O Cisma Anglicano
D. Estevão Bettencourt osb
O movimento reformador
chegou à Inglaterra em condições singulares. O Cristianismo britânico sempre
teve suas características próprias, em parte por causa da sua posição
geográfica (a Inglaterra é uma ilha!); as tendências a formar uma Igreja
nacional foram´se acentuando através dos séculos; John Wiclef no século XIV e
os humanistas nos séculos XV e XVI prepararam a via para a aberta revolução
religiosa. Esta se deu realmente no século XVI: a princípio tinha apenas o
aspecto de um cisma sem heresia (cisma devido a ambição pessoal de um rei, sem
que o povo participasse da revolta); só aos poucos é que as idéias protestantes
foram entrando na comunidade britânica.
Henrique VIII (rei de
1509 a 1547)
Henrique VIII, nos
primeiros tempos do seu governo mostrou´se zeloso pela fé tradicional. Em 1521,
contra a obra de Lutero sobre “o Cativeiro babilônico” escreveu uma “Afirmação
dos Sete Sacramentos”, que Ihe valeu do Papa Leão X o título de “Defensor da
Fé”. Não obstante, havia de ser arrastado por seus afetos.
Em 1509 Henrique esposou
Catarina de Aragão, viúva de seu irmão Artur. Deste casamento teve vários
filhos, dos quais um só ´ Maria Tudor ´ ficou em vida. Com o tempo, Henrique
apaixonou´se por uma cortesã: Ana de Boleyn. Por isto procurou dissolver o seu
casamento com Catarina, alegando que fora nulo, porque os nubentes eram
cunhados em primeiro grau. Tal pretexto era falso, porque o Papa Jolio II dera
a Henrique explícita dispensa para se casar com Catarina; somente após dezoito
anos de vida conjugal, Henrique trazia à tona esse “impedimento”. A corte real
favorecia os anseios do rei. A rainha Catarina apelava para a Santa Sé, pedindo
justiça. o Papa Clemente VII resolveu entregar o exame do processo a um
tribunal de Roma (julho 1529).
Em janeiro de 1531 o Papa
proibiu a Henrique novas núpcias enquanto a causa estivesse sob julgamento. o
rei, vendo que pouca esperança Ihe restava, quis obter a dissolução do seu
casamento da parte da hierarquia da Inglaterra; Thomas Cromwell, obscuro
advogado, que adquirira influência sobre o rei, aconselhava a Henrique que, a
exemplo dos príncipes alemães, se separasse de Roma. Em fevereiro de 1531 uma
assembléia do clero, instigada pelo rei, prociamou Henrique “Chefe Supremo da
lgreja da Inglaterra”, com a clausula “na medida em que a Lei de Cristo o
permite”. Em 1532 o rei elevou à sé arquiepiscopal de Cantubria Thomas Cranmer,
que numa viagem a Alemanha tinha entrado em contato com o luteranismo; Cranmer
resolveu declarar nulo o casamento de Henrique VIII, de modo que este se casou
em 1533 com Ana Boleyn. O Papa respondeu excomungando o monarca e finalmente
declarando válido o casamento com Catarina. O cisma estava ás portas: em
novembro de 1534, o Parlamento inglês votou o “Ato de Supremacia”, que
proclamava ser o rei o Único e Supremo Chefe da Igreja na Inglaterra; os
súditos que não reconhecessem este Ato, seriam punidos com a morte. A grande
maioria do clero submeteu´se, talvez porque acostumada ao conceito de Igreja
Nacional e bastante mundanizada. Resistiram, porém, até a morte vários leigos e
clérigos, dos quais se destacam o leigo Tomás Moro e o bispo John Fisher.
Muitos mosteiros foram fechados, reIíquias e imagens foram destruídas.
Apesar do cisma e das
pressões luteranas, o rei queria conservar íntegra a fé católica na lnglaterra;
combatia tanto a adesão ao Papa quanto as inovações religiosas do continente.
Este estado de coisas
permaneceu até a morte de Henrique VIII.
Eduardo VI (1547´53)
Henrique teve por
sucessor um filho de dez anos, que Ihe nascera do seu terceiro matrimônio. Este
menino, Eduardo VI, teve como tutores o duque de Somerset e o de
Northumberland, que, juntamente com o arcebispo Cranmer, muito trabalharam pela
introdução da teologia protestante na lnglaterra.
Cranmer proclamou o jovem
príncipe rei por direito divino imediato, com plenos poderes no plano
espiritual e no temporal. Foram chamados do continente teólogos protestantes,
como Bernardino Ochino (capuchinho que apostatara em 1542), Martinho Bucer,
João Laski; o próprio Calvino deu instruções escritas para se efetuar a
protestantização da lnglaterra. os novos mentores elaboraram o Book of Common
Prayer (Livro de oração Comum), que introduzia uma nova liturgia em inglês,
abolia o caráter sacrifical da Missa, prescrevia a comunhão sob as duas
espécies, mas ainda guardava muitos elementos do Missal e do Ritual católicos.
Em 1553 foi promulgada
uma Confissão de Fé em 42 artigos, que seguia principalmente Calvino no tocante
a predestinação e à Eucaristia, mostrando´se em outros pontos luterana,
zwingliana e até católica; com algumas modificações, ainda é a regra de fé da
Comunhão Anglicana (também dita episcopaliana, porque não aboliu a hierarquia
da lgreja, com seus bispos).
As inovações assim
introduzidas tiveram seus adversários no reino. Em 1549 William Paget escrevia
que “o exercício da antiga religião era proibido pela lei, mas a nova ainda não
se tinha assentado no estômago de onze das doze partes do reino”. Houve
revoltas em diversos condados. Os pobres esfomeados vagueavam aos bandos, sem
poder recorrer aos mosteiros, que iam sendo fechados; contra essa população
carente foram promulgadas leis desumanas. Na corte, havia rivalidades, ambições
e corrupção moral; as posicões teológicas dividiam sempre mais os responsáveis
pela reforma no país. O mal´estar se tornou tamanho que, quando Eduardo VI
morreu (aos 16 anos de idade) em 1553, a nação em massa se pronunciou pela
princesa Maria a Católica, filha de Henrique VIII e Catarina, contrariando a
designação que Eduardo fizera em favor de Joana, cortesã de sangue real,
protestante.
Maria Tudor e Elisabete
Maria Tudor Maria Tudor
(1553´8) revolveu a situação; era católica convicta e pôs´se a trabaIhar
apoiada por seu primo, o Cardeal Reginaldo Pole, legado papal.
Em 1554 o Parlamento
votou a nova união da Inglaterra com a Santa Sé. Os prelados depostos por
Eduardo VI foram restituídos as suas sedes, enquanto os hereges, vindos do
estrangeiro, foram expulsos. A rainha Maria, no seu zelo restaurador, adotou
medidas extremas, semelhantes as que Henrique VIII tomara contra os católicos;
foram condenados à morte 280 dissidentes, entre os quais Thomas Cranmer. Esse
zelo excessivo era, em parte, favorecido pelo povo, mas encontrou desaprovação
da parte de católicos, que se tornaram avessos à rainha, chamada “Maria, a
Sanguinária”. Esta tornou´se impopular também por seu casamento com Filipe,
filho de Carlos V, que pouco depois subiu ao trono da Espanha com o nome de
Filipe II. Morreu prematuramente (1558); pouco depois do seu desaparecimento,
extinguia´se a restauração católica na Inglaterra.
Elisabete
Seguiu´se´lhe no trono
uma filha de Ana de Boleyn com Henrique VIII: a rainha Elisabete (1558´1603),
visto que Maria não deixara herdeiros. A nova soberana elevou a lnglaterra a
extraodinário poder político e ecomênico, bem assegurado contra a França e a
Espanha. A sua religiosidade era misteriosa: convertera´se ao catolicismo sob
Maria, e, elevada ao trono, continuava a freqüentar a Missa, confessar´se e
comungar. Estas atitudes, porém, não eram profundas e cediam a interesses
politicos. No dia de sua coroação, jurou conservar a religião católica no país;
não obstante, motivos de conveniência levaram´na a violar a sua.palavra. os
católicos a consideravam rainha ilegítima, e propunham Maria Stuart da Escócia
como herdeira legítima do trono. Isto fazia Elisabete inclinar´se cada vez mais
para o protestantismo. Em conseqüência, sob as aparências de católica, foi
tomando medidas anticatólicas e antipapais. Libertou os teólogos presos na
Inglaterra, e chamou de volta os pregadores de novidade outrora expulsos. Em
1559 foi publicado o “Ato de Uniformidade”, que renovava a liturgia única no
reino, promulgada por Eduardo VI. O Parlamento declarou a rainha Suprema
Autoridade do reino em assuntos espirituais e temporais. Exigiu´se o “juramento
de supremacia” de todos os servidores do Estado e da Igreja na Inglaterra. De
dezesseis bispos católicos, quinze o recusaram e foram depostos e encarcerados;
só ficou solto o bispo Kitchen, de Llandaff, que, tendo dado resposta evasiva,
conseguiu conservar a sua sé mas de então por diante se absteve de qualquer
função episcopal. Do baixo clero só pequena parte teve a coragem de resistir.
Para restaurar a hierarquia episcopal na Inglaterra, foi escolhido como
arcebispo de Cantuária um antigo capelão da rainha, Mateus Parker, que recebeu
a ordenação episcopal aos 17/12/1559, às 5 horas da manhã, na capela de
Lambeth, segundo um Ritual novo, chamado ordinal, confeccionado sob o rei
Eduardo VI. o sagrante foi um bispo deposto, que se prestou a tal ofício:
William Barlon, ex´titular da diocese de Bath, ordenado ainda sob Henrique VIll
validamente. Mateus Parker, uma vez ordenado bispo, ordenou outros bispos,
reconstituindo assim a hierarquia na Inglaterra. Após longos estudos de
peritos, que investigaram de perto os fatos, o Papa Leão XIII até 1896 declarou
inválidas as ordenações anglicanas, baseando´se em dois motivos principais:
1) insuficiência do rito
(o ordinal de Eduardo VI excluia qualquer alusão à Missa como sacrifício de
Cristo perpetuado sobre os altares pelo ministério dos sacerdotes);
2) falta de intenção devida (William Barlon queria
constituir uma hierarquia diversa daquela que Cristo fundou, desvinculada do
Santo Sacrifício da Missa). E por isto que até hoje a lgreja Católica não
reconhece as ordenações anglicanas, embora o assunto possa ser reestudado na
base de novos aspectos que os estudiosos têm trazido a tona em ampla
bibliografia. Este ponto é decisivo para o reatamento entre a Santa Sé e o
Anglicanismo, que de resto vai sendo facilitado por conversações teológicas bem
sucedidas. Em 1563 os 42 artigos de Eduardo VI, reduzidos a 38, foram
promulgados de novo como confissão de fé oficial. Aos insubordinados era
imposta a perda dos bens e da liberdade. Em 1570 o Papa Paulo IV excomungou e
declarou deposta Elisabete ´ o que provocou, da parte da rainha, novas leis,
mais rigorosas, e execuções capitais. Os católicos ingleses sofriam duramente,
considerados como traidores do Estado; as conspirações contra a rainha eram
cruelmente punidas. Em 1588 Filipe II, da Espanha, armou uma frota formidável
(a Armada) com o fim de ir estabelecer na lnglaterra o dominio espanhol e a fé
católica; mas a expedição foi destroçada por uma tempestade. Isto só fez
aumentar a violência.de Elisabete, de tal modo que, em conseqüência de
execuções e apostasias, os católicos se viram reduzidos a minoria
insignificante. As leis repressivas anticatólicas foram sendo abrandadas nos
dois últimos séculos. Mas conservaram seu rigor no Estado de Ulster, que
equivale a 20% do território da ilha da lrlanda. Em 1921, 80% da ilha tornou´se
independente da Inglaterra. A região de Ulster, porém, com sua capital em
Belfast, é governada por um Partido protestante dito “de Orange”, que mantém
até hoje a antiga legislação discriminatória em matéria de religião,
favorecendo a população protestante, com prejuízo de 500.000 católicos lá
residentes. É o que explica os constantes choques entre católicos e protestantes
na Irlanda do Norte. Ainda é de notar que o Ato de Uniformidade da rainha
Elisabete, prescrevendo uma Liturgia ainda apegada às tradições, provocou a
oposição de protestantes impregnados do severo espírito do calvinismo: queriam
abolir o canto eclesiástico, o som do órgão, o sinal da cruz, os paramentos
sacerdotais, os dias festivos... Já que desejavam uma lgreja “absolutamente
pura” e “conforme as Escrituras”, independente do Estado e isenta de todo
“fermento papista”, receberam o predicado de “puritanos”. As suas pretensões
foram repelidas pelo Governo inglês, de modo que sofreram perseguições.
Constituiram a Low Church, Baixa Igreja, em oposição à High Church, Alta
lgreja, oficial. Desde 1567 começaram a fundar Igrejas por conta própria, entre
as quais se destaca o Congregacionalismo (não há hierarquia, mas a congregação
se governa mediante seus representantes). Esses grupos de “não conformistas”
(dissenters) eram tenazes, resistindo ás repressões empreendidas por Elisabete
I e Jaime I. Em conseqüência, mais de 20.000 puritanos, entre os quais os 102
“Pais peregrinos” de 1620 embarcados na nave Mayflower, abandonaram a
patria´mãe e foram fundar suas colônias na Nova lnglaterra ou América do Norte;
aí sofreram intolerância durante algum tempo, mas foram posteriormente aceitos.
São as denominações protestantes domiciliadas ou fundadas nos Estados Unidos
que enviam pregadores para o Brasil, com traços mais ferrenhos e proselitistas
do que as denominações clássicas do protestantismo europeu (luterano,
anglicano).
Fonte:
Prof. Felipe Aquino - Editora Cléofas
Conheça
os livros do prof. Felipe Aquino e
documentos da Igreja EDITORA CLÉOFAS,Caixa Postal 100 - CEP: 12600-970,
Lorena-SP, (0xx12)552-6566
Home Page: www.cleofas.com.br
Email : cleofas@cleofas.com.br
----------------------------------------------------------------
Copyright
2002 - Paróquia do
Divino Espírito Santo - Maceió/AL