CONFERÊNCIA
NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL
REFLEXÃO
CRISTÃ SOBRE A CONJUNTURA POLÍTICA
Documento Aprovado
pelo Conselho Permanente da CNBB
3ª Reunião
Ordinária
Brasília, 29 de
agosto de 1981
INTRODUÇÃO
1. No atual momento, a sociedade brasileira
em transformação apresenta desafios peculiares na ordem política, bem como na
área econômica e na área social. As desigualdades sociais e regionais
constituem uma realidade particularmente triste, em uma nação com aspirações e
recursos que poderiam permitir uma sociedade mais justa.
Tal situação não pode durar indefinidamente,
pois constitui um escândalo para as consciências e uma ameaça constante à paz
interna. Ela não é casual, mas fruto de uma opção deliberada em favor de um
determinado modelo de desenvolvimento.
Hoje a garantia de maior flexibilidade
política dá margem a esperanças de uma mudança também das opções econômicas e
do alto preço social de nosso desenvolvimento. É sob este ângulo que o Conselho
Permanente da CNBB considera ser de seu dever pastoral dizer uma palavra e
convidar a todos para uma reflexão cristã sobre a conjuntura política.
MISSÃO
DA IGREJA
2. A missão da Igreja é evangelizadora e de
natureza eminentemente pastoral. Tal missão, entretanto, de nenhum modo a
conduz a se omitir a respeito de problemas sócio-políticos do país, na medida
mesma em que esses problemas sempre apresentam uma relevante dimensão ética.
Esta dimensão avulta no presente momento e na atual etapa do processo de
abertura política.
3.
Entre os valores éticos que estão em jogo, neste momento, preocupam de
modo especial à responsabilidade pastoral da Igreja os valores da liberdade e
da justiça, da verdade e da honestidade, e, fundamentalmente, o valor da
participação, sem a qual as mais generosas intenções não passaram nunca e
continuariam a não passar de meras declarações retóricas ou de artifícios
demagógicos.
4. A abertura política, a instauração e
consolidação de novas instituições democráticas processam-se hoje no Brasil
dentro de condições políticas muito particulares e de difíceis condições
sócio-econômicas. Esse processo de democratização interessa profunda e
diretamente à Igreja. A democracia, com efeito, como forma legítima de
ordenação política da sociedade, é um dos requisitos indeclináveis da liberdade
e da dignidade humana, defendidas pela ética cristã.
5. A Igreja não tem ambições nem pretensões
político-partidárias. Ela sabe que sua palavra encontra hoje grande ressonância
no povo, mas pela natureza essencialmente religiosa de sua missão. Ela não tem
nenhuma intenção de prevalecer-se da força de sua palavra para a promoção
política de seus líderes nem para a defesa de interesses ou privilégios. Por
isso mesmo, ela não concorda com a militância político-partidária de membros do
clero e de religiosos.
6. A Igreja não é intérprete de aspirações
partidárias nem mediadora de facções políticas. Isto não significa porém que
ela seja apolítica. Ela sabe que um pretenso apoliticismo significa, na
prática, uma atitude política de anuência tácita a uma determinada configuração
do poder político, qualquer que ele seja.
7. A Igreja não aceita pois a opinião dos que
pretendem reduzir sua missão à formulação de princípios atemporais. Pelo
contrário, ela acompanha os homens no concreto das situações da vida individual
e social, para explicitar as exigências do Reino de Deus nas condições
particulares, em cada momento e em cada lugar; ela lhes revela que a adesão a
Cristo exige atitudes de conversão, de abertura e de diálogo, exige mudanças no
comportamento de pessoas e grupos, que se dizem cristãos, mas que toleram
situações de pecado e injustiça incompatíveis com a consciência cristã.
8. A Igreja participa assim ativamente do
atual momento brasileiro, como uma das instâncias não partidárias que defendem
os requisitos éticos da nação brasileira, procurando estimular a todos os que
aceitam, de alguma maneira, o Evangelho e o cristianismo e a todos os homens de
boa vontade, para que sigam retamente e sem desfalecimento, na direção da plena
restauração da democracia.
9. A sua responsabilidade consiste em
recordar os valores que estão em jogo, a dimensão ética das decisões políticas,
o futuro do homem, de milhões de homens concretos que se vai decidir. Os
cidadãos, os grupos, os partidos, tanto os que participam do Governo como os
que militam na Oposição, devem olhar para horizontes mais amplos do que o dos
interesses imediatos. De outro modo, as mais hábeis fórmulas, as mais complexas
definições, não poderão trazer a paz nem a verdadeira ordem política, nem a
resposta às aspirações de todos os cidadãos.
DIFICULDADES
SÓCIO-ECONÔMICAS
10. As decisões políticas que todos esperam,
as mudanças que delas devem decorrer, poderão influir no futuro da nação
durante muitos anos. Por isso mesmo, todos querem acertar. Todos percebem que
as decisões que vão ser tomadas podem influir poderosamente na escolha da
sociedade que o Brasil viverá durante as próximas gerações.
As decisões atuais podem reforçar
determinado modelo sócio-econômico ou podem inclinar o país para um novo
modelo; podem ampliar ou restringir o âmbito das liberdades políticas, podem
consolidar uma situação que favoreça as minorias privilegiadas ou permitir a
implantação de uma nova ordem que promova o bem de todos.
11. A redemocratização brasileira se
defronta, com efeito, por um lado, com a resistência de minorias inconformadas
em perder seu poder de arbítrio. Por outro lado, alega-se que a plena
instauração das liberdades democráticas possa dificultar uma austera gestão das
difíceis condições sócio-econômicas do país.
12. A história, sem dúvida, mostra exemplos
de formas insensatas de exercício das liberdades, em que proposições
demagógicas induziram maiorias populares a opções ruinosas para a sociedade.
Mas o que a história certamente registra é a
inerente irresponsabilidade de todos os despotismos e a quase inevitável
corrupção de todas as formas de governo não submetidas ao controle dos
governados.
13. Se é verdade que, em anos recentes,
fatores externos tiveram decisiva influência no agravamento de nossa situação
sócio-econômica, não é menos certo que, nesses mesmos anos, opções autoritárias
conduziram o país a políticas econômicas pelas quais o povo paga hoje um alto
preço social.
14. Acentuou-se, nestes últimos anos, uma
orientação da economia para prioridades favorecedoras das classes de altos
rendimentos, inclusive mediante formas requintadas de corrupção e de suborno,
em direta oposição aos interesses do povo. Um modelo concentrador de rendas e
estimulador de um consumismo sofisticado, em contraste com as carências básicas
da população, levou-nos à situação de sermos hoje um dos países com mais alta
taxa de desigualdade entre os grupos de maior e menor renda.
O Papa João Paulo II parecia aludir a esta
situação, quando disse na favela do Vidigal: "Fazei tudo a fim de que
desapareça, ao menos gradativamente, aquele abismo que separa os excessivamente
ricos, pouco numerosos, das grandes multidões dos pobres, daqueles que vivem na
miséria, daqueles que vivem nas favelas. Fazei tudo para que este abismo não
aumente, mas diminua, para que se tenda à igualdade social.
O
COMPROMISSO POLÍTICO
15. Comporta o regime democrático diversas
alternativas regulatórias do sistema de representação popular e do processo
eleitoral, dentre os quais podem os partidos exercer suas preferências.
Tais alternativas, entretanto, serão
legítimas na medida em que viabilizarem a efetiva participação política de todo
o povo, a liberdade dos indivíduos e das organizações intermediárias da
sociedade e assegurem o mesmo peso ao voto de cada cidadão.
16. Todos os casuísmos orientados para
favorecer minorias e impor restrições artificiosas, que deformam a genuinidade
da vontade popular, são antidemocráticas e, como tais, inaceitáveis. Afetam
essa genuinidade todas as pressões ostensivas ou ocultas, que constrangem o
direito das pessoas de se filiarem livremente a um partido e de votarem na
certeza do respeito ao resultado das urnas.
Tais pressões, como as retaliações,
difamações, compra de votos, melhoramentos paliativos com fins eleitoreiros, perseguições
e ameaças de demissão, afetariam a legitimidade do pleito e são eticamente
inadmissíveis.
17. O Governo do Brasil assumiu o
compromisso de plena instauração da democracia. Enfrentando a resistência de
reduzidos mas poderosos grupos extremistas, sua autoridade se reforça pelo
acatamento do povo brasileiro, para persistir na tarefa de redemocratização do
país. Compete assim a esta autoridade reservar-se o monopólio do controle da
força do Estado e não tolerar que grupos particulares exerçam ações violentas
por conta própria, para defender opções e interesses políticos particulares
sobre os destinos da nação.
18. A Igreja não favorece a nenhum partido
em especial. Ela está profundamente comprometida com a instauração e
consolidação da democracia e como tal denunciará todas as formas de
regulamentação eleitoral que distorçam a autenticidade da representação
popular, sejam quais forem seus beneficiários. Neste espírito, o Conselho
Permanente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil dá seu apoio aos
esforços das dioceses e dos Regionais, que se empenham na formação da
consciência política do povo e o ajudam numa reflexão cristã sobre seu
compromisso político. Com esta atitude, ela não endossa opções partidárias, mas
procura contribuir para uma participação cada vez maior do povo na condução do
processo político, condição indispensável para a realização do bem comum.
DEMOCRACIA
POLÍTICA E DEMOCRACIA SOCIAL
19. A democracia, hoje objeto de consenso
nacional, em países como o Brasil, marcados por estas formas inaceitáveis de
iniqüidade social, não consiste apenas na preservação das liberdades políticas.
Consiste também num processo de incorporação
das grandes massas a formas superiores de educação e de capacitação, a um
melhor nível de vida e à plena participação nas decisões públicas. A democracia
política é uma forma e um pré-requisito, cujo conteúdo e destinação é a
democracia social. Assim, mais importante que a tecnicidade das soluções e das
reformas é um ambiente moral, as perspectivas de conjunto que hão de orientar
as opções.
20. O desenvolvimento social do Brasil
constitui, ao mesmo tempo, um imperativo ético e um imperativo político. Não
podemos continuar iludindo nossa sensibilidade ética, com o pretexto de que o
desenvolvimento econômico, ainda que acentuando as desigualdades sociais,
termina por induzir o desenvolvimento social. Hoje sabemos todos que isto não é
verdade. O desenvolvimento social é algo que tem de ser buscado por si mesmo;
constitui um objetivo específico a ser alcançado dentro de certas condições e é
em função deste objetivo que se deve orientar o desenvolvimento econômico.
21. O que está no fundo da presente
conjuntura política, como de toda a nossa geração, é a espera das massas pobres
de nosso país. Há anos, décadas e gerações inteiras, que os pobres aguardam o
tempo de sua participação. Quando a nação está em crise, sempre são os pobres
que têm de suportar os maiores sacrifícios.
O fundo do problema político de hoje é a
ascensão das massas pobres e marginalizadas, é a questão de saber se, graças às
reformas anunciadas, os pobres terão mais oportunidade de levantar a voz e
fazer prevalecer suas justas aspirações.
Eles sabem que o atendimento dessas aspirações não depende tanto da
falta de recursos quanto da falta de uma decisão política empenhada em
libertá-los do estado de dependência e torná-los capazes de resistir às
solicitações das mobilizações eleitoreiras.
22. Nenhuma reforma logrará consolidar
formas estáveis de democracia, se não tomar em consideração a necessidade de
abrir espaços para que os trabalhadores e os sem trabalho, os posseiros
expulsos da terra e acusados de subversão, os índios, os subalimentados, as
massas sem instrução, sem auxílios de saúde, sem habitação decente, sem emprego
estável, sem salário suficiente, cheguem por fim a serem reconhecidos como
cidadãos com plenos direitos.
Queremos aqui sensibilizar a opinião pública para o quadro extremamente
grave das demissões em massa dos trabalhadores, que devem pagar com os salários
perdidos os custos da recessão da qual não são culpados. Queremos reafirmar às
classes sofridas de nosso povo que desejamos estar a seu lado e apoiá-los no
esforço de assumirem seus problemas e encaminharem soluções justas. Ao mesmo
tempo, sentimos quanto é importante, nesta situação difícil, a solidariedade e
a partilha fraterna organizada.
Qualquer orientação política nova que seja uma contribuição eficaz para
que os marginalizados se libertem de sua condição, será bem-vinda. Qualquer
orientação e reforma que postergue de novo as mudanças urgentes reclamadas há
tantos anos, será vã, deixará apenas desilusões, conduzirá a crises semelhantes
às do passado e tenderá a soluções autoritárias, de direita ou de esquerda,
propensas a assumir dimensões dificilmente remediáveis.
23. Assim, para a instauração e manutenção
da democracia, não bastam eleições livres. É preciso ainda criar condições para
que o povo se organize, seja pelo acesso à representação político-partidária,
seja na expressão direta de seus anseios, pela criação de organismos
comunitários, como associações de bairros, ou pelo recurso a formas
plebiscitárias de manifestação da vontade do Povo. Só assim ele será capaz de
dar respaldo aos que eleger e exigir deles o cumprimento dos compromissos
assumidos. Somente um povo organizado nas mais variadas formas espontâneas e
livres será capaz de ser sujeito de um processo racional e pacífico de
desenvolvimento, de vez que só organizado será capaz de reunir-se
ostensivamente e discutir seus destinos de modo racional. Ao contrário, uma
massa desorganizada e insatisfeita corre os maiores riscos de explosões
irracionais e violentas, induzidas por qualquer aventureiro. Por isso, apoiar a
organização do povo, e não mantê-la sob suspeitas, é decisivo para preservar a
racionalidade do encaminhamento pacífico das mudanças que se impõem.
24. O imperativo, ético e político, de nosso
encaminhamento para uma democracia social, apresenta duas dimensões. Na
dimensão dos fins, impõe-se uma transformação estrutural que propicie uma
verdadeira recuperação do desenvolvimento social a ser adotado como objetivo
nacional da mais alta prioridade.
Na dimensão dos meios, impõe-se o requisito
da razoabilidade, fixando-se metas viáveis e adotando-se procedimentos
praticamente eficazes em vez de ideologicamente sedutores. Dessa radicalidade
de propósitos e moderação de meios depende o êxito da complexa, mas inadiável
tarefa: compatibilizar nosso desenvolvimento político e econômico, com nosso
desenvolvimento social, fazendo daquele um instrumento para a realização deste.
APELO
À NAÇÃO
25. A Igreja do Brasil, através de seus
órgãos competentes já se pronunciou em outras ocasiões, sobre graves problemas
que angustiavam a consciência cristã. Em outubro de 1976, fez uma "Comunicação
ao Povo de Deus”, denunciando os sofrimentos causados por uma repressão
incontrolada; em fevereiro de 1977, falou sobre as "Exigências Cristãs
de uma Ordem Política”, exigências a que hoje se procura atender com
o processo de abertura; em setembro de 1979, propôs "Subsídios para uma
Política Social”; em fevereiro de 1980, alertou para os sérios problemas da
posse e uso do solo rural, no documento “Igreja e Problemas da Terra”.
Hoje, no contexto da abertura política,
volta a pronunciar-se fazendo um apelo no sentido de que seja aproveitada a
oportunidade para dar a essa abertura as dimensões que atendam às grandes
aspirações da nação.
26. Nas épocas de mudança, como a das
eleições que se aproximam, quando os equilíbrios de forças sociais e políticas
são susceptíveis de transformações bruscas, aparecem duas tentações correlatas.
Por um lado, certas pessoas e grupos, que se sentiam frustrados ou
marginalizados dos centros do poder, podem achar que estão em condições
favoráveis para conquistar vantagens ou satisfazer a interesses particulares.
Por outro lado, pessoas e grupos mais
imediatamente ligados aos centros de poder, temem perder certas vantagens às
quais estavam acostumados a ponto de já não mais percebê-las como privilégios e
sim como quase direitos. Tornam-se então mais agudos os interesses
particulares. Esta é a hora em que todos devem deixar de visar ao que podem
ganhar ou perder, para considerar o verdadeiro interesse seu e de todos que é o
bem de toda a nação.
27. A criação de espaços de liberdade
para o diálogo franco, leal, desarmado de preconceitos, ainda é o melhor
caminho para somar esforços; melhor que o confronto que divide a nação naquelas
facções decididas a fazer valer seus próprios interesses numa tensão crescente
de efeitos incontroláveis devida ao risco das radicalizações.
28. As radicalizações se exacerbam pela
presunção da perversidade que bloqueia o diálogo. O que é presumido
perversidade, de fato se reduz a uma visão ideológica da situação, pela qual
cada instância em confronto é levada a identificar, mesmo inconscientemente, os
seus próprios interesses com os interesses da nação. Não é ético presumir a
priori que esse mecanismo de ideologização seja intencional e perverso. É
indispensável, neste momento, desarmar os espíritos e os protagonistas, desativar
quaisquer intenções de retaliação, com uma atitude de humildade e de conversão
necessária a todos, inclusive à Igreja.
29. A superação dos riscos que ameaçam a presente
conjuntura depende de decisões imediatas e viáveis que devem ser tomadas com
urgência. No campo político, a garantia definitiva de que será aceita a vontade
popular nas eleições. No campo ético, o pacto de não revanchismo que não exclui
a reparação de direitos imprescritíveis no campo social, a solução do problema
do desemprego, a contenção do êxodo rural, a superação do iminente colapso do
sistema da Previdência Social, ameaçando a destinação a seu próprio bem-estar
da única poupança de que dispõem as classes trabalhadoras, problemas todos que
podem constituir fatores de grave instabilidade, capaz de comprometer o
processo de redemocratização que o Brasil espera e merece.
- - - - - - - - -
- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -
Fonte: Conferência
Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB
Web site: www.cnbb.org.br