CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL

CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL

 

SUBSÍDIOS PARA PUEBLA

 

Aprovados pela

Assembléia Geral Extraordinária

Itaici, 18 a 25 de abril de 1978

 

 

   1. Os Bispos do Brasil esperam de Puebla que saiba assumir a realidade da América Latina, sobretudo em sua evolução nos últimos dez anos: partindo de Medellín e mantendo o seu espírito, que saiba discernir esta realidade à luz do Evangelho e que saiba indicar corajosamente pistas para a caminhada pastoral futura.

 

   2. Como subsídios para esta tarefa, registram aqui as reflexões da Assembléia Geral Extraordinária realizada em Itaici, SP, de 18 a  25 de abril de 1978.

 

A) ENFOQUES DA REALIDADE LATINO-AMERICANA

 

   3. Na realidade latino-americana discernimos os elementos e aspectos que julgamos devam ser levados em conta na elaboração de um diagnóstico global do continente.

 

   Do ponto de vista eclesial

 

   4. A situação eclesial apresenta aspectos negativos e positivos. Entre os aspectos negativos chamamos a atenção para a situação de uma Igreja que não se sente ainda suficientemente preparada para enfrentar os problemas da civilização urbana e industrial que geram as megalópoles. A estrutura paroquial, embora ainda válida, vem revelando inadequação para evangelizar esses grandes centros urbanos, onde os meios de comunicação social exercem grande influência freqüentemente conflitante com a mensagem do Evangelho e superam em eficácia o magistério da Igreja.

 

   5. A Igreja se ressente da expansão do secularismo, do ateísmo, que atingem mais as famílias, e também da expansão de ideologias anti-cristãs, às quais, para resistir, faltou adequada formação da consciência crítica. Em certas áreas, aprofunda-se a dicotomia entre fé e vida.

 

   6. O impacto dessas ideologias gerou divergências internas na Igreja por parte de figuras do clero e das elites intelectuais.

 

   7. As classes médias e altas, nas grandes cidades, revelam um certo descompromisso com o social. Ao lado disto, observa-se em todas as classes, sobretudo na população menos assistida, um êxodo para o espiritismo, as religiões esotéricas e orientais e certas seitas proselitistas.

 

   8. A reação pastoral da Igreja a essa situação encontra obstáculos sérios. Urge descobrir criativamente formas de comunhão eclesial adequadas à evangelização da cidade, onde o tipo de relacionamento interpessoal não oferece as mesmas chances às Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) como no mundo rural. Por vezes, a ação social desenvolvida pela Igreja em apoio à sua ação pastoral é confundida com subversão e serviço ao comunismo.

 

   9. A imagem de uma Igreja ligada aos poderes opressores, em passado ainda recente, reduziu sua credibilidade evangelizadora. A Igreja não conseguiu dar sempre um testemunho bastante convincente de pobreza e profetismo.

 

   10. Uma ação pastoral muitas vezes reduzida quase que a simples processo de sacramentalização, sem preocupação pelo acompanhamento e inserção comunitária, teve como reação uma perigosa desvalorização da participação sacramental, máxime da penitência, do matrimônio, da eucaristia e talvez até mesmo do batismo.

 

   11. A Igreja da América Latina é uma Igreja ainda dependente de recursos humanos e materiais para a evangelização.

 

   12. Observa-se pouco conhecimento da Doutrina Social da Igreja, a não ser por parte de especialistas. O povo em geral ignora mesmo os documentos da Igreja, que não lhe são suficientemente comunicados.

 

   13. A eclesiologia que se vem elaborando na América Latina ainda se revela mais vivencial que sistemática.

 

   14. Uma renovação mal entendida da Liturgia, em alguns ambientes, levou a uma perda de preciosas formas de expressão da religiosidade popular. Tal perda é uma das causas do fenômeno do sincretismo religioso.

 

   15. O sentimento religioso do povo é pouco esclarecido e envolvido em formas de sincretismo. Não discerne bem entre Providência e Fatalismo, entre culto autêntico e cultos sincréticos. As devoções têm caráter sentimentalista. Deus é apreendido como Deus providente, o solucionador de casos, o último recurso do pobre. Deus, nos meios mais urbanizados e intelectualizados, se reduz a um conceito distante, nocional, objeto de manipulações, desvinculado da realidade. Não é anunciado como aquele que se revela através da própria História.

   De outro lado, os agentes de pastoral - seja levados pela ignorância dos valores da religiosidade popular, seja impulsionados por certo racionalismo teológico - impuseram aos fiéis uma pastoral de cursos e reflexões que dificulta a manifestação de sua religiosidade, favorecendo sua passagem para outras religiões.

 

   16. Entre os aspectos positivos, registra-se a situação de uma Igreja que, mais voltada para o povo e mais preocupada com os simples, soube assumir posições proféticas, que lhe mereceram perseguições, ao mesmo tempo que a glória de seus primeiros mártires. Nesse contexto, é de assinalar-se que se destacaram figuras proféticas no episcopado e entre os sacerdotes, religiosos e leigos.

 

   17. Essa Igreja soube abrir mão de privilégios tradicionais, ganhando assim maior liberdade ante as forças econômicas e políticas e podendo estabelecer uma ligação maior entre evangelização e mudança social, por maior espírito de serviço, especialmente no anúncio e em defesa dos direitos humanos, como também na denúncia de suas violações.

 

   18. A comunhão interna da Igreja exprime-se mais claramente em estruturas visíveis: CELAM, Conferências Episcopais e Religiosas, Conselhos Presbiterais e Paroquiais, articulação de Igrejas-irmãs, Conselho Indigenista Missionário.

 

   19. As CEBs tornam-se valiosa realidade na vida do homem e das comunidades, pela vivência, testemunho e ação nas dimensões religiosa e social.

 

   20. Renova-se a vida litúrgica da Igreja, sua vida de oração e contemplação. Cresce nela a consciência da presença do Espírito Santo em sua vida, com expansão dos movimentos carismáticos. As Igrejas particulares foram revalorizadas na diversidade dos seus carismas.

 

   21. Assiste-se ao surgimento de novos ministérios, novos tipos de missões, com a valorização de expressões, gestos e símbolos próprios do povo. Cresce a valorização do laicato, com aceitação maior de seu trabalho e a corresponsabilidade dos seus membros mais conscientes.

 

   22. A Igreja pode desenvolver assim uma pastoral mais abrangente com a expansão dos círculos bíblicos, formação de agentes de pastoral, reciclagem de seus membros, mesmo Bispos, além de presbíteros e líderes leigos, com crescente número de comunidades religiosas mais inseridas nos planos de pastoral de conjunto e na realidade do povo, vivendo entre eles em pequenas comunidades.

 

   23. Expande-se uma catequese mais atenta à situação envolvente em todos os níveis: catequese geradora e formadora da fé; educadora da consciência moral e do senso crítico; formadora do espírito comunitário e do compromisso social.

 

   24. A Igreja se abre mais para o Meios de Comunicação Social e é mais aceita por eles. A palavra da hierarquia, os pronunciamentos nacionais e diocesanos encontram maior ressonância, mesmo em setores não-confessionais. A Igreja torna-se notícia.

 

   25. Crescem as iniciativas de caráter ecumênico e ampliam-se as formas de cooperação entre as Igrejas cristãs.

 

   26. A juventude, muito suscetível ao valor da autenticidade, reage diante de certos contra-testemunhos da Igreja, mas descobre novamente o valor da vocação sacerdotal e religiosa, dando esperanças para o futuro.

 

   27. Desenvolve-se um pensamento teológico original latino-americano, graças ao esforço de novos teólogos fazendo teologia a partir da realidade, preocupando-se com a justiça social e a Igreja de base.

 

   Do ponto de vista sócio-político-econômico

 

   28. Observa-se no continente latino-americano uma exacerbação do conflito opressores e oprimidos, devido a uma situação de gritante iniqüidade social.

 

   29. Acentuou-se e continua a acentuar-se a injustiça na posse e uso da terra, pela pressão exercida por grandes empresas sobre os que a ocupam e dela tiram os meios de subsistência, incentivando a proletarização do homem rural. Aos mecanismos de pressão dessas empresas soma-se a criminosa política agrária de alguns países sul-americanos, que ameaça a sobrevivência da pequena propriedade rural, trabalhada em regime de economia familiar. Também os grandes projetos oficiais, que acarretam desapropriação de terras de pequenos proprietários e posseiros a preços injustos e paga tardia, levam os camponeses despreparados e sem recursos à marginalização social nas periferias das grandes cidades.

 

   30. Essa pressão vem atingindo também as populações indígenas dizimadas progressivamente pela redução de suas reservas, pelas migrações forçadas, pelo contágio com as frentes de expansão do capitalismo agrário que acaba por absorvê-las como mão-de-obra indefesa e facilmente explorada.

 

   31. A iníqua repartição das rendas vem propiciando um perigoso afrontamento das classes sociais. Enquanto, por um lado, uma minoria pode permitir-se padrões requintados de consumo por outro lado, a grande maioria dos marginalizados se extenua na luta pela sobrevivência. É na América Latina que se encontram os países de mais amplo leque de dispersão salarial, que constitui o mais grave escândalo social de um continente que é tido por cristão.

 

   32. A posse dos meios de produção concentra-se nas mãos de grupos poderosos ou do Estado, ao mesmo tempo em que se acelera a desnacionalização das economias nacionais, pelo domínio crescente das multinacionais.

   Uma boa parte dos problemas de nossas cidades vêm das relações de trabalho, fruto dessa concentração do poder econômico e da conseqüente exploração dos trabalhadores, cuja vida familiar e social são condicionadas pelo salário baixíssimo que recebem.

 

   33. Esses diversos fenômenos propiciam, em certos meios, o crescimento da receptividade à mensagem marxista e os levam a buscar em suas teorias os instrumentos para interpretar a realidade, e em seus métodos a estratégia para transformá-la.

 

   34. Aumentam as concentrações urbanas a um ritmo acelerado pelas migrações de grandes contingentes humanos através do êxodo rural. Criam-se assim problemas que ameaçam de colapso as próprias megalópoles. Entre esses problemas, destacam-se a extensão da favelização sitiando as cidades a partir de suas periferias, a política de remoção das favelas exacerbando o problema da segregação dos pobres, e o crescimento da criminalidade e de formas selvagens de violência.

 

   35. Aumentam também os movimentos de migração interna, problematizando a família, e, muitas vezes, sua futura instalação em outra região e normalmente a possibilidade de trabalho.

 

   36. O contexto urbano vem criando condições sempre mais adversas ao desenvolvimento normal das famílias. O problema habitacional assume graves proporções, com suas soluções frustradas pela desenfreada especulação imobiliária, que absorve, para construções de alto luxo, recursos de programas habitacionais inadequados.

 

   37. Uma alarmante difusão do uso dos tóxicos vem corrompendo especialmente a juventude. Essa difusão, explorada por máfias organizadas, gera novas formas de crime e de terror, e, por suas ramificações em todas as classes sociais, torna ineficazes todas as veleidades de combatê-la.

 

   38. Cresce em proporções assustadoras o problema do menor abandonado, provocando, entre outras conseqüências, o aumento da promiscuidade e dos índices de criminalidade juvenil.

 

   39. A situação de injustiça vai sendo mantida por mecanismos de violência institucionalizada, por forças de repressão operando fora da lei e gozando de omissão, complacência ou cumplicidade dos poderes e gerando reações desesperadas que oferecem pretextos para repressões mais violentas.

 

   40. A dinâmica desse processo incentiva a multiplicação das violações dos mais elementares direitos humanos: invasão de domicílio, seqüestros, banimentos, desaparecimentos de pessoas indefesas, prisões arbitrárias, supressão do hábeas-corpus, incomunicabilidade abusiva, torturas e mortes.

 

   41. Pelo surgimento de regimes militaristas, os sistemas políticos do continente foram progressivamente influenciados pela doutrina da Segurança Nacional que, absolutizando o Estado, reduziu a segurança das pessoas e concentrou o poder nas mãos de oligarquias restritas que decidem o destino das nações.

 

   42. Tal processo é facilitado pela manipulação oficial dos meios de comunicação e da educação, que perdem sua significação libertadora, para se transformarem em processo de instrumentalização das pessoas a serviço dos objetivos do desenvolvimento econômico.

 

   43. A América Latina vem perdendo sua oportunidade histórica de realizar um modelo justo e humano de desenvolvimento, sucumbindo às seduções do consumismo e alienando sua liberdade política nas mãos de uma tecnocracia que reduz as pessoas a número de cálculos de uma engenharia social e suprime os espaços de liberdade das entidades intermediárias: família, instituições, associações, sindicatos...

 

   44. Os esforços do continente por libertar-se de sua condição secular de dependência são ameaçadas de fracasso pelas articulações trilaterais dos pólos de dominação tendentes a transformar o subdesenvolvimento, de uma fase transitória de um processo, em uma função permanente e tolerável de um sistema global.

 

   Do ponto de vista cultural

 

   45. A cultura latino-americana distingue-se da espanhola e portuguesa; não se esqueçam os elementos indígenas e africanos que a marcaram, promovendo um estudo acurado para discernir os valores nela existentes e respeitando-os em nossa convivência continental; nesse contexto assumem importância especial o sincretismo da umbanda e os cultos afro-brasileiros.

 

   46. Ainda não se encontrou uma resposta latino-americana satisfatória sobre a preservação das culturas e a aceitação da cultura mundial de hoje: continua em aberto a pergunta de como criar consciência crítica e integrar novos valores.

 

   47. A Igreja ganhará muito em credibilidade, se der maior ênfase ao tema da religiosidade popular a partir de uma opção pelo pobre. Sua resposta deve basear-se na realidade do continente, situando-se em seu contexto histórico e não importando esquemas interpretativos de contextos históricos muito diferentes.

 

   48. Entre os valores mais expressivos da cultura latino-americana ressaltam-se os seguintes: religiosidade popular, família, relacionamento interpessoal, hospitalidade, bondade, compreensão, perdão, capacidade de sofrer, de lutar, de assimilar habilidades técnicas.

 

   49. Observa-se também um amálgama de contra-valores decorrentes da segregação racial, do poderio econômico e político.

   Existe uma verdadeira violentação da heterogeneidade de culturas: pelos meios de comunicação social e pelo consumismo que nivelam as culturas e levam à cultura de massa; pela expansão de subculturas de cunho religioso e pela pressão que favorece a implantação estratégica de uma sociedade de consumo.

 

   50. A marginalização cultural do povo traz conseqüências sérias para a vida de fé e para a convivência social; a marginalização da mulher, que ainda aparece em nosso continente, debilita a vitalidade construtora da sociedade e da Igreja.

 

   51. Apesar de a Igreja atingir parcialmente certos núcleos de cultura do povo mais humilde (escola, culto etc.), falta-lhe metodologia para responder às necessidades das expressões culturais; verifica-se um processo evolutivo na tentativa de respostas, mas os valores que existem nas camadas populares ainda não são aproveitados.

 

   52. Observa-se também que alguns setores abusam do título "cultura cristã na América Latina", para defenderem a manutenção do "status quo" da sociedade, esvaziando e instrumentalizando a palavra "cristã".

 

   53.No enfoque da realidade latino-americana é indispensável integrar os diversos sintomas numa referência a suas causas profundas: opção por um capitalismo dirigido pela tecnocracia sem atenção ao valor da pessoa humana e seus direitos; opção por regimes de força como única alternativa para manter a ordem; visão míope de um dualismo irredutível entre capitalismo e comunismo, como se não fosse possível ser anti-capitalista sem ser comunista.

 

 

B) ELEMENTOS PARA JULGAR A REALIDADE LATINO-AMERICANA

 

   Quanto à Igreja

 

   54. Para julgar a realidade latino-americana à luz da Palavra de Deus, alguns elementos devem ser colocados em destaque: a Igreja quer viver um momento intenso de testemunho de fé, de proclamação da Graça de Cristo que dê testemunho de solidariedade entre seus membros. Assim quer tornar-se visível como sinal de comunhão entre as pessoas.

 

   55. Dada a vocação original do homem todo para filho de Deus, e por conseguinte sua destinação à comunhão de vida com Deus e participação de sua felicidade, toda a situação negativa, assim descrita, deve ser caracterizada pela marca do pecado, isto é, de uma situação que ofende a Deus pelo fato de contrariar à dignidade do homem como filho de Deus. e por isso tal situação não pode ser justificada nem muito menos mantida.

 

   56. A comunhão com o Pai fará dela um instrumento de conversão dos homens para a união, onde cada membro possa chegar à participação ativa e à corresponsabilidade através de organismos eficazes.

   Pela convivência assumida de modo prático e sempre novo, a Igreja será vista como sinal e instrumento de salvação e poderá educar os homens neste continente para a autêntica solidariedade, vencendo todas as formas de injustiça dentro da Igreja e fora dela.

 

   57. A Igreja, solidária, sinal e instrumento de comunhão no meio do povo, superará qualquer vinculação a sistemas ou regimes de opressão. Assumindo sua missão de serviço aos homens, em especial pelo compromisso claro de estar ao lado dos pobres e oprimidos, mantendo-se aberta a todas as classes sociais, a Igreja dará testemunho de sua atenção às necessidades da pessoa humana em todas as suas dimensões.

 

   58. Povo de Deus em marcha, todos os membros da Igreja participam da mesma aventura, animados pela esperança da libertação. A fé na Palavra daquele que passou fazendo o bem, sofreu, morreu e ressuscitou, suscita, no íntimo de cada cristão, o espírito de serviço que compromete a todos e a cada um no processo de luta pela superação dos sofrimentos, da miséria, da pobreza, da injustiça, da opressão de qualquer tipo.

   Neste sentido, a própria Igreja — para ser autenticamente evangélica — deverá superar as discriminações internas.

 

   59. As funções dos Bispos, dos presbíteros dos diversos ministros e dos leigos, serão sempre distintas. Melhor definida, de modo prático e concreto, a missão dos pastores não lhes confere títulos de honra e de privilégio, mas de serviço.

   Assim, a Igreja se apresentará ao Pai e diante dos homens como os "filhos reunidos em Cristo, pela força do Espírito Santo".

 

   60. Unida na mesma fraternidade, a Igreja deve diversificar os ministérios, não segundo padrões pré-estabelecidos, mas segundo o impulso do Espírito, de acordo com as necessidades das comunidades em diversas situações. A diversidade de dons e carismas dará à Igreja a multiforme capacidade de servir com disponibilidade, abertura, eficácia e despojamento.

 

   61. Na América Latina, as CEBs e muitas outras formas de convivência eclesial estão a exigir uma especificação e preparo mais adequados dos Bispos, presbíteros e diáconos, para o exercício de sua função. Mas vai além a necessidade de nossas situações: a criatividade sugerirá o reexame dos atuais modelos de ministros e o aparecimento de novos ministérios, que, por sua vez, reclamarão processo de amadurecimento na fé e consciência eclesial, bem como verdadeira aceitação por parte da hierarquia e das comunidades.

 

   62. A Igreja particular, com suas características e fisionomia próprias, não pode perder de vista a transcendência da fé e da unidade visível com as demais Igrejas, marco central do cristianismo.

   No anúncio do Evangelho, na defesa corajosa dos Direitos Humanos, na encarnação que faz assumir a pessoa humana em suas circunstâncias concretas, é preciso que a Igreja viva o dinamismo da conversão para a unidade sem fechamento nem particularismo.

 

   63. O autêntico espírito evangélico faz da Igreja sinal e instrumento da salvação, reveladora do sentido libertador da fé face aos acontecimentos e aos sinais dos tempos. Por outro lado, ela denuncia toda imagem de Igreja dominadora imbuída de espírito clericalista, identificado muitas vezes com a hierarquia, e coloca em relevo seu compromisso com a História e com o povo. Em particular, compromete-se com as comunidades que se reúnem para a escuta da Palavra e, sob o impulso do Espírito, encarnam a fé viva nos fatos de cada dia, celebrando-os na comunhão com o mistério do Cristo.

 

   Quanto à cristologia

 

   64. O caminhar do Povo de Deus está marcado pela passagem de Jesus de Nazaré, que entra no mundo e na casa dos pecadores. Isto significa que Ele assume as situações reais do homem nas circunstâncias em que este vive. Suas atitudes concretas sempre foram de libertação de situações concretas.

 

   65. Cristo libertador é o profeta que coloca gestos, mediante os quais o doente, o marginalizado, as crianças e toda pessoa sob qualquer forma de abandono deixam de viver na marginalidade e passam a fazer parte de um povo. A Igreja da América Latina, seguidora do Cristo que convive com a gente de seu tempo, sabe e deve assumir, como causa própria, as condições do pobre, do perseguido, do marginalizado, para identificar-se com ele.

 

   66. O Cristo morto e ressuscitado está vivo e presente na História de todos os tempos, sobretudo pela Igreja, que é seu sacramento de ação salvadora. Está do mesmo modo presente na pessoa humana, máxime no pobre, pois veio para dar a plenitude da vida.

   O mesmo Jesus, dom do Pai à humanidade para libertá-la, continua oferecendo-se como propiciação pelos nossos pecados e vive intercedendo por nós.

   A Eucaristia é a realidade e a proclamação do Cristo sempre presente.

 

   67. O Cristo que viveu a condição humana, profeta morto e ressuscitado, convoca a sua Igreja que prolonga seu corpo no tempo e no espaço. Ele integra como membro seu cada ser humano, de qualquer raça e condição. Cada homem encarna em si a imagem dAquele que veio na fraqueza e foi dela libertado pelo Pai, a fim de fazer de cada pessoa um "filho muito amado", escolhido para ser, pela força do Espirito, configurado com o Senhor Jesus e destinado à ressurreição. Por isso, aqui e agora, cada ser humano já merece todo o respeito.

 

   68. Partindo da visão do homem, especialmente do homem sofredor, manifestação viva de Jesus, a Cristologia procura iluminar mutuamente o conhecimento de Cristo, o revelador do Pai, e o conhecimento mais profundo do próprio homem.

 

   69. A Cristologia, como evangelização, deve anunciar o Cristo como Filho Unigênito de Deus que se fez homem para, precisamente, refazer o homem como filho de Deus, unindo-o a si e fazendo-o viver de sua vida de ressuscitado, vencendo o pecado em toda a sua extensão individual e social.

 

   Quanto à liturgia

 

   70. A Liturgia, centro e cume da vida eclesial, deve ser a fonte de toda e qualquer evangelização. A vida do homem do campo, da periferia dos centros urbanos, vivida na fé e na esperança, se caracteriza pelo sofrimento que necessita de libertação e de novas perspectivas.

   Cristo, homem morto e Filho de Deus ressuscitado pelo poder do Espírito, tornar-se-á motivo de força e de ânimo para o povo em marcha.

 

   71. O mistério pascal que a Liturgia apresenta em sinais é a História do homem de todos os tempos. Não basta que os ritos façam menção do Jesus histórico. É preciso que a realidade do mistério se aproxime concretamente da realidade vivida pelo homem de hoje. Os gestos, símbolos e palavras revelem a situação das comunidades e ao mesmo tempo sejam reconhecidos como expressão do mistério.

 

   72. A união do mistério e da situação do homem de hoje é que proclama a glória de Deus e a libertação do homem. Celebrar significa, pois, colocar em harmonia o homem em situação e a esperança do Reino que se prepara.

 

   73. Assim como a evangelização é indispensável para que os sinais litúrgicos expressem o mistério celebrado, assim a Liturgia se apresenta como modo prático e concreto de manifestar os aspectos da vida cotidiana assumida pelo Cristo.

 

   Quanto à evangelização

 

   74. A pessoa humana, centro de toda ação apostólica e destinatária da evangelização, é de fato o ponto de partida da encarnação da Liturgia. Ignorar a situação do homem é também ignorar o caminho para o conhecimento de Deus.

 

   75. A tarefa de evangelizar, pelo testemunho e pelo anúncio, deve levar a pessoa humana e os grupos sociais:

 

  a tomar consciência de sua dignidade e da situação em que se encontram;

 

  a comprometer-se na renovação de sua vida e da sociedade, segundo os valores evangélicos, através da vivência e da solidariedade humana e da participação na comunhão eclesial (cfr. E.N., n.° 19);

 

  a buscar uma libertação que ultrapasse todos os limites temporais e que tenha sua plena realização na comunhão com Deus (cfr. E.N., n.° 27);

 

  a manifestar sua ação em todas as dimensões do Mandamento Novo, que é um amor inteligente e crítico (cfr. E.N. n.° 38).

 

   76. A teologia da comunhão dá sentido, força e rumo à teologia da libertação: libertar integralmente para a plena comunhão da vida fraterna dos homens entre si e comunhão filial dos homens com Deus Pai.

 

   77. Toda evangelização libertadora é, por isso, também transformadora do mundo em que a pessoa humana vive e se realiza. É próprio da índole secular que o leigo exerça uma ação de presença num mundo contaminado pelo pecado, para recriá-lo segundo o desígnio de Deus. A salvação situa-se no plano da própria criação.

 

   78. A formação da consciência missionária é indispensável. Quem não alimenta o anseio de salvar o "homem todo", estaria alienado. Mas a consciência de libertar "todos os homens" é também parte integrante da evangelização. Ser missionário e tornar-se apóstolo das nações, é condição do cristão.

 

   79. É impossível evangelizar sem admitir atitude aberta de chegar-se a cada pessoa como Deus a fez e a História a situou. O culto e crescimento da fé que parassem num afeto à Igreja católica sem despertar para a dimensão missionária, seriam atitude de homem religioso e não de cristão.

 

   80. A Igreja deve anunciar ao homem de hoje que ele é, por desígnio divino, filho de Deus com todos os seus valores materiais e espirituais, nas dimensões de comunhão com Deus, com o outro, consigo mesmo e com as coisas criadas (GS 13).

 

   81. A religiosidade popular e a peculiar devoção a Maria são elementos importantes para a vida de fé do povo latino-americano e brasileiro. Todo crescimento na educação da fé deve levar em conta esses dados. Ser homem religioso e não ter chegado a uma fé evangelicamente esclarecida, é a situação freqüente do homem em nosso continente. Portanto, o respeito e o estudo da religiosidade são condições indispensáveis à evangelização do homem na América Latina.

 

   82. Quando se trata de ações concretas, dentro de uma visão ecumênica, não se deve perguntar a que Igreja pertence o outro, mas verificar se esse outro está aberto à pessoa humana e se aceita o principio doutrinal de que a libertação do homem é tarefa de todos.

 

   83. Jesus Cristo — Deus que se fez peregrino da História — se situou no centro da mesma História. Sua ação evangelizadora e a da sua Igreja visam a construir o Reino de Deus. A Igreja quer construir o reino e evidenciar que Jesus, o Homem-Deus, deve ser o centro da História.

   O Reino de Deus, embora não seja deste mundo é força que exige realizações concretas dentro dos modelos reais históricos deste mundo.

   Pode, em nossa História ambígua, até gerar conflitos duros.

   O Reino de Deus é virtude. O Senhor Jesus, Servidor do Pai e dos homens, veio servir.

   A Igreja é servidora da Palavra e do Reino de Deus.

   O Reino de Deus é comunhão.

   Construir o Reino exige ter "paciência" com o pecador, inclusive com o opressor.

   Construir o Reino é visibilizar a glória do Pai, que está no céu.

 

 

C) SUGESTÕES PARA A AÇÃO EVANGELIZADORA DA IGREJA NA AMÉRICA LATINA

 

   84. Depois de alguns enfoques de nossa realidade latino-americana e de alguns elementos para julgá-la, apresentamos algumas sugestões para uma AÇÃO EVANGELIZADORA DA IGREJA NA AMÉRICA LATINA.

Sugerem-se, pois, diversas iniciativas.

 

   Vida da Igreja

 

   85. Continue a Ação Evangelizadora da Igreja na América Latina à luz do Concílio Vaticano II da Conferência de Medellín, da Exortação Evangelii Nuntiandi, de Documentos dos Episcopados Latino-americanos, como "Exigências Cristãs de uma Ordem Política", reforçando-se desta forma a unidade pastoral da Igreja no Continente.

 

   86. Desdobre-se a ação pastoral no anúncio da Boa-Nova, na denúncia das injustiças, na convocação dos batizados para assumirem suas próprias responsabilidades como Povo de Deus.

 

   87. Prossiga-se o aprofundamento das CEBs, da evangelização libertadora, de um pensamento teológico original; de uma Igreja de fraternidade, participação e diálogo, descomprometida com sistemas, regimes e ideologias e encarnada nas características próprias de sua originalidade latino-americana; de uma opção prioritária, mas não excludente, pelos pobres e oprimidos.

 

   88. Encaminhe-se o estudo sobre temas que criam perplexidades e tensões. Entre estes, a teologia da libertação; a problemática da evangelização das elites, dos grupos de influência, das classes média e alta e da pastoral castrense; a evangelização dos que se afastam da Igreja e dos que vivem em condições públicas de pecado; a invasão de seitas anti-cristãs e do sincretismo religioso; o problema de radicalizações dentro da Igreja e fora dela; a temática do regime de cristandade e da Igreja da diáspora; o problema da "análise marxista" em seu valor, seu método e seu uso; a função social da propriedade no campo e na cidade; a temática do socialismo; capitalismo liberal e luta de classes; segurança nacional; sociedade de consumo; a distinção entre poder e autoridade dentro da Igreja e fora; a exigência de uma catequese e uma liturgia mais adaptadas à mentalidade e às expressões culturais do povo; a religiosidade popular com todos os seus valores e seus problemas; a convivência da Igreja com os vários sistemas da sociedade, salvaguardando os princípios do Evangelho.

 

   89. Preocupe-se a Igreja com as várias culturas na evangelização, na liturgia, na pastoral e na formação de agentes ordenados e não ordenados.

 

   90. Face ao continuado processo de marginalização e extinção dos índios no Brasil, a Igreja vem procurando atuar junto a eles uma pastoral que vise aos seguintes objetivos:

 

   1º) Defesa da posse de suas terras como condição de sua sobrevivência cultural e física;

 

   2º) Respeito pela sua cultura e seus valores;

 

   3º) Encarnação na sua realidade, identificando-se com eles como forma de explicitar com eles a salvação que vem de Cristo;

 

   4º) Incentivo e apoio às formas de busca e concretização de sua autodeterminação.

 

   91. Proceda-se a uma revisão crítica das obras da Igreja na sua eficácia evangelizadora, com atenção especial à problemática da Escola Católica.

 

   92. Assuma-se a religiosidade popular com todos os seus valores e expressões culturais do povo.

 

   93. Sendo a Liturgia cume e fonte da vida da Igreja, prossiga-se à autêntica renovação litúrgica no continente, levando em consideração especial documentos de importância litúrgica próprios da América Latina, como o I e II Encontros Latino-americanos de Medellín e de Caracas, além da carta especial enviada pelo Cardeal Secretário de Estado aos participantes do Encontro de Caracas.

 

   94. Valorize-se na América Latina a importância, para a evangelização, da liturgia de rádio e TV.

 

   95. Desenvolva-se uma catequese educadora permanente da fé mais atinente à situação envolvente capaz de formar a consciência moral, o senso crítico, o espírito comunitário e o compromisso social.

 

   96. Os Pastores incluam em suas diversas tarefas pastorais a de promoverem a participação do Povo de Deus, particularmente do leigo, que tem seu lugar e seu papel próprios na Igreja e no mundo.

 

   97. Quanto aos presbíteros, acredita-se que no presente e no futuro a figura do presbítero, cooperador imediato do ministério episcopal, é fundamental na Igreja. Proclame-se a significação eclesial do presbítero, fiel à sua vocação e à sua atitude de serviço ao seu povo e à conseqüente promoção de vocações que continuem seu trabalho.

 

   98. Analise-se a situação dos que deixaram o ministério e estude-se a possibilidade do aparecimento, num futuro próximo, de um novo tipo de presbítero surgido da própria comunidade, sem exigências de uma longa preparação acadêmica.

   Considerando a carência de presbíteros e a necessidade espiritual das pequenas comunidades, examine-se a possibilidade de ordenação presbiteral de homens casados, que se recomendam por sua vida cristã e liderança apostólica na sua própria comunidade.

   99. Dê-se especial atenção aos ministérios eclesiais, ordenados e não ordenados, como solução para os problemas das comunidades. Isto envolve o surgimento e a promoção dos novos ministérios, a valorização particular dos ministérios leigos e a formação dos agentes a partir da realidade latino-americana.

 

   100. Estudem-se também as possibilidades pastorais do ministério diaconal, auxiliar do ministério do Bispo e de seu presbitério a serviço da Igreja.

 

   101. Valorizem-se as grandes tendências da vida religiosa quanto à evangelização. Amplie-se o campo de sua atuação apostólica com deslocamentos para novos espaços geográficos e sociais mais pobres. Formem-se comunidades mais evangélicas pelo compromisso de oração, estilo pessoal e comunitário de convivência mais fraterna; simplifiquem-se as suas estruturas e suas formas de vida; sejam mais evangelizadoras, atentas às necessidades do contexto, inseridas nas Igrejas locais, reinterpretadoras do carisma; evangelizem pelo testemunho da fé e do amor e pelo compromisso com a justiça. Haja certa desinstitucionalização das atividades apostólicas. Integrem-se mais os religiosos na pastoral orgânica das Igrejas particulares. Haja trabalhos pastorais assumidos por grupo intercongregacionais.

 

   102. Aclare-se mais o lugar e a missão do leigo na Igreja e no mundo.

 

   Em particular:

 

   a) descubra-se a vocação cristã de, cada líder, a fim de impulsioná-lo ao anúncio do Cristo Ressuscitado;

 

   b) capacite-se o leigo para assumir a pastoral nas diversas faixas: rural, urbana, operária, universitária, jovem. Nessa formação evite-se o perigo de sua clericalização;

 

   c) estruturem-se mais os movimentos de leigos em nível diocesano e paroquial;

 

   d) favoreça-se mais sua participação em assembléias;

 

   e) promovam-se grupos que ajudem os leigos a viverem a "índole secular", iluminando suas tarefas temporais à luz do Evangelho;

 

   f) atenda-se ao papel relevante da mulher na Igreja e na sociedade;

 

   g) atualizem-se os movimentos de Ação Católica.

 

   Presença da Igreja no mundo

 

   103. Na construção da nova sociedade à luz do Evangelho, tratem-se os mais diversos problemas sócio-econômico-político-culturais, particularmente os relacionados com os sistemas vigentes, o índio, o negro, o marginalizado, o oprimido, a terra, o jovem, o operário, o universitário, a família, o homem da cidade e do campo...

 

   104. A presença da Igreja no mundo deve ser apresentada como a presença do fermento evangélico que procura transformar a sociedade em convivência fraterna, mas de modo a que essa fraternidade se traduza em estruturas econômicas e políticas que permitam a participação de todo o povo na definição dos objetivos a serem alcançados e promovam uma justa distribuição da renda, sem privilégios.

   A propósito de pastoral urbana, questione-se a própria realidade da grande cidade e dos incentivos à sua crescente expansão, uma vez que a própria vida da grande cidade constitui especial desafio à vivência cristã. Nossa ação pastoral deve partir de uma consideração da realidade da estrutura própria da cidade, que funciona como uma unidade orgânica; de outro modo, será difícil evangelizar o homem urbano.

 

   105. Procurem-se as causas da marginalização, evitando concentrações desumanas, causadas por imperialismos gananciosos de grupos. Denuncie-se a posse concentrada dos meios de produção, como instrumentos de marginalização.

 

   106. Atenda-se ao problema ecológico em suas incidências pastorais.

 

   107. Incentive-se a pastoral dos Meios de Comunicação Social de maneira que se tornem veículos do pensamento social cristão.

 

   108. Desperte-se a consciência do povo para o escândalo das tremendas injustiças existentes na América Latina.

 

   109. Considere-se o papel das elites como fator de mudanças, sem contrapô-las às bases, para não favorecer a luta de classes. Veja-se também o ângulo de influência dos pobres na conversão dos ricos.

   Atue-se junto aos grupos de influência, como intelectuais, empresários, políticos, jovens, operários, procurando pedagogicamente promover, à luz do Evangelho, homens novos que assumam as mais diversas funções na sociedade.

 

   110. Incentive-se a pastoral no mundo do trabalho pela criação de grupos e formação de lideranças, a fim de que, educados nos princípios do Evangelho, com o auxílio do método ver/julgar/agir, possam inspirar a transformação da problemática social reinante e nortear a convivência humana nas comunidades a respeito das questões econômico-sociais. Na ação evangelizadora, descubram-se, em espírito de solidariedade, os seus valores autenticamente humanos e cristãos, sem violar o processo de sua caminhada histórica, cuja definição e desenvolvimento é da competência dos próprios trabalhadores.

 

   111. Valorizem-se as CEBs que procuram viver toda a sua vida eclesial. Questionando as macro-estruturas eclesiais, elas, em suas diversidades, se integram na unidade. Repercute beneficamente sua influência no campo sócio-econômico-político, levando o povo a uma participação mais ativa e mais consciente na comunidade. Acompanhem-se as CEBs, que se têm revelado integratórias, quando a Igreja está ao lado do povo.

 

   112. Promovam-se "Comissões de Justiça e Paz" em nível diocesano, para serem efetivas nos problemas locais com gestos concretos puros e motivados.

 

   113. Criem-se "Centros de Defesa dos Direitos Humanos", a fim de lutarem por eles em nível nacional e internacional, e de modo ecumênico.

 

   114. Apele-se às Igrejas Cristãs do Continente para, em espírito ecumênico, unirem-se num testemunho evangelizador em favor do povo oprimido.

 

   115. Criem-se Conselhos de Igrejas Cristãs em nível de nação e continente na América Latina.

 

   116. Assuma a Igreja sua missão profética com gestos concretos, enfrentando os conflitos que dividem a América Latina no que tange aos direitos humanos, à doutrina de Segurança Nacional, às radicalizações integristas e revolucionárias e ao trilateralismo.

 

D   ) SUGESTÕES DIVERSAS

 

   Sugestões para preparar a Assembléia

 

   117. Incentive-se a participação do povo na preparação de Puebla por uma campanha de orações e por contínuas informações através dos Meios de Comunicação Social e de conferências e homilias.

 

   118. Favoreça-se intensa participação das bases pela acolhida efetiva das contribuições dos regionais e das dioceses, como também de outras entidades e grupos.

 

   119. Os episcopados sejam consultados sobre os teólogos assessores, a fim de evitar em Puebla rumos tendenciosos.

 

   120. Desfaça-se a impressão negativa causada por uma orquestração injusta e sem base, na América Latina e na Europa, contra o documento de consulta que desencadeou intenso processo de participação das bases.

 

   Sugestões para a elaboração do Documento de Puebla

 

   121. Que o documento não fique no plano das generalidades e da teoria, não se envolva em análises sofisticadas da realidade da América Latina nem pretenda tratar de todos os problemas.

 

   122. Tome a "Evangelii Nuntiandi" como documento de referência no estilo e na forma de elaboração.

 

   123. Na elaboração do documento, haja presença de peritos - especialmente nas questões de Liturgia - como também de agentes de base.

 

   124. Tome como destinatário o grande Povo de Deus, em linguagem acessível, fundamentada na Bíblia.

 

   125. Tome como destinatário os agentes de pastoral, numa linguagem exata e não em linguagem popular.

 

   126. Na elaboração do documento, confie-se mais no discernimento dos próprios Pastores, interpretando as bases. Utilizem-se as contribuições das ciências humanas, sem entretanto assumi-las como critério decisivo.

 

   127. Que o documento tome um cunho eminentemente pastoral, sem descuidar de uma boa fundamentação teológica; não seja demasiadamente espiritualista, mas anime o Povo de Deus na sua caminhada concreta.

 

   Sugestões para a Assembléia

 

   128. Que o grande acontecimento de Puebla não sirva apenas para uma rica troca de experiências pastorais e para a elaboração de um documento, mas para a realização de alguns gestos que só no contexto da Assembléia podem ganhar toda a sua grandeza.

 

   129. Um apelo às Igrejas dos países desenvolvidos para que assumam atitudes proféticas em face das forças e dos mecanismos de opressão.

 

   130. Celebrações que manifestem a presença do povo, do trabalhador, do negro na Assembléia e a solidariedade dos pastores para com eles. Tais celebrações poderão expressar ao vivo, e com a participação criadora e espontânea do povo sob a supervisão dos peritos em Liturgia, os dramas mais significativos da vida real dos grupos humanos e das populações mais marginalizadas.

 

   131. Um pronunciamento enérgico de repúdio a todas as formas de violência, especialmente a institucionalizada, assumindo a crítica profética aos sistemas sócio-econômico-políticos vigentes na América Latina e à situação de dependência do continente.

 

   132. Um pronunciamento de repúdio às difamações e calúnias assacadas contra a Igreja e em especial contra alguns dos seus membros mais engajados na defesa do povo.

 

   133. Leve-se em conta a apreensão existente em torno de diversos aspectos da Assembléia:

 

  teme-se que o documento venha a ser manipulado por grupos radicais (conservadores ou avançados) ou que a Santa Sé lhe faça restrições quando lhe for enviado.

 

   134. Teme-se que falte assessoria qualificada e que a representação dos religiosos e dos leigos não seja expressiva.

 

   135. Teme-se que os Bispos se reúnam num clima de tensão e pressões; que seus esforços não cheguem à conclusão e que não encontrem a unidade ou, pelo contrário, nivelem realidades diferentes no esforço de verificação.

 

   136. Teme-se que a resposta de Puebla não satisfaça aos anseios e expectativas do povo da América Latina e que excessivas esperanças terminem numa grande frustração.

 

   137. Teme-se unilateralidade na elaboração do documento: que haja supervalorização do social ou abandono total; que não se leve em conta a dimensão espiritual; que haja certo abandono da catequese e da formação moral das consciências; que a atuação pastoral nos meios de influência seja subestimada; que a ação missionária não consiga destaque; e que não se faça menção dos que foram seqüestrados e torturados como presos políticos.

 

   138. Teme-se que a Assembléia se envolva em discussões ideológicas e intermináveis problemas, a ponto de desviar a atenção da urgência de promoção e conscientização do povo e da necessidade de encontrar pistas para uma evangelização vital.

 

   139. Teme-se que não se tenha presente a importância de Puebla no que diz respeito à sua repercussão nos outros continentes.

 

   140. Teme-se que Medellín seja tomado como absoluto; que Medellín não seja suficientemente assumido e implementado; que se suponha que Medellín já esteja totalmente realizado; que não se tenha coragem de fazer uma profunda avaliação crítica de Medellín e dos problemas surgidos ou agravados na América Latina depois de Medellín.

 

   141. A devoção a Maria é uma constante no Povo de Deus, na América Latina, sob diversos títulos. Na preparação e realização da Assembléia episcopal de Puebla, Maria está presente, como Mãe de Cristo e da Igreja. Nesta presença depositamos toda a nossa confiança de que Puebla representará um momento decisivo para a evangelização no presente e no futuro da América Latina.

 

     142. Como pastores, recomendamos que em todas as comunidades se ofereçam constantes preces pela III Assembléia do Episcopado Latino-americano, inclusive recitando, por ocasião da celebração Eucarística e de outras celebrações, a oração composta pelo Santo Padre Paulo VI, invocando a Luz do Espírito Santo sobre o importante acontecimento.

 

 

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Fonte: Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB

Web site: www.cnbb.org.br