CONFERÊNCIA
NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL
PRONUNCIAMENTOS
DA CNBB
1981 - coletânea -
1982
APRESENTAÇÃO
No cumprimento de sua missão, a CNBB vem elaborando documentos que
orientem o Povo de Deus nas diferentes situações em que deve viver a sua fé.
Os documentos maiores têm sido publicado na sua íntegra. Quanto aos
demais pronunciamentos da Assembléia, do Conselho Permanente, da Presidência e
da Comissão Episcopal de Pastoral, até hoje só eram publicados através do
Comunicado Mensal da CNBB.
Na intenção de servir melhor aos membros de nossas comunidades,
oferecemos, agora, a coletânea de pronunciamentos que abrangem o período que se
seguiu desde a Assembléia de 1981 até a Assembléia de 1982, inclusive. Quanto
aos documentos "Solo urbano e ação pastoral", da 20ª Assembléia, e
"Reflexão Cristã sobre a conjuntura política", do Conselho Permanente
de agosto de 1981, por terem sido publicados anteriormente, não figuram nesta
coletânea.
Luciano Mendes de
Almeida
Brasília, 15 de
abril de 1982
DOCUMENTOS
DA 20ª ASSEMBLÉIA GERAL
Itaici, de 9 a 18
de fevereiro de 1982
INICIATIVAS PASTORAIS A PARTIR
DA ENCÍCLICA "LABOREM EXCERCENS" E DA EXORTAÇÃO APOSTÓLICA
"FAMILIARIS CONSORTIO"
INTRODUÇÃO
1. Na seqüência das encíclicas sociais da
Igreja, de Leão XIII aos nossos dias, a Laborem Exercens" continua e
atualiza os ensinamentos pontifícios sobre as relações do homem com o trabalho.
2. Ressaltando a dignidade da pessoa e a sua
prioridade sobre as coisas, abre novos espaços e alternativas para a
interpretação do problema social. Destarte, evita que se acentue o jogo
exacerbado das polarizações ideológicas que perseguem as atuais gerações.
3. Das reflexões de sabedoria e de
experiência contidas na encíclica, surge, para nós, um grave imperativo: o
dever de um esforço pastoral mais amplo, paciente e dinâmico, ao mesmo tempo,
para a fiel conscientização de todos os segmentos integrantes da sociedade,
através da palavra e das iniciativas concretas.
4. Neste sentido, o CELAM promoveu uma
Reunião Extraordinária, no Rio de Janeiro, com a finalidade de convidar a
Igreja inteira da América Latina para uma reflexão profunda sobre os pontos
capitais da doutrina social da Igreja, notavelmente enriquecida com a encíclica
"Laborem Exercens". O documento emanado desse encontro, que se
realizou nos dias 29, 30 e 31 de janeiro de 1982, merece ser lido
cuidadosamente.
5. Enquanto isso, aproveitamos a
oportunidade para salientar e recomendar uma recente publicação do Departamento
de Ação Social do CELAM, intitulada Fé cristã e compromisso social, de
cujo texto já foi feita, pela CNBB, uma especial tradução em comemoração da
"Rerum Novarum".
6. É nosso dever, após nos determos na
consideração da "Laborem Exercens", manifestar a nossa alegria pela
presença, entre nós, da exortação apostólica "Familiaris Consortio",
que trata da missão da família no mundo de hoje.
7. Ameaçada de todos os lados, contestada em
muitos de seus elementos constitutivos tradicionais, violentada pela sociedade
de consumo e aliciada pelas promessas de uma sociedade coletivista, descrentes
dos valores religiosos, a família merece o nosso carinho, nosso apoio e a nossa
dedicação pastoral.
8. A "Familiaris Consortio" chega,
em momento providencial, a exigir a retomada de conceitos que dignifiquem a
família e repilam a idéia de seu abastardamento moral, de seu aniquilamento
social e econômico.
I — SUGESTÕES GERAIS
9. Após estas breves palavras introdutórias,
a 20ª Assembléia Geral da CNBB sugere, encarecidamente, as seguintes
iniciativas pastorais:
10. Dar-lhes a mais ampla difusão possível
junto ao nosso povo, através de todos os meios de comunicação social.
11. Incentivar a todos os fiéis de nossas
comunidades, e mesmo a outros brasileiros de boa vontade, sua atenta leitura e
reflexão.
II — QUANTO À ENCÍCLICA "LABOREM EXERCENS"
as iniciativas mais recomendadas são:
12. 1ª A
promoção de cursos, encontros e semanas sociais, envolvendo, na reflexão e nos
compromissos, Bispos, presbíteros, religiosos(as) e agentes leigos de pastoral;
13. 2ª a
difusão, reflexão, a partir da encíclica, nos chamados "grupos
decisórios", especialmente empresários, políticos, economistas, líderes
sindicais e universitários e outras categorias influentes;
14. 3ª o
aproveitamento do próximo Dia do Trabalho, como privilegiada oportunidade para
celebrações, a partir de um texto proposto pela CNBB ou de mensagem dos Bispos,
calcados na "Laborem Exercens";
15. 4ª a
promoção de encontros de operários, visando à sua preparação pessoal e presença
cristã em seus ambientes, sindicatos e organizações similares;
16. 5ª o
estudo da "Laborem Exercens" para uma visão mais aprofundada da
doutrina social da Igreja, especialmente em disciplinas de natureza social dos
cursos seminarísticos;
17. 6ª a
inclusão da doutrina social da Igreja, tão oportunamente exposta na "
Laborem Exercens ", em programas de catequese, em todos os níveis.
III — QUANTO À EXORTAÇÃO APOSTÓLICA "FAMILIARIS CONSORTIO",
sugerimos que:
18. 1ª Se torne verdadeiro livro de
cabeceira de quantos se sintam responsabilizados com o presente e o futuro da
família, em especial dos agentes de pastoral familiar;
19. 2ª os nossos presbíteros se reúnam para
refletir e rever as próprias posições e atividades pastorais a partir da
exortação apostólica;
20. 3ª seja promovida em todos os regionais,
dioceses e prelazias e, se possível, em todas as comunidades paroquiais, no
momento mais oportuno deste ano, uma Semana da Família, com celebrações
litúrgicas e paralitúrgicas, concentrações, caminhadas de famílias e outras iniciativas,
à luz da "Familiaris Consortio ";
21. 4ª os Institutos da Família, existentes
ou a serem organizados, e os vários movimentos de casais cristãos, sejam
motivados e se orientem em suas iniciativas a partir da "Familiaris
Consortio";
22. 5ª sejam revalorizadas pastoralmente as
celebrações do Dia das Mês e do Dia dos Pais, com reflexões, preces e opções
segundo o plano de Deus apresentado pela " Familiaris Consortio";
23. 6ª a linha 1 da CNBB produza subsídios
(texto, cartaz, etc.) de alcance popular, que cheguem às nossas comunidades,
sobre a natureza da verdadeira missão, direitos e deveres da família cristã.
24. Temos a esperança de que, no Brasil, a
autorizada palavra do Santo Padre João Paulo II venha a inspirar e dinamizar
tanto a pastoral social quanto a pastoral familiar, em todas as nossas
numerosas comunidades cristão.
APELO
DE PAZ CONTRA A INDÚSTRIA BÉLICA
Itaici, 9 a
18/2/1982
1. A Pontifícia Academia de Ciências
terminou sua recente Declaração sobre as conseqüências do emprego das armas
nucleares com esta frase categórica: "Se não falarmos, nos arriscamos
a trair a nós próprios, nos arriscamos a trair nossa civilização" (7/8 de
outubro de 1981).
2. Nós, os Bispos do Brasil, unidos ao Santo
Padre, o Papa, em suas declarações repetidas em favor da paz e do desarmamento,
recolhemos igualmente as apreensões hoje expressas por políticos, cientistas e
pelo povo, que, freqüentes vezes, se manifestam nas mais diversas partes do
mundo.
3. O medo da destruição da vida humana por
uma guerra nuclear ou por conflitos sucessivos começa a acordar as consciências
e a exigir medidas adequadas para sustar a proliferação de armas de todos os
tipos.
4. Exatamente, no momento em que se noticia
que o mundo inteiro começa a pôr em dúvida a promoção da paz, através da
corrida armamentista, a CNBB vem propor algumas reflexões com o intuito de
colaborar com o povo do Brasil para a preservação da paz.
5. 1º Reconhecemos,
com o Santo Padre, que "o cristão, quando se dedica a combater e prevenir
todas as formas de guerra, não hesita em recordar, em nome de uma elementar
exigência da justiça que os povos têm o direito e também o dever de proteger,
com meios proporcionados, a sua existência e a sua liberdade contra um injusto
agressor" (Mensagem do Papa João Paulo II para a celebração do Dia
Mundial da Paz. 1/1/1982, n¡ 12).
6. Na mesma mensagem, João Paulo II, no
entanto, também convocou os Cristãos todos a consagrar o melhor de suas
energias à paz, " dom de Deus, confiado aos homens". (Ib. 11)
7. 2º Neste
momento, publica-se, dentro e fora do país, que o Brasil ocupa o quinto lugar
na produção e exportação de armas. Concorre, desta forma, para acelerar a
corrida armamentista, sobretudo no Terceiro Mundo, tão castigado pela fome e
doenças. Já nos advertia o profeta Oséias: "Confiaste nos teus carros e na
multidão de teus guerreiros. Portanto, entre teu povo se levantará o tumulto de
guerra" (Oséias 10,12-14).
8. Antes que tal aconteça, pedimos aos
responsáveis pela fabricação e venda de armas que revejam sua posição.
9. "Se queres a paz prepara a
justiça", costumava repetir Paulo VI. E o Presidente Dwigt D. Eisenhower,
após a terrível experiência da II Guerra Mundial e como um dos protagonistas
dela, pôde advertir o mundo, em 1953: "Cada arma fabricada, cada belonave
lançada, cada foguete disparado, significa, no final, um roubo àqueles que
padecem fome e não têm o que comer, àqueles que estão nus e não tem o que
vestir".
10. Nossa exortação de pastores ao povo se
baseia na palavra do próprio Deus: "O Senhor julgará entre muitos povos e
corrigirá nações poderosas e longínquas: converterão as suas espadas em relhas
de arados e suas lanças em foices" (Miquéias 4,3).
11. Que os recursos de guerra sejam, na
medida do possível, empregados na educação, na saúde, na indústria, na lavoura,
na construção e nas demais necessidades prementes da população.
12. No final, não podemos deixar de
acrescentar uma palavra sobre a produção de energia nuclear:
13. Não discutimos se ela vem ou não a
desempenhar papel preponderante na construção do mundo de amanhã.
14. No entanto, é bem visível que o mundo de
hoje mais se amedronta do que se encoraja com ela.
15. O chanceler brasileiro Ramiro Saraiva
Guerreiro tentou interpretar, cremos nós, o pensamento da maioria do nosso
povo, quando declarou, na 36ª Assembléia Geral da Organização das Nações
Unidas, em abril de 1981: O risco de uma guerra não diminuiu... e a segurança
de nenhum país aumentou". Em seguida, conclamou ele os povos à
"cooperação internacional para a melhoria de condições de vida dos
povos".
16. Novamente nos sentimos, pois, no dever
de apelar a todos os responsáveis, e à nação inteira, para concentrar a atenção
sobretudo em três pontos:
17. a) que seja garantida, por todos os meios,
aplicação pacífica da energia nuclear a ser produzida no Brasil;
18. b) que haja as maiores garantias contra os
acidentes, já tantas vezes registrados em outros países bem mais avançados que
o nosso. Igual cuidado se proporcione ao tratamento do lixo atômico, tão
altamente nocivo à vida humana e ao meio ambiente;
19. c) que as decisões sobre a produção e a aplicação
da energia nuclear no Brasil sejam revisadas pelos representantes do povo e por
todos os que possam dar contribuição científica, sobre sua real necessidade,
levando-se ainda em conta o clamor do povo quanto à localização de usinas e
quanto às prioridades dos gastos nacionais.
20. Ao divulgarmos o presente apelo,
imploramos sobre todos os brasileiros a proteção de Cristo que nos trouxe o
Evangelho da paz. (Ef 6,15).
A
LEGALIZAÇÃO DOS CASSINOS E DO JOGO DE AZAR
Itaici,
9-18/2/1982
1. As Assembléias Gerais vêm significando
cada vez mais para o episcopado brasileiro um momento denso de encontro
fraterno, de oração, de reflexão sobre nossa missão pastoral, e de esperança
numa Igreja sempre mais viva, consciente e participante. E, como é natural,
dentro dessas reuniões ressoam os ecos dos problemas que mais vivamente vão
atingindo nosso povo na sua caminhada e que pedem uma palavra de orientação
pastoral.
2. Estamos informados de que se encontra no
Congresso Nacional um projeto de lei para excluir o jogo de sua caracterização
de contravenção penal. O que significa abrir as comportas do jogo de azar, dos
cassinos e de todos os males que daí derivam. Poder-se-ia perguntar de onde vêm
essas sempre renovadas tentativas. Não há dúvida de que, por detrás, está o
grande dinheiro internacional e nacional de poderosos que querem lucros sempre
maiores, mesmo que sejam à custa da ruína de um povo; se é que não entram
também mesquinhas esperanças de dividendos eleitorais, para quem não os
consegue mediante processos mais nobres.
3. É triste que se tente desfibrar um povo
que já enfrenta vastas forças negativas procurando destruí-lo por dentro: a
pornografia, a dissolução da família, a pregação insistente de uma filosofia de
vida materialista e hedonista, a difusão do uso dos tóxicos, a sede do ouro que
despreza os caminhos da justiça. Nessa hora lembraríamos a luminosa página de
Rui Barbosa, verberando o jogo com toda a veemência de sua palavra: "De
todas as desgraças — diz ele — que penetram no homem pela algibeira e arruinam
o caráter pela fortuna, a mais grave é, sem dúvida essa: o jogo... Permanente
como as grandes endemias que devastam a humanidade, universal como o vício,
furtivo como o crime... ele zomba da decência, das leis e da polícia..."
4. Não seria o fato de autorizá-lo que
tornaria bom e honesto o jogo. Vício, ele continuaria mau e pernicioso, e a lei
que o permitisse seria uma lei iníqua. E nos levaria a perguntar: Como é que homens,
eleitos para defender o bem do povo, poderiam legislar contra o bem desse mesmo
povo?... Nem se diga que já se pratica o jogo de mil formas clandestinas e que,
então, o certo seria autorizá-lo e regulamentá-lo. Não se corrige um erro
autorizando-o, mas pela educação, pela formação das consciências.
Por isso mesmo, a verdadeira pedagogia é a
que previne contra o mal, em vez de apenas castigá-lo depois de cometido. Essa
é a pedagogia em que a Igreja acredita. Por essa razão, e não só neste problema
de erros e vícios, mas em todas as áreas da contextura social — justiça,
liberdade, participação política, direitos humanos — ela se empenha em ser
mestra leal e carinhosa de seus filhos. No caso específico do jogo, ensina o
homem a não pôr suas esperanças na sorte problemática do jogo, mas na tranqüila
segurança do trabalho honesto e produtivo.
5. Os argumentos que continuam a ser
aduzidos para legitimar o jogo são os mais inconsistentes. Diz-se, por exemplo,
que os cassinos gerariam grande número de empregos. Mas não haverá no Brasil
infinitas outras áreas demandando braços e talentos? O homem brasileiro dispõe
de setores mais nobres e úteis, além de urgentes, em que se ocupar. Nem seria
feliz em ganhar seu dinheiro alimentando o vício, fonte de ruínas para muitos.
Além disso, fala-se do incremento que o jogo traria para o turismo.
E se apresentam dados capciosamente arranjados para impressionar.
Quando, pelo contrário, informes objetivos apresentados pela Organização
Mundial de Turismo mostram que os freqüentadores de cassinos são, em sua maior
parte, do próprio país onde eles existem. Como também não é verdade que o jogo
seja a grande motivação do turismo. Numa pesquisa feita nos Estados Unidos, o
jogo aparece em 19º lugar na lista
dessas motivações.
6. E estão sempre aí as grandes razões da
sabedoria e da experiência: o jogo arruina as pessoas, destrói-lhes o caráter,
desorganiza a família, perturba o trabalho. O jogo enriquece um grupo já
extremamente rico e tira o dinheiro de quem não pode perdê-lo porque compromete
sua família, seus bens, sua paz. O jogo anda de mãos dadas com o roubo, a
violência, os tóxicos e toda sorte de crimes.
7. O Brasil não está precisando abrir mais
portas para o mal. Precisa, isto sim, de trabalho, de justiça, de paz. Apelamos
para a clarividência e patriotismo dos legisladores do país para que não se
tornem cúmplices dos perversos intentos que rondam a nossa gente.
DECLARAÇÃO
FACE AOS CONFLITOS DE TERRA E ATUAÇÃO PASTORAL DA IGREJA
Itaici, 9 a
18/2/1982
1. Os problemas da ocupação e do uso da
terra em nosso país, marcado por injustiças e conflitos, nos levaram, na
Assembléia de 1980, a refletir sobre essa grave questão social, à luz do
Evangelho, e sobre o posicionamento pastoral da Igreja e seu compromisso
permanente com a justiça e a fraternidade. Assim, aprovamos e divulgamos o
documento A Igreja e os problemas da terra".
2. Embora algumas medidas tenham sido
tomadas, continua grave a situação e multiplicam-se as tensões e os conflitos
em vários pontos do país. Da mesma forma, cresceu o engajamento pastoral da
Igreja, na busca de solução justa e fraterna para esse problema social.
3. Ao mesmo tempo em que ocorrem as
represálias, arbitrariedades e violências que causam tantos sofrimentos ao
povo, vêm sendo propaladas interpretações parciais ou malévolas e calúnias
contra a ação pastoral da Igreja, acompanhadas de várias espécies de
perseguição a muitos de seus membros.
4. Por essas razões, reunidos novamente em
Assembléia Geral, reafirmamos a validade e oportunidade das diretrizes
pastorais do nosso documento sobre problemas da terra.
5. Queremos manifestar solidariedade a todos
os que sofrem, vítimas desses conflitos em nossa pátria. Desde o início de 1977
até a presente data já somam para além de mil tais conflitos, atingindo mais de
dois milhões de pessoas.
6. O nosso olhar volta-se especialmente para
os treze posseiros e os padres presos, Aristides Camio e Francisco Gouriou, de
São Geraldo do Araguaia, e para os colonos sem terra acampados em Ronda Alta,
por serem estes fatos de suma gravidade e significativos no contexto dos
mencionados conflitos.
7. Com relação aos posseiros de São Geraldo
do Araguaia, temos informações seguras de que, antes do incidente de 18 de
agosto de 1981, foram praticados contra eles verdadeiros atos de selvajaria por
pistoleiros que destruíram suas casas e pertences, queimaram roças, retiraram à
força mulheres e crianças de suas moradias, apesar de muitos deles já residirem
na área há mais de dez anos e de terem chegado antes de por lá aparecerem os
que agora se dizem proprietários.
8. É de nosso conhecimento que na prisão de
São Geraldo foram maltratados e torturados, principalmente, os seus líderes. O
advogado que lhes foi dado, ex-agente da Polícia Federal, limitou-se a levar os
posseiros a acusar os padres.
9. Quanto aos padres, outra coisa não
fizeram senão orientar os posseiros na defesa de seus direitos. A prisão que
sofrem, sem nada ter sido provado contra eles, é o preço de sua fidelidade às
diretrizes pastorais da sua diocese, conforme testemunho de seu próprio bispo.
10. Em relação aos colonos de Ronda alta,
sua aspiração é ter um pedaço de terra própria para trabalhar no Estado do Rio
Grande do Sul. Para isso, organizaram-se pacificamente, buscando, na fé, força
para lutar por seus direitos. Acampados há mais de um ano, em condições
precaríssimas, vêm sofrendo pressões e ameaças para aceitar terras em Mato
Grosso e desistir de seus propósitos.
11. Os Bispos do Brasil, reunidos em
Assembléia Geral, não podiam deixar de manifestar solidariedade a quantos estão
sofrendo em defesa de seus direitos ou dos direitos dos seus irmãos.
12. Conforta-nos lembrar que, desde o
início, nossa Conferência não se omitiu em tomar conhecimento de todos os fatos
e dar, sempre que necessário, a presença e apoio.
13. Somos gratos à Presidência e Comissão
Episcopal de Pastoral de nossa Conferência pela atuação e pronunciamentos nos
momentos difíceis decorrentes de nossa opção pastoral. Assumimos e propomos à
consideração de todos seu comunicado sobre conflitos da terra, de 24 de
setembro de 1981.
NOTA
A RESPEITO DAS ELEIÇÕES DE 1982
Itaici, 9 a
18/2/1982
1. As eleições, programadas para o próximo
novembro de 1982, apresentam-se de particular importância para a consolidação
das aspirações nacionais rumo à plenitude democrática que se almeja.
2. Em tais circunstâncias, sentimo-nos
obrigados, em consciência, a declarar que a nação inteira espera que se realize
o pleito eleitoral em clima de respeito mútuo e de liberdade igual para todos
os partidos políticos.
3. Empenhados também na formação da
consciência política do povo brasileiro, lembramos, entre outras, as
orientações apresentadas nos documentos da CNBB: "Exigências Cristão de
uma ordem política", de 1977, e "Reflexão Cristã sobre a
conjuntura política", de 1981, que poderão oferecer aos eleitores
elementos necessários para suas opções particulares.
4. Não pretendemos empenhar-nos nas lutas
partidárias. O que nos interessa é expressar nosso ânimo de bem servir à
pátria, desejando firmemente que todos os brasileiros dignifiquem o seu voto.
SOLIDARIEDADE
À IGREJA E AOS POVOS DA POLÔNIA, EL SALVADOR E GUATEMALA
Itaici, 9 a
18/2/1982
1. Nós, Bispos, reunidos em Itaici, na 20ª
Assembléia da CNBB, preocupados com a situação da Igreja e dos povos da Polônia,
El Salvador e Guatemala, dirigimos um apelo às nossas comunidades e a todos os
homens de boa vontade de nossa pátria no sentido de expressarem sua
solidariedade aos que sofrem, nesses países, atentados aos direitos humanos.
2. Sabemos, com efeito, que esses povos são
vítimas de pressões e intervenções estrangeiras que impedem sua
autodeterminação. A eles é negado o direito à livre associação e à participação
das decisões que dizem respeito a seus próprios destino. Essas situações são causadas por ideologias ou
sistema contrários às suas legítimas aspirações de justiça Social. São
particularmente dolorosas, na América Latina, as situações de El Salvador e
Guatemala, cujas populações vivem sob
constante medo, torturas, massacres, sendo milhares os que estão presos e
numerosos os desaparecidos e mortos.
3. A Igreja, identificada com as aspirações
destes povos e integrada em sua história, participa de suas dores, sendo, por isto, alvo de perseguições e restrições
ao comprimento de sua missão apostólica.
4. Convidamos todos à oração por esse nossos
irmãos.
5. Pedimos a Deus, nosso Pai, a graça da
conversão dos poderosos e responsáveis pela situação reinante e que dê a esses
povos, em sua caminhada, força e perseverança para construir uma sociedade justa
e fraterna, transformando-se, assim, os sofrimentos de hoje num futuro próximo
de paz.
DOCUMENTOS
DO CONSELHO PERMANENTE
DIREITOS DOS POVOS INDÍGENAS E DA IGREJA
Brasília, 25 a
29/8/1981
1. A Conferência Nacional dos Bispos do
Brasil, através do seu Conselho Permanente, reunido em Brasília de 25 a 29 de
agosto de 1981, tomou conhecimento da proibição, aos missionários, de
desenvolver, em nome da Igreja, seu trabalho de evangelização junto aos povos
indígenas. Tais fatos ocorreram nos Estados da Paraíba (abril-1981), do
Espírito Santo (maio-1981), do Acre (julho-1981) e, mais recentemente, do Pará
e no território do Amapá (agosto-1981).
2. Além da voz dos missionários
injustiçados, ouvimos também o clamor dos povos indígenas de quase todo o
território nacional por causa da redução (como, p. ex., é o caso das
Pataxós/BA, dos Xavantes/MT, dos Tapirapé/MT, dos Tupiniquins/ES) ou
não-demarcação das suas terras (p. ex.: Yanomami/RR, Gorotire/PA, Kadiwéu/MT,
Potiguara/PB, Apurinã/AM).
3. Diante da incompreensão do órgão tutelar,
a FUNAI, particularmente com relação ao Conselho Indigenista Missionário-CIMI,
órgão anexo a esta CNBB, afirmamos energicamente o direito dos povos indígenas
à justa demarcação das suas terras, seu direito a um " espaço vital que
será base, não somente para sua sobrevivência, mas para a preservação de sua
identidade como grupo humano, como verdadeiro povo, como verdadeira nação,
conforme a expressão feliz do Papa João Paulo II na sua alocução aos índios em
Manaus (10/07/1980).
4. Afirmamos, outrossim, o direito e o dever
da Igreja de exercer com liberdade a sua missão de evangelização: "A
apresentação da mensagem evangélica não é para a Igreja uma contribuição
facultativa, é um dever que lhe incumbe, por mandato do Senhor Jesus"
(Paulo VI, "Evangelii Nuntiandi", nº 5). O Papa Paulo VI confirma, na
mesma ocasião, o que o Concílio Vaticano II declarou a respeito do dever da
evangelização: "Por mandato divino, incumbe à Igreja o dever de ir por
todo o mundo e pregar o Evangelho a toda a criatura" (Paulo VI, "Evangelii
Nuntiandi", nº 59). E é a própria Igreja que define o conteúdo e que
escolhe os ministros de sua ação evangelizadora.
5. A Igreja não se recusa ao diálogo com os
órgãos competentes. Rechaça, porém, qualquer tentativa de converter sua missão
numa assessoria ou cobertura de uma política indigenista oficial. A Igreja
"questiona, é claro, aquela 'universalidade' que é sinônimo de nivelamento
e uniformidade, que não respeita as diferentes culturas, debilitando-as, absorvendo-as
ou eliminando-as" (Puebla, 427).
O diálogo da Igreja com os organismos
responsáveis pela política indigenista oficial será sempre balizado pelas
exigências do Evangelho e pelas reivindicações dos próprios povos indígenas.
Mesmo esgotadas as condições de diálogo, continua o direito e o dever da
evangelização como ordem divina, historicamente sempre exercida pela Igreja.
6. Assumimos o sofrimento dos missionários
atingidos, em solidariedade com o sofrimento dos povos indígenas, na esperança
de que sejam fatos transitórios.
7. Apelamos aos órgãos competentes a que
respeitem a vontade dos próprios povos indígenas que querem a presença dos
missionários nas suas áreas. Relembramos a boa notícia do Papa João Paulo II,
por ocasião da sua visita ao Brasil, dirigida aos índios: "Que a vocês,
cujos antepassados foram os primeiros habitantes desta terra, tendo sobre ela
um particular direito ao longo de gerações, seja reconhecido o direito de
habitá-la na paz, na serenidade, sem temor" (João Paulo II, Manaus,
10/07/1980).
PRONUNCIAMENTO
SOBRE O JOGO E A PORNOGRAFIA
Brasília, 25 a
29/8/1981
1. Presentes no meio de nossa gente como
pastores e irmãos, partilhamos da sua vida e, também, dos seus problemas.
2. Há riscos que exigem de nós uma atuação
pastoral imediata. Divulga-se que, em breve, será encaminhado um projeto para
legalizar o jogo e reabrir cassinos em nosso país, a pretexto de proporcionar
novos empregos e vantagens sociais e assistênciais através de taxação e sob
controle por parte da competente autoridade. Não se resolvem os problemas
sociais com soluções falaciosas, que incentivam a fraqueza humana e a tendência
ao vício, desviando, ainda, a atenção do povo das reais causas da atual crise
social.
3. Outro problema diz respeito à pornografia
nos meios de comunicação social. Estamos vivendo um momento de explosão
descontrolada do erotismo, através do cinema, da televisão, dos espetáculos,
das canções, das revistas. Enquanto a verdadeira arte procura formas de
sobreviver, essas produções, de baixo valor artístico e cultural, encontram
apoio econômico e força de divulgação e só servem para perverter os instintos
humanos. O contexto do verdadeiro amor humano é quase sempre deixado de lado,
explorando-se o sexo como objeto de consumo.
4. Como pastores, cabe-nos anunciar o plano
do Criador sobre a grandeza e a beleza do amor humano, reflexo do amor divino e
meio para realizar as aspirações de comunhão e de felicidade. Cabe-nos também
denunciar que esse plano vem sendo sistematicamente desfigurado pela ganância
dos exploradores dos vícios dos indivíduos e da sociedade.
5. Chamamos à atenção as famílias, escolas e
comunidades, na busca concreta da formação de uma consciência crítica preparada
para enfrentar os desafios do jogo e da pornografia, que acarretam graves
prejuízos, particularmente para a nossa juventude.
6. Expressamos nosso voto de confiança em
todas as pessoas empenhadas no esforço de construir uma sociedade que supere a
exploração do homem pelo homem e, seguindo o plano divino, encontre a verdadeira
felicidade.
NOTA
SOBRE A DEFESA DA VIDA E O ABORTO PROVOCADO
Brasília, 25 a
29/8/1981
1. A Conferência Nacional dos Bispos do
Brasil, através do seu Conselho Permanente, reunido em Brasília de 25 a 29 de
agosto, sente-se no dever de alertar a consciência cristã e nacional para as
novas investidas em favor da liberalização do aborto. Pela lei natural e
divina, o abortamento provocado é um crime cometido contra um inocente
indefeso. No momento em que se tenta aplicar a Carta dos Direitos Humanos,
convém recordar que o direito à vida é fundamento de todos os demais.
2. Por motivo da elaboração da reforma do
Código Penal, a CNBB recorda que a proteção ao ser indefeso, ainda no seio
materno, brota de um verdadeiro espírito jurídico. Apela com veemência aos
juristas a fim de aprofundarem os princípios relacionados com a defesa da vida
desde sua concepção até a morte natural. A proteção legal ao nascituro se torna
mais necessária pela impossibilidade da defesa por parte da vítima.
3. Os pastores orientem o Povo de Deus a que
rejeitem todas as investidas em favor da proliferação da violência, sob o
aspecto da supressão de uma vida humana já iniciada. Consideração alguma,
inclusive o chamado "aborto sentimental" e o suposto "aborto terapêutico",
pode revogar as exigências da lei divina:
"Não matarás". Uma posição firme e clara se contrapõe a
argumentos falaciosos, como o da aceitação por outros países: o número jamais
transforma o erro em verdade. O direito de a mulher dispor de seu corpo não
envolve o direito de matar o próprio filho — suprema degradação do amor
materno. O fato de alguns buscarem, através dos meios de comunicação social,
formar uma opinião pública favorável ao crime do aborto provocado, pede uma
constante atenção de todos os cristãos.
DOCUMENTOS
DA PRESIDÊNCIA E DA COMISSÃO EPISCOPAL DE PASTORAL
A
RESPEITO DA LEI DOS ESTRANGEIROS
Brasília,
15/4/1981
"A leitura das alterações a serem introduzidas na lei dos
estrangeiros revela pontos positivos, suscita algumas questões e leva à constatação
de omissões. Tendo em vista o aprimoramento da lei, para que atenda, do melhor
modo, ao bem comum, apresentamos, de modo conciso, elementos para novos
estudos, na expectativa de que sejam inseridos na lei valores imprescindíveis
para um adequado estatuto dos estrangeiros. É necessário, no entanto, salientar
e louvar o esforço que as alterações propostas supõem, em vista do
aprimoramento da lei. Este esforço deve ser recebido como sinal do anseio em
promover o bem comum. Neste sentido, entendemos que toda ulterior colaboração
para a reta formulação da lei será, sem dúvida, bem valorizada.
I. Entre
as sugestões apresentadas, cabe elencar os seguintes pontos positivos:
a) No art. 16 é explicitado que o aumento da produtividade não é a meta
primordial da política imigratória, mas o "desenvolvimento em
todos os seus aspectos". Além disso, conviria ainda expressar
claramente a consonância necessária entre a política do desenvolvimento e os
"princípios e obrigações de convivência e solidariedade internacional".
b) Beneficia e protege a unidade familiar o artigo novo do Título VIII,
que trata da inexpulsabilidade do estrangeiro que tenha responsabilidade de
família por estar casado com brasileiro(a) ou por ter filho brasileiro
dependente da economia paterna. A cláusula que exige, para o primeiro caso, que
se tenham passado cinco anos desde a celebração do casamento, poderá ser
reconsiderada. Conforme a proposta anterior da CNBB, seria suficiente um tempo
menor. c) É notável e justificada a especial consideração para com a situação
dos estrangeiros de nacionalidade portuguesa. d) Acrescentamos a enumeração de
outros pontos que aperfeiçoam a lei: a inclusão, no art. 44, do acionista
controlador; no art. 46 restringe-se a obrigação de remessa de dados de
identificação à hipótese de requisição pelo Ministério da Justiça; a dispensa
do atestado de vacinação para menores de três a seis anos; e, em especial, no
art. 111, a dispensa na prova de boa saúde para efeitos de naturalização do
estrangeiro residente há mais de dois anos; o restabelecimento das duas formas
de naturalização previstas na Constituição Federal; a alteração do art. 98,
facultando aos estrangeiros a inscrição temporária na entidade fiscalizadora do
exercício de profissão regulamentada. e) Positiva é, sem dúvida, a intenção de regularizar
a situação dos estrangeiros que entraram ilegalmente no Brasil, com a
extensão da data limite — 20 de agosto de 1980, coincidindo com o dia da
vigência do decreto-lei 941/69.
II. No
entanto, ao lado destes pontos positivos e louváveis, é necessário levantar
algumas questões que permitam prever e
superar equívocos na lei:
1ª A
saída da clandestinidade (de que trata o item 17 dos temas em estudo referentes
ao art. 132) dos estrangeiros em situação irregular: prevê-se a concessão de um
registro provisório. Mas, para que esta solução não seja apenas um paliativo, e
não cause detrimentos graves, deve incluir a disposição, por parte do Brasil,
de consolidar a situação precária de muitos estrangeiros, a) pela extensão
futura do prazo de validade do visto, e b) pela defesa dos estrangeiros
acolhidos no Brasil, cujos estados nacionais, por razões políticas, não
salvaguardem o direito dos cidadãos à liberdade. Só assim será possível atender
aos estrangeiros que recorrem ao Brasil esperando uma acolhida humanitária por
decorrência de condições políticas nas próprias nações. — 2ª No que se refere à
renovação do visto temporário ao fim do prazo concedido, é preciso assegurar,
na regulamentação da lei, a superação de toda arbitrariedade e o direito de
defesa.
III. Em
relação aos casos não contemplados nos "Temas em Estudo" para
alterações, é indispensável ainda examinar, entre outros, os pontos
seguintes:a) A necessidade de se revogar o § 2º do art. 26 no que se refere à
chamada "pena infamante", que pode estender ao inteiro grupo familiar
o impedimento de qualquer dos integrantes da família. b) A consideração na lei
dos que deixam a própria pátria, por ideal religioso ou humanitário, para se
dedicar ao Brasil, superando as restrições do artigo 13, que está mais voltado
para assegurar a produtividade nacional. É o caso dos missionários. Em nome da
Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, insistimos no direito da pregação do
Evangelho, que é de lei divina e transcende as nações e a vontade dos homens.
c) A conveniência de estabelecer melhor,
por meio de norma legal, o que atualmente é concedido ao critério de pessoa
revestida em autoridade, por mais que reconheçamos o respeito devido à
autoridade titular do Ministério da Justiça e seus colaboradores.
d) Lembramos ainda a sugestão anteriormente
apresentada, em relação ao art. 71, estabelecendo o pedido de reconsideração.
Poderia o texto substitutivo ser enunciado assim: "Caberá sempre pedido de
reconsideração no prazo de 10 dias, a contar da publicação do decreto de
expulsão no Diário Oficial da União".
e) Quanto ao assim chamado confinamento,
parece-nos conveniente que se contemple a alternativa de conceder liberdade de
localização ao estrangeiro que atue em área carente e esteja sob a responsabilidade
de uma sociedade reconhecida pelo Conselho Nacional de Imigração.
Resumindo as aspirações mais profundas a respeito na reformulação da
lei, poderíamos concluir sugerindo: a) A importância, para o futuro do Brasil,
do reconhecimento do valor da solidariedade e fraternidade universal acima de
critérios que privilegiem a mera produtividade. b) A magnanimidade no tratar os
casos precedentes, que só poderá engrandecer o povo brasileiro e constituir-se
como resposta agradecida à contribuição que o Brasil, em sua história, recebeu
e recebe dos estrangeiros. Isto colaborará para a educação de nosso povo,
particularmente dos jovens, dentro de valores nobres de convivência pacífica e
humanitária".
NONAGÉSIMO
ANIVERSÁRIO DA RERUM NOVARUM
Brasília, 30/4/1981
A SIGNIFICAÇÃO
DA "RERUM NOVARUM"PARA O BRASIL DE HOJE — A essência da
mensagem da Rerum Novarum
A destruição das mediações naturais livres, vigentes no antigo regime,
especialmente das corporações, deixou a sociedade exposta a perigosos afrontamentos
de classes, patrões e operários, como se fossem inimigos natos. Esta situação
de confronto criava um equilíbrio social instável. Diante das injustiças
sociais, a sedução da solução socialista penetrava no povo e ameaçava
introjetar tensões dentro da própria Igreja.
A "Rerum Novarum" insiste na necessidade de novas mediações
para absorver os dinamismos conflituais. A primeira mediação é o Estado: na sua
função de responsável pelo bem comum, isto é, pelo bem de todos, o Estado tem o
direito e o dever de intervir no plano social e econômico para defender os mais
fracos, os trabalhadores, contra as pressões dos mais fortes, do capital. A
segunda mediação são as novas associações: os operários têm direito de se
associar para defender as suas reivindicações.
Duas teses revolucionárias na época de um liberalismo, segundo o qual ao
Estado não cabia outra função senão tutelar o cumprimento dos contratos, e
segundo o qual os sindicatos deviam ser policialmente reprimidos. A situação do
Terceiro Mundo assemelha — se muito à do mundo de Leão XIII, não pelo fato de
terem sido destruídas as mediações naturais, mas pelo fato de elas nunca terem
existido. Não se trata de reconstituir um tecido social destruído, mas de
criá-lo. Sem a vitalidade desse tecido social, a situação do Terceiro Mundo, e
nele o Brasil, se caracteriza pelo domínio de oligarquias locais que se
associam aos órgãos do poder político e do poder econômico nacional e
transnacional de um lado, e, de outro, um povo amorfo sem articulações e com organizações
extremamente frágeis.
O perigo é a ameaça das opções radicais, totalitarismos de direita e
regimes repressivos, ou a sedução de soluções através de regimes socialistas
facilmente pilotados por lideranças marxistas. Nesse contexto, a idéia de Leão
XIII, da importância imprescindível das mediações naturais, adquire uma
surpreendente atualidade. Na América Latina esboça-se um movimento promissor
neste sentido: a difusão rápida das Comunidades Eclesiais de Base. São elas que
vêm criando um tecido social novo, pelo qual circula uma seiva evangélica.
Nesta perspectiva, elas aparecem como uma grande esperança, e por isso mesmo
começam a ser ameaçadas por processos de infiltração, tanto dos órgãos do
poder, que tentam reduzi-las a entidades beneficentes, quanto das esquerdas
radicais, que tentam instrumentalizá-las como força política partidária.
É esse contexto que revela a seriedade do desafio com que se debruça a
Igreja hoje na América Latina e no Brasil. Cabe-lhe incentivar o
desenvolvimento das Comunidades Eclesiais de Base, mas preservando-lhes a
natureza essencialmente eclesial e evangélica, conforme o ensino do Papa João
Paulo II na sua carta às Comunidades Eclesiais do Brasil, incentivar o seu
desenvolvimento na permanente vigilância e não admitir infiltrações nem
manipulações.
A CNBB propõe-se comemorar o 90º aniversário da "Rerum
Novarum" promovendo, entre outras iniciativas, o lançamento da versão
portuguesa do livro preparado pelo Departamento de Ação Social do CELAM: Fé
Cristã e compromisso social, reflexão sobre os problemas da América Latina
à luz da doutrina social da Igreja, da qual a "Rerum Novarum é o primeiro
grande marco oficial.
O
DIA DO TRABALHO
Brasília,
30/4/1981
O mundo católico estará comemorando, no próximo dia 15 de maio, o 90º
aniversário da encíclica "Rerum Novarum", do Papa Leão XIII, ponto de
partida de longa série de documentos da Igreja sobre justiça social. Ao
celebrar, neste ano, o Dia do Trabalho, queremos relembrar palavras da
"Rerum Novarum" que conservam, após quase um século, toda a sua
força: "Trabalhar é exercer a atividade com o fim de procurar o que
requerem as diversas necessidades do homem, mas principalmente a sustentação da
própria vida" (nº 62), como um "caminho daquele aperfeiçoamento que é
ordenado para o conseguimento da vida eterna" (nº 57).
O dia 1º de maio, este ano, é comemorado com o pano de fundo sombrio da
crise econômica e do desemprego, que já atingiu ou ameaça largos setores do
operariado. Dirigindo, neste dia, a todos os trabalhadores do Brasil, às
famílias e organizações, uma palavra amiga de saudação, a Presidência e a
Comissão Episcopal de Pastoral da CNBB aproveitam a ocasião para manifestar de
público sua solidariedade ao operariado, e especialmente àqueles que estão
sentindo o amargo sabor do desemprego. O direito de todos ao trabalho deve ser
assegurado a todo o custo, mesmo nos tempos de crise.
Cumpre lembrar, a esta altura, que não é justo fazer, mediante dispensa
de trabalhadores ou redução de remuneração, com que os operários paguem tão
caro o preço de uma crise que eles não provocaram. Na hora da prosperidade não
foram lembrados para participar dos lucros. Por que agora impor-lhes o peso dos
prejuízos? Como se sabe, os operários não tiveram voz para partilhar a
responsabilidade pelo modelo econômico vigente. Com efeito, o ideal de
participação, proposto na encíclica "Mater et Magistra" pelo Papa
João XXIII, e relembrado no documento da CNBB "Exigências cristãs de uma
ordem política", infelizmente ainda não foi levado à prática. Enquanto a
participação efetiva dos interessados não estiver vigorando em todas as esferas
sociais, não teremos uma sociedade sadia.
Para efetivar esta participação no setor trabalhista, se requer o
fortalecimento das entidades de classe, livres e desvinculadas de manipulações
de qualquer espécie. Foi nesse sentido que o Papa João Paulo II falou, em São
Paulo, aos trabalhadores (03-07-1980): "É muito importante que todos os
protagonistas da vida econômica tenham a possibilidade efetiva de participar
livre e ativamente na elaboração e controle das decisões que lhes dizem
respeito, em todos os níveis". Já o Papa Leão XIII, na "Rerum
Novarum", afirmou claramente "o direito dos trabalhadores de se
reunirem em associações livres, com a finalidade de fazerem ouvir a sua voz, de
defenderem seus interesses e contribuírem de maneira responsável para o bem
comum" (nº 7).
Hoje, mais do que nunca, é necessário que o governo e a classe patronal
dialoguem com os operários e suas entidades, e, na paz que é fruto da justiça,
preparem dias melhores. Esses dias melhores certamente não virão através de
medidas cínicas, como a legalização do jogo ou a abertura de cassinos, mas,
antes, pela promoção de transformações urgentes e corajosas que facultem
trabalho condigno para todo o povo brasileiro.
O
DIA DO PAPA
Brasília,
25/6/1981
"O dia do Papa, tradicionalmente celebrado em todo o mundo na festa
de São Pedro, assume, neste ano, em nossa pátria, dimensões de sofrimento e
alegria. O Brasil todo, não apenas a Igreja, sente ainda hoje o atentado que
abalou o mundo, ferindo gravemente o Santo Padre no último dia 13 de maio. Por
toda a parte promovem-se orações públicas pelo seu total restabelecimento. As
dioceses programam, para o próximo domingo, dia 28 deste mês, celebrações de
agradecimento a Deus pela conservação da preciosa vida de nosso Pastor comum.
Mas quem de nosso povo pode esquecer a visita de João Paulo II ao Brasil, de 30
de junho a 12 de julho de 1980?
A Presidência e a Comissão Episcopal de Pastoral da CNBB refletem com
gratidão sobre o impulso dado à evangelização em nosso país.
Há um ano, o Santo Padre percorria nossas cidades. Que marcas deixou sua
passagem entre nós? Foram superadas as
distâncias. A impressão que ainda temos é de que o Papa se tornou próximo ao
Brasil e a pretensão que temos é a de que o Brasil se tenha tornado próximo ao
Papa. A devoção e a obediência, que sempre caracterizaram a Igreja no Brasil em
relação ao Papa, ficam agora acrescidas de uma simpática sensação de presença,
de proximidade, até mesmo de amizade, entre o Papa e o nosso povo. A lembrança
ainda muito viva da palavra do Papa permanece recordando em nosso íntimo suas
principais mensagens.
João Paulo II despertou a Igreja para a consciência de sua missão que,
sendo de natureza religiosa, incide nos vários aspectos da vida humana, como
social, político e econômico, atingindo o homem todo e todos os homens. Avivou
a fé em Jesus Cristo e o compromisso de conversão constante da Igreja, que deve
levar o homem a vencer o pecado pessoal e atuar concretamente na superação das
injustiças sociais para a construção de uma sociedade marcada pelo Evangelho e,
portanto, mais justa, mais solidária e mais fraterna. Afirmou a necessidade de
a Igreja potenciar toda sua ação pastoral social à luz da visão religiosa do
homem e da sociedade. Renovou, à luz da Palavra de Deus, a vida cotidiana da
Igreja, insistindo na catequese permanente e renovada que aprofunde as raízes
da fé e descubra os valores que é chamada a anunciar e a viver.
Consolidou a unidade da Igreja em seus vários níveis de Conferência
Episcopal, de colaboração entre Bispos e padres, religiosos e leigos. É a
grande seqüência de sua palavra em Puebla: comunhão efetiva e participação em
todos os níveis comunitários. A atenção fraterna dispensada pelo Santo Padre às
diversas Igrejas, particularmente aos irmãos evangélicos e aos judeus, veio
servir de exemplo aos esforços já empreendidos, em diversas áreas, pela Igreja
católica no Brasil. Sua figura de Pastor, amigo e bom, compreensivo e aberto,
serve para alimentar, entre os Bispos de nossa Pátria, uma especial renovação
do esforço ecumênico. Assim, o Papa veio ao Brasil para animar, reavivar,
encorajar toda a vida eclesial e alimentar a esperança em nosso povo sofrido.
A CNBB sentiu-se revigorada pela palavra paterna e estimulante do Papa,
compreendendo melhor a importância de sempre buscar, dentro do sadio
pluralismo, a unidade de doutrina e de ação pastoral. Mas todos os setores da
Igreja receberam, da presença do Santo Padre, a graça de sua passagem e o
estímulo de sua palavra: o clero, a vida religiosa, o laicato, a vida paroquial
e comunitária, os doentes, as crianças e, sobretudo, os jovens. A família
recebeu novo incentivo para viver o amor Cristão e o serviço transformador da
sociedade.
A todos comunicou a consciência da própria dignidade de filhos de Deus,
do respeito que merecem, dos direitos que possuem. Soube o Santo Padre marcar
na sociedade o valor dos operários, dos índios, dos camponeses, tantas vezes
colocados à margem. Os jovens sentiram um forte dinamismo, ouvindo a palavra do
Papa que os encorajava a assumir a construção de uma nova sociedade,
respondendo ao apelo do Senhor Jesus. Mas este mesmo dinamismo possuiu a todos
nós, animando-nos no sentido missionário da vida Cristã, no acolhimento
fraterno aos estrangeiros e migrantes e, sobretudo, na opção preferencial pelos
pobres.
A visita apostólica do Santo Padre, sua presença à frente da Igreja,
fazem do dia de São Pedro uma festa de todos nós, embora marcada pelo
sofrimento da convalescença lenta de João Paulo II. A oração comum de nosso
povo, principalmente em todas as comunidades Cristão, por João Paulo II, torne
mais presente entre nós o vigor de sua fé e a bondade de seu coração. A bênção
João de Deus.
SOBRE
CONFLITOS DE TERRA
Brasília, 2/9/1981
1. "Em certos países em vias de
desenvolvimento há milhões de homens que se vêem obrigados a cultivar as terras
de outros e que são explorados pelos latifundiários, sem esperança de alguma
vez poderem chegar à posse nem sequer de um pedaço mínimo de terra 'como sua
propriedade'... Longas jornadas de duro trabalho físico são pagas miseramente.
Terras cultiváveis São deixadas ao abandono pelos proprietários; títulos legais
para a posse de um pequeno pedaço de terra, cultivado por conta própria há
anos, são preteridos ou ficam sem defesa diante da 'fome da terra' de
indivíduos ou de grupos mais potentes" (Carta Encíclica "Laborem
Exercens" de 14 de setembro de 1981, do Papa João Paulo II, nº 21).
2. A luz desse texto pontifício, a
preocupação dos Bispos do Brasil com a questão da terra, manifestada em 1980 no
documento "Igreja e problemas da terra", talvez seja, agora, mais
compreendida em sua justiça e atualidade.
3. Em virtude da orientação oficial da
Conferência dos Bispos, contida no documento "Igreja e problemas da
terra", orientação que é a mesma do Santo Padre João Paulo II, muitos
leigos, religiosos, sacerdotes e Bispos, sem distinção de nacionalidade, estão
se comprometendo com os posseiros na luta por seus direitos, considerando ser isso
um trabalho de Igreja.
4. Ultimamente, aparecem, de norte a sul do
país, acusações falsas contra elementos da Igreja como se fossem os promotores
de invasão de terras. Procura-se, desta forma, descarregar na Igreja e em seus
ministros a responsabilidade por um estado de coisas que é fruto de uma
estrutura fundiária injusta e da ganância de grandes empresas, favorecidas
pelos incentivos fiscais. Há uma grande diferença entre comprometer-se com os
posseiros e incitá-los à violência.
5. A CNBB sempre repudiou o ódio e os
processos violentos, e não os estimula. Por isso, recusa qualquer
responsabilidade em fatos dessa natureza. As comunidades da Igreja partem de
uma perspectiva evangélica, cuja tônica é o amor fraterno e a justiça. Mas, ao
investigar certas situações de conflito em grande número de Estados da
Federação, não se pode deixar de compreender que os posseiros atacados
injustamente por pistoleiros e jagunços, e sem a devida proteção dos órgãos
oficiais, recorram ao direito de legítima defesa. Lamentamos profundamente
todos os mortos, vítimas desses conflitos. Desejamos, porém, que se dê igual
importância à morte de um preposto de empresa quanto à de humildes posseiros.
6. De início de 1977 a julho de 1981, a
Comissão Pastoral da Terra (CPT) Nacional registrou 916 conflitos por questões
de terras, envolvendo 251.891 famílias, com 1.972.989 pessoas. No mesmo período
verificaram-se 45 assassinatos de trabalhadores rurais e agentes de pastoral,
incluídos três advogados. Ao que consta, apesar de conhecidos os nomes, datas e
lugares de todos esses crimes, nenhum deles foi apurado de forma conclusiva.
Todos esses dados estão à disposição dos interessados.
7. Ainda neste mês, Dom Pascásio Rettler,
Bispo de Bacabal, no Maranhão, apresentou ao Ministro Chefe da Casa Civil da
Presidência da República vasto dossiê sobre conflitos de terras em sua diocese.
O que impressiona é o fato de que vários desses conflitos somente não se
encontram resolvidos por descumprimento da legislação vigente, conforme
amplamente documentado no referido dossiê. Aliás, diversos dossiês,
semelhantes, nos últimos anos, foram encaminhados ao Ministério da Justiça pela
Secretaria Geral da CNBB.
8. Conforme dados que são de nosso
conhecimento, os padres Aristides Camio e Francisco Gouriou apenas cumpriram
seu dever de orientar o povo na defesa de seus direitos. Cartas antigas dos
mesmos sacerdotes, cujos originais estão em nosso poder, comprovam que, de
longa data, eles vinham alertando as autoridades locais, por visitas e por
escrito, sobre a difícil situação dos posseiros e o perigo de conflitos
armados. O bispo de Conceição do Araguaia, Dom José Patrício Hanrahan, com sua
reconhecida objetividade e sua responsabilidade de Bispo e de Presidente do
Regional Norte 2 da CNBB, testemunha que as acusações contra os padres não têm
cabimento porque estavam apenas executando a Pastoral da Terra. Todos os Bispos
do Regional Norte 2 (Estado do Pará e Território do Amapá) se solidarizaram com
Dom Patrício.
9. Por essas razões, protestamos contra o tratamento
a que os mesmos padres foram submetidos, com cerceamento de defesa e de
visitas, sem falar nas irregularidades da instrução policial e no caráter
reservado do processo movido contra eles.
10. A Igreja rejeita a posição dos que
afirmam aceitar sua doutrina, mas atacam os cristãos que se empenham nas lutas
pela justiça. Bispos, padres ou agentes de pastoral, fiéis às exigências da
doutrina cristã, quando assumem a defesa dos pobres e oprimidos, são
implacavelmente acusados de ideologias anti-cristão.
11. A CNBB apela para que se tomem medidas
urgentes a fim de solucionar o problema dos posseiros e dos sem terra. É
injustificável que, em um país de tanta terra como o Brasil, não sobre terra
para os lavradores que dela necessitam para sustentar a si e suas famílias e
produzir os alimentos de que o país precisa, enquanto imensas glebas não
cultivadas se acumulam em poucas e poderosos mãos.
12. A solução de tão graves problemas, em
vista de uma paz duradoura que todos nós almejamos, só será possível por meio
de decisões corajosas e eficazes que corrijam as atuais política e estrutura
agrárias. Recentemente, no documento Reflexão cristã sobre a conjuntura
política, o conselho Permanente da CNBB insistiu em que o povo tem o
direito inalienável de participar realmente dessas decisões, através dos corpos
sociais intermediários e organismos de classe. No cumprimento de sua missão
pastoral de educar a consciência cristã no campo da política é que várias
Igrejas locais vêm elaborando e difundindo subsídios apropriados que ajudem o
povo no exercício de seu direito e dever de participação política.
13. Alguém que
reflete sobre a realidade da América Latina, tal como se apresenta na hora
atual, é levado a concordar com a afirmação de que a realização da justiça neste
continente está diante de um claro dilema: ou se faz através de reformas
profundas e corajosas, segundo princípios que exprimem a supremacia da
dignidade humana, ou se faz mas sem
resultado duradouro e sem benefício para o homem, disto estou convencido pelas forças da violência (Discurso de João
Paulo II em Salvador, BA, em 7 de julho de 1980, aos construtores da sociedade
pluralista de hoje).
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Fonte: Conferência Nacional
dos Bispos do Brasil – CNBB
Web site: www.cnbb.org.br