforço positivo que se faz em todos os campos no país,
através de crescente modernização. O Brasil moderno é contudo contraste, pois
os benefícios desta adaptação aos padrões das sociedades modernas não são
proporcionais às expectativas da maioria da população. As medidas tomadas no
campo social esbarram com problemas estruturais e quase sempre apenas contornam
as situações conflitivas. Uma minoria privilegiada usufrui, no momento, das
melhorias que, hipoteticamente, poderão, a longo prazo, também atingir a
maioria, que por enquanto continua à margem daquele esforço.
As verdadeiras mudanças exigem tomada de posição, serena e objetiva,
encarando como desafios à missão evangelizadora da Igreja problemas, tais como:
— a
freqüente violação dos direitos humanos fundamentais;
— a ordem
institucional vigente;
— a
marginalização do povo em relação ao processo decisório;
— a
não participação das elites sindicais, estudantis e pensantes na elaboração de
possíveis opções diferentes do modelo de desenvolvimento nacional;
— a
censura ou auto-censura junto aos meios de comunicação social;
— a
inquietante ausência de participação do mundo operário nos benefícios da
riqueza nacional;
— a
angústia da situação dos posseiros em regiões de colonização agrária recente e
o mundo rural em geral.
1.2 — A ação evangelizadora da Igreja no campo
social é condicionada pela conjuntura sócio-cultural e política e as situações
concretas, muitas vezes viciadas por erros e egoísmos. Por outro lado, ela se
esforça para intensificar o clima de corresponsabilidade e participação, a ação
educativa de base e maior unidade entre fé e vida humana. Pois a fé nunca pode
deixar de se expressar em ação e obras. Isto foi bem evidente no passado da
vida da Igreja, que ativamente se empenhou em obras caritativas, intensificou o
genuíno sentido da vida religiosa consagrada, ocupada particularmente com a
educação e assistência aos doentes, pobres e sofredores. Inúmeras foram as
instituições, tais como as Escolas e Universidades Católicas, empenhadas em
incrementar a cultura ao mesmo tempo que transmitiam a fé.
Isto continua hoje, seja através das mesmas instituições — cuja função
porém é entendida e orientada à luz das novas condições sociais e da
consciência atual da missão da Igreja — seja através de novos caminhos.
A Igreja hoje é levada a renunciar a certos papéis em campo social e
educativo que o Estado ou outras instituições passam a assumir. Mas, de outro
lado, a Igreja — mais pobre e menos comprometida com certas estruturas sociais
— assume com mais vigor sua missão crítica e profética de denúncia da injustiça
e de promoção da solidariedade e das legítimas aspirações dos homens.
2. Justificativas
A prática pastoral da Igreja no campo social justifica-se por alguns
critérios:
2.1 — A ação eclesial revela-se essencialmente por
um profundo senso de uma permanente educação comunitária.
A longa e paciente pedagogia, tendo em vista criar a corresponsabilidade
e participação consciente de todos e cada um dos membros da Igreja, é exigência
básica do próprio ser eclesial.
É desta prática fundamental que extravasa sua presença e ação no campo
social, como verdadeiro sinal. Este anuncia uma nova consciência da humanidade,
que são os núcleos de vida preparando "novos céus e nova terra" (Ap
21,1).
2.2 — A constante chamada de atenção aos problemas
concretos. É impossível agir para promover algo no campo social, sem que se
situe no centro dos acontecimentos, através da linguagem concreta dos fatos,
pessoas e instituições. Tal linguagem move as consciências dos indivíduos e questiona
as organizações, na busca de soluções viáveis para os problemas, que são
desafios. Ao mesmo tempo, o uso de tal linguagem realista não pode fazer
esquecer a necessidade de uma análise mais profunda, que busque a raiz e as
causas dos males sociais. Se de um lado não se pode deixar de prestar serviços
concretos, bem reais, por outro lado é igualmente um grande serviço lutar para
que se erradiquem os defeitos estruturais, fruto de decisões conscientes ou
inconscientes.
2.3 — A ação da Igreja deve ser continuamente uma tentativa
de colocar o problema religioso não apenas no âmbito cultural e litúrgico.
Ou melhor, há uma nova consciência do religioso, envolvendo toda a vida humana
nos seus diferentes matizes.
Daí porque a penetração aparentemente desmedida da Igreja em todos os
campos de promoção humana, leva aos poucos, à reafirmação da justa autonomia da
comunidade eclesial, face a todo e qualquer poder sócio-econômico e político.
Conseqüentemente, há um esforço pura ampliar a faixa da religião evangélica a
todas as dimensões da vida, dentro do sentido de unidade do plano de Deus.
Assim, tem sentido o envolvimento da comunidade fiel, através de testemunhos
qualificados, em questões ordenadas à busca do bem comum das pessoas na vida
social.
2.4 — A ação da Igreja é válida não só a partir de
suas numerosas instituições de serviço. Para se alargarem os horizontes e se
revisarem as instituições, deve-se ter, corajosamente, como ponto de
referência, o bem comum e a vida de um povo concreto em relação a Jesus Cristo
e à Fé na sua Ressurreição.
Enfatiza-se como fundamental a pedagogia educativa na ação social, capaz
de colocar toda e qualquer promoção humana ao alcance do povo, através da
assimilação de sua sensibilidade aos valores evangélicos. Tal atitude coloca em
relevo a importância de que toda ação seja um trabalho com o povo e não apenas
para o povo.
Observa-se ainda que, se de um lado é importante uma ação educativa
organizada, não menos importante é contar com a precariedade de instrumentos e
a disponibilidade dos que são mais fracos.
2.5 — Irrestrito apoio aos direitos
fundamentais da pessoa humana.
Ressalta-se, no campo de toda ação pastoral e social, a necessidade de
continuamente se organizar à luz da igualdade e dignidade de qualquer um
e do caráter social da propriedade privada. O que também implica na denúncia,
oportuna e importuna, com objetividade serena, de toda e qualquer violação
desses direitos, a partir do fatos concretos.
Há uma unidade inerente à preservação desses direitos e ao plano de Deus,
que quer salvar através de constante esforço, capaz de garantir a vida e a
sobrevivência necessária a cada um e a todos, superando-se toda e qualquer
carência.
2.6 — É clara a necessidade de continuamente relativizar
toda e qualquer ação no campo social. Nenhum projeto social é definitivo, na
medida em que é uma expressão concreta de uma tentativa de solucionar
problemas, desafios, que trazem no seu interior luz e sombras. O importante é
projetar a luz como capaz de estabelecer etapas de um processo, em permanente
superação, tendo em vista que sempre surgirão novos desafios ao esforço
humano-divino de libertação.
Ao longo deste processo, o importante são as atitudes, a maneira
permanentemente ativa, corajosa e construtiva, que desperta ações livres, conscientes,
em busca de expressões mais válidas para a justa construção de uma vida
fraterna, no âmbito das pequenas comunidades e grandes instituições da vida
nacional.
2.7 — Face à crescente manipulação dos mecanismos
de opinião pública e das instituições educacionais, propõe-se como fundamental
a educação permanente para fazer frente a tais situações. Os pequenos
instrumentos ao alcance da massa, transformando-a em grupos de reflexão e
decisão, livre e corresponsável, são capazes de fazer frente aos sistemas e
ideologias, que permanentemente ameaçam os mais justos e autênticos valores
humanos. O importante é que esta pastoral educativa da Igreja crie núcleos
vitais, capazes de fazer frente aos sistemas de veiculação de mensagens, numa
atitude permanentemente crítica.
As Comunidades Eclesiais de Base, enquanto manifestam novas forças
emergentes, superando as antigas e diferentes lideranças, são testemunho de que
algo semelhante pode ser levado a efeito junto às forças vivas dos meios de
comunicação social e instituições educacionais.
Atividades
propostas
A)
SETOR — AÇÃO SOCIAL
1. Levantar dados e informações que
aprofundem aspectos regionais e nacionais, capazes de iluminar diferentes projetos de desenvolvimento mais justos e
conformes aos direitos fundamentais da pessoa humana, particularmente quanto à
posse da terra, melhor distribuição das riquezas, caráter social da propriedade
privada, maior valorização do trabalho humano etc.
2. Refletir sobre estes dados e criar
subsídios acessíveis às Comunidades Eclesiais e grupos interessados para uma
maior explicitação dos conteúdos sociais da fé.
3. Promover cursos ou encontros para
responsáveis de organismos de promoção social (Obras sociais paroquiais,
Cáritas, MEB FASE* etc.), para juntos refletirem sobre a justa autonomia
de suas organizações e necessária pedagogia comum que ressalte o sentido
comunitário, corresponsável, livre e participativo de toda e qualquer ação
social da Igreja.
4. Promover reflexão mais ampla com
pessoas particularmente sensíveis ao aprofundamento de uma pedagogia atenta ao
valor dos instrumentos humanos precários, capazes de conduzir a uma autêntica
promoção humana e mudanças sociais.
5. Análise mais detalhada e
sistematicamente verificada das experiências no campo social que promovem os
direitos fundamentais da pessoa humana, ressaltando a dignidade, igualdade e o
caráter social da propriedade privada.
6. Conhecimento e contato com
instituições, eclesiais ou não, que atuam no campo da defesa jurídica das
violações dos direitos fundamentais da pessoa humana.
7. Dinamização das Comissões de Justiça e
Paz em todos os níveis.
8. Promover reflexão mais global e
elaborar subsídios, através de grupos competentes e representativos, para uma
análise das causas mais profundas das violações dos direitos humanos.
9. Promover reflexão mais ampla e elaborar
subsídios com grupos representativos, sobre o problema religioso, enquanto
envolve toda a vida humana, ressaltando a autonomia da Comunidade Eclesial e
qualificação dos seus membros para agir no campo social.
10. Promover cursos ou encontros para
divulgação da reflexão sobre as causas mais profundas das violações dos
direitos humanos e a legítima colocação do problema religioso, envolvendo toda
a vida humana.
11. Localizar, junto aos grandes órgãos de comunicação social, os núcleos de
pessoas capazes de rever, à luz da fé, as ambigüidades e valores de tais
órgãos.
12. Criar subsídios capazes de ajudar as
comunidades e os núcleos de vida cristã a tomar uma posição crítica face aos
meios de comunicação social.
B) SETOR — MEIOS DE COMUNICAÇÃO SOCIAL
1. Assumir os MCS como instrumentos a
serviço de toda a Pastoral da Igreja.
2. Promover estudos e cursos, encontros,
seminários sobre a importância, influência e uso adequado dos MCS.
3. Estimular a organização e
aperfeiçoamento dos Setores Regionais e Diocesanos dos MCS.
4. Estudar com as Escolas Católicas de
Comunicação a problemática da formação cristã dos comunicadores.
5. Estabelecer uma pastoral permanente, em
nível nacional, regional e diocesano, com os profissionais da comunicação.
6. Estimular a colaboração dos
profissionais católicos de Rádio e Televisão, para assumirem a problemática da
rádio difusão das Emissoras de orientação católica.
7. Estabelecer uma ação pastoral junto aos
profissionais de cinema e teatro, visando a promoção e produção de filmes e
peças que ressaltem os valores humanos e espirituais.
C) SETOR — EDUCAÇÃO
1. Desenvolver a ação pastoral não só nos
centros docentes mas em todos os demais setores de influência educativa
(família, ambiente externo, Meios de Comunicação Social, grupos de lazer).
2. Promover e dinamizar os organismos que
oferecem aos homens oportunidade de ascenderem a um crescimento global.
3. Promover, organizar, apoiar (onde já
existe) uma educação de base que não vise só alfabetizar mas também capacitar o
homem e torná-lo agente consciente do seu desenvolvimento.
CAPÍTULO
IV
SISTEMÁTICA
GERAL DO PROCESSO DE PLANEJAMENTO NA AÇÃO PASTORAL DA IGREJA NO BRASIL
Mais do que uma técnica sofisticada, o planejamento é a explicitação
metódica de um processo natural de ação racional. Busca, através da reflexão,
elaborar decisões lúcidas que atendam às necessidades da realidade, e orientem
uma ação em que os recursos limitados tenham o melhor emprego em vista a
maiores resultados. Uma de suas características mais marcantes é a convivência
dos esforços resultando num trabalho mais unido e fecundo.
Aplicado à ação pastoral, o planejamento significa, da parte da Igreja,
a consciência do valor de um instrumental humano e sua fidelidade em assumir os
meios humanos mais adequados para que o desígnio salvífico de Deus aconteça com
fecundidade em cada momento da História. Em sua introdução, o Plano de Pastoral
de Conjunto citava, a propósito, a palavra de Paulo VI "A atividade
pastoral não pode processar-se às cegas. O apóstolo não ocorre no encalço do
incerto e bate no ar (1Cor 9,26). Hoje foge a acomodação e ao perigo do
empirismo. Um sábio planejamento pode oferecer também à Igreja um meio eficaz e
um incentivo de trabalho".
A Igreja no Brasil, sobretudo na época imediatamente pós conciliar,
retomou em maior profundidade a ação pastoral planejada anteriormente pelo
Plano de Emergência. O Plano de Pastoral de Conjunto e os posteriores Planos
Bienais dos organismos nacionais da CNBB, bem como os vários planos regionais e
os inúmeros planos diocesanos, formam uma caminhada expressiva. Hoje em dia não
é temerário afirmar que a Igreja no Brasil chegou a uma expressiva e talvez rara
experiência no campo do planejamento pastoral.
A XIV Assembléia Geral (Itaici, SP, novembro de 1974) marcou o último
momento importante dessa caminhada. Nela as Diretrizes Gerais da Ação Pastoral
foram atualizadas e uma renovada consciência do lugar e sentido do planejamento
pastoral foi explicitada, a partir da experiência vivida nos últimos dez anos.
Justamente a consciência do "como" a técnica de planejamento
deve ser aplicada à pastoral e algumas opções de seu encaminhamento em âmbito
nacional, constituem o que chamamos de "Sistemática Geral do Planejamento
Pastoral", cujas principais notas delineamos a seguir. Elas se referem aos
critérios ou condições aos encaminhamentos gerais do processo de planejamento
aplicado à pastoral em âmbito nacional.
*
1. Critérios ou
condições gerais do processo de
planejamento
aplicado à pastoral
Tais critérios dizem respeito à dimensão eclesial no processo de
Planejamento em sua adoção implantação e concretização.
1.1 — A dimensão eclesial à adoção do processo
Ao adotar o processo de planejamento em sua ação pastoral, a Igreja do
Brasil não visa simplesmente introduzir uma técnica de maior eficácia na
obtenção de resultados. Igualmente não pretende substituir a presença do
Espírito e a corresponsabilidade de toda a comunidade eclesial por uma
tecnocracia pastoral.
A sistemática, isto é, a maneira de se aplicar o processo de
planejamento deve marcar a consciência das perspectivas e dos riscos da técnica
colocada a serviço da construção do Reino.
A técnica de planejamento deve ser assumida não apenas como processo
mais acurado de ação, mas como instrumento de expressão da própria vivência
eclesial. Na medida em que a emprega, a Igreja visa não apenas uma ação mais
racionalizada, mas uma ação mais eclesial, isto é, uma ação que expresse suas
notas características de comunidade e corresponsabilidade. Assim o processo de
planejamento não será apenas um instrumental para a Igreja agir mais e melhor,
mas um caminho para ser mais e melhor na prática e naquilo que anuncia de si
mesma.
1.2 — A dimensão eclesial na implantação do
processo
Na ação pastoral, a própria implantação do processo de planejamento deve
ser marcada, desde o início, por uma sistemática coerente com a natureza da
ação eclesial. Essa sistemática deve abrir mão de qualquer pretensão de
imposição vertical tipo rolo compressor, onde as pessoas se vissem coagidas a
executar as coisas ou a se isolarem da ação pastoral na atitude de desinteresse
ou protesto.
A sistemática de planejamento deve ser assumida numa visão dinâmica e
educativa. Na verdade, o planejamento não é apenas uma nova maneira de fazer as
mesmas coisas, mas supõe novos hábitos, novas atitudes, nova mentalidade. Mas o
próprio processo, quando aplicado pedagogicamente, tem virtualidades para
provocar essas mudanças. Isso supõe que a sistemática do processo de
planejamento pastoral atenda a três condições básicas:
1.2.1 — A despretensão. O planejamento não
pode aparecer como a panacéia de solução para a ação pastoral. Ele não é uma
fórmula mágica capaz de ser resposta para qualquer situação. Por outro lado, é
preciso, desde o início, estar consciente dos limites da técnica aplicada à
ação pastoral. A construção do Reino não é quantificável como a produção
industrial ou a obtenção de lucros. A ação pastoral não se guia por critérios
exclusivamente rentáveis e aceitáveis; muitas vezes será preciso empreender
ações difíceis que trazem em seu bojo a possibilidade de contradições e
ataques. Não se planeja a salvação, não se controla os dons do Espírito. Na
ação pastoral, o planejamento, desde o início, deve ter consciência de que os
objetivos visados e perseguidos, pelo processo mesmo, extrapolam o instrumental
técnico e são igualmente atingidos pela ação incontrolável da generosidade e
fidelidade dos agentes, pela presença da graça e ação do Espírito.
1.2.2 — A participação. Na ação pastoral a
técnica do planejamento deve visar a participação de todos os que se empenham
na ação Pastoral. Embora com possível prejuízo de uma eficácia maior a curto prazo,
é preciso encontrar uma sistemática que evite a nítida divisão de trabalho
entre planejadores e meros executores.
1.2.3 — O gradualismo. A não ser em casos
muito especiais, o processo só será educativo e propiciará uma participação
progressiva, na medida em que sua implantação for gradual. Isso não significa
deixar simplesmente as coisas correrem, esperando que o tempo resolva, o que é
o risco de todo gradualismo. Significa, sim, que se defina uma sistemática
muito precisa de trabalho em várias etapas e que os passos dentro de cada etapa
sejam visualizados refletidos e definidos de antemão. Antes de chegar a um
plano diocesano, é possível, já dentro do processo, prever fases mais ou menos
longas de reflexão e decisão, ainda em grau de diretrizes.
O mesmo se diga quanto à amplidão dos
planos: pode ser bom que um plano diocesano global de ação pastoral seja
elaborado só depois de um tempo de experiência do processo aplicado a planos
setoriais menores.
1.3 — A dimensão eclesial na concretização do
processo
O processo de planejamento se concretiza através de 4 fases
fundamentais, que no desenrolar do tempo se interpenetram e se alimentam num
movimento circular acumulativo: fase de reflexão e decisão, fase de montagem do
plano, fase de acompanhamento, fase de avaliação. Na ação pastoral, todas essas
fases, empregando o máximo de recursos e dados técnicos, têm que ultrapassar os
limites da técnica através de conteúdos e clima onde a eclesialidade da ação
seja marcada.
1.3.1 — A fase de reflexão, sem prejuízo da
objetividade científica, será realizada dentro do aprofundamento da própria
missão, numa constante busca de fé e numa fidelidade sempre renovada.
O conhecimento da realidade, lançando mão de todo instrumental
disponível das ciências sociológicas, é projetado no pano de fundo de busca de
fidelidade aos apelos do Espírito, que se manifestam nos sinais dos tempos e
são perceptíveis apenas no clima de fé e oração.
As decisões não são meras conclusões lúcidas da autoridade, mas
exercício e expressão de corresponsabilidade do presbitério e da comunidade,
através dos organismos de participação.
1.3.2 — Na montagem do plano, as atividades
(projetos e programas) são definidos a partir das necessidades da base,
respeitando sua originalidade e a criatividade. A precisão na elaboração dos
programas não se confunde com apelos a projetos grandiosos, que extrapolam a
capacidade das Igrejas em termos de recursos humanos, técnicos e financeiros.
Os meios humildes e pobres são extremamente fecundos e aptos na construção do
Reino. O próprio documento que resulta da redação do plano tem que ser um
instrumento simples de trabalho a altura dos agentes, e jamais uma publicação
que tenha mais o sabor de proclamação triunfal de um pequeno grupo de
iluminados.
1.3.3 — A terceira etapa do processo, o
acompanhamento, é, em termos pastorais, sobretudo um serviço de animação e
auxílio fraterno que supre as deficiências na execução das atividades. A
firmeza do acompanhamento, já que está em jogo todo um plano — pois as
atividades se inter-relacionam e interdependem — deve abrir mão de qualquer
pretensão policialesca e centralizadora, tão comuns em outras esferas onde a
técnica do planejamento é adotada.
1.3.4 — A quarta e última etapa, a avaliação, deve
ultrapassar de muito a simples intenção de medir os resultados imediatos e
distribuir as culpas. A avaliação é o momento privilegiado de uma profunda e
humilde revisão da vida e ação da Igreja. Ela deve, além do rigor dos dados
positivos e negativos levantados, questionar a fidelidade, a generosidade e
disponibilidade dos agentes e das comunidades.
As várias etapas do planejamento, vividas e executadas nessa dimensão de
"eclesialidade", fazem do processo de planejamento um instrumento
apto para cada Igreja particular moldar sua fisionomia própria e original de
sinal-instrumento de salvação, encarnado numa realidade concreta, consciente de
seus caminhos característicos e capaz de passos para percorrê-lo.
2. Encaminhamentos gerais do processo de planejamento pastoral em
âmbito nacional
Podemos explicitá-los em quatro pontos:
— Unidade
pastoral nacional através de Diretrizes Gerais
— Planejamento
por objetivos
— Planejamento
a partir de prioridades
— Distinção
e interação dos vários níveis.
2.1 — Unidade pastoral nacional através de Diretrizes
Gerais
A unidade da ação pastoral em âmbito nacional é procurada através de
Diretrizes Gerais da ação pastoral e não através de um Plano Nacional de
Pastoral. A grande diferença reside no fato de colocar o grau de unidade
pastoral apenas em grandes linhas, em grandes direções e opções, sem descer a
ações específicas, determinadas e particulares.
Por isso mesmo, a Igreja no Brasil, através de seus Bispos, definiu um
conjunto de diretrizes gerais para a ação pastoral. Essas diretrizes devem
inspirar variados e diferentes conjuntos de atividades, que são os planos de
pastoral. Esses planos, elaborados à luz das mesmas diretrizes e expressando as
mesmas opções fundamentais, serão bastante diferentes entre si quanto às
atividades, à maneira concreta de encaminhá-las (sistemática operacional,
duração etc.).
A razão dessa primeira e fundamental opção de encaminhar o processo, é a
situação diferente das várias Igrejas particulares quanto ao contexto da
realidade sóciocultural e quanto aos recursos disponíveis. Por outro lado, se
pretende uma unidade pastoral em âmbito nacional (pastoral de conjunto), será
preciso elaborar também planos de ação dos organismos regionais e nacionais de
Igreja. Ora, estes planos são de natureza distinta dos planos diocesanos, já
que se situam em outros níveis, como veremos abaixo.
A opção feita pelo Episcopado garante a unidade da pastoral em âmbito
nacional (Diretrizes Gerais comuns, para todos), ao mesmo tempo que atende ao
pluralismo de situações pastorais diversas (planos de pastoral diversos).
2.2 — Planejamento por objetivos
Ao definir o conteúdo e os caminhos fundamentais da ação pastoral
(Diretrizes) em termos de objetivos, a Assembléia dos Bispos fez uma opção
metodológica importante. Essa opção define a maneira básica do encaminhamento
do processo para todos os níveis. É um planejamento por objetivos. Como um dos
pontos de sistemática geral, ela garante a fidelidade contínua e sempre mais
aprofundada à missão específica da Igreja.
Planeja-se bem à medida em que constantemente se é capaz de responder a
duas questões fundamentais:
a) O que pretendemos
fazer? (qual o objetivo desta atividade concreta?)
b) Em que medida e de
que maneira o pretendemos fazer? Nosso objetivo operacional, ou determinada
atividade concreta está ligada à missão da Igreja (objetivos gerais) e conduz a
sua realização?
Aplicado à pastoral, o planejamento por objetivos concretos, sempre
buscados e definidos à luz dos objetivos gerais impede que a pastoral seja
unilateral e que as atividades sejam tomadas como um fim em si mesmas, ao mesmo
tempo que propicia um constante aprofundamento da missão da Igreja e sua
adaptação e encarnação na realidade concreta.
O planejamento por objetivos tem ainda outras vantagens na ação
pastoral. Ele não coloca a unidade entre os vários níveis, nem entre os agentes
e instituições de um mesmo nível (a diocese, por exemplo) nas coisas que se
fazem, nem na maneira de fazê-las, nem no ritmo da ação.
A unidade está no objetivo a ser conseguido, objetivo que deve em cada
nível ser adaptado, concretizado, explicitado e precisado com o máximo de
dados. São as chamadas metas. Uma vez definidas, todos buscam convergir para
elas seu trabalho, dentro de suas possibilidades e carismas diferentes. Dessa
maneira, no caso de uma diocese, todos os agentes, instituições e organismos de
Igreja podem realizar uma ação unitária, não precisando fazer a mesma coisa ao
mesmo tempo. Basta que cada um, naquilo que faz, tenha bem clara a meta comum e
faça de sua ação própria uma contribuição ao esforço comum para atingi-la.
2.3 — Planejamento a partir de prioridade
Na elaboração de seus planos de pastoral, a Igreja no Brasil decidiu
identificar, em cada período, certas áreas cuja importância e urgência merecem
uma concentração de atenção, esforços e recursos. É o que se chama prioridade
pastoral.
Em termos concretos, planejar a partir de áreas prioritárias significa
fundamentalmente duas coisas:
a) Uma atenção e uma
relevância especial, em toda a ação pastoral, com referência àquela área.
b) Um programa especial
de atividades (onde isso for necessário) com relação a essa mesma área.
O Episcopado não só decidiu que a ação pastoral fosse planejada a partir
de áreas prioritárias, mas, inclusive, indicou as prioridades para o próximo
exercício pastoral em âmbito nacional6.
As prioridades são de âmbito nacional, isto é, são válidas para todos os
níveis de Igreja (nacional, regional, diocesano e de base com seus respectivos
organismos e instituições). Mas o tratamento concreto dessas prioridades varia
conforme os níveis.
No nível nacional, elas indicam obrigatoriamente certos programas
fundamentais de atividades do biênio, devendo ser assumidas todas elas por dois
anos.
No nível regional e sobretudo no nível diocesano, elas supõem ulteriores
decisões, tais como:
* Deverão ser todas assumidas ao
mesmo tempo?
* Deverão ser todas assumidas com
igual peso?
* Por quanto tempo serão
trabalhadas?
* Há, em âmbito regional ou no
âmbito de cada diocese, alguma outra prioridade característica que deve ser
assumida?
O planejamento a partir de prioridades deve levar em consideração sempre
o conjunto da ação pastoral, e, à luz dos objetivos gerais, impedir que a
pastoral se torne unilateral, trabalhando apenas alguns aspectos determinados.
2.4 — Distinção e interação dos vários níveis
Em âmbito nacional, o processo de planejamento pastoral é executado em
vários níveis.
O nível "central", como ponto de referência do planejamento
pastoral, é o nível diocesano. Realmente a Igreja particular é a unidade
fundamental das decisões que orientam, condicionam e expressam a ação da
Igreja. Por isso, quando falamos em Plano de Pastoral, pensamos, antes de mais
nada, num plano diocesano de pastoral. Pensamos na Igreja que existe num
determinado lugar concreto, num contexto específico sócio-cultural. Essa
Igreja, para melhor realizar sua missão, reflete sobre seus objetivos,
perscruta sua realidade, faz suas opções concretas, organiza um conjunto de
atividades a partir de seus recursos, acompanha a execução dessas atividades,
avalia seu conjunto refletindo sobre o que realizou para fazer novas opções,
definir novas atividades etc., num processo dinâmico permanente.
Esse nível "central" compreende outros níveis interiores a si
mesmos isto é, o nível de base, comunidades, paróquias, organismos,
instituições e os níveis intermediários, onde isso for útil: (zonal, vicarial
etc.). Esses níveis interiores são níveis de concretização do processo de ação
pastoral: é aí que tudo o que a Igreja; particular decidiu, passa a ser
realidade na ação pastoral do dia-a-dia.
Em outra esfera, circundando o nível "central encontramos os níveis
regional e nacional. São fundamentalmente os níveis de serviço subsidiários,
para que o nível "central" possa ter todos os dados e instrumentos
necessários à sua ação pastoral.
O nível regional, sobretudo, promove a aproximação entre as várias
Igrejas da região, através de auxílio e apoio mútuo; a troca de serviços; a
reflexão sobre a realidade regional; o aproveitamento e adaptação no regional,
do material e subsídios do nível nacional.
No nível nacional, os serviços são sobretudo a produção de subsídios, o
levantamento máximo de dados e a organização de instrumental mais amplo para os
regionais e dioceses (grandes projetos de reflexão; pesquisas e levantamentos
maiores; capacitação mais especializada de pessoal e organização de serviços e
organismos necessários à pastoral em âmbito nacional).
Percebe-se assim — embora o objetivo, o conteúdo e o encaminhamento
geral da ação pastoral (diretrizes) sejam único para todos os níveis — que a
natureza particular dessa ação, os tipos de atividades e os caminhos concretos
de realizá-la (planos de pastoral) são múltiplos e diferentes entre si.
Isso supõe que as organizações concretas que promovem o processo e a
própria maneira concreta de planejar, executar e acompanhar as atividades
(sistemática operacional) sejam diversas nos vários níveis.
Assim as organizações do nível nacional para o processo de planejamento:
— Comissão
Episcopal de Pastoral (órgão de decisão)
— corpo
de assessores permanentes (órgão de assessoria)
— coordenação
(órgão de acompanhamento) e
— Comissão
Nacional de Pastoral (órgão de reflexão), não são um modelo a ser repetido nos
regionais e dioceses.
O essencial é que se defina em cada nível as responsabilidades em termos
de reflexão, de decisão, de coordenação, e de serviços especiais para apoio ao
processo (assessoria).
No nível diocesano, de âmbito menor e mais homogêneo, o mesmo órgão
(Conselho de Pastoral e Conselho Presbiteral, por exemplo), podem ser ao mesmo
tempo o órgão de reflexão e de decisão corresponsável com o bispo. Igualmente,
uma pequena equipe pode cumular as funções de assessoria e coordenação. A
criação desses órgãos pode, aliás, seguir o processo gradualista de progressivo
enriquecimento, alargamento de participantes e de atribuições.
O essencial é que se perceba que não existe um modelo a ser copiado de
um nível por outro e nem dentro de um mesmo nível.
Igualmente, a sistemática operacional não pode ser copiada. O fato de o
Plano dos organismos nacionais ter quatro ou cinco programas, não indica modelo
para qualquer regional ou diocese. Planos bienais reconhecidos como mais
adaptados ao nível nacional podem não expressar o melhor tempo para planos
regionais ou diocesanos. A técnica de reflexão em grupo, o método de elaboração
de atividades, o sistema de acompanhamento e avaliação devem, da mesma forma,
ser definidos em cada nível a partir de seus recursos e preferências.
O essencial é que haja fidelidade às diretrizes, isto é, aos grandes objetivos
e as grandes linhas da sistemática geral. Isso garante o grau de unidade
pastoral desejável e necessária em âmbito nacional e possibilita a
permeabilidade dos vários níveis, o aproveitamento maior dos trabalhos de um
nível por outro, e uma organicidade pastoral que não abafa a criatividade nem
impõe modelos estereotipados a realidades diversificadas.
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Fonte: Conferência
Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB
Web site: www.cnbb.org.br