CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL
PASTORAL DA EUCARISTIA - SUBSÍDIOS
Documento
Aprovado
pela
Comissão Episcopal de Pastoral
3
de setembro de 1974
APRESENTAÇÃO
A Comissão Episcopal de Pastoral da
Conferência Nacional dos Bispos do Brasil entrega o presente Documento às
Dioceses brasileiras como contribuição para ajudar a celebração do Ano
Eucarístico, cuja abertura será solenemente proclamada no próximo dia 24 de
novembro durante a assembléia Geral do Episcopado, e aberto em todas as igrejas
do Brasil no dia 1º de dezembro, 1º Domingo do Advento. O texto, de lenta
elaboração, poderá ainda vir a ter sua autoridade robustecida pela aprovação do
Episcopado Nacional .
Logo que a XII Assembléia Geral deliberou
sobre a realização, em 1975, de um Ano Eucarístico, preocupou-se a Comissão
Nacional de Liturgia em trazer à celebração do mesmo sua colaboração
específica. Durante o ano de 1972 foi preparado um ante-projeto, mais tarde
estudado e reelaborado durante um Encontro de reflexão, em dezembro do mesmo
ano. O projeto foi a seguir impresso com o título de "Orientações
pastorais sobre a Eucaristia" e amplamente distribuído para receber
emendas e sugestões. Todas as emendas que chegaram à Comissão Nacional de
Liturgia foram colocadas em fichas, e cuidadosamente ponderadas uma a uma.
Especial atenção mereceram as emendas enviadas pelos Srs. Bispos.
Desta revisão saiu o trabalho original
bastante modificado e melhorado. A Comissão Episcopal de Pastoral, então, o
examinou, considerando também especialmente as emendas dos Srs. Bispos,
estudadas uma a uma, e, dando-lhe sua aprovação, mandou que fosse publicado
como documento da Comissão e sob sua responsabilidade.
Considerando, porém, que um Documento desta
natureza ganharia em autoridade se viesse a merecer a aprovação de todo o
Episcopado, em assembléia Geral, a Comissão Representativa, no dia 2 de
setembro corrente, houve por bem fosse o Documento publicado sob a
responsabilidade da Comissão Episcopal de Pastoral — visto ser indispensável a
publicação imediata para que não perca a oportunidade em face da data de
abertura do Ano Eucarístico — incluindo-o no entanto na pauta de assuntos da
assembléia Geral. No caso de aprovação pela Assembléia Geral, será publicado em
segunda edição, com a autoridade do Episcopado, com inclusão das emendas
eventualmente introduzidas.
Caso a próxima Assembléia Geral aprove o
Documento, já preparado, sobre Pastoral da Confirmação, a segunda edição da
"Pastoral da Eucaristia" sairia com este e com o Documento já
aprovado sobre Pastoral do Batismo. Teríamos assim, num único volume, três
importantes documentos sobre a Pastoral dos Sacramentos da Iniciação Cristã.
Este pequeno livro, preparado com muito amor
pelos que nele colaboraram, é oferecido aos Agentes da Pastoral como precioso
instrumento para aprofundamento da vivência eucarística em nossa terra.
Espera-se também que exerça benéfica influência saneadora nos ambientes em que,
por falta de compreensão da Liturgia, impera uma rotina que dificulta a participação
desejada pela Santa Igreja, ou surgem desvios que, além de quebrar a comunhão
eclesial, atentam contra as estruturas da própria Liturgia.
Rio de
Janeiro, 3 de setembro de 1974
Festa de São
Gregório Magno
CLEMENTE JOSÉ CARLOS ISNARD OBS
Presidente da Comissão Nacional de Liturgia
CAPÍTULO
I
CONSTITUIÇÃO DA ASSEMBLÉIA EUCARÍSTICA
1.1 Povo de Deus, vivendo no
Espírito Santo
"De toda e qualquer nação, são
agradáveis a Deus aqueles que o respeitam e praticam o que é justo" (At
10,35). No entanto, um povo foi constituído e historicamente educado para que
servisse ao Senhor em santidade.
Para isso o próprio Deus se manifestou e foi
reconhecido através dos acontecimentos da História, até chegar o tempo da
plenitude, em que o pacto de amizade estreita entre Deus e os homens se
efetivou no Filho que veio, como homem, para reconquistar os filhos dos homens
e reconduzi-los para o Pai (cf. LG 9).
Jesus de Nazaré, "entregue por nossos
pecados e tornado Senhor para nossa salvação" (Rm 4,25), é constituído
Cabeça do povo messiânico. Este povo, habitado e movido pelo Espírito Santo,
tem a missão de difundir o anúncio do Reino de Deus e, vivendo no mesmo
Espírito, é chamado a concretizar já aqui na terra a comunhão de vida, na
caridade, na verdade e na justiça, tornando-se assim sinal e instrumento da
salvação universal do mundo (cf. LG 9).
O Senhor Jesus bem conhece a condição
peregrina da Igreja que avança em direção à cidade futura e permanente (Hb
13,14); por isso envia o seu Espírito Educador das consciências e a cumula de
meios aptos para que realize esta união visível e social, convocando e
constituindo todos os seus seguidores como Povo, Igreja, Sacramento da unidade
salvífica (cf. S. Cipriano, Epíst. 69,6 — PL 31, 142).
Entre os maravilhosos meios de crescimento
na unidade com que Cristo dotou sua Igreja, destacamos a Eucaristia sacramento
de sua ação salvífica, presença do Cristo glorificado que continua convocando
seu povo pela Palavra e alimentando-o na caminhada com seu Corpo e seu Sangue,
oferecidos pela redenção de todos que se unem à sua paixão e morte (Rm 8,1; Col
1,2; 2Tm 2,11-12; 1Pd 4,3).
É neste sentido que deve ser entendido o
sinal do pão e do vinho: "Eu recebi do Senhor, o que também vos transmiti:
Que o Senhor Jesus, na noite em que foi traído, tomou o pão e tendo agradecido
a Deus, partiu-o e disse: 'Isto é o meu corpo, que é dado por vós; fazei isso
em minha memória. Toda vez que comerdes deste pão e beberdes deste cálice,
anunciais a morte do Senhor até que ele venha' " (1Cor 11,23-26).
É preciso pois que, ao celebrar a
Eucaristia, a comunidade reconheça nos SINAIS o anúncio da morte e proclame a
Ressurreição, para que esta seja feita em memória do Senhor.
1. 2 Assembléia, reunião dos
convocados
1.2.1 Nos
escritos da Antiga Aliança o termo EKKLESIA, corrente na literatura grega,
designa a assembléia do povo, convocada regularmente pela autoridade
competente, a fim de tomar decisões ou ratificar as propostas feitas pela autoridade.
O judeu sabia que sua assembléia, convocada
pela palavra de Javé, devia tornar-se fonte de união, e que a salvação um
dia se manifestaria sob a forma de um vasto assembleamento do povo.
1.2.2 Só
uma evangelização que anuncie a Palavra e faça com que os cristãos descubram
nela a razão de se reunirem, poderá fundamentar a assembléia eclesial e
distingui-la das demais reuniões com os mais variados objetivos.
1.2.3 O
Vaticano II reafirma que "aprouve a Deus santificar e salvar os homens não
isoladamente, com exclusão de toda relação mútua, mas em povo que o reconhece
na verdade para servi-lo santamente" (GS 32; cf. LG 9).
Os profetas (Jer 10, 21; Ez 34, 5-6)
reprovam os que reúnem o povo e que, ao invés de lograrem mais união, fomentem
a dispersão e separação ou o iludem com ritos vazios.
1.2.4 Deus
revelou suficientemente seu desígnio de salvar todos os homens para que
a assembléia não se reduza a uma reunião de perfeitos (Ez 34, 13; 20,
34-38.41). No entanto um ponto permanece essencial: sem iniciação à fé, a
assembléia — mesmo sendo reunião cultual — fica reduzida ao nível das
Assembléias humanas; mais divide e ilude do que constrói. Somente à luz
destes princípios a assembléia local se reunirá no Espírito e poderá se tornar,
ao nível do sinal, anúncio e preparação da assembléia universal. Nem fechamento
em elites perfeitas, nem multidão inconsciente em sua fé realiza uma assembléia
congregada em nome do Senhor.
1.3 Diversificação de Assembléias
1.3.1 O
fato pastoral
Na atual situação da Igreja, verificam-se
vários tipos de Assembléias, dos mais diferentes níveis de consciência cristã
conforme as circunstâncias que os levam a se reunirem. A Eucaristia, como
sacramento da unidade, não terá pois significação se não houver um real
esforço e atenção para a constituição da assembléia.
Não podemos considerar que a carência de
iniciação justifique uma atitude drástica como seria a de fechar as portas às
pessoas não iniciadas. Faltar-nos-iam, aliás, critérios suficientes para tanto.
Mas sabemos também que o sacramento da Eucaristia tem exigências quanto à
constituição da assembléia; exigências essas que estão a urgir uma
pedagogia inspirada no amor e na misericórdia, capaz de conduzir à conversão e
maior possibilidade de penetração nos sinais que, à luz da fé, são entendidos
pela Igreja como atualização do mistério do Cristo morto-ressuscitado.
Para que uma assembléia tenha condições de
realizar os sinais do mistério, entender na fé a significação dos mesmos e
compromissar-se com suas exigências, é necessário que se distingam os
diferentes tipos de assembléia, com suas características peculiares.
1.3.2 Caracterização
das Assembléias
1.3.2.1 As
assembléias de freqüentadores assíduos das missas dominicais devem ser
mais claramente convocadas pela Palavra, isto é, que sua fé, purificada na
evangelização, seja o motivo de sua presença na comunidade dos irmãos, para que
se tornem capazes de perceber a significação dos ritos comuns. Com efeito, nas
nossas assembléias dominicais, há pessoas que, levadas por motivação
evangélica, participam comunitariamente da Eucaristia e são comprometidas
na comunidade.
Há, porém, pessoas que estão presentes por sentimentos
religiosos estranhos à fé evangélica (sincretismo religioso) ou que
assistem à celebração eucarística como mero ato de piedade individual. Essas
pessoas, ao invés de se sentirem chamadas a maior vivência do mistério pascal
que os sinais tornam presente, emprestam-lhes um significado que não
corresponde ao que a Igreja entende e pretende ao fazê-los. Assistem e até
realizam a mesma cerimônia, dando-lhe porém, uma interpretação que não se
fundamenta no ensinamento de Jesus de Nazaré e da Igreja.
Há também os que são trazidos à celebração
por motivos os mais variados, como sejam costume, dever familiar,
social... pressão moral do preceito (medo) e similares. Estes manifestam mais
uma atitude de espectadores do que real desejo de participação. Apesar de certa
assiduidade, nunca chegam a se comprometerem com a comunidade cristã e não se
esclarecem nem aprofundam a própria fé.
Neste caso, um tanto ambíguo com relação à
Eucaristia, o presidente é liturgo com os primeiros; deve, porém,
fazer-se catequista (mistagogo) para os segundos e missionário para os
últimos, corre assim o risco de não atender a ninguém. Cabe, pois, ao
celebrante e à equipe de celebração identificar a assembléia, distinguir as
diferentes necessidades e procurar celebrar de tal forma, que cada qual se
sinta atingido e motivado a participar de modo mais consciente. O testemunho
da equipe de celebração, especialmente do presidente, é que exercerá real influência
educadora sobre a comunidade, sem com isto dispensar outras iniciativas.
A Eucaristia, mistério da fé, supõe
normalmente uma ekklesia, reunião de iniciados, capazes de se congregarem
explicitamente para a celebração do sacramento da Unidade, porque guiados pela
Palavra que revela o desígnio de Deus aos que se reúnem para ouvi-la.
1.3.2.2 Nas
reuniões de assembléias ocasionais (missas de defuntos, casamentos,
festas patronais etc.) a liturgia da palavra seja realçada e tome cunho
nitidamente missionário. Deve-se ter em vista mover à integração numa
comunidade que persevere na instrução da fé, a fim de possibilitar
iniciação adequada e oportuna conversão evangélica.
N.B. Devido às características próprias de
tais reuniões não se pode simplesmente tomar o formulário próprio do dia
proposto para os que freqüentam habitualmente a assembléia. É urgente que se
providenciem subsídios catequéticos, e mesmo FORMULÁRIOS PARA
CELEBRAÇÕES mais adequados ao nível cultural e de iniciação dos participantes,
não raro a maioria deles é de pessoas que só têm contato com a Igreja nestas
ocasiões especiais.
Reconhecendo que em situações semelhantes a
Igreja é procurada mais para atender a uma necessidade religiosa ou por causa
do relacionamento social, do que pelo desejo de participar regularmente na vida
da comunidade cristã, será preciso ter presente que o efeito da celebração
depende de:
— um
contato e um acolhimento humanos que façam as pessoas perceberem que a
Igreja está alerta e atenta a todos os feitos e acontecimentos da vida do
homem. Evite-se, pois, toda aparência de rigor e exigências que mais afastam do
que atraem;
— um
cuidado especial na preparação da celebração a fim de que se sintam à
vontade, possam captar a mensagem oportuna à ocasião e assim conservem boa
lembrança deste contato com a Igreja;
— uma
participação ativa, solicitando-se para isso a colaboração na própria
celebração (por ex.: confiando-lhes as leituras, preces, orientando as atitudes
a serem tomadas durante a celebração etc.) .
1.4 Pedagogia e ação pastoral
A História nos ensina pistas para o
restabelecimento de uma assembléia em que a Eucaristia retome sua plena
significação de "Manifestação da Igreja", de "Sinal de
Unidade", de "sacramento para iniciados". Para isto não será
suficiente inovar ritos (retocar, inventar ou seguir livros novos), será
necessária uma autêntica renovação aculturada, para que os ritos sejam
redescobertos em sua significação profunda.
É pastoralmente urgente superar a situação
de uma Eucaristia colocada para pessoas que se "reúnem dispersamente"
com suposta iniciação, que a fraca participação "ativa, consciente e
frutuosa" (SC) na ação litúrgica vem contradizer.
1.4.1 Com
efeito, as comunidades eclesiais que estão se formando por um processo
mais apurado de iniciação evangelizadora em grupos de base, se
constituem em assembléias onde a coesão da fraternidade oferece melhores
condições de uma liturgia viva, capaz de unir rito e vida, sinal e realidade de
união. A unanimidade na fé e no amor, fundada no mútuo conhecimento e na
recíproca ajuda, faz perceber que a reunião foi convocada pela Palavra.
O progresso da conversão permite uma assembléia em oração, com
participação mais frutuosa graças ao engajamento vivencial e ao crescimento na
Fé evangélica que provoca.
É evidente que tais assembléias darão nova
vida aos ritos conforme suas necessidades culturais e seu nível de
crescimento na fé. Para que os acontecimentos da vida cotidiana possam ocupar
lugar explícito nas celebrações, sente-se a necessidade de criar algo que
expresse melhor a integração vital no mistério de Cristo; chega-se não raro à
conclusão de que é necessário adaptar os ritos propostos que se mostram
insuficientes. Diante de iniciativas neste terreno, mera atitude de repressão
poderá conduzir tais grupos a agirem à margem da disciplina vigente, com
conseqüente prejuízo para a unidade eclesial; por outro lado, a falta de
fundamentação histórico-teológica de certos dirigentes (presbíteros ou outros)
faz com que algumas celebrações da Eucaristia se afastem não apenas das formas
oficiais elaboradas para grande público, mas também da unidade eclesial da
liturgia.
Diante destes fatos, é urgente que se dê
especial atenção pastoral às celebrações que correspondam às necessidades
de tais grupos e lhes permitam uma
expressão autêntica da fé, no estágio em que se encontram e com modalidades
adaptadas à cultura e formação dos mesmos. Para isso deve-se procurar manter a
unidade da liturgia da Igreja com a diversificação das formas, em consonância
com o espírito de criatividade que tradicionalmente constitui a riqueza da
liturgia e tão sabiamente preconizado pelos documentos conciliares e
subseqüentes.
N.B. Cf. Instrução sobre missas para grupos
particulares, Doc. 19 Prot. 77/69; Encontro dos Presidentes e Secretários das
CNL dos países Latino-Americanos — CELAM, Departamento de Liturgia, Medellin,
1972; Documento dos Presbíteros, CNBB 1969, p. 213, proposição 1. 7 que obteve
maciça votação: "Que se promova uma corajosa aculturação litúrgica",
Diretório das missas com crianças, S. Congr. para o culto divino, 1º de
novembro de 1973, instrução actio pastoralis de 15 de maio de 1969 da S. Congr.
para o culto divino. Estes documentos são aplicação prática dos números 37-40
da Constituição "Sacrosanctum Concilium".
1.4.2 Celebrações
com grupos e comunidades paroquiais
O reexame das dimensões da Eucaristia das
Basílicas ou Matrizes, ainda hoje em vigor, e suas influências sobre o ritual
do culto, levar-nos-ia a uma nítida revalorização das celebrações em pequenas
comunidades, sem com isso negligenciar a significação das Assembléias mais
representativas da universalidade da Igreja, nem ceder à tentação de fazer
eucaristias para público socialmente reunido, mas não congregado em nome do
Senhor (cf. EM 25-27). A História nos
ensina que foi essa passagem da Eucaristia comunitária (simplicidade
doméstica — em dimensões familiares e fraternas) para as celebrações diante
de um povo convertido em massa e sem a devida iniciação que levou, pouco a
pouco, entre outros motivos culturais, a substituir o altar (uma verdadeira
mesa de refeições onde todos tomavam parte) pelo trono que distancia o
sacerdote do povo, adotando uma série de etiquetas inspiradas nos protocolos da
corte imperial (genuflexões, inclinações, gestos, vestimentas etc.) .
A conseqüência foi a progressiva falta de
participação do povo nas celebrações litúrgicas, apesar de estarem assistindo
às cerimônias. Essa situação chegou a ponto de fazer com que o Concílio do
Latrão IV, na Idade Média (1215), impusesse a obrigação de comungar ao menos
uma vez por ano, pela Páscoa da Ressurreição.
Para que haja progressiva integração entre
as celebrações em pequenos grupos e maior autenticidade nas celebrações em
ambientes mais abertos a público numeroso (igrejas paroquiais etc.), é
necessário que se aprofundem os princípios gerais para a catequese sobre o
mistério Eucarístico e as normas sobre a celebração do Memorial do Senhor
conforme a Instrução sobre o culto Eucarístico (EM nn. 5-30).
1.4.2.1 As
Assembléias de CENTROS URBANOS, bem como as celebrações de lugares de
convergência turística, exigem especial atenção pastoral por constituírem um
fenômeno típico da era das comunicações.
De fato, a facilidade de locomoção e o teor
de vida das grandes cidades aumentam as dificuldades de reunir-se de modo
assíduo num mesmo local e até mesmo de se constituírem comunidades estáveis de
pessoas. A mobilidade produz o fenômeno dos TRANSEUNTES em nossas Assembléias
de centros urbanos e faz com que as Assembléias reúnam pessoas sem grande
relacionamento humano, máxime nos locais de turismo (hotéis de veraneio,
balneários, cidades turísticas ...).
Diante deste fato, é necessário que a
pastoral prepare a comunidade e a faça tomar consciência do dever cristão da
hospitalidade aos irmãos na fé que vêm se unir a ela na celebração.
O acolhimento e a integração dos
transeuntes, a disponibilidade destes para se comunicarem com os membros da
comunidade local, são condições indispensáveis para uma autêntica liturgia
comunitária. Não se pode supor "comunidade" e começar a celebração
sem levar em conta esta realidade.
Iniciativas neste sentido devem ser tomadas
para que a assembléia seja realmente sinal de unidade e não apenas uma reunião
de pessoas justapostas e isoladas.
1.4.2.2 Quanto
à celebração com grupos de famílias, pessoas de relacionamento ambiental ou
comunidades de base, a experiência tem mostrado sua eficácia. No entanto, o
perigo de se constituírem em "guetos" ou igrejinhas isoladas,
perdendo assim o contato com o povo de Deus, também é real.
Por outro lado, o Concílio tem insistido
sobre a significação da assembléia paroquial (SC nº 42) e sua força de
expressividade representativa da Igreja.
A encíclica "Eucharisticum
mystérium" já fala da celebração com tais grupos, especialmente durante a
semana (EM 17; cf. Diretório das missas com crianças nº 20).
Portanto, fiéis ao pensamento da Igreja, é
preciso que os grupos tomem consciência de sua missão em vista da renovação
litúrgica nas assembléias paroquiais e fundamentem seu "não fechamento
grupista", na significação eclesial das Assembléias mais representativas
das diferentes categorias de que a Igreja se compõe na realidade.
A presença, nas grandes Assembléias, de
grupos que tiveram a oportunidade de fazer experiências de liturgia mais viva e
comunicativa, sua identificação como grupo e a solicitação para servirem a
comunidade, será um testemunho de verdadeira fé que torna os cristãos
conscientes, ativos no serviço de acolhimento e animação dos demais irmãos.
Apesar de numerosa, a assembléia evitará o perigo — aliás muito comum — de ser
uma massa anônima, graças ao relacionamento pessoal no interior dos grupos e ao
entrosamento dos grupos na constituição de uma assembléia comunitária.
1.4.3 Celebração
doméstica da Eucaristia
A consciência do caráter tipicamente
doméstico que a Eucaristia conservou desde a Ceia no Cenáculo até a metade do
século III (quando as casas cedidas para a "Ecclesia" dos irmãos
começaram a se tornar propriedade da comunidade que se encarregou de
administrá-las e ampliá-las conforme suas necessidades) deveria fazer com que
se desse particular atenção pastoral a tais celebrações.
O aprofundamento do mistério eucarístico e
sua exigência essencial de comunidade, hierarquicamente ordenada, levará
a uma pastoral que vise prioritariamente à constituição da Igreja em níveis
diversos de realização (Igreja doméstica, grupos de evangelização,
diaconias, paróquias e finalmente diocesana presidida pelo bispo) com os
ministérios respectivos para que cresça uma efetiva unidade que se origina do
mesmo pão partido entre os irmãos.
O costume de celebrar cotidianamente só na
matriz priva da participação eucarística muitas pessoas que se acham impedidas
porque os horários não se ajustam aos seus compromissos. Razões pastorais estão
a exigir que se reconsidere o atendimento quase exclusivo dos templos e se
revejam os horários, atendendo a complexidade da vida moderna, para que se vê ao
encontro dos fiéis, a fim de evangelizá-los e com eles celebrar a fé.
Neste sentido, os documentos da Sé Romana
encorajam as celebrações eucarísticas com grupos, em suas próprias casas, em
dias e horários que mais favoreçam a participação dos membros das famílias.
N.B. Cf. EM 17; De Sacra
Communione et de cultu mysterii eucharistici
extra missom Nº 16 e 18; Diretório das missas com
crianças N.º 25. Encontro dos presidentes e secretários das CNL, Medellin,
1972.
Procure-se, no entanto, evitar que as
celebrações domésticas se reduzam ao simples transplante da missa do templo
para as casas. O ambiente familiar favorece maior espontaneidade e possibilita
a criatividade (Medellin — 1972, documento nº 3;7).
Os sacerdotes terão o cuidado de não
passarem do atendimento a multidões anônimas para "capelães de guetos".
Essas ocasiões são preciosas para maior contato com as famílias, na perspectiva
de uma presença evangelizadora em ambiente mais natural, mas não podem perder
as dimensões eclesiais do mistério
É neste contexto que se recoloca o desafio
das vocações ministeriais capazes de dar atendimento às novas necessidades da
Igreja.
É evidente que não se trata de conceder
privilégios por motivos estranhos à fé (como sejam posição social, egoísmo de
alguma família, número de um programa festivo da família), mas fazer maior
número de pessoas terem experiência de uma celebração eucarística em clima de
íntima fraternidade e educar os fiéis para o sentido comunitário da vida
eclesial.
1.4.4 Celebração
com grupos de jovens
Sociologicamente os jovens se constituem
hoje em grupos caracterizados por exigências próprias.
Do ponto de vista religioso, nota-se forte
movimento de busca de Cristo no mundo juvenil.
Atendendo às necessidades específicas
desta faixa da população, tem-se procurado promover celebrações que possibilitem
à juventude a expressão de sua fé de modo mais adaptado às suas
características.
Tenha-se presente que o objetivo destas
celebrações não pode reduzir-se à mera atração e ponto de encontro
motivados pela apresentação de "shows", variedades musicais, clima de euforia, sob pena de se tornarem
alienantes, mais do que participação no mistério de Cristo e da vida
eclesial.
A finalidade é alcançar maior autenticidade
na expressão da fé. Para isso a Eucaristia terá que voltá-los para a vida,
para o mundo juvenil e para a sociedade em concreto, integrando-os na
comunidade e comprometendo-os em tarefas concretas.
Cuide-se para que essas assembléias de
jovens não aumentem a tensão entre as gerações, nem venham a cair no
"grupismo", com prejuízo para a unidade eclesial na sua totalidade.
A fim de evitar o fechamento destes grupos
sobre si mesmos, promovam-se, em certas solenidades e ocasiões (por ex.: Natal,
Páscoa, Pentecostes, Padroeiro, Dia dos Pais etc.), assembléias mais
representativas de fraternidade universal que reúnam adultos, jovens e
crianças numa única celebração.
É importante que se dê especial atenção à
formação "equipes de Liturgia" de jovens que assumam o preparo do
ritual e comentários para suas celebrações, bem como ajudem a assembléia a
celebrar com maior consciência.
O canto e instrumentos usados sejam
escolhidos de modo que evidenciem claramente a mensagem e favoreçam o clima de
oração.
N.B. a) Fatores
psicológicos e o respeito pelos direitos autorais não permitem, por ex., que se
façam adaptações superficiais de textos de músicas compostas para outras
situações e não condigam com o momento da oração.
b) Lembramos que a
mensagem evangélica faz parte da expressão da fé e não se pode ignorá-la na
escolha dos cantos.
c) Uma boa evangelização
proporcionará à exuberância dos jovens maiores possibilidades de criar músicas
cujo ritmo corresponda às suas justas exigências e cujos textos transmitam a
palavra e expressem a fé.
1.4. 5 Celebrações
com a participação de crianças
(Cf.
Diretório das missas com crianças)
1.4.5.1 Faz
parte da iniciação cristã das crianças a participação na liturgia (Dir. nº 8)
que, graças à sua inata eficácia pedagógica, exerce uma influência ímpar no
desenvolvimento da fé e faz descobrir as dimensões e valores próprios da Igreja,
desenvolvendo o espírito comunitário (Dir. nº 2). É, pois, indispensável que as
crianças se sintam dentro de um grupo que celebra sua fé e sejam envolvidas por
todo aquele clima de fraternidade que a comunidade cristã deve cultivar, máxime quando se reúne na comunhão com e em
Cristo (Dir. nº 8) . A presença de adultos, portanto, é sumamente desejável
(Dir. nº 24), de modo
particular a dos
familiares e educadores
das crianças (Dir. nº 10 e 16).
No caso de os pais não terem vida sacramental, sugerem-se vários tipos de
celebrações não eucarísticas, em que pais e crianças sejam educados para
aqueles valores humanos que servem de base à vida familiar, criam condições
para uma melhor integração social e, oportunamente, eclesial (cf. Dir. nº 10).
Tais celebrações oferecem para isto maior liberdade de recursos e meios
pedagógicos mais adequados ao nível próprio de iniciação de cada grupo.
Tendo essas reuniões objetivo de educar na
fé, deve-se evitar um cunho demasiado didático, pois se trata de levar as
crianças a perceberem a significação própria da liturgia em seus variados
elementos e não apenas de "ensinar".
A palavra, celebrada com assiduidade, máxime
no advento e quaresma, despertará, desde cedo, estima e veneração para com a
Sagrada Escritura (Dir. nº 13) e educará as crianças para uma vida de autêntica
fé evangélica, mais do que para práticas religiosas.
1.4.5.2 A
celebração eucarística paroquial reúne os adultos, principalmente nos domingos
e dias festivos, para a participação no mistério central da fé cristã (Dir nº
16).
O valioso testemunho da experiência
comunitária não basta para educar as crianças, se essas se sentirem deixadas de
lado durante a própria ação litúrgica (Dir nº 17). Por isso é necessário que se
façam as adaptações oportunas, a fim de atender às crianças conforme
as necessidades específicas de cada assembléia
(cf. Sac. Conc. 38; Dir. nº 3) e evitar que a rotina das cerimônias e a
falta de adaptação à mentalidade infantil venham a enfastiar a imaginação viva
das crianças, causando possível dano no seu relacionamento com a Igreja (Dir.
nº 2).
É urgente que se dê especial atenção
pastoral para que a liturgia corresponda às exigências próprias das crianças,
tomando em conta a percepção e a vivacidade do seu mundo específico (Dir. nºs 12 e 35 ). A presença de
adultos como companheiros de oração e não como " vigias" (Dir. nºs 21
e 24), é o modo mais completo de iniciar a vida em comunidade, mas é educativo
que se celebre, às vezes, com grupos menores, só com crianças, especialmente
durante a semana (Dir. nn 20, 27 e 28). A fim de que possam se expressar mais
espontaneamente, leve-se em conta a formação, mais do que a idade.
1.4.5.3 Eis as principais adaptações que o
Diretório prevê:
— Quanto
ao local de celebração:
— mesmo que o templo seja
o local normal das celebrações, procure-se reunir as crianças num espaço que
favoreça o recolhimento e as mantenha unidas, evitando o perigo de distração ou
dispersão. Caso isto seja difícil, celebre-se em qualquer lugar digno, mesmo
fora do recinto do templo (Dir. nº 17).
— Quanto
aos ministérios:
— Que se distribuam as
leituras, comentários, preces dos fiéis, cantos, preparação do altar,
transporte das oferendas para o altar entre adultos e crianças, de
tal modo que se sintam solicitados ao
serviço direto na própria
cerimônia (Dir. 18, 29, 24, 47, 32, 48, 34, 22).
— Quanto
aos instrumentos musicais e ao canto:
— O canto
corresponde melhor ao
estilo infantil (Dir. nº 30) e a
melodia ajuda a pronunciar e memorizar mais facilmente do que se recitam,
sobretudo as aclamações da oração eucarística e demais textos do ordinário.
Para isto é possível usar traduções adaptadas desde que aprovadas pela
autoridade competente (cf. Dir. nº 31).
O uso de instrumentos musicais, sobretudo se tocados pelas crianças, é
vivamente recomendado e o critério fundamental
será o sentido pastoral, isto
é, que conduzam a
uma liturgia "festiva, fraterna e recolhida" (cf. Dir. nº 32).
— Os
Gestos:
A natureza própria da liturgia exige que o homem se expresse com todo o
seu ser, portanto, é também ação do corpo. Tratando-se de crianças, cuja
característica é a manifestação corporal mais do que intelectual, deve-se dar a
máxima importância aos gestos, não só do sacerdote, mas à participação efetiva
da assembléia.
Embora o texto
do Diretório enfatize
as procissões, neste campo é urgente que se recorra à ajuda
psicopedagógica de educadores especializados a fim de que a liturgia com
crianças possa corresponder às
exigências próprias de tais Assembléias (SC 38; Dir. 33-34).
É importante que, entre os gestos, se dê particular ênfase à atitude de
silêncio, para que não se caia em movimentação externa com prejuízo da
participação (cf. Dir. 36).
— Recursos
visuais:
Só o uso de elementos visuais e sonoros, juntamente com gestos
significativos, poderá corresponder às crianças e fugir ao risco de fazer da
liturgia um momento árido e fatigante.
Além do relevo com que se deve utilizar os símbolos próprios da liturgia
(círio, cores, cruz, objetos significativos), é sumamente necessário que se
traduza em formas plásticas o conteúdo da Palavra ouvida e do mistério
celebrado.
Também aqui os métodos audiovisuais tornam-se subsídio indispensável à
participação das crianças na Liturgia (cf. Dir. 35).
1.4.5.4 Além
das várias modalidades e iniciativas, o Diretório afirma que é possível à CNBB
propor à Sé Romana outras adaptações que se
fizerem pastoralmente úteis
e oportunas (Dir. nº 5).
Fiel à estrutura geral da celebração, isto
é, à Palavra e Sacramento, que constituem um único culto e os ritos de abertura
e encerramento (cf. IGMR nº. 8), o Diretório prevê, como necessárias,
adaptações no modo de conduzir e realizar a Eucaristia com crianças.
Recomenda-se, no entanto, que as
"aclamações, respostas comuns e o Pai-nosso" sejam conservados
intactos para que sejam possíveis celebrações integradas com toda a comunidade
eclesial (cf. Dir. nº 38-39).
N.B. a) Para
a liturgia eucarística, todos os que já podem participar do sacramento voltem
normalmente a se reunir em única assembléia, significando a força de unidade
deste mistério celebrado.
b) Não
seria de se desejar que as crianças que ainda não fizeram a Primeira Eucaristia, fossem às vezes atendidas por
mães (ou outras pessoas e às vezes pelo próprio presbítero) em celebrações e/ou
atividades recreativas e educativas?
1.4.6 Eucaristia
junto aos enfermos e inválidos
N.B. Para uma visão mais completa a respeito da pastoral dos enfermos, é
indispensável que se medite o "Rito da unção dos enfermos e sua assistência
pastoral". Trata-se, com efeito, mais de um manual de orientações do que
de um simples rito de celebração.
Que os agentes pastorais proporcionem aos
enfermos e inválidos, freqüentes ocasiões de acesso à Eucaristia, certos de
que é o meio mais eficaz para concretizar a aspiração de que os cristãos se
reúnam e vivam comunitariamente. Dê-se a máxima importância e valor à
participação na Eucaristia, mesmo por parte daqueles que se acham legitimamente
impedidos de se reunirem no mesmo lugar e hora da assembléia, mas que, quando
possível, fazem parte da Eucaristia. Assim, organizem-se com eficiência a
distribuição da Eucaristia e a celebração a domicílio para enfermos e inválidos
e para os que deles cuidam, ficando impossibilitados de tomarem parte na assembléia.
A missa domiciliar possibilita a comunhão sob as duas espécies, como prevê o ritual, e
concretiza a legítima disposição de, quanto possível, comungar
na própria celebração da eucaristia (cf. Rito da unção... nº 26).
É sumamente desejável que a caridade cristã
preveja a ajuda de irmãos na fé para a oportuna substituição dos familiares de
enfermos e inválidos, a fim de que os
mesmos irmãos que prestam tal assistência não sejam privados
da assembléia por
tempo demasiado longo, com conseqüente prejuízo para o
crescimento na doutrina dos
apóstolos e na convivência com os irmãos que se reúnem no Senhor (cf.
Rito de unção nn. 42-43).
É evidente que tanto a celebração junto aos
enfermos e inválidos quanto a distribuição da comunhão, fazem parte de toda uma
perspectiva muito ampla da pastoral dos enfermos; a comunhão é que deve assumir
a missão de envolver os irmãos que sofrem, num clima de fé e caridade, capaz de
sustentá-los em momentos tão importantes e dolorosos, na esperança que ilumina
o mistério da dor e da
morte com a
luz da Ressurreição (cf. Rito da
unção nn. 1-4).
Note-se que essa tarefa de solicitude para
com os enfermos e pessoas idosas é tão importante que já Hipólito de Roma
qualifica o diácono como sendo o "ministro dos doentes e dos pobres"
(cf. Trad. Apostólica nn. 39 e 34).
Recentemente a Igreja, ao revitalizar a
função do acólito, volta a insistir sobre o cuidado que este deve ter na
distribuição da Eucaristia aos enfermos (cf. Ministeria quaedam, § VI).
1.4.7 Missas
exequiais e orientações pastorais
A liturgia das exéquias coloca os pastores
diante de uma perplexidade: as missas encomendadas por ocasião de morte, 7ºe 30º
dias não passam, muitas vezes, de puro ato social a que não se pode recusar;
por outro lado, tais situações oferecem excelente ocasião de contato com
pessoas que raramente procuram a Igreja. Resta, no entanto, uma perplexidade se
os pastores confrontam as exigências do Sacramento com as disposições
concretas.
1.4.7.1 É
indispensável que os presbíteros despertem para uma maior sensibilidade, a fim
de não serem os únicos a não se comoverem com o fato que abala toda a
assembléia reunida.
Se quem preside não participa dos
sentimentos da assembléia, sua celebração, e principalmente a homilia, será
desencarnada, pois, não fala de um fato vivido.
1.4.7.2 Para
que a celebração do mistério de Cristo por ocasião da morte de um membro da
Igreja se torne vivencial, é necessário colher alguns dados sobre a vida da
pessoa falecida e travar previamente um mínimo de relação com a família
enlutada.
1.4.7.3 Há
diferença entre uma celebração feita por um freqüentador assíduo da assembléia
eucarística e uma pessoa desligada da Igreja. No entanto, a reunião poderá ser
ponto de partida para uma evangelização, sobretudo se a liturgia for celebrada
de tal modo que manifeste o esforço da atualização da Igreja num clima humano
de acolhimento e solidariedade.
1.4.7.4 Neste
particular, a comunidade eucarística dos assíduos à Igreja tem especial
oportunidade de dar testemunho de disponibilidade, serviço e atenção às pessoas
que ocasionalmente estão presentes a uma celebração, levadas por circunstancias
mais do que por motivação de fé evangélica.
N.B. É necessário superar todo aspecto de
comércio, tão explorado, infelizmente, até por empresas funerárias, e fazer a
comunidade paroquial cooperar no serviço às pessoas que se reúnem nestas
ocasiões.
1.4.7.5 Uma
boa equipe paroquial dedicada à assistência das famílias enlutadas, poderá
ajudar na superação da mentalidade matemática (exatamente o 7º e 30º dias) e
criar um clima mais eclesial. Por exemplo, se a paróquia oferece uma missa
pelos mortos em determinado dia da semana, com a presença desta equipe que
procurou tomar contato com as famílias visitadas pela morte.
Nesta celebração a comunidade paroquial
poderá cantar, fazer as leituras, acolher as famílias dos recém-falecidos,
dando especial destaque a essas intenções no decorrer de toda a celebração.
N.B. Para outras indicações concretas,
veja-se o Presbiteral das Exéquias, Ed. Vozes p. 7-9: Orientação Pastoral da
Comissão Nacional de Liturgia.
1.4.8 Celebrações
oficiais
1.4.8.1 O
sentido da celebração do Memorial do Senhor comunidade dos fiéis colocará em
profundo questionamento celebrações chamadas "oficiais" dentro de uma
sociedade pluralista. De fato, tais celebrações oficiais podem não oferecer
bases sólidas para classificarmos de "assembléias convocadas e
congregadas pela palavra", visto serem atos públicos, mas não
comunitários no sentido eclesial, pela ausência de fé comum.
Tais eucaristias se tornariam mais um ato
sem sentido do que sinal de Unidade na fé, na consciência da presença do
Senhor.
1.4.8.2 Pastoralmente
é necessário que se verifique cada caso e que a autoridade diocesana os
controle pessoalmente para evitar celebrações que não reúnam as condições
mínimas que justifiquem a Eucaristia. Há outros tipos de celebrações que podem
ser mais oportunas conforme as circunstâncias.
1.4.8.3 O
mesmo se diga das promoções de caráter prevalecentemente social, como
formaturas, bênçãos de estabelecimentos e outras em que a celebração
eucarística poderia ser mais um número da programação do que uma autêntica
celebração eclesial.
1.4.9 Liturgia
de televisão e rádio
Outro fato pastoral é o alcance dos Meios de
Comunicação Social (MCS) e sua influência na formação da mentalidade litúrgica
no meio da população.
1.4.9.1 Apesar
do escasso uso que a Igreja faz dos MCS, as missas são freqüentemente
transmitidas e a quantidade de pessoas que sintonizam tal programa não é
indiferente. Esse fato repercute de modo decisivo na renovação litúrgica.
1.4.9.2 Sabendo
que a participação está condicionada à transmissão, é de suma importância que
se explorem todas as possibilidades tanto do ponto de vista técnico como litúrgico.
Neste sentido, a preparação técnica de
liturgos, como a iniciação litúrgica de técnicos, se faz indispensável.
1.4.9.3 Não
é suficiente televisionar ou irradiar uma missa. Os MCS têm exigências tão
decisivas, que só uma liturgia preparada adequadamente poderá atingir os
objetivos a que se propõe um esforço neste campo da ação pastoral.
A liturgia não pode ignorar as chances que
os MCS lhe oferecem, mas as exigências próprias deste mundo técnico não deve
obscurecer o autêntico sentido da liturgia.
1.4.9.4 Embora
haja muita discussão em torno do valor desta "missa de televisão", é
bom lembrar que há diferentes graus de participação na oração da Igreja e que,
indubitavelmente, essa ação pastoral tem grande poder educativo.
N.B.
Para maiores detalhes,
reenviamos aos documentos /
conclusões do 1º Encontro Nacional de Liturgia de Rádio e TV, do
projeto 2.16 do plano de atividades da CNBB, Apucarana, julho de 1972;
Igualmente o 1º Encontro Latino-americano sobre o mesmo assunto, Celam — CNBB
Apucarana, julho de 1974.
CAPÍTULO
II
SIGNIFICAÇÃO TEOLÓGICA DE CADA PARTE DA LITURGIA EUCARÍSTICA
CELEBRADA COM O POVO E POSSIBILIDADES PASTORAIS
2.1 Introdução
É de suma importância que o presidente da
assembléia saiba que celebra com o povo e com toda a equipe de celebração e não
apenas diante do povo. É preciso que ensine aos fiéis a "exprimir em suas
vidas e aos outros a manifestar o mistério de Cristo e a genuína natureza da
Igreja" (SC 2). Não há, porém, esperança alguma de que tal possa ocorrer,
se os próprios pastores não estiverem antes profundamente imbuídos do espírito
e da força da liturgia (SC 14). Por isso, antes de qualquer modificação ritual,
cada pastor tome consciência pessoal do sentido verdadeiro e da dimensão
eclesial da celebração a que preside, a fim de que "todos sejam levados
àquela plena, cônscia e ativa participação nas celebrações litúrgicas, que a
própria natureza da liturgia exige" (cf. SC 14).
Na liturgia o essencial de nossa obediência
ao mandamento de Cristo não consiste em executarmos gestos exatos e pronunciar
bem as fórmulas, anterior à rubrica, há uma realidade vivida a ser celebrada
pelo povo. Por isso a celebração eucarística possui um dinamismo interno que
arrasta para dentro de si a vida a presença de toda a assembléia sacerdotal.
É da máxima importância que se insista sobre
a presença dos fiéis desde o início, a fim de que percebam a presença especial
do Cristo-Senhor: "Onde dois ou três estiverem reunidos em meu
nome..." (Mt 18, 20).
2.2 Abertura da celebração
Em clima muito humano de festa pelo
reencontro com os irmãos, o rito de abertura visa a fazer a unidade da
assembléia para que possa receber a palavra em espírito de oração e
disponibilidade para a conversão. Esta união deverá ir crescendo no decorrer da
celebração, até atingir certa plenitude na comunhão dos irmãos no Corpo e
Sangue do Cristo. Então se constituirá o Corpo do Senhor, então nascerá a
Igreja. O presbítero, colocado à frente da assembléia, não foi constituído para
"presidir na caridade" (santo Inácio de Antioquia)? Primeiro dever,
pois, é suscitar um clima de mútuo acolhimento no amor, para que se possa falar
em comunidade reunida.
Uma equipe de acolhimento é imprescindível,
se se quiser criar este clima de fraternidade.
2.2.1 O
Canto de Entrada
É a primeira expressão de alegria dos irmãos
que se reencontram. A liturgia é celebrada por um povo, o povo de Deus cada um
e todos participam à medida que desempenham sua função. Compete ao povo manifestar
alegria pelo canto de entrada. O coral poderá ajudar a sustentar o canto do
povo. Há grande liberdade na escolha do canto de entrada, mas é importante que
procure unir os critérios fundamentais.
a) canto
que facilite a participação de todo o povo promova sua união;
b) escolha
de um texto que introduza no mistério da liturgia do tempo e da festa;
c) canto
que manifeste a alegria de se encontrar o povo reunido para celebrar o Senhor.
É de toda conveniência que se faça uma
verdadeira procissão de aproximação do altar, ao menos por parte do presidente
e demais ministros (cf. IGMR 25, 26, 17b, 83). Isto evocará as caminhadas do
dia-a-dia na vida concreta, passando pelas ruas, fábricas, hospitais,
lazeres... e lembrará uma humanidade em seguimento do Cristo, a "caminho
da casa do Pai".
2.2.2 Saudação
Depois de venerar o altar — o Cristo,
verdadeiro altar do sacrifício e centro da reunião (ara Christus est) — o
sacerdote vai à cadeira presidencial, pois é em nome do Senhor que irá dirigir
a assembléia em oração.
Feito o sinal da cruz, o presidente saúda a
assembléia com uma das fórmulas propostas, tiradas das cartas paulinas. Com
esta saudação o povo é despertado para o sentido eclesial do mistério da
reunião.
Nessa saudação de cunho bíblico, o presidente
toma contato mais pessoal de acolhimento do povo, introduzindo-o na liturgia do
dia e tornando explícita a ligação entre a celebração que se inicia e a vida
(cf. Ordo missae 28 e 86). A característica desta introdução não é a de
uma pequena homilia sobre o tema do dia. Deve, antes, criar uma expectativa da
mensagem que será proclamada na Palavra. A forma interrogativa e questionadora,
adaptada à assembléia presente, poderá manter a atenção dos participantes, e
abri-los para a mensagem que será anunciada na liturgia da Palavra.
2.2.3 Ato
penitencial
É para tornar a assembléia atenta ao apelo
de Jesus que diz: "convertei-vos e crede na Boa Nova" (Mc 1,15) e
para obedecer à ordem de
reconciliar os irmãos antes de
apresentar a oferenda
(Mt 5,24), que a Igreja celebra a penitência ao iniciar sua celebração.
Procure o presidente despertar o sentido
pessoal e comunitário da penitência, dando ênfase ao louvor da misericórdia e
fazendo um apelo à conversão da Igreja para Cristo.
N.B. Cf. "Princípios e orientações para renovação pastoral da penitência" (CNBB, 1972).
A gratuidade do perdão é que nos faz
"aproximar-nos confiantes do trono da graça" apesar de nos
reconhecermos pecadores. Evite-se, pois, todo aspecto moralizante
individualista e cuide-se para que o ato penitencial não se reduza a um mero
"Rito".
É de suma importância que se dê lugar aos
momentos de silêncio que o próprio ritual prevê como fazendo parte do ato
penitencial (cf. IGMR nº 23).
Este ato pode tomar formas variadas, como
sejam: a de uma confissão geral dos pecados, oração dialogada, súplica à
misericórdia ou mesmo a forma de ritualização em memória do Batismo, por
exemplo, aspersão com a água benta (cf. Missal Romano, apêndice).
Após o ato penitencial canta-se, ou
recita-se, a tradicional aclamação Kyrie eleison — Senhor, tende
piedade de nós — a não ser que se tenha escolhido o 3º esquema do ritual,
que inclui a mencionada invocação.
Com efeito, Kyrie eleison é a antiga
fórmula em que se proclama que o Filho se fez um do povo (eleison) mas se
tornou Senhor (Kyrie), vencendo o pecado do mundo ( cf. IGMR nº 30).
Trata-se de uma bela ladainha da comunidade,
de uso muito comum na Igreja antiga e até hoje, em certos ritos orientais,
assumida na missa.
Termina-se sempre a confissão geral dos
fieis pela absolvição do presidente da assembléia (cf. IGMR nº 29).
N.B. Esta absolvição do rito penitencial na
celebração eucarística não pode ser considerada como "sacramento" na
vigente disciplina litúrgica (cf. Princípios e orientações para a renovação
pastoral da penitência, CNBB 1972 item B, III).
2.2.4 Glória
Quando for prescrito (cf. IGMR nº 31),
canta-se ou se recita o GLÓRIA, também chamado "doxologia maior" em
contraposição com a "doxologia menor" que é o "Glória ao Pai. .
." . Trata-se de um hino antiquíssimo, pelo qual a Igreja reunida no
Espírito Santo entoa louvores ao Pai e dirige súplicas ao Filho, Cordeiro e
Mediador.
Ornado de preciosos títulos referentes ao
Pai e ao Filho inicia com um texto bíblico (Lc 2,14) que coloca como tema da
louvação a mensagem do anúncio e da alegria por ocasião do nascimento do
Salvador.
Não foi composto para a celebração
eucarística, mas faz parte do conjunto de "salmos não bíblicos",
fruto da inspiração poética das comunidades cristãs primitivas, muito usado nas
vigílias festivas como canto de ação de graças.
Note-se que é um canto tipicamente do povo e
não presidencial ou dos ministros. O coral pode ter função importante no tom
solene que deve tomar este hino de louvor.
2.2.5 Coleta
É preciso que se faça um real esforço para
que a ORAÇÃO seja de fato uma coleta (de colligere — recolher,
sintetizar, reunir). Os termos oferecidos pela formulação do missal focalizam o
mistério do dia, mas o presidente poderá escolher o formulário que melhor
convier à vivência de sua comunidade. É a comunidade com sua experiência de
vida que está reunida para entrar em comunhão com o seu Deus
através da oração
comum e pública
(cf. IGMR 323).
Às vezes, porém, a liberdade de escolha não
é suficiente para responder à expressão da vida da comunidade e à sua
experiência religiosa (cf. Concilium ad exequendam Constitutionem de Sacra
liturgia, Notitiae 5, 1969, p. 7).
Por isso nada impede que os textos das
orações presidenciais, conservando sua inspiração temática original, sejam
adaptados à assembléia, principalmente em se tratando de missa com a
participação de crianças (Aplicação do princípio de SC 38, Diretório das missas
com crianças nº 51).
Cuide-se, no entanto, para não cair em
formulações ideológicas ou apologéticas, mas se conserve o gênero literário
próprio às eucologias.
Isso exigirá especial preparação por parte
do celebrante, para que não se façam improvisações nem no que diz respeito ao
conteúdo nem quanto à linguagem que deve ser adaptada sem ser banal.
Ao convite do celebrante segue-se um momento
de silêncio (IGMR, 23) para que cada um apresente seu coração em prece; em
seguida o celebrante fala em nome da Igreja reunida.
2.3 Liturgia da Palavra
A liturgia da Palavra não pode se reduzir ao
simples escutar de algumas leituras com a respectiva explicação. Isso não
superaria a dimensão de uma aula de catequese, de exegese ou de teologia.
Vejamos, pois, às verdadeiras dimensões desta parte da liturgia.
2.3.1 A
Palavra proclamada não só instrui e revela o mistério da redenção e salvação
realizado através da História (cf. SC 33) mas torna o Senhor realmente presente
no meio do seu povo
(SC nº 7).
O livro da Palavra é o sinal visível de que
não se trata de palavra humana, mas daquela Palavra que a Igreja recebeu e
conserva como escrita com especial assistência do Espírito Santo. Daí a
importância que se deve dar a um trato digno deste sinal para que possa
despertar a atenção da assembléia com relação à palavra proclamada (cf. IGMR nº
35) .
N.B. Não
parece corresponder ao respeito devido à Palavra de Deus, o manuseio de
folhetos ou de vários livros/textos. A mesa da Palavra ou "ambão" é o
lugar próprio para se colocar o Livro da Palavra e para onde se dirigem os
ministros a fim de proclamar a mensagem para o povo de Deus reunido.
No caso de se usar um folheto para a ação
litúrgica cuide-se de apresentá-lo dentro de um livro ou capa dignos da Palavra
de Deus.
Na liturgia da Palavra é Deus quem fala a
seu povo pela mediação dos ministros. Deve-se compreender claramente que o
ofício de "proclamar" não é presidencial, e sim de outros
ministros leitores, diáconos e só excepcionalmente o presidente — (cf. IMGR nº
34) .
A homilia,
pelo contrário, é própria do
Bispo ou do presbítero que preside a celebração e, mesmo que outros intervenham
com testemunhos, diálogos, reflexões, a responsabilidade de adaptar a mensagem
à vida da comunidade é do presidente. (Diretório das missas com crianças nº
48).
— Que
os fiéis sejam educados na consciência de que é Deus quem fala a seu povo,
revelando-se a si mesmo como aquele que chama à salvação e a realiza
efetivamente. A presença de Deus na Palavra dispõe a assembléia à escuta atenta
e a provoca ao diálogo com ele. O Cristo, presente no meio dos fiéis, fala pelo
seu Evangelho: é o ponto culminante da liturgia da Palavra.
A Palavra de Deus proclamada na liturgia é
mais do que uma instrução que leva ao conteúdo do texto. Deve-se conduzir a
assembléia a uma verdadeira comunicação orante com a pessoa de Cristo. Eis
porque a própria estrutura da liturgia da Palavra inclui leituras, salmo
responsorial, silêncio, aclamação, Evangelho, homilia, profissão de fé e oração
universal para as necessidades de toda a Igreja e do mundo inteiro.
— Que
o povo acolha a palavra numa atitude de fé e seja iniciado a dar sua resposta à
mensagem ouvida recitando ou cantando o salmo responsorial. A retomada de um
REFRÃO simples intercalado com o canto feito pelo salmista, ajuda o
aprofundamento do clima de oração de toda a assembléia participante da Palavra
(cf. IGMR 33 — 39).
2.3.2. Salmo
Responsorial e Aclamação
2.3.2.1 Parte
integrante da liturgia da Palavra, o salmo responsorial pertence ao povo
que, por meio do canto, expressa sua atitude de meditação, atenção à revelação
de Deus e oração como resposta à proclamação.
O salmo responsorial, ao mesmo tempo
resposta da Igreja e proclamação da Palavra, tomou importância na reforma
litúrgica. Pastoralmente, porém, ainda não é suficientemente revalorizado.
Trata-se do texto colocado após a primeira leitura bíblica e retirado da
própria Sagrada Escritura, isto é um salmo.
Para que cumpra sua função litúrgica, não
pode ser reduzido a simples leitura. É parte constitutiva da liturgia da
Palavra e tem exigências musicais, litúrgicas e pastorais.
De cunho lírico, deve normalmente ser
cantado, pelo menos o refrão, que neste caso é intercalado com a leitura calma
e meditativa do salmo de modo a permitir a assimilação e contemplação do texto.
2.3.2.2 Aclamação
ao Evangelho
Distinta do salmo responsorial é a ACLAMAÇÃO
AO EVANGELHO. É conveniente que um breve silêncio seja feito após o salmo,
enquanto o diácono (ou o presbítero) se prepara para anunciar o Evangelho. A
seguir, todos se colocam de pé, em sinal de disponibilidade para o
seguimento da mensagem de vida, e cantem o "ALELUIA e a aclamação"
que se caracteriza por ser um canto processional.
2.3.3 A
Homilia
A homilia (etimologicamente: continuação da
conversa sobre o mesmo assunto) tem a função específica de cultivar a fé dos
iniciados na participação na Eucaristia.
— Que
a homilia (comentário vivencial da mensagem) não se assemelhe a um
sermão explicativo, mas tenha a função de fazer o confronto da vida cotidiana
da comunidade com os apelos da Palavra.
— Cada
homilia deve visar à conversão comunitária: que a comunidade como tal se veja
questionada pela Palavra e chamada a tomar atitudes mais evangélicas.
A proposta de tarefas para uma revisão leal
e um esforço comum será evidentemente um meio pedagógico muito eficaz. Isso
permitirá a comunidade dar um testemunho visível de que a liturgia da Palavra
opera o crescimento e a transformação pascal.
— Nos
grupos, o conhecimento maior que o presbítero tem da vida dos participantes e o
diálogo orientado pelo presidente facilitará a tarefa de concretizar a
aplicação da Palavra à vida, bem como a
escolha de tarefas que canalizem os esforços dos fiéis (Diretório das missas
com crianças nº 48, comparar com a "Terceira Instrução" de 5 de
setembro de 1970 e as "considerações" sobre a mesma
"instrução" — CNL — CNBB ).
— Nas
assembléias mais numerosas, o diálogo torna-se mais difícil, mas a solicitação
de testemunhos por parte dos participantes, a
conversa em grupos após a missa
(ou mesmo durante) para que o povo se expresse sobre as conseqüências que a
Palavra ouvida teria para a vida cristã da comunidade poderia
abrir caminhos para
efeitos reais e
comunitários da Palavra
(Diretório das missas com crianças nº 24).
— A
preparação da homilia nos grupos de evangelização, a retomada do mesmo assunto
nas reuniões destes grupos, poderá oferecer dimensões vivenciais à palavra da
liturgia dominical. O que não nos pode satisfazer é a simples leitura e
comentário da Palavra, feitos no correr da celebração eucarística, sem mais,
como aliás se tem feito constantemente. Esse hábito tornou-se causa do pouco
efeito de conversão eclesial verificado após tantos anos de participação
assídua à assembléia dominical (cf. IGMR, 41-42).
— Seria
desejável que o núcleo da mensagem do dia fosse sintetizado numa espécie de
"slogan", que, por ser de fácil memorização, permanecesse nos
lábios e no coração dos participantes durante toda a semana.
2.3.4 "Creio"
2.3.4.1 O
Creio, proclamação da fé eclesial, expressa atitude assumida pela comunidade
diante da Palavra anunciada e refletida.
É feito em forma de "símbolo",
prescrito para certos dias. O "símbolo" tem um valor de tradição,
acrescido de uma autêntica manifestação da unidade da Igreja na mesma fé. Por
isso, nos dias em que o "Creio" é prescrito (cf. IGMR, 43-44), devemos
assumir uma das fórmulas propostas pelo missal, na convicção de que esta é a fé
proclamada pela Igreja, em todas as partes do mundo em que ela se reúne. Só uma
verdadeira catequese dará suficiente motivação para não substituírmos as
fórmulas oficiais por outras, alheias à fé católica.
2.3.4.2 Poder-se-á,
no entanto, principalmente para o canto "adaptar versões populares aceitas
pela autoridade competente, ainda que literalmente não esteja de acordo com o
texto litúrgico" (cf. Diretório das missas com crianças nº 31; ver também "Instrução
Musicam Sacram" nº 55).
2.3.4.3 Nos
dias em que a recitação do Credo não for prescrita, poder-se-á fazer eco
à mensagem proclamada com expressões mais livremente compostas e que manifestem
a fé da comunidade. Deve-se, contudo, ter e cuidado de não fazer uso de
fórmulas totalmente alheias à fé, ou que manifestem uma "fé" de cunho
exclusivamente humano. A proposta da mensagem e a concretização da mesma na
vida da comunidade, feitas na homilia, culminam de modo muito lógico, se o
final da homilia faz apelo à afirmação da fé por parte da comunidade.
2.3.5 Oração
dos fiéis
Parte integrante da liturgia da Palavra,
deverá sempre estar presente nas celebrações. Às vezes poderá tomar um tom mais
solene, através do canto recitativo; normalmente, porém, este será o momento da
espontaneidade na oração pública da Igreja.
O conteúdo das orações dos fiéis são um
autêntico termômetro do nível de consciência dos mesmos. Não se deve, pois,
escamotear a verdade, impedindo que se manifeste esse despreparo no tocante à
educação da comunidade para a oração litúrgico-eclesial.
Não basta ler, num folheto ou no missal,
algumas intenções bem formuladas. É preciso educar os fiéis para as preces da
comunidade, a fim de que a espontaneidade de uma assembléia expresse os verdadeiros
interesses e necessidades da Igreja, da humanidade e da comunidade local,
conforme as circunstâncias (IGMR 46, 99).
É o exercício do sacerdócio batismal que se
expressa nesta forma de participação na oração litúrgica (cf. IGMR 45).
Lembremo-nos de que Deus normalmente age
através das causas segundas, que somos nós mesmos. Portanto, suplicar uma
"graça" supõe comprometimento de colaboração para que a necessidade
seja satisfeita em conformidade com a vontade do Pai. Responder
"AMÉM" à oração pública implica numa atitude de fé/fidelidade à
própria vocação enquanto chamado a dar uma resposta realista e confiante ao dom
da fé que se apresenta em forma de missão a ser realizada.
2.4 Liturgia Eucarística
A Introdução geral do Missal Romano
apresenta a distinção entre "Liturgia da Palavra e Liturgia eucarística".
Na realidade, a "Liturgia da Palavra" também é eucarística porque a
Palavra é sacramental e o sacramento da comensalidade (refeição, ceia) também é
querigmático, anamnético, latrêutico... Palavra e refeição, toda a missa,
portanto, é eminentemente Eucarística, constituindo único ato de culto (IGMR
8).
É de suma urgência que se faça perceber,
através de uma catequese adequada, a unidade da liturgia eucarística.
A apresentação das ofertas, a oração de ação
de graças sacrifical e a comunhão no Corpo e Sangue do Senhor são três momentos
de uma ação dinâmica e globalizadora. Não raro, porém, a comunidade toma
uma atitude de espera, até que passem os dois primeiros momentos, a fim de
voltar a participar da ação litúrgica pela comunhão. Isso tem como conseqüência
uma certa concepção de "receber a comunhão" e não de celebrar o
sacrifício, de "FAZER COMUNHÃO" no sentido forte e pleno de
Eucaristia como COMUM-UNIÃO no Corpo e no Sangue do Cristo, sacramento da reunificação
fraterna dos homens entre si e destes como Pai por Cristo, mediador e
pontífice.
2.4.1 Preparação
das oferenda
Expressão da "koinonia" — comunhão
de pessoas capazes de efetivamente colocar em comum o que são e o que possuem
para distribuir conforme as necessidades dos irmãos e para atender às
necessidades da própria comunidade (Rm 12,1-2). A apresentação das oferendas
não pode ser reduzida a um transporte (simples ou mais solene) do pão, do vinho
e da água para a mesa do altar (cf. IGMR 49). De quando em quando deve-se dar
largas à criatividade para significar liturgicamente a partilha entre os
irmãos, lembrando a advertência de Paulo: "Mal vos pondes à mesa, cada um
se apressa a tomar sua própria refeição e enquanto uns têm fome, outros se
fartam ..." (1Cor 11,20).
Tão-somente o recolher a "coleta"
não educa os fiéis para a dimensão sacrifical da vida na sua totalidade e deste
gesto em particular. Promover a entrega de gêneros em benefício dos
necessitados e da Igreja poderá ser uma forma de despertar a generosidade dos
fiéis para com os irmãos e educar para uma consciência eclesial (cf. IGMR 49).
Parte integrante da Eucaristia, a oferta tem
um sentido profundamente evangélico de ação de graças pelos dons, de
generosidade na partilha, de fé confiante na providência, de fraternidade pela
atenção às necessidades alheias. Com efeito a destinação dos bens em benefício
das necessidades da comunidade é condição para que a assembléia tenha
significação cristã (cf. Ef 4,28). Por isso a prestação de contas sobre a
aplicação das rendas da "coleta" é um dever para com a comunidade.
Se quisermos que os cristãos compreendam o
valor de sua colaboração, uma catequese mistagógica (iniciação à significação
dos gestos e ritos) deste momento da celebração se faz necessária. É sobre
estas oferendas, expressão da vida fraterna e de fé, que se faz a "oração
sobre as oferendas".
O canto processional justifica-se quando as
oferendas não se encontram sobre o altar desde o início da celebração. Aliás,
isto não deve acontecer, sob pena de esvaziar o rito de apresentação das mesmas
(IGMR 50).
N.B. É preciso que se reveja o conteúdo dos
cantos para evitar que se refiram exclusivamente ao pão e ao vinho e passem a
evidenciar o sentido da "coleta" de bens para serem distribuídos entre
os irmãos e atender às necessidades do culto.
2.4.2 Ação
Eucarística
2.4.2.1 É
pedagogicamente importante que se dê o sentido da "mesa do Corpo e
Sangue" do Cristo, como participação no sacrifício sacramental. Não basta
assistir à "oração eucarística" para presenciar ou admirar e até
adorar o sacramento. Eucaristia é ceia sacrifical, refeição-sacramental e
"Felizes os convidados para a ceia do Senhor" (Missal). A insistência
a participação na comunhão deve sempre ser moda pelo sentido eclesial do sacramento
que significa e realiza a Igreja, mistério e sinal de unidade.
O hábito de assistir sem comungar,
participando apenas externamente pelos cantos e diálogos, não satisfaz à
exigência fundamental da intenção do Senhor, que é de se entregar como comida e
bebida para que tenhamos a vida e a
vida eterna (Cf. Jo 6,49s; 1Cor 11,23s; cf. tb. IGMR
56).
2.4.2.2 Nada
impede que se convide os que vão participar da comunhão a se reunirem em torno
da mesa do altar a partir do diálogo que precede o prefácio. Esse gesto
manifesta a eficácia unificadora do Corpo e do Sangue para os que se alimentam
de Cristo e corrige a mentalidade de estar presente "assistindo à
missa", mas sem participação sacramental.
Neste caso, é preciso que se prepare a
comunidade através de adequada catequese e se tenha o cuidado para não impedir
a visão dos demais fiéis.
2.4.2.3 O
fato de as crianças serem admitidas na assembléia antes de poderem participar
da Eucaristia (por não terem feito ainda a "primeira comunhão"),
exerce uma influência no sentido de conceberem a "Eucaristia participada
sem comungar". Pastoralmente, respeitando as normas canônicas, é preciso
encontrar também outros modos de levar as criancinhas à igreja sem colocá-las
na assembléia eucarística da qual não podem ou não querem participar (Diretório
das missas com crianças nº 16).
Mesmo sabendo o efeito positivo do exemplo
dos adultos sobretudo se as crianças não se sentirem preteridas é recomendável
que se lhes dê assistência distinta e adaptada.
Caso sejam atendidas por catequistas ou
outras pessoas fora do recinto da celebração eucarística, é bom que sejam
apresentadas à comunidade para receberem juntamente com esta, a bênção final,
fomentando-se assim o espírito cristão da família eclesial (cf. Diretório das
missas com crianças nº 16 e 17).
2.4.3 Prefácio
O prefácio faz parte integrante da Oração
Eucarística desde o diálogo inicial, que constitui um solene apelo diaconal à
assembléia para que se coloque em atitude reverente e faça verdadeiramente sua
ação. Até tipograficamente o prefácio está unido ao restante do Cânon.
N.B. Em certas liturgias orientais o
"abraço de paz" precede esse diálogo com uma advertência de que todos
devem estar preparados para a ação que está se desenrolando.
O prefácio é tipicamente louvação e ação de
graças a Deus por toda a obra da Salvação que vai se tornar presente na
"ação eucarística", destacando-se os aspectos particulares conforme
as variáveis do dia, festa ou tempo litúrgico.
Graças à variedade de textos novos de
prefácios, já não se pode defender a rigidez e a invariabilidade das
formulações propostas. Inclusive as quatro orações eucarísticas atuais não são
tidas como exaustivas ou ponto final. A criatividade relativa e a
variabilidade, ordenadamente promovidas, corresponde à mentalidade do
pós-Vaticano II e a mais sã tradição litúrgica.
Tratando-se da oração em que a Igreja
proclama, de modo o mais solene, sua fé, é preciso que haja uma séria
preparação de tais textos e que o conteúdo seria examinado e aprovado pelo
magistério que rege a comunidade pelos autênticos caminhos
da fé apostólica (cf.
Instrução sobre as
preces eucarísticas; Diretório
das missas com crianças nº 52).
N.B. É bom lembrar que a "oração
eucarística" era muito mais um "canon actionis" do que a formulação
completa de um texto. Temos o testemunho claro de Hipólito (Tradição Apostólica
nº 28) e de Justino (Apologia 1, nº 67), bem como da história da liturgia até o
século IV (cf. Jungmann, Missarum sollemnia, passim).
Seria desejável que se pudesse explicitar,
além dos motivos próprios do tempo litúrgico que reúne a comunidade em ação de
graças, o motivo específico de algumas celebrações que ocasionam tal
assembleamento concreto. Isso fará com que a ação de graças se ligue à
experiência de salvação vivida por aquela comunidade (cf. IGMR nº 55a; mais
claro em "Diretório das missas com crianças" nº 22, em que se fala de
inserir as motivações para a ação de graças antes do diálogo do prefácio).
2.4.4 Aclamações
O SANTO é a grande aclamação da missa e pode
dizer-se que é o primeiro canto em ordem de importância (juntamente com o salmo
responsorial). Quanto possível deve ser solene e cantado, pois assim ganhará
mais autenticamente sua dimensão de aclamação.
É de toda conveniência que também se dê
particular destaque às aclamações após a consagração.
A fim de intensificar a participação de toda
a assembléia na solene oração eucarística é de toda conveniência que se
prevejam fórmulas de aclamação que oportunamente façam o povo mais ativo na
oração memorial, sem com isso reduzirmos o Canon a um simples diálogo, à
semelhança de um coro falado.
Exatamente
neste Espírito é
que se justifica, e mesmo se faz
necessário, propor à
Sé Romana as
adaptações que se julgarem pastoralmente úteis (cf. SC 40; Diretório das missas com crianças n° 5; veja-se também Dir. nº 30),
e até mesmo textos de orações eucarísticas para situações e circunstâncias que
pedem formulários adaptados ao bem da comunidade (por exemplo, aprovação de
anáforas para Congresso Eucarístico e preparação de textos para missas com
crianças, cf. Diretório nº 52).
2.4.5 Textos
presidenciais
A Eucaristia, memorial do sacrifício pascal
e Ceia do Senhor, tem sua culminância na grande oração de ação de graças e de
santificação. Toda a comunidade congregada se associa ao Cristo na proclamação
das maravilhas de Deus e na oferenda de sacrifício, sob a presidência do bispo
(ou do sacerdote), que faz memória dos grandes acontecimentos do mistério da
salvação, enquanto o povo intervém com aclamações, respostas e participação
ativa.
A oração eucarística é tipicamente presidencial.
Não se trata de uma fórmula feita que a assembléia possa recitar juntamente com
o presidente, pois isso a faria perder sua característica de
"memória" (evocação de algo conhecido, mas que se escuta com renovada
reverência, pois se torna presente eficazmente).
Até o século II esta oração não era escrita
e constituía a originalidade de cada celebração. Santo Hipólito de Roma é quem
fixa o primeiro esquema dos elementos essenciais de que deve constar a oração
eucarística.
N.B. Antes de se pleitear a espontaneidade
do presidente na formulação da oração consagratória, temos imenso campo para a
imaginação criadora em outras partes da celebração litúrgica (cf. IGMR 54, 55,
322. — Indicações a respeito do sentido, dinâmica e escolha das orações
eucarísticas).
Compete, pois, exclusivamente ao presidente
pronunciar em nome da Igreja e da assembléia: a epiclesis (invocação do poder
do Espírito sobre os dons dos homens, para que se tornem salvíficos), a
narração da instituição (repetição de gestos e palavras com que Cristo
instituiu o sacramento que perpetua seu mistério na Igreja de modo visível), a
anamnesis (Memorial do mistério pascal, tornando presente a pessoa do
Cristo-Senhor, em todos os fatos salvíficos da sua vida principalmente em sua
paixão, morte, ressurreição e ascensão; a Igreja, com efeito, recebeu do
Senhor, através dos apóstolos, o mandato de realizar sua ceia ao longo da
História), a oblação (em que a Igreja atual realiza a oferta não só do Cristo
presente, mas de si própria na pessoa dos fiéis que se oferecem juntamente com
seu Redentor e Senhor, ao Pai no Espírito Santo — IGMR 56).
N.B. Isso significa que o presidente deve
proclamar, em forma recitativa e com voz clara, do início do Canon até o
"Lembrai-vos". As intervenções do povo são oportunas e se manifestam
através de aclamações.
2.4.6 Preces
de intercessão
É preciso não confundir as "preces de
intercessão" que fazem parte da "Memória" com as "preces
universais" que seguem a homilia e a profissão de fé.
As "preces de intercessão"
incluídas na própria oração eucarística revelam que a Igreja celebra o memorial
do Senhor comunhão com todos os seus membros vivos e defuntos chamados a
participar da salvação adquirida pelo Corpo e Sangue do Cristo. Não se trata de
uma exposição de necessidades da comunidade humana terrestre, mas de uma
lembrança da Igreja na universalidade de seus membros, no dizer de Policarpo de
Smirna que, em voz alta, rezou "por toda a Igreja católica, espalhada por
todo o orbe" (cf. Martyrium Policarpi c.8,1; 5,1).
N.B. Na liturgia comparada e na história do
Canon nem sempre as intercessões fizeram parte da oração eucarística. Hoje
fazem parte da oração presidencial, mas em sentido menos estrito que as citamos
no item precedente. Com efeito, a memória de nomes nas preces de intercessão
era feita pelo próprio presidente ou por outro ministro (cf. Jungmann, Missarum
sollemnia, passim).
2.4.7 Doxologia
Reconhecendo em Cristo o único sacerdote e
mediador, é muito importante e oportuno que se dê especial destaque a esse
momento litúrgico, conclusivo da grande oração eucarística. Aqui é que se faz a
elevação propriamente dita do Corpo e do Sangue do Senhor, por quem sobe ao Pai
todo louvor que a humanidade lhe rende.
N.B É claro que a elevação continua até que
se tenha respondido o AMÉM. A solenidade desta aclamação cristológica pede que
evitemos qualquer pressa de passar adiante.
Embora teologicamente nada impedisse que
toda a assembléia proclamasse ou cantasse, chamamos a atenção para a real
valorização do AMÉM, que neste momento toma uma visão ampla de ratificação, por
parte da assembléia, de toda a memória feita pelo presidente, em voz claramente
audível. Como está, aliás, a doxologia é mais uma formulação presidencial que
pede resposta da assembléia; isso devido à estrutura mesma do Canon, onde as
intervenções da assembléia são as aclamações (IGMR 55h).
N.B. Sabe-se no entanto que é difícil obter
uma resposta comunitária e solene, quando o curto AMÉM é colocado depois de uma
longa oração presidencial. É preciso, pois, que se dê maior solenidade e corpo
a este AMÉM, envolvendo-o em autênticas aclamações com formulações bíblicas
cantáveis (por exemplo, inspiradas em 2Cor 1,20; Apoc 3,14; 7,10s).
2.5 Ritos de comunhão
É importante que a pastoral litúrgica, por
meio da catequese e da própria celebração, leve os fiéis a perceberem o sentido
unitário dos ritos que precedem e acompanham a recepção sacramental do Corpo e
Sangue de Cristo.
Esse conjunto é que torna vivo o aspecto de
refeição pascal. A verdade é que o "sacrifício, como a paixão de Cristo, é
oferecido por todos, mas não produz seu efeito senão naqueles que se unem à
paixão de Cristo pela fé e caridade" (Euc. Myst. 12; Sto. Tomás de Aquino
III q. 79 a 7 ad 2 ).
As práticas de piedade com que os fiéis
foram acostumados a se prepararem para a comunhão e que ainda hoje, não raro,
se costuma fazer privada ou coletivamente, não podem comparar-se à riqueza que
os próprios ritos encerram.
Destacam-se:
2.5.1
O Pai-nosso com seu embolismo, que de certo modo sintetizam e expressam
sentimentos semelhantes ao da Oração eucarística.
2.5.2
A paz pedida a Cristo, Senhor da paz, oferecida e recebida entre irmãos,
desde que este gesto não venha a ser apenas mais um rito, mas se enriqueça de
seu conteúdo profundamente humano e evangélico. Tal gesto deve comprometer os
que o fazem a se tornarem artesãos da
paz na comunidade humana.
2.5.3
A fração do pão soleniza o gesto de repartir o alimento que é
destinado a todos que crêem no dom do Senhor e não recusam recebê-lo. A mistura
do fragmento simboliza que a unidade da Igreja Universal se realiza e recebe
novo impulso na celebração da única Eucaristia na comunhão de fé e na
fraternidade que reanima e consolida o Corpo do Senhor pela força do Espírito.
Esse gesto ritual é acompanhado pelo canto ou recitação do "Cordeiro de
Deus" por parte dos fiéis.
O comer e o beber do sacramento,
alimento espiritual dos cristãos, manifesta que estamos dispostos a partilhar
com os irmãos o alimento que recebemos do Pai. O fato de assentar-nos à sua
mesa não significa apenas o desejo de nos alimentar, o cristão, pela comunhão
com Cristo, assume com ele a missão de alimentar outros e, portanto, assume o
dever de partilhar com os outros a sua fé e seus bens.
2.5.4
Mesmo certos da plena validade da comunhão sob qualquer uma das duas
espécies, conforme doutrina do Concílio de Trento (sess. 21 — Denz. 1725-1729),
não deixemos de patentear aos fiéis que a comunhão tem muito mais sentido de
sinal quando é administrada conforme a vontade do Senhor que selou a aliança
nova e eterna no seu Corpo e no seu Sangue dados sob as espécies de pão e de
vinho, onde se vê mais claramente a relação da Ceia eucarística com o banquete
escatológico do Reino.
É desejável que se admita de preferência
esta forma ele comunhão, sempre que razões pastorais sérias não venham a
dificultá-la. A luz deste princípio, podemos admitir que, mesmo regulamentando
a prática, a lista de ocasiões enumeradas não seja exaustiva; com efeito, a
própria Sé Romana já tem mais vezes alargado
tal costume graças
aos frutos verificados e para atender à justa aspiração dos fiéis
(cf. IGMR, 241-252 e 76; Euch.
Myst., 32).
N.B. Quanto
à comunhão mais de uma vez por dia, a Sé Romana vem ampliando as faculdades
concedidas, a fim de não privar da comunhão eucarística os fiéis que, por
circunstâncias especiais, participam de mais de uma celebração.
Não se trata de facilitar a piedade
individualista de pessoas que gostariam de comungar várias vezes no mesmo dia.
O critério fundamental é que se dá possibilidade de participar sacramentalmente
do mistério Eucarístico àquelas pessoas que, integrando grupos diferentes,
viessem a celebrar a Eucaristia como coroamento de sua vivência, mais de uma
vez no mesmo dia (cf. "Immensae caritatis" de 29/3/73).
2.5.5 É
bom lembrar que a matéria da
Celebração Eucarística deve, na medida
do possível, ter
o aspecto de pão (IGMR 282-283). Com urgência é preciso
providenciar a fabricação de partículas mais espessas, embora sem fermento
conforme o costume introduzido na Igreja latina.
Isso é exigido, diz o Missal Romano (nº
283), em razão do sinal. A fração deveria permitir a distribuição de pedaços do
mesmo pão, ao menos, a alguns participantes da Eucaristia, manifestando assim a
força e a importância da unidade da Igreja num único pão.
N.B. Quanto
ao modo de distribuir a comunhão e ao tratamento a ser dado aos fragmentos na
purificação (cf. De sacra comm. et de cultu euch. extra missam 2-22).
2.5.6 O
silêncio faz parte da celebração
eucarística (IGMR 23) porque se
faz Palavra e fonte de palavra quando é profunda comunhão sem ruído nem vazio.
É do silêncio que se produzem as palavras de sabedoria, bem como as palavras
produzem o silêncio da meditação. O silêncio se faz indispensável para que a
oração presidencial brote do coração, a
palavra de Deus se torne eficaz,
a Eucaristia seja assumida como crescimento de comunicação (cf. Diretório
das missas com crianças nº 22 e 37; EM 38).
O silêncio é que dará maior sentido e
profundidade à oração presidencial do pós-comunhão.
2.6 Ritos de conclusão
A bênção final, felizmente enriquecida com a
oração sobre o povo, e bênçãos solenes em certas festas, dão maior determinação
às palavras empregadas normalmente. Estas formulações foram adotadas pelo novo
missal e retomadas das contribuições vindas dos séculos VI ao X, na liturgia
Romana.
2.6.1 Diante
da bondade e beleza das realidades criadas, sobretudo daquelas que são feitas à
imagem e semelhança do Criador (Gn 1), o cristão bendiz, glorifica e exalta o
Senhor do universo. Bênção que evoca a necessidade de proclamar as maravilhas
do Senhor.
2.6.2 Há
também a bênção descendente, em que Deus confere poder e santidade aos seus
servidores — por exemplo, os patriarcas que abençoam seus descendentes, Cristo
que abençoa os apóstolos, a Igreja que reserva objetos para o uso do serviço do
Senhor. É a oração petitória dos homens em forma de liturgia.
2.6.3 Este
o momento precioso para um contato bem humano e cordial; mas ao mesmo tempo
comprometedor para a vivência durante a semana. Os fiéis devem concluir a
assembléia com algo bem concreto a realizar no seu dia-a-dia, sinal da unidade
da assembléia que se dispersa, mas, permanece unida na construção do Reino.
N.B. Antes
da despedida e bênção final é que se devem dar oportunamente os AVISOS. Nunca e
de modo algum antes, durante ou depois da homilia, nem antes do pós-comunhão.
Era este o momento em que os irmãos determinavam o local da próxima reunião e
em que se entendiam sobre o que fazer em conseqüência da assembléia eucarística
e da palavra ouvida, fonte de um chamado a um maior compromisso com o
"mundo melhor".
2.7 Dimensões do mistério Eucarístico
2.7.1 Vivendo
do sacramento dado, para a vida do mundo, o cristão deve colocar-se a
serviço do homem para completar a obra de
Cristo, construindo um
mundo novo fundado
na justiça, na verdade e no amor (cf. Jo 6,51; Oct Adv. An. 36, 43, 45;
Medellin 11,18; 10,11).
2.7.2 Sacramento
da libertação do homem, a Eucaristia denuncia os egoísmos e
privilégios; ela engaja o cristão a lutar contra as injustiças e
desigualdades para que cessem os ódios e as divisões (cf. Evang. Testificatio 18; Oct. Adv. An. 15, 47, 48; Medellin 9,
14).
2.7.3 Sacramento
da unidade do mundo, compromete quem dela participa a lutar pela justiça
e pela paz e aviva a solidariedade com todos os que trabalham para o
desenvolvimento do homem e na criação
de um mundo mais fraterno (cf. Evang. Test. 18, 19; Oct. Adv. An.
7; Euch. Myst. 6, 7, 18; Medellin 9, 12).
Na medida em que nos engajamos a viver deste
modo o mistério da Eucaristia, nossas celebrações encontram seu sentido e testemunham
nossa consagração aos homens
e ao Cristo (cf. Oct. Adv. An.
46; Nostra Aet. 5; Medellin 10, 12;8, 10; 9, 3.7).
2.7.4 O
amor do Cristo e a celebração da Eucaristia reúnem os cristãos em comunidades
vivas onde todos se amam verdadeiramente.
Disponíveis aos apelos do
Espírito e atentos às necessidades dos homens, as comunidades que
se reúnem para a Eucaristia tornam-se sinal e fermento da unidade
que o
mundo de hoje, disperso e
atormentado pela solidão,
procura (cf. Evang. Test. 38, 39; Euch, Myst. 18; Medellin 6, 9, 13; 9, 3;
15, 6) .
2.7.5 Desse modo
os cristãos devem
tomar consciência de que as assembléias e a própria vida do
dia-a-dia não podem ser plenamente Eucaristia, se não forem consagradas aos homens, procurando
servir às pessoas e não às estruturas (cf. Gaudium et Spes 25).
2.7.6 Além
disso, a exemplo do Cristo com quem comungamos pelo sacramento, devemos partilhar
a vida dos homens e viver na verdade a dimensão humana do Evangelho.
No entanto, isto não será possível se a
comunidade não se reunir freqüentemente numa real co-participação nas
aspirações e recursos, num sincero questionamento de sua influência na
realização do pleno desenvolvimento das pessoas e da sociedade.
2.7.7 Pode-se
dizer que a Eucaristia tem uma exigência fundamental de transformação do homem,
pois, "anunciamos a morte do Senhor até que Ele venha" (1Cor 11,26).
Tanto o seu coração egoísta e pecaminoso, quanto as estruturas opressoras e
exploradoras devem ser transformadas pela Eucaristia
(Medellin 1,2; 2,16; 4,3; 10,2.15,1; 1,3.14; 7,19) a fim de que apareça o
testemunho e que a liturgia deve levar a Igreja e cada cristão (Medellin 9, 3
.7).
CAPÍTULO
III
A DISTRIBUIÇÃO DA EUCARISTIA
3.1 A
Eucaristia, deixada pelo Senhor como penhor da esperança e viático para esta
caminhada na comunhão fraterna, é o alimento que faz a Igreja viver o dinamismo
pascalizante e transformador (cf. 1Cor 11,20s).
3.1.1 É
importante que na pastoral se supere a idéia de "alimento para a piedade
individual" mas se dê ênfase às
dimensões de compromisso comunitário e social deste sacramento, que insere os
que dele participam, no corpo de Cristo visivelmente presente no mundo (cf.
Presb. Ord. 5; De Sacra Comm. nº 15).
3.1.2 Em
vista destes objetivos, é necessário que se reveja a pastoral da celebração e
distribuição da Eucaristia, evitando-se uma espécie de rotina para uns poucos
privilegiados e privando outros do necessário alimento.
Uma distribuição melhor da Eucaristia, que
possibilite o maior número de pessoas celebrar e comungar, manifestará mais
evidentemente a união eclesial e dinamizará a fraternidade pela freqüente
participação sacramental eucarística.
3.1.3 O
magistério tem sempre incentivado a comunhão freqüente, e sabemos como a
regular e assídua participação no sacramento Eucarístico contribui para o
crescimento na fé e compromete com uma ação comunitária (De Sacra Comm. N.º
14).
N.B. Para facilitar a participação freqüente
na Eucaristia, deve-se atender às necessidades legítimas dos fiéis, máxime
daqueles que estão impedidos de se unir fisicamente à assembléia que se reúne
em determinada lugar e hora.
Portanto, além de atendimento aos enfermos e
idosos, pode-se distribuir a comunhão fora da missa aos que pedirem por estarem
legitimamente impedidos no momento da celebração.
Cuide-se, no entanto, de educar essas
pessoas para o sentido da
íntima ligação que
existe entre o "Sacramento conservado" e a
"ação litúrgica", de modo que sempre comunguem em união com o
sacrifício pascal do Cristo e com o seu Corpo, que é a comunidade eclesial (cf.
Euch. Myst. N.º 3a; De Sacra Comm ... nº 15). Evitem-se os exageros de desligar
"comunhão e ação eucarística"
mas também a rigidez de negar a participação no sacramento da unidade às
pessoas legitimamente impedidas de se reunirem mas que vivem na comunhão eclesial.
3.1.4 A
união com Cristo pela Eucaristia ajudará o cristão a colocar toda a sua vida
sob a moção do Espírito Santo e lhe ensinará a viver dia-a-dia em ação de
graças, produzindo muitos frutos no amor (cf. De Sacra Comm. ... nº 25).
3.2 Conseqüências práticas
3.2.1 É
necessário que, através da catequese, se faça perceber que a Eucaristia,
sacramento da unidade, não se limita à posse do Corpo do Cristo em benefício do
indivíduo que crê na sua presença; a comunhão pessoal com Cristo Eucarístico é raiz
e centro da comunidade cristã e educadora do Espírito comunitário que significa
e realiza a unidade da Igreja
(cf. AG 9; PO 6; ver nota 31; CD 30/2; LG 3; Medellin 6, 9.13; 9, 3;
15,6; De Sacra Comm. 3).
3.2.2 Cuide-se
para que com freqüência, os grupos que se reúnem no Senhor para meditar o
Evangelho e questionar sua vida à luz do exemplo de Jesus de Nazaré, tenham
facilidade de se alimentarem com a comunhão eucarística, fonte e ápice da vida
cristã e de toda a evangelização (cf. LG 11, PO 5).
O mesmo é de se desejar que aconteça nas
famílias, quando estas se reúnem por algum motivo particular (festas, datas,
acontecimentos) e à luz da fé manifestam uma autêntica dimensão de Igreja
doméstica (LG 11).
A celebração doméstica da Eucaristia é uma
redescoberta preciosa da pastoral e fonte de muitos benefícios, desde que não
se torne privilégio de relação amigável e seja autêntica concretização da
Igreja no lar. Essa atitude de santificar tais reuniões familiares com a
participação sacramental da Eucaristia, do Cristo, é apta a manifestar a
materna solicitude com que a Igreja se alegra, sofre e vive presente onde seus
filhos oferecem o sacrifício espiritual, agradável ao Senhor.
3.2.3 É
evidente que em nossas extensas paróquias rurais, onde os fiéis são privados da
celebração eucarística por diferentes motivos, nem por isso devem ser
abandonados à dispersão, mas convocá-los a se reunirem para o crescimento na
evangelização e para o louvor público do Pai, quer na capela que tiverem
logrado construir, quer em outro lugar apto a acolher os irmãos.
Nestes casos, a atenção pastoral deve estar
particularmente voltada para essas comunidades cristãs que, embora ainda
privadas da presença do ministério presbiteral, não podem ser deixadas sem o
alimento que contém todo o bem espiritual da Igreja, alimenta a caridade para
com Deus e para com os homens, é a fonte de todo apostolado e
que fará a
Igreja criar raízes,
a ponto de fornecer
os ministros de
que tem necessidade
(cf. PO 5, 14; AG 39, 19, 15, 16).
3.2.4 Igual
atenção pastoral deve-se dar aos nossos irmãos que sofrem nos cárceres
inocentemente, por causa do Evangelho, ou em reparação dos seus pecados. A
Eucaristia deverá ser a força libertadora, sobretudo nestes tempos em que se
acham tolhidos também da liberdade social por que anseiam. Além da visita dos
irmãos na fé os confortar e alimentar, a Eucaristia será força purificadora e
testemunho de união.
3.2.5 É
justamente em vista dessas necessidades que se torna urgente a preparação de
ministros da palavra e acólitos (ou ministros extraordinários da comunhão
eucarística) para que o pão partido seja de fato levado aos membros da
comunidade, onde quer que se encontrem realizando sua missão como Corpo de
Cristo.
N.B. De Sacra Comm. nº 24 recomenda especial
atenção para com os enfermos, idosos e pessoas que destes se ocupam.
Essa tarefa urgente e indispensável de
colocar a Eucaristia ao alcance de todos os cristãos, evangelizando-os para que
integrem o Corpo de Cristo que é a comunidade e se alimentem com o sacramento
do Corpo e do Sangue do mesmo Cristo, constitui o núcleo central do ministério
presbiteral e é nisso que o mesmo se consuma, pois toda missão apostólica, bem
como todos os sacramentos se ligam à Eucaristia e a ela se ordenam (cf. PO
2,5).
3.2.6. Os
acólitos são de fato, constituídos como ministros extraordinários, para
responderem às necessidades dos fiéis e a Igreja prevê que os ordinários podem
estender essa faculdade de distribuir a Eucaristia, a outros fiéis, desde que
isso venha a ser útil à comunidade (cf. Immensae caritatis de 29.01.1973, nº
1,I e II; Ministeria quaedam nº 31; De Sacra Comm ... nº 17).
N.B. a) Convém chamar a atenção para o
perigo de constituir ministros extraordinários da Comunhão Eucarística sem real
necessidade pastoral, apenas para facilitação dos serviços nos centros já
servidos por outros ministros. Cairíamos na tentação de enriquecer os que já
possuem e continuar deixando no abandono os pobres, desprovidos da necessária
assistência por parte da Igreja (cf. Immensae caritatis).
b) É evidente que a distribuição da Eucaristia deve sempre inserir-se
num contexto de vivência e de proclamação da fé que reúne a comunidade. Por
isso, salvo impossibilidade real, a celebração da palavra é indispensável ao se
distribuir o sacramento (cf. Ritual para a distribuição da comunhão fora da
missa. De Sacra Comm. nº 26-53).
c) Veja-se a respeito do incentivo à "comunhão freqüente" e à
facilitação para a mesma, a Instrução "Immensae caritatis"; De Sacra
Comm. passim.
CAPÍTULO
IV
CULTO EUCARÍSTICO
4.1 Sentido do Culto Eucarístico
Se quisermos que a Eucaristia se torne o
"coração da vida cristã" (AG 9; PO 6; CD 30), é preciso que
compreendamos sempre mais profundamente o sentido da própria celebração e, à
sua luz, tomemos consciência de todos os aspectos da vida sacramental da
Igreja. Para vivermos plenamente este mistério e revelarmos sua significação, é
necessário que procuremos compreender toda a realidade humana à luz do mistério
da Páscoa, de que a Eucaristia é Memorial. Com efeito, os sinais sacramentais
manifestam de maneira única e privilegiada a presença do Cristo pascal à sua
Igreja, difundindo sua vida em nós, pelo dom
do Espírito Santo
(cf. Evang Test. 48; Euch. Myst. 50; De Sacra Comm. nº 80).
É justamente por isso que o magistério e a
fé da comunidade eclesial, desde há
muitos séculos, destacam o valor da oração, tanto particular como pública,
feita perante as sagradas espécies que
são conservadas para
alimento dos irmãos
ausentes quando da reunião
da assembléia (cf. De Sacra Comm. nº 3, 4 e 79; EM nº 58).
A participação na celebração litúrgica
deverá influenciar toda a vida do comungante e conduzi-lo a uma vida de
autêntica oração (cf. De Sacra Comm. 81), sob pena de se tornar um comportamento
alienante (cf. PO 6; GS 41, 43; Euch. Myst. 13; Medellin 9, 3-4).
O culto à presença do Senhor sob as espécies
consagradas está bem em harmonia com as afirmações da SC nn. 9-12 em que se
afirma que as ações litúrgicas não esgotam toda a ação da Igreja.
Portanto:
4.1.1 incentivar os
fiéis a orarem
diante do Sacramento a fim de que percebam
melhor as exigências
da Eucaristia (pastoralmente muito frutuoso e liturgicamente válido
(cf. Euch. Myst. 50; Evang. Test. 35);
4.1.2 Atrair
a atenção da comunidade para os sinais eucarísticos, colocando-os em evidência
(por ex. pela exposição ou outro meio que responda à sensibilidade cultural de
determinado povo ou meio social) para evocar o memorial de sacrifício do
Senhor, favorece a comunhão com o Cristo, na fé e na caridade, e urge o
compromisso de "'testemunharem com o próprio comportamento e com toda a
sua vida aquilo que
receberam pela fé e pelo
sacramento" ( Euch. Myst. 13; cf. Euch. Myst 60).
4.1.3 Nos
templos ou capelas em que se conserva a Santíssima Eucaristia, deve-se promover
oportunamente o culto público da oração diante do Ssmo. Sacramento, para
incentivar a comunidade local à meditação deste mistério que celebra (cf. De
Sacra Comm. N º 86).
4.2 Condições para o Culto Eucarístico
4.2.1 É
necessário que se cuide muito da formação para a oração, a fim de que tais
práticas não venham a se tornar apenas atos exteriores, vazios de ligação com a
Eucaristia, favorecendo o sentimentalismo, e mais tendentes à solenidade do que
à profundidade que ajuda a assimilar o conteúdo próprio do Sacramento. Mais
importante do que qualquer preocupação com pompas e aparatos externos é criar
um clima de recolhida oração em torno das espécies.
N.B. a) Embora
uma digna solenidade corresponda à realeza de Cristo glorificado, presente na
Eucaristia, convém insistir mais sobre o conteúdo e o clima de oração. É
importante que se conserve uma real hierarquia de valores, para que a exposição
não seja mais destacada do que a própria celebração do sacramento da Eucaristia
(cf. De Sacra Comm. nº 85, onde se fala a respeito do uso das velas para a
exposição).
b) É
bom lembrar que a genuflexão com os dois joelhos (prostração), introduzida num
contexto histórico para testemunhar publicamente a fé na presença, hoje volta à
sua expressão tradicional, isto é, à genuflexão simples, com um só joelho mesmo
diante do Ssmo. Sacramento exposto (cf. De Sacra Comm. nº 84).
4.2.2 Não
sendo um ato absolutamente desligado e independente, deve manter a relação com
a celebração e a comunhão eucarísticas, a elas se subordinar e delas depender,
sob pena de perder sua realidade e significação (De Sacra Comm. nº 80).
4.2.3 No
silêncio e na paz da oração, torna-se mais fácil compreender toda a realidade
humana à luz da Eucaristia que nos oferece uma maravilhosa síntese da revelação
e do plano de Deus (cf. PP 13).
4.2.4 Como
o grão de mostarda que não cessa de crescer, assim a Igreja progride no
conhecimento das realidades e das palavras que lhe foram transmitidas, máxime
da significação do mistério da Eucaristia. Provocar tal aprofundamento pela
promoção do culto da Eucaristia, julgamos sumamente proveitoso à consciência da
própria Igreja (De Sacra Comm. nº 81; EM nº 13).
4.3 Formas do culto
A exemplo do Cristo Jesus, que "veio
para fazer a vontade do Pai" e viveu seu mistério pascal como uma contínua
oração, também nós descobriremos na celebração da Eucaristia uma exigência de
oração como meio para interiorizar o engajamento que nos impele ao
serviço dos irmãos num espírito de
amor (cf. Jo 13, 19; PC 5; Ecl.
Sanct. 21).
4.3.1 A
visita ao Sacramento, conservado no sacrário ou exposto de modo mais visível,
tem como escopo cimentar essa união com o Cristo, fazendo-nos pensar na ação
sacrifical da celebração de ontem e de amanhã e nas disposições para o
sacrifício, comprometendo-se mais profundamente na promoção da unidade.
Seria, pois, de toda conveniência que os
cristãos pudessem encontrar um momento para voltar ao silêncio da meditação,
mesmo durante a jornada ou na calada da noite, para deixar que a união
eucarística se aprofunde e se enraíze. Assim, o prolongamento da ação de graças
levaria os que participam da comunhão eucarística a assumir as conseqüências
deste ato comunitário. Essa ação de graças, que já na própria celebração tem
seu lugar, não se esgota nos curtos momentos de uma ação comunitária; por isso
é conveniente que na VISITA ao Santíssimo, também chamada "adoração ao
Santíssimo" se tome calmamente o tempo que for necessário para vivenciar
as exigências da celebração litúrgica (Euch. Myst. 13).
Cuidem, pois, os pastores para que os
templos e capelas em que se conserva a Santíssima Eucaristia, fiquem abertos
certo número de horas por dia a fim de facilitar e favorecer a prática da
visita para rezar diante do Sacramento (cf. De Sacra Comm. nº 8).
4.3.2 Assim,
a benção com o Sacramento, desde que não seja uma concorrência com a
própria ação eucarística (por exemplo, colocada imediatamente antes ou depois),
poderá tornar-se um momento precioso para reviver as dimensões da própria
assembléia. Enfeixada numa celebração da palavra, reúne a comunidade em
autêntica contemplação, se for precedida de conveniente catequese e celebrada
com espírito pastoral (cf. Mediator Dei, AAS 39-1947, p. 566).
É bom notar que não tem sentido expor o
Santíssimo Sacramento apenas para dar a bênção com as sagradas espécies. Mesmo
que não haja possibilidade de prolongar muito a exposição, é necessário que se
preveja um tempo suficiente para uma celebração com hinos, cânticos, preces,
leituras da Palavra de Deus e meditação do mistério. Em seguida encerra-se com
a Bênção ( cf. De Sacra Comm. nº 89).
4.3.3 As
procissões correspondem a uma especial sensibilidade popular. A pastoral não
poderá facilmente inocentar-se de uma falta de respeito ao povo, suprimindo
essa forma de devoção.
Deve-se, no entanto, distinguir as
procissões de cunho popular, tão amplamente freqüentadas, e a procissão
eucarística cujo significado específico supõe uma vivência deste mistério.
4.3.3.1 Lembramos
apenas a oportunidade que as procissões populares podem oferecer de uma ação
evangelizadora, se forem bem preparadas e, por meio de adequados aparelhos
sonoros, se puser ao alcance de tantas pessoas a Palavra de Deus, hinos,
cânticos, preces... entremeados de breves reflexões evangélicas aplicadas à
caminhada da vida cotidiana para a casa do Pai.
4.3.3.2 A
procissão com o Santíssimo Sacramento tem um sentido muito próprio, isto é, o
de demonstrar publicamente a fé e a união de muitas comunidades que celebram e
crêem no mesmo sacramento, força de unidade de toda a Igreja. É benéfico fazer
pequenas comunidades e/ou as paróquias de uma mesma diocese convergirem para um
lugar onde, sob a presidência do Bispo, os fiéis proclamam sua unidade a partir
da Eucaristia.
N.B. Parece não atender à finalidade do
solene rito de levar a Eucaristia pelas ruas ("per vias") a fim de
dar testemunho público da fé e piedade da comunidade cristã para com o
Santíssimo Sacramento, as procissões feitas no interior de um campo (cf. De Sacra
Comm. nº 101 e 107).
4.3.3.3 No
entanto, as dificuldades são reais e, não raro, corre-se o risco de
promover mais um aglomerado de pessoas do que constituir uma assembléia. Neste
caso, a Eucaristia se tornaria um testemunho equívoco, pois, ao invés de reunir
pessoas que descobriram o sacramento como vínculo de unidade, estaria sendo
espetáculo para todos os sentimentos estranhos à fé autenticamente cristã.
Cremos que só se poderá evitar um movimento estranho à profunda intimidade do
sacramento se, além do emprego de técnicas de comunicação, procurarmos
salvaguardar o sentido autêntico do sinal de uma convocação que congrega
cristãos de diferentes localidades, mas sem perder a dimensão comunitária
da reunião. A grande "massa humana" que costuma comparecer não poderá
ser tratada como uma multidão informe, mas deverá manter autêntica estrutura de
grande grupo organizado, em subgrupos onde a fraternidade seria
experimentada e manifestada, testemunhando as dimensões de fé comunitária
exigida pela Eucaristia.
4.3.3.4 Acrescem
a estas dificuldades a realidade urbana de muitas de nossas paróquias. Além do
aglomerado de pessoas atraídas pela necessidade de movimento, sem contudo terem
a convocação da fé, o trânsito, nas grandes cidades mesmo com as
precauções oficiais, sofre tamanho transtorno, que provoca uma conseqüente
irritação contrária ao louvor do Cristo sacramentado.
Também esse fator deverá ser levado em conta, juntamente com o pluralismo
religioso, para se decidir sobre a conveniência de se promover ou não a
procissão pelas ruas de determinada cidade.
4.3.3.5 No
caso de não se poder realizar uma digna procissão, devido às dificuldades
locais, máxime nos grandes centros urbanos onde os inconvenientes são mais
acentuados, é de grande significado pastoral que se promovam concentrações de
comunidades paroquiais para uma concelebração na catedral ou outras formas
públicas de celebração em que a Igreja particular reze unida na grande
solenidade do Sacramento da unidade (cf. De Sacra Comm. nº 102).
4.3.4 Apêndice:
Uma experiência renovadora
Apresentamos uma experiência, cujos efeitos
benéficos poderiam ajudar a reflexão:
— Um
pároco resolveu com seus paroquianos e demais sacerdotes da cidade manifestar o
significado de unidade eclesial da Eucaristia. No dia da festa, celebrou-se uma
única Eucaristia na paróquia. A fim de preparar esta celebração, equipes
organizadas percorreram todas as capelas da paróquia. De cada capela viria à
celebração da matriz uma Comissão representativa.
A hora acertada, estavam na matriz para a
concelebração todos os sacerdotes da cidade, o povo da paróquia e os
representantes das capelas em que se havia feito a preparação.
O pároco fez a homilia e entregou-a por
escrito a seus paroquianos .
Após a comunhão dos presentes, cada ministro
recebeu das mãos do pároco o Sacramento e, acompanhados pelos fiéis de cada
respectiva comunidade (ou capela rural), partiram rumo às suas igrejas.
Ao chegar no lugar previamente
convencionado, a comunidade estava reunida. Daí partia a procissão, tendo à
frente o ministro da Eucaristia com o Santíssimo Sacramento, seguido de todo o
povo que rezava e cantava. Chegados ao lugar em que a comunidade se reúne
normalmente, fez-se uma celebração, leu-se a homilia do pároco e distribuiu-se
a comunhão.
4.3.4.1 O
mesmo processo é viável em âmbito diocesano, se o bispo preside a Eucaristia
com representações de todas as paróquias, caso a diocese tenha dimensões
geográficas que o permitam fazer.
4.3.4.2 Para
que isso tenha realmente efeito de testemunho e sinal, é preciso que se criem
nestas ocasiões assembléias diocesanas e/ou paroquiais mesmo que para isso se
tenha de suprimir outras celebrações da Eucaristia naquele dia.
4.3.4.3 Caso
não seja possível esse método, é de toda conveniência que à celebração eucarística
compareçam representantes das paróquias, constituídos em grupos comunitários.
Que estes recebam das mãos do bispo a comunhão sacramental.
Em seguida, que o fiéis acompanhem o bispo
com o Santíssimo Sacramento até o local em que se guardará a Eucaristia (de
preferência a catedral). Poder-se-á dar ali a bênção com as sagradas espécies,
mas ficará fora de propósito celebrar uma segunda vez a Eucaristia,
simplesmente para se redistribuir a comunhão, dando a impressão de que a
consagração é feita para "distribuir a Eucaristia".
4.3.4.4 É
importante que se cuide mais da preparação dos fiéis que acompanham a procissão
do que da propaganda em vista de avolumar o número dos participantes.
4.3.5 Congressos
eucarísticos (diocesanos, nacionais e/ou internacionais)
O que se disse a respeito da procissão
eucarística vale, em parte, com relação aos congressos, a fim de que não se
tornem simples motivo de um turismo ocasionado por uma promoção
religioso-eucarística. O mais importante é que a movimentação se torne oportunidade
de evangelização coletiva, capaz de canalizar os esforços.
Os congressos podem ser motivo de uma
polarização evangelizadora, como o tem demonstrado a Campanha da Fraternidade,
desde que mereçam especial atenção pastoral e assessoramento com oportunos
subsídios teológico-catequéticos e não se tornem quase exclusivamente uma
atividade de companhias de turismo.
4.3.6 Com
efeito, os Congressos Eucarísticos são manifestações por meio das quais uma
Igreja particular convida outras Igrejas (de determinada região, país ou até de
todos os continentes) para viverem juntas o mistério da unidade e aprofundá-lo
sob um aspecto particular.
Por isso, para que um Congresso seja
realmente Eucarístico, é necessário que cada Igreja particular participe
intensamente da preparação e se una às outras delegações representativas, no
mesmo vínculo de fé e caridade (cf. De Sacra Comm. nº 109).
4.3.7 Pastoral
da adoração do Santíssimo
É preciso que os assim chamados
"Santuários da Adoração" criem melhores condições de educar para uma
autêntica vida de oração. Não devem tornar-se um lugar sacralizado, mas
inserido na pastoral da diocese, sejam verdadeiros centros de culto e promovam
em todas as paróquias e capelas o espírito de adoração ao Santíssimo
Sacramento, onde quer que seja conservado. Os Santuários devem se tornar mais
centros de incentivo e coordenação do culto Eucarístico, do que o único local
de adoração.
Para que isso aconteça é indispensável que
haja um atendimento solícito aos grupos que os freqüentam a fim de irradiar o
espírito que aí se cultiva.
Faz-se, pois, necessário, repensar a função
dos santuários na pastoral. As condições de meios de comunicação (trânsito) e
os horários de intensa participação num mundo de trabalho não permitem mais a
concretização de um ideal simplista neste sentido, mas exigem um planejamento
realista.
Não seria mais eficiente o deslocamento de
equipes especializadas para a promoção da educação eucarística nas comunidades
paroquiais e aí organizar o culto comunitário, do que atrair pessoas para um
"lugar de exposição perpétua", tirando-as das comunidades eclesiais
em que vivem e celebram a Eucaristia?
Não seria esta pelo menos uma meta que os
santuários devem ajudar a descobrir?
4.3.8 Em
todos os templos e capelas em que a Eucaristia é conservada, deve-se dar real
destaque a esta dimensão do Sacramento (cf. De Sacra Comm. nº 86), por exemplo,
promovendo horas coletivas de oração diante do Sacramento, no sentido de fazer
reviver as dimensões próprias da celebração e de despertar a atenção dos fiéis
para o caráter de permanência da presença sacramental de Cristo em sua Igreja.
Sobretudo, os grupos que se reúnem para tardes ou dias de oração e
aprofundamento na fé sejam incentivados a orar diante do Sacramento. Essa
preocupação pastoral terá como resultado centrar a vida cristã no Sacramento da
Unidade
N.B. Aliás, outros santuários não
especificamente Eucarísticos também devem orientar sua pastoral para levar os
peregrinos à descoberta do sacramento da Eucaristia como centro, raiz e fonte
de toda a evangelização e vida cristã.
CAPÍTULO
V
A PREPARAÇÃO DE PRESIDENTES E DEMAIS MINISTROS DA ASSEMBLÉIA
LITÚRGICA
O princípio da natureza eclesial da liturgia
faz, por um lado, que ela se ligue aos ministros competentes — em última
instância ao bispo que lhe dá cunho apostólico — e ao mesmo tempo, sendo sinal
e expressão sincera da fé dos cristãos, deve-se admitir "variações e
adaptações legítimas aos diversos grupos, regiões e povos" (SC 37). A
autêntica natureza da própria celebração não pode vincular-se a uma rígida
uniformidade ritual contanto que se salve a "unidade substancial" no
que respeita à fé e ao bem de toda
a comunidade (SC 37 e 38).
Mesmo reservando algumas questões à Sede
Romana, a "Instrução Geral sobre o Missal Romano" (passim) determina
expressamente que possíveis adaptações nos diferentes rituais, inclusive da
Eucaristia, dependem das Conferências Episcopais e do bispo, moderador dos sacramentos (SC 41; LG 26). A
comunidade concreta, dirigida pelo presbítero, também goza de uma margem de
adaptabilidade que lhe permita tornar mais viva a celebração. A fim de melhor
atender às necessidades de cada grupo ou comunidade e ao mesmo tempo manter-se
a unidade eclesial da liturgia, as modificações mais profundas, mesmo as não
revistas nos livros litúrgicos, podem e devem ser levadas à Conferência
Episcopal, que por sua vez proporá à Sede Romana sua petição em vista do bem da
Igreja (cf. SC 40, 63, 65, 77, 79).
N.B. Este trabalho ainda está por ser
começado, embora seja da máxima urgência. A pastoral litúrgica no Brasil
ressente-se da necessidade de organismos de reflexão litúrgica e de formação de
pessoas com mentalidade e capacitação para promover a renovação preconizada
pelo Concílio.
De modo geral, a renovação está consistindo
na simples adoção de novos ritos e missal, sem uma formação conveniente da
consciência do novo enfoque que a liturgia recebeu a partir do tratamento
teológico dado ao assunto nos documentos conciliares.
5.1 A arte de presidir a celebração
É a partir de uma eclesiologia eucarística
que podemos atribuir a presidência normal da Eucaristia ao bispo. (Cf. Justino,
I Apol. 65 e 67; Concilium 71, 1972/1, pp. 18-27) .
De fato, santo Inácio de Antioquia enfatiza
essa função do bispo, dizendo:
"Toda celebração eucarística
realiza-se, em regra geral, sob
a presidência do Bispo ou daquele que o substitua" (in Smyrn 8,1, cf.
Cartas de Santo Inácio de Antioquia — Ed. Vozes).
Sob muitos aspectos, o pároco de uma
comunidade pode ser equiparado ao bispo, pois de fato exerce em concreto a
função de "quasi-episcopus". O importante é que o sacerdote que
preside a assembléia, fazendo as vezes de Cristo (IGMR nº 60), tenha realmente
consciência de sua função específica que é a de manter a comunidade congregada
num autêntico dinamismo vivencial e libertador, coordenar na unidade as demais
funções que os diferentes ministros exercem, explicitando a ministerialidade da
Igreja não individualmente, mas em colegiado. É o que deparamos de modo
explícito em Paulo quando fala de "bispos" (no plural) e diáconos
chefiando a comunidade local. Os múnus de presidente (de bispo) pode, pois
teologicamente, ser exercido colegialmente e cada um dos concelebrantes age
"in persona Christi" e como "Cabeça" da Igreja reunida. A
qualquer um deles, e a todos colegialmente, compete pronunciar a Oração
Eucarística sobre o pão e o vinho, tal como, na última Ceia, Cristo pronunciou
o hino de ação de graças, instituindo a Nova Aliança no seu sangue. A
concelebração mostra publicamente a unidade do ministério eclesial.
N.B. Isso também era aplicado à
concelebração, na qual teria sido impossível que o presbítero recitasse em
comum a Oração Eucarística, já que até o século IV a Igreja não possuía nenhum
formulário fixado por escrito. Temos o valioso testemunho de São Justino que
escreve: "O presidente da assembléia dos irmãos" faz a oração
eucarística "da maneira como
cada qual puder
fazê-la" (I Apol. cap. 67;
cf. Didaqué, cap. 10).
Aliás, mesmo nas orações a serem recitadas
em comum por todos os concelebrantes, a voz do presidente deve aparecer
DISTINTAMENTE e os demais concelebrantes apenas acompanham com
voz submissa, quando
o ritual o
prevê (IGMR nº 170).
A margem de liberdade deixada aos
presidentes não deve prejudicar o bem da comunidade nem lesar a unidade
eclesial. Compete pois ao pároco, com sua equipe de ministros e em comunhão com
o bispo, verificar a oportunidade de uma concelebração, a forma de distribuição
da comunhão etc.
No entanto, leve-se em conta que as
assembléias são diversificadas e isso condiciona notavelmente a função do
presidente. Não se pode agir do mesmo modo com uma assembléia das 7 da manhã e
outras com prevalente participação de crianças ou de jovens. Animador da
comunidade reunida, o sacerdote deve comunicar-se e fazer com que os gestos,
ritos e palavras comuniquem e expressem a fé vivenciada por um povo que
participa, isto é, que toma parte no mistério do Cristo — primeiramente por sua
vida comprometida evangelicamente e em seguida na celebração desta vida de
comunhão em Cristo.
A preocupação do presidente da assembléia
litúrgica deve ser antes a de servir à comunidade do que a de ser exatamente
fiel às rubricas, sobretudo quando estas deixam margem à espontânea
criatividade que provém de uma vivência da fé, comunicada e expressa
publicamente, superando o mero esteticismo.
A fim de que a celebração não se torne um
monopólio do sacerdote, é necessário que a comunidade possa assumir sua função.
A liturgia deve voltar a redescobrir a arte que lhe é própria se quiser que a
leitura transmita verdadeiramente uma mensagem, que o salmo seja uma autêntica
resposta à leitura, que as atitudes corporais expressem algo, pessoal e
comunitário, que (os movimentos se revistam de significação, que os ritos se
tornem celebração da fé! Não basta executar a seqüência de rubricas
preestabelecidas. A "institutio" tenta levar-nos à descoberta do
espírito e da tônica artística da celebração.
N.B. Habituado a celebrar para um povo
silenciosamente atento, mas inativo, o clero tem muita dificuldade para se
tornar animador de uma assembléia em festa. Faz-se urgente uma reeducação e até
mesmo um treinamento de expressões corporais.
Ao presidente compete
5.1.1 Introduzir
a assembléia num clima de oração e conservá-la ou reconduzi-la a esta atitude
fundamental, por meio de intervenções simples e oportunas.
5.1.2 Concluir
as diversas partes da celebração com uma oração presidencial (Rito de entrada —
COLETA; Celebração da Palavra INTRODUZIR e CONCLUIR — A ORAÇÃO DOS FIÉIS,
Apresentação das ofertas — ORAÇÃO SOBRE AS OFERENDAS, Rito de Comunhão —
PÓS-COMUNHÃO).
5.1.3 a) O prefácio, homilia poética de ação de graças,
formal, pública e solene, começa em forma de diálogo, prolonga-se em solene
recitação do presidente e conclui pela aclamação hínica, CANTADA por toda a
assembléia.
b) Oração
eucarística, memória entrecortada pelas aclamações.
N.B . Em certas orações eucarísticas mais
longas, seria muito oportuno que se pensasse em novas aclamações para favorecer
a participação do povo. A monotonia em que pode cair leva muitos sacerdotes a
convidar erroneamente a assembléia a tomar parte na recitação da Memória, que é
típica e exclusivamente presidencial.
O tom de voz deve colocar em relevo o
caráter peculiar de cada texto, sendo que os momentos mais importantes (relato
da instituição e doxologia) podem ser ressaltados com o canto .
5.2 Os ministérios na celebração
A
liturgia é o
momento em que
"se expressa", em ação essencialmente simbólica,
a realidade vital
do mistério da Igreja, Corpo de
Cristo, em que
cada membro tem
funções e o
todo realiza a missão a ela confiada (cf. 1Cor, 12,27; Ef 1,22-23; Col
1,18-24).
5.2.1 A
função da assembléia
Durante os últimos séculos, o povo na
Liturgia Romana não tinha papel específico; simplesmente assistia à celebração,
substituído pelo coro eventualmente ou, de modo ordinário, pelo acólito.
Atualmente é explícito na liturgia que o
povo "aclama, responde, canta..." Há, no entanto, o perigo de reduzir
a participação do povo a uma movimentação exterior e à execução de cantos em
certos momentos de celebração, enquanto que a própria liturgia é feita só por
ministros especializados.
Em virtude do sacerdócio batismal, a
assembléia tem funções que lhe são próprias:
a) Cantos
fundamentais na ação litúrgica são o "Santo", Salmo responsorial,
respostas e aclamações diversas, canto de entrada e de comunhão, eventualmente
o "Senhor, tende piedade", o "Cordeiro de Deus", o
"Glória", o "Credo", o "Pai-nosso". Essas partes
são a liturgia cantada pelo povo.
b) Momentos
oportunos para a participação em palavras e gestos vemos na espontaneidade da
Oração dos fiéis, na apresentação viva de ofertas em benefício da comunidade,
recepção do sacramento e eventualmente na partilha da palavra de Deus, através
de reflexões, perguntas e testemunhos da própria experiência.
c) Respondendo,
recitando, tomando atitudes corporais e meditando no silêncio oportunamente
provocado pela profundidade da palavra ouvida ou pelo gesto feito.
d) Criando
um ambiente espontâneo e fraterno, no acolhimento das imagens que chegam ou que
se despedem da assembléia semanal.
N.B. É de suma importância que se promova a
recepção dos membros de modo simples e cordial, em cada assembléia, procurando
identificá-los. Isso pode ser feito através de um grupo de recepcionistas
inicialmente, até que os irmãos despertem para o dever de cada irmão saudar e
acolher os outros, sobretudo os que passam eventualmente para participar da
Eucaristia numa comunidade que não é a sua habitualmente.
5.2.2 O
diácono
N.B. A respeito do diaconato, pode-se ver
"Sacrum diaconatus ordinem" de 18 de junho de 1967; "Ministeria
quaedam", de 15 de agosto de 1972.
Intimamente ligado ao bispo e aos
presbíteros, o diácono é ministro da palavra, na proclamação do Evangelho e na
homilia, nas monições e avisos oportunamente; é também aquele que prepara as
oferendas para o sacrifício, ajuda na distribuição do sacramento, purifica os
vasos sagrados, retirando-os do altar após seu uso, e administra o Batismo.
Igualmente adverte, ajuda, exorta e solicita
a assembléia em todos os momentos em que for necessário. É chefe global: da
igreja — DIACONIA.
5.2.3 O
Acólito
5.2.3.1 A
função específica dos acólitos é a de assumir com o diácono os serviços nos
atos litúrgicos, distribuir a Eucaristia e, oportunamente, fazer a exposição do
Santíssimo Sacramento para a adoração dos fiéis bem como repô-lo no sacrário,
sem porém dar a bênção.
Os acólitos devem cultivar de modo especial
o estudo da liturgia, para que possam compreender melhor o significado das suas
funções e exercê-las com dignidade e fervor (cf. "Ministeria
quaedam", VI).
5.2.3.2 Os
ministros extraordinários da comunhão eucarística, são chamados a colaborar
na administração do sacramento, levando a Eucaristia às suas próprias
comunidades, ainda desprovidas de presbítero, ou a membros da comunidade que,
por motivos diversos (já mencionados) estão ausentes da assembléia. Podem ser
assimilados aos acólitos, mas não têm função permanente. É de toda conveniência
que recebam as sagradas espécies consagradas numa celebração de que participam
e diante de todos os irmãos, quanto possível. Esse gesto faz a comunidade
reunida pensar com carinho nos seus irmãos ausentes e por outro lado dá ao
ministro maior consciência de que serve como enviado pela Igreja.
Mantendo o princípio de que foi constituído
ministro em favor de uma comunidade ou de ausentes, nada impede que auxilie o
sacerdote, na Igreja-mãe, quer ajudando-o a distribuir a Eucaristia nos dias de
maior afluência, quer purificando os vasos utilizados na celebração, quer
reconduzindo a reserva bem como repartindo oportunamente o pão conservado no
sacrário a pessoas que, não tendo participado da assembléia por motivo justo,
venham a solicitá-lo em outros momentos do dia (cf. Immensae caritatis).
Cuide-se, porém, para que haja sempre o
testemunho de mútua comunhão entre os ministros que exercem diferentes funções
na Igreja, em favor da comunidade, evitando-se a monopolização por parte de uma
"elite" que, ao invés de servir, faz da função uma honra pessoal.
5.2.4 O
Leitor (cf. Ministeria quaedam item V)
5.2.4.1 Sua
função se exerce num rito determinado — liturgia da Palavra. Deve ser cônscio
do sentido de seu ministério e procurar exercê-lo de modo tecnicamente
especializado. É o ator da comunicação da Palavra pela dignidade na
apresentação, pelo tom de voz, pela clareza na dicção, pela humildade e
convicção de estar a serviço de Deus da proclamação à Palavra.
Pastoralmente não basta indicar um leitor e
mostrar-lhe o texto a ser lido. É preciso que se faça uma formação específica
que o torne apto a assumir tal tarefa como função litúrgica. Para isso, é
importante que o leitor participe da assembléia e se aproxime do livro com fé,
a fim de exercer um anúncio para seus irmãos e não execute apenas uma atividade
de pessoa que sabe ler.
5.2.4.2 Liturgicamente
convém que para cada leitura haja um leitor distinto, pois o ritmo
diversificado favorece o movimento próprio, conforme o gênero literário do
texto.
A grande novidade neste sentido, é a
faculdade concedida para
dramatizar umas leituras,
cujo estilo favoreça
este modo de torná-la
mais viva, a exemplo do que
já se faz há muito tempo na
leitura da paixão durante
a semana santa
(cf. Diretório das missas com crianças nº 47).
5 2.4.3 Além
da proclamação da Palavra na liturgia, compete ao leitor apresentar as
intenções das preces dos fiéis, na falta do diácono ou cantor, dirigir o canto
e orientar a assembléia na participação da ação litúrgica.
É também próprio do seu ofício, iniciar os
membros da comunidade à recepção dos sacramentos e preparar outras pessoas para
substitui-lo na leitura da Palavra, em caso de necessidade (cf. Minist. quaedam
nº V).
N.B. Um autêntico ato de fé na Palavra exige
que os aparelhos de som sejam tecnicamente aptos à acústica de cada ambiente a
fim de possibilitar a clara audição da Palavra de Deus.
5.2.4.4 Na
proclamação da Palavra compete ao leitor:
a) Introduzir
brevemente o assunto do texto a ser proclamado, situando-o no contexto donde é
tirado para facilitar a percepção da mensagem e prender a atenção da
assembléia.
b) Ler
claramente, sem demasiada lentidão ou pressa, e com tom de voz adequado ao
ambiente e ao estilo da leitura.
c) Concluir
a leitura de tal modo que solicite uma resposta de aclamação por parte da
comunidade.
5.2 4.5 Na
proclamação da Palavra compete ao salmista (ou cantor) auxiliar o leitor na
proclamação da palavra: a) cantando ou recitando:
— os
versículos do salmo responsorial após a 1ª leitura;
— a
aclamação antes do Evangelho;
— as
intenções da prece dos fiéis;
b) entoando
os cânticos durante as celebrações litúrgicas.
N.B. É preciso que o salmista não improvise
sua melodia, pois, dada a profundidade do momento, qualquer indecisão prejudica
gravemente o clima de meditação.
Convém que o próprio salmista faça uma senha
(gesto de mão, por exemplo) à assembléia, para que esta esteja certa do momento
de entrar com sua participação.
CAPÍTULO
VI
INICIAÇÃO À VIDA DA COMUNIDADE CRISTÃ POR OCASIÃO DA PRIMEIRA
EUCARISTIA
É um fato incontestável que um grande número
das crianças que fazem a lª comunhão, não perseveram por muito tempo na
freqüência aos sacramentos durante a adolescência e a pós-adolescência.
Além de outros fatores, parece ter
influência primordial a ambigüidade existente na própria pastoral da primeira
comunhão, que em geral visa mais a uma doutrinação e ao dia da cerimônia da 1ª
comunhão do que a uma autêntica iniciação na vida da comunidade cristã.
Sem entrar aqui na questão do conteúdo da
catequese eucarística, queremos sugerir algumas diretrizes de ordem pastoral:
6.1
É necessário que a preocupação doutrinal ceda o primeiro lugar à autêntica iniciação,
isto é, à introdução na vida comunitária, de fraternidade cristã e de
participação na missão eclesial. De fato, sem especial cuidado com a
constituição de comunidades eucarísticas
mais definidas sociologicamente e pela explicitação da fé, será impossível
iniciar novos membros
(cf. Diretório das missas com crianças nº 12).
6.2
Faz-se mister que se dê prioridade à perseverante fidelidade daqueles que já
participaram da primeira Eucaristia, integrando-os na assembléia eucarística
regular, como entrada mais profunda no povo de Deus, que se congrega
unanimemente na caridade E que é assíduo às orações públicas para um real
crescimento na fé.
6.3
Também se torna indispensável que se verifiquem as bases familiares
dessa perseverança. Neste sentido, o grande trabalho da iniciação deve ser
feito junto à família das crianças, mais do que com a própria criança. É bom
lembrar que só haverá uma eficaz iniciação quando a família assumir a tarefa de
integrar, pelo testemunho vivencial, seus filhos na vida eclesial assim como os
pais responsáveis se preocupam em integrá-los na vida familiar. Somente as
famílias assíduas às celebrações poderão iniciar de modo conveniente e eficaz.
Catequistas e escola, neste caso, serão uma ajuda de complementação ao trabalho
dos pais. Jamais poderão substitui-los.
6.4
Por isso, os pais habituados a se reunirem em assembléia e
comprometidos com a comunidade, facilmente integrarão seus filhos no
ambiente eclesial (comunidade) que freqüentam com perseverança. Neste caso, a
iniciação poderá limitar-se a uma catequese a respeito do significado e do rito
da celebração como tal, pois os filhos já percebem a importância e o valor da
Eucaristia pelo testemunho da própria família.
6.4.1 Na
explicação da dinâmica própria da celebração, catequistas e/ou escola poderão
prestar relevante serviço, graças aos meios pedagógicos de que dispõem e mesmo
devido à preparação teológica.
6.4.2 Para
que a iniciação seja percebida pelas crianças como integração eclesial, deverá
ser feita na comunidade que os pais freqüentam regularmente. Há um problema que
se coloca quanto às primeiras comunhões em colégios e capelas ou santuários,
caso estes não sejam o lugar que reúne regularmente os pais para a Eucaristia
semanal. Esse tipo de festa no colégio, distante da comunidade regular dos
pais, seria mais um ato de solenidade social do colégio, do que a culminância
de uma iniciação à assembléia eucarística e a conseqüente integração na vida
comunitária. Os pais aí compareceriam como espectadores e não como integrantes
de uma real comunidade a que pertencem e freqüentam.
Embora o colégio tenha aspectos de
comunidade para a criança e não esteja dispensado de dar sua contribuição na
catequese da iniciação, esta comunidade é não raro, tão passageira, que não
oferece condições para mantê-la na perseverança eucarística. Por isso, o
colégio e capelas ou santuários deverão acolher as crianças e dar humildemente
sua parte na iniciação eucarística, a menos que criem condições de dar
continuidade à assídua freqüência desta assembléia. Aliás, não seria o caso de
se pensar pastoralmente em assumir de modo regular a continuidade desses laços
comunitários que as famílias criam com o colégio de seus filhos, os santuários
ou capelas que freqüentam? O perigo que se deve evitar é o de dar uma atenção
passageira sem criar compromisso com a comunidade.
6.4.3 Tratando-se
de tais famílias assíduas à reunião dos irmãos, as crianças ainda dependentes e
ligadas a seus pais devido à idade, não voltarão ao colégio, aos domingos, para
a Eucaristia, mas tendem a acompanhá-los à comunidade com a qual os mesmos pais
se acham comprometidos.
6.4.4 Neste
caso, não importa muito quanto tempo deve durar a preparação. Importa, sim, que
a criança receba os rudimentos de compreensão da celebração e já possa ser
tranqüilamente admitida à participação eucarística, na certeza de que
continuará a aprofundar sua fé, cultivada na Igreja doméstica e na assiduidade
à assembléia.
N.B. É necessário pensar mais se a criança
está ou não iniciada na vida da comunidade, do que na data da primeira comunhão
da paróquia.
6.4.5 Note-se
que a preparação das crianças se fará de modo mais eficaz através de
ritualizações à altura da sua percepção infantil, do que por longas e completas
doutrinações (cf. Diretório das
missas com crianças nº 13).
6.4.6 Para
as crianças que vêm com seus pais e ainda não comungam, providenciem-se
celebrações da palavra adequadas à sua etapa de iniciação eclesial e
psicológica. Estas celebrações podem ser presididas por catequistas ou por mães
que se dispusessem a atender as crianças durante e tempo em que outros pais
participam da celebração do sacrifício Eucarístico.
No caso de as crianças terem uma celebração
à parte, pode-se introduzi-las na assembléia dos adultos para receberem a
bênção final, a fim de que aumentem sua aspiração de participar de toda a
Eucaristia (cf. Diret. das missas com crianças nº 16).
N.B. É indispensável, porém, que às vezes o
próprio presbítero presida a fim de criar laços comunitários eclesiais desses
candidatos com a assembléia eucarística.
6.5 As
crianças de famílias não iniciadas e cujos pais são descomprometidos oferecem
dificuldade bem específica. Com efeito, como iniciar as crianças se estas
dependem e convivem com pessoas para as quais a Eucaristia é de somenos
importância?
As aulas de catequese serão insuficientes
para fazê-las perceber o valor da participação eucarística. Aliás, os próprios
pais, nestes casos, buscam para seus filhos mais o cumprimento de um ato de
promoção e satisfação social do que uma verdadeira participação eclesial.
Nenhuma doutrinação, por mais completa que seja, suprirá o testemunho do meio
social e sobretudo das pessoas das quais a criança depende afetiva e
psicologicamente.
Neste
caso, os pais
devem ao menos comprometerem-se a dar uma
educação para os
valores humanos, participando de reuniões não
eucarísticas com seus
filhos (cf. Diret. das missas
com crianças nº 10).
6.5.1 O
trabalho principal será, pois, a iniciação dos pais ou pelo menos de alguns dos
responsáveis pela criança sem abandonar o cultivo da fé da própria criança. O
trabalho com a iniciação da família, em vista de sua integração eclesial faz-se
absolutamente necessário; caso contrário, a criança fará a primeira comunhão de
modo incongruente, pois não chega a ingressar de modo pessoal na
comunidade eclesial a
não ser que
os padrinhos possam
dar o testemunho e
completar a iniciação
do neocomungante (cf. Rito de inic. cristã de adultos... nº
43).
6.5.2 Seria
o caso, portanto, de adiar a primeira Eucaristia, até que se possa ter um
mínimo de base sólida e responsável no sentido de que esta não se reduza a um
ato passageiro, mas tenha condições de ser o início de uma perseverança na
assembléia regular dos cristãos. Isso só se dará quando os pais se
comprometerem eles próprios com a comunidade.
6.5.3 A
iniciação não se verifica pelo grau de conhecimentos doutrinários que a criança
possui, nem tampouco se pode prever um tempo determinado para a iniciação. A
própria dificuldade causada pela família dará ocasião para mostrar às crianças
que não é possível tomar parte no banquete sem ter decidido pertencer à família
eclesial que se reúne para celebrar.
6.5.4 Aqui
se evidencia o caráter complementário dos catequistas, isto é, de membros da
comunidade que assumem as crianças cujos pais trazem para a reunião dos
cristãos, iniciando-as na celebração. Não se deve confundir essa ajuda aos pais
com um trabalho feito exclusivamente com as crianças independentemente dos
pais.
N.B. Aliás, esse mal não se verifica apenas
na catequese, mas se estende à escola que, ao invés de complementar a educação
familiar, não raro exime ou dá a impressão de eximir os pais da tarefa
educacional que lhes é própria inalienável.
6.5.5 Torna-se
mais irrefutável a ineficiência da iniciação de crianças sem um trabalho
correspondente com as famílias, quando outros filhos maiores, que participaram
da primeira Eucaristia já não perseverem no compromisso comunitário à medida de
suas possibilidades. Nesta situação, dever-se-á radicalizar ainda mais as
exigências com relação à admissão dos filhos menores, sob pena de falta de responsabilidade.
6.5.6 Poder-se-ia
perguntar: "como dar continuidade se a paróquia é desprovida de clubes de
grupos jovens, capazes de acolher as crianças?" Iniciar à Eucaristia, sem
iniciar a comunidades concretas, é simplesmente dar a comunhão e deixar na dispersão
da própria boa vontade do comungante que por ser criança, não é suficiente.
Faz-se pois necessário que as paróquias ofereçam grupos de jovens e comunidades
de adultos capazes de receber os novos iniciados e ajudá-los a perseverar na
assiduidade à vida eclesial bem como de reintegrar os que já estão caminhando
para a dispersão.
6.6 A
iniciação de criança cujos pais são freqüentadores ocasionais exige especial atenção para integrar os pais
numa comunidade eclesial de base, capaz de reavivar a fé e levá-los a
comprometer-se mais explicitamente com a vida comunitária que é exigência
básica da fé, recebida no Batismo, e que somente se desenvolve mediante a
evangelização. Em geral, o que falta a tais famílias (ou pessoas) é perceberem
claramente as implicações missionárias da fé que professam de modo ocasional e
individualista.
6.7 Os
adultos que ainda não fizeram a primeira comunhão oferecem especial
ocasião à comunidade para iniciá-los de modo mais consciente. Não se tenha
pressa em admitir à comunhão mas se cuide com muito carinho de sua inserção e
comprometimento comunitário.
6.7.1 O
adulto não deve apenas ser conduzido à participação sacramental da Eucaristia,
mas a assumir a missão de dar testemunho que daí decorre. Por isso, não basta
que o adulto saiba que a Eucaristia é a presença do Sacrifício do Senhor, mas
se comprometa com a comunidade eucarística.
6.7.2 É
importante que, ao participar da Eucaristia, o adulto seja solicitado a
participar também da missão da Igreja, compromissando-se com algum trabalho
apostólico ou ministério litúrgico, conforme suas aptidões.
6.8 A
celebração da Primeira Eucaristia
6.8.1 Tal
celebração deve revestir-se de caráter festivo, seja na sua forma litúrgica
como no ambiente social. No entanto, trata-se mais de uma festa da família
eclesial do que de uma comemoração dirigida à criança, distraindo-a do sentido
e do motivo da festa.
6.8.2 Dê-se
autenticamente à Primeira Eucaristia o caráter de festa da comunidade
paroquial, alegre por receber novos membros-irmãos como participantes de sua
mesa. Que também a parte social seja feita de tal modo que a criança perceba
que sua Igreja doméstica se insere na família eclesial e festeja o
acontecimento de seu ingresso na assembléia eucarística.
6.8.3 Evite-se
qualquer distinção de família para família, em vista de classes sociais, pois
isto destruiria o clima comunitário e colocaria em relevo, não a fraternidade
e cristã e sim os privilégios de que a criança participa socialmente. A
Eucaristia deve ser integradora das pessoas na unidade dos irmãos.
6.8.4 Qualquer
aspecto de luxo e pompa puramente exterior contradiz o espírito de simplicidade
e de alegria evangélica que deve permear a comunidade da Igreja, reunião de
"pobres".
6.8.5 Todos
os membros da comunidade são convidados a tomar parte na alegria de ver a
assembléia eucarística acrescida de novos irmãos. É uma ocasião muito oportuna
para se fazer uma refeição comunitária, incentivando assim o Espírito de
comunhão entre os irmãos, e renová-los no Espírito Eucarístico.
6.8.6 Estes
momentos de convivência em "ágape fraterno" deveriam multiplicar-se,
não só por ocasião da primeira Eucaristia, mas para consolidar a fraternidade
dos cristãos e tirá-los do individualismo, conforme freqüente recomendação dos
padres da Igreja e costume que remonta aos tempos apostólicos.
CAPÍTULO
VII
EXPRESSÕES
CORPORAIS E GESTOS NA CELEBRAÇÃO
7.1 Situação histórica
7.1.1 A
partir do séc. XIII, a liturgia Romana foi-se restringindo às formulações
dogmáticas, sintéticas e fixas, conservadas até nossos dias. Progressivamente
se intelectualizou.
7.1.2 O
ritualismo da "era rubricista" reduziu a formação, litúrgica a uma
mera "casuística" de "como fazer", ao invés de estudar a
significação dos gestos e palavras. Os inícios do Movimento Litúrgico foram
decisivos para uma volta à espiritualidade litúrgica.
7.1.3 Os
gestos e atitudes corporais foram sendo reservados ao
"celebrante" menos como expressão do que como
"observância". Os celebrantes, devido ao tipo de formação recebida,
já não presidem uma assembléia em celebração, mas "celebram para uma
assembléia"; os celebrantes executam os ritos e o povo é convidado a
"unir-se intimamente" a ele. Uma participação apenas intencional e
mental não satisfaz às exigências antropológicas de participação. As devoções
neste sentido fazem concorrência à própria liturgia.
7.1.4 A
participação corporal do povo está reduzida quase exclusivamente a movimentos
por exemplo, sentar-se, ficar de joelhos, ficar de pé.
7.1.5 Estas
e outras situações semelhantes, sobejamente conhecidas e ainda não de todo
superadas, transformaram a celebração numa liturgia intelectualizada e
livresca, permitindo uma participação interior, mas não favoreceu a
"expressão da comunhão na fé eclesial, visível", já que o corpo — expressões
corporais e gestos humanos — fora privado de celebrar.
N.B. É claro que estas anotações são apenas
para motivar uma revisão concreta do que se passa em cada localidade e
circunstância reais.
7.2 A liturgia, oração da pessoa total
7.2.1 Fiéis
à unidade do ser humano, o corpo não pode ser dissociado da mente em oração. A
liturgia não pode reduzir-se a uma pura meditação interior, sob pena de perder
sua sacramentalidade e eclesialidade. Por isso, o louvor que reside no coração
do homem torna-se celebração quando é proclamado pelos lábios, gestos e
atitudes corporais capazes de comunicar a fé, manifestar a comunhão na mesma fé
de modo sacramental. A linguagem dos gestos, por sua vez, não apenas comunica e
intensifica a atitude interior, mas é apta a provocá-la, dando um caráter
comunitário e um valor social à liturgia.
7.2.2 A
passagem da época de Gutemberg para a era das comunicações em som e imagem
deve suscitar uma pesquisa séria e profunda, no sentido de redescobrir os
gestos humanos como linguagem própria da liturgia, não se limitando a uma
comunicação gráfica e oral, mas visual.
Por outro lado, a revalorização do caráter
comunitário da liturgia está a exigir uma renovação que faça da celebração uma
autêntica comunicação humana e terrestre do dom divino da fé.
7.2.3 É
preciso que pouco a pouco se vença a mentalidade de "executar os ritos
como prescrição disciplinar" e se dê dimensão simbólica aos gestos humanos
que se fizeram na celebração.
Para isso, a busca de sinais expressivos
torna-se uma tarefa da reflexão litúrgica, se se pretende que a assembléia
possa expressar sua fé, comunicar-se em linguagem atual e adequada a sua
cultura.
Temos, neste sentido, a solicitação dos
novos ritos que devem ser
"adaptados à índole dos povos" conforme exigência do Vaticano
II (SC 38, 40, 44).
7.3 Caminhos para chegar a uma nova maneira de celebrar
7.3.1 Na
atual celebração, já se podem desenvolver atitudes corporais que signifiquem
"penitência, alegria, caminhada, paz, reunião em torno da mesa do altar em
determinadas circunstâncias, saudação aos irmãos no início e na despedida da celebração". Esses momentos
devem superar a simples execução de um rito para se tornarem sinceras e
espontâneas manifestações humanas do conteúdo salvífico que encerram.
Para que isso aconteça, far-se-á necessária
a catequese e também um pouco de imaginação criadora por parte dos que dirigem
a celebração, além de uma revisão da linguagem empregada nos textos (por
exemplo, traduções mais adaptadas à diversidade das regiões e tipos de
assembléias...).
N.B. Neste sentido, é
evidente que jovens e crianças —
sem excluir adultos que tenham maior percepção antropológica — se acharão mais à
vontade do que aqueles educados numa rigidez silenciosa durante a liturgia. O
clero precisa ser ajudado de modo particular, para que não se passe da rigidez
rubrical às inovações descabidas.
7.3.2 Mais
delicada é a tarefa de encontrar meios de uma participação corporal da
assembléia na oração eucarística. Os presidentes já acompanham com gestos as
palavra que proclamam, por exemplo, a narração da instituição. No entanto, há
certa monotonia nestes gestos demasiado pobres em movimentos, sobretudo em se
tratando das orações eucarísticas um pouco mais longas. Quanto ao povo,
poder-se-á desenvolver de modo adequado o canto das aclamações, não só as
atuais, mas outras oportunamente introduzidas pela competente autoridade em
matéria litúrgica; experiências já estão sendo realizadas., mostrando que é
possível tirar os fiéis da imobilidade.
N.B. É preciso que se evite fazer o povo
simplesmente reproduzir gestos estereotipados; importa também se encontrem
expressões de verdadeira comunicação.
7.3.3 A
valorização da celebração em sua dimensão de "arte da ciência" está
pedindo que se providencie com urgência um treinamento dos presidentes e demais
ministros das assembléias (educação das equipes de celebração). Neste sentido,
há toda uma reeducação a ser feita, para que se chegue ao uso oportuno de maior
liberdade da linguagem corporal, da comunicação vocal... como meios de solenizar
a liturgia comunitária.
N.B. É preciso que as "comissões
litúrgicas de arte" ultrapassem o campo de "montagem do palco"
(arquitetura, ornamentação, vestes etc.) e descubram a "ARTE CÊNICA"
como campo prioritário na renovação litúrgica.
7.3.4 É
difícil dar sugestões concretas dentro de um documento de orientações
pastorais, mas a colaboração de pessoas especializadas, como educadores em
comunicação, possibilitaria uma renovação eficaz da racionalidade em que caiu a
liturgia, máxime a ocidental.
N.B. No domínio da música, os esforços
feitos são consideráveis; no campo, porém, da arte cênica especificamente,
quase nada se criou até o momento. A urgência é máxima devido à influência
exercida pelos Meios de Comunicação audiovisuais na própria psicologia das
pessoas.
7.3.5 Convém
chamar a atenção para as adaptações feitas nas igrejas e capelas quanto à
localização dos altares e o modo de distribuir as cadeiras ou bancos para os
participantes.
7.3.5.1 Parece
que já é tempo de providenciar a fixação do altar da celebração, com critérios
mais ou menos justos, desde que se consultem pessoas competentes em arte e em
liturgia, por ex., as comissões especializadas.
7.3.5.2. Quanto
à distribuição dos lugares para os participantes, no espaço dos templos, ainda
se vêem poucas iniciativas, devido ao custo que poderia representar a
substituição dos bancos. No entanto, é preciso que se dê especial atenção à
distribuição do espaço ocupado pela assembléia, a fim de atender às exigências
de mútua comunicação.
7.3.6 Convém
chamar a atenção dos ministros, sobre a importância de as vestes corresponderem
ao decoro devido à ação litúrgica. Não raro se nota um espetáculo lamentável
pela falta total de estética, quando não até de limpeza.
O uso da TÚNICA e
ESTOLA em substituição dos demais paramentos, além de compor muito bem, quando
feitas sob medida, oferecem facilidade de conservação e limpeza (cf. XII
assembléia Geral da CNBB, com as respostas da S. Congr. Para o culto divino).
- - - - - - - - -
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Fonte: Conferência
Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB
Web site: www.cnbb.org.br