CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL

CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL

 

CARTA AOS AGENTES DE PASTORAL

 E ÀS COMUNIDADE

 

Texto Aprovado pela 23ª Assembléia Geral dos Bispos do Brasil, 10 a 19  de  abril  de  1985, Itaici-SP.

 

 

 INTRODUÇÃO

 

Nós, Bispos da Igreja Católica no Brasil, reunimo-nos, de 10 a 19 de abril, em Itaici, Indaiatuba, SP, para nossa 23ª Assembléia Geral. Foram dias de estudo, oração e vivência da colegialidade episcopal, na escuta do Espírito Santo e diálogo entre irmãos.

Tivemos como tema principal "A Liberdade Cristã e Libertação", sob o enfoque de "A Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil". Muito contribuiu para a escolha deste assunto a "Instrução sobre Alguns Aspectos da Teologia da Libertação" da Congregação para a Doutrina da Fé, de agosto do ano passado, cujo estudo vivamente encarecemos.

O Conselho Permanente da CNBB já havia pedido a ampla divulgação deste documento e seu estudo pelos Regionais e pela Comissão Episcopal de Doutrina.

Procuramos analisar valores e falhas de nossa ação pastoral, refletir sobre questões teológicas e apontar caminhos, a partir das perguntas levantadas no subsídio preparatório ao estudo do tema principal desta Assembléia.

 

 

   ASPECTOS POSITIVOS DA EVANGELIZAÇÃO LIBERTADORA

 

Entre os aspectos de nossa pastoral, que mais vêm contribuindo para impulsionar a evangelização libertadora, identificamos como elementos a serem conservados e aprimorados:

  As Comunidades Eclesiais de Base;

  A profética opção preferencial e solidária pelos pobres;

  O planejamento pastoral participativo, a crescente consciência eclesial dos leigos e a valorização da mulher;

  O engajamento pastoral dos religiosos e religiosas, especialmente sua inserção em comunidade no meio do povo;

  A importância da Comunidade como destinatária e agente da catequese;

  A ligação entre a Palavra de Deus e a vida do povo;

  A Campanha da Fraternidade e outras iniciativas com ela articuladas: Mês de Maria, Mês Vocacional, Mês da Bíblia, Mês Missionário, Novena do Natal;

  A participação mais consciente e ativa na celebração da liturgia e especialmente dos sacramentos;

  O crescimento do espírito missionário e de corresponsabilidade pastoral Igrejas-Irmãs, Programas de Inter-ajuda etc.);

  A dinamização da Pastoral da Juventude e da Pastoral Vocacional;

  A consciência da dimensão social e política da fé e suas exigências;

  A Educação Libertadora;

  Maior liberdade pastoral em face do poder econômico e político;

  Defesa e promoção dos direitos fundamentais da pessoa humana;

  A atuação pastoral em face dos difíceis desafios da vida real do povo brasileiro (Pastoral Indigenista, Operária, da Terra, do Solo Urbano, do Menor, etc.).

 

 

   FALHAS E TENSÕES

 

Em meio a tantos sinais de vitalidade eclesial, que manifestam a presença do Espírito entre nós, encontramos também falhas e tensões.

Na Assembléia procuramos analisar suas manifestações e causas, e caminhos que o Evangelho oferece para superá-las.

É preciso reconhecer que onde há vida, há tensões. Existem em qualquer grupo humano. Sempre houve na Igreja modos diversos de fazer teologia e formas diferentes de pensar e organizar a pastoral. Tensões entre grupos aparecem desde o tempo dos Atos dos Apóstolos.

Existem tensões que, apesar de dolorosas, são sinais de vida e ajudam a comunidade a crescer. Todos precisamos aprender a trilhar o caminho da UNIDADE, que não é o mesmo que uniformidade.

Assim, há divergências nascidas da complexidade da realidade sócio-econômico-político-cultural e eclesial, vista e analisada de ângulos diferentes e a partir de situações, lugares e posturas sociais diversas.

Mas há tensões, divergências e conflitos que podem ameaçar a unidade fundamental da fé e a união do amor que Jesus colocou como sinal distintivo de sua Igreja. Elas levam ao surgimento de grupos extremados de tendências opostas, que se fecham em si mesmos, criticando e condenando os demais.

Há, ainda, divergências oriundas de interpretações teológicas diferentes: umas válidas, outras que suscitam dúvidas ou até parecem esvaziar aspectos essenciais da fé.

Ao pensarmos nestas falhas e tensões dentro da Igreja, temos de reconhecer seu aspecto humano e organizacional, porque ela está inserida na sociedade e sujeita a todos os condicionamentos dos grupos humanos. Não podemos, porém, esquecer que essa mesma Igreja é mistério e sacramento da presença de Jesus no mundo de hoje.

 

 

CAMINHOS DE SUPERAÇÃO

 

À luz do Evangelho e do Magistério, buscamos pistas de ação ou caminhos para superar estas falhas e tensões. Apontamos os seguintes:

 

Em todos os níveis de Igreja, precisamos aprofundar e multiplicar os caminhos de diálogo e correção fraterna. O diálogo exige sabedoria, discernimento e oração. A correção fraterna exige amor, humildade, lealdade e coragem. Ambos supõem espírito de conversão e reconciliação, ajudando a viver nas divergências. Ninguém se considere o detentor e único intérprete da verdade.

Deve-se evitar interferências imprudentes, ataques pessoais, condenações públicas de orientações e práticas de pastoral dentro de uma mesma Igreja e entre Igrejas locais.

O planejamento pastoral amplamente participativo tem-se revelado instrumento útil na superação de tensões e mal-entendidos tanto nas Igrejas locais como a nível nacional.

Na fidelidade a Jesus Cristo, somos todos, pastores e fiéis, responsáveis pela integridade de sua Mensagem, de acordo com o Magistério da Igreja.

Compreendemos o papel importante e difícil de nossos teólogos nesta caminhada, como difícil é nossa própria função de pastores. Por isso, respeitando a diferença entre o papel do magistério e pastoreio e o papel da teologia, queremos estimular e animar nossos teólogos em sua missão.

 

 

   TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO

 

Um ponto delicado, hoje, para nós, é a Teologia da Libertação. Abordamos este assunto em sua conexão com a ação pastoral da Igreja, enfocada como "Evangelização Libertadora", valendo-nos de reflexões anteriormente feitas em nossas Regionais e Dioceses e do estudo da Comissão Episcopal de Doutrina da CNBB sobre a Instrução.

A problemática levantada por esta teologia exige atitude de discernimento e aprofundamento. O tema da libertação é profundamente bíblico. Existe uma autêntica Teologia da Libertação centrada neste tema bíblico da libertação e da liberdade e na urgência de suas incidências práticas (cf. Instrução III, 4; VI, 7). Esta teologia favorece a evangelização. Esclarece o nexo entre os movimentos que procuram a libertação do homem e a realidade do Reino de Deus. Entretanto, podem surgir ambigüidades e confusões, "desvios e perigos de desvios", como adverte a Instrução da Congregação para a Doutrina da Fé.

Tais desvios e perigos se relacionam especialmente com a chamada "análise da realidade". Nesta operação complexa, nem as ciências sociais escapam aos condicionamentos ideológicos. Preocupa-nos particularmente o apelo à "análise marxista" como instrumento de compreensão da realidade e o apelo à luta de classe, como lei fundamental de transformação da sociedade (cf. Instrução VII, 6; IX, 2-3).

 

 

ORIENTAÇÕES

 

Diante deste quadro da teologia e ação pastoral, cujo estudo e aprofundamento crítico pretendemos continuar, propomos algumas orientações:

Prosseguir na reflexão teológica que valorize a vida das comunidades cristãs, a ação pastoral da Igreja, o compromisso pela libertação do oprimido, numa espiritualidade de experiência do Deus vivo.

Evitar, na reflexão teológica e na ação pastoral, unilateralismos e reducionismos que neguem ou excluam aspectos essenciais do mistério cristão.

Buscar uma síntese integradora dos diversos aspectos necessários à libertação integral:

 

       nem só pecado individual, nem só pecado social;

       nem só dimensão vertical, nem só dimensão horizontal;

       nem só ortodoxia, nem só ortopráxis;

       nem só dimensão espiritual, nem só dimensão sócio-política;

       nem só conversão do coração, nem só transformação das estruturas...

 

Ser fiéis à verdade sobre Cristo, à Igreja e ao Homem e, ao mesmo tempo, aos apelos de Deus presente na realidade histórica.

Enriquecer a reflexão teológica sobre a evangelização libertadora com as luzes da Igreja dos primeiros tempos e da Teologia Patrística.

Valorizar o estudo da Doutrina Social da Igreja, especialmente no ensino superior e nos institutos de formação de presbíteros e agentes de pastoral.

Insistir na importância da filosofia para o estudo e produção teológica, e para a crítica dos pressupostos da ciências sociais.

Resguardar a reflexão teológica do risco de ideologização que pode acontecer quando se toma por fundamento tanto a práxis que recorre à análise marxista quanto a visão do liberalismo capitalista. (Puebla 545-546).

Distinguir sem separar, Magistério e Teologia, reconhecendo a autoridade do primeiro e a justa autonomia e pluralismo da segunda.

Apresentar as opiniões teológicas como simples opiniões. Evitar, porém, sua divulgação indiscriminada entre os agentes de pastoral, especialmente em manuais de catequese, pois isto poderia desorientar ou confundir a fé do povo.

Valorizar a sabedoria popular e as formas de reflexão teológica que brotam da vida do povo cristão e o ajudam a ler sua experiência à luz da Palavra de Deus.

Oferecer sólida e sistemática formação teológica aos futuros presbíteros, insistindo no que é fundamental da doutrina católica e apresentando criticamente as diversas correntes e opiniões. Cuidar também da formação teológica dos agentes de pastoral.

 

 

   CONCLUSÃO

 

Além do tema central, tratamos de outros temas importantes: o XI Congresso Eucarístico Nacional, a missão do leigo na Igreja e na sociedade, a Pastoral da Juventude, a legislação complementar do Direito Canônico, o próximo Sínodo dos Bispos em Roma, o papel da Igreja no atual momento nacional e a Constituinte.

A importância do tema central levou-nos a pedir à Presidência e Comissão Episcopal de Pastoral que, recolhendo as contribuições desta Assembléia, prepare subsídios para orientar sobre ele nossas comunidades. Oportunamente, os subsídios serão enviados às Regionais da CNBB e às dioceses, para estudo e reflexão num processo semelhante ao da elaboração do documento "Catequese Renovada".

Tais subsídios nos ajudarão a aprofundar o conteúdo da Instrução já citada e a acolher o novo documento que a Santa Sé prepara sobre "Liberdade Cristã e Libertação". Ajudar-nos-ão, sobretudo, a continuar com crescente entusiasmo e segurança no caminho da evangelização libertadora.

Em nosso Dia de Espiritualidade, orientados pelo Cardeal Carlos Maria Martini, Arcebispo de Milão, meditamos o cântico de Maria, o "Magnificat". Com N. Sra., louvamos a grandeza de Deus, que olha com bondade para o seu povo e suscita em nossas comunidades a fé e a esperança que nela suscitou. Com ela contemplamos a História, caminho de libertação, onde se manifesta o poder de Deus e o seu desígnio de derrubar soberbos e poderosos, para exaltar os humildes e dar pão a todos os que têm fome.

Que nossa Senhora Aparecida, em cujo santuário esperamos reencontrar-nos no mês de julho, no XI Congresso Eucarístico Nacional, ajude toda a Igreja do Brasil nesta caminhada de evangelização libertadora.

 

Itaici, 19 de abril de 1985

 

 

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Fonte: Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB

Web site: www.cnbb.org.br