CONFERÊNCIA
NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL
VIDA
E MINISTÉRIO DO PRESBÍTERO
PASTORAL
VOCACIONAL
Documento Aprovado
pela 19ª Assembléia da CNBB
Itaici, 26 de
fevereiro de 1981
INTRODUÇÃO
1. João Paulo II, no Início de seu ministério
de Pastor Universal, sentiu profundamente a necessidade de se dirigir, de
maneira direta, a seus irmãos no sacerdócio: desejo, logo desde o princípio,
exprimir minha fé na vocação que vos une com vossos Bispos numa particular
comunhão de sacramento e de ministério, mediante a qual se edifica a Igreja.
2. Para Justificar este desejo do fundo do seu
coração e pensamento e dar-lhe o sentido, o Santo Padre aduz duas razões
simples e luminosas. Primeiro: os sacerdotes são os que, em virtude de uma
graça especial e por uma singular entrega ao nosso Salvador, carregam o peso do dia e o calor, no meio de
múltiplas ocupações do serviço sacerdotal e pastoral. Em segundo lugar, escreve
o Papa, porque em virtude do sacramento que também eu recebi das mãos de meu
Bispo... sois meus irmãos. Adaptando, pois, as conhecidas palavras de Santo
Agostinho, desejo dizer-vos hoje: "para vós sou Bispo, convosco sou
sacerdote".
3. Esta mensagem do Papa, que nos visitou para
confirmar-nos na fé e no trabalho apostólico, dá o sentido e o espírito com que
nós, Bispos, reunidos nesta 19ª Assembléia Geral, queremos refletir sobre o
tema: VIDA E MINISTÉRIO DO PRESBÍTERO — PASTORAL VOCACIONAL.
4. Ao escolher este assunto como tema
principal da presente Assembléia, move-nos a convicção da centralidade do mesmo
para o presente e o futuro de nossa Igreja. Ao considerar as urgências da
evangelização e a escassez e mesmo decréscimo relativo de nosso clero com o
agravante de sua má distribuição, aumenta em nós o desejo de dizer uma palavra
de alento aos nossos irmãos presbíteros e de colaborar para que, no serviço
alegre ao Povo de Deus, o corpo presbiteral se torne sempre mais unido e
dedicado às tarefas do anúncio do Reino e da confirmação de nossas comunidades
na fé.
Um
clero assim poderá e saberá oferecer ao povo, com a ajuda de outros ministérios
e carismas que o Senhor da messe suscitar, o pão da Palavra e da Eucaristia,
que tornará a Igreja capaz de testemunhar mais autenticamente sua fé e de viver
uma presença transformadora em nossa realidade brasileira, tão dolorosamente
lacerada pela injustiça e falta de misericórdia. De tal testemunho, pela graça
do Espírito, não poderão deixar de brotar vocações ao serviço sacerdotal no
seio do Povo de Deus.
5. Nossa atenção se voltará, assim, tanto para
a vida e o ministério dos presbíteros quanto para a promoção das vocações e
formação dos futuros sacerdotes. Essas duas reflexões como o tem reiteradamente
demonstrado a vida eclesial, se interpenetram e se complementam. É com vistas
ao presbitério que as vocações sacerdotais são despertadas. Para ele é que
devem ser encaminhadas. De sua vitalidade e da força de seu testemunho depende
a fecundidade destas vocações.
6. Nossa mensagem se dirige a toda a Igreja do
Brasil chamada como um todo à santidade de Jesus Cristo, pelo Espírito Santo,
que se expressa em uma rica diversidade de dons e carismas, de caminhos e de
respostas.
7. Aos presbíteros, porém, aos que sentem o
chamado de Deus ao serviço sacerdotal, aos agentes de pastoral e aos que se
dedicam à promoção das vocações e à formação das mesmas é que nos dirigimos, de
maneira muito especial e imediata.
8. Nossa palavra quer ser ajuda à reflexão de
todas as comunidades cristãs, a fim de levá-las a uma consciência mais viva de
sua própria vocação e a maior união com seus presbíteros e ministros. Ela se
expressa também na oração, no interesse e na ação em favor das vocações aos
ministérios ordenados.
9. Buscamos ouvir com muita confiança a voz do
Espírito Santo que nos fala através do magistério de Pedro, das orientações da
Santa Sé e dos ensinamentos oficiais em que a Igreja do Brasil e da América
Latina aponta os caminhos de Deus em nosso continente e em nosso país.
Perscrutando os sinais de Deus na história recente de nossa Igreja, buscamos ao
mesmo tempo escutar com atenção as preocupações, anseios e propostas que nos
chegam de nossos padres.
10. Interessou-nos, sobremaneira, ter presente
a situação vivida pelos futuros sacerdotes e colher a experiência dos que com
eles convivem nos seminários e na pastoral vocacional. Sobretudo, tivemos
sempre ante os olhos nossas comunidades e as necessidades humanas e religiosas
das grandes multidões tornadas hoje, largamente, como ovelhas sem pastor.
11. Responsáveis primeiros pela missão
apostólica, é nossa intenção traçar aqui as diretrizes básicas que a Igreja
deve seguir no tocante a este setor fundamental de sua vida. Empregaremos o
método VER — JULGAR — AGIR. A visão descritiva da nossa realidade presbiteral e
vocacional (I PARTE), discernida à luz da Palavra de Deus (II PARTE),
indicar-nos-á rumos e linhas para a ação futura (III PARTE).
12. Estamos certos de que a Igreja do Brasil,
especialmente os agentes de Pastoral, os seminaristas, os ministros, os
presbíteros, e nós, Bispos, abriremos todos o coração para o que Inácio de
Antioquia escrevia às comunidades cristãs, Já no século II: Tende cuidado de
fazer tudo com aquela concórdia que é do agrado de Deus, sob a presidência do
Bispo que representa o mesmo Deus, com os presbíteros, que representam o
colégio apostólico e com os diáconos, para mim caríssimos, aos quais foi
confiado o serviço de Cristo.
I PARTE
VISÃO DA REALIDADE
I. Recordando os últimos quinze anos
13. Há cerca de quinze anos atrás, cresceu
entre os sacerdotes diocesanos e religiosos uma onda generalizada de mal-estar
e de questionamentos com sérias repercussões ainda hoje sentidas na Igreja do
Brasil. Tratava-se, aliás, das conseqüências de uma grave crise de civilização
que, pela sua acentuada tendência secularista, afetava a Igreja inteira.
O
episcopado dirigiu-se, então, aos sacerdotes de todo país num documento público
que, logo em seguida, se tornou objeto de ampla reflexão e debate por parte dos
sacerdotes do Brasil, constituindo, depois, a principal matéria da 9ª
Assembléia Geral, em 1969.
14. Foi um período de árdua provação para o
clero e a Igreja. Não sem razão, falava-se sobretudo de uma crise de
identidade. Centenas de sacerdotes pediram dispensa do exercício do ministério.
Os seminários, construídos com tanta esperança e sacrifícios ao longo das
décadas anteriores, se esvaziavam, restando imensas construções sem destinação
imediata.
15. Em muitos lugares o cultivo de novas
vocações, desacreditado e sem motivação, quase que cessara. Tudo isso
condicionou negativamente a evolução do clero, abrindo flancos, até hoje
irreparados, em suas já reduzidas fileiras, causando sofrimento moral a
inúmeros seminaristas e sacerdotes, e privando o Povo de Deus dos Pastores a
que tem direito. São questões ainda vivas que se põem à consciência da Igreja
do Brasil.
16. A crise dos sacerdotes, a busca de uma nova
imagem para o padre, dada a sua carga de conflituosidade pessoal e eclesial,
geraram insegurança e interrogações. É oportuno recordar agora alguns aspectos
dessa crise e dessa busca que se deram em formas e proporções diferentes
conforme o lugar, as condições e os graus de maior ou menor abertura à
renovação;
17. — a
procura de profissões seculares que garantissem ao padre tanto a subsistência
quanto o status social que já não lhe era concedido pela condição de clérigo;
18. — a
dúvida quanto à suficiência de uma forma única de presbítero vista como um
desacordo com nossa realidade e mera relíquia de processos histórico-culturais
do passado;
19. — a
questão da função específica do presbítero numa Igreja que passava a valorizar,
também na prática, o caráter missionário e ministerial de todos os cristãos;
20. — o
papel concreto a ser exercido pelo padre numa sociedade injusta e desigual;
21. — a
desestruturação de formas e estilos de vida tradicionais de organização
eclesiástica;
22. — o
questionamento do celibato e o problema da realização humana e afetiva do
sacerdote.
23. A essa crise de identidade somava-se duas
outras, uma relacionada com a postura e a vivência da fé e outra nascida da
crítica às estruturas e às práticas da autoridade na Igreja. Muitos começaram a
sentir-se abalados não só quanto às suas opções pessoais ou às maneiras de
encarar e viver o sacerdócio, mas também em relação à espiritualidade e à fé.
24. As mudanças muito rápidas provocaram
descompassos, vacilações e dúvidas quanto à vida cristã e sacerdotal. De seu
lado, as novas correntes teológicas traziam consigo um certo relativismo,
facilitando a crítica às instituições, à pastoral, à vida interna e à função da
Igreja na sociedade. O protesto contra o autoritarismo, a rigidez, lentidão e
inadequação das estruturas, pessoas e organismos eclesiásticos passou a ser
lugar comum, originando crises de autoridade, geradoras de tensões e atritos
entre Bispos e Presbíteros.
25. A Igreja passou a carregar o peso de uma
instabilidade a que estava pouco afeita. O receio da marginalização, o
fechamento ao diálogo e as soluções individualistas tornaram-se ameaças nada
irreais para muitos presbíteros, dilapidando a confiança e o zelo de não
poucos.
26. De dentro desta crise emergia uma conversão
profunda que tinha como critério e ponto de referência o mistério de Jesus
Cristo. A pista de solução, como o demonstrou a experiência dos presbíteros
brasileiros, estava (e está!) no aprofundamento sincero, lúcido e humilde da
própria vida e ministério, dentro de um clima de diálogo e apoio fraterno entre
Bispos e Presbíteros, numa inserção mais generosa nas comunidades vivas que
Deus fez brotar em seu povo. Trata-se de importante ponto para o discernimento
do chamado de Deus na História.
27. Como conseqüência deste movimento de
conversão, começa a surgir na Igreja um novo tipo de padre, com um estilo de
vida mais próximo do povo. Sobretudo desde Medellín, a experiência de vida de
inúmeros presbíteros demonstrou que a revitalização do sentido específico do
seu sacerdócio passava por renovada identificação com o Cristo Pastor, dentro
de uma maior abertura sacerdotal aos anseios de libertação integral e de
fraternidade dos pequenos e oprimidos.
28. Paralelamente o povo começou a sentir mais
fortemente a presença e o sentido do sacerdócio. A fraternidade e
co-responsabilidade pastorais passaram a ser conquista e busca no dia-a-dia do
presbítero e das comunidades. Palmilhando este caminho aberto às necessidades
do mundo e dos pobres e de retorno às fontes da vida e do ministério, foi que
os presbíteros, experimentando em suas vidas as maravilhas que Deus faz no seu
povo, reencontraram as raízes de sua identidade. O caminho foi para muitos
pontilhado de decepções e marcado pela cruz. Alguns morreram, outros foram
perseguidos e expulsos por causa da justiça.
29. Apenas decorrida uma década após a fase tão
dolorosa, inclusive para os que deixaram o ministério, a Igreja começou a sentir
o nascimento de um período novo, mais cheio de esperança. As inúmeras dúvidas e
discussões de então, e mesmo as que permanecem atuais e vivas, deram origem a
oportunos esclarecimentos e à descoberta de perspectivas surpreendentemente
novas.
30. 0 Santo Padre, referindo-se à crise dos
Seminários, diz: Retomando o estudo daqueles problemas — basta pensar no Sínodo
de 1971 — e examinados a fundo as objeções e novos elementos dos diversos
questionamentos, as coisas retomaram a sua justa colocação, surgindo daí
significativas confirmações. Pode-se dizer que, graças a este esforço crítico e
autocrítico, começamos já a passar da fase negativa à de uma atuação positiva
do Vaticano II (3 de abril de 1979). Resta, sem dúvida, muito caminho a fazer.
Sem falsos otimismos e ilusões, é preciso reconhecer: estamos caminhando.
II. Vida e ministério do presbítero hoje
31. É tarefa bastante árdua traçar de forma
abrangente e objetiva o quadro que define a vida e o ministério dos sacerdotes
hoje. São grandes a complexidade e heterogeneidade das situações, dos contextos
e atividades exercidas pelos padres espalhados, por vezes isolados, pela
imensidão do espaço geográfico e humano de nosso país.
32. É multiforme a diversidade da formação e
das raízes culturais dos sacerdotes que servem ao Povo de Deus no Brasil,
muitos dos quais vindos de outros países. Há, sem dúvida, ênfase, interesses e
posições, por vezes contrastantes, seja no campo teológico-pastoral, seja no
que diz respeito às sensibilidades e opções sócio-culturais e políticas. Em
especial, constituindo a trama e o dia-a-dia da vida sacerdotal, há um imenso
peso de trabalho e de fadiga que nasce de solicitações das comunidades e da
própria realidade tão carente das populações atendidas pelos padres.
33. Para conhecer mais de perto a complexa
situação de nossos padres, a Comissão Nacional do Clero (CNC), com apoio da
Linha I da CNBB e assistência do Centro de Estatísticas Religiosas e
Investigações Sociais (CERIS), procurou ouvir e sistematizar, da forma mais
objetiva possível, as opiniões do próprio clero a esse respeito. Para tanto
enviou aos Regionais da CNBB 12 mil questionários, com 22 perguntas relativas a
diversos aspectos da vida e do ministério presbiteral. Apesar das dificuldades,
4.104 desses questionários retornaram aos organizadores da pesquisa.
34. Não se pode tomar como definitivo e
completo o quadro que emerge do conjunto de dados colhidos. (Ver: A situação do
clero no Brasil, CNC, 1980). Contudo, dentro dos limites do instrumento usado —
um questionário — e de algumas deficiências surgidas na sua elaboração e
aplicação, não se pode negar o valor dessas respostas de 1/3 do clero nacional,
abrangendo padres de todas as idades e regiões e atingindo tanto os sacerdotes
diocesanos quanto os religiosos, quer nascidos no Brasil, quer no Exterior.
35. Nesta parte, dedicada à visão da realidade,
utilizam-se indicações nascidas dessa consulta. Para não perder, contudo, o
sabor e a validade da experiência e da reflexão mais imediatas, o texto se
apóia também em observações colhidas em três Encontros Nacionais de grupos
ligados à Pastoral Vocacional, aos Seminários e aos Presbíteros, reunidos em
Brasília em setembro e outubro de 1980, a convite da CNBB, com o objetivo de
fornecer subsídios para a presente Assembléia.
1. Situação do
presbítero
36. 0 quadro geral vivido hoje pelos
presbíteros revela uma caminhada ainda em curso. Parecem estar em fase de
superação alguns problemas agudamente sentidos até alguns anos atrás. Ao menos
pode-se dizer que no clero de hoje há uma clara consciência de que foram dados
alguns passos e abertas novas perspectivas em sua vida e ministério. Outros
pontos parecem permanecer no horizonte de preocupações dos presbíteros como
incógnitas ou como desafios.
1.1. Passos dados
Alguns
pontos merecem especial consideração quando se tenta um balanço na caminhada
feita:
37. Os dados parecem apontar, inicialmente,
para um clero consagrado prioritariamente à atividade pastoral, especialmente
em paróquias. É provável que tais atividades se tenham transformado bastante, e
que em várias regiões ou setores de evangelização tenham adquirido feições bem
diversas das que caraterizavam antigamente a rotina de vida do presbítero.
38. Como grupo, o clero que respondeu à
pesquisa se mostra bem inserido em suas atividades de Igreja, revelando elevado
nível de satisfação pessoal pela opção de vida realizada e pelo trabalho
pastoral concretamente exercido.
39. De outro lado, não se pode, porém,
negligenciar a problemática dos que continuam questionando-se e sentindo-se
ainda irrealizados em seu ministério. Cabe a pergunta: estará o problema neles
próprios ou, muito mais, a responsabilidade toca nosso modo de relacionamento e
nossas estruturas?
40. É preocupante verificar que parcela considerável
do clero não parece atingida pelos grandes questionamentos de nosso tempo. Na
verdade, aceitando-se as dificuldades dos mais idosos, não poucos continuam
instalados em certa indiferença e apatia, ou acomodados num regime de vida e
ministério aparentemente não sacudido pelo sopro do Espírito.
41. Outra faceta da vida presbiteral indicativa
de mudança é a que diz respeito ao diálogo e à participação no interior do
presbitério, bem como ao planejamento e orientação da atividade pastoral. Até
alguns anos atrás, era este um dos problemas mais agudamente percebidos. Hoje
já se faz sentir o efeito benéfico de estruturas de diálogo e de convivência
fraterna que foram paulatinamente sendo criadas.
Deve
existir certa diversidade de situações, mas de maneira geral Bispos e
Presbíteros parecem ter descoberto um estilo de vida e relacionamento mais
próximo e direto. O convívio com os leigos, embora ainda insuficiente, é
sentido como elemento positivo.
42. Também no tocante a esse aspecto, não
podemos deixar de encarar com seriedade o número significativo de presbíteros
que, em relação ao Bispo, aos colegas de presbitério e, em menor escala, aos
leigos, se ressentem de um penoso distanciamento.
43. Merece especial atenção o problema dos
sacerdotes pertencentes a congregações religiosas. Após alguns anos de trabalho
pastoral, organicamente planejado pelas Igrejas locais, eles tendem entrosar-se
sempre mais na linha da pastoral diocesana. Existem, todavia, grupos que se
alheiam à perspectiva de ação pastoral das Igrejas locais. No caso dos
religiosos tomados individualmente, como o mostra a pesquisa, é ponderável o
número dos sacerdotes religiosos que se sentem pouco entrosados com o Bispo e
seus colegas de presbitério.
44. Também o chamado problema econômico do
clero parece ter evoluído. Trata-se de um problema complexo. Apesar das
desigualdades regionais e das variações, por vezes muito grandes, no interior
da mesma diocese ou província de religiosos, é inegável que a maioria dos
padres leva uma vida evangelicamente pobre, sofrendo parte deles restrições
financeiras. A fonte básica de seu sustento é o próprio trabalho pastoral. Bom
número, em especial do clero diocesano, se vê coagido a apelar para a ajuda de
terceiros ou a buscar, em algum tipo de trabalho remunerado, uma fonte
alternativa para o próprio sustento.
45. Verifica-se em diversos lugares a
existência de sacerdotes à busca de maneiras novas de partilhar os bens
materiais como uma forma de viver a pobreza. De outro lado, não se pode
silenciar a existência de casos opostos de contratestemunho individual e
coletivo. Quanto à situação do momento, os presbíteros mostram-se relativamente
tranqüilos. A insegurança que se faz sentir é em relação à velhice e eventuais
enfermidades.
46. Por razões evidentes, o temor ante as
incertezas do futuro é mais acentuado no clero secular, cuja subsistência
depende mais diretamente da capacidade de trabalho de cada sacerdote tomado
individualmente. Embora a nova legislação, estendendo aos padres os benefícios
da previdência social pública, tenha trazido mais tranqüilidade à maioria, os
presbíteros diocesanos não contam com o sistema de apoio que as congregações
religiosas oferecem a seus membros.
47. O problema não é apenas de natureza
econômica. Há outras variáveis em jogo. O padre secular se preocupa com
questões que atingem muito menos
o religioso, como: Onde morar? Com quem
conviver? Onde encontrar assistência? Como dignificar e valorizar a velhice
sacerdotal? São, portanto, muitas as facetas do problema. Em algumas dioceses e
regionais, surgiram iniciativas isoladas, bem sucedidas. No conjunto, porém, é
bem pouco o que se faz.
48. Acha-se em andamento uma transformação
significativa no sistema de sustentação das Igrejas locais. As antigas taxas
doadas pelos fiéis, por ocasião da administração dos sacramentos, estão cedendo
lugar ao dízimo como forma de responsabilizar a todos pelo sustento financeiro
das obras paroquiais e dos ministros. Onde o sistema do dízimo já se firmou,
evidenciou-se a necessidade de o presbítero assumir uma comunhão mais plena com
sua comunidade, partilhando das condições de vida e limitações dos membros do
Povo de Deus.
49. Não possuímos dados suficientes a respeito
do problema da profissionalização dos presbíteros, entendida como exercício
remunerado de ocupações não diretamente ligadas às tarefas presbiterais ou às
obras da Igreja. É inegável que até pouco tempo atrás este tema era objeto de
atenção por parte de considerável número de sacerdotes. Também os seminaristas
maiores demonstravam preocupações em relação ao trabalho profissional, menos
como fonte de recursos para seu sustento, do que como experiência julgada
necessária para a formação do Presbítero hoje.
50. Parece que a pergunta de fundo que os
presbíteros e seminaristas se põem hoje é de outra natureza. A questão já não é
tanto esta: Quem sou ou devo ser nesta sociedade?". É muito mais estoutra:
"Como me situo pessoalmente nesta Igreja que está redefinindo seu papel na
sociedade brasileira?. Vista sob este ângulo, a profissionalização muda de
figura. Não se questiona tanto ou somente o aspecto pessoal da realização
humana e social, e sim a dimensão eclesial desta realização.
1.2. Caminhada a continuar
Ao
refletir sobre o caminho já percorrido, levantam-se à nossa frente algumas
pistas e desafios:
51. — a
necessidade de um aprimoramento espiritual dos presbíteros, constitui o desafio
prioritariamente sentido. O presbítero percebe hoje a necessidade de cultivar
de modo mais específico sua espiritualidade pessoal e eclesial, a fim de que
sua vida e ministério adquiram significado pleno;
52. — a
comunhão no trabalho e na oração com os irmãos presbíteros e com as comunidades
de fé, torna-se fonte de sustentação e amadurecimento da vocação. De outro
lado, a densidade da vida espiritual do padre passa a cultivar-se como condição
de eficácia do seu próprio ministério;
53. — o
apoio e intercâmbio afetivo, o cultivo da amizade e da vida em comum, os
momentos fortes de reflexão, de estudo, de trabalho e de lazer, o aprimoramento
das estruturas e estilos da Igreja no sentido da partilha e da
corresponsabilidade, são pontos básicos na caminhada que se abre para os
presbíteros do Brasil.
54. Percebe-se melhor a necessidade de superar
certos hábitos que favorecem o isolacionismo e o individualismo, ou impedem o
diálogo fraterno e honesto. As práticas da vida e do ministério presbiteral
devem evoluir em direção à comunhão e participação, conforme a grande diretriz
de Puebla.
55. Ao longo desses anos, o clero tem sentido a
necessidade de a Igreja, como um todo, converter-se sempre de novo às
exigências do Evangelho. A autenticidade de seu testemunho depende
essencialmente desta mudança profunda. Decorre daí para o próprio clero a
premência de reconversão constante à Palavra de Deus.
56. Um dos pontos de referência e um dos
critérios sentidos hoje, como decisivos para o discernimento no caminho dos
presbíteros do Brasil, é o pobre em cujo rosto se espelha a face de Jesus
Cristo. A realidade de injustiça e de opressão, à qual a Igreja quer fazer
frente com a opção preferencial pelos pobres, abre para o padre uma série de
questionamentos novos. Não se trata de perguntas abstratas a respeito da
sociedade, da História e da organização política e econômica.
57. Os documentos programáticos e as
prioridades, reiteradamente assumidas pela Igreja em seus planos pastorais,
colocam o presbítero diante de um repto, para o qual nem sempre se sente
suficientemente preparado. Falta-lhe uma visão teológica e pastoral que o
capacite a atuar, com fundamentação adequada, no anúncio do Evangelho, do qual
a dimensão social e política é elemento integrante.
58. O padre de hoje se defronta, de forma
irrecusável, com o problema das ideologias. Elas constituem... fenômenos vitais
de dinamismo envolvente, contagioso... Desse modo, muitos vivem e militam
praticamente dentro dos limites de determinadas ideologias, sem haverem tomado
consciência disso... Tudo isso se aplica tanto às ideologias que legitimam a
situação atual, como aquelas que pretendem mudá-las (Puebla 537). Este é um
aspecto que exige do sacerdote constante revisão e vigilância.
59. A atualização teológico-pastoral e o melhor
conhecimento das ciências sociais e humanas são vistos hoje como
imprescindíveis. As lacunas de formação eclesiástica, mesmo no caso do
sacerdote recentemente ordenado, se fazem notar tão logo a ação pastoral tenta
concretizar as respostas da comunidade cristã para a realidade que a interpela.
Tanto
os presbíteros que trabalham nos grandes centros urbanos ou em ambiente de pastoral
especializada, quanto os padres do interior, percebem agudamente que, sem
atualização constante de seus conhecimentos com base na prática ministerial,
torna-se difícil realizar as grandes metas que se propõe a Igreja na
evangelização do nosso povo.
60. Há sacerdotes que, sem colocar em
questionamento o valor do celibato em quanto tal, almejariam uma mudança na
atual disciplina da Igreja. Além da realização humana e afetiva do sacerdote,
freqüentemente sujeito a duras condições de trabalho e ao isolamento, são
aduzidos para tanto argumentos históricos e teológicos e, principalmente, a
necessidade pastoral de inúmeras comunidades privadas da presença do padre.
61. A este respeito e em referência à formação
dos futuros presbíteros, o Santo Padre escreve aos Bispos do Brasil, em carta
de 10/12/80: Não vos paralisem neste esforço nem uma concepção imperfeita e
enganosa da promoção dos leigos, nem a tentação das fórmulas simplistas ou das
soluções de emergência, alheias às conclusões da 3ª Assembléia do Sínodo dos
Bispos em 1971 e às claras diretrizes emanadas da Sé Apostólica para a Igreja
Latina. A resposta a dar à urgente
necessidade de sacerdotes, resposta realmente coerente com o bem da Igreja, não
se encontra na abolição do celibato sacerdotal, na ordenação de homens casados
ou no retorno ao ministério de sacerdotes que o abandonaram para contrair
matrimônio.
62. 0 próprio Papa indica o caminho a seguir:
Dois aspectos me parecem relevantes neste campo: promover as vocações
sacerdotais e religiosas e formar bem os candidatos. Não insisto sobre o
primeiro, pois bem sabeis que a crescente promoção dos leigos não dispensa,
antes exige maior presença de sacerdotes.
O
segundo aspecto não é menos importante e até diria que, se não houvesse a
consciência, a vontade e o cuidado de dar aos futuros sacerdotes e religiosos
uma séria e acurada formação, intelectual, moral, espiritual e apostólica, a
promoção vocacional se tornaria um esforço ineficaz e até arriscado para a
Igreja. Compreendeis certamente esse pensamento".
63. A Igreja do Brasil, acata, em profundo
espírito de fé e obediência, essa palavra do Papa.
64. A convivência mais próxima ao povo que clama
pela presença do sacerdote, o conhecimento de leigos pastoralmente admiráveis e
o conhecimento das lutas de seus padres, fazem com que o acolhimento dessas
diretrizes traduza, para alguns Bispos, uma renúncia consciente e responsável.
65. Para os sacerdotes e para os que almejam o
serviço presbiteral, a tarefa que se abre como projeto existencial e de vida é
a de cultivar a riqueza espiritual e humana de que o celibato é fonte, conforme
a fecunda tradição da Igreja.
2. Completando o quadro
2.1. Observação crítica
66. O quadro descrito apresentou um clero em
fase de superação efetiva da crise de identidade que o afligiu até data
recente, clero que se mostra fiel às suas tarefas pastorais; marcado pelo
desprendimento material; empenhado, pelo próprio testemunho, em tornar a Igreja
mais evangélica; solidário com os Bispos e colegas presbíteros; unido aos
leigos e mais identificado com a causa dos pobres. Talvez esta apresentação se
afigure a alguns como demasiado rósea ou mesmo irrealista. Do quadro emana, de
fato, uma aura de otimismo. Esta imagem não foi artificialmente inventada. Os
dados colhidos pela pesquisa do CERIS, são a base da descrição acima.
67. Mesmo que nem todos os presbíteros
vivenciem esse clima de maior confiança e otimismo, mesmo que existam
divergências, insatisfações e distanciamentos, e que em alguns lugares a
realidade possa ser o oposto da que aflorou aqui, não se pode negar que a
Igreja está caminhando. Bispos, presbíteros e demais ministros crescem na
unidade e na certeza de sua vocação própria junto ao Povo de Deus. Trata-se de
um dom do Espírito. É preciso rezar para que ele se estenda a todos os
presbíteros do Brasil, para a edificação da Igreja.
68. Ao mesmo tempo, talvez certos aspectos da
vida e do ministério presbiteral hoje não tenham sido suficientemente
explicitados. Tampouco aparecem aqui com a carga de sentimento e de vida com
que são vivenciados pelos padres. Alguns deles, porém, são fundamentais e
merecem ser ressaltados.
2.2. Outros problemas fundamentais
69. O ministério do presbítero, hoje, para ser
esclarecido em sua especificidade e para ser pastoralmente potenciado, há de
considerar-se em sua relação com os novos ministérios. Sob essa
expressão vêem apontados não só os "serviços novos que brotam nas
comunidades cristãs, especialmente nas comunidades eclesiais de base (CEBs),
mas também o processo em ato na Igreja do Brasil, pelo qual essa tende a passar
de uma Igreja clerical para uma Igreja toda ministerial, onde os leigos assumem
o seu devido papel.
70. Esses ministérios não podem ser entendidos
como solução para o problema da escassez dos padres ou como tentativa de
minorar-lhes o excesso de trabalho. Eles são manifestação do crescimento das
comunidades cristãs enquanto tais, e de um laicato consciente na Igreja.
Especialmente nas comunidades populares, urbanas ou rurais, são uma resposta a
desafios e necessidades de que as mesmas comunidades tomaram consciência.
Tornam mais presente a ação da Igreja.
71. O fortalecimento e a afirmação das Comunidades
Eclesiais de Base trazem conseqüências que se fazem sentir no dia-a-dia do
padre. Exigem dos sacerdotes atuais um novo tipo de presença e de serviço. Mais
ainda. Em sua própria vitalidade, parecem revelar certa insuficiência desta
única modalidade de formação e atuação da atual figura do presbítero, como
resposta pastoral à sede de Deus presente no povo.
72. A opção preferencial pelos pobres, a
maneira nova de a Igreja comprometer-se com os oprimidos numa luta pela
libertação plena do homem e pela transformação da sociedade, tem uma vertente
social e política, que não se confunde com política partidária, que atinge
de perto o sacerdote. Na atuação e vida das comunidades com seus sacerdotes e
ministros, concretizam-se diretamente os grandes documentos programáticos da
Igreja. Há um clima de tensão em muitas partes. A relação entre pastoral
e política precisa ser mais bem trabalhada, para que os sacerdotes,
permanecendo sacerdotes, fiéis à sua vocação específica, possam cumprir a
missão que lhes cabe neste campo.
73. A devida maturação afetiva dos candidatos
ao sacerdócio merece hoje atenção ainda mais acurada. Baseando-se em sua
experiência espiritual e pastoral, a Igreja reafirma o celibato como uma das
condições básicas para o exercício do ministério presbiteral. Ela quer que seus
sacerdotes façam esta opção com inteira liberdade, consciência e alegria. Ora,
exatamente nas condições da vida moderna em que deve o sacerdote exercer seu
ministério, é de esperar que deva ser preparado para manter uma riqueza afetiva
reservada ao serviço dos irmãos.
III. Os futuros presbíteros
1. Pastoral
vocacional nos últimos decênios
74. As
vocações têm sido objetivo prioritário da atenção dos Bispos há muitos
decênios. São elas uma atividade permanente que não pode ser negligenciada, sob
pena de colocar-se em risco toda a ação da Igreja.
75. Nos períodos mais recentes da pastoral
vocacional, alternam-se momentos de forte atividade; de interesse, de melhoria
no preparo de quadros para a direção espiritual e pedagógica, e de expansão de
qualificação dos seminários, com fases menos dinâmicas de atuação nos mesmos
setores. De modo geral, porém, com forte apoio da Santa Sé, a linha era de
preocupação prioritária com o problema vocacional. Havia talvez falhas no
recrutamento, seleção e formação dos candidatos e na própria concepção
organizacional e educacional dos seminários. Faltavam elementos bem formados
para o trabalho.
76. A pressão exercida por modelos pedagógicos
importados, sem uma adaptação à nova realidade, prejudicava a adequação da
instituição às necessidades de nossa Igreja, chegando em muitos lugares a
influenciar negativamente na formação. Malgrado tudo isso, a tônica era de
otimismo e mesmo de certa euforia. Havia, em muitos, a esperança de a Igreja do
Brasil começar finalmente a superar o problema, sempre de novo apontado, da
insuficiência numérica e qualitativa do clero. Pela primeira vez em nossa
História — era esse o grande sonho — teríamos um clero aqui nascido, numeroso e
com melhor preparo espiritual, intelectual e pastoral.
77. As mudanças trazidas no processo de
renovação provocaram uma inesperada queda no trabalho vocacional, invertendo
mesmo, à primeira vista, as perspectivas. A Igreja não só perdeu boa parte
daquela geração de sacerdotes em que depositava tanta esperança, mas passou a
viver uma quase paralisia no que tange à Pastoral Vocacional. A crise dos
sacerdotes e o esvaziamento dos seminários, mais do que uma indefinição de
indivíduos, era a expressão de toda a complexa problemática de nossa Igreja em
transição. As rupturas que se seguiram provocaram um verdadeiro choque em muitos
dos que se haviam acostumado aos gráficos com curvas em ascensão. Ao mesmo
tempo, contudo, abriram perspectiva de renovação que precisa ser
devidamente aproveitada.
2. Situação atual
78. Passada a fase mais dura do sofrimento que
o Senhor permitiu se abatesse sobre sua Igreja, inclusive para purificá-la de
suas falhas, tudo indica que é chegada a hora de, com objetivo amor pastoral,
refletir à luz da fé e sobre o que se passou, sobre o momento promissor ora
vivido e sobre os rumos a imprimir à Pastoral Vocacional no Brasil, no futuro.
2.1. Aspectos positivos LV14
79. Parece que a Igreja está vivendo um período
vocacional promissor em quase todas as regiões do Brasil. Tanto nas Dioceses
como nas congregações religiosas constata-se ponderável retomada vocacional.
Cresce o número dos que se apresentam como candidatos ao sacerdócio. O próprio
seminário, entendido não prevalentemente como casa ou lugar e sim como
instituição formadora, parece ter evoluído, adaptando-se à realidade desta
Igreja que se refaz.
80. As vocações religiosas, masculinas e
femininas e, em especial, as vocações aos novos ministérios também revelam
notável incremento qualitativo e quantitativo. A Igreja no Brasil vive,
portanto, um momento novo de otimismo. No 5° Encontro Nacional de Pastoral
Vocacional, os responsáveis por esse trabalho em todo o Brasil, em preparação à
19ª Assembléia Geral da CNBB, procuraram descrever melhor este novo quadro.
81. Uma primeira constatação, nascida da
apresentação dos relatórios regionais, veio confirmar o clima propício que se
respira. O amadurecimento global da Igreja está propiciando condições novas, em
vista de uma solução criativa e mais original para o problema crônico da falta
de vocações ao presbiterato, à vida religiosa e aos ministérios no Brasil.
Nossa Igreja já elaborou uma prática que, mantendo viva a conexão com as fontes
da tradição católica, já não é devedora exclusiva dos modelos pastorais e
organizacionais de tradição européia. Ela já se entranhou bem mais em nosso
povo e em nossa cultura.
82. Sociologicamente, padres e Bispos já
começaram a viver em um novo lugar social que permite captar e expressar melhor
sua comunhão com as comunidades vivas, com o povo, com os pobres. O surgimento
dos oprimidos no campo de percepção dos homens de Igreja está provocando, pela
ação do Espírito, uma autêntica conversão, com repercussão imediata na vida das
comunidades e nas obras e estilo da Igreja. O rosto interpelador do irmão
pobre, no qual se manifesta a feição do Senhor, desperta as comunidades e chama todo o Povo de Deus para uma atitude e
prática de serviço.
São de ressaltar os seguintes aspectos
positivos no panorama vocacional de hoje:
83. — recuperação
da sensibilidade eclesial para a urgência do problema vocacional, e crescimento
do interesse por parte da hierarquia e de outros setores responsáveis;
84. — crescente
integração e organização dos esforços, em nível regional e nacional, dentro de
um trabalho conjunto da CNBB-CRB e com iniciativas de ação conjunta entre as
diversas congregações e dioceses, vencendo o isolacionismo, a improvisação e a
concorrência. Surgimento de um clima de Igreja com base numa concepção
teológica da vocação, de teor mais abrangente e bem fundamentada;
85. — maior
conscientização e interesse vocacional entre os jovens, como resultado de uma
pastoral juvenil que se aprimora, despertando a consciência da responsabilidade
cristã, suscitando uma posição mais crítica e abrindo espaço para um projeto de
vida que escapa ao círculo fechado da sociedade envolvente;
86. — revitalização
das comunidades paroquiais e o surgimento das CEBs, como lugar privilegiado
onde se desperta a responsabilidade das próprias comunidades, em relação às
necessidades e apelos da realidade vivida pelo povo, no campo religioso como em
outros que demandam resposta e serviço generosos.
87. — O
testemunho de leigos, religiosos, sacerdotes e Bispos realmente comprometidos
com os pobres: o sangue dos nossos mártires se torna semente de novas vocações;
88. — maior
consciência da ação do Espírito Santo nos caminhos da Igreja. Donde decorrem:
maior confiança, humildade, liberdade e, sobretudo, espírito de oração no
serviço e na doação concreta;
89. — novas
experiências no cultivo das vocações, reabertura de obras especializadas, reorganização
de seminários e casas de formação;
90. — valorização
da dimensão pastoral e maior cuidado com as pessoas nos lugares de formação;
91. — aprimoramento
e maior adequação de alguns Institutos de Teologia à realidade brasileira; o
surgimento de cursos teológicos abertos aos leigos;
92. — a
visita do Santo Padre ao Brasil e o efeito de sua palavra sobre a juventude e
sobre a Igreja;
2.2. Aspectos negativos
93. É importante não se estabelecer uma
dicotomia excludente entre o positivo e o negativo. Nenhum dos dois existe em
estado puro. As dimensões se mesclam colorindo a realidade. Mas podemos
salientar como negativo:
94. — persistência
de perplexidade e de apatia em relação à Pastoral Vocacional. A mentalidade
consumista dominante na sociedade e o contratestemunho dentro da Igreja
dificultam o trabalho. A reabertura de seminários é vista por alguns com
desconfiança;
95. — desconhecimento
quanto ao que se faz e descomprometimento em relação às responsabilidades que
são de toda a Igreja e que, por isso, devem ser assumidas por todos. Em alguns
lugares persiste ainda uma atitude de concorrência;
96. — insuficiente
integração da Pastoral Vocacional na Pastoral de Conjunto, em especial na
Pastoral de Juventude e da Família e na Pastoral que se desenvolve no cotidiano
da vida paroquial, nos movimentos e nas associações de Igreja. O
desconhecimento mútuo leva a trabalhos e objetivos paralelos, por vezes
conflitantes;
97. — desarticulação
entre vários níveis e organismos eclesiásticos. Em alguns lugares o isolamento
marca a Pastoral Vocacional feita dentro e fora dos seminários;
98. — deficiência
da seleção dos candidatos por falta de critérios comuns a toda a Igreja, por
incompetência de formadores, muitas vezes improvisados, ou por deficiência de
meios e ausência de especialistas;
99. — carência
de linhas pedagógicas comuns e definidas para a formação, e descontinuidade no
processo de acompanhamento dos candidatos;
100. — formação
e modelos pedagógico-pastorais não correspondentes à heterogeneidade humana,
cultural e religiosa, seja dos candidatos, seja das comunidades e Igreja
locais;
101. — metodologias
e concepções teológicas e pedagógicas que não respondem adequadamente ao que a
Igreja do Brasil precisa. Em alguns casos a reabertura de seminários
corresponde a uma tentativa de restauração do antigo, mais do que a criação de
um lugar pedagógico onde a vocação possa encontrar condições adequadas para um
crescimento orgânico e integrado. No outro extremo, situam-se atitudes e
pseudo-soluções de tipo deixar correr. Ambas carecem de embasamento pedagógico
e pastoral;
102. — recurso
ainda muito acentuado e às vezes irrefletido a vocações vindas do exterior,
como solução para o doloroso problema da falta de sacerdotes;
103. — dificuldade
em tornar os seminários um lugar onde as vocações populares possam sentir-se
acolhidas, e encontrar um tipo de formação que não as torne alheias ao meio de
onde procedem. Aqui se situa o problema ainda não enfrentado do tipo de
formação intelectual e pastoral a ser dada ao padre brasileiro;
104. — falta
de articulação na passagem do seminário menor para o maior, dos movimentos
juvenis às casas de formação e, ainda, do período final dos estudos e
preparação à inserção definitiva no presbitério.
105. Há, sem dúvida, o perigo de
reincidência em erros educacionais e pastorais do passado, se nos deixarmos
levar pela euforia de ver os seminários novamente cheios de adolescentes. A
têmpera de fé e de maturidade humana, que se pede hoje ao presbítero, exige uma
contínua revisão pedagógica em nossas instituições. O despreparo intelectual e
espiritual de muitos é grave problema posto à argúcia e dedicação dos
formadores.
2. 3. Algumas constantes que merecem atenção
Para
completar esta visão panorâmica, convém levantar ainda as seguintes constantes:
106. — reflexão
teológica sobre os ministérios na Igreja, numa visão eclesiológica compatível
com a experiência efetivamente vivida pela Igreja do Brasil: as CEBs, os novos
ministérios, a visão missionária, o projeto das Igrejas irmãs, o novo modo de
ser bispo e ser padre como serviço à comunidade, o repensamento do sacerdócio
hierárquico em uma Igreja toda ela ministerial, os compromissos e tarefas novas
que decorrem da opção preferencial pelos pobres;
107. — preocupação
com o homem, a cultura e a sociedade brasileiras: atenção especial aos próprios
valores; cultivo das vocações nativas a partir de uma crítica do modo como a
Igreja está presente em nossa realidade; análise sincera do significado da
dependência das Igrejas de outros países no que toca aos ministérios; atenção
aos ambientes humanos e às regiões vocacionalmente marginalizadas;
108. — novas
modalidades de formação, vida em pequenos grupos, possivelmente mais próximos à
realidade do povo, dos jovens e das famílias; inserção orgânica na vida das
comunidades e na atividade pastoral; atendimento e acompanhamento fora dos
seminários;
109. — presença
feminina nos lugares de formação, aproximação da vida do seminário à vida real,
sempre dentro de exigências e compromissos que irão decorrer do grau de adesão
e de maturidade vocacional do candidato;
110. — atenção
à formação humana e afetiva com vistas a uma opção livre e realizadora do
celibato; clima de oração conscientemente cultivada ao longo de todo o processo
de formação; ascese e renúncia sadiamente assumidas;
111. — necessidade
premente de cursos especializados e de órgãos para assessoria e acompanhamento
do trabalho educacional feito nos seminários ou fora deles, seja no campo da
espiritualidade e da pastoral, seja no que toca à esfera psico-pedagógica;
112. — necessidade
de maior cuidado no aprimoramento dos Institutos de formação eclesiástica, de
modo a garantir tanto um bom nível nos estudos quanto sua devida adequação às
diversas situações do País, e às necessidades pastorais da Igreja;
113. — exigência
de sérios esforços, por parte da Igreja, para criar um ou outro centro avançado
de estudos teológicos e pastorais, condizente com o progresso observado em
quase todos os setores das ciências no Brasil.
114. O percurso até aqui realizado propôs um
conjunto de problemas e de perspectivas que se inserem em complexo fenômeno
histórico-sociológico. É fácil notar
que o texto se detém mais no nível da descrição dos fatos, embora insinuando
uma ou outra pista para a análise sociológica e a compreensão psico-social. Do
ponto de vista teológico supõe-se e indica-se, de forma mais definida, uma
série de elementos que devem agora ser aprofundados.
II PARTE
REFLEXÃO TEOLÓGICA
Introdução
115. A análise da realidade nos propôs um
conjunto de problemas e desafios, que apelam para uma ação eficaz. A ação,
contudo, para não cair no imediatismo nem em falsas soluções, precisa de uma
visão mais ampla, que lhe forneça critérios e objetivos. Esta visão nos é dada
pela reflexão à luz da fé, por um esforço de discernimento crítico inspirado na
palavra de Deus.
116. A consciência da Igreja aponta hoje na
direção de uma redescoberta do caráter de serviço que se realiza através da
multiplicidade de ministérios. Neste contexto, o ministério
presbiteral reencontra mais efetivamente sua significação específica e
novas perspectivas se abrem para a Pastoral Vocacional.
1. Ministério de Cristo, ministério da Igreja
1.1. Continuação da missão de Cristo
117. A missão da Igreja vem de Cristo. Mais
que isso, ela continua a própria missão do Cristo. Como o Pai me enviou, também
eu vos envio (Jo 20,21). Quem vos recebe, a mim recebe, e quem me recebe,
recebe aquele que me enviou (Mt 10,40).
118. Jesus descreve sua missão como
serviço: Estou no meio de vós como aquele que serve! (Lc 22,27); O filho do
homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida... (Mt 20,28; Mc
10,45). Para tornar mais claro o sentido de sua atuação, ele fez o gesto
simbólico do lava-pés (cf. Jo 13,4-16). Toda a sua vida aparece aos olhos dos
primeiros cristãos e particularmente do apóstolo Paulo como um gesto de
serviço, em que o Senhor assume a condição de escravo (cf. Fl 2,6-8).
119. À palavra serviço corresponde,
em latim, ministério, e, em grego, diakonia. A reflexão teológica
procurará compreender, à luz da missão de Jesus e da convocação dos Doze,
entendidas ambas como serviço, qual é o ministério da Igreja no mundo de
hoje, e como, concretamente, ela pode e deve organizar-se em diversos ministérios
confiados aos cristãos.
120. Embora a referência fundamental para
compreender a missão da Igreja seja sempre a atuação de Jesus de Nazaré, não
pode aquela repetir simplesmente a atuação de Jesus no seu tempo. Precisa de
uma fidelidade viva, que torne presente hoje o mesmo Espírito de Cristo.
Garantia dessa fidelidade é a própria ação do Espírito Santo.
121. Sacramento de Cristo vivificada
pelo seu Espírito (cf. LG 3 e
4), a Igreja tem como missão anunciar o Reino de Cristo e de Deus...
estabelecê-lo em todos os povos... constituir na terra o germe e o início deste
Reino, enquanto anela pelo Reino plenamente realizado (LG 5/6). Este é o
mistério da vontade de Deus, seu desígnio ou plano salvífico.
1.2. Diversos aspectos da missão da Igreja...
122. A riqueza de conteúdo e as muitas
faces da missão da Igreja podem ser descritas de diversas maneiras. O Concílio
Vaticano II usou freqüentemente uma descrição que tem raízes no Antigo
Testamento e resume a missão em três aspectos: PROFÉTICO, SACERDOTAL E RÉGIO
(cf. LG 31,34,35 e 36; AA 10).
123. Pode-se também descrever a missão da
Igreja na linguagem do Novo Testamento. Hoje em dia, muitos cristãos, católicos
ou não, o fazem falando em:
• TESTEMUNHO (ou, segundo uma fórmula mais próxima
do grego, MARTYRIA)
• COMUNHÃO (ou KOINONIA)
• SERVIÇO (ou DIAKONIA).
124. Trata se não tanto de três tarefas
concretas e separadas, quanto de três aspectos ou dimensões da atuação dos
cristãos, a qual deve ser inseparavelmente testemunho de fé (pela
Palavra e pela vida), edificação da comunhão com Deus e com os irmãos, e
serviço à comunidade eclesial e ao mundo.
1. 3. ... que convergem na evangelização
125. Recentemente, o desejo de renovação e
a busca do essencial valorizaram de novo uma palavra para sozinha resumir toda
a missão da Igreja: EVANGELIZAÇÃO.
126. O
Sínodo dos Bispos
de 1974 e a Exortação Evangelii Nuntiandi
(1975) do Papa Paulo VI
colocaram esta perspectiva no
centro da atenção da Igreja. A
Evangelização não é mais considerada unicamente como o aspecto
inicial da missão, primeiro contato do Evangelho com as culturas, mas
como o conjunto da ação que a Igreja realiza para anunciar o Evangelho, viver e
celebrar a fé, transformar o mundo e edificar o Reino (cf. EN 17-39; Diretrizes
Gerais da Ação Pastoral da Igreja no Brasil, 1979-1982, n° 8-14).
127. 0 Sínodo dos Bispos de 1971 contribuiu
especialmente para a tomada de consciência de que a ação pela justiça e a
participação na transformação do mundo nos aparecem claramente como uma
dimensão constitutiva da pregação do Evangelho, que é o mesmo que dizer: da
missão da Igreja. Este mesmo Sínodo já destaca a conexão entre evangelização e
libertação integral do homem, que a Evangelii Nuntiandi enfatizará depois (cf.
EN 31).
128. A Conferência de Puebla explicitou os
caminhos e os objetivos da Evangelização em duas expressões-chaves: Libertação
e Comunhão e Participação. Aponta assim o ideal do Reino, para o qual a
humanidade caminha (comunhão dos homens com Deus e entre si), indicando
ao mesmo tempo que é pelo serviço ativo, pela participação consciente e
responsável, que o cristão pode e deve edificar a sociedade e a Igreja segundo
o plano de Deus.
1. 4. Objetivos da pastoral no Brasil
129. A Igreja do Brasil, através de sua
Conferência Nacional dos Bispos, procurou expressar sua compreensão da missão
no objetivo geral do Plano de Pastoral de Conjunto aprovado para 1966/1970 e
continuado até 1978, depois de atualizado em 1974: Levar todos os homens à
plena comunhão de vida com o Pai e entre si, em Jesus Cristo, no dom do
Espírito Santo, pela mediação visível da Igreja.
130. Em 1979, após Puebla com a opção pelos
pobres, a CNBB enunciou assim o objetivo geral de sua ação pastoral:
Evangelizar a sociedade brasileira em
transformação, a partir da opção pelos pobres, pela libertação integral do
homem, numa crescente participação e comunhão, visando à construção de uma
sociedade fraterna, anunciando assim o Reino Definitivo.
1. 5. Ideais inspiradores de vocações
131. Semelhantes formulações não são mero
enunciado impessoal da reflexão teológica ou do planejamento pastoral. Elas
exprimem um ideal capaz de suscitar nas pessoas, e especialmente nos jovens, a vocação
de assumir uma responsabilidade ministerial e até a consagração total ao
serviço da Igreja. Palavras, como evangelização, testemunho, comunhão serviço,
participação, justiça, libertação, Reino... devem ressoar com tal força e
conteúdo que possam impelir o cristão a consagrar sua vida aos ideais que
apresentam .
132. Nenhuma dessas fórmulas, porém, esgota
a força inteira nem toda a amplitude da missão cristã. Cada qual tem seu valor
e atrativo próprio, que repercutirão de modo particular nesta ou naquela
pessoa. Todas representam aspectos complementares da missão da Igreja, de modo
que somente juntas podem expressá-la plena e fielmente.
2. Uma Igreja ministerial
2. 1. Toda Igreja em estado de missão
133. Para ser autenticamente evangélica e
continuar a missão de Cristo, a Igreja deve estar inteiramente voltada para
o serviço. Há de ser toda ministerial, o que implica fidelidade total a
Cristo e, em Cristo, ao homem e à sua História. Implica, outrossim, que uma
atitude de serviço humilde, como a de Cristo, deve permear toda a atuação da
Igreja e dos cristãos. Significa que todos na Igreja são chamados a
assumir um serviço, um ministério. A distribuição dos serviços ou ministérios
na Igreja constitui um teste fundamental e condição essencial de sua fidelidade
ao Evangelho.
2. 2. Todos responsáveis
134. Um cristão dos tempos antigos, seja da
época dos apóstolos e dos primeiros mártires, seja de alguns séculos depois,
ter-se-ia admirado de que alguém pudesse duvidar do fato, para ele evidente, de
que todos os cristãos são chamados a participar ativamente da missão da
Igreja. O Batismo e a Crisma conferem não somente direitos, mas também deveres
e responsabilidades, vale dizer: uma missão. Essa verdade foi reafirmada
com muita ênfase pelo Concílio Vaticano II.*
2. 3. O testemunho do Novo Testamento
135. Uma atenção maior aos textos do Novo
Testamento ajudar-nos-á a perceber que a missão confiada por Jesus aos Doze e
aos seus discípulos imediatos continua, embora de forma diferenciada, como
missão de todos os discípulos, de todos os cristãos.
136. Mateus, por exemplo, diz que Jesus
confiou sua missão aos discípulos (Mt
28,16) e que esta missão consiste em tornar discípulos todos os povos (Mt
28,19), isto é, ampliar universalmente a comunidade da Igreja em que todos são
irmãos, e na qual não há outro Mestre senão Cristo (23,8). Este promete estar
conosco até o fim dos tempos (Mt 28,20), mesmo onde somente dois ou três
estiverem reunidos em seu nome (Mt 18,20).
137. O poder espiritual é confiado à Igreja
(Mt 18,18), especialmente a Pedro (Mt 16,19) e aos Doze (Mt 28,16-20). O
próprio Pedro não é apenas o depositário de uma missão específica, o ministério
único de Fundamento e de Pastor Universal da Igreja (Mt 16,18-cf. Jo
21,15-17). Ao mesmo tempo é
protótipo do discípulo, modelo que
o cristão deve
ter diante dos
olhos, para imitar na fé (Mt 4,18-20; 16,16), e para evitar
as fraquezas que a
todos ameaçam, tanto
quanto a Pedro
(cf. Mt 14,31; 16,22-23; 26,69-75).
2. 4. Cada qual segundo o próprio dom...
138. Sob outras formas, esta doutrina está
presente em todos os Evangelhos como também nos demais livros do Novo
Testamento. Segundo os Atos dos Apóstolos, o Espírito Santo é doado não somente
aos Doze Apóstolos, mas a todos os discípulos (cf. At 2,1).
Bem
consciente de sua autoridade apostólica, Paulo não só não desconhece, mas
valoriza a responsabilidade de toda a
comunidade, chamada a decidir, julgar, escolher (cf. 1Cor 5,4; 6,3; 11,13; 1Ts
5,21; etc.) e participar ativamente da edificação do corpo de Cristo, cada
qual segundo o próprio dom (1 Cor 12,7). Atesta especialmente a variedade
dos carismas e dos ministérios, com que são edificadas as primeiras
comunidades.
139. Diversidade que não anula a ação de
conjunto, mas, ao contrário, a organiza: Ele (Cristo) é que concedeu a uns ser
apóstolos, a outros profetas, a outros evangelistas, a outros pastores e
mestres, para aperfeiçoar os santos em vista do ministério, para a
edificação do corpo de Cristo, até que alcancemos todos nós a unidade da fé e
do pleno conhecimento do Filho de Deus(Ef 4,11-12).
140. Insistência ainda mais forte sobre a
fraternidade cristã e a responsabilidade comum encontra-se na tradição Joanina
(Evangelho e Cartas de São João, Apocalipse). É a comunidade que examina os
carismas (1Jo 4,1) e vigia contra os falsos mestres (2Jo 10).
141. Doutrina semelhante à de São Paulo se
encontra na tradição de Pedro, como por exemplo no belo texto de 1Pd 4,10:
Todos vós, conforme o dom que cada um recebeu de Deus, consagrai-vos ao serviço
uns dos outros, como bons dispenseiros da multiforme graça de Deus. Se alguém
fala, faça-o como se pronunciasse o oráculo de Deus. Alguém presta um serviço?
Faça-o com a capacidade que Deus lhe concedeu, a fim de que em tudo seja Deus
glorificado por Jesus Cristo, a quem pertencem a glória e o poder pelos séculos
dos séculos. Amém.
2. 5. ... sem discriminações
142. Essa
atitude que valoriza a responsabilidade de todos é confirmada pelo empenho com
que a comunidade cristã luta contra as discriminações.
143. Numa
sociedade cheia de conflitos e injustiças, a Igreja não faz distinção de idade,
de sexo, de nação, nem de classe social. Empenha no seu ministério tanto os
livres como os escravos (1Cor 7,22-23), os judeus como os gregos (Gl 3,28;
6,15), os anciãos (At 15,2; 20,17; 1Tm 5,17) como os jovens (At 5,6; 1Tm 5,1;
1Jo 2,13), os homens como as mulheres.
144. É bem verdade que a tradição judaica
impõe, nas comunidades eclesiais, fortes restrições à mulher, o que levou o
próprio Paulo a buscar soluções de compromisso entre os seus princípios (Gl
3,28; 1Cor 11,5) e a paz na Igreja (1Cor 11,16; 14,34). Paulo, contudo, é
testemunha indiscutível da participação ativa das mulheres cristãs na
evangelização e edificação da Igreja (cf. Rm 16,1-15; 1Cor 16,19; Cl 4,15).
Lucas mostra, como fundamento desta conduta das Igrejas paulinas, a própria
atitude de Jesus para com à mulheres (cf. Lc 8,1-3; 10,38-42). Elas são as
primeiras a anunciarem a Ressurreição (Lc 24,1-11 ).
2. 6. Sacramentos e missão
145. A missão do cristão, suscitada pela
palavra de Deus, é selada pelos sacramentos da Igreja. Pelo batismo, o cristão
é incorporado ao corpo de Cristo (cf. LG 7 e 11). Participa de sua própria
vida, comungando com ele e a ele se conformando. Do mesmo Cristo, pelo
Espírito, brotam dons e ministérios, através dos quais os diversos
membros de seu
corpo (isto é,
nós que formamos a Igreja)
nos prestamos mutuamente
serviço (cf. todo o n° 7 da
"Lumen Gentium").
146. A própria vivência dos sacramentos
revela e desenvolve aquele caráter que está na base do sacerdócio comum
dos fiéis (LG 10-11). Por este
sacerdócio comum, os fiéis concorrem para a oblação da Eucaristia, exercendo-o
na recepção dos sacramentos, na oração e ação de graças, pelo testemunho de uma
vida santa, pela abnegação e pela caridade ativa (LG 10b/28).
147. Pelo dom do Espírito Santo, recebido
em plenitude na Crisma, o povo fiel se torna também capaz de testemunhar e
guardar a verdadeira fé. Por este senso de fé, excitado e sustentado pelo
Espírito Santo da verdade, o Povo de Deus, sob a direção do Sagrado Magistério,
a quem fielmente respeita, não já recebe a palavra dos homens, mas a verdadeira
palavra de Deus (cf. 1Ts 2,13); apega-se indefectivelmente à fé uma vez por
sempre transmitida aos santos (cf. Jd 3); e, com reto juízo, a penetra mais
profundamente, e mais plenamente a aplica na vida (LG 12a/32). Todos os fiéis,
portanto, participam a seu modo da missão do povo cristão na Igreja e no mundo
(LG 31).
2. 7. Conseqüências para as comunidades
148. Uma renovada consciência dessas
verdades, que o Concílio — à luz da Palavra de Deus — nos propõe de novo, pode
ajudar as nossas Igrejas locais a se tornarem, em seus diversos níveis,
verdadeiras comunidades, autênticos lugares de comunhão e participação.
149. É a proposta de Puebla, que convém
explicitar numa perspectiva prática e pedagógica, sob a forma de objetivos
ou metas:
150. a) cuidar que, em suas manifestações,
especialmente na liturgia, e em suas estruturas visíveis, a Igreja se revele
verdadeiramente comunidade fraterna, onde as diferentes funções não escondam a
igual dignidade de todos os fiéis nem desestimulem a participação ativa de todos (cf. LG 32c/80; Puebla 125,
925 etc .);
151. b)
estimular, no interior
das estruturas eclesiais
mais amplas e complexas,
a formação de comunidades
menores, de dimensão
humana, de participação mais direta e
pessoal; empenhar-se para que
as comunidades eclesiais
de base e os
diversos grupos e
movimentos particulares se
articulem ou se integrem
convenientemente na paróquia
e na diocese (cf. Puebla
640-643; 648-650);
152. c) fazer com que todos os fiéis,
diretamente ou através de representantes eleitos, participem quanto possível
não só da execução, mas também do planejamento e das decisões
relativas à vida eclesial e à ação pastoral; para isso podem promover-se
periodicamente assembléias e sínodos do Povo de Deus, devendo-se manter, em
todos os níveis, conselhos pastorais, como recomenda o Concílio (CD 27/108; AA
26/1429-30) e Puebla o reafirma (Puebla 645), inclusive através de explícito
compromisso dos Bispos (Puebla 704);
153 d) oferecer aos fiéis oportunidades
reais tanto de informação sobre os assuntos da vida eclesial quanto da formação
cristã, sem a qual dificilmente poderão participar consciente e
responsavelmente na comunidade. É necessário, portanto, um esforço muito amplo
e constante de evangelização de jovens e adultos, que lhes proporcione o
conhecimento da palavra de Deus a que têm direito pelo Batismo, e que os ajude
a obter discernimento crítico de
que precisam em
face do perigo
de ideologias que tentem
reduzir ou instrumentalizar a fé
(cf. Puebla 98; 1197);
154. e) como corpo vivo, a Igreja necessita
duma opinião pública para alimentar o diálogo entre os seus membros, condição
do progresso no seu pensamento e ação. ... com a ausência da opinião pública,
faltar-lhe-ia qualquer coisa de vital, e a culpa recairia tanto sobre os
Pastores como sobre os leigos (Communio et Progressio, 115);
155. f) ressaltar o caráter de serviço
ao bem comum, que deve caracterizar toda função exercida na Igreja de Cristo,
inclusive a da autoridade (cf. Mc 10,42ss.); ressaltar igualmente o caráter
colegial dos ministérios, evitando as tentações de personalismo e
autoritarismo, que dividem a comunidade em lugar de edificá-la;
156. g) fazer com que a comunidade eclesial
participe do empenho para despertar e promover a disposição em atender à
Vocação de Deus e da Igreja, particularmente ao chamado para a dedicação ao
ministério pastoral ou à consagração religiosa (cf. mais adiante).
3. Diversidade de ministérios
3. 1. ... em vista do bem comum
157. O Espírito Santo santifica e conduz o
Povo de Deus, repartindo seus dons a cada um como lhe apraz (1Cor 12,11). 0
Concílio Vaticano II explicita que as graças do Espírito Santo, mesmo as graças
especiais, são distribuídas entre os fiéis de qualquer condição (leigos,
religiosos ou ministros ordenados), e acrescentando Por elas torna-os aptos e
prontos a tomarem sobre si os vários trabalhos e ofícios, que contribuem para a
renovação e maior incremento da Igreja, segundo estas palavras: A cada um é
dada a manifestação do Espírito para utilidade comum (1Cor 12,7).
Estes
carismas, quer eminentes, quer mais simples e mais amplamente difundidos, devem
ser recebidos com gratidão e consolação, pois que são perfeitamente acomodados
e úteis às necessidades da Igreja (LG 12b/33).
158. No Brasil, nos últimos anos,
assiste-se com alegria à multiplicação desses dons, particularmente dos mais
simples e mais amplamente difundidos. Esses dons existiram sempre.
Recentemente, contudo, graças ao impulso vindo do Concílio e do particular
momento histórico, estão sendo acolhidos com maior consideração e reconhecidos
em seu justo valor. Acima de tudo estão sendo postos a serviço da missão da
Igreja e aceitos pelo que realmente são: autênticos ministétios.*
3. 2. Diversos ministérios
Na
organização atual dos ministérios na Igreja, pode se distinguir:
159. a) serviços prestados
espontânea e temporariamente à comunidade cristã por fiéis movidos pela graça
de Deus ou por dons especiais (carismas) do Espírito Santo. São ministérios em
sentido amplo;
160. b) ministérios confiados a leigos
através de mandato ou simples reconhecimento de fato;
161. c) ministérios instituídos,
estabelecidos pela Carta Apostólica
Ministeria Quedam (15/8 1972), que reforma a disciplina das até então
chamadas ordens menores; para a Igreja Latina, tais ministérios instituídos são
agora somente os de Leitor e Acólito. Nada impede, contudo, que as Conferências
Episcopais solicitem outros ministérios à Sé Apostólica, quando julgarem
necessária ou muito útil sua instituição na própria região; os ministérios
instituídos podem ser conferidos tanto a leigos quanto aos candidatos ao
sacramento da Ordem;
162. d) ministérios ordenados
conferidos pelo sacramento da Ordem, nos seus três graus: diaconato,
presbiterato, episcopado.
3. 3. Espaço para a criatividade
163. 0 Papa Paulo VI escreveu: Vemos uma
legião de pastores, religiosos e leigos, apaixonados pela sua missão
evangelizadora, a procurarem moldes mais adaptados para anunciar eficazmente o
Evangelho; e encorajamos a abertura que, nesta linha e com esta preocupação, a
Igreja demonstra ter alcançado nos dias de hoje. Abertura para a reflexão, em
primeiro lugar, e, depois, abertura para ministérios eclesiais susceptíveis de
rejuvenescer e de reforçar o seu próprio dinamismo evangelizador (EN 73).
164. Nessa perspectiva, há espaço
suficiente para muita criatividade e descoberta de novas formas de
evangelização e organização dos ministérios. Desde já, contudo, à luz das
experiências recentes e das tradições mais constantes da vida da Igreja,
pode-se estabelecer alguns critérios ou diretrizes para o bom desempenho
dos ministérios confiados aos leigos nas Igrejas locais.
3. 4. Critérios para novos ministérios
165. 0 critério fundamental da organização
dos ministérios é que se voltem eles para estimular a vida da comunidade
cristã, com a participação de todos. Pode desdobrar-se nas seguintes
indicações:
166. 1° — os ministérios devem corresponder a uma necessidade
da comunidade eclesial e de sua missão no mundo, especialmente da
evangelização; devem, portanto, brotar da vida da comunidade e de sua
atenção aos problemas concretos, reais, nos quais se percebe um apelo de Deus
para agir.
167. 2º — os ministérios, além de sua função na
construção e vitalização interna da Igreja, devem ser pensados como um serviço
voltado para o mundo, para o anúncio missionário do Evangelho e a
transformação da sociedade.
168. 3º — os ministérios, no seu conjunto,
devem expressar as diversas dimensões de uma comunidade eclesial: nem
somente ministérios litúrgicos, nem apenas serviços voltados para a ação
social; além disso, é necessário que todo ministério tenha uma dimensão
consciente de evangelização e não se reduza a mera execução de tarefas.
169. 4º — os ministérios devem constituir,
também para a pessoa dos seus portadores (os ministros), estímulo de
crescimento na fé e de aprofundamento de sua comunhão fraterna na Igreja;
todavia nunca deve o ministério constituir-se em honraria ou promoção pessoal,
sendo inconcebível — segundo firme tradição teológica — que um ministério esteja
desligado de uma comunidade ou ambiente determinado.
170. 5º — os novos ministérios não devem ser
institucionalizados e enquadrados em normas rígidas, antes de conveniente período
de experiência; por outro lado, a Autoridade competente deve definir claramente
os limites e responsabilidades de todo ministério que implique a
administração de sacramentos, como por exemplo, os ministros extraordinários da
Eucaristia, do Batismo, e as testemunhas qualificadas do Matrimônio.
171. 6º — quando existirem as condições
objetivas (definição de tarefas, necessidades etc.) e subjetivas (idoneidade e
preparação do candidato) para o exercício constante de um ministério,
procure-se dar-lhe reconhecimento público, inclusive através de rito
apropriado; cuidando-se, porém, de não clericalizá-lo.
172. 7° — como condição para confiar-lhe algum
ministério, exija-se do candidato preparação ou treinamento adequado e a
aceitação de submeter-se periodicamente a uma avaliação por parte da
comunidade e daqueles que compartilhem o mesmo ministério.
173. 8º — a comunidade participe na escolha ou
eleição dos ministros, bem como na avaliação de seu trabalho, dentro de um
planejamento orgânico das atividades pastorais.
174. 9º — não se confiem a nenhum ministro
individualmente funções que possam ser assumidas coletiva ou rotativamente por
uma equipe ou, de preferência, pela comunidade inteira. Evite-se todo
monopólio do ministério nas mãos de um só dirigente ou de um pequeno grupo;
procure-se, pelo contrário, multiplicar as formas de participação ativa de
todos e garantir a justa autonomia de decisão dos grupos menores*.
175. 10° — para evitar o perigo do monopólio e
atender melhor às necessidades da comunidade, correspondendo à idoneidade e
disponibilidade dos ministros não ordenados (excluídos os ministérios
instituídos), seu ministério não seja permanente, mas tenha caráter temporário.
176. Não se trata de indicar, de forma
detalhada, qualquer distribuição de tarefas segundo o sexo, idade, condição
social ou cultural*. Apenas se reafirma o princípio de que se deve evitar toda
discriminação e de que os ministérios devem ser confiados a cristãos que,
dotados das qualidades ou carismas adequados, para tanto se revelem idôneos.
Tarefas pastorais ou ministérios poderão também ser confiados, coletivamente, a
um casal, equipe ou grupo dotado de adequada coordenação ou estrutura.
177. Neste contexto, cabe uma palavra
especial sobre os presbíteros que por livre opção e, muitas vezes, não sem
sofrimento e vacilação, pediram à Igreja a redução ao estado laical. Estes por
sua formação espiritual e teológica, pelos anos dedicados ao ministério e à
Igreja, podem e devem pôr seus dons a serviço dos irmãos, dentro de sua nova
condição na Igreja.
178. Especial atenção deve ser dada, em
nossa sociedade, ao exercício do ministério nos meios mais pobres, a fim de que
dificuldades materiais não impeçam a atuação pastoral exatamente onde, muitas
vezes, é maior a riqueza espiritual (cf. Tg 2,5; 2Cor 8,14; Mt 11,25). Em
qualquer caso, a comunidade deve prover o justo sustento de quem se dedicar
integralmente a um ministério pastoral (cf. 1Cor 9,7-14; Mt 10,10; 1Tm
5,17-18).
4. Ministério
presbiteral
4. 1. O sacramento da Ordem
179. Entre os diversos ministérios da
Igreja, sobressai o ministério hierárquico, de instituição divina. Ele é
conferido através do sacramento da Ordem. (Ordem indicava, na sua origem, a
categoria de pessoas que detinham autoridade).
180. Desde os tempos apostólicos, o
ministério hierárquico ou ordenado se diversifica em três graus: diaconato,
presbiterato e episcopado. O diaconato, que por muito tempo foi considerado
apenas um grau de preparação ao presbiterato, após decisão do Concílio Vaticano
II, está renascendo, também entre nós, como um ministério permanente, de origem
apostólica, fruto de uma vocação especial. O episcopado representa a plenitude
da Ordem. O diaconato e o presbiterato, sem perder sua própria fisionomia,
estão relacionados ao episcopado e devem exercer-se em colaboração com ele (cf.
LG 28).
181. 0 ministério dos Bispos, presbíteros e
diáconos é uma participação especial no sacerdócio de Cristo, participação que
difere essencialmente do sacerdócio comum dos fiéis (LG 10). Com efeito, Cristo
— por especial efusão do Espírito no sacramento da Ordem — torna os Apóstolos,
os Bispos e seus colaboradores mais próximos participantes de sua
consagração e missão (LG 28), conferindo-lhes aquela autoridade e poder
sagrado, com que o próprio Cristo
edifica, santifica e governa seu corpo (PO 2). Em outras palavras, com o
Concílio, pode-se dizer que Bispos e presbíteros se configuram com o Cristo
Cabeça e estão a serviço do Cristo, na sua função de Chefe da Igreja.
182. 0 ministério ordenado ou hierárquico,
portanto, deve ser compreendido a partir da própria consagração e missão de
Cristo. Cristo, cuja vida é servir ao Pai e, por amor a este, servir aos
homens, está revestido da autoridade do Pai que não deriva nem dos títulos, nem
das instituições do Antigo Testamento. É profeta, sacerdote e rei, não como os antigos
o eram. É o Verbo de Deus encarnado. Como Pessoa Divina, que assume a condição
histórica humana, une a Deus toda a realidade, a vida e a morte dos homens
(Sacerdote). Tem e pronuncia em sua palavra a eterna Palavra irrevogável do
Pai, que salva (Profeta). Com dedicação sem igual, conduz a todos pelos
caminhos do desígnio do Pai, plenificando sua doação na auto-entrega total
(Pastor-Rei). Em sua autoridade divina, inaugura o Reino escatológico,
constituindo-se Salvador dos que crêem e Juiz dos que não aceitam e não
realizam sua palavra.
4. 2. Missão de
Cristo nos Doze e em seus sucessores
183. A Instituição dos Doze é elemento
constitutivo na fundação da Igreja como sacramento — sinal. Nos Doze e seus
sucessores, está presente, em forma de serviço, a própria autoridade de Cristo,
recebida do Pai. Como o Pai me enviou, assim eu vos envio (Jo 20,21).
184. Após a Páscoa, os Apóstolos irão pelo
mundo pregar o Evangelho da reconciliação, da paz e da nova fraternidade. Sendo
apóstolos, consideram-se embaixadores
em nome de Cristo, sabendo que é Deus mesmo que exorta por seu intermédio (2Cor
5,20; cf. Rm 1,1; 1Cor 1,1; Gl 1,1, etc.).
185. Foram chamados para que ficassem com
ele, mas também para serem enviados para pregar (Mc 3,14). De modo especial e
inconfundível, é a estes apóstolos, e àqueles que depois foram por eles
assumidos no mesmo ministério, que se aplica a palavra incisiva do Senhor: Quem
vos recebe, a mim recebe... Quem vos rejeita a mim rejeita (Mt 10, 40ss e Lc
10,16; cf. Mt 28,18ss).
186. Por mais que se saiba revestido de
autoridade divina, o apóstolo não pode perder a íntima conexão com a tradição
da Igreja ( o que recebi, vos transmiti — 1 Cor 15,3-8), nem sua comunhão com
todo o Colégio Apostólico, cuja unidade é critério decisivo da pregação
autêntica (At 15,7ss.; 9,27; Gl 2,1-7 etc.). Esta missão divina, confiada por
Cristo aos Apóstolos, deverá durar até o fim dos séculos, pois o Evangelho, que
devem transmitir, é para a Igreja o princípio de toda a sua vida através dos
tempos. Por isso os Apóstolos nesta sociedade hierarquicamente organizada
cuidaram de constituir seu sucessores.
187. De fato, não só se rodearam de vários
colaboradores no ministério, mas para que a missão a eles confiada tivesse
continuidade após sua morte, os Apóstolos, quase por testamento, incumbiram
seus cooperadores imediatos de terminar e consolidar a obra por eles começada,
recomendando-lhes que atendessem a toda a grei, na qual o Espírito Santo os
havia colocado para apascentar a Igreja de Deus. Constituíram assim os seus
sucessores e dispuseram que, por morte destes, fosse confiado o seu ministério
a outros homens experimentados..." (LG 20).
188. Cristo continua agindo de modo visível
através de seus ministros consagrados. É ele que, na sucessão apostólica e pela
comunhão hierárquica, guarda e garante a identidade de sua Igreja, edificando-a
em situações históricas, cada vez novas, o Povo de Deus, o seu Corpo, o Templo
do Espírito Santo. Nesta dinâmica missionária para um futuro ainda
desconhecido, é pelo ministério dos Bispos e presbíteros que o Espírito guarda
a Igreja sempre fiel ao Evangelho de Cristo e ao mesmo tempo a conduz pela
aventura da História (cf. PO 1).
189. durante mesmo a vida dos apóstolos.
entre os muitos carismas e serviços, há os que presidem no Senhor (cf. 1Ts
5,12), os que dirigem e admoestam. Na medida em que os Apóstolos já não
acompanham pessoalmente as Igrejas, deixam sucessores estabelecidos nas
comunidades. Neles a semente apostólica, que vem ininterrupta desde o começo (LG
20), permanece sempre na Igreja, através do exercício de sua autoridade, que é
a própria autoridade do Cristo.
190. A autoridade do ministério hierárquico
na Igreja é de outra natureza que o poder humano, social e político. O próprio
Cristo, num contexto em que seus discípulos se mostravam fascinados pelo poder
humano (cf. Mc 9,33— 37; Mt 18,1-5; Lc 9,46-48), fez questão de marcar pela
dimensão de serviço, tanto o objetivo de sua autoridade quanto o seu modo de
exercício.
191. Profundamente significativo também é
que, ao introduzir a narrativa da Última Ceia, onde a tradição cristã viu o
momento da instituição do ministério ordenado, tenha o Evangelista se
preocupado em recordar o preceito incisivo de Jesus: Quanto a vós, o maior
torne-se como o mais jovem, e o que governa como aquele que serve... Pois eu
estou no meio de vós como aquele que serve (Lc 22,26-27).
192. Trata-se, portanto, de uma autoridade
e de um poder que devem ser concebidos e exercidos de modo bem diferente dos
poderes do mundo. Puebla convida as comunidades eclesiais a mostrarem sua
originalidade cristã no exercício deste poder sagrado segundo o espírito do Bom
Pastor (cf. DP 273).
193. É o que Pedro recomenda aos pastores
em sua Primeira Carta: Aos presbíteros que estão entre vós, exorto eu, que sou
presbítero como eles e testemunha dos sofrimentos de Cristo... Apascentai o
rebanho de Deus que vos foi confiado, cuidando dele, não como por coação, mas
de livre vontade como Deus o quer, nem por torpe ganância, mas por devoção, nem
como senhores daqueles que vos couberam por sorte, mas, antes, como modelos do
rebanho (1Pd 5,1-3).
194. Por outro lado, a comunidade cristã
não deve vislumbrar nisso qualquer sinal de desvalorização ou fraqueza do
próprio poder de Cristo presente em seus ministros. Ao contrário, a comunidade
deve ter para com eles toda a abertura e colaboração e um singular amor em
virtude do cargo que exercem (1Ts 5,12).
4. 3. A missão do presbítero
195. Os presbíteros, por sua ordenação
sacramental, se configuram realmente ao Cristo Cabeça e participam de sua
missão. Diz o Santo Padre, o Papa João Paulo II, aos ordenandos do Rio de
Janeiro (n° 4): Com o rito da Sagrada Ordenação sereis introduzidos... em um
novo gênero de vida que vos une ao Cristo com um vínculo original, inefável,
irreversível. Não é um simples título jurídico, não consiste apenas num serviço
prestado à comunidade... Trata-se de uma real e íntima transformação por que
passou vosso organismo sobrenatural por obra de um sinete divino, o caráter,
que vos habilita a agir in persona Christi..., instrumentos vivos de sua ação.
196. Mas, agir in persona Christi, só
poderá realizá-lo autenticamente o presbítero quando orientado para a amizade
pessoal e íntima com o próprio Cristo. Esta amizade é o segredo íntimo do
ministério sacerdotal e deveria ser o motivo mais profundo que animará o padre
a abraçar seu ministério específico e a permanecer-lhe fiel. O diálogo de
Cristo com Pedro no encontro revelador após a ressurreição o demonstra
admiravelmente: Simão Pedro, tu me amas mais do que estes?...
— Sim, Senhor, tu sabes que te amo...
— Apascenta os meus cordeiros. Apascenta
minhas ovelhas (cf. Jo 21,15-18).
197. 0 presbítero é o primeiro
evangelizador, o primeiro catequista em sua comunidade. Nenhuma outra tarefa
pode eximi-lo desta missão sagrada (cf. DP 687). Na verdade o Povo de Deus
reúne-se antes de mais nada pela Palavra do Deus vivo. E é principalmente
através do ministério dos presbíteros, que essa Palavra chega à comunidade
reunida (PO 4; LG 21 e 25). A evangelização é a razão de ser da Igreja e,
portanto, do ministério presbiteral.
198. Os carismas e dons, que o Cristo
suscita pelo Espírito Santo em sua Igreja, fazem parte do tesouro da santidade
do povo de Deus. O presbítero é, em nome de Cristo, servidor da edificação
plena desta multiforme santidade. Deus, que é o único Santo e Santificador,
quis unir a si, como companheiros e colaboradores, os homens que servem
humildemente à obra da santificação. Consagrados por Deus, participantes de
modo especial do sacerdócio de Cristo, (os presbíteros em íntima união com os
Bispos) são ministros d'Aquele que, de modo contínuo, exerce seu ofício
sacerdotal a nosso favor (PO 5).
199. A ação santificadora, exercida pelo
presbítero, atinge sua culminância na celebração dos sacramentos, sobretudo da
Eucaristia. Nisto o papel do sacerdote permanece insubstituível. Existem
tarefas e funções — como o oferecimento do sacrifício eucarístico, o perdão dos
pecados, o ofício do magistério que Cristo quis ligar essencialmente ao
sacerdócio, e nas quais ninguém, sem ter recebido a ordem sagrada, os pode
substituir (João Paulo II, Homilia no Maracanã, n° 6).
200. O presbítero é também, e em muitas
situações, antes de tudo, o pastor. Ele imita a caridade de Cristo no
meio de seu povo. Dele também se deve poder dizer: passou fazendo o bem (At
10,38). Como o Cristo, procura ajudar o povo — muitas vezes parecido com
ovelhas sem pastor (cf. Mt 9,36) — a encontrar seu caminho, guiando-o para a
Verdade e a Vida (cf. Jo 10,10; 14,6). Vive no meio do seu povo, compartilha
sua vida, conhece suas necessidades e anseios. Numa palavra, com a graça de
Cristo, esforça-se por ser o bom pastor que dá a vida pelo rebanho, se preciso
for (Jo 10,15; 13,1).
201. 0 ministério de profeta, sacerdote e
pastor, por sua natureza essencialmente religiosa, especifica e delimita a
dimensão política da atividade dos presbíteros. Essa dimensão política põe-se
em evidência, sobretudo, no contexto de uma opção solidária pelos pobres,
quando os presbíteros, assumindo como Cristo, a situação concreta do povo a que
servem, anunciam o Reino, denunciam o contra-Reino e se empenham na defesa dos
direitos humanos. Ministros que são da unidade, os presbíteros devem
despojar-se de toda ideologia e atividade político-partidária, para terem a
liberdade de, como Cristo, evangelizar o político.
202. 0 presbítero, vitalmente inserido no
Cristo Cabeça, através do exercício de suas funções profética, sacerdotal e
pastoral, gera pela Palavra, pelos Sacramentos e pela Caridade a comunidade
cristã; contribui para desenvolver nela a tríplice dimensão da missão de Cristo
e garante sua unidade. Quando, na união com seu bispo e na comunhão com o
presbitério, o presbítero convoca a comunidade, torna-se sinal visível do
próprio Cristo que se situa face a face aos irmãos para convidá-los a formar
com ele a família de Deus.
203. Esta convocação e esta unidade vital
com Cristo Cabeça, pela mediação do presbítero, realiza-se de forma exemplar e
plena na celebração eucarística, quando o corpo de Cristo é alimentado pelo Pão
da Palavra e pelo Sacrifício do próprio Cristo. Esta importância do sacerdócio
ordenado revela a urgência de uma nova e corajosa Pastoral Vocacional,
sobretudo tendo em vista aquelas numerosas comunidades, cada vez mais
amadurecidas em sua fé, que, por falta de padres, não chegam a celebrar, com a
freqüência desejada, a santa Eucaristia, fonte e ponto culminante de toda vida
cristã (LG 11a), nem contam com a atuação profética e pastoral do presbítero.
4. 4. Espiritualidade do presbítero
204. As reflexões teológicas sobre o
ministério presbiteral, que acabam de ser apresentadas, devem inspirar as
grandes linhas da espiritualidade presbiteral. Com efeito, é no seu ser e na
sua missão de ministro ordenado que o presbítero encontra o fundamento de sua
espiritualidade. Pela união entre missão e espiritualidade, o presbítero
imprime a sua vida uma orientação global que lhe permite interiorizar e
vivenciar de maneira própria os valores evangélicos da vida cristã.
O
Concílio Vaticano II suprimiu a dicotomia entre ação pastoral e vida espiritual
do sacerdote, indicando no próprio exercício da caridade pastoral o vínculo da
perfeição sacerdotal, que leva à unidade de vida e ação (PO 14). A caridade
pastoral torna-se assim a síntese da sua espiritualidade.
205. Para exercer esta caridade pastoral, o
presbítero é atraído pela figura de Cristo pastor e pelo mistério do Pai, que
em Cristo o chama pelo nome e o unge com seu Espírito. Percebe porém, que,
embora chamado pessoalmente, não o é isoladamente. É chamado para integrar a
comunhão do presbitério um grupo de outros discípulos que devem ficar na
companhia do Mestre (Mc 3,14), a quem amam mais que os outros (cf. Jo 21,15).
206. Tornando-se ministros de Cristo
(1Cor 4,1) pela unção do Espírito, procuram identificar-se com ele na busca
constante da vontade do Pai para realizar a missão que lhes é confiada, como
Cristo realizou a missão que o Pai lhe confiou. É a missão de pastores sob o
único Pastor (1Pd 2,15). Procurando fazer sempre o que é do agrado do Pai e do
Filho, os presbíteros nunca ficam sozinhos (Jo 8,29); reúnem-se em nome daquele
(Mt 18,20) que os chamou e se voltam constantemente para aqueles aos quais são
enviados. Não são presbíteros para si, mas para os irmãos. O sacerdote é o
homem da comunidade, ligado de modo total e irrevogável a seu serviço (João
Paulo II, Maracanã, n° 5).
207. Enviados para serem ministros da
Palavra, profetas, não podem exercer a função de Mestre ou de servidor
da Verdade, se não forem antes os ouvintes fiéis, que escutam e acolhem com fé
profunda o Verbo que se revela. Vão proclamar não a sua palavra, mas a
palavra daquele que os chamou e enviou. Crêem o que ouvem e lêem, ensinam o que
crêem, e imitam o que ensinam (cf. LG 28). Não vão anunciar-se a si mesmos, mas
a Boa Nova de Jesus (cf. 2Cor 4,5) que os Apóstolos comunicaram à Igreja, para
assim garantir sua Apostolicidade.
208. Enviados como sacerdotes,
ministros do culto e dos sacramentos, imitando o que realizam, buscam a glória
de Deus e a própria santificação juntamente com a santificação de seus fiéis,
particularmente na Eucaristia, fonte e coroa de toda a evangelização (PO 5). A
celebração do sacrifício de Cristo assume sua plena significação quando não
oferecem somente pão e vinho como matéria do sacrifício, mas a fé viva de uma
comunidade que pode, juntamente com Cristo e com seus ministros, dizer de
verdade: Eis-me aqui! Eu vim, ó Deus, para fazer a tua vontade" (Hb 10,5).
209. Na Eucaristia, portanto, os sacerdotes
encontram a plenitude de seu sacerdócio e a unidade perfeita entre sua doação
pessoal e sua missão pastoral. A celebração cotidiana da Eucaristia será o
núcleo fundamental de sua vida espiritual. Os presbíteros prolongarão em todo
tempo, em união com o Povo de Deus e em seu nome, sua ação de graças a Deus
Pai, por Nosso Senhor Jesus Cristo, recitando salmos, hinos e cânticos
espirituais no Ofício das Horas, para cantar e celebrar o Senhor de todo o
coração (cf. Ef 5,19-20).
210. Enviados para serem pastores, ministros
da caridade, procuram, a exemplo do Bom Pastor, passar a vida fazendo o bem aos
irmãos, doando-Ihes a própria vida. Neste contexto de oblatividade pastoral
deve-se entender o sentido do celibato presbiteral. Os sacerdotes, mantendo
indiviso o próprio coração, pelo celibato, podem mais facilmente
servir a Deus e d edicar-se pelas
ovelhas de modo a serem, num sentido
mais pleno, promotores da
evangelização e da
unidade da Igreja
(Sínodo 1971, n° 78).
211. O bem dos homens é a lei suprema da
caridade pastoral. Esta lei os levará a partilharem a mesma condição dos irmãos
(cf. Hb 2,14-18) e exigirá deles que se engajem criticamente na promoção do bem
comum e na luta pela libertação humana como exigências do Reino de Deus a que
servem, promovendo o novo tipo de relacionamento entre as pessoas, entre os
filhos de Deus, todos irmãos (Mt 23,8-12), como Jesus proclamou. Não poderiam
ser ministros de Cristo se não fossem testemunhas e dispensadores de uma vida
diferente da terrena e nem poderiam servir aos homens, se permanecessem alheios
à vida e às situações dos mesmos (PO 3).
212. Missão tão exigente não será possível
se os presbíteros não trabalharem sempre unidos com os Bispos na comunhão
fraterna do presbitério. Na abertura a esta comunhão, sua personalidade
crescerá para uma maturidade que os tornará capazes de superar as próprias
fraquezas, fazendo delas instrumentos da graça e do poder de Deus (cf. 2Cor 12,
9-10).
213. Reconhecendo-se servos inúteis (Lc
17,10) seguirão a Cristo no seu aniquilamento (Fl 2,7) não se envergonhando de
dar testemunho do Senhor, sofrendo pelo Evangelho, confiando no poder de Deus
que não lhes deu um espírito de medo, mas um Espírito de força, de amor e de
domínio de si, reavivando continuamente o dom que Deus neles depositou pela
imposição das mãos (2Tm 1,6-8).
214. Arautos do Evangelho que faz
resplandecer a vida e a imortalidade (2Tm 1,10-11), os presbíteros, pela
palavra e pela celebração, já tornam presente neste mundo, ainda marcado pela
dor e pela morte, a vitória final da ressurreição de Cristo (1Cor 15,24-28).
Sua fidelidade pastoral e íntima consagração a Cristo pelo celibato o tornam
sinal eloqüente desta esperança escatológica da Igreja.
215. Se o celibato é vivido no espírito do
Evangelho, na oração e na vigilância, com pobreza, alegria, desapego das honras
e amor fraterno, então ele é um sinal que não pode ficar escondido por muito
tempo, mas que eficazmente proclama Cristo aos homens. Hoje, efetivamente, as
palavras são tomadas em pouco apreço, mas um testemunho de vida, que patenteia
o caráter radical do Evangelho, esse tem o condão de arrastar fortemente
(Sínodo 1971, nº 73). A vida celibatária, vivida na alegria, torna-se para os
jovens, vítimas das fáceis seduções do hedonismo, revelação dos valores
transcendentes e convite ao ideal do amor oblativo na castidade, e para os
casais, no meio das crises e provações que ameaçam a estabilidade matrimonial,
um estímulo à fidelidade permanente. A plena realização de uma personalidade
não depende tanto do casamento ou celibato, como da vivência dos valores da
oblatividade, vividos no contexto da interação familiar e social em que
normalmente se realiza a complementação geral das personalidades masculina e
feminina.
5. Pastoral das
vocações
5. 1. Chamado de Deus na Igreja
216. Desde suas origens apostólicas, a
Igreja sempre entendeu que os diversos ministérios eclesiais devem ser
confiados àqueles que Deus escolheu e chamou (cf. At 1,24; 13,2; 20,28;
1Cor 12,28; 2Tm 1,6 etc.).
217. De outro lado, os Apóstolos e seus
sucessores se consideraram sempre na obrigação de organizar o ministério
na Igreja, com a participação da comunidade conforme as necessidades concretas
de que vinham tomando consciência (cf. At 6,1-6; 15,40; 16,3; 1Cor 16,3; 2Cor
8,19.23; 1Tm 4,14; 2Tm 2,2 etc.).
218. Em outras palavras, pode e deve-se
falar de uma vocação ao ministério, entendida como chamado de Deus que
se exprime de dois modos distintos e convergentes: um interior, o da graça, o
do Espírito Santo...; e o outro exterior, humano, sensível, social, jurídico,
concreto, o do ministro qualificado, o do Apóstolo, o da hierarquia (Papa Paulo
VI; cf. PO 11, nota 66).
219. Pode-se dizer que, segundo o Novo Testamento, deve ser escolhido para o
ministério somente quem de Deus recebeu a graça ou carisma para desempenhar a
função que a Igreja lhe confia. Cabe à comunidade eclesial, presidida pelo
Bispo, discernir esse carisma ou
julgar de sua
autenticidade (cf. 1Ts 5,19-21; LG 12b/33; OT 2c/1288.)*
5. 2. Dimensão
dialogal da vocação
220. Faz parte da convicção da Igreja,
desde o Novo Testamento até hoje, que Deus não deixa sua casa sem
administradores, seu rebanho sem pastor, sua Igreja sem ministros. Deus não
prescinde contudo da participação de nossa liberdade, que pode confirmar ou
frustrar o plano de Deus.
221. Por sua própria natureza a vocação é
dialogal. É um apelo, em que Deus oferece sua graça e procura suscitar uma
resposta. Quem é chamado não perde sua liberdade, mas de certo modo com sua
participação pessoal configura a própria vocação, pela mediação de sua
experiência de fé e de sua capacidade de discernir, junto com a comunidade
eclesial, as formas concretas que deve assumir sua missão de serviço à Igreja e
à História dos homens.
222. Por isso, a vocação é um dom que não
só a pessoa, mas toda a comunidade deve buscar no diálogo com Deus, na
oração, como ensinou Jesus (cf. Mt 9,38; Lc 10,2). É um dom que não só precisa
ser acolhido, mas também desenvolvido (cf. Mt 25,14-30;Jo 10,12-13; 1Tm
3,1-10).
223. A acolhida do chamado de Deus e o
desenvolvimento das aptidões dos vocacionados exige atenta disponibilidade e
generoso empenho de toda a Igreja: Bispos, padres, comunidades paroquiais e de
base, famílias, jovens... Esse cuidado ou pastoral das vocações deve ser
orientado por alguns princípios teológicos, dos quais decorrem as diretrizes
práticas.
5. 3. A vocação cristã e vocações específicas
224. A palavra vocação é usada, hoje, não
só para indicar o chamado a uma função especial na Igreja, a vocação ao
ministério sacerdotal ou a um particular estado de vida, vocação religiosa.
Emprega-se também para designar a vocação cristã comum de todo batizado.
225. 0 Novo Testamento indica os cristãos
simplesmente como os chamados, isto é,
vocacionados (cf. Rm 8,28; 1Cor 1,2; Jd 1). 0 próprio nome da Igreja
(ek-klesia) significa convocação. O Concílio Vaticano II revalorizou a vocação
cristã comum (cf. especialmente o n° 32 da Lumen Gentium).
Eis alguns traços:
• a
vocação cristã é
vocação à santidade
(LG 32b/80; LG 40/101-102);
• a perfeição da caridade;
• a
vocação cristã é
vocação à comunhão
com Deus (GS 18b/251; GS
19a/252);
• a vocação cristã é vocação à comunhão
fraterna dos homens em Cristo (GS 32/300; LG 3);
• a vocação cristã é vocação ao apostolado
(AA 2/1334), participação na missão salvífica da Igreja (LG 33b/83).
226. Esta vocação cristã comum é, por assim
dizer, a base de toda vocação especial. Não se pode conceber uma vocação cristã
específica que não tenha como fundamento e como primeiro impulso a vocação
cristã comum.
227. A vocação religiosa é uma
radicalização da vocação cristã e, por isso, constitui também um sinal que pode
e deve atrair eficazmente todos os membros da Igreja para o cumprimento
dedicado dos deveres impostos pela vocação cristã (LG 44c/119).
228. A vocação sacerdotal ou o ministério
hierárquico acrescentam um título especial à vocação universal à santidade (cf.
PO 12/1181), que os vocacionados receberam com a graça do Batismo. Mas a
vocação ao sacerdócio ministerial não enfraquece, antes reforça a fraternidade
que une Bispos e padres a todos os fiéis (cf. LG 32d/81; PO 9/1169), a cujo
serviço são chamados. A vocação ministerial exalta, santifica e serve à vocação
cristã comum.
229. Essa conexão profunda, entre vocação
cristã comum e vocações específicas, fundamenta uma primeira
diretriz básica da Pastoral Vocacional; para promover as vocações ao ministério
e às diversas formas de consagração religiosa, deve-se, antes de tudo,
intensificar a vida cristã (cf. OT 2/1286).
5. 4. Cultivo das vocações
230. Um dos sinais e, ao mesmo tempo, dos
meios que alimentam a vida cristã, é a oração. Lembrados de que as
vocações são um dom de Deus, um chamado que brota do seu plano de amor e de sua
vontade de salvação, todo cristão e toda comunidade inserirá permanentemente em
sua oração a súplica pelas vocações de que a comunidade eclesial precisa (OT
2d/1289; cf. Mt 9,38; Lc 10,2). Como diz Puebla: A vocação é a resposta de Deus
providente à comunidade orante (Puebla 882).
231. A oração é também o terreno
onde a vocação desabrocha. Esta se revela no diálogo da pessoa com Deus. Também
a fidelidade ao chamado supõe uma progressiva experiência de oração.
Especialmente os jovens devem ser conduzidos a essa experiência pelos ambientes
privilegiados da vida cristã: a família e as diversas comunidades eclesiais.
232. A família não goza apenas de
prioridade cronológica, como lugar onde a vida cristã geralmente se inicia. É o
fundamento da vida humana e cristã (cf. GS 52b/365; AA 11d/1373). Por isso, o
Concílio atribui extrema importância a seu papel na educação cristã (LG 11b/30;
AA 11b/1371; GE 3a/1506) e, especificamente, no incentivo das
vocações sacerdotais e
religiosas (GS 52a/364; AG
13b/924; OT 2/ 1286; LG 11b/30). O
Santo Padre João
Paulo II retomou este
último texto do
Concílio (OT 2: a família
como primeiro seminário) em seu
encontro com os vocacionados (Porto Alegre, 5.7.1980) apresentando outras
vezes a família como
celeiro de vocações (cf. Pronunciamentos do Papa no
Brasil, 4,3; 27,9).
233. A família, contudo, é hoje muito
condicionada e, às vezes, agredida por influências externas, que lhe dificultam
a missão. Precisa, pois, mais do que nunca, receber o apoio de movimentos e
instituições que a ajudem. Grupos e movimentos comunitários têm de sua
parte um papel próprio e autônomo na educação da juventude. Entre suas tarefas,
destaca-se particularmente a orientação vocacional. De fato, muitas vocações
sacerdotais e religiosas surgem nos movimentos de jovens.
234. Também a paróquia tem grande
responsabilidade na pastoral da juventude e no cultivo das vocações,
principalmente se conseguir tornar-se aquela casa de família, fraternal e acolhedora,
onde os batizados e os confirmados tomam consciência de ser Povo de Deus (DCG
67; cf. João Paulo 11, Homilia em Porto Alegre, 4.7.1980, n° 4/22).
235. Para tanto precisa a paróquia
articular-se em pequenas comunidades ou
comunidades eclesiais de base (CEBs). Elas possibilitam um
relacionamento pessoal muito maior, o anúncio e vivência do Evangelho mais
próximos da vida cotidiana, a partilha das alegrias e angústias dos irmãos, o
engajamento mais consciente e efetivo no apostolado e no serviço do mundo (cf.
Puebla 629). Por isso, as comunidades de base tornam-se um lugar especialmente
favorável ao florescimento das vocações ministeriais (cf. Puebla 850, 867), sob
a condição de se manterem abertas às dimensões maiores da comunidade eclesial e
de sua missão no mundo. O mesmo se deve dizer dos grupos e movimentos que atuam
nas paróquias urbanas.
236. O
atual florescimento de
novos ministérios manifesta
uma renovação eclesial em profundidade, impulsionada pelo Concílio.
Constitui-se um sinal
dos tempos, que
exige acolhida e atenção,
numa oportunidade para
uma renovação profunda, um
salto qualitativo da
pastoral vocacional. Na medida
em que os fiéis passarem
da condição de massa, objeto de cura pastoral, para a
condição de sujeitos conscientes e ativos numa comunidade engajada
evangelicamente, também as vocações de especial consagração e disponibilidade
para o ministério presbiteral se tornarão muito mais numerosas,
proporcionalmente ao revigoramento da comunidade cristã. É o que também espera
o Santo Padre: As vocações ao
sacerdócio hão de ser sinal da maturidade das comunidades; e hão de
manifestar-se também como conseqüência da floração dos ministérios confiados aos
leigos e de uma oportuna
pastoral familiar (João Paulo
II, Aos Bispos do CELAM, Rio de Janeiro, 12,60).
5. 5. Especial atenção às vocações sacerdotais
237. A
comunidade cristã oferece
espaço e condições de desenvolvimento para outras
vocações, principalmente as vocações de especial consagração na vida
religiosa e no mundo (cf. PC 24/1280; LG 47/127). Assim a comunidade cristã
acolhe a ação do Espírito Santo (cf. LG 12b/33) e manifesta a liberdade cristã
(Gl 5,1; cf. PO 6b/1156) e a diversidade de dons com que Deus santifica a sua
Igreja (cf. LG 41/103ss.; GS 92/516; etc.).
238. As vocações ao ministério presbiteral,
porém, exigem atenção especialíssima
(João Paulo II, Aos Bispos do CELAM, Rio de Janeiro, 12,60). Muitas
comunidades sentem, em sua carne, a grande falta de presbíteros. No entanto,
essa necessidade não deve levar a que
se facilite a admissão ao presbiterato de candidatos não idôneos nem
preparados. Mais uma vez, é preciso repetir que o ministério hierárquico não é
honraria nem gosto pessoal, mas um serviço a prestar quando Deus o pedir
através da Igreja local e de seu Bispo.
239. Em resumo, a pastoral vocacional tem
duas perspectivas necessárias e complementares:
— de um lado, a pastoral das vocações sacerdotais
é um aspecto do esforço mais amplo da pastoral orgânica, que visa a
tornar as comunidades cristãos co-responsáveis e dotadas da variedade de
ministérios que expressam as multiformes facetas da missão da Igreja e a
riqueza dos dons do Espírito;
240. — de
outro lado, a Pastoral Vocacional é uma ação específica, devidamente
planejada e organizada, para propor o ideal da vocação sacerdotal ou ministério
presbiteral, oferecendo aos vocacionados uma ajuda para compreender e acolher
este chamado e para desenvolver suas aptidões.
241. Nisso tudo, tem papel indispensável e
relevante o testemunho pessoal dos Bispos e dos presbíteros. Através da pessoa
dos ministros e de sua vida, outros descobrem o que é a vocação e o ministério
do padre. O testemunho da alegria e da convicção será, sem dúvida, eficaz, como
também o testemunho da perseverança e da coragem com que o padre luta contra
dificuldades externas e fraquezas pessoais. O testemunho sempre requer a
disposição para a conversão, na busca sincera de fidelidade ao ideal.
III - PARTE
PISTAS PARA A AÇÃO
Introdução
242. A visão da realidade e a reflexão
teológica devem levar à ação pastoral concreta. Todas as comunidades são
convocadas a um esforço generoso no sentido de colocarem o melhor de suas
forças a serviço de uma pastoral capaz de dar à Igreja os ministros necessários
para a obra da evangelização.
243. Esta terceira parte apresenta uma série de
propostas concretas referentes aos três principais campos em que se desdobra o
tema:
— Pastoral vocacional
— Formação dos futuros presbíteros
— Vida e ministério dos atuais presbíteros.
1. Pastoral
vocacional
1. 1. Diretrizes gerais
244.
A Pastoral Vocacional seja feita a partir da visão da Igreja como um povo de
servidores, dentro do pluralismo das vocações, ministérios e carismas. A
animação vocacional deve brotar das comunidades, como responsabilidade de
todos, e se dirigir a todas as categorias da Igreja: leigos, religiosos,
diáconos, presbíteros, Bispos. É neste contexto que a vocação específica ao
sacerdócio deve ser apresentada, enfatizada em todo seu significado e
importância.
245.
Assim, esta vocação está situada na comunidade viva da Igreja, possibilitando
um serviço de total disponibilidade ao povo de Deus, numa opção livre pela
consagração no celibato por causa do Reino de Deus. Tal vocação exige o
testemunho de vida sacerdotal e o interesse de todos os presbíteros e até mesmo
dos seminaristas para o despertar e para o acompanhamento das vocações.
246.
A Pastoral vocacional deve ser encarnada na realidade, e por isso mesmo
deve se diversificar, adequando-se à peculiaridade das situações e às
necessidades concretas da Igreja local, das comunidades e do povo. Deve se
acentuar que tanto o apelo interior de Deus quanto o chamado oficial da Igreja,
atendendo às necessidades do povo, são elementos constitutivos da vocação.
247.
A Pastoral Vocacional deve ter índole universal. Deve, portanto, não só
animar todos os ministérios e serviços da Igreja, mas ainda evitar a exclusão
de categorias de pessoas, de raças, ou de certas regiões do país.
248.
A Pastoral Vocacional deve ter caráter pioneiro, buscando superar a
omissão e o pecado na comunidade, denunciando corajosamente os contravalores
presentes no Reino, enquanto anuncia os valores da boa nova e abre aos jovens
uma perspectiva pessoal de realização na construção do homem e da humanidade
nova, segundo o Evangelho de Jesus Cristo.
249.
A Pastoral Vocacional deve levar em conta as características próprias do povo
brasileiro para superar a atual dificuldade de se conseguirem vocações
autóctones. Isso exige um sério exame de consciência para corajosa criatividade
e busca de novos encaminhamentos que superem a atual situação de dependência de
outras nações.
1. 2. Atividades gerais
250.
A Pastoral Vocacional, obediente ao mandato do Senhor, procure incentivar, em
todos os níveis e ambientes de Igreja, um crescente clima de oração pelas
vocações em geral, e particularmente pelas de especial consagração, pedindo ao
Senhor da messe que envie operários para a sua messe.
251.
Cuide-se de formar a consciência dos fiéis a respeito de sua responsabilidade
pelas vocações sacerdotais, suscitando neles apoio moral, financeiro e o
engajamento apostólico direto na pastoral vocacional .
252.
A Pastoral Vocacional deve se integrar na pastoral de conjunto, como elemento
essencial, vinculando-se organicamente à Pastoral de Juventude que, segundo a
opção de Puebla, deve se constituir em linha prioritária do trabalho
evangelizador. Essa orientação deve atingir todas as áreas da Pastoral tais
como a Pastoral da Família, grupos e movimentos de adultos, cursos de noivos,
catecumenato batismal e crismal, a catequese de crianças e adolescentes, tanto
na escola como nas comunidades.
253.
Motive-se a Pastoral Vocacional com o exemplo de inumeráveis sacerdotes que, em
abnegada e silenciosa dedicação, imolam a sua vida por amor a Cristo na
formação e atendimento das comunidades cristãs. Divulgue-se ainda o testemunho
de Bispos, sacerdotes, religiosos e leigos que sofreram ou sofrem ainda
perseguições e martírio pela causa do Reino a serviço do povo, constituindo-se
assim, a exemplo de Cristo crucificado, em modelo de vida e em ideais vivos
para os nossos jovens.
254.
A Pastoral Vocacional valorize a decisão vocacional como um serviço aos irmãos
e não como ascensão social ou busca de uma posição privilegiada na sociedade e
na Igreja, corrigindo assim, nas famílias e nos jovens, a visão burguesa e
individualista da vida humana.
255.
0 trabalho de formação e promoção dos jovens vocacionados, dentro ou fora dos
seminários ou comunidades de formação, seja estruturado e coordenado de maneira
mais orgânica, em todos os níveis, favorecendo a integração de forças e
recursos, garantindo melhores processos de promoção, seleção e cultivo de
vocações, bem como o melhor preparo de formadores e agentes de Pastoral
Vocacional.
256.
A Pastoral Vocacional seja confiada a equipes especializadas atuando nos
diversos níveis e setores de trabalho, constituídas por sacerdotes, religiosos,
leigos e jovens de ambos os sexos, espelhando a responsabilidade de uma Igreja
que caminha como um povo de servidores.
1. 3. Propostas em nível nacional
257.
Elabore-se um Guia Pedagógico para o trabalho vocacional em âmbito nacional,
bem como outros subsídios de apoio às iniciativas de Pastoral Vocacional dos
Regionais e Dioceses.
258.
0 ano de 1983 seja o ANO VOCACIONAL para todo o Brasil, e que todas as
campanhas de nível nacional, diocesano e paroquial sirvam de conscientização e
formação de vocações.
259.
0 mês de AGOSTO seja assumido, em todo o território nacional, como o MÊS
VOCACIONAL, e a Linha 1 dos Organismos Nacionais de Pastoral da CNBB, através
do setor de vocações e seminários, coloque em comum as diversas iniciativas dos
Regionais e Dioceses.
260.
Aproveitem-se todos os momentos fortes da vida da Igreja, como festas
litúrgicas, visitas pastorais, etc., para a mentalização vocacional do povo.
1. 4. Propostas em nível regional
261.
Criem-se, nos Regionais, Centros ou programas de Formação de Agentes de
Pastoral Vocacional e Pastoral de Juventude, que através de cursos, encontros e
outras modalidades de assessoria, capacitem os agentes a realizarem com
eficiência sua missão.
262.
Cada Regional tenha um setor coordenado por um Bispo, integrado por
representantes das Equipes Diocesanas, encarregado de animar, planejar e
revisar as atividades vocacionais do Regional.
263.
0 setor Regional responsável assuma as propostas vindas do Nacional,
articulando-as nas suas Dioceses e, ao mesmo tempo, remeta ao Nacional as suas
próprias contribuições. Mantenha um intercâmbio com os demais Regionais,
objetivando um enriquecimento mútuo.
264.
Utilizem-se todos os MCS existentes na região (rádio, TV, jornais, revistas,
boletins, etc.), para uma exata divulgação das mensagens e atividades
vocacionais.
1. 5. Propostas em nível diocesano
265.
Cada Diocese tenha a sua Equipe Vocacional composta de padres diocesanos,
representantes de Congregações Religiosas masculinas e femininas, leigos, e
jovens que, sob a orientação do Bispo, coordene e anime a Pastoral Vocacional.
266.
A Equipe Diocesana seja liderada por um Sacerdote suficientemente liberado para
assessorar os colegas, os agentes e as equipes existentes na Diocese. Tal
liderança seja desempenhada através do testemunho alegre de uma pessoa feliz e
realizada na sua vocação.
267.
A Diocese, enquanto possível, tenha um CENTRO VOCACIONAL, com os recursos
humanos e materiais necessários, mediante os quais os jovens, rapazes e moças
recebam informação, orientação e acompanhamento no desabrochar de sua vocação.
268.
Incentive-se o acompanhamento vocacional de adolescentes, jovens e adultos,
quanto à oração, vida fraterna e ação apostólica, tendo em vista o
discernimento para uma vocação específica, utilizando-se diversos meios, tais
como encontros, retiros, jornadas, etc...
269.
Promova-se a criação de Grupos de Opção de Vida, Clubes Vocacionais nas
paróquias e comunidades e apoiem-se novas experiências nos campos da Promoção
Vocacional e da Formação.
270.
A comunidade assuma, como responsabilidade sua, a formação dos candidatos ao
sacerdócio e à vida religiosa, sejam eles externos ou internos. Os pais tenham
uma participação especial na formação e acompanhamento de seus filhos
vocacionados .
271.
A promoção vocacional não seja limitada ao horizonte da própria diocese, mas
tenha a dimensão da Igreja universal. Portanto, como exercício da colegialidade
efetiva, crie-se na Igreja local um ESPÍRITO MISSIONÁRIO capaz de suscitar
vocações missionárias.
272.
Os Movimentos ou Grupos de Leigos que se dedicam à Pastoral Vocacional sejam
orientados no sentido de:
— estimular os padres na sua vocação;
— apoiar os vocacionados integralmente;
— promover a conscientização vocacional inclusive
através dos Meios de Comunicação Social.
273.
O Seminário Diocesano, dada a sua importância, deve ser assumido por todas as
forças vivas da Diocese, a começar pelo Presbitério, os movimentos vocacionais,
as Congregações Religiosas, as paróquias e as comunidades.
2. Formação dos futuros presbíteros
2. 1. O Seminário
274.
Desde o momento em que a vocação ao ministério sacerdotal se manifesta de modo
claro e suficientemente amadurecido, é necessário não apenas conservá-la
passivamente, mas oferecer-lhe ambiente e meios para se desenvolver
adequadamente. Este ambiente próprio para o cultivo da vocação e o
desenvolvimento sistemático das capacidades do formando é o seminário.
275.
0 seminário não deve ser concebido como um ambiente fechado sobre si mesmo, mas
como a instituição que sustenta e orienta o processo pedagógico de
discernimento e formação enraizado na comunidade eclesial mais ampla.
276.
Este processo pedagógico compreende diversos componentes: formação humana,
espiritual, pastoral, intelectual. Cuide-se especialmente do equilíbrio e da
integração entre os diversos aspectos da formação.
277.
0 seminário deve ser uma prioridade da Diocese. Ele supõe e exige,
imprescindivelmente, a presença e a dedicação de educadores competentes.
278.
Devem-se procurar todos os meios para que o presbitério e as comunidades
eclesiais se sintam efetivamente co-responsáveis pela formação dos futuros
padres.
279.
A comunidade eclesial procure dar aos seminaristas o que houver de melhor em
matéria de formação. Para conseguir tal resultado, será oportuno:
280.
— organizar a vida do seminário em pequenas comunidades dentro ou fora do
prédio principal, desde que haja a presença permanente de um sacerdote
formador;
281.
— concentrar os estudos filosófico-teológicos em Institutos, mantidos em
colaboração por diversas Dioceses e ou Congregações Religiosas;
282.
— estabelecer diretrizes e normas que, observadas e urgidas em clima de
comunhão e participação, propiciem um ambiente global favorável à formação
sacerdotal.
283.
Na seleção para o seminário tome-se como critério importante o conjunto das
qualidades humanas e cristãs dos próprios candidatos.
284.
Para aceitação no seminário maior recomenda-se um período prévio de preparação
e de acompanhamento dos candidatos. Este período poderia transformar-se num Ano
Propedêutico, voltado para o aprimoramento da formação humana e espiritual do
candidato. A formação intelectual, neste período, poderia incluir temas ou
disciplinas como: Português, Latim, Introdução à Bíblia, Introdução ao Mistério
de Cristo, História da Igreja, Espiritualidade.
285.
0 candidato ao seminário maior deve:
— encontrar-se num processo normal de
amadurecimento humano;
— estar vivendo uma profunda experiência de
fé, no seguimento de Jesus Cristo;
— estar inserido e comprometido com uma
comunidade cristã;
— ter espírito apostólico;
— ter consciência de ter sido escolhido por
Deus para um ministério especial.
286.
Cada Diocese ou Congregação, dentro de suas condições particulares e de seu
plano de Pastoral Vocacional, deve procurar oferecer possibilidades de formação
sistemática aos candidatos antes do ingresso no Seminário Maior, através de
Comunidades Vocacionais ou Seminários Menores, ou outras modalidades de
acompanhamento especialmente no segundo grau.
287.
Antes da admissão de um candidato ao seminário, o Reitor procure ouvir sua
comunidade de origem.
288.
Antes de acolher um seminarista egresso ou transferido de outro seminário, o
Reitor procure um diálogo com os educadores da instituição de origem e exija
uma carta de apresentação do bispo ou superior.
2. 2. Os formadores
289.
Constata-se a dificuldade de encontrar um número adequado de formadores para
nossos seminários. São dignos de reconhecimento os educadores que já estão
empenhados neste trabalho. Faz-se um apelo a todos os que tem dons e capacidade
a assumirem esta missão com empenho e generosidade.
290.
As Congregações Religiosas colaborem com pessoal especializado também na
formação dos seminaristas diocesanos. As Dioceses mais dotadas de pessoal
colaborem com aqueles que tem menos recursos humanos, podendo a CNBB atuar como
mediadora nessa entreajuda.
291.
Os formadores dos seminários sejam escolhidos entre os padres que têm ampla e
diversificada experiência pastoral, mas sejam liberados das tarefas que possam
dificultar sua missão principal.
292.
Os professores, em razão de sua influência na formação, tenham, além de sua
competência específica, um profundo espírito eclesial.
293.
0 bispo pessoalmente deve manter um contato muito estreito e freqüente com o
seminário, acompanhando constantemente a formação dos futuros padres de seu
presbitério.
294.
Os formadores procurem trabalhar em equipe, dando um efetivo testemunho daquela
comunhão que todo presbítero deve encontrar no seu presbitério.
295.
A CNBB promova cursos ou estágios para formadores em nível regional e/ou
nacional.
2. 3. Formação espiritual
296.
A formação espiritual do futuro presbítero tem como meta conformá-lo
progressivamente à pessoa de Jesus Cristo em seu mistério pascal, onde se
manifesta a plena intimidade com o Pai e o perfeito assumir da humanidade.
297.
Sua espiritualidade, à semelhança de Jesus de Nazaré, deve encarnar-se na vida
concreta do povo, identificando-se com suas causas à luz do plano de Deus.
298.
0 seminarista, em sua formação, deve aprofundar cada vez mais as dimensões que
caracterizam o presbítero-homem de Deus para os homens e homem dos homens para
Deus.
299.
A oração ocupará na vida o lugar privilegiado que lhe compete. O seminarista
seja iniciado e acompanhado nos diversos métodos de oração que a tradição
cristã tem consagrado a fim de que possa encontrar a sua maneira pessoal e
original de rezar. Desta forma, poderá tornar-se mestre da oração.
300.
O seminarista, sobretudo no curso teológico, procure com a devida freqüência a
ajuda de seu Diretor Espiritual, mantendo com ele um relacionamento sincero e
filial.
301.
A Liturgia, assumindo a vida concreta do povo, nas celebrações da Igreja local
e da própria comunidade do seminário seja o mais importante na vida espiritual
do seminarista. A Eucaristia esteja no centro de sua vida que, ao mesmo tempo,
dará especial atenção ao sacramento da Penitência.
302.
Cultive o seminarista filial amor à Virgem Maria, a quem Cristo, o Sumo
Sacerdote ao morrer na cruz entregou o discípulo como filho. Que este amor se
traduza em formas concretas de piedade mariana.
303.
A dimensão de abertura e de solicitude para com o irmão deve distinguir a
formação do seminarista. Sua vida se caracterize pela fraternidade concreta e
afetiva através de um estilo de vida comunitária que possibilite a participação
na organização da casa, do trabalho, e até da partilha dos bens materiais e
espirituais. Desta forma, ele será ajudado a libertar-se do individualismo
consumista.
304.
Cuidem os formadores, com especial atenção, da preparação para a vida
celibatária. Pois deve confessar-se que o celibato, como dom de Deus, não pode
ser observado, se o candidato não for para isso convenientemente preparado.
Assim, importa que desde o princípio os candidatos atendam às razões positivas
que há, para escolherem o celibato, sem se deixarem impressionar por objeções,
cuja acumulação e contínua pressão constituem, prevalentemente, indício de que um
valor originário foi posto em sério perigo (Sínodo 1971, n° 84). Amizade
profunda a Cristo, devoção mariana, zelo apostólico absorvente, junto a uma
convivência comunitária positiva e uma abertura confiante aos responsáveis pela
formação ajudarão os seminaristas a assumir o estilo celibatário de vida, de
uma forma construtiva e plenificante.
305.
Como meios de grande eficácia para a formação, sejam cultivados os valores
permanentes do silêncio, da disciplina e da renúncia, alegremente assumidos.
2. 4. Formação pastoral
306.
Todo o estudo e a formação devem ter uma profunda marca pastoral, pois visam à
formação de pastores do povo de Deus.
307.
Todo seminarista deve estar engajado num trabalho pastoral fora do seminário e não
apenas executar tarefas pastorais. Num determinado período, acompanhe a
caminhada da comunidade, participando ativamente dela. Através deste
engajamento, com a ajuda do seminário, ele deve:
— aprender a integrar teoria e prática;
— crescer no compromisso pessoal e na
caridade pastoral;
— abrir-se mais à comunhão com a comunidade
dos fiéis e o Presbitério.
308.
Para que a integração teoria-prática seja viável, o seminarista deve ter acesso
a uma boa preparação teórica-filosófica, teológica, litúrgica, catequética,
etc. e crítica. As atividades pastorais devem ser planejadas, acompanhadas e
revisadas.
309.
A formação pastoral no seminário identifique-se com as opções pastorais da
Igreja na América Latina e articule-se com a ação pastoral da Igreja local,
corresponsável pela formação dos seminaristas .
310.
A formação pastoral esteja integrada com a formação espiritual. O engajamento
pastoral seja uma das dimensões fundamentais da espiritualidade do futuro
pastor.
311.
Os reitores de seminários, com o apoio do INP, e da OSIB, devem estudar mais a
fundo a formação pastoral e elaborar, para uso dos seminários e dos institutos,
subsídios adequados à realidade brasileira.
312.
Ninguém seja ordenado presbítero se não tiver feito uma experiência pastoral positiva.
313.
Igualmente, ninguém seja ordenado presbítero sem que antes sejam consultados os
respectivos formadores sobre a maturidade humano-cristã do candidato e seu
autêntico compromisso com o Povo de Deus no espírito de Jesus Cristo. Ouça-se
também o parecer da comunidade em que ele vive e atua.
314.
A formação intelectual dos futuros presbíteros, que deve primar pelo rigor
científico, se faça sempre na mais plena fidelidade à doutrina da Igreja. Neste
particular, reveste-se de grande importância o emprego de pedagogia adequada a
inteligências ainda não suficientemente formadas.
2. 5. Formação intelectual
315.
Os Reitores de seminários e Diretores de institutos procurem estudar
conjuntamente novos aperfeiçoamentos do currículo filosófico-teológico,
visando:
— maior organicidade dos programas em função
dos temas centrais da teologia e do pensamento filosófico contemporâneo;
— metodologia mais ligada à realidade
pastoral;
— melhoria qualitativa do ensino e da
aprendizagem .
316.
Apóie-se a realização do cadastro de professores de teologia e filosofia e, a
partir dele, apresentem-se ao Episcopado sugestões de medidas que favoreçam a
preparação de novos professores e a distribuição mais racional dos professores
atuais, bem como a atualização e a melhoria de suas condições de trabalho.
317.
Estudem-se as necessidades e as experiências no campo da formação teológica dos
candidatos adultos, com experiência pastoral e profissional, que mais
dificilmente se enquadram nos moldes da formação filosófico-teológica
acadêmica.
318.
Prepare-se para exame de uma próxima Assembléia Geral da CNBB, a revisão das
Diretrizes Básicas da formação sacerdotal (RATI0).
3. Vida e ministério do presbítero
3. 1. Espiritualidade
319.
Empenhe-se o Presbitério Diocesano na criação de um forte clima de
espiritualidade, que transpareça constantemente na prática da oração pessoal e
na celebração da vida nos sacramentos. Em todas as suas promoções, procure o
Presbitério criar espaço para a oração individual e litúrgica. A concelebração
eucarística é a expressão suprema da vida espiritual do Bispo com seus
presbíteros.
320.
Os grupos de vida, constituídos livremente pelos presbíteros, constituem grande
ajuda fraterna para o sustento de sua vida espiritual, especialmente pela
revisão de vida e a oração em comum.
321.
O Conselho Presbiteral dedique-se a organizar para todo o Presbitério promoções
tais como retiros, cursos de espiritualidade, manhãs ou dias de oração. O
retiro seja realmente tempo de silêncio interior, contemplação e aprofundamento
da própria vida e ministério à luz do mistério de Cristo. Em cada Diocese haja
um local apropriado, aberto a todo presbítero que possa procurá-lo para uma
experiência de silêncio e oração.
322.
Promovam-se, quando conveniente, retiros interdiocesanos. Os Regionais
divulguem as principais promoções das várias Dioceses e centros de
espiritualidade.
323.
A celebração da Eucaristia e a oração do ofício constituem tempos diários
fortes da espiritualidade presbiteral. Serão mais ricos quando realizados com
toda a comunidade ou com pequenos grupos de leigos.
324.
Todo presbítero seja mestre de oração em sua comunidade. Conheça as
espiritualidades antigas e novas e se dedique à orientação dos agentes de
pastoral e dos grupos.
325.
Os Carismas de pregador de retiros, de confessor e orientador espiritual dos
irmãos padres sejam cultivados como dons importantes no exercício do ministério
presbiteral. Os presbíteros aceitem generosamente colocá-los a serviço dos
irmãos, do próprio Presbitério e dos Presbitérios de outras Igrejas
particulares.
3. 2. Vida e comunhão
326.
A comunhão de vida e de serviço ministerial seja cuidado fundamental e empenho
constante do Bispo e de todos os presbíteros.
327.
Para realizá-la é preciso, antes de tudo, criar um clima de fraternidade,
abertura e diálogo, fruto menos da organização que da disponibilidade e
generosidade pessoais. Buscando a vida fraterna, o Bispo e os presbíteros se
visitem com freqüência para momentos de convivência informal.
328.
Seja preocupação de todos que ninguém viva isolado. A convivência deve ser
buscada num esforço constante de luta contra o individualismo. Os novos
presbíteros sejam acolhidos com carinho e recebam o apoio de que necessitam. Os
presbíteros em situações pessoais difíceis encontrem, da parte do Presbitério,
os meios de que necessitam para superá-las. Especial atenção se dê aos padres
idosos e enfermos.
329.
A convivência de todos os presbíteros, tanto diocesanos quanto religiosos, crie
condições para o exercício da plena co-responsabilidade ministerial dentro da
Igreja particular. A Diocese organize suas estruturas internas (Vicariatos,
zonais, foranias ou setores) e estruture os organismos correspondentes,
sobretudo os Conselhos Presbiteral e Pastoral.
330.
Promovam-se periodicamente reuniões gerais e setoriais do Presbitério, para
convivência, reflexão e encaminhamentos pastorais. A criação de uma pastoral
orgânica é a expressão maior da co-responsabilidade intra-eclesial.
Integrando-se nela, cada presbítero encontrará um excelente meio de valorização
e segurança em seu ministério.
331.
0 exercício da co-responsabilidade seja efetivo, incluindo a participação nas
decisões. Em especial, o preenchimento de cargos seja feito sempre com a
participação dos presbíteros, tendo em vista suas aptidões pessoais.
332.
Por outro lado, cada presbítero se disponha com desapego e generosidade a mudar
de cargo ou lugar, lembrando que é co-responsável pelo ministério pastoral de
toda a Igreja diocesana.
333.
Sendo o trabalho fator fundamental de realização plena da pessoa humana e de
construção da sociedade, valorize-se plenamente o trabalho ministerial do
presbítero e se torne preocupação de todo presbitério, no sentido de que todos
se sintam realizados no que fazem. O trabalho pastoral amplo, organizado,
diversificado, na Igreja Particular, será elemento fortemente realizador dos
presbíteros e dos seminaristas, desistimulando a profissionalização que priva o
Povo de Deus de ministros em tempo integral e, freqüentemente, afasta o
presbítero de sua missão específica.
334.
Sejam sempre mais incentivadas entre os presbíteros as formas comunitárias de
vida, moradia e trabalho. Valorizem-se as equipes sacerdotais, abertas, porém,
à convivência fraterna com os leigos. Sobretudo quando forçado a viver
distanciado dos colegas, o presbítero encontrará na comunidade cristã seu
ambiente de vida e o apoio de que necessita. Os leigos, por sua vez,
dispondo-se a essa convivência saibam que prestam grande auxílio a seus irmãos
presbíteros .
335.
Vivam os sacerdotes diariamente encarnados no sofrimento, nas aspirações, na
oração e em toda a caminhada do povo. Evitem, em seu modo de viver e em seus
relacionamentos, todo privilégio e todo fechamento que os possam distanciar da
comunidade e do povo. Conheçam em profundidade o problema ecumênico e com sua
atitude e seus gestos concretos — na celebração, no relacionamento diário e na
pastoral, principalmente no serviço aos pobres e oprimidos — sejam para a
comunidade um exemplo e um estímulo de ecumenismo sincero.
336.
0 lazer e as férias são necessidade de todos. Para atender a isso, os
presbíteros devem dispor-se à ajuda fraterna e a substituições nas tarefas
pastorais.
337.
Valorizem-se a CRC (Comissão Regional do Clero) e a CNC (Comissão Nacional do
Clero), levando todos os presbíteros a participarem, a seu modo, da eleição de
seus representantes, acompanhando e apoiando-lhes o trabalho, em nível regional
e nacional.
3. 3. A sustentação
econômica
338.
Na vivência da simplicidade e austeridade evangélicas e de acordo com a opção
preferencial pelos pobres, cada Presbitério deve assumir o problema da
sustentação econômica dos seus membros. Por seu lado, cada presbítero, neste
mesmo espírito de pobreza, mantenha claramente distintas a administração dos
bens da comunidade paroquial e a de seus bens pessoais.
339.
Busquem-se formas concretas de uma sustentação mais eqüitativa para todos os
presbíteros. Devem ser constantemente incentivadas as iniciativas de caixa
comum, associação ou fraternidade sacerdotal, partilha de bens e entreajuda
entre paróquias e comunidades. Cuidado especial devem merecer as condições de
saúde e velhice. As Dioceses procurem criar fundos ou realizar convênios que
supram deficiências da Previdência Social.
340.
0 patrimônio das Dioceses seja colocado sobretudo a serviço da pastoral e das
paróquias e comunidades mais pobres.
341.
Haja, em cada Diocese, uma comissão especial que cuide da organização do
sistema de sustentação dos presbíteros.
342.
Recomenda-se com renovado vigor a implantação do sistema do Dízimo, que exige
uma atitude fraterna e co-responsável de todos. A responsabilidade principal
cabe às paróquias mais ricas e bem dotadas economicamente.
343.
As Dioceses façam chegar à CNBB suas experiências positivas referentes à
sustentação dos ministros, para que possam ser divulgadas.
3. 4. Formação permanente
344.
A preocupação com a formação pastoral, espiritual e teológica permanente dos
presbíteros seja assumida como um dos principais deveres do Presbitério.
345.
As Dioceses procurem motivar todos os presbíteros para o processo de renovação
e atualização. Haja um trabalho de conscientização constante, sobretudo junto
àqueles presbíteros mais acomodados e resistentes às exigências de uma pastoral
renovada. Promovam-se, nas Dioceses, cursos e dias de estudos sistemáticos
sobre problemas teológico-pastorais oportunamente abertos para outros agentes
de pastoral. Examine-se seriamente a conveniência da criação de uma biblioteca
para uso do Presbitério.
346.
Em nível regional, organizem-se cursos mais longos para a atualização
presbiteral. Para estes cursos os Regionais contem com o apoio e assessoria da
CNBB e CNC.
347.
A fim de contar permanentemente com elementos mais capacitados dentro do
próprio Presbitério, a Diocese possibilite a especialização de alguns de seus
presbíteros.
348.
Seja dada a oportunidade aos presbíteros de freqüentar cursos de atualização,
mesmo privando temporariamente a comunidade de seu serviço.
349. Valorizem-se as revistas
teológico-pastorais existentes, solicitando que atendam mais diretamente às
necessidades do ministério pastoral dos presbíteros. Estude-se a possibilidade
da publicação de uma nova revista especializada para isto ou da edição de uma
separata especial, em alguma das revistas existentes.
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Fonte: Conferência
Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB
Web site: www.cnbb.org.br