CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL

CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL

 

PASTORAL DA UNÇÃO DOS ENFERMOS

 

17ª Assembléia Geral

Itaici, 18 a 27 de abril de 1979

 

 

I - INTRODUÇÃO

 

        1.1. Documentos do Episcopado Brasileiro

 

O Episcopado Nacional já ofereceu aos agentes de pastoral vários documentos litúrgicos-pastorais, aprovados em Assembléia Geral.   Referem-se   à   Pastoral do Batismo,   da Confirmação,   da Eucaristia, da Penitência, do Matrimônio e da Música Litúrgica, e foram publicados na coleção de "Documentos da CNBB", sob os números 2,2a,6,7,11 e 12.

O presente documento ocupa-se da Unção dos Enfermos. A Comissão Nacional de Liturgia já preparou um opúsculo sobre a Pastoral da Saúde, publicado na coleção de "Estudos da CNBB", sob o número 9. A Assembléia Geral da CNBB apresenta e assume este documento que se restringe à liturgia dos doentes e traz o título de "Pastoral da Unção dos Enfermos".

 

        1. 2. Razão de ser do documento

 

Muitos dos nossos agentes de pastoral, Bispos, presbíteros, diáconos, religiosos e leigos, se dedicam, neste país, com grande zelo, ao atendimento dos irmãos enfermos. No entanto, nossa mentalidade, nossos métodos pastorais e a maneira de celebrar o sacramento da Unção dos Enfermos, reservado exclusivamente ao ministério dos sacerdotes, são suscetíveis de reais aperfeiçoamentos, para o maior bem do Povo de Deus. Concorre, para isso, entre outros fatores, a publicação, relativamente recente, do novo "Rito da Unção dos Enfermos e Sua Assistência Pastoral" que abre perspectivas novas neste campo.

 

   1.3. Unção dos Enfermos e o conjunto da Pastoral

Aplica-se à liturgia dos enfermos o que vale dos demais sacramentos: por um lado,  não se pode separar a pastoral da Unção dos Enfermos do restante da pastoral, particularmente da Pastoral da Saúde; por outro, há considerações que são próprias deste sacramento e que reclamam uma atenção especial.

O opúsculo de estudo da CNBB, "Pastoral da Saúde", amplia seu objeto, de modo a incluir todo o campo extralitúrgico, desde a medicina preventiva e a higiene até a ajuda no campo previdenciário e jurídico e o envolvimento das estruturas em que o enfermo se encontra.

 

II - SITUAÇÃO DA PASTORAL DA SAÚDE

 

        2.1. O contexto geral da situação

 

Omitimos de propósito a descrição da situação sanitária geral de nosso povo e nos contentamos com lembrar os múltiplos problemas a ela relacionados, como sejam: falta de recursos, em largas camadas da população, em decorrência da má distribuição das riquezas, falta de educação sanitária, condicionamentos culturais que em seus aspectos negativos, impedem ou retardam, muitas vezes, o recurso devido aos meios já conquistados pela medicina, a desnutrição, a poluição em suas diversas modalidades, as doenças endêmicas, a má distribuição dos recursos materiais e humanos reconhecidamente limitados, a administração hospitalar inadequada, a comercialização da doença, a despersonalização do atendimento em hospitais muito grandes ou voltados à investigação científica e à formação profissional, o preço dos remédios, o desconhecimento dos mecanismos jurídico-administrativos da imensa organização previdenciária, e outros,    melhor elencados e descritos no estudo   da CNBB sobre   "Pastoral da Saúde".

 

         2.2. A situação específica da Unção dos Enfermos

 

         2.2.1 Aspectos negativos

 

Além dos problemas da pastoral global e da pastoral da saúde, no setor específico da Unção dos Enfermos, observam-se outros decorrentes de:

 

           Desconhecimento, entre os fiéis, do sentido exato do sacramento da Unção dos Enfermos, debitável, em grande parte, a uma evangelização e a uma prática pastoral deficientes.

 

           Compreensão errônea da "vontade de Deus" acerca da doença, com o conseqüente fatalismo e desalento em face dos desafios que a vida e a morte nos propõem.

 

           Crença popular que associa a visita do padre ao doente com a iminência da morte, resultante de uma pastoral que ministrava o sacramento da Unção dos Enfermos apenas aos moribundos, apresentando-o como "extrema-unção" e "sacramento dos que partem".

 

           Falta de visitas regulares aos doentes, quer por parte do padre quer por parte de outros agentes de pastoral.

 

           Insuficiente distribuição de tarefas pastorais junto aos enfermos, deixando sobretudo de estimular e aproveitar os leigos.

 

           Deficiente preparação teológica-pastoral de certos agentes, mesmo ministros ordenados, em relação à Unção dos Enfermos.

 

           Crescente secularismo, que torna os homens insensíveis ao plano de salvação e leva os pacientes a rejeitar ou, pelo menos, a não se interessar por qualquer forma de assistência religiosa. Para isso contribui uma mal-entendida secularização da medicina, que acaba por dissociar o tratamento médico do doente de suas necessidades como pessoa humana e conseqüentemente de suas necessidades de ordem espiritual, ignorando seu valor para o bem-estar do enfermo.

 

           Uma mal-entendida secularização que provoca nos agentes de pastoral uma certa desvalorização do sacramento da Unção dos Enfermos e a julgar que o povo pense da mesma maneira.

 

           Passividade de muitos agentes de pastoral que apenas esperam ser chamados para o atendimento domiciliar ou hospitalar dos enfermos.

 

           Promessas de cura corporal, feitas por círculos espíritas, cultos afro-brasileiros e outras denominações religiosas, seja de extração cristã seja de proveniência oriental, com explicações sobre a origem das doenças que não condizem com a ciência e com uma visão cristã da realidade.

 

           Má compreensão do dom das curas.

 

           Modo mecânico de administrar o sacramento, sem a devida preparação, consciência e participação, tanto do doente como dos circunstantes.

 

           Falta de valorização da Palavra de Deus na celebração da Unção.

 

           Falta de solicitude em localizar os doentes e as pessoas idosas pela organização de uma eficiente Pastoral da Saúde, com a participação de leigos e dos próprios doentes, nos vários níveis de Igreja, na zona urbana e rural, no setor domiciliar e no setor hospitalar.

 

           Recurso aos meios espirituais antes e independentemente dos meios naturais, motivado, muitas vezes, pela pobreza em que vive grande parte da população.

 

2.2.2 Aspectos positivos

 

É justo ressaltar também os aspectos positivos, a serem devidamente incrementados e ampliados, como:

 

           A grande confiança que muitos enfermos demonstram no valor do sacramento.

 

           A renovação em curso na Pastoral da Saúde com seus reflexos positivos na Pastoral da Unção dos Enfermos.

 

           O sensível interesse de alguns movimentos pelos doentes, numa atitude de serviço e com sentido evangelizador.

 

           Certa superação, por parte das famílias e dos enfermos, do temor causado pela visita do padre, o que se deve, certamente, ao esforço evangelizador que renova a vivência e a consciência eclesial.

 

           Cursos, encontros e outras promoções da Igreja, no serviço da Pastoral da Saúde, envolvendo o pessoal hospitalar e agentes pastorais que atuam com enfermos.

 

           A distribuição da comunhão eucarística nos hospitais e domicílios, feita com freqüência por ministros extraordinários, aproximando o doente da comunidade, propicia um clima favorável para a unção dos enfermos.

 

           Administração dos Sacramentos dos Enfermos como ato comunitário, nas paróquias, nos hospitais e nos asilos de pessoas idosas.

 

 

Os capítulos seguintes procurarão iluminar esta situação com o auxílio da reflexão antropológica e teológica, a fim de se encontrarem orientações pastorais.

 

 

III - SENTIDO DO SACRAMENTO

DA UNÇÃO DOS ENFERMOS

 

        3. 1. Aspectos antropológicos da doença

 

       3.1.1 Ruptura da unidade subjetiva

 

Numa visão bíblica, o homem é apresentado como uma unidade viva, expressa por termos distintos, mas que não se contrapõem entre si como princípios distintos.

Designando o ser humano inteiro, as expressões "basar" (carne), "nefesh" (alma), "ruach" (espírito), "leb" (coração), ressaltam aspectos diferentes de um indivíduo concreto complexo.

De outro lado, a experiência humana oferece a profunda certeza da unidade vivida com o corpo: toda pessoa se considera espontaneamente sujeito único de ações espirituais e físicas.

A doença, porém, leva a consciência a perceber o corpo como um "outro", independente, rebelde, opressor; o doente experimenta seu corpo como um "outro" dentro de si mesmo, um objeto entre objetos. Rompe-se, pois, a unidade pessoal, subjetiva.

 

    3.1.2 Crise do relacionamento com os outros

 

Não se faria justiça ao ser humano se este fosse visto como uma natureza racional fechada ou mesmo como uma consciência individual auto-suficiente, orientada, primariamente, para o conhecimento objetivo e o domínio do mundo material, mediante a ciência e a técnica.

Ser homem é ser com os outros no mundo, é ser interpelado pela presença do outro e dos outros; é ser capaz de responsabilizar-se frente ao outro, realizando-se em comunhão com ele, na palavra, no amor e nas demais ações com que o homem constrói sua vida.

O homem, criado à imagem de Deus — que se revelará progressivamente como uma comunhão de pessoas — não pode estar só (Gn 2,18-20). A socialidade, o ser com os outros e para os outros pertence ao núcleo da existência humana; a diferenciação sexual (Gn 2,21-24) realça a vocação social da pessoa humana.

Forçado, então, à inatividade, afastado de seus compromissos, entregue aos cuidados dos outros, encerrado no ambiente restrito de um quarto ou preso a um leito, o doente faz, com grande intensidade, a experiência da solidão e da dependência, que rompem a reciprocidade e a dedicação mútua habituais. A doença, pois, em maior ou menor grau, gera uma crise de comunicação com os outros. A tudo se soma a consciência que o doente por vezes tem da incapacidade de os outros compreenderem sua situação real, suas angústias e incertezas íntimas.

 

       3.1.3 Experiência da finitude

 

Na Sagrada Escritura, o homem, visto sempre em relação com Deus, é, antes de tudo, apresentado em seu caráter de criatura. O ser humano depende radicalmente de Deus, não tem em si mesmo sua origem, nem sua razão de ser. O Antigo Testamento expressa simbolicamente esta extrema dependência de Deus absoluto e a fragilidade da vida humana quando fala do homem plasmado do barro (Gn 2,7) e quando, em outra passagem, o designa como pó e cinza, lábil e caduco como as plantas e  os  animais  (cf.  Sl 90, 6;  Ecl 3,19).

O assalto da enfermidade, pondo a claro a fragilidade e a precariedade do ser humano, leva-o a compreender-se existencialmente como ser finito e limitado, abrindo a pessoa enferma para uma tomada de consciência dos valores transcendentes. A doença, mesmo benigna, evoca a morte, ponto final de um processo de dissolução biológica, adiável, mas inevitável.

Afastado de suas atividades e desembaraçado de seus compromissos familiares e sociais, o doente percebe a contingência dos objetivos procurados antes do advento da doença e sua dispensabilidade pessoal para o devir do mundo, que continua seu caminho sem sua participação. Dá-se um redimensionamento de si mesmo e de seu projeto pessoal em relação ao mundo e à História. A finitude é vivida, então, radicalmente e intensamente.

 

        3.1.4 A doença como desafio à liberdade

 

O estado patológico, se, de um lado, é um fato que se impõe à liberdade como algo praticamente inevitável, de outro, aparece como um desafio que se oferece à liberdade, para que o assuma, consciente e responsavelmente, e lhe confira um sentido, a partir de sua própria configuração. A tríplice tarefa que lhe é proposta são a reunificação subjetiva, a restauração da comunicação, a integração da finitude e da morte.

 

3.1.4.1 A reunificação subjetiva consistirá, num primeiro nível, em reconciliar-se o doente com o corpo, pela aceitação da corporalidade como dimensão necessária da realidade humana. Integrando as deficiências corporais e reorganizando, num novo equilíbrio, os próprios comportamentos. Num segundo nível, a doença poderá provocar uma revisão do sentido global da vida, onde o biológico, relativizando, passa a ser inserido num quadro de valores cuja primazia não lhe compete.

 

3.1.4.2 Em relação à comunicação, o enfermo poderá descobrir a intersubjetividade como constitutiva do seu ser e do seu existir e a solidariedade como essencial para a realização humana, em todos os sentidos. O doente, entregue às mãos e ao desvelo dos outros, poderá ser levado a redescobrir o caráter único e insubstituível do outro e a sua própria originalidade subjetiva. O reconhecimento da essencialidade do outro exige uma ruptura com a superficialidade das relações habituais, banalizadas e indiferenciadas pela rotina no estado de saúde.

A reciprocidade poderá ser restabelecida pelo desempenho de alguma tarefa acessível ao doente e útil aos que o cercam, pela tomada de consciência das enfermidades e outros sofrimentos que afligem tantas outras criaturas, pelo aprofundamento, quando isto for possível, dos problemas econômicos, sociais e políticos com que a comunidade humana se defronta, e que outras pessoas também são limitadas e devem ser aceitas como tais.

 

3.1.4.3 A finitude será encarada não como um obstáculo à realização de uma liberdade absoluta, mas como dimensão necessária da existência humana enquanto liberdade criada. Passa-se a acolher a doença como situação original que a liberdade deve levar em conta na elaboração de seus projetos.

Neste enfoque, a eventualidade da morte será aceita enquanto situação necessária do ser vivo, integrando-a na sua existência total. Cabe ao doente dar-lhe um último sentido: pode encará-la como falacidade do existir ou como acesso ao absoluto da eternidade, capaz de reconstituir, em plenitude, as relações interpessoais evidentemente limitadas pelos condicionamentos de tempo e de espaço e restabelece a unidade intrapessoal.

 

3.1.4.4 A recuperação da saúde pode assumir o aspecto de uma "ressurreição", de uma novidade de vida. A cura não será considerada apenas como restauração do equilíbrio biopsíquico e social anterior; tampouco será um retorno ao tipo de existência vivido antes da enfermidade.

A pessoa olhará o mundo com outros olhos; outra escala de valores passará a nortear sua vida; o essencial assomará ao primeiro plano. Trata-se, verdadeiramente, de um novo nascimento, de uma ressurreição, uma situação a ser assumida pela liberdade e preenchida de sentido.

 

       3.2. Aspectos teológicos da doença

 

       3.2.1 Deus criou o homem para a vida

 

A criação é a primeira intervenção de Deus em vista da Aliança com a humanidade. Criado à imagem de Deus (Gn 1,26), o homem recebe a bênção de Deus — o conjunto de bens necessários à vida (Gn 1,29) — e a missão de desenvolver as coisas criadas, de modo que ele possa servir-se delas e ser seu dono (Gn 1,28b ss), para a glória de Deus e o bem-estar da humanidade.

O dom da vida implica, para o homem, a responsabilidade de viver, reconhecendo e querendo a vida, numa palavra, prevenindo, conservando e restaurando a saúde. "Não matar" (Ex 20,13) é o mandamento divino que sanciona a intangibilidade natural e inalienável de todo ser humano e prescreve a obrigação de preservar e promover a saúde.

A doença, por seu turno, está ao menos virtualmente inscrita no ser criatural do homem, cujas energias físicas e psíquicas vão se deteriorando no decorrer do tempo.

 

        3.2.2 A doença e o desígnio de Deus

 

Deus não criou o homem para a morte, mas destinou-o à vida e à vida em abundância (cf. Jo 10,10). Por isso ele é chamado a esforçar-se por preservar a vida e a saúde. A doença mostra-se como algo que contradiz, diminui, obstaculiza ou paralisa o querer viver. Para obedecer ao mandamento de Deus, é preciso que o homem queira fazer tudo o que é necessário e possível para assegurar a continuidade da própria vida psíquica e física, lutando contra tudo o que arrisca de paralizá-la.

Saúde e doença adquirem seu pleno significado no âmbito da Aliança, constando dos elencos de bênçãos e, respectivamente, de maldições que integram os formulários de Aliança (cf. Êxodo e Levítico). São parte integrante do desígnio de salvação.

A doença acha-se referida ao pecado, na atual economia da salvação. Como todos os demais males humanos, a doença contraria à intenção profunda de Deus, que criou o homem para a felicidade (cf. Gn 2); ela entrou no mundo, com todas as suas manifestações desagregadoras e dolorosas, como conseqüência do pecado (cf. Gn 3,16-19). Não é, entretanto, produto de faltas parentais ou pessoais (cf. Jo 9,3; Lc 13,2), mas sintoma de um desregramento que afeta o homem inteiro e todo homem. É um dos males que pertence à condição pecadora da humanidade; é o símbolo desta condição.

Afirma o "Rito da Unção dos Enfermos e Sua Assistência Pastoral", em sua Introdução, que "a doença, ainda que intimamente ligada à condição do homem pecador, quase nunca poderá ser considerada como um castigo que lhe seja infligido por seus próprios pecados (cf. Jo 9,3). Não só o próprio Cristo, que é sem pecado, cumprindo o que estava escrito no Profeta Isaías, suportou as chagas da sua Paixão e participou das dores de todos os homens (cf. Is 53,4-5) como continua ainda a padecer e a sofrer em seus membros, mais configurados a ele quando atingidos pelas provações, que no entanto nos parecem efêmeras e mesmo leves, comparadas ao quinhão de glória eterna que para nós preparam (cf. 2Cor 4,17)", (cf. Rito, Introdução, n.º 2).

E, logo em seguida, conclui: "Por disposição da divina providência, o homem deve lutar ardentemente contra toda doença e procurar com empenho o tesouro da saúde, para que possa desempenhar o seu papel na sociedade e na Igreja, contanto que esteja sempre preparado para completar o que falta aos sofrimentos de Cristo pela salvação do mundo, esperando a libertação da criatura na glória dos filhos de Deus (cf. Rm 8,19-21; Cl 1,24)", (cf. Rito, Introdução, n.º 3).

 

        3.2.3 A vontade de Deus em relação à doença

 

Mesmo tendo um sentido, a doença continua sendo um mal. Ela deve  ser  abolida  na  aparição dos  tempos escatológicos (cf. Is 35,5-6; 57,18-19; 61,1-2; 65,19; Jr 30,17; 33,6), quando a cura se tornar sinal da salvação perfeita e completa.

Todo fatalismo, que levasse a omitir o cuidado indispensável da saúde, sob a alegação de que a doença é vontade de Deus, seria contrário ao mandamento divino, além de prejudicar a recuperação das forças perdidas.

É claro que as energias do corpo humano se vão desgastando com o passar do tempo. Nesta vida, não possuímos o dom da imortalidade. Um dia, como conseqüência de enfermidades, de ferimentos ou da simples velhice, todos os homens morrerão. Mas este morrer é passagem para mais vida e condição para a futura ressurreição. É a caminhada pascal do homem em seguimento a Cristo: "Se morrermos com Cristo, cremos que viveremos também juntamente com Cristo, sabendo que Cristo, ressuscitado dos mortos, não morre mais" (Rm 6,8-9; cf. 1Cor 15,36-38. 42-44).

Na medida, porém, em que as doenças e a morte, em última análise, são inevitáveis e na medida em que perduram, apesar de todo nosso esforço em evitá-las e combatê-las, nós devemos aceitá-las e assumi-las, à luz da fé e da esperança escatológica, que nos abrem horizontes inacessíveis à razão e às demais forças humanas, repetindo as palavras de Cristo ao ver aproximar-se a sombra da morte: "Meu Pai, se é possível, que passe de mim este cálice; contudo,   não   seja   como  eu  quero,  mas  como  tu  queres"  (Mt 26,39). Na saúde e na doença, o cristão deve ter consciência de que a vontade de Deus é sempre o bem do homem, as vezes obscuro, mas sempre real.

 

       3.2.4 Cristo, o libertador escatológico

 

Na plenitude dos tempos, quando se inauguram os tempos finais, Jesus depara-se com a doença, compadece-se (cf. Mt 20,34) e, diante da fé (cf. Mt 9,28; Mc 5,36 p; 9,23), cura. A atividade terapêutica de Jesus tem um profundo valor salvífico. Mais que gestos do poder sobrenatural que residia nele para acreditá-lo como Messias, as curas são o sinal de que o Reino de Deus, a salvação escatológica irrompeu no mundo. A doença ainda não desaparecerá do mundo; mas a força divina que finalmente a debelará já está presente e atuante no mundo.

 

As curas de Jesus não visam a implantar agora e em forma gloriosa uma era de felicidade sobre a terra. Jesus conserva, não obstante as tentações ( cf. Mt 4 p), os traços do Servo sofredor de Javé. Ele toma sobre si a miséria humana (cf. Mt 8,16-17). O sinal decisivo da salvação não serão as curas, mas o "sinal de Jonas" (cf. Mt 12,38-40), isto é, sua morte na cruz e sua ressurreição. A luta de Jesus contra a doença inscreve-se no dinamismo pascal de sua vida, cujo vigor salvífico assume a debilidade humana na sua condição de impotência diante do mal. Aceita e vive esta condição como autodoação ao Pai e aos irmãos. A fraqueza humana, assumida até a Paixão e a Morte de cruz, adquire seu valor redentor por tornar-se, nas condições adversas criadas pela liberdade humana, meio de expressão de um amor fiel e total (cf.  Fl 2,6ss).

No Reino plenamente realizado, não existirá nem pecado, nem doença, nem morte. Em nossa situação presente, ainda não totalmente transfigurada, o sofrimento, a doença e a morte já estão radicalmente vencidos, não em si, mas no Cristo ressuscitado e em todos aqueles que, assimilados a Cristo pela fé e pelo batismo, no seguimento a Cristo (cf. Fl 2,5), chamados a participar da cruz do Senhor, fazem do sofrimento, da doença e da morte expressão de um amor filial e fraterno, numa autodoação completa de si, enquanto se espera ativamente a libertação plena (cf. Rm 8,19-21)

        3.2 5 A Igreja, sacramento de Cristo

 

A Igreja, continuadora da missão de Cristo, que passou fazendo o bem (At 10,38), para que todos tivessem mais vida (cf. Jo 10,10), num mundo marcado pela doença e pela morte, revela-se como "sacramento universal de salvação" (LG 48; GS 45) e, como tal, assume como suas as "alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias" dos homens, preferentemente dos mais pobres e oprimidos.

Imitando o Cristo, que veio libertar o homem do pecado e de suas conseqüências, que afetam a sociedade humana e cada um dos homens, a Igreja também deve lutar contra tudo o que impede o homem de atingir sua plena realização, anunciando eficazmente a vida e a ressurreição em Cristo, isto é, "manifestando e ao mesmo tempo operando o mistério de amor de Deus para com o homem" (GS 45).

Para tanto, Cristo, seja na primeira missão dos discípulos (cf. Mt 10,1ss) seja em sua missão definitiva (cf. Mc 16, 17 p), torna os seus colaboradores participantes do seu poder de curar as doenças. Deste poder dão testemunho inúmeras passagens dos Atos dos Apóstolos (cf. At 3,1ss; 8,7; 9,32ss; 14,8ss; 28,8ss).

Através de seu Espírito, enriquece a Igreja de inúmeros carismas para beneficio de todos; entre esses carismas, menciona-se a cura (cf. 1Cor 12,9. 28.30).

A graça de Deus, entretanto, atinge ordinariamente os doentes na fragilidade de um gesto de assistência aos doentes, simbolizado pela unção e pela oração da fé (cf. Tg 5,14-15). Como diz a Lumen Gentium, "pela sagrada Unção dos Enfermos e pela oração da fé dos presbíteros, a Igreja toda entrega os doentes aos cuidados do Senhor sofredor e  glorificado, para  que  os alivie  e  salve  (cf.   Tg 5,15-16). Exorta os mesmos a que livremente se associem à Paixão  e  Morte de Cristo  (cf. Rm 8,17; Cl 1,24; 2Tm 2,11-12;   1Pd 4,13) e contribuam para  o  bem  de  todo o  Povo de Deus" (LG 11).

Consciente, porém, de que, enquanto durar o mundo presente, a humanidade deverá carregar as conseqüências do pecado, a Igreja ensina que a doença e a morte não são obstáculos intransponíveis ao projeto de vida de Deus sobre o homem, mas podem tornar-se meios de salvação, desde que encarados com os mesmos sentimentos de Cristo (cf. Fl 2,5).

Desta forma, a Igreja — não somente a grande família de todos os batizados no mundo, mas também as comunidades locais — se apresentam como sacramento da "multiforme  graça de Deus" (cf. 1Pd 4,10). A Unção dos Enfermos é uma das concreções deste sacramento multiforme, que é a Igreja.

 

        3.2.6 O respeito ao enfermo

 

Para a Igreja, a doença não diminui a dignidade da pessoa humana, criada à imagem de Deus (Gn 1,26) e chamada à comunhão de vida com este mesmo Deus e com os irmãos em Cristo, o Filho e o Irmão (cf. GS 15. 17.22).

Os doentes são sinais e imagens, além disso, do Cristo Jesus, pois servir aos doentes é servir ao próprio Jesus em seus membros sofredores: "Estive enfermo e me visitastes... cada vez que o fizestes a um desses meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes" (Mt 25,36-40).

Ademais, os doentes são úteis ao mundo e à comunidade eclesial, seja enquanto testemunham a transitoriedade da vida presente, seja enquanto, vivendo a enfermidade em espírito de fé e de amor, "completam em sua carne o que falta aos sofrimentos de Cristo, por seu corpo, que é a Igreja" (Cl 1,24). Esclarece o novo Rito que "é também papel dos enfermos na Igreja, pelo seu testemunho, não só levar os outros homens a não esquecerem as realidades essenciais e mais altas, como mostrar que nossa vida mortal deve ser redimida pelo mistério da morte e ressurreição do Cristo" (cf. Rito, n° 3).

 

        3.2.7 Enfermidade e mistério pascal de Cristo

 

Pela constância e fidelidade de seu amor, o doente associa-se ao Cristo padecente, assumindo em si mesmo as dores de Cristo e se oferece com Ele ao Pai como hóstia viva e dádiva de amor (cf. 2Cor 4,10; Gl 6,14; Ef 5,2; Fl 3,10), a fim de participar também de sua ressurreição.

O cristão doente, já inserido em Cristo pelo batismo, insere-se, agora, nesta condição peculiar de doente, no mistério da morte e da ressurreição do Senhor: "Trazemos em nosso corpo os sofrimentos mortais de Jesus, para que também a vida de Jesus se manifeste em nosso corpo" (2Cor 4,10). No cristão doente se pode verificar o que Paulo dizia de si mesmo: "Embora se destrua em nós o homem exterior, todavia o homem interior vai-se renovando de dia para dia" (2Cor 4,16). Desta maneira, o mistério pascal da morte e ressurreição de Cristo torna-se o mistério pascal do cristão.

 

       3.2.8 Enfermidade e esperança cristã

 

Na vida, morte e, particularmente, na ressurreição de Cristo, e no dom do Espírito Santo, que completou a realização das promessas (cf. At 2,33.39), "já chegou para nós a última fase dos tempos" (cf. 1Cor 10,11; LG 48). Em sua ressurreição, Cristo foi constituído princípio ativo da libertação do homem e do mundo (cf. Ef 1,10; Cl 1,20; 2Pd 3,10; LG 48); no Espírito de Cristo ressuscitado, a realidade última já está presente na História, ainda que não inteiramente; o mal, o sofrimento, a doença e a morte já foram mortalmente feridos em sua raiz ( cf. 1Cor 15,25-27).

 

Enquanto a criação geme, aguardando a manifestação dos filhos de Deus (cf. Rm 8,19), e se espera ativamente a posse do paraíso em que os homens serão curados para sempre pelos frutos da árvore da vida (cf. Ap 22, 2; Ez 47,12), o cristão luta contra o mal e a doença, mas com espírito de fé, colocando sua esperança em Deus e em Cristo, "nossa esperança" (Cl 1,27).

No mistério pascal, que é um mistério de fidelidade constante no amor e de autodoação ao Pai e aos irmãos, adquire sentido a aceitação e a paciência, porque, então, expressões de fé e de esperança. 

Convictos de que nossa transformação em Cristo é o termo final de nossa esperança, podemos, com São Paulo, dizer: "A minha expectativa e esperança é que em nada eu serei confundido, mas com toda a ousadia, agora como sempre, Cristo será engrandecido no meu corpo, pela vida e pela morte. Pois para mim o viver é Cristo e o morrer é lucro" (Fl 1,20-21).

 

       3.3. O sacramento da Unção dos Enfermos

 

       3.3.1 Instituição por Nosso Senhor Jesus Cristo

 

"Os Evangelhos atestam amplamente quanto o próprio Senhor se empenhou em cuidar corporal e espiritualmente dos enfermos, ordenando aos fiéis que fizessem o mesmo" (Rito, n° 5)       No testemunho de Marcos a respeito dos Doze — "ungiam com óleo muitos enfermos e os curavam" (Mc 6,13) — a Igreja vê sugerida a instituição do sacramento da Unção dos Enfermos por Nosso Senhor Jesus Cristo, "promulgado e recomendado aos fiéis por São Tiago, apóstolo e irmão do Senhor. "Alguém de vós está enfermo"? pergunta ele. "Chame os presbíteros da Igreja, para que orem sobre ele, ungindo-o com óleo, em nome do Senhor. A oração da        salvará   o   doente,   o Senhor   o aliviará; e; se tiver pecado, receberá o perdão"  (Tg 5,14-15) (Sacram Unctionem Infirmorum, nº 1).

Justifica-se a necessidade deste sacramento, porque "aquele que adoece gravemente precisa de uma graça especial de Deus, a fim de que, premido pela ansiedade, não desanime, e, submetido à tentação, não venha perder a própria fé. Por isso, o Cristo fortalece com o sacramento da Unção os fiéis que adoecem, concedendo-lhes assim poderoso auxílio" (Rito, nº 5).

 

      3.3.2 Em que consiste o sacramento da Unção dos Enfermos

 

Obediente ao que estabeleceu o Concílio de Florença, a Introdução ao "Rito da Unção dos Enfermos e sua Assistência Pastoral" explica que "a celebração deste sacramento consiste sobretudo na oração da fé e na unção dos enfermos com o óleo santificado pela bênção de Deus, após a imposição das mãos pelos presbíteros da Igreja; por este rito é significada e conferida a graça do sacramento" (Rito, n° 5).

 

     3.3.3 A realidade e os efeitos da Unção dos Enfermos

 

A seguir, fazendo eco à doutrina de Trento e do Vaticano II, assim o novo Ritual esclarece a realidade e os efeitos do sacramento da Unção dos Enfermos: "Este sacramento confere ao enfermo a graça do Espírito Santo, que contribui para o bem do homem todo, reanimado pela confiança em Deus e fortalecido contra as tentações do Maligno e as aflições da morte, de modo que possa não somente suportar, mas combater o mal, e conseguir, se for conveniente à sua salvação espiritual, a própria cura. Este sacramento proporciona também, em caso de necessidade, o perdão  dos  pecados  e a  consumação  da  penitência  cristã" (Rito, n° 6).

 

       3.3.4 Sinal da graça do  Espírito Santo

 

Pela Unção dos Enfermos e pela oração dos presbíteros, que presencializam sacramentalmente os gestos salvíficos de Cristo e a solicitude de toda a Igreja, comunica-se ao doente a graça do Espírito Santo, numa demonstração de que, nesta sua situação particular de doente, a presença divina não o abandona, sendo-lhe possível acolhê-la na fé, na esperança e na caridade, que brotam de sua liberdade divinizada. Pelo ministério da Igreja que se manifesta solidária a um seu membro enfermo, o Espírito Santo faz-se presente à pessoa do doente, santificando-o nesta circunstância particular de sua vida.

 

       3.3.5 Contribui para a salvação do homem todo

 

O ser humano é um todo; constitui uma unidade viva, ao mesmo tempo corporal e espiritual. Nesta unidade corpóreo-espiritual, os aspectos anatômico, fisiológico, psíquico e espiritual estão profundamente unidos e em profunda interdependência.

A enfermidade atinge o homem todo, corpo e espírito, desequilibrando-o e debilitando-o, não só biologicamente, mas também espiritualmente.

A Unção dos Enfermos faz com que a força salvadora de Cristo atinja o homem enfermo em sua totalidade, para que ele possa viver, na fé e no amor, a comunhão consigo mesmo, com os outros e com Deus, exatamente nesta situação em que a debilidade geral provocada pela doença torna mais difícil viver esta vida de comunhão para a qual todo homem é chamado e que ao cristão é dado viver conscientemente e ativamente em comunidade eclesial.

Desta maneira, o sacramento contribui para a salvação do homem todo ("totus homo ad salutem adiuvatur"), reanimando sua confiança em Deus e fortalecendo-o contra as tentações do Maligno e as aflições da morte.

 

        3.3.6 A possibilidade da cura corporal

 

A possibilidade de cura corporal, como efeito condicional da Unção dos Enfermos e na oração da fé, é conforme a doutrina e a praxe tradicional da Igreja de acordo com as palavras do apóstolo Tiago (cf. Tg 5,14-16). A condição para a cura parece ser o maior bem da pessoa, em sua totalidade, ou seja, "se for conveniente à sua salvação espiritual" (Rito, n° 6).

A cura, pois, embora se relacione com a salvação ("totus homo ad salutem adiuvatur"), não é a salvação total e plena; a restauração integral e plena do homem pertence ao mundo escatológico enquanto tal. A cura corporal, quando se realiza, é símbolo da libertação da condição de pecador — que introduz o homem na comunhão filial e fraterna, com Deus e com os irmãos — e remete à libertação integral do homem e do cosmos, no Reino plenamente realizado, pátria da comunhão total e definitiva.

 

3.3.7 Eventualmente, a Unção pode perdoar os pecados

 

"Em caso de necessidade", diz o novo Ritual, "este sacramento proporciona também (...) o perdão dos pecados e a consumação da penitência cristã" (Rito, nº. 6).

O sacramento específico para o perdão dos pecados é a penitência; somente quando o doente estiver impossibilitado de recorrer àquele sacramento, a Unção reconcilia com Deus e com a Igreja.

Com efeito, a Unção dos Enfermos, diferentemente do sacramento da Penitência, não visa a restabelecer a comunhão com Deus e com os outros, rompida pelo pecado; ela visa, antes, à consolidação e à preservação da comunhão, realizada pelo dinamismo teologal. Sendo que o perdão dos pecados depende normalmente do sacramento da Penitência, o doente deve recorrer a este sacramento, se tiver necessidade de renovar sua comunhão com Deus e com os outros.

Apenas na medida em que lhe for impossível receber o sacramento da Penitência, é que a Unção terá o efeito de conceder-lhe o perdão, que, reconciliando-o com Deus e com os irmãos, permite-lhe fortalecer seu organismo teologal. Ademais, convém ter presente que toda infusão da graça é também uma renovada purificação, desde que o fiel tenha as devidas disposições.

 

       3.3.8 A necessidade da "Oração da Fé"

 

Como sacramento, através de gestos e palavras a Unção nutre, fortalece e expressa a fé (cf. SC 59).

Para que se preserve e se realce a natureza cristã e eclesial do gesto sacramental, como "sacramento da fé" (cf. SC 59), supõe-se a fé, tanto do ministro e dos participantes, como, sobretudo, daquele que recebe o sacramento.

O sacramento não é um rito mágico com o qual se manipula o sagrado, mas um encontro do homem com Deus em Cristo e na Igreja, que postula uma resposta pessoal, consciente e livre do homem, a resposta da fé. Por outro lado, conseqüentemente, o sacramento da Unção dos Enfermos é uma afirmação testemunhal de que Deus intervém salvificamente no mundo em favor do homem, sua criatura, o qual não está abandonado às suas próprias forças e condenado à limitação de suas explicações racionais, mas envolvido por uma bondade e por um poder que, sem substitui-lo, ou diminui-lo, vem em seu socorro para potenciá-lo e salvá-lo.

Por isso, o novo Ritual afirma que "na sagrada Unção, unida à oração da fé (cf. Tg 5,15), esta fé se exprime, e por isso deve ser despertada tanto no ministro do sacramento, como sobretudo naquele que o recebe; o doente, com efeito, será salvo pela sua fé e pela fé da Igreja, que contemplam a Morte e a Ressurreição do Cristo, de onde provém a eficácia do sacramento (cf. Tg 5,15), ao mesmo tempo que se voltam para o Reino que há de vir, cujo penhor é dado pelos sacramentos" (Rito, n° 7).

 

        3.3.9 Sacramento da esperança cristã

 

A Unção dos Enfermos é o sacramento da esperança cristã. O homem é um ser de esperança. A existência cristã, por sua vez, é esperança de vida e vida eterna (cf. 1Cor 15,53-54).

A esperança não se refere, porém, apenas à eternidade, senão também ao futuro da vida terrena. Refere-se ao contínuo crescimento do homem todo até à plenitude.

A situação existencial do enfermo, ameaçada pela doença, ajuda a revelar o sentido pleno do existir humano, que transcende a vida presente (cf. 1Cor 15,19).

Ao celebrar-se a Unção, unida à oração da fé, espera-se uma retomada do fiel, que, em função da doença, encontra-se numa particular dificuldade de crer e esperar na bondade e na misericórdia  de  Deus,  esperando  contra  toda  esperança  (cf. Rm 4,18). A resposta de Deus, através de seu Espírito vivificante (cf. 1Cor 15,45), atinge a pessoa em sua totalidade. Este clima de esperança transparece nas orações do novo Ritual da Unção e deve também ser expresso nos demais elementos que compõem a celebração do sacramento.

 

        3.3.10 Acontecimento pascal de salvação

 

Como todo sacramento, a Unção dos Enfermos torna presente o Cristo em seu mistério pascal, numa celebração adaptada à situação particular do cristão enfermo. Por isso, a Unção se administra ao enfermo que se tornou participante da comunidade de fé, animada pelo Espírito Santo, através dos sacramentos de iniciação: Batismo, Confirmação, Eucaristia. O sacramento destina-se aos membros da comunidade cristã ("alguém dentre vós") que tenha caído enfermo (cf. Tg 5,14a).

A Unção insere o doente, precisamente como doente, no mistério pascal de Cristo, do qual já participa pela sua vida de batizado. Comparada com as demais formas de assistência ao enfermo, a Unção constitui a culminância de sua inserção, como enfermo, no mistério pascal. É como que uma consagração do doente para a sua união com Cristo pascal, na passagem da dor e, eventualmente, da morte para a vida verdadeira.

Tudo o que constitui a existência do enfermo, o sofrimento do dia-a-dia, os sentimentos de ruptura e angústia, tudo está colocado sob o mistério pascal de Cristo, para dele receber o rumo certo e o dinamismo cristão.

O enfermo é ungido "em nome do Senhor" (Tg 5,14), assim como foi batizado em nome do Senhor. Reconciliado com Deus e com a comunidade eclesial, pelo sacramento da Penitência, se necessário, o cristão enfermo, que tinha recebido a unção do Espírito Santo no Batismo e na Confirmação, é de novo ungido, para ser assimilado a Cristo na sua condição particular de padecente.

 

        3.3.11 Dimensão eclesial da Unção

 

Um dos componentes da doença é afastar o homem do convívio social e dificultar sua participação na vida eclesial, particularmente no culto comunitário. A Igreja, então, vem tirar o irmão enfermo deste isolamento, indo até ele e levando-lhe os socorros da caridade, da oração, da Palavra de Deus e dos sacramentos.

O sacramento da Unção, além de revelar ao doente que o isolamento não rompe sua pertença à Igreja, manifesta a comunhão que existe entre a comunidade eclesial e seu membro enfermo. É o sacramento da solidariedade, da animação e do reerguimento, celebrado pela comunidade eclesial em benefício de um membro em situação existencial ameaçada.

Na comunhão dos santos, a Igreja recomenda os doentes ao Senhor, e estes são convidados a oferecerem seus sofrimentos, unidos à oblação de Cristo, ao Pai, para o bem de todo o Povo de Deus (cf. Rito, nº 5).

A maneira de celebrar a Unção deverá evidenciar este caráter comunitário do sacramento. O novo Ritual insiste, por isso, na presença e participação da comunidade eclesial, quer na liturgia domiciliar, quer na sua celebração comunitária, no hospital ou na Igreja.

 

        3.3.12 A quem se destina a Unção dos Enfermos

 

"Na epístola de Tiago" — diz o novo Ritual, em sua Introdução — se declara que "a Unção deve ser dada aos doentes, para que os alivie e salve. Portanto, esta sagrada Unção deve ser conferida com todo empenho e cuidado aos fiéis que adoecem gravemente por enfermidade ou velhice" (cf. n.º 8). Não é, pois, o sacramento dos moribundos ou agonizantes, mas dos gravemente enfermos. O novo Ritual inclui expressamente os casos dos doentes que necessitam de uma cirurgia, cuja causa seja uma doença grave (cf. n.º 10), das pessoas idosas, cujas forças se encontrem sensivelmente debilitadas (cf. n.º 11) e das crianças enfermas  que  possam  receber  o  sacramento  frutuosamente   (cf. n.º 12).

    "Para avaliar a gravidade da doença, basta que se tenha da mesma um juízo prudente ou provável, consultando-se o médico, se for o caso, para remover, com sua opinião, qualquer dúvida"

(cf. nº 8).

O sacramento poderá ser repetido tratando-se de doença diferente ou de agravamento da mesma enfermidade (cf. n° 9).

Não sendo a Unção dos Enfermos um sacramento preparatório à morte, mas o sacramento que dá o sentido cristão à doença, sua recepção não deve ser adiada indevidamente.

 

        3.3.13 O ministro da Unção dos Enfermos

 

O Ritual é enfático ao afirmar que "o ministro próprio da Unção dos Enfermos é somente o sacerdote" (nº 16), seja presbítero ou bispo.

Especifica, a seguir, as normas jurídicas relativas ao ministro e as normas litúrgicas concernentes à celebração do sacramento (n°s 16-19), à matéria, à forma e à fórmula do mesmo, (n°s 20-25), cuja leitura recomendamos.

Embora se refira às "funções e ministérios em relação aos enfermos" de um modo geral, não se referindo especificamente à Unção dos Enfermos, será muito útil também um estudo atento da 3ª parte da Introdução.

É sério dever dos pastores zelar para que todos os doentes portadores de moléstia grave recebam o sacramento que lhes compete.

 

 

IV - PISTAS PASTORAIS

 

       4.1. Observações gerais

 

Passando ao campo da prática, impõem-se inicialmente algumas observações de ordem mais geral.

 

       4.1.1 Pastoral permanente de conjunto

 

A Pastoral da Unção dos Enfermos representa apenas um aspecto da Pastoral Orgânica da Igreja nos seus vários níveis, sendo, mais precisamente, um setor da Pastoral da Saúde.

Necessita do apoio permanente dos demais serviços e setores, com os quais deverá interrelacionar-se organicamente, por duas razões principais.

Em primeiro lugar, porque o cristão, que experimenta constantemente a solicitude materna da Igreja em todas as dimensões da vida humana e cristã — proclamação do amor de Deus e do próximo, defesa da justiça, interesse pela promoção humana, luta por melhores padrões de vida — aceitará mais facilmente o ministério da Igreja, e até exigirá o seu exercício, como um direito, quando se encontrar enfermo. A comunidade eclesial será, então, para ele, uma presença familiar, fraterna e amiga, como foi ao longo de toda a caminhada.

Em segundo lugar, porque não se pode suprir facilmente, no talvez breve e sempre difícil período que dura a enfermidade, um atendimento pastoral deficiente. Acresce que a situação de enfraquecimento do enfermo torna ainda mais dificultoso um trabalho pastoral que deveria realizar-se em condições normais, ao longo da vida inteira. Havendo, porém, este empenho permanente e global, na doença, tratar-se-á tão somente de ajudar o enfermo, através de uma preparação próxima ou imediata, a viver evangelicamente este momento difícil e novo.

É necessário, por conseguinte, antecipar esta evangelização, preparando os fiéis no tempo da saúde, para quando os acometer a doença. De fato, a consciência de que o patológico faz parte da condição atual do homem, e de que o cristão é chamado a viver nela e em função dela a fé, a esperança e a caridade, quando doente, precisa ser desenvolvida, através dos mais diferentes meios: pregações de caráter missionário, catequético e litúrgico, cursos e encontros, meios de comunicação social, etc. Para tanto, poderá contribuir a celebração comunitária da Unção, com a participação de toda a comunidade, sobretudo se dentro da celebração eucarística.

 

4.1.2 Dimensões importantes de toda ação pastoral

 

É conveniente lembrar, também, que se aplica à pastoral da Unção dos Enfermos, dentro da Pastoral da Saúde, tudo o que, em geral, se diz, na Pastoral, sobre o relacionamento pessoal que deve estar na base do trabalho evangelizador; a necessidade de fazer da recepção dos sacramentos uma verdadeira celebração da fé; a constituição de núcleos de vida cristã nas "Igrejas domésticas" e nas comunidades eclesiais de base, que terão na Paróquia e na Igreja Diocesana o seu ponto de referência e o apoio necessário ao seu desenvolvimento; uma maior e mais efetiva participação dos leigos na tarefa pastoral da Igreja.

 

       4.2. Observações especiais

 

       4.2.1 Formação teológico-pastoral dos agentes eclesiais

 

A renovação da prática eclesial em relação ao sacramento da Unção dos Enfermos exige, previamente, uma séria preparação teológico-pastoral de todos aqueles que, ou como ministros leigos ou, sobretudo, como ministros ordenados, desenvolverão alguma atividade pastoral junto aos doentes.

Dificilmente haverá uma válida renovação pastoral neste campo sem que, em nível de reflexão e formação teológicas, e de preparação propriamente pastoral, haja um sério esforço.

Contribuem para isso as já numerosas iniciativas no sentido de integrar os próprios doentes — especialmente os crônicos ou carentes físicos — para que não sejam, também no campo pastoral, meros pacientes, mas "verdadeiros agentes".

Diante do caráter universal e dramático da doença, que interpela a fé com questões de ordem intelectual e existencial tão prementes, a abordagem da Unção dos Enfermos não pode refletir, de forma alguma, a mentalidade, lamentavelmente ainda existente, de um autor medieval que abre assim a sua tratação: "Em último lugar, vamos tratar do último dos sacramentos, isto é, da Extrema-Unção, mesmo porque não há quase nada a discutir sobre ele (Pedro de Poitiers, Sentent. Lib. V, c. 17, PL 211, 1164).

 

       4.2.2 Formação da comunidade eclesial em relação à Unção

 

Na apresentação do sacramento da Unção dos Enfermos, de modo a se formar a consciência de toda a comunidade eclesial a seu respeito, nas ocasiões e nas formas mais adequadas que a vida da Igreja oferece, além de se levar em conta o que o presente documento propôs em sua terceira parte e o que o "Rito da Unção do Enfermos e Sua Assistência Pastoral" prescreve, é conveniente observar o seguinte:

 

           Falar em sacramento que anima o homem todo em sua situação existencial de enfraquecido e não de rito preparatório da morte ou de sucedâneo do sacramento da Reconciliação.

 

           Explicitar, na catequese, que este sacramento insere o indivíduo enfermo na vida comunitária, apesar do isolamento causado pela enfermidade.

 

           Esclarecer os fiéis sobre a possibilidade da cura, sem, porém, transformar a Unção, indevidamente, em "sacramento da cura", obscurecendo ou desvirtuando seu significado principal de graça que ajuda o cristão enfermo a viver a fé, a esperança e a caridade dentro das condições propostas pelo patológico.

 

           Desfazer a mentalidade deixada pela denominação de "Extrema-Unção" e pelo péssimo costume de se adiar a Unção até ao momento da morte.

 

           Conscientizar toda a comunidade sobre suas responsabilidades em relação aos seus membros enfermos, como modalidade de se viver a exigência evangélica de amor preferencial pelos pobres.

 

       4.2.3 Celebração do sacramento da Unção dos Enfermos

 

Em relação à celebração do sacramento da Unção dos Enfermos, que deverá propiciar uma participação cada vez mais consciente, frutuosa e ativa da comunidade, é conveniente ter em conta o que segue, além, evidentemente, do que manda ou sugere o novo Ritual:

 

           Adaptar as orações às diversas circunstâncias, conforme prescreve o Ritual.

 

           Evidenciar, em toda a celebração, que se trata do sacramento da esperança e não do desespero ou do desenlace final.

 

           Evitar que o sacramento seja conferido àqueles que não o compreendem ou não o aceitam, prejudicando sua natureza de "sacramento da fé" e induzindo nos circunstantes uma mentalidade tendente a desvalorizar o sacramento pela sua banalização.

 

           Dar à celebração um caráter pedagógico, de autêntica catequese, tanto para os doentes como para a comunidade presente.

 

           Cuidar que o doente receba o sacramento tão logo se tenha consciência da gravidade da sua doença, a não ser em casos muito excepcionais, ressaltando, assim, que a Unção é o sacramento que dá o sentido cristão à doença, devendo este sentido ser querido e assumido consciente e livremente pelo enfermo.

 

           Evitar, na celebração do sacramento, toda e qualquer idéia ou aparência de superstição ou rito mágico, pela criação de um clima dialogal entre o celebrante e os participantes e o doente, e destes com Deus.

 

           Promover celebrações comunitárias da Unção, com a presença da comunidade hospitalar, familiar ou religiosa, sempre que possível.

 

           Introduzir ou manter o costume de dar a Unção em determinado dia do mês ou da semana, de preferência numa celebração eucarística, sem excluir os casos de emergência.

 

           Dar a devida importância às bênçãos e outros sacramentais, desde que: realmente signifiquem uma forma de comunhão com Deus; sejam uma maneira de orar em comum; não se lhes dê nenhum sentido mágico.

 

           Valorizar, em toda e qualquer celebração, a palavra de Deus, proclamando-a e ajudando o enfermo, bem como os demais participantes, a interpretar e a viver a doença cristãmente.

 

      4.2.4 A Unção dos Enfermos no contexto da Pastoral da Saúde

 

A Pastoral da Saúde, que visa à promoção integral da saúde individual e social a partir de uma visão evangélica do homem e da missão da Igreja, é o contexto necessário e imediato da Pastoral da Unção dos Enfermos, que constitui um momento privilegiado daquela.

Integrada no amplo processo da Pastoral da Saúde, a Pastoral da Unção dos Enfermos e, mormente, a própria celebração do sacramento adquire pleno significado e especial relevância. Em relação à Unção dos Enfermos, a ação pastoral geral da Igreja e a pastoral específica da saúde devem tornar possível a realização da afirmação conciliar segundo a qual "a liturgia é o cume para o qual tende a ação da Igreja e, ao mesmo tempo, a fonte donde emana toda a sua força" (SC 10).

A Pastoral da Saúde vai ao encontro dos enfermos tanto nos hospitais como nas casas de moradia. Daí a importante distinção entre Pastoral da Saúde Hospitalar e Pastoral da Saúde Domiciliar. São dois ambientes extremamente diversos, que exigem procedimentos igualmente diversos na ação pastoral. Para ser eficiente e eficaz, a Pastoral da Unção dos Enfermos deve levar em conta estas duas situações peculiares em que os enfermos podem se encontrar.

 

        4.2.4.1 Pastoral da Saúde Hospitalar

 

A ação pastoral nos hospitais será tanto mais fácil quanto melhor for o relacionamento dos agentes de pastoral com a equipe hospitalar.

Outra condição é que haja — ou trabalhe-se para que haja — estruturas humanas e cristãs, que assegurem ao enfermo, aos visitantes e aos agentes de pastoral um ambiente acolhedor e um clima propício à religião. Os agentes eclesiais, por sua vez, devem respeitar a organização da casa e as normas aí vigentes.

Quando possível, haja uma equipe, formada com elementos do próprio hospital, encarregada da Pastoral da Saúde em cada hospital, que dinamize as várias atividades deste serviço: evangelização, catequese, liturgia, ecumenismo, promoção humana, recreação.

Visto que nos hospitais se encontram pessoas nos mais diversos graus de participação eclesial e de vida cristã, é preciso conhecer cada enfermo em particular, antes de oferecer-lhe alguma forma de assistência pastoral e, principalmente, algum sacramento.

Antes mesmo de tratar dos sacramentos, é necessário ajudar o doente a se situar diante da enfermidade e encontrar o equilíbrio emocional suficiente para começar a assumi-la humanamente, de modo que criem as condições naturais para vivê-la cristãmente. A participação nos sacramentos, para a qual o enfermo deverá ser pedagogicamente conduzido, num processo de aprofundamento vivencial da fé, deve ser consciente e livre.

Isto se conseguirá mais seguramente, se o enfermo for ajudado a refletir sobre sua vida e sobre sua peculiar situação, à luz da fé, durante as longas horas de inatividade no hospital.

O agente da Pastoral da Saúde Hospitalar e, sobretudo, o sacerdote, saiba atender ao doente com calma e paciência, sem medir o tempo, preparando a hora da graça.

Às vezes, os familiares interpretam erradamente a intenção do enfermo, afirmando ao sacerdote ou ao agente leigo de pastoral que o doente aceita ou rejeita o sacramento, quando o desejo do paciente é bem outro. Requer-se, portanto, para cada caso, um prudente discernimento.

 

       4.2.4.2 Pastoral da Saúde Domiciliar

 

Executando-se o que é específico do hospital, tudo o que acima foi dito sobre a Pastoral da Saúde Hospitalar aplica-se também à Pastoral da Saúde Domiciliar.

Embora haja maior número de doentes domiciliares que hospitalizados, para o sacerdote é mais difícil encontrar os doentes nas moradias que nos hospitais. Também o atendimento pastoral, a que o doente tem direito, torna-se mais penoso, visto que é necessário visitar cada enfermo em sua residência. "No entanto, o atendimento a domicílio oferece vantagens pastorais que não se verificam nos hospitais: atendimento mais pessoal, maiores contatos com a família e os vizinhos do doente, maior entrosamento com a comunidade paroquial, maiores possibilidades de pastoral geral".

Por isso, no setor domiciliar da Pastoral da Saúde, semelhantemente ao setor hospitalar, presta serviços incalculáveis uma boa equipe de leigos e leigas que se sintam vocacionados para este ministério. Se é verdade que estes agentes leigos não substituem o sacerdote em suas funções próprias, contudo realizam tarefas preparatórias e concomitantes da ação sacerdotal de inestimável valor: descobrem onde há doentes, indicam-nos para a equipe de promoção humana da comunidade, quando necessário, visitam os enfermos e os preparam e dispõem para os sacramentos, servem de ligação entre o doente e o sacerdote. Alguns deles, como ministros extraordinários da distribuição da Eucaristia, instituídos pelo bispo ou solicitados "ad hoc" pelo pároco, podem levar a Eucaristia aos que a desejarem, mesmo diariamente, como, de fato, convém.

Requer-se dos agentes que tenham os dotes humanos naturais e sobrenaturais necessários, sobretudo uma grande caridade e paciência, além da capacidade e do preparo suficiente para o desempenho de suas funções, que têm um valor próprio e insubstituível.

 

        4.2.5 A Reconciliação, a Eucaristia e o Viático

 

Entre as outras formas de assistência espiritual, que se ligam ao sacramento da Unção dos Enfermos ou encaminham para ele, podem mencionar-se as visitas dos irmãos e dos responsáveis da comunidade, o serviço da oração comum pelo doente, a participação freqüente na Eucaristia, as missas e bênçãos da saúde, as liturgias domésticas, todos elementos que, de alguma forma, se reencontram no próprio rito da Unção.

O sacramento da Penitência há de ser revalorizado distinguindo-o, sempre que as condições do doente o permitem, da Unção. Se o doente precisar recorrer ao sacramento da Reconciliação, deve fazê-lo antes ou, pelo menos, no início da celebração da Unção.

A participação na Eucaristia, alimento da caminhada, expressão privilegiada da comunidade eclesial à qual os doentes continuam ligados, enriquecendo-a misteriosamente com seu sofrimento, deve ser propiciada o máximo possível, dada a importância que reveste para este momento crítico da vida.

Aos moribundos devidamente preparados, a Igreja oferece, na passagem desta vida para o banquete na casa do Pai, na eternidade, a Eucaristia sob a forma de Viático, ou seja, alimento para a última jornada, para a ultima caminhada, segundo a palavra do Senhor: "Quem  come  a  minha  carne  e  bebe  o  meu  sangue,  possui a vida  eterna, e eu o ressuscitarei  no  último  dia" (Jo 6,54-55). O viático é uma participação real no mistério eucarístico, memorial da Morte e Ressurreição do Senhor, de sua passagem deste mundo para o Pai (cf. Rito nº 26). Neste momento, mais do que nunca, a liturgia terrena é o "antegozo da liturgia celeste" (SC 8), da união definitiva com Deus em Cristo e por Cristo. Se for possível, o viático seja recebido na própria missa, que, em tais circunstâncias pode ser celebrada na casa do enfermo. O novo Ritual recorda que "convém igualmente que o fiel renove, na celebração do Viático, as promessas do Batismo, pelo qual recebeu a adoção dos filhos de Deus e se tornou co-herdeiros das promessas de vida eterna" (cf. Rito, n. 28).

 

 

V - CONCLUSÃO

 

"Passamos este documento, através dos diversos agentes de pastoral, às mãos do Povo de Deus que nos foi confiado. Desejamos que esta nossa palavra sirva de real ajuda para todos: como tema de estudos e encontros, também para sacerdotes, como parte da formação litúrgica nos seminários e como elemento integrante da catequese. Edições resumidas e sobretudo em linguagem adaptadas aos diversos ambientes e pessoas, poderão ajudar a fazer chegar estas orientações a todo o Povo de Deus para que ilumine suas mentes, mova corações e leve a Igreja a uma ação mais consciente e ordenada em favor de seus membros enfermos.

Exortamos a todos os nossos colaboradores no ministério da salvação — presbíteros, diáconos, religiosos e leigos — para que alimentem em relação aos caríssimos irmãos enfermos uma ardente caridade fraterna, procurando proporcionar-lhes, por uma ação pastoral cada vez mais adequada, os auxílios corporais e espirituais de que necessitam.

     O  cuidado  dos   enfermos,  sobretudo dos  pobres   e  oprimidos,

será sempre mais um sinal de que  o Reino faz sua marcha na História

 e os pobres são  evangelizados  (cf. Mc 11,5-6),  garantindo-nos,  do

 Cristo  juiz   que  servimos  no  Cristo  pobre   e   doente,  o  convite

consolador:  "Vinde, benditos de meu Pai...  porque  estive  enfermo e

me visitastes" (Mt 25,34.36).

 

 

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Fonte: Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB

Web site: www.cnbb.org.br