CATEQUESES SOBRE O
ESPÍRITO SANTO
O
ESPÍRITO SANTO
Princípio de
Santificação
L’OSSERVATORE
ROMANO – Nº 30 – 25/07/98
1. O gesto de Jesus,
que na noite da Páscoa “soprou” sobre
os Apóstolos comunicando-lhes o Espírito Santo (cf. Jo 20, 21-22), evoca a
criação do homem, descrita pelo Gênesis como a comunicação de “um sopro de
vida” (2,7). O Espírito Santo é como o
“respiro” do Ressuscitado, que infunde a nova vida na Igreja representada pelos
primeiros discípulos. O sinal mais
evidente desta nova vida é o poder de perdoar os pecados. Efetivamente, Jesus
diz: “Recebei o Espírito Santo. Os pecados daqueles que perdoardes, serão
perdoados. Os pecados daqueles que não
perdoardes, não serão perdoados” . (Jo
20, 22-23). Quando se efunde “o
Espírito de Santificação” (Rm 1,4), destrói-se o que se opõe à santidade, ou
seja, o pecado. Segundo a palavra de
Cristo, o Espírito Santo é aquele que “convence o mundo do pecado” (Jo 16,8).
Ele faz com que se tome consciência do pecado, mas ao mesmo tempo é Ele mesmo
que perdoa os pecados. A este
propósito, S. Tomás observa: “Dado que é o Espírito Santo que funda a nossa
amizade com Deus, é normal que por meio d’Ele Deus perdoe os nossos pecados” (Contr. Gent. 4,21,11).
2. O Espírito do
Senhor não só destrói o pecado, mas realiza também uma santificação e
divinização do homem. Deus
“escolheu-nos – diz São Paulo – desde o princípio, para a salvação pela ação
santificadora do Espírito e pela fé que vem da verdade” (cf. 2 Ts 2,13).
Vejamos mais de perto em que consiste esta “santificação-divinização”. O
Espírito Santo é “Pessoa-Amor. é Pessoa-Dom” (Dominum et vivificantem, 10).
Este amor concedido pelo Pai, recebido e retribuído pelo Filho, é
comunicado ao homem remido, que assim se torna “homem novo” (Ef 4,24), “nova criação” (Gl 6,15). Nós, cristãos, somos não só purificados do
pecado, mas também regenerados e santificados. Recebemos uma nova vida, porque
nos tornamos “participantes da natureza divina” (2 Pd 1,4): somos “chamados
filhos de Deus. E somo-lo de fato!” (1 Jo 3,1). É a vida da graça: o dom gratuito com que Deus nos faz partícipes
da sua vida trinitária. As três Pessoas divinas, na sua relação com os batizados,
não devem ser separadas – porque cada um age sempre em comunhão com as outras –
nem confundidas, pois cada Pessoa se comunica enquanto Pessoa. Na reflexão
sobre a graça, é importante evitar concebê-la como uma “coisa”. Ela é, “antes de tudo e principalmente o dom
do Espírito que nos justifica e nos santifica” (Catecismo da Igreja Católica, nº 2003). É a dádiva do Espírito Santo que nos assimila ao Filho e nos
coloca em relação filial com o Pai: no único Espírito, através de Cristo, temos
acesso ao Pai (cf. Ef. 2,18).
3. A presença do Espírito
Santo realiza uma transformação que atingue o homem verdadeira e intimamente: é
a graça santificadora ou deificadora
que eleva o nosso ser e o nosso agir, tornando-nos capazes de viver em relação
com a Santíssima Trindade. Isto
acontece mediante as virtudes teologais da fé, da esperança e da caridade, que
“adaptam as faculdades do homem à participação da natureza divina” (Catecismo da Igreja Católica,
1812). Assim, mediante a fé o crente
considera Deus, os irmãos e a história não simplesmente segundo a perspectiva
da razão, mas sob o ponto de vista da revelação divina. Com a esperança, o homem olha para o futuro
com certeza confiante e ativa, esperando contra toda a esperança (cf. Rm 4,
18), com o olhar fixo na meta da bem-aventurança eterna e da plena realização
do Reino de Deus. Com a caridade, o
discípulo compromete-se em amar a Deus com todo o coração e o próximo como o
Senhor Jesus nos amou, ou seja, até ao Dom total de si mesmo.
4. A santificação de
cada fiel verifica-se sempre através da
incorporação na Igreja. “A vida de cada filho de Deus em Cristo e mediante
Cristo está vinculada com laços maravilhosos à vida de todos os outros irmãos
cristãos, na unidade sobrenatural do Corpo místico de Cristo, até quase a
formar uma única pessoa mística” (Paulo VI, Const. Apost. Indulgentiarum doctrina,5). Este é o mistério da comunhão dos
Santos. Um vínculo perene de caridade une todos os “santos”, tanto aqueles que
já alcançaram a pátria celeste ou que ainda se estão a purificar no Purgatório,
como aqueles que ainda são peregrinos na terra. entre estes, existe também abundante intercâmbio de bens, a tal
ponto que a santidade de um beneficia todos.
S. Tomás afirma: “quem vive na
caridade, participa em todo o bem que se faz no mundo” (In Symb, Apost.), e ainda: “O ato de um realiza-se mediante a
caridade do outro, daquela caridade por meio da qual todos nós somos um só em
Cristo” (In IV Sent. d. 20, ª2; q. 3
ad 1).
5. O Concílio
recordou que “todos os fiéis, seja qual for o seu estado ou classe, são chamados à plenitude da vida cristã e à
perfeição da caridade” (Lumen gentium,
40). Concretamente, para cada fiel o caminho para se tornar santo é o da
fidelidade à vontade de Deus, como no-lo exprimem a sua Palavra, os mandamentos
e as inspirações do Espírito Santo.
Assim como para Maria e para todos os santos, também para nós a
perfeição da caridade consiste no abandono confiante nas mãos do Pai, segundo o
exemplo de Jesus. Isto torna-se mais uma vez possível graças ao Espírito Santo,
que também nos momentos mais difíceis nos faz repetir com Jesus: “Eis-me aqui
para fazer a tua vontade” (cf. Hb 10,7).
6. Esta santidade
reflete-se de forma própria na vida religiosa, na qual a consagração batismal é
vivida no compromisso de um seguimento radical do Senhor, através dos conselhos
evangélicos de castidade, pobreza e obediência. “Assim como toda a existência cristã, também a vocação à vida
consagrada está intimamente relacionada com a obra do Espírito Santo. É Ele que, pelos milênios fora, sempre induz
novas pessoas a sentirem a atração por uma opção tão comprometedora (...). É o
Espírito que suscita o desejo de uma resposta cabal; é Ele que guia o
crescimento deste anseio, fazendo amadurecer a resposta positiva e sustentando
depois a sua fiel realização; é Ele que forma e plasma o espírito dos que são
chamados, configurando-os a Cristo casto, pobre e obediente, impelindo-os a
assumirem a sua missão”. (Exortação Apostólica Vota consecrata, 19). Uma eminente expressão de santidade, que se
torna possível mediante a força do Espírito Santo, é o martírio, supremo testemunho do Senhor Jesus, dado com o
sangue. Mas uma significativa e fecunda
forma de testemunho é já o compromisso cristão, vivido nas várias condições de
vida, dia a dia numa radical fidelidade ao mandamento do amor.
O ESPÍRITO SANTO NA ORIGEM DA IGREJA
L’OSSERVATORE
ROMANO Nº 40 – 06/10/91
1. Referimo-nos mais
do que uma vez, nas catequeses passadas, à intervenção do Espírito Santo na
origem da Igreja. É justo que agora dediquemos uma catequese especial a este
tema tão lindo e importante. É o próprio Jesus que antes de subir ao Céu diz
aos Apóstolos: “E Eu vou mandar sobre vós O que Meu Pai prometeu. Entretanto, permanecei na cidade até serdes
revestidos com a força lá do Alto” (Lc. 24, 49). Jesus pretende preparar diretamente os Apóstolos para o
cumprimento da “promessa do Pai”. O
evangelista Lucas repete a mesma última recomendação do Mestre nos primeiros
versículos dos Atos dos Apóstolos. “No
decurso de uma refeição que partilhava com eles, ordenou-lhes que não se
afastassem de Jerusalém, mas que esperassem lá o Prometido do Pai”. (1,4).
Durante toda a Sua atividade messiânica, Jesus, pregando sobre o Reino de Deus,
preparava “o tempo da Igreja”, que havia de Ter início depois da Sua
partida. Quando esta já estava próxima,
Ele anunciou que se avizinhava o dia em que este tempo havia de iniciar (cf.
Act. 1,5), ou seja, o dia da descida do Espírito Santo. E vagueando com o olhar sobre o futuro,
acrescentava: “Mas ides receber uma força, a do Espírito Santo, que descerá
sobre vós, e sereis Minhas testemunhas em Jerusalém, por toda a Judéia e
Samaria, e até aos confins do mundo” (Act. 1,8).
2. Quando chegou
o dia do Pentecostes, os Apóstolos, que juntamente com a Mãe do Senhor estavam
recolhidos em oração, tiveram a demonstração de que Jesus Cristo agia em
conformidade com o que anunciara: isto é, que se estava a cumprir “a promessa
do Pai”. Proclamou-o o primeiro dos
Apóstolos, Simão, Pedro, ao falar à assembléia. Pedro falou, recordando primeiro a morte na cruz, e depois passou
ao testemunho da ressurreição e à efusão do Espírito Santo: “Foi este Jesus que
Deus ressuscitou, do que nós somos testemunhas. Tendo sido elevado pela direita
de Deus, recebeu do Pai o Espírito Santo prometido e derramou o que vedes e
ouvis”. (Act. 2, 32-33).
3. O Espírito Santo
dava assim início à missão da Igreja instituída para todos os homens. Mas não
podemos esquecer que o Espírito operava como “Deus desconhecido” (cf. Act.
17,23), também antes do Pentecostes.
Operava de modo particular na Antiga Aliança, iluminando e conduzindo o povo
eleito pelo caminho que levava a história antiga rumo ao Messias. Operou sobretudo na encarnação do Filho,
como testemunham o Evangelho da anunciação e a história dos acontecimentos
seguintes, ligados à vinda ao mundo do Verbo eterno, que tinha assumido a
natureza humana. O Espírito Santo
operou no Messias e em torno do Messias
desde o momento em que Jesus deu início à Sua missão messiânica em
Israel, como resulta dos textos evangélicos sobre a teofania no momento do
batismo no Jordão e as Suas declarações na sinagoga de Nazaré. Mas desde aquele mesmo momento e ao longo de
toda a vida de Jesus, a expectativa acentuava-se e renovavam-se as promessas de
uma futura e definitiva vinda do Espírito Santo. João Batista ligava a missão
do Messias a um novo batismo “no Espírito Santo”. Jesus prometia aos que acreditavam n’Ele “rios de água viva”: promessa narrada pelo Evangelho de João, que
a explica assim: “Jesus falava do Espírito que deviam receber os que n’Ele
acreditassem; pois o Espírito ainda não viera, por Jesus não Ter sido ainda
glorificado” (Jo 7,39). No dia de Pentecostes, Cristo, tendo sido já
glorificado depois do cumprimento final da Sua missão, fez correr do Seu seio
os “rios de água viva” e derramou o Espírito para encher de vida divina os
Apóstolos e todos os crentes. Estes
puderam, assim, ser “batizados num só Espírito” (cf. 1 cor. 12,13). E foi o início do crescimento da Igreja.
4. Como escreve o
Concílio Vaticano II, “Cristo enviou o Espírito Santo de junto do Pai, para
realizar interiormente a Sua obra salvífica e mover a Igreja à sua própria
dilatação. Sem dúvida alguma, o Espírito Santo estava já a operar no mundo,
antes da glorificação do Filho.
Contudo, desceu sobre os discípulos no dia de Pentecostes, para com eles
permanecer eternamente; a Igreja manifestou-se publicamente diante da multidão,
a difusão do Evangelho entre as gentes através da pregação teve o seu início,
e, finalmente, a união dos povos na catolicidade da fé foi prefigurada na
Igreja na Nova Aliança que fala todas as línguas, e todas as línguas entende e
abraça na caridade, triunfando assim da dispersão de Babel” (AG, 4). O texto conciliar põe em relevo em que
consiste a ação do Espírito Santo na Igreja, iniciando a partir do dia de
Pentecostes. Trata-se de uma ação
salvífica, interior, que ao mesmo tempo se exprime exteriormente no nascimento
da comunidade e instituição de salvação.
Esta comunidade – a comunidade dos primeiros discípulos – está
totalmente permeada pelo amor, que supera todas as diferenças e as divisões de
ordem terrena. É sinal disto o evento
pentecostal de uma expressão de fé em Deus compreensível a todos, apesar da
diversidade das línguas. Atestam-nos os
Atos dos Apóstolos que a gente,
reunida em redor dos Apóstolos, naquela primeira manifestação pública da
Igreja, dizia maravilhada: “Mas quê! Essa gente que está a falar não é da
Galiléia ? Que passa, então, para que cada um de nós os ouça falar na nossa
língua materna?” (Act. 2,7-8).
5. A Igreja
que tinha nascido daquele modo no dia do Pentecostes, por obra do Espírito
Santo, manifesta-se imediatamente ao mundo.
Não é uma comunidade fechada, mas aberta – dir-se-ia escancarada – a
todas as nações “até aos confins do mundo” (Act 1,8). Aqueles que entram nesta
comunidade, mediante o Batismo, tornam-se, em virtude do Espírito Santo de
verdade, testemunhas da boa nova, prontas a transmití-la aos outros. É, por conseguinte, uma comunidade dinâmica,
apostólica: a Igreja “em estado de missão”. O Espírito Santo, em primeiro
lugar, “dá testemunhos de Cristo (cf. Jo 15, 26), e este testemunho invade a
alma e o coração daqueles que participam do Pentecostes, os quais se tornam,
por sua vez, testemunhas e anunciadores. As “línguas à maneira de fogo” (Act.
2,3), pousadas sobre a cabeça de cada um dos presentes, constituem o sinal
exterior do entusiasmo ateado neles pelo Espírito Santo. Este entusiasmo estende-se dos Apóstolos aos
seus ouvintes, assim como já no primeiro dia depois do discurso de Pedro “se
juntaram ... cerca de três mil almas” (Act. 2,41).
6.
O livro inteiro dos Atos dos Apóstolos
é uma grande descrição da ação do Espírito Santo nos inícios da Igreja, a qual
– como lemos – “crescia como um edifício e caminhava no temor do Senhor, com a
assistência do Espírito Santo” (cf. Act. 9,31). Sabe-se que não faltavam nem as dificuldades nem as perseguições,
e que se tiveram os primeiros mártires.
Mas os Apóstolos tinham a certeza que era o Espírito Santo a guiá-los.
Esta sua convicção ter-se-ia de certo modo formalizada na sentença conclusiva
do Concílio de Jerusalém, cujas resoluções iniciam com as palavras: “o Espírito
Santo e nós próprios resolvemos ...” (Act. 15, 28). A comunidade atestava, deste modo, a própria consciência de se
mover sob a ação do Espírito Santo.
O ESPÍRITO SANTO
PENHOR DA ESPERANÇA E FONTE
DA PERSEVERANÇA FINAL
L’OSSERVATORE
ROMANO Nº 27 – 07/07/91
1.
Entre
os maiores dons, que São Paulo indica aos Coríntios como permanentes, há a
esperança (cf. 1 Cor. 12,31). Ela tem
um papel fundamental na vida cristã, como o têm a fé e a caridade, embora “a
maior delas seja a caridade!” (cf. 1 Cor. 13,13). É claro que a esperança não
deve ser entendida em sentido restrito de Dom particular ou extraordinário,
concedido a alguns para o bem da comunidade, mas como Dom do Espírito Santo
oferecido a cada homem, que , na fé, se abre a Cristo. A este Dom há-de ser prestada uma particular
atenção, especialmente no nosso tempo, em que muitos homens – também não poucos
cristãos – se debatem entre a ilusão e o mito de uma capacidade infinita de
auto-redenção e realização de si, e a tentação do pessimismo, na experiência
das frequentes desilusões e derrotas. A esperança cristã, embora incluindo o
movimento psicológico da alma, que tende para o bem árduo, todavia coloca-se no
nível sobrenatural das virtudes derivadas da graça (cf. Summa Theol., III, q.
7, ª2), como Dom que Deus faz ao crente, em ordem à vida eterna. É, por
conseguinte, uma virtude típica do homo viator, do homem peregrino, que embora conheça
Deus e a vocação eterna mediante a fé – ainda não chegou à visão. A esperança, de certo modo, fá-lo “penetrar
além do véu”, como diz a Carta aos Hebreus (cf. Heb. 6,19).
2.
Essencial
nesta virtude, portanto, é a dimensão
escatológica. No Pentecostes, o
Espírito Santo veio cumprir as promessas incluídas no anúncio da salvação, como
lemos nos Atos dos Apóstolos: Jesus
“tendo sido elevado pela direita de Deus, recebeu do Pai o Espírito Santo
prometido e derramou o que vedes e ouvis”. (Act.
2,33). Mas este cumprimento da
promessa projeta-se sobre toda a história, até aos últimos tempos. Para aqueles
que possuem a fé na palavra de Deus ressoada em Cristo e pregada pelos
Apóstolos, a escatologia começou a realizar-se, aliás já se pode dizer
realizada no seu aspecto fundamental: a presença do Espírito Santo na história
humana, que do evento do Pentecostes adquire significado e impulso vital em
ordem à meta divina de cada homem e da humanidade inteira. Enquanto a esperança
do Antigo Testamento tinha como fundamento a promessa da perene presença e
providência de Deus, que se teria manifestado no Messias, no Novo Testamento a
esperança, pela graça do Espírito Santo que está na sua origem, já comporta uma
posse antecipada da glória futura. Nesta perspectiva, São Paulo afirma que o
Dom do Espírito Santo é como um penhor da
felicidade futura: “fostes marcados – escreve ele aos Efésios – com o selo
do Espírito Santo, que tinha sido prometido; o qual é o penhor da nossa
herança, enquanto esperamos a completa redenção daqueles que Deus adquiriu para
o louvor da Sua glória” (Ef. 1, 13-14; cf. 4,30; 2 Cor 1,22). Pode-se dizer que
na vida cristã na terra há como que uma iniciação na plena participação na
glória de Deus: e é o Espírito Santo a constituir a garantia da obtenção da
plenitude da vida eterna, quando por efeito da redenção forem vencidos também
todos os restos do pecado, como a dor e a morte. Assim, a esperança cristã não só é uma garantia, mas uma antecipação da realidade futura.
3.
A
esperança acesa no cristão pelo Espírito Santo tem também uma dimensão que se diria cósmica, incluindo a terra e o céu, o
experimentável e o inacessível, o conhecido e o desconhecido. “A criação –
escreve São Paulo – aguarda ansiosa a revelação dos filhos de Deus; se ela foi com a esperança de ser, também
ela, libertada da escravidão da corrupção para participar, livremente, da
glória dos filhos de Deus. Sabemos, com
efeito, que toda a criação tem gemido e sofrido as dores do parte, até ao
presente. E não só ela, mas também nós próprios, que possuímos as primícias do Espírito, gememos
igualmente em nós mesmos, aguardando a filiação adotiva, a libertação do nosso
corpo” (cf. Rm. 8, 19-23). O cristão,
consciente da vocação do homem e do destino do universo, capta o sentido
daquela gestação universal e descobre que se trata da divina adoção para todos
os homens, chamados a participar na glória de Deus, que se reflete sobre toda a
criação. Desta adoção o cristão sabe
que já possui as primícias no Espírito Santo, e portanto olha com serena
esperança para o destino no mundo, embora entre as tribulações do tempo. Iluminado pela fé, ele compreende o
significado e quase experimenta a verdade do seguinte texto da Carta aos Romanos, onde o Apóstolo nos
assegura que “o Espírito vem em ajuda da nossa fraqueza, pois não sabemos o que
devemos pedir em nossos corações, mas é o próprio Espírito que intercede por
nós com gemidos inefáveis. Aquele que
perscruta os corações bem sabe qual é o empenho do Espírito, pois é em
conformidade com Deus que Ele intercede pelos Santos. Ora nós sabemos que Deus
concorre em tudo para o bem dos que O amam, daqueles que, segundo o Seu
desígnio, são eleitos” (Rom. 8,26-28).
4. Como se vê, é no
sacrário da alma que vive, reza e atua o Espírito Santo, o qual faz entrar cada
vez mais na perspectiva do fim último, Deus, conformando toda a nossa vida ao
Seu plano salvífico. Portanto Ele
próprio nos faz rezar rezando em nós,
com sentimentos e palavras de filhos de Deus (cf. Rm., 8, 15,26-27); Gál. 4,6;
Ef. 6,18), em íntima ligação espiritual e escatológica com Cristo, que está
sentado à direita de Deus, onde intercede por nós (cf. Rm. 8,34; Heb. 7,25; 1
Jo 2,1). Assim, Ele salva-nos das
ilusões e dos falsos caminhos de salvação, enquanto, movendo o coração para a
finalidade autêntica da vida, nos liberta do pessimismo e do niilismo,
tentações particularmente insidiosas para quem não parta de promessas de fé ou
pelo menos de sincera busca de Deus. É preciso acrescentar que também o corpo está envolvido nesta dimensão
de esperança, da pelo Espírito Santo á pessoa humana. Diz-no-lo ainda São Paulo: “E, se o espírito
d’Aquele que ressuscitou a Jesus dos mortos habita em vós, Ele, que ressuscitou
a Jesus Cristo dos mortos, há-de dar igualmente a vida aos vossos corpos
mortais por meio do Seu Espírito, que habita em vós"” (Rom. 8,11; cf. 2
Cor, 5,5). Por agora contentemo-nos em
Ter feito presente este aspecto da esperança na sua dimensão antropológica e
pessoal, e também na dimensão cósmica e escatológica, sobre a qual havemos de
voltar nas catequeses que, se Deus quiser, dedicaremos, na devida altura, a
estes artigos fascinantes e fundamentais do
Credo cristão: a ressurreição dos mortos e a vida eterna do homem todo,
alma e corpo.
4.
Uma
última anotação: o itinerário terreno da vida tem um tempo que, se for
alcançado na amizade com Deus, coincide com o primeiro momento da
bem-aventurada. Mesmo que a alma tenha
de sujeitar-se, naquela passagem para o Céu, à purificação das últimas
escórias, mediante o purgatório, ela já está cheia de luz, de certeza, de
alegria, porque sabe que pertence para sempre ao seu Deus. A esse ponto culminante, a alma é conduzida
pelo Espírito Santo, autor e dador não só da “primeira graça” da justificação e
da graça santificante ao longo da vida terrena inteira, mas também da graça
glorificante in hora mortis. É a graça da perseverança final, segundo a doutrina do Concílio de Orange (cf.
Denz. 183, 199) e do Concílio de Trento (cf. Denz 806, 809, 832), fundada no
ensinamento do Apóstolo, segundo o qual compete a Deus produzir “o querer e o
operar” o bem (Fil. 2,13), e o homem deve rezar para obter a graça de fazer o
bem até o fim (cf. Rom. 14,4; 1 Cor. 10, 12; Mt. 10,22,24,13).
5.
As palavras do Apóstolo Paulo ensinam-nos a ver no Dom da Terceira Pessoa
divina a garantia do cumprimento da nossa aspiração à salvação: “A esperança
não nos deixa confundidos, porque o amor de Deus foi derramado em nossos
corações, pelo Espírito Santo, que nos foi concedido” (Rom. 5,5). E, portanto: “Quem poderá separar-se do amor
de Cristo?”. A resposta é decidida;
nada “poderá separar-nos do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, Nosso
Senhor” (Rom. 8,35.39). Portanto, o
voto de Paulo é por que abundemos “na esperança, pela virtude do Espírito
Santo” (Rom. 15, 13). Radica aqui o
otimismo cristão: otimismo sobre o destino do mundo, sobre a possibilidade de
salvação do homem em todos os tempos, mesmo nos mais difíceis e duros, sobre o
desenvolvimento da história rumo à glorificação perfeita de Cristo (“Ele
glorificar-Me-á”: Jo. 16, 14), e a
participação plena dos crentes na glória dos filhos de Deus. Com esta
perspectiva, o cristão pode ter a cabeça levantada e associar-se à invocação
que, segundo o Apocalipse, é o suspiro mais profundo, suscitado na história
pelo Espírito Santo: “O Espírito e a Esposa dizem: “Vem!” (Ap. 22, 17). E eis o convite final do Apocalipse e do
Novo Testamento: “aquele que ouve diga: “Vem”.
Aquele que tem sede, venha! Aquele que o deseja, receba gratuitamente a
água da vida ... Vem, Senhor Jesus!”.
(Ap. 22, 17,20).
O ESPÍRITO SANTO
protagonista da evangelização
L’OSSERVATRE
ROMANO – Nº 27 – 04.07.98
1. Logo depois de o
Espírito Santo ter descido sobre os Apóstolos no dia do Pentecostes, eles
“começaram a falar outras línguas, conforme o Espírito lhes dava o poder de se
exprimirem” (cf. Act 2,4). Pode-se,
portanto, dizer que a Igreja, no momento mesmo em que nasce, recebe como Dom do
Espírito a capacidade de “anunciar as maravilhas de Deus” (Act 2,11): é o dom
de evangelizar. Este fato implica e revela uma lei fundamental da
história da salvação: não se pode em síntese falar do Senhor e em nome do
Senhor, sem a graça e o poder do Espírito Santo. Ao servimo-nos de uma analogia
biológica, poderíamos dizer assim como a palavra humana é veiculada pelo sopro
humano, assim também a Palavra de Deus é transmitida pelo sopro de Deus, pelo
seu ruach ou pneuma, que é o Espírito Santo.
2. Este ligame entre
o Espírito de Deus e a palavra divina pode-se notar já na experiência dos
antigos profetas. A chamada de Ezequiel é descrita como a infusão de um
“espírito” na pessoa: “(O Senhor disse-me: “Filho do homem, põe-te de pé; vou
falar-te”. O espírito penetrou em mim, enquanto me falava, e mandou-me pôr de
pé; e ouvi alguém que me chamava”. (Ez 2,1-2). No livro de Isaías lê-se que o
futuro servo do Senhor proclamará o direito às nações, precisamente porque o
Senhor pôs o Seu espírito sobre ele (cf. 42,1). Segundo o profeta Joel, os
tempos messiânicos serão caracterizados por uma universal efusão do Espírito:
“Depois disto, acontecerá que derramarei o Meu Espírito sobre toda a carne” (Jl
3,1); por efeito desta comunicação do Espírito, “os vossos filhos e as vossas
filhas profetizarão” (ibid).
3. Em Jesus, o ligame
Espírito-Palavra atinge o vértice: de fato, Ele é a própria Palavra que Se fez
carne “por obra do Espírito Santo”.
Começa a pregar “com o poder do Espírito Santo” (cf. Lc 4,14 ss.). Em Nazaré, na Sua pregação inaugural aplica
a Si a passagem de Isaías: “O Espírito do Senhor está sobre Mim (...) enviou-Me
para anunciar a Boa Nova aos pobres” (Lc 4,18). Como ressalta o quarto Evangelho, a missão de Jesus, “Aquele que
Deus enviou” e “profere as palavras de Deus”, é fruto do Dom do Espírito, que
Ele recebeu e dá “sem medida” (cf. Jo 3,34).
Ao aparecer aos Seus no cenáculo na tarde da Páscoa, Jesus faz o gesto
muito expressivo de “soprar” sobre
eles, dizendo: “Recebei o Espírito Santo” (cf. Jo 20, 21-22). Sobre aquele
sopro se desenvolve a vida da Igreja. “O Espírito Santo é o protagonista de
toda a missão eclesial” (Redempt. miss., 21).
A Igreja anuncia o Evangelho graças à Sua presença e à Sua força
salvífica. Ao dirigir-se aos cristãos
de Tessalonica, São Paulo afirma : “O
nosso Evangelho não vos foi pregado somente com palavras, mas também com poder
e com o Espírito Santo” (1 Ts 1,5). São
Pedro define os apóstolos “aqueles que anunciaram o Evangelho no Espírito
Santo” (1 Pd 1,12). Mas o que significa “evangelizar no Espírito Santo”? Sinteticamente, pode-se dizer: significa
evangelizar na força, na novidade, na unidade do Espírito Santo.
4. Evangelizar na
força do Espírito quer dizer ser investido daquele poder que se manifestou de
modo supremo na atividade evangélica de Jesus.
O Evangelho diz-nos que os ouvintes se maravilharam com Ele, porque
“lhes ensinava como quem tem autoridade e não como os escribas” (Mc 1,22). A palavra de Jesus “expulsa os demônios,
aplaca as tempestades, cura dos doentes, perdoa os pecadores, ressuscita os
mortos. A autoridade de Jesus é comunicada pelo Espírito, como Dom pascal, à
Igreja. Vemos assim os apóstolos ricos
de parresia, ou seja, daquele franqueza que os faz falar de Jesus sem
medo. Os adversários ficam maravilhados
com isto, “considerando que eram iletrados e plebeus” (Act 4,13). Também Paulo,
graças ao Dom do Espírito da Nova Aliança, pode afirmar com toda a verdade:
“Tendo, pois, esta esperança, agimos com plena segurança” (2 Cor 3,12). Esta
força do Espírito é mais do que nunca necessária ao cristão do nosso tempo, ao
qual é pedido que dê testemunho da sua fé num mundo com freqüência indiferente,
se não hostil, fortemente marcado como está pelo relativismo e pelo hedonismo. E uma força de que têm necessidade sobretudo
os pregadores, que devem repropor o Evangelho sem ceder a compromissos e falas
tergiversações, anunciando a verdade de Cristo “oportuna e
inoportunamente” (2 Tm 4,2).
5. O Espírito Santo
assegura ao anúncio também um caráter de atualidade sempre renovada, a fim de
que a pregação não decaia em vazia repetição de fórmulas e em inexpressiva
aplicação de métodos. Com efeito, os pregadores devem estar ao serviço da “Nova
Aliança”, a qual não é “da letra”, que faz morrer, mas “do Espírito”, que faz
viver (cf. 2 Cor 3,6). Não se trata de
propagar o “regime antigo da letra”, mas o “regime novo do Espírito” (cf. Rm
7,6). é uma exigência hoje
particularmente vital para a “nova evangelização”. Esta será deveras “nova” no fervor, nos métodos, nas expressões,
se aquele que anuncia as maravilhas de Deus e fala em nome d’Ele, tiver antes
escutado Deus tornando-se dócil ao Espírito Santo. Fundamental é, portanto, a contemplação feita de escuta e oração. Se o anunciador não ora, acabará por pregar
a si mesmo” (cf. 2 Cor 4,5) e as suas palavras reduzir-se-ão a “conversas vãs e
profanas” (cf. 2 Tm 2,16).
6. O Espírito, por
fim, acompanha e estimula a Igreja a evangelizar na unidade, construindo a
unidade. O Pentecostes aconteceu quando
os discípulos “se encontravam todos reunidos no mesmo lugar” (Act 2,1) e se
entregavam “(todos) ... assiduamente à
oração” (ibid., 1,14). Depois de ter
recebido o Espírito Santo, Pedro pronuncia o primeiro discurso à multidão, “de
pé, com os Onze” (ibid., 2, 14): é o ícone dum anúncio coral, que assim deve
permanecer também quando os anunciadores estiverem dispersos pelo mundo.
Anunciar Cristo sob o impulso do único Espírito, no limiar do terceiro milênio,
implica para todos os cristãos um esforço concreto e generoso em prol da plena
comunhão. E o grande empreendimento do
ecumenismo, a ser ajudado com sempre renovada esperança e eficaz empenho,
embora os tempos e os êxitos estejam nas mãos do Pai, que nos pede humilde
prontidão ao acolher os Seus desígnios e as inspirações interiores do Espírito.
O ESPÍRITO SANTO NO ANTIGO TESTAMENTO
L’OSSERVATORE ROMANO Nº 20 (272) 16.05.98
1. Na
preparação para o Grande Jubileu do Ano 2000, o corrente ano é dedicado de modo
particular ao Espírito Santo. Procedendo no caminho iniciado para a Igreja
inteira, depois de ter concluído a temática cristológica, hoje começamos uma
reflexão sistemática sobre Aquele “que é Senhor e dá a vida”. Em múltiplas ocasiões falei amplamente a respeito
da terceira pessoa da Santíssima Trindade. Recordo, em particular, a Encíclica
“Dominum et vivificantem” e a catequese sobre o Credo. A perspectiva do iminente Jubileu oferece-me
a ocasião para voltar de novo à contemplação do Espírito Santo, a fim de
perscrutar com espírito adorante a ação que Ele realizar no fluxo do tempo e da
história.
2. Na realidade esta
contemplação não seria fácil, se o próprio Espírito não viesse em ajuda da
nossa debilidade (cf. Rm 8,26). Como discernir, com efeito, a presença do
Espírito de Deus na história ? Só podemos dar uma resposta a esta pergunta
recorrendo às Sagradas Escrituras que, inspiradas pelo Paráclito, nos revelam
progressivamente a Sua ação e a Sua identidade. Elas manifestam-nos, de certo
modo, a “linguagem” do Espírito, o Seu
“estilo”, a Sua “lógica” . A realidade
em que Ele atua, é possível lê-la também com olhos que penetram para além duma
simples observação exterior, captando atrás das coisas e dos eventos os traços
da Sua presença. A própria Escritura,
desde o Antigo Testamento, ajuda-nos a compreender que nada de quanto é bom,
verdadeiro e santo no mundo, se pode explicar independentemente do Espírito de
Deus.
3. Uma primeira
velada referência ao Espírito encontra-se desde as primeiras linhas da Bíblia,
no hino a Deus criador com que se abre o livro do Gênesis: “O Espírito de Deus
movia-Se sobre a superfície das águas” (Gn 1,2). Para dizer “espírito”
usa-se aqui a palavra hebraica ruach que significa “sopro” e pode designar tanto o vento como o
respiro. Como se sabe, este texto
pertence à chamada “fonte sacerdotal”
que remonta ao período do exílio babilônico (VI séc. a . C.), quando a
fé de Israel tinha chegado explicitamente à concepção monoteísta de Deus. Ao tomar consciência do poder criador do
único Deus, graças à luz da revelação, Israel chegou a intuir que Deus criou o
universo com a força da Sua palavra.
Unido a esta, emerge o papel do Espírito, cuja percepção é favorecida
pela mesma analogia da linguagem que, por associação, vincula a palavra ao
sopro dos lábios: “Pela palavra do Senhor foram feitos os céus, pelo sopro
(ruach) da Sua boca, todos os seus exércitos” (Sl 33,6). Este sopro vital e vivificante de Deus não
está limitado ao instante inicial da criação, mas sustém em permanência e
vivifica toda a criação, renovando-a continuamente: “Se lhes enviais o Vosso
espírito, voltam à vida, e renovais a face da terra” (Sl 104,30).
4. A novidade mais
característica da revelação bíblica é ter divisado na história o campo
privilegiado da ação do Espírito de Deus. Em cerca de 100 passagens do Antigo
Testamento o ruach JHWH indica a ação do Espírito do Senhor que guia o Seu
povo, sobretudo nos grandes momentos do seu caminho. Assim, no período dos juízes, Deus fazia descer o seu Espírito
sobre homens débeis e transformava-os em guias carismáticos, investidos de
energia divina: é o que aconteceu com Jedeão, Jefte e em particular com Sansão
(cf. Jz 6,34; 11, 29; 13, 25; 14.6.19). Com o advento da monarquia davídica
esta força divina, que até então se manifestara de modo imprevisível e
intermitente, alcança uma certa estabilidade.
Isto é bem constatado na consagração régia de David, a propósito do qual
a Escritura diz: “A partir daquele dia o Espírito do Senhor apoderou-Se de
David” (1 Sm 16,13). Durante e depois
do exílio na Babilônia toda a história de Israel é relida como um longo diálogo
estabelecido por Deus com o povo eleito, “pelo Seu Espírito, pelo ministério
dos profetas do passado” (Zc 7,12). O
profeta Ezequiel torna explícito o ligame entre o espírito e a profecia, por
exemplo quando diz: “Então desceu sobre mim o espírito de Deus e disse-me:
“Diz: Assim fala Deus...”. (Ez 11,5). Mas a perspectiva profética aponta
sobretudo no futuro o tempo privilegiado em que se cumprirão as promessas no
sinal do ruach divino. Isaías anuncia o nascimento de um
descendente, sobre o qual “repousará o espírito ... de sabedoria e de
entendimento, espírito de conselho e de fortaleza, espírito de ciência e de
temor do Senhor” (Is 11,2-3). “Este
texto – como escrevi na Encíclica Dominum et vivificantem – é importante para
toda a pneumatologia do Antigo Testamento, porque constitui como que uma ponte
entre o antigo conceito bíblico do espírito, entendido primeiro que tudo como
“sopro carismático”, e o “Espírito” como pessoa e como Dom, Dom para a
pessoa. O Messias da estirpe de David
(“do tronco de Jessé”) é precisamente essa pessoa, sobre a qual “pousará” o Espírito do Senhor” (n. 15).
5. Já no Antigo Testamento
emergem dois traços da misteriosa identidade do Espírito Santo, depois
amplamente confirmados pela revelação do Novo Testamento. O primeiro traço é a
absoluta transcendência do Espírito, que por isso chamado “santo” (Is 63,
10.11; Sl 51,13). Para todos os efeitos
o Espírito de Deus é “divino”. Não é
uma realidade que o homem pode conquistar com as suas forças, mas um Dom que
vem do alto: só se pode invocá-lo e acolhê-lo.
Infinitamente “outro” a respeito do homem, o Espírito é comunicado com
total gratuidade a quantos são chamados a colaborar com Ele na história da
salvação. E quando esta energia divina encontra um acolhimento humilde e
disponível, o homem é arrancado do seu egoísmo e libertado dos seus temores, e
no mundo florescem o amor e a verdade,
a liberdade e a paz. Outra característica do Espírito de Deus é o poder
dinâmico que Ele revela nas Suas intervenções na história. Às vezes corre-se o perigo de projetar sobre
a imagem bíblica do Espírito concepções ligadas a outras culturas como, por
exemplo, a concepção do “espírito” como algo evanescente, estático e
inerte. A concepção bíblica do ruach
está, ao contrário, a indicar uma energia supremamente ativa, poderosa,
irresistível: o Espírito do Senhor –
lemos em Isaías – “é torrente transbordante” (30,28). Por isso, quando o Pai intervém com o seu Espírito, o caos
transforma-se em cosmo, no mundo acende-se a vida, e a história põe-se
novamente em caminho.
O ESPÍRITO SANTO NO NOVO TESTAMENTO
L’OSSERVATORE ROMANO 16 (288) Nº
21 – 23/05/98
1. A revelação do
Espírito Santo, como pessoa distinta do Pai e do Filho, velada no Antigo
Testamento, torna-se clara e explícita no Novo. É verdade que os escritos
neotestamentários não nos oferecem um ensinamento sistemático sobre o Espírito
Santo. Contudo, recolhendo os muitos
dados presentes nos escritos de Lucas, Paulo e João, é possível captar a
convergência destes três grandes filões da revelação neotestamentária
concernente ao Espírito Santo.
2. Em relação
aos outros dois sinópticos, o evangelista Lucas apresenta-nos uma pneumatologia
muito mais desenvolvida. No Evangelho ele tem em vista mostrar que Jesus é o
único a possuir o Espírito Santo em plenitude. Certamente, o Espírito intervém
também em Isabel, Zacarias, João Baptista e sobretudo em Maria, mas só Jesus,
ao longo de toda a Sua existência terrena, detém plenamente o Espírito de Deus.
Ele é concebido por obra do Espírito Santo (cf. Lc 1, 35). A respeito d’Ele João Baptista dirá: “ Eu batizo-vos
em água, mas vai chegar Quem é mais poderoso do que eu (...): Batizar-vos-á no
Espírito Santo e no fogo” (Lc 3,16). Antes de batizar no Espírito Santo e no
fogo, Jesus mesmo é batizado no Jordão, quando desce “sobre Ele o Espírito
Santo em forma corpórea, como uma pomba” (Lc 3,22). Lucas sublinha que Jesus
não só vai ao deserto “levado pelo Espírito Santo”, mas Se dirige para ali
“cheio do Espírito Santo” (ibid., 4, 1), e ali vence o tentador. Ele empreende a Sua missão, Jesus aplica a
Si mesmo a profecia do livro de Isaías (cf. 61, 1-2): “O Espírito do Senhor
está sobre Mim, porque Me ungiu, para anunciar a Boa Nova aos pobres...” (Lc
4,18). Toda a atividade evangelizadora
de Jesus é posta assim sob a ação do Espírito. Este
mesmo Espírito sustentará a missão evangelizadora da Igreja, segundo a promessa
do Ressuscitado aos Seus discípulos: “Eu vou mandar sobre vós O que Meu Pai
prometeu. Entretanto, permanecei na
cidade até serdes revestidos com a força lá do Alto” (Lc 24,49). Segundo o livro dos Atos, a promessa
cumpre-se no dia do Pentecostes: “Todos ficaram cheios do Espírito Santo e
começaram a falar outras línguas, conforme o Espírito lhes inspirava que se
exprimissem” (2,4). Realiza-se assim a
profecia de Joel: “Nos últimos dias, diz o Senhor, derramarei o Meu Espírito
sobre toda a criatura. Os vossos filhos
e as vossas filhas hão-de-profetizar” (ibid. 2, 17). Lucas vê nos apóstolos os representantes do povo de Deus dos
tempos finais, e ressalta com razão que este Espírito de profecia envolve o
inteiro povo de Deus.
3. São Paulo, por sua
vez, evidencia a dimensão renovadora e escatológica da obra do Espírito, que é
visto como a fonte da vida nova e eterna comunicada por Jesus à sua Igreja. Na
Primeira Carta aos Coríntios lemos que Cristo, novo Adão, em virtude da
ressurreição, Se tornou “Espírito vivificante”
(15,45): isto é, foi transformado pela força vital do Espírito de Deus
de maneira que Se tornou, por Sua vez, princípio de vida nova para os crentes.
Cristo comunica esta vida precisamente através da efusão do Espírito Santo. A
existência dos crentes já não é a de escravos, sob a Lei, mas uma vida como
filhos, pois receberam o Espírito do Filho nos seus corações e podem
exclamar: Abbá, Pai! (cf. Gl 4,5-7; Rm 8, 14-16). E uma vida “em Cristo”, isto é, de pertença exclusiva a Ele
e de incorporação à Igreja: “Foi num só Espírito que todos nós fomos batizados,
a fim de formarmos um só corpo” (1 Cor 12, 13). O Espírito Santo suscita a fé (cf. 1 Cor 12,3), derrama a
caridade nos corações (cf. Rm 5,5) e guia a oração dos cristãos (cf. Rm 8,26). Enquanto princípio de um novo ser, o
Espírito Santo determina no crente também um novo dinamismo operativo: “Se
vivemos pelo Espírito, caminhemos também segundo o Espírito” (Gl 5,25). Esta
nova vida está contraposta à da “carne”, cujos desejos desgostam a Deus e
fecham a pessoa na prisão sufocante do eu que se dobra sobre em si mesmo (cf.
Rm 8, 5-9). Abrindo-se, ao contrário,
ao amor doado pelo Espírito Santo, o cristão pode saborear o fruto do Espírito:
amor, alegria, paz, paciência, benevolência, bondade, fidelidade ... (cf. Gl 5,
16-24). Segundo Paulo, contudo, aquilo
que agora possuímos é só um “sinal” ou primícias do Espírito (cf. Rm 8, 23; cf.
também 2 Cor 5,5). Na ressurreição
final, o Espírito completará a Sua obra-prima, realizando para os crentes plena “espiritualização” do seu corpo (cf.
Cor 15, 43-44) e envolvendo de algum modo na salvação o universo inteiro (cf.
Rm 8, 20-22).
4. Na perspectiva
joanina o Espírito Santo é sobretudo o Espírito da verdade, o Paráclito. Jesus
anuncia o Dom do Espírito no momento de concluir a Sua obra terrena: “Quando
vier o Consolador, que vo-hei-de enviar da parte do Pai, o Espírito da Verdade,
que procede do Pai, Ele testificará de Mim.
E vós também darei testemunho, pois estivestes Comigo desde o princípio”
(Jo 15,26 s). E ao esclarecer
ulteriormente o papel do Espírito, Jesus acrescenta: “Ele guiar-vos-á para a
verdade total, porque não falará de Si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido,
e anunciar-vos-á o que há-de-vir. Ele glorificar-Me-á, porque há-de receber do
que é Meu, para vo-lo anunciar” (Jo 16, 13-14). O Espírito, portanto, não trará uma nova revelação, mas guiará os
fiéis para uma interiorização e uma mais profunda penetração da verdade
revelada por Jesus. Em que sentido o Espírito da verdade é chamado Paráclito ?
Tendo presente a perspectiva joanina que vê o processo contra Jesus como um
processo que continua nos discípulos perseguidos por causa do Seu nome, o
Paráclito é Aquele que defende a causa de Jesus, convencendo o mundo “do
pecado, da justiça e do juízo” (Jo 16,7s). O pecado fundamental que o Paráclito
fará reconhecer é o de não se Ter acreditado em Cristo. A justiça que Ele
indica é aquele que o Pai prestou ao Filho crucificado, glorificando-O com a
ressurreição e ascensão ao Céu. O
juízo, neste contexto, consiste em fazer emergir a culpa de quantos, dominados
por Satanás, principe deste mundo (cf. Jo 16,11), rejeitaram Cristo (cf.
Dominum et vivificantem, 27). O Espírito Santo é, pois, com a Sua assistência
interior, o defensor e o patrocinador da causa de Cristo, Aquele que orienta as
mentes e os corações dos discípulos para a plena adesão à “verdade” de Jesus.
A INFLUÊNCIA DO ESPÍRITO SANTO
NA VIDA CONSAGRADA
L’OSSERVATORE
ROMANO Nº 12 – 25/03/95
1.
Na
Constituição dogmática sobre a Igreja, o Concílio Vaticano II declara que a
vida consagrada, nas suas múltiplas formas, manifesta “a potência infinita com
que o Espírito Santo maravilhosamente atua na Igreja” (LG,44). De igual modo, o
Decreto do Concílio sobre a renovação da vida religiosa sublinha que foi “o
impulso do Espírito Santo” que deu
origem tanto à vida eremítica quanto à fundação das “famílias religiosas, que a
Igreja de boa vontade escolheu e aprovou com a sua autoridade” (PC,1). A
espiritualidade do empenho religioso, que anima todos os Institutos de vida
consagrada, tem claramente o seu centro em Cristo, na sua pessoa, na sua vida virginal e pobre, levada até à
suprema oblação de Si pelos irmãos, em perfeita obediência ao Pai. Trata-se, porém, de uma espiritualidade no
sentido mais forte da palavra, isto é, de uma orientação dada pelo Espírito
Santo. Com efeito, o seguimento de
Cristo na pobreza, castidade e obediência não seria possível sem o impulso do
Espírito Santo, autor de todo o progresso interior e dador de todas as graças
na Igreja. “Movidas assim pela caridade, que o Espírito Santo derrama nos seus
corações”, diz ainda o Concílio, as almas consagradas, “mais e mais vivem para
Cristo e para o seu corpo, que é a Igreja” (PC,1).
2. Na vida
religiosa, com efeito, e em toda a vida consagrada há uma ação soberana e
decisiva do Espírito Santo, que as almas atentas podem experimentar de modo
inefável, por uma certa com-naturalidade criada pela caridade divina, como
diria São Tomás (cf. Summa Theol., II-II, q.45, a 2). Quando na sua Igreja Jesus Cristo chama os homens e as
mulheres a seguirem-n’O, faz sentir a sua voz e a sua atração por meio da ação
interior do Espírito Santo, ao qual confia a tarefa de fazer entender o
chamamento e de suscitar o desejo de lhe responder, com uma vida completamente
dedicada a Cristo e ao seu Reino. É Ele que desenvolve, no segredo da alma, a
graça da vocação, abrindo o caminho requerido para que esta graça atinja o seu
objetivo. É Ele o principal educador
das vocações. É Ele o guia das almas consagradas no caminho da perfeição. É Ele o autor da magnanimidade, da paciência
e da fidelidade de cada um e de todos.
3.
Além
de desenvolver a sua ação em cada alma individualmente, o Espírito Santo está
na origem também das comunidades de pessoas consagradas: é o mesmo Concílio
Vaticano II que o evidencia (cf. PC,1).
Foi assim no passado, assim é também hoje. Desde sempre na Igreja o
Espírito Santo concede a alguns o carisma de Fundadores. Desde sempre faz com que, ao redor do
Fundador ou da Fundadora, se reúnam pessoas que compartilham a orientação da
sua forma de vida consagrada, o seu ensinamento, o seu ideal, a sua atração de caridade,
ou de magistério, ou de apostolado pastoral.
Desde sempre o Espírito Santo cria e faz crescer a harmonia das pessoas
congregadas e as ajuda a desenvolver uma vida em comum, animada pela caridade
segundo a orientação particular do carisma do Fundador e dos seus fiéis
seguidores. É consolador constatar que o Espírito Santo, também nos tempos
recentes, tem feito nascer na Igreja novas formas de comunidades e suscitado
novas experiências de vida consagrada. É
importante recordar, por outro lado, que na Igreja é o Espírito Santo que guia
as Autoridades responsáveis no acolher e reconhecer canonicamente as
comunidades de almas consagradas, depois de terem examinado, eventualmente
ordenado melhor e, por fim, aprovado as suas constituições (cf. LG,45), para
depois encorajarem, sustentarem e não raro inspirarem as suas opções
operativas. Quantas iniciativas,
quantas novas fundações de Institutos e novas paróquias, quantas expedições
missionárias têm a sua origem, mais ou menos conhecida, nas exigências ou nas
indicações que os pastores da Igreja dirigiram aos Fundadores e aos Superiores
Maiores dos Institutos! Com
freqüência, a ação do Espírito Santo desenvolve e até mesmo suscita carismas
dos religiosos, através da hierarquia.
Em cada caso serve-se desta para assegurar às Famílias religiosas a
garantia de uma orientação, conforme à vontade divina e ao ensinamento do
Evangelho.
4. E ainda: é
o Espírito Santo que exerce a sua influência na formação dos candidatos à vida
consagrada. É Ele que estabelece a
união harmoniosa em Cristo de todos os elementos espirituais, apostólicos,
doutrinais e práticos que a própria Igreja considera necessários para uma boa
formação (cf. Potissimum Institutioni, Diretrizes sobre a formação nos
Institutos religiosos). É o Espírito Santo que faz entender, de modo
particular, o valor do conselho evangélico da castidade mediante uma ilustração
interior, que transcende a condição ordinária da inteligência humana (cf. Mt.
19, 10-12). É Ele que suscita nas almas
a inspiração a uma doação radical a Cristo, no caminho do celibato. É por obra d’Ele que “a pessoa consagrada,
mediante os votos religiosos, (põe) no centro da sua vida afetiva uma relação
mais imediata com Deus, por meio de Cristo in Spiritu, como efeito do conselho
evangélico da castidade” (Pot. Inst., 13). Também
nos outros dois conselhos evangélicos o Espírito Santo faz sentir o seu poder
operador e plasmador. Ele não só dá a
força de renunciar aos bens terrenos e às suas vantagens, mas forma na alma o
espírito de pobreza, instilando o gosto de procurar acima dos bens materiais um
tesouro celeste. Ele dá também a luz
necessária ao juízo de fé para reconhecer, na vontade dos superior, a
misteriosa vontade de Deus e para discernir, no exercício da obediência, uma
humilde mas generosa cooperação para a realização do plano salvífico.
5.
Alma
do Corpo Místico, o Espírito Santo é a alma de toda a vida comunitária. Ele desenvolve todas as prioridades da
caridade que podem contribuir para a unidade e a paz na vida em comum. Ele faz com que a palavra e o exemplo de
Cristo sobre o amor dos irmãos, sejam de força operante nos corações, como
dizia São Paulo (cf. Rm. 5,5). Com a
sua graça, Ele faz penetrar no comportamento dos consagrados o amor do coração
manso e humilde de Jesus, a sua atitude de serviço, o seu heróico perdão. Não
menos necessária é a influência permanente do Espírito Santo, para a
perseverança dos consagrados na oração e na vida de união íntima com
Cristo. É Ele que dá o desejo da
intimidade divina, faz crescer o goto pela oração, inspira uma atração
crescente pela pessoa de Cristo, pela sua palavra e pela sua vida exemplar. É
ainda o sopro do Espírito Santo que anima a missão apostólica dos consagrados,
como indivíduos e como comunidade. O desenvolvimento
histórico da vida religiosa, caracterizado por uma crescente dedicação à missão
evangelizadora, confirma esta ação do Espírito em apoio do empenho missionário
das Famílias religiosas na Igreja.
6.
Os
consagrados, por sua vez, devem cultivar uma grande docilidade às inspirações e
moções do Espírito Santo, uma insistente comunhão com Ele, uma incessante
oração para obter os seus dons em abundância sempre maior, acompanhada de um
santo abandono à sua iniciativa. Esta é
a via descoberta sempre melhor pelos santos pastores e doutores da Igreja, em
harmonia com a doutrina de Jesus e dos Apóstolos. Esta é a via dos santos Fundadores e Fundadoras, que abriram na
Igreja tantas formas diferentes de comunidades, das quais surgiram várias
espiritualidades: basiliana, agostiniana, beneditina, franciscana, dominicana,
carmelitana e muitas outras: todas experiências, caminhos e escolas que
testemunham a riqueza dos carismas do Espírito Santo e fornecem o acesso, por
muitas vias particulares, ao único Cristo total, na única Igreja.
O Espírito Santo na Encarnação
1. Jesus está unido com o
Espírito Santo desde o primeiro instante da Sua existência no tempo, como
recorda o Símbolo niceno-constantinopolitano: «Et incarnatus est de Spiritu Sancto ex Maria Virgine». A fé da
Igreja neste mistério funda-se na palavra de Deus: «O Espírito Santo — anuncia
o anjo Gabriel a Maria — virá sobre ti e a força do Altíssimo estenderá sobre
ti a Sua sombra. Por isso mesmo é que o Santo que vai nascer há-de chamar-Se
Filho de Deus» (Lc 1, 35). E a José
foi dito: «O que ela concebeu é obra do Espírito Santo» (Mt 1, 20). Graças à intervenção direta do Espírito Santo, atua na
Encarnação a suprema graça, a «graça da união» da natureza humana com a pessoa
do Verbo. Essa união é fonte de todas as outras graças, como explica S. Tomás (S. Th. III, q. 2, a. 10-12; q. 6, a. 6;
q. 7, a. 13).
2. Para aprofundar o
papel do Espírito Santo no evento da Encarnação, é importante retornar aos
dados que nos oferece a palavra de Deus. São Lucas afirma que o Espírito Santo
desce como força do alto sobre Maria, a qual é recoberta pela Sua sombra.
Mediante o Antigo Testamento, nós sabemos que todas as vezes que Deus decide
fazer brotar a vida, age através da «força» do Seu sopro criador: «Pela palavra
do Senhor foram feitos os céus, pelo sopro da Sua boca todos os Seus exércitos
juntou» (Sl 33, 6). Isto vale para
cada ser vivo, a ponto que se Deus «retirasse o Seu sopro e fizesse voltar a Si
o espírito do homem, toda a carne pereceria no mesmo instante e o homem
voltaria ao pó» (Jb 34, 14-15). Deus
faz intervir o seu Espírito sobretudo nos momentos em que Israel experimenta a
impotência de se erguer só com as suas forças. Sugere-o o profeta Ezequiel na
visão dramática do imenso vale cheio de esqueletos: «O espírito entrou neles.
Retornando a vida, endireitaram-se» (37, 10). A concepção virginal de Jesus é
«a maior obra realizada pelo Espírito Santo na história da criação e da
salvação» (Dom. et viv., 50). Neste
evento de graça, uma virgem tornou-se fecunda, uma mulher, remida desde a sua
concepção, gera o Redentor. Prepara-se assim uma nova criação e tem início a
nova e eterna aliança: começa a viver um homem que é o Filho de Deus. Jamais
antes deste evento se dissera que o Espírito Santo tivesse descido diretamente
sobre a mulher para a tornar mãe. Quando na história de Israel se verificam
nascimentos prodigiosos, a intervenção divina, quando a ela se alude, é
referida ao nascituro e não à mãe.
3. Se nos perguntamos por
que o Espírito Santo realizou o evento da Encarnação, a palavra de Deus
responde-nos de maneira sintética, na segunda carta de Pedro, que isto ocorreu
para que nos tornássemos «partícipes da natureza divina» (1, 4). «Com efeito —
explica Santo Ireneu de Lião — este é o motivo por que o Verbo se fez homem, e
o Filho de Deus, Filho do homem: para que o homem, entrando em comunhão com o
Verbo e recebendo assim a filiação divina, se tornasse filho de Deus» (Adv. Haer. 3, 19, 1). Nesta mesma linha
se põe Santo Atanásio: «Quando o Verbo desceu sobre a santa Virgem Maria, o
Espírito juntamente com o Verbo entrou nela; no Espírito o Verbo assumiu um
corpo e adaptou-o a Si, querendo, por meio de Si mesmo, unir e conduzir ao Pai
toda a criação» (Ad Serap. 1, 31).
Estas afirmações são retomadas por S. Tomás: «O Filho unigênito de Deus,
querendo que fôssemos partícipes da Sua divindade, assumiu a nossa natureza
humana a fim de, ao fazer-Se homem, tornar os homens deuses» (Opusc. 57 in festo Corp. Christi, 1), isto é, por
graça partícipes da natureza divina. O mistério da Encarnação revela o
maravilhoso amor de Deus, do qual o Espírito Santo é a personificação mais
excelsa, sendo Ele o Amor de Deus em pessoa, a Pessoa-Amor: «Nisto se
manifestou o amor de Deus para conosco: em ter enviado o Seu Filho unigênito ao
mundo, para que, por Ele vivamos» (1Jo 4,
9). Na Encarnação, mais do que em qualquer outra obra, revela-se a glória de
Deus. Com muita razão no Gloria in
excelsis cantamos: «Nós Vos louvamos e bendizemos... nós Vos damos graças pela
vossa imensa glória». Esta expressão pode ser aplicada de modo especial à ação
do Espírito Santo, que na Primeira Carta de Pedro é chamado «o Espírito da
glória» (4, 14). Trata-se duma glória que é pura gratuidade: não consiste em
tomar ou em receber, mas só em dar. Ao dar-nos o seu Espírito, que é fonte de
vida, o Pai manifesta a Sua glória, tornando-a visível na nossa vida. Neste
sentido Santo Ireneu afirma que «a glória de Deus é o homem vivo» (Adv. Haer. IV, 20, 7).
4. Se agora procuramos
ver mais de perto o que o evento da Encarnação nos revela a respeito do
mistério do Espírito, podemos dizer que este evento nos manifesta, antes de
tudo, que Ele é a força benévola de Deus que gera a vida. A força que «estende
a sua sombra» sobre Maria evoca de novo a nuvem do Senhor que se pousava sobre
a tenda do deserto (cf. Ex 40, 34) ou
que enchia o templo (cf. 1Rs 8, 10).
É portanto a presença amiga, a proximidade salvífica de Deus que vem
estabelecer um pacto de amor com os Seus filhos. É uma força ao serviço do
amor, que se desenvolve no sinal da humildade: não só inspira a humildade de
Maria, a escrava do Senhor, mas como que se esconde atrás dela, a ponto de
ninguém em Nazaré conseguir intuir que «o que ela concebeu é obra do Espírito
Santo» (Mt 1, 20). Santo Inácio de
Antioquia exprime de modo estupendo este mistério paradoxal: «Ao príncipe deste
mundo permaneceu escondida a virgindade de Maria e também o seu parto, e de
igual modo a morte do Senhor. São estes os três mistérios da voz excelsa, que
se realizaram no descanso silencioso de Deus» (Ad Eph. 19, 1).
5. O mistério da
Encarnação, visto em perspectiva do Espírito Santo que o operou, lança luz
também sobre o mistério do homem. Com efeito, se o Espírito age de modo
singular no mistério da Encarnação, Ele está presente também na origem de cada
ser humano. O nosso ser é um «ser recebido», uma realidade refletida, amada e
doada. Não basta a evolução para explicar a origem do gênero humano, como não
basta a causalidade biológica dos pais para explicar, por si só, o nascimento
de um filho. Embora na transcendência da Sua criação, sempre respeitosa das
«causas segundas», Deus cria a alma espiritual do novo ser humano,
comunicando-lhe o sopro vital (cf. Gn 2, 7), através do seu Espírito que é «o
dador da vida». Cada filho deve, portanto, ser visto e acolhido como um dom do
Espírito Santo. Também a castidade dos celibatários e das virgens constitui um
reflexo singular daquele amor «derramado nos nossos corações por meio do
Espírito Santo» (Rm 5, 5). O Espírito que tornou partícipe da fecundidade
divina a Virgem Maria, assegura também a quantos escolheram a virgindade por
causa do Reino dos céus uma descendência numerosa no âmbito da família
espiritual, formada por todos aqueles que «não nasceram do sangue, nem de vontade
carnal, nem de vontade do homem, mas sim de Deus» (Jo 1, 13).
Fonte: Vaticano - Santa Sé - Papa
João Paulo II
Home Page: http://www.vatican.va
----------------------------------------------------------------
Copyright
2002 - Paróquia do
Divino Espírito Santo - Maceió/AL