CONFERÊNCIA
NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL
CATEQUESE
RENOVADA ORIENTAÇÕES E CONTEÚDO
Documento Aprovado
pelos Bispos do Brasil na 21ª Assembléia Geral
15 de abril de
1983
APRESENTAÇÃO
Catequese Renovada Orientações e Conteúdo é um documento aprovado pelo
episcopado brasileiro, na 21ª Assembléia Geral da CNBB, em Itaici (1983) e
dedicado, de modo especial, a todos os agentes de catequese da Igreja no
Brasil.
Estas orientações catequéticas, inspiradas nos documentos da Igreja
(Vaticano II, Medellín, Puebla, Evangelii Nuntiandi e Catechesi Tradendae),
querem ser uma resposta aos apelos do papa João Paulo II, na sua visita ao
Brasil (1980), quando então nos dizia: A Catequese é uma urgência. Só posso
admirar os pastores zelosos que em suas Igrejas procuram responder
concretamente a essa urgência, fazendo da catequese uma prioridade (Encontro
com os Bispos em Fortaleza 10/07/80).
Percebendo as necessidades pastorais, obedecendo à voz do Papa e depois
de ter pedido a colaboração e as sugestões dos agentes de Catequese de todos os
níveis, apresentamos agora este documento, enriquecido por três Assembléias
Gerais da CNBB (1981, 82 e 83). Esperamos que ele venha ajudar a criar uma
unidade de princípios, critérios e temas fundamentais para a Pastoral
Catequética no Brasil. Colocamos estas diretrizes catequéticas nas mãos dos
catequistas, a quem agradecemos toda a colaboração na educação da fé das nossas
comunidades e a quem pedimos que, juntamente com seus pastores, continuem
fazendo da Catequese uma prioridade das nossas Igrejas Particulares.
I -
PARTE
A
CATEQUESE E A COMUNIDADE NA HISTÓRIA DA IGREJA
1. Na procura de orientações para uma
catequese renovada, é conveniente recordar brevemente como se realizou a
catequese no passado e quais as grandes mudanças a serem destacadas em nossa
época.
2. Nosso objetivo neste capítulo não é fazer
uma história exaustiva da Catequese, mas destacar apenas algumas de suas linhas
fundamentais.
3. Ao descrever estas linhas fundamentais,
veremos como, em cada fase, determinado aspecto sobressai aos demais. Por isso,
a História nos ajuda a revalorizar estes diversos aspectos que, aos poucos,
foram compondo o complexo processo da Catequese, que hoje procura levá-los em
conta.
1.1. Catequese como iniciação à fé e vida da comunidade
4. Esta primeira fase se estende,
aproximadamente, do século I ao século V.
No tempo dos Apóstolos, a vivência fraterna na comunidade, celebrada
principalmente na Eucaristia, representava a maneira mais alta de traduzir na
vida a mensagem de Cristo Ressuscitado (1Cor 11,17-29).
5. Era na comunidade que se vivia a doutrina
dos Apóstolos, seu ensinamento recebido do próprio Cristo que, pouco a pouco,
foi sendo formulado nos Símbolos da Fé (fórmulas condensadas, como o
Credo), nas doxologias (aclamações litúrgicas como as que encontramos, por
exemplo, em Ef 1,3-14; Rm 1,8; Rm 16,27; 1Cor 1,2-3), e nas orações.
6. Aos
poucos foi-se formando
uma Catequese prolongada e organizada,
que tinha como
objetivo levar os
convertidos à iniciação na vida
cristã. Criou-se assim
o catecumenato com seus vários
graus, que preparava
os candidatos à
vivência na comunidade
cristã, através da
escuta da Palavra, das
celebrações e do testemunho. Muitas das obras notáveis em Catequese dos Padres
da Igreja surgiram no contexto do catecumenato (cf. CT 12).
7. A Catequese introduzia progressivamente
na participação da vida cristã dentro da comunidade. Animada pela fé,
sustentada pela esperança, exercida através da caridade fraterna, a própria
vida da comunidade fazia parte do conteúdo da Catequese. Esta, por sua vez, era
o instrumento a serviço de uma entrada consciente na comunidade de fé e da
perseverança nela. Catequese e comunidade caminhavam juntas.
1.2. Catequese como
processo de imersão na
cristandade
8. No período que vai mais ou menos do
século V ao século XVI, pode-se dizer que a Catequese já não consistia tanto
numa iniciação à comunidade de fé, como verificamos na fase anterior. É que a
sociedade inteira, em todos os seus aspectos, se considerava animada pela
religião cristã, a ponto de se estabelecer uma aliança entre o poder civil e o
poder eclesiástico. Foi o que se chamou de cristandade.
9. A Catequese se fazia, então, por um
processo de imersão nessa cristandade.
Sem esquecer a influência da família, das escolas episcopais e monacais
e da pregação, convém ressaltar que a educação da fé se realizava pela
participação numa vida social, profissional e artística marcada pelo religioso,
num ambiente cristão presente na sociedade inteira.
1.3.
Catequese como instrução
10. A
partir do século XVI, a catequese passou, conforme as exigências do tempo, a
realizar-se prevalentemente por um processo que valorizava mais a aprendizagem
individual, na qual já não era tão marcante a ligação com a comunidade.
11. Vários fatores concorreram para que a
Catequese se concentrasse no aspecto da instrução. Salientamos entre outros:
a) a
preocupação com a clareza e a exatidão das formulações doutrinais, em face
das divisões no meio dos cristãos, no tempo da reforma protestante;
12. b)
a descoberta da imprensa e a difusão das escolas, que concentram a
Catequese nos textos para o ensino, isto é, nos catecismos. Após as primeiras
tentativas católicas, inclusive latino-americanas, Lutero publicou seu
catecismo em 1529. Entre 1550 e 1600 apareceram os grandes catecismos
inspirados no Concílio de Trento, como o de São Pedro Canísio, em 1555, e o de
São Carlos Borromeu, em 1566, e o de São Roberto Bellarmino, em 1597. O valor
sempre inspirador dos catecismos, numa época de confusão doutrinal, foi o de
apresentar de maneira clara e pedagógica o conjunto dos principais mistérios da
fé cristã (cf. CT 13);
13. c)
a influência do iluminismo: segundo este movimento cultural, a
inteligência humana, devidamente instruída, é capaz de encontrar sozinha a
solução de todos os problemas da humanidade.
1.4.
Catequese como educação permanente para a comunhão e participação na comunidade
de fé
14. 1.4.1.
No século XX foi-se redescobrindo na Catequese a importância fundamental
da iniciação cristã e do lugar primordial que nela cabe à comunidade de fé.
Tal tendência foi gradativamente reforçada por vários elementos:
15. a) os resultados dos movimentos
bíblicos, patrístico, litúrgico e querigmático que, na evangelização,
contribuíram respectivamente para a revalorização da Bíblia, da Liturgia e do
anúncio de Jesus Cristo;
16. b)
as descobertas da psicologia, da pedagogia e de outras ciências humanas, descobertas
essas aplicadas aos processos catequéticos;
17. c)
mais recentemente, a renovação inspirada no Concílio Vaticano II (1962-65),
explicitada no Diretório Catequético Geral (1971) e animada pelos Sínodos sobre
a Evangelização (1974) e sobre a Catequese (1977). Fruto desses dois Sínodos
são as exortações apostólicas Evangelii Nuntiandi (EN) de Paulo VI,
sobre a Evangelização no mundo de hoje (1975) e Catechesi Tradendae (CT) de João Paulo II, sobre a
Catequese hoje (1979);
18. d)
as transformações no próprio mundo pelo progresso
tecnológico-científico, explosão demográfica, urbanização, e pela
secularização, fruto do positivismo e do tecnicismo.
Esta sociedade, marcada pela massificação,
anonimato, impacto dos meios de comunicação de massa, consumismo, libertinagem
moral, violência coletiva e desigualdades sociais chocantes, exige, de modo
novo e radical, a segurança da pessoa no abrigo de uma comunidade menor, onde
possam ser vividos os valores do relacionamento interpessoal.
19. Esta sociedade, marcada também pelos
ateísmos práticos e teórico-militantes, por diversos tipos de neopaganismo,
pelas formas fanáticas e sectárias de religiosidade de origem recente e pelo
indiferentismo religioso, precisará também de um tipo de Catequese que, além de
uma sólida fundamentação da fé, seja capaz de ajudar o cristão a converter-se e
a comprometer-se no seio de uma comunidade cristã para a transformação do
mundo.
20. 1.4.2. Na América Latina, a 2ª
Conferência Episcopal realizada em Medellín (1968), percebeu esta nova
necessidade e, aplicando os ensinamentos do Concílio Vaticano II à nossa
realidade continental, redirecio nou a catequese para o compromisso libertador
nas situações concretas. À luz do documento final de Medellín, confirmado mais
tarde pela Evangelii Nuntiandi e pela Conferência de Puebla (cf. P 978-986),
a Catequese na América Latina vem procurando realizar-se em estreita ligação
com a realidade da vida, para a construção de comunidades de fé.
Neste sentido vem levando os catequistas a
caminharem com os mais pobres e oprimidos e a partilharem as suas angústias,
lutas e esperanças.
21. 1.4.3. No século XX, também no
Brasil, o movimento catequético foi impulsionado pela ação do Papa São Pio
X e sua encíclica sobre a catequese, intitulada Acerbo Nimis (1905). Também
nesta época surgiu o Catecismo dos Bispos das Províncias Meridionais do Brasil,
que teve inúmeras edições. Varias gerações de cristãos foram instruídas e
educadas na fé por este catecismo.
Num notável esforço de renovação nestas
últimas décadas, a Catequese no Brasil passou por diversas fases onde,
sucessivamente, os acentos e as preocupações recaíam sobre o conteúdo, método,
sujeito e, mais recentemente, sobre o objetivo da catequese.
Já desde os anos 40, diversos pioneiros se
dedicaram ao trabalho de sistematização e adaptação da Catequese às novas
exigências.
22. É
o caso, entre outros, de Mons. Álvaro Negromonte, que criou e difundiu no
Brasil o chamado Método integral de Catequese, o qual se propunha como objetivo
formar o cristão íntegro, firme na fé, forte no amor e pleno de esperança.
23. É
o caso também dos que trabalharam, nas décadas de 50 e 60, nos secretariados
nacionais e regionais de catequese e nos Institutos de Pastoral Catequética,
que daí surgiram depois do Concílio Vaticano II nos diversos níveis. Os
Institutos prestaram relevante serviço no que tange à formação dos quadros
dirigentes da catequese.
24. Houve,
em todo este último período, um grande esforço de integrar a catequese no
conjunto da renovação pastoral, a fim de pôr em prática os princípios e normas
do Concílio, repetidamente inculcados pelos Papas e pelos Sínodos, adaptados à
situação latino-americana em Medellín e Puebla e à nossa situação brasileira
pelas orientações e diretrizes gerais da CNBB.
25. 1.4.4.
Cabe ressaltar, como características positivas que vem tomando a nossa
catequese:
— uma
inserção maior no conjunto de toda a pastoral esta vem procurando torna-se cada
vez mais uma pastoral orgânica;
— a
apresentação de uma nova imagem da pessoa de Jesus Cristo e sua prática, da
Igreja, e do homem
— a
consideração da pessoa humana como um todo, com seus direitos e deveres, suas
dimensões individual, comunitária e social;
— a
luta pela libertação integral do homem, reconhecido como sujeito de sua própria
história;
— o
relevo dado às comunidades eclesiais de base e à opção preferencial pelos
pobres;
— a
preocupação por um ensino sistemático dos conteúdos da fé, através de um
roteiro nacional.
26. Ao
lado dessas aquisições, porém, cabe não perder de vista as deficiências que
a catequese no Brasil continua mostrando:
— ainda
não atinge permanentemente a todos os cristãos, especialmente os jovens e
adultos, os universitários, o operariado nos grandes centros e as elites
intelectuais
— às
vezes, fica em dualismos e falsas oposições, como entre a catequese sacramental
e catequese vivencial, entre catequese doutrinal e catequese situacional;
— publicações
catequéticas fracas e às vezes questionáveis do ponto de vista doutrinal e
metodológico;
— em
certos lugares, a catequese ainda continua a merecer maior atenção de nossa
parte, de sacerdotes, de seminaristas, de religiosos, e também não encontra
apoio suficiente nas famílias;
— um
ensino religioso muitas vezes fragmentário e pouco eficaz em diversos Estados.
27. É
compreensível que cada um, num processo complexo como é o da catequese, acabe
por favorecer um ou mais elementos integrantes do processo, em detrimento de
outro. Daí o surgimento de diversos tipos de catequese e uma rica
variedade de textos e manuais que sublinham, às vezes, a instrução nas verdades;
outras, a experiência vital individual ou comunitária, os métodos de uma sã
pedagogia e a devida atenção à pessoa do educando. Em alguns sobressai o aspecto da inserção na comunidade
de fé; noutros, a adesão à caminhada do povo na busca de sua libertação e o
impacto to transformador nas estruturas sociais.
28. Cada
uma das múltiplas tendências existentes em nossas Igrejas locais tem seus
aspectos positivos e suas limitações. O processo que procura integrar os
diversos elementos válidos das diferentes tendências parece-nos como o mais
correspondente aos objetivos finais da Catequese e como o mais fiel às
diretrizes da Igreja desde o Vaticano II.
29. Tal processo procurará unir: fé e vida
(cf. Cân 773); dimensão pessoal e comunitária; instrução doutrinária e educação
integral; conversão a Deus e atuação transformadora da realidade; celebração
dos mistérios e caminhada com o povo.
Procuramos, nestas Orientações, perceber os fundamentos e as
conseqüências práticas de uma Catequese que procura renovar-se diante das novas
situações.
II - PARTE
PRINCÍPIOS PARA UMA CATEQUESE RENOVADA
30. A renovação atual da Catequese nasceu
para responder aos desafios de uma nova situação histórica. Esta exige a
formação de uma comunidade cristã missionária que anuncie, na sua
autenticidade, o Evangelho e o torne fermento de comunhão e participação na
sociedade e de libertação integral do homem.
Para realizar esse objetivo, a Catequese precisa de sólido fundamento.
Ele só pode ser procurado na própria Palavra, pela qual Deus revela sua vontade
de comunhão plena com os homens.
31. No Novo Testamento, o termo Catequese
significa dar uma instrução a respeito da fé. Em sua origem, o termo se liga a
um verbo que significa fazer ecoar (Kat-ekhéo). A Catequese, de fato, tem por
objetivo último fazer escutar e repercutir a Palavra de Deus.
32. O que é Palavra de Deus? O que significa
Revelação? Que relação tem isso com a Catequese? São questões fundamentais, que
serão aprofundadas no capítulo I. O capítulo II tratará das exigências da
catequese.
2.1.
Revelação e Catequese
2.1.1. A
linguagem da comunicação de Deus
33. Deus, em sua bondade e sabedoria, quis
revelar-se a si mesmo… Deus fala aos homens como a amigos e com eles conversa….
Assim o Concílio Vaticano II (DV 2) expressa a convicção sobre a qual a Igre ja
e todo cristão edificam a sua fé. Mas, como Deus fala?
34. A principal forma de comunicação humana
é a palavra. Mas, há outras linguagens com que os homens podem
comunicar-se. Muitas vezes, um gesto diz mais que muitas palavras. Também gestos
e fatos podem constituir uma linguagem.
35. Deus, para se comunicar com os homens,
adotou essas duas linguagens que se completam mutuamente: a das palavras e a
dos gestos ou acontecimentos (cf. ainda DV 2).*
2.1.2. Deus quer comunicar-se a si mesmo e formar o
seu povo
36. Além da linguagem, é necessário entender
outros aspectos dessa comunicação entre Deus e o homem: 1) o que Deus
quer comunicar; 2) a quem se dirige; 3) que obstáculos encontra.
37. 1º — Deus não quis e não quer comunicar aos
homens apenas alguma verdade ou alguma lei. Ele quer comunicar a si mesmo, sua
presença, seu amor (cf. DV 2 e também DV 6).
38. 2º — Deus não quer fazer isso separando as
pessoas, mas unindo-as. Deus quis santificar e salvar os homens não
isoladamente, sem nenhuma conexão uns com os outros, mas constituí-los num
povo, que o conhecesse e o servisse santamente (cf. LG 9). Mesmo quando Deus se
revela através de um profeta, é sempre ao povo que se dirige; e é sempre numa
ligação vital com a comunidade que a pessoa é chamada e chega à fé em Deus.
39. 3º — Entre o homem e Deus há uma distância
incomensurável, não só pelo desnível natural entre a grandeza infinita de Deus
e a fragilidade da condição humana, mas também pelo pecado, que é uma recusa da
comunicação com Deus, uma recusa do Amor. Uma vez que o homem não pode chegar
sozinho ao pleno conhecimento de Deus, é necessário que o próprio Deus tome a
iniciativa de se revelar, de remover as barreiras entre ele e nós, deixando de
ser um Deus escondido para nos mostrar o seu rosto, quem ele é.
2.1.3. A
"pedagogia" de Deus
40. Compreende-se agora que a Revelação de
Deus é mais um processo, uma caminhada, do que um ato realizado
imediatamente e de uma vez.
41. Isto acontece, não porque Deus não quer
comunicar-se logo e por inteiro. Deus É comunicação, Deus É amor. Deus está
sempre perto de nós. Mas somos nós que nos afastamos dele. Somos nós que
precisamos desse processo lento e permanente da Revelação, porque seres
históricos, em construção.
42. Em outras palavras, a humanidade não
está preparada para acolher a Deus plenamente. Muitos obstáculos a separam
dele. Muitos pecados a desviaram.
43. Deus, então, ele mesmo procura guiar a
humanidade de volta. Procura orientá-la,
aproximá-la de si. Torna-se para seu povo como um pai ou uma mãe que ensina à criança os
caminhos da vida. Torna-se um mestre ou educador, que ensina aos alunos
caminhos mais adiantados em busca da verdade e da felicidade. Como um pai educa
seu filho, assim Deus educa seu povo (Dt 8,5).
44. Por isso, pode-se falar em pedagogia de
Deus (cf. DV 15), para indicar a forma com que Deus se revelou na História da
humanidade, gradativamente, por etapas.
2.1.4. A história da Revelação
45. A Revelação de Deus foi conservada, de
início, por uma tradição oral contada de pai para filho (cf. Dt 4,10; 11,19),
de boca em boca. Depois foi posta por escrito na Bíblia.
46. A Bíblia usa raramente a palavra
Revelação. Tampouco faz teorias sobre ela. Conta, sobretudo, fatos. Alguns desses
fatos podem ajudar-nos a compreender como se dá a Revelação. São principalmente
fatos que apresentam o encontro de Deus com o seu povo ou com um profeta.
47. Tomemos um exemplo: a Revelação de Deus a Moisés (Ex 3,1-15). Deus
atrai Moisés com um sinal: a sarça ardente. E a Moisés comunica duas coisas: o
seu Nome e a vontade de libertar os filhos de Israel. Reparemos bem: De um
lado, Deus se apresenta como Deus dos pais, dos antepassados de Moisés, o Deus
que Moisés já conhece e adora. Até aí, nada de novo. De outro lado, Deus revela
algo novo que Moisés e seu povo não conheciam: o nome Javé (que
significa Aquele que sou ou Aquele que estou convosco) e a vontade de
libertá-los.
48. Nos encontros de Deus com o seu povo e
seus profetas, é possível reconhecer essa estrutura da Revelação: Deus fala
partindo de algo que os homens já conhecem, que pertence à experiência deles, e
procura levá-los a descobrir e compreender algo novo do seu ser, do seu
amor, da sua vontade. Ou ainda: Deus ilumina o seu povo e seus profetas para
que compreendam o sentido da História que estão vivendo, dos
acontecimentos que Deus quis ou permitiu.
49. Muitas vezes, o acontecimento é tão
importante que ilumina com luz nova todo o passado e leva a uma nova e mais
profunda compreensão do plano de Deus. É o que aconteceu com a experiência da
aliança. À luz dela, foi interpretada toda a história da salvação: a criação
(cf. Is 40,25-28; 44,24; etc.), Noé (Gn 6,19; 9,9), Abraão (Gn 17,2), Moisés
(Ex 19,5; 24,7), Davi (2Sm 23,5). A fé de Israel se expressa através da
evocação da História (Dt 6,20-23; 26,5-9).
A luz definitiva sobre a história da Revelação vem de Jesus, que revela
enfim toda a amplitude do amor de Deus.
2.1.5.
A plenitude da Revelação: Jesus Cristo
50. A
expressão mais alta, absolutamente única e definitiva da comunicação de Deus à
humanidade, é Jesus, o Cristo (cf. DV 4). Nele, Deus não se limita a manifestar
algo de seu Amor. Deus se dá a si mesmo. Jesus é a encarnação, na natureza
humana, do Verbo. É a própria Palavra de Deus feita carne (Jo 1,14).
51. Jesus
Cristo se torna assim, para os homens de todos os tempos, caminho, verdade e
vida (Jo 14,6). Só por ele se vai ao Pai. Ele é a plenitude da Revelação. Por
isso, depois de Jesus, já não esperamos novas revelações. É importante, porém,
observar como Jesus revela o Pai. De novo encontramos a presença de
acontecimentos e palavras estritamente uni dos. Sua encarnação, sua vida
terrena, especialmente sua morte e ressurreição são fatos em que a fé reconhece
Deus que se revela e se comunica.
O sentido desses fatos se torna acessível a
nós pelas próprias palavras de Jesus, que compreendemos com a ajuda do Espírito
Santo e da Igreja.
52. Para
a Catequese, é ainda importante reparar que Jesus, na sua pedagogia, para levar
seus ouvintes à plenitude da fé, não despreza a história anterior da Revelação,
o Antigo Testamento, e também recorre às situações de vida e à experiência das
pessoas, educando-as para que reconheçam nelas os apelos de Deus.
2.1.6. Cristo se comunica pelo Espírito
Santo
53. Jesus é a plenitude da Revelação de
Deus. Neste sentido, Deus não tem mais nada a revelar de si mesmo (cf. DV 4).
Tudo o que é do Pai foi comunicado a Jesus, e Jesus o comunicou a seus
discípulos e após tolos (Jo 15,15; cf. também DV 7). Revelou os mistérios quer dizer, a intimidade de Deus, o que até
então estava escondido não aos sábios e
entendidos, mas aos simples (Mt 11,25).
54. Mas Jesus, exatamente porque nele habita
a plenitude de Deus e só nele se encontra a salvação, deve tornar-se de alguma
forma contemporâneo e companheiro de todos os homens. É esta a tarefa que se
realiza através do Espírito de Jesus, o Espírito Santo que atua na Igreja.
Neste sentido, pode-se dizer, com o Concílio Vaticano II, que Deus continua
mantendo permanente diálogo com a comunidade cristã (cf. DV 8c) e que o
Espírito Santo faz ressoar na Igreja e no mundo a voz viva do Evangelho,
conduzindo os fiéis para a plenitude da verdade (Jo 16,13).
55. Como o Novo Testamento afirma repetidas
vezes, a experiência do Espírito na comunidade cristã é inseparável da memória
de Jesus (cf. Jo 14,26; 15,26; 16,13-14; At 2,17-36; 1Cor 2,1-16; 12,3; 2Cor
3,3; etc.). Mas a ação do Espírito não está somente voltada para o passado. Ela
quer conduzir a vida e fazer crescer a fé do Povo de Deus (DV 8a). Ela se volta
também para o futuro, para a plenitude da verdade, fazendo progredir a
compreensão tanto das realidades como das palavras confiadas à Igreja.
56. O
Espírito não age
só, livre e
misteriosamente, como o
vento da noite,
que não se
sabe de onde vem e para onde vai (Jo 3,8). Ele, para
manter inalterado e vivo o Evangelho, suscitou e conserva na Igreja a Tradição,
a Escritura e o Magistério (cf. DV 7-10).
2.1.7. Tradição, Escritura e Magistério
57. O
que Jesus deixou foi, antes de tudo, uma comunidade viva, a Igreja. Aquela
comunidade que Paulo, escrevendo aos Coríntios, define como uma carta de
Cristo, entregue aos cuidados do nosso ministério, escrita não com tinta, mas
com o Espírito do Deus vivo, não em tábuas de pedra, mas em tábuas de carne,
nos corações! (2Cor 3,3).
58. Nesta comunidade se conservam as
palavras de Jesus, os sacramentos, a oração que ele ensinou, a liturgia que se
vai enriquecendo aos poucos com as expressões das várias culturas, as diversas
manifestações da fé e da caridade cristã, que originam diferentes modelos de
santidade, espiritualidade, transformação cristã da civilização e da cultura
(cf. DV 8).
59. Pode-se falar em tradição na
medida em que a comunidade cristã une dois aspectos: 1) de um lado, ela se
mantém fiel à sua origem, ao que recebeu de Cristo e dos Apóstolos; e,
2) simultaneamente progride na compreensão da doutrina, na vivência da
caridade e na edificação da sociedade, mantendo vivo e eficaz o Evangelho.
60. A Tradição Apostólica abrange todas
aquelas coisas que contribuem para santamente conduzir a vida e fazer crescer a
fé do Povo de Deus. E é chamada tradição, porque transmite e perpetua a todas
as gerações tudo o que a Igreja é, tudo o que crê (DV 8a).
61. Um lugar único ocupa, dentro da
Tradição, a Sagrada Escritura. Nas comunidades cristãs primitivas, fundadas
pelos Apóstolos, o Espírito Santo inspirou aqueles escritos que nós conhecemos
como o Novo Testamento. Neles a Igreja reconheceu, junto com os livros do povo
de Israel, o Antigo Testamento, o testemunho autêntico da Revelação divina.
Reconhecendo que a Sagrada Escritura é a Palavra de Deus redigida sob a moção
do Espírito Santo (DV 9), a Igreja a venera e a escolhe, junto com a Tradição
como suprema regra de sua fé (DV 21). Tradição e Escritura devem ser
consideradas como um todo, pois ambas procedem de Deus e têm como finalidade a
comunhão dos homens com ele.
62. Conservar a Tradição e a Escritura,
através da vivência e do testemunho da fé, é tarefa dos pastores e fiéis. A
interpretação autêntica da Tradição ou da Escritura, porém, está confiada ao
Magistério da Igreja. O Magistério está, assim, a serviço da Palavra de Deus:
da Tradição e da Escritura tira o que propõe para ser crido como divinamente
revelado (cf. DV 10).
2.1.8. Fé
e Comunidade missionária
63. Na
comunidade da Igreja, a Palavra de Deus está viva hoje. Deus, fiel às suas
promessas, continua convidando os homens à comunhão com ele.
64. Acolher
a Palavra, aceitar Deus na própria vida, é dom da fé. Ele exige, porém,
certas condições por parte do homem. Elas podem ser resumidas com duas palavras
evangélicas: conversão e seguimento. A fé é como uma caminhada.
Mais exatamente: é seguir o caminho de Jesus. O que os discípulos fizeram pelos
caminhos da Galiléia e da Judéia até a Cruz, acompanhando fisicamente Jesus e
comungando sempre mais de sua vida e de seu ideal, deve ser refeito hoje, em
nosso meio. É o programa que nos propõem os Evangelhos. Eles foram escritos,
não apenas para recordar o itinerário terreno de Jesus, mas para fazer dele o
roteiro ideal da caminhada de todo discípulo.
É evidente, nisso, que a fé não é só uma
adesão intelectual, um conheci mento da doutrina de Jesus. Ela é uma opção de vida,
uma adesão de toda a pessoa humana a Cristo, a Deus e a seu projeto para o
mundo.
65. A aceitação e o seguimento de Jesus são
uma opção profundamente pessoal. Ao mesmo tempo, porque a pessoa
se realiza no relacionamento e no amor, o seguimento realiza-se na comunidade
fraterna. Seguir a Jesus é juntar-se, fraternalmente, aos outros
discípulos. Assim a fé, nascida na comunidade da Igreja, renova permanentemente
a própria comunidade a partir da sua raiz profunda, a comunhão com Deus, e gera
novas comunidades eclesiais.
66. As comunidades dos discípulos de Jesus
não estão a serviço de si próprias, mas dos outros. A fé cristã é,
intrinsecamente, missionária (cf. Mt 28,19ss). Quem crê não pode deixar
de testemunhar sua fé. Quem foi escolhido, recebe um encargo, uma missão. A
missão fundamental é pregar o próprio Evangelho, anunciar Jesus, revelar o amor
do Pai pela humanidade. Mas o próprio amor de Deus exige o amor fraterno, a
comunhão e participação nesta terra, o empenho na libertação do homem (cf. Puebla
327).
67. A comunidade cristã, animada pela fé,
sente necessidade de celebrar todos os aspectos da existência cristã através da
liturgia, especialmente na celebração eucarística, onde adquirem uma
outra dimensão, ou manifestam mais claramente uma dimensão profunda da fé: a adoração,
a entrega ao Pai, em comunhão com o seu Filho e nosso Salvador Jesus
Cristo, pelo Espírito Santo.
2.1.9. Experiência humana e Revelação
68. Uma última questão, muito importante,
merece nossa atenção. Há um modo de pensar a Revelação divina que a representa
como se fosse totalmente externa ao homem.
69. Basta refletir um pouco para perceber as
falhas desse ponto de vista.
Antes de tudo, não devemos esquecer que o
Deus que se revela é o próprio Deus criador. Em segundo lugar, é ele que
suscita em nosso coração aquela inquietação que nos leva a procurá-lo. E ainda,
como vimos, é uma linguagem acessível que ele nos fala. Este diálogo estimula a
nossa reflexão e a nossa participação; em suma, a nossa liberdade. Por isso se
pode e se deve acentuar a unidade profunda entre as aspirações do homem e o
plano de Deus, como explicam os Bispos latino-americanos no documento de
Medellín sobre Catequese:
70. Ao apresentar sua mensagem renovada, a
Catequese deve manifestar a unidade do plano de Deus. Sem cair em confusões ou
em identificações simplistas, deve-se manifestar sempre a unidade profunda que
existe entre o projeto salvífico de Deus realizado em Cristo e as aspirações do
homem; entre a história da salvação e a História humana; entre a Igreja, Povo
de Deus, e as comunidades temporais; entre a ação reveladora de Deus e a
experiência do homem; entre os dons e carismas sobrenaturais e os valores
humanos.
Excluindo, assim, toda dicotomia ou dualismo
não cristão, a Catequese prepara a realização progressiva do Povo de Deus
(Medellín Cat. 4; DCG 8).
2.1.10. Ministério da Palavra e Catequese
71. Onde
se situa a catequese em face da Revelação? Convém agora retomar esta pergunta e
concluir.
Vimos que a Palavra de Deus está viva e
atuante hoje na comunidade eclesial. Em outras palavras: Deus continua a falar
aos homens em Cristo, pelo Espírito. É ele que fala, que se comunica. Mas
através de mediações.
72. Deus
se serve de palavras e de acontecimentos, mas também da atuação viva das
pessoas. Essa atuação só pode ser subordinada ao próprio Deus; só pode ser
serviço ou ministério. A Catequese faz parte do ministério da Palavra.
Ela é, por isso, um aspecto ou momento da evangelização. Podemos defini-la, com
o Sínodo dos Bispos de 1977 e Puebla (cf. nº 977), como a educação ordenada e
progressiva da fé. A Catechesi Tradendae fala de uma educação da fé das
crianças, dos jovens e dos adultos, a qual compreende especial mente um ensino
da doutrina cristã, dado em geral de maneira orgânica e sistemática, com o fim
de os iniciar na plenitude da vida cristã (nº 18).
E sublinha a relação da Catequese com outros
aspectos da pastoral da Igre ja: primeira evangelização, apologética, vida
cristã, celebração dos Sacramentos, integração na comunidade, testemunho
apostólico…
73. As
diversas maneiras de conceber e praticar a Catequese estão ligadas não só às
circunstâncias históricas (como mostramos na I parte deste documento), mas
também e especialmente a diversos modos de pensar na relação com a Revelação. A
Conferência de Medellín preconizava uma fidelidade dinâmica à Revelação e
afirmava: De acordo com esta teologia da Revelação, a Catequese atual deve
assumir totalmente as angústias e esperanças do homem de hoje, para
oferecer-lhe as possibilidades de uma libertação plena, as riquezas de uma
salvação integral em Cristo, o Senhor.
Por isso deve ser fiel à transmissão, não
somente da mensagem bíblica em seu conteúdo intelectual, mas também da sua
realidade vital encarnada nos fatos da vida do homem de hoje.
74. As situações históricas e as aspirações
autenticamente humanas são parte indispensável do conteúdo da Catequese. E
devem ser interpretadas seriamente, dentro de seu contexto atual, à luz das
experiências vivenciais do povo de Israel, de Cristo e da comunidade eclesial,
na qual o Espírito de Cristo ressuscitado vive e opera continuamente (Medellín,
Cat. 6).
75. As conseqüências ou exigências, que para
a Catequese decorrem da Revelação divina, serão agora objeto de exame e
exposição no próximo capítulo.
2.2.
Exigências da Catequese
76. Como se deve realizar a Catequese para
alcançar seus objetivos? Como a Catequese pode levar os cristãos crianças, jovens e adultos a acolher a Palavra de Deus e a fazer dela a
luz que orienta a sua vida?
77. A questão pode ser abordada em diversos
níveis e sob diversos enfoques. Neste capítulo, vamos apresentá-la no nível dos
princípios ou critérios básicos. O nível da prática será tratado na IV parte
deste documento. Quanto aos enfoques, achamos oportuno considerar vários
(fontes, critérios, dimensões etc.), mas sem dar a todos a mesma atenção e o
mesmo desenvolvimento.
2.2.1.
Fidelidade a Deus e ao homem
78. A exigência primeira e fundamental da
Catequese é a fidelidade ao plano de Deus.
Essa fidelidade é, antes de tudo, fidelidade
ao Deus que se revela (CT 52). E, por isso mesmo, é fidelidade ao
movimento, pelo qual Deus entra na História dos homens e nela se encarna, pelo
seu Filho. Daí decorre que a Catequese é chamada a levar a força do Evangelho
ao coração da cultura e das culturas (CT 53), isto é, não somente a encarná-la
na história pessoal de cada homem, mas também na própria História da
humanidade.
79. Fidelidade
a Deus e ao homem, portanto. Não como sendo duas preocupações diferentes,
mas como uma única atitude espiritual. A lei da fidelidade a Deus e da
fidelidade ao homem: uma única atitude de amor (CT 55).
O papel da mediação entre Deus, que se
revela em Cristo, e o homem, cabe à Igreja. Por isso Puebla explicita a lei da
fidelidade em: fidelidade a Jesus Cristo, à Igreja, ao Homem. (Essa temática será
desenvolvida na III parte deste documento).
80. Insistimos sobre a necessidade de
considerar os três temas, não como separados ou estanques, mas como mutuamente
implicados um no outro. Cristo ilumina o mistério do Homem; a Igreja só se
entende como caminho da realização do Homem em Cristo. Não há fidelidade a um,
sem fidelidade aos outros.
81. Isto será mais explicitado nos enfoques
seguintes, que dizem respeito principalmente ao conteúdo da Catequese.
Em sintonia com o interesse dos últimos Papas e das grandes Assembléias
Episcopais (Concílio, Sínodos de 1974 e 1977, Medellín, Puebla), a nossa
preocupação se dirige principalmente à integridade e à autenticidade evangélica
do conteúdo formulado como resposta aos anseios dos homens de hoje.
2.2.2.
Fidelidade às fontes
82. Fidelidade à Revelação significa, para a
Catequese, encontrar nela a sua fonte. É às águas da Revelação divina que a
Catequese conduz os homens, para aplacarem sua sede de verdade e de vida.
83. A Revelação divina chega até nós através
da Sagrada Escritura, dentro da Tradição viva da Igreja, recebida dos
Apóstolos. A Tradição Apostólica compreende, como afirma o Concílio, todas
aquelas coisas que contribuem para santamente conduzir a vida e fazer crescer a
fé do Povo de Deus. Assim, em sua doutrina, vida e culto, a Igreja perpetua e
transmite a todas as gerações tudo o que ela é e tudo o que crê (DV 8).
84. A Catequese, portanto, deve haurir seu
conteúdo na única fonte da Revelação divina, utilizando sabiamente a Sagrada
Escritura e todos os outros testemunhos da Tradição viva da Igreja, que fazem
chegar até nós as águas vivificantes da Revelação. Aqui fixamos alguns
princípios que orientam no uso desses testemunhos (ou fontes da Catequese) (cf.
CT nº 26-34. DCG nº 45).
85. 1º Um lugar proeminente e uma atenção
especial devem ser dados à Sagrada Escritura, conforme recomenda
repetidas vezes o Concílio Vaticano II (cf. DV 21, 24, 25; SC 24; PO 4). Na
palavra da Escritura encontra alimento são e vigor santo… a Catequese (DV 24).
86. 2º Não se trata simplesmente de tirar da
Sagrada Escritura e da Tradição elementos fragmentários, a serem
inseridos numa Catequese de orientação diferente, mas de respeitar a natureza
e o espírito da Revelação
bíblica. Falar da Tradição e da Escritura como fonte da Catequese é já acentuar
que esta tem de ser impregnada e penetrada pelo pensamento, pelo espírito e
pelas atitudes bíblicas e evangélicas, mediante um contato assíduo com os
próprios textos sagrados; e é também recordar que a Catequese será tanto mais
rica e eficaz quanto mais ela ler os textos com a inteligência e o coração da
Igreja, e quanto mais ela se inspirar na reflexão e na vida duas vezes
milenária da mesma Igreja (CT 27; cf. DV 12).
87. 3º A Catequese tem, entre suas tarefas
fundamentais, a entrega do Evangelho (traditio Evangelii). Ela deve
abrir ao catequizando o livro da Sagrada Escritura, que tem por centro o
Evangelho. As sim, a Catequese é a verdadeira introdução à leitura da
Escritura, de que falaram os Bispos no Sínodo de 1977 em sua Mensagem ao Povo
de Deus (nº 9).
88. Para isso, todo roteiro catequético
deverá incluir estímulos e orientações com vista a uma leitura da Bíblia,
segundo um plano adequado à idade e às condições culturais do leitor. O plano
deve favorecer uma leitura interessante, viva, com acesso direto aos textos,
ajudando a compreensão da mensagem, assim como o Magistério da Igreja a
interpreta (cf. DV 10b).
89. 4º A iniciação à leitura da Bíblia, na
Catequese, deve levar não só ao contato com a Palavra de Deus na leitura
pessoal ou grupal da Escritura, mas principalmente à compreensão da Palavra
proclamada e meditada na Liturgia. Não só pela riqueza de seu conteúdo
bíblico, mas pela sua natureza de síntese e cume de toda a vida cristã, a
Liturgia é fonte inesgotável de Catequese. Nela se encontram a ação
santificadora de Deus e a expressão orante da fé da comunidade.
As celebrações litúrgicas, com a riqueza de
suas palavras e ações, mensagens e sinais, podem ser consideradas como uma
Catequese em ato. Mas, por sua vez, para serem bem compreendidas e
participadas, as celebrações litúrgicas ou sacramentais exigem uma Catequese
de preparação ou iniciação (cf. DCG 25; CT 23).
90. Enfim, a Liturgia, com sua peculiar
organização do tempo (domingos, períodos litúrgicos como Advento, Natal,
Quaresma, Páscoa etc.) pode e deve ser ocasião privilegiada de
Catequese, abrindo novas perspectivas para o crescimento da fé, através de
orações, reflexão, imitação dos santos, e descoberta não só intelectual, mas
também sensível e estética dos valores e das expressões da vida cristã.
91. 5º Uma expressão privilegiada da fé da
Igreja, professada desde os Apóstolos, é o Credo ou Símbolo Apostólico
(cf. CT 28). Na história da Cateque se, a entrega do Credo (traditio
Symboli), seguida pela transmissão da Oração do Senhor (o Pai-Nosso), foi
importante. O Credo resume o conteúdo da fé que a Igreja quer
transmitir. Por isso, constitui um ponto de referência seguro para o conteúdo
da Catequese (CT 28).
92. Além disso, junto com o Pai-Nosso, a Ave
Maria, os Dez Mandamentos e outros textos bíblicos e litúrgicos mais usados, o Credo
constitui uma fórmula indispensável para que o cristão possa expressar sua
fé e seu louvor a Deus junto com a comunidade. Ele deve ser memorizado e
aprofundado (CT 55).
93. 6º Deus, porém, continua falando à sua
Igreja e, à luz da Escritura e da Tradição, a Igreja se volta atenta para os sinais
dos tempos e as indicações atuais da vontade de Deus. Nessa mesma linha, a
Catequese presta uma atenção pedagógica às condições concretas das pessoas e
grupos a quem se dirige, e mais do que isso, também alimenta seu conteúdo na
história da Igreja, na vida dos santos, no sensus fidei do povo cristão
(cf. LG 12), na religiosidade e devoções populares, mesmo quando precisamos de
purificação (CT 54). De um modo especial, a Catequese, em nosso contexto,
procura esclarecer como convém… realidades como a ação do homem para sua
libertação integral, o empenho na busca de uma sociedade mais solidária e
frater nal e a luta pela justiça e pela construção da Paz (CT 29; cf. EN 30-38;
Medellín, Cat. 6).
Podemos resumir tudo isso com as palavras da
Mensagem ao Povo de Deus, do Sínodo sobre a Catequese (1977): Para qualquer
forma de Catequese se realizar na sua integridade, é necessário estarem
indissoluvelmente unidos:
— o
conhecimento da Palavra de Deus,
— a
celebração da fé nos sacramentos,
— e
a confissão da fé na vida cotidiana (nº 11).
2.2.3. Critérios de unidade,
organicidade, integridade e
adaptação
94. Não basta que o conteúdo da Catequese
seja autêntico, isto é, que tenha sua origem na Palavra de Deus, que se
comunica através da Bíblia, da Liturgia, das diversas expressões da Tradição
viva da Igreja, dos sinais dos tempos e das situações históricas que vivemos.
É preciso, também, para a solidez da educação da fé e para edificar
personalidades e comunidades cristãs maduras, coerentes, que o conteúdo da
Catequese seja unitário, orgânico e integral.
95. 1º — A unidade do conteúdo da Catequese se faz ao
redor da pessoa de Jesus Cristo. É o CRISTOCENTRISMO da Catequese, procurado
com insistência pelo Sínodo dos Bispos de 1977 e tão ricamente ilustrado pelo
Papa João Paulo II no capítulo I da Catechesi Tradendae (nº 5-9).
96. Cristocentrismo significa não só que
Cristo deve aparecer na Catequese como a chave, o centro e o fim do homem, bem
como de toda a História humana (GS 10), mas que a adesão à sua pessoa e à sua
missão, e não só a um núcleo de verdades, é a referência central de toda a
Catequese (cf. EN 22).
97. O Cristocentrismo também exige que, na
apresentação de temas ou na vivência de experiências particulares, a Catequese
evidencie sua relação com o centro de tudo, Cristo.
98. 2º — Uma segunda exigência é a INTEGRIDADE do
conteúdo. A Catequese deve levar o cristão a penetrar plenamente no mistério de
Cristo. Por isso procurará apresentar integralmente sua mensagem. Não poderá
acontecer de uma vez, mas sim segundo as aptidões das pessoas e as condições do
contexto em que vivem. A Catequese parte da apresentação mais simples, porém
orgânica e integral da mensagem cristã… Mas não se detém aí. O conteúdo há de
ser desenvolvido de forma sempre mais ampla e explícita (cf. DCG 38).
99. O Papa defende com vigor a integridade
da mensagem como um direito dos fiéis: Aqueles que se tornam discípulos de
Cristo têm o direito de receber a Palavra da fé não mutilada, falsificada ou
diminuída, mas sim plena e integral, com todo o seu rigor e com todo o seu
vigor. Atraiçoar em qualquer ponto a integridade da mensagem é esvaziar
perigosamente a própria Catequese e comprometer os frutos que Cristo e a
comunidade eclesial têm o direito de esperar dela (CT 30).
100. 3º — Outra exigência, que explicita e complementa
as duas primeiras, é a da HIERARQUIA DAS VERDADES. Na formulação de sua
mensagem, a Igreja sempre reconheceu a prioridade de algumas: Isto não
significa que algumas verdades pertençam à fé menos que outras, mas que algumas
verdades se fundam sobre outras mais importantes, e são por elas iluminadas
(DCG 43). Também a Catequese deve levar em conta esta hierarquia: A integridade
não dispensa do equilíbrio, nem do caráter orgânico e hierarquizado, graças aos
quais se poderá dar às verdades a ensinar, às normas a transmitir e aos
caminhos da vida cristã a indicar, a importância que respectivamente lhes
compete (CT 31).
101. 4º — Pode-se também falar de ADAPTAÇÃO do conteúdo.
Embora o critério da ADAPTAÇÃO deva ser aplicado, antes de tudo, à linguagem e ao
método da Catequese, também o CONTEÚDO pode necessitar de ADAPTAÇÃO, inclusive
por sua estreita conexão com o método. ADAPTAÇÃO significa levar em conta as
condições históricas e culturais dos catequizandos. A integridade do conteúdo
pode e deve ser comunicada numa linguagem
adequada aos homens de hoje: Pois, uma coisa é o depósito ou as verdades da
fé, outra é a maneira com que são enunciadas, embora o significado e o sentido
profundo permaneçam os mesmos (GS 62). Mais do que isso: a Catequese deve levar
em conta a experiência e os problemas, a situação histórica dos homens a que se
dirige: As situações históricas e as aspirações autenticamente humanas são
parte indispensável do conteúdo da Catequese (Medellín, Cat. 6; cf. também CT
29). É esta uma exigência intrínseca da Revelação do Deus conosco, presente em
nossa História.
102. A ADAPTAÇÃO pode exigir uma escolha ou
acentuação de determinados elementos. Essa escolha será válida lembra o Papa na medida em que, longe de ser ditada por teorias ou preconceitos
mais ou menos subjetivos e marcados por uma determinada ideologia, for
inspirada pela humilde preocupação de coligir um conteúdo que deve permanecer
intacto (CT 31).
2.2.4. Dimensões da Catequese
103. A Catequese pode ser vista, também, sob
outro enfoque: o das dimensões.
Assim podemos nos interrogar se a Catequese
reflete as dimensões da história da salvação, que são a cristológica (referência
a Cristo), a eclesiológica (referência à Igreja) e a escatológica (referência ao
dinamismo da História em direção ao Reino futuro e definitivo).
104. Nosso documento acentua, em diversas
partes, a dimensão cristológica e eclesiológica. É evidente. Mas
também não está ausente a dimensão escatológica, que nos lembra nossa
condição de peregrinos que participam da construção da História e da luta pela
libertação integral do homem, na esperança da plena realização do encontro com
Deus face a face.
105. A dimensão cristológica não pode
ser separada da dimensão trinitária. O mistério de Cristo se compreende em
relação com o mistério do Pai e do Espírito Santo.
106. Nossa comunicação com Deus Pai, pelo
Filho, no Espírito, se reveste de dois aspectos principais: bíblico e litúrgico.
É o que enfatizamos tratando das fontes da Catequese.
107. Analisando a dimensão eclesiológica,
podemos destacar, dentro dela, diversos aspectos: comunitário,
vocacional, missionário, ecumênico…
108. Finalmente, se considerarmos
especialmente a pessoa do cristão, do homem, e sua atuação solidária na
História, poderemos ressaltar as dimensões antropológica, existencial,
histórica, política, libertadora da
Catequese. Considerado o dinamismo contínuo de todo o homem, que está sempre em
busca do crescimento e sempre exposto a dificuldades e fracassos, pode-se falar
também em dimensão permanente da Catequese, enquanto ela quer abranger
todas as fases e ambientes educativos da vida da pessoa e as etapas da educação
da fé.
109. A lista de dimensões que acabamos de
mencionar fornece, em síntese, duas orientações:
1º — indica que nem todas as dimensões têm o
mesmo valor e a mesma importância: umas são fundamento, e outras são
conseqüências;
2º — sugere que, na prática catequética, cada
comunidade ou catequista deve fazer sua revisão e verificar se dá a devida
acentuação a cada uma das dimensões essenciais.
2.2.5. Em
métodos diversos o mesmo princípio da interação
110. Também a respeito da metodologia
catequética, fixamos alguns pontos fundamentais.
Antes de tudo, incentivamos catequistas e
formadores de catequistas a consagrarem parte de seu tempo ao estudo dos
métodos mais adequados, evitando a tentação do empirismo, da improvisação,
talvez do desleixo.
111. Em segundo lugar, reconhecemos a
existência de uma pluralidade de métodos, entre os quais uma diocese, uma
comunidade ou um catequista, de acordo com as respectivas autoridades, podem e
devem escolher os que julgarem mais adequados. A variedade dos métodos é um
sinal de vida e uma riqueza (CT 51; cf. DCG 72).
112. Lembramos, porém, que todos eles
deverão obedecer, com ampla possibilidade de diferentes aplicações concretas,
ao chamado princípio da interação (ou de interpelação).
113. Pois, por tudo o que vimos
anteriormente, na Catequese realiza-se uma inter-ação (= um
relacionamento mútuo e eficaz) entre a experiência de vida e a formulação da
fé; entre a vivência atual e o dado da Tradição. De um lado, a experiência da
vida levanta perguntas; de outro, a formulação da fé é busca de explicitação
das respostas a essas perguntas. De um lado, a fé propõe a mensagem de Deus e
convida a uma comunhão com ele, que ultrapassa a busca e as expectativas
humanas; de outro, a experiência humana é questionada e estimulada a abrir-se
para esse horizonte mais amplo.
114. O Papa Paulo VI faz alusão ao tema da
interação entre Evangelho e Vida, quando escreve: A Evangelização não seria
completa se não tomasse em consideração a interpelação recíproca que se fazem
constantemente o Evangelho e a vida concreta, pessoal e social dos homens. E o
Papa mostra o resultado positivo dessa interpelação recíproca:
É por isso que a Evangelização comporta uma
mensagem explícita adaptada às diversas situações e continuamente atualizada,
sobre os direitos e deveres de toda pessoa humana e sobre a vida familiar, sem
a qual o desabrochamento pessoal quase não é possível; sobre a vida em comum na
sociedade; sobre a vida internacional, a paz, a justiça e o desenvolvimento;
uma mensagem sobremaneira vigorosa em nossos dias, ainda sobre a libertação (EN
29; cf. também Medellín, Cat. 6).
115. Também o método seguido em Puebla, o Ver-Julgar-Agir,
quer levar a essa interação entre a experiência de vida, ou a visão da
situação histórica, de um lado, e a reflexão baseada sobre a doutrina da fé, do
outro, a fim de gerar uma praxe cristã. Um correto entendimento do método, ou
seu aprofundamento, mostra que a fé já está presente no momento do VER e que
categorias humanas entram no momento da reflexão e da avaliação à luz da fé (o
JULGAR) (cf. MM 239; AA 29).
116. De fato, não seria correto recair em
novos dualismos, que opusessem radicalmente vida e Evangelho,
experiência e doutrina, humano e divino. Ao contrário, deve
ser ressaltada a unidade profunda do plano de Deus (cf. Medellín, Cat. 4; DCG
8). Em Puebla, os Bispos assinalam como aspecto positivo da Catequese atual; Um
esforço sincero para integrar a vida com a fé, a História humana com a história
da salvação, a situação humana com a doutrina revelada, a fim de que o homem
consiga sua verdadeira libertação (P 979). E apresentam um aspecto negativo
ainda existente: Não raro, cai-se em dualismos e falsas oposições, como entre
Catequese sacramental e Catequese vivencial, Catequese de situação e Catequese
doutrinal. Por não situar-se numa posição de justo equilíbrio, alguns têm caído
no formalismo e outros no vivencial, sem apresentação de doutrina (P 988).
117. O Papa João Paulo II também rejeita a
oposição entre ortopráxis e ortodoxia, convicções firmes e ação corajosa,
experiência vital e estudo sério e sistemático da mensagem de Cristo (CT 22). E
conclui: A Catequese autêntica é sempre iniciação ordenada e sistemática à
Revelação que Deus faz de si mesmo ao homem em Jesus Cristo; Revelação esta
conservada na memória profunda da Igreja e nas Sagradas Escrituras, e
constantemente comunicada por uma tradição viva e ativa, de uma geração para a
outra. E tal Revelação não está isolada da vida, nem justaposta a ela de
maneira artificial. Mas diz respeito ao sentido último da existência, que ela
esclarece totalmente para a inspirar e para dela ajuizar criticamente, à luz do
Evangelho (CT 22).
2.2.6. Lugares da Catequese
118. O lugar ou ambiente normal da Catequese
é a comunidade cristã. A Catequese não é tarefa meramente individual,
mas realiza-se sempre na comunidade cristã. As formas da comunidade evoluem
hoje rapidamente. Além das comunidades como a família, primeira comunidade
educadora do homem, ou a paróquia, lugar normal em que opera a comunidade
cristã, ou a escola, comunidade
destinada à educação, surgem, hoje em dia, muitas outras comunidades, entre as
quais as pequenas comunidades eclesiais, as associações, os grupos juvenis etc.
Essas novas comunidades oferecem uma oportunidade para a Igreja: podem ser
fermento na massa, no mundo em transformação; contribuem para manifestar mais
claramente tanto a diversidade como a unidade da Igreja; devem mostrar entre si
a caridade e a comunhão. A Catequese pode, nelas, encontrar novos lugares onde
inserir-se, uma vez que os membros da comunidade são uns para com os outros
proclamadores do mistério de Cristo (Sínodo dos Bispos de 1977, Mensagem ao
Povo de Deus, 13).
119. É importante ressaltar a novidade dessa
orientação comunitária, em face da convicção
infelizmente ainda muito difundida
de que a Catequese se ria exclusivamente assunto para crianças. Mesmo
algumas das escassas iniciativas específicas da Catequese de adultos estão
concebidas mais como prolongamento ou substitutivo da Catequese elementar,
infantil, do que como resposta às exigências próprias de seu campo e de seus
destinatários. Assim, o que acontece muitas vezes é que o homem cresce, mas não
o cristão.
120. A Catequese comunitária de adultos,
longe de ser apêndice ou complemento, deve ser o modelo ideal e a referência, a
que se devem subordinar todas as outras formas de atividade catequética. Ela
deve receber uma atenção prioritária em toda paróquia e comunidade eclesial
de base (cf. IV parte).
121. A família é não somente
destinatária ou objeto de Catequese. A família cristã, pela graça sacramental
do Matrimônio tornada como que igreja doméstica, é também lugar por excelência
de Catequese, especialmente na primeira infância: Os pais devem ser para seus
filhos os primeiros mestres da fé (GE 2).
122. De fato, a família, nos primeiros anos
de vida, comunica aos filhos uma formação religiosa que se entranha profundamente
em sua personalidade. Essa formação, que reflete geralmente as convicções e
práticas religiosas dos pais, pode e deve ser aperfeiçoada com a ajuda da
comunidade, de modo a se inspirar mais plenamente no espírito evangélico e
eclesial.
123. Os pais devem ser orientados não só
para dar uma formação consciente e explicitamente cristã aos filhos, mas para
eles mesmos crescerem em seu compromisso cristão e na capacidade de iluminar
pela fé a realidade familiar e social, que são chamados a construir (cf. CT
68).
124. O ensino religioso na escola é
um direito e dever dos alunos e dos pais. É uma dimensão fundamental e
necessária de toda a educação, bem como uma exigência da liberdade religiosa de
cada pessoa, que tem direito a condições que lhe permitam progredir em sua
formação espiritual (cf. CT 69); Discurso de João Paulo II aos Sacerdotes de
Roma, 5.3.1981, 3; Documento SCEC, o leigo católico testemunha da fé na escola,
56).
125. O ensino religioso nas escolas é
normalmente distinto da Catequese nas comunidades. Para o cristão, é
particularmente importante para conseguir a síntese criteriosa entre a cultura
e a fé. Não tratamos aqui dos problemas específicos do ensino religioso, que
deve caracterizar-se pela referência aos objetivos e critérios próprios da
estrutura escolar (João Paulo II, Discurso de 5.3.1981, 3).
Mas o ensino religioso levará em conta, nas
devidas proporções, o que aqui é dito a respeito da Catequese em comunidade,
com a qual mantém íntima conexão nos destinatários e no conteúdo. Devido ao
pluralismo religioso da sociedade em que vivemos, no ensino religioso nas
escolas deverá prevalecer a evangelização, cabendo a Catequese à comunidade
paroquial.
126. Como recomenda o Sínodo dos Bispos de
1977, uma muito atenção especial deve ser dada a grupos, movimentos e outras
formas de vida associada, que hoje se multiplicam entre jovens e adultos.
Há uma florescência de movimentos de leigos católicos com grande potencialidade
catequética, mas que precisam de maior estímulo e orientação para desenvolverem
séria e sistematicamente uma Catequese renovada. Do contrário, o risco é de
permanecerem num estágio de adesão entusiasta e emocional ao cristianismo, sem
amadurecimento adequado da fé, que possa enfrentar duradoura e vitoriosamente
impactos e agressões das ideologias e contra-valores.
127. Entre os recursos que devemos dispor e
desenvolver a serviço da Catequese, estão os modernos meios de comunicação
grupais: audiovisuais, dinâmicas de grupo, técnicas para reprodução e
multiplicação de documentos, recursos da cultura popular: canto, música,
desenho, teatro, cordel etc. (cf. P 1090).
128. Também é desejável maior presença nos meios
de comunicação social de massa (mass media), com vista à informação
religiosa e mesmo, quando oportuno, visando a formas de Catequese em sentido
lato. Essa presença, que supõe rigorosa preparação técnica, não interessa só
pelo número de pessoas que permite atingir, inclusive entre aquelas que não
costumam freqüentar as comunidades eclesiais, mas também pela possibilidade de
incidir tempestivamente sobre a opinião pública, provocando uma reflexão sobre
a atualidade.
Essa presença é responsabilidade
especialmente das instituições eclesiásticas de maiores recursos e mais
próximas dos centros de produção que alimentam os mass media. Todas as
comunidades, porém, têm o dever de contribuir para a formação de uma
consciência crítica em face dos meios de comunicação social (cf. P 1088).
2.2.7. Catequese segundo idades e situações
2.2.7.1.
Educação permanente da fé
129.
Sempre mais se
impõe uma educação
permanente da fé que acompanhe
o homem por
toda a vida e se
integre em seu crescimento global.
A comunidade catequizadora velará zelosamente para que
isso aconteça de
fato, estabelecendo uma organização adaptada e eficaz
que empenhe na
atividade catequética as
pessoas, os meios,
os instrumentos e os
recursos financeiros necessários (CT 63; cf. Diretrizes Gerais da CNBB 1974-78, p.
59; P 998; Sínodo de 1977, proposição 15).
2.2.7.2. Catequese de adultos
130. É na direção dos adultos que a
Evangelização e a Catequese devem orientar seus melhores agentes. São os
adultos os que assumem mais direta mente, na sociedade e na Igreja, as
instâncias decisórias e mais favorecem ou dificultam a vida comunitária, a
justiça e a fraternidade. Urge que os adultos façam uma opção mais decisiva e
coerente pelo Senhor e sua causa, ultrapassando a fé individualista, intimista
e desencarnada.
Os
adultos, num processo de aprofundamento e vivência da fé em comunidade,
criarão, sem dúvida, fundamentais condições para a educação da fé das crianças
e jovens, na família, na escola, nos Meios de Comunicação Social e na própria
comunidade eclesial.
Destacamos o peculiar valor do ano litúrgico
para uma Catequese contínua e integrada. Igualmente, são momentos privilegiados
para a Catequese de adultos os grandes acontecimentos da vida: nascimento,
matrimônio, enfermidade, morte etc.
2.2.7.3. Crianças, adolescentes e jovens
131. Durante muito tempo, a Catequese se
limitou à infância. E mesmo assim, no horizonte da preparação imediata da
Primeira Eucaristia, numa linha quase exclusivamente doutrinária. O papel dos
pais e da comunidade, apesar de certo esforço para uma visão mais ampla da
Catequese infantil, é ainda muito restrito. Não se percebeu suficientemente que
uma das tarefas essenciais dos pais e da comunidade eclesial é criar ambiente e
apoio para que a criança, o adolescente e o jovem caminhem para a maturidade na
fé.
132. Já em 1974, no seu documento Pastoral
da Eucaristia, cap. VI, a CNBB insistia em que a preparação para a Primeira
Eucaristia tivesse mais preocupação com a iniciação na vida da comunidade, com
a fraternidade cristã e com a participação do cristão na missão da Igreja.
133. É evidente que o papel mais importante
na educação da primeira infância compete à família. Em seguida caberá à
comunidade paroquial e escolar colaborar com os pais na iniciação da criança e
do adolescente na vida comunitária mais ampla, fazendo-os conhecer e
experimentar Jesus Cristo que, com sua vida e Boa-Nova, inspira a caminhada do
Povo de Deus, e levá-los a participar, como crianças e adolescentes, nessa
caminhada.
134. Na Bíblia, a Catequese das crianças tem
seu lugar tanto na comunidade quanto na família: Quando amanhã o filho te
perguntar: Que significam estes mandamentos, estas leis e estes decretos que o
Senhor nosso Deus nos prescreveu? então responderás ao filho: nós éramos
escravos do Faraó e o Senhor nos tirou do Egito com mão poderosa… O Senhor
mandou que cumpríssemos todas estas leis e temêssemos o Senhor nosso Deus, para
que fôssemos sempre felizes e nos conservasse vivos, como nos faz hoje. Seremos
justos, se guardarmos os seus mandamentos e os observarmos diante do Senhor
nosso Deus, como Ele mandou (Dt 6,20-25; cf. Dt 29,21-27).
Era o direito e dever do pai de família em
Israel dar aos filhos as razões dos próprios gestos, de sua fé, da caminhada do
povo liberto por Deus.
135. É indispensável a existência de grupos
de crianças, de adolescentes e também de jovens, que os preparem, através da
oração, estudo, fraternidade, atividades transformadoras, para integrar pouco a
pouco a comunidade maior.
Para isso, esses grupos infanto-juvenis devem
sempre manter estreita ligação com a comunidade, realizando diversos serviços
na celebração litúrgica, nos círculos bíblicos, e nas demais atividades
comunitárias.
136. A formação litúrgica constituirá parte
importante da iniciação das crianças, adolescentes e jovens na vida da
comunidade cristã. As preparações para os diversos sacramentos devem passar a
ser momentos fortes dessa iniciação e perder seu caráter episódico e
esporádico.
137. A criação de um ambiente educativo da
fé é uma exigência não só metodológica, mas de conteúdo, especialmente em se
tratando de crianças e jovens. Eles necessitam de apoio, acolhida, alegria,
presença fraterna de educadores adultos, além de um mínimo de estruturação de
suas atividades.
O catequizando, criança e jovem, não
participará do catecismo, da aula de ensino religioso, dos grupos
infanto-juvenis somente para aprender religião, aprender as principais verdades
da fé, preparar-se para receber tal sacramento, mas sobretudo para aprender a
viver e atuar como cristãos, agentes de transformação na sociedade brasileira
de hoje. Por isso, é importante que, já como adolescentes e jovens, realizem
ações transformadoras no seu ambiente específico.
A
Catequese deverá realçar
também a dimensão vocacional das
crianças e jovens. Deverá ajudá-los, desde cedo, a encontrarem a vocação a que
Deus os chamou. Por isso, deverá orientá-los à oração e à reflexão diante de
Deus, para que saibam escutar e entender os sinais da vocação que os levam a
descobrirem qual o seu lugar na Igreja, seguindo o plano e a vontade de Deus
(cf. P 865).
138. No processo de educação permanente da
fé, tanto na família como nas outras formas de estruturação da Catequese da
comunidade cristã, as crianças e jovens:
— em
face de uma sociedade baseada no neo-positivismo e no ativismo, aprenderão o
senso do mistério e o gosto pela oração e pelo silêncio;
— em
face da sociedade que tudo relativiza e apresenta como valor o que não o é,
aprenderão a ter senso crítico;
— em
face da sociedade competitiva e de consumo, onde tudo se vende e se compra,
aprenderão a viver o senso da simplicidade, da gratuidade, a disposição de
compartilhar e a solidariedade libertadora entre os pequenos;
— em
face da sociedade repressiva, aprenderão a criatividade, a coragem empreendedora,
a compreensão e o perdão;
— em
face da sociedade massificante e escravizante, aprenderão a liberdade, a
responsabilidade, que permitirão superar o egoísmo, a rotina, o vazio, a
manipulação, a exploração;
— em
face da sociedade pluralista, invadida por todo tipo de movimentos religiosos e
ideológicos, aprenderão a dar razões de sua identidade cristã-católica e de sua
esperança.
Aprenderão, enfim, na experiência com o Senhor Jesus e na vivência da
comunidade, os valores propostos nas Bem-aventuranças.
139. Confrontando constantemente a própria
vida com a mensagem evangélica e com as formulações da fé, oferecidas pela
Tradição viva da Igreja, a criança, o adolescente e o jovem aprenderão também a
exprimir sua fé com palavras próprias. Assim, as fórmulas antigas da Bíblia, da
Liturgia e do Credo adquirirão aos poucos vida e se tornarão expressões
privilegiadas da fé (cf. CT 59).
140. Ao invés de sobrecarregar a criança com
todas as fórmulas doutrinais de que poderá precisar na vida, é melhor e mais pedagógico
ensinar-lhe progressivamente essas fórmulas, principalmente textos bíblicos e
litúrgicos, à medida em que vai vivendo sua experiência eclesial no grupo, e
levá-la a continuar participando do processo catequético, conforme as
exigências de uma Catequese permanente.
141. A memorização virá como necessidade de
guardar carinhosamente o essencial da experiência de Deus iniciada ou
acontecida no processo catequético. Trata-se, então, de uma memorização em
nível de fé. Assim, os textos bíblicos ou outros, as fórmulas, sempre que
vierem à mente, virão carregadas de realidade contempladas, estudadas, vividas
numa experiência de fé.
2.2.7.4. Excepcionais
142. A presença de deficientes físicos ou
mentais numa família e comunidade eclesial as interpela evangelicamente e exige
delas uma real identificação com o Cristo sofredor nesses seus irmãos mais
fracos.
A família e a comunidade deverão colocar à disposição deles todos os
recursos necessários para acolhê-los como membros plenos de sua comunhão, e
para o possível conhecimento de Jesus Cristo.
Os próprios deficientes, como os pobres, as crianças e os jovens,
tornam-se por sua vez evangelizadores da própria comunidade que os acolhe.
2.2.7.5. Outras situações
143. A
comunidade deve prestar particular atenção e procurar meios adequados para ir
ao encontro das necessidades catequéticas daquelas categorias de pessoas que,
por sua condição de vida, mais dificilmente podem participar da vida normal da
comunidade cristã. Lembramos sobretudo migrantes, menores abandonados, anciãos,
motoristas, operários com turno especial de trabalho, encarcerados,
prostitutas, bóias-frias etc.
2.2.8.
Missão e formação do catequista
144. A
tarefa da Catequese é confiada, em primeiro lugar, a toda a comunidade
eclesial, que, com toda a sua vida, contribui para a educação de seus membros
na fé. O Bispo, e com ele os presbíteros e diáconos, sacramentalmente
constituídos ministros do Cristo-Mestre, são os primeiros responsáveis pela
Catequese (cf. Cân 773-777).
A comunidade não dispensa a figura do
catequistanidade, conhece bem sua história e suas aspirações e sabe animar e
coordenar a participação de todos.
145. Como bom comunicador, o catequista não
fala sozinho. Ele desperta e provoca a palavra dos membros da comunidade. O
catequista dedica-se de modo específico ao serviço da Palavra, tornando-se
porta-voz da experiência cristã de toda a comunidade. O catequista é, de certo
modo, o intérprete da Igreja junto aos catequizandos. Ele lê e ensina a ler os
sinais da fé, entre os quais o principal é a própria Igreja (DCG 35).
Desenvolve um verdadeiro ministério, um serviço à comunidade cristã, sustentado
por um especial carisma do Espírito de Deus.
146. Quando catequiza, ele o faz em nome de
Deus e da comunidade profética, em comunhão com os pastores da Igreja. Anuncia
a Palavra, denuncia o que impede o homem de ser ele mesmo e de viver sua
vocação de filho de Deus. Ajuda a comunidade a interpretar criticamente os
acontecimentos, proporcionando-lhes a reflexão e explicitação da fé. Convida a
comunidade a libertar-se do egoísmo e do pecado e a celebrar a sua fé na
Ressurreição. De profunda espiritualidade, falará mais ainda pelo exemplo do
que pelas palavras que profere.
147. É
tarefa do catequista apresentar os meios para ser cristão e mostrar a alegria
de viver o Evangelho. Catequizar é comunicar. O catequista comunica mediante o
testemunho, a palavra e o culto. A comunicação autenticamente evangélica supõe
uma experiência de vida na fé e de fé capaz de chegar ao coração daquele a quem
se catequiza. Contudo, sabendo que a adesão dos catequizandos a Jesus Cristo é
fruto da graça e da liberdade, estará atento a respeitar as decisões e
dificuldades de cada um. Assim
também, o catequista participará do diálogo com as manifestações religiosas que
caracterizam o nosso hodierno mundo pluralista… dentro do máximo respeito à
pessoa e à identidade do interlocutor (Puebla 1114).
148. Em
vista dessa formação permanente, a comunidade envidará todos os esforços para
possibilitar aos seus catequistas, ao longo de seu compromisso, os seguintes
dados básicos, que deverão ser continuamen te retomados e aprofundados: sua
inserção na caminhada da comunidade eclesial; consciência crítica da realidade
sócio-econômico-política, cultural e ideológica, para aprender a ler nela os
sinais de Deus; conhecimento atualizado e experiencial da Bíblia; fidelidade à
Tradição e ao Magistério; visão da história da Igreja; vida de oração; ciências
humanas que favoreçam de perto sua missão, como, por exemplo, psicologia,
pedagogia, didática, comunicação etc.
149. Em
função disso, são importantes as Escolas Catequéticas tão insistentemente
solicitadas pelos catequistas e recomendadas pelo Magistério.
150. A
formação deve ter o cuidado de não somente desenvolver a capacitação didática e
técnica do catequista, mas também e principalmente sua vivência pessoal e
comunitária da fé e seu compromisso com a transformação do mundo, a fim de que
a atuação do catequista nunca esteja separada do seu testemunho de vida.
151. O catequista deve viver sua experiência
cristã e sua missão dentro de um grupo de catequistas, que dará continuidade à
formação e oferecerá oportunidades para a oração em comum, a reflexão, a
avaliação das tarefas realizadas, o planejamento e a preparação dos trabalhos
futuros. Assim, o grupo de catequistas expressa mais visivelmente o caráter
comunitário da tarefa catequética.
2.2.9.
Textos e manuais de Catequese
152. De acordo com essa visão da Catequese
renovada, os manuais deverão ser organizados, levando em conta os princípios
acima expostos, as dimensões mencionadas, e tirando das fontes indicadas a
iluminação da caminhada da comunidade.
153. A comunidade cristã primitiva teve como
fonte de Catequese a memória de Jesus
fatos e palavras, interpretada
no contexto das Escrituras Sagradas do Antigo Testamento. Surgiram assim os
escritos do Novo Testamento que, junto com o Antigo, lido agora à luz de
Cristo, forma as Escrituras Cristãs.
154. Em primeiro lugar, recordamos que o uso
dos manuais não deve substituir a leitura da Bíblia, livro de Catequese por
excelência, mas orientar para ela. A própria Bíblia, com a extrema riqueza e
variedade de gêneros literários, sugere que também em nossa Catequese haja
recurso a expressões estéticas e literárias diversificadas, que ofereçam
diferentes caminhos de aprendizagem e múltiplas possibilidades de apresentação
da mensagem.
155. Os manuais catequéticos, além de
apresentar textos bíblicos selecionados, devem conter instruções sobre o uso
deles, bem como elementos de introdução à leitura da Bíblia e de formação de
coordenadores de círculos bíblicos.
156. Espera-se de um bom texto de Catequese
que, além da clareza doutrinária, encaminhe satisfatoriamente as atividades
educativas da fé. Para essa finalidade, os planos de atividades educativas e
transformadoras provavelmente servirão mais do que o clássico catecismo e os
chamados planos de aula.
157. À primeira vista, os planos de
atividades transformadoras e educativas podem assemelhar-se aos planos de aula.
Na realidade, porém, seus objetivos e métodos, e sua própria estrutura são
totalmente diver sos. São planos de atividades. Visam à educação para um novo
modo de agir e viver, em que a reflexão e informação constituem elementos de um
todo muito mais amplo. Não estão presos a uma ordem fixa. Não fornecem nem
supõem respostas pré-fabricadas. Estimulam a criatividade, a busca comunitária
da experiência de Deus e a descoberta e vivência de sua mensagem.
158. Os
planos de atividades serão repertórios, ora mais ora menos organizados, que
contêm:
— estímulos
para atividades transformadoras e pedagógicas;
— propostas
de temas a serem refletidos e debatidos;
— formulações
básicas da fé;
— textos-fontes,
extraídos da Bíblia, da Liturgia, dos Santos Padres e do Magistério
eclesiástico.
159. Ao lado da temática catequética básica,
os planos de atividades poderão também conter diversos elementos úteis
complementares, como, por exemplo, elementos de introdução aos sinais
litúrgicos, seleção de cantos e orações que sirvam para exprimir a vida da
comunidade, elementos de história da Igreja, poesia etc.
160. Em todos os manuais, merecem especial
atenção as ilustrações, que se destinam não apenas a enfeitar e agradar, mas a
integrar e aprofundar a mensagem e a própria educação religiosa do
catequizando. Como os sacramentos e como todo sinal, a imagem revela e esconde
ao mesmo tempo. Aprender a ler essa imagem é aprender a ler a História, a vida,
a natureza, que são lugares da manifestação de Deus.
161. As considerações que aqui fizemos e as
conhecidas diferenças regionais e culturais de nosso País nos induzem a pensar
que um único manual de catequese para todo o Brasil seria inviável, ou ao menos
inadequado. Para conseguir, dentro da legítima diversidade, uma unidade
fundamental de conteúdo, oferecemos a seguir um temário básico.
III
- PARTE
TEMAS FUNDAMENTAIS PARA UMA CATEQUESE RENOVADA
162. Esta terceira parte é uma proposta de
temas fundamentais para a Catequese de hoje. Está baseada principalmente no
documento de Puebla, cujos textos são muitas vezes transcritos literalmente ou
resumidos, enriquecida por outros documentos eclesiais, principalmente os do
Concílio, Medellín, Diretório Catequético Geral, Evangelii Nuntiandi, Catechesi
Tradendae e outras encíclicas do Papa João Paulo II, e documentos da CNBB.
Não se trata de um catecismo, mas é um
esforço de apresentar os grandes temas de uma Catequese renovada em nosso
contexto. Este temário não é exaustivo nem único, mas inspirador. Relembramos
que o temário fundamental é a Bíblia. No entanto, a História atual nos coloca
alguns parâmetros para a leitura e vivência da Palavra de Deus que devem ser
levados em conta.
163. Entre
as opções de base está a de fazer ligação entre fé e vida, formulações da fé e
caminhada da comunidade. Esta interação nem sempre poderá aparecer no
documento, porque ela é a grande tarefa e arte do agente de Catequese diante
das situações concretas. Por isso, este temário é endereçado sobretudo aos
coordenadores de Catequese, autores de textos catequéticos e agentes de
Catequese que, evidentemente, deverão adaptá-los aos destinatários quanto à
seleção dos temas, linguagem, metodologia, e principalmente encarná-lo na
caminhada da comunidade.
164. Eixo central que permeia toda a
apresentação da mensagem é o de COMUNHÃO-PARTICIPAÇÃO num processo comunitário.
Por isso, a parte eclesiológica apresenta-se bastante desenvolvida; mas as
outras dimensões centrais do documento de Puebla (fidelidade a Cristo e ao
Homem) acham-se também muito presentes. A fidelidade ao texto de Puebla
condiciona a linguagem que, em certas ocasiões, não é diretamente catequética.
No entanto, procura-se falar a partir da comunidade e numa linguagem
descritiva.
3.1.
A situação do homem
3.1.1. Várias visões do mundo
165. Todos nós temos uma visão do mundo.
Para alguns, o homem deve aceitar tudo passivamente, pois tudo já está
fatalmente determinado. Outros vêem o homem reduzido a seus instintos, que lhe
tiram toda a responsabilidade. Um terceiro grupo considera o homem como o
resultado de suas relações de produção ou das forças econômicas. Há os que
colocam o Estado acima das pessoas, limitando assim a liberdade individual.
Outros vêem nas ciências a única salvação do homem.
166.
Grande parte de
nosso povo possui
uma visão do mundo e
do homem baseada
numa crença em Deus manifestada em diversas expressões
da religiosidade popular. Muitas vezes, porém, é uma fé desvinculada da vida,
ou uma fé que se diz cristã, mas cheia de elementos estranhos ao cristianismo
(cf. P 308-315; 444-456; 914; 342; 453).
3.1.2.
Como Jesus via o mundo
167. Nós, cristãos, temos uma visão própria
da realidade humana, que nos vem de Jesus Cristo porque nele se revela a
dimensão mais profunda do Homem e do seu mundo. Jesus e os Apóstolos colocavam
Deus e o mundo em estreita relação.
168. Jesus mostra conhecer bem a realidade
da vida. Nada que está a seu redor escapa de seu olhar; diante das contradições
e injustiças, ele toma posição. Fala de Deus e de seu Reino a partir da
situação de vida de seu Povo. Os acontecimentos, até trágicos, as realidades da
vida quotidiana, as coisas do mundo, servem de material com o qual ele
concretiza a mensagem do Reino e o mostra presente na História. Para Jesus, as
coisas todas podem servir de sinal da presença ou ausência do Reino. Por isso
tem os olhos bem abertos para a realidade.
169. Da
mesma forma, os Apóstolos e a Igreja tomam posição diante da realidade
concreta, unindo profunda e criticamente fé e vida.
3.1.3. Como vemos nós a realidade?
170. Assim
como Jesus, nunca podemos separar a mensagem evangélica da Catequese, de nossa
História; nem falar de Deus sem falar do homem. Nossos Bispos
latino-americanos, sobretudo em Medellín e Puebla, o episcopado brasileiro, em
inúmeros documentos, nos ajudam a ver a realidade na perspectiva de Jesus e dos
Apóstolos. Assim, assumem os desafios vindos de nossa realidade contraditória e
a confrontam com o Evangelho. Resultam daí caminhos, colegialmente aprovados,
para a encarnação do Evangelho na realidade de nossos povos.
171. Toda a primeira parte do Documento de
Puebla nos mostra que vivemos num processo de desenvolvimento, cujos benefícios
são, entretanto, desigualmente distribuídos. Esta injustiça se constata não só
em campo econômico, mas também social, político e cultural. Tal situação faz
surgir, em todos os níveis, o espírito de solidariedade, de comunhão e
participação em favor dos marginalizados, e um grande anseio de libertação,
diante do subdesenvolvimento em que vive a maior parte de nosso povo.
172. A visão da realidade é apresentada de
modo bastante completo no Documento de Puebla e nos documentos e
pronunciamentos da CNBB, o que demonstra estar a Igreja agindo a partir da
realidade. Esta visão não é meramente social e científica, mas teológica e
pastoral. Do mesmo modo, cada catequista deve aprender a fazer a análise da
própria realidade local.
173. Diante dessa realidade, qual é a
mensagem de salvação que devemos anunciar com nossa Catequese? Para todos os
homens, a Igreja tem uma só resposta: Cristo, o Redentor do homem. Ele não se
substitui ao homem, mas se oferece como caminho da plena realização humana e da
vida eterna (Jo 8,32). Assim, essa libertação se torna plenamente ação do homem
e, ao mesmo tempo, plenamente dom de Deus, e o clamor surdo dos que não têm voz
é aceito por Deus: Eu ouvi os clamores do meu povo por causa de seus
opressores, e desci para o libertar (Ex 3,7-8) (cf. P 1-161; RH 1).
3.2. Os desígnios de
Salvação de Deus: A verdade sobre Cristo, a Igreja e o Homem
3.2.1. A verdade sobre Jesus Cristo
3.2.1.1. Deus
voltado para o mundo
174. Deus, como nossa fé professa, é um Deus
que está no meio de nós, que sempre se manifesta dentro de nossa História e de
nossas vidas, procurando nos libertar para formas mais humanas de vida. A
plenitude desta vida é a total comunhão com ele.
175. Sabemos da ação divina no curso da
História, pelo testemunho das Escrituras Sagradas: elas contêm o Relato dos
acontecimentos salvíficos e Palavras proféticas pelos quais Deus se revela e dá
sentido a toda a nossa História. Elas testificam que Deus sempre fez e manteve
Aliança com os homens. O Antigo Testamento é a história de Israel, Povo
escolhido para ser sinal e instrumento, para todos os povos, desta presença
divina dentro da Humanidade. O Novo Testamento narra o acontecimento máximo de
nossa história da salvação, isto é, a manifestação do próprio Deus na pessoa de
Jesus de Nazaré, e seu prolongamento até o fim dos séculos através de sua
Igreja vivificada pelo Espírito Santo.
176. Toda a Bíblia é a narração, sob a
inspiração do Espírito Santo, das experiências concretas de um Povo à procura
de Deus e da ação desse Deus se revelando a este Povo. Por isso, a Bíblia, como
principal fonte da fé, deve ser lida no contexto da vida, porém à luz da
Tradição e do Magistério, que são a garantia para nós de uma correta
interpretação (cf. DV 2-6; P 372; 1001).
3.2.1.2. A criação, início do plano de
salvação
177. Tendo descoberto as maravilhas do Amor
de Deus por nós em Jesus Cristo, a comunidade cristã primitiva, também à luz da
experiência do Povo Eleito, professa que a própria criação do mundo é um grande
ato do amor de Deus. A criação das coisas visíveis e invisíveis, do mundo e dos
anjos, é o princípio da História da salvação.
Deus
criou o mundo
e o homem para poder
se doar, fazendo-o gratuita mente
participar de sua
vida e felicidade. Por
isso, o plano de nossa salvação
tem início na criação: todos os homens são criados em vista do apelo que Deus
lhes faz em Cristo para entrar em seu Reino (cf. 1Cor 8,6; Cl 1,15-17; Jo
1,1-3; Hb 1,1-4; LG 2,3,7,48; GS 22; DCG 51; DV 3).
178. Deus está sempre presente e atuante no
mundo através de sua Providência, respeitando, no entanto, a liberdade que ele
mesmo nos deu; assim, aquilo que para nós é tão difícil, ou seja: cuidar e
educar respeitando a liberdade pessoal, para Deus é o normal, porque o amor,
que em nós é embrionário, nele é a essência mesma do ser: Deus é amor (1Jo
4,8), e é próprio do amor doar-se livremente, expandir-se, gerar novas vidas.
179. Dos seres do mundo, só o Homem, criado
à imagem e semelhança de Deus, pode entrar em diálogo com ele e responder a seu
apelo de Amor. Criando o mundo, Deus o confia ao Homem, para que ele o
aperfeiçoe com seu trabalho e o torne uma terra habitável, onde todos os homens
possam viver em comunhão fraterna. Sendo fiel ao plano de Deus e à sua graça, o
homem, com sua caminhada histórica, vai se dirigindo para os novos céus e a nova
terra (Ap 21,1; 2Pd 3,13), que serão o cumprimento final da criação (Rm
8,18-27).
180. O poder e o amor de Deus, que se
manifestou na criação, manifesta-se plenamente quando surge a nova criatura, o
novo Adão, ou seja, na Ressurreição de Cristo (Ef 1,19). As iniciativas de Deus para nos salvar, presentes em toda a nossa
História e que culminam na Ressurreição de Cristo, hão de ter sua consumação no
fim do mundo, quando haverá novos céus e nova terra (cf. 2Pd 3,13).
3.2.1.3.
O homem criado maravilhosamente e decaído
181. Ao criar o mundo, Deus nos criou para
que participássemos da comunidade divina de amor: o Pai com seu Filho Unigênito
no Espírito Santo. Fomos criados, pois, para a comunhão e participação. O
homem, eternamente idealizado e eternamente eleito em Jesus Cristo, devia
realizar-se como imagem criada de Deus, refletindo, em si mesmo e na
convivência com os irmãos, o mistério divino da comunhão, através de uma
atuação que chegasse a transformar o mundo.
A Bíblia exprime esse pensamento através da
imagem do paraíso terrestre: o homem, na medida em que permanece fiel ao plano
da criação, vive numa perfeita harmonia com o próprio Deus, com ele mesmo, com
os outros e com a natureza. Ele é o parceiro de Deus, com quem conversa e passeia
(Gn 3,8-13). Essencialmente iguais (Gn 2,23), homem e mulher não são idênticos:
são diferentes em vista da complementaridade.
182. Deus é bom, e o homem, criado para a
comunhão, é bom também (Gn 1,31). Donde, então, tanta violência, ódio,
exploração e escravidão, que vemos ao nosso redor? O homem, instigado pelo
maligno, desde o início rejeita o amor de Deus, não tem interesse pela comunhão
com ele, quer construir, prescindindo de Deus, um mundo fundamentado nas
relações de dominação. Em vez de adorar ao Deus verdadeiro, adora os ídolos,
obras de suas mãos e realidade deste mundo; adora a si próprio. Por isso o
homem dilacera-se interiormente, rompe a unidade consigo mesmo, com Deus e a
natureza. Penetram no mundo o mal, a morte, a violência, o ódio e o medo; a
multiplicidade dos pecados torna-se a triste experiência dos homens e é causa
de multiforme sofrimento e desgraça.
183. O pecado das origens continua atingindo
toda a humanidade. Dentro desse contexto se manifestam a natureza e os efeitos
do pecado pessoal, pelo qual, agindo ciente e deliberadamente, violamos de fato
a lei moral, ofendendo gravemente a Deus. À atitude de pecado, à ruptura com
Deus que degrada o homem, corresponde sempre, no plano das relações
intersubjetivas, a atitude de egoísmo, orgulho, ambição e inveja, que geram
injustiças, dominação e violência em todos os níveis. Corresponde também à luta entre indivíduos, grupos,
classes sociais e povos, bem como a corrupção, hedonismo, exacerbação sexual e
superficialidade nas relações mútuas. Conseqüentemente se estabelecem situações
de pecado que, em nível mundial, escravizam a tantos homens e condicionam
adversamente a liberdade de todos. O pecado destrói nossa dignidade humana. A
realidade latino-americana faz-nos experimentar amargamente, até aos extremos
limites, esta força do pecado, que é contradição flagrante com o plano de Deus.
184. Ao
narrar o pecado, a Bíblia nos apresenta logo a promessa do Salvador, e este é o
aspecto principal de toda a narração. Assim, a certeza fundamental, sobre a
qual se alicerça a doutrina do pecado original, não é a informação histórica
sobre fatos acontecidos na origem do mundo, mas a Revelação de que Cristo é o
Redentor necessário de todos os membros da humanidade, sem o qual ninguém
encontra salvação (cf. P 182-186; 328; DCG 62; GS 13).
3.2.1.4.
Jesus Cristo, centro do plano de salvação
185. Deus realiza nossa salvação através de
uma longa História. De fato, depois, do pecado, ele não nos abandona, mas
através de um povo concreto, Israel, reinicia o diálogo de salvação, realizando
sucessivas Alianças, para que possamos construir o mundo partindo da fé e da
comunhão com ele. Fatos concretos da História deste povo, particularmente o
Êxodo, mostram a mão poderosa de Deus Pai que anuncia, promete e começa a
realizar a libertação do pecado e de suas conseqüências.
186. O centro dessa História de nossa
libertação é a figura de Jesus de Nazaré, o Filho de Deus. A salvação que ele
nos propõe ultrapassa de muito a redenção do pecado; por ela se cumpre o plano
de Deus, que quer comunicar-se conosco em Jesus, com tal plenitude que vai
muito além da expectativa humana, ou seja: em Jesus Cristo todos somos
chamados a participar
da própria vida divina
pelo Espírito Santo, e daquela cristificação do cosmos e
da História, que Deus pensou desde o início do mundo (cf. Cl 1,15-20). De fato,
a obra redentora de Cristo visa também a restauração de toda a ordem temporal,
pois, embora a ordem espiritual e a ordem temporal sejam distintas, encontram-se,
no entanto, intimamente ligadas no único propósito de Deus, ou seja, fazer do
mundo, em Cristo, uma nova criação que se inicia aqui na terra e tem sua
plenitude no último dia.
Este
plano de amor conserva sempre sua força e se estende
a todos os tempos. Ainda que pecador, o homem sempre permanece na única ordem
desejada por Deus, isto é, numa radical vocação para a comunhão com ele em
Jesus Cristo. Por isso todos, movidos pela graça, podemos, pela conversão,
alcançar a salvação (cf. P 181, 187; DCG 62; AA5; GS 29, 41).
3.2.1.5.
Jesus Cristo: sua encarnação e vida entre nós
3.2.1.5.1. A encarnação
187. Chegada a plenitude dos tempos (Gl 4,4), Deus Pai envia ao mundo
seu Filho Jesus Cristo, Senhor nosso, Deus verdadeiro nascido do Pai antes de
todos os séculos, e homem verdadeiro nascido da Virgem Maria por obra do
Espírito Santo. O Filho de Deus assume o humano, e no humano o universo todo,
que desde a criação é orientado para o homem, restabelece a comunhão entre seu
Pai e nós.
Ao enviar seu Filho ao mundo, o Pai se torna Pai de todos os homens, e
nós nos tornamos filhos no Filho. Assim, quando a Palavra eterna de Deus assume
a nossa natureza humana, nos é dada uma dignidade altíssima, e Deus irrompe na
nossa História, isto é, no peregrinar humano rumo à liberdade e à fraternidade,
que aparecem agora como caminho que leva à plenitude do encontro com ele.
188. Professando a fé no mistério da
Encarnação, cremos, com a Igreja, tanto na divindade de Jesus Cristo, quanto na
realidade e força de sua dimensão humana e histórica. Nele resplandecem a
glória e a bondade do Pai que tudo prevê, e a força do Espírito Santo que
anuncia a libertação integral de todos e de cada um dos homens do nosso povo.
O
homem Cristo Jesus,
que habitou entre
os homens trabalhando com suas
mãos como homem,
pensando com mente humana, agindo com vontade humana, amando com
coração humano, é verdadeiramente o Verbo e o Filho de Deus que, pela
Encarnação, de certa maneira se uniu a cada homem (cf. P 188, 189, 175; DCG 53;
GS 22; RH 8,13).
3.2.1.5.2. Vida e ensinamentos
189. Jesus
de Nazaré nasceu e viveu no meio de uma família pobre e de seu povo de Israel,
compartilhando com ele a vida, esperanças e angústias; compadeceu-se das
multidões e fez o bem a todos. Esse povo, aca brunhado pelo pecado e pela dor,
esperava a libertação que Deus lhe havia prometido. No meio dele Jesus anuncia:
Completou-se o tempo; chegou o Reino de Deus. Convertei-vos e crede no
Evangelho (Mc 1,15). Ungido pelo Espírito Santo para anunciar o Evangelho aos
pobres, para proclamar a liberdade aos cativos, a recuperação da vista dos
cegos e a libertação dos oprimidos, Jesus entrega e confia, com as
Bem-aventuranças e o Sermão da Montanha, a grande proclamação da Nova Lei do Reino
de Deus; através de muitas parábolas ele nos esclarece a realidade e o conteúdo
do Reino.
190. Com
a vida e os ensinamentos de Jesus, Deus atendeu às súplicas humanas e quis
libertar os homens de forma definitiva e última. O Reino de Deus é essa libertação
de Deus, como dom do Pai. O Reino não é um mundo utópico aqui na terra, nem
apenas a felicidade depois da morte. Para Jesus, o Reino começa aqui na terra e
se consuma depois da morte, no céu. Nosso povo está ainda esperando e quer que
a Igreja lhe comunique a verdade de Jesus: O Reino já chegou e está no meio de
nós! (cf. P 176, 190).
3.2.1.5.3. A práxis de Jesus
191. Às palavras anunciadoras do homem novo
e da sociedade nova e de crítica profética à estrutura sócio-religiosa de seu
tempo, Jesus juntou fatos. Os milagres são realizados por Jesus para serem
sinais de que ele é efetivamente o Messias, o Libertador. Palavras, atitudes e
ações de Jesus demonstram então que o Reino já chegou. Em Jesus, Deus estava
presente vencendo o demônio e criando o homem novo num mundo novo.
192. Infiltrando-se nas estruturas
sócio-religiosas, as forças do mal levaram muitos homens à rejeição de Jesus.
Passando pela perseguição e pela dor, ele manifesta-se como o Servo de Javé, de
que fala o profeta Isaías (Is 53). Por sua radical fidelidade ao amor do Pai,
chega à abnegação total, rejeitando a tentação do poder político e da
violência. E é este o caminho que ele traça para seus seguidores: a doação
desinteressada e sacrificada do amor; amor que abraça a todos, privilegiando os
pequenos, fracos, pobres, e congregando a todos numa fraternidade capaz de
abrir novo caminho na História (cf. P 191-192).
3.2.1.5.4. O seguimento de Jesus e a conversão
193. O
projeto de Deus, anunciado no Reino pregado por ele, implica uma transformação
radical no nosso modo de pensar e de agir como pessoas e como sociedade.
À medida que vamos seguindo o Cristo
Ressuscitado, seu Espírito que habita a Igreja nos inspira a ficarmos mais
parecidos com Cristo, compreen dendo e atualizando em nossa vida os mandamentos
da Lei divina, especialmente o Amor a Deus e ao próximo e a fidelidade às
orientações de vida dadas pelo Mestre no Sermão da Montanha. Por isso, a
conversão ao Reino é um processo nunca encerrado, tanto em nível pessoal quanto
social, porque, se o Reino de Deus passa por realizações históricas, não se
esgota nem se identifica com elas (cf. P 193, 1221, 1159).
3.2.1.6. O mistério pascal
3.2.1.6.1.
A morte redentora de Jesus
194. Num mundo que não se converte ao Reino,
mas que se organiza contra ele, este Reino só pode se realizar pela via do
martírio. Foi o caminho seguido por Jesus. Por fidelidade e obediência ao Pai
que o enviou e à mensagem que pregou e viveu, Jesus se entregou à morte livremente.
Sumo Sacerdote, Vítima Pascal, ele encarna a justiça salvadora do Pai e o
clamor de libertação e redenção dos homens. Torna-se assim o verdadeiro
Cordeiro que tira o pecado do mundo: morrendo destruíu a nossa morte,
redimindo-nos do pecado (cf. P 194).
3.2.1.6.2.
Sua ressurreição-exaltação
195. Por isso o Pai o ressuscita, confirma-o
Senhor e Filho de Deus e o coloca à sua direita com a plenitude vivificante do
Espírito. Ele é constituído Cabeça do Corpo que é a Igreja, Senhor da História
e do mundo, sinal e penhor de nossa ressurreição e da transformação final do
universo. Por ele e nele o Pai recria todas as coisas. Exaltado
na glória, não
se aparta de
nós: continua a viver em
nossas comunidades, principalmente na Eucaristia e na proclamação
da Palavra. Está
no meio dos
que se reúnem em seu nome
e na pessoa dos pastores que envia e, num gesto de ternura, quis
identificar-se com os mais fracos e mais pobres (cf. P 195-196).
3.2.1.6.3.
Jesus Ressuscitado, Senhor da História
196. No centro da História humana se
implantou, assim, o Reino de Deus em Jesus ressuscitado. A justiça de Deus
triunfou da injustiça dos homens. Da História velha do homem decaído passou-se
à História nova do homem regenerado por Cristo, que, pela eficácia do Espírito,
coloca os homens em comunhão e participação com a própria vida de Deus. É esta
a boa nova que anunciamos (cf. P 197).
3.2.1.7. O Pai e Jesus enviam seu Espírito
3.2.1.7.1.
O Espírito Santo é o Espírito de Jesus
197. O primeiro dom do Pai
com Cristo ressuscitado aos Apóstolos é o Espírito Santo, tantas vezes
prometido. Por ele Jesus continua sua presença salvadora no mundo, pois o
Espírito Santo é a alma da comunidade daqueles que nele crêem, isto é, a
Igreja. A Bíblia não nos
fala tanto do seu ser, mas sim descreve o seu agir: é o
Espírito Santo que faz reviver e recriar a atitude de Jesus (cf. Jo 16,12-15);
ele renova na fração do pão o mistério pascal de Jesus; ele cria a união entre
os irmãos, do mesmo modo que reunia os discípulos ao redor de Jesus. É o
Espírito da verdade que nos liberta, conduzindo-nos à verdade total; dentro de
nós dá testemunho de que somos filhos de Deus e de que Jesus ressuscitou e é o
mesmo ontem, hoje e através dos séculos (Hb 13,8). Assim ele é o nosso
principal Evangelizador (cf. P 202; 198).
3.2.1.7.2. A ação do Espírito Santo hoje
198. O Espírito Santo é a
vida de Deus em nós, a água que jorra da fonte, Cristo, que faz renascer os que
morreram pelo pecado. É ele que nos atrai para Deus, suscita nossa oração,
faz-nos viver os mistérios de Cristo na Liturgia; suscita na vivência da mesma
Liturgia uma criatividade fecunda, e inspira as várias modalidades de viver o
Evangelho. É o mesmo Espírito que nos faz odiar o pecado, sobretudo combatê-lo
num momento de tanta corrupção e desorientação como o atual. A renovação dos
homens, e conseqüentemente da sociedade, vai depender, em primeiro lugar, da
ação do Espírito de Deus em nós e por nós. As leis e estruturas deverão ser
animadas pelo Espírito que vivifica os homens e faz com que o Evangelho se
encarne na História (cf. P 203; 199).
3.2.1.7.3. Espírito
que reúne na unidade e enriquece na diversidade
199. Deus não faz acepção
de pessoas: a ação evangelizadora dirige-se a todos os homens indistintamente
para torná-los filhos de Deus. Para isso, o Espírito Santo suscita na Igreja
ministérios e instituições. O Espírito Santo unifica na comunhão e no
ministério e provê com dons hierárquicos e carismáticos a toda a Igreja através
dos tempos, vivificando as instituições eclesiásticas (cf. AG 4). Hierarquia e
instituições são instrumentos do Espírito e da graça. Os dons e carismas provêm
dele, mas especialmente os dons maiores da fé, esperança e caridade, e estão a
serviço do Cristo e da Igreja, que é assim edificada.
200. Sem o Espírito não há
Igreja; em sua ação missionária ela age, como Cristo, impulsionada pelo
Espírito. A experiência do Espírito na caminhada da História constitui um dos
fundamentos da Igreja (cf. P 205-208; LG 4; AG 4).
3.2.1.8. O Deus revelado em Jesus Cristo e no
Espírito Santo: um Deus de comunhão e participação
201. A ação salvífica de
Jesus, Filho de Deus, e a ação do Espírito Santo nos revelam concretamente quem
é Deus. Ele é Pai de bondade e fonte de toda vida e santidade; é um Deus que se
revela e se comunica: revela-se em Jesus Cristo, seu Filho, Palavra eterna
feita carne, e se revela no Espírito, Amor e Comunhão do Pai e do Filho, pelo
qual Deus entra em comunhão conosco e nos ama.
202. Deus, portanto, é
comunhão, onde tudo é vida, onde todas as relações são de igualdade e de mútua
abertura. Deus é protótipo daquilo que devemos ser como sociedade, pois somos
criados à imagem e semelhança de Deus. Este Deus-Comunhão de Pai, Filho e
Espírito Santo quer nos inserir sempre mais em sua comunhão: é o que se chama
comunhão trinitária, a estender-se em todas as dimensões da vida, inclusive
econômica, social e política. Nossas comunidades eclesiais, vivendo
intensamente a comunhão trinitária, devem esforçar-se por constituir para nosso
país um exemplo de convivência, onde consigam unir-se a liberdade e a
solidariedade, autoridade e serviço; onde se ensaiem formas de organização e
estruturas de participação capazes de suscitar um tipo mais humano de
sociedade. Nossas comunidades eclesiais devem testemunhar, sobretudo, que sem
uma comunhão com Deus em Jesus Cristo, qualquer outra forma de comunhão
puramente humana acaba se tornando incapaz de sustentar-se e termina fatalmente
voltando-se contra o próprio homem. E é nisto justamente que o Reino de Deus
encontra sua plena realização: a humanidade e cada pessoa como templo de Deus
Pai, Filho e Espírito Santo (cf. P 214-215; 273).
3.2.2. A verdade sobre a Igreja
Introdução: Jesus,
fundador da Igreja como sinal do Reino
203. Nosso povo tem a
intuição profunda de que a presença de Jesus na História é inseparável da
presença da Igreja que o evangeliza. De fato: a Igreja é inseparável de Cristo.
Ele fundou-a sobre Pedro, cabeça dos doze, como sacramento universal e
necessário da salvação. Foi uma ação direta do Senhor, convocando os
discípulos, outorgando-lhes seu Espírito, dotando a comunidade nascente de
elementos essenciais, que deu origem a uma instituição divina.
Aceitar Cristo é aceitar a Igreja. Isto faz parte do Evangelho, e nós o
professamos ao dizer: creio na Igreja una, santa, católica e apostólica.
Ela é
depositária e transmissora do Evangelho, prolongando
na terra a
ação evangelizadora de
Jesus. Ela é única: o
Senhor a chama minha Igreja (Mt 16,18). Daí a
imensa graça e responsabilidade da vocação à
Igreja Católica (cf. LG 14; P
220-225).
204. A mensagem de Jesus é
o Reino que nele mesmo se torna presente e chega até nós; embora seja
inseparável da Igreja, o Reino transcende os limites visíveis dela; ele se
realiza onde Deus está reinando pela graça e pelo amor, vencendo o pecado,
estabelecendo comunhão, mesmo no coração de quem se acha fora do ambiente
perceptível da Igreja.
205. Ela é anunciadora,
instrumento e sinal do Reino. Nela se manifesta visivelmente o que Deus realiza
silenciosamente no mundo inteiro: a convocação de todos os homens para um
crescimento de comunhão entre si e com ele. Germe e princípio do Reino, sob o
influxo do Espírito, a Igreja deve crescer, aperfeiçoar-se sob muitos pontos,
necessitando de constante evangelização, conversão e purificação (cf. LG 5; P
226-231).
3.2.2.1.
A Igreja, Povo de Deus
206. Prefigurada já no
Antigo Testamento pelo Povo eleito, a Igreja é o Povo de Deus caminhando para
seu Senhor. É um povo universal, não depende de raça, idioma ou qualquer
particularidade humana. Nasce de Deus pela fé. Encarna-se em todos os povos,
fomenta e assume, e, ao assumir, purifica e eleva todas as capacidades,
riquezas e costumes dos povos no que têm de bom (LG 13 b); não é massa, mas
fermento. É um povo de redimi dos pelo sangue de Cristo, um povo em marcha,
chamado para levar a todos os homens a libertação definitiva que, acontecendo
já na História, terá sua plenitude somente na eternidade. É um povo de
servidores, no qual cada um desempenha sua função para o crescimento de todos
(cf. LG 9-17; P 232-237).
3.2.2.2. A
Igreja, comunidade a serviço da salvação do
mundo
207. A Igreja existe por
causa de sua missão: salvar. Ela mesma é fruto de salvação, pois nasceu do lado
aberto de Cristo na Cruz. Nascida como primeiro fruto dos acontecimentos
pascais, ela é enviada a salvar, torna-se sinal de Cristo entre os homens, meio
necessário de salvação, sacramento original e universal da redenção de Cristo,
porque expressa e realiza o encontro de Deus com os homens. Para isso ela é
induzida pelo Espírito Santo, dotada da Palavra, dos Sacramentos e de
Ministérios.
208. A Igreja, como instituição salvífica, se caracteriza por estas
notas:
a) É divina, mas está no mundo:
A Igreja tem uma missão de
diaconia, de serviço, em relação ao mundo, para levá-lo a Deus, através da
pregação, dos sacramentos e da atuação da caridade (cf. Jo 17,11-19).
209. b) É apostólica e
atual: fundada sobre os Apóstolos, a Igreja continua hoje; nela o velho e o
novo estão em contínua tensão, originando formas sem pre renovadas de adaptação
aos tempos, permanecendo fiel às suas origens. A apostolicidade da Igreja exige
uma dupla fidelidade: à doutrina apostólica que nos é transmitida pelas
Escrituras inspiradas, e aos Bispos, presididos pelo Papa, como sucessores dos
Apóstolos e legítimos intérpretes de sua doutrina. É apostólica, também, porque
quer reproduzir duas características dos Apóstolos: ficar com Jesus e pregar
(Mc 3,14). Toda a Igreja é chamada a realizar a Tradição: unir passado, presente
e futuro num enriquecimento contínuo; o que foi recebido pelos Apóstolos foi
enriquecido pelas gerações cristãs nestes 20 séculos, e a nossa geração está
dando também a própria contribuição: é a juventude perene da Igreja (cf. P
1178).
210. c) É católica e local: a Igreja é
católica, isto é, universal, por causa de sua missão de reunir todos os homens
em Cristocatólica e missionária são inseparáveis. A Igreja de Cristo está
verdadeiramente presente em todas as legítimas comunidades locais de fiéis que,
unidas com seus pastores, são chamadas, também no Novo Testamento, de Igrejas.
Nestas comunidades, embora muitas vezes pequenas e pobres ou vivendo na
dispersão, está presente Cristo, por cuja virtude se faz presente a Igreja una,
católica e apostólica.
A catolicidade da Igreja é
também manifestada pela variedade de suas Igrejas particulares ou Ritos, com
suas próprias instituições, ritos litúrgicos, tradições eclesiásticas e
disciplinas, mas unidos pela mesma fé, pelos mesmos sacramentos e pelo mesmo
sucessor de Pedro. A Igreja local é presidida pelo Bispo, princípio visível e
fundamento da unidade de sua diocese, portador da plenitude do sacerdócio; em
sua missão ele é auxiliado pelos presbíteros. Integrados neste Povo Universal,
as CEBs, verdadeira esperança da Igreja, tornam possível uma intensa vivência
da realidade da Igreja como família de Deus. Fazem experiência de novas e mais
profundas relações interpessoais na fé, de aprofundamento da Palavra de Deus,
de participação na Eucaristia, de comunhão com os pastores da Igreja particular
e de um maior compromisso com a justiça na realidade social dos ambientes em
que vi vem (cf. LG 26, 23; AG 20; P 645; 261-262; 239; 640; 629; OE 1, 2).
211. d) É una e múltipla: ela é una pela aceitação
do mesmo ensinamento apostólico, pela caridade e pela vida fraterna que tornam
seus cargos não títulos de honra, mas de serviço; é una, principalmente pelas
celebrações, mormente a Eucaristia. Mas a Igreja é também múltipla, pois a
Igreja universal e una se realiza nas Igrejas particulares. A unidade da Igreja
universal é garantida pelo Papa, perpétuo e visível princípio e fundamento da
unidade da fé e comunhão, sucessor de Pedro e vigário de Cristo, e cabeça
visível de toda Igreja (cf. LG 18-23).
212. e) É
santa e pecadora: a Igreja é santa porque Jesus Cristo, o Justo e Santo,
amou-a e santificou-a com sua entrega total; é santa por causa do Espírito
Santo santificador, que é sua alma, por causa de seus dons, dos sacramentos e
da caridade. Todos somos chamados a esta santidade. Mas a Igreja é também
peregrina, está a caminho daquilo que será na consumação dos tempos; ela
carrega em si ainda a marca do pecado, pois é feita de pecadores (cf. LG 11,32,
39-40; P 250, 251; 266).
3.2.2.3. A
Igreja, sacramento de comunhão
3.2.2.3.1
A dimensão comunitária da Igreja
213. A Igreja, como
sacramento universal da salvação, está inteiramente a serviço da comunhão dos
homens com Deus e do gênero humano entre si. Ela evangeliza, em primeiro lugar,
mediante o testemunho global de sua vida. Assim, na fidelidade à sua condição
de sacramento, trata de ser mais e mais um sinal transparente ou modelo vivo da
comunhão de amor em Cristo, que ela anuncia e se esforça por realizar.
214. A
fé sempre é vivida e transmitida dentro de uma comunidade: por isso a Catequese
é obra de toda comunidade. Cada membro da Igreja nasce para Deus, mediante o
Sacra mento do Batismo. Pela água, pela Palavra, pelo Espírito Santo e pela
adesão da pessoa à fé e à comunidade cristã, inicia-se o processo de conversão
permanente do cristão ao Senhor; ao mesmo tempo, começa a participar, como
membro da Igreja, na realização do Projeto Libertador de Deus na História.
215. Como batizados,
sentimo-nos atraídos pelo Espírito de Amor, que nos impele a sair de nós
mesmos, a abrir-nos para os irmãos e a viver em comunidade. Na união entre nós,
torna-se presente o Senhor Jesus Ressuscitado, que celebra sua Páscoa no meio
de nós. A experiência de comunidade de fé se concretiza de modo crescente na
família, nas pequenas comunidades eclesiais, nas paróquias que, em comunhão com
o Bispo, formam a Diocese (LG 1; P 272; 564; 565; 639-647).
3.2.2.3.2.
A dimensão comunitária e o pecado
216. A Igreja, ao
concretizar historicamente sua missão de ser sinal de comunhão e sacramento da
salvação, é dificultada pela ação do pecado que impede constantemente nosso
crescimento no amor e na comunhão. A marca do pecado se encontra tanto nos
corações dos homens como nas diversas estruturas por eles criadas. É importante
reconhecer tanto a forma do pecado pessoal como a do pecado social. Este é o
egoísmo e a injustiça que se cristalizam nas instituições e nas leis da
sociedade, criadas para satisfazer aos interesses de alguns em detrimento de
muitos outros.
São pecados diretamente contrários à verdadeira comunhão fraterna. Por
isso, a primeira opção pastoral da Igreja é a conversão cada vez mais profunda
ao Evangelho. De fato, animados pelo Espírito Santo, esperamos superar as
estruturas do pecado na vida pessoal e social e obter a verdadeira libertação
que vem de Jesus Cristo (cf. P 281; 973).
3.2.2.3.3. A dimensão comunitária e ecumênica
217. O Cristo Senhor fundou
uma só e única Igreja. Todavia, são muitas as Confissões cristãs que
reinvindicam para si o título de verdadeira Igreja de Jesus Cristo. Esta
divisão contradiz a vontade de Cristo, é escân dalo para o mundo e prejudica a
pregação do Evangelho. No entanto, por obra do Espírito Santo, surgiu na Igreja
o movimento ecumênico, visando edificar em Cristo a unidade de todos os
cristãos, e dele todos nós somos chamados a participar.
218. Teremos verdadeiro
espírito ecumênico se nós, sem deixar de professar que a plenitude das verdades
reveladas e dos meios de salvação instituídos por Cristo permanece na Igreja
Católica, vivemos nossa fé com sincero respeito, em palavras e obras, para com
as outras Igrejas e comunidades cristãs.
3.2.2.4. Os sacramentos, ações de Cristo na Igreja
219. Expressamos nossas
relações com Deus através das pessoas, gestos, palavras, sinais, símbolos,
silêncio; Deus igualmente os utiliza querendo se comunicar conosco. Toda a
criação é uma mediação, símbolo e sinal da manifestação de Deus. E o homem,
através dela, chega ao conhecimento básico do Senhor.
220. Jesus Cristo,
Mediador supremo entre
Deus e os homens, é
o mais perfeito e cabal SINAL
SENSÍVEL e EFICAZ da ação salvadora de Deus. Ele é a imagem do Deus invisível
(Cl 1,15). Portanto, ele é o Sacramento Primordial do Pai. Cristo Jesus, após
realizar historicamente a obra de nossa libertação e da perfeita glorificação
de Deus através de sua morte e ressurreição, enviou, com o Pai, o Espírito
Santo à sua Comunidade-Igreja, e por ela ao mundo.
Assim vivificada continuamente pela presença libertadora do Senhor
Ressuscitado, a Igreja é o Sacramento de Cristo, para comunicar a vida nova e
propor o Projeto de Deus aos homens e ao mundo, sendo ao mesmo tempo sinal e
testemunha.
221. Toda ação da Igreja
para o serviço do Reino participa, de certa forma, da sua sacramentalidade.
Mas, entre os múltiplos gestos da Igreja que são sinais visíveis da presença da
graça do Cristo entre os homens, a Igreja reconhece sete sacramentos
propriamente ditos. Cada um deles atualiza de modo original e específico a ação
da graça para uma determinada situação da vida humana: Batismo (nascimento,
entrada na vida divina e na Igreja); Eucaristia (alimentação da vida cristã,
participação no mistério da morte-ressurreição do Senhor); Confirmação ou
Crisma (participação do Espírito na missão comunicada à Igreja no dia de
Pentecostes; testemunho da fé no Cristo Ressuscitado); Reconciliação ou
Penitência (celebração do perdão após o pecado); Unção dos Enfermos (presença
da graça no sofrimento, doença, morte); Ordem (serviço cristão especial,
administração dos Sacramentos) e Matrimônio (amor conjugal, estabelecimento da
família cristã).
3.2.2.5. Os
sacramentos numa perspectiva integral
222. Sendo os Sacramentos
sinais sensíveis e eficazes da graça, visam sim, à nossa santificação, à
construção da Igreja, ao culto a Deus, mas vão mais longe, devendo repercutir
de forma dinâmica e libertadora nas relações interpessoais, na estruturação
mais justa da sociedade e na ação do homem sobre a História e o mundo. Por
serem sinais e símbolos, requerem uma iniciação, uma instrução, para serem
devidamente compreendidos e vividos. Supõem a fé, mas ao mesmo tempo a alimentam,
fortalecem e exprimem. Conferem a graça, mas simultaneamente nos preparam, para
que estejamos dispostos a acolhê-la melhor, tornando-se assim cada vez mais
eficaz em nós.
223. Os sacramentos
possuem eficácia santificadora porque prolongam, por instituição divina, o
mistério pascal, morte e ressurreição do Senhor. Neste sentido, todos eles não somente a Eucaristia são o memorial da morte e ressurreição.
Porque memorial, evocam o acontecimento salvífico, fazem-no presente à nossa fé
como mistério sempre atual e eficaz à espera da realização futura do Reino. No
entanto, os sacramentos não produzem efeitos mágicos. Supõem, nos que os
recebem, disposições interiores. Assim, a fé em Jesus Cristo é exigida,
fundamentalmente, para o Batismo e deve prolongar-se em todos os demais
sacramentos. A conversão sincera e a confissão dos pecados são indispensáveis
na Penitência. A pureza da consciência exige-se na participação,
principalmente, da Eucaristia. E a intenção de efetuar um contrato uno e
indissolúvel em ordem à geração de novas vidas, é imprescindível no matrimônio
(cf. P 920-923; SC 38).
3.2.2.6. Igreja, sacramentos e liturgia
224. Constituída em seu
núcleo central pela celebração dos Sacramentos (o que supõe também a celebração
da Palavra de Deus), a Liturgia é vivida também nos sacramentais, na Liturgia
das Horas e nas orações comunitárias do Povo de Deus. A Liturgia, como ação de
Cristo e da Igreja, é o exercício do Sacerdócio de Jesus Cristo. Assim, nossa
oração unida à de Cristo constitui-se como culto público e integral a Deus. A
Liturgia é o ápice e a fonte da vida da Igreja, um encontro com Deus e os
irmãos. Nela celebramos o mistério da presença operante de Deus em nossa
caminhada, a ação de Deus em nosso dia-a-dia, o esforço de libertação total.
Por isso, ela é também força em nosso peregrinar, para que levemos a bom termo,
mediante o compromisso transformador da vida, a realização plena do Reino,
segundo o plano de Deus (cf. SC 5, 6, 7; P 917-918; SC 10).
225. A nossa
Liturgia organiza e
vive a celebração dos grandes
mistérios da fé
através do ano
Litúrgico, tendo como centro
e fundamento a
celebração da PÁSCOA.
Na veneração dos Santos,
particularmente de Maria,
a Igreja celebra o mistério pascal vivido por eles e proposto para nós
como exemplo (cf. SC 102-104).
3.2.2.7. A Eucaristia, centro de toda a vida
sacramental
226. A Eucaristia é a
renovação da Aliança do Senhor conosco, seu Povo; perpetua o sacrifício da Cruz,
realizando de modo contínuo a obra da Redenção; é sacramento de piedade, sinal
de unidade, banquete pascal, em que Cristo nos é dado, força para nossa
caminhada, prelibação dos bens futuros. Ela contém todo o bem espiritual da
Igreja e a ela se ordenam todos os demais sacramentos e todos os ministérios
eclesiais.
Por ela deve iniciar-se toda a educação ao espírito comunitá rio, pois
significa e realiza a unidade da Igreja. Por ela a Igreja continuamente vive e
cresce, fazendo acontecer sempre mais a Aliança em Cristo com Deus e
provocando-nos para o amor-justiça, tanto para a partilha dos bens e dos dons,
como para a entrega de nós mesmos, até ao martírio, se preciso for, a exemplo
do Mártir Maior, Jesus Cristo.
227. Por isso, a Eucaristia
é o centro e o ponto culminante de toda a vida sacramental, fonte e ápice de
toda a vida cristã e de toda a evangelização, raiz e centro da comunidade
cristã.
228. Como fonte, a
Eucaristia é dom inesgotável de Deus; como ápice, é a meta proposta de toda a
comunidade. Entre o dom e a realização do ideal, há uma caminhada a ser feita pelos cristãos: é o caminho da
integração fé-vida, da realização da comunhão no dia-a-dia, é a celebração da
Liturgia da vida.
229. Assim a comunidade
cristã se esforçará para celebrar a Eucaristia principalmente no domingo, como
Dia do Senhor, celebração da Páscoa semanal, fundamento e núcleo do Ano
Litúrgico (cf. SC 106). Esse dia deve ser guardado como de preceito e celebrado
com particular solenidade (cf. Cân 1246 e 1247). Também quando os fiéis se
reúnem sem padre, em nossas comunidades, para celebrar o Dia do Senhor,
alimentando a sua vida cristã com o Pão da Palavra de Deus, estão unidos à
celebração da Eucaristia na Paróquia. Cresce essa união e participação real
através da atuação dos Diáconos Permanentes e dos ministros não ordenados,
autorizados a conservar e distribuir a Sagrada Comunhão às pessoas devidamente
preparadas.
3.2.2.8.
Maria, Mãe de Deus e modelo da Igreja
230. Não se pode falar de
Igreja sem que esteja presente Maria. Esta verdade é testemunhada pelas nossas
comunidades de fé, para as quais Maria é a realização mais alta do Evangelho, o
grande sinal, com rosto materno e misericordioso, da proximidade do Pai e de
Cristo, com quem ela nos convida a entrar em comunhão.
Em suas alegrias e sofrimentos o nosso povo se identifica profundamente
com Maria, de modo que ela se torna a mediação mais completa da vivência
evangélica. A Igreja, instruída pelo Espírito Santo, venera Maria como Mãe
muito amada com afeto e piedade filial. A sagrada Escritura mostra como em
Maria se instaura a vitória definitiva sobre o demônio (cf. Gn 3,15). Ela é a
nova Eva, que no sim obediente (cf. Lc 1,38) vence o não da primeira Eva. É a
primeira a crer (cf. Lc 1,45) e misteriosamente é associada à Redenção (Jo
2,1-11; 19, 25-27).
231. Maria é Mãe de Deus,
Mãe de Jesus Cristo no seu sim da anunciação. É Mãe da Igreja, porque é Mãe de
Cristo, Cabeça do Corpo Místico. Além disso, é nossa Mãe, por ter cooperado com
seu amor no momento em que do coração trespassado de Cristo nascia a família
dos redimidos; por isso, é nossa Mãe na ordem da graça.
232. Maria não vela apenas
pela Igreja: tem coração tão grande quanto o mundo, e intercede ante o Senhor
da História por todos os povos. Enquanto peregrinamos, Maria será a Mãe e a
educadora da fé. Ela cuida para que o Evangelho penetre intimamente em nossa
vida e nossa cultura, e produza em nós frutos da santidade.
233. Maria é modelo de
vida cristã, pois toda a sua existência é uma plena comunhão com o Filho, uma
entrega total a Deus em todos os seus caminhos, numa união única que culmina na
glória. Acreditou com uma fé que foi dom, abertura, resposta, fidelidade. O Magníficat
espelha sua alma vazia de si mesma e plena de confiança no Pai. É o poema da
espiritualidade dos pobres de Javé e do profetismo da Antiga Aliança; modelo
daqueles que não aceitam passivamente as circunstâncias adversas da vida
pessoal e social, e não são vítimas da alienação, mas antes proclamam com ela
que Deus exalta os humildes e depõe do trono os soberbos.
234. Sua Virgindade,
amor-doação ao Senhor, foi inseparável da fé, pobreza, obediência, e assim
tornou-se fecunda pelo Espírito Santo. No mistério da Igreja, esta Virgindade
materna reúne duas realidades: Maria é toda de Cristo e toda servidora dos
homens. Assim quer ser a Igreja: unida a Cristo e Mãe de todos os homens.
235. A Imaculada Conceição
nos apresenta a face do homem redimido, em que se refaz mais misteriosamente
ainda o projeto do paraíso. A Assunção manifesta o destino do corpo santificado
pela graça, a criação material participando do corpo ressuscitado de Cristo, e
a integridade humana, corpo e alma, reinando após a peregrinação da História.
236. Em Maria, o Evangelho
penetrou a feminilidade, remiu e exaltou-a, dignificando extraordinariamente a
mulher. Maria é bendita entre todas as mulheres.
237. Enquanto em
Maria a Igreja
já atingiu a
perfeição pela qual existe
sem mácula e
sem ruga, em
nós, cristãos, ela ainda se
esforça para crescer
em santidade, vencendo o pecado. Por isso, eleva
seus olhos a
Maria que refulge
para toda a comunidade
dos eleitos como exemplo de virtude (cf. MC 28; P 282;
286-290; 292-294; 296-299; LG 65).
3.2.3. A verdade sobre o homem
3.2.3.1. O
homem renovado em Jesus Cristo
238. Deus criou o homem
para que participasse da comunidade divina de amor. Pelo pecado, ele se afastou
de Deus, mas Jesus Cristo o resgatou, fez dele uma nova criatura, filho de
Deus, irmão de todos os homens, senhor do universo e herdeiro da vida eterna.
Assim, Jesus Cristo, Redentor do mundo, impregnou de maneira tão singular a humanidade,
que só no mistério do Verbo encarnado se esclarece verdadeiramente o mistério
do homem. O Filho de Deus, fazendo-se homem, uniu-se de certo modo a cada homem
(cf. P 182, 322; RH 8; GS 22).
3.2.3.2. O homem, cooperador de Deus no plano da salvação
239. A vida do homem é dom
de Deus, mas é também compromisso, pois Deus, que nos criou sem nossa
participação, não nos salva sem nossa cooperação (Sto. Agostinho). Ao longo da
história da salvação, Abraão e Mois és, Davi e os Profetas, Maria e os
Apóstolos, todos os cristãos, a Igreja inteira, respondendo livremente ao apelo
de Deus, tornaram-se seus colaboradores para a salvação da humanidade. Também
nós, hoje, somos chamados a nos tornar co-responsáveis da nossa libertação e do
nosso destino. Temos consciência que mesmo esta capacidade de responder e
colaborar com nossa salvação, é igualmente dom do amor de Deus por nós.
3.2.3.3. Grandeza da liberdade humana e cristã
240. Nós fomos
dotados por Deus com o dom da liberdade, o que dignifica sobremaneira
nossa condição humana. Ferida pelo pecado, nossa liberdade foi redimida por
Cristo; ele restaurou a dignidade original que tínhamos recebido ao sermos
criados por Deus à sua imagem. É o amor de Deus que nos dignifica radicalmente;
em nós ele se traduz necessariamente em comunhão com os outros homens e
participação fraterna. Por isso, a exemplo de Jesus Cristo, nosso amor se
manifesta concretamente para com os injustiçados e no esforço de libertação dos
oprimidos (cf. P 331, 324, 327).
3.2.3.4. Dignidade
da consciência moral
241. Iluminados pelo
Evangelho, revalorizamos os grandes
traços da verdadeira
imagem do homem
e da mulher. Sendo todos fundamentalmente iguais, membros da
mesma estirpe, apesar da
diversidade de sexos,
línguas, culturas e formas de
religiosidade, temos por
vocação um único
destino. Nesta pluralidade, cada
pessoa tem sua
missão e seu
valor irrepetíveis no destino
comum. Embora condicionado por processos sociais, econômicos e políticos, o
homem não está a eles submisso, mas tem a missão de humanizá-los. Está, ao
invés, submisso a uma lei moral que vem de Deus e capacita a consciência dos
indivíduos e povos a viverem a liberdade verdadeira dos filhos de Deus (cf. P
334-335; GS 16; IM 6).
3.2.3.5. O pecado
do homem
242. Quando o homem age
contra sua consciência e contra Deus, ele peca, ofende a Deus e degradando-se a
si mesmo. É o maior dano que a pessoa pode causar-se a si mesma e aos demais,
pois o pecado pessoal sempre tem conseqüência também em nível social (cf. nº
182-183). As situações de pecado corróem a dignidade do homem, são causa da
miséria e escravidão, raiz e fonte de opressão, injustiça e discriminação, limitam
a liberdade de todos (cf. P 328, 330, 73, 70, 186, 517).
3.2.3.6. Reconciliação
com o Pai em Cristo
243. Quem nos pode
libertar dessa condição de pecado? Jesus Cristo, assumindo todas as nossas
situações, carregou o peso de nossos pecados e quis ser a vítima decisiva da
injustiça e do mal deste mundo. Através de sua morte e ressurreição, ele nos
deu a vida divina: Morreu pelos nossos pecados e ressuscitou para nossa
justificação (Rm 4,25). Ele permanece vivo e atuante em sua Igreja (sobretudo
entre os mais pobres), continuando a obra de nos reconciliar com o Pai. De
fato, através do Espírito Santo que ele infundiu em nossos corações, podemos
chamar a Deus de Pai e nos tornamos radicalmente irmãos. Ele nos faz tomar
consciência do pecado contra a dignidade humana, contra o universo, contra o
Senhor.
Fortifica também nossa liberdade, para que possamos reconciliar-nos
conosco, com os outros, com a natureza e com ele, através da Igreja. Esta
reconciliação através da Igreja, é o sinal de nossa reconciliação com o Pai: é
o sacramento da reconciliação ou penitência que faz chegar ao homem o
amor-misericórdia de Deus e o perdão dos outros. Nesse processo, a libertação
do pecado exige também a coerência na libertação das conseqüências do pecado em
nosso íntimo, em nossa interrelação com os outros e na maneira como
estruturamos a sociedade (tantas vezes estruturada a partir e em função do
pecado). Assim terá sentido nossa oração: Perdoai as nossas ofensas, como nós
perdoamos a quem nos tem ofendido (cf. P 194, 329, 330; RH 1).
3.2.3.7. O
mistério da morte e da vida eterna
244. O Filho de Deus,
encarnando-se, assumiu a condição humana, menos o pecado, para levá-la à
plenitude. Neste processo, ele assumiu e superou os sofrimentos e a morte. A
Igreja celebra a vitória de Cristo sobre a doença e a morte, com o sacramento
da Unção dos Enfermos, enraizando-as na Cruz-Ressurreição e projetando-as para
a felicidade eterna. Com este Sacramento, a força da graça alivia o sofrimento,
santifica o enfermo e lhe dá coragem para a luta contra a doença, anunciando a
vitória pascal da morte cristã.
245. Jesus Cristo,
assumindo a morte, destruiu a nossa; destruindo em nós o pecado, salvou-nos da
morte eterna. O plano de nossa salvação não se detém na redenção do pecado, mas
confere uma graça superabundante em relação à condenação trazida pelo pecado
(cf. Rm 5,17). Assim, sabemos que, embora submetidos à morte física, pela força
da vida divina que nos foi dada no Espírito Santo, somos destinados à vida
eterna. Deus, no entanto, respeita nossa liberdade, se não queremos aceitar o
seu amor e a sua proposta de salvação, e livremente nos afastamos de seu
caminho. O homem que faz esta opção radical e morre nesta situação, permanece
eternamente afastado de Deus: é o que chamamos de inferno ou morte eterna, isto
é, a total frustração da vida humana, devido à perda do amor de Deus.
Esforçando-nos por viver as exigências do Reino, após a morte passando pela
purificação (purgatório) quando necessário, somos confirmados no amor de Deus:
é a bem-aventurança eterna.
Nela viveremos em plenitude com Deus aquela vida de comunhão que, em
germe, agora procuramos viver com os irmãos. Por isso, nossa vida mortal não
nos é tirada, mas transformada, e desfeita nossa habitação terrena nos é dada
nos céus uma eterna mansão (cf. DCG 62; prefácio litúrgico).
3.3. Os compromissos do cristão
3.3.1. A fé,
resposta do homem a Deus, expressa na fraternidade
e no culto
246. A fé cristã é nossa
resposta livre e pessoal à Palavra de Deus, que nos interpela em Jesus Cristo
locamos o fundamento último de nossa existência em Deus; ela é também adesão da
inteligência que, através de sinais e palavras, chega às realidades que não se
vêem (Hb 11,1).
247. A nossa resposta de
fé é, antes de tudo, obra de Deus, não só porque Deus tem de fato a iniciativa
em vir ao encontro das expectativas do homem, mas sobretudo porque o ato mesmo,
com o qual o homem acolhe sua Palavra, se encontra sob a moção do Espírito
Santo e por isso é fruto da graça.
248. Ter fé significa
colher nas coisas, acontecimentos e pessoas, o apelo de Deus que oferece sua
Aliança de comunhão em Cristo. Longe de se identificar com uma ideologia, a fé
cristã é adesão à pessoa de Jesus Cristo, à sua mensagem de libertação e
salvação; ela tem uma tarefa crítica e profética diante das situações
contingentes da História. Não consiste apenas em adesão a um credo ou
princípios morais, mas também e principalmente, em atitudes, ou seja, na adesão
a Deus e a seu plano de salvação e no compromisso com os irmãos, incluindo a
responsabilidade social.
Uma fé pessoal e adulta é operante e constantemente confrontada com os
desafios de nossa realidade. É uma fé animada pela caridade (cf. Gl 4,6; 1Jo
4,7-21) e está presente no compromisso social como motivação, iluminação e
perspectiva teológica, que dá sentido integral aos valores da dignidade humana.
249. O Sacramento da
Crisma ou Confirmação conferido na adolescência, juventude ou começo da idade
adulta, por motivos pastorais, significa uma confirmação da fé batismal. O
cristão, fortalecido pelo dom do Espírito Santo que recebe no sacramento,
assume consciente, esclarecida, coerente e generosamente, de modo pessoal e comunitário,
as exigências do Batismo, num compromisso adulto com a comunidade eclesial,
presidida pelo Bispo que confere o sacramento, e com a transformação social
segundo o Projeto de Deus, numa consagração mais amadurecida do Senhor.
250. Não se vive a fé
apenas individualmente, mas em comunidade; a fé do cristão cresce na medida em
que ele caminha com a comunidade na busca e cumprimento da vontade de Deus.
Isto exige uma atitude de constante conversão, e por isso ela é a primeira
opção de toda a comunidade eclesial. A Catequese existe em função dessa
conversão e permanente crescimento na fé.
251. Através de um
conjunto de sinais, nós celebramos a fé, na Liturgia, como encontro com Deus e
com os irmãos, festa de comunhão eclesial e fortalecimento em nosso caminhar e
compromisso de nossa vida cristã (cf. DCG 64; SC 7; P 939, 973; Med 7,10; 713;
10,10; 6,9; 613).
3.3.2. O cristão na construção da História
252. A nossa comunidade
transforma-se num lugar onde, vivendo a fé, nos educamos para fazer a História,
para levar eficazmente com Cristo a História de nosso povo até ao Reino. Cremos
que o projeto de Deus a nosso respeito é que sejamos os construtores da
História; assim fugimos da tentação do secularismo, que concebe a construção da
História como responsabilidade exclusiva do Homem, e da tentação oposta, dos
que crêem não poder e não dever intervir, esperando que só Deus atue e liberte.
253. Cristo ressuscitado é o Senhor da História. Ele está conosco, e,
pela sua presença em nossa História humana, toda ela assume o sentido pleno de
realização do desígnio salvador de Deus. Toda ação humana na História tem,
assim, uma referência objetiva à salvação.
254. Assumindo sua Cruz,
Jesus Cristo converteu seus sofrimentos em fonte de vida pascal. Para que
também nós sejamos capazes de transformar nossas dores e as dos nossos irmãos
em crescimento para uma sociedade de participação e fraternidade, a Igreja
precisa educar homens capazes de forjar a História segundo a práxis de Jesus,
isto é, numa atitude de total confiança e doação ao Pai e de máxima
co-responsabilidade e compromisso transformador da História.
255. Essa atitude eclesial
é celebrada e alimentada na Eucaristia. Fazendo memória sacramental do gesto de
Cristo que entrega seu corpo e seu sangue pela vida do mundo, a comunidade
cristã rememora também o sacrifício de todos quantos, seguindo o seu Mestre,
dedicam sua vida à libertação dos irmãos e aprendem a viver cada vez mais
plenamente a sua vocação de serviço à libertação total do homem, que tem seu
centro e sua fonte na morte e ressurreição do Senhor (cf. P 197, 274-279, 435,
436; ECOP 2).
3.3.3. O cristão
na comunidade eclesial
256. A comunidade
eclesial, Sacramento do Cristo Salvador no mundo de hoje, é formada de seres
ainda em busca da perfeição. Divina, porque obra do Espírito Santo, nela sempre
presente, a Igreja é também humana e conseqüentemente pecadora. Enviada a
evangelizar e testemunhar o Reino, ela precisa continuamente auto-evangelizar-se
e converter-se. O esforço de santificação de cada um e de todos a constrói e a
aperfeiçoa. Cada membro do Corpo eclesial é responsável pelo bom andamento do
todo (cf. 1Cor 12), e o corpo sadio ajuda o crescimento de cada um. A comunidade
cristã primitiva (At 2,42-47; 4,32-35) é
modelo para qualquer comunidade eclesial, e, obviamente, para a
Catequese renovada.
257. Na comunidade
eclesial todos têm a vocação comum de construí-la e de torná-la cada vez mais
eficaz em sua missão libertadora e salvadora junto ao mundo. Pelo Batismo e
Crisma, cada cristão assume sua fé, sua participação na comunidade, seu
engajamento na transformação da sociedade no amor e na esperança. As vocações,
no interior da Igreja, realizam a complementariedade de membros do mesmo corpo:
uns como leigos, outros como ministros, ordenados ou não, outros como
religiosos.
258. O Sacramento da Ordem
assinala alguns membros da Igreja com a graça e o caráter específicos e em
diversos graus e funções (Bispos, Presbíteros, Diáconos), destinando-os a
certos serviços (ministérios) fundamentais: apascentar o Povo de Deus, a
exemplo de Jesus, o Bom Pastor, dirigindo e animando as comunidades, garantindo
a presença atuante de Cristo pelo anúncio da Palavra e a celebração da
Liturgia, especialmente da Eucaristia; e fazer a comunhão vital das comunidades
a que servem com a Igreja católica e apostólica.
O
ministério dos Bispos, presbíteros e diáconos é uma participação especial no
sacerdócio de Cristo, participação que difere essencialmente do sacerdócio
comum dos fiéis. Os Bispos, possuindo a plenitude da Ordem, e os presbíteros
como seus colaboradores imediatos se configuram com Cristo Cabeça e estão a
serviço de Cristo na sua função de Chefe da Igreja.
259. Os religiosos são
cristãos com vocação específica, consagrados pelo Senhor para o profetismo da
vida cristã, no celibato, na simplicidade de vida, na obediência no sentido
evangélico da entrega radical de si ao Se nhor e às causas do Reino,
testemunhando o absoluto de Deus em suas vidas e na contingência da História
(cf. P 644, 648, 853, 690-693; CT 24; LG 10; CNBB, Doc. 20,181).
3.3.4. O cristão e a família
260. Na família cristã, em
seu esforço de ser Igreja doméstica, somos chamados à primeira experiência de
comunhão na fé, no amor e no serviço ao próximo. Pela força libertadora do
Evangelho, a família cristã torna-se escola do mais rico humanismo.
261. A lei do amor
conjugal é comunhão e participação, e não dominação. O matrimônio deve ser uma
exclusiva, irrevogável e fecunda entrega à pessoa amada, sem perder a própria
identidade. Tão profunda é esta aliança, que é apresentada como símbolo da
união existente entre Cristo e a Igreja (Ef 5,25-33).
262. Os cristãos chamados
a viverem no Matrimônio devem buscar a plenitude de sua humanidade como
expressão do amor mútuo, como colaboração com Deus na transmissão da vida
humana, na educação integral da pessoa e como serviço à causa do Reino. Assim,
pela vivência da graça matrimonial, denunciam a idolatria do prazer e o
fechamento egoístico do casal, ou mesmo da família, que rompem o Sinal do Amor
e do Serviço.
263. A vida conjugal e
familiar não estão isentos de dificuldades. A força do Matrimônio e de outros sacramentos,
a força de uma forte espiritualidade conjugal e familiar e o apoio da
comunidade cristã, ajudam o casal e a família a superarem, na fé, as várias
situações de conflito, de dificuldades na educação dos filhos, de tentações de
todos os tipos. Vive-se, assim, concretamente a comunhão com o mistério da
paixão-morte-ressurreição (amor-doação de Cristo), na espera da realização
plena do amor e da felicidade que se busca no matrimônio e na família (cf. GS
40-50; P 582; 585; 589; 639).
3.3.5. O cristão
e o trabalho
264. O cristão trabalha,
não somente por necessidade, mas para responder conscientemente à ordem do
Criador: Dominai a terra (Gn 1,28). Esta convicção nos faz perceber que o
trabalho humano não é apenas útil, mas também digno, ou seja, dignifica o homem
e exprime sua dignidade. Assumindo-o como uma vocação, transformamos a natureza
sem desrespeitá-la e nos realizamos como pessoas no campo familiar, social,
nacional e internacional.
265. Quem dá a medida do
trabalho é o próprio homem, que é o seu sujeito, autor e fim. Construímos a
sociedade sabendo que o trabalho é para o homem e não o homem para o trabalho.
Superamos assim qualquer ideologia que queira fazer do trabalho apenas um
instrumento de lucro e que leve à dominação e exploração do próprio homem. E
isto porque acreditamos que a matéria prima do trabalho nos é dado como dom,
pois no princípio do trabalho humano está o mistério da criação, colocada à
disposição de todos para usofruto na justiça e fraternidade.
E
Cristo, que caminha em nosso meio, transforma nosso trabalho em gesto
litúrgico, tornando-nos protagonistas com ele na construção da convivência e
das dinâmicas humanas, que refletem o mistério de Deus e constituem sua glória
vivente. Na Eucaristia, máxima celebração de nossa fé, nos é dado usar os
frutos da terra e do trabalho do homem (cf. LE 6,7,9,10,12; P 213; GS 67).
3.3.6. O cristão e a política
266. A Igreja sempre deu
primazia ao amor fraterno como característica fundamental da vivência da fé no
Deus de Jesus Cristo. Devido às condições específicas da organização da
sociedade no mundo moderno, percebemos que o amor fraterno não pode ser vivido
só no âmbito interpessoal, isto é, não se pode viver o amor pelo outro a não ser
criando estruturas sociais e promovendo uma política global, que permita de
fato reconhecer os direitos de cada pessoa e garantir as condições de vida que
a dignidade humana exige.
267. Por isso a Igreja
acredita que a fé deve ordenar toda a vida do homem e todas as suas atividades,
também as que se referem à ordem política: esta ordem está sujeita à ordem
moral. A Igreja, iluminada pela fé, procura definir com sempre maior clareza as
exigências que da ordem moral decorrem para a ordem política.
268. A política, enquanto
atividade que concretiza a responsabilidade de todos pelo bem comum, é dever de
todos na Igreja. Enquanto atividade partidária, isto é, que busca os meios e
estratégias para a realização dos grandes objetivos, é campo próprio dos
leigos.
269. Concretamente, a
atitude do cristão diante da política deve ser: Participação de cada um segundo
suas possibilidades. A omissão ajuda a perpetuação de injustiças. Participando
consciente e concretamente em atividades que visem ao bem comum, estamos
exercendo nossa função política. E a isto todos somos chamados, não só como
cidadãos, mas, acima de tudo, motivados pela fé.
270. Estudo dos programas
dos partidos para chegar a uma opção consciente, lembrando que nenhum partido,
por mais inspirado que seja na doutrina da Igreja, pode arrogar-se à
representação de todos os fiéis, já que seu programa concreto nunca poderá ter
valor absoluto para todos.
Respeito pelos outros,
evitando extremismos e unilateralismos. Não
podemos esquecer que
o pluralismo é
indispensável à expressão
política, e que
o Evangelho nos convida a
renunciar a toda
violência, mesmo verbal e sutil
(cf. P 327, 521-524; ECOP 4-5).
3.3.7. O cristão em face da pobreza
271. A evangelização dos
pobres foi para Jesus um dos sinais messiânicos, e será também para nós sinal
de autenticidade evangélica. Por isso, o compromisso evangélico na Igreja deve
ser como o de Cristo: um compromisso com os mais necessitados. Por esse motivo,
os pobres merecem de todos nós uma atenção preferencial, seja qual for a
situação moral ou pessoal em que se encontrem. Criados à imagem e semelhança de
Deus para serem seus filhos, essa imagem é obscurecida e até escarnecida. Por
isso Deus toma sua defesa e os ama.
272. Esse compromisso com
os pobres e oprimidos nos ajudará a descobrir seu potencial evangelizador:
constantemente eles nos interpelam, chamando-nos à conversão, pois muitos deles
realizam em sua vida os valores evangélicos de solidariedade, serviço,
simplicidade e disponibilidade para acolher o dom de Deus. Isso nos ajudará a
redescobrir o extraordinário valor da pobreza evangélica ou cristã, que une a
atitude de abertura confiante em Deus com uma vida simples, sóbria e austera,
que aparta a tentação da cobiça e do orgulho. Dessa maneira praticaremos mais
facilmente a comunicação e participação dos bens materiais e espirituais, e a
abundância de uns remedeia a necessidade de outros.
273. A exigência evangélica
da pobreza, como solidariedade com o pobre e como rejeição da situação em que
vivem, liberta o pobre de ser individualista em sua vida e de ser atraído e
seduzido pelos falsos ideais de uma sociedade de consumo. E o testemunho de uma
Igreja pobre pode evangelizar os ricos, que têm o coração apegado às riquezas,
convertendo-os e libertando-os dessa escravidão e de seu egoísmo. Essa
conversão traz consigo a exigência de um estilo de vida austero e uma total
confiança no Senhor, já que na sua ação evangelizadora a Igreja contará mais
com o ser mais e o poder de Deus e de sua graça, do que com o ter mais e o
poder secular.
Assim apresentará uma imagem autenticamente pobre, aberta a Deus e ao
irmão, sempre disponível, onde os pobres têm capacidade real de participação e
são reconhecidos pelo valor que têm (cf. P 1134-1165; 707; 733-735; 769; 1130).
3.3.8. O
cristão e a promoção da justiça, da dignidade humana, do
desenvolvimento integral e da paz
274. A libertação do pobre
não se realizará sem a construção de uma sociedade mais justa, pois a raiz da
pobreza é social. Neste sentido nós, como Igreja, apoiamos e desenvolvemos as
organizações de defesa e de luta pelos direitos humanos, empenhando-nos para
que se orientem por princípios e critérios cristãos; através dessas
organizações, os pobres chegam a conscientizar-se e a assumir a própria
libertação.
275. Por isso o cristão,
no esforço constante de crescer na fé, procura empenhar-se na libertação
integral, trabalha pela realização de uma sociedade mais solidária e fraterna,
luta pela justiça e pela construção de uma paz que não seja mera ausência de
conflitos, mas sim uma paz alicerçada na justiça. Mas também condena a
violência como atitude não cristã e afirma que as transformações bruscas e
violentas das estruturas são enganosas e ineficazes. Nossa responsabilidade de
cristãos é promover de todos os modos os meios não-violentos e evangélicos para
restabelecer a justiça nas relações sócio-políticas e econômicas. Assim, possuindo
a criatividade do Espírito que nos move com seu dinamismo, buscamos construir
uma nova ordem nacional e internacional, que favoreça o surgimento de um Homem
Novo, à imagem de Jesus Cristo.
276. Participamos também no
diálogo e no trabalho com os que colaboram na construção da sociedade,
particularmente com aqueles que têm poder decisório. Isso não exclui o re
conhecimento do valor construtivo das tensões sociais que, dentro das
exigências da justiça, contribuem para garantir a liberdade dos direitos,
especialmente dos mais fracos (cf. P 533-534; 1254-1293; 1296; 1226; 1228;
1308-1309; 1188).
3.3.9. O
cristão em face do pluralismo
277. Nossa comunidade
cristã vive num país com radical substrato católico, o que constitui um traço
fundamental de identidade e unidade; mas, ao mesmo tempo, presenciamos entre
nós um crescente pluralismo religioso e ideológico. O cristão católico deve
viver sua fé em diálogo com essas diversas manifestações religiosas e
culturais.
278. O esforço de
diálogo ajudará os
católicos a aprofundarem a própria
fé e identidade, e a
conhecerem melhor os não-católicos, auxiliando-os a conhecerem e apreciarem a
Igreja Católica e
sua convicção de ser Sacramento da Salvação. De fato,
a Igreja evangelizadora propõe a mobilização de todos os homens de boa
vontade, principalmente os que professam a mesma fé em Cristo, para que, com
novas esperanças, unam esforços
e progressivas convergências, a
fim de construir a civilização do amor e edificar a paz na justiça (cf. P 7, 1300, 1099, 1114, 1115,
1251, 1252, 1188; DCG 27; CT 32, 33; P
304).
3.3.10. Esperança escatológica e comunhão final
com Deus
279. A caminhada terrena
da comunidade cristã não se faz na incerteza, pois já possuímos na esperança
aquilo que possuiremos em plenitude na consumação da História. Por isso, embora
peregrinos, caminhamos com segurança, e disso damos testemunho. O caminho que
percorremos já foi percorrido por Cristo, pelos Santos, especialmente pelos
santos da América Latina: os que morreram defendendo a integridade da fé, a
liberdade da Igreja e ser vindo aos pobres. A luz pascal de Cristo
ressuscitado, de Nossa Senhora da Glória e dos Santos nos ilumina, nos
fortifica e nos aponta a meta final da existência: a realização plena daquela
comunhão com Deus, que agora vivemos pela presença do Espírito Santo em nós e
pela vida de comunhão com os irmãos.
Por isso nós, ainda peregrinos e conscientes de nossa fragilidade, meditamos
o caminhar e a consumação da História, às vezes trágicos, sob o signo da
consolação, de esperança e de salutar temor (1Ts 4,18), e assim assumimos nossa
parcela de responsabilidade no tocante à nossa sorte futura.
280. Somente no
encontro definitivo com
o Pai, para além da morte, acharemos a plenitude de comunhão que seria
utópico procurar no tempo. Enquanto a Igreja espera a união consumada com seu
esposo divino, o Espírito e a Esposa dizem: VEM, SENHOR JESUS (Ap 22,17-20)
(cf. P 265, 298, 209, 210; DCG 67).
IV PARTE
A COMUNIDADE CATEQUIZADORA
281. A Catequese é um
processo dinâmico e abrangente de educação da fé, um itinerário, e não apenas
uma instrução. Na Igreja primitiva, já encontramos essa concepção de Catequese
no catecumenato, onde o ensino da Doutrina dos Apóstolos está unido a uma
vivência comunitária, à liturgia e a uma prolongada iniciação à vida cristã em
diversas etapas.
282. Puebla afirma que
devemos empenhar-nos, como educadores da fé das pessoas e comunidades, numa
metodologia que inclua, sob forma de pro cesso permanente por etapas
sucessivas, a conversão, a fé em Cristo, a vida em comunidade, a vida
sacramental e o compromisso apostólico (P 1007).
283. Para uma verdadeira
Catequese, não basta planejar o bom andamento de um conjunto de temas.
Trata-se, a partir das exigências expostas, de promover a integração da
caminhada da comunidade cristã com a mensagem evangélica.
284. É longa essa nossa
caminhada à procura do conhecimento e do seguimento de Jesus Cristo. A sua
palavra: sejam perfeitos como o Pai é perfeito (Mt 5,48), nunca chega a
realizar-se plenamente em nossa vida. Por isso, jamais poderemos parar. A
caminhada na educação da fé deve durar a vida toda. Não pode limitar-se a
ocasiões e lugares. A Palavra nos chama sempre de novo para a mudança de vida e
para a construção do Reino de Deus na vida pessoal, na comunidade e no mundo.
285. No que segue, veremos
como grupos podem caminhar e desenvolver-se para sempre mais se tornarem
comunidades catequizadoras: é mais ou me nos seguindo estes passos, que muitas
Comunidades Eclesiais de Base se formaram no Brasil.
286. Apresentamos uma
descrição lógica e idealizada, que nem sempre se verifica desta forma na realidade.
287. Depois examinaremos
também como agir no caso de ainda não haver comunidade.
4.1.
Exemplo de itinerário catequético de uma comunidade
288. Numa caminhada de
comunidade, podemos observar inicialmente que vários elementos estão presentes
e interagem. Para fins didáticos, focalizamos aqui somente quatro elementos:
a união entre os membros, a abordagem da
realidade, a vida eclesial e a explicitação da fé.
Tais elementos crescem e caminham quando a comunidade caminha. Cada um
exerce influência nos outros. Não podemos determinar antecipadamente qual deles
caminha primeiro e quanto tempo leva para dar um passo à frente. Cada
comunidade tem sua história, própria que deve ser respeitada.
289. 4.1.1 Começa a reunir-se um grupo de pessoas,
geralmente de classe popular. As ocasiões que o levam a isso podem ser muitas:
Novena de Natal, círculos bíblicos, grupos de preparação do batismo etc. Entre
essas pessoas começa a nascer amizade. Elas se reconhecem como membros de um
grupo. Visitam-se, cumprimentam-se na rua; colocam em comum e discutem entre si
seus problemas pessoais e familiares. A vida eclesial ainda não tem muitas
manifestações: a mais presente é a oração em comum, a leitura da Palavra de
Deus.
290. Neste primeiro
passo, a explicitação da fé consiste numa geral e pouco aprofundada fé em Deus
Pai e em Jesus, e numa devoção a Nossa Senhora e aos Santos. É uma fé cheia de
manifestações religiosas populares, e que considera a Bíblia como a Palavra de
Deus, como a carta que ele escreveu aos homens.
291. 4.1.2 Geralmente essa fé na Palavra de Deus leva
rapidamente o grupo a dar um novo passo. O povo, que não conseguiu ligar muitas
vezes o catecismo com a vida, consegue ligar a Bíblia com o dia-a-dia. Se o que
está escrito vem de Deus, devemos colocá-lo em prática.
292. Neste momento, a
figura de Jesus tem mais peso. A fé se torna mais explícita. Cristo é visto
como modelo de vida e mestre da verdade.
293. Isso faz caminhar o
elemento união, que assume as características de colaboração e solidariedade
entre os membros. Aparecem pequenos serviços, como visita aos enfermos, ajuda
aos pobres.
294. Progride também a
vida eclesial: a oração pelos outros, a legitimação dos casamentos, a primeira
comunhão dos adultos, a assistência sacramental a doentes e velhos, o terço em
família, as pequenas celebrações no dia das mães, dos pais, dos mortos, as
novenas etc. Às vezes, o culto ou a missa são vividos como momentos agradáveis
de união e amizade e se dá importância maior aos gestos: abraços de paz,
preparação das oferendas etc.
295. Os problemas pessoais
passam a ser vistos numa dimensão maior: começa-se a discutir o custo de vida,
o atendimento médico, o transporte etc.
296. Esse
elemento, a realidade social, leva a um terceiro passo: ver os problemas em
dimensão cada vez mais ampla. O grupo, que aos poucos se torna comunidade,
procura conhecer as raízes sociais do mal que a atinge: o porquê da situação de
opressão e injustiça. Entra o elemento da formação social da consciência
cristã. Discute-se política, economia, multinacionais, capitalismo, comunismo
etc. Vai-se à pro cura de peritos que ajudem a conhecer melhor a doutrina
social da Igreja e os mecanismos de organização da sociedade.
297. A união da comunidade
começa a manifestar-se em gestos públicos de solidariedade social e
comunitária: abaixo-assinados, defesa dos direitos humanos, em particular dos
pobres, denúncias, pequenas organizações populares, mutirões, caixinhas de
saúde etc.
298. A fé também caminha.
Procuram-se cursinhos bíblicos para conhecer o plano de Deus sobre o mundo e a
sociedade. Jesus Cristo é visto como profeta que se posiciona, sem medo de
falar a verdade. É o amigo dos homens, especialmente dos pobres.
299. A vida eclesial
adquire novo aspecto. Os membros do grupo tornam-se mais ativos na vida
paroquial e assumem certas lideranças na comunidade maior. As celebrações se
tornam, pouco a pouco, celebrações ligadas à vida e aos acontecimentos. As
pessoas fazem questão de participar de encontros e retiros. A própria
contemplação do mistério de Cristo no decorrer do ano litúrgico, começa a ter
aqui o seu espaço.
300. 4.1.4 O passo que os membros da comunidade
procuram dar em seguida é o mais difícil e o que desperta maiores preocupações.
É o momento em que assumem tarefas sindicais, políticas, empresariais,
diluindo-se no meio dos homens, como o sal na água. Nem por isso deixam de
pertencer à comunidade e de participar de sua vida. Mas o fato de não mais se
ver o sal, gera inquietação em alguns cristãos mais preocupados com a vida
interna da Igreja. Eles não percebem que os cristãos, como cidadãos do mundo,
têm uma missão irrenunciável nas diversas instituições do mundo social e
político, para que aí se realize o Reino de Deus.
301. Em nome do Evangelho,
a comunidade eclesial deve iluminar pela Fé os projetos históricos, políticos,
econômicos, culturais do mundo, promovendo a inviolável dignidade do homem, sua
responsabilidade em face do bem comum. Mas a comunidade, enquanto Igreja, não
se liga diretamente a um projeto histórico, especialmente na política. Pelo
anúncio do Evangelho, ela se evidencia como portadora de critérios que a
colocam acima de qualquer projeto.
Também a CEB vive a
tensão existencial de
solidariedade com projetos
concretos, e ao
mesmo tempo se distancia deles
por sua posição crítica e profética (cf. também
"As Comunidades Eclesiais de Base na Igreja do Brasil" nº 73-77 CNBB
nº 25).
302. Nesse momento, a
comunidade participa do processo de libertação do povo. Ela sabe que a
transformação da sociedade não é tarefa exclusiva dos movimentos comunitários
eclesiais. Sente o dever de colaborar com movimentos populares, como
sindicatos, associações de bairro, partidos políticos etc. Os cristãos da
comunidade entram em contato e colaboram com pessoas de outros credos e de
outras ideologias. Confrontam-se com novos projetos e novas maneiras de agir.
A
leitura da realidade social se torna política e global. Discutem-se os métodos
de ação, as diferentes estratégias. Por outro lado, este é um momento realmente
catequético: o momento de uma adesão de fé explícita e madura. É o momento em
que a comunidade e o cristão são interpelados a manter e aprofundar sua própria
identidade cristã: que é mesmo que nos faz cristãos? O que temos de original
para oferecer à humanidade que procura libertar-se?
303. A presença dos
Pastores, neste momento, é decisiva para a sorte das comunidades. Os Bispos
devem ajudar as comunidades, para que não se deixem instrumentalizar, para
saberem discernir o que é específico para o cristão na linha da libertação
integral do homem. Para que na sua luta, ao lado de outros que não professam
nossa fé católica, saibam manter-se fiéis na sua adesão a Jesus Cristo e à
Igreja.
304. Nesse processo,
manifesta-se para o cristão uma importante dimensão do homem perante Deus: a do
homem pecador, que sem Jesus nada pode fazer, mas que nele tudo pode. O tomar
consciência do pecado é o passo verdadeiro e insubstituível que conduz a uma
adesão adulta e firme a Jesus Cristo. É o momento da maturidade da fé, quando
Cristo é visto e aceito, não só como modelo a imitar e como profeta, mas como Filho
de Deus, Senhor e Salvador, Aquele que tira o pecado do mundo. Tomar
consciência do pecado é, então, reconhecê-lo como raiz dos males da sociedade
e, mais profundamente, como algo que está enraizado no coração de todo homem,
de onde não pode ser arrancado pelo próprio homem, se Cristo não o transforma,
criando-lhe um coração novo.
305. Aqui a Catequese
organizada encontra seu lugar fundamental. O Povo de Deus:
passa a ver os sacramentos como celebração da presença de Jesus no
meio da comunidade e como compromisso com o Reino;
percebe mais claramente a ação do Espírito Santo que transforma,
renova e envia sua Igreja, instrumento de salvação, para que dê conta do grande
servi ço que lhe cabe, ou seja, a construção do Reino de Deus; alguns descobrirão
sua vocação especial a serviço do Reino, como religiosos ou como ministros;
entra no processo de conversão para uma nova maneira de ser, de ver e de se
posicionar diante da realidade: com coração de pobre, que espera de Deus a
salvação e não a quer somente para si, mas para todosvilegiados da salvação
oferecida por Deus ao mundo; ao lado dos pobres e a serviço deles, como povo
pobre por causa do Reino de Deus;
aplica-se à contemplação de Maria e dos Santos, procurando neles
encontrar a mística dos pobres de Deus.
306. Em suma, progredindo
nessa caminhada, o cristão descobre alguns aspectos essenciais de sua
identidade:
a
consciência do pecado (Afasta-te de mim que sou pecador);
a
consciência da missão que Deus lhe dá e que lhe supera as forças (Vem, eu te
farei pescador de homens);
a
certeza de que Cristo vive no cristão (Não sou eu que vivo, mas é Cristo que
vive em mim);
a
descoberta de Cristo no irmão, pela prática concreta da caridade (O que
fizestes a um desses mais pequenos, é a mim que o fizestes).
307. A fé da comunidade,
até aqui não suficientemente adulta, manifesta-se agora como adesão total a
Cristo. A vida eclesial adquire dimensões mais profundas. As celebrações se
tornam expressões da Aliança com Deus Salvador que nos fez salvadores com ele.
308. Assumindo serviços e
ministérios na comunidade, os cristãos descobrem mais profundamente a
importância do ministério dos Pastores. Tornam-se missionários, porque o
Evangelho e sua realização constituem para todos os cristãos a razão de viver.
309. 4.1.5 Todavia, para chegar a este ponto, não se
pode marcar tempo. No primeiro passo, já está contido o último. Em todos os
passos, o Senhor caminha com sua comunidade e a precede. O último passo será a
consumação, no fim dos tempos, quando a união chegar, pela força e presença de
Deus, a ser plena comunhão com o Pai, o Filho e o Espírito Santo. No Reino
definitivo de Deus, a realidade será transformada em novos céus e nova terra. A
vida eclesial será o Paraíso, e já não será necessária a explicação da fé.
Sabemos que, quando ele aparecer, seremos semelhantes a ele, porque o veremos
tal qual ele é (1Jo 3,2).
310. A Catequese se faz
ao longo de toda esta caminhada da comunidade. Nela se aprofunda a experiência
do Deus vivo que caminha com seu povo e o conduz à salvação.
4.2. Que fazer quando ainda não existe
comunidade?
311. Até aqui vimos um
exemplo de como pode desenvolver-se o processo catequético, através da
interação entre a caminhada de uma comunidade concreta e a mensagem evangélica.
Mas, o que fazer quando ainda não existe comunidade assim?
312. Muitas vezes
encontramos pessoas, praticamente sem ligação com uma comunidade eclesial de
base nem com a paróquia local. São pessoas batizadas, mas de fé ainda não
esclarecida. Para eles também impõe-se um trabalho missionário da comunidade
local. Para isso se há que utilizar uma gama quase infinita de meios, a começar
pela pregação explícita, como é óbvio, mas também passando pela arte, pelos
contatos e interesses no campo das ciências e das inquietações filosóficas, e
até ao recurso legítimo aos sentimentos do coração do homem (cf. EN 51).
313. Aparecem
também, e convém provocá-las ocasiões especiais em que o povo já se reúne
em vista de um objetivo comum. Será a construção ou reforma de uma igreja, o
auxílio a uma Igreja irmã. Ser ão problemas da comunidade local: água, esgoto,
luz, calçamento, expulsão de posseiros, remoção de favelas, situação de
empregadas domésticas, lutas sindicais…
314. Tudo servirá para
começar uma caminhada de comunidade, mesmo que inicialmente só se possa falar
de um grupo de cristãos. Contudo, já será possível integrar, às vezes até
sistematicamente, sólidos elementos da Mensagem Cristã.
315. Outras vezes teremos
algum tipo de grupo mais característico de Igreja. O povo que se reúne para a
missa dominical vai constituindo, aos poucos, uma espécie de comunidade. Assim
também, o grupo que se prepara para o batismo, a crisma e o casamento, para a
Campanha da Fraternidade, o Mês da Bíblia, a Novena de Natal, a Semana Santa,
como ainda os grupos especializados de movimentos leigos. O importante é que se
aproveitem todas as ocasiões para iniciar uma caminhada catequética em comunidade.
316. O ideal comunitário
poderá assim tornar-se cada vez mais presente, ao menos como perspectiva e
esforço. De fato, a comunidade é condição indispensável para uma Catequese
permanente.
CONCLUSÃO
317. Ao concluirmos estas
Orientações para a Catequese Renovada, procuramos explicitar os rumos
históricos da Catequese, seus princípios, exigências, seus temas, sua
perspectiva comunitária.
318. Reafirmamos que a
Catequese é um processo de educação comunitária, permanente, progressiva,
ordenada, orgânica e sistemática da Fé. Sua finalidade é a maturidade da Fé,
num compromisso pessoal e comunitário de libertação integral, que deve
acontecer já aqui e culminar na vida eterna feliz.
319. Para vivermos esse processo e alcançarmos essa finalidade em nossas
Igrejas, invocamos o Espírito Santo, primeiro agente de toda a Evangelização.
Pensando na multidão dos pobres e simples que têm verdadeira sede de Deus,
recordamos agradecidos o papel da Nossa Senhora sob o título de Aparecida a grande Catequista que sustenta a fé e a
esperança do povo brasileiro.
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Fonte: Conferência
Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB
Web site: www.cnbb.org.br