CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL

CONFERÊNCIA NACIONAL DOS BISPOS DO BRASIL

 

TESTEMUNHAR A FÉ VIVA

EM PUREZA E UNIDADE

 

Documento Aprovado

pela Comissão Representativa da CNBB

em sua reunião, 6 a 13 de novembro de 1973

 

 

INTRODUÇÃO

 

1. Sentimos, hoje, quão profundamente as transformações, por que passa a cultura contemporânea afetam a consciência cristã.

O mundo em que vivemos abandona categorias que foram válidas durante séculos ou milênios, e faz surgir uma nova visão do universo e do próprio homem e, por isso, fala uma outra linguagem. Tal evolução se acelera vertiginosamente. Não se trata apenas de uma nova fase dentro de uma evolução contínua e linear. Trata-se do fato de que o homem adquiriu uma relação nova com o cosmos; começa a assumir, como nunca se dera antes, o papel de dominador do mundo e da sua própria existência. Ao mesmo tempo, o homem moderno, de maneira inédita, parece perder, por detrás de uma gigantesca unidade organizatória e funcional, a unidade intrínseca do seu mundo. As ciências se emancipam do domínio da filosofia. Surgem diversas imagens do homem, a da sociologia, da psicologia, a da medicina e da biologia. A filosofia mesma se transforma, de uma visão mais estática e essencialista, para uma nova, mais histórica e existencial.

Na realidade, embora a Igreja não se desinteresse das culturas do passado, sua missão é salvar o homem, comprometido com a busca e criação do seu próprio futuro. Seja qual for sua cultura, sua cosmovisão, seu nível de evolução, sua linguagem, todo homem é chamado por Cristo a uma vida nova.

Ante o impacto de tão radicais transformações, o povo cristão sente-se muitas vezes envolvido por um clima de insegurança religiosa e deseja encontrar a orientação certa pela qual pautar a sua vida. Enquanto alguns se voltam com nostalgia para um passado de serenas e definitivas certezas, outros olham para o futuro como um desafio a improvisar novas respostas às situações com as quais se defrontam .

Neste grave momento histórico, a voz dos pastores não pode deixar de se fazer ouvir. Para a linguagem e para a compreensão do homem de hoje, com seus problemas e sofrimentos, é que os pastores de hoje devem traduzir a Verdade inalterável.

As perplexidades que pesam sobre a consciência cristã não podem ser superadas exclusivamente pela apresentação de fórmulas feitas. O Povo de Deus não deve esperar de seus pastores, a cada momento, soluções pré-fabricadas para dirimir todas as dúvidas que o assaltam. Ele precisa, antes, amadurecer de tal maneira na fé que, assumindo-a com fidelidade, possa enfrentar com firmeza crítica seus questionamentos.

 

2. Para corresponder a esse intento, o presente documento, sem pretender simplificar a complexidade dos problemas, nem abordá-los todos, visa a oferecer a devida orientação doutrinária a todos quantos têm responsabilidade no ministério da Palavra, junto ao Povo de Deus. A estes convidamos a uma reflexão profunda, numa atitude de abertura às exigências da fé e da missão. Pretendemos, com este texto, oferecer um serviço a todas as Igrejas: aos Bispos com os seus presbitérios, aos Institutos de teologia com os que neles estudam e pesquisam, às equipes dirigentes dos movimentos apostólicos e aos agentes de pastoral com os seus grupos. Que todos os membros de nossas comunidades se beneficiem de um novo clima de fé e encontrem apoio e esclarecimento em suas interrogações.

 

 

I. A FÉ COMO DOM DIVINO

 

        1. A fé é um dom

 

"Ninguém pode vir a mim, se isso não lhe for dado por meu Pai" (Jo 6,65).

 

3. No ato da verdadeira fé não só cremos verdades "sobre" Deus, mas cremos o próprio Deus. O ato de fé, sendo busca de Deus e obediência a Ele, também na resposta do homem, primordialmente, é dom da graça que nos salva (cf. Rm 8,16-18;  Jo 3,11 ss.31-36). O Senhor da nossa fé é o Cristo Ressuscitado; sem o Espírito  Santo,  seu   dom pascal,   ninguém    pode  crer  (1Cor 12,3; cf. At 11,21ss), o Senhor ajudou para que cressem (cf. At 16,14). Por isso, a fé e dom do insondável amor redentor de Deus. Seu primeiro fruto é a entrega confiante na oração daquele que se manifestou poderoso na Páscoa do Cristo (cf. At 9,11). A fé é fundamentalmente configuração à Páscoa do Cristo. Por isso, a fé cristã é o paradoxo de uma aceitação alegre da existência e o "sim" à morte que nos conduzirá à plenitude do amor de Deus.

 

        2. O dom da fé é confiado a toda a Igreja

 

"À Igreja inteira é prometida a infalibilidade" (LG  25c).

 

4. É na Igreja toda que habita esta fé. É a Igreja toda que dá o seu assentimento aos atos do Magistério, não exclusivamente por uma submissão obediente dos fiéis aos pastores, mas fundamentalmente pela "ação do Espírito Santo" (cf. LG 25b).

O Cristo exerce sua ação profética "não apenas pela hierarquia, que ensina em seu nome e em seu poder, mas também através dos leigos" porque "Cristo os muniu com o senso da fé e com a graça da Palavra" (LG 35a; 34b; DV 10a).

O legado da fé é confiado à Igreja inteira, guardado na fiel Tradição, "mediante o senso sobrenatural da fé, presente em todo o povo" (LG 12a), garantido pelo Espírito Santo, que nunca deixará a Igreja apostatar de seu Fundador. É a este legado que o Magistério está vinculado e ao qual se deve referir em suas decisões, o que não significa que estas recebam seu valor do consentimento do povo. "Sob a assistência do Espírito, cresce com efeito a compreensão tanto das realidades como das palavras transmitidas, seja pela contemplação e estudo dos que crêem, os quais as meditam em seu coração..., seja pela íntima compreensão que experimentam das coisas espirituais, seja pela pregação daqueles que, com a sucessão do episcopado, receberam o carisma seguro da Verdade" (DV 8b). Assim, o crescimento na Verdade é processo vital da Igreja toda.

 

        3. O dom da fé é vida

 

"Aquele que não está na Verdade, ou aquele em quem não está a Verdade, já está morto"

(cf. 1Jo 2.4: 2Ts 2.10-12).

 

5. A Verdade ensinada na Igreja não é apenas uma doutrina religiosa. A Verdade é o próprio Cristo, a vida nova do mundo, cuja Páscoa gloriosa é o cerne de todas as verdades. Ele é o princípio divinamente vital, que deve permanecer na Igreja (Gl 2,5; 2Cor 11 ,10).

Quando falamos da Verdade revelada, do Magistério da Igreja e de todos os que servem à Verdade, nunca nos referimos apenas a uma fórmula doutrinária, ou a uma autoridade eclesiástica humana, mas sempre temos consciência de que, através de todas as verdades e doutrinas, é a própria Verdade do Cristo que se revela (1Jo 5,6).

O Evangelho não permaneceria vivo pela simples repetição de palavras e fórmulas. Ele permanece vivo através da fé sempre nova de quem o prega e de quem o recebe. Tornar-se-ia um mero documento de uma história remota e deixaria de ser o Evangelho salvífico de hoje e de amanhã, se não fosse apelo total ao homem concreto de cada época e se não convertesse os homens dentro de situações de vida sempre renovadas.

Como vida de Deus em nós, ele transcende todas as fórmulas. Nenhuma palavra, nem a letra da Bíblia, nem os dogmas exaurem a plenitude de vida que o Espírito comunicou à sua Igreja. O Evangelho não é, pois, um documento petrificado no passado, mas "se conserva vivo na Igreja, confiado, em primeiro lugar, aos Bispos, sucessores dos Apóstolos" (DV 7b; CD 12; LG 25a).

Como dom vivo de Deus à sua Igreja, ninguém, se pode considerar senhor e dominador da fé (2Cor 1,24). O próprio Magistério não está acima da Palavra de Deus, mas a seu serviço (DV 10b).

 

       4. O crescimento do dom da fé

 

"Eu plantei, Apolo regou, mas foi Deus quem fez crescer" (1 Cor 3,6).

 

6. Como vida, a fé é destinada a crescer na Igreja e esse crescimento não é apenas a soma ou o resultado dos incrementos e progressos que ela atinge em cada um de nós. É na Igreja toda que ela amadurece. É a Igreja toda que tende a possuir da fé uma visão sempre mais rica e sempre mais clara do que tinham as gerações passadas. É, por exemplo, certo que do mistério admirável da Imaculada Virgem Mãe de Deus, a Igreja de hoje possui uma compreensão mais explícita do que a Igreja de séculos anteriores. "A Igreja, no decorrer dos séculos, tende continuamente para a plenitude da Verdade divina, até que se cumpram nela as palavras de Deus" (DV 8). É nesta vida mais rica da fé que a Igreja de hoje encontra a força para enfrentar situações muito mais complexas do que as que enfrentou no passado, em meio a um mundo cada vez mais pluralista e mais consciente da sua autonomia (GS 36).

 

7. Um dos meios pelo qual o Espírito garante este permanente crescimento na fé é a diversidade dos carismas que Ele suscita na Igreja, para o desempenho das diversas funções reclamadas por esse crescimento. É o próprio Cristo que dá o seu Espírito a todos e a cada um, como lhe apraz, numa rica diversidade de carismas e tarefas. É ele quem dirige a Igreja nos seus membros e nos seus pastores, não eliminando, mas afirmando os dons específicos de cada um. "O conjunto dos fiéis, ungidos que são pela unção do Espírito Santo, não pode enganar-se no ato de fé... Por este senso da fé, excitado e sustentado pelo Espírito da Verdade, o Povo de Deus, sob a direção do sagrado Magistério, a quem fielmente respeita, já não recebe a Palavra de homens, mas verdadeiramente a Palavra de Deus" (LG 12a). Assim a Páscoa do Senhor opera, em todos, os múltiplos dons necessários para a Igreja toda. Os pastores, crendo no único Pastor Supremo, servem, com autoridade, a este povo guiado pela graça do Espírito Santo.

E certo, contudo, como já se vê nas atitudes concretas dos Apóstolos com relação aos diversos carismas, que os pastores são, entre todos, o princípio visível da unidade (1Cor 14,39; 2Cor 5,20; Gl 1,6-10). " Nem todos são pastores, nem todos são profetas ou doutores" (1Cor 12,28), mas todos se completam e concorrem para que a vida da fé cresça na Igreja inteira.

 

8. A garantia desse crescimento encontra-se fundamentalmente na unidade e comunhão com toda a Igreja. Esta unidade é sempre o  argumento  eminente  da  próprio  Verdade  (Jo 17,21). Jamais se terá a garantia da fé verdadeira senão dentro dessa união fraterna de toda a Igreja. Como dom do seu amor, o Cristo deu à Igreja os ministros, por cujo empenho o povo santo é visivelmente unificado. Através deles e por sua Palavra, Deus opera o mistério da reconciliação. Eles, num sentido específico e inconfundível, desempenham o encargo, em nome de Cristo, e são seus embaixadores (2Cor 5,18-20).

 

 

II. A FÉ E O MINISTÉRIO DA PALAVRA

 

1. A missão dos pastores

 

"O ofício de interpretar autenticamente a Palavra de Deus... foi confiado unicamente ao Magistério vivo da Igreja" (DV 10b).

 

9. Por Cristo, os pastores são constituídos pregadores autênticos da fé e guardiães da sua integridade e identidade.

Não devemos perder de vista a doutrina do Concílio Vaticano I, que proclama claramente a infalibilidade do Sumo Pontífice, chefe do Colégio dos Bispos e a infalibilidade deste mesmo Colégio Episcopal, em comunhão com o sucessor de Pedro, não só quando reunido em Concílio, mas também quando, no exercício do magistério ordinário, seus membros "dispersos pelo mundo, ensinam autenticamente, em comunhão com o Papa, sobre assuntos de fé e de moral, concordando numa sentença que deve ser mantida de modo definitivo" (Pastor Aeternus, cap. IV, D. 1839; LG 25b).

Cada pastor deve procurar a Verdade, em comunhão com o Papa e com todo o Colégio Episcopal; e todos os pastores juntos saberão que a Verdade os transcende. É só o Espírito que nos pode introduzir na Verdade e introduzir a Verdade em nós (cf. Jo 16,13).

Os pastores não podem desempenhar sua missão de pregadores e intérpretes da Verdade pela simples repetição de citações bíblicas ou de fórmulas dogmáticas, sem procurar penetrá-las numa compreensão cada vez maior. Esse esforço supõe, nos pastores, a humilde atitude perante a Verdade, de quem se questiona e sabe deixar-se questionar. O contrário seria subtrair-se e subtrair a própria Igreja ao influxo do Espírito de Cristo. O Magistério, na sua sublime tarefa, precisa de modo especial desse Espírito. Só assim, também os pastores serão capazes de " auscultar piamente a Palavra, de santamente guardá-la e fielmente expô-la" (DV 10b).

Por esta razão, ensina o Vaticano II, que é à custa de esforço humano também e de cuidado sério, que os pastores devem usar os meios aptos para investigar exatamente e enunciar convenientemente a Revelação (cf. LG 25d). Se na Igreja primitiva, os Bispos buscavam, em penoso trabalho, a compreensão adequada da Verdade inalterável, tanto mais os pastores de hoje, fiéis à Revelação e atentos também ao homem contemporâneo, devem empenhar-se em interpretar a eterna Verdade para hoje e amanhã.

 

10. Penetrar e expor cada vez mais fielmente de maneira mais apropriada a Palavra de Deus é dever da Igreja toda. Por isso, não só a catequese, mas também a exegese e a teologia, são funções da Igreja inteira. Entretanto, esse dever cabe em primeiro lugar aos que têm a responsabilidade principal quanto à Palavra, para que ela seja ouvida e entendida.

Seria postergar a própria história da Igreja e negligenciar uma parte inerente ao Magistério, querer reservar para os pastores o puro carisma da autoridade e atribuir o árduo trabalho e o empenho de interpretar, com competência, exclusivamente aos exegetas e aos teólogos. Nem os primeiros deveriam dispensar o trabalho dos segundos; nem os teólogos podem responsavelmente trabalhar sem a união constante com toda a Igreja, especialmente com os pastores.

Sendo estes os primeiros pregadores, devem eles, em primeiro lugar, comprometer-se com o trabalho hermenêutico e teológico, que é uma necessidade intrínseca do anúncio da Mensagem. Pois este anúncio tem compromisso ao mesmo tempo com a eterna Verdade imutável, revelada definitivamente em Cristo, e com a História humana, em transformação profunda e acelerada. A teologia, como "fé buscando a sua próprio compreensão", é uma tarefa comum e permanente, da Igreja peregrina, especialmente, porém, dos seus pastores.

 

2. Os colaboradores da Palavra

 

"A uns é dada pelo Espírito a linguagem da sabedoria, a outros, porém, a linguagem da ciência" (1Cor 12,8).

 

11. O Concílio Vaticano II exige que os pastores "se esforcem, cuidadosamente, usando meios aptos para investigar... e anunciar a Revelação" (LG 25). Contudo, o mesmo Concílio diz que a Igreja toda, Esposa do Verbo, deve esforçar-se para conseguir uma compreensão cada vez mais profunda desta mesma Revelação (DV 23).

Sob pena de trair o seu sublime e exclusivo dever, o de ser critério de autenticidade entre todos os dons do Povo de Deus, o Magistério precisa da ajuda de especialistas competentes na ciência divina e nas ciências humanas. Para ensinar responsavelmente nos dias de hoje, o Magistério não pode confiar apenas na sua autoridade, como se esta gozasse de uma independência absoluta quanto a um trabalho de busca e de pesquisa (LG 25b; DV 10b).

A tarefa dos teólogos e exegetas é indispensável, para os pastores e para toda a Igreja, porque, por seu trabalho como que preparatório, amadurece o julgamento da Igreja" (DV 12c).

A teologia deve seguir suas próprios leis científicas, mas, ao mesmo tempo, deve saber que a Verdade nunca pode ser reduzida a um mero objeto histórico-científico. O que ela visa é contribuir para que esta Verdade seja não apenas mais inteligível, senão também mais crível.

 

12. O trabalho hermenêutico da exegese e da teologia se desenvolve em dois níveis, porque Deus nos "falou através de homens e de modo humano" (DV 12a).

No primeiro nível, trata-se de "descobrir a intenção dos hagiógrafos", como também, nos documentos do Magistério, é mister descobrir a intenção direta dos que os promulgaram. "É preciso que o intérprete pesquise o sentido que, em determinadas circunstâncias... conforme à situação de seu tempo e de sua cultura, o autor humano quis exprimir e exprimiu por meio dos gêneros literários então em uso" (DV 12b). A exegese moderna possui um rico instrumental científico para levar a cabo esta tarefa. O método é histórico, filológico e histórico-filosófico. É um trabalho que tem suas próprias leis científicas e que está a serviço do conhecimento do Espírito da Escritura

O segundo nível da hermenêutica, que embora não desligado do primeiro, essencialmente o transcende, refere-se ao plano divino no qual a Escritura se insere. Se o método histórico-científico nos fornecesse adequadamente o significado divino da Revelação, a própria exegese não serviria à fé, mas a destruiria. Em última análise, o conteúdo divino da Escritura é Deus como "causa de nossa salvação" (DV 11b). Somente crendo é que a Igreja transcende a dimensão humana da Escritura e se abre àquele que se revela a si mesmo e os arcanos mistérios de sua vontade. (Vaticano I, Constituição Dogmática DEI FILIUS, cap. 2, De Revelatione - DS 3004).

 

a) A regra da fé

 

13. Para que esta fé seja razoável e responsável, o Concílio Vaticano II exige, além da pesquisa histórico-exegética, o trabalho propriamente teológico. Para isso, deve levar-se em conta, com a maior diligência, "o conteúdo e a unidade de toda a Escritura. O último princípio dessa unidade é a Pessoa e a obra de Jesus Cristo. Toda a Igreja, o Povo de Deus e especialmente o Magistério, como também os teólogos e exegetas, não podem cumprir esse dever se não ficarem fiéis à autêntica Tradição e se não considerarem tudo dentro da "analogia da fé" (DV 12c).

Como "os livros da Escritura ensinam com certeza, fielmente e sem erro a verdade que Deus, em vista da nossa salvação, quis fosse consignada nas Sagradas Escrituras" (DV 11b), estas mesmas Escrituras, sempre lidas e fielmente interpretadas pelo "conjunto dos fiéis" (LG 12a) e especialmente pelos pastores, são a norma primordial da doutrina da Igreja. Por isso, esta "sempre venerou as Divinas Escrituras, da mesma forma como o próprio Corpo do Senhor" (DV 21). A Igreja, "tem as Escrituras, juntamente com a Sagrada Tradição, como suprema regra de sua fé, porque comunicam imutavelmente a Palavra do próprio Deus" (ibid.). Na penosa e difícil caminhada pela História, "é tão grande o poder e eficácia que se encerram na Palavra de Deus, que ela constitui sustentáculo e vigor para a Igreja e, para seus filhos, firmeza na fé... pura e perene fonte de vida espiritual" (ibid.).

Para se guardar íntegro o legado da fé, não basta justapor verdades a outras verdades. Isto obscureceria a única Revelação de Deus em Jesus Cristo. Exige o Concílio que se guarde a doutrina da fé integralmente, mas que se observe e busque aquela "hierarquia das verdades", que constitui a ordem intrínseca de nossa fé, a fim de que nos entreguemos mais à Verdade do único Deus em Jesus Cristo. O Espírito Santo, e não uma pura análise científica, dá à sua Igreja este discernimento, para que ela, confiante e unida, em todos os seus membros, em torno dos pastores, se aproxime sempre mais da fonte de sua fé.

Pastores e teólogos, cada qual à sua maneira, participam assim da solicitude por todas as Igrejas  (2Cor 11,28). Mas o Senhor da História dessa Igreja é o Cristo, que a governa no seu Espírito Pascal (Jo 14,26; 16,13-15). Esforçando-se penosamente, na busca e na pregação da Verdade, a Igreja deve ter a coragem da fé, de crer que o rebanho e os pastores tenham sempre consigo aquele Espírito que "o mundo não pode receber" (Jo 14,16-17). Este Espírito é o dom que o Cristo deixou para que sua Esposa possa enveredar pela incerteza da História, confiando na garantia da assistência divina. Este Espírito não é prometido aos espíritos mundanos; ele não é conduzido nem pela simples inteligência, nem por qualquer autoridade. Não só os pastores, mas os fiéis católicos, devem se preocupar sobretudo em examinar "com espírito sincero e atento, o que dentro da próprio família católica deve ser renovado e realizado" (UR 4e). Ninguém na Igreja tem poder sobre o Espírito. Todos, pois, rebanho e pastores, trabalhando fielmente neste sentido, devem dizer "somos servos inúteis" (Lc 17,10). E, orando, devem esperar que o Pai faça surgir o imperscrutável futuro, situado além de todas as utopias, que ele reserva para sua Igreja peregrina.

 

b) A Palavra de Deus na comunidade dos fiéis

 

14. O povo simples, ao contato com a vida e suas duras realidades, embora sem saber explicitar claramente nem justificar cientificamente certos valores humanos e cristãos, precede, às vezes, os próprios pastores e teólogos, na captação de tais valores. O contato direto com a vida em contínua mutação, permite-lhe que o eco de certas verdades cristãs ressoe nele duma forma nova. É ele que, muitas vezes, dá o sinal de alerta, que deve ser escutado. De outro modo, a mensagem de Cristo corre o risco de se tornar formal e desencarnada nos teólogos e nos pastores. Este sinal de alerta, deve incutir em todos um extremo respeito e uma profunda sensibilidade perante a consciência cristã do povo e os perigos com que a pode ameaçar a divulgação apressada de hipóteses não submetidas ainda ao rigor da crítica teológica.

Nisto o teólogo mostraria, mais do que por argumentos, que o carisma não é dele, mas do Espírito, para o bem de toda a Igreja. Nisto mostraria saber que o seu carisma tem sua última e plena prova de autenticidade, no amor à comunidade e, especialmente, a seus irmãos mais humildes. Nesta sublime tarefa, os teólogos ajudam em espírito de obediência, que é amor, com aquela crítica responsável, que nasce da fé viva, para que o Povo de Deus compreenda, de maneira sempre mais pura e mais total, o divino amor que nos salva. Eles devem ser, em espírito de responsabilidade perante Deus e a comunidade, como que a consciência mais aguda da fé presente na Igreja. Mas eles não são uma instância acima dos pastores e acima da comunidade, e sim servidores da Igreja regida pelos Pastores e sempre obedientes ao Espírito. O mistério da fé é dom gratuito de Deus. Por isso mesmo, tem em si uma dimensão incalculável. Todos guardam esta fé, enquanto, com esperança na misericórdia da graça, se deixam guardar por ela.

 

c) O mistério central: Cristo em sua Páscoa

 

15. Já agora podemos perceber com mais clareza o sentido do trabalho daqueles que cooperam com os pastores, na interpretação e na pregação da Palavra. A teologia não visa aquela inteligibilidade que reduziria a fé a um mero "objeto de intelecto". Ela sabe que a inteligibilidade de fé consiste na percepção do único mistério central e absoluto, dentro dos múltiplos artigos da fé, preparando assim a inteligência e a vontade humana para a plena e última obediência da fé (Rm 6,16). Por este serviço, a uma fé mais pura e esclarecida, e ao mesmo tempo, mais total e comprometedora, a teologia serve verdadeiramente à comunidade cristã. A Igreja precisa, com urgência, não só de um número íntegro de artigos de fé, mas da purificação e plenificação daquela fé, que nos faz partícipes da vitória pascal de Cristo.

Os pastores pecariam contra a esperança e contra o seu primordial dever de anunciar o Evangelho, se não se servissem do trabalho teológico. O trabalho dos teólogos tornar-se-ia uma ideologia alienada, se não estivesse a serviço da unidade e da pureza da fé na Igreja, sob a autoridade dos pastores (UR 4c). A autoridade do Magistério é divinamente garantida na missão de reger o único rebanho de Cristo na sua fé, idêntica sempre, mas sempre em crescimento ao longo da História. A autoridade dos teólogos não se situa no mesmo nível da autoridade dos pastores e, por isso, não lhes faz concorrência. Ela se manifesta em juízos de inteligência humana, mas se baseia no próprio apelo divino, que quer a nossa entrega total na fé, obediente e responsável. Os pastores nunca podem se satisfazer com a proposição de verdades periféricas. É sua missão conduzir este rebanho ao centro, que é o Bom Pastor, no mistério da Páscoa.

 

 

III. A FÉ NA SUA PUREZA E UNIDADE

 

1. Os grandes temas da fé

 

"Guarda o precioso legado, pela virtude do Espírito Santo que habita em nós" (2Tm 1,14).

 

16. Neste esforço de todos para explicitar a riqueza do depósito revelado, a Igreja chega à consciência plena e a formulações definitivas de sua fé na única Verdade. Há momentos na História da Igreja em que se torna imperioso reafirmar alguns dos temas desta nossa fé, através dos quais todas as verdades cristãs se ligam diretamente ao mistério central: Deus, em Jesus Cristo, é definitivamente o Salvador da humanidade; e na sua Igreja esta obra salvadora se realiza através de todos os tempos.

O homem não é uma peça do universo. Não é apenas matéria ou animal super-desenvolvido. Ele tem em si, em todo o seu impulso para a verdade, em todo o seu apelo para o amor, um secreto e incoercível anseio, sob o  influxo  da  graça  ( GS 22d; LG 16), pelo Deus vivo e transcendente. Ele leva em si, mesmo sem o saber, por graça divina, a abertura para o arcano mistério de Deus que é amor (GS 22e). Não pode entender a mensagem cristã quem não reconhecer no homem essa dignidade que transcende absolutamente todo o universo material. Só nessa sua abertura espiritual poderá ele ser entendido na sua vocação para a comunhão de vida com Deus.

O homem vive essa abertura para Deus não apenas quando o assume diretamente como termo de sua adoração e de seu amor. Sempre que o homem se liberta de si mesmo e, num verdadeiro e autêntico amor, respeita e ajuda o próximo, começa, consciente ou inconscientemente, a se abrir perante o Absoluto. A transcendência do amor fraterno abre-se para a transcendência divina, porque divina é sempre a razão pela qual o homem respeita alguém incondicionalmente. Deus é a razão pela qual meu amor ao próximo é amor santificador: "O que fizestes ao menor de meus irmãos, a mim o fizestes" (Mt 25,40).

A História do homem não é a História de uma busca desesperada, de uma pergunta sem resposta, de uma escuridão sem luz. Não é um destino cego, mas uma destinação do infinito amor do Pai que se revelou na História humana. A Revelação não é a História do desabrochar da inteligência da espécie. Ela é real intervenção e presença de Deus Salvador na História.

 

17. O vértice e a plenitude de toda Revelação aconteceu em Jesus de Nazaré, realmente homem de nossa espécie e de nossa História e realmente Deus, Filho Unigênito do Pai, na sua eterna origem divina. Em Jesus, conhecemos quanto Deus nos amou. A absoluta gratuidade do amor eterno é a forma original da relação de Deus conosco. Foi Ele quem tomou a iniciativa do amor: "Ele nos amou primeiro" (1Jo 4,10). A gratuidade do amor do Pai, que se manifesta em Jesus, nos confere uma vocação para uma real vida com Deus e em Deus, vida que desde agora começa realmente em nós. Já somos "nova criatura" (2Cor 5,17). E temos também a certeza de que pela morte e ressurreição de Cristo, nossa esperança não se limita a esta vida (1Cor 15,19). É uma esperança num destino eterno, além da morte quando todas as nossas mais profundas aspirações serão plenamente realizadas, se tivermos correspondido ao amor do Pai: "Os que praticaram o bem irão para a ressurreição da vida, e os que praticaram o mal ressuscitarão para serem condenados" (Jo 5,29).

A obra pascal de Deus em Cristo é a plenitude da Revelação de Deus. O que Ele nos revelou sobre seu arcano e eterno mistério, não nos falou pela mediação de criaturas, mas por sua própria e pessoal comunicação. Aquele que se manifestou como insondável e incompreensível mistério é o Pai; aquele que se revelou como a comunicação vital do Pai é a Palavra, o Filho eterno de Deus; aquele que infunde em nós a vida e faz desabrochar em nosso amor o eterno amor do Pai e do Filho é o Espírito Santo (Rm 5,5). Deus, que se fez conhecido em nossa História salvífica como Trino é, em si, na sua eterna vida, um só Deus em três Pessoas.

 

18. Da Páscoa de Cristo jorra a fonte da vida para nós. Na sua morte nasce a vida da Esposa do Verbo, que é a Igreja. Esta Igreja tem a garantia da indefectibilidade. O Espírito pascal a guarda na sua fidelidade ao Esposo. Foi Cristo mesmo quem a fundou, e a quis visível e identificável, quando deu a Pedro a missão de reger o seu rebanho e quando escolheu os Doze para que anunciassem o seu nome até os confins da Terra. Neles, através de seus sucessores, tem ela, a garantia segura de sua infalibilidade.

A Palavra que ela anuncia é a Palavra viva e reconciliadora do próprio Deus (2Cor 5,18). Em situações decisivas da vida, ela fala a Palavra divina, acompanhada por gestos que prolongam até nós a salvação operada na cruz. Estes sinais-palavra, os sacramentos, têm sua origem em Cristo e são sete modos específicos e eficazes pelos quais o pecador é assumido no mistério da Páscoa.

A mensagem de Cristo, de que a Igreja é depositária, é norma de vida. No tocante à moral e aos costumes, existem verdades que não podem ser relativizadas por contingências de tempo ou de culturas. A partir dessas verdades é que a Igreja defende, contra todas as contestações, imperativos morais, tais como, entre outros, o direito do nascituro à vida, contra o aborto; a indissolubilidade do vínculo conjugal, contra a desintegração da família; a dignidade da pessoa humana, contra a permissividade sexual; o direito do homem à sua plena realização, contra todas as formas de injustiça social. Por isso, compreendida ou não, a Igreja deve assumir sempre, sem discriminações, a missão, por vezes difícil, de defensora de todos os legítimos direitos do homem e da mulher.

 

2. A Igreja a caminho da Verdade plena

 

"O religioso obséquio do Espírito" (LG 25).

 

19. 0 Magistério, mesmo quando não infalível, tem a autoridade de Cristo.

A Igreja, hoje como nos primeiros tempos, deve optar, muitas vezes, por posições concretas, mesmo doutrinárias, sem com isto poder engajar de modo definitivo e irrevogável a sua infalibilidade.

Mesmo na convivência humana, é reconhecida uma autoridade da palavra, ainda quando ela não chegou à sua última certeza. Analogamente, pois se trata apenas de uma analogia, o Magistério deve, por vezes, falar e fala com verdadeira autoridade, mesmo quando o seu julgamento não pôde chegar a seu último e pleno amadurecimento. Um dia, se o Espírito da Verdade o permitir, a Igreja chegará a conhecer, formular e crer outros aspectos da Verdade, com maior evidência. Em muitos pontos da doutrina católica, não se vê ainda, com toda a clareza, o seu nexo com o cerne da Verdade imutável. Para a interpretação da fé, na sua substância, são necessários, não apenas os dogmas, mas também muitas outras afirmações doutrinárias sem cuja explicitação não se poderia interpretar a verdade central.

Há muitos ensinamentos que estão a serviço da Verdade maior. Todavia suas expressões ou afirmações doutrinárias podem ter em si uma dimensão relativa, não definitiva. Isto não significa, porém, que possam ser objeto de livre negação do seu real conteúdo e da sua última intenção.

 

20. A doutrina católica sobre o pecado original pode oferecer-nos um exemplo. Não se trata de uma doutrina ingênua, superada pelas descobertas das ciências. A mensagem católica se situa em outro plano. Ela sabe que Deus fez tudo bom, e que foi pela culpa livre e responsável do homem que o mal entrou no mundo. Este mal se transmite de geração em geração, não como culpa no sentido pessoal, mas como culpa real que atinge todo homem, anteriormente a qualquer ato subjetivo, meritório ou pecaminoso. É a doutrina da radical indigência humana, causada pela culpa livre desde o início, que só do amor de Deus pode esperar a salvação. É este o conteúdo irredutível da mensagem definida, e não certas imagens eventualmente úteis usadas na sua apresentação. A Igreja jamais definiu em que consistiu materialmente esse pecado de origem, nem como exatamente ele atinge a cada um de nós.

 

21. A doutrina católica sobre a eucaristia oferece-nos outro exemplo. É fé católica que o Cristo se torna realmente presente na sagrada eucaristia, pela palavra sacramental da consagração. Não se trata de uma presença induzida pela comunidade eucarística. Trata-se de uma presença permanente, enquanto perduram as espécies eucarísticas. A fórmula tradicional pela qual a Igreja exprime o fato deste mistério é "transubstanciação". A Igreja sabe que hoje, para o homem moderno, o termo "substância" tem conotações bem diversas das que tinha quando serviu para a formulação da doutrina no século XI. (Cf. "Mysterium Ecclesiae", REB 33, 1973, 696-697). Empregando ainda hoje a palavra "transubstanciação", a Igreja não se envolve em discussões científicas, mas garante o conteúdo do dogma da presença real.

 

22. Quanto ao problema do Magistério não infalível, duas afirmações seriam incorretas. A primeira seria aquela que exigisse que o Magistério só se pronunciasse quanto ao que é imutavelmente definido. A segunda seria aquela que pretendesse se eximir de qualquer forma de obediência, sempre que o Magistério se pronunciasse em caráter não irrevogável.

Aquele que exigisse em tudo um consentimento definitivo e absoluto, não prestaria serviço à Igreja, nem ao Magistério, porque sua exigência redundaria numa implícita restrição do Magistério, aos casos de dogmas definidos. Tal posição relegaria de fato o Magistério a um silêncio, apenas interrompido por raras definições dogmáticas.

Na realidade, a vida da Igreja é muito mais dinâmica. Ela demonstra o milagre da unidade de sua fé, exatamente enquanto ainda caminha na escuridão e nas incertezas da História. O Magistério tem sempre o dever e a autoridade de ensinar em nome de Cristo e de conduzir o Povo de Deus na unidade. Nenhum pastor, por medo de um eventual erro numa proposição não infalível, tem o direito de se abster de uma palavra responsável e corajosa e de um julgamento firme e prudente, quando o bem comum da Igreja precisa de uma orientação na unidade e na busca da verdade mais plena. Em tal caso, quando não se trata de uma doutrina absolutamente definida, o cristão não está simplesmente livre. Sua obediência, ainda que não irrevogável ou incondicionadamente definitiva, é um verdadeiro "obséquio religioso do Espírito".

A História da Igreja tem exemplos que mostram como certas fórmulas provisórias tiveram função relativa e, não obstante, decisiva. E assim, exigiam obediência, ainda que não incondicionalmente absoluta. Muitas eram depois abandonadas ou até corrigidas. Assim foi que a Igreja cresceu na unidade imutável da fé.

 

23. Desta doutrina decorrem duas conseqüências importantes: os ensinamentos do Magistério, também nos seus documentos falíveis, estão a serviço exclusivo da Verdade imutável e da unidade do rebanho de Cristo; todos têm o dever de ater-se a tais ensinamentos, com religioso obséquio do espírito" (LG 25).

A Igreja não é uma academia. É o Povo de Deus salvo e a caminho da plena verdade pascal. Ela não exige obediência cega a ensinamentos não formulados definitivamente. Exige uma obediência religiosa, baseada na fé responsável, brotada da intenção de contribuir para a autêntica unidade da Igreja, sob a graça do Espírito e em união com os Pastores. Diz por isso o Concílio, que tais doutrinas devem ser "sinceramente acolhidas, sempre de acordo com a sua mente e vontade" (LG 25a). O recente documento da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, "Mysterium Ecclesiae", de 24 de junho de 1973, diz: "Os fiéis não podem se limitar a ouvir simplesmente os Bispos como peritos da doutrina católica, mas estão obrigados a acatar os seus ensinamentos, ministrados em nome de Cristo, com um grau de adesão proporcionada à autoridade de que estão revestidos e que intentam exercer" (REB 33, 1973, 693). A mente e a vontade do Magistério só podem ser a fidelidade a Deus que se revela em Jesus Cristo, e a unidade de seu rebanho.

O fato de alguém pensar que pode e deve discordar de uma sentença do Magistério falível não o exime de toda obrigação. Ele não estará isento de seu compromisso com toda a comunidade da fé. É sua primeira obrigação buscar, com espírito de fé e amor, aquela verdade inegável, em cuja defesa o Magistério achou dever fazer tais afirmações doutrinárias, talvez não ainda amadurecidas e definitivas. Ele deve evitar todo escândalo na comunidade dos fiéis e respeitar, em espírito de fé, a autoridade dos Pastores da Igreja. Só assim não pecará contra essa autoridade divinamente instituída, solidarizando-se com ela na mesma intenção de evidenciar e defender a Verdade mais profunda. A autoridade dos Apóstolos e de seus sucessores foi instituída por Cristo, não apenas para explicitar doutrinas com pronunciamentos definitivos e infalíveis, mas para conduzir todo o rebanho, em nome e pelo poder de Cristo, seu Supremo Pastor, em demanda da Verdade plena e do pleno amor.

Assim na fé se realiza aquela adesão ao Cristo pela qual toda a nossa existência é como que desapropriada de si mesma, para que dela se aproprie Deus que se manifestou na cruz e na ressurreição (1Cor 6,19). Na fé, a cruz, símbolo de maldição, torna se título de perdão e de graça, causa de salvação eterna (Gl 3,13; 2Cor 5,21). Mediante a fé, que é entrega total e confiança de amor, Cristo aparece como o principal agente e senhor da História de sua Igreja, que em nós "com a esperança dos bens futuros, leva a termo a obra que lhe foi entregue pelo Pai" (LG 48).

 

CONCLUSÃO

 

O amor à Igreja concreta

 

"Sinal e instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o gênero humano" (LG 1).

 

24. Mesmo criticando, com discernimento de fé e de amor, mesmo divergindo dentro de um sadio pluralismo, mesmo corrigindo a "pouca fé" do povo e até dos Pastores, todos devemos amar a Igreja de Cristo e testemunhar a sua fé em pureza e unidade. Amá-la, não como se ama uma idéia abstrata, mas como se ama aquela que nos engendrou para a vida, a vida sobrenatural, e nos introduziu na Família de Deus. Amar a Igreja como se amam a vida e a amizade, valores sagrados que nos custam sofrimento. Amar a Igreja concreta, com estes seus pastores, com este seu povo, amado por Cristo com solicitude de Redentor.

A Igreja, não só na sua plenitude escatológica, mas desde já em meio a tantas vicissitudes da História, vive realmente nas comunidades legitimamente constituídas, - especialmente Paróquia e Diocese -, que se integram na  Igreja  Universal.  Esta   Igreja concreta  é  a  Esposa amada do  Verbo  (cf.   LG 6; 7; SC 7b; 42; LG 23a). Esta Igreja, sofrendo, embora, ainda a História do pecado, da mediocridade e da infidelidade, já tem sempre em si a História do mistério da graça redentora. Toda ela vive constantemente do perdão e da insondável gratuidade do amor e assim todos os que a ela pertencem, devem amá-la na sua aparência histórica deficiente, mas que já traz em si o início e a presença real da plenitude.

Se ela é "sinal e instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o gênero humano" (LG 1), todos, Pastores e fiéis, com suas funções específicas, devem contribuir para que a sua unidade interna nunca seja uma unidade apenas aparente e artificial, mero resultado de uma técnica organizatória. Tal unidade não só viria trair as legítimas aspirações pluralistas dos homens que ela deve salvar, como também, e primordialmente descumpriria o divino testamento do Cristo (Jo 17,21; Jo 15,1-17). Obediente à vontade daquele que nos escolheu, a Igreja transcende as altercações estéreis, as suspeitas e acusações destrutivas, tão dolorosas entre irmãos, e se solidariza com "as alegrias e esperanças, com as tristezas e angústias dos  homens de  hoje"  (GS 1), cuja salvação lhe foi confiada.

Esta Igreja não é apenas a soma de todos os que se declaram fiéis. Esposa de Cristo, o que realiza a sua unidade é a participação na vida do Senhor Jesus e de sua graça vitoriosa, que lhe comunica a certeza indefectível da vitória pascal. Maior do que a nossa dor pelo pecado, que vela em parte a sua verdadeira face, é a nossa certeza de que para uma grande multidão, a graça é verdadeiramente eficaz, e a certeza de que em muitos, a Igreja já é santa. Pertencer a esta Igreja concreta, dentro de uma comunidade histórica e legitimamente reunida, é pertencer de modo mais pleno a Cristo. No amor à Igreja se concretiza a nossa fé e a nossa entrega agradecida ao divino Redentor que nela vive.

Cresçamos todos juntos na fé, para todos juntos testemunhá-la em sua pureza e unidade. A unidade na fé não pode ser obtida com o sacrifício da pureza da fé. Antes, esta mesma pureza inclui a exigência da unidade. Pelo amor do Cristo, não permitamos que se rompa o vínculo da paz. Uma Igreja dividida não seria para o mundo sinal de que nela o Cristo Unificador está presente.

Ninguém deve "apagar o Espírito"; todos devem "examinar tudo e conservar o que é bom, abstendo-se de  toda  espécie de  mal"  (1Ts 5,19-22). Porque, "se com tua boca confessares que Jesus é o Senhor e, em teu coração, creres que Deus o ressuscitou dos mortos, serás salvo" (Rm 10,9).

 

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Fonte: Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB

Web site: www.cnbb.org.br