EXORTAÇÃO APOSTÓLICA
PÓS-SINODAL
CHRISTIFIDELES LAICI
DE SUA SANTIDADE O PAPA
JOÃO PAULO II
SOBRE VOCAÇÃO E MISSÃO DOS LEIGOS
NA IGREJA E NO MUNDO
Aos Bispos
Aos
Sacerdotes e aos diáconos
Aos
religiosos e às religiosas
A todos os
fiéis leigos
INTRODUÇÃO
1. OS
FIÉIS LEIGOS (Christifideles laici), cuja « vocação e missão na Igreja e
no mundo a vinte anos do Concílio Vaticano II » foi tema do Sínodo dos Bispos
de 1987, pertencem àquele Povo de Deus que é representado na imagem dos
trabalhadores da vinha, de que fala o Evangelho de Mateus: « O Reino dos Céus é
semelhante a um proprietário, que saiu muito cedo, a contratar trabalhadores
para a sua vinha. Ajustou com eles um denário por dia e mandou-os para a vinha
» (Mt 20, 1-2).
A parábola
do Evangelho abre aos nossos olhos a imensa vinha do Senhor e a multidão de
pessoas, homens e mulheres, que Ele chama e envia para trabalhar nela. A vinha
é o mundo inteiro (cf. Mt 13, 8), que deve ser transformado segundo o
plano de Deus em ordem ao advento definitivo do Reino de Deus.
Ide vós
também a minha vinha
2. « Ao
sair pelas nove horas da manhã, viu outros, que estavam ociosos, e disse-lhes:
"Ide vós também para a minha vinha» » (Mt 20, 3-4).
O convite
do Senhor Jesus « Ide vós também para a minha vinha » continua, desde
esse longínquo dia, a fazer-se sentir ao longo da história: dirige-se a todo o
homem que vem a este mundo.
Nos nossos
dias, a Igreja do Concílio Vaticano II, numa renovada efusão do Espírito de
Pentecostes, amadureceu uma consciência mais viva da sua natureza missionária e
ouviu de novo a voz do seu Senhor que a envia ao mundo como « sacramento
universal de salvação ».(1)
Ide vós
também. A chamada não diz respeito apenas aos Pastores, aos
sacerdotes, aos religiosos e religiosas, mas estende-se aos fiéis leigos:
também os fiéis leigos são pessoalmente chamados pelo Senhor, de quem recebem
uma missão para a Igreja e para o mundo. Lembra-o S. Gregório Magno que, ao
pregar ao povo, comentava assim a parábola dos trabalhadores da vinha: «
Considerai o vosso modo de viver, caríssimos irmãos, e vede se já sois
trabalhadores do Senhor. Cada qual avalie o que faz e veja se trabalha na vinha
do Senhor ».(2)
De um modo
especial o Concílio, com o seu riquíssimo património doutrinal, espiritual e
pastoral, dedicou páginas maravilhosas à natureza, dignidade, espiritualidade,
missão e responsabilidade dos fiéis leigos. E os Padres conciliares, feitos
eco do chamamento de Cristo, convidaram todos os fiéis leigos, homens e
mulheres, a trabalhar na Sua vinha: « O sagrado Concílio pede instantemente
no Senhor a todos os leigos que respondam com decisão de vontade, ânimo
generoso e disponibilidade de coração à voz de Cristo, que nesta hora os
convida com maior insistência, e ao impulso do Espírito Santo. De modo particular
os mais novos tomem como dirigido a si próprios este chamamento e recebam-no
com alegria e magnanimidade. Com efeito, é o próprio Senhor que, por meio deste
sagrado Concílio, mais uma vez convida todos os leigos a que se unam a Ele cada
vez mais intimamente, e, sentindo como próprio o que é d'Ele (cf. Fil 2,
5), se associem à Sua missão salvadora. 11 Ele quem de novo os envia a todas as
cidades e lugares aonde Ele há-de chegar (cf. Lc 10, 1) ».(3)
Ide vós
também para a minha vinha. Mais uma vez estas palavras ecoaram espiritualmente
durante a celebração do Sínodo dos Bispos, realizado em Roma de 1 a 30
de Outubro de 1987. Trilhando os caminhos do Concílio e abrindo-se à luz das
experiências pessoais e comunitárias de toda a Igreja, os Padres, enriquecidos
por Sínodos precedentes, abordaram de forma específica e ampla o tema: a
vocação e a missão dos leigos na Igreja e no mundo.
Nessa
Assembleia de Bispos esteve presente uma qualificada representação de fiéis
leigos, homens e mulheres, que deram um precioso contributo aos trabalhos do
Sínodo, como publicamente foi reconhecido na homilia de encerramento: « Demos
graças pelo facto de no decorrer do Sínodo, pudemos, não só alegrar-nos pela
participação dos leigos (auditores e auditrices) mas ainda mais
porque o desenvolvimento dos debates sinodais nos permitiu escutar a voz dos
convidados, os representantes do laicado, provenientes de todas as partes do
mundo, dos diversos Países, e nos permitiu aproveitar as suas experiências, os
seus conselhos, as sugestões que promanam do seu amor pela causa comum ».(4)
De olhos
postos no pós-Concílio, os Padres sinodais puderam constatar como o Espírito
tem continuado a rejuvenescer a Igreja, suscitando novas energias de santidade
e de participação em tantos fiéis leigos. Prova-o, entre outras coisas, o novo
estilo de colaboração entre sacerdotes, religiosos e fiéis leigos; a
participação activa na liturgia, no anúncio da Palavra de Deus e na catequese;
a multiplicidade de serviços e de tarefas confiadas aos fiéis leigos e por eles
assumidas; o radioso florescimento de grupos, associações e movimentos de
espiritualidade e de empenhamento laicais; a participação cada vez maior e
significativa das mulheres na vida da Igreja, e o progresso da sociedade.
Ao mesmo
tempo, o Sínodo acentuou como o caminho pós-conciliar dos fiéis leigos não tem
estado isento de dificuldades e de perigos. Em especial podem recordar-se duas
tentações, de que nem sempre souberam desviar-se: a tentação de mostrar um
exclusivo interesse pelos serviços e tarefas eclesiais, por forma a chegarem
frequentemente a uma prática abdicação das suas responsabilidades específicas
no mundo profissional, social, económico, cultural e político; e a tentação de
legitimar a indevida separação entre a fé e a vida, entre a aceitação do
Evangelho e a acção concreta nas mais variadas realidades temporais e terrenas.
Ao longo
dos seus trabalhos, o Sínodo fez constante referência ao Concílio Vaticano II,
cuja doutrina sobre o laicado, à distância de vinte anos, se revelou de surpreendente
actualidade e, por vezes, de alcance profético: essa doutrina é capaz de
iluminar e de guiar as respostas que hoje devem dar-se aos novos problemas. Com
efeito, o desafio que os Padres sinodais aceitaram foi o de indicar os caminhos
concretos para que a maravilhosa « teoria » sobre o laicado, expressa pelo
Concílio, possa converter-se numa autêntica « praxe » eclesial. Há, pois, uma
série de problemas que se impõem por uma sua certa « novidade », de tal forma
que se podem chamar de pós-conciliares, ao menos em sentido cronológico: os
Padres sinodais justamente lhes dedicaram especial atenção durante o seu debate
e reflexão. Entre esses problemas contam-se os que se referem aos ministérios e
aos serviços eclesiais confiados ou que deverão confiar-se aos fiéis leigos, a
difusão e o crescimento de novos « movimentos » ao lado de outras formas
agregativas de leigos, o lugar e a função da mulher tanto na Igreja como na
sociedade.
Os Padres
sinodais, no encerramento dos seus trabalhos, realizados com tanto empenho,
competência e generosidade, manifestaram-me o desejo e fizeram-me o pedido de,
na altura conveniente, oferecer a Igreja universal um documento conclusivo
sobre os fiéis leigos.(5)
Esta
Exortação Apostólica pós-sinodal pretende valorizar toda a riqueza dos
trabalhos sinodais, desde os Lineamenta ao Instrumentum laboris, desde
a relação introdutória às intervenções de cada Bispo e de cada leigo, à relação
de síntese após o debate em aula, desde os debates e relações dos « círculos
menores » às « proposições » finais. Assim, o presente documento não se situa
paralelamente ao Sínodo, mas constitui a sua fiel e coerente expressão, é o
fruto de um trabalho colegial para cujo resultado final contribuíram o Conselho
de Secretaria do Sínodo e a própria Secretaria.
Criar e
alimentar uma tomada de consciência mais decidida do dom e da responsabilidade
que todos os fiéis leigos, e cada um deles em particular, têm na comunhão e na
missão da Igreja é o objectivo que se propõe a presente Exortação.
As
urgências actuais do mundo: porque estais aqui o dia inteiro inactivos?
3. O
significado fundamental deste Sínodo e, consequentemente, o seu fruto mais
precioso, é que os fiéis leigos escutem o chamamento de Cristo para
trabalharem na Sua vinha, para tomar parte viva, consciente e responsável
na missão da Igreja, nesta hora magnífica e dramática da história, no
limiar do terceiro milénio.
Novas
situações, tanto eclesiais como sociais, económicas, políticas e culturais,
reclamam hoje, com uma força toda particular, a acção dos fiéis leigos. Se o
desinteresse foi sempre inaceitável, o tempo presente torna-o ainda mais
culpável. Não é lícito a ninguém ficar inactivo.
Retomemos
a leitura da parábola evangélica: « Ao sair novamente pelas cinco horas,
encontrou outros que ali estavam e disse-lhes: "Porque ficais aqui o dia
inteiro inactivos?" Eles responderam-lhe: "Porque ninguém nos
contratou". Disse-lhes ele: "Ide vós também para a minha vinha"
» (Mt 20, 6-7).
Não há
lugar para o ócio, uma vez que é tanto o trabalho que a todos espera na vinha
do Senhor. O proprietário insiste ainda mais no seu convite: « Ide vós também
para a minha vinha ».
A voz do
Senhor ressoa sem dúvida no íntimo do próprio ser de cada cristão, que, graças
à fé e aos sacramentos da iniciação cristã, torna-se imagem de Jesus Cristo,
insere-se na Igreja como seu membro vivo e é sujeito activo da sua missão de
salvação. A voz do Senhor, porém, também se faz sentir através dos
acontecimentos históricos da Igreja e da humanidade, como nos lembra o Concílio:
« O Povo de Deus, movido pela fé com que acredita ser conduzido pelo Espírito
do Senhor, o qual enche o universo, esforça-se por discernir nos
acontecimentos, nas exigências e aspirações, que compartilha juntamente com os
homens de hoje, quais são os verdadeiros sinais da presença e do desígnio de
Deus. Pois a fé ilumina todas as coisas com uma luz nova, e faz conhecer o
desígnio divino acerca da vocação integral do homem e, dessa forma, orienta o
espírito para soluções plenamente humanas ».(6)
Temos pois
de encarar de frente este nosso mundo, com os seus valores e problemas, as suas
ânsias e esperanças, as suas conquistas e fracassos: um mundo, cujas situações
económicas, sociais, políticas e culturais, apresentam problemas e dificuldades
mais graves do que o que foi descrito pelo Concílio na Constituição pastoral Gaudium
et spes.(7) É esta, todavia, a vinha, é este o campo no qual
os fiéis leigos são chamados a viver a sua missão. Jesus quer que eles, como
todos os Seus discípulos, sejam sal da terra e luz do mundo (cfr. Mt 5,
13-14). Mas qual é o rosto actual da « terra » e do « mundo », de que os
cristãos devem ser « sal » e « luz »?
É deveras
grande a diversidade das situações e das problemáticas que existem hoje no
mundo, aliás caracterizadas por uma aceleração crescente de mudança. Por isso,
é absolutamente necessário precaver-se contra generalizações e simplificações
indevidas. Podem, todavia, individuar-se algumas linhas de tendência que
emergem na sociedade actual. Como crescem juntos no campo evangélico o joio
e o bom trigo, assim na história, teatro quotidiano de uma prática, muitas
vezes contraditória, da liberdade humana, encontram-se, lado a lado, por vezes
profundamente emaranhados entre si, o mal e o bem, a injustiça e a justiça, a
angústia e a esperança.
Secularismo
e necessidade religiosa
4. Como
não pensar na persistente difusão do indiferentismo religioso e do ateísmo
nas suas mais variadas formas, particularmente naquela que hoje talvez é a
mais espalhada, a do secularismo? Embriagado pelas conquistas
prodigiosas de um progresso científico-técnico e, sobretudo, fascinado pela
mais antiga e sempre nova tentação de querer tornar-se como Deus (cfr. Gn
3, 5), através do uso de uma liberdade sem limites, o homem corta as raízes
religiosas que mergulham no seu coração: esquece-se de Deus, considera-O vazio
de significado para a sua existência, recusa-O, prostrando-se em adoração
diante dos mais diversos « ídolos ».
É
verdadeiramente grave o fenómeno actual do secularismo: não atinge apenas os
indivíduos, mas, de certa forma, comunidades inteiras, como já observava o
Concílio: « Multidões cada vez maiores praticamente se separam da religião
».(8) Repetidas vezes eu mesmo recordei o fenómeno da descristianização que
atinge os povos cristãos de velha data e que exige, sem mais delongas, uma nova
evangelização.
E,
todavia, a aspiração e a necessidade religiosas não poderão extinguir-se
de todo. A consciência de cada homem, quando tem a coragem de encarar as
interrogações mais sérias da existência humana, especialmente a do sentido do
viver, do sofrer e do morrer, não pode deixar de fazer sua a palavra de verdade
que Santo Agostinho gritou: « Fizeste-nos para Ti, Senhor, e o nosso coração
inquieta-se enquanto não descansar em Ti ».(9) O mesmo mundo de hoje também o
atesta, manifestando de formas cada vez mais amplas e vivas a abertura para uma
visão espiritual e transcendente da vida, o despertar da procura religiosa, o
regresso ao sentido do sagrado e à oração, a exigência de liberdade na
invocação do Nome do Senhor.
A pessoa
humana: dignidade espezinhada e exaltada
5.
Pensemos também nas múltiplas violações a que hoje é submetida a pessoa
humana. O ser humano, quando não é visto e amado na sua dignidade de imagem
viva de Deus (cfr. Gn 1, 26), fica exposto às mais humilhantes e
aberrantes formas de « instrumentalização », que o tornam miseravelmente
escravo do mais forte. E o « mais forte » pode revestir-se dos mais variados
nomes: ideologia, poder económico, sistemas políticos desumanos, tecnocracia
científica, invasão dos « mass-média ». Mais uma vez nos encontramos diante de
multidões de pessoas, nossos irmãos e irmãs, cujos direitos fundamentais são
violados, também em nome de uma excessiva tolerância e até da clara injustiça
de certas leis civis: o direito à vida e à integridade, o direito à casa e ao
trabalho, o direito à familia e à procriação responsável, o direito de
participar na vida pública e política, o direito à liberdade de consciência e
de profissão de fé religiosa.
Quem
poderá contar as crianças não nascidas por terem sido mortas no seio das suas
mães, as crianças abandonadas e maltratadas pelos próprios pais, as crianças
que crescem sem afecto e sem educação? Em certos países populações inteiras são
despojadas de casa e de trabalho, faltam-lhes os meios absolutamente
indispensáveis para levar uma vida digna de seres humanos, e são privadas até
do necessário para a sua subsistência. Enormes manchas de pobreza e de miséria,
ao mesmo tempo física e moral, erguem-se ao lado das grandes metrópoles e ferem
de morte grupos humanos inteiros.
Mas o carácter
sagrado da pessoa não pode ser anulado, embora muitas vezes seja desprezado
e violado: tendo o seu fundamento inabalável em Deus Criador e Pai, o carácter
sagrado da pessoa volta a afirmar-se, de novo e sempre.
Daí, a
difusão cada vez mais vasta e a afirmação cada vez mais vigorosa do sentido
da dignidade pessoal de todo o ser humano. Uma corrente benéfica já alastra
e permeia todos os povos da terra, tornando-os cada vez mais conscientes da
dignidade do homem: ele não pode ser uma « coisa » ou um « objecto », de que
nos servimos, mas é sempre e apenas um « sujeito », dotado de consciência e de
liberdade, chamado a viver de forma responsável na sociedade e na história,
orientado para os valores espirituais e religiosos.
Tem-se
dito que o nosso é o tempo dos « humanismos »: uns, pela sua matriz ateia e
secularista, acabam paradoxalmente por mortificar e anular o homem; outros
humanismos, invés, exaltam-no até ao ponto de atingirem formas de verdadeira e
própria idolatria, outros, enfim, reconhecem justamente a grandeza e a miséria
do homem, exprimindo, defendendo e favorecendo a sua dignidade integral.
Sinal e
fruto destas correntes humanistas é a crescente necessidade da participação.
Sem dúvida, este é um dos traços característicos da humanidade de hoje, um
autêntico « sinal dos tempos » que está a amadurecer em diversos campos e em
diversas direcções: no campo, sobretudo, das mulheres e do mundo dos jovens e
na direcção da vida, não só familiar e escolar, mas também cultural, económica,
social e política. Tornar-se protagonistas e, em certa medida, criadores de uma
nova cultura humanista, é uma exigência ao mesmo tempo universal e
individual.(10)
Conflituosidade
e paz
6. Não se
pode, por fim, esquecer um outro fenómeno que caracteriza a humanidade actual:
talvez como nunca na sua história, a humanidade é todos os dias profundamente
ferida e dilacerada pela conflituosidade. Trata-se de um fenómeno
pluriforme, que se distingue do pluralismo legítimo das mentalidades e das
iniciativas e que se manifesta na infeliz contraposição das pessoas, dos
grupos, categorias, nações e blocos de nações. É uma contraposição que assume
formas de violência, de terrorismo, de guerra. Mais uma vez, mas em proporções
imensamente ampliadas, diversos sectores da humanidade actual, querendo
demonstrar a sua « omnipotência », renovam a insensata experiência da
construção da « torre de Babel » (cfr. Gn 11, 1-9), a qual, porém, gera
confusão, luta, desagregação e opressão. E a família humana é assim
dramaticamente desarticulada e dilacerada no seu seio.
Por outro
lado, não se pode suprimir de modo algum a aspiração dos indivíduos e dos povos
ao inestimável bem da paz na justiça. A bem-aventurança evangélica: «
Bem-aventurados os construtores da paz » (Mt 5, 9) encontra nos homens
do nosso tempo um novo e significativo eco: hoje populações inteiras vivem,
sofrem e trabalham para conseguir a paz e a justiça. A participação de
tantas pessoas e grupos na vida da sociedade é o caminho que hoje mais se
percorre para que a paz se torne de desejo em realidade. Neste caminho
encontramos tantos fiéis leigos generosamente empenhados no campo social e
político, nas mais variadas formas, tanto institucionais como de voluntariado e
de serviço aos últimos.
Jesus
Cristo, a esperança da humanidade
7. Este é
o vasto e atribulado campo que se depara aos trabalhadores que o proprietário
mandou trabalhar na sua vinha.
Neste
campo está presente e operante a Igreja, todos nós, pastores e fiéis,
sacerdotes, religiosos e leigos. As situações que foram aqui recordadas atingem
profundamente a Igreja: esta, em parte, é condicionada por elas, embora não
esmagada nem tão pouco vencida, pois o Espírito Santo, que é a sua alma, a
conforta na sua missão.
A Igreja
sabe que todos os esforços que a humanidade está a envidar em favor da comunhão
e da participação, não obstante todas as dificuldades, atrasos e contradições
devidas às limitações humanas, ao pecado e ao Maligno, têm plena resposta na
acção de Jesus Cristo, Redentor do homem e do mundo.
A Igreja
sabe que foi mandada por Ele como « sinal e instrumento da íntima união com
Deus e da unidade de todo o género humano ».(11)
Apesar de
tudo, portanto, a humanidade pode ter esperança e deve ter esperança: o
Evangelho vivo e pessoal, Jesus Cristo em pessoa, é a « notícia » nova e
portadora de alegria que a Igreja cada dia anuncia e testemunha a todos os
homens.
Neste
anúncio e neste testemunho os fiéis leigos têm um lugar original e
insubstituível: por meio deles a Igreja de Cristo torna-se presente nos mais
diversos sectores do mundo, como sinal e fonte de esperança e de amor.
CAPÍTULO I
EU SOU A
VIDEIRA E VÓS OS RAMOS
A
dignidade dos fiéis leigos na Igreja-Mistério
O Mistério
da vinha
8. A
Bíblia emprega a imagem da vinha de muitas maneiras e com diversos
significados: ela serve particularmente para exprimir o mistério do Po vo de
Detus. Nesta perspectiva mais interior, os fiéis leigos não são
simplesmente os agricultores que trabalham na vinha, mas são parte dessa mesma
vinha: « Eu sou a videira, vós os ramos », diz Jesus (Jo 15, 5).
Já no
Antigo Testamento os profetas recorriam à imagem da vinha para indicar o povo
eleito. Israel é a vinha de Deus, a obra do Senhor, a alegria do Seu coração: «
Eu tinha-te plantado como vinha predilecta » (Jer 2, 21); « A tua mãe
era como uma videira plantada à beira das águas. Era fecunda e rica em
sarmentos, graças à abundancia de água » (Ez 19, 10); « O meu amado
possuía uma vinha numa colina fértil. Cavou-a, tirou-lhe as pedras, e plantou-a
com varas escolhidas... » (Is 5, 2).
Jesus
retoma o símbolo da vinha e dele se serve para revelar alguns aspectos do Reino
de Deus: « Um homem plantou uma vinha, cercou-a de uma sebe, cavou nela um
lagar e edificou uma torre, depois arrendou-a a uns vinhateiros e partiu para
longe » (Mc 12, 1; cf. Mt 21, 28 ss).
O
evangelista João convida-nos a penetrar em profundidade e introduz-nos na
descoberta do mistério da vinha: esta é o símbolo e a figura, não só do
povo de Deus, mas do próprio Jesus. Ele é a cepa e nós, os discípulos,
somos os ramos; Ele é a « verdadeira videira », à qual estão vitalmente ligados
os ramos (cf. Jo 15, 1 ss.).
O Concílio
Vaticano II, referindo as várias imagens bíblicas que iluminam o mistério da
Igreja, usa novamente a imagem da videira e das vides: « Cristo é a videira
verdadeira que dá vida e fecundidade às vides, isto é, a nós, que por meio da
Igreja permanecemos n'Ele e sem o qual nada podemos fazer (Jo 15, 1-5)
».(12) A própria Igreja é, portanto, a vinha evangélica. É mistério, porque
o amor e a vida do Pai, do Filho e do Espírito Santo são o dom totalmente
gratuito oferecido a todos aqueles que nasceram da água e do Espírito (cf. Jo
3, 5), chamados a reviver a mesma comunhão de Deus e a manifestá-la e a
comunicá-la na história (missão): «
Naquele
dia — diz Jesus — conhecereis que Eu estou no Pai e vós em Mim e Eu em vós » (Jo
14, 20).
Assim, só no
interior do mistério da Igreja como mistério de comunhão se revela a «
identidade » dos fiéis leigos, a sua original dignidade. E só no interior
dessa dignidade se podem definir a sua vocação e a sua missão na Igreja e no
mundo.
Quem são
os fiéis leigos
9. Os
Padres sinodais justamente sublinharam a necessidade de se delinear e propor
uma descrição positiva da vocação e da missão dos fiéis leigos,
aprofundando o estudo da doutrina do Concílio Vaticano II à luz, tanto dos mais
recentes documentos do Magistério como da experiência da mesma vida da Igreja
guiada pelo Espírito Santo.(13)
Ao
responder à pergunta « quem são os fiéis leigos », o Concílio, ultrapassando
anteriores interpretações prevalentemente negativas, abriu-se a uma vissão
decididamente positiva e manifestou o seu propósito fundamental ao afirmar a
plena pertença dos fiéis leigos à Igreja e ao seu mistério e a índole peculiar
da sua vocação, a qual tem como específico « procurar o Reino de Deus
tratando das coisas temporais e ordenando-as segundo Deus ».(14) « Por leigos —
assim os descreve a Constituição Lumen gentium — entendem se aqui todos
os cristãos que não são membros da sagrada Ordem ou do estado religioso
reconhecido pela Igreja, isto é, os fiéis que, incorporados em Cristo pelo
Baptismo, constituídos em Povo de Deus e tornados participantes, a seu modo, do
múnus sacerdotal, profético e real de Cristo, exercem pela parte que lhes toca,
na Igreja e no mundo, a missão de todo o povo cristão ».(15)
Já Pio
XII, dizia: « Os fiéis, e mais propriamente os leigos, encontram-se na linha
mais avançada da vida da Igreja; para eles, a Igreja é o princípio vital da
sociedade humana. Por isso, eles, e sobretudo eles, devem ter uma consciência,
cada vez mais clara, não só de pertencerem à Igleja, mas de ser a Igreja, isto
é, a comunidade dos fiéis sobre a terra sob a guia do Crefe comum, o Papa, e
dos Bispos em comunhão com ele. Eles são a Igreja... ».(16)
Segundo a
imagem bíblica da vinha, os fiéis leigos, como todos os outros membros da
Igreja, são vides radicadas em Cristo, a verdadeira videira, que torna as vides
vivas e vivificantes.
A inserção
em Cristo através da fé e dos sacramentos da iniciação cristã é a raiz primeira
que dá origem à nova condição do cristão no mistério da Igreja, que constitui a
sua mais profunda « fisionomia » e que está na base de todas as vocações e do
dinamismo da vida cristã dos fiéis leigos: em Jesus Cristo morto e ressuscitado
o baptizado torna-se uma « nova criatura » (Gal 6, 15; 2 Cor 5,
17), uma criatura purificada do pecado e vivificada pela graça.
Assim, só
descobrindo a misteriosa riqueza que Deus dá ao cristão no santo Baptismo é possível
delinear a « figura » do fiel leigo.
O Baptismo
e a novidade cristã
10. Não é
um exagero dizer-se que toda a existência do fiel leigo tem por finalidade
levá-lo a descobrir a radical novidade cristã que promana do Baptismo,
sacramento da fé, a fim de poder viver as suas exigências segundo a vocação que
recebeu de Deus. Para descrever a « figura » do fiel.leigo, vamos agora
considerar de forma explícita e mais directa, entre outros, estes três aspectos
fundamentais: o Baptismo regenera-nos para a vida dos fiIbos de Deus,
une-nos a Jesus Cristo e ao Seu Corpo que é a Igreja, unge-nos no Espírito
Santo, constituindo-nos templos espirituais.
Filhos no
Filho
11.
Recordemos as palavras que Jesus disse a Nicodemos: « Em verdade, em verdade te
digo: quem não nascer da água e do Espírito não pode entrar no Reino de Deus »
(Jo 3, 5). O santo Baptismo é, pois, um novo nascimento, é uma
regeneração.
É mesmo a
pensar neste aspecto do dom baptismal que o apóstolo Pedro irrompe no canto: «
Bendito seja Deus e Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, que na Sua grande
misericórdia nos regenerou pela ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos
para uma esperança viva, para uma herança incorruptível, que não pode
contaminar-se, e imarcessível » (1 Ped 1, 3-4). Para Pedro, os cristãos
são aqueles que foram « regenerados, não de uma semente corruptível, mas
incorruptível: pela palavra de Deus viva e eterna » (1 Ped 1, 23).
Com o
santo Baptismo tornamo-nos fiIhos de Deus no Seu Unigenito Filho, Jesus
Cristo. Ao sair das águas da sagrada fonte, todo o cristão ouve de novo
aquela voz que um dia se fez ouvir nas margens do rio Jordão: « Tu és o Meu
Filho muito amado, em Ti pus todo o Meu enlevo » (Lc 3, 22), e
compreende ter sido associado ao Filho predilecto, tornando-se filho de adopção
(cf. Gal 4, 4-7) e irmão de Cristo. Realiza-se, assim, na história de
cada um o desígnio eterno do Pai: « Aqueles que de antemão conheceu, também os
predestinou para serem conformes à imagem do Seu Filho, a fim de que Este seja
o Primogenito de muitos irmãos » (Rom 8, 29).
É o Espírito
Santo que constitui os baptizados em filhos de Deus e, ao mesmo tempo,
membros do corpo de Cristo. Paulo recorda-o aos cristãos de Corinto: « Foi num
só Espírito que todos nós fomos baptizados, a fim de formarmos um só corpo » (1
Cor 12, 13), de forma que o apóstolo pode dizer aos fiéis leigos: « Sois
agora corpo de Cristo e Seus membros, cada um na parte que lhe toca » (1 Cor
12, 27); « Que vós sois filhos prova-o o facto que Deus mandou aos nossos
corações o Espírito do Seu Filho » (Gal 4, 6; cf. Rom 8, 15-16).
Um só
corpo em Cristo
12.
Regenerados como « filhos no Filho », os baptizados são inseparavelmente « membros
de Cristo e membros do corpo da Igreja », como ensina o Concílio de
Florença.(17)
O Baptismo
significa e realiza uma incorporação, mística mas real, no corpo crucificado e
glorioso de Jesus. Através do sacramento Jesus une o baptizado à Sua morte para
uni-lo à Sua ressurreição (Rom 6, 3-5), despoja-o do « homem velho » e
reveste-o do « homem novo », isto é, de Si mesmo: « Todos os que fostes
baptizados em Cristo — proclama o apóstolo Paulo — vos revestistes de Cristo »
(Gal 3, 27; cf. Ef 4, 22-24; Col 3, 9-10). Daí resulta que
« nós, embora sendo muitos, constituimos um só corpo em Cristo » (Rm 12,
5).
Reencontramos
nas palavras de Paulo o eco fiel da doutrina do próprio Jesus, que revelou a unidade
misteriosa dos Seus discípulos com Ele e entre si, apresentando-a como
imagem e prolongamento daquela arcana comunhão que une o Pai ao Filho e o Filho
ao Pai no vínculo amoroso do Espírito (cf. Jo 17, 21). Trata-se da mesma
unidade de que fala Jesus quando usa a imagem da videira e das vides: « Eu sou
a videira, vós as vides » (Jo 15, 5), uma imagem que ilumina, não apenas
a profunda intimidade dos discípulos com Jesus, mas também a comunhão vital dos
discípulos entre si: todos eles vides da única Videira.
Templos
vivos e santos do Espírito
13. Usando
uma outra imagem, a do edifício, o apóstolo Pedro define os baptizados como «
pedras vivas » edificadas sobre Cristo, a « pedra angular », e destinadas à «
construção de um edifício espiritual » (1 Ped 2, 4 ss.). A imagem
introduz-nos num outro aspecto da novidade baptismal, e que o Concílio Vaticano
II assim apresenta: « Pela regeneração e pela unção do Espírito Santo, os
baptizados são consagrados para serem uma morada espiritual ».(18)
O Espírito
Santo « unge » o baptizado, imprime-lhe a Sua marca indelével (cf. 2 Cor
1, 21-22) e faz dele templo espiritual, isto é, enche-o com a santa presença de
Deus, graças à união e à conformação com Jesus Cristo.
Com esta
espiritual « unção », o cristão pode, por sua vez, repetir as palavras de
Jesus: « O Espírito do Senhor está sobre mim: por isso, me ungiu e me enviou
para anunciar a Boa Nova aos pobres, para proclamar a libertação aos cativos, e
aos cegos o recobrar da vista, para mandar em liberdade os oprimidos e
proclamar um ano de graça do Senhor » (Lc 4, 18-19; Is 61, 1-2). Assim,
com a efusão baptismal e crismal o baptizado torna-se participante na mesma
missão de Jesus Cristo, o Messias Salvador.
Partipantes
no múnus sacerdotal, profético e real de Jesus Cristo
14.
Dirigindo-se aos baptizados como a crianças recém-nascidas, o apóstolo Pedro
escreve: « Agarrando-vos a Ele pedra viva, rejeitada pelos homens, mas
escolhida e preciosa aos olhos de Deus, vós também, quais pedras vivas, sois
usados na construção de um edifício espiritual, por meio de um sacerdócio
santo, cujo fim é oferecer sacrifícios espirituais que serão agradáveis a Deus,
por Jesus Cristo... Vós, porém, sois a raça eleita, o sacerdócio real, a nação
santa, o povo que Deus adquiriu para anunciar as maravilhas d'Aquele que vos
chamou das trevas à Sua luz admirável ... » (1 Ped 2, 4-5. 9).
Eis um
novo aspecto da graça e da dignidade baptismal: os fiéis leigos participam, por
sua vez, no tríplice múnus — sacerdotal, profético e real — de Jesus Cristo.
Trata-se de um aspecto que a tradição viva da Igreja nunca esqueceu, como
resulta, por exemplo, da explicação que Santo Agostinho deu do Salmo 26.
Escreve ele: « David foi ungido rei. Naquele tempo ungiam-se apenas o rei e o
sacerdote. Nessas duas pessoas prefigurava-se o futuro único rei e sacerdote,
Cristo (daí que "Cristo" venha de "crisma"). Não foi,
porém, ungido apenas a nossa Cabeça, mas fomos ungidos também nós, Seu corpo...
Por isso, a unção diz respeito a todos os cristãos, quando no tempo do Antigo
Testamento pertencia apenas a duas pessoas. Deduz-se claramente sermos nós o
corpo de Cristo, do facto de sermos todos ungidos e de todos sermos n'Ele
"cristos" e Cristo, porque, de certa forma, a Cabeça e o corpo formam
o Cristo na sua integridade ».(19)
Nas
pisadas do Concílio Vaticano II,(20) propus-me, desde o início do meu serviço
pastoral, exaltar a dignidade sacerdotal, profética e real de todo o Povo de Deus,
afirmando: « Aquele que nasceu da Virgem Maria, o Filho do carpinteiro — como o
julgavam — o Filho do Deus vivo, como confessou Pedro, veio para fazer de todos
nós "um reino de sacerdotes". O Concílio Vaticano II recordou-nos o
mistério deste poder e o facto de que a missão de Cristo — Sacerdote,
Profeta-Mestre, Rei — continua na Igreja. Todos, todo o Povo de Deus participa
nesta tríplice missão ».(21)
Com esta
Exortação mais uma vez convido os fiéis leigos a reler, a meditar e a assimilar
com inteligência e com amor a rica e fecunda doutrina do Concílio sobre a sua
participação no tríplice múnus de Cristo.(22) Eis agora em síntese os elementos
essenciais dessa doutrina.
Os fiéis
leigos participam no múnus sacerdotal, pelo qual Jesus se ofereceu a Si
mesmo sobre a Cruz e continuamente Se oferece na celebração da Eucaristia para
glória do Pai e pela salvação da humanidade. Incorporados em Cristo Jesus, os
baptizados unem-se a Ele e ao Seu sacrifício, na oferta de si mesmos e de todas
as suas actividades (cf. Rom 12, 1-2). Ao falar dos fiéis leigos, o
Concílio diz: « Todos os seus trabalhos, orações e empreendimentos apostólicos,
a vida conjugal e familiar, o trabalho de cada dia, o descanso do espírito e do
corpo, se forem feitos no Espírito, e as próprias incomodidades da vida,
suportadas com paciência, se tornam em outros tantos sacrifícios espirituais,
agradáveis a Deus por Jesus Cristo (cf. 1 Ped 2, 5); sacrifícios estes
que são piedosamente oferecidos ao Pai, juntamente com a oblação do corpo do
Senhor, na celebração da Eucaristia. E deste modo, os leigos, agindo em toda a
parte santamente, como adoradores, consagram a Deus o próprio mundo ».(23)
A
participação no múnus profético de Cristo, « que, pelo testemunho da
vida e pela força da palavra, proclamou o Reino do Pai »,(24) habilita e
empenha os fiéis leigos a aceitar, na fé, o Evangelho e a anunciá-lo com a
palavra e com as obras, sem medo de denunciar corajosamente o mal. Unidos a
Cristo, o « grande profeta » (Lc 7, 16), e constituidos no Espírito «
testemunhas » de Cristo Ressuscitado, os fiéis leigos tornam-se participantes
quer do sentido de fé sobrenatural da Igreja que « não pode errar no crer »(25)
quer da graça da palavra (cf. Act 2, 17-18; Ap 19,10); eles são
igualmente chamados a fazer brilhar a novidade e a força do Evangelho na sua
vida quotidiana, familiar e social, e a manifestar, com paciência e coragem,
nas contradições da época presente, a sua esperança na glória « também por meio
das estruturas da vida secular ».(26)
Ao
pertencerem a Cristo Senhor e Rei do universo, os fiéis leigos participam no
Seu múnus real e por Ele são chamados para o serviço do Reino de Deus e
para a sua difusão na história. Vivem a realeza cristã, sobretudo no combate
espiritual para vencerem dentro de si o reino do pecado (cf. Rom 6, 12),
e depois, mediante o dom de si, para servirem, na caridade e na justiça, o
próprio Jesus presente em todos os seus irmãos, sobretudo nos mais pequeninos
(cf. Mt 25, 40).
Mas os
fiéis leigos são chamados de forma particular a restituir à criação todo o seu
valor originário. Ao ordenar as coisas criadas para o verdadeiro bem do homem,
com uma acção animada pela vida da graça, os fiéis leigos participam no
exercício do poder com que Jesus Ressuscitado atrai a Si todas as coisas e as
submete, com Ele mesmo, ao Pai, por forma a que Deus seja tudo em todos (cf. 1 Cor
15, 28; Jo 12, 32).
A
participação dos fiéis leigos no tríplice múnus de Cristo Sacerdote, Profeta e
Rei encontra a sua raiz primeira na unção do Baptismo, o seu desenvolvimento na
Confirmação e a sua perfeição e sustento dinamico na Eucaristia. É uma
participação que se oferece a cada um dos fiéis leigos, mas enquanto formam
o único corpo do Senhor. Com efeito, é a Igreja que Jesus enriquece com
os Seus dons, qual Seu Corpo e Sua Esposa. Assim, os indivíduos participam no
tríplice múnus de Cristo enquanto membros da Igreja, como claramente
ensina o apóstolo Pedro, que define os baptizados como « raça eleita,
sacerdócio real, nação santa, povo que Deus adquiriu » (1 Ped 2, 9).
Precisamente por derivar da comunhão eclesial, a participação dos fiéis
leigos no tríplice múnus de Cristo exige ser vivida e actuada na comunhão
e para o crescimento da mesma comunhão. Escrevia Santo Agostinho: « Como
chamamos a todos cristãos em virtude do místico crisma, assim a todos chamamos
sacerdotes porque são membros do único Sacerdote ».(27)
Os fiéis
leigos e a índole secular
15. A
novidade cristã é o fundamento e o título da igualdade de todos os baptizados
em Cristo, de todos os membros do Povo de Deus: « Comum é a dignidade dos
membros, pela regeneração em Cristo, comum a graça dos filhos, comum a vocação
à perfeição; uma só salvação, uma só esperança e indivisa caridade ».(28) Em
virtude da comum dignidade baptismal, o fiel leigo é corresponsável, juntamente
com os ministros ordenados e com os religiosos e as religiosas, da missão da
Igreja.
Mas a
comum dignidade baptismal assume no fiel leigo uma modalidade que o
distingue, sem todavia o separar, do presbítero, do religioso e da religiosa.
O Concílio Vaticano II apontou a índole secular como sendo essa modalidade: « A
índole secular é própria e peculiar dos leigos ».(29)
Precisamente
para se entender de forma completa, adequada e específica a condição eclesial
do fiel leigo, é preciso aprofundar o alcance teológico da índole secular, á
luz do plano salvífico de Deus e do mistério da Igreja.
Como dizia
Paulo VI, a Igreja « tem uma autêntica dimensão secular, inerente á sua íntima
natureza e missão, cuja raiz mergulha no mistério do Verbo encarnado e que se
concretiza de formas diversas para os seus membros ».(30)
A Igreja,
com efeito, vive no mundo, embora não seja do mundo (cf. Jo 17, 16) e é enviada
para dar continuidade à obra redentora de Jesus Cristo, a qual, « visando por
natureza salvar os homens, compreende também a instauração de toda a ordem
temporal ».(31)
É verdade
que todos os membros da Igreja participam na sua dimensão secular, mas
de maneiras diferentes. Nomeadamente a participação dos fiéis leigos tem
uma sua modalidade de actuação e de função, que, segundo o Concílio, lhes é «
própria e peculiar »: tal modalidade é indicada na expressão « índole secular
».(32)
Efectivamente,
o Concílio descreve a condição secular dos fiéis leigos indicando-a, antes de
mais, como o lugar onde lhes é dirigida a chamada de Deus: « Aí são chamados
por Deus ».(33) Trata-se de um « lugar » descrito em termos dinâmicos: os
fiéis leigos « vivem no século, isto é, empenhados em toda a qualquer ocupação
e actividade terrena e nas condições ordinárias da vida familiar e social, com
as quais é como que tecida a sua existência ».(34) Os fiéis leigos são pessoas
que vivem a vida normal no mundo, estudam, trabalham, estabelecem relações
amigáveis, sociais, profissionais, culturais, etc. O Concílio considera essa
sua condição não simplesmente como um dado exterior e ambiental, mas
como uma realidade destinada a encontrar em Jesus Cristo a plenitude do seu
significado.(35) Mais, atesta que: « O próprio Verbo encarnado quis
participar da vida social dos homens... Santificou os laços sociais e, antes de
mais, os familiares, fonte da vida social, e submeteu-Se livremente às leis do
Seu país. Quis levar a vida de um operário do Seu tempo e da Sua terra ». (36)
O « mundo
» torna-se assim o ambiente e o meio da vocação cristã dos fiéis leigos,
pois também ele está destinado a dar glória a Deus Pai em Cristo. O Concílio
pode, então, indicar qual o sentido próprio e peculiar da vocação divina
dirigida aos fiéis leigos. Estes não são chamados a deixar o lugar que ocupam
no mundo. O Baptismo não os tira de modo nenhum do mundo, como sublinha o
apóstolo Paulo: « Irmãos, fique cada um de vós diante de Deus na condição em
que estava quando foi chamado » (1 Cor 7, 24); mas confia-lhes uma
vocação que diz respeito a essa mesma condição intra-mundana: pois, os fiéis
leigos « são chamados por Deus para que aí, exercendo o seu próprio
ofício, inspirados pelo espírito evangélico, concorram para a santificação
do mundo a partir de dentro, como o fermento, e deste modo manifestem Cristo
aos outros, antes de mais, pelo testemunho da própria vida, pela irradiação da
sua fé, esperança e caridade ».(37) Dessa forma, o estar e o agir no mundo são
para os fiéis leigos uma realidade, não só antropológica e sociológica, mas
também e especificamente teológica e eclesial, pois, é na sua situação
intra-mundana que Deus manifesta o Seu plano e comunica a especial vocação de «
procurar o Reino de Deus tratando das realidades temporais e ordenando-as
segundo Deus ».(38)
E foi
precisamente nesta linha que os Padres sinodais afirmaram: « A índole secular
do fiel leigo não deve, pois, definir-se apenas em sentido sociológico, mas
sobretudo em sentido teológico. A característica secular é vista á luz do acto
criador e redentor de Deus, que confiou o mundo aos homens e às mulheres, para
tomarem parte na obra da criação, libertarem a mesma criação da influência do
pecado e santificarem a si mesmos no matrimónio ou na vida celibatária, na
família, no emprego e nas várias actividades sociais ».(39)
A condição
eclesial dos fiéis leigos é radicalmente definida pela sua novidade
cristã e caracterizada pela sua índole secular.(40)
As imagens
evangélicas do sal, da luz e do fermento, emboram se refiram indistintamente a
todos os discípulos de Jesus, têm uma específica aplicação nos fiéis leigos.
São imagens maravilhosamente significativas, porque falam, não só da inserção
profunda e da participação plena dos fiéis leigos na terra, no mundo, na
comunidade humana, mas também e, sobretudo, da novidade e da originalidade de
uma inserção e de uma participação destinadas à difusão do Evangelho que salva.
Chamados à
santitade
16. A
dignidade do fiel leigo revela-se em plenitude quando se considera a primeira
e fundamental vocação que o Pai, em Jesus Cristo por meio do Espírito
Santo, dirige a cada um deles: a vocação à santidade, isto é, à perfeição da
caridade. O santo é o testemunho mais explêndido da dignidade conferida ao
discípulo de Cristo.
Sobre a
universal vocação à santidade, o Concílio Vaticano II teve palavras sobremaneira
luminosas. Pode dizer-se que foi precisamente esta a primeira incumbência
confiada a todos os filhos e filhas da Igreja por um Concílio que se quis para
a renovação evangélica da vida cristã. (41) Tal incumbência não é uma simples
exortação moral, mas uma exigência do mistério da Igreja, que não se pode
suprimir: a Igreja é a Vinha escolhida, por meio da qual as vides vivem e
crescem com a mesma linfa santa e santificadora de Cristo; é o Corpo místico,
cujos membros participam da mesma vida de santidade da Cabeça que é Cristo; é a
Esposa amada do Senhor Jesus que a Si mesmo Se entregou para a santificar (cf.
Ef 5, 25 ss.). O Espírito que santificou a natureza humana de Jesus no seio
virginal de Maria (cf. Lc 1, 35) é o mesmo Espírito que habita e actua
na Igreja para lhe comunicar a santidade do Filho de Deus feito homem.
Hoje como
nunca, urge que todos os cristãos retomem o caminho da renovação evangélica,
acolhendo com generosidade o convite apostólico de « ser santos em todas as
acções ». O Sínodo extraordinário de 1985, a vinte anos do encerramento do
Concílio, insistiu com oportunidade sobre essa urgência: « Sendo a Igreja em
Cristo um mistério, ela deve ser vista como sinal e instrumento de santidade...
Os santos e santas foram sempre fonte e origem de renovação nas circunstâncias
mais difíceis em toda a história da Igreja. Hoje temos muitíssima falta de
santos, que devemos pedir com assiduidade ».(42)
Todos na
Igreja, precisamente porque são seus membros, recebem e, por conseguinte,
partilham a comum vocação à santidade. A título pleno, sem diferença alguma dos
outros membros da Igreja, a essa vocação são chamados os fiéis leigos: « Todos
os fiéis, de qualquer estado ou ordem, são chamados à plenitude da vida cristã
e à perfeição da caridade »; (43) « Todos os fiéis são convidados e têm por
obrigação tender à santidade e à perfeição do próprio estado ».(44)
A vocação
à santidade mergulha as suas raízes no Baptismo e volta a ser proposta
pelos vários sacramentos, sobretudo pelo da Eucaristia: revestidos de
Jesus Cristo e impregnados do Seu Espírito, os cristãos são « santos » e, por
isso, são habilitados e empenhados em manifestar a santidade do seu ser na
santidade de todo o seu operar. O apóstolo Paulo não se cansa de
advertir todos os cristãos para que vivam « como convém a santos » (Ef
5, 3).
A vida
segundo o Espírito, cujo fruto é a santificação (Rom 6, 22; cf. Gal
5, 22), suscita e exige de todos e de cada um dos baptizados o
seguimento e imitação de Jesus Cristo, no acolhimento das Suas Bem-aventuranças,
na escuta e meditação da Palavra de Deus, na consciente e activa participação
na vida litúrgica e sacramental da Igreja, na oração individual, familiar e
comunitária, na fome e sede de justiça, na prática do mandamento do amor em
todas as circunstancias da vida e no serviço aos irmãos, sobretudo os
pequeninos, os pobres e os doentes.
Santificar-se
no mundo
17. A
vocação dos fiéis leigos à santidade comporta que a vida segundo o Espírito se
exprima de forma peculiar na sua inserção nas realidades temporais e na
sua participação nas actividades terrenas. É ainda o apóstolo que
adverte: « Tudo quanto fizerdes por palavras e obras, fazei tudo no nome do
Senhor Jesus, dando, por meio d'Ele, graças a Deus Pai » (Col 3, 17).
Aplicando as palavras do apóstolo aos fiéis leigos, o Concílio afirma
categoricamente: « Nem os cuidados familiares nem outras ocupações profanas
devem ser alheias à vida espiritual ».(45) Por sua vez, os Padres sinodais
afirmaram: « A unidade de vida dos fiéis leigos é de enorme importância, pois,
eles têm que se santificar na normal vida profissional e social. Assim, para
que possam responder à sua vocação, os fiéis leigos devem olhar para as
atividades da vida quotidiana como uma ocasião de união com Deus e de
cumprimento da Sua vontade, e também como serviço aos demais homens, levando-os
à comunhão com Deus em Cristo ». (46)
A vocação
à santidade deverá ser compreendida e vivida pelos fiéis leigos, antes de mais,
como sendo uma obrigação exigente a que não se pode renunciar, como um sinal
luminoso do infinito amor do Pai que os regenerou para a Sua vida de santidade.
Tal vocação aparece então como componente essencial e inseparável de nova
vida baptismal e, por conseguinte, elemento constitutivo da sua dignidade.
Ao mesmo tempo, a vocação à santidade anda intimamente ligada à missão e
à responsabilidade confiadas aos fiéis leigos na Igreja e no mundo. Com efeito,
a própria santidade já vivida, que deriva da participação na vida de santidade
da Igreja, representa o primeiro e fundamental contributo para a edificação da
própria Igreja, como « Comunhão dos Santos ». Um cenário maravilhoso se abre
aos olhos iluminados pela fé: o de inúmeros fiéis leigos, homens e mulheres,
que, precisamente na vida e nas ocupações do dia a dia, muitas vezes
inobservados ou até incompreendidos e ignorados pelos grandes da terra, mas
vistos com amor pelo Pai, são obreiros incansáveis que trabalham na vinha do
Senhor, artífices humildes e grandes — certamente pelo poder da graça de Deus —
do crescimento do Reino de Deus na história.
A
santidade é, portanto, um pressuposto fundamental e uma condição totalmente
insubstituível da realização da missão de salvação na Igreja. A santidade da
Igreja é a fonte secreta e a medida infalível da sua operosidade apostólica e
do seu dinamismo missionário. Só na medida em que a Igreja, Esposa de Cristo,
se deixa amar por Ele e O ama, é que ela se torna Mãe fecunda no Espírito.
Retomemos
mais uma vez a imagem bíblica: o rebentar e o alastrar das vides dependem da
sua inserção na videira. « Como a vide não pode dar fruto por si mesma se não
estiver na videira, assim acontecerá convosco se não estiverdes em Mim. Eu sou
a videira, vós as vides. Quem permanece em Mim e Eu nele, esse dá muito fruto;
porque sem Mim nada podeis fazer » (Jo 15, 4-5).
É natural
recordar aqui a solene proclamação de fiéis leigos, homens e mulheres, como
Beatos e Santos, feita durante o mês do Sínodo. Todo o Povo de Deus, e os fiéis
leigos em particular, podem ter agora novos modelos de santidade e novos
testemunhos de virtudes heróicas vividos nas condições comuns e ordinárias da
existência humana. Como disseram os Padres sinodais: « As Igrejas locais e,
sobretudo, as chamadas Igrejas mais jovens deverão procurar diligentemente
entre os próprios membros aqueles homens e mulheres que prestaram nessas
condições (as condições quotidianas do mundo e o estado conjugal) o testemunho
da santidade e que podem servir de exemplo aos demais, a fim de, se for o caso,
os proporem para a beatificação e canonização ».(47)
Ao
concluir estas reflexões, destinadas a definir a condição eclesial do fiel
leigo, vem-me à mente a célebre recomendação de São Leão Magno: « Agnosce, o
Christiane, dignitatem tuam! ».(48) É a mesma advertência de São Máximo,
Bispo de Turim: « Considerai a honra que vos foi feita neste mistério! ».(49)
Todos os baptizados são convidados a ouvir de novo as palavras de Santo
Agostinho: « Alegremo-nos e agradeçamos: tornámo-nos não só cristãos, mas
Cristo...! Maravilhai-vos e alegrai-vos: Cristo nos tornámos ».(50)
A
dignidade cristã, fonte da igualdade de todos os membros da Igreja, garante e
promove o espírito de comunhão e de fraternidade e, ao mesmo tempo, torna-se o
segredo e a força do dinamismo apostólico e missionário dos fiéis leigos. É uma
dignidade exigente, a dignidade dos trabalhadores que o Senhor chamou
para a Sua vinha: « Incumbe a todos os leigos — lemos no Concílio — a magnífica
tarefa de trabalhar para que o desígnio de salvação atinja cada vez mais os
homens de todos os tempos e de toda a terra ».(51)
CAPÍTULO
II
TODOS
RAMOS DA ÚNICA VIDEIRA
A
participação dos fiéis leigos na vida da Igreja-Comunhão
O Mistério
da Igreja-Comunhão
18.
Ouçamos de novo as palavras de Jesus: « Eu sou a verdadeira videira e o meu Pai
é o agricultor ... Permanecei em Mim e Eu em vós » (Jo 15, 1-4).
Nestas
simples palavras é-nos revelada a misteriosa comunhão que vincula em unidade o
Senhor e os discípulos, Cristo e os baptizados: uma comunhão viva e
vivificante, pela qual os cristãos deixam de pertencer a si mesmos, tornando-se
propriedade de Cristo, como as vides ligadas à videira.
A comunhão
dos cristãos com Jesus tem por modelo, fonte e meta a mesma comunhão do Filho
com o Pai no dom do Espírito Santo: unidos ao Filho no vínculo amoroso do
Espírito, os cristãos estão unidos ao Pai.
Jesus
prossegue: « Eu sou a videira e vós os ramos » (Jo 15, 5). Da comunhão
dos cristãos com Cristo brota a comunhão dos cristãos entre si: todos são ramos
da única Videira, que é Cristo. Para o Senhor Jesus esta comunhão fraterna é o
maravilhoso reflexo e a misteriosa participação na vida íntima de amor do Pai,
do Filho e do Espírito Santo. Jesus reza por esta comunhão: « Que todos sejam
um só, como Tu, ó Pai, estás em Mim e Eu em Ti, que também eles estejam em nós,
para que o mundo creia que Tu me enviaste » (Jo 17, 21).
Esta
comunhão é o próprio mistério da Igreja, como nos recorda o Concílio
Vaticano II na célebre frase de São Cipriano: « A Igreja universal aparece como
"um povo unido pela unidade do Pai, do Filho e do Espírito Santo"
».(52) Para esse mistério da Igreja-Comunhão somos habitualmente chamados,
quando, no início da celebração eucarística, o sacerdote nos recebe com a
saudação do apóstolo Paulo: « A graça do Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus e
a comunhão do Espírito Santo estejam com todos vós » (2 Cor 13, 13).
Depois de
ter esboçado a « figura » dos fiéis leigos na sua dignidade, devemos agora
reflectir sobre a sua missão e responsabilidade na Igreja e no mundo: mas estas
só podem ser compreendidas de forma adequada no contexto vivo da
Igreja-Comunhão.
O Concílio
e a eclesiologia de comunhão
19. Esta é
a idéia central que a Igreja deu de si no Concílio Vaticano II, como no-lo
recorda o Sínodo extraordinário de 1985, celebrado a vinte anos do
acontecimento conciliar: « A eclesiologia da comunhão é a idéia central e
fundamental nos documentos do Concílio. A Koinonia-comunhão, fundada na
Sagrada Escritura, é tida em grande honra na Igreja antiga e nas Igrejas
orientais até aos nossos dias. Por isso, muito se tem feito desde o Concílio
Vaticano II para que a Igreja como comunhão seja entendida de maneira mais
clara e traduzida de modo mais concreto na vida. Que significa a complexa
palavra "comunhão"? Trata-se fundamentalmente de comunhão com Deus
por Jesus Cristo no Espírito Santo. Tem-se esta comunhão na Palavra de Deus e
nos Sacramentos. O Baptismo é a porta e o fundamento da comunhão na Igreja. A
Eucaristia é a fonte e o ápice de toda a vida cristã (cf. LG 11). A
comunhão do corpo de Cristo eucarístico significa e produz, isto é, edifica a
íntima comunhão de todos os fiéis no Corpo de Cristo que é a Igreja (1 Cor
10, 16) ».(53)
Logo a
seguir ao Concílio, Paulo VI assim se dirigia aos fiéis: « A Igreja é uma
comunhão. Que significa neste caso comunhão? Vamos ao parágrafo do catecismo
que fala da sanctorum communionem, a comunhão dos santos. Igreja
significa comunhão dos santos. E comunhão dos santos quer dizer uma dupla
participação vital: a incorporação dos cristãos na vida de Cristo e a
circulação dessa mesma caridade em todo o tecido dos fiéis, neste mundo e no
outro. União a Cristo e em Cristo; e união entre os cristãos, na Igreja ».
As imagens
bíblicas com que o Concílio se propôs introduzir-nos na contemplação do
mistério da Igreja, realçam a realidade da Igreja-comunhão na sua inseparável
dimensão de comunhão dos cristãos com Cristo e de comunhão dos cristãos entre
si. São as imagens do redil, do rebanho, da videira, do edifício espiritual, da
cidade santa.(55) É sobretudo a imagem do corpo apresentada pelo apóstolo
Paulo, cuja doutrina brota fresca e atraente em tantas páginas do Concílio.(56)
Por sua vez, o Concílio reportando-se à história inteira da salvação, volta a
propor a imagem da Igreja como Povo de Deus: « Aprouve a Deus salvar e
santificar os homens, não individualmente, excluída qualquer ligação entre
eles, mas constituindo-os em povo que O reconhecesse na verdade e O servisse
santamente ».(57) Já nas suas primeiras linhas, a Constituição Lumen gentium
compendia de forma admirável essa doutrina, ao escrever: « A Igreja, em
Cristo, é como que o sacramento, ou seja, o sinal e o instrumento da íntima
união com Deus e da unidade de todo o género humano ».(58)
A
realidade da Igreja-Comunhão é, pois, parte integrante,
representa mesmo o conteúdo central do « mistério », ou seja, do plano
divino da salvação da humanidade. Por isso, a comunhão eclesial não pode ser
adequadamente interpretada, se é entendida como uma realidade simplesmente
sociológica e psicológica. A Igreja-Comunhão é o povo « novo », o povo «
messiânico », o povo que « tem por cabeça Cristo ... por condição a dignidade e
a liberdade dos filhos de Deus... por lei o novo mandamento de amar como o
próprio Cristo nos amou... por fim o Reino de Deus... (e é) constituído por
Cristo numa comunhão de vida, de caridade e de verdade ».(59) Os laços que unem
os membros do novo Povo entre si — e antes de mais com Cristo — não são os da «
carne » e do « sangue », mas os do espírito, mais precisamente, os do Espírito
Santo, que todos os baptizados recebem (cf. Jl 3, 1).
Com
efeito, aquele Espírito que desde a eternidade vincula a única e indivisa
Trindade, aquele Espírito que « na plenitude do tempo » (Gal 4, 4) une
indissoluvelmente a carne humana ao Filho de Deus, esse mesmo e idêntico
Espírito torna-se, ao longo das gerações cristãs, a fonte ininterrupta e
inesgotável da comunhão na Igreja e da Igreja.
Uma
comunhão orgânica: diversidade e complementariedade
20. A
comunhão eclesial configura-se, mais precisamente, como uma comunhão « orgânica
», análoga à de um corpo vivo e operante: ela, de facto, caracteriza-se pela
presença simultânea da diversidade e da complementariedade das
vocações e condições de vida, dos ministérios, carismas e responsabilidades.
Graças a essa diversidade e complementariedade, cada fiel leigo encontra-se em
relação com todo o corpo e dá-lhe o seu próprio contributo.
Sobre a
comunhão orgânica do Corpo místico de Cristo insiste com muita ênfase o
apóstolo Paulo, cuja doutrina tão rica podemos reencontrar na síntese que o
Concílio esboçou: Jesus Cristo — lemos na Constituição Lumen gentium —, « comunicando
o Seu Espírito, fez dos Seus irmãos, chamados de entre todos os povos, como que
o Seu Corpo místico. Nesse corpo a vida de Cristo difunde-se nos crentes...
Como todos os membros do corpo humano, apesar de serem muitos, formam no
entanto um só corpo, assim também os fiéis em Cristo (cf. 1 Cor 12, 12).
Também na edificação do Corpo de Cristo existe diversidade de membros e de
funções.
É um mesmo
Espírito que distribui os Seus vários dons segundo a Sua riqueza da Igreja (cf.
1 Cor 12, 1-11). Entre estes dons, sobressai a graça dos Apóstolos, a
cuja autoridade o mesmo Espírito submete também os carismáticos (cf. 1 Cor 14).
O mesmo Espírito, unificando o corpo por Si e pela Sua força e pela conexão
interna dos membros, produz e promove a caridade entre os fiéis. Daí que, se
algum membro padece, todos os membros sofrem juntamente (cf. 1 Cor 12,
26) ».60
É sempre o
único e idêntico Espírito o princípio dinâmico da variedade e da unicidade na
e da Igreja. Lemos de novo na Constituição Lumen gentium: « E para que
sem cessar nos renovemos n'Ele (Cristo) (cf. Ef 4, 23), deu-nos do Seu
Espírito, o qual, sendo um e o mesmo na cabeça e nos membros, unifica e move o
corpo inteiro, a ponto de os Santos Padres compararem a Sua acção à que o
princípio vital, ou alma, desempenha no corpo humano ».61 E numa outra
passagem, particularmente densa e preciosa para podermos compreender a «
organicidade » própria da comunhão eclesial, também no seu aspecto de constante
crescimento para a comunhão perfeita, o Concílio escreve: « O Espírito habita
na Igreja e nos corações dos fiéis, como num templo (cf. 1 Cor 3, 16; 6,
19) e dentro deles ora e dá testemunho da adopção de filhos (cf. Gal 4,
6; Rom 8, 15-16. 26). A Igreja, que Ele conduz à verdade total (cfr. Jo
16, 13) e unifica na comunhão e no ministério, enriquece-a Ele e guia-a com
diversos dons hierárquicos e carismáticos e adorna-a com os Seus frutos (cf. Ef
4, 11-12; 1 Cor 12, 4; Gal 5, 22). Pela força do Evangelho
rejuvenesce a Igreja e renova-a continuamente e leva-a à união perfeita com o
seu Esposo. Porque o Espírito e a Esposa dizem ao Senhor Jesus:
"Vem!" (cf. Ap 22, 17) ».(62)
A comunhão
eclesial é, portanto, um dom, um grande dom do Espírito Santo, que
os fiéis leigos são chamados a acolher com gratidão e, ao mesmo tempo, a viver
com profundo sentido de responsabilidade. Isso é concretamente realizado
através da sua participação na vida e na missão da Igreja, a cujo serviço os
fiéis leigos colocam os seus variados e complementares ministérios e carismas.
O fiel
leigo « não pode nunca fechar-se em si mesmo, isolando-se espiritualmente da
comunidade, mas deve viver num contínuo intercâmbio com os outros, com um vivo
sentido de fraternidade, na alegria de uma igual dignidade e no empenho em
fazer frutificar ao mesmo tempo o imenso tesouro recebido em herança. O
Espírito do Senhor dá-lhe, como aos outros, múltiplos carismas, convida-o a
diferentes ministérios e funções, recorda-lhe, como também recorda aos outros
em relação a ele, que tudo o que o distingue não é um suplemento de
dignidade, mas uma especial e complementar habilitação para o serviço...
Deste modo os carismas, os ministérios, as funções e os serviços do fiel
leigo existem na comunhão e para a comunhão. São riquezas complementares em
favor de todos, sob a sábia orientação dos Pastores ».(63)
Os
Ministérios e os carismas, dons do Espírito à Igreja
21. O
Concílio Vaticano II apresenta os ministérios e os carismas como dons do
Espírito Santo em ordem à edificação do Corpo de Cristo e à Sua missão de
salvação no mundo.64 A Igreja, com efeito, é dirigida e guiada pelo Espírito
que distribui diversos dons hierárquicos e carismáticos a todos os baptizados,
chamando-os a ser, cada qual a seu modo, activos e corresponsáveis.
Vamos
agora considerar os ministérios e os carismas em referência directa aos fiéis
leigos e à sua participação na vida da Igreja-Comunhão.
Ministérios,
ofícios e funções
Os
ministérios presentes e operantes na Igreja são todos, embora de diferentes
modalidades, uma participação no mesmo ministério de Jesus Cristo, o bom Pastor
que dá a vida pelas Suas ovelhas (cf. Jo 10, 11), o servo humilde e
totalmente sacrificado para a salvação de todos (cf. Mc 10, 45). Paulo é
sobremaneira explícito sobre a constituição ministerial das Igrejas
apostólicas. Na Primeira Carta aos Coríntios escreve: « Alguns, Deus
estabeleceu na Igreja em primeiro lugar como apóstolos, em segundo lugar como
profetas, em terceiro lugar como mestres ... » (1 Cor 12, 28). Na Carta
aos Efésios lemos: « A cada um de nós foi dada a graça segundo a medida do dom
de Cristo ... A uns, Ele constituiu apóstolos; a outros, profetas; a outros
evangelistas, pastores, doutores, para o aperfeiçoamento dos santos, para a
obra do ministério, para a edificação do Corpo de Cristo, até que cheguemos
todos à unidade da fé e do conhecimento do Filho de Deus, ao estado de homem
perfeito, à medida da estatura completa de Cristo » (Ef 4, 7.11-13; cf. Rom
12, 4 8). Como resulta destes e de outros textos do Novo Testamento, os
ministérios, bem como os dons e as funções eclesiais, são variados.
Os
ministérios derivados da Ordem
22. Na
Igreja encontramos, em primeiro lugar, os ministérios ordenados, isto é,
os ministérios que derivam do sacramento da Ordem. O Senhor Jesus, com
efeito, escolheu e instituiu os Apóstolos — semente do Povo da nova Aliança e
origem da sagrada Hierarquia,65 com o mandato de fazer discípulos de todas as
gentes (cf. Mt 28, 19), de formar e de guiar o povo sacerdotal. A missão
dos Apóstolos, que o Senhor Jesus continua a confiar aos pastores (Bispos,
Presbíteros, Diáconos) do Seu povo, é um verdadeiro serviço, a que a Sagrada
Escritura significativamente denomina « diakonia », isto é, serviço,
ministério. Os ministros recebem de Cristo Ressuscitado o carisma do Espírito
Santo, na ininterrupta sucessão apostólica, através do sacramento da Ordem:
d'Ele recebem a autoridade e o poder sagrado para servirem a Igreja, agindo «
in persona Christi Capitis » (66) (na pessoa de Cristo Cabeça) e reuni-la no
Espírito Santo por meio do Evangelho e dos Sacramentos.Os ministérios
ordenados, antes de o serem para aqueles que os recebem, são uma imensa graça
para a vida e para a missão da Igreja inteira. Exprimem e realizam uma
participação no sacerdócio de Jesus Cristo que se diferencia, não só em grau
mas também em essência, da participação dada no Baptismo a todos os fiéis. Por
outro lado, o sacerdócio ministerial, como recordou o Concílio Vaticano II, é
essencialmente finalizado no sacerdócio real de todos os fiéis e para ele
ordenado.(67)
Por isso,
a fim de assegurar e de aumentar a comunhão na Igreja, em especial no âmbito
dos diversos e complementares ministérios, os pastores devem reconhecer que o
seu ministério é radicalmente ordenado para o serviço de todo o Povo de Deus
(cf. Heb 5, 1),e os fiéis leigos, pela sua parte, devem reconhecer que o
sacerdócio ministerial é absolutamente necessário para a sua vida e para a sua
participação na missão da Igreja.(68)
Ministérios
ofícios e funções dos leigos
23. A
missão salvífica da Igreja no mundo realiza-se, não só pelos ministros, que o
são em virtude do sacramento da Ordem, mas também por todos os fiéis leigos:
estes, com efeito, por força da sua condição baptismal e da sua vocação
específica, na medida própria e cada um, participam no múnus sacerdotal,
profético e real de Cristo.
Por isso,
os pastores devem reconhecer e promover os ofícios e as funções dos fiéis
leigos, que têm o seu fundamento sacramental no Baptismo e na Confirmação, bem
como, para muitos deles, no Matrimónio.
E, quando
a necessidade ou a utilidade da Igreja o pedir, os pastores podem, segundo as
normas estabelecidas pelo direito universal, confiar aos fiéis leigos certos
ofícios e certas funções que, embora ligadas ao seu próprio ministério de
pastores, não exigem, contudo, o carácter da Ordem. O Código de Direito
Canónico escreve: « Onde as necessidades da Igreja o aconselharem, por falta de
ministros, os leigos, mesmo que não sejam leitores ou acólitos, podem suprir
alguns ofícios, como os de exercer o ministério da palavra, presidir às orações
litúrgicas, conferir o Baptismo e distribuir a Sagrada Comunhão, segundo as
prescrições do direito ».(69) Todavia, o exercício de semelhante tarefa não
transforma o fiel leigo em pastor: na realidade, o que constitui o
ministério não é a tarefa, mas a ordenação sacramental. Só o sacramento da
Ordem confere ao ministro ordenado uma peculiar participação no ofício de
Cristo, Chefe e Pastor, e no Seu sacerdócio eterno.(70) A tarefa que se exerce
como suplente recebe a sua legitimidade, formalmente e imediatamente, da
delegação oficial que lhe dão os pastores e, no seu exercício concreto,
submete-se à direcção da autoridade eclesiástica.(71)
A recente
Assembleia sinodal perspectivou um vasto e significativo panorama da situação
eclesial acerca dos ministérios, ofícios e funções dos baptizados. Os Padres
manifestaram vivo apreço pelo notável contributo apostólico dos fiéis leigos,
homens e mulheres, pelos seus carismas e por toda a sua acção em favor da
evangelização, da santificação e da animação cristã das realidades temporais.
Ao mesmo tempo, foi muito apreciado o seu serviço ordinário nas comunidades
eclesiais e a sua generosa disponibilidade para a suplência em situações de
emergência e de necessidades crónicas.(72)
Na
sequência da renovação litúrgica promovida pelo Concílio, os próprios fiéis
leigos, tomando mais viva consciência das tarefas que lhes pertencem na
assembleia litúrgica e na sua preparação, tornaram-se largamente disponíveis no
seu desempenho: a celebração litúrgica, com efeito, é uma acção sagrada, não só
do clero, mas de toda a assembleia. É, portanto, natural que as tarefas que não
são exclusivas dos ministros ordenados, sejam desempenhadas pelos fiéis
leigos.(73) Torna-se assim espontânea a passagem de um efectivo envolvimento
dos fiéis leigos na acção litúrgica para o anúncio da Palavra de Deus e para a
cura pastoral.(74)
Na mesma
Assembleia sinodal, porém, não faltaram, ao lado dos positivos, pareceres
críticos sobre o uso indiscriminado do termo « ministério », a confusão e o
nivelamento entre sacerdócio comum e sacerdócio ministerial, a pouca
observância de leis e normas eclesiásticas, a interpretação arbitrária do
conceito de « suplência », uma certa tolerância por parte da própria autoridade
legítima, a « clericalização » dos fiéis leigos e o risco de se criar de facto
uma estrutura eclesial de serviço, paralela à fundada no sacramento da Ordem.
Precisamente
para obviar tais perigos, os Padres sinodais insistiram na necessidade de serem
expressas com clareza, até na própria terminologia,(75) quer a unidade de
missão da Igreja, em que participam todos os baptizados, quer a diversidade
substancial do ministério dos pastores, radicado no sacramento da Ordem, em
relação com os outros ofícios e as outras funções eclesiais, radicados nos
sacramentos do Baptismo e da Confirmação.
É, pois,
necessário, em primeiro lugar, que os pastores, ao reconhecer e ao conferir aos
fiéis leigos os vários ministérios, ofícios e funções, tenham o máximo cuidado
em instrui-los sobre a raiz baptismal destas tarefas. Igualmente, os pastores
deverão zelar para que se evite um recurso fàcil e abusivo a presumíveis «
situações de emergência » ou de « necessária suplência », onde objectivamente
não existam ou onde é possível remediar com uma programação pastoral mais
racional.
Os vários
ofícios e funções que os fiéis leigos podem legitimamente desempenhar na
liturgia, na transmissão da fé e nas estruturas pastorais da Igreja, deverão
ser exercidos em conformidade com a sua específica vocação laical, diferente
da dos ministros sagrados. Nesse sentido, a Exortação Evangelii nuntiandi, que
teve tanto e tão benéfico mérito em estimular a diversificada colaboração dos
fiéis leigos na vida e na missão evangelizadora da Igreja, lembra que « o campo
próprio da sua actividade evangelizadora é o mesmo mundo vasto e complicado da
política, da realidade social e da economia, como também o da cultura, das
ciências e das artes, da vida internacional, dos "mass-media" e, ainda,
outras realidades abertas para a evangelização, como sejam, o amor, a família,
a educação das crianças e dos adolescentes, o trabalho profissional e o
sofrimento. Quantos mais leigos houver impregnados do Evangelho, responsáveis
em relação a tais realidades e comprometidos claramente nas mesmas, competentes
para as promover e conscientes de que é necessário fazer desabrochar a sua
capacidade cristã, muitas vezes escondida e asfixiada, tanto mais essas
realidades, sem nada perderem ou sacrificarem do próprio coeficiente humano,
mas patenteando uma dimensão transcendente para o além, não raro desconhecida,
se virão a encontrar ao serviço da edificação do Reino de Deus e, por
conseguinte, da salvação em Jesus Cristo ».(76)
Durante os
trabalhos do Sínodo, os Padres dedicaram bastante atenção ao Leitorado e
ao Acolitado. Enquanto, no passado, eles existiam na Igreja Latina
apenas como etapas espirituais do itinerário para os ministérios ordenados, com
o Motu Próprio de Paulo VI, Ministeria quaedam (15 de Agosto de 1972)
eles adquiriram uma própria autonomia e estabilidade, bem como uma sua possível
destinação aos próprios fiéis leigos, se bem que exclusivamente para os homens.
No mesmo sentido se expressou o novo Código de Direito Canónico.(77) Agora, os
Padres sinodais manifestaram o desejo de que « o Motu Próprio " Ministeria
quaedam " fosse revisto, tendo em conta o uso das Igrejas locais e
sobretudo indicando os critérios segundo os quais se devam escolher os
destinatários de cada ministério ».(78)
Em tal sentido
foi constituida expressamente uma comissão, não só para responder a este desejo
manifestado pelos Padres sinodais, mas tambem e ainda mais para estudar de modo
aprofundado os diversos problemas teológicos, litúrgicos, jurídicos e pastorais
levantados pelo actual grande florescimento de ministérios confiados aos fiéis
leigos.
Esperando
que a Comissão conclua o seu estudo, para que a praxe eclesial dos ministérios
confiados aos fiéis leigos resulte ordenada e frutuosa, deverão ser fielmente
respeitados por todas as Igrejas particulares os princípios teológicos atrás
recordados, em particular a diversidade essencial entre o sacerdócio
ministerial e o sacerdócio comum e, consequentemente, a diversidade entre os
ministérios derivados do Sacramento da Ordem e os ministérios derivados dos
sacramentos do Baptismo e da Confirmação.
Os
carismas
24. O
Espírito Santo, ao confiar à Igreja-Comunhão os diversos ministérios,
enriquece-a com outros dons e impulsos especiais, chamados carismas. Podem
assumir as mais variadas formas, tanto como expressão da liberdade absoluta do
Espírito que os distribui, como em resposta às múltiplas exigências da história
da Igreja. A descrição e a classificação que os textos do Novo Testamento fazem
desses dons são um sinal da sua grande variedade: « A manifestação do Espírito
é dada a cada um para proveito comum. A um, o Espírito dá uma palavra de
sabedoria; a outro, uma palavra de ciência, segundo o mesmo Espírito; a outro,
a fé, no mesmo Espírito; a outro, o dom das curas, nesse único Espírito; a
outro, o operar milagres; a outro, a profecia; a outro, o descernimento dos
espíritos; a outro, o falar diversas línguas e a outro ainda o interpretar
essas línguas » (1 Cor 12, 7-10; cfr. 1 Cor 12, 4-6.28-31; Rom
12, 6-8; 1 Ped 4, 10-11).
Os
carismas, sejam extraordinários ou simples e humildes, são graças do
Espírito Santo que têm, directa ou indirectamente, uma utilidade
eclesial, ordenados como são à edificação da Igreja, ao bem dos homens e às
necessidades do mundo.
Também aos
nossos dias não falta o florescerer de diversos carismas entre os fiéis leigos,
homens e mulheres. São dados ao indivíduo, mas também podem ser partilhados por
outros e de tal modo perseveram no tempo como uma herança preciosa e viva, que
gera uma afinidade espiritual entre as pessoas. Precisamente em referência ao
apostolado dos leigos, o Concílio Vaticano II escreve: « Para exercerem este
apostolado, o Espírito Santo, que opera a santificação do Povo de Deus por meio
do ministério e dos sacramentos, concede também aos fiéis dons particulares
(cfr. 1 Cor 12, 7), «distribuindo-os por cada um conforme Lhe apraz»
(cfr. 1 Cor 12, 7-11), a fim de que "cada um ponha ao serviço dos
outros a graça que recebeu", e todos actuem "como bons
administradores da multiforme graça de Deus" (1 Ped 4, 10), para a
edificação, no amor, do corpo todo (cfr. Ef 4, 6)».(79)
Na lógica
da originária doação donde derivam, os dons do Espírito Santo exigem que todos
aqueles que os receberam os exerçam para o crescimento de toda a Igreja, como
no-lo recorda o Concílio.(80)
Os
carismas devem ser recebidos com gratidão: tanto da parte de quem os
recebe, como da parte de todos na Igreja. Com efeito, eles são uma especial
riqueza de graça para a vitalidade apostólica e para a santidade de todo o
Corpo de Cristo: uma vez que sejam dons verdadeiramente provenientes do
Espírito e se exerçam em plena conformidade com os autênticos impulsos do
Espírito. Nesse sentido, torna-se sempre necessário o discernimento dos
carismas. Na verdade, como disseram os Padres sinodais, « a acção do
Espírito Santo, que sopra onde quer, nem sempre é fácil de se descobrir e de se
aceitar. Sabemos que Deus actua em todos os fiéis cristãos e estamos
conscientes dos benefícios que provêm dos carismas, tanto para os indivíduos
como para toda a comunidade cristã. Todavia, também temos consciência da força
do pecado e dos seus esforços para perturbar e confundir a vida dos fiéis e da
comunidade.(81)
Por isso,
nenhum carisma está dispensado da sua referência e dependência dos Pastores
da Igreja. O Concílio escreve com palavras claras: « O juízo acerca da sua
(dos carismas) autenticidade e recto uso, pertence àqueles que presidem na
Igreja e aos quais compete de modo especial não extinguir o Espírito, mas
julgar tudo e conservar o que é bom (cfr. 1 Tes 5, 12 e 19-21),(82) de
modo que todos os carismas concorram, na sua diversidade e complementariedade,
para o bem comum.(83)
A
partipação dos fiéis leigos na vida da Igreja
25. Os
fiéis leigos participam na vida da Igreja, não só pondo em acção os seus
ministérios e carismas, mas também de muitas outras formas.
Essa
participação encontra a sua primeira e necessária expressão na vida e missão
das Igrejas particulares, das Dioceses, nas quais « está verdadeiramente
presente e actua a Igreja de Cristo, una, santa, católica e apostólica ».(84)
Igrejas
particulares e Igreja Universal
Com vista
a uma adequada participação na vida da Igreja, é absolutamente urgente que os
fiéis leigos tenham uma ideia clara e precisa da Igreja particular na sua
originária ligação com a Igreja universal. A Igreja particular não é o
produto de uma espécie de fragmentação da Igreja universal, nem a Igreja
universal resulta do simples somatório das Igrejas particulares; mas um laço
vivo, essencial e perene as une entre si, enquanto a Igreja universal existe e
se manifesta nas Igrejas particulares. Por isso, o Concílio afirma que as
Igrejas particulares « são formadas à imagem da Igreja universal, das quais e
pelas quais existe a Igreja católica, una e única ».(85)
O mesmo
Concílio incita fortemente os fiéis leigos a viver operosamente a sua pertença
à Igreja particular, assumindo simultaneamente um respiro cada vez mais «
católico »: « Cultivem constantemente — lemos no Decreto sobre o apostolado dos
leigos — o sentido da Diocese, de que a Paróquia é como que uma célula, e
estejam sempre prontos, à voz do seu pastor, a juntar as suas forças às
iniciativas diocesanas. Mas, para responder às necessidade das cidades e das
regiões rurais, não confinem a sua cooperação aos limites da Paróquia ou da
Diocese, mas esforcem-se por estendê-la ao âmbito interparoquial,
interdiocesano, nacional ou internacional. Tanto mais que a crescente migração
dos povos, o incremento de relações mútuas e a facilidade de comunicações já
não permitem que parte alguma da sociedade permaneça fechada em si. Assim,
devem interessar-se pelas necessidades do Povo de Deus disperso por toda a
Terra ».(86)
O recente
Sínodo pediu, nesse sentido, que se favorecesse a criação dos Conselhos
Pastorais diocesanos, a que se deveria recorrer conforme as oportunidades.
Trata-se, na verdade, da principal forma de colaboração e de diálogo, bem como
de discernimento, a nível diocesano. A participação dos fiéis leigos nestes
Conselhos poderá aumentar o recurso à consulta, e o princípio da colaboração —
que em determinados casos também é de decisão — e encontrará uma aplicação mais
vasta e mais incisiva.(87)
A
participação dos fiéis leigos nos Sínodos diocesanos e nos Concílios
particulares, provinciais ou plenários, está contemplada no Código de
Direito Canónico; (88) poderá contribuir para a comunhão e para a missão
eclesial da Igreja particular, tanto no seu próprio âmbito, como em relação com
as demais Igrejas particulares da Província eclesiástica ou da Conferência Episcopal.
As
Conferências Episcopais são chamadas a descobrir a forma mais oportuna de
desenvolver, a nível nacional ou regional, a consulta e a colaboração dos fiéis
leigos, homens e mulheres: assim se poderão examinar bem os problemas comuns e
melhor se manifestará a comunhão eclesial de todos.(89)
A paróquia
26. A
comunhão eclesial, embora possua sempre uma dimensão universal, encontra a sua
expressão mais imediata e visível na Paróquia: esta é a última
localização da Igreja; é, em certo sentido, a própria Igreja que vive no
meio das casas dos seus filhos e das suas filhas.(90)
É
necessário que todos redescubramos, na fé, a verdadeira face da Paróquia, ou
seja, o próprio « mistério » da Igreja presente e operante nela: embora, por
vezes, pobre em pessoas e em meios, e outras vezes dispersa em territórios
vastíssimos ou quase desaparecida no meio de bairros modernos populosos e
caóticos, a Paróquia não é principalmente uma estrutura, um território, um
edifício, mas é sobretudo « a família de Deus, como uma fraternidade animada
pelo espírito de unidade »,(91) é « uma casa de família, fraterna e acolhedora
»,(92) é a « comunidade de fiéis ».(93) Em definitivo, a Paróquia está fundada
sobre uma realidade teológica, pois ela é uma comunidade eucarística.(94)
Isso significa que ela é uma comunidade idónea para celebrar a Eucaristia, na
qual se situam a raiz viva do seu edificar-se e o vínculo sacramental do seu
estar em plena comunhão com toda a Igreja. Essa idoneidade mergulha no facto de
a Paróquia ser uma comunidade de fé e uma comunidade orgânica, isto
é, constituída pelos ministros ordenados e pelos outros cristãos, na qual o
pároco — que representa o Bispo diocesano — (95) é o vínculo hierárquico com
toda a Igreja particular.
É deveras
imenso o trabalho da Igreja nos nossos dias e, para realizá-lo, a Paróquia
sozinha não pode bastar. Por isso, o Código de Direito Canónico prevê formas de
colaboração entre paróquias no âmbito do território (96) e recomenda ao Bispo o
cuidado de todas as categorias de fiéis, até das que não são atingidas pelo
cuidado pastoral ordinário.(97)
De facto,
muitos lugares e formas de presença e de acção são absolutamente necessários
para levar a palavra e a graça do Evangelho às variadas condições de vida dos
homens de hoje, e muitas outras funções de irradiação religiosa e de apostolado
do ambiente, no campo cultural, social, educativo, profissional, etc., não
podem ter como centro ou ponto de partida a Paróquia. Todavia, a Paróquia ainda
hoje vive uma fase nova e prometedora. Como dizia Paulo VI, no início do seu
Pontificado, dirigindo-se ao Clero romano: « Acreditamos simplemente que esta
antiga a venerada estrutura da Paróquia tem uma missão indispensável de grande
actualidade: pertence-lhe criar a primeira comunidade do povo cristão, iniciar
e reunir o povo na expressão normal da vida litúrgica, conservar e reanimar a
fé nas pessoas de hoje, dar-lhes a escola da doutrina salvadora de Cristo,
praticar no sentir e na acção a humilde caridade das obras boas e fraternas
».(98)
Os Padres
sinodais, por sua vez, debruçaram-se cuidadosamente sobre a situação actual de
muitas paróquias, pedindo para elas uma mais decidida renovação: « Muitas
Paróquias, tanto nas zonas urbanas como em terras de missão, não conseguem
funcionar plena e efectivamente por falta de meios materiais ou de homens
ordenados, ou também pela excessiva extensão geográfica e pela especial
condição de alguns cristãos (como, por exemplo, os refugiados e os emigrantes).
Para que tais Paróquias sejam verdadeiramente comunidades cristãs, as
autoridades locais devem favorecer: a) a adaptação das estruturas
paroquiais à ampla flexibilidade concedida pelo Direito Canónico, sobretudo ao
promover a participação dos leigos nas responsabilidades pastorais; b)
as pequenas comunidades eclesiais de base, também chamadas comunidades vivas,
onde os fiéis possam comunicar entre si a Palavra de Deus e exprimir-se no
serviço e no amor; estas comunidades são autênticas expressões da comunhão
eclesial e centros de evangelização, em comunhão com os seus Pastores ...
».(99) Para a renovação das paróquias e para melhor assegurar a sua eficácia
operativa devem favorecer-se também formas institucionais de cooperação entre
as diversas paróquias de um mesmo território.
O
empenhamento apostólico na paróquia
27.
Necessário se torna agora considerar mais de perto a comunhão e a participação
dos fiéis leigos na vida da Paróquia. Nesse sentido deve chamar-se a atenção de
todos os fiéis leigos, homens e mulheres, para uma observação tão verdadeira,
significativa e estimulante, feita pelo Concílio: « No seio das comunidades da
Igreja — lemos no Decreto sobre o apostolado dos leigos — a sua acção é tão
necessária que, sem ela, o próprio apostolado dos pastores não pode conseguir,
na maior parte das vezes, todo o seu efeito ».(100) Esta é uma afirmação
radical que, evidentemente, deve ser vista à luz da « eclesiologia de comunhão
»: sendo diferentes e complementares, os ministérios e os carismas são todos
necessários para o crescimento da Igreja, cada um segundo a própria modalidade.
Os fiéis
leigos devem convencer-se cada vez mais do particular significado que tem o
empenhamento apostólico na sua Paróquia. É ainda o Concílio que com autoridade
o sublinha: « A Paróquia dá-nos um exemplo claro de apostolado comunitário porque
congrega numa unidade toda a diversidade humana que aí se encontra e insere
essa diversidade na universalidade da Igreja. Habituem-se os leigos a trabalhar
na Paróquia intimamente unidos aos seus sacerdotes, a trazer para a comunidade
eclesial os próprios problemas e os do mundo e as questões que dizem respeito à
salvação dos homens, para que se examinem e resolvam com o concurso de todos.
Habituem-se a prestar auxílio a toda a iniciativa apostólica e missionária da
sua comunidade eclesial na medida das próprias forças ».(101)
O acento
posto pelo Concílio na análise e na solução dos problemas pastorais « com o
contributo de todos » deve encontrar o seu progresso adequado e estruturado na
valorização cada vez mais convicta, ampla e decidida, dos Conselhos pastorais
paroquiais, nos quais justamente insistiram os Padres sinodais.(102)
Nas
actuais circunstâncias, os fiéis leigos podem e devem fazer muitíssimo para o
crescimento de uma autêntica comunhão eclesial no seio das suas
paróquias e para o despertar do impulso missionário em ordem aos não
crentes e, mesmo, aos crentes que tenham abandonado ou arrefecido a prática da
vida cristã.
A
Paróquia, sendo a Igreja colocada no meio das casas dos homens, vive e actua
profundamente integrada na sociedade humana e intimamente solidária com as suas
aspirações e os seus dramas. Frequentemente, o contexto social, sobretudo em
certos países e ambientes, é violentemente sacudido por forças de desagregação
e de desumanização: o homem pode encontrar-se perdido e desorientado, mas no
seu coração permanece o desejo, cada vez maior, de poder sentir e cultivar
relações mais fraternas e humanas. A resposta a esse desejo pode ser dada pela
Paróquia, quando esta, graças à participação viva dos fiéis leigos, se mantém
coerente com a sua originária vocação e missão: ser no mundo « lugar » da
comunhão dos crentes e, ao mesmo tempo, « sinal » e « instrumento » da vocação
de todos para a comunhão; numa palavra, ser a casa que se abre para todos e que
está ao serviço de todos, ou, como gostava de dizer o Papa João XXIII, o
fontanário da aldeia a que todos acorrem na sua sede.
Formas de
participação na vida da Igreja
28. Os
fiéis leigos, juntamente com os sacerdotes, os religiosos e as religiosas,
formam o único Povo de Deus e Corpo de Cristo.
Ser «
membros » da Igreja nada tira ao facto de cada cristão ser um ser « único e
irrepetível », antes, garante e promove o sentido mais profundo da sua
unicidade e irrepetibilidade, enquanto é fonte de verdade e de riqueza para a
Igreja inteira. Nesse sentido, Deus, em Jesus Cristo, chama cada qual pelo
próprio e inconfundível nome. O convite do Senhor: « Ide vós também para a
minha vinha » dirige-se a cada um pessoalmente e soa: « Vem também tu para a
minha vinha »!
Assim,
cada um na sua unicidade e irrepetibilidade, com o seu ser e o seu agir, põe-se
ao serviço do crescimento da comunhão eclesial, como, por sua vez, recebe
singularmente e faz sua a riqueza comum de toda a Igreja. Esta é a « Comunhão
dos Santos », que nós professamos no Credo: o bem de todos torna-se o bem de
cada um e o bem de cada um torna-se o bem de todos. « Na santa Igreja —
escreve São Gregório Magno — cada um é apoio dos outros e os outros são seu
apoio ».(103)
Formas
pessoais de participação
É
absolutamente necessário que cada fiel leigo tenha sempre viva consciência
de ser um « membro da Igreja », a quem se confia um encargo original
insubstituível e indelegável, que deverá desempenhar para o bem de todos. Numa
tal perspectiva, assume todo o seu significado a afirmação conciliar sobre a necessidade
absoluta do apostolado de cada pessoa: « O apostolado individual que deriva
com abundância da fonte de uma vida verdadeiramente cristã (cf. Jo 4,
14), é origem e condição de todo o apostolado dos leigos, mesmo do associado, e
nada o pode substituir. A este apostolado, sempre e em toda a parte proveitoso
e em certas circunstâncias o único conveniente e possível, são chamados e, por
isso, obrigados todos os leigos, de qualquer condição, ainda que não se lhes
proporcione ocasião ou possibilidade de cooperar nas associações ».(104)
No
apostolado individual existem grandes riquezas que precisam de ser descobertas
em ordem a uma intensificação do dinamismo missionário de cada fiel leigo. Com
essa forma de apostolado, a irradiação do Evangelho pode tornar-se mais capilar,
chegando a tantos lugares e ambientes quanto os que estão ligados à vida
quotidiana e concreta dos leigos. Trata-se, além disso, de uma irradiação constante,
estando ligada à contínua coerência da vida pessoal com a fé; e também de
uma irradiação particularmente incisiva, porque, na total partilha das
condições de vida, do trabalho, das dificuldades e esperanças dos irmãos, os
fiéis leigos podem atingir o coração dos seus vizinhos, amigos ou colegas,
abrindo-o ao horizonte total, ao sentido pleno da existência: a comunhão com
Deus e entre os homens.
Formas
agregativas de participação
29. A
comunhão eclesial, já presente e operante na acção do indivíduo, encontra uma
expressão específica no operar associado dos fiéis leigos, isto é, na acção
solidária que eles desenvolvem ao participar responsavelmente na vida e na
missão da Igreja.
Nestes
tempos mais recentes, o fenómeno da agregação dos leigos entre si assumiu
formas de particular variedade e vivacidade. Se na história da Igreja tal
fenómeno representou sempre uma linha constante, como o provam até aos nossos
dias as várias confrarias, as ordens terceiras e os diversos sodalícios, ele
recebeu, todavia, um notável impulso nos tempos modernos que têm visto o nascer
e o irradiar de múltiplas formas agregativas: associações, grupos, comunidades,
movimentos. Pode falar-se de uma nova era agregativa dos fiéis leigos.
Com efeito, « ao lado do associativismo tradicional e, por vezes, nas suas
próprias raízes, brotaram movimentos e sodalícios novos, com fisionomia e
finalidade específicas: tão grande é a riqueza e a versatilidade de recursos
que o Espírito infunde no tecido eclesial e tamanha é a capacidade de
iniciativa e a generosidade do nosso laicado ».(105)
Estas
agregações de leigos aparecem muitas vezes bastante diferentes umas das
outras em vários aspectos, como a configuração exterior, os caminhos e métodos
educativos e os campos operativos. Encontram, porém, as linhas de uma vasta e profunda
convergência na finalidade que as anima: a de participar responsavelmente
na missão da Igreja de levar o Evangelho de Cristo, qual fonte de esperança
para o homem e de renovação para a sociedade.
A
agregação dos fiéis leigos por motivos espirituais e apostólicos brota de
várias fontes e vai ao encontro de diversas exigências: exprime, de facto, a
natureza social da pessoa e obedece ao imperativo de uma mais vasta e incisiva
eficácia operativa. Na verdade, a incidência « cultural » fonte e estímulo e,
simultaneamente, fruto e sinal de todas as demais transformações do ambiente e
da sociedade, só se pode alcançar com a acção, não tanto dos indivíduos, mas de
um « sujeito social », isto é, com a acção de um grupo, de uma comunidade, de
uma associação, de um movimento. E isso é particularmente verdade no contexto
de um a sociedade pluralista e fragmentada — como é, em tantas partes do mundo,
a actual — e perante os problemas tornados enormemente complexos e difíceis.
Por outro lado, sobretudo num mundo secularizado, as várias formas agregativas
podem representar para muitos uma ajuda preciosa em favor de uma vida cristã
coerente, com as exigências do Evangelho e de um empenhamento missionário e
apostólico.
Para além
destes motivos, a razão profunda que justifica e exige o agregar-se dos fiéis
leigos é de ordem teológica: uma razão eclesiológica, como abertamente
reconhece o Concílio Vaticano II, ao apontar o apostolado associado como um «
sinal da comunhão e da unidade da Igreja em Cristo ».(106)
É um «
sinal » que deve manifestar-se nas relações de « comunhão », tanto no interior
como no exterior das várias formas agregativas, no mais vasto contexto da
comunidade cristã. É a própria razão eclesiológica apontada que explica, por um
lado o « direito » de agregação próprio dos fiéis leigos e, por outro, a necessidade
de « critérios » de discernimento sobre a autenticidade eclesial das suas
formas agregativas.
Antes de
mais, é necessário reconhecer-se a liberdade associativa dos fiéis leigos na
Igreja. Essa liberdade constitui um verdadeiro e próprio direito que não deriva
de uma espécie de « concessão » da autoridade, mas que promana do Baptismo,
qual sacramento que chama os fiéis leigos para participarem activamente na
comunhão e na missão da Igreja. O Concílio é muito explícito a este propósito:
« Respeitada a devida relação com a autoridade eclesiástica, os leigos têm o
direito de fundar associações, dirigi-las e dar nome às já existentes ».(107) E
o recente Código textualmente diz: « Os fiéis podem livremente fundar e dirigir
associações para fins de caridade ou de piedade, ou para fomentar a vocação
cristã no mundo, e reunir-se para alcançar em comum esses mesmos fins ».(108)
Trata-se
de uma liberdade reconhecida e garantida pela autoridade eclesiástica e que
deve ser exercida sempre e só na comunhão da Igreja: nesse sentido o direito
dos fiéis leigos em agregar-se é essencialmente relativo à vida de comunhão e
missão e à própria Igreja.
Critérios
de eclesialidade para as agregações laicais
30. É
sempre na perspectiva da comunhão e da missão da Igreja e não, portanto, em
contraste com a liberdade associativa, que se comprende a necessidade de claros
e precisos critérios de discernimento e de reconhecimento das agregações
laicais, também chamados « critérios de eclesialidade ».
Como
critérios fundamentais para o discernimento de toda e qualquer agregação dos
fiéis leigos na Igreja, podem considerar-se de forma unitária, os seguintes:
— O
primado dado à vocação de cada cristão à santidade, manifestado
« nos frutos da graça que o Espírito produz nos fiéis »(109) como crescimento
para a plenitude da vida cristã e para a perfeição da caridade.(110)
Nesse
sentido, toda e qualquer agregação de fiéis leigos é chamada a ser sempre e
cada vez mais instrumento de santidade na Igreja, favorecendo e encorajando «
uma unidade mais íntima entre a vida prática dos membros e a própria fé ».(111)
— A
responsabilidade em professar a fé católica, acolhendo e proclamando a
verdade sobre Cristo, sobre a Igreja e sobre o homem, em obediência ao
Magistério da Igreja, que autenticamente a interpreta. Por isso, toda a
agregação de fiéis leigos deve ser lugar de anúncio e de proposta da fé e de
educação na mesma, no respeito pelo seu conteúdo integral.
— O
testemunho de uma comunhão sólida e convicta, em relação
filial com o Papa, centro perpétuo e visivel da unidade da Igreja
universal,(112) e com o Bispo « princípio visível e fundamento da unidade » da
Igreja particular,(113) e na « estima recíproca entre todas as formas de
apostolado na Igreja ».(114)
A comunhão
com o Papa e com o Bispo é chamada a exprimir-se na disponibilidade leal em
aceitar os seus ensinamentos doutrinais e orientações pastorais. A comunhão
eclesial exige, além disso, que se reconheça a legítima pluralidade das formas
agregativas dos fiéis leigos na Igreja e, simultaneamente, a disponibilidade
para a sua recíproca colaboração.
— A
conformidade e a participação na finalidade apostólica da Igreja, que é a
evangelização e a santificação dos homens e a formação cristã das suas
consciências, de modo a conseguir permear de espírito evangélico as várias
comunidades e os vários ambientes ».(115)
Nesta
linha, exige-se de todas as formas agregativas de fiéis leigos, e de cada uma
deles, um entusiasmo missionário que as torne, sempre e cada vez mais, sujeitos
de uma nova evangelização.
— O
empenho de uma presença na sociedade humana que, à luz da doutrina
social da Igreja, se coloque ao serviço da dignidade integral do homen.
Assim, as
agregações dos fiéis leigos devem converter-se em correntes vivas de
participação e de solidariedade para construir condições mais justas e
fraternas no seio da sociedade.
Os
critérios fundamentais acima expostos encontram a sua verificação nos frutos
concretos que acompanham a vida e as obras das diversas formas
associativas, tais como: o gosto renovado pela oração, a contemplação, a vida
litúrgica e sacramental; a animação pelo florescimento de vocações ao
matrimónio cristão, ao sacerdócio ministerial, à vida consagrada; a
disponibilidade em participar nos programas e nas atividades da Igreja, tanto a
nível local como nacional ou internacional; o empenhamento catequético e a
capacidade pedagógica de formar os cristãos; o impulso em ordem a uma presença
cristã nos vários ambientes da vida social e a criação e animação de obras
caritativas, culturais e espirituais; o espírito de desapego e de pobreza
evangélica em ordem a uma caridade mais generosa para com todos; as conversões
à vida cristã ou o regresso à comunhão por parte de baptizados « afastados ».
O serviço
dos Pastores para a comunhão
31. Os
Pastores na Igreja, mesmo perante possíveis e compreensíveis dificuldades de
algumas formas agregativas e perante novas formas, que se vão impondo, não
podem abdicar do serviço da sua autoridade, não apenas pelo bem da Igreja, mas
até pelo bem dessas mesmas agregações laicais. Nesse sentido, eles devem
acompanhar a sua acção de discernimento com a orientação e, sobretudo, com o
encorajamento em ordem a um crescimento das agregações dos fiéis leigos na
comunhão e na missão da Igreja.
É sem
dúvida oportuno que algumas novas associações e alguns novos movimentos, pela
sua difusão, muitas vezes, nacional e até internacional, venham a receber um reconhecimento
oficial, uma aprovação explícita da competente autoridade eclesiástica.
Nesse sentido, já dizia o Concílio: « O apostolado dos leigos admite diversos
modos de relação com a Hierarquia, segundo as suas várias formas e seus
objectivos... Certas formas de apostolado dos leigos são, de diversos modos,
expressamente reconhecidas pela Hierarquia. Além disso, a autoridade
eclesiástica, tendo em conta as exigências do bem da Igreja, pode escolher de
entre as várias associações e iniciativas apostólicas com um fim directamente
espiritual, algumas em particular, e promovê-las de um modo especial, assumindo
sobre elas uma maior responsabilidade ».(116)
Entre as
várias formas de apostolado dos leigos, que têm uma particular relação com a
Hierarquia, os Padres sinodais expressamente mencionaram vários movimentos e
associações de Acção Católica, onde « os leigos se associam livremente
de forma orgânica e estável, sob o impulso do Espírito Santo, na comunhão com o
Bispo e com os sacerdotes, de forma a poderem servir, no estilo próprio da sua
vocação, com um método particular, o crescimento de toda a comunidade cristã, os
projectos pastorais e a animação evangélica de todos os âmbitos da vida, com
fidelidade e operosidade ».(117)
Foi
confiado ao Pontifício Conselho dos Leigos o encargo de elaborar um elenco das
associações que recebem a aprovação oficial da Santa Sé e de definir, em
colaboração com o Secretariado da Unidade dos Cristãos, as condições segundo as
quais se pode aprovar uma associação ecuménica, onde a maioria seja católica ao
lado de uma minoria não católica, estabelecendo também em que casos se não pode
dar parecer positivo.(118)
Todos,
Pastores e fiéis, temos a obrigação de favorecer e de alimentar constantemente
os vínculos e as relações fraternas de estima, cordialidade e colaboração entre
as várias formas agregativas de leigos. Só assim, a riqueza dos dons e dos
carismas que o Senhor nos dá pode dar o seu contributo fecundo e ordenado para
a edificação da casa comum: « Para se edificar solidariamente a casa comum, é
preciso, além do mais, depor todo o espírito de antagonismo e de disputa, e que
a competição se faça, antes, na estima mútua (cf. Rom 12, 10), na
recíproca anticipação do afecto e na vontade de colaboração, com a paciência, a
abertura de visão, a disponibilidade para o sacrifício, que isso, por vezes,
pode comportar ».(119)
Voltamos
de novo às palavras de Jesus: « Eu sou a videira e vós as vides » (Jo
15, 5), para darmos graças a Deus pelo grande dom da comunhão eclesial,
que reflecte no tempo a comunhão eterna e inefável do amor de Deus Uno e Trino.
A consciência do dom deve ser acompanhada de um grande sentido de responsabilidade:
trata-se, com efeito, de um dom que, à semelhança do talento evangélico,
deve ser posto a render numa vida de crescente comunhão.
Ser
responsáveis do dom da comunhão significa, antes de mais, empenharmo-nos na
vitória sobre toda a tentação de divisão e de contraposição que ameaça a vida e
o empenhamento apostólico dos cristãos. O grito de dor e de estranheza do
apóstolo Paulo: « Refiro-me ao facto de cada um de vós dizer: "Eu sou de
Paulo", "Eu, porém, sou de Apolo», «E eu sou de Cefas", «E eu de
Cristo»! Foi Cristo por ventura dividido? » (1 Cor 1, 12, 13) continua a
ecoar como repreensão pelas « feridas feitas ao Corpo de Cristo ». Ressoem,
antes, como apelo persuasivo estas outras palavras do apóstolo: « Exorto-vos, irmãos,
no nome de nosso Senhor Jesus Cristo, a serdes unânimes no falar, para que não
haja divisões entre vós, mas vivais em perfeita união de pensamento e de
propósitos » (1 Cor 1, 10).
Assim, a
vida de comunhão, eclesial torna-se um sinal para o mundo e uma força
de atracção que leva à fé em Cristo: « Como Tu, ó Pai, estás em Mim e Eu em
Ti, que também eles estejam em Nós, para que o mundo creia que Tu me enviaste »
(Jo 17, 21). Dessa maneira, a comunhão abre-se para a missão e
converte-se ela própria em missão.
CAPÍTULO
III
CONSTITUÍ-VOS
PARA IRDES E DARDES FRUTO
A
corresponsabilidade dos fiéis leigos na Igreja-Missão
Comunhão
missionária
32.
Retomemos a imagem bíblica da videira e dos ramos. Ela leva-nos, de forma
imediata e espontânea, à consideração da fecundidade e da vida. Radicados e
vivificados pela videira, os ramos são chamados a dar fruto: « Eu sou a videira
e vós os ramos. Quem permanece em Mim e Eu nele dá muito fruto » (Jo 15,
5). Dar fruto é uma exigência essencial da vida cristã e eclesial. Quem não dá
fruto não permanece na comunhão: « Toda a vide que em Mim não dá fruto (o Meu
Pai) corta-a » (Jo 15, 2).
A comunhão
com Jesus, donde promana a comunhão dos cristãos entre si, é condição
absolutamente indispensável para dar fruto: « Sem Mim não podeis fazer nada » (Jo
15, 5). E a comunhão com os outros é o fruto mais lindo que as vides podem dar:
ela é, na verdade, um dom de Cristo e do Seu Espírito.
Ora, a comunhão
gera comunhão e reveste essencialmente a forma de comunhão missionária. Jesus,
de facto, diz aos Seus discípulos: « Não fostes vós que Me escolhestes; fui Eu
que vos escolhi e vos constituí para irdes e dardes fruto e para que o
vosso fruto permaneça » (Jo 15, 16).
A comunhão
e a missão estão profundamente ligadas entre si, compenetram-se e integram-se
mutuamente, ao ponto de a comunhão representar a fonte e, simultaneamente, o
fruto da missão: a comunhão é missionária e a missão é para a comunhão. É
sempre o único e mesmo Espírito que convoca e une a Igreja e que a manda pregar
o Evangelho « até aos confins da terra » (Act 1, 8). Por sua vez, a
Igreja sabe que a comunhão, recebida em dom, tem um destino universal. Assim, a
Igreja sente-se devedora à humanidade inteira e a cada um dos homens do dom
recebido do Espírito, que derrama nos corações dos crentes a caridade de Jesus
Cristo, força prodigiosa de coesão interna e, ao mesmo tempo, de expansão
externa. A missão da Igreja deriva da sua própria natureza, tal como Cristo a
quis: ser « sinal e instrumento ... de unidade de todo o género humano ».(120)
Essa missão tem por finalidade dar a conhecer a todos e fazer com que todos
vivam a « nova » comunhão que, no Filho de Deus feito homem, entrou na história
do mundo. Nesse sentido, o testemunho do evangelista João já define, de forma
irrevocável, a meta beatificante para onde se encaminha toda a missão da
Igreja: « O que vimos e ouvimos, isso vos anunciamos, para que também vós
tenhais comunhão connosco. A nossa comunhão é com o Pai e com o Seu Filho Jesus
Cristo » (1 Jo 1, 3).
Ora, no contexto
da missão da Igreja o Senhor confia aos fiéis leigos, em comunhão com todos
os outros membros do Povo de Deus, uma grande parte de responsabilidade. Tinham
disso plena consciência os Padres do Concílio Vaticano II: « Os sagrados
Pastores conhecem, com efeito, perfeitamente quanto os leigos contribuem para o
bem de toda a Igreja. Pois eles próprios sabem que não foram instituídos por
Jesus Cristo para se encarregarem por si sós de toda a missão salvadora da
Igreja para com o mundo, mas que o seu cargo sublime consiste em pastorear de
tal modo os fiéis e de tal modo reconhecer os seus serviços e carismas, que
todos, cada um segundo o seu modo próprio, cooperem na obra comum ».(121) Essa
consciência reapareceu, depois, com renovada clareza e com maior vigor, em
todos os trabalhos do Sínodo.
Anunciar o
Evangelho
33. Os
fiéis leigos, precisamente por serem membros da Igreja, têm por vocação e por
missão anunciar o Evangelho: para essa obra foram habilitados e nela empenhados
pelos sacramentos da iniciação cristã e pelos dons do Espírito Santo.
Leiamos um
texto claro e denso do Concílio Vaticano II: « Porque participam no múnus
sacerdotal, profético e real de Cristo, os leigos têm parte activa na vida e na
acção da Igreja... Fortalecidos pela participação activa na vida litúrgica da
comunidade, empenham-se nas obras apostólicas da mesma. Conduzem à Igreja os
homens que porventura andem longe, cooperam intensamente na comunicação da
Palavra de Deus, sobretudo pela actividade catequética, e tornam mais eficaz,
com o contributo da sua competência, a cura de almas e até a administração dos
bens da Igreja ».(122)
Ora, é na evangelização
que se concentra e se desenrola toda a missão da Igreja, cujo percurso
histórico se faz sob a graça e ordem de Jesus Cristo: « Ide por todo o mundo e
pregai o Evangelho a toda a criatura... Eis que Eu estou convosco todos os dias
até ao fim do mundo » (Mt 16, 15; cf. Mt 28, 20). « Evangelizar —
escreve Paulo VI — é a graça e a vocação própria da Igreja, a sua identidade
mais profunda ».(123)
Com a
evangelização, a Igreja é construída e plasmada como comunidade de fé: mais
precisamente, como comunidade de uma fé confessada na adesão à Palavra
de Deus, celebrada nos Sacramentos e vivida na caridade, como
alma da existência moral cristã. Com efeito, a « boa nova » tende a suscitar no
coração e na vida do homem a conversão e a adesão pessoal a Jesus Cristo
Salvador e Senhor; dispõe ao Baptismo e à Eucaristia e consolida-se no
propósito e na realização da nova vida segundo o Espírito.
Sem
dúvida, a ordem de Jesus: « Ide e pregai o Evangelho » conserva sempre a sua
validade e está cheia de uma urgência que não passa. Todavia, a situação
actual, não só do mundo mas também de tantas partes da Igreja, exige
absolutamente que à palavra de Cristo se preste uma obediência mais pronta e
generosa. Todo o discípulo é chamado em primeira pessoa; nenhum discípulo
pode eximir-se a dar a sua própria resposta: « Ai de mim se não evangelizar »
(1 Cor 9, 16).
Chegou a
hora de nos lançarmos numa nova evangelização
34. Países
inteiros e nações, onde a religião e a vida cristã foram em tempos tão
prósperas e capazes de dar origem a comunidades de fé viva e operosa,
encontram-se hoje sujeitos a dura prova, e, por vezes, até são radicalmente
transformados pela contínua difusão do indiferentismo, do secularismo e do
ateísmo. É o caso, em especial, dos países e das nações do chamado Primeiro
Mundo, onde o bem-estar económico e o consumismo, embora à mistura com
tremendas situações de pobreza e de miséria, inspiram e permitem viver « como
se Deus não existisse ». Ora, a indiferença religiosa e a total insignificância
prática de Deus nos problemas, mesmo graves, da vida não são menos preocupantes
e subversivos do que o ateismo declarado. E também a fé cristã, mesmo sobrevivendo
em algumas manifestações tradicionais e ritualistas, tende a desaparecer nos
momento mais significativos da existência, como são os momentos do nascer, do
sofrer e do morrer. Daí que se levantem interrogações e enigmas tremendos, que,
ao ficarem sem resposta, expõem o homem contemporâneo à desilusão
desconfortante e à tentação de eliminar a mesma vida humana que levanta esses
problemas.
Noutras
regiões ou nações, porém, conservam-se bem vivas ainda tradições de piedade e
de religiosidade popular cristã; mas, esse património moral e espiritual corre
hoje o risco de esbater-se sob o impacto de múltiplos processos, entre os quais
sobressaem a secularização e a difusão das seitas. Só uma nova evangelização
poderá garantir o crescimento de uma fé límpida e profunda, capaz de converter
tais tradições numa força de liberdade autêntica.
É urgente,
sem dúvida, refazer em toda a parte o tecido cristão da sociedade humana. Mas,
a condição é a de se refazer o tecido cristão das próprias comunidades
eclesiais que vivem nesses países e nessas nações.
Ora, os
fiéis leigos, por força da sua participação no múnus profético de Cristo, estão
plenamente envolvidos nessa tarefa da Igreja. Pertence-lhes, em particular, dar
testemunho de como a fé cristã, mais ou menos conscientemente. ouvida e
invocada por todos, seja a única resposta plenamente válida para os problemas e
as esperanças que a vida põe a cada homem e a cada sociedade. Será isso
possível, se os fiéis leigos souberem ultrapassar em si mesmos a ruptura entre o
Evangelho e a vida, refazendo na sua quotidiana actividade em família, no
trabalho e na sociedade, a unidade de uma vida que no Evangelho encontra
inspiração e força para se realizar em plenitude.
Repito
mais uma vez a todos os homens contemporâneos o grito apaixonado com que
iniciei o meu serviço pastoral: « Não tenhais medo! Abri, ou antes,
escancarai as portas a Cristo! Abri ao Seu poder salvador os confins dos
Estados, os sistemas económicos assim como os políticos, os vastos campos da
cultura, da civilização, do progresso. Não tenhais medo! Cristo sabe bem
"o que está dentro do homem". Só Ele o sabe! Hoje em dia muito
frequentemente o homem não sabe o que traz no interior de si mesmo, no profundo
do seu ânimo e do seu coração. Muito frequentemente se encontra incerto acerca
do sentido da sua vida sobre esta Terra. E sucede que é invadido pela dúvida
que se transforma em desespero. Permiti, pois, — peço-vos e vo-lo imploro com
humildade e confiança — deixai que Cristo fale ao homem. Só Ele tem palavras de
vida; sim, de vida eterna ».(124)
Escancarar
a porta a Cristo, acolhê-l'O no espaço da própria humanidade, não é, de modo
algum, ameaça para o homem, mas antes, é a única estrada a percorrer, se
quisermos reconhecer o homem na sua verdade total e exaltá-lo nos seus valores.
A síntese
vital que os fiéis leigos souberem fazer entre o Evangelho e os deveres
quotidianos da vida será o testemunho mais maravilhoso e convincente de que não
é o medo, mas a procura e a adesão a Cristo, que são o factor determinante para
que o homem viva e cresça, e para que se alcancem novas formas de viver mais
conformes com a dignidade humana.
O homem é
amado por Deus! Este é o mais simples e o mais comovente anúncio de
que a Igreja é devedora ao homem. A palavra e a vida de cada cristão podem e
devem fazer ecoar este anúncio: Deus ama-te, Cristo veio por ti, para ti Cristo
é « Caminho, Verdade, Vida » (Jo 14, 6)!
Esta nova
evangelização, dirigida, não apenas aos indivíduos mas a inteiras faixas de
população, nas suas diversas situações, ambientes e culturas, tem por fim formar
comunidades eclesiais maduras, onde, a fé desabroche e realize todo o seu
significado originário de adesão à pessoa de Cristo e ao Seu Evangelho, de
encontro e de comunhão sacramental com Ele, de existência vivida na caridade e
no serviço.
Os fiéis
leigos têm a sua parte a desempenhar na formação de tais comunidades eclesiais,
não só com uma participação activa e responsável na vida comunitária e,
portanto, com o seu insubstituível testemunho, mas também com o entusiasmo e
com a acção missionária dirigida a quantos não crêem ainda ou já não vivem a fé
recebida no Baptismo.
Em relação
às novas gerações, os fiéis leigos devem dar um precioso contributo, necessário
como nunca, com uma obra sistemática de catequese: Os Padres sinodais
acolheram com gratidão o trabalho dos catequistas, reconhecendo que eles « têm
uma tarefa de grande importância na animação das comunidades edesiais ».(125) É
verdade que os pais cristãos são os primeiros e insubstituíveis catequistas dos
próprios filhos, habilitados que o foram para isso pelo sacramento do
Matrimónio, mas, ao mesmo tempo, devemos todos ter consciência do direito que
assiste a todo o baptizado de ser instruído, educado, acompanhado na fé e na
vida cristã.
Ide por
todo o mundo
35. A
Igreja, ao aperceber-se e ao viver a urgência actual de uma nova evangelização,
não pode eximir-se da missão permanente de levar o Evangelho a quantos — e
são milhões e milhões de homens e mulheres — não conhecem ainda a Cristo
Redentor do homem. Esta é a tarefa mais especificamente missionária que
Jesus confiou e continua todos os dias a confiar à Sua Igreja.
A acção
dos fiéis leigos, que, aliás, nunca faltou neste campo, aparece hoje cada vez
mais necessária e preciosa. Na verdade, a ordem do Senhor « Ide por todo o
mundo » continua a encontrar muitos leigos generosos, prontos a deixar o seu
ambiente de vida, o seu trabalho, a sua região ou pátria, para ir, ao menos por
um certo tempo, para zonas de missão. Mesmo casais cristãos, a exemplo de
Áquila e Priscila (cfr. Act 18; Rom 16, 3 s.), oferecem o
confortante testemunho de amor apaixonado por Cristo e pela Igreja com a sua
presença activa em terras de missão. Autêntica presença missionária é também a
daqueles que, vivendo por vários motivos em países ou ambientes onde a Igreja
ainda não foi estabelecida, dão o testemunho da sua fé.
Mas, o
problema missionário apresenta-se hoje à Igreja com tal amplitude e gravidade
que só se todos os membros da Igreja o assumirem de forma verdadeiramente solidária
e responsável, tanto singularmente como em comunidade, é que se poderá confiar
numa resposta mais eficaz.
O convite
que o Concílio Vaticano II dirigiu às Igrejas particulares conserva todo o seu
valor, ou antes, reclama hoje um acolhimento mais amplo e mais decidido: « A
Igreja particular, devendo representar na forma mais perfeita a Igreja
universal, tenha plena consciência de ser enviada também àqueles que não
acreditam em Cristo ».(126)
A Igreja
deve dar hoje um grande passo em frente na sua evangelização, deve
entrar numa nova etapa histórica do seu dinamismo missionário. Num mundo
que, com o encurtar das distâncias, se torna sempre mais pequeno, as
comunidades eclesiais devem ligar-se entre si, trocar energias e meios,
empenhar-se juntas na missão, única e comum, de anunciar e de viver o
Evangelho. « As Igrejas ditas mais jovens — disseram os Padres sinodais — têm
necessidade da força das mais antigas, enquanto que estas precisam do
testemunho e do entusiasmo das mais jovens, de forma que cada Igreja beneficie
das riquezas das outras Igrejas ».(127)
Nesta nova
etapa, a formação, não só do clero local mas também de um laicado maduro e
responsável, coloca-se nas novas Igrejas como elemento essencial e obrigatório
da plantatio Ecclesiae.(128) Dessa forma, as próprias comunidades
evangelizadas lançam-se para novas paragens do mundo a fim de responderem,
também elas, à missão de anunciar e testemunhar o Evangelho de Cristo.
Os fiéis
leigos, com o exemplo da sua vida e com a própria acção, podem favorecer o
melhoramento das relações entre os adeptos dasdiferentes religiões, como
oportunamente observaram os Padres sinodais: « Hoje, a Igreja vive em toda a
parte entre homens de religiões diferentes. Todos os fiéis, especialmente os
leigos que vivem no meio de povos de outras religiões, tanto nas terras de
origem como em terras de emigração, devem constituir para estes um sinal do
Senhor e da Sua Igreja, de maneira adaptada às circunstâncias de vida de cada
lugar. O diálogo entre as religiões tem uma importância fundamental, pois
conduz ao amor e ao respeito recíproco, elimina, ou ao menos, atenua os
preconceitos entre os adeptos das várias religiões e promove a unidade e a
amizade entre os povos ».(129)
Para
evangelizar o mundo são necessários, antes de mais, os evangelizadores. Por
isso, todos, a começar pelas famílias cristãs, devem sentir a responsabilidade
de favorecer o despertar e o amadurecer de vocações especificamente
missionárias, tanto sacerdotais e religiosas como laicais, recorrendo a
todos os meios oportunos e sem nunca esquecer o meio privilegiado da oração,
conforme a própria palavra do Senhor Jesus: « A seara é grande, mas os
trabalhadores são poucos. Rezai, poi, ao dono da seara que mande trabalhadores
para a sua seara! » (Mt 9, 37-38).
Viver o
Evangelho servindo a pessoa e a sociedade
36. Ao
anunciar e ao acolher o Evangelho na força do Espírito, a Igreja torna-se
comunidade evangelizada e evangelizadora e, precisamente por isso, faz-se serva
dos homens. Nela, os fiéis leigos participam na missão de servir a pessoa e
a sociedade. É verdade que a Igreja tem como fim supremo o Reino de Deus, do
qual ela « constitui na terra o gérmen e o início »,(130) e, portanto, está
inteiramente consagrada à glorificação do Pai. Mas, o Reino é fonte de libertação
plena e de salvação total para os homens: com estes, portanto, a Igreja caminha
e vive, real e intimamente solidária com a sua história.
Tendo
recebido o encargo de manifestar ao mundo o mistério de Deus, que brilha em
Jesus Cristo, ao mesmo tempo, a Igreja descobre o homem ao homem, esclarece-o
acerca do sentido da sua existência, abre-o à verdade total acerca dele e do
seu destino.(l31) Nesta perspectiva, a Igreja é chamada, em virtude da sua
própria missão evangelizadora, a servir o homem. Tal serviço tem a sua raiz
primeiramente no facto prodigioso e empolgante de que, « com a encarnação, o
Filho de Deus uniu-se de certa forma a todo o homem ».(132)
Por isso,
o homem « é o primeiro caminho que a Igreja deve percorrer no desempenho da sua
missão: ele é o caminho primeiro e fundamental da Igreja, caminho
traçado pelo próprio Cristo, caminho que imutavelmente passa através do
mistério da Encarnação e da Redenção ».(133)
Precisamente
neste sentido se pronunciou repetidas vezes e com singular clareza e vigor o
Concílio Vaticano II nos seus diversos documentos. Releiamos um texto
particularmente iluminador da Constituição Gaudium et spes: « A Igreja,
ao procurar o seu fim salvífico próprio, não se limita a comunicar ao homem a
vida divina; espalha sobre todo o mundo os reflexos da sua luz, sobretudo
enquanto cura e eleva a dignidade da pessoa humana, consolida a coesão da
sociedade e dá um sentido mais profundo à quotidiana atividade dos homens. A
Igreja pensa, assim, que por meio de cada um dos seus membros e por toda a sua
comunidade, muito pode ajudar para tornar mais humana a família dos homens e a
sua história ».(134)
Neste
contributo à família dos homens, de que é responsável a Igreja inteira, cabe
aos fiéis leigos um lugar de relevo, em razão da sua « índole secular », que os
empenha, com modalidades próprias e insubstituíveis, na animação cristã da
ordem temporal.
Promover a
dignidade da pessoa
37.
Descobrir e ajudar a descobrir a dignidade inviolável de cada pessoa humana constitui
uma tarefa essencial, diria mesmo em certo sentido, a tarefa central e
unificadora do serviço que a Igreja, e nela os fiéis leigos, são chamados a
prestar à família dos homens.
De todas
as criaturas terrenas, só o homem é « pessoa », sujeito consciente e livre e,
precisamente por isso, « centro e vértice » de tudo o que existe sobre a
terra.(135)
A
dignidade pessoal é o bem mais precioso que o homem tem, graças ao qual
ele transcende em valor todo o mundo material. A palavra de Jesus: « Que serve
ao homem ganhar o mundo inteiro, se depois perde a sua alma? » (Mc 8,
36) implica uma afirmação antropológica luminosa e estimulante: o homem vale
não por aquilo que « tem » — mesmo que ele possuísse o mundo inteiro — mas por
aquilo que « é ». Não são tanto os bens do mundo que contam, mas o bem da
pessoa, o bem que é a própria pessoa.
A
dignidade da pessoa aparece em todo o seu fulgor, quando se consideram a sua
origem e o seu destino: criado por Deus à Sua imagem e semelhança e remido pelo
sangue preciosíssimo de Cristo, o homem é chamado a tornar-se « filho no Filho
» e templo vivo do Espírito, e tem por destino a vida eterna da comunhão
beatífica com Deus. Por isso, toda a violação da dignidade pessoal do ser
humano clama por vingança junto de Deus e torna-se ofensa ao Criador do homem.
Em virtude
da sua dignidade pessoal, o ser humano é sempre um valor em si e por si, e
exige ser considerado e tratado como tal, e nunca ser considerado e tratado
como um objecto que se usa, um instrumento, uma coisa.
A
dignidade pessoal constitui o fundamento da igualdade de todos os homens
entre si. Daí, a absoluta recusa de todas as mais variadas formas de
discriminação que, infelizmente, continuam a dividir e a humilhar a família
humana, desde as raciais e económicas às sociais e culturais, das políticas às
geográficas, etc. Toda a discriminação é uma injustiça absolutamente
intolerável, não tanto pelas tensões e conflitos que pode gerar no tecido
social, quanto pela desonra feita à dignidade da pessoa: não só à dignidade
daquele que é vítima da injustiça, mas ainda mais à daquele que pratica essa
injustiça.
Fundamento
da igualdade de todos os homens entre si, a dignidade pessoal é, ao mesmo
tempo, o fundamento da participação e da solidariedade dos homens entre si: o
diálogo e a comunhão têm a sua raiz última naquilo que os homens « são », antes
e mais ainda do que naquilo que eles « têm ».
A
dignidade pessoal é propriedade indestrutível de cada ser humano. É
fundamental compreender-se toda a força que irrompe desta afirmação, que se
baseia na unicidade e na irrepetibilidade de toda a pessoa. Dela
deriva que o indivíduo seja irredutível a tudo o que o queira esmagar e
anulá-lo no anonimato da colectividade, da instituição, da estrutura, do
sistema. A pessoa, na sua individualidade, não é um número, não é o anel de uma
cadeia, nem uma peça da engrenagem de um sistema. A afirmação mais radical e
exaltante do valor de cada ser humano foi feita pelo Filho de Deus ao encarnar
no seio de uma mulher. E disto continua a falar-nos o Natal cristão.(136)
Venerar o
inviolável direito à vida
38. O
reconhecimento efectivo da dignidade pessoal de cada ser humano exige o respeito,
a defesa e a promoção dos direitos da pessoa humana. Trata-se de direitos
naturais, universais e invioláveis: ninguém, nem o indivíduo, nem o grupo, nem
a autoridade, nem o Estado, pode modificar e muito menos eliminar esses
direitos que emanam do próprio Deus.
Ora, a
inviolabilidade da pessoa, reflexo da inviolabilidade absoluta do próprio Deus,
tem a sua primeira e fundamental expressão na inviolabilidade da vida
humana. É totalmente falsa e ilusória a comum defesa, que aliás justamente
se faz, dos direitos humanos — como por exemplo o direito à saúde, à casa, ao
trabalho, à família e à cultura, — se não se defende com a máxima energia o direito
à vida, como primeiro e fontal direito, condição de todos os outros
direitos da pessoa.
A Igreja
nunca se deu por vencida perante todas as violações que o direito à vida, que é
próprio de cada ser humano, tem sofrido e continua a sofrer, tanto por parte
dos indivíduos como mesmo até por parte das próprias autoridades. O titular
desse direito é o ser humano, em todas as fases do seu desenvolvimento,
desde a concepção até à morte natural, e em todas as suas condições, tanto
de saúde como de doença, de perfeição ou de deficiência, de riqueza ou de
miséria. O Concílio Vaticano II afirma abertamente: « Tudo quanto se opõe à
vida, como seja toda a espécie de homicídio, genocídio, aborto, a integridade
da pessoa humana, como as mutilações, os tormentos corporais e mentais e as
tentativas para violentar as próprias consciências; tudo quanto ofende a
dignidade da pessoa humana, como as condições de vida infra-humanas, as prisões
arbitrárias, as deportações, a escravidão, a prostituição, o comércio de mulheres
e de jovens; e também as condições degradantes de trabalho, em que os operários
são tratados como meros instrumentos de lucro e não como pessoas livres e
responsáveis; todas estas coisas e outras semelhantes são, sem dúvida,
infamantes; ao mesmo tempo que corrompem a civilização humana, desonram mais
aqueles que assim procedem, do que os que as padecem, e ofendem gravemente a
honra devida ao Criador ».(137)
Ora, se a
todos pertencem a missão e a responsabilidade de reconhecer a dignidade pessoal
de cada ser humano e de defender o seu direito à vida, certos fiéis leigos são
a isso chamados por um título particular: são os pais, os educadores, os
agentes da saúde e todos os que detêm o poder económico e político.
Ao aceitar
amorosa e generosamente toda a vida humana, sobretudo se fraca e doente, a
Igreja vive hoje um momento fundamental da sua missão, tanto mais necessária
quanto mais avassaladora se tornou uma « cultura de morte ». De facto, « a
Igreja firmemente acredita que a vida humana, mesmo se fraca e sofredora, é
sempre um dom maravilhoso do Deus da bondade. Contra o pessimismo e o egoísmo,
que ensombram o mundo, a Igreja está do lado da vida: e em cada vida humana ela
consegue descobrir o esplendor daquele " Sim ", daquele " Amen ",
que é o próprio Cristo (cf. 2 Cor 1, 19; Ap 3, 14). Ao
"não" que avassala e aflige o mundo, contrapõe esse vivo
"Sim", defendendo dessa maneira o homem e o mundo daqueles que
ameaçam e mortificam a vida ».(138) Pertence aos fiéis leigos, que mais
directamente ou por vocação ou por profissão se ocupam do acolher a vida,
tornar concreto e eficaz o "sim" da Igreja à vida humana.
Nas
fronteiras da vida humana abrem-se hoje novas possibilidades e
responsabilidades com o enorme progresso das ciências biológicas e médicas, aliado
ao surpreendente poder tecnológico: o homem, com efeito, é já capaz, não
só de « observar » mas também de « manipular » a vida humana no seu início e
nas primeiras fases de seu desenvolvimento.
A
consciência moral da humanidade não pode ficar alheia ou indiferente
perante os passos gigantescos dados por uma força tecnológica que consegue ter
um domínio cada vez mais vasto e profundo sobre os dinamismos que presidem à
procriação e às primeiras fases do desenvolvimento da vida humana. Talvez nunca
como hoje e neste campo, a sabedoria se revela como única ancora de
salvação, para que o homem, na investigação científica e na aplicada, possa
agir sempre com inteligência e com amor, isto é, no respeito, diria mesmo na
veneração, da inviolável dignidade pessoal de todo o ser humano, desde o
primeiro instante da sua existência. Isso acontece quando, usando meios
lícitos, a ciência e a técnica se empenham na defesa da vida e na cura da
doença, desde os inícios, recusando, no entanto, — pela própria dignidade da
investigação — intervenções que se tornem perturbadoras do património genético
do indivíduo e da geração humana.(139)
Os fiéis
leigos que, a qualquer título ou a qualquer nível, se empenham na ciência e na
técnica, bem como na esfera médica, social, legislativa e económica, devem corajosamente
enfrentar os «desafios » que lhes lançam os novos problemas da bioética. Como
disseram os Padres sinodais, « os cristãos devem exercer a sua responsabilidade
como donos da ciência e da tecnologia, não como seus escravos ... Em ordem a
esses "desafios" morais, que estão para serem lançados pela nova e
imensa força da tecnologia e que põem em perigo, não só os direitos
fundamentais dos homens, mas a própria essência biológica da espécie humana, é
da máxima importância que os leigos cristãos — com a ajuda de toda a Igreja —
tomem a peito o enquadramento da cultura nos princípios de um humanismo
autêntico, de forma que a promoção e a defesa dos direitos do homem possam
encontrar fundamento dinâmico e seguro na sua própria essência, aquela essência
que a pregação evangélica revelou aos homens ».(140)
É urgente
que todos, hoje, estejam alertados para o fenómeno da concentração do poder, e,
em primeiro lugar, do poder tecnológico. Tal concentração tende, com efeito, a
manipular, não só a essência biológica, mas também os conteúdos da própria
consciência dos homens e os seus padrões de vida, agravando, assim, a
discriminação e a marginalização de povos inteiros.
Livres de
invocar o nome do Senhor
39. O
respeito da dignidade pessoal, que comporta a defesa e a promoção dos direitos
humanos, exige que se reconheça a dimensão religiosa do homem. Não se trata de
uma exigência meramente « confessional », mas sim, de uma exigência que
mergulha a sua raiz inextirpável na própria realidade do homem. A relação com
Deus é, na verdade, elemento constitutivo do próprio « ser » e « existir » do
homem: é em Deus que nós « vivemos, nos movemos e existimos » (Act 17,
28). Se nem todos acreditam nesta verdade, todos os que dela estão convencidos
têm o direito de serem respeitados na sua fé e nas opções de vida, individual e
comunitária, que dela derivam. Este é o direito à liberdade de consciência e
à liberdade religiosa, cujo efectivo reconhecimento está entre os bens mais
elevados e entre os deveres mais graves de todo o povo que queira
verdadeiramente assegurar o bem da pessoa e da sociedade: « A liberdade
religiosa, exigência insuprimível da dignidade de todos e de cada um dos
homens, constitui uma pedra angular do edifício dos direitos humanos; e, portanto,
é um factor in substituível do bem das pessoas e de toda a sociedade, assim
como da realização pessoal de cada um. Disto resulta, consequentemente, que a
liberdade das pessoas consideradas individualmente e das comunidades
professarem e praticarem a própria religião é um elemento essencial da
convivência pacífica dos homens ... O direito civil e social à liberdade
religiosa, ao atingir a esfera mais íntima do espírito, torna-se ponto de
referência e, de certo modo, a medida dos outros direitos fundamentais ».(141)
O Sínodo
não se esqueceu dos muitos irmãos e irmãs que ainda não gozam desse direito e
que têm de enfrentar dificuldades, marginalizações, sofrimentos, perseguições
e, por vezes, a morte por causa da confissão da fé. São, na sua maioria, irmãos
e irmãs do laicado cristão. O anúncio do Evangelho e o testemunho cristão da
vida no sofrimento e no martírio são o ápice do apostolado dos discípulos de
Cristo, assim como o amor ao Senhor Jesus até ao dom da própria vida constitui
uma fonte de fecundidade extraordinária para a edificação da Igreja. A mística
videira mostra, assim, a sua vitalidade, como sublinhava Santo Agostinho: « Mas
essa videira, como fora preanunciado pelos Profetas e pelo próprio Senhor, que
espalhava pelo mundo inteiro as suas vides carregadas de fruto, tanto mais
vicejava quanto mais a regava o abundante sangue dos mártires ».(142)
A Igreja
inteira sente-se profundamente grata com esse exemplo e com esse dom: desses
seus filhos ela tira razões para renovar o seu impulso de vida santa e
apostólica.
Nesse
sentido, os Padres sinodais consideraram seu especial dever « agradecer àqueles
leigos que vivem quais incansáveis testemunhas da fé, em união fiel com a Sé
Apostólica, apesar das restrições à liberdade e da falta de ministros sagrados.
Eles jogam tudo, até a própria vida. Dessa maneira, os leigos dão testemunho de
uma propriedade essencial da Igreja: a Igreja de Deus nasce da graça de Deus e
a forma mais sublime de o manifestar é o martírio ».(143)
Quanto até
aqui dissemos sobre o respeito pela dignidade pessoal e sobre o reconhecimento
dos direitos humanos, prende-se, sem dúvida, com a responsabilidade de cada
cristão, de cada homem. Mas, devemos imediatamente sublinhar como isso se
revista hoje de uma dimensão mundial: trata-se, de facto, de uma questão
que já atinge grupos humanos inteiros, até povos inteiros, que são
violentamente espezinhados nos seus direitos fundamentais. Daí, aquelas formas
de desigualdade de progresso entre os diversos Mundos que na recente Encíclica Sollicitudo
rei socialis foram abertamente denunciadas.
O respeito
pela pessoa humana ultrapassa a exigência de uma moral individual e coloca-se
como critério de base, quase como pilar fundamental, na estruturação da própria
sociedade, sendo a sociedade inteiramente finalizada para a pessoa.
Assim,
intimamente ligada à responsabilidade de servir a pessoa põe-se a
responsabilidade de servir a sociedade, qual tarefa geral daquela
animação cristã da ordem temporal a que os fiéis leigos são chamados segundo as
modalidades próprias e específicas.
A família,
primeiro espaço para o empenhamento social
40. A
pessoa humana tem uma natural e estrutural dimensão social enquanto é chamada,
desde o seu íntimo, à comunhão com os outros e à doação aos
outros: « Deus, que cuida paternamente de todos, quis que os homens formassem
uma só família e se tratassem entre si com espirito de irmãos ».(144) E, assim,
a sociedade, fruto e sinal da sociabilidade do homem, mostra a
sua verdade plena ao constituir-se comunhão de pessoas.
Dá-se
interdependência e reciprocidade entre a pessoa e a sociedade: tudo o que for
feito em favor da pessoa é também serviço feito à sociedade, e tudo o que for
realizado em favor da sociedade reverte-se em benefício da pessoa. Por isso, o
empenhamento apostólico dos fiéis leigos na ordem temporal adquire sempre e de
forma indissolúvel um significado de serviço ao homem indivíduo na sua
unicidade e irrepetibilidade e um significado de serviço a todos os homens.
Ora, a
primeira e originária expressão da dimensão social da pessoa é o casal e a
família: « Deus não criou o homem para o deixar sozinho; desde o princípio
"homem e mulher os criou" (Gn 1, 27) e a sua união constitui a
primeira expressão de comunhão de pessoas ».(145) Jesus mostrou-se preocupado
em restituir ao casal a sua inteira dignidade (Mt 19, 3-9) e à família a
sua própria solidez (Mt 19, 4-6); São Paulo mostrou a relação profunda
do matrimónio com o mistério de Cristo e da Igreja (Ef 5, 22-4, 6; Col
3,18-21; cf. 1 Ped 3,1-7).
O casal e
a família constituem o primeiro espaço para o empenhamento social dos fiéis
leigos. Trata-se de um empenho que só poderá ser desempenhado adequadamente
na convicção do valor único e insubstituível da família para o progresso da
sociedade e da própria Igreja.
Berço da
vida e do amor, onde o homem « nasce » e « cresce », a família é a célula
fundamental da sociedade. Deve reservar-se a essa comunidade uma solicitude
privilegiada, sobretudo quando o egoísmo humano, as campanhas contra a
natalidade, as políticas totalitárias, e também as situações de pobreza e de
miséria física, cultural e moral, bem como a mentalidade edonista e consumista
conseguem extinguir as fontes da vida, e onde as ideologias e os diversos
sistemas, aliados a formas de desinteresse e de falta de amor, atentam contra a
função educativa própria da família.
É urgente,
portanto, realizar uma acção vasta, profunda e sistemática, apoiada não só na
cultura, mas também nos meios económicos e nos instrumentos legislativos,
destinada a assegurar à família a sua função de ser o lugar primário da «
humanização » da pessoa e da sociedade.
A acção
apostólica dos fiéis leigos consiste, antes de mais, em tornar a família
consciente da sua identidade de primeiro núcleo social de base e do seu papel
original na sociedade, para que a própria família se torne cada vez mais protagonista
activa e responsável do seu crescimento e da sua participação na vida
social. Dessa forma, a família poderá e deverá exigir de todos, a começar pelas
autoridades públicas, o respeito por aqueles direitos que, salvando a família,
salvam a mesma sociedade.
O que se
escreveu na Exortação Familiaris consortio sobre a participação no
progresso da sociedade (146) e o que a Santa Sé, a convite do Sínodo dos Bispos
de 1980, formulou com a « Carta dos Direitos da Família » representa um
programa operativo completo e orgânico para todos os fiéis leigos que, a
qualquer título, estão interessados na promoção dos valores e das exigências da
família: um programa cuja realização deve impor-se com tanta maior urgência e
decisão quanto mais graves se fazem as ameaças à estabilidade e à fecundidade
da família e quanto mais forte e sistemática se tornar a tentativa de
marginalizar a família e de a esvaziar do seu peso social.
Como a
experiência ensina, a civilização e a solidez dos povos dependem sobretudo da
qualidade humana das próprias famílias. Assim, a acção apostólica em favor da
família adquire um valor social incomparável. A Igreja, por sua parte, está
profundamente convencida disso, bem sabendo que « o futuro da humanidade passa
através da família ».(147)
A
caridade, alma e sustentáculo da solidariedade
41. O
serviço feito à sociedade exprime-se e concretiza-se de variadíssimas maneiras:
desde as livres e informais às institucionais, desde a ajuda dada aos
indivíduos à que se destina aos vários grupos e comunidades de pessoas.
Toda a
Igreja, como tal, é directamente chamada ao serviço da caridade: « A santa
Igreja, assim como nos seus primeiros tempos, juntando a "ágape" à
ceia eucarística, se mostrava toda unida à volta de Cristo pelo vínculo da
caridade, assim em todos os tempos se pode reconhecer por este sinal do amor. E
alegrando-se com as realizações alheias, ela reserva para si, como dever e
direito próprios, que não pode alienar, as obras de caridade. Por isso, a
misericórdia para com os pobres e enfermos e as chamadas obras de caridade e de
mútuo auxílio para socorrer as múltiplas necessidades humanas são pela Igreja
honradas de modo especial » (148) A caridade para com o próximo, nas
expressões antigas e sempre novas das obras de misericórdia corporais e
espirituais, representa o conteúdo mais imediato, comum e habitual da animação
cristã da ordem temporal que constitui o empenho específico dos fiéis leigos.
Com a
caridade para com o próximo, os fiéis leigos vivem e manifestam a sua
participação na realeza de Jesus Cristo, isto é, no poder do Filho do homem que
« não veio para ser servido, mas para servir » (Mc 10, 45): vivem e
manifestam essa realeza na forma mais simples que é possível a todos e sempre
e, ao mesmo tempo, na forma mais digna, pois a caridade é o dom mais alto que o
Espírito dá em ordem à edificação da Igreja (1 Cor 13, 13) e ao bem da
humanidade. A caridade, com efeito, anima e sustenta a solidariedade
activa que olha para a totalidade das necessidades do ser humano.
Uma
caridade assim, actuada não só pelos indivíduos, mas também, de forma
solidária, pelos grupos e pelas comunidades, é e será sempre necessária: nada e
ninguém a pode e poderá substituir, nem sequer as múltiplas instituições e
iniciativas públicas, que também se esforçam por dar resposta às carências —
muitas vezes hoje tão graves e generalizadas — de uma população.
Paradoxalmente, essa caridade é tanto mais necessária quanto mais as
instituições, ao tornarem-se complexas na organização e pretendendo gerir todos
os espaços disponíveis, acabam por se esvaziar devido ao funcionalismo
impessoal, à burocracia exagerada, aos interesses privados injustos e ao
desinteresse fácil e generalizado.
Precisamente
neste contexto, continuam a aparecer e a espalhar-se, sobretudo nas sociedades
organizadas, diversas formas de voluntariado que se traduzem numa
multiplicidade de serviços e de obras. Se for vivido na sua verdade de serviço
desinteressado ao bem das pessoas, especialmente as mais carecidas e as mais
abandonadas dos próprios serviços sociais, o voluntariado deve ser visto como
sendo uma importante expressão de apostolado, onde os fiéis leigos, homens e
mulheres, desempenham um papel de primeiro plano.
Todos
destinatários e protagonistas da política
42. A
caridade que ama e serve a pessoa nunca poderá estar dissociada da justiça: uma
e outra, cada qual à sua maneira, exigem o pleno reconhecimento efectivo dos
direitos da pessoa, a que é ordenada a sociedade com todas as suas estruturas e
instituições.(149)
Para
animar cristãmente a ordem temporal, no sentido que se disse de servir a pessoa
e a sociedade, os fiéis leigos não podem absolutamente abdicar da
participação na « política », ou seja, da múltipla e variada acção económica,
social, legislativa, administrativa e cultural, destinada a promover organica e
institucionalmente o bem comum. Como repetidamente afirmaram os Padres
sinodais, todos e cada um têm o direito e o dever de participar na política,
embora em diversidade e complementariedade de formas, níveis, funções e
responsabilidades. As acusações de arrivismo, idolatria de poder, egoísmo e
corrupção que muitas vezes são dirigidas aos homens do governo, do parlamento,
da classe dominante ou partido político, bem como a opinião muito difusa de que
a política é um lugar de necessário perigo moral, não justificam minimamente
nem o cepticismo nem o absenteismo dos cristãos pela coisa pública.
Pelo
contrário, é muito significativa a palavra do Concílio Vaticano II: « A Igreja
louva e aprecia o trabalho de quantos se dedicam ao bem da nação e tomam sobre
si o peso de tal cargo, ao serviço dos homens ».(150)
Uma
política em favor da pessoa e da sociedade tem o seu critério de base na
busca do bem comum, como bem de todos os homens e do homem todo,
bem oferecido e garantido para ser livre e responsavelmente aceite pelas
pessoas, tanto individualmente como em grupo « A comunidade política — lemos na
Constituição Gaudium et spes — existe precisamente em vista do bem
comum; nele ela encontra a sua completa justificação e significado e dele
deriva o seu direito natural e próprio. Quanto ao bem comum, ele compreende o
conjunto das condições de vida social que permitem aos indivíduos, famílias e
associações alcançar mais plena e facilmente a própria perfeição ».(151)
Além
disso, uma política em favor da pessoa e da sociedade encontra a sua linha
constante de acção na defesa e na promoção da justiça, entendida
como « virtude » para a qual todos devem ser educados e como « força » moral
que apoia o empenho em favorecer os direitos e os deveres de todos e de cada
um, na base da dignidade pessoal do ser humano.
No
exercício do poder político é fundamental o espírito de serviço, único
capaz de, ao lado da necessária competência e eficiência, tornar « transparente
» ou « limpa » a actividade dos homens políticos, como aliás o povo justamente
exige. Isso pressupõe a luta aberta e a decidida superação de certas tentações,
tais como, o recurso à deslealdade e à mentira, o desperdício do dinheiro público
em vantagem de uns poucos e com miras de clientela, o uso de meios equívocos ou
ilícitos para a todo o custo conquistar, conservar e aumentar o poder.
Os fiéis
leigos empenhados na política devem certamente respeitar a autonomia das
realidades terrenas, rectamente entendida, como lemos na Constituição Gaudium
et spes: « É de grande importância, sobretudo onde existe uma sociedade
pluralista, que se tenha uma concepção exacta das relações entre a comunidade
política e a Igreja, e ainda que se distingam claramente as actividades que os
fiéis, isoladamente ou em grupo, desempenham em próprio nome como cidadãos
guiados pela sua consciência de cristãos, e aquelas que eles exercem em nome da
Igreja e em união com os seus pastores. A Igreja que, em razão da sua missão e
competência, de modo algum se confunde com a sociedade nem está ligada a
qualquer sistema político determinado, é, ao mesmo tempo, o sinal e salvaguarda
da transcendência da pessoa humana »,(152) Simultaneamente — e hoje sente-se-o
com urgência e responsabilidade — os fiéis leigos devem dar testemunho daqueles
valores humanos e evangélicos que estão intimamente ligados à própria
actividade política, como a libertade e a justiça, a solidariedade, a dedicação
fiel e desinteressada ao bem de todos, o estilo simples de vida, o amor
preferencial pelos pobres e pelos últimos. Isso exige que os fiéis leigos sejam
cada vez mais animados de uma real participação na vida da Igreja e iluminados
pela sua doutrina social. Para isso poder-lhes-á ser de apoio e de ajuda a
familiaridade com as comunidades cristãs e com os seus Pastores.(153)
Estilo e
meio de realizar uma política que tenha em vista o verdadeiro progresso humano
é a solidariedade: esta pede a participação activa e responsável
de todos na vida política, desde os cidadãos individualmente aos vários grupos,
sindicatos e partidos: todos e cada um somos simultaneamente destinatários e
protagonistas da política. Neste campo, como escrevi na Encíclica Sollicitudo
rei socialis, a solidariedade « não é um sentimento de vaga compaixão ou de
enternecimento superficial pelos males sofridos por tantas pessoas, próximas ou
distantes. Pelo contrário, é a determinação firme e perseverante de se
empenhar pelo bem comum; ou seja, pelo bem de todos e de cada um, porque
todos nós somos verdadeiramente responsáveis por todos ».(154)
A
solidariedade política deve hoje actuar-se num horizonte que, superando uma
simples nação ou um simples bloco de nações, assuma uma dimensão mais
propriamente continental e mundial.
O fruto da
actividade política solidária, a que todos tanto aspiram, e, todavia, sempre
tão imperfeito, é a paz. Os fiéis leigos não podem ficar indiferentes,
estranhos e indolentes diante de tudo o que negue ou comprometa a paz:
violência e guerra, tortura e terrorismo, campos de concentração, militarização
da política, corrida aos armamentos, ameaça nuclear. Antes, como discípulos de
Cristo « Príncipe da paz » (Is 9, 5) e « Nossa Paz » (Ef 2, 14),
os fiéis leigos devem assumir o dever de serem « construtores de paz » (Mt
5, 9), tanto com a conversão do « coração », como com a acção em favor da
verdade, da liberdade, da justiça e da caridade que são os fundamentos
irrenunciáveis da paz.(155)
Colaborando
com todos aqueles que procuram verdadeiramente a paz e servindo-se dos
específicos organismos e instituições nacionais e internacionais, os fiéis
leigos deverão promover uma capilar acção educativa destinada a neutralizar a
dominante cultura do egoísmo, do ódio, da vingança e da inimizade e a
desenvolver a cultura da solidariedade a todos os níveis. Tal solidariedade,
com efeito, « é caminho para a paz e simultaneamente para o progresso ».(156)
Nesta ordem de ideias, os Padres sinodais convidaram todos os cristãos a
recusar formas inaceitáveis de violência, a promover comportamentos de diálogo
e de paz e a empenhar-se na instauração de uma ordem social e internacional
justa.157
Pôr o
homem no centro da vida económico-social
43. O
serviço prestado à sociedade pelos fiéis leigos tem um seu momento essencial na
questão económico-social, cuja chave é dada pela organização do trabalho.
A
gravidade actual de tais problemas, individuada no panorama do progresso e
segundo a proposta de solução oferecida pela doutrina social da Igreja, foi
recordada recentemente na Encíclica Sollicitudo rei socialis, que quero
vivamente recomendar a todos, em especial aos fiéis leigos.
Entre os
principios fundamentais da doutrina social da Igreja encontra-se o do destino
universal dos bens: os bens da terra são, no desígnio de Deus, oferecidos a
todos os homens e a cada um deles como meio do desenvolvimento de uma vida
autenticamente humana. A propriedade privada que, precisamente por isso,
possui uma intrínseca função social, está ao serviço desse destino.
Concretamente o trabalho do homem e da mulher representa o instrumento
mais comum e mais imediato para o progresso da vida económica, instrumento que
constitui simultaneamente um direito e um dever de cada homem.
Tudo isto
faz parte, de modo particular, da missão dos fiéis leigos. O fim e o critério
da sua presença e da sua acção são, em termos gerais, formulados pelo Concílio
Vaticano II: « Também na vida económica e social se devem respeitar e promover
a dignidade e a vocação integral da pessoa humana e o bem de toda a sociedade.
Com efeito, o homem é o protagonista, o centro e o fim de toda a vida
económico-social ».(158)
No
contexto das importantes transformações em curso no mundo da economia e do
trabalho, os fiéis leigos, empenhem-se em primeira linha na solução dos
gravíssimos problemas do crescente desemprego, lutando em favor de uma mais
rápida superação das numerosas injustiças que provêm de deficientes
organizações do trabalho, transformando o lugar de trabalho numa comunidade de
pessoas respeitadas na sua subjectividade e no seu direito à participação,
desenvolvendo novas formas de solidariedade entre aqueles que tomam parte no
trabalho comum, fomentando novos tipos de empresariedade e revendo os sistemas
de comércio, de finança e de intercambios tecnológicos.
Em vista
de tais objectivos, os fiéis leigos deverão executar o seu trabalho com
competência profissional, com honestidade humana, espírito cristão, como meio
da própria santificação,(159) segundo o convite explícito do Concílio: « Com o
seu trabalho, o homem sustenta de ordinário a própria vida e a dos seus; por
meio dele se une e serve os seus irmãos, pode exercer uma caridade autêntica e
colaborar no acabamento da criação divina. Mais ainda, sabemos que, oferecendo
a Deus o seu trabalho, o homem se associa à obra redentora de Cristo, o qual
conferiu ao trabalho uma dignidade sublime, trabalhando com as suas próprias
mãos em Nazaré ».(160)
Em relação
com a vida económico-social e com o trabalho, levanta-se hoje, de forma cada
vez mais aguda, a chamada questão « ecológica ». Sem dúvida, o homem
recebeu do próprio Deus a missão de « dominar » as coisas criadas e de a
cultivar o jardim » do mundo; mas, esta é uma tarefa que o homem deve
desempenhar no respeito pela imagem divina que recebeu e, portanto, com
inteligência e com amor: deve sentir-se responsável pelos dons que Deus lhe deu
e continuamente lhe dá. O homem tem nas suas mãos um dom para transmitir — e,
possivelmente, mesmo melhorado — às gerações futuras, também elas destinatárias
dos dons do Senhor: « O domínio conferido ao homem pelo Criador não é um poder
absoluto, nem se pode falar de liberdade de "usar e abusar" ou de
dispor das coisas como melhor agrade. A limitação imposta pelo mesmo Criador,
desde o princípio, e expressa simbolicamente com a proibição de "comer o
fruto da árvore" (cf. Gn 2, 16 s.), mostra com suficiente clareza
que, nas relações com a natureza visível, nós estamos submetidos a leis, não só
biológicas mas também morais, que não podem impunemente ser transgredidas. Uma
justa concepção do desenvolvimento não pode prescindir destas considerações —
relativas ao uso dos elementos da natureza, às possibilidades de renovação dos
recursos e às consequências de uma industrialização desordenada — as quais
propõem uma vez mais à nossa consciência a dimensão moral, que deve
distinguir o desenvolvimento ».(161)
Evangelizar
a cultura e as culturas do homem
44. O
serviço à pessoa e à sociedade humana exprime-se e realiza-se através da criação
e transmissão da cultura, que, especialmente nos nossos dias, constitui uma
das mais graves tarefas da convivência humana e da evolução social. A luz do
Concílio, entendemos por « cultura » todos aqueles « meios com que o homem
afina e usa os seus múltiplos dons de alma e de corpo; procura submeter ao seu
poder, com o saber e o trabalho, o próprio cosmos; torna mais humana a vida
social, tanto na família como em toda a sociedade civil, com o progresso do
costume e das instituições; enfim, no decorrer do tempo, exprime, comunica aos
outros e conserva nas suas obras, para que sejam de proveito a muitos e mesmo a
humanidade inteira, as suas grandes experiências espirituais e as suas
aspirações ».(162)
Nesse
sentido, a cultura deve ser considerada como o bem comum de cada povo, a
expressão da sua dignidade, liberdade e criatividade; o testemunho do seu
percurso histórico. Em particular, só dentro e através da cultura, é que a fé
cristã se torna histórica e criadora de história.
Perante o
progresso de uma cultura que aparece divorciada não só da fé cristã mas até dos
próprios valores humanos,(163) bem como perante uma certa cultura científica e
tecnológica incapaz de dar resposta à premente procura de verdade e de bem que
arde no coração dos homens, a Igreja tem plena consciência da urgência pastoral
de se dar à cultura uma atenção toda especial.
Por isso,
a Igreja pede aos fiéis leigos que estejam presentes, em nome da coragem e da
criatividade intelectual, nos lugares privilegiados da cultura, como são o
mundo da escola e da universidade, os ambientes da investigação científica e
técnica, os lugares da criação artística e da reflexão humanística. Tal
presença tem como finalidade não só o reconhecimento e a eventual purificação
dos elementos da cultura existente, criticamente avaliados, mas também a sua
elevação, graças ao contributo das originais riquezas do Evangelho e da fé
cristã. O que o Concílio Vaticano II escreve sobre a relação entre o Evangelho
e a cultura representa um facto histórico constante e, simultaneamente, um
ideal de acção de singular actualidade e urgência; é um programa empenhativo
que se impõe à responsabilidade pastoral da Igreja inteira e, nela, à
responsabilidade específica dos fiés leigos: « A boa nova de Cristo renova
continuamente a vida e a cultura do homem decaído, combate e elimina os erros e
males nascidos da permanente sedução e ameaça do pecado. Purifica sem cessar e
eleva os costumes dos povos ... Desse modo, a Igreja, só com realizar a própria
missão, já com isso mesmo estimula e ajuda a civilização e, com a sua
actividade, também a litúrgica, educa o homem para a liberdade interior ».(164)
Merecem
ser aqui ouvidas de novo certas expressões particularmente significativas da
Exortação Evangelii nuntiandi de Paulo VI: « A Igreja evangeliza quando,
unicamente firmada na potência divina da Mensagem que proclama (cfr. Rom 1,
16; 1 Cor 1, 18; 2, 4), procura converter, ao mesmo tempo, a consciência
pessoal e colectiva dos homens, a actividade a que se dedicam e a vida e o meio
concreto que lhes são próprios. Estratos da humanidade que se transformam: para
a Igreja não se trata tanto de pregar o Evangelho a espaços geográficos cada
vez mais vastos ou populações maiores em dimensões de massa, mas de chegar a
atingir e como que a modificar pela força do Evangelho os critérios de julgar,
os valores que contam, os centros de interesse, as linhas de pensamento, as
fontes inspiradoras e os modelos de vida da humanidade, que se apresentam em
contraste com a Palavra de Deus e com o desígnio da salvação. Poder-se-ia
exprimir tudo isto dizendo: importa evangelizar — não de maneira decorativa,
como que aplicando uma verniz superficial, mas de maneira vital, em
profundidade e isto até às suas raízes — a cultura e as culturas do homem ... A
ruptura entre o Evangelho e a cultura é, sem dúvida, o drama da nossa época,
como o foi também de outras épocas. Importa, assim, envidar todos os esforços
no sentido de uma generosa evangelização da cultura, ou, mais exactamente, das
culturas ».(165)
O caminho
que hoje se privilegia para a criação e a transmissão da cultura é o dos instrumentos
da comuniçacão social.(166) Também o mundo dos « mass-media », na sequência
do acelerado progresso das inovações e da influência, ao mesmo tempo planetária
e capilar, sobre a formação da mentalidade e do costume, constitui uma nova
fronteira da missão da Igreja. Em particular, a responsabilidade profissional
dos fiéis leigos neste campo, exercida, tanto a título pessoal como através de
iniciativas e instituições comunitárias, deve ser reconhecida em todo o seu
valor e apoiada com mais adequados recursos materiais, intelectuais e
pastorais.
No uso e
na recepção dos instrumentos de comunicação, tornam-se urgentes tanto uma acção
educativa em ordem ao sentido crítico, animado da paixão pela verdade, como uma
acção de defesa da liberdade, do respeito pela dignidade pessoal, da elevação
da autêntica cultura dos povos, com a recusa, firme e corajosa, de toda a forma
de monopolização e de manipulação.
Não deve
ficar por esta acção de defesa a responsabilidade pastoral dos fiéis leigos: em
todos os caminhos do mundo, também nos principais da imprensa, do cinema, da
rádio, da televisão e do teatro, deve anunciar-se o Evangelho que salva.
CAPÍTULO
IV
OS
TRABALHADORES DA VINHA DO SENHOR
Bons
administradores da multiforme graça de Deus
A
variedade das vocações
45.
Segundo a parábola evangélica, o « proprietário » chama os trabalhadores para a
sua vinha nas várias horas do dia: alguns, ao amanhecer; outros, às nove
da manhã; outros ainda, por volta do meio dia e das três da tarde; os últimos,
cerca das cinco (cf. Mt 20, 1 ss.). Ao comentar esta página do
Evangelho, São Gregório Magno interpreta as várias horas da chamada
relacionando-as com as idades da vida: « É possível aplicar a
diversidade das horas — escreve ele — às diversas idades do homem. O amanhecer
pode certamente representar, nesta nossa interpretação, a infância. A hora
tércia, por sua vez, pode entender-se como sendo a adolescência: o sol
dirige-se para o alto do céu, isto é, cresce o ardor da idade. A hora sexta é a
juventude: o sol está como que no zénite do céu, isto é, nesta idade reforça-se
a plenitude do vigor. A idade adulta representa a hora nona, porque, como o sol
declina do seu alto, assim esta idade começa a perder o ardor da juventude. A
hora undécima é a idade daqueles que se encontram muito avançados nos anos...
Os trabalhadores são, portanto, chamados para a vinha em horas diferentes, como
a querer significar que à santidade de vida um é chamado durante a infância, um
outro na juventude, um outro quando adulto e um outro na idade mais avançada
».(167)
Podemos
também tomar e alargar o comentário de São Gregório Magno referindo-o à
extraordinária variedade de presenças na Igreja, todas e cada uma chamadas a
trabalhar para o advento do Reino de Deus segundo a diversidade de vocações e
da situações, carismas e ministérios. Trata-se de uma variedade ligada, não só
à idade, mas também à diferença de sexo e à diversidade dos dons, como
igualmente às vocações e às condições de vida; é uma variedade que torna mais
viva e concreta a riqueza da Igreja.
Jovens, crianças,
idosos
Os jovens,
esperança da Igreja
46. O
Sínodo quis prestar uma atenção especial aos jovens. E justamente. Em
tantos países do mundo, eles representam a metade de toda a população e, muitas
vezes, a metade numérica do próprio Povo de Deus que vive nesses países. Já sob
esse ponto de vista, os jovens constituem uma força excepcional e são um grande
desafio para o futuro da Igreja. Nos jovens, efectivamente, a Igreja lê o
seu caminho para o futuro que a espera e encontra a imagem e o convite daquela
alegre juventude com que o Espírito de Cristo constantemente a enriquece. Nesse
sentido, o Concílio definiu os jovens como « esperança da Igreja ».(168)
Na carta
que escrevi aos jovens e às jovens do mundo, a 31 de Março de 1985, lê-se: « A
Igreja olha para os jovens; antes, a Igreja, de um modo especial, vê-se a si
mesma nos jovens, em todos vós e, ao mesmo tempo, em cada uma e em cada um
de vós. Foi assim desde o princípio, desde os tempos apostólicos. As palavras
de São João na sua Primeira Carta podem dar disso um especial
testemunho: «Escrevo a vós, jovens, porque vencestes o maligno. Escrevi-vos
a vós, filhinhos, porque conhecestes o Pai... Escrevi-vos a vós, jovens,
porque sois fortes, e a palavra de Deus habita em vós» (1 Jo
2, 13 ss.)... Na nossa geração, ao fim do segundo milénio depois de Cristo,
também a Igreja vê-se a si mesma nos jovens ».(169)
Os jovens
não devem ser considerados simplesmente como o objecto da solicitude pastoral
da Igreja: são de facto e devem ser encorajados a ser sujeitos activos, protagonistas
da evangelização e artífices da renovação social.(170) A juventude é o
tempo de uma descoberta particularmente intensa do próprio « eu » e do
próprio « projecto de vida », é o tempo de um crescimento que deve
realizar-se « em sabedoria, idade e graça diante de Deus e dos homens » (Lc
2, 52).
Como
disseram os Padres sinodais, « a sensibilidade dos jovens intui profundamente
os valores da justiça, da não-violência e da paz. O seu coração está aberto à
fraternidade, à amizade e à solidariedade. Deixam-se mobilizar ao máximo em
favor das causas que concernem a qualidade da vida e a conservação da natureza.
Mas, estão eles também cheios de inquietações, de desilusões, angústias e
receios do mundo, para além das tentações próprias do seu estado ».(171)
A Igreja
deve reviver o amor de predilecção que Jesus mostrou ao jovem do Evangelho: «
Jesus, olhando para ele, amou-o » (Mc 10, 21). Por isso, a Igreja
não se cansa de anunciar Jesus Cristo, proclamar o Seu Evangelho como a única e
superabundante resposta às mais radicais aspirações dos jovens, como a proposta
forte e entusiasta de um seguimento pessoal (« vem e segue-Me» [Mc 10,
21]), que comporta a vivência do amor filial de Jesus pelo Pai e a participação
na salvação da humanidade.
A Igreja
tem tantas coisas para dizer aos jovens, e os jovens tem tantas coisas a dizer
à Igreja. Este diálogo recíproco, que deverá fazer-se com grande
cordialidade, clareza e coragem, favorecerá o encontro e o intercâmbio das
gerações, e será fonte de riqueza e de juventude para a Igreja e para a
sociedade civil. Na sua mensagem aos jovens o Concílio diz: « A Igreja olha
para vós com confiança e amor... Ela é a verdadeira juventude do mundo... Olhai
para ela e nela encontrareis o rosto de Cristo ».(172)
As crianças
e o reino dos céus
47. As
crianças são, certamente, o alvo do amor delicado e generoso do Senhor Jesus: a
elas reserva a Sua bênção e, ainda mais, assegura-lhes o Reino dos céus (cf. Mt
19, 13-15; Mc 10, 14). Em particular, Jesus exalta o papel activo
que as crianças têm no Reino de Deus: são o símbolo eloquente e a esplêndida
imagem daquelas condições morais e espirituais que são essenciais para se
entrar no Reino de Deus e para viver a sua lógica de total abandono ao Senhor:
« Em verdade vos digo: se não vos converterdes e não vos tornardes como as
crianças, não entrareis no Reino dos céus. Pois quem se tornar pequenino como
esta criança será grande no Reino dos céus. E quem acolher uma só destas
crianças em Meu nome, acolhe-Me a Mim » (Mt 18, 3-5; cf. Lc 9,
48).
As
crianças são a lembrança constante de que a fecundidade missionária da Igreja
tem a sua raiz vivificadora, não nos meios e nos merecimentos humanos, mas no
dom totalmente gratuito de Deus. A vida de inocência e de graça das crianças, e
também os sofrimentos injustos de que são vítimas, são, em virtude da cruz de
Cristo, um enriquecimento espiritual para elas e para toda a Igreja: devemos
todos tornar mais viva e grata consciência desse facto.
Deve
reconhecer-se, além disso, que também à idade da infância e da adolescência se
abrem preciosas possibilidades operativas tanto para a edificação da Igreja
como para a humanização da sociedade. O que o Concílio diz sobre a presença
benéfica e construtiva dos filhos no seio da família « Igreja doméstica »: « Os
filhos, como membros vivos da família, também contribuem à sua maneira para a
santificação dos pais »,(173) deve repetir-se acerca das crianças em relação à
Igreja particular e universal. Já o observava João Gerson, teólogo e educador
do século xv, para quem « as crianças e os adolescentes não são por nada uma
parte insignificante na Igreja ».(174)
Os idosos
e o dom da sabedoria
48. As
pessoas idosas, muitas vezes injustamente tidas por inúteis se não mesmo um
peso insuportável, lembro que a Igreja lhes pede e delas espera que continuem a
sua missão apostólica e missionária, que não só é possível e obrigatória, mas,
de certo modo, tornada específica e original também nessa idade.
A Bíblia
gosta de apresentar o idoso como o símbolo da pessoa cheia de sabedoria e de
temor de Deus (cf. Sir 25, 4-6). Nesse sentido, o « dom » do idoso
poderia identificar-se com o de ser, na Igreja e na sociedade, a testemunha da
tradição da fé (cf. Sl 44, 2; Ex 12, 26-27), o mestre de vida
(cf. Sir 6, 34; 8, 11-12), o obreiro da caridade.
Hoje, o
número crescente de idosos nos vários países do mundo e a cessação anticipada
da actividade profissional e activa abrem um novo espaço ao trabalho apostólico
dos idosos: é um trabalho que deverá ser assumido superando decididamente a
tentação de se refugiar nostalgicamente num passado que não volta mais ou de,
por motivo das dificuldades encontradas, fugir dos empenhos presentes para o
mundo das constantes novidades; e consciencializando-se sempre mais de que a
sua função na Igreja e na sociedade não tem absolutamente paragens por razões
de idade, mas tão só modalidades novas. Como diz o Salmista: « Até na velhice
darão frutos, conservarão a sua seiva e o seu frescor, para anunciar quão justo
é o Senhor » (Sl 92, 15-16). Repito o que disse durante a celebração do
Jubileu dos Idosos: « A entrada na terceira idade deve considerar-se um
privilégio: não apenas porque nem todos têm a sorte de atingir essa meta, mas
também e sobretudo porque esse é o tempo das possibilidades concretas de pensar
melhor no passado, de conhecer e viver com maior profundidade o mistério
pascal, de se tornar, na Igreja, exemplo para todo o Povo de Deus... Apesar da
complexidade dos problemas que tendes para resolver, as forças que
progressivamente se vão enfraquecendo, e apesar das insuficiências das
organizações sociais, os atrasos da legislação oficial, as incompreensões de
uma sociedade egoísta, vós não estais nem deveis sentir-vos à margem da vida da
Igreja, elementos passivos de um mundo em movimento excessivo, mas sujeitos
activos de um período humanamente e espiritualmente fecundo da existência
humana. Tendes ainda uma missão para cumprir, um contributo a dar. Segundo o
plano divino, cada ser humano é uma vida em crescimento, desde a primeira centelha
da existência até ao último respiro ».(175)
Mulheres e
homens
49. Os
Padres sinodais dedicaram uma atenção especial à condição e ao papel da mulher,
num dúplice objectivo: reconhecer e convidar a que todos e mais uma vez
reconheçam o indispensável contributo da mulher na edificação da Igreja e no
progresso da sociedade; e elaborar, além disso, uma análise mais específica
acerca da participação da mulher na vida e na missão da Igreja.
Reportando-se
a João XXIII, que vê na tomada de consciência por parte da mulher da própria
dignidade e no acesso das mulheres às actividades públicas um sinal dos nossos
tempos,(176) os Padres do Sínodo afirmaram repetida e veementemente, perante as
mais variadas formas de descriminação e de marginalização a que se submete a mulher
pela simples razão de ser mulher, a urgência de defender e de promover a dignidade
pessoal da mulher e, portanto, a sua igualdade com o homem.
Se a todos
na Igreja e na sociedade pertence esta tarefa, em particular pertence às
mulheres, que devem sentir-se empenhadas como protagonistas em primeira linha.
Há ainda um enorme esforço a fazer, em muitas partes do mundo e em diversos
ambientes, para se destruir aquela injusta e deletéria mentalidade que
considera o ser humano como uma coisa, como um objecto de compra e venda, um
instrumento do interesse egoísta ou de puro prazer, tanto mais que a primeira
vítima dessa mentalidade é precisamente a própria mulher. Pelo contrário, só o
claro reconhecimento da dignidade pessoal da mulher constitui o primeiro passo
a dar-se para promover a sua plena participação, tanto na vida eclesial como na
social e pública. Deve dar-se uma resposta mais ampla e decisiva à exigência
feita na Exortação Familiaris consortio acerca das
múltiplasdescriminações de que são vítimas as mulheres: « que por parte de
todos se empreenda uma acção pastoral específica, mais vigorosa e incisiva,
para debelá-las definitivamente, por forma a alcançar a plena estima da imagem
de Deus que brilha em todos os seres humanos, nenhum excluído ».(177) Na mesma
linha, os Padres sinodais afirmaram: « A Igreja, como expressão da sua missão,
deve opor-se firmemente a todas as formas de discriminação e de abuso das
mulheres ».(178) E ainda: « A dignidade da mulher, gravemente ferida na opinião
pública, deve ser recuperada através do respeito efectivo dos direitos da
pessoa humana e da prática da doutrina da Igreja ».(179)
Em
particular, sobre a participacão activa e responsável na vida e na missão da
Igreja, sublinhe-se como já o Concílio Vaticano II tenha sido deveras
explícito em reclamá-lo: « Já que, nos nossos dias, as mulheres tomam cada vez
mais parte activa em toda a vida da sociedade, reveste-se de grande importância
uma sua mais larga participação nos vários campos do apostolado da Igreja
».(180)
A consciência
de que a mulher, com os dons e as funções que lhe são próprias, tem uma
vocação específica própria cresceu e aprofundou-se no período pós —
conciliar, encontrando a sua inspiração mais original no Evangelho e na
história da Igreja. Para o crente, com efeito, o Evangelho, isto é, a palavra e
o exemplo de Jesus Cristo, continua a ser o ponto de referência necessário e
decisivo: e é deveras fecundo e inovador também para o actual momento
histórico.
Embora não
tendo sido chamadas para o apostolado próprio dos Doze e, portanto, para o
sacerdócio ministerial, muitas mulheres acompanham Jesus no Seu ministério e
dão assistência ao grupo dos Apóstolos (cfr. Lc 8, 2-3); estão
presentes ao pé da Cruz (Lc 23, 49); assistem à sepultura de
Jesus (cfr. Lc 23, 55) e, na madrugada de Páscoa, recebem e transmitem o
anúncio da ressurreição (cfr. Lc 24, 1-10); rezam com os Apóstolos no
Cenáculo à espera do Pentecostes (Act 1, 14).
Na peugada
do Evangelho, a Igreja das origens diferenciou-se da cultura do tempo e confia
à mulher tarefas ligadas à evangelização. Nas suas Cartas, o apóstolo Paulo
cita, até pelo nome, numerosas mulheres pelas suas variadas funções no seio e
ao serviço das primeiras comunidades eclesiais (cfr. Rom 16, 1-15; Fil
4, 2-3; Col 4, 15 e 1 Cor 11, 5; 1 Tim 5, 16). « Se o
testemunho dos Apóstolos fundamenta a Igreja — disse Paulo VI — o das mulheres
contribui para alimentar a fé das comunidades cristãs ».(181)
E como nas
origens, assim na evolução sucessiva, a Igreja teve sempre, mesmo se de modos
diferentes e com diversas acentuações, mulheres que desempenharam um papel, por
vezes decisivo, e realizaram tarefas de considerável valor para a própria
Igreja. É uma história de imensa operosidade, o mais das vezes humilde e
escondida, mas nem por isso menos decisiva para o crescimento e para a
santidade da Igreja. É necessário que essa história continue e, mesmo, se
alargue e intensifique perante a crescente e universal consciência da dignidade
pessoal da mulher e da sua vocação, bem como perante a urgência de uma « nova
evangelização » e de uma maior « humanização » das relações sociais.
Recolhendo
a herança do Concílio Vaticano II, onde se reflecte a mensagem do Evangelho e
da história da Igreja, os Padres do Sínodo formularam, entre outras, esta clara
« recomendação »: « É necessário que a Igreja, pela sua vida e pela sua missão,
reconheça todos os dons das mulheres e dos homens e os traduza em prática
».(182) E ainda: « Este Sínodo proclama que a Igreja exige o reconhecimento e a
utilização de todos esses dons, experiências e aptidões dos homens e das
mulheres para que a sua missão se torne mais eficaz (cfr. Congregação da
Doutrina da Fé, Instructio de libertate christiana et liberatione, 72)
».(183)
Fundamentos
antropológicos e teológicos
50. A
condição para assegurar a justa presença da mulher na Igreja e na sociedade é a
análise mais penetrante e mais cuidada dos fundamentos antropológicos da
condicão masculina e feminina, de forma a determinar a identidade pessoal
própria da mulher na sua relação de diversidade e de recíproca
complementariedade com o homem, não só no que se refere às posições que deve
manter e às funções que deve desempenhar, mas também e mais profundamente no
que concerne a sua estrutura e o seu significado pessoal. Os Padres sinodais
sentiram vivamente essa exigência ao afirmarem que « os fundamentos
antropológicos e teológicos precisam ser estudados a fundo em vista da solução
dos problemas relativos ao verdadeiro significado e à dignidade de ambos os
sexos ».(184)
Empenhada
na reflexão sobre os fundamentos antropológicos e teológicos da condição
feminina, a Igreja intervém no processo histórico dos vários movimentos de
promoção da mulher e, descendo às próprias raízes do seu ser pessoal, dá-lhe o
seu mais precioso contributo. Mas, antes e sobretudo, a Igreja entende com isso
obedecer a Deus que, ao criar o homem « à Sua imagem », « homem e mulher os
criou » (Gn 1, 27); e assim entende responder à chamada de Deus que a
convida a conhecer, a admirar e a viver o Seu desígnio. É um desígnio que foi «
no princípio » indelevelmente impresso no próprio ser da pessoa humana — homem
e mulher — e, portanto, nas suas estruturas significativas e nos seus
dinamismos profundos. É precisamente esse desígnio, sapientíssimo e amoroso,
que deve ser explorado em toda a riqueza do seu conteúdo: é a riqueza que desde
o « princípio » se veio progressivamente manifestando e actuando ao longo de
toda a história da salvação e que culminou na « plenitude do tempo », quando «
Deus mandou o Seu Filho, nascido de mulher » (Gal 4, 4). Essa «
plenitude » continua na história: a leitura do desígnio de Deus acerca da
mulher é feita continuamente e deverá continuar a fazer-se na fé da Igreja,
graças também à vida que tantas mulheres cristãs viveram. Sem esquecer o contributo
que podem dar as várias ciências humanas e as diferentes culturas: estas,
graças a um discernimento iluminado, poderão ajudar a intuir e a definir os
valores e as exigências que pertencem à essência perene da mulher e os que
estão ligados à evolução histórica das próprias culturas. Como nos recorda o
Concílio Vaticano II, « a Igreja afirma que por baixo de todas as mudanças há
muita coisa que não muda, por ter o seu fundamento último em Cristo, que é
sempre o mesmo: ontem, hoje e nos séculos (cfr. Heb 13, 8) » (185)
Sobre os
fundamentos antropológicos e teológicos da dignidade pessoal da mulher
debruça-se a Carta Apostólica sobre a dignidade e a vocação da mulher. O
documento que retoma, continua e especifica as reflexões da catequese das
Quartas-Feiras, dedicada, por muito tempo, à « teologia do corpo », pretende
ser, ao mesmo tempo, o cumprimento de uma promessa feita na encíclica Redemptoris
mater (186) e a resposta ao pedido dos Padres sinodais.
A leitura
da Carta Mulieris dignitatem, também pelo seu carácter de meditação
bíblico-teológica, poderá ser um estímulo para todos, homens e mulheres, e em
particular para os que cultivam as ciências humanas e as disciplinas
teológicas, a fim de se avançar no estudo crítico e aprofundar sempre mais, na
base da dignidade pessoal do homem e da mulher e da sua recíproca relação, os
valores e os dons específicos da feminidade e da masculinidade, não apenas a
nível da vivência social, mas também e sobretudo da existência cristã e
eclesial.
A
meditação sobre os fundamentos antropológicos e teológicos da condição da
mulher deve iluminar e guiar a resposta cristã à pergunta tão comum e, por
vezes, tão aguda, sobre o «espaço » que a mulher pode e deve ter na Igreja e
na sociedade.
Da palavra
e do comportamento de Cristo, que são normativos para a Igreja, resulta com
grande clareza que nenhuma discriminação existe no plano da relação com Cristo,
no qual « não há homem nem mulher, pois todos vós sois um só em Cristo Jesus »
(Gal 3, 28) e no plano da participação na vida e na santidade da Igreja,
como muito bem afirma a profecia de Joel realizada no Pentecostes: « Eu
derramarei o Meu espírito sobre cada homem e profetizarão os vossos filhos e as
vossas filhas » (Jl 2, 28; cf. Act 2, 17 ss.). Como se lê na
Carta Apostólica sobre a dignidade e a vocação da mulher: « Ambos — a mulher
como o homem — são objecto, em igual medida, da dádiva da verdade divina e do
amor no Espírito Santo. Ambos recebem as Suas "visitas" salvadoras e
santificadoras ».(187)
Missão na
Igreja e no mundo
51.
Quanto, pois, à participação na missão apostólica da Igreja, não há dúvida de
que, por força do Baptismo e do Crisma, a mulher — como o homem — torna-se
participante no tríplice múnus de Jesus Cristo Sacerdote, Profeta e Rei e,
portanto, é habilitada e vocacionada para o apostolado fundamental da Igreja: a
evangelização. Por outra parte, precisamente na realização desse
apostolado, a mulher é chamada a pôr em prática os seus « dons » próprios:
antes de mais, o dom que é a sua própria dignidade pessoal, através da palavra
e do testemunho de vida; os dons, portanto, relacionados com a sua vocação
feminina.
Para
participar na vida e na missão da Igreja, a mulher não pode receber o sacramento
da Ordem e, por isso, não pode desempenhar as funções próprias do
sacerdócio ministerial. Esta é uma disposição que a Igreja sempre encontrou na
clara vontade, totalmente livre e soberana, de Jesus Cristo que chamou apenas
homens para Seus apóstolos; (188) uma disposição que pode encontrar luz na
relação entre Cristo Esposo e a Igreja Esposa.(189) Estamos na esfera da função
e não na da dignidade e da santidade. Deve, na verdade,
afirmar-se: « Embora a Igreja possua uma estrutura «hierárquica", essa
estrutura, todavia, está totalmente ordenada para a santidade dos membros em
Cristo ».(190)
Mas, como
já dizia Paulo VI, se « nós não podemos mudar o comportamento de Nosso Senhor
nem a chamada que Ele dirigiu às mulheres, devemos, porém, reconhecer e
promover o papel da mulher na sua missão evangelizadora e na vida da comunidade
cristã ».(191)
É
absolutamente necessário que se passe do reconhecimento teórico da
presença activa e responsável da mulher na Igreja à realização prática. E
é neste claro sentido que deverá ler-se a presente Exortação que se dirige aos
fiéis leigos, com a deliberada e repetida especificação « homens e mulheres ».
Também o novo Código de Direito Canónico contém múltiplas disposições sobre a
participação da mulher na vida e na missão da Igreja: são disposições que
precisam de ser mais comummente conhecidas e de serem postas em prática, embora
segundo as diversas sensibilidades culturais e oportunidades pastorais, com
maior celeridade e resolução.
Veja-se,
por exemplo, a participação das mulheres nos Conselhos pastorais diocesanos e
paroquiais, assim como nos Sínodos diocesanos e nos Concílios particulares.
Nesse sentido, os Padres sinodais escreveram: « As mulheres participem na vida
da Igreja sem discriminação alguma, também nas consultas e na elaboração de
decisões ».(192) E ainda: « As mulheres, que já têm tanta importância na
transmissão da fé e na prestação de serviços de toda a espécie na vida da
Igreja, devem ser associadas à preparação dos documentos pastorais e das
iniciativas missionárias e devem ser reconhecidas como cooperadoras da missão da
Igreja na família, na profissão e na comunidade civil ».(193)
No âmbito
mais específico da evangelização e da catequese, deverá promover-se com maior
força a função particular que a mulher tem na transmissão da fé, não só na
família, mas também nos mais variados lugares educativos e, em termos mais
vastos, em tudo o que concerne o acolhimento da Palavra de Deus, a sua
compreensão e a sua comunicação, também através do estudo, da investigação e da
docência da teologia.
Ao
desempenhar a sua tarefa de evangelização, a mulher sentirá mais viva a
necessidade de ser evangelizada. Assim, com « os olhos iluminados pela fé »
(cf. Ef 1, 18), a mulher poderá distinguir entre o que verdadeiramente
responde à sua dignidade pessoal e à sua vocação e tudo o que, talvez sob o
pretexto dessa « dignidade » e em nome da « liberdade » e do « progresso », faz
com que a mulher não contribua para o fortalecimento dos verdadeiros valores,
mas, pelo contrário, se torne responsável da degradação moral das pessoas, dos
ambientes e da sociedade. Realizar um tal « discernimento » é uma urgência
histórica inadiável e, ao mesmo tempo, uma possibilidade e uma exigência que
derivam da participação no múnus profético de Cristo e da Sua Igreja por parte
da mulher cristã. O « discernimento », de que fala muitas vezes o apóstolo
Paulo, não consiste apenas numa avaliação das realidades e dos acontecimentos à
luz da fé; é também uma decisão concreta e um empenhamento operativo, não só no
ambito da Igreja, mas também no da sociedade humana.
Pode afirmar-se
que todos os problemas do mundo contemporâneo, de que já falava a segunda parte
da Constituição conciliar Gaudium et spes e que com o tempo não foram
por nada resolvidos nem atenuados, devem contar com a presença e o empenho das
mulheres e, precisamente, com o seu contributo típico e insubstituível.
Em
particular, duas grandes tarefas confiadas à mulher merecem ser novamente
postas à atenção de todos.
A tarefa,
antes de mais, de dar plena dignidade à vida matrimonial e à maternidade. Novas
possibilidades se abrem hoje à mulher para uma compreensão mais profunda e para
uma realização mais rica dos valores humanos e cristãos implicados na vida
conjugal e na experiência da maternidade: o próprio homem — o marido e o pai —
pode superar formas episódicas e unilaterais de absentismo ou de presença,
mais, pode envolver-se em novas e significativas relações de comunhão
interpessoal, precisamente graças à intervenção inteligente, amorosa e decisiva
da mulher.
E, depois,
a tarefa de assegurar a dimensão moral da cultura, isto é, a dimensão de
uma cultura digna do homem, da sua vida pessoal e social. O Concílio
Vaticano II parece relacionar a dimensão moral da cultura com a participação
dos leigos no múnus real de Cristo: « Os leigos, também pela união das próprias
forças, devem sanear às estruturas e as condições do mundo, se elas porventura
propendem a levar ao pecado, de tal modo que todas se conformem às normas da
justiça e, antes, ajudem ao exercício das virtudes, em vez de o estorvarem.
Agindo assim, informarão de valor moral a cultura e as obras do homem ».(194)
A medida
que a mulher participar activa e responsavelmente na função das instituições,
de que depende a salvaguarda do primado devido aos valores humanos na vida das
comunidades políticas, as palavras do Concílio acima citadas abrirão um
importante campo de apostolado da mulher: em todas as dimensões da vida dessas
comunidades, desde a dimensão sócio-económica à sócio-política, devem
respeitar-se e promover-se a dignidade pessoal da mulher e a sua vocação
específica: no âmbito não só individual, mas também comunitário; não apenas em
formas deixadas à liberdade responsável das pessoas, mas igualmente em formas
garantidas por leis civis justas.
« Não é
bom que o homem esteja só: vou dar-lhe um auxiliar semelhante a ele » (Gn
2, 18). A mulher Deus Criador confiou o homem. Sem dúvida, o homem foi
confiado a cada homem, mas de modo particular à mulher, porque precisamente a
mulher parece possuir, graças à experiência especial da sua maternidade, uma sensibilidade
específica para com o homem e para com tudo o que constitui o seu
verdadeiro bem, a começar pelo valor fundamental da vida. São tão grandes as
possibilidades e as responsabilidades da mulher neste campo, numa época em que
o progresso da ciência e da técnica nem sempre é inspirado a pautado pela
verdadeira sabedoria, com o risco inevitável de « desumanizar » a vida humana,
sobretudo quando ela exige um amor mais intenso e uma aceitação mais generosa!
A
participação da mulher na vida da Igreja e da sociedade, através dos seus dons,
constitui, ao mesmo tempo, a estrada necessária para a sua realização pessoal —
na qual justamente tanto se insiste — e o contributo original da mulher para o
enriquecimento da comunhão eclesial e para o dinamismo apostólico do Povo de
Deus.
Nesta
perspectiva deve considerar-se a presença também do homem ao lado da mulher.
Compresença
e colaboração dos homens e das mulheres
52. Não
faltou na aula sinodal a voz daqueles que manifestaram o receio de que uma
excessiva insistência sobre a condição e o papel das mulheres pudesse levar a
um inaceitável esquecimento: nomeadamente em relação aos homens. Na
verdade, várias situações eclesiais devem lamentar a ausência ou a presença
demasiado fraca dos homens, uma parte dos quais abdica das próprias
responsabilidades eclesiais, deixando-as ao cuidado exclusivo das mulheres,
como, por exemplo, a participação na oração litúrgica na Igreja, a educação e,
em especial, a catequese dos próprios filhos e das outras crianças, a presença
em encontros religiosos e culturais, a colaboração em iniciativas caritativas e
missionárias.
Torna-se,
assim, uma urgência pastoral conseguir-se a presença coordenada dos homens e
das mulheres para se tornar mais completa, harmónica e rica a participação dos
fiéis leigos na missão salvadora da Igreja.
A razão
fundamental que exige e explica a presença simultânea e a colaboração dos
homens e das mulheres não é unicamente, como se sublinhou acima, a maior
expressividade e eficácia da acção pastoral da Igreja; nem, tão pouco, o
simples dado sociológico de uma convivência humana que é naturalmente feita de
homens e de mulheres. É, sobretudo, o desígnio originário do Criador, que desde
o « princípio » quis o ser humano como « unidade de dois », quis o homem e a
mulher como primeira comunidade de pessoas, raiz de todas as outras comunidades
e, simultaneamente, como « sinal » daquela comunhão interpessoal de amor que
constitui a misteriosa vida íntima de Deus Uno e Trino.
Precisamente
por isso, o modo mais comum e capilar e, ao mesmo tempo, fundamental, para
assegurar essa presença coordenada e harmónica de homens e de mulheres na vida
e na missão da Igreja, é o exercício das tarefas e das responsabilidades do
casal e da família cristã, no qual transparece e se comunica a variedade das
diversas formas de amor e de vida: a forma conjugal, paterna e materna, filial
e fraterna. Lemos na Exortação Familiaris consortio: « Se a família
cristã é comunidade, cujos laços são renovados por Cristo através da fé e dos
sacramentos, a sua participação na missão da Igreja deve processar-se segundo
uma modalidade comunitária: juntos, portanto, os cônjuges enquanto
casal, os pais e os filhos enquanto família, devem prestar o seu
serviço à Igreja e ao mundo ... A família cristã edifica, assim, o Reino de
Deus na história, mediante aquelas mesmas realidades quotidianas que dizem
respeito à sua condição de vida e a identificam: é, portanto, no amor
conjugal e familiar — vivido na sua extraordinária riqueza de valores e de
exigências de totalidade, unicidade, fidelidade e fecundidade — que se exprime
e se realiza a participação da família cristã no múnus profético, sacerdotal e
real de Jesus Cristo e da Sua Igreja ».(195)
Colocando-se
nesta perspectiva, os Padres sinodais recordaram o significado que o sacramento
do Matrimónio deve assumir na Igreja e na sociedade a fim de iluminar e
inspirar todas as relações entre o homem e a mulher. Nesse sentido, reafirmaram
« a urgente necessidade de cada cristão viver e anunciar a mensagem de
esperança contida na relação entre o homem e a mulher. O sacramento do
Matrimónio, que consagra esta relação na sua forma conjugal e a revela como
sinal da relação de Cristo com a Sua Igreja, encerra uma doutrina de grande
importância para a vida da Igreja; essa doutrina deve atingir, por meio da
Igreja, o mundo de hoje; todas as relações entre o homem e a mulher se devem
alimentar desse espírito. A Igreja deve utilizar tais riquezas de forma ainda
mais plena ».(196) Os próprios Padres justamente sublinharam que « a estima da
virgindade e o respeito pela maternidade devem ambos ser recuperados »:(197)
uma vez mais, para o florescer de vocações diferentes e complementares no
contexto vivo da comunhão eclesial e ao serviço do seu constante crescimento.
Doentes e
atribulados
53. O
homem é destinado à alegria, mas todos os dias experimenta variadíssimas formas
de sofrimento e de dor. Na sua mensagem final, os Padres sinodais dirigiram-se
aos homens e às mulheres atingidos pelas mais diversas formas de sofrimento e
de dor, com estas palavras: « Vós, os abandonados e marginalizados pela nossa
sociedade de consumo: doentes, diminuídos físicos, pobres, famintos, emigrados,
refugiados, prisioneiros, desempregados, crianças abandonadas, pessoas sozinhas
e idosas; vós, vítimas da guerra e de toda a espécie de violência da nossa
sociedade permissiva. A Igreja participa no vosso sofrimento que conduz ao
Senhor, que vos associa à Sua Paixão redentora e vos faz viver à luz da Sua
Ressurreição. Contamos convosco para ensinar ao mundo inteiro o que é o amor.
Faremos tudo o que nos é possível para que encontreis o lugar a que tendes
direito na sociedade e na Igreja ».(198)
No
contexto de um mundo tão vasto como é o do sofrimento humano, consideramos em
especial os que são vítimas da doença nas suas diversas formas: com efeito, os
doentes são a expressão mais frequente e mais comum do sofrer humano.
A todos e
a cada um se dirige a chamada do Senhor: também os doentes são mandados como
trabalhadores para a Sua vinha. O peso que fatiga os membros do corpo e que
perturba a serenidade da alma, em vez de os impedir de trabalhar na vinha,
convida-os a viver a sua vocação humana e cristã e a participar no crescimento
do Reino de Deus com modalidades novas e mesmo preciosas. As palavras do
apóstolo Paulo devem tornar-se o seu programa e, ainda mais, a luz que faz
brilhar aos seus olhos o significado de graça da sua situação: « Completo na
minha carne o que falta à paixão de Cristo, em favor do Seu corpo, que é a
Igreja » (Col 1, 24). Precisamente ao fazer tal descoberta, o apóstolo
encontrou a alegria: « Por isso, alegro-me nos sofrimentos que suporto por
vossa causa » (Col 1, 24). Do mesmo modo, muitos doentes podem tornar-se
veículo da « alegria do Espírito Santo em muitas tribulações » (1 Tes 1,
6) e ser testemunhas da Ressurreição de Jesus. Como afirmou um diminuído físico
na sua intervenção na aula sinodal, « é de grande importância sublinhar o facto
de que os cristãos que vivem em situações de doença, dor e velhice, não são
convidados por Deus apenas a unir a sua dor à Paixão de Cristo, mas também a
receber desde já em si mesmos e a transmitir aos outros a força da renovação e
a alegria de Cristo ressuscitado (cf. 2 Cor 4, 10-11; 1 Ped 4,
13; Rom 8, 18 ss.) ».(199)
Por sua
parte — como se lê na Carta Apostólica Salvifici doloris — « a Igreja,
que nasce do mistério da redenção na Cruz de Cristo, deve procurar encontrar-se
com o homem, de modo especial, na estrada do seu sofrimento. Nesse encontro, o
homem "torna-se o caminho da Igreja", sendo este um dos caminhos mais
importantes ».(200) Ora, o homem que sofre é caminho da Igreja, por ser,
antes de mais, caminho do próprio Cristo, o bom Samaritano que « não passa
adiante », mas « se compadece, aproxima-se ... liga-lhe as feridas ... e cuida
dele » (Lc 10, 32-34).
A
comunidade cristã continuamente escreve, de século em século, na imensa
multidão das pessoas que estão doentes e que sofrem, a parábola evangélica do
bom Samaritano, revelando e comunicando o amor de Jesus Cristo que cura e que
consola. Fê-lo mediante o testemunho da vida religiosa consagrada ao serviço
dos doentes e mediante a acção incansável de todos os operadores de saúde.
Hoje, também nos próprios hospitais e casas de saúde católicos, geridos por
pessoal religioso, torna-se cada vez mais numerosa e, por vezes, até total e
exclusiva a presença dos fiéis leigos, homens e mulheres: eles mesmo, médicos,
enfermeiros, operadores de saúde, voluntários, são chamados a tornar-se a
imagem viva de Cristo e da Sua Igreja no amor para com os doentes e os que
sofrem.
Acção
pastoral renovada
54. É
necessário que esta preciosissima herança, que a Igreja recebeu de Jesus Cristo
« médico do corpo e do espírito »,(201) não só não esmoreça, mas se valorize e
enriqueça cada vez mais com a recuperação e o decidido arrojo de uma acção
pastoral em favor dos doentes e dos que sofrem. Deve ser uma acção capaz de
garantir e promover atenção, proximidade, presença, escuta, diálogo, partilha e
ajuda concreta ao homem, nos momentos em que, por causa da doença e do
sofrimento, são postas à prova não só a sua confiança na vida mas também a sua
própria fé em Deus e no Seu amor de Pai. Este esforço pastoral tem a sua
expressão mais significativa na celebração sacramental com e em favor dos
doentes, como fortaleza na dor e na fraqueza, esperança no desespero, lugar de
encontro e de festa.
Um dos
objectivos fundamentais desta renovada e intensificada acção pastoral, que não
pode deixar de envolver, e de forma coordenada, todos os componentes da
comunidade eclesial, é considerar o doente, o diminuído fisico, o que sofre,
não simplesmente objecto do amor e do serviço da Igreja, mas sim, sujeito
activo e responsável da obra de evangelização e de salvação. Nesta
perspectiva, a Igreja tem uma boa nova a dar no seio da sociedade e da cultura
que, tendo perdido do sofrer humano, « censuram » todo o discurso sobre essa
dura realidade da vida. E a boa nova consiste no anúncio de que o sofrer pode
ter também um significado positivo para o homen e para a própria sociedade,
chamado, como é, a tornar-se uma forma de participação no sofrimento salvífico
de Cristo e na Sua alegria de Ressuscitado e, portanto, uma força de
santificação e de edificação da Igreja.
O anúncio
dessa boa nova será crível, quando não ficar simplesmente nos lábios, mas
passar para o testemunho da vida, tanto em todos aqueles que com amor cuidam
dos doentes, dos diminuídos físicos, dos que sofrem, como nestes mesmos,
tornados cada vez mais conscientes e responsáveis do seu lugar e da sua missão
na Igreja e para a Igreja.
A renovada
meditação da Carta Apostólica Salvifici doloris, de que recordamos as
linhas conclusivas, poderá ser de grande utilidade para que a « civilização do
amor » consiga dar flores e frutos no vasto mundo da dor humana: « É preciso,
portanto, que aos pés da Cruz do Calvário se juntem idealmente todos os que,
sofrendo, acreditam em Cristo e, de modo particular, aqueles que sofrem por
causa da sua fé n'Ele, que foi crucificado e que ressuscitou, para que a oferta
dos seus sofrimentos apresse o cumprimento da oração do mesmo Salvador pela
unidade de todos (cf. Jo 17, 11. 21-22). Juntem-se lá também os homens
de boa vontade, pois na Cruz está o "Redentor do homem", o Homem das
dores, que carregou em si os sofrimentos físicos e morais dos homens de todos
os tempos, para que no amor possam encontrar o sentido salvador do seu
sofrimento e as respostas válidas para todas as suas interrogações. Com
Maria, Mãe de Cristo, que estava ao pé da Cruz (cf.Jo 19,
25), nos detemos junto de todas as cruzes do homem de hoje... E pedimos a vós,
todos os que sofreis, que nos apoieis. Precisamente a vós, que sois
fracos, pedimos que vos torneis uma fonte de força para a Igreja e para
a humanidade. No terrível combate entre as forças do bem e as do mal, de que
nos dá espectáculo o nosso mundo contemporâneo, vença o vosso sofrimento em
união com a Cruz de Cristo! ».(202)
Estados de
vida e vocações
55.
Trabalhadores da vinha são todos os membros do Povo de Deus: os sacerdotes, os
religiosos e as religiosas, os fiéis leigos, todos simultaneamente objecto e
sujeito da comunhão da Igreja e da participação na sua missão de salvação.
Todos e cada um trabalham na única e comum vinha do Senhor com carismas e com
ministérios diferentes e complementares.
Já ao
nível do ser, ainda antes do nível do agir, os cristãos são vides da
única fecunda videira que é Cristo, são membros vivos do único Corpo do Senhor
edificado na força do Espírito. A nível do ser: não significa apenas através da
vida de graça e de santidade, que é a primeira e a mais rica fonte da
fecundidade apostólica e missionária da santa Madre Igreja; mas significa
também através do estado de vida que caracteriza os sacerdotes, os religiosos e
as religiosas, os membros dos Institutos seculares, os fiéis leigos.
Na
Igreja-Comunhão os estados de vida encontram-se de tal maneira interligados que
são ordenados uns para os outros. Comum, direi mesmo único, é, sem dúvida, o
seu significado profundo: o de constituir a modalidade segundo a qual se
deve viver a igual dignidade cristã e a universal vocação à santidade na
perfeição do amor. São modalidades, ao mesmo tempo, diferentes e
complementares, de modo que cada uma delas tem uma sua fisionomia original
e inconfundível e, simultaneamente, cada uma delas se relaciona com as outras e
se põe ao seu serviço.
Assim, o
estado de vida laical tem na índole secular a sua especificidade e
realiza um serviço eclesial ao testemunhar e ao lembrar, à sua maneira, aos
sacerdotes, aos religiosos e às religiosas, o significado que as coisas
terrenas e temporais têm no desígnio salvífico de Deus. Por sua vez, o
sacerdócio ministerial representa a garantia permanente da presença
sacramental de Cristo Redentor nos diversos tempos e lugares.
O estado religioso
testemunha a índole escatológica da Igreja, isto é, a sua tensão para o
Reino de Deus, que é prefigurado e, de certo modo, antecipado e pregustado nos
votos de castidade, pobreza e obediência.
Todos os
estados de vida, tanto no seu conjunto como cada um deles em relação com os
outros, estão ao serviço do crescimento da Igreja, são modalidades diferentes
que profundamente se unem no « mistério de comunhão » da Igreja e que
dinamicamente se coordenam na sua única missão.
Desse
modo, o único e idêntico mistério da Igreja revela e revive, na diversidade dos
estados de vida e na variedade das vocações, a riqueza infinita do mistério
de Jesus Cristo. Como gostam de repetir os Padres, a Igreja é como um campo
de fascinante e maravilhosa variedade de ervas, plantas, flores e frutos. Santo
Ambrósio escreve: « Um campo produz muitos frutos, mas melhor é o que está
cheio de frutos e de flores. Pois bem, o campo da Santa Igreja é fecundo nuns e
noutras. Aqui, podes ver as pérolas da virgindade dar flores; ali, dominar a
austera viuvez como as florestas na planície; além, a rica sementeira das
núpcias abençoadas pela Igreja encher os grandes celeiros do mundo com
abundantes colheitas, e os lagares do Senhor Jesus extravasar como de frutos de
viçosa videira, frutos de que são ricas as núpcias cristãs ».(203)
As várias
vocações laicais
56. A rica
variedade da Igreja encontra uma sua ulterior manifestação no seio de cada
estado de vida. Assim, dentro do estado de vida laical há lugar para várias
« vocações », isto é, diversos caminhos espirituais e apostólicos que dizem
respeito a cada fiel leigo. No trilho de uma vocação laical « comum » florescem
vocações laicais « particulares ». Neste âmbito podemos lembrar também a
experiência espiritual que recentemente amadureceu na Igreja com o desabrochar
de diversas formas de Institutos seculares: aos fiéis leigos, e também aos
próprios sacerdotes, abre-se a possibilidade de professar os conselhos
evangélicos de pobreza, castidade e obediência por meio dos votos ou das
promessas, conservando plenamente a própria condição laical e clerical.(204)
Como observaram os Padres sinodais, « o Espírito Santo suscita também outras
formas de doação de si mesmos, a que se entregam pessoas que permanecem
inteiramente na vida laical ». (205)
Podemos
concluir, relendo uma linda página de São Francisco de Sales, o qual promoveu
tanto a espiritualidade dos leigos.(206) Falando da « devoção », ou seja, da
perfeição cristã ou « vida segundo o Espírito », ele apresenta de uma forma
simples e esplêndida a vocação de todos os cristãos à santidade e, ao mesmo tempo,
a forma específica com que cada cristão a realiza: « Na criação Deus ordenou às
plantas que produzissem os seus frutos, cada uma " segundo a própria
espécie" (Gn 1, 11). A mesma ordem dá aos cristãos, que são as
plantas vivas da Sua Igreja, para produzirem frutos de devoção, cada um segundo
o seu estado e a sua condição. A devoção deve ser praticada de forma diferente
pelo cavalheiro, pelo operário, pelo doméstico, pelo príncipe, pela viúva, pela
mulher solteira e pela casada. Isso não basta, é preciso também conciliar a
prática da devoção com as forças, os empenhos e os deveres de cada pessoa... É
um erro, uma heresia mesmo, excluir do ambiente militar, da oficina dos
operários, da corte dos príncipes, das casas dos cônjuges, a prática da
devoção. É verdade, Filoteia, que a devoção puramente contemplativa, monástica
e religiosa só pode ser vivida nesses estados, mas, além destes três tipos de
devoção, há muitos outros capazes de tornar perfeitos os que vivem em condições
seculares. Por isso, onde quer que nos encontremos, podemos e devemos aspirar à
vida perfeita ».(207)
Colocando-se
na mesma linha, o Concílio Vaticano II escreve: « Esta espiritualidade dos
leigos deverá assumir características especiais, conforme o estado de
matrimónio e familiar, de celibato ou viuvez, situação de enfermidade,
actividade profissional e social. Não deixem, por isso, de cultivar
assiduamente as qualidades e dotes condizentes a essas situações, e utilizar os
dons por cada um recebidos do Espírito Santo ».(208)
O que vale
para as vocações espirituais vale também, e de certa forma com maior razão,
para as infinitas modalidades várias com que todos e cada um dos membros da
Igreja são trabalhadores da vinha do Senhor, edificando o Corpo místico de
Cristo. Na verdade, cada um é chamado pelo seu nome, na unicidade e
irrepetibilidade da sua história pessoal, a dar o próprio contributo para o
advento do Reino de Deus. Nenhum talento, nem mesmo o mais pequeno, pode ser
enterrado ou deixado inutilizado (cf. Mt 25, 24-27).
O apóstolo
Pedro adverte-nos: « cada qual viva segundo o carisma que recebeu, colocando-o
ao serviço dos outros, como bons administradores da multiforme graça de Deus »
(1 Ped 4, 10).
CAPÍTULO V
PARA QUE
DEIS MAIS FRUTO
A formação
dos fiéis leigos
Amadurecer
continuamente
57. A
imagem evangélica da videira e dos ramos mostra-nos um outro aspecto
fundamental da vida e da missão dos fiéis leigos: a chamada para crescer,
amadurecer continuamente, dar cada vez mais fruto.
Como
diligente agricultor, o Pai cuida da sua vinha. A presença carinhosa de Deus é
ardentemente invocada por Israel, que assim reza: « Voltai, Deus dos exércitos,
olhai do Céu e vede e visitai esta vinha, protegei a cepa que a vossa mão
direita plantou, o rebento que cultivastes » (Sl 80, 15-16). O próprio
Jesus fala da obra do Pai: « Eu sou a verdadeira videira e o Meu Pai é o
agricultor. Toda a vide que em Mim não der fruto, Ele corta-a, e limpa toda
aquela que dá fruto, para que dê mais fruto » (Jo 15, 1-2).
A
vitalidade das vides depende da sua ligação à videira, que é Jesus Cristo: « Quem
permanece em Mim e Eu nele, dá muito fruto, porque sem Mim não podeis fazer
nada » (Jo 15, 5).
O homem é
interpelado na sua liberdade pela chamada que Deus lhe faz para crescer,
amadurecer, dar fruto. Ele terá que responder, terá que assumir a própria
responsabilidade. É a essa responsabilidade, tremenda e sublime, que aludem as
palavras graves de Jesus: « Se alguém não permanecer em Mim, será lançado fora,
como a vide, e secará; lançá-lo-ão ao fogo e arderá » (Jo 15, 6).
Neste
diálogo entre Deus que chama e a pessoa interpelada na sua responsabilidade,
situa-se a possibilidade, antes, a necessidade de uma formação integral e
permanente dos fiéis leigos, a que os Padres sinodais justamente dedicaram
grande parte do seu trabalho. Em particular, depois de terem descrito a
formação cristã como « um contínuo processo pessoal de maturação na fé e de
configuração com Cristo, segundo a vontade do Pai, sob a guia do Espírito Santo
», claramente afirmaram que « a formação dos fiéis leigos deverá figurar entre
as prioridades da Diocese e ser colocada nos programas de acção
pastoral, de modo que todos os esforços da comunidade (sacerdotes, leigos e
religiosos) possam convergir para esse fim ».(209)
Descobrir
e viver a própria vocação e missão
58. A
formação dos fiéis leigos tem como objectivo fundamental a descoberta cada vez
mais clara da própria vocação e a disponibilidade cada vez maior para vivê-la
no cumprimento da própria missão.
Deus
chama-me e envia-me como trabalhador para a Sua vinha; chama-me e
envia-me a trabalhar para o advento do Seu Reino na história: esta vocação e
missão pessoal define a dignidade e a responsabilidade de cada fiel leigo e
constitui o ponto forte de toda a acção formativa, em ordem ao reconhecimento
alegre e agradecido de tal dignidade e ao cumprimento fiel e generoso de tal
responsabilidade.
Com
efeito, Deus, na eternidade, pensou em nós e amou-nos como pessoas únicas e
irrepetíveis, chamando cada um de nós pelo próprio nome, como o bom Pastor que «
chama pelo nome as suas ovelhas » (Jo 10, 3). Mas, o plano eterno de
Deus só se revela a cada um de nós na evolução histórica da nossa vida e das
suas situações, e, portanto, só gradualmente: num certo sentido, dia a dia.
Ora, para
poder descobrir a vontade concreta do Senhor sobre a nossa vida, são sempre
indispensáveis a escuta pronta e dócil da palavra de Deus e da Igreja, a oração
filial e constante, a referência a uma sábia e amorosa direcção espiritual, a
leitura, feita na fé, dos dons e dos talentos recebidos, bem como das diversas
situações sociais e históricas em que nos encontramos.
Na vida de
cada fiel leigo há, pois, momentos particularmente significativos e
decisivos para discernir o chamamento de Deus e para aceitar a missão que
Ele confia: entre esses momentos estão os da adolescência e da juventude.
Ninguém, todavia, esqueça que o Senhor, como o proprietário em relação aos
trabalhadores da vinha, chama — no sentido de tornar concreta e pontual a Sua
santa vontade — a todas as horas de vida: por isso, a vigilância, qual
cuidadosa atenção à voz de Deus, é uma atitude fundamental e permanente do
discípulo.
Não se
trata, no entanto, apenas de saber o que Deus quer de nós, de cada um de
nós, nas várias situações da vida. É preciso fazer o que Deus quer:
assim nos recorda a palavra de Maria, a Mãe de Jesus, dirigida aos criados de
Caná: « Fazei o que Ele vos disser » (Jo 2, 5). E para agir em
fidelidade à vontade de Deus, precisa ser capazes e tornar-se cada
vez mais capazes. Sem dúvida, com a graça do Senhor, que nunca falta, como
diz São Leão Magno: « Dará a força quem confere a dignidade! »; (210) mas
também com a colaboração livre e responsável de cada um de nós.
Eis a
tarefa maravilhosa e empenhativa que espera por todos os fiéis leigos, todos os
cristãos, sem paragem alguma: conhecer cada vez mais as riquezas da fé e do
Baptismo e vivê-las em plenitude crescente. O apóstolo Pedro, ao falar de
nascimento e de crescimento como sendo as duas etapas da vida cristã,
exorta-nos: « Como crianças recém-nascidas, desejai o leite espiritual, para
que ele vos faça crescer para a salvação» (1 Ped 2,2).
Uma
formação integral para viver em unidade
59. Ao
descobrir e viver a própria vocação e missão, os fiéis leigos devem ser
formados para aquela unidade, de que está assinalada a sua própria
situação de membros da Igreja e de cidadãos da sociedade humana.
Não pode
haver na sua existência duas vidas paralelas: por um lado, a vida chamada «
espiritual », com os seus valores e exigências; e, por outro, a chamada vida «
secular », ou seja, a vida da família, do trabalho, das relações sociais, do
empenhamento politico e da cultura. A vide, incorporada na videira que é
Cristo, dá os seus frutos em todos os ramos da actividade e da existência.
Pois, os vários campos da vida laical entram todos no desígnio de Deus, que os
quer como o « lugar histórico », em que se revela e se realiza a caridade de
Jesus Cristo para glória do Pai e ao serviço dos irmãos. Toda a actividade,
toda a situação, todo o empenho concreto — como, por exemplo, a competência e a
solidariedade no trabalho, o amor e a dedicação na família e na educação dos
filhos, o serviço social e político, a proposta da verdade na esfera da cultura
— são ocasiões providenciais de um « contínuo exercício da fé, da esperança e
da caridade ».(211)
O Concílio
Vaticano II convidou todos os fiéis leigos a viver esta unidade de vida, ao
denunciar com energia a gravidade da ruptura entre fé e vida, entre Evangelho e
cultura: « O Concílio exorta os cristãos, cidadãos de ambas as cidades, a que
procurem cumprir fielmente os seus deveres terrenos, guiados pelo espírito do
Evangelho. Erram os que, sabendo que não temos aqui na terra uma cidade
permanente, mas que vamos em demanda da futura, pensam que podem por isso
descuidar os seus deveres terrenos, sem atenderem a que a própria fé ainda os
obriga mais a cumpri-los, segundo a vocação própria de cada um ... O divórcio
que se nota em muitos entre a fé que professam e a sua vida quotidiana, deve
ser tido entre os mais graves erros do nosso tempo ».(212) Por isso, afirmei
que uma fé que não se torne cultura é uma fé « não plenamente recebida, não
inteiramente pensada, nem fielmente vivida ».(213)
Aspectos
da formação
60. Dentro
desta síntese de vida situam-se os múltiplos e coordenados aspectos da formação
integral dos fiéis leigos.
Não há
dúvida de que a formação espiritual deve ocupar um lugar privilegiado na
vida de cada um, chamado a crescer incessantemente na intimidade com Jesus
Cristo, na conformidade com a vontade do Pai, na dedicação aos irmãos, na
caridade e na justiça. Escreve o Concílio: a Esta vida de íntima união com
Cristo alimenta-se na Igreja com as ajudas espirituais que são comuns a todos
os fiéis, sobretudo a participação activa na sagrada Liturgia, e os leigos devem
socorrer-se dessas ajudas, de modo que, ao cumprir com rectidão os próprios
deveres do mundo, nas condições normais da vida, não separem da própria vida a
união com Cristo, mas, desempenhando a própria actividade segundo a vontade de
Deus, cresçam nela ».(214)
A formação
doutrinal dos fiéis leigos mostra-se hoje cada vez mais urgente, não só
pelo natural dinamismo de aprofundar a sua fé, mas também pela exigência de «
racionalizar a esperança » que está dentro deles, perante o mundo e os seus
problemas graves e complexos. Tornam-se, desse modo, absolutamente necessárias
uma sistemática acção de catequese, a dar-se gradualmente, conforme a
idade e as várias situações de vida, e uma mais decidida promoção cristã da cultura,
como resposta às eternas interrogações que atormentam o homem e a sociedade
de hoje.
Em
particular, sobretudo para os fiéis leigos, de várias formas empenhados no
campo social e político, é absolutamente indispensável uma consciência mais
exacta da doutrina social da Igreja, como repetidamente os Padres
sinodais recomendaram nas suas intervenções. Falando da participação política
dos fiéis leigos, assim se exprimiram: « Para que os leigos possam realizar
activamente este nobre propósito na política (isto é, o propósito de fazer
reconhecer e estimar os valores humanos e cristãos), não são suficientes as
exortações, é preciso dar-lhes a devida formação da consciência social,
sobretudo acerca da doutrina social da Igreja, a qual contém os princípios de
reflexão, os critérios de julgar e as directivas práticas (cf. Congregação para
a Doutrina da Fé, Instrução sobre liberdade cristã e libertação, 72). Tal
doutrina já deve figurar na instrução catequética geral, nos encontros
especializados e nas escolas e universidades. A doutrina social da Igreja é,
todavia, dinâmica, isto é, adaptada às circunstâncias dos tempos e lugares. É
direito e dever dos pastores propor os princípios morais, também sobre a ordem
social, e é dever de todos os cristãos dedicarem-se à defesa dos direitos
humanos; a participação activa nos partidos políticos é, todavia, reservada aos
leigos ».(215)
E,
finalmente, no contexto da formação integral e unitária dos fiéis leigos, é
particularmente significativo, para a sua acção missionária e apostólica, o
crescimento pessoal no campo dos valores humanos. Precisamente neste
sentido, o Concílio escreveu: « (os leigos) tenham também em grande conta a
competência profissional, o sentido da família, o sentido cívico e as virtudes
próprias da convivência social, como a honradez, o espírito de justiça, a
sinceridade, a amabilidade, a fortaleza de ânimo, sem as quais nem sequer se
pode dar uma vida cristã autêntica ».(216)
Ao
amadurecer a síntese orgânica da sua vida, que, simultaneamente, é expressão da
unidade do seu ser e condição para o cumprimento eficaz da sua missão, os fiéis
leigos serão interiormente conduzidos e animados pelo Espírito Santo, que é
Espírito de unidade e de plenitude de vida.
Colaboradores
de Deus educador
61. Quais
são os lugares e os meios da formação dos fiéis leigos? Quais as pessoas e
as comunidades chamadas a desempenhar a tarefa da formação integral e
unitária dos fiéis leigos?
Como a
acção educativa humana está intimamente ligada à paternidade e à maternidade,
assim a formação cristã encontra a sua raiz e força em Deus, O Pai que ama e
que educa os Seus filhos. Sim, Deus é o primeiro e o grande educador do Seu
Povo, como diz o maravilhoso passo do Cantico de Moisés: « Encontrou-o numa
região deserta, nas solidões ululantes e selvagens; protegeu-o e velou por ele.
Guardou-o como a menina dos Seus olhos. Como a águia vela pela sua ninhada ou
paira sobre os seus filhos, Ele estendeu as Suas asas para o recolher e levou-o
sobre as Suas asas. Só o Senhor o conduz e nenhum Deus estranho o ajuda » (Dt
32, 10-12; cf. 8, 5).
A acção
educativa de Deus revela-se e cumpre-se em Jesus, o Mestre, e atinge, por
dentro, o coração de cada homem, graças à presença dinâmica do Espírito. A Igreja
Mãe, tanto em si mesma, como nas suas diversas articulações e expressões, é
chamada a tomar parte na acção educativa divina. Assim, os fiéis leigos são
formados pela Igreja e na Igreja, numa recíproca comunhão e colaboração de
todos os seus membros: sacerdotes, religiosos e fiéis leigos. Desse modo, toda
a comunidade eclesial, nos seus vários membros, recebe a fecundidade do
Espírito e nela colabora activamente. Nesse sentido Metódio de Olimpo escrevia:
« Os imperfeitos ... são levados e formados, como no seio de uma mãe, pelos
mais perfeitos, a fim de serem gerados e nascerem para a grandeza e para a
beleza da virtude »,(217) como acontece com Paulo, trazido e introduzido na
Igreja pelos perfeitos (na pessoa de Ananias) e tornando-se, depois, também ele
perfeito e fecundo de tantos filhos.
Educadora
é, antes de mais, a Igreja universal, na qual o Papa desempenha o papel
de primeiro formador dos fiéis leigos. Cabe-lhe, como sucessor de Pedro, o
ministério de « confirmar na fé os irmãos », ensinando a todos os crentes os
conteúdos essenciais da vocação e missão cristã e eclesial. Não só a sua
palavra directa, mas também a sua palavra veiculada pelos documentos dos vários
Dicastérios da Santa Sé devem ser recebidos pelos fiéis leigos com docilidade e
amor.
A Igreja
una e universal está presente, nas várias partes do mundo, nas Igrejas
particulares. Em cada uma delas, o Bispo tem uma responsabilidade pessoal
em relação aos fiéis leigos, que deve formar mediante o anúncio da Palavra, a
celebração da Eucaristia e dos sacramentos, a animação e a orientação da sua
vida cristã.
Dentro da
Igreja particular ou diocese, encontra-se e actua a paróquia, que tem um
papel essencial na formação mais imediata e pessoal dos fiéis leigos.
Efectivamente, com uma relação que pode atingir mais facilmente cada pessoa e
cada grupo, a Paróquia é chamada a educar os seus membros para a escuta da
Palavra, para o diálogo litúrgico e pessoal com Deus, para a vida de caridade
perfeita, permitindo-lhes compreender, de forma mais directa e concreta, o
sentido da comunhão eclesial e da responsabilidade missionária.
Depois, no
seio de algumas Paróquias, sobretudo quando vastas e dispersas, as pequenas
comunidades eclesiais existentes podem dar uma ajuda notável na formação
dos cristãos, podendo tornar mais capilares e incisivas a consciência e a
experiência da comunhão e da missão edesial. Uma ajuda pode ser dada, como
disseram os Padres sinodais, também por uma catequese pós-baptismal, em forma
de catecumenado, através de uma ulterior proposta de certos conteúdos do «
Ritual da Iniciação Cristã dos Adultos », destinados a permitir uma maior
compreensão e vivência das imensas e extraordinárias riquezas e da
responsabilidade do Baptismo recebido.(218)
Na fomação
que os fiéis leigos recebem na diocese e na Paróquia, especialmente em ordem ao
sentido da comunhão e da missão, tem particular importância a ajuda que os
vários membros da Igreja se dão reciprocamente: é uma ajuda que, revela e
simultaneamente realiza o mistério da Igreja Mãe e Educadora. Os sacerdotes e
os religiosos devem ajudar os fiéis leigos na sua formação. Neste sentido, os
Padres do Sínodo convidaram os presbíteros e os candidatos às Ordens a «
prepararem-se diligentemente para serem capazes de favorecer a vocação e a
missão dos leigos ».(219) Por sua vez, os próprios fiéis leigos podem e devem
ajudar os sacerdotes e os religiosos no seu caminho espiritual e pastoral.
Outros
âmbitos educativos
62. Também
a família cristã, enquanto « Igreja doméstica », constitui uma escola
nativa e fundamental para a formação da fé: o pai e a mãe recebem do sacramento
do Matrimónio a graça e o ministério da educação cristã relativamente aos
filhos, aos quais testemunham e transmitem, simultaneamente, valores humanos e
valores religiosos. Ao aprenderem as primeiras palavras, os filhos aprendem
também a louvar a Deus, que sentem perto como Pai amoroso e providente; ao
aprenderem os primeiros gestos de amor, os filhos aprendem também a abrir-se
aos outros, recebendo no dom de si o sentido do viver humano. A própria vida
quotidiana de uma família autenticamente cristã constitui a primeira «
experiência de Igreja », destinada a confirmar-se e a progredir na gradual
inserção activa e responsável dos filhos na mais vasta comunidade eclesial e na
sociedade civil. Quanto mais os esposos e os pais cristãos crescerem na
consciência de que a sua « Igreja doméstica » participa na vida e na missão da
Igreja universal, tanto mais os filhos poderão ser formados para o « sentido da
Igreja » e experimentarão a beleza de dedicar as suas energias ao serviço do
Reino de Deus.
Lugares
importantes de formação são também as escolas e as universidades católicas, bem
como os centros de renovação espiritual que hoje se vão espalhando cada vez
mais. Como realçaram os Padres sinodais, no actual contexto social e histórico,
marcado por uma profunda transformação cultural, já não basta a participação —
sem dúvida, sempre necessária e insubstituível — dos pais cristãos na vida da
escola; é preciso preparar fiéis leigos que se dediquem à acção educativa como
a uma verdadeira e própria missão eclesial; é preciso formar e desenvolver «
comunidades educativas », constituídas por pais, professores, sacerdotes,
religiosos e religiosas e representantes dos jovens. E, para que a escola possa
desempenhar dignamente a sua função formativa, os fiéis leigos devem sentir-se
empenhados em exigir de todos e em promover para todos uma verdadeira liberdade
de educação, também mediante uma oportuna legislação civil.(220)
Os Padres
sinodais tiveram palavras de estima e de encorajamento para com todos os fiéis
leigos, homens e mulheres, que com espírito cívico e cristão desenvolvem uma
acção educativa na escola e nos institutos de formação. Realçaram, além disso,
a necessidade urgente de que os fiéis leigos, mestres e professores nas várias
escolas, católicas ou não, sejam verdadeiras testemunhas do Evangelho, com o
exemplo da vida, a competência e a rectidão profissional, a inspiração cristã
do ensino, salvaguardada sempre — como é evidente — a autonomia das várias
ciências e disciplinas. É de singular importancia que a investigação científica
e técnica, levada a cabo pelos fiéis leigos, seja orientada pelo critério do
serviço ao homem na totalidade dos seus valores e das suas exigências: a esses
fiéis leigos a Igreja confia a missão de tornar a todos mais compreensível a
íntima relação entre fé e ciência, entre Evangelho e cultura humana.(221)
« Este
Sínodo — lemos numa proposição — apela para o papel profético das escolas e das
universidades católicas e louva a dedicação dos mestres e dos docentes, hoje na
grande maioria leigos, para que nos institutos de educação católica possam
formar homens e mulheres que sejam encarnação do "mandamento novo". A
presença simultânea de sacerdotes e leigos, e também de religiosos e
religiosas, dá aos alunos uma imagem viva da Igreja e torna mais fácil o conhecimento
das suas riquezas (cf. Congregação da Educação Católica, O leigo educador,
testemunha da fé na escola) ».(222)
Também os
grupos, as associações e os movimentos têm o seu lugar na formação dos
fiéis leigos: têm, com efeito, a possibilidade, cada qual pelos próprios
métodos, de oferecer uma formação profundamente inserida na própria experiência
de vida apostólica, bem como a oportunidade de integrar, concretizar e
especificar a formação que os seus adeptos recebem de outras pessoas e
comunidades.
A formação
reciprocamente recebida e dada por todos
63. A
formação não é o privilégio de uns poucos, mas sim um direito e um dever para
todos. Os Padres sinodais disseram a propósito: « Ofereça-se a todos a
possibilidade da formação, sobretudo aos pobres, que podem ser, também eles,
fonte de formação para todos », e acrescentaram: « Para a formação, usem-se
meios aptos que ajudem cada um a realizar a plena vocação humana e cristã
».(223)
Em vista
de uma pastoral verdadeiramente incisiva e eficaz, deverá fomentar-se, mesmo
com a organização de cursos oportunos ou escolas específicas, a formação dos
formadores. Formar aqueles que, por sua vez, deverão ocupar-se da formação
dos fiéis leigos, constitui uma exigência primária para assegurar a formação
geral e capilar de todos os fiéis leigos.
Na acção
formativa, particular atenção deverá dar-se à cultura local, segundo explícito
convite dos Padres sinodais: « A formação dos cristãos terá na máxima conta a
cultura humana do lugar, a qual contribui para a própria formação e ajudará a
avaliar tanto o valor inerente à cultura tradicional, como o proposto pela
moderna. Dê-se a devida atenção também às várias culturas que possam coexistir
num mesmo povo e numa mesma nação. A Igreja, Mãe e Mestra dos povos, onde for
caso disso, esforçar-se-á por salvar a cultura das minorias que vivem nas
grandes nações ».(224)
Na acção
formativa, certas convicções tornam-se particularmente necessárias e fecundas.
Antes de mais, a convicção de que não se dá formação verdadeira e eficaz se cada
qual não assumir e não desenvolver por si mesmo a responsabilidade da formação,
pois, esta configura-se essencialmente como « auto-formação ».
A
convicção, além disso, de que cada um de nós é o termo e, simultaneamente, o
princípio da formação: quanto mais somos formados, mais sentimos a exigência de
continuar a melhorar a formação; assim como, quanto mais somos formados, mais
nos tornamos capazes de formar os outros.
De
singular importância é a consciência de que a acção formativa, ao recorrer com
inteligência aos meios e aos métodos das ciências humanas, é tanto mais eficaz
quanto mais for aberta à acção de Deus: só a vide que não tem medo de se
deixar podar pelo agricultor é que dá mais fruto para si e para os outros.
Apelo e
oração
64. Ao
concluir este documento pós-sinodal, lanço, uma vez mais, o convite do «
proprietário », de que nos fala o Evangelho: Ide vós também para a minha
vinha. Pode dizer-se que o significado do Sínodo sobre a vocação e a missão
dos leigos está mesmo neste apelo que o Senhor Jesus faz a todos, em
especial aos fiéis leigos, homens e mulheres.
Os
trabalhos sinodais constituíram para todos os que neles participaram uma grande
experiência espiritual: a de uma Igreja atenta, na luz e na força do Espírito,
em discernir e acolher o renovado apelo do seu Senhor, no sentido de novamente
propor ao mundo de hoje o mistério da Sua comunhão e o dinamismo da Sua missão
de salvação, em particular, descobrindo o lugar e o papel específicos dos fiéis
leigos. O fruto, portanto, do Sínodo, que esta Exortação pretende conseguir que
seja o mais abundante possível em todas as Igrejas espalhadas pele mundo, será
dado pela efectiva aceitação que o apelo do Senhor receber por parte de todo o
Povo de Deus e, nele, por parte dos fiéis leigos.
Por isso,
dirijo a todos e a cada um, pastores e fiéis, a vivíssima exortação de que
nunca se cansem em manter desperta, antes, enraízem cada vez mais na mente, no
coração e na vida a consciência eclesial, isto é, a consciência de serem
membros da Igreja de Jesus Cristo, participantes no seu mistério de comunhão e
na sua energia apostólica e missionária.
É de
particular importância que todos os cristãos tenham consciência da dignidade
extraordinária que lhes foi conferida no santo Baptismo: pela graça somos
chamados a tornarmo-nos filhos amados do Pai, membros incorporados em Jesus
Cristo e na Sua Igreja, templos vivos e santos do Espírito. Ouçamos de novo,
com comoção e gratidão, as palavras de João Evangelista: « Com que amor nos
amou o Pai, ao querer que fôssemos chamados filhos de Deus. E, de facto,
somo-lo » (1 Jo 3, 1).
Esta «
novidade cristã » dada aos membros da Igreja, ao constituir para todos a raiz
da sua participação no múnus sacerdotal, profético e real de Cristo e da sua
vocação à santidade no amor, exprime-se e realiza-se nos fiéis leigos segundo «
a índole secular » que lhes é própria e peculiar.
A
consciência eclesial comporta, juntamente com o sentido da comum dignidade
cristã, o sentido de pertencer ao mistério da Igreja-Comunhão: este é um
aspecto fundamental e decisivo para a vida e para a missão da Igreja. A
fervorosa oração de Jesus na última ceia: « Ut unum sint! » deve
tornar-se, todos os dias, para todos e para cada qual, um exigente programa de
vida e de acção, a que não se pode renunciar.
O sentido
vivo da comunhão eclesial, dom do Espirito que pede a nossa resposta livre,
terá como seu fruto precioso a valorização harmónica na Igreja « una e católica
» da rica variedade das vocações e condições de vida, dos carismas, dos
ministérios e das tarefas e responsabilidades, como também uma mais convicta e
decidida colaboração dos grupos, associações e movimentos de fiéis leigos no
cumprimento solidário da comum missão salvífica da própria Igreja. Esta
comunhão é já, em si mesma, o primeiro grande sentido da presença de Cristo
Salvador no mundo e, ao mesmo tempo, favorece e estimula a directa acção
apostólica e missionária da Igreja.
As portas
do terceiro milénio, toda a Igreja, pastores e fiéis, deve sentir mais forte a
sua responsabilidade em obedecer à ordem de Cristo: « Ide por todo o mundo e
pregai o Evangelho a toda a criatura » (Mc 16, 15), renovando o seu
impulso missionário. Uma grande, empenhativa e magnifica tarefa é confiada à
Igreja: a de uma nova evangelização, de que o mundo actual tem tanta
necessidade. Os fiéis leigos devem sentir-se parte viva e responsável desta
tarefa, chamados como são a anunciar e a viver o Evangelho ao serviço dos
valores e das exigências da pessoa e da sociedade.
O Sínodo
dos Bispos, celebrado no mês de Outubro, durante o Ano Mariano, confiou os seus
trabalhos, de modo muito especial, à intercessão de Maria Santíssima, Mãe do
Redentor. Agora, confio a essa mesma intercessão a fecundidade espiritual dos
frutos do Sínodo. A Virgem me dirijo no fim deste documento pós-sinodal, em
união com os Padres e os fiéis leigos presentes no Sínodo e com todos os outros
membros do Povo de Deus. O apelo torna-se oração.
Ó Virgem
santíssima,
Mãe de
Cristo e Mãe da Igreja,
com
alegria e admiração
nos unimos
ao teu Magnificat,
ao teu
canto de amor reconhecido.
Contigo
damos graças a Deus,
« cuja
misericórdia se estende
de geração
em geração »,
pela
maravilhosa vocação
e pela
multiforme missão
dos fiéis
leigos,
que Deus
chamou pelo seu nome
para
viverem em comunhão de amor
e de santidade
com Ele
e para
estarem fraternamente unidos
na grande
família dos filhos de Deus,
enviados a
irradiar a luz de Cristo
e a
comunicar o fogo do Espírito,
em todo o
mundo,
por meio
da sua vida evangélica.
Virgem do
Magnificat,
enche os
seus corações
de gratidão
e de entusiasmo
por essa
vocação e per essa missão.
Tu que
foste,
com
humildade e magnanimidade,
« a serva
do Senhor »,
dá-nos a
tua mesma disponibilidade
para o
serviço de Deus
e a
salvação do mundo.
Abre os
nossos corações
às imensas
perspectivas
do Reino
de Deus
e do
anúncio do Evangelho
a toda a
criatura.
No teu
coração de mãe
estão
presentes os tantos perigos
e os
muitos males
que
esmagam os homens e as mulheres
do nosso
tempo.
Mas, estão
presentes também
as tantas
iniciativas de bem,
as grandes
aspirações aos valores,
os
progressos feitos
em dar
abundantes frutos de salvação.
Virgem
corajosa,
inspira-nos
força de ânimo
e
confiança em Deus,
para que
saibamos vencer
todos os
obstáculos que encontramos
no
cumprimento da nossa missão.
Ensina-nos
a tratar as realidades do mundo
com vivo
sentido de responsabilidade cristã
e na
alegre esperança
da vinda
do Reino de Deus,
dos novos
ceús e da nova terra.
Tu que
estiveste no Cenáculo
com os
Apóstolos em oração,
à espera
da vinda do Espírito de Pentecostes,
invoca a
Sua renovada efusão
sobre
todos os fiéis leigos, homens e mulheres,
para que
correspondam plenamente
à sua
vocação e missão,
como vides
da « verdadeira videira »,
chamados a
dar « muito fruto »
para a
vida do mundo.
Virgem
Mãe,
guia-nos e
apoia-nos para vivermos sempre
como
autênticos filhos e filhas
da Igreja
do teu Filho
e podermos
contribuir para a implantação
da
civilização da verdade e do amor sobre a terra,
segundo o
desejo de Deus
e para a
Sua glória.
Amen.
Dado em
Roma, junto de S. Pedro, em 30 de Dezembro, Festa da Sagrada Família de Jesus,
Maria e José, do Ano de 1988, décimo primeiro do meu Pontificado.
Fonte: Vaticano – Santa Sé
Page: http://www.vatican.va