CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL

CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL

 

DIRETRIZES GERAIS DA AÇÃO PASTORAL DA IGREJA NO BRASIL

 

1987/1990

 

 

APRESENTAÇÃO

 

O enunciado do OBJETIVO GERAL DA AÇÃO PASTORAL DA IGREJA NO BRASIL para o quadriênio 1987-1990 foi elaborado e aprovado na 25ª Assembléia Geral da CNBB no dia 30 de abril de 1987 que delegou ao Conselho Permanente a redação da nova explicitação ou comentário do mesmo.

Para a redação deste texto, partiu-se do documento da CNBB n° 28, das contribuições dos Bispos durante a 25ª Assembléia Geral, do Instituto Nacional de Pastoral (INP) e dos Assessores Nacionais, levando-se em conta, ainda, as etapas percorridas pela CNBB na elaboração do Plano de Pastoral de Conjunto desde o Plano de Emergência, em 1962.

A preocupação principal do Plano de Emergência foi buscar a renovação da Igreja como mistério de comunidade de fé, culto e caridade. Logo após o Concilio Vaticano II e sob sua influência o Plano de Pastoral de Conjunto 1966-1970 coloca como objetivo da Igreja em processo de renovação: Levar todos os homens à plena comunhão com o Pai e entre si, em Jesus Cristo no dom do Espírito Santo, pela mediação da Igreja. Este objetivo é retomado até 1978.

Tendo assimilado o espírito e as orientações do Concílio sob a chave de leitura de Medellín (1968), dos Sínodos sobre Justiça no Mundo (1971), sobre a Evangelização (1974), com a Exortação Apostólica de Paulo VI "Evangelii Nuntiandi" (1975) e também do Sínodo da Catequese (1977) e do Documento de Puebla ((1979), a CNBB na Assembléia de 1979 reelaborou o Objetivo Geral da Ação Pastoral da Igreja no Brasil. O texto aprovado então diz que este objetivo geral é Evangelizar a sociedade brasileira em transformação, a partir da opção pelos pobres, pela libertação integral do homem, numa crescente participação e comunhão, visando a construção de uma sociedade fraterna, anunciando assim no Reino definitivo.

Em 1983 a Assembléia Geral assumiu o mesmo Objetivo Geral, enriquecendo-o, porém, em alguns aspectos, à luz da prática pastoral e da reflexão teológica ao longo do quadriênio 1979-1982. A nova formulação do Objetivo Geral está assim redigida: "Evangelizar o povo brasileiro em processo de transformação sócioeconômica e cultural, a partir da verdade sobre Jesus Cristo, a Igreja e o Homem, à luz da opção preferencial pelos pobres, pela libertação integral do homem, numa crescente participação e comunhão, visando a construção de uma sociedade mais justa e fraterna, anunciando assim o Reino definitivo".

A avaliação do quadriênio 1983-1986 revelou que a Igreja foi conquistando novas experiências e aprofundando sua reflexão. O mesmo Objetivo Geral foi novamente assumido pela CNBB na Assembléia Geral de 1987 com algumas alterações destacadas pela avaliação do quadriênio. Ao se referir à realidade vivida pelo povo brasileiro, explicitou-se o aspecto político por sua emergência sempre maior no horizonte da sociedade e conseqüências para a ação pastoral.

As verdades que constituem o conteúdo fundamental da evangelização são agora introduzidas pela expressão "anunciando", que indica melhor sua presença permanente, e não apenas inicial, em todo o processo. Além disso, trata-se da "plena" verdade, que exclui qualquer reducionismo. A opção preferencial pelos pobres recebe nova precisão com o termo "evangélica". Por sua vez o objetivo visado pela evangelização é agora explicitado numa dupla dimensão: "formar o Povo de Deus" e "participar da construção de uma sociedade justa e fraterna". A dimensão escatológica da evangelização é agora expressa pela palavra "sinal", com toda riqueza de conotações teológicas que ela carrega em si.

O presente texto apresenta, em sua primeira parte, a explicitação, frase por frase, dessa nova formulação do Objetivo Geral.

A segunda parte traz a explicitação das Dimensões da Ação Pastoral da Igreja, às vezes denominadas, também, de Linhas de Ação Pastoral. Estas Dimensões estão enraizadas nos seis "objetivos específicos" propostos pelo Plano de Pastoral de Conjunto (PPC) de 1966-1970. Hoje elas são vistas como visceralmente interligadas e dependentes umas das outras. Toda e qualquer modalidade de Pastoral deve levar em conta, junto com o Objetivo Geral, todas as Dimensões da Ação Pastoral: Comunitária e Participativa, Missionária, Catequética, Litúrgica. Ecumênica e Diálogo Religioso, Profética e Transformadora.

A terceira parte deste documento, desenvolve os três Destaques votados pela 25.ª Assembléia Geral: Meios de Comunicação Social, Juventude e Família. É nestes  setores que se deverá concentrar no próximo quadriênio a ação evangelizadora da Igreja em nosso país. Os Destaques são trabalhados na ótica do Objetivo Geral e levando-se em conta, em cada um deles as seis Dimensões da Ação Pastoral.

O Conselho Permanente, por designação da 25.ª Assembléia Geral, aprovou o presente texto em sua reunião de agosto de 1987.

 

Brasília, 28 de agosto de 1987

 

Dom Antonio Celso Queiróz

Secretário Geral da CNBB

 

 

OBJETIVO GERAL

 

    EVANGELIZAR

              o povo brasileiro em processo de transformação social, econômica, política e cultural;

              anunciando a plena verdade sobre Jesus Cristo, a Igreja e o homem;

              à luz da evangélica opção preferencial pelos pobres;

              pela libertação integral do homem, numa crescente participação e comunhão;

              visando formar o Povo de Deus e participar da construção de uma sociedade justa e fraterna;

              sinal do Reino definitivo.

 

 

I - DIRETRIZES GERAIS DA AÇÃO PASTORAL DA IGREJA NO BRASIL

 

   EVANGELIZAR

 

   1.         "O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me ungiu para evangelizar os pobres: enviou-me para proclamar a remissão aos presos e aos cegos a recuperação da vista, para restituir a liberdade aos oprimidos e para proclamar um ano de graças do Senhor".1

 

   Missão de Jesus, missão da Igreja

 

   2.         Evangelizar é a missão de Jesus, "o primeiro e o maior dos evangelizadores. Ele é o próprio Evangelho de Deus"2. Evangelizar é a razão de ser da Igreja. A "Evangelii Nuntiandi" lembra que "a evangelização constitui, de fato, a graça e a vocação própria da Igreja, a sua mais profunda identidade. Ela existe para evangelizar, ou seja, para pregar e ensinar, ser o canal do dom da graça, reconciliar os pecadores com Deus e perpetuar o sacrifício de Cristo na Santa Missa, que é o memorial da sua Morte e gloriosa Ressurreição.3

 

   Primado da evangelização

 

   3.         Esta consciência do primado da evangelização se impôs mais claramente à Igreja contemporânea através do Concílio Vaticano II4 e foi aprofundada pelo Sínodo dos Bispos em 1974, acolhendo a reflexão das comunidades eclesiais dos diversos Continentes. Admiravelmente sintetizada pelo Papa Paulo VI na " Evangelii Nuntiandi", a reflexão do Sínodo serviu de apoio à 3ª Conferência do Episcopado Latino-americano (Puebla, 1979). Inspirando-se nela e na caminhada da Igreja em nosso País, o Episcopado brasileiro formulou o "Objetivo Geral" da ação pastoral e o aperfeiçoou até o presente documento.

 

   Missões do Filho e do Espírito

 

   4.         Evangelizar significa participar ativa e conscientemente de um processo histórico que tem como origem o desígnio de Deus Pai e se realiza através das missões do Filho e do Espírito Santo.5 As missões do Filho e do Espírito geram a Igreja, cuja missão é pôr-se a serviço da evangelização, que continua sendo obra do Espírito, da Palavra e dos Sacramentos. Por isso, a Igreja confia que, apesar dos muitos obstáculos, a evangelização não deixará de produzir frutos6. O próprio Espírito de Deus, que inspirou os profetas e Jesus, continua atuando nos Apóstolos e na Igreja, na fé operosa dos fiéis, na vitalidade dos ministérios e no testemunho dos santos. A presença do Espírito é sinal e garantia do Reino messiânico.

 

   5.         Nesse processo de reflexão, a partir da experiência viva das nossas comunidades eclesiais, guiadas pelo Espírito de Cristo, em comunhão com a Igreja universal, tornaram-se mais claros os fundamentos e critérios, conteúdos e instrumentos, sujeitos e destinatários, etapas e fins da evangelização.

 

   A Igreja se evangeliza a si mesma

 

   6.         Assim a Igreja, conduzida pelo Espírito, pode seguir o mesmo caminho de Cristo — caminho marcado pela humildade e abnegação, pobreza e perseguição — atenta aos sinais dos tempos, discernindo a vontade de Deus nas novas situações que enfrenta. Sabendo-se ao mesmo tempo santa e pecadora, a Igreja busca sem cessar a penitência e a renovação7. "Evangelizadora como é, a Igreja começa por se evangelizar a si mesma... por uma conversão e renovação constante, a fim de evangelizar o mundo com credibilidade8.

 

   O Reino como horizonte

 

   7.         Nesta tarefa imensa e inesgotável, de evangelizar o mundo, a Igreja tem como horizonte o Reino. Como Jesus, a Igreja anuncia o Reino e de algum modo o torna presente, através de sinais que, apesar de imperfeitos, apontam para a plenitude da salvação e da libertação. O Reino é, no seu sentido último, o próprio Deus "tudo em todos"9, que liberta as pessoas de misérias e opressões e realiza a comunhão plena de todos. Ele atua como aliança definitiva de Deus com os homens pelo mistério pascal, meta que orienta o caminho, esperança que ilumina os passos da História.

 

   Anunciar

 

   8.         O Reino de Deus, assim se dá a conhecer na palavra do Evangelho, acolhida pela fé da Igreja, traz uma luz às interrogações humanas acerca do próprio homem, de sua existência terrena, de seu destino eterno. Assim a evangelização, num primeiro aspecto, apresenta-se como anúncio da verdade sobre Jesus Cristo, a Igreja, o Homem. Em Jesus Cristo é o amor do Pai que se revela, suscita a comunidade dos discípulos que vivem na memória da paixão e na esperança da ressurreição, apontando no mistério pascal o sentido da vida humana e da História.

 

   Serviço do Homem

 

   9.         Evangelizar, porém, não é apenas transmitir uma mensagem, mesmo se de origem divina. "Evangelizar — dizia-nos recentemente o Santo Padre — é prestar mundo o mistério da Salvação, mediante o Dialogus Salutis instaurado com ele. Essencialmente religioso, porque nasce de uma iniciativa de Deus e se finaliza no absoluto de Deus, o Ministerium Salutis é, ao mesmo tempo, serviço ao homem, pessoa e sociedade — às suas necessidades espirituais e temporais, aos seus direitos fundamentais, à sua convivência humana e civil. Por isso mesmo, faz parte da missão da Igreja preocupar-se de certo modo, das questões: que envolvem o homem do berço ao túmulo, como são as sociais e as sócio-políticas10.

 

   Evangelizar em profundidade até as raízes

 

   10. A compreensão da condição humana nos leva a considerar o homem não abstratamente, mas em sua situação histórica concreta. As ciências humanas também têm contribuído para nos fazer compreender melhor como atuam sobre os homens os condicionamentos sócio-econômicos e culturais, muitas vezes sem que os membros da sociedade percebam claramente a influência que recebem11. A Conferência de Medellín chamou a atenção sobre a importância das situações históricas e sociais para a evangelização12, e Puebla retomando a "Evangelii Nuntiandi", destaca a urgência da evangelização da cultura13.

A Encíclica "Evangelii Nuntiandi" chega a dizer: "não se trata tanto de pregar o Evangelho a espaços geográficos cada vez mais vastos ou populações maiores em dimensão de massa, mas de chegar a atingir e como que a modificar pela força do Evangelho os critérios de julgar, os valores que contam, os centros de interesse, as fontes inspiradoras e os modelos de vida da humanidade, que se apresentam em contraste com a Palavra de Deus e com o desígnio da Salvação''14. Para a Igreja, importa Evangelizar, "não de maneira decorativa, como que aplicando um verniz superficial, mas de maneira vital, em profundidade e até as suas raízes a cultura e as culturas dos homens15.

 

   Evangelização e libertação

 

   11. A mesma "Evangelii Nuntiandi", acolhendo uma indicação dos Bispos de 1971 e 1974-que o Papa Paulo VI diz expressar as vozes de "milhões de filhos da Igreja" do Terceiro Mundo, reconhece que o empenho pela libertação integral do homem é inseparável da evangelização. Entre evangelização e libertação humana há laços profundos, de ordem antropológica, teológica e da caridade evangélica16.

 

   Denúncia, ação, construção

 

   12. Tais laços são afirmados também e explicitados pelas recentes. Instruções da Congregação para a Doutrina da Fé17 e pela Mensagem do Santo Padre ao Episcopado Brasileiro18. O Papa João Paulo II insiste sobre a distinção entre a dimensão soteriológica e a dimensão ético-social da libertação, mas também sobre a urgente necessidade deste Evangelho da libertação radical e integral19 e sobre a necessidade de continuar a promover tudo o que é conseqüência da libertação soteriológica no plano temporal20.

Por isso também a evangelização não é apenas anúncio, mas palavra e ação, denúncia profética e realização construtiva de sinais de solidariedade e comunhão.21 Ou, nas palavras do Papa Paulo VI, a evangelização é "uma diligência complexa, em que há variados elementos: renovação da humanidade, testemunho, anúncio explícito, adesão do coração, entrada na comunidade, aceitação dos sinais e iniciativas de apostolado".22

 

   Comunhão e participação no novo Povo de Deus

 

   13. A caminhada da libertação é descrita por Puebla como caminha da para a e pela "comunhão e participação".23 A "comunhão" é o próprio reflexo da vida trinitária — da comunhão do Pai, do Filho e do Espirito — na História humana24. Ela não será consumada e perfeita senão no final da caminhada, na "glória"25. Mas enquanto a Igreja está a caminho, em estado de missão, evangelizando e lutando pela libertação, ela não pode deixar de experimentar e criar formas — transitórias e imperfeitas ainda, mas dinâmicas e fecundas — de "comunhão e participação". Suscitando comunidades eclesiais, onde se unem liberdade e solidariedade, colaboração e desprendimento, autoridade e participação, a Igreja forma o novo Povo de Deus e cria sinais e exemplos de uma nova sociedade justa e fraterna, voltada para o Reino.26

 

   Abertura ao diálogo

 

   14. Na realização da sua missão, nesse tempo que intercorre entre Pentecostes e a plenitude do Reino — tempo ainda marcado pelas divisões e conflitos entre os homens e no se próprio seio — a Igreja procura incessantemente a vontade do Pai e pede, com Jesus, o dom da unidade.27 Consciente de sua co-responsabilidade na culpa e da necessidade de revisão e reforma, abre-se ao diálogo com os outros cristãos, com as outras religiões e com os homens de boa vontade, em busca de uma "comunhão e participação" de todos, seja na procura da verdade eterna, seja na construção da sociedade terrena.

 

   Evangelizar: serviço original e insubstituível da Igreja

 

   15. Evangelizar, assim, apresenta-se como o objetivo da ação pastoral. Explicitar suas dimensões e suas exigências significa reconhecer na evangelização a missão própria da Igreja, o serviço original e insubstituível que ela presta à História. Pois o Evangelho revela a verdade sobre Jesus Cristo, a Igreja, o Homem. Por fidelidade ao Evangelho e aos homens, a Igreja não se limita ao anúncio. Olha para a situação histórica concreta. Assume a opção evangélica pelos pobres. Empenha-se pela libertação integral de todos os homens. Promove a vivência concreta do Evangelho, que faz crescer a comunhão e participação. Compromete-se na formação de comunidades eclesiais, Povo de Deus a caminho, e participa da construção de uma sociedade pluralista, justa e fraterna, sinais do Reino definitivo que Jesus Cristo anunciou e inaugurou e que Maria, Mãe de Cristo e da Igreja, viveu em plenitude. Ela é a realização mais alta do Evangelho. É a Estrela da Evangelização.

   Por Maria, o Evangelho se torna mais carne e mais coração.28 A devoção a Nossa Senhora, modelo de fé e de vida cristã, tem sido, com freqüência, o vínculo resistente que mantém fiéis à Igreja setores que carecem de atenção pastoral adequada.29

 

Igrejas particulares co-responsáveis

 

   16. A missão universal de evangelizar se concretiza no tempo e no espaço. A Igreja universal se articula em Igreja particulares e comunidades locais. Em retribuição por tudo o que a Igreja do Brasil recebeu da ação missionária, chegou o momento em que ela deve tomar consciência sempre maior de sua co-responsabilidade com o esforço missionário da Igreja universal. Diante dos desafios e exigências da evangelização hoje e invocando a luz do Espirito de Cristo e a proteção de Nossa Senhora Aparecida, a Igreja no Brasil se dispõe a assumir as tarefas que o Senhor lhe confiar, no serviço fiel à Igreja Universal.

 

EVANGELIZAR O POVO BRASILEIRO EM PROCESSO DE TRANSFORMAÇÃO SOCIAL, ECONÔMICA, POLÍTICA E CULTURAL

 

   Destinação humana da evangelização

 

   17. A missão da Igreja no Brasil é evangelizar o povo brasileiro na sua história, "aqui" e "agora". À luz da fé, a Igreja desenvolve essa missão a partir de uma constante atenção aos sinais dos tempos, que assinalam a ação de Deus na História desse povo e permitem perceber os desafios que se colocam para a sua ação pastoral. Ela parte da realidade desse povo, chamado a ser sujeito de sua História.

Povo é muito mais de que uma realidade considerada em termos puramente demográficos ou sociológicos. Povo é, sobretudo, a realidade humana da Nação, em toda sua abrangência, e designa todos os homens e mulheres, aos quais a Igreja há de estender a sua solicitude pastoral. É importante reiterar que a fé cristã e a consciência de pertença à Igreja são elementos arraigados na grande maioria do povo brasileiro.

 

   Evangelizar: missão de todo o Povo de Deus

 

   18. O Povo de Deus, na sua totalidade, é portador da ação evangelizadora.30 Daí a necessidade de se evitar o risco de colocar, de um lado, a Igreja evangelizante, e de outro, o povo a ser evangelizado. A Igreja que evangeliza constitui parte desse povo, chamado, todo ele, a uma fé ativa em Cristo e à participação no seu mistério.

 

   Ênfase na formação das consciências

 

   19. A missão da Igreja é evangelizar pessoas que constróem estruturas sociais, econômicas e políticas, que criam cultura, que trabalham, que têm aspirações, que são sujeitos de direitos e deveres, e agentes de sua própria História. O processo de transformação, pelo qual passa a sociedade brasileira, cria situações novas para a vida do povo. Este poderá distanciar-se da Mensagem, se a Igreja não atingir permanentemente com sua ação pastoral as realidades novas que surgem. Isto exige ênfase especial nas iniciativas destinadas à formação das consciências e a preparação das pessoas para assumirem sua responsabilidade cristã no mundo e na História.

 

   Influência mútua entre o homem e sociedade

 

   20. A ênfase na destinação pessoal da ação evangelizadora significa não esquecer a influência mútua entre a pessoa e a sociedade. As estruturas, a organização da sociedade, exercem forte pressão sobre o povo em geral e sobre cada pessoa em particular. Estruturas sociais injustas pervertem as consciências, bloqueiam impulsos sadios que nascem do povo para a transformação da sociedade. Daí a urgência de enfatizar, na ação pastoral, a formação de agentes capazes de transformar a sociedade, os quais, partindo das exigências da fé, assumam o compromisso evangélico de criar estruturas sempre mais justas.

 

   Busca da cidadania consciente e ativa

 

   21. É fundamental que os agentes transformadores estejam inseridos na realidade do povo, não para conduzi-lo, apresentando-lhe soluções prontas, mas para estimular o diálogo como aprendizado para a participação consciente, solidária, responsável. Nenhuma transformação autêntica se realiza por outorga benevolente. Os que resistem às transformações necessárias se dispõem a aceitar o diálogo, para evitar os conflitos, apenas quando se defrontam com um povo consciente de seus direitos e responsabilidades, e decidido a comprometer-se com isso.

 

   Consciência comunitária e consciência de classe

 

   22. Observa-se, no setor social, uma transformação de importantes conseqüências pastorais: a nucleação das bases vem-se operando mais em termos de comunidade do que em termos de classe. Esse fenômeno ocorre principalmente nos meios rurais e periferias urbanas. Demonstra-se com isso, a força aglutinadora da consciência comunitária. Sendo, porém, o trabalho a chave essencial de toda a questão social, é fundamental não subestimar a importância da mobilização solidária dos trabalhadores, como tais, na luta justa pelo reconhecimento de sua dignidade e da dignidade do seu trabalho, através de suas organizações próprias.31

O fortalecimento da consciência comunitária não deve esvaziar a consciência de classe, porque só esta tem condições de enfrentar os problemas globais e de prazo mais longo. Não condiz com as diretrizes e com o espírito da "Laborem Exercens" pensar que a consciência de classe conduza inevitavelmente à luta de classes, no sentido insurrecional do termo. Com efeito, segundo a mesma Encíclica, os problemas da relação entre o trabalho e o capital não serão resolvidos pelo esvaziamento da consciência de classe, mas ao contrário, pelo seu amadurecimento, que a prepara para os confrontos inerentes a toda democracia empenhada na realização do bem comum, isto é, do bem de todos, sem discriminações.

Este empenho na realização do bem de todos deve, igualmente, levar à superação das posições corporativistas que fecham os grupos profissionais em defesa de seus interesses próprios, com perda da visão das necessidades globais da sociedade, impedindo a solidariedade entre os grupos e as alianças exigidas pela promoção do bem comum.

Na relação entre capital e trabalho pode-se observar um amadurecimento democrático na atitude dos trabalhadores, lutando por sua autonomia e liberdade sindical e recusando-se a aceitar pactos sociais impostos unilateralmente.

 

   O desafio da migração e urbanização

 

   23. A expansão agrícola, acompanhada de tensões e conflitos em torno da posse e uso da terra, quando não proletariza o homem do campo, transforma-o em bóia-fria, ou quando não o desaloja para regiões mais remotas, o obriga a buscar refúgio nas periferias urbanas.

E a urbanização se acelera em ritmo desordenado, criando os grandes bolsões do mercado informal (biscateiros, ambulantes etc.), sem nenhuma proteção trabalhista, e envolvendo nas influências do espaço urbano grandes contingentes de população desesperada para esse novo estilo de vida. O duplo aspecto dessa transformação levanta sérios desafios à ação da Igreja, exigindo-lhe o desenvolvimento da pastoral das migrações e maior valorização da criatividade das bases para uma adaptação inadiável de sua pastoral urbana.

 

   Uma economia frágil em crise contínua e dependente

 

   24. No setor econômico a crise brasileira atingiu dimensões dramáticas. A economia atingiu altos níveis de modernização, a serviço de minorias privilegiadas. Entretanto, deixou em condições de pobreza e de miséria, a grande maioria desfavorecida, com o arrocho dos salários e o aumento dos bolsões da economia informal. A dívida externa cresceu a ponto de tornar-se extremamente onerosa. A Igreja, através da Pontifícia Comissão "Justitia et Pax", advertiu os povos ricos que, em razão de seu maior poder econômico e em vista das condições por vezes profundamente injustas que deram origem a essas dívidas, eles têm, em relação aos países endividados, "uma responsabilidade mais séria que devem reconhecer e aceitar...".32 Apesar da proposta de luta contra a inflação continua, internamente, o déficit estatal, o empreguismo, o desnível inaceitável de salários e a contínua apreensão do povo com relação à persistente inflação. O quadro revela toda a fragilidade da nossa economia, dependente do exterior, e a falta de uma política econômica estável que se volte para a busca do bem-estar da maioria carente.

 

   Panorama político, avanços e crises

 

   25. No setor político, deram-se passos na linha da democratização do país com a criação de um governo de transição, restabelecimento das liberdades civis, a realização de eleições e a convocação de uma Assembléia Nacional Constituinte. Criaram-se novos Partidos e avançou-se na educação democrática do povo. A Igreja procurou colaborar na formação de uma consciência política inspirada nos valores do Evangelho. Entretanto, persistem as mazelas do oportunismo político, da corrupção e da fraude, unidas ao descaso pela coisa pública, a não incorporação das massas no processo político e sua não participação nas grandes decisões nacionais.

   Tudo isso exige um aprofundamento da formação política dos governantes e do povo. Sendo a ação política um campo de atuação própria e específica do leigo cristão, a comunidade eclesial sente o desafio de ser um lugar de animação e inspiração cristã deste vasto setor. Em relação à Nova Constituição do País, impõe-se a tarefa de cobrar sua efetiva aplicação, questionando aqueles pontos que, por acaso, divergirem dos valores evangélicos.

 

   Crise de valores

 

   26. No setor cultural, uma transformação vai-se processando: na sociedade brasileira tradicional, os valores determinavam os padrões de comportamento, e estes, por sua vez, definiam as formas de consumo. Hoje, a grande penetração dos meios de comunicação social está invertendo essa linha de influência: cada vez mais, são as formas de consumo que determinam os padrões de comportamento, e estes tanto desgastam os valores tradicionais, quanto geram novos valores ou pseudo-valores de vida e convivência. Essa inversão de influência partindo do consumismo, é responsável pela séria crise de valores que atinge de modo especial a juventude e que desemboca em corrupção, permissividade e relativismo ético em todos os campos da atividade humana.

Expande-se uma mentalidade individualista e utilitarista, em oposição a um modo de sentir solidário e gratuito. Frente a isso, mantêm-se e ganham novos espaços algumas formas de entre-ajuda e co-participação. Em sentido positivo, resgatando todo um passado de opressão às culturas de grupos minoritários, cresce a consciência de sermos uma sociedade pluri-étnica. Nele cresce o respeito pela pluralidade das expressões culturais, na unidade de um sentir comum como povo e sociedade brasileira. Acelera-se o avanço da civilização científica e da engenharia genética. O risco de desvios nesse campo levou a Santa Sé a dar orientações claras em questão de bioética visando preservar a dignidade da procriação.33

 

   A família no processo de transformação

 

   27. A família, como parte da instituição social vem sendo duramente atingida por este processo de transformação. Sofre a reformulação de muitas de suas funções e valores de sua constituição, mormente no que toca à visão cristã do amor e da sexualidade. Reparte suas funções habituais (educativa, econômica e de proteção) com outras instituições sociais intermediárias. Ela perdeu também, em grande parte, a função definidora do status social de seus membros. Sua função procriativa está agora condicionada a elementos contraditórios, onde se confundem o valor da pessoa humana e o bem da coletividade com a falta de grandeza e generosidade procriativa.

 

   Tarefas novas e intransferíveis da família

 

   28. Tudo isso não significa a falência ou a inutilidade da família. Antes, possibilitou-lhe uma depuração, reservando-lhe tarefas verdadeiramente intransferíveis: formar pessoas livres, conscientes e responsáveis; desenvolver a capacidade de fraternidade e amor solidário fundado na justiça; educar num espírito crítico, facilitando a inserção transformadora de seus membros na realidade social; transmitir a fé e celebrá-la dentro do contexto da vida familiar.

 

   Paternidade e maternidade no novo contexto

 

   29. É inegável que a redefinição da condição feminina e da correlação entre sexualidade e prazer, afeta a família em sua constituição. Contudo, tais fenômenos, vividos à luz do Evangelho, contribuem para a emergência de um novo sentido de paternidade e maternidade, relação de pais e filhos e da missão da mulher na sociedade e na sociedade e na Igreja.

 

   Impactos na família

 

   30. Repercute negativa e dolorosamente na família, a ausência de uma política nacional em favor das classes populares na área da habitação, da saúde, da previdência e da educação. São igualmente negativos os comportamentos hedonistas e consumistas difundidos pelos meios de comunicação social, acarretando a desqualificação dos valores de fidelidade e indissolubilidade, banalizando a sexualidade, exacerbando o erotismo, mercantilizando a pornografia. Tudo isso faz surgir entre os jovens um desafeto e desapreço pela realização do ideal cristão de uma família, pequena igreja, centro de comunhão participação, escola de pessoas evangelizadas a serviço da redenção do mundo.34

 

   Transformação na vivência religiosa

 

   31. Verificam-se igualmente transformações importantes na vivência religiosa do povo. Representam desafios e questionamentos à ação pastoral da Igreja: o proselitismo das seitas — grupos religiosos autônomos —, que cada vez mais se multiplicam, o avanço da "Igreja Eletrônica", o envolvimento do sincretismo, o crescimento das novas religiões orientais, a atração do espiritismo, a confusão provocada pela assim chamada "Igreja Brasileira" e, mais globalmente, o avanço de uma civilização não-religiosa, da secularização e laicização da cultura.

   Entre tanto, o atual processo de renovação da Igreja Católica e de outras Igrejas Cristãs tem contribuído significativamente para o crescimento da consciência comunitária da fé e de suas implicações sociais e políticas. Essa vitalidade religiosa está ajudando o Povo de Deus no Brasil a valorizar o sentido das expressões comunitárias da fé, a descobrir a alegria da celebração e da partilha do Pão, a crescer na compreensão da Palavra acolhida na vivência comunitária e a se engajar como cristãos conscientes na construção do Reino na História. Um dos frutos dessa animação religiosa se manifesta no surgimento de novas vocações, tanto para a atuação como agentes leigos de pastoral, como para a vida sacerdotal e consagrada.

Outro de seus frutos é o revigoramento de variadas formas de expressão religiosa do povo, uma nova compreensão de manifestações do catolicismo popular e a busca de renovação nos Movimentos e Associações Católicas. Essa renovação vem exercendo profunda influência evangelizadora, especialmente sobre a juventude, infundindo alegria e esperança no povo fiel, que se sente cada vez mais Igreja e próximo a seus Pastores. A transformação religiosa revela-se ainda, por uma tendência de volta ao sagrado e pela abertura ao ecumenismo e a um diálogo espontâneo, que se vem manifestando nas diversas faixas da sociedade mais sensíveis à união de todos em vista da realização de projetos que visem o bem comum. Entretanto, observa-se que o sagrado vai deixando de ser norma da cultura para se transformar em objeto desta cultura consumista e relativista.

 

   Acompanhar o processo de renovação religiosa

 

   32. As transformações na vivência eclesial, saudáveis em si mesmas, comportam riscos e falhas que exigem acompanhamento atento e sensível por parte dos pastores. Um dos riscos consiste em minimizar a importância da vida sacramental e dos valores morais. Outro risco pode ocorrer a partir do momento em que cristãos, motivados pela fé e engajados nas lutas sindicais e político-partidárias, pretendessem envolver nelas a comunidade eclesial. Esta deverá permanecer sempre fiel à sua missão específica como sinal da unidade visível de todos os cristãos, mantendo-se acima das disputas partidárias e das correntes ideológicas. A própria renovação da vivência eclesial e a explicitação das exigências sócio-políticas da fé comportam um certo risco, na medida em que, mal interpretadas, podem levar alguns ao afastamento da comunidade ou provocar em outros a sensação de marginalização.

 

EVANGELIZAR ANUNCIANDO A PLENA VERDADE SOBRE JESUS CRISTO, A IGREJA E O HOMEM

 

   Conteúdo pleno da evangelização

 

   33. O centro da missão da Igreja é o anúncio da boa-nova do Reino de Deus. Essa boa-nova chega a nós hoje pela proclamação da "plena verdade sobre Jesus Cristo, a Igreja e o homem". De fato, "não haverá jamais evangelização verdadeira, se o nome, a doutrina, a vida, as promessas, o Reino, o mistério de Jesus de Nazaré, Filho de Deus, não forem anunciados".35 Por sua vez, uma evangelização autêntica, como ato profundamente eclesial, exige uma correta interpretação da Igreja, como ato que tem o homem como destinatário da verdade, exige uma interpretação correta do homem.36 A verdade por nós devida ao homem é, antes de tudo, uma verdade sobre ele próprio.37 Fica, pois, claro que aqui se toma a expressão "plena verdade" como o conteúdo global, sem reducionismos, da revelação sobre Jesus Cristo, a Igreja e o Homem

 

   Implicação mútua destas verdades

 

   34. À luz da tradição da fé e dos ensinamentos da Igreja — especialmente o Documento de Puebla e "Catequese Renovada — Orientações e Conteúdo", esses três termos não são separados ou estanques. Eles se implicam mutuamente. Realmente, essa verdade que vem de Deus, tem seu centro em Jesus Cristo, Salvador do Mundo. Dele, que é o Caminho, a Verdade e a Vida (Jo 14, 6), a Igreja recebe aquilo que ela oferece aos homens. No mistério do Verbo encarnado e redentor do mundo, ela vai buscar a verdade sobre o Pai e seu amor por nós como a verdade sobre o homem e sua liberdade.38 A fidelidade a cada uma dessas verdades exige a fidelidade às demais. Só desta forma se pode superar a pretensa oposição entre uma visão antropocêntrica e uma visão cristocêntrica da Igreja. Tanto a exaltação do homem pelo homem quanto o esquecimento de que o homem "é o primeiro e fundamental caminho da Igreja"39, são estranhos à realidade da Igreja.

 

   O mistério da Encarnação

 

   35. O anúncio da plena Verdade sobre Jesus Cristo implica apresentá-lo, em primeiro lugar, como enviado do Pai, em missão. Por isso o Mistério da Encarnação nos revela a unidade indissolúvel entre o humano e o divino na História. A realidade histórica, pois, enquanto inserida no mistério de Jesus Cristo, não pode ser vista com olhos meramente profanos, mas com os olhos da fé. Em segundo lugar, esse anúncio exige apresentar Jesus Cristo como plenamente inserido na História humana, solidário conosco.

Depois que Deus uniu a si a História humana, assumindo-a em Cristo, não será mais lícito separar Deus das experiências humanas; nem se poderá mais proclamar uma doutrina sobre Deus, sem ligação com a vida humana; nem se poderá fazer uma análise da realidade sem mostrar que na sua profundidade bate o coração do próprio Deus, de sua justiça e de seu amor.

Em terceiro lugar, esse anúncio exige apresentar Jesus Cristo como aquele que, por amor, se entregou por nós na Cruz e, pela Ressurreição, é reconhecido pelo Pai como reconciliador dos homens com ele. Por isso mesmo não é lícito separar as esperanças dos homens, de sua história, do destino de Jesus de Nazaré, o Cristo.40

 

   Integridade de Jesus do mistério

 

   36. A ação evangelizadora da Igreja consistirá, fundamentalmente, por um lado, no anúncio alegre de que "Jesus Cristo, Verbo e Filho de Deus, fez-se homem para se aproximar do homem e oferecer-lhe, pela força de seu mistério, a salvação, grande dom de Deus''.41 Por outro lado, esse anúncio toma forma no seguimento do Senhor em sua vida e no caminho da Cruz até a plena participação na sua glória. Com efeito, só a plena proclamação do mistério de Cristo é "capaz de transformar nossa realidade pessoal e social e de encaminhá-la para a liberdade e fraternidade, para a manifestação plena do Reino de Deus".42 Portanto, "qualquer silêncio, esquecimento, mutilação ou inadequada acentuação da integridade do mistério de Cristo que se aparte da fé da Igreja, não pode ser conteúdo válido de Evangelização.43

 

   A Igreja inseparável de Cristo

 

   37. O Concílio Vaticano II ensina que "a Igreja é em Cristo como que o Sacramento, sinal e instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo gênero humano".44 Por isso, ela é inseparável de Cristo, seu fundador. Ela está no mundo como sinal "ao mesmo tempo opaco e luminoso de uma nova presença de Jesus, Sacramento de sua partida e de sua permanência.45 De fato ela continua e prolonga a sua missão evangelizadora. Assim, "a Comunidade dos cristãos nunca é algo fechado em si mesmo".46 Enviada ao mundo, como o Cristo, ela está a serviço do homem novo, como instrumento da construção do Reino. Ela mesma, enquanto vive e celebra o mistério do Cristo no mundo, é germe e princípio desse Reino.47 O próprio Senhor lhe confiou a BOA-NOVA a ser anunciada e testemunhada em favor de todos os homens. Ele próprio constituiu os evangelizadores, pela ação do Espírito que lhes foi dado, "não os árbitros nem os proprietários, mas os depositários, os arautos e os servidores".48 Eles são, entretanto, responsáveis pela fidelidade da mensagem e sua pureza.

 

   Igreja: Povo de Deus a serviço do Reino

 

   38. A Igreja, como comunidade de fé, esperança e caridade dos seguidores de Cristo, constitui o Povo de Deus. Esse povo é convocado para o serviço do Reino. De fato, "aqueles que acolhem com sinceridade a BOA-NOVA, por virtude desse acolhimento e da fé compartilhada, reúnem-se portanto em nome de Jesus, para conjuntamente buscarem o Reino, para o edificarem e o viverem".49 Esse Povo de Deus, inserido na História humana, ao mesmo tempo santo e pecador, tem Cristo como cabeça e o Espírito Santo como guia. Em peregrinação na História ele é presidido pelos pastores em comunhão com o sucessor de Pedro, consagrados que foram para o bem de toda a Igreja. A Igreja na América Latina e no Brasil50 vem se esforçando por discernir nos acontecimentos, nas experiências e nas aspirações dos nossos tempos, nos quais participa com outros homens51, a presença e os desígnios de Deus. Ela se solidariza com "as alegrias e as esperanças, com as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos os que sofrem".52 Por isso, ela se compromete, com amor efetivo, na luta pela libertação do homem todo e de todos os homens, animando-os continuamente com a sua própria esperança do Reino definitivo alegria de todos os corações e plenitude de todos os seus desejos.53

 

   A serviço da comunhão dos homens com Deus e entre si

 

   39. Assim, a Igreja, ao mesmo tempo divina e humana, Corpo de Cristo, Povo de Deus, Sacramento universal da Salvação, "está inteiramente a serviço da comunhão dos homens com Deus e do gênero humano entre si54, Com efeito, ela constitui um povo de servidores, sinal e instrumento do serviço do próprio Senhor Jesus aos homens: servidores da sua Palavra, dos seus gestos salvíficos nos sacramentos e na liturgia em geral, do seu amor que redime e liberta a humanidade, do seu Reino na História humana.55

 

   Dignidade do homem

 

   40. O homem é sujeito da liberdade e destinatário do Reino. O anúncio da plena verdade sobre o homem implica reconhecê-lo em sua dignidade de pessoa humana, criado à imagem e semelhança de Deus e destinado a realizar-se na História. "A dignidade do homem exige que possa agir de acordo com uma opção consciente e livre".56 Mais do que isso: O homem "recebe a revelação de que Deus o criou livre, para que ele pudesse, por graça, entrar em amizade com ele e comungar de sua vida".57 Por isso o homem é o destinatário da ação evangelizadora da Igreja.58

 

   A liberdade é dom e tarefa

 

   41. A liberdade, pela qual o homem se constrói e é construído na História, "é a um só tempo dom e tarefa".59 Dom enquanto recebido na consciência humana; tarefa enquanto, por seu exercício, o homem conquiste a si mesmo, descobre-se e se coloca a serviço dos demais na sociedade.

 

   Visões inadequadas do homem

 

   42. Contudo visões inadequadas obscurecem a vocação humana e divina do homem. Na sociedade brasileira vigoram diversas visões, que parcializam e deformam aspectos importantes. São as enumeradas pela assembléia dos Bispos em Puebla: ecologista, cientificista, estatista, economicista e determinista. Dentre todas essas visões, ressalta de modo particular a visão determinista quem era, por um lado, um tipo de fatalismo que considera a pessoa "prisioneira de formas mágicas de ver o mundo e de atuar sobre ele. O homem não seria dono de si, mas vítima de forças ocultas", diante das quais não encontra outra atitude senão a de colaborar com elas ou de aniquilar-se diante delas".60 Levados por essa visão fatalista, muitos cristãos continuam crendo que tudo o que acontece é determinado e imposto por Deus, ignorando assim a autonomia própria da natureza e da História. Por outro lado, há um fatalismo de tipo social, que "se apoia na idéia errônea de que as pessoas não são fundamentalmente iguais", articulado, nas relações humanas, muitas discriminações e marginalizações incompatíveis com a dignidade do ser humano.61

 

   Dignidade de todos homens e mulheres

 

   43. A Igreja proclama "que todo homem e toda mulher, por mais insignificantes que parecem, têm em si a nobreza inviolável que eles próprios e os demais devem respeitar e fazer respeitar, incondicionalmente".62 A Igreja reafirma, pois, a dignidade humana e divina de todos os homens e todas as mulheres, sem nenhuma distinção, reafirmando a vi são cristã da pessoa e de sua liberdade.

Com efeito, graças ao Evangelho que lhe foi confiado, a Igreja é portadora da verdade fundamental sobre o homem, considerado não em termos abstratos, mas na sua realidade concreta e histórica. "na plena verdade da sua existência, de seu ser pessoal e ao mesmo tempo do seu ser comunitário e social".63

 

   A Igreja e a pessoa ferida em sua dignidade

 

   44. A verdade sobre a pessoa humana — sua identidade e sua vocação — há de ser proclamada e testemunhada sempre mais vigorosamente pela Igreja, quanto mais sua dignidade de imagem e de filha de Deus tem sido sistematicamente desrespeitada e espezinhada entre nós, através das múltiplas formas de violência contra a sua vida e os seus direitos mais fundamentais.64 Pois o testemunho da Igreja em favor da vida plena há que ser dado sempre e onde quer que esteja em jogo a vida das pessoas.65 Nisto lhe será concedida, pelo Espírito Santo, a graça de permanecer fiel ao Deus vivo e de seguir corajosamente os passos do Senhor Jesus, que veio "para servir, e para dar a sua vida em redenção de muitos".66

 

   Compromisso radical de serviço aos irmãos

 

   45. O anúncio da plena Verdade sobre Jesus Cristo, a Igreja e o homem está destinado a produzir frutos abundantes. Ele tem sua plena realização na perfeição da caridade. De fato, "todos os fiéis cristãos são chamados à plenitude da Vida Cristã e à perfeição da caridade. Por esta santidade se promove também na sociedade terrestre um modo mais humano de viver".67 Esse anúncio constitui, pois, um constante apelo do Espírito para um compromisso radical de entrega e serviço aos irmãos, como sinal do amor pelo qual Deus amou o mundo a ponto de entregar seu Próprio Filho.

 

EVANGELIZAR À LUZ DA EVANGÉLICA OPÇÃO PREFERENCIAL PELOS POBRES

 

   Como Jesus, opção preferencial e solidária

 

   46. Fiel ao "compromisso evangélico, o qual, como sucedeu com Cristo, é, sobretudo, compromisso com os mais necessitados,68 a Igreja no Brasil reitera a disposição assumida em Puebla pelos Bispos latino-americanos de exercer a globalidade de sua missão evangelizadora à luz de uma clara e profética opção preferencial e solidária pelos pobres... no intuito de sua integral libertação.69

 

   Opção evangélica

 

   47.A opção preferencial pelos pobres é, por natureza, evangélica. Não se reduz a um posicionamento sócio-político em favor dos pobres, no conflito social, embora isso seja uma das conseqüências necessárias verdadeira opção. Da mesma forma, não constitui simplesmente uma estratégia pastoral, ao lado de outras igualmente importantes. A opção pelos pobres é evangélica, isto é, retoma a atitude fundamental do Senhor que no anúncio da Boa-Nova a todos os homens assumiu o amor de predileção pelos pobres, constituindo-os em primeiros destinatários e portadores privilegiados dos valores do Reino para confundir os sábios e poderosos deste mundo.

 

   Sinal do amor do próprio Deus

 

   48. A evangélica opção preferencial pelos pobres é o sinal por excelência do amor de predileção do próprio Deus. Ao longo da tradição bíblica, Ele se revela Amigo dos pequenos e fracos: Ele liberta o pobre que o invoca e o miserável que não tem amparo"70; Ele "se compadece do fraco e do indigente e salva a vida dos necessitados". Ele "livra o desvalido do prepotente e o mísero e o pobre de quem os despoja.71

 

   Os pobres, primeiros destinatários da missão

 

   49. Jesus Cristo demonstrou a grandeza e a radicalidade desse amor de predileção de Deus. Mandado pelo Pai para anunciar a Boa-Nova de libertação aos pobres e oprimidos72, identificou-se pessoalmente solidarizou-se com eles, assumindo sua situação. Sendo rico, faz-se pobre em seu nascimento, em sua vida, sobretudo em sua paixão e morte, expressão máxima da pobreza.73 Só por esse motivo, os pobres merecem atenção preferencial, seja qual for a situação moral ou pessoal em que se encontrem. Criados à imagem e semelhança de Deus para serem seus filhos, esta imagem permanece obscurecida e até escarnecida. Por isso, Deus toma a defesa dos pobres e os ama", e faz do amor serviço a eles prestado, critério de julgamento na participação do Reino definitivo. Assim é que os pobres são os primeiros destinatários da missão, e sua evangelização é o sinal e prova por excelência da missão de Jesus".74

 

   Opção que exige conversão de toda a Igreja

 

   50. A opção preferencial pelos pobres é um compromisso claro, inequívoco e evangelicamente irrecusável, como causa concreta dos empobrecidos da sociedade brasileira. Isso coloca a Igreja na necessidade constante de rever em profundidade a sua prática pastoral e o exercício de sua missão evangelizadora. Com efeito, essa opção exige de todos verdadeira conversão, tanto no sentido de assumir um estilo de vida mais simples, sóbrio e austero que leve a uma "identificação cada dia mais plena com Cristo pobre e com os pobres"75, como no sentido de uma efetiva "solidariedade com os pequeninos e fracos, os que sofrem e choram, os que são humilhados e deixados à margem da vida e da sociedade, para ajudá-los conquistar com sempre mais plenitude a própria dignidade de pessoa humana e de filhos de Deus.76

 

   Escolher uns em favor de todos

 

   51. Os pobres são "os prediletos de Deus"77, e a Igreja no Brasil quer ser "a Igreja dos pobres".78 Longe de ser exclusiva ou excludente, a opção preferencial pelos pobres realiza, na verdade, o amor de Deus e da Igreja por todos os homens: significa escolher, não uns contra os outros, mas uns em favor de todos. De fato, se assim podemos dizer, os pobres não possuem nenhum outro título para serem amados, senão a sua própria humanidade. Preferir os pobres significa, assim, amar a todos os homens naquilo que lhes é o mais fundamental: sua dignidade humana, proclamada a partir da dignidade violada do pobre, destinatário primeiro da evangelização. "A opção preferencial pelos pobres tem como objetivo o anúncio do Cristo Salvador, que os iluminará sobre a sua dignidade, os ajudará em seus esforços de libertação de todas as suas carências e os levará à comunhão com o Pai e os irmãos, mediante a vivência da pobreza evangélica".79

 

   O pobre, portador privilegiado da ação evangelizadora

 

   52. Por outro lado, preferir os pobres significa também reconhecer que são eles, por desígnio de Deus e segundo a dinâmica do Reino, os protagonistas privilegiados de um futuro que já se vislumbra. Eles o fazem através de organizações e práticas sociais alternativas que vão inaugurando, sobretudo nas pequenas Comunidades Eclesiais de Base. Nelas se abrem espaços para vivenciar os valores evangélicos de solidariedade, disponibilidade, partilha, simplicidade e serviço, que prefiguram o projeto de Deus para todos os homens. As lutas solidárias dos pobres, longe de representarem os interesses de apenas uma classe social, significam seu serviço humilde, persistente e sofrido a todos os homens, em vista da renovação da humanidade e da sociedade, a exemplo do Servo Sofredor. Tudo isso faz do pobre o portador por excelência da ação evangelizadora.80

 

   Igreja dos pobres, Igreja de todos

 

   53. "Assim, pois, a Igreja dos pobres fala primeiro e acima de tudo ao homem. A cada homem, e por isso a todos os homens. É a Igreja Universal.... Não é a Igreja de uma classe ou de uma só casta.... Ao mesmo tempo fala às sociedades em sua globalidade e às diversas camadas sociais, aos grupos, etnias e profissões diversas. Fala igualmente aos sistemas e às estruturas sociais, sócio-econômicas e sócio-políticas". A "Igreja dos pobres" fala "àqueles que vivem na miséria" para solidarizar-se com seus esforços pela superação de tudo aquilo que violenta a sua própria dignidade humana mantendo a abertura confiante ao dom de Deus a disponibilidade generosa para com os irmãos.81

   A Igreja dos pobres fala também aos ricos e aos investidos de poder na sociedade, propondo-lhes igualmente a vivência mesma pobreza evangélica, a ser aprovada por uma conversão radical. Essa conversão os faz partilhar seus bens com os pobres "de modo sistemático e sistemático", coloca-se do lado dos pobres" e leva-os a sumirem " plenamente, sem reserva e sem retorno, a causa dos índios que se debatem na pobreza"82, trabalhando para a mudança das estruturas injustas. Enfim, a "Igreja dos pobres" fala a todas as Igrejas, que se disponham a uma partilha paterna que supere as diferenças entre a riqueza e a pobreza existentes entre comunidades e instituições eclesiais O testemunho interno da Igreja demonstrará a sinceridade de sua conversão.

 

   À luz dessa opção descobre-se a injustiça que corrompe a consciência

 

   54. Evangélica opção preferencial pelos pobres significa que a Igreja, identificada com eles e comprometida solidariamente com a sua causa, há de cumprir a sua missão colaborando na (para a) formação da consciência social, demonstrando assim a sua solicitude pastoral por todos os homens. À luz dessa postura profética na sua ação pastoral é que a Igreja vai descobrindo melhor as articulações da injustiça, que não só oprime os pobres mas corrompe a consciência de todos. Essa opção se torna tanto mais necessária e urgente quanto mais se aprofunda o abismo entre ricos e pobres em nosso país, o que significa, para a maioria do nosso povo, vida de privações, marginalização, humilhação e impossibilidade de participar efetivamente nas decisões que dizem respeito ao seu próprio destino.

 

   Opção pelos pobres e mundo do trabalho

 

   55. Considerando que é na complexa rede das relações do trabalho urbano e rural que são geradas maiores injustiças sociais, aí concretiza-se também, a evangélica opção pelos pobres que são os homens e mulheres, adultos e crianças empobrecidos no mundo do trabalho. Os salários baixos e insuficientes para uma vida humana e familiar dignas, a instabilidade no emprego, a corrosão dos salários pelo processo inflacionário, a má remuneração da mão-de-obra doméstica atingindo sobretudo a mulher, não só mantém a pobreza, mas dão continuidade ao processo de empobrecimento de grande parcela da população. A opção pelos pobres, que ilumina e quer caracterizar a ação pastoral da Igreja no Brasil, deve concretizar-se em efetiva preocupação com a imensa massa de trabalhadores, que constituem a maioria da população. São construtores do progresso, e no entanto vêem sua dignidade violada e seus direitos ignorados. Pertencem, no seu conjunto, à multidão dos pobres que não têm, não sabem e não podem, vítimas da exploração.

 

   Predileção pelos subempregados e desempregados

 

   56. Na evangélica opção pelos pobres, a Igreja não pode deixar de ter uma especial predileção para com os subempregados e desempregados, na sua maioria negros que, sendo discriminados e excluídos do mundo do trabalho, são vítimas da degradação social e ficam confinados a zonas de crescente miséria e mesmo de fome.

"A Igreja acha-se empenhada nesta causa, porque a considera como sua missão, seu serviço e como uma comprovação de sua fidelidade a Cristo para assim ser verdadeiramente a Igreja dos Pobres.83

 

   Os que nada são

 

   57. A evangélica opção pelos pobres apóia-se na certeza de que Deus vai fazendo acontecer o seu Reino, construído com a força dos fracos e daqueles que, segundo o mundo, nada são: crianças abandonadas, negros, índios, mulheres, camponeses, os pobres enfim.84 São eles os que mais clamam e anseiam por justiça, amor e paz. Porventura não escolheu Deus os pobres deste mundo para que fossem ricos na fé e herdeiros do Reino prometido por Deus aos que o amam?85

 

   A luta baseada nos valores evangélicos

 

   58. Essa Igreja, que se deseja pobre, esforça-se para imprimir, cada vez mais, à luta dos oprimidos, os valores evangélicos da não-violência, da entrega generosa, da alegria no compromisso, do sofrimento que transforma, do perdão e da reconciliação da abertura à plenitude do Reino.

 

   Maria serva humilde e confiante

 

   59. Maria, que o povo simples e sofrido venera com especial amor e a quem recorre com particular confiança, é a figura por excelência dessa Igreja fiel a Deus e evangelicamente solidária com o pobre. É serva humilde e confiante, constituída para sempre bem-aventurada pelo Todo Poderoso, para o qual a Igreja deve olhar para compreender, na sua integridade, o sentido de sua missão.86

 

EVANGELIZAR PELA LIBERTAÇÃO INTEGRAL DO HOMEM

 

   Aspiração à libertação, sinal dos tempos

 

   60. A Ação evangelizadora da Igreja precisamente por seu caráter religioso, não pode deixar de considerar o homem na integridade de seu ser.87 Deverá, portanto, incidir sobre todas as dimensões da vida humana, incluídas a social, a econômica e a política. A evangelização não seria completa se ela não tomasse em consideração a interpelação recíproca que se fazem constantemente o Evangelho e a vida concreta, pessoal e social, dos homens.88 Neste sentido, a poderosa e quase irresistível aspiração dos povos à libertação constitui um dos principais sinais dos tempos que a Igreja deve perscrutar e interpretar à luz do Evangelho. Este fenômeno marcante de nossa época tem uma amplidão universal; manifesta-se, porém, em formas e em graus diferentes conforme os povos. É sobretudo entre os povos que experimentam o peso da miséria e entre as camadas deserdadas que esta aspiração se exprime com vigor.89

 

   Igreja e compromisso de libertação integral do homem

 

   61. No exercício de sua missão Evangelizadora, a Igreja deve anunciar uma mensagem explícita e sobremaneira vigorosa90 sobre a necessidade da libertação do homem de tudo aquilo que o oprime. Mas tem igualmente o dever de ajudar uma tal libertação nos seus começos, de dar testemunho em favor dela e de envidar esforços para que ela chegue a ser total.91 A Igreja no Brasil reitera o seu compromisso de anunciar e testemunhar o Evangelho através de um empenho decidido em vista da libertação integral do homem e de todos os homens em nosso país.

 

   Pobreza

 

   62. A situação de extrema pobreza a que está submetida a maior parte do povo brasileiro constitui sério e urgente desafio. A Igreja caracteriza tal estado de coisas como escândalo e contradição com o ser cristão92 e identifica aí a presença do mistério do pecado, no sentido bíblico e teológico do termo: idolatria materialista, rejeição concreta do Deus verdadeiro, substituído pelos ídolos da riqueza desmedida, do lucro a qualquer preço, do consumo desenfreado a serviço de uma minoria privilegiada. Essa situação, que nega direitos elementares dos setores majoritários da população, é uma violência contra a dignidade dos filhos de Deus. Mais ainda: em virtude dos poderosos mecanismos de sustentação política e de legitimação ideológica que a mantêm e até intentam perpetuá-la, tal situação se apresenta, concretamente, como forte obstáculo e tenaz resistência ao anúncio e à instauração do Reino de Deus no meio de nós.93

 

   Necessidade de conversão pessoal e social

 

   63. Caracterizada como verdadeiro pecado social — pecado que brota do coração do homem, e se cristaliza nas estruturas, que por sua vez corrompem e pervertem os corações — essa situação exige da Igreja que sua evangelização libertadora se oriente fundamentalmente no sentido de converter ao mesmo tempo a consciência pessoal e coletiva dos homens, a atividade em que eles se aplicam, e a vida e o meio concreto que lhes são próprios.94 A libertação cristã é libertação sobretudo do pecado e do maligno.95 Ela tem início, se desenvolve e é completada pela vitória sobre o pecado pessoal como ofensa a Deus. Com efeito, a Igreja está convencida de que, todo processo de transformação social resultará ilusório e vão, se não intervier uma verdadeira conversão, das mentes, das vontades e dos corações.96

   Sem homens novos, profundamente convertidos ao Evangelho, e por sua vez conscientes da necessidade de evangelizar o próprio processo de transformação social, ainda as melhores estruturas ou os sistemas melhor idealizados depressa se tornam desumanos97 e não estarão absolutamente livres de nosso materialismos e novas formas opressão.

 

   Uma pedagogia evangélica e libertadora

 

   64. Todavia, na medida em que a Igreja, a exemplo de Jesus, acontece no meio dos pobres e abraça concretamente a causa deles, ela possibilita, a partir de sua identificação com eles e da solidariedade com o seu projeto histórico, a oportunidade privilegiada para a conversão profunda das condutas e dos corações. Conversão tanto dos pobres, em vista do seu comprometimento fraterno com os demais na construção da sociedade nova, como dos outros setores sociais, e sobretudo dos ricos e dos detentores do poder, em vista do seu engajamento generoso na luta solidária dos pobres.98 Assim, a opção preferencial pelos pobres constitui a pedagogia evangélico-libertadora para todos os setores da sociedade. Constitui-se também no testemunho eclesial mais coerente com o Evangelho e, por isso mesmo, mais eficaz em vista da conversão decisiva do coração humano para o projeto de Deus que se prefigura no projeto dos pobres.

 

   O exemplo de Jesus

 

   65. Essa foi a pedagogia evangélico-libertadora do próprio Jesus: pobre entre os pobres, proclamou, a partir deles, a Boa Nova do Reino de Deus. Solidarizou-se com eles através de gestos concretos de libertação histórica, verdadeiros sinais visíveis do Reino.99 Mediante esses sinais, Jesus proporcionava a todos os homens a graça da conversão, urgindo-os a uma opção fundamental: acolhimento alegre ou recusa obstinada da Boa-Nova; abertura generosa ou fechamento egoísta do coração.100

Eu te bendigo, Pai, porque escondeste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelastes aos pequeninos''.101

 

   Ação solidária dos pobres

 

   66. A dificuldade da missão não enfraquece a esperança da Igreja. Sua fé em Jesus Cristo, vencedor do mundo, a compromete na tarefa que o Senhor lhe confiou de ser portadora e animadora da esperança do Reino em nosso País. Essa esperança é alimentada e revigorada pela mobilização do povo simples, em cujo seio brotam ações solidárias em vista da superação da miséria e da marginalização de que é vítima, fraternalmente ajudado em suas lutas por outros setores da sociedade sensibilizados pela sua causa. Nessa mobilização dos pobres, a Igreja percebe a presença viva, atuante e libertadora do próprio Senhor Jesus, reconhecida explicitamente e testemunhada sobre tudo nas comunidades eclesiais de base. Aí o povo simples anuncia e celebra a sua fé, alimenta a sua esperança e compromete solidariamente o seu amor na partilha dos bens, dos dons e da vida em torno da memória do Cristo Morto e Ressuscitado.

 

   Necessidade e condições de uma teologia da libertação

 

   67. A ação evangélico-libertadora da Igreja necessita ser acompanhada de uma reflexão teológica permanente. A este respeito, João Paulo II assim se expressou em sua mensagem ao Episcopado do Brasil: Na medida em que se empenha por encontrar aquelas respostas justas — penetradas de compreensão para com a rica experiência da Igreja neste País, tão eficazes e construtivas quanto possíveis e ao mesmo tempo consonantes e coerentes com os ensinamentos do Evangelho, da Tradição viva e do perene Magistério da Igreja estamos convencidos, nós e os Senhores, de que a teologia da libertação é não só oportuna mas útil e necessária. Ela deve constituir uma nova etapa — em estreita conexão com as anteriores — daquela reflexão teológica iniciada com a Tradição apostólica e continuada com os Grandes Padres e Doutores, com o Magistério ordinário e extraordinário e, na época mais recente, com o rico patrimônio da Doutrina Social da Igreja; expressa em documentos que vão da Rerum Novarum à Laborem Exercens.102 Ela deve ser ainda, conforme diz o Papa, uma reflexão teológica plenamente aderente ao constante ensinamento da Igreja em matéria social e, ao mesmo tempo, apta a inspirar uma práxis eficaz em favor da justiça social e da eqüidade, da salvaguarda dos direitos humanos, da construção de uma sociedade humana baseada na fraternidade e na concórdia, na verdade e na caridade.

   Deste modo se poderia romper a pretensa fatalidade dos sistemas — incapazes, um e outro, de assegurar a libertação trazida por Jesus Cristo — o capitalismo desenfreado e o coletivismo ou capitalismo de Estado.103 Em consonância com o pensamento do Santo Padre, a instrução Libertatis Conscientia lembra que uma teologia da liberdade e da libertação como eco final do magnificat de Maria, conservado na memória da Igreja, constitui uma exigência do nosso tempo.104 Não se deve, porém, esquecer, conforme adverte a Instrução Libertatis Nuntius, os desvios e perigos de desvios, prejudiciais à fé e à vida cristã inerentes a certas formas de Teologia da Libertação que usam, de maneira insuficientemente crítica, conceitos assumidos de diversas correntes de pensamento marxista.105

 

   A Igreja no processo de libertação

 

   68. Fiel à sua identidade e à sua missão específica, compete à Igreja — à maneira do sal e da luz inspirar e iluminar o processo de libertação em nosso País, animando-o e confrontando-o com o que Deus, através de sua Palavra e do seu Espírito, revela continuamente a respeito da pessoa humana, sua vocação histórica, seu futuro transcendente. Compete à Igreja, assim, comprometer-se decidida e solidariamente nesse processo que ela fermenta com o Espírito de Cristo, sempre mais conforme com os valores genuinamente evangélicos.106

 

EVANGELIZAR NUMA CRESCENTE PARTICIPAÇÃO E COMUNHÃO

 

   Libertar do pecado pessoal e social para o crescimento

 

   69. A libertação integral do homem em Jesus Cristo é um processo dinâmico, no qual estão presentes duas dimensões complementares e inseparáveis: "libertação de todas as servidões do pecado pessoal e social" e " libertação para o crescimento progressivo no ser humano e cristão''107, no sentido de irmos construindo uma comunhão e uma participação sempre mais viva e perfeita. Isso se dará em todos os planos da nossa vida e convivência: em nosso relacionamento com o mundo, como senhores; com todas as pessoas, como irmãos; e com Deus, como filhos.108

 

   Participação e comunhão

 

   70. Com efeito, esse é o desígnio mesmo de Deus para toda a humanidade. Somos chamados a participar comunitária e solidariamente, como sujeitos, na construção do mundo e da História. Nisto somos incorporados na própria vida e comunhão trinitárias — mistério supremo da unidade — raiz última e, ao mesmo tempo, realização plena e consumada de todos os nossos anseios de participação e comunhão, elementos decisivos para a grandeza e a dignidade da existência humana.109

 

   Amor a Deus no compromisso com os mais pobres

 

   71. O desígnio de Deus sobre a humanidade se nos apresenta hoje como um desafio histórico, como uma tarefa a realizar. Puebla o diz de modo eficaz e incisivo: "O amor de Deus que nos dignifica radicalmente se faz necessariamente comunhão de amor com outros homens e participação fraterna; para nós, hoje em dia, deve tornar-se sobretudo obra de justiça para com os oprimidos (Lc 4,18), esforço de libertação para quem mais precisa. De fato, ninguém pode amar a Deus a quem não vê, se não ama o irmão a quem vê (1Jo 4,20). Todavia, a comunhão e a participação verdadeiras só podem existir nesta vida projetadas no plano bem concreto das realidades temporais, de tal modo que o domínio, o uso e a transformação dos bens da terra, dos bens da cultura, da ciência e da técnica se vão realizando em um justo e fraterno domínio do homem sobre o mundo, tendo-se em conta o respeito da ecologia.

   O Evangelho nos deve ensinar, em face das realidades em que vivemos imersos, que não se pode atualmente, na América Latina, amar de verdade o irmão nem, portanto, a Deus, sem que o homem se comprometa em nível pessoal e, em muitos casos, até em nível estrutural com o serviço e promoção dos grupos humanos e dos estratos sociais mais pobres e humildes, arcando com todas as conseqüências que se seguem no plano destas realidades temporais.110

 

   Participação e comunhão na Igreja: condição para sua credibilidade

 

   72. Continuadora da missão de Cristo, a Igreja — Povo de Deus — está inteiramente a serviço da comunhão do homem com Deus e dos homens entre si. Nisso consiste sua missão evangelizadora, que ela realiza na medida em que, dentro do povo de Deus, todos — hierarquia, leigos, religiosos — são servidores do Evangelho, cada qual segundo seu papel e carisma próprios.111 Sem essa participação e esse empenho pessoal e comunitário de todos os seus membros da missão, a Igreja não pode estar em condições de evangelizar através do testemunho global de sua vida. Se ela, de fato, quer ser fiel à sua condição de sacramento da unidade entre os homens, ela própria e em primeiro lugar deve esforçar-se sempre para ser mais e mais um sinal transparente ou modelo da comunidade de amor no Cristo que anuncia: é condição para a sua credibilidade.112

 

   Comunidade eclesial

 

   73. Ensaio da nova sociedade: Por isso Puebla chega a desejar: "cada comunidade eclesial deveria esforçar-se por constituir para o Continente um exemplo de modo de convivência onde consigam unir-se a liberdade e a solidariedade, onde a autoridade se exerça com o espírito do Bom Pastor, onde se viva uma atitude diferente diante da riqueza, onde se ensaiem forças de organização e estruturas de participação, capazes de abrir caminho para um tipo mais humano de sociedade e, sobretudo, onde inequivocamente se manifeste que, sem uma radical comunhão com Deus em Jesus Cristo, qualquer outra forma de comunhão puramente humana acaba se tornando incapaz de sustentar-se e termina fatalmente voltando-se contra o próprio homem.113

 

   Fermento de comunhão e participação na sociedade

 

   74. É necessário, portanto, que cada comunidade eclesial examine a si mesma e verifique se ela constitui uma imagem ou sinal da comunhão trinitária, expressando em sua prática a fé no Deus Uno e Trino, e se permite e promove a participação de todos, de modo a ser fermento de comunhão e participação na sociedade. Não basta que a comunidade eclesial promova a participação na vida social, política, cultural, educacional.114 Ela deve procurar também em seu âmbito próprio, formas de vida e de organização, que incentivem a participação e a vivência da comunhão .

 

   Responsabilidade comum na vocação batismal

 

   75. No âmbito intra-eclesial, essa exigência de participação e comunhão encontra seu fundamento na igual dignidade dos filhos de Deus. Ela se justifica pela responsabilidade comum aos membros do Corpo de Cristo em relação à missão da Igreja e pela complementariedade dos ministérios que o Espírito suscita para a realização dessa missão. Esta consciência da responsabilidade comum de todos os fiéis foi explicitada pela doutrina do Concílio Vaticano II e se fundamenta na estrutura sacramental da Igreja, particularmente na vocação batismal, e no testemunho amplo e diversificado do Novo Testamento.115 Também foi acolhida e reforçada pelo novo código de Direito Canônico.116

 

   Vocação de todos à santidade e à missão

 

   76. A tomada de consciência da responsabilidade comum de todos os fiéis na missão da Igreja, que desde o Concílio Vaticano II penetra gradativamente nos diversos aspectos da vida eclesial, tem contribuído, também, para uma nova reflexão teológica e a busca de uma eclesiologia lógica mais completa. Nesta nova perspectiva não se pensa a Igreja a partir daquilo que distingue o clero e o laicato, mas a partir do que é comum todos os fiéis: a igual dignidade batismal, a vocação universal à santidade, a participação de todos na missão de apostolado. Assim, a Igreja é vista, antes de tudo, como comunidade, dentro da qual há diversas vocações e pluralidade de ministérios. Entre os diversos ministérios, sobressai o ministério episcopal, que, no exercício da autoridade, garante a unidade e autenticidade da Igreja. Ele não absorve os outros ministérios, mas antes os apóia, anima, coordena e orienta.

 

   Avanços já atingidos

 

   77. Embora a comunhão e participação devem crescer mais nos vários níveis da estrutura e organização eclesiais, deve-se reconhecer e valorizar os progressos já realizados. Diversos organismos inspirados no Concílio Vaticano II têm surgido para tornar efetivas a participação e a comunhão na Igreja. Onde foram criados um espírito de confiança mútua e de respeito às responsabilidades específicas dos diversos membros, deram prova de sua eficácia e merecem particular apreço. Tais são, sobretudo, os Conselhos Presbiterais, Pastorais e Administrativos e a outros espaços privilegiados de vivência de comunhão e participação. Através deles, os diversos membros se sentem verdadeiramente co-responsáveis na missão. Assim, a prática da participação e comunhão vai-se enraizando e frutificando nos diversos níveis e lugares de evangelização de que a Igreja dispõe: a família, a comunidade de base, a paróquia e a diocese. Todos esses, por sua natureza são centros de participação e comunhão, a serem sempre mais incentivados.117

 

   Fortalecer mecanismos permanentes de participação dos leigos

 

   78. Nesse sentido, percebe-se com clareza sempre maior a importância de se fortalecerem mecanismos permanentes de participação, que favoreçam, sobretudo nos leigos, homens e mulheres, a consciência de sua pertença ativa à Igreja e que lhes possibilitem crescer na vivência da comunhão eclesial. Na verdade, multiplicaram-se as CEBs e as Organizações de leigos desejosos de, à luz da Palavra de Deus, movidos pela fé e unidos a seus pastores, se comprometerem como Igreja na tarefa da evangelização. Em reuniões nos diversos níveis da Igreja, vem crescendo a presença dos leigos que participam na sua preparação, na reflexão dos assuntos e na tomada de decisões. A participação efetiva dos leigos que favorece sua maior integração na comunidade eclesial, vem-se desenvolvendo assim — e como tal deve ser incentivada — não como estratégia a mais ou apenas como nova metodologia de trabalho, mas como algo de essencial e constitutivo do processo de amadurecimento da fé dos cristãos e do crescimento da comunhão de todos no Corpo de Cristo.

 

   Co-responsabilidade de todos

 

   79. Portanto, a prática da participação vai contribuindo substancialmente para o crescimento da consciência da co-responsabilidade de todos os membros do Povo de Deus na missão evangelizadora e na vivência mais profunda da comunhão dentro da própria Igreja. Essa comunhão se expressa de modo privilegiado na Liturgia, mormente na Celebração Eucarística, e se manifesta crescentemente através da solicitude de todos, incluídos os vários movimentos, na busca de um planejamento participativo e de uma efetiva pastoral orgânica. Ela suscita novas forças de engajamento pastoral e concretiza uma pluriformidade que a enriquece ainda mais.

 

   Novos desafios

 

   80. A partir da vivência da comunhão e participação já alcançada, novos desafios se apresentam no horizonte atual da Igreja no Brasil. Para que se torne efetivo o exercício dos direitos, assegurados pelo novo Código, exigem-se novas iniciativas e o fortalecimento de outras já vivenciadas:

              as comunidades eclesiais devem procurar um relacionamento mais pessoal e fraterno, superando um tratamento impessoal e burocrático;

              os leigos têm direito a oportunidades de informação e formação, que lhes permitam participar conscientemente da vida eclesial e adquirir um conhecimento da Palavra de Deus, da Doutrina do Magistério e da Teologia;

              a diversificação dos ministérios deve ser continuada e fortalecida, reconhecendo efetivamente os novos ministérios confiados aos leigos e mesmo repensando as tarefas do ministério ordenado em função do novo contexto;

              deve-se associar mais estreitamente leigos e padres nas tarefas da evangelização e na elaboração da ação pastoral, para garantir uma presença cristã na sociedade e na cultura.

 

   Igreja: sacramento de unidade de todos os homens

 

   81. O testemunho de uma verdadeira renovação da vida comunitária eclesial, vivido numa atitude ecumênica para com os outros cristãos e os homens de boa vontade, é uma resposta expressiva à vocação da Igreja de ser o Povo de Deus e o sacramento da unidade de todos os homens.

 

EVANGELIZAR VISANDO FORMAR O POVO DE DEUS E PARTICIPAR DA CONSTRUÇÃO DE UMA SOCIEDADE JUSTA E FRATERNA

 

   Povo de Deus: sal da terra e luz do mundo

 

   82. O anúncio do Evangelho visa formar o Povo de Deus, para que ele seja, no coração do mundo, o testemunho do Reino definitivo e se realize portanto, o mandato de Jesus Cristo: "Ide e fazei que todas as nações se tornem discípulos".118 É para essa missão que o próprio Deus escolheu um povo e, em Cristo, o chamou "de entre judeus e gentios"119 e o enviou, como sal da Terra e luz do mundo.120

 

   Duas dimensões inseparáveis da ação pastoral

 

   83. A formação do Povo de Deus e sua ação para construir uma sociedade justa e fraterna constituem duas dimensões complementares e inseparáveis da ação pastoral da Igreja.

Pela primeira, ela se volta para a tarefa de incorporar novos membros, celebrar os mistérios da fé, alimentar o povo com a Palavra de Deus e organizar e formar comunidades vivas. Pela segunda, ela busca tornar o Evangelho eficaz para o conjunto da sociedade, com seus aspectos formais e estruturais, para além dos limites visíveis das comunidades de fiéis, como presença do Reino nas realidades deste mundo.

 

   Relação entre Evangelho e vida

 

   84. Por força dessa dupla dimensão da ação Pastoral, decorre que todas as preocupações do homem devem ser tomadas em consideração, pois a evangelização não seria completa, se não levasse em conta as relações que existem entre a mensagem do Evangelho e a vida pessoal e social do homem, entre o mandamento do amor ao próximo que sofre e passa necessidade e as situações concretas de injustiça a combater e de justiça e paz a instaurar 121 Uma conclusão se impõe: Toda evangelização visa suscitar, aprofundar e consolidar a fé e, à luz da fé, tornar possível uma sociedade mais justa e mais fraterna. 122

 

   Síntese, fé e vida

 

   85. Formar o Povo de Deus é, antes de mais nada, orientá-lo para que realize a síntese entre fé e vida, de forma que, inserido no mundo, ele possa transformá-lo encarnando em suas estruturas os valores evangélicos.123

 

   A comunidade viva celebra a fé

 

   86. Pelo anúncio da palavra e pela celebração dos sacramentos da Salvação o próprio Cristo, por seu Espírito, edifica constantemente a Igreja, como Povo de Deus. Por isso é tão essencial à sua formação a celebração da fé. Por ela o povo de Deus reunido em comunidades vivas, se abre ao louvor de Deus que fala por acontecimentos e palavras124 e de modo especial por Cristo. Por isso é fundamental que todos os fiéis sejam levados àquela plena, cônscia e ativa participação das celebrações litúrgicas.125 Deste modo, a comunidade celebra o mistério da presença eficaz do Senhor Ressuscitado.

 

   Um povo em permanente serviço ao mundo

 

   87. Mas o Povo de Deus não se constrói por si mesmo. Ele se realiza na constante referência ao Reino, em Cristo, como sinal, ou seja, como manifestação visível, concreta e histórica da graça libertadora e como instrumento eficaz do Reino. Para cumprir sua missão divina, o Povo de Deus se organiza em seu conjunto, como um povo todo ministerial, ou seja: um povo em permanente serviço ao mundo a partir dos diversos carismas e ministérios.

 

   Construir um mundo alicerçado na justiça

 

   88. Neste mundo dividido e tão marcado pela injustiça, torna-se fundamental reafirmar que o mundo querido por Deus é um mundo de justiça; a ordem que deve reger as relações entre os homens se alicerça na justiça126 Uma sociedade corroída pelo egoísmo e fundada em estruturas sócio-econôrnicas injustas e incapaz de promover o bem de todos e sofre ameaça constante. De fato, o bem comum de uma sociedade exige que ela seja justa.   Onde falta a justiça, a sociedade está ameaçada por dentro.127 Ao mesmo tempo, a mensagem de salvação que a Igreja faz chegar a todos é mensagem de amor e fraternidade, mensagem de justiça e solidariedade, em primeiro lugar para os mais necessitados. Numa palavra: é uma mensagem de paz e de justa ordem social.128

 

   Tarefa de todos

 

   89. A tarefa da construção de uma sociedade justa e fraterna é uma responsabilidade de todos os seus membros, quer atuando individualmente, quer atuando através das mais variadas organizações de que participam. A Igreja procura colaborar com todos, tendo em vista tão alto objetivo. Essa colaboração será tanto mais eficiente quanto mais numerosas e bem formadas forem as comunidades da Igreja. Tudo o que nas Diretrizes foi dito até aqui, visa juntamente com tantas outras iniciativas, formar melhor essas comunidades que compõem o Povo de Deus.

 

   Respeito à dignidade, liberdade e direitos da pessoa

 

   90. O empenho cristão terá como objetivo participar na edificação de uma sociedade em que sejam respeitadas a dignidade e a liberdade da pessoa e sejam promovidos todos os seus valores e direitos inalienáveis. Não se completa a tarefa dos cristãos enquanto não derem a sua contribuição específica na construção de uma sociedade segundo as aspirações mais profundas dos homens, segundo o desígnio de Deus; o que implica em mudanças radicais e constantes. No caso do nosso país, para construir uma sociedade justa, "estamos diante do desafio do contraste entre dois Brasil: um, altamente desenvolvido, pujante, lançado rumo ao progresso e à opulência; outro, que se reflete em desmesuradas zonas de pobreza, de doença, de analfabetismo, de marginalização. Ora, este contraste penaliza com seus tremendos desequilíbrios e desigualdades grandes massas populares, condenadas a toda sorte de misérias. Problemas graves como estes não podem ser estranhos à Igreja, ao menos pelos aspectos éticos que eles comportam como causa ou como efeito das situações materiais''.129

   Apresentamos algumas características básicas para orientar a busca de uma sociedade justa, que já devem ser vivenciadas como sinais de esperança, como experiência exemplar do que nos empenhamos em construir.

 

   Dignidade inviolável e direitos fundamentais

 

   91. Todo ser humano é portador de uma dignidade inviolável e sujeito de direitos e deveres que o dignificam em sua relação com Deus como Filho, com os outros como irmãos e com a natureza como Senhor. Mas não é suficiente o reconhecimento formal dessa dignidade e igualdade fundamentais. É preciso que esse reconhecimento seja traduzido na proporção de condições concretas para realizar e reivindicar os direitos fundamentais de todos os homens e de todas as mulheres: Direito à vida e a um padrão digno de existência, direito à saúde e ao lazer; direito à educação, inclusive religiosa e a escolher o tipo de educação desejada para os filhos; direito à liberdade religiosa; direito ao trabalho e à remuneração suficiente para o sustento pessoal e da própria família; direito de todos à propriedade, submetida à sua função social, direito à segurança, à preservação da própria imagem e à participação na vida política.130

 

   Ordem ética e qualidade de vida

 

   92. Toda atividade política democrática, respeitando as exigências da ordem ética e não simplesmente buscando a eficácia política, deverá construir uma sociedade em que cada cidadão seja co-responsável no empenho pela melhoria de condições pessoais e coletivas de vida numa justa distribuição dos bens. O significativo progresso econômico que nosso continente alcançou demonstra que seria possível erradicar a extrema pobreza e melhorar a qualidade de vida do nosso povo; ora, se existe a possibilidade, existe conseqüentemente a obrigação.131

 

   O povo sujeito de seu desenvolvimento

 

   93. Uma democracia política e economicamente participativa deve criar condições para o povo brasileiro ser sujeito de seu próprio e integral desenvolvimento. A Igreja, fundada por Cristo, indica ao homem de hoje, o caminho a seguir para construir a cidade terrena, prelúdio — embora não isento de antinomias e contradições — da cidade celeste. A Igreja indica o modo de construir a sociedade em função do homem, no respeito pelo homem.132

 

   Bem comum a partir do bem dos marginalizados

 

   94. Especiais oportunidades devem ser oferecidas a todos aqueles que até agora foram mantidos à margem da cidadania plena e do processo histórico brasileiro.

A sociedade inteira deve ser solidária com todos os homens, solidária, em primeiro lugar com o homem que tem mais necessidade de auxílio, o pobre. A opção pelos pobres é uma opção cristã; é também a opção da sociedade que se preocupa com o verdadeiro bem comum.133

 

   Mecanismos de participação

 

   95. O Planejamento da economia deve estar sujeito a mecanismos participativos que atribuam prioridade ao atendimento das necessidades básicas de toda população. Este atendimento deverá constituir-se em critério para todas as escolhas referentes a investimentos, desenvolvimento e diversificação da produção.134

 

   Primazia do trabalho sobre o capital

 

   96. Este princípio é válido tanto na organização de atividade produtiva como na remuneração e distribuição dos frutos do trabalho. O trabalho sempre tem a prioridade em relação ao capital porque o fundamento primeiro do valor do trabalho é o próprio homem, que tem o primado em relação às coisas. Ao passo que o homem, como sujeito do trabalho, independentemente do trabalho que faz, o homem, e só ele, é uma pessoa. Essa verdade contém em si conseqüências importantes e decisivas.135

 

   O trabalho, chave essencial

 

   97. Toda pessoa tem o direito e o dever de contribuir para o bem comum através de seu trabalho. Cabe a toda sociedade e, especialmente, aos poderes públicos, a obrigação de empenhar-se para conseguir o pleno emprego.... O trabalho humano é uma chave, provavelmente a chave essencial, se nós procurarmos vê-la verdadeiramente sob o ponto de vista do bem do homem.136 Daí porque a obrigação de conceder fundos em favor dos desempregados, quer dizer, o dever de assegurar indispensáveis subvenções para a subsistência dos desempregados e das suas famílias, é um dever que deriva do principio fundamental da ordem moral....137

 

   Liberdade e autonomia sindical

 

   98. A liberdade e autonomia sindical e intersindical devem ser asseguradas a todos os trabalhadores em nível local, nacional e internacional. Defendemos o seu direito fundamental de criar organizações de defesa e promoção dos seus interesses e para contribuir responsavelmente para o bem comum.138

 

   Destinação universal dos bens da terra

 

   99. Os bens da terra têm destinação universal para a realização de todas as pessoas. A propriedade privada subordina-se a esta lei universal. Ela não pode concentrar abusivamente nas mãos de poucos ou ser usada como instrumento de dominação e exploração de outros seres humanos. Ela só se justifica como garantia de liberdade, bem-estar pessoal, familiar e social.139 O único título legítimo para a posse dos meios de produção — e isto tanto sob a forma de propriedade privada, como sob a forma de propriedade pública ou coletiva — é que eles sirvam ao trabalho.140 Baseada neste princípio que enfatiza a primazia do trabalho sobre o capital, a Igreja insiste na necessidade de medidas que garantam a função social da empresa. Estas medidas incluem formas de participação nos lucros e na gestão das empresas e excluem as demissões em massa e as demissões sem justa causa. A realização da justiça social exige a implantação de Reforma Agrária e de Reforma do uso do Solo Urbano que favoreçam o acesso à posse e uso da terra rural ou urbana... Responsáveis pelos povos, classes poderosas que às vezes conservais improdutivas as terras que escondem o pão que a tantas famílias falta — a consciência humana, a consciência dos povos, o brado dos desvalidos e sobretudo a voz de Deus, a voz da Igreja repetem-vos comigo: Não é justo, não é humano, não é cristão continuarem certas situações claramente injustas. Urge por em execução medidas reais, eficazes em nível nacional e internacional.141

 

   100. A construção de uma sociedade justa e fraterna é hoje ameaçada pela explosão de formas intoleráveis de violência, tanto no meio rural como no meio urbano, com a formação de formas paralelas de poder que impossibilitam a consolidação de uma autêntica democracia. A Igreja deve empenhar-se na supressão destas formas de violência.

 

   Superar todas violências

 

   101. Para se construir uma sociedade justa e fraterna, de modo especial nos países que vivem em situação de dependência, torna-se necessário assumir opções sócio-políticas firmes ao serviço do bem comum. Não bastam soluções paliativas, mas é preciso promover uma real transformação. A América Latina está, evidentemente, sob o signo da transformação e do desenvolvimento. Transformação que, além de produzir-se com rapidez extraordinária, atinge e afeta todos os níveis do homem, desde o econômico até o religioso.142 Daí porque a política vem se tornando de grande relevância para o agir organizado e globalizante da sociedade.

 

   Opções Sócio-políticas e o compromisso cristão

 

   102. Atendo-se, pois, à sua própria vocação, o poder político deve saber desvincular-se de interesses particulares, para poder encarar a sua responsabilidade pelo que se refere ao bem de todos, passando mesmo para além das fronteiras nacionais. Tomar a sério a política, nos seus diversos níveis — local, regional, nacional e mundial — é afirmar o dever do homem, de todos os homens de reconhecerem a realidade concreta e o valor da liberdade de escolha que lhes é proporcionada, para procurarem, juntos, o bem da cidade, da nação e da humanidade. A política é uma maneira exigente — se bem que não seja a única, de viver o compromisso cristão, ao serviço dos outros.143

 

   Importância da política partidária

 

   103. A fé cristã não despreza a atividade política; pelo contrário, a valoriza e a tem em alta estima.144 A Igreja sente como seu dever evangelizar a totalidade da existência humana, inclusive a dimensão política. Primeiro, no sentido mais amplo que visa o bem comum. Corresponde-lhe precisar os valores fundamentais de toda a comunidade... Mostrando o interesse da Igreja pela política, a apresenta como forma de dar culto ao único Deus, dessacralizando e ao mesmo tempo consagrando o mundo a Ele. 145 Segundo, a realidade concreta desta tarefa fundamental se faz, normalmente, através da política partidária, isto é, dos grupos de cidadãos que se propõem conseguir e exercer o poder político para resolver as questões econômicas, políticas e sociais, segundo seus próprios critérios ou ideologias.146

 

   Desafios na relação fé-política

 

   104. A relação fé-política tem adquirido especial relevância nos últimos anos, causa de muita generosidade mas também de muitas incompreensões e mesmo perseguição. Problemas candentes desafiam a ação pastoral e a reflexão teológica:

              como se dá a opção política partidária dos cristãos;

              qual o estímulo e o acompanhamento da Igreja aos cristãos        comprometidos na política partidária;

              como conciliar o engajamento na política partidária com o           engajamento pastoral.

 

   SINAL DO REINO DEFINITIVO

 

   O Reino de Deus como absoluto

 

   105. A ação evangelizadora da Igreja visa, por graça e dom do Espírito, formar um Povo de Deus renovado e participar da construção de uma nova sociedade como sinal de Reino definitivo. De fato, O Senhor Jesus iniciou sua Igreja pregando a Boa-Nova, isto é, o advento do Reino de Deus147, de tal maneira importante que, em comparação com ele, tudo o mais passa a ser 'o resto' que é dado por acréscimo.148 Esse Reino é inaugurado por Jesus Cristo, pelo dom de seu Espirito, como novo relacionamento com o Pai e entre os homens, que não se esgota na História.

 

   O Reino já presente na História

 

   106. É o Reino definitivo que em germe está presente na História, por força do mistério pascal. No centro da História fica assim implantado o Reino de Deus, resplandecente na face de Jesus Ressuscitado. A justiça de Deus triunfou na injustiça dos homens. Com Adão, principiou a História velha. Com Cristo, o novo Adão, principia a História nova. Esta recebe o impulso indefectível que levará a todos os homens, transformados em filhos de Deus, pela eficácia do Espírito, a um domínio do mundo cada dia mais perfeito, a uma comunhão entre os irmãos cada dia melhor realizada, à plenitude da comunhão e participação que constituem a própria vida de Deus.149

 

   O Reino transcendente, dom da graça de Deus

 

   107. A mensagem e ação evangelizadora da Igreja, discípula de Cristo, têm como centro a proclamação desse Reino de Deus —comunhão profunda, perfeita e definitiva de Deus com os homens, dos homens com Deus e dos homens entre si — o qual não coincide com nenhuma realização histórica concreta, nem tampouco é fruto do empenho puramente humano, mas se projeta para além do tempo e da História, como consumada salvação que, em Jesus Cristo e apenas nele, é oferecida a todos os homens, como dom da graça e da misericórdia de Deus.150

 

...mas construído também através dos esforços humanos

 

   108. A Igreja, porém, está igualmente convencida de que a construção do Reino se dá desde aqui e agora, também através dos esforços humanos em vista de uma sociedade verdadeiramente justa, fraterna, solidária e livre. Nesses esforços ela reconhece a presença atuante do próprio Deus Salvador. Ela sabe, também, que o Reino passa através de mediações históricas que, não obstante sua parcialidade e ambigüidade, são sinais da obra definitiva de Deus, eterna e consumada. Assim, a missão da Igreja, que se realiza continuamente na perspectiva escatológica, é ao mesmo tempo plenamente histórica.151

Desta forma, a esperança suscitada pelo anúncio do Reino definitivo não enfraquece o esforço pelo progresso da cidade terrestre, mas pelo contrário, dá-lhe sentido e força. Convém, certamente, distinguir cuidadosamente progresso terrestre e crescimento do Reino, que não são da mesma ordem. Entretanto, tal distinção não é uma separação, pois a vocação do homem à vida eterna não suprime e sim confirma a sua missão de por em obra as energias e os meios que recebeu do Criador para desenvolver a sua vida temporal.152

 

   A Igreja encarna-se no processo de transformação como o grão de trigo...

 

   109. Por isso, a Igreja há de se encarnar concretamente a partir de sua especificidade e originalidade, no processo de transformação libertadora das estruturas marcadas pelo pecado, apesar da ambigüidade e conflitividade presentes em tal processo. E isso justamente para que tal processo seja continuamente evangelizado e se abra para a plenitude da libertação genuinamente cristã e transcendente. A morte e ressurreição de Cristo constituem o mistério que tem a vida cristã sentido e alcance que a iluminam. A Cruz na vida de Cristo, constitui uma passagem necessária rumo à ressurreição gloriosa e definitiva. Isso nos faz entender o sentido da cruz, da renúncia cristã e da própria morte. Só o grão de trigo que morre produz fruto.

 

   110. Os religiosos e religiosas desempenham um papel importante e insubstituível na obra de evangelização. A radicalidade do seguimento de Cristo e da dedicação total ao serviço da Igreja faz de cada comunidade religiosa e de cada um de seus membros um sinal de vida evangélica e um testemunho vivo e interpelante que atrai o Povo de Deus para o caminho da santidade e da doação o pessoal ao serviço dos irmãos.153

 

   Testemunho da fé viva

 

   111. Desta forma, os cristãos seguem os passos de Jesus que embora fosse Filho, aprendeu, contudo a obediência pelo sofrimento154 e consumou na cruz o caminho para o Pai. A Igreja empreende, pois, sua caminhada terrena no seguimento de Jesus, de maneira filial, em busca do Reino definitivo. Em sua peregrinação terrena a Igreja é, além disso, fortalecida pelo testemunho da fé, que tantos seguidores de Jesus Cristo deram pelos séculos afora, até hoje, quer pela fidelidade ao Evangelho no dia-a-dia, quer pela entrega de si à morte pela causa da fé, da justiça e da fraternidade.

   Eles viveram no espírito das bem-aventuranças e, por isso, são exemplo e modelo para todos. Entre as testemunhas da fé viva se encontram os santos e, de modo especial a Virgem Maria, porque, nas condições concretas de sua vida, ela aderiu total e responsavelmente à vontade de Deus (cf. Lc 1,38); porque soube acolher a sua palavra e pô-la em prática; porque a sua ação foi animada pela caridade e pelo espírito de serviço; e porque, em suma, ela foi a primeira e mais perfeita discípula de Cristo — o que naturalmente, tem valor exemplar universal e permanente.155

 

   Em direção ao novo céu e nova terra

 

   112. Em seu caminhar terreno a Igreja, Povo de Deus, vai em direção ao Reino definitivo. "Depois que propagarmos na terra, no Espírito do Senhor e por sua ordem, os valores da dignidade humana, da comunidade fraterna e da liberdade, todos esses bons frutos da natureza e do nosso trabalho, nós os encontraremos novamente limpos contudo de toda impureza, iluminados e transfigurados quando Cristo entregar ao Pai o reino eterno e universal: reino da verdade e da vida, reino da santidade e da graça, reino da justiça, do amor e da paz."156 Esse é o amplo horizonte que nos abre o livro do Apocalipse: caminhamos para um céu novo e uma nova terra onde nunca mais haverá morte, nem luto, nem clamor, e nem dor haverá mais. Sim! As coisas antigas se foram!.157

 

 

II - DIMENSÕES GERAIS DA AÇÃO PASTORAL LINHAS

 

   113. O Objetivo Geral é, em nível nacional, o elemento de articulação de toda a Pastoral. A explicitação de seu conteúdo oferece elementos inspiradores e orientadores para as atividades pastorais em todos os níveis. Devidamente assumido, torna-se ponto de convergência para todos os tipos e formas de ação pastoral. É o ponto central das Diretrizes da Ação Pastoral da Igreja no Brasil.

 

   114. Desde o Plano de Pastoral de Conjunto (1966-1970), a Igreja no Brasil adotou, como quadro de referência abrangente e encaminhador de sua atividade, as denominadas "linhas" pastorais. Em abril de 1983, a 21ª. Assembléia Geral do Episcopado brasileiro pronunciou-se pela continuidade dessas mesmas linhas durante o próximo quadriênio, devendo-se dar atenção especial a diversos destaques, também definidos pela mesma Assembléia.

 

   115. As seis linhas correspondem às grandes dimensões da vida eclesial. Dimensões que são elementos constitutivos da ação pastoral da Igreja, fundamentados na própria vida cristã pessoal e comunitária. São expressões qualificadas dessa vida cristã e pertencem necessariamente à atuação visível do Espírito Santo na Igreja, porque:

 

   116. É o Espírito que convoca e reúne seu povo para viver em comunidade, conforme o carisma e a missão que a cada um são concedidos, segundo o dom de Deus (DIMENSÃO COMUNITÁRIA E PARTICIPATIVA — Linha 1).

 

   117. É o Espírito quem faz do Povo de Deus um povo que proclama a Palavra e oferece a toda a humanidade os dons de sua fé e pertença eclesial (DIMENSÃO MISSIONÁRIA — Linha 2).

 

   118. É o Espírito Santo quem faz crescer continuamente o Povo de Deus mediante o aprofundamento e a vivência na fé, na esperança e na caridade, ensinando-o a ler os acontecimentos cotidianos à luz da Palavra e da Vida de Jesus Cristo e a participar eficazmente na construção de um mundo justo e fraterno (DIMENSÃO CATEQUÉTICA — Linha 3).

 

   119. É o Espírito que reúne o povo em assembléias para a escuta da Palavra de Deus e para celebrar a Palavra feita carne e alimento, e, em união com o mesmo Cristo, oferecê-lo e oferecer-se como oblação pura158, e assim comprometer-se a viver mais intensamente a fraternidade (DIMENSÃO LITÚRGICA — Linha 4).

 

   120. É o Espírito quem impulsiona a Igreja a viver na unidade, fazendo-a superar as divisões, crescer para a plena comunhão em Cristo e abrir-se para o diálogo religioso (DIMENSÃO ECUMÊNICA E DE DIÁLOGO RELIGIOSO — Linha 5).

 

   121. É o Espírito quem anima a vida do Povo de Deus para que atue no meio da sociedade como fermento, sal e luz, transformando-a pelo testemunho e ação, para que seja mais justa, solidária e fraterna, anunciando dessa forma os valores do Reino definitivo (DIMENSÃO PROFÉTICA E TRANSFORMADORA — Linha 6).

 

   122. Enquanto sinal e sacramento eficaz da ação do Espírito, a Igreja expressa sua própria vida nessas dimensões. Elas não existem isoladamente. As seis linhas ou dimensões não podem ser tomadas em separado, nem paralelamente. Elas se interpenetram e fortalecem umas às outras. E no Objetivo Geral que as linhas ou dimensões se inspiram e encontram sua identificação atual. Este, por sua vez, se realiza através de todas e de cada uma delas.

 

   123. A seguir, apresenta-se a identificação de cada uma das seis linhas ou dimensões como quadro de referência da ação pastoral da Igreja em todos os níveis.

 

DIMENSÃO COMUNITÁRIA E PARTICIPATIVA — LINHA 1

 

   124. O Espírito de Cristo convoca e reúne seu povo para viver em comunidade. Nesta, conforme o dom de Deus, cada um desenvolve seu carisma específico e desempenha sua missão a serviço do Corpo e da Missão da Igreja no Mundo. Essa dimensão comunitária abrange, de um lado, a consciência da presença do Espírito vivificador, que distribui os dons e carismas para o bem de todo o Corpo. "Há diversidade e dons, mas o Espírito é o mesmo: diversidade de ministérios, mas o Senhor é o mesmo; diversos modos de ação, mas é o mesmo Deus que realiza tudo em todos.159 Cada um recebe o dom de manifestar o Espírito para utilidade de todos. Por outro lado, essa dimensão comunitária abrange também a vivência de uma crescente comunhão, pela qual a Igreja, acolhendo e incentivando as diversas vocações e carismas específicos, se organiza em estruturas sempre mais participativas para a construção da unidade orgânica que é sinal da comunhão dos homens com Deus e dos homens entre si.

 

DIMENSÃO MISSIONÁRIA — LINHA 2

 

   125. A Igreja toda é missionária. Ela tem origem na missão do Filho e do Espírito Santo, segundo o desígnio do Pai.

 

   126. Todo o Povo de Deus e cada cristão é "enviado" para anunciar a boa notícia a todas as nações. É chamado a comprometer-se com a atividade missionária no próprio país e em outras partes do mundo, dedicando especial atenção às regiões e situações mais carentes e àquelas onde ainda não tenha sido suficientemente proclamado o Reino.

 

   127. Os Bispos, sucessores do colégio dos apóstolos, são consagrados para a salvação do mundo inteiro, não apenas para uma diocese. Os presbíteros e os diáconos são ordenados para a missão universal da Igreja; sinais sacramentais de Cristo Servo, servem à comunidade, com o Bispo, numa Igreja chamada a ser, toda ela, missionária. Os institutos de vida consagrada, todos, por vocação especial, cultivarão a dimensão missionária em seu trabalho e em sua vida. Os leigos, também eles testemunhas e membros vivos, participam ativa e co-responsavelmente da missão da Igreja.

 

   128. Do mesmo modo, a Igreja particular não pode fechar-se em si mesma, nas próprias preocupações, mas deve ser missionária, isto é, ir além de si, para a humanidade que ainda não foi evangelizada. Deve ultrapassar os próprios limites para ajudar outras Igrejas particulares, enriquecendo-se mutuamente. Esta tarefa missionária é tão essencial para a vida da Igreja que, sem esta, ela deixa de ser Igreja de Cristo. A ação missionária fará assim parte de toda atividade pastoral pois, missão "ad gentes" e missão interna são dois aspectos da vida da Igreja que se completam.

 

   129. As grandes opções da pastoral da Igreja do Brasil, a saber, a opção preferencial pelos pobres, a promoção da justiça e denúncia da injustiça, a evangelização das culturas, a comunhão e participação, não podem limitar a Igreja em seus problemas mas devem encontrar na missão "ad gentes" sua plenitude.

 

   130. A Igreja em sua atividade pastoral deverá despertar a solidariedade dos povos e alertar sobre as raízes, inclusive mundiais, dos males da opressão de que sofre o nosso povo, impedindo o Reino.

 

   131. A abertura para além das fronteiras é uma exigência de fidelidade e uma prova de amadurecimento:

"Finalmente chegou para a América Latina a hora de intensificar os serviços recíprocos entre as igrejas particulares e de estas se projetarem para além de suas próprias fronteiras, "ad gentes". É certo que nós próprios precisamos de missionários, mas devemos dar de nossa pobreza. Por outro lado nossas Igrejas podem oferecer algo de original e importante; o seu sentido de salvação e libertação, a riqueza de sua religiosidade popular, a experiência das Comunidades Eclesiais de Base, a floração de seus ministérios, sua esperança e a alegria de sua fé. Já se realizaram esforços missionários que se podem aprofundar e se devem ampliar..." P. 368.

 

   132. A linha missionária tenha presente as outras cinco dimensões da ação pastoral da Igreja no Brasil.

 

DIMENSÃO CATEQUÉTICA — LINHA 3

 

   133. Impulsionado pelo Espírito Santo, o Povo de Deus zela por seu aprofundamento no conhecimento e vivência da própria fé, esperança e caridade. Este processo educativo ele o faz de modo contínuo mediante a interação entre a Palavra de Deus, as Formulações da fé cristã e as situações da vida e a História. A medida que amadurece na fé, o Povo de Deus vai tendo melhores condições de dar razões de sua esperança, ao mesmo tempo que se compromete, com mais consciência e convicção, na transformação da sociedade.

 

   134. A Dimensão Catequética é vista aqui como o processo de educação pessoal e comunitária, progressiva e contínua, orgânica e sistemática (cf. CR n.° 138) do cristão na fé, na esperança e na caridade. Este processo busca o amadurecimento do cristão em sua relação filial com o Pai, pelo Filho no Espírito Santo; em sua participação e comunhão, no exercício de seus dons e carismas, na comunidade eclesial, e em seu engajamento, pela força do batismo e como membro da Igreja, na construção de um mundo justo e fraterno.

 

   135. A Dimensão Catequética leva em conta as demais cinco dimensões da ação pastoral da Igreja, pois, não pode existir verdadeira catequese a não ser que ela seja comunitária, missionária, litúrgica, aberta ao ecumenismo e ao diálogo religioso e, também profética-transformadora. Desse modo a catequese dá a sua contribuição para uma sólida formação do Povo de Deus e o auxilia também para que participe eficazmente na construção de uma sociedade justa e fraterna como sinal do Reino Definitivo.

 

DIMENSÃO LITÚRGICA — LINHA 4

 

   136. A liturgia, nos seus ritos e nas suas palavras, na unidade e multiplicidade de formas, constitui uma epifania especial da Igreja, expressão e realização do seu mistério de Comunhão e Salvação. Na liturgia, celebração do Mistério Pascal de Cristo, a Igreja aparece mais clara e eficazmente "como um sacramento", sinal e instrumento de íntima união com Deus e de unidade de todo o gênero humano (LG 1), "manifestando e ao mesmo tempo operando o mistério do amor de Deus para com o homem" (GS 45).

É, portanto, na liturgia, que o Povo de Deus encontra seu momento de maior comunhão. É a festa da comunhão eclesial. Nela a comunidade organizada se sente chamada e levada a celebrar diante de Deus a própria vida, com suas alegrias e sofrimentos, com suas lutas e conquistas.

 

   137. Nenhuma atividade pastoral pode realizar-se sem referência à liturgia, e qualquer celebração tem projeção evangelizadora e catequética, enquanto aceita o homem como ser sacramental, e leva a criação inteira a tornar-se, de certa forma, sacramento de Deus. Toda a ação pastoral terá como ponto referencial a liturgia, na qual se celebra a memória e se proclama a atualidade do projeto messiânico.

 

   138. Uma das tarefas da dimensão litúrgica é estimular e educar a comunidade cristã a traduzir em gestos celebrativos o que sua sensibilidade de fé interpreta como sinal dos tempos e cairós, tornando-se uma concretização da história da salvação. Isto requer um trabalho paciente de sensibilização e formação das comunidades cristãs, que as leve a descobrir a ligação entre fé e tarefas históricas, entre Reino de Deus e cidade terrena, entre identificação com Cristo e amor para com o homem.

 

   139. Exigindo a fidelidade aos valores evangélicos, que ela apresenta encarnados no Cristo pascal a liturgia unifica a comunidade cristã. Para isso cria no seu interior as condições fundamentais para a escuta e o diálogo, denuncia qualquer fechamento, revê e repropõe continuamente as várias opções à luz da fé, conciliando-as sempre com a visão do Evangelho. Numa palavra, ratifica a nova e eterna Aliança e compromete-se com a construção do Reino.

 

DIMENSÃO ECUMÊNICA E DE DIÁLOGO RELIGIOSO — LINHA 5

 

   140. Como resposta ao apelo de unidade expresso na oração sacerdotal do Senhor — "que todos sejam um... para que o mundo creia" (Jo 17,21) —, o Povo de Deus é chamado a crescer permanentemente em espírito e atitude de diálogo e abertura, na busca da plena e visível comunhão de todos aqueles que aceitam Jesus como Senhor. Esse testemunho de comunhão é sinal e instrumento de unidade para a humanidade dilacerada pelos pecados de divisão e dominação. Desta forma, o testemunho e a ação dos cristãos contribuem para a terra ser a "oikoumene", a terra habitada.

 

   141. Por outro lado, a construção de uma sociedade justa e fraterna exige de todos os cristãos, organizados em comunidades, abertura crescente para o diálogo com as religiões não-cristãs e com pessoas, movimentos e grupos não crentes. Entende-se aqui o diálogo como todo o conjunto de relações positivas e construtivas com pessoas e comunidades de outras crenças ou até com grupos fechados ao Transcendente, em vista de conhecimento mútuo, enriquecimento recíproco e ação conjunta em favor das grandes causas da humanidade.

 

DIMENSÃO PROFÉTICA E TRANSFORMADORA — LINHA 6

 

   142. A Igreja, Povo de Deus peregrino na História, tem a missão de ser luz, sal e fermento no mundo. Estando presente na sociedade, a Igreja como um todo — tanto os fiéis individualmente como os grupos, instituições e organizações eclesiais — vive profunda relação de influência mútua com essa mesma sociedade. Crescendo na fé, o Povo de Deus vai tomando consciência cada vez mais clara de sua dimensão profética, que anuncia o Senhor e o seu Reino, e denuncia tudo quanto avilta o homem, imagem e semelhança de Deus. Vai tomando consciência, igualmente da missão que lhe cabe de contribuir para a transformação da sociedade.

 

   143. O Povo de Deus faz tudo isso de várias maneiras:

 

a)       com a permanente atenção em auscultar os anseios, aspirações e apelos de todos os que sofrem as diversas formas de injustiça de uma sociedade ainda não devidamente empenhada na promoção do bem comum;

b)       com a permanente preocupação em assumir esses apelos nos diversos níveis e organizações da Igreja, a fim de colaborar no seu atendimento, a partir das exigências da Fé;

c)       com o permanente esforço em referir esses apelos a uma situação estrutural de injustiça, a fim de motivar a todos, não só ao atendimento de casos isolados, mas também a uma ação transformadora global, com vista a uma sociedade sem a crescente e injusta desigualdade entre ricos e pobres; democrática, portanto, menos elitista e mais participativa, em relações humanas solidárias e não dominadas pela cobiça, ambição e violência e principalmente, aberta para as realidades que transcendem o que é meramente temporal e terreno.

 

DIMENSÕES PASTORAIS E SITUAÇÕES HUMANAS

 

   144. As dimensões ou linhas da Ação Pastoral devem concretizar-se em todas as realidades humanas. Essas realidades ou situações humanas podem diferenciar-se sob vários aspectos, como por exemplo: segundo faixas etárias (crianças, jovens, adultos, anciãos); tipos de trabalho ou ocupação (operários, lavradores, bóias-frias, empregadas domésticas, profissionais liberais); necessidades básicas (saúde, alimentação, educação, meio-ambiente, informação, comunicação, lazer). Cada uma das situações humanas exige uma forma particular de ação pastoral, dando origem às diversas pastorais específicas: Pastoral da Família, Pastoral dos Jovens, Pastoral das Favelas, Pastoral dos Meios de Comunicação Social, Pastoral da Saúde, Pastoral da Terra e outras.

 

   145. A ação pastoral consiste em desenvolver todas as dimensões da vida eclesial em cada uma das situações humanas. Cada pastoral específica poderá dar maior ênfase a uma ou outra dimensão, conforme sua natureza, necessidade e urgência das circunstâncias. No entanto, será incompleta se não integrar todas as dimensões ou linhas.

 

   146. O conjunto das linhas ou dimensões constitui o quadro de Referência Geral da Ação Pastoral da Igreja no Brasil em todos os níveis. Não obrigam porém a organizar a ação pastoral concreta em linhas ou dimensões. Cada nível de Igreja, cada Igreja Particular pode e deve organizar seus planos ou ação pastoral a partir de um quadro operacional que melhor se adapte à sua realidade.

 

III - DESTAQUES

 

   Introdução

 

   147. Os Bispos reunidos na 25ª Assembléia Geral indicaram por ordem de votação, algumas áreas ou situações humanas que, no Brasil, merecem destaque na atuação pastoral, em todos os níveis, para os próximos quatro anos: MEIOS DE COMUNICAÇÃO SOCIAL, JUVENTUDE E FAMÍLIA.

Trata-se de áreas da vida eclesial ou de situações humanas que, devido às condições atuais, necessitam de especial atenção e cuidado pastoral.

 

   148. A ação pastoral dedicada a esses destaques deverá ser planejada tendo presente o OBJETIVO GERAL, elemento unificador de toda atividade pastoral da Igreja no Brasil. Ainda que ligados a esta ou aquela linha, pelo fato de serem mais claramente expressão de determinada dimensão da vida da Igreja, os destaques também deverão ser assumidos em conjunto, levando em consideração o pleno desenvolvimento de todas as dimensões da vida eclesial.

 

   149. As páginas seguintes oferecem breve encaminhamento pastoral de cada um dos destaques. Em primeiro lugar, busca-se dar o sentido e as razões dessa preocupação da Igreja. A seguir, em forma de perguntas, procura-se abrir o leque das possibilidades de atuação pastoral para as diversas dimensões. Propõe-se, com isso, despertar uma participação ampla, na busca de respostas para os desafios que a situação em destaque apresenta.

 

DESTAQUE 1 — MEIOS DE COMUNICAÇÃO SOCIAL

 

   Sentido e Razões

 

   150. Os Bispos do Brasil, reunidos em sua 25.ª Assembléia Geral, escolheram Meios de Comunicação como primeiro Destaque para a ação pastoral da Igreja no Brasil nos próximos 4 anos. Essa escolha deve-se à preocupação com a realidade dos Meios de Comunicação em nosso país.

 

   151. Constata-se que os Meios de Comunicação Social (MCS) não têm desenvolvido sua missão de informar corretamente. Isto, em grande parte, porque estão a serviço de interesses de grupos de pressão detentores do poder econômico e político. A Comunicação Social não está a serviço da superação de injustiças sociais e sim da promoção da sociedade de consumo, da exploração dos sentimentos, das paixões e especialmente do sexo. São veiculadas pelos Meios de Comunicação Social aquelas mensagens que respondem aos interesses de seus proprietários: o lucro, o poder. Os MCS tornaram-se grandes empresas onde a Comunicação se transforma em bem de consumo lucrativo.

 

   152. Dentro dessa realidade situa-se toda a questão das novas tecnologias, bem como a informática. As novas tecnologias que estão sendo introduzidas no Brasil, tais como satélites, computadores, videocassetes, videotextos e outras, com a justificativa de modernização e progresso, não se destinam ao serviço da compreensão entre as pessoas nem às necessidades das classes populares. Estão a serviço de empresas transnacionais com prejuízo da economia nacional e ferem, em muitos casos, tecnologias que poderiam estar a serviço das classes populares permitindo a descentralização da informação.

 

   153. O Rádio e a Televisão são os principais meios do sistema de comunicação de massa existentes no País. São os que mais atingem a população: o rádio atinge cerca de 90%; a televisão cerca de 70% e os jornais cerca de 10% . E são também os mais importantes economicamente: o rádio e a televisão absorvem quase 70% da totalidade das verbas publicitárias.

 

   154. O Doc. da 24ª Assembléia da CNBB "Por uma Nova Ordem Constitucional" diz que a importância dos meios de comunicação social, numa sociedade democrática, exige que eles não sejam monopólio do Estado ou de qualquer grupo; portanto, sejam acessíveis aos diversos grupos e tendências sociais e livres das pressões e controle do poder econômico.160

 

   155. A legislação atual favorece a formação de monopólios por ser o Governo quem outorga, as concessões e o faz de acordo com seus próprios interesses .

 

   156. Dessa maneira, os MCS que poderiam ter importância fundamental para a construção de uma sociedade justa e fraterna, tornam-se instrumentos de poder a serviço de determinados grupos de pressão econômica política e ideológica. A cultura é descaracterizada e a massificação torna-se uma realidade gritante. A maioria dos segmentos sociais não têm acesso aos MCS, nem sequer àquilo que lhe é fundamental: o direito à informação. Sobre esse direito, o Decreto Inter Mirifica, do Concílio Vaticano II diz: "... é intrínseco à sociedade humana o direito à informação naqueles assuntos que interessam aos homens, quer tomados individualmente, quer reunidos em sociedade, conforme as condições de cada qual. O correto exercício deste direito, contudo, exige que a comunicação, quanto ao seu objeto, seja íntegra...". 161 Esta constatação do Decreto, promulgado pelo Vaticano II em 1963, continua expressando sua força na realidade atual.

 

   157. O Seminário sobre "Igreja e Nova Ordem Mundial da Informação e Comunicação" (NOMIC), realizado em EMBU-SP, em 1982, denuncia no Documento final: "A informação e a comunicação desempenham um papel decisivo nesta estratégia de dominação. Os MCS não são utilizados como um bem social, mas como empresas comerciais, pertencentes a uma minoria, pretendendo suas mensagens reforçar os valores estabelecidos e neutralizar a vontade de mudança do povo. Os fluxos internacionais de informação são controlados diretamente por uns poucos centros de poder mundial, impedindo que todos tenham oportunidade de fazer ouvir sua voz".

 

   158. "A atual mobilização em nosso País é sinal de esperança e mudança. A Igreja no Brasil, preocupada com a comunicação social, tem-se empenhado em mudar a situação, criando mecanismos de organização popular para uma ordem social mais justa e fraterna, como as Comunidades Eclesiais de Base. Pois o caminho para essa nova ordem da informação e comunicação não passa apenas pelos MCS, mas passa também pelos comunicadores populares. Estes, atuando às margens dos monopólios dos mass media, desenvolvem um tipo de trabalho que valoriza a informação em nível grupal, voltada para os interesses específicos do grupo, o qual pode assim reconhecer-se como produtor e receptor de mensagens."162

 

   159. A comunicação grupal é o espaço privilegiado para a formação do senso crítico do receptor frente aos MCS. É uma necessidade fundamental para que a comunicação seja verdadeira onde o receptor é também emissor e a comunicação é dialogal.

 

   160. A Igreja no Brasil, frente a toda essa realidade encontra-se diante de dois grandes desafios: o primeiro está relacionado com sua atuação e presença nos, pelos e através dos grandes meios de comunicação. O segundo refere-se à utilização dos próprios Meios, especialmente à integração e preparação de Agentes de Pastoral da Comunicação.

 

   161. Deverá a Igreja, no Brasil, retomar a proposta de Puebla: "urge que a hierarquia e os agentes de pastoral em geral conheçam, compreendam e experimentem mais a fundo o fenômeno da Comunicação Social a fim de que se adaptem as respostas pastorais a esta nova realidade e se integre a Comunicação na Pastoral de Conjunto''. 163

 

   162. O sentido da integração é fundamental. Muitas vezes, falta na ação pastoral essa ação conjunta. Existem no Brasil 110 emissoras de Rádio da Igreja; há aproximadamente 60 jornais e revistas; existem entidades voltadas para a Comunicação; mas há pouca integração. Por isso, em boa hora, este Destaque será valioso instrumento para buscar uma ação conjunta entre os Meios e entidades que atuam nesta área, além da preocupação com a presença da Igreja nos grandes veículos que não são próprios.

 

   163. Para conseguir esses objetivos é imprescindível a organização e dinamização de Equipes Regionais de Comunicação a fim de sistematizar esta pastoral e estar presente nos Meios de Comunicação locais e utilizando os Meios alternativos especialmente para formar o senso crítico do receptor.

 

   164. No decorrer do quadriênio deverão ser mobilizados agentes de Pastoral para em conjunto definir políticas de Comunicação, tendo presente as mudanças pelas quais passa a sociedade brasileira e frente aos desafios das novas tecnologias, preocupação já expressa e analisada em diversos momentos por estudiosos de comunicação da América Latina.

 

   165. Será ainda uma ocasião de integrar a própria comunicação com as outras dimensões pastorais. Particularmente com os outros dois Destaques. Tanto a Família como a Juventude são o público-alvo dos grandes Meios de Comunicação, com seus apelos consumistas e mensagens cujos valores são questionáveis. Por isso a ação pastoral deverá dar prioridade ao receptor frente aos grandes Meios. Não se trata simplesmente de rejeitar as mensagens e sim de formar o senso crítico para que as mesmas sejam recebidas e selecionadas criteriosamente. Este é um ponto fundamental, que terá de ser levado em conta já a partir da educação básica da criança no meio familiar.

 

   166. É significativa ainda neste momento da Igreja no Brasil a escolha do tema da Campanha da Fraternidade 1989: Fraternidade e Comunicação. A escolha do tema é resultado de um processo que iniciou há alguns anos, através de cursos, encontros e reflexão sobre o assunto. Muitos grupos de base, junto com Bispos e sacerdotes foram percebendo a necessidade urgente de atuar de maneira mais sistemática e coordenada nesta área, integrando o que já existe e buscando novos caminhos. E essa é uma realidade e perspectiva já com dimensão nacional, uma vez que diversos Regionais da CNBB assumiram de forma explícita, como prioridade a Comunicação.

 

   167. Tudo isso leva a crer que, com um trabalho integrado e sistemático, em nível nacional, a partir do Destaque e de uma Campanha da Fraternidade, torna-se possível uma mobilização para se incrementar a Pastoral da Comunicação.

 

168.  As estratégias de ação serão explicitadas no 9.º Plano Bienal, com acentuado destaque para algumas indicações de atividades específicas para os Regionais e as Dioceses, com o objetivo de maior integração entre Dioceses, Regionais e Nacional. Alguns projetos do Plano anterior terão continuidade e outros serão feitos tendo em vista a realidade e desafios atuais. Dentro desse contexto e para atender às diversas necessidades, será constituída uma comissão de (alto nível) da CNBB para contato com os responsáveis pelos grandes Meios de Comunicação; serão realizados cursos para produtores de Videocassete, Rádio, Boletins e outros; será pedido às Instituições Eclesiais de Comunicação maior ação conjunta e empenho em realizar atividades na área de formação naquilo que é sua especificidade.

 

   169. Com esta visão e perspectiva, será possível viabilizar na prática comunicacional da Igreja consigo mesma e da Igreja com o mundo o que até agora estava em plano teórico. E assim a Comunicação será cada vez mais instrumento de "Comunhão e Participação" .

 

   Busca de uma caminhada comum

 

   170. A escolha de Comunicação como l.º Destaque na 25.ª Assembléia Geral da CNBB levanta alguns pontos de questionamento para a ação evangelizadora da Igreja no Brasil em todas as suas dimensões. Não se pode mais pensar em evangelização se a comunicação, vista pelos diferentes ângulos, não perpassar toda a Ação Pastoral da Igreja, nas suas Dimensões.

 

       171. O que fazer para que nos seminários e casas de formação se introduza a disciplina Pastoral da Comunicação a fim de dar aos futuros presbíteros e religiosos os elementos básicos da comunicação?

 

      172. Como fazer para capacitar profissionalmente sacerdotes e religiosos para atuar eficaz e efetivamente nos Meios e diante dos Meios de Comunicação Social?

   173.                 Como fazer para que os profissionais de comunicação leigos sejam presença cristã nos Meios em que trabalham?

   174.                 O que fazer para que os profissionais de comunicação cristãos descubram seu lugar de Agentes de transformação da sociedade através do seu compromisso profissional na área de comunicação?

   175.                 Como fazer para que a comunicação, nos diversos níveis, seja entendida como um serviço que se desenvolve na formação e em benefício da comunidade?

   176.                 Como motivar os leigos comprometidos com a Igreja a assumirem sua vocação de comunicadores cristãos, na transformação da sociedade?

   177.                 O que fazer para que os Meios de Comunicação, especialmente os da Igreja, valorizem e despertem a vocação missionária?

        178.                       Que tipo de subsídios poderiam ser produzidos para os Meios de Comunicação com o objetivo de apresentar a Dimensão Missionária de todo batizado na Igreja?

 

     179. De que forma a Dimensão Missionária da Igreja deveria ser abordada pelos Meios de Comunicação Social?

 

      180. Como a catequese poderia contribuir para formar o senso crítico do catequizando, acerca dos Meios de Comunicação, desde os primeiros períodos da formação?

 

    181. Como catequizar as crianças que passam horas diante da TV ou outros Meios de Comunicação?

 

    182. O que fazer para que a catequese se torne dinâmica, comunicativa tendo em vista o grande envolvimento dos catequizandos com o som e imagem apresentados pelos Meios de Comunicação Social?

 

   183. O que fazer para que os catequistas "conheçam, compreendam e experimentem mais a fundo o fenômeno da Comunicação Social..." (Puebla n.° 1083)?

 

     184. Que iniciativas criar para formar os catequistas para a Comunicação Social?

 

        185. Que fazer para que a Liturgia seja mais comunicativa?

 

     186. Como fazer para preparar as Equipes de Liturgia, nos diversos níveis, a fim de que a Celebração Eucarística e demais celebrações sejam momentos de comunicação com Deus e os irmãos?

 

    187. O que fazer para que as celebrações radiofônicas e televisivas respeitem a linguagem própria do Meio e assim sejam mais eficazes ?

 

      188. Como formar os Presidentes das celebrações para que a sua comunicação com a comunidade seja verdadeira através dos gestos e palavras?

 

      189. Como fazer para que os folhetos litúrgicos e outros Meios utilizados na liturgia estejam de acordo com a realidade da comunidade celebrante e sejam usados de forma Comunicativa?

 

     190. Como se poderá promover alguma atividade ou reflexão conjunta com Igrejas cristãs na área de comunicação?

 

     191. Como orientar nossas comunidades sobre os radicalismos de alguns programas ditos religiosos, especialmente das Seitas?

 

   192. Como poderiam os Meios de Comunicação da Igreja colocar-se a serviço do Ecumenismo?

 

    193. Como poderia a Igreja assumir mais agressivamente seu espaço nos grandes Meios de Comunicação para evangelizar?

 

    194. Como desenvolver na Igreja a consciência da importância dos Meios de Comunicação Social para a transformação da sociedade?

 

  195. Como fazer para integrar Instituições e Meios de Comunicação da Igreja para uma ação conjunta na evangelização?

 

    196. Que fazer para que os Meios de Comunicação da Igreja sejam instrumentos mais eficazes de evangelização?

 

  197. Em relação aos Destaques Família e Juventude é fundamental a reflexão constante sobre os efeitos dos Meios de Comunicação Social sobre a família. E nesta está inserido o jovem. É urgente que se pense na formação do senso crítico da Família, através da qual se forma a criança e o jovem. A partir da formação do senso crítico pode se pensar na influência que a própria família pode exercer sobre os Meios. É necessário refletir sobre a vulnerabilidade dos Meios.

               Eles são fortes e poderosos porque detêm recursos, mas não são impenetráveis. Requer-se a reflexão mais aprofundada desta questão para que a família e a sociedade exerçam função crítica frente aos meios.

 

   DESTAQUE 2 — JUVENTUDE

 

   Sentido e Razões

 

   198. Há mais de 32 milhões de jovens no Brasil (Censo de 1980): 25% da população na faixa de 15 a 24 anos. Segundo estatísticas da ONU, em 1960, o número de jovens na América Latina era de 38 milhões e meio; em 1980, 73 milhões e 300 mil; de modo que, em vinte anos a população jovem dobrou.

 

   199. A renovação, pela 25.ª Assembléia Geral da CNBB, do "Destaque Jovem" para o próximo quadriênio, revela a consciência crescente dentro da Igreja de que o futuro da sociedade e da Igreja depende da capacidade de escutar o que acontece no mundo juvenil; de respeitar a sensibilidade própria do jovem, que vive o momento presente; de encontrar novas soluções práticas e de pressentir novos rumos. Trata-se de aprender do jovem e deixar-se evangelizar por ele... O jovem é garantia da juventude da Igreja.164 Por outro lado a juventude é uma fase privilegiada na qual se formam os leigos para uma "verdadeira competência e habilitação no campo em que estes devem atuar".165

 

   200. Pelo documento de Puebla (1979), dois grupos vêm merecendo atenção prioritária da Igreja na América Latina: os jovens e os pobres. Há uma íntima relação entre ambos, pois a maioria dos jovens é pobre. A 21.ª Assembléia Geral da CNBB (1983) havia escolhido "jovens" como um dos seis destaques da Igreja no Brasil, com resultado animador, e a 25.ª Assembléia Geral retomou este destaque.

 

   201. Uma das raízes ou motivações desse destaque são os sinais de vida da própria juventude brasileira, expressos em múltiplas formas: desejo de participar na vida da sociedade em todos os níveis; potencialidade do jovem, especialmente pobre, para a transformação; conhecimento da realidade que a juventude vai adquirindo; posição crítica do jovem em relação à sociedade e à Igreja; vontade de ser Igreja; busca de novas maneiras de viver individual e coletivamente; aumento do número de adultos que sabem e apreciam trabalhar com jovens, respeitando-lhes a caminhada.

 

   202. Outra raiz motivadora podem ser os sinais de morte, que se verificam na juventude: jovem como mão-de-obra barata; repressão por parte da sociedade; não-participação do jovem nos processos decisórios da sociedade e da Igreja; falta de canais especializados de participação; impossibilidade de os jovens, na sua maioria, poderem viver a própria juventude; frustração por falta de condições para estudar e trabalhar, levando a fugas; avanço do espírito consumista, que tem a juventude como alvo preferido; tipo de educação vigente que incentiva o individualismo e a competitividade; peso de ideologias que não respeitam os valores de uma sociedade justa e fraterna; ausência de jovens na vida eclesial; desemprego e prostituição avassaladores; êxodo rural de jovens; contra-valores enaltecidos pelos meios de comunicação social entre eles o aviltamento do sexo; impossibilidade para muitos jovens pobres de constituir uma família.

 

   203. Há também o desafio daqueles jovens, nascidos em ambiente de conforto, mergulhados no consumismo e no vazio de uma sociedade que não lhes oferece uma perspectiva mais profunda. São jovens que, apesar de privilegiados por melhor ensino e nível mais alto de vida, por vezes cedem à procura desenfreada de uma ascensão social individualista, conseqüência de uma sociedade baseada no lucro e na competição. Outras vezes passam para a droga, a promiscuidade e o alcoolismo, ou refugiam-se, também, em grupos esotéricos ou ideologias manipuladoras. Por outro lado, o destaque dado aos jovens pode ser fruto dos êxitos ou vazios da atual Pastoral da Juventude.

 

   Desafios e Questionamentos

 

   204. Não se podem esquecer os grandes vazios ou desafios que a Igreja deve ainda enfrentar:

 

            a falta de assessores adultos (padres, religiosos, leigos) que tenham carisma, pedagogia e disponibilidade para se dedicarem aos jovens;

            falta de clareza sobre o papel e o processo de escolha do assessor jovem;

            formação teórica deficiente dos iniciantes e militantes;

            insuficiente vivência de uma espiritualidade mais conseqüente;

            pouca compreensão do método "Ver-Julgar-Agir";

            inconstância dos grupos;

            distância entre lideranças e bases;

            necessidade de maior entrosamento e diálogo com movimentos que trabalham com jovens;

            relacionamento nem sempre adequado da Pastoral da Juventude ou grupos de jovens com os padres e Bispos;

            atendimento deficiente à questão da afetividade, sexualidade, preparação para o casamento, e à perspectiva profissional;

            falta de reflexão e trabalho mais sério com os adolescentes.

 

   205. Há também o desafio de trabalhar com jovens num novo contexto social, político e cultural diferente dos anos 70 quando a Igreja foi quase o único espaço de participação aberto ao jovem. Hoje, a Igreja é, cada vez mais, apenas uma entre muitas outras opções de participação que se apresentam para o jovem tanto de compromisso sério, quanto de lazer.

 

   206. Ficam ainda alguns questionamentos:

 

            Por que tantos jovens não freqüentam a Igreja, e como atingi-los?

            Como desenvolver um trabalho de apoio ao jovem na sua opção de vida, mesmo quando não está disposto a se integrar numa pastoral da Igreja?

            Como garantir maior presença no meio dos estudantes das escolas públicas?

            Como dar atendimento especial aos jovens sem com isso afastá-los da pastoral orgânica?

            Como adaptar a Pastoral da Juventude às diferentes situações — grandes cidades, cidades menores, ambiente rural?

 

   207. A Pastoral da Juventude propicia aos jovens condições de se formarem para uma ação transformadora da sociedade no presente e no futuro. Essa Pastoral incentiva também uma educação na fé, que possa responder às características e condições concretas da juventude e faça desabrochar uma espiritualidade fundada em experiências vividas, respeitando a caminhada feita pela Igreja e pela juventude comprometida.166 A Pedagogia usada deve levar a um processo de educação comunitária, permanente, progressiva, ordenada, orgânica e sistemática da fé. Sua finalidade é a maturidade da fé, num compromisso pessoal e comunitário de libertação integral que deve acontecer já aqui e culminar na vida eterna feliz.167

 

   208. Enfim, a Pastoral da Juventude apoiará os jovens, principalmente das bases populares, a tomarem consciência de que são marginalizados por estruturas sociais desagregadoras. A esse respeito, vale o apelo de João Paulo II: que os jovens "não se deixem instrumentalizar", ao contrário, cresçam no seu compromisso com a fé.168

A Igreja quer convidar os jovens a se comprometerem numa atividade que não exclua ninguém, e ao mesmo tempo, incentivá-los a terem predileção pelos mais pobres169: é uma exigência bíblico-teológica.

 

   209. É necessário que os jovens sejam de fato agentes de evangelização em seus meios específicos. Para enfrentar estes desafios há necessidade de maior investimento de recursos financeiros e humanos na formação dos jovens e de agentes da Pastoral da Juventude. O número de assessores adultos, que tem experiência de pedagogia libertadora, é insuficiente, especialmente, para acompanhar as pastorais de meios específicos. A libertação ou semi-libertação de assessores e jovens coordenadores (dentro de critérios previamente determinados) torna-se cada vez mais necessária para garantir um acompanhamento sério e sistemático.

 

   210. Investimento em cursos de longa duração, que possibilitam uma formação integral (bíblica, teológica. espiritual social, política e metodológica) vem se revelando como uma das pistas e solução mais importantes.

 

   211. Tudo isso está presente na escolha dos jovens para estes próximos 4 anos, como destaque nas iniciativas pastorais da Igreja do Brasil.

 

   Busca de uma caminhada comum

 

   212. A presença da juventude interpela a maneira pela qual está sendo levada cada dimensão pastoral. Por outro lado, as várias dimensões questionam a maneira pela qual os próprios jovens se organizam pastoralmente. Seguem algumas perguntas que podem ser úteis para ajudar esta reflexão.

 

   213. Dimensão Comunitária e Participativa: A Pastoral da Juventude deve levar em conta o meio em que o jovem vive, bem como sua inserção no conjunto da comunidade eclesial. Quais devem ser os cuidados da comunidade, dos agentes de pastoral e dos próprios jovens neste sentido?

 

   214. Uma autêntica Pastoral de Juventude deve ser, ao mesmo tempo, vocacional, tanto no sentido mais amplo de vocação humana e cristã, como no sentido mais específico de vocação para os ministérios, ordenados ou não, e para a vida consagrada na Igreja. O que poderiam fazer as diferentes instâncias organizativas da Pastoral da Juventude para que seja fomentada essa dimensão vocacional?

 

   215. Que conseqüências a opção preferencial pelos jovens pobres traz para a Pastoral da Juventude organizada em termos paroquiais, diocesanos, regionais e nacionais? Para os jovens que não sejam pobres? e para as pastorais especializadas que acompanham os jovens que têm inserção nos seus próprios meios específicos?

 

   216. Dimensão Missionária: A Pastoral da Juventude é essencialmente missionária. O que significa isso para a vida e o modo de ser e de organizar-se dos jovens? Como se poderia incentivar mais e organizar melhor a atuação missionária entre a juventude? A Pastoral da Juventude deve levar o jovem a ser missionário no mundo juvenil, e a abrir-se às situações missionárias dentro e fora do Brasil.

 

   217. Dimensão Catequética: A educação para o crescimento na fé é fundamental na Pastoral da Juventude. Que medidas tomar para que os jovens, com seus valores e aspirações, respondam com progressiva maturidade aos apelos do Senhor e colaborem na construção da Igreja e da sociedade, e ao mesmo tempo que não se deixem envolver na onda de permissivismo.

 

   218. Dimensão Litúrgica: O que fazer para que os jovens, tanto na fase de iniciação como de militância valorizem a necessidade de celebrar sua fé com os outros segmentos da comunidade eclesial? Que questionamentos a juventude levanta a respeito de nossas liturgias? Como fazer com que nossas liturgias sejam atraentes para a juventude como celebrações do mistério da salvação e da vida? Qual o caminho do jovem para chegar a fazer dia liturgia celebração de fé e vida?

 

   219. O que fazer com a Pastoral da Crisma, para que ela seja ponto de partida mais efetivo no engajamento do adolescente e do jovem, ou reforço para a continuidade do engajamento já existente?

 

   220. O namoro, o noivado e o casamento são realidades importantes para o jovem. Mas, também, são realidades onde os contra-valores de um lado, e os valores novos de outro, se apresentam como desafios para a ação pastoral. Que medidas podem ser incentivadas na Comunidade eclesial e nas próprias instâncias organizativas de jovens para superar esses desafios?

 

   221. Dimensão Ecumênica e Diálogo Religioso: Se é evidente a abertura dos jovens para outras Igrejas cristãs e Religiões não-cristãs, também é clara a falta de formação nesse campo. Como ajudar os jovens a se tornarem verdadeira força ecumênica e de diálogo?

 

   222. Dimensão Profética e Transformadora: Não pode faltar na Pastoral da Juventude a dimensão sócio-política, através do incentivo à participação nas instâncias e organismos sociais intermediários. Que conseqüências surgem daí, em nível de organização e planejamento? Como incentivar e organizar uma pastoral de militância para que estes jovens tenham acompanhamento adequado? Como participar para um discernimento maduro diante de ideologias de esquerda e direita? Como evitar a tentação ao reducionismo de uma dimensão só: a dimensão política? Qual o papel da comunidade eclesial nesse processo?

 

   223. Como atuar na educação escolar, a fim de que ela possa oferecer aos jovens educação para o senso crítico, a solidariedade e a participação, fornecendo-lhe instrumentos para compreenderem a realidade e nela agirem com vistas à construção de uma sociedade justa e fraterna?

 

   224. Reflexão em Conjunto com os outros Destaques: Família e Meios de Comunicação Social.

 

   225. Há uma estreita ligação entre o Destaque Jovem e os outros dois destaques: Meios de Comunicação Social e Família. Ambos exercem uma influência, freqüentemente determinante, na formação da personalidade do jovem.

 

   226. Sob o ponto de vista da informação, educação e participação, os jovens são as grandes vítimas dos desvios transmitidos pelos meios de comunicação social. Como fazer para que eles adquiram sentido crítico frente aos MCS? Como levar os jovens a atuarem e influírem nesses meios?

 

   227. A primeira experiência de socialização feita pelo jovem na sua família deixa marcas positivas ou negativas profundas na sua personalidade. Que tipo de experiência que a maioria dos jovens ligada à pastoral têm? Como fazer com que a família seja ponto de apoio para a formação de personalidades e jovens cristãos maduros?

 

DESTAQUE 3 — FAMÍLIA

 

   Sentido e Razões

 

   228. Mais uma vez, os Bispos do Brasil, reunidos em Assembléia Geral, insistem no tema "Família", como destaque merecedor de especial atenção no conjunto da atividade Pastoral da Igreja, para o próximo quadriênio em nosso País.

 

   229. O documento da Conferência Episcopal de Puebla, citando o Papa João Paulo II, acena para o que se fez a partir de Medellín, e o muito que se tem ainda a fazer neste campo: "A Igreja da América Latina sente-se feliz por tudo o que logrou realizar em favor da família. Reconhece, porém com humildade quanto lhe falta fazer, quando percebe que a pastoral familiar, longe de ter perdido o seu caráter prioritário, revela-se hoje ainda mais urgente, como elemento sobremaneira importante da evangelização''.170

 

   230. Podemos dizer que essa urgência permanece no conjunto da nossa pastoral, e na luz do Concílio Vaticano II, podemos asseverar que "a salvação da pessoa e da sociedade está estreitamente ligada ao bem-estar da comunidade conjugal e familiar. Por isso, juntamente com todos aqueles que têm em grande estima essa comunidade, os cristãos alegram-se sinceramente com os vários meios pelos quais os homens progridem hoje na promoção dessa comunidade de amor e no cultivo da vida, e são auxiliados os cônjuges e pais na sua alta função''.171

 

   231. Após o Sínodo de 1980 sobre a família cristã no mundo de hoje, a Exortação Apostólica "Familiaris Consortio" ressalta que "o futuro da humanidade passa pela família".

 

   232. Por isso, com razão, já em documento passado, "Orientações Pastorais sobre o matrimônio", a CNBB lembrava que "a evangelização do matrimônio e da família é missão de toda a Igreja, em que todos os fiéis devem cooperar segundo as próprias condições e vocações... As famílias cristãs, como Igrejas domésticas, têm um lugar e uma tarefa insubstituíveis no anúncio e vivência do Evangelho. São, portanto, não somente objetivo da solicitude pastoral da Igreja, mas sujeito ativo e responsável da mesma missão de salvação. Os cônjuges e a família, no exercício de seus respectivos ministérios, devem necessariamente articular-se com os outros ministérios da Igreja: os ministérios dos presbíteros, dos diáconos, dos religiosos e religiosas dos catequistas e educadores, dos Teólogos e dos peritos em assunto de família, dos diversos movimentos de leigos e comunidades eclesiais''.172

 

   233. Seria difícil fazer um levantamento histórico da pastoral da família em nosso País. No entanto, podemos lembrar o que tem acontecido nas últimas décadas com relação aos vários movimentos voltados para a Família: uns acentuando a relação entre elas mesmas, outros a relação com a realidade social em que a família vive mergulhada. Além disso, há também o empenho voltado para a realidade familiar, em nossos movimentos apostólicos e comunidades eclesiais.

No plano de pastoral de conjunto do quadriênio passado, podemos ressaltar os projetos referentes ao destaque do tema "Família".173

 

   234. É preciso analisar a situação em que se encontram as famílias no processo de transformação da sociedade, nas diferentes áreas geográficas e nos diversos meios sócio-econômicos. Os resultados das pesquisas científicas devem ser organizados e postos à disposição dos agentes de pastoral familiar.

 

   235. Ressaltamos que no campo social e político, a família é afetada pelo impacto contínuo e desagregador de estruturas profundamente marcadas pela injustiça: o desemprego e o subemprego, as péssimas condições de trabalho e remuneração, a precariedade ou falta de moradia, a migração forçada. Diante disso, seria infidelidade às preocupações pastorais da Igreja e às urgências da grande maioria da população se a Igreja não desse carinhosa atenção à família, dentro de todo o seu contexto social.

Esse povo explorado mas cheio de fé, parece dizer na voz de João Paulo II: "Como fechar os olhos para as graves situações em que concretamente se encontram numerosíssimas famílias entre vós, e para as sérias ameaças que pesam sobre a família em geral?"

 

   236. Em 1980, a CNBB publicou um documento sobre os "Valores Básicos da Vida e da Família". Alerta aí para o desrespeito à dignidade humana, para a escalada da permissividade, para o planejamento familiar mal orientado, para o aborto e outros aspectos que atentam contra a família. Valiosas e generosas contribuições têm surgido das iniciativas despertadas pelas pastorais familiares. No entanto, as soluções sugeridas são ainda limitadas, e grande parte da população não é atingida por essas iniciativas.

 

   237. É necessário e urgente dar a conhecer o desígnio de Deus sobre o matrimônio e a família, os deveres da família que se quer cristã, a pastoral familiar em suas etapas, estruturas e situações. É fundamental encontrar formas novas de apoio à missão da família, para que ela possa viver e crescer na fé, e contribuir para a criação de uma nova sociedade, onde sejam realidades concretas a justiça e a fraternidade, sinais da presença do Senhor Ressuscitado.

 

   238. No entanto, considerando os fatores sociais e econômicos, políticos e culturais, históricos e bio-psicológicos, e até religiosos, que influenciam negativamente na vida familiar, corre-se o risco de cair na desesperança, pois, são grandes os desafios em variados contextos e situações: na educação, onde a família parece ter declinado de sua função de formadora da fé e da personalidade dos filhos; nos meios de comunicação social, onde os contra-valores aparecem cada vez mais insistentemente; na juventude, com freqüência inquieta, onde pairam perguntas, nem sempre fáceis de responder; nos meios pobres, cada vez mais destituídos das condições mínimas de levar à prática o que desejam apesar de que, muitas vezes, estejam vivendo aquilo que constitui a essência da vida familiar, segundo os valores que nascem da fé. Move-nos forte esperança, porque acreditamos que a família se situa no centro da história da criação, e a vida no mundo depende dela em primeiro lugar.

 

   Busca de uma caminhada comum

 

   239. Por tudo isso desejamos fomentar uma pastoral familiar realista que aceita os desafios, vividos na diversidade das condições sociais e o faça de maneira que a ação em favor da família desdobre-se em três níveis.

 

           em nível da sociedade

           em nível da Igreja

           em nível da própria família.

 

   240. Em nível da Sociedade:

 

           empreendendo uma ação articulada na luta para uma política nacional em favor das classes populares na área de habitação, saúde, da previdência e educação;

           enfrentando o impacto dos meios de comunicação social no conjunto das famílias brasileiras, que reforçam uma sociedade individualista, consumista e hedonista;

           situando-se ante a ação sistemática de órgãos oficiais, que desvirtuam uma correta compreensão da sexualidade humana, através de programas sanitários, demográficos e anticoncepcionais, voltados para o individualismo e práticas de cerceamento da vida.

 

   241. Em nível da Igreja:

 

           rompendo o "familismo" na ação pastoral;

           ampliando e fortalecendo uma pastoral familiar não elitista inserida numa pastoral de conjunto;

           articulando os movimentos familiares numa pastoral paroquial e diocesana;

           preparando e acompanhando próxima e remotamente os jovens para o sacramento e vida do matrimônio;

           ajudando os casais cristãos a buscarem e viverem uma espiritualidade a partir do seu contexto de vida;

           considerando os casais não como objeto, mas sujeito da missão de evangelização, ouvindo-os quanto a diretrizes a respeito do matrimônio, da sexualidade e vida em família.

 

   242. Em nível da família:

 

           Promovendo a efetiva orientação e acompanhamento dos pais no processo de educação de seus filhos;

           vivendo na família a prática da comunhão e participação.

Que as famílias, enfim, possam realizar os valores da justiça, da fraternidade e da partilha. E que assim, nessa "Igreja doméstica", já se vivam, em concreto, os valores do Reino de Deus.

 

ABREVIATURAS

 

AG                   Vaticano II, Decreto Ad Gentes sobre a Atividade Missionária da Igreja

 

DV                   Vaticano II, Constituição Dogmática Dei Verbum sobre a Revelação Divina

 

Discurso           João Paulo II, Discurso Inaugural da III Conferência Geral do Episcopado Latino-americano, Puebla, 1979

 

EN                   Paulo VI, Exortação Apostólica Evangelii Nuntiandi sobre a Evangelização no Mundo Contemporâneo, 1975

 

GS                   Vaticano II, Constituição Pastoral Gaudium et Spes sobre a Igreja no Mundo de hoje

 

LC                   Congregação para a Doutrina da Fé, Instrução Libertatis Conscientiae sobre a Liberdade cristã e a Libertação, 1986

 

LE                   João Paulo II, Carta Encíclica Laborem Exercens sobre o Trabalho Humano, 1981

 

LG                   Vaticano II, Constituição Dogmática Lumen Gentium sobre a Igreja

 

LN                   Congregação para a Doutrina da Fé, Instrução Libertatis Nuntius sobre alguns Aspectos da "Teologia da Libertação", 1984

 

MC                  Paulo VI, Exortação Apostólica sobre o Culto Mariano, 1974

 

Medellín            Documentos da II Conferência Geral do Episcopado Latino-americano, 1968

 

Mensagem                   João Paulo II, Mensagem do Santo Padre ao Episcopado do Brasil, 1986

 

OA                   Paulo VI, Carta Apostólica Octogesima Adveniens por ocasião do 80.o aniversário da " Rerum Novarum ", 1971

 

PO                   Vaticano II, Decreto Presbyterorum Ordinis sobre o Ministério e a Vida dos   Presbíteros

 

Puebla             Documentos da III Conferência Geral do Episcopado Latino-americano, 1979

 

RH                   João Paulo II, Carta Encíclica Redemptor Hominis, 1 979

 

SC                   Vaticano II, Sacrossanctum Concilium sobre a Sagrada Liturgia

 

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Fonte: Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB

Web site: www.cnbb.org.br