CONFERÊNCIA
NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL
DIRETRIZES
GERAIS DA AÇÃO PASTORAL DA IGREJA NO BRASIL
1983/1986
APRESENTAÇÃO
O enunciado do Objetivo Geral da Ação Pastoral da Igreja no Brasil
foi elaborado e aprovado por unanimidade
na 21ª Assembléia Geral da CNBB
em 15 de abril de 1983. Nesta mesma Assembléia determinou-se que a ação
pastoral se organizaria por seis linhas ou dimensões, a saber, comunitária e
participativa, missionária, catequética, litúrgica, ecumênica e
profético-transformadora.
Foram escolhidos, por ordem de votação, os seguintes destaques
pastorais: Jovens, Comunidades eclesiais de base, Vocações e Ministérios,
Famílias, Leigos e Mundo do trabalho. E nestes setores que se deverá concentrar
no próximo quadriênio (1983/1986) a ação evangelizadora da Igreja em nosso
país.
O texto atual, por designação da 21ª Assembléia, foi confiado ao
Conselho Permanente, que o aprovou por ocasião de sua última reunião em
Brasília, de 24 a 27 de julho de 1983. Na elaboração do texto, foram levadas em
consideração as contribuições precedentes dos Regionais, do Encontro de
Subsecretários, dos grupos de reflexão da Assembléia da CNBB, das reflexões da
Presidência, Comissão Episcopal de Pastoral e grupo de Assessores.
O capítulo referente às linhas ou dimensões é breve e procura insistir
na unidade global da ação pastoral, seja qual for a situação em que se aplique
o Objetivo Geral.
Cada destaque em nível nacional, além da motivação que justifica sua
escolha, apresenta uma série de questões que deverão suscitar novas
experiências e atuações pastorais.
Esse método permitirá posteriormente a elaboração de subsídios
específicos que recolhem para cada destaque o resultado da participação dos
diversos níveis eclesiais.
Brasília, 27 de
junho de 1983
† Luciano Mendes
de Almeida
Secretário Geral
da CNBB
OBJETIVO GERAL
- Evangelizar
- o povo brasileiro em processo
de transformação
a partir da verdade sobre Jesus
Cristo,
à luz da opção preferencial
pela libertação integral do homem,
- numa crescente participação
e comunhão,
- visando à construção de uma sociedade mais justa e fraterna,
- anunciando assim o Reino
definitivo.
I - PARTE
OBJETIVO GERAL DA
AÇÃO PASTORAL
EVANGELIZAR
Evangelizar, missão de Jesus:
1. "O Espírito do Senhor está sobre
mim, pelo que me ungiu; e enviou-me para anunciar a Boa Nova aos pobres, para
sarar os contritos de coração, para anunciar aos cativos a redenção, aos cegos
a restauração da vista, para pôr em liberdade os cativos, para publicar o ano
da graça do Senhor.1
Andar de cidade em cidade a proclamar,
sobretudo aos mais pobres... o alegre anúncio da realização das promessas e da
aliança feitas por Deus: tal é a missão para a qual Jesus declara ter sido
enviado pelo Pai "2
Missão também da Igreja:
2. Evangelizar é a razão de ser da Igreja
que, impulsionada pelo mesmo Espírito, prolonga continuamente na História a
presença e atuação do Senhor Jesus, "o primeiro e o maior dos
evangelizadores".3 Como Cristo, a Igreja anuncia a Boa Nova a todas
as pessoas, sem exceção, colocando-se "do lado dos pobres e dos sofredores
com o seu amor de predileção".4 Longe de ser apenas um aspecto da
ação pastoral, a evangelização "constitui, de fato, a graça e a vocação
própria da Igreja, a sua mais profunda identidade. Ela existe para evangelizar"...5
O anúncio do Reino de Deus
3. Assim como Jesus Cristo6, a Igreja
faz da proclamação do Reino o centro de sua ação evangelizadora. Reino que se
identifica com a própria salvação que o Pai, em seu Filho e por seu Espírito,
oferece a todas as pessoas, como dom da sua graça e misericórdia. Reino que
consiste na libertação de todas as misérias e opressões, cuja raiz última é o
pecado. Reino que visa a instaurar uma nova ordem de vida e convivência na
justiça, na fraternidade e na paz. Reino que se realiza na comunhão profunda
das pessoas entre si e na participação — aqui e agora — na própria vida
trinitária de Deus, cuja plenitude se alcançará na eternidade, onde Deus será
tudo em todos7.
O
anúncio supõe também a denúncia:
4. O anúncio do Reino supõe também a
denúncia corajosa "de tudo o que se opõe ao plano de Deus e impede a
realização do homem", no intuito de defender o homem ferido em seus
direitos, para que se curem suas feridas e para suscitar atitudes de verdadeira
conversão", pessoal e social.8
Evangelizar pela palavra e pela ação
5. Seguindo o exemplo de Jesus, a Igreja no
Brasil há de proclamar a Boa Nova do Reino de Deus, através do seu ministério
da Palavra, exercido profeticamente como anúncio e denúncia, e também mediante
os sinais eficazes de sua solidariedade, sobretudo com os mais pobres e
desvalidos. Assim, o Reino chegará até nós e se tornará realidade em nossa
convivência, animando nossa esperança na sua plenitude final para além da
História.9
Evangelizar também a cultura
6. Pronta a levar a Boa Nova a todas as
parcelas do povo brasileiro, a Igreja quer fermentar pelo Evangelho a
consciência pessoal e coletiva das pessoas, sua vida, atividade e meio
concreto.10 Por isso, evangelizar não é "tanto pregar o Evangelho a
espaços geográficos cada vez mais vastos ou populações maiores em dimensões de
massa, mas chegar a atingir e como que a modificar pela força do Evangelho os
critérios de julgar, os valores que contam, os centros de interesse, as linhas
de pensamento, as fontes inspiradoras e os modelos de vida da humanidade, que
se apresentem em contraste com a Palavra de Deus e com o desígnio da
salvação''.11 Para a Igreja, importa evangelizar, "não de maneira
decorativa, como que aplicando um verniz superficial, mas de maneira vital, em
profundidade e até às suas raízes, a cultura e as culturas do homem''.12
Ingresso na comunidade
7. A evangelização não alcança, porém, sua
plena dimensão nas pessoas, senão quando o anúncio explícito é acolhido e leva
à adesão ao Evangelho, numa nova maneira de viver. A adesão se manifesta
concreta e plenamente pelo ingresso numa comunidade de fiéis que seja, ela
também, sinal da transformação e da novidade de vida. Evangelizar inclui,
assim, todo esforço e ação pastoral que possibilitem o surgimento e o
crescimento de comunidades eclesiais, onde a vida nova é aprofundada à luz da
Palavra de Deus, celebrada nos sacramentos da fé e testemunhada no serviço aos
irmãos.
A globalidade da evangelização
8. Evangelizar é assim "uma diligência
complexa, em que há variados elementos: renovação da humanidade, testemunho,
anúncio explícito, adesão do coração, entrada na comunidade, aceitação dos
sinais e iniciativas de apostolado".13
A ação do Espírito Santo
9. Para responder às múltiplas exigências da
evangelização, a Igreja não confia tanto nos meios humanos, e sim na força do
Espírito Santo: "Recebereis o Espírito Santo e sereis minhas
testemunhas"14. A abundância da presença do Espírito é um dos
sinais do Reino messiânico: infundirei naqueles dias o meu Espírito.15 O
Espírito que nos foi dado por Cristo16 manifesta-se na obra da
evangelização, tanto nos evangelizadores e nos que são evangelizados, como na
ação mesma da evangelização. Desde o dia de Pentecostes, o Espírito Santo age
na Igreja, seja na forma extraordinária através de carismas especiais, seja na
forma ordinária da ação ministerial dos pastores, na exemplariedade dos santos,
na fé operosa dos fiéis. Ninguém é capaz de anunciar o verdadeiro nome de
Cristo sem que seja movido pelo Espírito.17 É Ele quem difunde em todas
as partes a "Semente do Verbo" e age em todos, para que busquem a
salvação. É ainda o Espírito Santo quem guia a Igreja toda — pastores e fiéis —
no discernimento dos "sinais dos tempos", para que o Evangelho se
faça presente na História dos homens.
Necessidade de conversão da própria Igreja
10. Ungida
pelo mesmo Espírito, a Igreja se santifica constantemente. "Evangelizadora
como é, a Igreja começa por se evangelizar a si mesma... por uma conversão e
renovação constantes. a fim de evangelizar o mundo com credibilidade''.18
Tal conversão é exigida de toda a Igreja — hierarquia, religiosos e leigos, —
já que a missão evangelizadora é de todo o Povo de Deus.19 A Igreja,
para exercer sua missão conforme o Espírito de Cristo, deverá rever
constantemente sua vida, exercitando-se "no discernimento das situações e
dos apelos concretos que o Senhor faz em cada tempo". Em atitude
permanente de escuta e de abertura, é levada a "um sério compromisso com
aquilo que foi reconhecido como autenticamente evangélico" nas diferentes
situações históricas. Assim, santa e pecadora, ela "se converte cada dia à
palavra da verdade", fazendo-se ela mesma fiel ao Evangelho, para poder
"transmiti-lo aos homens com plena fidelidade".20
O testemunho da unidade
11. Ponto
particularmente importante nesse esforço de conversão é a busca constante da
unidade entre os evangelizadores: "a sorte da evangelização anda sem
dúvida ligada ao testemunho da unidade dado pela Igreja''.21 Na
realidade, se anunciando o Evangelho ela se apresenta vulnerada por querelas
doutrinais, polarizações ideológicas ou condenações recíprocas, como não
haveriam de se sentir perturbados, desorientados e mesmo escandalizados aqueles
aos quais ela dirige sua pregação? Mas a busca da unidade, por amor à missão
evangelizadora, se estende mais além, através de um sincero esforço ecumênico.
Na realidade, a divisão entre os cristãos não afeta apenas o cristianismo.
Afeta o mundo, pois se constitui obstáculo à sua evangelização. A falta de
unidade entre os cristãos rouba ao mundo o sinal mais rico e forte da
credibilidade do Evangelho.22
Fidelidade até o fim
12. Com
o fervor próprio dos santos e a proteção da Virgem Maria, " Estrela da
Evangelização",23 a Igreja no Brasil assumirá a tarefa que o Senhor
lhe confiou, exercendo-a no serviço fiel ao Evangelho e na entrega da própria
vida em favor do Reino, consumando assim e levando à perfeição sua missão
evangelizadora.
Evangelizar, sentido de todo o Objetivo Geral
13. Evangelizar
constitui, assim, o centro de convergência do objetivo Geral da ação pastoral.
De fato, o anúncio do Evangelho é o serviço original e insubstituível da Igreja
ao povo brasileiro e à sua história. É o Evangelho que revela a verdade sobre
Jesus Cristo, a Igreja e o Homem. Por fidelidade ao Evangelho, a Igreja no
Brasil fez a opção preferencial pelos pobres e assumiu — fiel à sua inspiração,
— a causa da libertação integral de todos os homens. É a vivência concreta do
Evangelho que a faz crescer na participação e comunhão, e a compromete na
construção de uma sociedade mais justa e fraterna, prelúdio do Reino definitivo
que o próprio Evangelho anuncia e inaugura na pessoa de Jesus Cristo.
EVANGELIZAR
O
POVO BRASILEIRO EM PROCESSO DE TRANSFORMAÇÃO SÓCIO-ECONÔMICA E CULTURAL
Destinação humana da evangelização
14. A
missão da Igreja no Brasil é evangelizar o povo brasileiro na sua história,
"aqui" e "agora". Povo é muito mais do que uma realidade
considerada em termos puramente demográficos ou sociológicos. Povo é sobretudo
a realidade humana da Nação, em toda sua abrangência, e designa todos os homens
e mulheres, aos quais a Igreja há de estender a sua solicitude pastoral. É
importante reiterar que a fé cristã e a consciência de pertença à Igreja são
elementos arraigados na grande maioria do povo brasileiro. O Povo de Deus, na
sua totalidade, é portador da ação evangelizadora.24
Daí a necessidade de se evitar o risco de colocar, de um lado, a Igreja
evangelizante, e de outro, o povo a ser evangelizado.
Ênfase na formação das consciências
15. A
missão da Igreja é evangelizar pessoas que constróem estruturas sociais,
econômicas e políticas, que criam cultura, que trabalham, que têm aspirações,
que são sujeitos de direitos e deveres, e agentes de sua própria história. O
processo de transformação, pelo qual passa a sociedade brasileira, cria
situações novas para a vida do povo. Este poderá distanciar-se da Mensagem, se
a Igreja não atingir permanentemente com sua ação pastoral as realidades novas
que surgem. Isto exige ênfase especial nas iniciativas destinadas à formação
das consciências e à preparação das pessoas para assumirem sua responsabilidade
cristã no mundo e na História.
Influência mútua entre homem e sociedade
16. A
ênfase na destinação pessoal da ação evangelizadora significa não esquecer a
influência mútua entre a pessoa e a sociedade. As estruturas, a organização da
sociedade, exercem forte pressão sobre o povo em geral e sobre cada pessoa em
particular. Estruturas sociais injustas pervertem as consciências, bloqueiam
impulsos sadios que nascem do povo para a transformação da sociedade. Daí a
urgência de enfatizar, na ação pastoral, a formação de agentes capazes de
transformar a sociedade, os quais, partindo das exigência da fé, assumam o
compromisso evangélico de criar estruturas sempre mais justas.
O povo é sujeito de sua promoção
17. É
fundamental que os agentes transformadores estejam inseridos na realidade do
povo, não para conduzi-lo, apresentando-lhe soluções prontas, mas para
estimular o diálogo como aprendizado para a participação consciente, solidária,
responsável. Nenhuma transformação autêntica se realiza por outorga
benevolente. Os que resistem às transformações necessárias se dispõem a aceitar
o diálogo, para evitar os conflitos, apenas quando se defrontam com um povo
consciente de seus direitos e responsabilidades, e decidido a comprometer-se
com isso.
Consciência comunitária e consciência de classe
18. Observa-se,
no setor social, uma transformação de importantes conseqüências pastorais: a
nucleação das bases vem-se operando mais em termos de comunidade do que em
termos de classe. Esse fenômeno ocorre principalmente nos meios rurais e
periferias urbanas. Demonstra-se com isso a força aglutinadora da consciência
comunitária. Por outro lado, sendo o trabalho "a chave essencial de toda a
questão social", é fundamental não subestimar a importância da mobilização
solidária dos trabalhadores, como tais, na luta justa pelo reconhecimento de
sua dignidade e da dignidade do seu trabalho, através de suas organizações
próprias.25 O fortalecimento da consciência comunitária não deve
esvaziar a consciência de classe, porque só esta tem condições de enfrentar os
problemas globais e de prazo mais longo. Não condiz com as diretrizes e o
espírito da "Laborem Exercens" pensar que a consciência de classe
conduza inevitavelmente à luta de classes, no sentido insurrecional do termo.
Com efeito, segundo a mesma Encíclica, os problemas da relação entre o trabalho
e o capital não serão resolvidos pelo esvaziamento da consciência de classe,
mas ao contrário, pelo seu amadurecimento, que a prepara para os confrontos
inerentes a toda democracia empenhada na realização do bem comum, isto é, do
bem de todos, sem discriminações.
O desafio da migração e da urbanização
19. Outra
transformação de graves conseqüências pastorais, que se vem processando no
setor social, é a expansão das frentes agrícolas por um lado, e, por outro, a
aceleração do processo de urbanização. Os dois processos, aliás, estão
intimamente relacionados. A expansão agrícola, quando não proletariza o homem
do campo, transformando-o em bóia-fria, ou quando não o desaloja para regiões
mais remotas, o obriga a buscar refúgio nas periferias urbanas. E a urbanização
se acelera em ritmo desordenado, criando os grandes bolsões do mercado
informal, sem nenhuma proteção trabalhista, e envolvendo nas influências do
espaço urbano grandes contingentes de população despreparada para esse novo
estilo de vida. O duplo aspecto dessa transformação levanta sérios desafios à
ação da Igreja, exigindo-lhe o desenvolvimento da pastoral das migrações e
maior valorização da criatividade das bases para uma adaptação inadiável de sua
pastoral urbana.
Crise econômica e opções políticas
20. No
setor econômico, embora se situe entre as dez maiores economias do mundo, o
Brasil atravessa uma das mais graves crises de sua história. A estratégia da
administração dessa crise encaminha a Nação para uma alternativa: ou a busca da
solução se orienta para um agravamento da dependência externa, com a exigência
de pesados sacrifícios para o povo e conseqüências imprevisíveis, ou essa busca
se orienta para a ativação das potencialidades internas, abrindo novas e amplas
perspectivas de mobilização, participação e criatividade do próprio povo.
Soluções válidas não se concretizarão sem adequadas e corajosas opções
políticas.
Transformação do panorama político
21. No
setor político, a transformação se encaminha no sentido de formar e consolidar
instituições mediadoras entre o Estado e a Nação, tais como o Congresso
Nacional, as Assembléias, as Câmaras, os Partidos Políticos, os Sindicatos e as
mais variadas formas e tipos de Associações. Tal transformação impõe à Igreja
uma reflexão profunda sobre a função supletiva, que ela assumiu nos períodos em
que o povo, sem mediações para a defesa de seus direitos e interesses, se
defrontava desarticulado ante a arbitrariedade do Estado.
Consumismo e crise de valores
22. No
setor cultural, uma transformação vai-se processando na sociedade brasileira
tradicional, os valores determinavam os padrões de comportamento, e estes, por
sua vez, definiam as formas de consumo. Hoje, a grande penetração dos meios de
comunicação social está invertendo essa linha de influência: cada vez mais, são
as formas de consumo que determinam os padrões de comportamento, e estes tanto
desgastam os valores tradicionais, quanto geram novos valores ou pseudo-valores
de vida e convivência. Essa inversão de influências, partindo do consumismo, é
responsável pela séria crise de valores que atinge de modo especial a juventude
e que desemboca em corrupção, permissividade e relativismo ético em todos os
campos da atividade humana.
A família atingida pela crise de valores
23. Sem
dúvida, a família é a instituição mais duramente atingida por esse processo de
transformação. Difundem-se rapidamente novos padrões de relacionamento entre os
sexos, padrões que prescindem do vínculo sacramental e recusam aceitar suas
exigências de doação mútua e total, de unicidade e indissolubilidade. A
perniciosa difusão de um inaceitável controle da natalidade, o consumo de
anticoncepcionais e a exacerbação do erotismo pela pornografia mercenária dos
meios de comunicação, pervertem o comportamento sexual dos jovens e os
indispõem a assumir a responsabilidade pela realização da beleza do ideal
cristão da família.26
Transformação na vivência religiosa
24. Verificam-se
igualmente transformações importantes na vivência religiosa do povo. O
proselitismo das seitas, cada vez mais numerosas, o envolvimento do sincretismo
religioso e a tentação de variadas formas de materialismo representam um
desafio e um questionamento à ação pastoral da Igreja. Por outro lado, o atual
processo de renovação da Igreja tem contribuído significativamente para o
crescimento da consciência comunitária da fé o de suas implicações sociais e
políticas. Essa vitalidade religiosa está ajudando o Povo de Deus no Brasil a
valorizar o sentido das expressões comunitárias da fé, a descobrir a alegria da
celebração e da partilha do Pão, a crescer na compreensão da Palavra acolhida
na vivência comunitária e a se engajar como cristãos conscientes na construção
da História e do Reino. Um dos frutos dessa animação religiosa se manifesta no
surgimento de novas vocações, tanto para a atuação como agentes leigos de
pastoral, como para a vida sacerdotal e consagrada. Outro de seus frutos é o
revigoramento de variadas formas de expressão religiosa do povo e a crescente
busca de renovação entre Movimentos e Associações Católicas.
A transformação religiosa revela-se também
na abertura para um ecumenismo espontâneo, que se vem manifestando nas diversas
faixas da sociedade, mais sensíveis à união de todos em vista da realização de
projetos que visam ao bem comum, do que para distinções dogmáticas que dividem.
Acompanhar o processo de renovação religiosa
25. As
transformações na vivência eclesial, saudáveis em si mesmas, comportam riscos e
falhas que exigem acompanhamento atento e sensível por parte dos pastores. Um
dos riscos consiste em minimizar a importância da vida sacramental e dos
valores morais. Outro risco pode ocorrer a partir do momento em que cristãos,
motivados pela fé e engajados nas lutas sindicais e político-partidárias,
pretendessem envolver nelas a comunidade eclesial. Esta deverá permanecer
sempre fiel à sua missão especifica como sinal da unidade visível de todos os
cristãos, mantendo-se acima das disputas partidárias e das correntes
ideológicas. A própria renovação da vivência eclesial e a explicitação das
exigências sócio-políticas da fé comportam um certo risco, na medida em que,
mal-interpretadas, podem levar alguns ao afastamento da comunidade ou provocar
em outro a sensação de marginalização. Por outro lado, essa renovação vem
exercendo profunda influência evangelizadora, especialmente sobre a juventude,
infundindo alegria e esperança no povo fiel, que se sente cada vez mais Igreja
e próximo a seus pastores.
EVANGELIZAR
A
PARTIR DA VERDADE SOBRE JESUS CRISTO, A IGREJA E O HOMEM
Conteúdo fundamental da evangelização
26. "Não
haverá jamais evangelização verdadeira, se o nome, a doutrina, a vida, as
promessas, o Reino, o mistério de Jesus de Nazaré, Filho de Deus, não forem
anunciados". Por outro lado, a evangelização — ato profundamente eclesial
— só se processará autenticamente a partir de uma "correta visão da
Igreja". E, finalmente, "a verdade por nós devida ao homem é, antes
de tudo, uma verdade sobre ele próprio". Fica, pois, claro que a expressão
"a partir da verdade sobre Jesus Cristo, a Igreja e o Homem" é tomada
aqui no sentido de fundamento e conteúdo essencial da evangelização.27
Implacação mútua dessas verdades
27. À
luz de Puebla e do documento "Catequese Renovada — Orientações e
Conteúdo", os três termos não são separados ou estanques, mas mutuamente
implicados. Cristo ilumina o mistério do Homem; a Igreja é o caminho da
realização do Homem em Cristo. A fidelidade a um exige fidelidade aos outros.
Só a mútua implicação dessas três verdades permite superar a pretensa oposição
entre uma visão antropocêntrica e uma visão cristocêntrica da Igreja. A exaltação
do homem pelo homem seria tão estranha à realidade da Igreja quanto o
esquecimento que o homem "é o primeiro e fundamental caminho da
Igreja".28 Nisto, precisamente. se baseia o imperscrutável mistério
da Redenção em Cristo.
O mistério da Encarnação
28. O
mistério da Encarnação revela a unidade indissolúvel entre o humano e o divino
na História. A realidade histórica, pois, inserida no mistério de Jesus Cristo,
não pode mais ser vista com olhos meramente seculares, mas com os olhos da fé.
Depois que Deus uniu a si a História humana, nunca mais nos será lícito separar
Deus das experiências humanas. Não se poderá mais proclamar uma doutrina sem
sua vinculação com o universo humano; nunca se poderá apresentar uma análise da
realidade, sem mostrar que na sua profundidade bate o coração do próprio Deus,
de sua justiça e de seu amor. Assim, "devemos apresentar Jesus de Nazaré
compartilhando a vida, as esperanças e as angústias do seu povo e mostrar que
Ele é o Cristo crido, proclamado e celebrado pela Igreja".29
Integridade do mistério de Jesus Cristo
29. A
ação evangelizadora consistirá fundamentalmente no anúncio alegre de que
"Jesus Cristo, Verbo e Filho de Deus, faz-se homem para se aproximar do
homem e oferecer-lhe, pela força do seu mistério, a salvação, grande dom de
Deus". Consistirá ainda no testemunho corajoso do seguimento do Senhor na
sua vida e na sua Cruz, caminho para a plena participação na sua glória. Com
efeito, a integridade do mistério de Jesus Cristo é a "Força de Deus",
a única verdadeiramente "capaz de transformar nossa realidade pessoal e
social e de encaminhá-la para a liberdade e a fraternidade, para a manifestação
plena do Reino de Deus". Portanto, "qualquer silêncio, esquecimento,
mutilação ou inadequada acentuação da integridade do mistério de Cristo que se
aparte da fé da Igreja, não pode ser conteúdo válido da evangelização.30
A Igreja é inseparável de Cristo
30. Inseparável
de Cristo, seu Fundador, a Igreja está no mundo como sinal, "ao mesmo
tempo opaco e luminoso de uma nova presença de Jesus, e como sacramento da sua
partida e da sua permanência", enquanto o prolonga e continua na sua
missão e condição de evangelizador. Assim, "a comunidade dos cristãos
nunca é algo de fechado em si mesmo". Está a serviço da pessoa humana na
construção do Reino de Deus, do qual ela é germe e princípio, sinal e
instrumento: O próprio Senhor lhe confiou a Boa Nova, a Verdade do Evangelho,
que há de ser anunciada e testemunhada em favor dos homens e da qual os
evangelizadores, pela ação do Espírito que lhes foi dado, são não os árbitros
nem os proprietários, mas os depositários, os arautos e os servidores ".31
Povo de Deus a serviço do Reino
31. Aqueles
que acolhem sinceramente a Boa Nova, por virtude desse acolhimento e da fé
compartilhada, reúnem-se, portanto, em nome de Jesus, para conjuntamente
buscarem o Reino, para o edificarem e o viverem".32 Comunidade de
fé, esperança e caridade, a Igreja constitui o Povo de Deus. Povo, ao mesmo
tempo santo e pecador, tem Cristo como cabeça, é guiado pelo Espírito Santo e
presidido pelos pastores em comunhão com o sucessor de Pedro. Povo peregrino na
História, a Igreja na América Latina e no Brasil33 esforça-se por
discernir a presença e os desígnios de Deus "nos acontecimentos, nas
exigências e nas aspirações de nossos tempos, nos quais participa com os outros
homens". Solidariza-se com "as alegrias e as esperanças, com as
tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos os
que sofrem". Compromete o seu amor na luta pela libertação do homem todo e
de todos os homens, animando-os continuamente com a sua própria esperança do
Reino definitivo, "alegria de todos os corações e plenitude de todos os
seus desejos".34
Igreja, povo de servidores
32. Assim
a Igreja, ao mesmo tempo divina e humana, Corpo de Cristo, Povo de Deus,
Sacramento universal da Salvação, "está inteiramente a serviço da comunhão
dos homens com Deus e do gênero humano entre si". Com efeito, ela
constitui um "povo de servidores", sinal e instrumento do serviço do
próprio Senhor Jesus aos homens: servidores da sua Palavra, dos seus gestos
salvíficos na Liturgia e nos Sacramentos, do seu amor que redime e liberta a
humanidade, servidores do seu Reino na História humana.35
Visões inadequadas do homem
33. Vigoram
na sociedade brasileira diversas visões inadequadas da pessoa humana,
parcializando ou deformando aspectos importantes dela. São as várias visões
psicologista, cientificista, estatista, economicista e determinista. Dentre
todas essas visões, ressalta de modo particular a visão determinista que gera,
por um lado, um tipo de fatalismo que considera a pessoa "prisioneira de
formas mágicas de ver o mundo e de atuar sobre ele. O homem não seria dono de
si, mas vítima de forças ocultas", diante das quais "não encontra
outra atitude senão a de colaborar com elas ou de aniquilar-se diante delas.
Levados por essa visão fatalista, muitos cristãos continuam crendo que tudo o
que acontece é determinado e imposto por Deus, ignorando assim a autonomia
própria da natureza e da História.
Por outro lado, há um fatalismo de tipo
social, que se apóia na idéia errônea de que as pessoas não são
fundamentalmente iguais, articulando nas relações humanas, muitas
discriminações e marginalizações incompatíveis com a dignidade do ser humano.36
A verdade sobre o homem, confiada à Igreja
34. Diante
de todas essas distorções, a Igreja proclama a dignidade que é própria de todos
os homens e mulheres, sem nenhuma distinção, reafirmando a visão cristã da
pessoa e de sua liberdade. Com efeito, graças ao Evangelho que lhe foi
confiado, a Igreja é portadora da verdade fundamental sobre o homem,
considerado não em termos abstratos, mas na sua realidade concreta e histórica,
"na plena verdade da sua existência, do seu ser pessoal e ao mesmo tempo
do seu ser comunitário e social.37
A Igreja e a pessoa ferida em sua dignidade
35. A
verdade sobre a pessoa humana — sua identidade e sua vocação — há de ser
proclamada e testemunhada sempre mais vigorosamente pela Igreja, quanto mais
sua dignidade de imagem e de filha de Deus tem sido sistematicamente
desrespeitada e espezinhada entre nós, através das múltiplas formas de
violência contra a sua vida e os seus direitos mais fundamentais.38 Pois
o testemunho da Igreja em favor da vida plena39 há que ser dado sempre e
onde quer que esteja em jogo a vida das pessoas. Nisto lhe será concedida, pelo
Espírito Santo, a graça de permanecer fiel ao Deus vivo e de seguir
corajosamente os passos do Senhor Jesus, que veio "para servir e para dar
a sua vida em redenção de muitos".40
EVANGELIZAR
À
LUZ DA OPÇÃO PREFERENCIAL PELOS POBRES
A radicalidade do amor de Deus pelos pobres
36. A
opção preferencial pelos pobres é o sinal por excelência do amor de predileção
do próprio Deus. Ao longo da tradição bíblica, Ele se revela Amigo dos pequenos
e fracos: Ele liberta o pobre que o invoca e o miserável que não tem amparo;
Ele se compadece do fraco e do indigente e salva a vida dos necessitados; Ele
livra o desvalido do prepotente e o mísero e o pobre de quem os despoja.41
Jesus Cristo solidário com os pobres
37. Jesus
Cristo demonstrou a grandeza e a radicalidade desse amor de predileção de Deus.
Mandado pelo Pai para anunciar a Boa Nova de libertação aos pobres e oprimidos42,
identificou-se pessoalmente e solidarizou-se com eles, assumindo sua situação.
Sendo rico, fez-se pobre em seu nascimento, em sua vida, sobretudo em sua
paixão e morte, expressão máxima da pobreza.43 "Só por esse motivo,
os pobres merecem atenção preferencial, seja qual for a situação moral ou
pessoal em que se encontrem. Criados à imagem e semelhança de Deus para serem
seus filhos, esta imagem permanece obscurecida e até escarnecida. Por isso,
Deus toma a defesa dos pobres e os ama. Assim é que os pobres são os primeiros
destinatários da missão, e sua evangelização é sinal e prova por excelência da
missão de Jesus".44
O compromisso da Igreja
38. "Por
um autêntico compromisso evangélico, o qual, como sucedeu com Cristo, é
sobretudo compromisso com os mais necessitados", a Igreja no Brasil reitera
a disposição assumida em Puebla pelos Bispos latino-americanos de exercer a
globalidade de sua missão evangelizadora à luz de uma "clara e profética
opção preferencial pelos pobres45, no intuito de sua integral
libertação".46
Opção que exige conversão de toda a Igreja
39. A
opção preferencial pelos pobres é um
compromisso claro, inequívoco e evangelicamente irrecusável, com a causa
concreta dos empobrecidos da sociedade brasileira. Isso coloca a Igreja na
necessidade constante de rever em profundidade a sua prática pastoral e o
exercício de sua missão evangelizadora. Com efeito, essa opção exige de todos
verdadeira conversão, tanto no sentido de assumir um estilo de vida mais
simples, sóbrio e austero que leve a uma "identificação cada dia mais plena
com Cristo pobre e com os pobres", como no sentido de uma efetiva
"solidariedade com os pequenos e fracos, os que sofrem e choram, os que
são humilhados e deixados à margem da vida e da sociedade, para ajudá-los a
conquistar com sempre mais plenitude a própria dignidade de pessoa humana e de
filhos de Deus".47
Opção não exclusiva nem excludente
40. Os
pobres são "os prediletos de Deus", e a Igreja no Brasil quer ser
" a Igreja dos pobres".48 Longe de ser exclusiva ou
excludente, a opção preferencial pelos pobres realiza, na verdade, o amor de
Deus e da Igreja por todos os homens: significa escolher, não uns contra os
outros, mas uns em favor de todos. De fato, se assim podemos dizer, os pobres
não possuem nenhum outro título para serem amados, senão a sua própria
humanidade. Preferir os pobres significa, assim, amar a todos os homens naquilo
que lhes é o mais fundamental: sua dignidade humana, proclamada a partir da
dignidade violada do pobre, destinatário primeiro da evangelização. "A
opção preferencial pelos pobres tem como objetivo o anúncio do Cristo Salvador,
que os iluminará sobre a sua dignidade, os ajudará em seus esforços de
libertação de todas as suas carências e os levará à comunhão com o Pai e os
irmãos, mediante a vivência da pobreza evangélica".49
O pobre, portador privilegiado da ação evangelizadora
41. Por outro lado, preferir os pobres significa também reconhecer que são eles, por desígnio mesmo de Deus e
segundo a dinâmica própria do Reino, os protagonistas privilegiados de um
futuro que já se vislumbra. Eles o fazem através de organizações e práticas
sociais alternativas que vão inaugurando, sobretudo nas pequenas Comunidades
Eclesiais de Base. Nelas são vivenciados os valores evangélicos de
solidariedade, disponibilidade, partilha, simplicidade e serviço, que
prefiguram o projeto de Deus para todos os homens. As lutas solidárias dos
pobres, longe de representarem os interesses de apenas uma classe social,
significam seu serviço humilde, persistente e sofrido a todos os homens, em vista
da renovação da humanidade e da sociedade, a exemplo do Servo Sofredor. Tudo
isso faz do pobre o portador por excelência da ação evangelizadora.50
Igreja dos pobres, Igreja de todos
42. "Assim,
pois, a Igreja dos pobres fala primeiro e acima de tudo ao homem. A cada homem,
e por isso a todos os homens. É a Igreja Universal.... Não é a Igreja de uma
classe ou de uma só casta.... Ao mesmo tempo fala às sociedades em sua
globalidade e às diversas camadas sociais, aos grupos e profissões diversas.
Fala igualmente aos sistemas e profissões diversas. Fala igualmente aos
sistemas e às estruturas sociais, sócio-econômicas e sócio-políticas". A
"Igreja dos pobres" fala "àqueles que vivem na miséria"
para solidarizar-se com seus esforços pela superação de tudo aquilo que
violenta a sua própria dignidade humana e para convidá-los à vivência da
pobreza evangélica, na abertura confiante ao dom de Deus e na disponibilidade
generosa para com os irmãos. A "Igreja dos pobres" fala também aos
ricos e aos investidos de poder na sociedade, propondo-lhes igualmente a
vivência da mesma pobreza evangélica, a ser comprovada por uma conversão
radical. Essa conversão os faz partilhar seus bens com os pobres de modo
programático e sistemático, coloca-os "do lado dos pobres" e leva-os
a assumirem "plenamente, sem reservas e sem retorno, a causa dos irmãos
que se debatem na pobreza"51, trabalhando para a mudança das
estruturas injustas. Enfim, a Igreja dos pobres fala a todas as Igrejas, para
que se disponham a uma partilha fraterna que supere as diferenças entre a
riqueza e a pobreza existentes entre comunidades e instituições eclesiais. O
testemunho interno da Igreja demonstrará a sinceridade de sua conversão.
Sentido da opção preferencial pelos pobres
43. A
verdadeira opção preferencial pelos pobres significa que a Igreja, identificada
com eles e comprometida solidariamente com a sua causa, há de cumprir a sua
missão evangelizadora e formadora da consciência social, demonstrando assim a
sua solicitude pastoral por todos os homens. À luz dessa postura profética na
sua ação pastoral é que a Igreja vai descobrindo melhor as articulações da
injustiça, que não só oprime os pobres mas corrompe a consciência de todos.
Essa opção se torna tanto mais necessária e urgente quanto mais se aprofunda o
abismo entre ricos e pobres em nosso país, o que significa, para a maioria do
nosso povo, vida de privações, marginalização, frustração, humilhação e
impossibilidade de participar efetivamente nas decisões que dizem respeito ao
seu próprio destino.
Os pobres à luz da "Laborem Exercens"
44. Considerando
que os pobres aparecem, quase sempre, "como resultado da violação do
trabalho humano", a Encíclica "Laborem Exercens" vem lançar uma
luz a mais sobre o sentido fundamental da opção preferencial pelos pobres. Para
ser concreta e eficaz no atual momento histórico, ela há de ser explicitada
como opção pelos "homens do trabalho" e pelas "massas imensas de
desempregados e subempregados". Há de ser testemunhada através de nossa
efetiva solidariedade na luta solidária dos trabalhadores, em vista do
reconhecimento e da promoção de sua dignidade e da dignidade e seu trabalho.
Ela se realiza, ainda, em relação à luta dos desempregados e subempregados pelo
direito ao trabalho e ao seu exercício digno. Essa solidariedade é tanto mais
necessária quanto mais "a exigem a degradação social do homem-sujeito do
trabalho, a exploração dos trabalhadores e as zonas crescentes de miséria e
mesmo de fome. A Igreja acha-se vivamente empenhada nessa causa, porque a considera
como sua missão, seu serviço e como comprovação de sua fidelidade a Cristo,
para assim ser verdadeiramente a Igreja dos pobres.52
EVANGELIZAR
PELA
LIBERTAÇÃO INTEGRAL DO HOMEM
Evangelização e Libertação
45. Exatamente
por seu caráter religioso é que a ação evangelizadora da Igreja não pode deixar
de considerar o homem na integridade de seu ser, e deverá incidir sobre todas
as dimensões da vida humana, incluídas a social, a econômica e a política. A
Igreja está consciente de que "a sua missão implica, como parte
indispensável, a ação em prol da justiça e as tarefas de promoção da pessoa, e
que entre evangelização e promoção humana existem laços muito fortes de caráter
antropológico e teológico e da ordem da caridade.53 "A
evangelização não seria completa, se não tomasse em consideração a interpelação
recíproca que se fazem constantemente o Evangelho e a vida concreta, pessoal e
social dos homens".54
Empenho da Igreja na libertação integral do homem
46. No
exercício de sua missão evangelizadora, a Igreja deve anunciar uma mensagem
"explícita e sobremaneira vigorosa" sobre a necessidade da libertação
do homem de tudo aquilo que o oprime. Mas tem igualmente o "dever de
ajudar uma tal libertação nos seus começos, de dar testemunho em favor dela e
de envidar esforços para que ela chegue a ser total".55 A Igreja no
Brasil reitera o seu compromisso de anunciar e testemunhar o Evangelho, através
de um empenho decidido em vista da libertação integral do homem e de todos os
homens em nosso país.
Pobreza extrema e marginalização
47. A
situação de extrema pobreza a que está submetida a maior parte do povo
brasileiro constitui sério e urgente desafio. A Igreja caracteriza tal estado
de coisas como "escândalo e contradição com o ser cristão" e
identifica aí a presença do "mistério do pecado", no sentido bíblico
e teologal do termo: idolatria materialista, rejeição concreta do Deus
verdadeiro, substituído pelos ídolos da riqueza desmedida, do lucro a qualquer
preço, do consumo desenfreado a serviço de uma minoria privilegiada. Essa
situação, que nega direitos elementares dos setores majoritários da população,
é uma violência contra a dignidade dos filhos de Deus. Mais ainda: em virtude
dos poderosos mecanismos de sustentação política e de legitimação ideológica
que a mantêm e até intentam perpetuá-la, tal situação se apresenta,
concretamente, como forte obstáculo e tenaz resistência ao anúncio e à
instauração do Reino de Deus no meio de nós.56
Necessidade de conversão pessoal e social
48. Caracterizada
como verdadeiro pecado social — pecado que brota do coração do homem e se
cristaliza nas estruturas, que por sua vez corrompem e pervertem os corações —
essa situação exige da Igreja que sua evangelização libertadora se oriente
fundamentalmente no sentido de "converter ao mesmo tempo a consciência
pessoal e coletiva dos homens, a atividade em que eles se aplicam, e a vida e o
meio concreto que lhes são próprios". A libertação cristã "é
libertação sobretudo do pecado e do maligno". Com efeito, a Igreja está convencida
de que todo processo de transformação social resultará ilusório e vão, "se
não intervier uma verdadeira conversão das mentes, das vontades e dos
corações". Sem homens novos, profundamente convertidos ao Evangelho, e por
sua vez conscientes da necessidade de evangelizar o próprio processo de
transformação social, "ainda as melhores estruturas ou os sistemas melhor
idealizados depressa se tornam desumanos" e não estarão absolutamente
livres de novos materialismos e novas formas de opressão.57
Pedagogia evangelizadora e libertadora da Igreja
49. Todavia,
na medida em que a Igreja, a exemplo de Jesus, acontece no meio dos pobres e
abraça concretamente a causa deles, ela possibilita, a partir de sua
identificação com eles e da solidariedade com o seu projeto histórico, a
oportunidade privilegiada para a conversão profunda das condutas e dos
corações. Conversão tanto dos pobres, em vista do seu comprometimento fraterno
com os demais na construção da sociedade nova, como dos outros setores sociais,
e sobretudo dos ricos e dos detentores do poder, em vista do seu engajamento
generoso na luta solidária dos pobres.58 Assim, a opção preferencial
pelos pobres constitui a pedagogia evangélico-libertadora para todos os setores
da sociedade. Constitui-se também no testemunho eclesial mais coerente com o
Evangelho e, por isso mesmo, mais eficaz em vista da conversão decisiva do
coração humano para o projeto de Deus que se prefigura no projeto dos pobres.
O exemplo da pedagogia do próprio Jesus
50. Essa
foi a pedagogia evangélico-libertadora do próprio Jesus: pobre entre os pobres,
proclamou, a partir deles, a Boa Nova do Reino de Deus, Solidarizou-se com ele,
através de gestos concretos de libertação histórica, verdadeiros sinais
visíveis do Reino.59 Mediante esses sinais, Jesus proporcionava a todos
os homens a graça da conversão, urgindo-os a uma opção fundamental: acolhimento
alegre ou recusa obstinada da Boa Nova; abertura generosa ou fechamento egoísta
do coração.60 "Eu te bendigo, Pai, porque escondeste estas coisas
aos sábios e entendidos é as revelaste aos pequeninos''.61
CEBs e ação solidária dos pobres
51. A
dificuldade da missão não enfraquece a esperança da Igreja. Sua fé em Jesus
Cristo, vencedor do mundo, a compromete na tarefa que o Senhor lhe confiou de
ser portadora e animadora da esperança do Reino de Deus em nosso país. Essa
esperança é alimentada e revigorada pela mobilização do povo simples, em cujo
seio brotam ações solidárias em vista da superação da miséria e da
marginalização de que é vítima, fraternalmente ajudado em suas lutas por outros
setores da sociedade sensibilizados pela sua causa. Nessa mobilização dos
pobres, a Igreja percebe a presença viva, atuante e libertadora do próprio
Senhor Jesus, reconhecida explicitamente e testemunhada sobretudo nas comunidades
eclesiais de base. Aí o povo simples anuncia e celebra a sua fé, alimenta a sua
esperança e compromete solidariamente o seu amor na partilha dos bens, dos dons
e da vida em torno da memória do Cristo morto e ressuscitado.
O Reino, a Igreja e os pobres
52. Deus
vai fazendo acontecer o seu Reino, construído com a força dos fracos e daqueles
que, segundo o mundo, nada são.62 São eles os que mais clamam e anseiam
por justiça, amor e paz. "Porventura não escolheu Deus os pobres deste
mundo para que fossem ricos na fé e herdeiros do Reino prometido por Deus aos
que o amam?".63
Maria, solidária com os pobres
53. Maria,
que o povo simples e sofrido venera com especial amor e a quem recorre com
particular confiança, é a figura por excelência dessa Igreja fiel a Deus e
solidária com o pobre. É a serva humilde e confiante, constituída para sempre
bem-aventurada pelo Todo-Poderoso.64
Valores evangélicos e não-violência
54. Essa
Igreja, que se deseja pobre, esforça-se para imprimir, cada vez mais, à luta
dos oprimidos, os valores evangélicos da não-violência, da entrega generosa, da
alegria no compromisso, do sofrimento que redime, do perdão e da reconciliação,
da abertura à plenitude do Reino.
A Igreja no processo de libertação
55. A
Igreja, reafirmando o primado de sua vocação espiritual, recusa-se a substituir
o anúncio do Reino pela proclamação das libertações puramente humanas. Afirma
que a sua contribuição para a libertação ficaria incompleta se negligenciasse
anunciar a salvação em Jesus Cristo.65 Fiel à sua identidade e à sua
missão específica, compete à Igreja — à maneira do "sal" e da
"luz"66 inspirar e iluminar o processo de libertação em nosso
país, animando-o e confortando-o com o que Deus, através de sua Palavra e do
seu Espírito, revela continuamente a respeito da pessoa humana, sua vocação
histórica, seu futuro transcendente. Compete à Igreja, assim, comprometer-se
decidida e solidariamente nesse processo que ela "fermenta" com o
Espírito de Cristo, sempre mais conforme com os valores genuinamente
evangélicos.67
EVANGELIZAR
NUMA
CRESCENTE PARTICIPAÇÃO E COMUNHÃO
A libertação implica duplo processo
56. A
libertação integral do homem em Jesus Cristo é um processo dinâmico, no qual
estão presentes duas dimensões complementares e inseparáveis: "libertação
de todas as servidões do pecado pessoal e social" e "libertação para
o crescimento progressivo no ser" humano e cristão, no sentido de
"irmos construindo uma comunhão e uma participação" sempre mais
perfeita. Isso se dará em todos os planos da nossa vida e convivência: em nosso
relacionamento com o mundo, como senhores; com todas as pessoas, como irmãos; e
com Deus, como filhos.
Participação e comunhão
57. Com
efeito, esse é o desígnio mesmo de Deus para toda a humanidade. Somos chamados
a participar comunitária e solidariamente, como sujeitos, na construção do
mundo e da História. Nisto somos incorporados na própria vida e comunhão
trinitárias — "mistério supremo da unidade" — raiz última e, ao mesmo
tempo, realização plena e consumada de todos os nossos anseios de participação
e comunhão, elementos decisivos "para a grandeza e a dignidade da
existência humana".
Evangelizar para a participação e comunhão
58. A
ação evangelizadora da Igreja em nosso país procurará, assim, que "a fé
desenvolva uma personalização crescente e uma solidariedade libertadora"
em nosso povo. Assim, ele se liberta de toda dependência e de todas as
escravidões, torna-se sujeito de seu próprio desenvolvimento, cria espaços
sempre mais amplos de participação efetiva em todos os setores da atividade
humana e cresce cada vez mais na comunhão com os irmãos e com Deus.70
Responsabilidade da própria Igreja
59. Continuadora
da missão de Cristo, a Igreja — Povo de Deus — está inteiramente a serviço da
comunhão do homens com Deus e dos homens entre si. Nisso consiste sua missão
evangelizadora, que ela realiza na medida em que todos os cristãos —
hierarquia, leigos, religiosos — são servidores do Evangelho, "cada qual
segundo seu papel e carisma próprio". Sem essa participação e esse empenho
pessoal e comunitário de todos os seus membros na missão, a Igreja não pode
estar em condições de evangelizar através do testemunho global de sua vida. Se
ela, de fato, quer ser fiel à sua condição de sacramento da unidade entre os
homens, ela própria e em primeiro lugar deve esforçar-se sempre para ser
"mais e mais um sinal transparente ou modelo da comunhão de amor no Cristo
que anuncia": é condição para a sua credibilidade.71
Fundamentos eclesiológicos
60. No
âmbito intra-eclesial, essa exigência de participação e comunhão encontra seu
fundamento na igual dignidade dos filhos de Deus. Ela se justifica pela
responsabilidade comum aos membros do Corpo de Cristo em relação à missão da
Igreja e pela complementaridade dos ministérios que o Espírito suscita para a
realização dessa missão.72
Participação e comunhão em todos os níveis
61. Para o aperfeiçoamento da tarefa evangelizadora e a unidade no
trabalho pastoral, a comunhão e a participação de todos os membros do Povo de
Deus devem crescer nos vários níveis da organização e estrutura eclesiais.
Diversos organismos inspirados no Concílio Vaticano II têm surgido para tornar
efetivas a participação e a comunhão na Igreja. Onde foram criados num espírito
de confiança mútua e de respeito às responsabilidades específicas dos diversos
membros, deram prova de sua eficácia e merecem particular apreço. Tais são,
sobretudo, os Conselhos Presbiterais, Pastorais e Administrativos e as
Assembléias de Igreja. Através deles, os diversos membros se sentem
verdadeiramente co-responsáveis na missão. Assim, a prática da participação e
comunhão vai se enraizando e frutificando nos diversos níveis e lugares de
evangelização de que a Igreja dispõe: a família, a comunidade de base, a
paróquia e a diocese. Todos esses, por sua natureza, são centros de
participação e comunhão, a serem sempre mais incentivados.73
Favorecer maior participação dos leigos
62. Nesse
sentido, percebe-se com clareza sempre maior a importância de se fortalecerem
mecanismos permanentes de participação, que favoreçam sobretudo nos leigos,
homens e mulheres, a consciência de sua presença ativa à Igreja e que lhes
possibilitem crescer na vivência da comunhão eclesial. Na verdade,
multiplicam-se as CEBs e os Movimentos leigos desejosos de, à luz da Palavra de
Deus, movidos pela fé e unidos a seus pastores, se comprometerem com a Igreja
na tarefa da evangelização. Assembléias de Igreja nos diversos níveis têm
contado com a presença crescente dos leigos, que vêm participando na sua
preparação, na reflexão dos assuntos e na tomada de decisões, como, por
exemplo, na escolha das prioridades pastorais e das Coordenações e dos
Conselhos pastorais, dos quais eles têm sido chamados a participar como membros
ativos e de pleno direito. A participação efetiva dos leigos, que favorece sua
maior integração na comunidade eclesial, vem-se desenvolvendo assim — e como
tal deve ser incentivada — não como estratégia a mais ou apenas como nova
metodologia de trabalho, mas como algo de essencial e constitutivo do processo
de amadurecimento da fé dos cristãos e do crescimento da comunhão de todos no
Corpo de Cristo.
A participação favorece a comunhão
63. Portanto,
a prática da participação vai contribuindo substancialmente para o crescimento
da consciência da corresponsabilidade de todos os membros do Povo de Deus na
missão evangelizadora e na vivência mais profunda da comunhão dentro da própria
Igreja. Essa comunhão se expressa de modo privilegiado na Liturgia, mormente na
Celebração Eucarística, e se manifesta crescentemente através da solicitude de
todos, nas mais variadas formas de apostolado. Ela suscita novas forças de
engajamento na pastoral e concretiza um pluralismo sadio, que não a compromete,
mas a enriquece ainda mais.
Testemunho eclesial a serviço da sociedade humana
64. O testemunho de uma verdadeira renovação da vida comunitária
eclesial, chamada a ser sinal e sacramento da unidade de todos os homens entre
si e com Deus, será um meio dos mais eficientes para que a Igreja contribua na
criação de uma nova sociedade em nosso país. Pois não se pode esquecer que a
Igreja "experimenta com o mundo a mesma sorte terrena" e que ela é
"como que transformada na família de Deus".74 As comunidades
eclesiais de base, sobretudo, se têm mostrado fermento da vida humana e
evangélica, exemplo vivo de um modo novo de convivência, onde se une liberdade
e solidariedade, e onde se ensaiam formas concretas de organização e estruturas
de participação e comunhão capazes de abrir caminho para um tipo de sociedade
mais justa, fraterna, livre, solidária e verdadeiramente cristã.75
EVANGELIZAR
VISANDO
À CONSTRUÇÃO DE UMA SOCIEDADE JUSTA E FRATERNA
Perspectiva escatológica e histórica
65. Cristo
"envia sua Igreja a todos os homens e a todas as sociedades, com uma
mensagem de salvação. Essa missão da Igreja se realiza, ao mesmo tempo, em duas
perspectivas: a perspectiva escatológica, que considera o homem como ser cuja
destinação definitiva é Deus; e a perspectiva histórica, que olha esse mesmo
homem em sua situação concreta, encarnado no mundo de hoje".76
Relação entre o Evangelho e a vida concreta
66. Por
força dessa simultaneidade da mesma e única missão da Igreja, decorre que
"todas as preocupações do homem devem ser tomadas em consideração, pois a
evangelização não seria completa, se não levasse em conta as relações que
existem entre a mensagem do Evangelho e a vida pessoal e social do homem, entre
o mandamento do amor ao próximo que sofre e passa necessidade e as situações
concretas de injustiça a combater e de justiça e paz a instaurar".77
Uma conclusão se impõe: "Toda evangelização visa suscitar, aprofundar e
consolidar a fé e, à luz da fé, tornar possível uma sociedade mais justa e mais
fraterna".78
O mundo querido por Deus
67. Neste
mundo dividido e tão marcado pela injustiça, torna-se fundamental reafirmar que
"o mundo querido por Deus é um mundo de justiça; a ordem que deve reger as
relações entre os homens se alicerça na justiça.79 Uma sociedade
corroída pelo egoísmo e fundada em estruturas sócio-econômicas injustas é
incapaz de promover o bem de todos e sofre ameaça constante. De fato, "o
bem comum de uma sociedade exige que ela seja justa. Onde falta a justiça, a
sociedade está ameaçada por dentro".80 Ao mesmo tempo, a mensagem
de salvação que a Igreja faz chegar a todos "é mensagem de amor e
fraternidade, mensagem de justiça e solidariedade, em primeiro lugar para os
mais necessitados. Numa palavra: é uma mensagem de paz e de justa ordem
social".81
Diversas características e dimensões de uma sociedade justa e fraterna
68. Importa
querer e buscar a realização de uma sociedade justa e por isso mesmo fraterna.
Não se completa a tarefa dos cristãos, enquanto não derem a sua contribuição
específica para construir uma sociedade segundo as aspirações mais profundas
dos homens de boa vontade e segundo o desígnio salvífico de Deus. Tal sociedade
deve ter algumas características e dimensões importantes, como:
a) União
e solidariedade de todos e para com todos. União e solidariedade que não podem excluir
nenhum segmento da sociedade e devem buscar sempre a eficácia. "Os
diversos centros do poder e os diferentes representantes da sociedade devem ser
capazes de se unir, de coordenar os próprios esforços e de chegar a um acordo
sobre programas claros e eficazes. Nisso consiste a fórmula cristã para criar
uma sociedade justa. A sociedade inteira deve ser solidária com todos os homens
e, em primeiro lugar, com o homem que tem mais necessidade de auxílio, o pobre.
A opção pelos pobres é uma opção cristã; é também a opção da sociedade que se
preocupa com o verdadeiro bem comum".82
b) Defesa da dignidade e dos direitos
humanos. Colocando o homem no centro de todas as realizações históricas, tal
sociedade propõe-se a defesa corajosa da dignidade humana, da liberdade
religiosa e o respeito aos demais direitos fundamentais. "A Igreja,
fundada por Cristo, indica ao homem de hoje o caminho a seguir para construir a
cidade terrena, prelúdio — embora não isento de antinomias e contradições — da
cidade celeste. A Igreja indica o modo de construir a sociedade em função do
homem, no respeito ao homem".83
c) Justa distribuição dos bens. Uma distribuição
justa dos bens e das oportunidades deve tender a abolir a distância entre o
luxo desmedido e a indigência. "O significativo progresso econômico que
nosso continente alcançou demonstra que seria possível erradicar a extrema
pobreza e melhorar a qualidade de vida do nosso povo; ora se existe a
possibilidade, existe conseqüentemente a obrigação."84
d) Primado do homem e prioridade do
trabalho. O trabalho sempre tem prioridade em relação ao capital, porque o
fundamento primeiro do valor do trabalho é o próprio homem que tem o primado em
relação às coisas. Ao passo que o homem, como sujeito do trabalho que faz, o
homem, e só ele, é uma pessoa. Esta verdade contém em si conseqüências
importante e decisivas.85
e) Emprego para todos e fundos para os
desempregados. Destaca-se a necessidade de criar empregos para todos os que estão
aptos a trabalhar. Há também obrigação de conceder fundos em favor dos desempregados,
"dever que deriva do princípio fundamental da ordem moral neste campo,
isto é, do princípio do uso comum dos bens ou, para exprimir o mesmo de maneira
mais simples, do direito à vida e à subsistência".86
f) Justa remuneração do trabalho. A remuneração do
trabalho, através do justo salário e justas subvenções sociais, é um meio
concreto pelo qual os homens têm acesso aos bens destinados ao uso comum e
constitui uma verificação chave da justiça de cada sistema sócioeconômico ou de
seu justo funcionamento.87
g) Participação
de todos. Participação na produção, nos progressos da ciência e da técnica, na
cultura e no lazer digno, na propriedade dos meios que lhes dizem respeito, nas
opções políticas e na eleição de seus governantes. Participação específica dos
operários e camponeses nas suas organizações e na construção da sociedade.
Todos devem tornar-se sujeitos e protagonistas do desenvolvimento individual e
comunitário. Nessa tarefa de transformação da sociedade, a mulher deve estar
presente ao lado do homem.88 Na convivência fraterna de todos se
fomentem e se tutelem os direitos humanos, e as metas a alcançar se decidam
pelo consenso e não pela violência.89
h) Qualidade
de vida mais humana. Deve-se lutar por uma qualidade de vida mais humana,
através de um desenvolvimento que promova a todos e que respeite a natureza,
sem explorá-la indiscriminadamente.
i) Empenho pela Justiça e Paz. A justiça e a
fraternidade não têm limites. O mundo atual encontra-se dividido por
nacionalismos exacerbados, radicalismos ideológicos, discriminações econômicas
e corrida armamentista. Essa situação deve ser superada evangelicamente na
verdade, na justiça e na caridade, em prol do bem geral da humanidade e da paz
mundial.
j) Necessárias mudanças estruturais. "Alguém que
reflete sobre a realidade da América Latina, tal como se apresenta na hora
atual, é levado a concordar com a afirmação de que a realização da justiça
neste Continente está diante de um claro dilema: ou se faz através de reformas
profundas e corajosas, segundo os princípios que exprimem a supremacia da
dignidade humana, ou se faz — mas sem resultado duradouro e sem benefício para
o homem — pelas forças da violência''.90
Compromisso de todos os cristãos
69. Por
sua vez, os cristãos devem assumir compromisso claro na construção dessa nova
sociedade, empenhando decididamente "as riquezas do próprio talento e da
própria consciência para dar à vida da Nação uma base que há de garantir um
desenvolvimento das realidades e estruturas sociais na justiça".91
Valor construtivo das tensões sociais
70. Tal
empenho e compromisso seguem a linha da opção preferencial pelos pobres. Toda
sociedade sofre uma luta permanente e não declarada, movida pelos que defendem
a qualquer custo a manutenção de seus interesses e privilégios. Essa luta tem
um nome: injustiça social. São raros os exemplos daqueles que espontaneamente
abrem mão de seus privilégios em favor do bem comum. A mudança só se realiza
quando os desfavorecidos se organizam para a defesa de seus direitos, o que se
identifica com o "empenho normal das pessoas em prol do justo bem". A
Encíclica "Laborem Exercens" reconhece o valor ético dos esforços
daqueles que lutam em defesa desses direitos e desse bem, porque não é luta
contra os outros, nem luta pela luta, nem para eliminar o antagonista, mas é
luta pela justiça social.92 Isso leva a que se tomem iniciativas para um
encontro e relacionamento estreito com todos os que colaboram na construção da
sociedade, de tal maneira que eles descubram a sua complementariedade e
convergência, "não excluindo o reconhecimento do valor construtivo de
tensões sociais que, dentro das exigências da justiça, contribuem para garantir
a liberdade de direitos, especialmente dos mais fracos".93
Edificar a comunidade eclesial
71. Para
contribuir na construção de uma sociedade justa e fraterna, o esforço da
evangelização se orienta obviamente, antes de mais nada, no sentido de
prosseguir no empenho permanente pela edificação da comunidade eclesial, sinal
e germe do Reino de Deus. Só assim a Igreja será fermento de união e
conciliação, comprometida na construção da sociedade fraterna. Sem essa
dimensão que a identifica, dois riscos seriam inevitáveis: primeiro, o de
confundir a Igreja com a sociedade, na ilusão de restaurar um regime de
cristandade; segundo, o de supor que o
compromisso evangelizador se esgota na construção da sociedade justa. Ora,
mesmo na vigência ainda remota de uma sociedade justa e fraterna, a Igreja
continuaria comprometida com a missão de evangelizar e de anunciar o Reino
definitivo: "Não temos aqui cidade permanente".94
EVANGELIZAR
ANUNCIANDO
ASSIM O REINO DEFINITIVO
O absoluto do Reino de Deus
72. "O
Senhor Jesus iniciou sua Igreja pregando a Boa Nova, isto é, o advento do
Reino"95, de tal maneira importante que, em comparação com ele,
tudo o mais passa a ser "o resto" que é dado por acréscimo.96
Esse Reino é inaugurado por Jesus Cristo, pelo dom de seu Espírito, como novo
relacionamento com o Pai e entre os homens, que não se esgota na História.
O Reino já presente na História
73. É
o Reino definitivo que em o germe está
presente na História, por força do mistério pascal. "No centro da História
fica assim implantado o Reino de Deus, resplandecente na face de Jesus
Ressuscitado. A justiça de Deus triunfou da injustiça dos homens. Com Adão,
principiou a História velha. Com Jesus Cristo, o novo Adão, principia a
História nova. Esta recebe o impulso indefectível que levará todos os homens,
transformados em filhos de Deus, pela eficácia do Espírito, a um domínio do
mundo cada dia mais perfeito, a uma comunhão entre os irmãos cada dia melhor
realizada, à plenitude da comunhão e participação que constituem a própria vida
de Deus".97
Reino transcendente, dom da graça de Deus
74. A
mensagem e a ação evangelizadora da Igreja, discípula de Cristo, têm como
centro a proclamação desse Reino de Deus — comunhão profunda, perfeita e
definitiva de Deus com os homens, dos homens com Deus e dos homens entre si —,
o qual não coincide com nenhuma realização histórica concreta, nem tampouco é
fruto do empenho puramente humano; mas se projeta para além do tempo e da
História, como consumada salvação que, em Jesus Cristo e apenas nele, "é
oferecida a todos os homens, como dom da graça e da misericórdia de Deus".98
...mas construído já aqui, através também dos esforços humanos
75. A
Igreja, porém, está igualmente convencida de que a construção do Reino se dá
desde aqui e agora, também através dos esforços humanos em vista de uma
sociedade verdadeiramente justa, fraterna, solidária e livre. Nesses esforços
ela reconhece a presença atuante do próprio Deus Salvador. Ela sabe, também,
que o Reino passa através de mediações históricas que, não obstante sua
parcialidade e ambigüidade, são sinais da obra definitiva de Deus, eterna e
consumada. Assim, "a missão da Igreja, que se realiza continuamente na
perspectiva escatológica, é ao mesmo tempo plenamente histórica".99
Abraçar a Cruz e ressuscitar para a Vida
76. Por
isso a Igreja há de se encarnar concretamente a partir de sua especificidade e
originalidade, no processo de transformação libertadora das estruturas marcadas
pelo pecado, apesar da ambigüidade e conflitividade presentes em tal processo.
E isso justamente para que tal processo seja continuamente evangelizado e se
abra para a plenitude da libertação genuinamente cristã e transcendente. A
morte e ressurreição de Cristo constituem o mistério, que tem para a vida
cristã sentido e alcance que a iluminam. A Cruz na vida do Cristão e da Igreja,
como na vida de Cristo, constitui uma passagem necessária rumo à ressurreição
gloriosa e definitiva. Isso nos faz entender o sentido da cruz, da renúncia
cristã e da própria morte.
Testemunho particular da vida religiosa
77. Cabe
aqui referência especial àqueles que, na Igreja, se consagram à vida religiosa.
"Chamados pelo Senhor, comprometem-se a segui-lo radicalmente,
identificando-se com Ele a partir das bem-aventuranças... e aceitam
alegremente, fundados na comunhão com o Pai, o mistério da aniquilação e
exaltação pascal. Por isso, negando-se radicalmente a si mesmos, aceitam como
própria a cruz do Senhor que sobre eles pesa, e acompanha os que sofrem por
causa da injustiça, por falta do senso profundo da existência humana e por
causa da fome de paz, verdade e vida. Destarte, compartilhando sua morte,
ressuscitam alegremente com eles para a novidade da vida e, fazendo-se tudo
para todos, consideram privilegiados os pobres, prediletos do Senhor". Os
religiosos e as religiosas desempenham, assim, papel importante e
insubstituível na obra da evangelização: seja quando testemunham o Reino
definitivo em suas próprias comunidades de vida fraterna, na oração, na
partilha, no despojamento, no serviço e na disponibilidade total a Deus e aos
irmãos, seja quando, não raras vezes, se encontram na vanguarda da missão, a
afrontar os maiores riscos para a santidade e a própria vida.100
O caminhar terreno da Igreja para o Pai
78. Dessa
forma, os cristãos seguem os passos de
Jesus que, como "primogênito entre muitos irmãos"101, procurou
sempre a glória do Pai e consumou na cruz sua entrega a Ele, voltando para o
Pai. Ir ao Pai: nisto consistiu o caminhar terreno de Jesus Cristo. A partir de
então, ir ao Pai é o caminhar terreno da Igreja, povo de irmãos. Somente no
encontro com o Pai acharemos a plenitude que seria utópico procurar no tempo.102
"Depois que propagarmos na terra, no Espírito do Senhor e por sua ordem,
os valores da dignidade humana, da comunidade fraterna e da liberdade, todos
esses bons frutos da natureza e do nosso trabalho, nós os encontraremos
novamente, limpos contudo de toda impureza, iluminados e transfigurados, quando
Cristo entregar ao Pai o reino eterno e universal: reino da verdade e da vida,
reino de santidade e da graça, reino da justiça, do amor e da paz",103
reino onde "Deus será tudo em todos".104
II - PARTE
LINHAS OU DIMENSÕES GERAIS DA AÇÃO PASTORAL
79. O Objetivo
Geral é, em nível nacional, o elemento de articulação de toda a Pastoral. A
explicitação de seu conteúdo oferece elementos inspiradores e orientadores para
as atividades pastorais em todos os níveis. Devidamente assumido, torna-se
ponto de convergência para todos os tipos e formas de ação pastoral. É o ponto
central das Diretrizes da Ação Pastoral da Igreja no Brasil.
80. Desde
o Plano de Pastoral de Conjunto (1966-1970), a Igreja no Brasil adotou, como
quadro de referência abrangente e encaminhador de sua atividade, as denominadas
"linhas" pastorais. Em abril de 1983, a 21ª Assembléia Geral do
Episcopado brasileiro pronunciou-se pela continuidade dessas mesmas linhas
durante o próximo quadriênio, devendo-se dar atenção especial a diversos destaques,
também definidos pela mesma Assembléia.
81. As
seis linhas correspondem às grandes dimensões da vida eclesial.
Dimensões que são elementos constitutivos da ação pastoral da Igreja,
fundamentados na própria vida cristã pessoal e comunitária. São expressões
qualificadas dessa vida cristã, e pertencem necessariamente à atuação visível
do Espírito Santo na Igreja, porque:
82. É
o Espírito que convoca e reúne seu povo para viver em comunidade, conforme o
carisma e a missão que a cada um são concedidos, segundo o dom de Deus
(DIMENSÃO COMUNITÁRIA E PARTICIPATIVA — Linha 1).
83. É
o Espírito quem faz do Povo de Deus um povo que proclama a Palavra e oferece a
toda a humanidade os dons de sua fé e pertença eclesial (DIMENSÃO MISSIONÁRIA —
Linha 2).
84. É
o Espírito quem faz crescer continuamente o Povo de Deus mediante o
aprofundamento e a vivência permanente na fé, e o ensina a ler os
acontecimentos cotidianos à luz da Palavra e da Vida de Jesus Cristo (DIMENSÃO
CATEQUÉTICA — Linha 3).
85. É
o Espírito que reúne o povo em Assembléias para a escuta da Palavra de Deus e
para celebrar a Palavra feita carne e alimento, e, em união com o mesmo Cristo,
oferecê-lo e oferecer-se como oblação pura105, e assim comprometer-se a
viver mais intensamente a fraternidade (DIMENSÃO LITÚRGICA — Linha 4).
86. É
o Espírito quem impulsiona a todo o momento a Igreja a viver na unidade,
corrigindo suas divisões e reconstruindo a totalidade do Corpo de Cristo e
abrindo-a para o diálogo religioso (DIMENSÃO ECUMÊNICA E DE DIÁLOGO RELIGIOSO —
Linha 5).
87. É
o Espírito quem anima a vida do Povo de Deus para que atue no meio da sociedade
como fermento, sal e luz, transformando-a pelo testemunho e ação, para que seja
mais justa, solidária e fraterna, anunciando dessa forma os valores do Reino
definitivo (DIMENSÃO PROFÉTICA E TRANSFORMADORA — Linha 6).
88. Enquanto
sinal e sacramento eficaz da ação do Espírito, a Igreja expressa sua própria
vida nessas dimensões. Elas não existem isoladamente. As seis linhas ou
dimensões não podem ser tomadas em separado, nem paralelamente. Elas se
interpenetram e fortalecem umas às outras. É no Objetivo Geral que as linhas ou
dimensões se inspiram e encontram sua identificação atual. Este, por sua vez,
se realiza através de todas e de cada uma delas.
89. A
seguir, apresenta-se a identificação de cada uma das seis linhas ou dimensões
como quadro de referência da ação pastoral da Igreja em todos os níveis.
LINHA 1 — DIMENSÃO COMUNITÁRIA E PARTICIPATIVA
90. O
Espírito de Cristo convoca e reúne seu povo para viver em comunidade. Nesta,
conforme o dom de Deus, cada um desenvolve seu carisma específico e desempenha
sua missão a serviço do Corpo e da Missão da Igreja no mundo. Essa dimensão
comunitária abrange, de um lado, a consciência da presença do Espírito
vivificador, que distribui os dons e carismas para o bem de todo o Corpo. Há
diversidade de dons, mas o Espírito é o mesmo; diversidade de ministérios, mas
o Senhor é o mesmo; diversos modos de ação, mas é o mesmo Deus que realiza tudo
em todos. Cada um recebe o dom de manifestar o Espírito para utilidade de
todos.106 Por outro lado, essa dimensão comunitária abrange também a
vivência de uma crescente comunhão, pela qual a Igreja, acolhendo e
incentivando as diversas vocações e carismas específicos, se organiza em
estruturas sempre mais participativas para a construção da unidade orgânica,
que é sinal da comunhão dos homens com Deus e dos homens entre si.
LINHA 2 — DIMENSÃO MISSIONÁRIA
91. A
Igreja toda é missionária. Ela tem origem na missão do Filho e do Espírito
Santo, segundo o desígnio do Pai.107 Como membros de Cristo e
incorporados na Igreja pelo Batismo, e também pela Confirmação e a Eucaristia,
os fiéis são todos chamados a proclamar e a oferecer à humanidade inteira os
dons da própria fé e pertença à Igreja.
92. Assim,
os Bispos, sucessores do colégio dos apóstolos, são consagrados para a salvação
do mundo inteiro, não apenas para uma diocese. Os presbíteros, enquanto
representantes de Cristo e cooperadores da ordem episcopal, se relacionam
fundamentalmente com a missão universal da Igreja. Os diáconos, sinais
sacramentais de Cristo Servo, servem à comunidade, com o Bispo e seu
Presbitério, a uma Igreja chamada a ser toda ela missionária. Os institutos de
vida consagrada, por vocação especial, devem cultivar a dimensão missionária em
seu trabalho e em sua vida.
Os leigos, também eles testemunhas e membros vivos, participam ativa e
corresponsavelmente da missão salvífica da Igreja.108
93. Todo
o Povo de Deus é "enviado" para anunciar a Boa Nova a todas as
nações. É chamado a comprometer-se com a atividade missionária no próprio país
e em outras partes do mundo, dedicando especial atenção às regiões e situações
mais carentes e àquelas onde ainda não tenha sido suficientemente proclamado o
Reino.
LINHA 3 — DIMENSÃO CATEQUÉTICA
94. O
Povo de Deus é impulsionado pelo Espírito Santo a aprofundar o conhecimento e a
vivência da própria fé, através do confronto da Palavra de Deus com as
situações da vida e com a História. Esse Povo se torna, cada vez mais, sinal e
germe do Reino, dando as razões de sua fé e esperança e comprometendo-se, com
maior conhecimento e zelo, na transformação do mundo, para que este se torne
dia a dia mais conforme com o projeto de Deus.
95. A
dimensão catequética da vida cristã é um processo de educação pessoal e
comunitária, progressiva e permanente, orgânica e sistemática da fé. Processo
que busca levar as pessoas à comunhão e à intimidade com Cristo, ao
conhecimento de sua mensagem e ao compromisso com a sua missão de anúncio e
construção do Reino de Deus. Sujeito e protagonista dessa educação da própria
fé, o Povo de Deus sabe que só consegue atingi-la pela força do Espírito Santo.
Essa dimensão se fundamenta na verdade sobre
Jesus Cristo, a Igreja e o Homem, à luz da opção preferencial pelos pobres, num
processo participativo, que assume a realidade como contexto, no qual o Senhor
interpela e desafia hoje o homem para a construção do Reino.
LINHA 4 — DIMENSÃO LITÚRGICA
96. O
Povo de Deus encontra seu momento de maior comunhão na liturgia, ápice e fonte
da vida eclesial. É o lugar privilegiado, no qual a Palavra de Deus convoca
para a escuta e a formação de um povo a ele devotado. Na liturgia, a vida
eclesial se torna história da salvação sempre em ato. Nela, o plano de salvação
manifesta, de modo novo e inexaurível, as maravilhas de Deus, no Cristo, no
Espírito e na Igreja. Liturgia é encontro com Deus e com os irmãos. É ação de
uma comunidade organizada, que se sente chamada e levada a celebrar diante de
Deus a própria vida, com suas alegrias e sofrimentos, lutas e conquistas. É a
festa da comunhão eclesial. Acolhendo o anúncio da boa nova e convertendo-se, a
comunidade se reúne para celebrar a salvação realizada por Cristo, ratificar a
nova e eterna Aliança e comprometer-se com a construção do Reino.
97. A
dimensão litúrgica expressa visivelmente o mistério de Cristo e da Igreja. O
múnus sacerdotal de Cristo, através de sinais sensíveis, é aí exercido para
realizar a santificação do homem e o culto público integral do Corpo Místico de
Cristo, Cabeça e membros.109 Nenhuma atividade pastoral pode realizar-se
sem referência à liturgia, e qualquer celebração tem projeção evangelizadora e
catequética, enquanto aceita o homem como ser sacramenta110 e enquanto
leva a criação inteira a tornar-se, de certa forma, sacramento de Deus.111
98. A
oração particular e a piedade popular, presentes na alma do povo, constituem
valores de evangelização. A liturgia é o momento privilegiado de comunhão e
participação para uma evangelização que conduz à libertação cristã integral,
autêntica.112
LINHA 5 — DIMENSÃO ECUMÊNICA E DE DIÁLOGO RELIGIOSO
99. Como
resposta ao apelo de unidade expresso na oração sacerdotal do Senhor —
"que todos sejam um... para que o mundo creia"113, o Povo de
Deus é chamado a crescer permanentemente em espírito e atitude de diálogo e
abertura, na busca da plena e visível comunhão de todos aqueles que aceitam
Jesus como Senhor. Esse testemunho de comunhão é sinal e instrumento de unidade
para a comunidade humana dilacerada pelo pecado.
100. Por
outro lado, a construção de uma sociedade justa e fraterna exige de todos os
cristãos, organizados em comunidade, abertura crescente para o diálogo com as
religiões não-cristãs e com pessoas, movimentos e grupos não crentes. Essa
abertura e diálogo, tarefa de todos, leva ao conhecimento, valorização e
auxílio mútuos.
LINHA 6 — DIMENSÃO PROFÉTICA E TRANSFORMADORA
101. A
Igreja, Povo de Deus peregrino na História, tem a missão de ser luz, sal e
fermento no mundo. Estando presente na sociedade, a Igreja como um todo — tanto
os fiéis individualmente como os grupos, instituições e organizações eclesiais
— vive profunda relação de influência mútua com essa mesma sociedade. Crescendo
na fé, o Povo de Deus vai tomando consciência cada vez mais clara de sua
dimensão profética, que anuncia o Senhor e o seu Reino, e denuncia tudo quanto
avilta o homem, imagem e semelhança de Deus. Vai tomando consciência,
igualmente, da missão que lhe cabe de contribuir para a transformação da
sociedade.
102. O
Povo de Deus faz tudo isso de várias maneiras:
a) com
a permanente atenção em auscultar os anseios, aspirações e apelos de todos os
que sofrem as diversas formas de injustiça de uma sociedade ainda não
devidamente empenhada na promoção do bem comum;
b) com
a permanente preocupação em assumir esses apelos nos diversos níveis e
organizações da Igreja, a fim de colaborar no seu atendimento, a partir das
exigências da fé;
c) com
o permanente esforço em referir esses apelos a uma situação estrutural de
injustiça, a fim de motivar a todos, não só ao atendimento de casos isolados,
mas também a uma ação transformadora global, com vistas a uma sociedade justa e
fraterna que seja anúncio do Reino.
DIMENSÕES
PASTORAIS E SITUAÇÕES HUMANAS
103. As
dimensões ou linhas da Ação Pastoral devem concretizar-se em todas as
realidades humanas. Essas realidades ou situações humanas podem diferenciar-se
sob vários aspectos, como por exemplo: segundo faixas etárias (crianças,
jovens, adultos, anciãos); tipos de trabalho ou ocupação (operários,
lavradores, bóias-frias, empregadas domésticas, profissionais liberais);
necessidades básicas (saúde, alimentação, educação, meio-ambiente, informação,
comunicação, lazer). Cada uma das situações humanas exige uma forma particular
de ação pastoral, dando origem às diversas pastorais específicas: Pastoral da
Família, Pastoral dos Jovens, Pastoral das Favelas, Pastoral dos Meios de
Comunicação Social, Pastoral da Saúde, Pastoral da Terra e outras.
104. A
ação pastoral consiste em desenvolver todas as dimensões da vida eclesial em
cada uma das situações humanas. Cada pastoral específica poderá dar maior
ênfase a uma ou outra dimensão, conforme sua natureza, necessidade e urgência
das circunstâncias. No entanto, será incompleta se não integrar todas as
dimensões ou linhas.
105. O
conjunto das linhas ou dimensões constitui o quadro de Referência Geral da Ação
Pastoral da Igreja no Brasil em todos os níveis. Não obrigam porém a organizar
a ação pastoral concreta em linhas ou dimensões. Cada nível de Igreja, cada
Igreja Particular pode e deve organizar seus planos ou ação pastoral a partir
de um quadro operacional que melhor se adapte à sua realidade.
III - PARTE
DESTAQUES
Introdução
106. Os
Bispos reunidos na 21ª Assembléia Geral indicaram, por ordem de votação,
algumas áreas ou situações humanas que, no Brasil, merecem destaque na atuação
pastoral, em todos os níveis, para os próximos quatro anos: JOVENS, CEBs,
VOCAÇÕES E MINISTÉRIOS, FAMÍLIA, LEIGOS e MUNDO DO TRABALHO. Trata-se de áreas
da vida eclesial ou de situações humanas que, devido às condições atuais,
necessitam de especial atenção e cuidado pastoral.
107. A
ação pastoral dedicada a esses destaques deverá ser planejada tendo presente o
OBJETIVO GERAL, elemento unificador de toda atividade pastoral da Igreja no
Brasil. Ainda que ligados a esta ou àquela linha, pelo fato de serem mais
claramente expressão de determinada dimensão da vida da Igreja, os destaques
também deverão ser assumidos em conjunto, levando em consideração o pleno
desenvolvimento de todas as dimensões da vida eclesial.
108. As
páginas seguintes oferecem breve encaminhamento pastoral de cada um dos destaques.
Em primeiro lugar, busca-se dar o sentido e as razões dessa
preocupação da Igreja. A seguir, em forma de perguntas, procura-se abrir o
leque das possibilidades de atuação pastoral para as diversas dimensões.
Propõe-se, com isso, despertar uma participação ampla, na busca de respostas
para os desafios que a situação em destaque apresenta. Os resultados dessa
participação serão recolhidos pela CNBB Nacional que, depois de analisá-los e
elaborá-los de forma sistemática, os devolverá às bases para realimentar a
reflexão e a ação.
DESTAQUE 1 — JOVENS
Sentido e razões
109. Funda-se
em motivações diversas o fato de a Igreja no Brasil dar prioridade, no próximo
quadriênio, ao trabalho com a juventude. É interessante verificar que essa
decisão foi tomada após o trabalho de avaliação dos últimos anos de caminhada
pastoral. De alguma forma, é o reconhecimento do que ainda não se fez: assumir
a opção feita em Puebla. é também a convicção de que ainda há muito por fazer
nesse campo vital para a Igreja e a sociedade.
110. Uma
das raízes ou motivações dessa prioridade são os sinais de vida da
própria juventude brasileira, expressos em múltiplas formas: desejo de
participar na vida da sociedade em todos os níveis; potencialidade do jovem,
especialmente pobre, para a transformação; conhecimento da realidade que a
juventude vai adquirindo; posição crítica do jovem em relação à sociedade e à
Igreja; vontade de ser Igreja; busca de novas maneiras de viver individual e
coletivamente; aumento numérico de adultos que sabem e apreciam trabalhar com
jovens, respeitando-lhes a caminhada.
111. Outra
raiz motivadora podem ser os sinais de morte que se verificam na juventude:
jovem como mão-de-obra barata; repressão por parte da sociedade;
não-participação do jovem nos processos decisórios da sociedade e da Igreja;
falta de canais especializados de participação; impossibilidade de os jovens,
na sua maioria, poderem viver a própria juventude; frustração por falta de
condições para estudar e trabalhar, levando a fugas; avanço do espírito
consumista, que tem a juventude como alvo preferido; tipo de educação vigente
que incentiva o individualismo e a competitividade; peso de ideologias que não
respeitam os valores de uma sociedade justa e fraterna; ausência de jovens na
vida eclesial; desemprego e prostituição avassaladores; êxodo rural de jovens;
contra-valores enaltecidos pelos meios de comunicação social (MCS).
112. Por
outro lado, o destaque dado aos jovens pode ser fruto dos êxitos ou ganhos, das
carências ou vazios da atual Pastoral da Juventude.
113. Entre
os êxitos, destacam-se: a organização da Pastoral da Juventude a partir dos
vários meios; o aprofundamento na vivência da fé, fazendo crescer a consciência
das injustiças sociais e suas repercussões, e levando-os a um compromisso
transformador; o engajamento maior dos jovens, surgindo militantes em
diferentes níveis. A discussão do projeto histórico de libertação é outro
avanço que não se pode esquecer. O uso e vivência do método Ver-Julgar-Agir, a
leitura bíblico-teológica mais intensa, a ampliação das articulações em
diferentes níveis, são conquistas que exigem atenção especial.
114. No
entanto, não se podem esquecer os grandes vazios ou carências: falta de
compreensão do que é específico na Pastoral da Juventude; formação teórica
deficiente dos militantes; insuficiente vivência de uma espiritualidade mais
conseqüente; pouca compreensão do método; inconstância dos grupos; distância
entre bases e lideranças; relacionamento nem sempre adequado da Pastoral da
Juventude ou grupos de jovens com o clero; atendimento deficiente à questão da
afetividade e sexualidade.
115. O
futuro da sociedade e da Igreja depende da capacidade de escutar o que acontece
no mundo juvenil, de respeitar a sensibilidade própria do jovem que vive o
momento presente, de encontrar novas soluções práticas e de pressentir novos
rumos. Trata-se de aprender do jovem e deixar-se evangelizar por ele. Não há
nele apenas contra-valores. Ao contrário, há valores novos, que, em geral, só o
jovem é capaz de criar e desenvolver. O jovem é garantia da juventude da
Igreja.114
116. Há outro aspecto importante quanto à
juventude: é o mundo adolescente. Nesse campo, ainda pouco se tem feito, apesar
do esforço de atualização da Pastoral da Crisma.
117. Milhões
de menores e jovens abandonados, na maioria empobrecidos, habitam nos cortiços
e periferias das cidades. É hora de viver a opção solidária preferencial e
profética também na Pastoral de Juventude.
118. O
trabalho pastoral com os jovens se situa dentro da História do Povo de Deus e
da caminhada histórica da juventude. Esta, hoje, se articula de preferência a
partir do seu meio social, buscando caminhos mais eficazes de organização e
libertação. É necessário que os jovens sejam de fato agentes de evangelização
em seus ambientes e meio social. A Igreja quer convidá-los a se comprometerem
numa atividade que não exclua ninguém, e ao mesmo tempo incentivá-los a terem
predileção pelos mais pobres115: é uma exigência bíblico-teológica.
119. A
Pastoral da Juventude propicia aos jovens condições de se formarem para uma
ação transformadora da sociedade no presente e no futuro. Essa Pastoral
incentiva também uma educação na fé, que possa responder às características e
condições concretas da juventude e faça desabrochar uma espiritualidade fundada
em experiências vividas, respeitando a caminhada feita pela Igreja e pela
juventude comprometida.116 Juntamente com a Pastoral Vocacional, a
Pastoral da Juventude contribuirá para amadurecer e valorizar as diversas
opções de vida dos jovens.117 Enfim, a Pastoral da Juventude apoiará os
jovens, principalmente das bases populares, a tomarem consciência de que são
marginalizados por estruturas sociais desagregadoras. A esse respeito, vale o
apelo de João Paulo II: que os jovens "não se deixem instrumentalizar",
ao contrário, cresçam no seu compromisso com a fé.118
120. Tudo
isso — muito mais — está presente na
escolha dos jovens para estes próximos anos, como destaque nas iniciativas
pastorais da Igreja do Brasil
Busca de uma caminhada comum
121. A
Pastoral da Juventude deve levar em conta o meio em que vive o jovem, bem como
sua inserção no conjunto da comunidade eclesial. Quais devem ser os cuidados da
comunidade, dos agentes de pastoral e dos próprios jovens neste sentido?
122. Não
preenche os requisitos de autenticidade pastoral a Pastoral da Juventude que
não seja ao mesmo tempo vocacional, tanto no sentido mais amplo de vocação
humana e cristã, como no sentido mais específico de vocação para os
ministérios, ordenados ou não, e para a vida consagrada na Igreja. O que
poderiam fazer as diferentes instâncias organizativas da Pastoral da Juventude
para que seja fomentada essa dimensão vocacional?
123. Não
é apenas o fato de os jovens, na sua maioria, serem empobrecidos que nos leva a
dar prioridade a esses setores na Pastoral da Juventude. Nossa motivação
fundamental é bíblico-teológica. Que conseqüências essa opção preferencial traz
para a organização da Pastoral da Juventude segundo os meios sociais? para a
Pastoral da Juventude organizada em termos paroquiais, diocesanos, regionais e
nacionais? para os jovens que não sejam pobres?
124. Acreditamos
que a verdadeira Pastoral da Juventude é essencialmente missionária. O que
significa isso para a vida e o modo de ser e de organizar-se dos jovens? Como
se poderia incentivar mais e organizar melhor a atuação missionária entre a
Juventude?
125. A
educação para o crescimento na fé é fundamental na Pastoral da Juventude. Que
medidas tomar para que os jovens, com seus valores e aspirações, respondam com
progressiva maturidade aos apelos do Senhor e colaborem na construção da Igreja
e da sociedade?
126. O
que fazer para que os jovens dedicados à catequese, à liturgia e a outras
atividades dentro da comunidade eclesial, cresçam também na dimensão total de
sua existência e tenham participação ativa no meio social em que vivem?
127. Que
medidas pastorais pedagógicas se devem tomar para que o jovem valorize mais os
sacramentos, a oração e a liturgia como celebração da sua vida e do seu
comprometimento alimentado pela espiritualidade do envio, da esperança e do
amor?
128. O
que fazer com a Pastoral da Crisma, para que ela seja ponto de partida mais
efetivo no engajamento do adolescente e do jovem, ou reforço para a
continuidade do engajamento já existente?
129. O
namoro, o noivado e o casamento são realidades importantes para o jovem. Mas
também são realidades onde os contra-valores de um lado, e os valores novos de
outro, se apresentam como desafios para a ação pastoral. Que medidas podem ser
incentivadas na comunidade eclesial e nas próprias instâncias organizativas de
jovens para superar esses desafios?
130. Se
é evidente a abertura dos jovens para outras Igrejas cristãs e Religiões
não-cristãs, também é clara a falta de formação nesse campo. Como ajudar os
jovens a se tornarem verdadeira força ecumênica e de diálogo?
131. Não
pode faltar na Pastoral da Juventude a dimensão sócio-política, através do
incentivo à participação nas instâncias e organismos sociais intermediários.
Que conseqüências surgem daí, em nível de organização e planejamento? Qual o
papel da comunidade eclesial nesse processo? Como garantir a participação dos
jovens em organismos da coordenação pastoral dentro de um método realmente
libertador? Quais as conseqüências que decorrem daí em termos de organização,
reunião, planejamento e tomada de decisões na própria Pastoral da Juventude?
132. Os
meios de comunicação social envolvem a comunidade humana. Sob o ponto de vista
da informação, educação e participação, os jovens podem tornar-se as grandes
vítimas dos desvios aí transmitidos. Como fazer para que os jovens adquiram
sentido crítico frente aos MCS? Como levar os jovens a atuarem e influírem
nesses meios?
133. Como
atuar na educação escolar, a fim de que ela possa oferecer aos jovens educação
para o senso crítico, a solidariedade e a participação, fornecendo-lhes
instrumentos para compreenderem a realidade e nela agirem com vistas à
construção de uma sociedade justa e fraterna?
DESTAQUE 2 — CEBs
Sentido e razões
134. A
ênfase dada às Comunidades Eclesiais de Base neste quadriênio manifesta
claramente o interesse e o amor da Igreja no Brasil por esse "novo modo de
ser Igreja". Elas se constituem fermento de espírito e vida comunitária,
modelos concretos de comunhão e participação, de serviço, desprendimento e
solidariedade. Abertas a todos, as CEBs florescem principalmente nos meios
populares, possibilitam a articulação dos pobres entre si e favorecem a
vivência e a expressão de sua fé e de seu compromisso com a libertação integral
do homem.
135. Ainda
que em processo de formação ou consolidação, as CEBs são hoje, em geral, uma
realidade dinâmica da vida da Igreja. São centros de evangelização,
instrumentos para a construção do Reino e agentes de libertação e
desenvolvimento na busca da concretização das esperanças do povo.
136. Cumprem
sua missão em comunhão com seus pastores, trazendo imensa riqueza para as
Igrejas do Brasil e para a revitalização da ação evangelizadora, colaborando em
muito "para benefício das comunidades mais amplas''.119
137. O
Conselho Permanente da CNBB, em novembro de 1982 dizia que a CEB, como
comunidade, integra famílias, adultos e jovens em estreito relacionamento
interpessoal na fé. Como eclesial, é comunidade de fé, esperança e caridade;
celebra a palavra de Deus e se nutre com á Eucaristia, ponto culminante dos
demais sacramentos; realiza a palavra de Deus na vida, mediante a solidariedade
e o compromisso com o Mandamento Novo do Senhor; torna presente e atuante a
missão eclesial e a comunhão visível com os legítimos pastores, através do
serviço de animadores aprovados. É de base, porque está constituída por um
pequeno número de membros em forma permanente e como célula da grande
comunidade. As CEBs, que têm garantido essas características fundamentais, têm
igualmente experimentado grande vitalidade. Essa vitalidade será tanto maior
quanto mais intensa for a eclesialidade vivida na prática comunitária do povo
de Deus, sobretudo dos mais humildes.120
138. Fiéis
às condições essenciais que as definem como Igreja, as CEBs são, de forma
valiosa e criativa, comunidades de fé, culto e caridade, e sacramentos da
presença salvífica de Deus na História.
139. A
pastoral vocacional e os novos ministérios recebem das CEBs impulso novo e
espaço concreto de desenvolvimento. Na prática de sua vida, elas têm encontrado
surpreendentes caminhos de evangelização, catequese e liturgia encarnadas na
realidade e bem ligadas à Palavra de Deus. Em sua "fome e sede de
justiça", têm encontrado caminhos de uma prática ecumênica concreta.
Desenvolvem a intercomunicação participativa e a formação do senso crítico
diante da massificação dos meios de comunicação social. No constante esforço de
atuar, refletir e celebrar, as CEBs são verdadeira alternativa de educação para
os que buscam uma sociedade nova, onde o individualismo, a competição e o lucro
cedem lugar à justiça e à fraternidade.121
140. "É
ao redor das comunidades de base que se desenvolve e se desenvolverá cada vez
mais, no futuro, a ação pastoral e evangelizadora da Igreja''.122
141. Se
a eclesialidade das CEBs apresenta alegrias e esperanças, não podemos negar que
há aspectos particulares na Pastoral dessas Comunidades que merecem tratamento
cuidadoso e aberto. É suficiente referir alguns que o Conselho Permanente da CNBB,
em novembro de 1982, desenvolvia: as CEBs e os pobres, as CEBs e a dimensão
sócio-política da evangelização, as CEBs e a luta comum pela justiça, as CEBs e
os movimentos populares, os movimentos de leigos, a coordenação e
responsabilidade última nas CEBs, as CEBs como alvo de interesse e
incompreensão. Esses e outros desafios — não deixando de considerar os grandes
benefícios já evidentes — justificam sobejamente a tarefa a ser empreendida por
toda a Igreja para que as CEBs, neste quadriênio, prossigam na caminhada firme
e cada vez mais fecunda.
Busca de uma caminhada comum
142. Como
modelos concretos de comunhão e participação, as CEBs não deixam de ser
manifestação da opção pelos pobres. Como demonstram elas ser fatores de
evangelização no contexto em que se encontram?
143. Em
que e como podem as CEBs contribuir para a renovação pastoral das paróquias,
dioceses, movimentos e grupos eclesiais? Como se articulam elas no conjunto da
Igreja?
144. As
CEBs estão sendo, de fato, um ambiente propício para o surgimento e formação de
vocações e lideranças capazes de responder às exigências de uma Igreja
comprometida com o processo em que vive o povo brasileiro?
145. Na
dinâmica cotidiana das CEBs, o jovem é atendido em sua condição específica e
integrado, de fato, na vida comunitária?
146. Como
promover a ação missionária nas CEBs, evitando que elas se fechem em si mesmas?
147. Como
garantir, na CEB, a educação progressiva e permanente da fé, aprofundando a
experiência do Deus vivo que caminha com seu povo e o conduz à salvação?
148. Como
promover sempre melhor, através da mensagem evangélica, a integração da
caminhada, das lutas e alegrias comunitárias de uma CEB?
149. Como
agir para que os valores litúrgicos encontrem expressão sempre mais autêntica
nas celebrações e na vida das CEBs, possibilitando que a resposta da fé seja
expressão genuína da pessoa e comunidade concretas?
150. Em
seu dinamismo, como podem as CEBs atender à piedade popular em suas variadas
manifestações? Como valorizar essas manifestações para que sejam expressões de
fé autêntica, capazes de assimilar e expressar o espírito cristão?
151. As
CEBs estão sendo lugar e meio de diálogo ecumênico?
152. Como
fazer para que as CEBs, fortalecendo a consciência comunitária, não esvaziem a
consciência de solidariedade que une entre si todos os que vivem na mesma
situação social dentro dos movimentos populares, sindicatos e outros
organismos?
153. Como
as CEBs podem desenvolver sua consciência crítica frente aos MCS?
154. Como
pode a CEB tornar-se instrumento transformador na sociedade atual, em nível de
comunidade local, de organizações profissionais de classe e em nível político?
155. Como
estimular a capacidade criativa das CEBs para resolver problemas como o
analfabetismo, a falta e o tipo de escolarização, a criação de emprego, a
prevenção do êxodo rural, o atendimento ao menor e a acolhida aos migrantes de
forma criativa e que favoreça a participação comunitária?
156. Como
fazer para que as CEBs fortaleçam sua consciência evangélica e comunitária, a
fim de não perderem sua identidade cristã e eclesial, quando seus membros se
engajam em movimentos populares e nas lutas sindicais e políticas?
157. Como
promover e acompanhar a formação permanente dos animadores das CEBs?
DESTAQUE 3 — VOCAÇÕES E MINISTÉRIOS
Sentido e razões
158. Na
Igreja-comunidade, o Espírito Santo suscita variados ministérios ou serviços em
favor dos irmãos na fé e da inteira comunidade humana. A medida que os fiéis
passam da condição de simples "massa humana" para a condição de
sujeitos conscientes e ativos dentro da comunidade evangelicamente engajada,
também se tornam mais numerosas, pela mesma ação do Espírito, as vocações de
especial consagração, e cresce a disponibilidade para o ministério
presbiterial, o que proporciona revigoramento à comunidade cristã.123
159. O
Espírito suscita também ministérios exercidos por leigos que, diligentemente
preparados, serão capazes de rejuvenescer e reforçar o dinamismo evangelizador
da Igreja.124 Esse florescimento de novos ministérios manifesta a
profunda renovação eclesial impulsionada pelo Concílio. Constitui um
"sinal dos tempos" que exige acolhida e atenção, e dá oportunidade a
um "salto qualitativo" na Pastoral Vocacional. A Comunidade cristã
deve oferecer espaço e condições para o desenvolvimento das vocações.
160. A
Pastoral Vocacional tem duas perspectivas necessárias e complementares: de um
lado, ela é um aspecto do esforço mais amplo da pastoral orgânica, visando
tornar as comunidades cristãs corresponsáveis e dotadas da variedade de
ministérios que expressam as facetas da missão da Igreja e a riqueza dos dons
do Espírito; de outro lado, a Pastoral Vocacional comporta uma ação específica
para propor o ideal da vocação sacerdotal e de especial consagração, oferecendo
aos vocacionados uma ajuda para compreender e acolher este chamado.125
161. O
tema "Vocações e Ministérios" é de máxima importância para o presente
e o futuro da Igreja. Em sua 19ª Assembléia Geral de 1981, a CNBB desencadeou
um processo de aprofundamento que precisa ser dinamizado em todos os níveis, a
fim de que nossas comunidades despertem sempre mais para a responsabilidade e
encontrem condições de ajudar a promoção e o amadurecimento de todas as
vocações, especialmente sacerdotais e de vida consagrada em suas diversas
formas. A essa tarefa se deve dar efetiva prioridade. Com esse intuito foi
publicado, na coleção "Estudos da CNBB", o "Guia Pedagógico da
Pastoral Vocacional".
162. O
Povo de Deus, na sua caminhada, exige mais padres, seminários e comunidades de
formação religiosa inseridos na vida da Igreja e sensíveis aos desafios do
povo, tendo em vista os milhões de marginalizados. São ainda situações a
enfrentar corajosamente: o cultivo de uma vocação cristã mais ampla, que atenda
à escassez de militantes comprometidos, e a urgência de se evitar a
clericalização dos ministérios confiados a leigos. Lança-se para a Igreja o
desafio de incentivar o papel profético da vida consagrada, fazendo com que os
consagrados se sintam chamados, segundo seus carismas, a assumirem postos de
vanguarda evangelizadora nas "situações de fronteiras", em favor da
humanidade toda, como lembra o documento "Mutuae Relationes".
163. No
Brasil, as Igrejas Particulares não possuem número suficiente de presbíteros
diocesanos. Por isso, é urgente que se desenvolva, sobretudo nas comunidades e
grupos jovens, o serviço da Pastoral Vocacional específica para o presbiterato
diocesano.
Busca de uma caminhada comum
164. Quais
os ministérios necessários, na Igreja de hoje, em cada uma das seis dimensões
de sua ação pastoral?
165. Como
fazer para que as vocações e os ministérios sejam fruto de uma escolha, na qual
colabore todo o Povo de Deus, tendo em vista a comunhão e a participação?
166. Como
se poderá ajudar a comunidade a descobrir que os ministérios são dons
suscitados pelo Espírito na Igreja para o serviço ao Povo de Deus?
167. Como
reavivar o ministério do diaconato permanente naquelas situações onde seu
serviço se manifesta necessário e fecundo para a obra evangelizadora?
168. Como
fazer para garantir a formação de presbíteros que respondam às necessidades e
exigências de uma sociedade em transformação e de uma Igreja que se renova à
luz do Vaticano II, de Medellín e de Puebla?
169. Como
comprometer todas as comunidades e na escolha e formação de suas lideranças e
numa participação maior na formação dos ministérios ordenados?
170. Como
incentivar as Congregações Religiosas e Institutos Missionários para que, fiéis
à sua identidade específica, marquem mais presença evangelizadora, em comunhão
com as Igrejas locais, nos Planos de Conjunto?
171. A
família cristã, a CEB, a Pastoral da Juventude e a Pastoral Educacional devem
ser fonte fértil de vocações para os diversos ministérios eclesiais e para o
surgimento de leigos cristãos engajados e comprometidos com o Reino. O que se
poderia fazer para incentivar o espírito vocacional nas diversas pastorais da
Igreja?
172. Como
incentivar o surgimento de vocações missionárias na Pastoral Vocacional, na
Pastoral de Juventude e na formação de futuros presbíteros?
173. O
catequista dedica-se de modo especial ao ministério da Palavra, tornando-se
porta-voz da experiência cristã de toda a comunidade. Como despertar vocações
de catequistas na comunidade e ajudar os atuais catequistas a assumirem seu
papel de agentes de uma Pastoral Vocacional?
174. Como
despertar, na formação de candidatos aos diversos ministérios, a estima da
Liturgia, como serviço cultual do Povo de Deus, no qual somos salvos e Deus é
glorificado?
175. Na
preparação para os diversos ministérios — e mais especificamente para os
ordenados — é dada uma formação ecumênica, de modo que atuem com espírito de
diálogo com relação aos cristãos de outras Igrejas e aos não-cristãos?
176. Que
conseqüências trazem, para a formação dos futuros presbíteros, o fato de a
maioria do povo ser pobre e a opção preferencial da Igreja pelos pobres ?
177. Que
processo educativo poderá ajudar na formação dos vocacionados para que em sua
atuação pastoral saibam promover comunhão e participação, evitando a tentação
do personalismo e autoritarismo?
178. Como
conseguir uma formação mais adequada dos agentes leigos de pastoral, para o
exercício de seu ministério?
DESTAQUE 4 — FAMÍLIA
Sentido e razões
179. A família, célula da sociedade, sempre recebeu grande atenção e
preocupação pastoral da Igreja. Basta lembrar o que sobre ela se escreveu e o
que por ela se fez na Igreja. O Vaticano II colocou a família sob nova luz
teológica, apresentando-a como realidade peculiar e consagrando-a como
"Igreja doméstica". O Sínodo de 1980 tratou dos deveres da família
cristã no mundo de hoje. Puebla a situou como um dos centros de comunhão e
participação na vida da Igreja, dando-lhe prioridade entre as preocupações
pastorais.
180. A
CNBB, reunida na 21ª Assembléia Geral, solicitou maior empenho em favor da
família nos próximos quatro anos. Reafirma, assim, a importância pastoral dela
e reconhece a séria problemática que, em nossa sociedade, ameaça a família, até
na sua essência.
181. É
preciso analisar a situação em que se encontram as famílias nos próximos quatro
anos. Reafirma, assim, a importância pastoral dela e reconhece a séria
problemática que em nossa sociedade, ameaça a família, até na sua essência.
182. entre
os problemas de ordem moral e religiosa, destacam-se: o fenômeno das separações
e das uniões fora das normas da Igreja entre pessoas a ela pertencentes;
desintegrações cada vez mais claras; debates tendenciosos sobre o controle da
natalidade; freqüentes mensagens desagregadoras alimentadas pelos meios de
comunicação social.
183. No
campo social e político, a família é afetada pelo impacto contínuo e
desagregador de estruturas profundamente marcadas pela injustiça: o desemprego
e subemprego, as péssimas condições de trabalho e remuneração, a precariedade ou
falta de moradia, a migração forçada. Diante disso, seria infidelidade às
preocupações pastorais da Igreja e às urgências da grande maioria da população,
se a Igreja não desse carinhosa atenção à família, tão valorizada pelo povo
latino-americano e brasileiro. Esse povo, explorado mas cheio de fé, parece
dizer na voz de João Paulo II: "Como fechar os olhos para as graves
situações em que concretamente se encontram numerosíssimas famílias entre vós,
e para as sérias ameaças que pesam sobre a família em geral?".126
184. Em
1980, a CNBB publicou um documento sobre os "Valores Básicos da Vida e da
Família". Alertava aí para o desrespeito à dignidade humana, para a
escalada da permissividade, para o planejamento familiar mal orientado, para o
aborto e outros aspectos que atentam contra a família. Valiosas e generosas
contribuições têm surgido das iniciativas despertadas pelas pastorais
familiares. No entanto, as soluções sugeridas são ainda limitadas, e grande
parte da população não é atingida por essas e outras iniciativas. Todavia,
alegra-nos o fato de que a família consta como prioridade em numerosos
planejamentos diocesanos e regionais. Mas, não é suficiente. Requer esforço
especial o desejo de salvaguardar a família como grande transmissora de valores
culturais, éticos e espirituais, e como canal que comunica a fé dos pais aos
filhos, através das gerações.
185. É
necessário e urgente encontrar formas novas de apoio à missão da família, para
que ela possa viver e crescer na fé, e contribuir para a criação de uma
sociedade nova, onde sejam realidades concretas a justiça e a fraternidade,
sinais da presença do Senhor Ressuscitado.
186. No
entanto, considerando os fatores sociais e econômicos, políticos e culturais,
históricos e bio-psicológicos, e até religiosos que influenciam negativamente
na vida familiar, corre-se o risco de cair na desesperança. Pois, são grandes
os desafios em variados contextos e situações: na educação, onde a família
parece ter declinado de sua função de formadora da fé e da personalidade dos
filhos; nos meios de comunicação social, onde os contra-valores aparecem cada
vez mais insistentemente; na juventude, onde pairam perguntas, nem sempre
fáceis de responder; nos meios pobres, cada vez mais destituídos das condições
mínimas de levar à prática o que desejam, apesar de que, muitas vezes, estejam
vivendo aquilo que constitui a essência da vida familiar, segundo os valores
que nascem da fé. Move-nos forte esperança, porque acreditamos que a família é
de origem divina e se situa no centro da história da criação, e a vida no mundo
depende dela.
187. Por
tudo isso e por outros motivos de fé, a Igreja se sente encorajada a propor de
novo, em nível nacional, a família como destaque na ação pastoral. Não é a
Igreja, é a sociedade inteira, em sua vitalidade interior, que está em jogo,
quando está em perigo a família.
Busca de uma caminhada comum
188. Como
tornar a família uma escola vivencial de comunhão e participação?
189. A família cristã engajada é o chão
fértil onde melhor podem germinar as vocações presbiterais, religiosas e
leigas. Como fazer para que ela, vivendo o Evangelho, favoreça o surgimento de
vocações?
190. De
que maneira acompanhar as famílias que são irregulares em face do sacramento do
matrimônio e as famílias incompletas ou desajustadas? Que serviço a essas
famílias podem prestar os tribunais eclesiásticos?
191. Que
influência recíproca têm as comunidades eclesiais de base e as famílias? Como
favorecer uma pastoral da família a partir das CEBs?
192. Como
contribuir para que as famílias assumam o compromisso missionário pelo
testemunho de vida e pelo anúncio do Evangelho a partir de seu ambiente social?
193. Sendo
a família a "Igreja doméstica", como ajudá-la a crescer na fé, na
esperança e na caridade, e torná-la sujeito e agente de sua própria
evangelização?
194. Uma
vez que a família deve ser o berço e a sede da catequese, que medidas a
comunidade pode tomar para reforçar a catequese permanente na família, ajudando
os pais a assumirem o papel de primeiros e privilegiados catequistas?
195. Como
envolver os pais num processo continuado de catequese, a fim de que eles não
apenas possam dar uma formação consciente e explicitamente cristã aos filhos,
mas possam eles mesmos crescer na compreensão de sua fé e na capacidade de
iluminar com ela a realidade familiar e social?
196. Uma
vez que é no seio da família que se dá a primeira vivência de oração, culto e
contato com Deus, que meios pastorais podem ser usados para promover esse
experiência de oração familiar?
197. Como
preparar próxima e remotamente os jovens para o sacramento e a vida do
matrimônio?
198. A
Pastoral Familiar tem orientação ecumênica que incentiva as famílias a se
relacionarem de forma dialogal com as de outras Igrejas cristãs ou de outras
Religiões?
199. A
Pastoral Familiar ajuda as famílias que vivem em seu próprio seio as divisões
entre Igrejas cristãs e pluralismo religioso?
200. Quais
as conseqüências para a vida familiar, que derivam da pobreza e miséria, das
situações de desemprego e subemprego, das migrações e das carências de saúde e
habitação?
201. Que
papel tem a família na sociedade, ainda hoje, como formadora de pessoas capazes
de ação transformadora das estruturas injustas?
202. Que
fazer para que a família tenha uma posição crítica em face dos meios de
comunicação social, notadamente rádio e TV?
203. Como
promover uma participação efetiva dos pais em todo o processo educativo dos
filhos?
204. O
que fazer, a fim de orientar a família para uma paternidade responsável?
205. Para
evitar o fechamento de movimentos familiares e de famílias sobre si mesmos,
como desenvolver uma Pastoral Familiar inserida na Pastoral Orgânica?
206. Será
que não estamos fomentando inconscientemente uma Pastoral Familiar que encobre
as exigências evangélicas em face do político, do social e do econômico?
DESTAQUE 5 — LEIGOS
Sentido e razões
207. Duas
razões levaram os Bispos a destacarem a preocupação com os leigos para a
caminhada da Igreja no Brasil durante o próximo quadriênio.
208. Em
primeiro lugar, a urgência de que os leigos cresçam na consciência da índole
secular de sua vocação eclesial e assumam com maior empenho o campo próprio de
sua atividade evangelizadora. Chamados a anunciar o Evangelho através das
tarefas temporais, será na construção da sociedade segundo as exigências da
dignidade humana, da justiça e fraternidade, que eles realizarão a missão da
Igreja.
209. O
Brasil viveu nos últimos anos situações históricas, nas quais a liberdade de
ação dos cidadãos, no campo das realidades sociais, das atividades políticas e
da própria cultura, sofreu grandes e graves restrições. Essas, sufocantes às
vezes, impediram a maioria dos leigos de exercer com desenvoltura e
criatividade as tarefas próprias de sua vocação específica, embora tenham sido
para outros ocasião de heróica fidelidade à Fé, à Igreja e ao Evangelho.
210. Essas
circunstâncias inibiram, em toda a Igreja no Brasil, o aprofundamento do
sentido secular da vocação eclesial dos leigos, explicitada pelo Vaticano II.
Ao lado desses fatos, o escasso número de sacerdotes e o amplo desenvolvimento
das atividades pastorais no pós-Concílio levou muitos leigos a concentrarem sua
atuação nos trabalhos de liturgia, catequese e coordenação pastoral.
Os mesmos motivos levaram alguns movimentos leigos a reduzirem sua
reflexão e sua ação às dimensões pessoal e familiar da vida humana.
211. Por
tudo isso, é agora urgente estimular os leigos e apoiá-los para que tomem maior
consciência da dimensão evangelizadora das funções temporais a que são chamados
e assumam com todo o empenho as graves tarefas que a realidade de nosso país e
a situação da vida de nosso povo impõem à sua responsabilidade cristã.
212. Embora
sejam cada vez mais numerosos os leigos dedicados a trabalhos pastorais,
engajados em diversos movimentos apostólicos, responsáveis pela animação das
comunidades e exercendo novos ministérios, ainda não poderíamos falar, no
Brasil, de um "laicato". Para isso, seria necessário que os leigos
estivessem articulados entre si e organizados, com sua justa autonomia, na
comunidade eclesial. Esse fato é importante enquanto compromete a ação
evangelizadora da Igreja no Brasil. Pois, "a Igreja não se acha
verdadeiramente consolidada, não vive plenamente, não é um perfeito sinal de
Cristo entre os homens, se não existem um laicato de verdadeira expressão que
trabalhe com a hierarquia. Porque o Evangelho não pode ser fixado na índole, na
vida e no trabalho dum povo, sem a ativa presença dos leigos. Por isso,
tenha-se o máximo cuidado em construir um laicato cristão maduro''.127
A segunda razão de preocupação com os leigos se prende à necessidade de
que sua organização adquira consistência institucional e representatividade
reconhecida pela Igreja no Brasil. Essa legítima representatividade, longe de
prejudicar sua comunhão com os pastores, afastará dos leigos o risco de
clericalização e lhes garantirá a autonomia necessária para o cumprimento de
seus compromissos na ordem temporal.
214. A
resposta a essas preocupações, assim como aqui se expressam, implica vários
desafios que se dirigem, quer aos próprios leigos quer aos pastores. Para os
leigos, o desafio de aprofundarem a compreensão e a vivência da índole secular
de sua vocação; o desafio de participarem de modo ativo e responsável nos
organismos intra-eclesiais, que lhes permitam exercer sua missão em comunhão
eclesial; o desafio de superarem tensões entre seus próprios movimentos e
associações ao se organizarem, a fim de assumir suas responsabilidades de modo
solidário no vasto e complicado mundo das realidades temporais.
215. Aos
pastores caberia superar qualquer resquício de desconfiança a respeito dos
leigos e de seus movimentos; acreditar na autenticidade do compromisso deles
com a Igreja, abrir-lhes o legítimo espaço de liberdade para seus compromissos
temporais e garantir-lhes apoio para uma sólida formação cristã e apostólica.
A busca de uma caminhada comum
216. Como
animar e viver o carisma do leigo e de cada movimento leigo, integrando-o na
pastoral de conjunto, que procura responder aos desafios do mundo marcado pelas
desigualdades e injustiças?
217. A
vocação do leigo é vocação à santidade, à perfeição e à participação na missão
salvífica da Igreja, agindo no mundo. Como ajudar o clero e os religiosos a
valorizarem esse carisma dos leigos, e como ajudar estes a assumirem sua plena
cidadania e sua missão própria na Igreja?
218. Que
medidas se impõem para que todos, direta ou indiretamente, participem, não só
da execução, mas também do planejamento e das decisões relativas à vida e à
ação pastoral?
219. O
que fazer para que os movimentos leigos de nível nacional ou internacional
assumam e se comprometam com a Pastoral Orgânica da Igreja e se integrem
convenientemente na Diocese?
220. O
que se tem feito para promover uma formação humana geral e uma formação
doutrinal, social e apostólica dos leigos?
221. O
que pode ser feito para favorecer a organização e articulação dos leigos em
nível paroquial, diocesano, regional e nacional?
222. Toda
a Igreja é chamada a ser missionária. Que atividades ou gestos podem ajudar na
animação do espírito missionário entre os leigos e as vocações missionárias
leigas?
223. O
ensino religioso é, como a catequese, "uma forma eminente de apostolado
leigo''.128 Como animar o leigo para que exerça bem esse apostolado?
224. As
etapas do Ano Litúrgico e os grandes acontecimentos da dia nascimento, matrimônio, enfermidade,
morte têm sido aproveitados como
momentos privilegiados para a educação permanente dos leigos na fé?
225. A
catequese permanente está integrando no leigo fé e vida dimensão pessoal e
comunitária, conversão a Deus e ação transformadora da realidade? Está fazendo
com que se formem leigos comprometidos com a verdadeira libertação e que sejam
promotores de uma sociedade justa e fraterna, conforme o projeto de Deus?
226. Como
fazer para que a liturgia, celebração do Mistério Pascal de Cristo, seja também
celebração da vida numa comunidade fraterna e fonte de energia para a vivência
do leigo nos seus variados ambientes?
227. Como
desenvolver uma espiritualidade mais apropriada à condição do leigo, que o
comprometa com as realidades temporais, reconhecendo e proclamando o valor
salvífico nelas contidos?
228. Em
muitas regiões, os leigos assumem a coordenação da liturgia, da oração
comunitária e do culto. Como prepará-los e realimentá-los continuamente para
isso?
229. O
que se faz para que a liturgia seja mais acessível a todo o povo, sobretudo aos
mais simples e pobres, tornando-a momento forte de evangelização transformadora
do mundo?
230. Cabe
ao leigo, de modo especial, a tarefa de "sanar as instituições e
condicionamentos do mundo", as estruturas sociais que impedem uma
convivência fraterna entre os homens. Que atitudes pastorais e pedagógicas se
impõem para que os leigos assumam com coragem e criatividade essa missão,
inspirados no Evangelho e nas orientações da Igreja?
231. De
que maneira fortalecer a ação do leigo na pastoral da Igreja, respeitando sua
autonomia na tarefa de transformação da realidade social?
DESTAQUE 6 — MUNDO DO TRABALHO
Sentido e Razões
232. Várias
e sérias razões justificam o destaque "Mundo do Trabalho". Umas dizem
mais respeito à importância do trabalho em si e na sociedade, e outras aos
problemas angustiantes e atuais que se situam nessa área.
233. A
adequada compreensão do que seja o trabalho, nos introduz na complexa rede das
relações de trabalho, que são fundamentais na estruturação de nossa sociedade e
onde são geradas as maiores injustiças sociais.
234. "O
problema do trabalho humano é, de certo modo, uma componente fixa, tanto da
vida social como do ensino da Igreja. É uma chave, provavelmente a chave
essencial, de toda a questão social, se procuramos vê-la, verdadeiramente, sob
o ponto de vista do bem comum".129
235. Além
da importância do trabalho em si, há toda uma problemática no mundo do
trabalho, que hoje se acentua, como: salários baixos e insuficientes para uma
vida humana e familiar digna; grande número de desempregados e subempregados;
limitada presença da Igreja no mundo do trabalho.
236. O
conceito de trabalho é muito abrangente e não se restringe ao trabalho manual e
assalariado. Entretanto, o trabalho assalariado urbano e rural, quer pelo
número dos trabalhadores, quer pela sua importância na transformação da
sociedade, merece destaque especial.
237. A
urbanização crescente e as novas formas de trabalho rural, impostas pelo modelo
de desenvolvimento econômico colocam para todos, problemas semelhantes
interligados e até idênticos, porque derivados das mesmas causas. A ação
pastoral deve ter em consideração essa realidade.
238. A
opção preferencial pelos pobres, que ilumina e quer caracterizar a ação
pastoral da Igreja no Brasil, deve concretizar-se em efetiva preocupação com a
imensa massa de trabalhadores, que constituem a maioria da população. São
construtores do progresso, e no entanto vêem sua dignidade violada e seus
direitos ignorados. Pertencem, no seu conjunto, à multidão dos pobres que não
têm, não sabem e não podem, vítimas da exploração; sua crescente marginalização
coloca-os entre os primeiros destinatários da Boa Nova do Senhor.
239. A
evangelização no mundo do trabalho, para ser eficaz, deve consistir, em
primeiro lugar, na conscientização dos trabalhadores sobre a sua dignidade de
filhos e colaboradores de Deus. Deve procurar, igualmente, torná-los participantes
ativos da comunidade eclesial e incentivá-los a assumirem suas próprias
responsabilidades, como trabalhadores na construção desse mundo, segundo os
desígnios do Pai.
240. Solidária
e comprometida, como Cristo, com a causa dos mais necessitados, a Igreja
apoiará os trabalhadores em seu esforço para se organizarem livremente e
criarem "sempre novos movimentos de solidariedade dos homens do
trabalho", e procurará suscitar sempre, entre todos os homens, a
"solidariedade com os homens do trabalho" e com os desempregados. A
solidariedade da qual aqui se fala, não é contra ninguém, mas a favor da
justiça e do bem comum.
Convém lembrar o que já se disse na primeira
parte destas Diretrizes: pensar que a solidariedade entre os trabalhadores, a
partir da consciência de classe, leva inevitavelmente à luta de classes, no
sentido insurrecional do termo, não condiz com as orientações e o espírito da
"Laborem Exercens". Com efeito, segundo esta Encíclica, os problemas
da relação entre o trabalho e o capital não serão resolvidos pelo esvaziamento,
mas pelo amadurecimento da consciência de classe.
241. A
complexidade do mundo do trabalho é tal, que atinge o trabalhador em todas as
dimensões de sua vida e constituem "as condições de sua existência".
Somente ele conhece, de fato, essas condições, o que deve levar a Igreja a
abrir espaço para que os próprios trabalhadores sejam evangelizadores de seus
companheiros e com eles assumam, à luz da fé, a luta pela justiça e pela
construção de uma sociedade nova e fraterna.
242. Nesse
empenho de evangelização do mundo do trabalho, é fundamental a elaboração e a
vivência de uma verdadeira espiritualidade do trabalho. O trabalho seja visto
como participação na obra criadora e redentora de Deus, e como fator de
aperfeiçoamento da própria pessoa que exerce o trabalho.130
Busca de uma caminhada comum
243. Que
apoio se tem dado, nas dioceses e paróquias, às iniciativas da Pastoral
Operária, no sentido de atingir o trabalhador e sua família em seus diferentes
ambientes de vida, bem como de responder aos novos desafios que vão surgindo?
244. Como
promover uma espiritualidade do trabalho, que ajude as pessoas a se aproximarem
de Deus e a se tornarem conscientemente colaboradoras na obra da Criação,
desenvolvendo-a e completando-a através do próprio trabalho?
245. Sem
substituir as iniciativas do povo, a nossa pastoral tem compreendido e
estimulado a participação consciente e crítica dos trabalhadores no sindicatos,
associações, comissões de fábrica, para que sejam realmente organismos
autônomos e livres que defendam os interesses e coordenem as
reivindicações de seus membros e de
toda a sua classe?
246. Que
iniciativas novas poderão proporcionar condições para que os leigos engajados
em movimentos operários possam crescer na fé e na consciência social, econômica
e política?
247. O
que se tem feito para divulgar o ensinamento social da Igreja em nossas
comunidades eclesiais e no meio operário?
248. O
que se vem fazendo no sentido de se liberarem leigos e sacerdotes para o
serviço específico da Pastoral Operária, onde as circunstâncias o estejam
exigindo?
249. O
método "ver-julgar-agir", da Juventude Operária Católica, consiste em
iluminar e analisar, em vista da ação, os fatos da vida, a partir do Evangelho.
Esse método tem sido instrumento para uma autêntica catequese aberta às várias
dimensões e situações da vida?
250. Como
tornar a Pastoral da Terra e outros movimentos de Pastoral rural, cada vez
mais, uma resposta adequada às necessidades e exigências do homem do campo?
251. Até
que ponto a Igreja está informada e é sensível às reais condições e situações
dos trabalhadores, rurais e urbanos, e se empenha em defender suas legítimas
aspirações?
252. Que
fazer para que no mundo do trabalho haja mais participação e comunhão, inclusive
na gestão da empresa, superando o espírito de ganância e lucro que divide e
dilacera o corpo social?
253. Que
atenção se tem dado ao trabalho da mulher, sobretudo das domésticas e
camponesas?
254. Enfrentar
com criatividade o mundo do trabalho é um verdadeiro desafio missionário,
porque é aí que os valores evangélicos são mais pisoteados. Os leigos e os
futuros presbíteros, bem como os religiosos, são incentivados e preparados para
esse campo missionário?
255. Que
linguagem, sinais e símbolos podem ser utilizados nas assembléias litúrgicas, a
fim de torná-las acessíveis também aos trabalhadores urbanos e rurais, com seu
mundo cultural próprio e diversificado?
256. A
vida operária e as lutas do homem do campo são lugar de encontro de pessoas
pertencentes a diferentes Igrejas cristãs e a outras Religiões. O enfrentamento
comum de situações desafiadoras tem trazido contribuições válidas ao movimento
ecumênico? Como ajudar os trabalhadores cristãos a viverem de forma efetiva e
consciente a dimensão ecumênica da própria fé?
257. Como
fazer para que os meios de comunicação social acompanhem e ajudem o mundo do
trabalho?
258. Como integrar, ainda mais, na Pastoral
Orgânica da Igreja, movimentos e organismos pastorais que atuam no mundo do
trabalho?
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Fonte: Conferência
Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB
Web site: www.cnbb.org.br