CONFERÊNCIA
NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL
AS
COMUNIDADES ECLESIAIS DE BASE NA IGREJA DO BRASIL
7ª Reunião
Ordinária
do Conselho
Permanente
Brasília, DF, 23 a
26 de novembro de 1982
INTRODUÇÃO
1. As Comunidades Eclesiais de Base
constituem hoje, em nosso país, uma realidade que expressa um dos traços mais
dinâmicos da vida da Igreja e, por motivos diversos, vai despertando o
interesse de outros setores da sociedade.
2. Podemos fazer nossas as palavras
dos Bispos em Puebla: "As comunidades de base que, em 1968, eram apenas
uma experiência incipiente, amadureceram e multiplicaram-se. Em comunhão com os seus Bispos, converteram-se em
centros de evangelização e em
motores de libertação
e desenvolvimento" (DP 96).
3. Fenômeno estritamente eclesial,
as CEBs em nosso país nasceram no seio da Igreja/instituição e tornaram-se
"um novo modo de ser Igreja". Pode-se afirmar que é ao redor delas
que se desenvolve, e se desenvolverá cada vez mais, no futuro, a ação pastoral
e evangelizadora da Igreja.
4. Fator de renovação interna e novo
modo de a Igreja estar presente ao mundo, elas constituem, por certo, um
fenômeno irreversível, senão nos detalhes de sua estruturação, ao menos no
espírito que as anima.
5. Como pastores, atentos à vida da
Igreja em nossa sociedade, queremos olhá-las com carinho, estar à sua escuta e
tentar descobrir através de sua vida, tão intimamente ligada à História do povo
na qual elas estão inseridas, o caminho que se abre diante delas para o futuro.
6. Este documento tem abrangência e
alcance limitados. Não quisemos encarar aqui todos os aspectos de organização,
de vida e de criatividade das CEBs. Nem entramos nas diferenças entre os vários
tipos de comunidades.
As CEBs terão outras oportunidades para exprimir a experiência que
vivem, os obstáculos que encontram e as esperanças que guardam. Neste
documento, portanto, queremos apenas refletir sobre a caminhada das CEBs à luz
dos documentos da Igreja; explicitar sua eclesialidade; e abordar alguns
problemas emergentes que exigem melhor elucidação.
Ao fazer isto, queremos colaborar para as comunidades permanecerem fiéis
às suas origens e ajudar toda a Igreja do Brasil a compreender melhor a riqueza
desse dom do Espírito.
I — AS
COMUNIDADES ECLESIAIS DE BASE NO
BRASIL: ORIGEM E CAMINHADA
7. As CEBs não surgiram como produto
de geração espontânea, nem como fruto de mera decisão pastoral. Elas são o
resultado da convergência de descobertas e conversões pastorais que implicam
toda a Igreja — Povo de Deus, pastores e fiéis — na qual o Espírito opera sem
cessar.
8. Já o Plano de Emergência (1962)
afirmava: "Urge vitalizar e dinamizar nossas paróquias, tornando-as
instrumentos aptos a responder à premência das circunstâncias e da realidade em
que nos encontramos". Um dos caminhos propostos para isso era fazer da
paróquia "uma comunidade de fé, de culto e de caridade" para que se
tornassem "fermento da comunidade humana".
9. Recomendava-se "identificar
as comunidades naturais e iniciar o trabalho a partir da realidade que apresentam".
"Nestas comunidades abertas à evangelização, os elementos dinâmicos irão
ajudar a despertar e formar líderes das novas comunidades. Aos leigos cabe
nestas comunidades um papel muito decisivo" (5.5).
— "Observar
que a conquista das comunidades pagãs ou indiferentes dos centros urbanos será
feita de preferência por penetração das comunidades naturais. O método mais
seguro é a evangelização partindo dos problemas de vida" (5.6).
10.
Nestas afirmações já se encontravam, em germe, alguns traços constitutivos do
que viria a ser a comunidade eclesial de base.
11.
O Concílio Vaticano II, eminentemente pastoral, provocou um grande impacto na
Igreja. Suas grandes idéias-chave trouxeram a fundamentação teológica para a
intuição, já sentida na prática, de que a renovação pastoral deve se fazer a
partir da renovação da vida comunitária e de que a comunidade deve se tornar
instrumento de evangelização.
12.
As CEBs nasceram nutridas por estas idéias-chave, entre as quais se podem
salientar:
— A
Igreja como Povo de Deus, no qual "a cada um é dada a manifestação do
Espírito para a utilidade comum" (1Cor 12,7).
— A
Igreja como "sacramento ou sinal e instrumento da união profunda com Deus
e da unidade de todo o gênero humano" (LG 1) Dito de outra maneira: a
Igreja como comunhão profunda de pessoas tornada visível na comunidade
participante e responsável.
— O
papel insubstituível do leigo e sua missão específica na Igreja e no mundo (LG
31 — AA).
A função da Igreja, que caminha juntamente com a humanidade inteira, experimenta
com o mundo a mesma sorte terrena" e é "como que o fermento e a alma
da sociedade humana" (GS 40). História humana e história da salvação se
integram.
De forma privilegiada, as CEBs redescobrem, na leitura bíblica, o
aspecto libertador da História da Salvação. Vêem sua própria caminhada
prefigurada no êxodo do povo de Israel e atualizada na vivência do Mistério
Pascal de Jesus Cristo. Assumem sua luta pela justiça como realização do
profetismo na sociedade de hoje. Redescobrem também a vivência fraterna das
comunidades primitivas que se encontravam na oração e na fração do pão,
partilhavam seus bens e viviam unidos num só coração e numa só alma (At 2,4).
13.
O Plano de Pastoral de Conjunto da CNBB P.P.C., (1966-1970), — que tinha como
objetivo criar os meios e condições para que a Igreja do Brasil se ajuste à
imagem da Igreja do Vaticano II, afirmava: "A Igreja é e será sempre uma
comunidade. Nela estará sempre presente e atuante o ministério da Palavra, a
vida litúrgica e especialmente eucarística, a ação missionária, a formação na
fé de todos os membros do Povo de Deus, a presença de Deus no desenvolvimento
humano, a organização visível da própria comunidade eclesiástica" (P.P.C.
p. 27).
14.
A extensão geográfica e a densidade populacional da paróquia constituem um
obstáculo à vivência da comunidade. Então diz o Plano: "Faz-se urgente
suscitar e dinamizar, dentro do território paroquial, comunidades de base onde
os cristãos não sejam pessoas anônimas, se sintam acolhidas e responsáveis e
delas façam parte integrante, em comunhão de vida em Cristo e com todos os seus
irmãos" (P.P.C. pp. 38-39).
15.
Aparecem em filigrana duas idéias que vão tornar-se, mais tarde, os eixos da
ação pastoral no Brasil e mesmo no continente latino-americano: "comunhão
e participação".
16.
Referindo-se às experiências incipientes das CEBs, Medellín (1968) justificava
por diversos motivos pastorais seu desenvolvimento, assumindo plenamente a
eclesiologia do Concílio nas escolhas pastorais propostas. "A comunidade eclesial
de base deve, em seu próprio nível, responsabilizar-se pela riqueza e expansão
da fé, como também pelo culto que é sua expressão. É ela, portanto, célula
inicial da estruturação eclesial e foco de evangelização e atualmente fator
primordial da promoção humana e desenvolvimento (15.III.10).
17.
Sintonizando com o Concílio que afirmava "o direito de todos à civilização
humana, conveniente à dignidade da pessoa, sem discriminação de sexo, nação,
religião ou condição social, o mérito particular de Medellín foi ter ouvido o
grito das situações desumanas do continente e lhe ter dado o acolhimento
oficial da Igreja.
18.
Em sua mensagem final ao povo da América Latina, dizem os Bispos: À luz da fé
que professamos como fiéis, fizemos um esforço para descobrir o Plano de Deus
nos 'sinais de nossos tempos'. Interpretamos que as aspirações e clamores da
América Latina são sinais que revelam a orientação do Plano divino operante no
amor redentor de Cristo que funda estas aspirações na consciência de uma solidariedade
fraterna.
19.
Nos sucessivos Planos de Pastoral de nossa Conferência Episcopal, mereceram as
CEBs, uma atenção crescente até serem assumidas como "prioridade" nos
3° e 4° Planos Bienais.
20.
O Sínodo dos Bispos de 1974, ao tratar da evangelização no mundo de hoje,
refletiu sobre as experiências de CEBs que se realizavam um pouco em toda
parte. A partir dos dados do Sínodo, Paulo VI escreveu a Exortação Apostólica
Evangelli Nuntiandi (A evangelização no mundo contemporâneo). Depois
de expor as novas dimensões da evangelização em nosso tempo, o Santo Padre,
como que dando às CEBs o título de reconhecimento oficial, indicava-lhes
condições de ser lugar e meio de evangelização.
21.
Em sua caminhada, as nossas CEBs puderam se apoiar nessas orientações claras e
seguras de Evangelii Nuntiandi e aproveitar toda a reflexão de estudos e
documentos da CNBB, bem como de múltiplos e variados encontros das próprias
CEBs.
22.
Com Puebla, podemos constatar: "Nas pequenas comunidades, mormente nas
mais bem constituídas, cresce a experiência de novas relações interpessoais na
fé, o aprofundamento da palavra de Deus, a participação na Eucaristia, a
comunhão com os pastores da Igreja particular e um maior compromisso com a
justiça na realidade social dos ambientes em que se vive" (DP 640).
23.
Revendo os passos feitos no decorrer destes vinte anos, não parece ousado
afirmar que as nossas CEBs, inspirando-se nos ensinamentos do Concílio,
tornaram-se instrumentos da construção do Reino e concretização das esperanças
de nosso povo.
II — A ECLESIALIDADE DAS CEBs
24.
Em sua viagem pastoral ao Brasil, o Santo Padre entregou aos Bispos uma
mensagem para os líderes das comunidades de base. Nesta, o Santo Padre reafirma
sua confiança nas CEBs e se detêm particularmente no aspecto de sua
eclesialidade.
25.
"Entre as dimensões das Comunidades Eclesiais de Base, julgo conveniente
chamar a atenção para aquela que mais profundamente as define e sem a qual se
esvairia sua identidade: a eclesialidade. Sublinho essa eclesialidade, porque
está explícita já na designação que, sobretudo na América Latina, as
comunidades receberam. Ser eclesiais é sua marca original e seu modo de existir
e operar. E a base a que se referem é de caráter nitidamente eclesial e não meramente
sociológico ou outro" (n° 3).
26.
Também nós, Bispos, ao olharmos cheios de alegria e esperança para as CEBs,
gostaríamos de recordar com especial empenho este aspecto consciente de
estarmos, assim, garantindo sua vitalidade profunda.
27.
"Uma delicada atenção e um sério e corajoso esforço para manter em toda a
sua pureza a dimensão eclesial dessas comunidades é um eminente serviço que se
presta, de uma parte, a elas próprias, e, de outra parte, à Igreja. A elas,
porque preservá-las em sua identidade eclesial é garantir-lhes a liberdade, a
eficácia e a própria sobrevivência.
À
Igreja, porque só servirão à sua missão essencial de evangelização comunidades
que vivem autenticamente a inspiração eclesial sem dependências de outra ordem.
Aquela atenção e aquele esforço são um dever sagrado do sucessor de Pedro, por
força de sua 'solicitude por todas as Igrejas' (cf. 2Cor 11,28). São um dever
de cada bispo em sua diocese e dos Bispos, colegialmente unidos, no âmbito de
uma nação. São um dever também dos que têm alguma responsabilidade no seio das
próprias comunidades" (n° 4).
28.
As notas características de uma verdadeira comunidade eclesial foram
explicitadas por Paulo VI na Exortação Apostólica A evangelização no mundo
contemporâneo (EN n° 58). João Paulo II recorda seus pontos principais:
"Essa eclesialidade se concretiza em uma sincera e leal vinculação da
comunidade aos seus legítimos pastores, em uma fiel adesão aos objetivos da
Igreja, em uma total abertura às outras
comunidades e à grande comunidade da Igreja universal,
abertura que evitará toda tentação de sectarismo" (EN n° 5).
29.
Já em Puebla, os Bispos da América Latina se perguntavam: "Quando é que
uma pequena comunidade pode considerar-se verdadeira comunidade eclesial de
base"? e respondiam:
30.
"A CEB, como comunidade, integra famílias, adultos e jovens em estreito
relacionamento interpessoal na fé. Como eclesial, é comunidade de fé, esperança
e caridade; celebra a palavra de Deus e se nutre com a Eucaristia, ponto
culminante dos demais sacramentos; realiza a palavra de Deus na vida, mediante
a solidariedade e o compromisso com o mandamento novo do Senhor; torna presente
e atuante a missão eclesial e a comunhão visível com os legítimos pastores,
através do serviço de coordenadores aprovados. É de base por estar constituída
por um pequeno número de membros em forma permanente e como célula da grande
comunidade" (DP 641).
31.
As CEBs que têm garantido essas características fundamentais têm, igualmente,
experimentado uma grande vitalidade. Ela será tanto maior quanto mais intensa
for a eclesialidade vivida na prática comunitária do Povo de Deus, sobretudo
dos mais pobres e humildes. Fiéis às condições essenciais que as definem como
Igreja, as CEBs têm demonstrado grande riqueza e criatividade em sua maneira de
ser e viver a vocação de Igreja presente no mundo.
32.
Reconhecem serem convocadas e alimentadas pela Palavra, sobre a qual refletem
sob a ação do Espírito em vista à conversão pessoal e social.
33.
Escutam a realidade, agem sobre ela e buscam transformá-la quando a situação
exigir. Na base dessa ação sobre a realidade está a convicção de que Deus nos
fala também pelos acontecimentos e nos chama a construir uma sociedade conforme
o seu desígnio.
34.
Estão ligadas entre si, com a paróquia, com a Igreja particular em que se
inserem, com a Igreja universal, mantendo uma comunhão sincera com seus
pastores.
35.
Crescem na consciência do dever missionário. "Procurando, pela potência da
mensagem que proclamam, converter ao mesmo tempo a consciência pessoal e
coletiva dos homens, a atividade em que eles se aplicam e a vida e o meio
concreto que lhes são próprios" (EN 18), elas evangelizam.
36.
Celebram os acontecimentos diários como sinais da presença de Deus, tendo na
Eucaristia a raiz e o cume da vivência fraterna.
37.
Expressam sua caridade através do serviço: "Serviço mútuo no interior e
serviço às comunidades humanas maiores nas quais elas estão inseridas como
fermento, sinal e compromisso com a libertação do homem todo e de todos os
homens".
38.
Qualquer que seja o caminho escolhido para sua realização, elas se esforçam em
reproduzir na sua vida o próprio mistério da Igreja. Por isso, as CEBs no
Brasil querem ser: comunidades de fé e de culto, sacramento da presença salvífica
de Deus na História dos homens.
39.
Diz a Lumen Gentium: "Em todas as legítimas comunidades locais de fiéis,
que, unidas aos seus Pastores, são também no Novo Testamento chamadas de
'igreja', está verdadeiramente presente a Igreja de Cristo... Estas são, em seu
lugar, o povo novo, chamado por Deus no Espírito Santo e em grande plenitude
(cf. 1Ts 1,5). Nelas se reúnem os fiéis pela pregação do Evangelho de Cristo...
Nelas se celebra o mistério da ceia do Senhor... Nelas se manifesta o símbolo
daquela caridade e 'unidade do corpo místico sem a qual não pode haver
salvação'... Nestas comunidades, embora muitas vezes pequenas e pobres, ou
vivendo na dispersão, está presente o Cristo, por cuja virtude consorcia a
Igreja una, santa e apostólica" (LG 26).
40.
Células vivas da Igreja, as CEBs, em seu conjunto, têm se constituído num
fermento de espírito e de vida comunitária nas várias esferas da vida eclesial.
Têm colaborado poderosamente na renovação das paróquias e dos vários processos
pastorais, no sentido de uma crescente comunhão e participação. Em muitas
partes, a pastoral de grupos se liga às CEBs como etapa preparatória de sua
configuração. A pastoral vocacional e os novos ministérios recebem das CEBs um
novo impulso e um campo muito concreto de desenvolvimento.
Na
prática de sua vida elas têm encontrado surpreendentes caminhos de uma
evangelização, catequese e liturgia encarnadas, muito ligadas à palavra de
Deus. Em sua "fome e sede de justiça", têm encontrado caminhos de uma
prática ecumênica concreta. Desenvolvem, ainda, um fenômeno de intercomunicação
participativa e da formação do senso crítico diante da massificação dos meios
de comunicação. No constante esforço de atuar, refletir e celebrar, as CEBs são
uma alternativa de educação para os que buscam uma sociedade nova, onde o
individualismo, a competição e o lucro cedem lugar à justiça e à fraternidade.
41.
De tudo isso ressalta, com renovada clareza, a responsabilidade de todos
aqueles presbíteros, religiosos e leigos que, nas CEBs, exercem, em diversos
níveis, o papel de animadores. Deles se requer uma profunda fidelidade à Igreja
ao mesmo tempo que uma grande abertura para novas maneiras de concretizar, na
prática, sua dimensão comunitária e missionária. Citando a mensagem do Santo
Padre, lembraríamos que o animador da comunidade de base, "muito mais que
um mestre, é uma testemunha: a comunidade tem o direito de receber dele o
exemplo persuasivo de vida cristã, de fé operosa e irradiante, de esperança
transcendente, de amor desinteressado.
Que
ele seja, ademais, um homem que crê na oração e que reze" (Mensagem aos
líderes das Comunidades de Base n° 12).
42.
Em sua caminhada, a fidelidade das CEBs é constantemente posta à prova em nossa
sociedade cada vez mais pluralista e profundamente marcada por conflitos. A
urgência de certos problemas vitais e a tentação de soluções simplistas
representam riscos aos quais as comunidades devem estar atentas. Queremos, a
seguir, refletir sobre alguns aspectos que nos parecem importantes, para que a
caminhada das CEBs não só não se desvirtue mas, ao contrário, se firme e se
torne mais fecunda.
III — ALGUNS
ASPECTOS PARTICULARES DA PASTORAL DAS CEBs
A CEB e os pobres
43. Desde seu
início, as CEBs floresceram mais entre as populações simples e pobres. Várias
razões estão na raiz desse fato. Em um primeiro momento, foi, sobretudo, junto
às populações dispersas pelo interior que as CEBs se firmaram. A ausência de um
vigário residente levou mais rápido os leigos a assumir ministérios e a colocar
a força da Igreja na comunidade dos irmãos. Padres e religiosos passaram,
então, a assumir mais o papel de animadores de lideranças locais, deixando
maior espaço para os leigos. Também nas periferias pobres das grandes cidades
as CEBs passaram a florescer com intensidade. Aí, a tendência centralizadora da
estrutura paroquial tradicional é menos sentida, pois o fenômeno da urbanização
é recente e já encontrou uma Igreja com nova consciência comunitária e
missionária.
44. Mas a
aproximação das CEBs com o povo simples e pobre tem, sobretudo, uma conotação
evangélica profunda. Na Bíblia, a posição privilegiada dos pobres é
manifestação da misericórdia de Deus, que toma a defesa dos desamparados porque
sua causa é justa.
45. Por outro
lado, os pobres vivem mais os valores da fraternidade, da entreajuda e do
serviço, que são determinantes nessa nova maneira de ser Igreja. Igualmente,
conservam maior abertura e disponibilidade para as coisas de Deus em termos de
interesse e tempo.
46. Além disso, a
simplicidade das CEBs, tanto em sua dimensão e estrutura, como em sua
linguagem, vivência e clima, corresponde mais à sua maneira espontânea e
simples de viver. Isso levou as CEBs a ser lugar de grande integração na Igreja
das pessoas simples, iletradas e pobres como membros participantes e ativos. Na
estrutura paroquial, os pobres em geral se mantinham mais à distância, mais
como destinatários que agentes da evangelização, mais beneficiários que
responsáveis pelos vários serviços.
47. Por tudo isso,
os Bispos em Puebla puderam afirmar: "As CEBs são expressão do amor
preferencial da Igreja pelo povo simples: nelas se expressa, valoriza e
purifica sua religiosidade e se lhe oferece possibilidade concreta de
participação na tarefa eclesial e no compromisso de transformar o mundo" (DP
643).
48. Não seria
certo, porém, concluir-se daí que as CEBs só são possíveis entre as classes
pobres. Pior ainda seria pensar-se em duas igrejas irredutíveis entre si: uma
dos pobres, nas CEBs, e outra das classes médias ou ricas, na paróquia e outras
organizações.
49.
Seria desfigurar a própria natureza das CEBs, isolá-las dentro da Igreja ou
dar-lhes como conteúdo primordial e constitutivo uma conotação sociológica.
Lembrando as palavras do Papa Paulo VI na Evangelii Nuntiandi, repetimos
que é preciso evitar "o perigo, por demais real, de se isolarem em si
mesmas e, depois, de se crerem a única autêntica Igreja de Cristo e, por
conseqüência, perigo de anatematizarem as outras comunidades" (EN 58).
50.
Assim, as CEBs colaborarão "para benefícios das comunidades mais amplas,
especialmente das igrejas particulares, e serão uma esperança para a Igreja
universal" (EN 58).
51.
O fundamento das CEBs se dirige como ideal a todos os cristãos. Todos são
chamados a viver intensamente a comunhão fraterna e a integração entre fé e
História a partir da realidade e da vida concreta. Nesse sentido, a pastoral
das CEBs interpela evangelicamente a pastoral paroquial tradicional, os grupos
e movimentos de igreja que, por seu feitio e linguagem, guardam maior proximidade
com pessoas que pertencem a outras classes sociais.
52.
Sobretudo, as CEBs são uma promessa rica de sugestões para uma redefinição da
pastoral urbana cada vez mais urgente. Como diz Puebla: "Em especial, é
preciso procurar como possam as pequenas comunidades, que se multiplicam
sobretudo na periferia e nas zonas rurais, adaptar-se também à pastoral das
grandes cidades do nosso Continente" (DP 648).
53.
Isso, certamente, não se fará às custas do espaço conquistado, na Igreja, pelo
povo simples e pobre em suas CEBs, e nem repetindo simplesmente sua caminhada.
Será fruto de uma busca fraterna e participada por toda a Igreja. O ponto de
convergência dessa busca é, certamente, uma vida mais evangélica, capaz de
colaborar para a construção de uma sociedade mais justa e fraterna: "Os
cristãos unidos em comunidades eclesiais de base, fomentando sua adesão a
Cristo, procuram uma vida mais evangélica no seio do povo, colaboram para
questionar as raízes egoístas e de consumismo da sociedade e explicitam a vocação
para a comunhão com Deus e com os irmãos, oferecendo um valioso ponto de
partida para a construção duma nova sociedade, 'a civilização do amor' "
(DP 642).
54.
As CEBs serão, então, evangelizadoras do mundo: " Cada comunidade eclesial
deveria esforçar-se por constituir para o Continente um exemplo de modo de
convivência onde consigam unir-se a liberdade e a solidariedade, onde a
autoridade se exerça com o espírito do Bom Pastor, onde se viva uma atitude
diferente diante da riqueza, onde se ensaiem formas de organização e estruturas
de participação, capazes de abrir caminho para um tipo mais humano de
sociedade, e, sobretudo, onde inequivocamente se manifeste que, sem uma radical
comunhão com Deus em Jesus Cristo, qualquer outra forma de comunhão puramente
humana acaba se tornando incapaz de sustentar-se e termina fatalmente
voltando-se contra o próprio homem" (DP 273).
CEB e dimensão sócio-política da
evangelização
55.
A caminhada das CEBs tem seguido, passo a passo, a explicitação da missão evangelizadora
da Igreja. Desde o início elas se apresentaram como uma proposta de assumir o
global da vida, superando o espiritualismo desencarnado. O esforço das pequenas
comunidades rurais do início, no sentido de criar condições mais humanas de
vida, refletia bem a consciência da Igreja da época conciliar de que a
evangelização tem implicações diante do subdesenvolvimento de vastas regiões do
mundo.
56. As CEBs
refletiam assim, em escala pequena e local, a tomada de consciência de toda a
pastoral da Igreja como agente de desenvolvimento e promoção do homem. Medellín
vê nas CEBs "célula inicial de estruturação eclesial e foco de
evangelização e, atualmente, fato primordial de promoção humana e
desenvolvimento" (Medellín, 15,10).
57. O empenho das
atuais CEBs na luta pela justiça e na libertação integral do homem reflete uma
análise mais precisa da realidade social vista como fruto de injustiça das
estruturas e opressões dos pobres. Também aqui as CEBs refletem a consciência
da Igreja em termos de missão evangelizadora. "A ação pela justiça e a
participação na transformação do mundo aparecem-nos claramente como uma
dimensão construtiva da pregação do Evangelho, que o mesmo é dizer, da missão
da Igreja, em prol da redenção e da
libertação do gênero humano de
todas as situações opressivas" (Sínodo,
Justiça no Mundo,
n° 6. Igualmente EN 30 e 31).
58. "São conhecidos os termos em que
falaram de tudo isto, no recente Sínodo, numerosos Bispos de todas as partes da
terra, sobretudo os do chamado 'Terceiro Mundo', com uma acentuação pastoral em
que repercutia a voz de milhões de filhos da Igreja que formam esses povos.
Povos comprometidos, como bem sabemos, com toda a sua energia no esforço e na
luta por superar tudo aquilo que os condena a ficarem à margem da vida:
carestias, doenças crônicas e endêmicas, analfabetismo, pauperismo, injustiças
nas relações internacionais e especialmente intercâmbios comerciais, situações
de neocolonialismo econômico e cultural, por vezes tão cruel como o velho
colonialismo político. A Igreja, repetiram-no os Bispos, tem o dever de
anunciar a libertação de milhões de seres humanos, sendo muitos destes seus
filhos espirituais; o dever de ajudar uma tal libertação nos seus começos, de
dar testemunho em favor dela e de envidar esforços para que ela chegue a ser
total. Isso não é alheio à evangelização" (EN 30).
59.
"Entre evangelização e promoção humana — desenvolvimento, libertação —
existem de fato laços profundos: laços de ordem antropológica, dado que o homem
que há de ser evangelizado não é um ser abstrato, mas sim um ser condicionado
pelo conjunto dos problemas sociais e econômicos; laços de ordem teológica,
porque não se pode nunca dissociar o plano da criação do plano da redenção, um
e outro a abrangerem as situações bem concretas da injustiça que há de ser
combatida e da justiça a ser restaurada; laços daquela ordem eminentemente
evangélica, qual é a ordem da caridade; como se poderia, realmente, proclamar o
mandamento novo sem promover, na justiça e na paz, o verdadeiro e o autêntico
progresso do homem?
Nós
próprios tivemos o cuidado de salientar isto mesmo, ao recordar que é
impossível aceitar que a obra da evangelização possa ou deva negligenciar os
problemas extremamente graves, agitados sobremaneira hoje em dia, pelo que se
refere à justiça, à libertação, ao desenvolvimento e à paz no mundo. Se isso
porventura acontecesse, seria ignorar a doutrina do Evangelho sobre o amor para
com o próximo que sofre ou se encontra em necessidade.
60.
Pois bem: aquelas mesmas vozes que, com zelo, inteligência e coragem,
ventilaram este tema candente, no decorrer do referido Sínodo, com grande
alegria nossa forneceram os princípios iluminadores para bem se captar o
alcance e o sentido profundo da libertação, conforme ela foi anunciada e
realizada por Jesus de Nazaré e conforme a Igreja a apregoa" (EN 31).
61.
A presença da Igreja no campo social só se completa com a atuação concreta,
como diz Paulo VI: "No campo social a Igreja sempre teve uma dupla
preocupação: iluminar os espíritos... e entrar na ação para difundir as
energias do Evangelho" (OA 48).
62.
A Igreja tem, igualmente, consciência da dimensão política da pregação do
Evangelho. "A missão da Igreja é evangelizadora e de natureza
eminentemente pastoral. Tal missão, entretanto, de nenhum modo a conduz a se
omitir a respeito de problemas sócio-políticos do país, na medida mesma em que
esses problemas sempre apresentam uma relevante dimensão ética" (Reflexão
cristã sobre a conjuntura política — Conselho Permanente 1981, n° 2).
"A Igreja
não é intérprete de aspirações
partidárias, nem mediadora
de facções políticas.
Isto não significa, porém, que ela seja apolítica. Ela sabe que um
pretenso apoliticismo significa, na prática, uma atitude política de anuência
tácita a uma determinada configuração do poder político, qualquer que ele
seja" (Idem, n° 6).
63.
A dimensão sócio-política presente, portanto, na atuação das CEBs, é, de si, a
mesma que deve estar presente em outras comunidades eclesiais e organismos de
evangelização. O novo que as CEBs trouxeram foi o fato de oferecerem, dentro da
Igreja, um espaço para o próprio povo simples participar da evangelização da
sociedade através da luta pela justiça. Nesse sentido, as CEBs têm se
manifestado como lugar privilegiado de educação para a justiça e como
instrumento de libertação.
64.
Mas, tanto as CEBs como as demais comunidades eclesiais, precisam estar atentas
para que esse tipo de atuação, exigência da fé, se mantenha fiel à própria fé,
seja quanto ao conteúdo, seja quanto aos métodos.
65.
Nunca será demais aprofundar a plena dimensão da libertação que se busca. É
preciso superar constantemente a tentação "de reduzir a missão da Igreja
às dimensões de um projeto puramente temporal; de reduzir seus objetivos a uma
perspectiva antropocêntrica; a salvação, da qual é anunciadora e sacramento, a
um bem-estar material; sua atividade — esquecendo toda preocupação espiritual e
religiosa — a iniciativas de ordem política ou social. Se isso fosse assim, a
Igreja já perderia sua significação mais profunda. Sua mensagem de libertação
não teria nenhuma originalidade e se prestaria a ser abafada ou manipulada
pelos sistemas ideológicos e pelos partidos políticos" (EN 32).
66.
Também a CEB perderia sua identidade se seu ideal de libertação não for o da
plena libertação do homem em Cristo. Por isso, as CEBs devem estar sempre
atentas em sua revisão para descobrir se é o global das exigências da fé que
orienta sua vida e atuação ou se sua atividade se consome em empreendimentos de
cunho social.
67.
É necessário que a preocupação com o aprofundamento da palavra, a educação da
fé, a conversão do coração, a celebração dos sacramentos, a oração façam parte
da vida da comunidade e inspirem toda sua atuação social e política em vista do
bem comum.
68.
Aqui também nossa palavra se dirige mais diretamente aos animadores e agentes
de pastoral das comunidades. O povo mesmo das comunidades nem conseguiria
separar Deus e a salvação em Jesus Cristo de toda sua luta e caminhada. Aos
agentes mais categorizados compete, com amor evangélico, zelar para que
ideologias estranhas ou manipulações políticas não desfigurem a comunidade.
É
preciso voltar sempre às fontes eclesiais da comunidade. Essas fontes
constantemente darão "uma inspiração de fé, uma motivação de amor
fraterno, uma doutrina social a que o verdadeiro cristão não pode deixar de
estar atento, mas que deve tomar como base da própria prudência e experiência a
fim de a traduzir concretamente em categorias de ação, de participação e de compreensão"
(EN 38).
69.
Ninguém veja nessas palavras uma reserva à atuação dos cristãos e das CEBs no
campo sócio-político. Muito ao contrário, elas querem incentivar essa atuação e
garantir sua força interior, que será tanto mais vigorosa quanto mais verdadeiramente
evangélica.
As CEBs, a luta comum pela justiça e os
movimentos populares
70.
O Reino de Deus é mais amplo que a Igreja visível e seu conteúdo primeiro é
tudo o que é fruto de verdade, justiça e amor, onde quer que isso aconteça.
Igualmente, sua realização é obra do Espírito através dos cristãos, mas também
através de todo homem de boa vontade. Igualmente a CEB, pequena igreja local,
não pode arrogar-se o monopólio do Reino de Deus só para e no lugar ou ambiente
onde existe e atua.
71.
Como Igreja, a CEB é sinal e instrumento do Reino, é aquela pequena porção do
povo onde a palavra de Deus é explicitamente acolhida e celebrada nos
sacramentos, sinais da fé sobretudo na Eucaristia.
72.
Para ser membro de uma CEB, não basta, portanto, a prática da justiça. É
preciso mais, é preciso explicitar essa prática na pessoa e na obra de Cristo.
Igualmente, não basta a uma CEB promover os valores do Reino. Para ser fiel à
sua identidade, essa promoção tem de guardar uma relação constante e explícita
à pessoa e missão de Jesus Cristo, Filho de Deus, e seu mistério pascal,
através do qual se deu a instauração do Reino de Deus na humanidade. Toda a
vida das CEBs deve ser direcionada para o Reino de Deus, mas firmemente
enraizada na celebração e aprofundamento da fé.
73.
No anúncio e promoção dos valores do Reino, os membros da CEB e a própria CEB
se encontrarão com pessoas e grupos que lutam pelos mesmos valores, ou
semelhantes, mas que não comungam da mesma fé ou são membros de outras igrejas.
O campo
da promoção da justiça e da dignidade da pessoa humana são campos privilegiados
de colaboração fraterna entre as igrejas cristãs e destas com todos os homens
de boa vontade. Conservando sua própria identidade, as CEBs devem se abrir para
reflexão e atuação conjunta em tudo o que for benefício da pessoa humana.
74.
Mais delicado se torna o problema quando se trata de colaboração com grupos
ideológicos fechados em si mesmos e, sobretudo, com grupos que explicitamente
repudiam a fé e a abertura para Deus. Sem negar os valores que tais grupos
trazem, é preciso sempre distinguir o nível e a possibilidade de colaboração.
Se com alguns grupos não explicitamente cristãos elas podem assumir a
realização de projetos concretos, com outros, por vezes, essa colaboração não
poderá ir além de uma concordância quanto a certos objetivos válidos, deixando
sempre clara a profunda divergência na concepção de mundo, de homens e de seu
destino.
75.
Na prática, hoje, as CEBs que congregam as pessoas pobres e simples da periferia
e zona rural precisam se situar diante dos movimentos populares que mais
recentemente têm emergido como instrumento das lutas do povo por uma sociedade
mais justa. Muitos membros e líderes desses movimentos pertencem às CEBs e
foram mesmo despertados dentro delas. Por outro lado, circunstâncias anteriores
fizeram com que pessoas de boa vontade, mas sem fé, participassem das promoções
das CEBs que, como Igreja, constituíam o único lugar tolerado de atuação
social.
76.
Sem destruir os laços fraternos criados e sem prejudicar os passos dados, é
necessário manter clara a distinção entre CEBs e movimentos populares. Os
movimentos populares são movimentos sociais entre as classes mais pobres e seus
objetivos são a libertação e promoção sócio-política do povo. Eles não são
movimentos de Igreja, não dependem dela em sua organização e atuação, tendo
plena autonomia com relação à Igreja.
As
CEBs precisam tomar consciência disto para não ocupar um espaço que não é seu e
imprimir um ritmo de vida eclesial a um movimento secular. Da mesma forma, as
CEBs perderiam sua identidade se, para se acomodar aos movimentos populares,
alterassem seu modo de vida e seus valores explícitos de fé.
77.
Isso posto, vale plenamente para as CEBs tudo o que a Igreja ensina sobre a
presença e atuação dos cristãos na estrutura e organização do mundo. Nesse
sentido, os movimentos populares, as promoções de bairro, os ambientes de
trabalho e convivência são campos a serem fermentados pelas CEBs com o fermento
e as energias do Evangelho com relação à libertação integral do homem.
AS CEBs e os movimentos de
leigos
78. Constatamos com alegria que
as CEBs abriram um novo e fecundo espaço de participação dos leigos na Igreja.
Isso acontece não só pela participação mais ativa que as CEBs oferecem por sua
dimensão mais humana e pela proximidade da vida da pessoa, mas também porque
propicia uma nova e mais variada distribuição dos vários serviços e ministérios
eclesiais. Essa maior participação dos leigos e o surgimento de novos ministérios
são dois frutos da maior significação na vida da Igreja.
79. Isso não quer dizer, porém,
que as CEBs sejam um novo movimento de leigos. A CEB não é um movimento, é nova
forma de ser Igreja É a primeira célula
do grande organismo eclesial ou, como diz Medellín, "a célula inicial de
estruturação eclesial". Como Igreja, a CEB guarda as características
fundamentais que Cristo quis dar à comunidade eclesial. A CEB é uma maneira
nova de realizar a mesma comunidade eclesial que é o Corpo de Cristo. Por isso
mesmo, o ministério pastoral ou hierárquico faz parte da CEB.
O Bispo ou o padre não são de
fora, não são meros assessores ou acompanhantes. Sua presença, mesmo não
contínua, tem um sentido especial e único, já que, como em qualquer comunidade
eclesial, eles tornam presente o Cristo cabeça.
80. Para as CEBs, portanto, não
basta que, como qualquer movimento cristão, estejam unidas a seus Bispos e
padres. As CEBs são células do corpo eclesial e por isso, guardam laços de
natureza mais íntima no relacionamento com os pastores que, em nome do Senhor,
estão à frente das Igrejas. Isso não suprime a justa autonomia das CEBs no
desenvolvimento de sua vida e missão própria, mas acarreta especiais exigências
de comunhão e corresponsabilidade eclesial.
81. A par disso, é
preciso igualmente enfatizar que nas CEBs há especiais condições de o leigo
crescer e se formar membro adulto de uma comunidade eclesial, sem abdicar de
sua vocação e papel em mãos da hierarquia. Como, igualmente, nas CEBs há
melhores condições de os ministros exercerem seu serviço sem abafar a
criatividade, a iniciativa e a participação dos leigos. Por isso mesmo, as CEBs
sempre foram e são vistas como forma excelente de realização do ideal de
comunidade eclesial.
82. Aí toda a comunidade tem real
oportunidade de assumir sua missão e as várias vocações e ministérios colaboram
para a edificação e vitalidade constante das mesmas. Dessa maneira as CEBs, ao
contrário de poderem dispensar o ministério hierárquico, exigem um ministério
mais disponível, mais dedicado, capacitado para o crescimento da fé, a
celebração viva dos sacramentos, e a caminhada da comunidade em comunhão com as
outras comunidades da Igreja Particular na fidelidade à sua vocação eclesial.
A coordenação e
responsabilidade última nas CEBs
83.
Como os Bispos reunidos em Puebla repetimos que "como pastores, queremos
resolutamente promover, orientar e acompanhar as comunidades eclesiais de base,
de acordo com o espírito de Medellín e os critérios da Evangelii Nuntiandi;
favorecer o descobrimento e a
formação gradual de animadores
para elas" (P. 648).
Estamos cada vez mais convictos da imensa riqueza que as CEBs podem trazer para
nossas igrejas do Brasil e para a revitalização da ação evangelizadora. Em
nossas dioceses experimentamos uma imensa alegria quando entramos em contato
mais direto com as CEBs nas visitas pastorais e nos trabalhos de evangelização.
Notamos também que essa alegria é de todo o povo que quer viver em íntima
comunhão com seus pastores. Se vez por outra alguma dificuldade é sentida, isso
não é específico das CEBs mas pode acontecer com qualquer outra comunidade
eclesial. São sinais de uma comunhão ainda imperfeita que exige uma conversão
maior de todos. Mas a pastoral das CEBs é sempre mais parte orgânica de nossa
pastoral, com muita freqüência figurando mesmo como área prioritária.
84.
Nos últimos anos, algumas igrejas começaram a promover encontros intereclesiais
de comunidades de base reunindo comunidades de várias dioceses. Posteriormente,
participantes desses encontros continuaram promovendo encontros de nível
nacional, pedindo a uma determinada Igreja Particular que os acolhesse. Esses
encontros são preparados por encontros diocesanos e regionais onde se buscam
representantes para os encontros nacionais.
85.
Esse fato tem um aspecto altamente positivo enquanto dinamiza, aprofunda e
sustenta o ânimo das comunidades que dão, igualmente, um testemunho de
vitalidade e ardor pelo Evangelho a toda a Igreja. Igualmente, os encontros
nacionais têm contado sempre com a presença de Bispos que os têm acompanhado.
86.
Há, porém, alguns outros aspectos que, a esta altura de já tão longa e rica
caminhada, necessitariam hoje de maior reflexão e encaminhamento para que a
comunhão eclesial não sofra prejuízos. Seria necessário que a coordenação geral
de cada encontro fosse mais assumida pelo Regional ou diocese que o acolhe.
Igualmente, a coordenação dos encontros regionais e diocesanos de preparação
deveriam ser assumidos oficialmente pelas dioceses e Regionais com aprovação
oficial dos respectivos Bispos.
Na
realidade, a coordenação da pastoral é um dos aspectos do ministério episcopal
e deve ser exercido em profunda comunhão com o bispo e sob sua responsabilidade
última.
87.
Isso não visa em absoluto diminuir a participação ativa dos membros das
comunidades, mas sim garantir a mais plena eclesialidade dos encontros. De
fato, não raro, uma coordenação aparentemente mais espontânea pode colocar em
risco aspectos importantes da eclesialidade que esses encontros devem guardar.
88.
Pertence aos Bispos zelar pela caminhada das igrejas a eles confiadas e
garantir para os próprios cristãos a autenticidade das promoções feitas pela
Igreja ou em nome da Igreja. Queremos assumir sempre mais nossa missão em
espírito de serviço fraterno e sabemos poder contar com o espírito de fé de
nossas comunidades.
As CEBs, alvo de
interesse e de incompreensão
89. Nestes últimos anos as CEBs
começaram a atrair a atenção de vários setores da Igreja e da sociedade. Elas
passaram, sobretudo, a ser alvo de pesquisa e estudo de teólogos e de
noticiários dos veículos de comunicação social. Esse noticiário deixa
transparecer claramente o interesse que certos grupos e instituições de fora da
Igreja têm com relação às CEBs.
90. Tudo isso é um sinal da
importância crescente das CEBs. Os estudos teológicos projetam luzes, ajudam a
compreender essa nova realidade, mas não devem ser confundidos com a vida mesma
das comunidades. E, por sua vez, a CEB tem dado uma contribuição significativa
para a elaboração de linhas mais originais de nosso pensamento teológico e
pastoral. A caminhada conjunta das CEBs e da reflexão teológica poderá
significar uma revitalização constante da ação evangelizadora.
91. Outro significado bem
diverso parece ter o interesse de instituições e grupos extra-eclesiais pelas
CEBs. Aí, com freqüência, o que se nota é a total desinformação, o desejo de
manipulação, quando não a intenção de fazer das CEBs o alvo dos ataques mais
gerais à Igreja.
92. Na realidade, o que
está em discussão é a missão mesma da Igreja. O que é repudiado não são as CEBs
em si mesmas, e sim todo o processo de evangelização voltado para a crítica
profética das injustiças e empenhado na construção de uma sociedade mais
fraterna. As CEBs, de maneira simples mas eficaz, conseguem praticar mais
intensamente as exigências da doutrina social da Igreja. Elas tornam visível o
compromisso com os pobres. Sua própria existência e atuação é uma denúncia da
iniqüidade social que rouba dos pobres sua voz e sua vez. Se as CEBs sofrem
perseguição é por causa da Igreja, do Evangelho, e assim elas se constituem
herdeiras da bem-aventurança.
93. A elas se aplicam as
palavras do Senhor: "Não temais, pequenino rebanho, porque foi do agrado
de vosso Pai dar-vos o Reino" (Lc 12,32). O Espírito de fortaleza será sua
força na contradição, e os pastores estarão sempre ao seu lado amparando e
confirmando a caminhada.
94. Ao concluir estas reflexões,
desejamos agradecer a Deus pelo dom que as CEBs são para a vida da Igreja no
Brasil, pela união existente entre nossos irmãos e seus pastores, e pela
esperança de que este novo modo de ser Igreja vá se tornando sempre mais
fermento de renovação em nossa sociedade.
Conselho
Permanente da CNBB
Brasília, de 23 a
26 de novembro de 1982
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Fonte: Conferência
Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB
Web site: www.cnbb.org.br