Cartas anuais do Santo Padre, João Paulo II, aos Sacerdotes. Do ano de 1993 ao de 1999.

 

 

 

 

 

CARTA DO SANTO PADRE JOÃO PAULO II

AOS SACERDOTES POR OCASIÃO DA QUINTA-FEIRA SANTA DE 1993

 

(Esta transcrição é feito do Jornal L'Osservatore Romano, ou do site do Vaticano, edição em português, de Portugal; algumas palavras são escritas de forma diferente do português usado no Brasil)

 

 

 1. "Jesus Cristo é o mesmo ontem, hoje e sempre" (Heb 13,8).

Queridos Irmãos no Sacerdócio de Cristo! Ao reunirmo-nos hoje em torno das diversas Cátedras episcopais do mundo - os membros das comunidades presbiterais de todas as Igrejas junto com os pastores das dioceses - voltam insistentemente à nossa memória as palavras sobre Jesus Cristo, que se constituiram o fio condutor dos quinhentos anos da evangelização do Novo Mundo.

"Jesus Cristo é o mesmo ontem, hoje e sempre": são palavras referentes ao único e eterno Sacerdote, que "entrou de uma vez por todas no santuário... com o próprio sangue, tendo obtido uma redenção eterna" (Heb 9,12). Eis chegados os dias - o "Triduum Sacrum" da liturgia santa da Igreja - nos quais, com veneração e adoração ainda mais profunda, renovamos a Páscoa de Cristo, aquela "sua hora" (Cf. Jo 2,4), que é a abençoada "plenitude dos tempos" (Gal 4,4).

Através da Eucaristia, esta "hora" da redenção de Cristo continua, na Igreja, a ser salvífica e hoje mesmo a Igreja lembra a sua instituição durante a Última Ceia. "Não vos deixarei órfãos, voltarei para vós" (Jo 14,18). "A hora" do Redentor, a "hora" da sua passagem deste mundo ao Pai, a "hora" acerca da qual Ele mesmo diz: "Vou, mas voltarei para vós"!(Jo 14,28). É precisamente através desta sua "caminhada pascal", que Ele continuamente vem e continuamente está presente entre nós, pela força do Espírito Paráclito. Está presente de modo sacramental. Está presente através da

Eucaristia. Está realmente presente.

Queridos Irmãos, nós recebemos depois dos Apóstolos, este dom inefável para podermos ser os ministros desta caminhada de Cristo mediante a Cruz e, ao mesmo tempo, da sua vinda através da Eucaristia. Quanto significa para nós este Sacro Tríduo! Quão grande significado tem para nós este dia - o dia da Última Ceia! Somos ministros do mistério da redenção do mundo, ministros do Corpo que foi oferecido, e do Sangue que foi derramado para a remissão dos nossos pecados. Ministros daquele Sacrifício, mediante o qual Ele, o Único, entrou de uma vez para sempre no santuário "oferecendo-Se a Si próprio sem mancha a Deus, purifica a nossa consciência das obras mortas, para servir o Deus vivo" (Cfr. Heb 9,14).

Se todos os dias da nossa vida estão marcados por este grande mistério da fé, o de hoje está-o de modo particular. Este é o nosso dia com Ele.

2. Neste dia nos encontramos juntos, nas nossas comunidades presbiterais, para que cada qual possa contemplar com maior profundidade o mistério daquele Sacramento, pelo qual fomos constituídos ministros na Igreja da oferta sacerdotal de Cristo. Fomos constituídos, simultaneamente, servos do sacerdócio real de todo o Povo de Deus, de todos os baptizados, para anunciar "magnalia Dei" - as "maravilhas de Deus" (Act 2,11).

Convém incluir, este ano, na nossa acção de graças, um particular motivo de reconhecimento pelo dom do "Catecismo da Igreja Católica". De facto, este texto é também uma resposta à missão que o Senhor confiou à sua Igreja: guardar o depósito da fé e transmiti-lo integralmente, com autorizada e afectuosa solicitude, às sucessivas gerações.

Fruto da fecunda colaboração de todo o episcopado da Igreja Católica, ele é confiado, antes de mais, a nós Pastores do Povo de Deus, para reforçar os nossos profundos laços de comunhão na mesma fé apostólica. Compêndio da única e perene fé católica, constitui um instrumento qualificado e autorizado para testemunhar e garantir aquela unidade na fé, pela qual o próprio Cristo, ao aproximar-se a sua "hora", dirigiu ao Pai uma fervorosa oração (Cfr. Jo 17, 21-23).

Ao repropor os conteúdos fundamentais e essenciais da fé e da moral católica, tais como eles são cridos, celebrados, vividos e pregados pela Igreja hoje, o Catecismo é um meio privilegiado para aprofundar o conhecimento do inesgotável mistério cristão, para dar novo impulso a uma oração intimamente unida à de Cristo, para confirmar o compromisso de um testemunho coerente de vida.

Simultaneamente, o Catecismo é-nos entregue como seguro ponto de referência para a realização da missão, que nos foi confiada no Sacramento da Ordem, de anunciar em nome de Cristo e da Igreja a "Boa Nova" a todos os homens. Graças a ele, podemos actuar, de um modo sempre novo, o mandamento perene de Cristo: "Ide, pois, e ensinai todas as nações...ensinando-as a observar tudo quanto tenho mandado" (Mt 28, 19-20).

Neste compêndio sintético do depósito da fé, podemos, de facto, encontrar uma norma autêntica e segura para o ensinamento da doutrina católica, para a realização da actividade catequética ao Povo cristão, para aquela nova evangelização, de que o mundo de hoje tem imensa necessidade.

Queridos Sacerdotes, a nossa vida e ministério tornar-se-ão, por si próprios, uma eloquente catequese para toda a comunidade a nós confiada, se estiverem enraizados na Verdade que é Cristo.

O nosso, então, não será um testemunho isolado, mas unânime, prestado por pessoas unidas pela mesma fé, comungando do mesmo cálice. É a este "contágio" vital que devemos tender continuamente numa comunhão efectiva e afectiva, para realizar a "nova evangelização", que urge cada vez mais.

3. Reunidos Quinta-Feira Santa, em todas as Comunidades presbiterais da Igreja sobre a terra inteira, agradecemos o dom do sacerdócio de Cristo no qual participamos pelo Sacramento da Ordem. Nesta acção de graças, queremos incluir o tema do "Catecismo", porque o seu conteúdo e finalidade, está particularmente ligado com a nossa vida sacerdotal e ministério pastoral na Igreja.

Eis que a Igreja - a caminho do Grande Jubileu do Ano 2000 -, conseguiu elaborar, depois do Concílio Vaticano II, o compêndio da doutrina da fé e da moral, da vida sacramental e da oração. Esta síntese, pode de diversos modos servir de apoio ao nosso ministério sacerdotal. Pode também iluminar a consciência apostólica dos nossos irmãos e irmãs que, de acordo com a sua vocação cristã, desejam juntamente connosco dar testemunho daquela esperança (Cfr. 1 Pd 3,15), que a todos nos vivifica em Jesus Cristo.

O Catecismo apresenta a "novidade do Concílio", inserindo-a, ao mesmo tempo, na totalidade da Tradição; é um Catecismo tão cheio daqueles tesouros que, por milénios, encontramos na Sagrada Escritura, e depois nos Padres e Doutores da Igreja, que permite a cada um de nós tornar-se semelhante àquele homem da parábola evangélica "que tira do seu tesouro coisas novas e velhas" (Mt 13,52), as riquezas antigas e sempre novas do Depósito divino.

Ao reavivar em nós a graça do Sacramento da Ordem, conscientes do que significa para o nosso ministério sacerdotal o "Catecismo da Igreja Católica", confessamos com adoração e amor Aquele que é "o caminho, a verdade e a vida" (Jo 14,6). "Jesus Cristo é o mesmo ontem, hoje e sempre".

Vaticano, dia 8 de Abril - Quinta-Feira Santa - do ano 1993, décimo quinto do Pontificado.

 

 

 

CARTA DO SANTO PADRE

JOÃO PAULO II

AOS SACERDOTES

POR OCASIÃO DA QUINTA-FEIRA SANTA DE 1994

 

 

  (Esta  transcrição é feito do Jornal L'Osservatore Romano, ou do site do Vaticano, edição em português, de Portugal; algumas palavras são escritas de forma diferente do português usado no Brasil)                   

 

 

 

Caros Irmãos no Sacerdócio!

  1. Encontramo-nos hoje em torno da Eucaristia, na qual, como recorda o Concílio Vaticano II, "está contido todo o tesouro espiritual da Igreja" (Presbyterorum ordinis, n. 5). Quando na liturgia da Quinta-feira Santa comemoramos a instituição da Eucaristia, torna-se patente aos nossos olhos aquilo que Cristo nos deixou em tão sublime Sacramento: "Ele que amara os seus que estavam no mundo, levou até ao extremo o Seu amor por eles" (Jo 13,1). Esta afirmação de S. João inclui, em certo sentido, toda a verdade da Eucaristia: verdade que constitui contemporaneamente o âmago da verdade sobre a Igreja. De facto, é como se a Igreja nascesse diariamente da Eucaristia celebrada em muitos lugares da terra, nas condições mais variadas e entre culturas tão distintas, a ponto de a renovação do mistério eucarístico se tornar quase uma "criação" quotidiana. Graças à celebração da Eucaristia, amadurece mais e mais a consciência evangélica do Povo de Deus, tanto nas nações de secular tradição cristã, como nos povos há pouco ingressados na nova dimensão que, sempre e em toda a parte, é conferida à cultura dos homens pelo mistério da encarnação do Verbo e da redenção, mediante a Sua morte na cruz e a Sua ressurreição.

O Tríduo Sacro introduz-nos neste mistério de um modo único por todo o ano litúrgico. A liturgia da instituição da Eucaristia constitui uma singular antecipação da Páscoa, que se desenrola ao longo da Sexta-feira Santa e da Vigília Pascal, até ao Domingo e toda a Oitava da Ressurreição.

No limiar da celebração deste grande mistério da fé, caros Irmãos no Sacerdócio, encontrais-vos hoje ao redor dos vossos respectivos Bispos, nas catedrais das Igrejas diocesanas, para reviver a instituição do Sacramento do Sacerdócio junto com o da Eucaristia. O Bispo de Roma celebra esta liturgia rodeado pelo Presbitério da sua Igreja, da mesma forma que o fazem os meus Irmãos no episcopado com os presbíteros das suas Comunidades diocesanas.

Eis o motivo do encontro de hoje. Nesta circunstância, desejo fazer-vos chegar uma minha palavra especial, para que juntos possamos viver plenamente o grande dom que Cristo nos concedeu. Na verdade, para nós presbíteros, o Sacerdócio constitui o supremo dom, uma chamada particular a participar no mistério de Cristo, que nos confere a sublime possibilidade de falar e agir em Seu nome. Todas as vezes que celebramos a Eucaristia, esta possibilidade torna-se realidade. Agimos "in persona Christi" quando, no momento da consagração, pronunciamos as palavras: "Isto é o meu Corpo que será entregue por vós (...). Este é o cálice do meu Sangue, o Sangue da nova e eterna Aliança, que será derramado por vós e por todos para remissão dos pecados. Fazei isto em memória de Mim". Façamo-lo de facto: com muita humildade e profunda gratidão. Este acto, simultaneamente supremo e simples, da nossa missão quotidiana de sacerdotes estende, poder-se-ia dizer, a nossa humanidade até aos últimos confins.

Participamos no mistério da encarnação do Verbo, "o primogénito de toda a criação" (Col 1,15), que na Eucaristia devolve ao Pai toda a criação, o mundo passado e o futuro, e, sobretudo, o mundo contemporâneo, no qual Ele vive connosco, faz-se presente por meio de nós e, precisamente por nosso intermédio, oferece ao Pai o sacrifício redentor. Participamos no mistério de Cristo, "o Primogénito daqueles que ressuscitam dos mortos" (Col 1,18), que na Sua Páscoa transforma incessantemente o mundo, fazendo-o progredir para "a revelação dos filhos de Deus" (Rom 8,19).

Deste modo, pois, toda a realidade, em quaisquer dos seus âmbitos, torna-se presente no nosso ministério eucarístico, que se abre, ao mesmo tempo, a toda a exigência pessoal concreta, a cada sofrimento, anseio, alegria ou tristeza, segundo as intenções que os fiéis apresentam para a Santa Missa. Nós acolhemos tais intenções em espírito de caridade, introduzindo assim cada problema humano na dimensão da redenção universal.

Caros Irmãos no Sacerdócio! Este ministério forma uma nova vida em nós e ao nosso redor. A Eucaristia evangeliza os ambientes humanos e reforça-nos na esperança de que as palavras de Cristo não passam (cf. Lc 21,33). Não passam as Suas palavras, enraizadas como estão no sacrifício da Cruz: da perpetuidade desta verdade e do amor divino, nós somos testemunhas particulares e ministros privilegiados. Podemos, pois, congratularmo-nos juntos, se os homens sentem necessidade do novo Catecismo, se tomam em suas mãos a Encíclica Veritatis splendor.

Tudo isto nos consolida na convicção de que o nosso ministério do Evangelho torna-se frutuoso em virtude da Eucaristia. Aliás, durante a última Ceia, Cristo disse aos Apóstolos: "Já não vos chamo servos (...); chamei-vos amigos (...). Não fostes vós que Me escolhestes, fui Eu que vos escolhi e vos nomeei para irdes e dardes fruto, e o vosso fruto permanecer" (Jo 15, 15-16).

Que riqueza imensa de conteúdos a Igreja nos oferece durante o Tríduo Sacro, e especialmente em Quinta-feira Santa na liturgia crismal! Estas minhas palavras são apenas um reflexo parcial dos sentimentos que cada um de vós certamente traz no coração. Talvez esta Carta por ocasião da Quinta-feira Santa sirva para fazer com que as múltiplas manifestações do dom de Cristo, difundidas em tantos corações, confluam ante a majestade do grande "mistério da fé", numa significativa partilha daquilo que o Sacerdócio é e sempre permanecerá na Igreja. Possa, então, a nossa união à volta do altar abraçar a todos os que levam em si o sinal indelével deste Sacramento, na recordação também daqueles nossos irmãos que de algum modo se afastaram do sagrado ministério. Espero que esta lembrança leve cada um a viver ainda mais profundamente a sublimidade do dom constituído pelo Sacerdócio de Cristo.

  2. Caros Irmãos, hoje desejo entregar-vos idealmente a Carta que dirigi às Famílias no Ano a elas dedicado. Considero uma circunstância providencial que a Organização das Nações Unidas tenha proclamado 1994, Ano Internacional da Família. A Igreja, concentrando o seu olhar sobre o mistério da Sagrada Família de Nazaré, participa nessa iniciativa, encontrando nela uma especial ocasião para anunciar o "evangelho da família". Cristo proclamou-o com a Sua vida escondida em Nazaré no seio da Sagrada Família. Este evangelho foi, depois, anunciado pela Igreja apostólica, como se vê no Novo Testamento, e, mais tarde, foi testemunhado pela Igreja pós-apostólica, da qual herdámos o costume de considerar a família como igreja doméstica.

No nosso século, o "evangelho da família" é apresentado pela Igreja na voz de tantos sacerdotes, párocos, confessores, Bispos; em particular, com a voz do Sucessor de Pedro. Quase todos os meus Predecessores dedicaram à família uma significativa parcela do seu "magistério petrino". Além disso, o Concílio Vaticano II exprimiu o seu amor pela instituição familiar através da Constituição pastoral Gaudium et spes, na qual reafirmou a necessidade de promover a dignidade do matrimónio e da família no mundo contemporâneo.

O Sínodo dos Bispos de 1980 está na origem da Exortação Apostólica Familiaris consortio, que pode ser considerada a magna charta da pastoral da família. As dificuldades do mundo actual, e especialmente da família, enfrentadas com coragem por Paulo VI na Encíclica Humanae vitae, exigiam uma visão global sobre a família humana e sobre a ecclesia domestica na sociedade actual.

Isto mesmo se propôs a Exortação Apostólica. Foi necessário elaborar novos métodos de acção pastoral segundo as exigências da família contemporânea. Em síntese, poder-se-ia dizer que a solicitude pela família, nomeadamente pelos cônjuges, pelas crianças, os jovens e os adultos, requer de nós, sacerdotes e confessores, antes de mais, a descoberta e a constante promoção do apostolado dos leigos em tal âmbito. A pastoral familiar - sei-o por experiência pessoal - constitui, em certo sentido, a quinta-essência da actividade dos sacerdotes em todo o nível. Disto tudo, fala a Familiaris consortio. A Carta às Famílias nada mais faz senão retomar e actualizar esse património da Igreja pós-conciliar

Desejo que esta Carta possa ser útil às famílias, na Igreja e fora dela; que sirva, caros sacerdotes, no vosso ministério pastoral dedicado às famílias. É, em certa medida, como a Carta aos Jovens de 1985, que deu início a uma grande animação apostólica e pastoral dos jovens no mundo inteiro.

Manifestação deste movimento são as Jornadas Mundiais da Juventude, celebradas nas paróquias, nas dioceses e a nível da Igreja inteira - como a realizada recentemente em Denver, nos Estados Unidos.

Esta Carta às Famílias é mais ampla. De facto, a problemática da família é mais complexa e universal. Ao preparar o texto, convenci-Me mais uma vez que o magistério do Concílio Vaticano II, particularmente a Constituição pastoral Gaudium et spes, é realmente uma fonte muito rica de pensamento e de vida cristã. Espero que esta Carta, inspirada pelo ensinamento conciliar, possa constituir para vós uma ajuda não inferior àquela que será para todas as famílias de boa vontade, a quem ela se dirige

Para uma correcta visão deste texto, convém tornar àquela passagem dos Actos dos Apóstolos, onde se lê que as primeiras Comunidades eram "assíduas ao ensino dos Apóstolos, à união fraterna, à fracção do pão e às orações" (2,42). A Carta às Famílias, mais que um tratado doutrinal é sobretudo uma preparação e uma exortação à oração com as famílias e pelas famílias. Esta é a primeira tarefa, mediante a qual vós, caros Irmãos, podeis iniciar ou desenvolver a pastoral e o apostolado das famílias nas vossas Comunidades paroquiais. Se vos encontrais perante a interrogação: Como cumprir as metas do Ano da Família?, a exortação à oração, contida na Carta, indicar-vos-á, de certo modo, a direcção mais simples a tomar. Disse Jesus aos Apóstolos: "Sem Mim nada podeis fazer" (Jo 15,5). Portanto, é claro que devemos "actuar com Ele"; isto é, de joelhos e em oração. "Pois onde estiverem reunidos, em Meu nome, dois ou três, Eu estou no meio deles" (Mt 18,20). Estas palavras hão-de ser traduzidas por iniciativas concretas em cada Comunidade. Delas se pode obter um bom programa pastoral, um programa rico, mesmo com grande pobreza de meios.

Quantas famílias rezam no mundo! Rezam as crianças, às quais, antes de mais, pertence o Reino dos céus (cf. Mt 18, 2-5); graças a elas, rezam não só as mães, mas também os pais, reencontrando, às vezes, a prática religiosa da qual se tinham afastado. Por acaso, não é o que ocorre por ocasião da Primeira Comunhão? E porventura não se nota subir a "temperatura espiritual" dos jovens, e não só dos jovens, por ocasião das peregrinações aos santuários? Os antiquíssimos itinerários de peregrinações no Oriente e no Ocidente, começando pelos de Jerusalém, Roma e Santiago de Compostela, até aos santuários marianos de Lourdes, Fátima, Jasna Góra e muitos outros, tornaram-se, ao longo dos séculos, ocasião para a descoberta da Igreja por parte de multidões de fiéis e, certamente, também de inumeráveis famílias. O Ano da Família deve confirmar, ampliar e enriquecer esta experiência. Cuidem disto todos os pastores e as instâncias responsáveis pela pastoral familiar, de acordo com o Pontifício Conselho para a Família, a quem está confiada esta obra no âmbito da Igreja universal. Como se sabe, o Presidente deste Conselho inaugurou o Ano da Família em Nazaré, na solenidade da Sagrada Família a 26 de Dezembro de 1993.

 3. "Eram assíduos ao ensino dos Apóstolos, à união fraterna, à fracção do pão e às orações" (Act 2,42). Segundo a Constituição Lumen gentium, a Igreja é a "casa de Deus (cf. 1 Tm 3,15), na qual habita a sua «família»; habitação de Deus no Espírito (cf. Ef 2,19-22), «tabernáculo de Deus com os homens» (Ap 21,3)" (n.6). Deste modo, entre muitas outras imagens bíblicas, a imagem da "casa de Deus" é lembrada pelo Concílio ao descrever a Igreja. De resto, esta imagem encontra-se, de certa forma, em todas as outras; entra inclusive na analogia paulina do Corpo de Cristo (cf. 1 Cor 12,13.27; Rom 12,5), à qual se referia Pio XII na sua histórica encíclica Mystici Corporis; entra nas dimensões do Povo de Deus, conforme as citações do Concílio. O Ano da Família é para todos nós um apelo a tornar a Igreja ainda mais "casa na qual habita a família de Deus".

É uma chamada, um convite que se pode revelar extraordinariamente fecundo para a evangelização do mundo contemporâneo. Como escrevi na Carta às Famílias, a dimensão fundamental da existência humana, constituída pela família, vê-se seriamente ameaçada de vários lados, na civilização contemporânea (cf. n.13). E no entanto, este "ser família" da vida humana representa um grande bem para o homem. A Igreja deseja servi-lo. O Ano da Família constitui, então, uma ocasião significativa para renovar o "ser família" da Igreja nos seus vários âmbitos.

Caros Irmãos no Sacerdócio! Cada um de vós encontrará certamente na oração a luz necessária para saber como concretizar tudo isto: vós, nas vossas paróquias e nos vários campos ao serviço do Evangelho; os Bispos nas suas dioceses; a Sé Apostólica relativamente à Cúria Romana, como expresso na Constituição Apostólica Pastor bonus.

A Igreja, de acordo com a vontade de Cristo, esforça-se em tornar-se sempre mais "família", e o empenho da Sé Apostólica está orientado a favorecer tal crescimento. Sabem-no bem os Bispos que vêm aqui em visita ad limina Apostolorum. As suas visitas, tanto ao Papa como a cada Dicastério, mesmo mantendo o que está prescrito pela lei canónica, perdem cada vez mais o antigo sabor jurídico-administrativo. Assiste-se cada vez mais a um clima de "intercâmbio de dons", conforme a expressão da Constituição Lumen gentium (cf. n.13). Os Irmãos no episcopado, frequentemente, dão testemunho disto nos nossos encontros.

Desejo nesta circunstância mencionar o Directório preparado pela Congregação para o Clero, que será entregue aos Bispos, aos Conselhos Presbiterais e a todos os sacerdotes. Ele não deixará de proporcionar um amplo contributo para a renovação da sua vida e do seu ministério.

 

4. Caros Irmãos, o apelo à oração com as famílias e pelas famílias diz respeito a cada um de vós, de uma forma muito pessoal. Devemos a vida aos nossos pais e temos com eles uma perene dívida de gratidão. A eles, ainda vivos ou já na eternidade, estamos unidos por um vínculo estreito que o tempo não destrói. Se a Deus devemos a nossa vocação, uma parte significativa dela deve atribuir-se também a eles. A decisão de um filho se dedicar ao ministério sacerdotal, especialmente em terras de missão, constitui um sacrifício não pequeno para os pais. Assim o foi também para os nossos entes queridos, que, apesar de tudo, apresentaram a Deus a oferta dos seus sentimentos, deixando-se guiar por uma fé profunda, e acompanharam-nos depois com a oração, como fez Maria com Jesus, quando Ele deixou a casa de Nazaré para ir realizar a sua missão messiânica.

Que grande experiência foi para cada um de nós e, ao mesmo tempo, para os nossos pais, os nossos irmãos e irmãs e para os amigos, o dia da Missa Nova! Que repercussão tiveram aqueles começos nas nossas paróquias e nos ambientes onde tínhamos crescido! Cada nova vocação torna a paróquia consciente da fecundidade da sua maternidade espiritual: quanto mais isto se dá, maior é o estímulo que surge para os outros! Cada sacerdote pode dizer de si: "Tornei-me devedor a Deus e aos homens". Muitas foram as pessoas que nos acompanharam com o pensamento e a oração, assim como numerosas são aquelas que acompanham com o pensamento e a oração o Meu ministério na Sé de Pedro. Esta grande solidariedade espiritual é para Mim fonte de força. Sim, os homens depositam a sua confiança na nossa vocação ao serviço de Deus. A Igreja reza constantemente pelas novas vocações sacerdotais; alegra-se com o seu aumento, entristece-se pela sua falta onde tal se verifica, assim como se lamenta com a escassa generosidade de muitas pessoas

Renovamos cada ano, neste dia, as nossas promessas ligadas ao sacramento do Sacerdócio. É grande o alcance de tais promessas. Trata-se da palavra dada ao próprio Cristo. A fidelidade à vocação edifica a Igreja; pelo contrário, toda a infidelidade torna-se uma ferida dolorosa no Corpo Místico de Cristo. Ao reunirmo-nos, pois, para contemplar juntos o mistério da Eucaristia e do Sacerdócio, imploremos o Sumo Sacerdote que - como diz a Sagrada Escritura - se mostrou fiel (cf. Heb 2,17), para que seja dado, também a nós, mantermo-nos fiéis. No espírito desta "fraternidade sacramental", peçamos uns pelos outros - os sacerdotes pelos sacerdotes! Que a Quinta-feira Santa se torne para nós uma nova chamada para cooperar com a graça do Sacramento do Sacerdócio.

Rezemos pelas nossas famílias espirituais, pelas pessoas confiadas ao nosso ministério; rezemos especialmente por aqueles que de modo particular esperam a nossa oração e dela necessitam: a fidelidade à oração faça com que Cristo se torne cada vez mais vida das nossas almas.

Ó grande Sacramento da Fé, ó santo Sacerdócio do Redentor do mundo! Como Vos estamos gratos, Jesus Cristo, por nos terdes admitido à comunhão convosco, por nos terdes feito uma única comunidade em redor de Vós, por nos terdes permitido celebrar o Vosso sacrifício incruento e ser, em toda a parte, ministros dos mistérios divinos: no altar, no confessionário, no púlpito, nas visitas aos enfermos e aos encarcerados, nas salas de aula, nas cátedras universitárias, nos escritórios onde trabalhamos. Louvada sejais, ó Santíssima Eucaristia! Eu vos saúdo, Igreja de Deus, que sois o povo sacerdotal (cf. 1 Pd 2,9) redimido pelo preciosíssimo Sangue de Cristo!

Vaticano, 13 de Março - quarto Domingo da Quaresma - do ano 1994, décimo-sexto de Pontificado.

 

 

 

 

CARTA DO SANTO PADRE JOÃO PAULO II

AOS SACERDOTES POR OCASIÃO DA QUINTA-FEIRA SANTA DE 1995

 

(Esta transcrição é feito do Jornal L'Osservatore Romano, ou do site do Vaticano, edição em português, de Portugal; algumas palavras são escritas de forma diferente do português usado no Brasil)

 

 

 

1. «Honra a Maria, honra e glória, honra à Virgem Santa! (...)

Aquele que criou maravilhosamente o mundo,

n'Ela honrava a sua própria Mãe (...).

Amava-A como Mãe; viveu na obediência.

Apesar de ser Deus, respeitava cada palavra sua».

Caros Irmãos no sacerdócio!

Não vos admireis de ter iniciado esta Carta, que vos dirijo habitualmente por ocasião da Quinta-feira Santa, com as palavras de um cântico mariano polaco. O motivo é que desejo falar-vos este ano da importância da mulher na vida do sacerdote, e estes versos, que eu cantava desde criança, podem constituir uma significativa introdução a tal temática.

O cântico evoca o amor de Cristo pela sua Mãe. A primeira e fundamental relação que o ser humano estabelece com a mulher é precisamente a de filho com a mãe. Cada um de nós pode expressar o amor à própria mãe terrena como o Filho de Deus fez - e continua a fazê-lo - com a Sua. A mãe é a mulher a quem devemos a vida. Concebeu-nos em seu ventre, deu-nos à luz por entre as dores que sempre se abatem sobre a mulher em trabalhos de parto. Através da geração, acaba por se instaurar um vínculo especial, quase sagrado, entre o ser humano e sua mãe.

Depois de nos terem gerado para a vida terrena, foram também os nossos pais que, graças ao sacramento do Baptismo, nos fizeram tornar filhos adoptivos de Deus, em Cristo. Tudo isto constituiu ainda mais profunda a ligação com os pais, e particularmente com a nossa mãe. Como protótipo temos aqui o próprio Cristo, Cristo-Sacerdote, que assim Se dirige ao eterno Pai: «Não quiseste sacrifício nem oblação, mas preparaste-Me um corpo. Os holocaustos e sacrifícios pelo pecado não Te agradaram. Então Eu disse: Eis que venho (...) para fazer, ó Deus, a tua vontade» (Heb 10,5-7). Estas palavras envolvem, de algum modo, também a Mãe, visto que o eterno Pai formou o corpo de Cristo por obra do Espírito Santo, no seio da Virgem Maria, graças também ao seu consentimento: «Faça-se em mim segundo a tua palavra» (Lc 1,38). Quantos de nós devem à sua mãe também a própria vocação ao sacerdócio! A experiência ensina que, com muita frequência, a mãe cultiva no próprio coração, durante longos anos, o desejo da vocação sacerdotal do filho e, para a obter, reza com insistente confiança e profunda humildade.

Assim, sem impor a própria vontade, ela favorece, com a típica eficácia da fé, o desabrochar da aspiração ao sacerdócio na alma do filho, aspiração essa que dará fruto no momento oportuno.

2. O motivo concreto pelo qual desejo reflectir, nesta Carta, sobre a relação entre o sacerdote e a mulher, é o facto de o tema da mulher despertar este ano uma atenção especial, de forma análoga ao que se passou, no ano passado, com o tema da família. À mulher, de facto, será dedicada a importante Conferência Internacional em Pequim, convocada pela Organização das Nações Unidas para o próximo mês de Setembro. Apesar de diverso do tema do ano passado, está-lhe intimamente ligado.

À presente Carta, queridos Irmãos no sacerdócio, desejo associar outro documento. Tal como, no ano passado, a Mensagem de Quinta-feira Santa foi acompanhada pela Carta às Famílias, assim agora queria entregar-vos de novo a Carta Apostólica Mulieris dignitatem, de 15 de Agosto de 1988. Como recordareis, trata-se de um documento elaborado no final do Ano Mariano de 1987-1988, durante o qual tinha publicado a Encíclica Redemptoris Mater (25 de Março de 1987).

É meu ardente desejo que, ao longo deste ano, se leia de novo a Mulieris dignitatem, fazendo dela objecto de especial meditação, com uma atenção particular aos seus aspectos marianos.

A ligação com a Mãe de Deus é fundamental no «pensamento» cristão. É-o, antes de mais, no plano teológico, pela relação especialíssima de Maria com o Verbo Encarnado e o seu Corpo místico, a Igreja. Mas é-o também no plano histórico, antropológico e cultural. De facto, no cristianismo, a figura da Mãe de Deus representa uma grande fonte de inspiração não apenas para a prática religiosa, mas também para a cultura cristã e para o próprio amor da pátria. Há provas disso no património histórico de muitas nações. Na Polónia, por exemplo, a composição literária mais antiga é o canto Bogurodzica (Mãe de Deus), que inspirou os nossos antepassados não só ao plasmar a vida da nação, mas ainda quando tiveram de defender a justa causa no campo de batalha. A Mãe do Filho de Deus tornou-se a «grande inspiração» seja para indivíduos seja para nações cristãs inteiras.

Também isto, a seu modo, diz muitíssimo a propósito da importância da mulher na vida do homem, e, a título especial, na existência do sacerdote.

Tive já ocasião de tratar este argumento na Encíclica Redemptoris Mater e na Carta Apostólica Mulieris dignitatem, prestando homenagem àquelas mulheres - mães, esposas, filhas ou irmãs - que foram para os respectivos filhos, maridos, pais e irmãos uma eficaz inspiração para o bem. Não é sem motivo que se fala de «génio feminino», e quanto escrevi até agora confirma quão fundada seja essa expressão. Tratando-se, porém, da vida sacerdotal, a presença da mulher reveste um carácter peculiar e exige uma análise específica.

3. Mas voltemos a Quinta-feira Santa, dia em que adquirem especial relevo as palavras do hino litúrgico:

Ave verum Corpus, natum de Maria Virgine:

Vere passum, immolatum in cruce pro homine.

Cuius latus perforatum fluxit aqua et sanguine:

Esto nobis praegustatum mortis in examine.

O Iesu dulcis! O Iesu pie! O Iesu, fili Mariae!

Embora estas palavras não pertençam à liturgia da Quinta-feira Santa, estão profundamente ligadas com ela.

Com a Última Ceia, durante a qual Cristo instituiu os sacramentos do Sacrifício e do Sacerdócio da

Nova Aliança, tem início o Sagrado Tríduo Pascal. No centro deste, encontra-se o Corpo de Cristo.

É precisamente este Corpo que, antes de se sujeitar à paixão e à morte, durante a Última Ceia é oferecido como alimento na instituição da Eucaristia. Cristo toma o pão em suas mãos, parte-o e distribui-o aos Apóstolos, pronunciando as palavras: «Tomai e comei: Isto é o meu Corpo» (Mt 26,26). Institui, assim, o sacramento do seu Corpo, daquele Corpo que, como Filho de Deus, tinha assumido de sua Mãe, a Virgem Imaculada. Em seguida, apresenta o cálice aos Apóstolos com o seu Sangue sob as espécies do vinho, dizendo: «Bebei todos dele. Porque este é o meu sangue, sangue da Aliança, que vai ser derramado por muitos para remissão dos pecados» (Mt 26,27-28).

Também aqui se trata daquele Sangue que animava o Corpo recebido da Virgem Mãe: Sangue que havia de ser derramado, dando assim cumprimento ao mistério da Redenção, para que o Corpo recebido de sua Mãe, pudesse - enquanto Corpus immolatum in cruce pro homine - tornar-se para nós e para todos sacramento de vida eterna, viático para a eternidade. Por isso, no Ave verum, hino simultaneamente eucarístico e mariano, pedimos: Esto nobis praegustatum mortis in examine.

Embora não se fale de Maria na liturgia de Quinta-feira Santa - mas encontramo-la na Sexta-feira Santa ao pé da Cruz com o apóstolo João -, é difícil não pressentir a sua presença na instituição da Eucaristia, antecipação da paixão e morte do Corpo de Cristo, daquele Corpo que o Filho de Deus tinha recebido da Virgem Mãe, no momento da Anunciação.

Para nós, enquanto sacerdotes, a Última Ceia é um momento particularmente sagrado. Ao dizer aos Apóstolos: «Fazei isto em minha memória» (1 Cor 11,24), Cristo instituiu o sacramento da Ordem.

Para a nossa vida de presbíteros, aquele é um momento marcadamente cristocêntrico: recebemos, com efeito, o sacerdócio de Cristo-Sacerdote, o único Sacerdote da Nova Aliança. Mas, ao pensarmos no sacrifício do Corpo e do Sangue, que é oferecido por nós in persona Christi, é difícil não divisar nele a presença da Virgem Mãe. Maria deu a vida ao Filho de Deus - da mesma forma que as nossas mães o fizeram a nós -, para que Ele Se oferecesse e também nós nos oferecêssemos em sacrifício com Ele, mediante o ministério sacerdotal. Por detrás desta missão, está a vocação recebida de Deus, mas esconde-se também o grande amor das nossas mães, tal como, por detrás do sacrifício de Cristo no Cenáculo, se escondia o amor inefável de sua Mãe. Oh, como está presente, real e - ao mesmo tempo - discretamente, a maternidade e, graças a ela, a feminilidade no sacramento da Ordem, cuja festa renovamos cada ano, em Quinta-feira Santa!

4. Cristo Jesus é o único filho de Maria Santíssima. Compreendemos bem o significado deste mistério: convinha que assim fosse, pois um Filho tão singular pela sua divindade não podia ser senão o filho único da sua Virgem Mãe. Mas precisamente esta unicidade constitui, de certo modo, a melhor «garantia» de uma «multiplicidade» espiritual. Cristo, verdadeiro homem e, simultaneamente, Filho eterno e unigénito do Pai celeste, possui, no plano espiritual, um número ilimitado de irmãos e de irmãs. A família de Deus, de facto, engloba todos os homens: não só aqueles que se tornam filhos adoptivos de Deus pelo baptismo, mas ainda, em determinado sentido, a humanidade inteira, pois Cristo redimiu todos os homens e mulheres, oferecendo-lhes a possibilidade de se tornarem filhos e filhas adoptivos do eterno Pai. Deste modo, em Cristo, todos nos tornamos irmãos e irmãs.

Assim, ao lado da figura da mãe, surge, no horizonte da nossa reflexão sobre a relação entre o sacerdote e a mulher, a figura da irmã. Graças à Redenção, o sacerdote participa, de modo singular, na relação de fraternidade oferecida por Cristo a todos os redimidos.

Muitos de nós, sacerdotes, têm irmãs na família. Em todo o caso, cada sacerdote, desde menino, teve ocasião de se encontrar com raparigas, se não na própria família, pelo menos no relacionamento com os vizinhos, nos jogos de crianças e na escola. Um tipo de comunidade mista possui enorme importância para a formação da personalidade dos rapazes e raparigas.

Tocamos aqui o desígnio primordial do Criador que, no princípio, criou o ser humano «homem e mulher» (cfr Gn 1,27). Este acto criador divino prossegue através das gerações. O Livro do Génesis refere-o no contexto da vocação ao matrimónio: «Por este motivo, o homem deixará o pai e a mãe para se unir à sua mulher» (2,24). Obviamente, a vocação ao matrimónio supõe e exige que o ambiente, onde se vive, apareça composto de homens e mulheres.

Neste contexto, nascem não só as vocações ao matrimónio, mas também as vocações ao sacerdócio e à vida consagrada. Estas não se formam no isolamento. O candidato ao sacerdócio, ao transpor o limiar do Seminário, leva consigo a experiência da própria família e da escola, onde teve ocasião de encontrar muitos coetâneos de ambos os sexos. Para viver no celibato de modo maturo e sereno, parece ser muito importante que o sacerdote desenvolva profundamente em si a imagem da mulher como irmã. Em Cristo, homens e mulheres são irmãos e irmãs, independentemente dos laços de parentesco. Trata-se de um vínculo universal, pelo qual o sacerdote pode abrir-se a qualquer ambiente novo, por mais diverso que seja sob o aspecto étnico ou cultural, com a certeza de dever exercer em favor dos homens e mulheres, aos quais é enviado, um ministério de autêntica paternidade espiritual, que lhe granjeia «filhos» e «filhas» no Senhor (cfr 1 Ts 2,11; Gal 4,19).

5. A figura da «irmã» representa, sem dúvida, uma específica manifestação da beleza espiritual da mulher; mas, ao mesmo tempo, é revelação da sua «intangibilidade». Se o sacerdote, com a ajuda da graça divina e sob a especial protecção de Maria, Virgem e Mãe, procura maturar neste sentido a sua conduta para com a mulher, verá o seu ministério acompanhado por um sentimento de grande confiança mesmo por parte das mulheres, consideradas por ele, nas diversas idades e situações da vida, como irmãs e mães.

A figura da mulher-irmã reveste notável importância na nossa civilização cristã, onde inumeráveis mulheres se fizeram irmãs de modo universal, graças à típica atitude que elas assumiram para com o próximo, especialmente o mais necessitado. Uma «irmã» é garantia de dom desinteressado: na escola, no hospital, na prisão e noutros sectores dos serviços sociais. Quando uma mulher permanece solteira, desenvolve uma peculiar maternidade espiritual ao «dar-se como irmã», através do compromisso apostólico ou da generosa dedicação ao próximo. Este dom desinteressado de feminilidade «fraterna» enche de luz a existência humana, suscita os melhores sentimentos de que o homem é capaz, e deixa sempre atrás de si um rasto de gratidão pelo bem gratuitamente oferecido.

Deste modo, pois, as duas dimensões fundamentais da relação entre mulher e sacerdote são as de mãe e de irmã. Se esta relação se desenvolve de forma serena e matura, a mulher não provará dificuldades particulares no seu relacionamento com o sacerdote. Não as encontrará, por exemplo, quando se confessa das próprias culpas no sacramento da Penitência. Tampouco as sentirá nas actividades apostólicas de vário tipo, que realiza com os sacerdotes. Por isso, cada padre tem a grande responsabilidade de desenvolver em si mesmo uma autêntica atitude de irmão perante a mulher, uma atitude que não admita ambiguidades. Nesta perspectiva, o Apóstolo recomenda ao discípulo Timóteo que trate «às [mulheres] anciãs como a mães, e às jovens como a irmãs, com toda a pureza» (1 Tm 5,2).

Quando Cristo afirmou - como escreve o evangelista Mateus -que o homem pode permanecer celibatário pelo Reino de Deus, os Apóstolos ficaram perplexos (cfr 19,10-12). Pouco antes, tinha

Ele declarado o matrimónio indissolúvel, e esta verdade tinha já suscitado naqueles uma reacção sintomática: «Se é essa a situação do homem perante a mulher, não é conveniente casar-se» (Mt 19,10). Como se vê pela reacção, o pensar deles ia na direcção oposta à lógica de fidelidade que animava Jesus. Mas o Mestre aproveita mesmo esta incompreensão para introduzir, no horizonte estreito do seu modo de pensar, a perspectiva do celibato pelo Reino de Deus. Com isto, pretende Ele afirmar que o matrimónio possui toda uma dignidade e santidade sacramental, mas, não obstante, existe outro caminho para o cristão: um caminho que não é fuga do matrimónio, mas, sim, opção consciente do celibato pelo Reino dos Céus.

Neste horizonte, a mulher só pode ser para o sacerdote uma irmã, e esta sua dignidade de irmã deve ser cultivada conscientemente por ele. O apóstolo Paulo, que vivia em celibato, escreve assim na Primeira Carta aos Coríntios: «Quisera que todos os homens fossem como eu; mas cada qual recebe de Deus o seu próprio dom, este de uma maneira, aquele doutra» (7,7). Ele não tem dúvidas: quer o matrimónio quer o celibato são dons de Deus, que hão-de ser guardados e cultivados cuidadosamente. Ao sublinhar a superioridade da virgindade, não desvaloriza de modo algum o matrimónio. A ambos corresponde um específico carisma; cada um deles é uma vocação, que o homem, com a ajuda da graça de Deus, deve saber discernir na própria existência.

A vocação ao celibato exige ser conscientemente defendida, com uma especial vigilância sobre os sentimentos e a própria conduta inteira. Em particular, deve defender a própria vocação o sacerdote que, segundo a disciplina vigente na Igreja Ocidental e muito estimada na Oriental, optou pelo celibato por amor do Reino de Deus. Se na relação com uma mulher corressem perigo o dom e a escolha do celibato, o sacerdote não poderia deixar de lutar para se manter fiel à própria vocação. E esta defesa não significaria que o matrimónio em si mesmo fosse algo de mal, mas que a estrada para ele, sacerdote, é outra. Deixá-la, no seu caso, seria faltar à palavra dada a Deus.

A oração do Senhor: «E não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal», ganha um significado singular no contexto da sociedade contemporânea, saturada de elementos de hedonismo, egocentrismo e sensualidade. Alastra, infelizmente, a pornografia que humilha a dignidade da mulher, tratando-a exclusivamente como objecto de prazer sexual. Estes aspectos da sociedade actual não favorecem, por certo, a fidelidade conjugal nem o celibato pelo Reino de Deus. Se o sacerdote não alimenta em si mesmo disposições autênticas de fé, esperança e amor para com Deus, pode facilmente ceder aos apelos que lhe vêm do mundo. Por isso, como não me dirigir a vós, caros Irmãos no sacerdócio, hoje - Quinta-feira Santa -, para vos exortar a permanecerdes fiéis ao dom do celibato, que nos foi oferecido por Cristo? Nesse dom, está contido um bem espiritual que pertence ao próprio sujeito e à Igreja inteira.

No pensamento e na oração, estão presentes neste dia, de modo particular, os nossos irmãos no sacerdócio que encontram dificuldades neste campo, aqueles que, exactamente por causa de uma mulher, abandonaram o ministério sacerdotal. Recomendamos a Maria Santíssima, Mãe dos sacerdotes, e à intercessão dos inumeráveis santos sacerdotes da história da Igreja, o momento difícil que aqueles estão a atravessar, pedindo para eles a graça do regresso ao primitivo fervor (cfr Ap 2,4-5). A experiência do meu ministério, e creio que o mesmo poderia testemunhar cada Bispo, confirma que tais retornos sucedem e não são poucos, mesmo hoje. Deus permanece fiel à aliança que estreita com o homem no sacramento da Ordem.

6. Chegado a este ponto, quereria tocar o argumento - ainda mais vasto - do papel que a mulher é chamada a desempenhar na edificação da Igreja. O Concílio Vaticano II respeitou plenamente a lógica do Evangelho, nos capítulos II e III da Lumen gentium, quando apresentou a Igreja primeiro como Povo de Deus e, só depois, como estrutura hierárquica. Ela é, antes de mais, Povo de Deus, visto que todos aqueles que a formam, homens e mulheres, participam - cada um segundo o modo que lhe é próprio - na missão profética, sacerdotal e real de Cristo. Enquanto convido a reler os citados textos conciliares, aqui limitar-me-ei a algumas breves reflexões inspiradas no Evangelho.

Na hora de subir ao céu, Cristo manda aos Apóstolos: «Ide pelo mundo inteiro e anunciai a Boa Nova a toda a criatura» (Mc 16,15). Anunciar a Boa Nova é cumprir a missão profética, que, na Igreja, assume formas diversas consoante o carisma dado a cada um (cfr Ef 4,11-13). Naquela ocasião, tratando-se dos Apóstolos e da sua missão peculiar, foi a homens que tal responsabilidade ficou confiada; mas, se lermos atentamente os relatos evangélicos, e o de João em especial, não pode deixar de impressionar o facto de a missão profética, considerada em toda a sua diversidade e amplitude, ser compartilhada por homens e mulheres. Basta recordar, por exemplo, a Samaritana e o seu diálogo com Cristo, junto do poço de Jacob em Sicar (cfr Jo 4,1-42): é a ela - samaritana e, além disso, pecadora - que Jesus revela as profundezas do verdadeiro culto a Deus, para Quem não importa o lugar mas a atitude de adoração «em espírito e verdade».

E que dizer das irmãs de Lázaro, Maria e Marta? Os Sinópticos, a propósito da «contemplativa» Maria, registam a proeminência - reconhecida por Cristo - da contemplação sobre a acção (cfr Lc 10,42). Ainda mais importante é o que escreve S. João no contexto da ressurreição de Lázaro, irmão delas. Neste caso, é a Marta - a mais «activa» das duas - que Jesus revela os mistérios profundos da sua missão: «Eu sou a Ressurreição e a Vida; quem crê em Mim, ainda que esteja morto, viverá; e todo aquele que vive e crê em Mim não morrerá jamais» (Jo 11,25-26). O mistério pascal está contido nestas palavras dirigidas a uma mulher.

Mas, prosseguindo o relato evangélico, entremos na narração da Paixão. Não é porventura um dado incontestável que foram precisamente as mulheres aquelas que estiveram mais perto de Cristo ao longo do caminho para o Calvário e na hora da morte? Um homem, Simão de Cirene, é obrigado a carregar a cruz (cfr Mt 27,32); numerosas mulheres de Jerusalém, ao contrário, espontaneamente demonstram-Lhe a sua compaixão ao longo da «via crucis» (cfr Lc 23,27). Verónica, embora não seja figura bíblica, exprime bem os sentimentos das mulheres de Jerusalém na Via Dolorosa.

Ao pé da cruz, há apenas um Apóstolo, João de Zebedeu, enquanto se acham ali diversas mulheres (cfr Mt 27,55-56): a Mãe de Cristo, que, segundo a tradição, O tinha acompanhado no caminho para o Calvário; Salomé, a mãe dos filhos de Zebedeu, João e Tiago; Maria, mãe de Tiago o Menor e de José; e Maria de Magdala. Todas elas foram intrépidas testemunhas da agonia de Jesus; todas, presentes no momento da unção e deposição do seu corpo no sepulcro. Depois da sepultura, dado que se avizinhava o início do Sábado, partem, mas com a intenção de voltarem logo que lhes fosse permitido. E serão elas as primeiras a dirigirem-se ao sepulcro, de manhã cedo, no dia seguinte ao da festa.

Serão elas as primeiras testemunhas do túmulo vazio, como serão elas ainda quem disso mesmo informa os Apóstolos (cfr Jo 20,1-2). Maria Madalena, que ficou a chorar junto do sepulcro, é a primeira a encontrar o Ressuscitado que a envia aos Apóstolos como primeira mensageira da sua ressurreição (cfr Jo 20,11-18). Com razão, pois, a tradição oriental coloca Madalena quase a par dos Apóstolos, porque foi a primeira a anunciar a verdade da ressurreição, seguida depois pelos

Apóstolos e pelos discípulos de Cristo. Assim, as mulheres têm também parte na missão profética de Cristo, ao lado dos homens. E o mesmo se pode dizer relativamente à sua participação na missão sacerdotal e real do Senhor. O sacerdócio universal dos fiéis e a dignidade real revestem igualmente homens e mulheres. A este propósito, será certamente elucidativa uma leitura atenta dos textos da Primeira Carta de S. Pedro (2,9-10) e da Constituição Conciliar Lumen gentium (nn. 10-12; 34-36).

7. No texto conciliar apontado, depois do capítulo sobre o Povo de Deus vem o da estrutura hierárquica da Igreja. Neste, fala-se do sacerdócio ministerial, ao qual por vontade de Cristo apenas são admitidos os homens. Hoje, em alguns ambientes, o facto de a mulher não poder ser ordenada sacerdote é interpretado como forma de discriminação. Mas será verdadeiramente assim?

A questão poder-se-ia certamente pôr nestes termos, se o sacerdócio hierárquico constituísse uma posição social de privilégio, caracterizada pelo exercício do «poder». Mas não é assim! O sacerdócio ministerial, no desígnio de Cristo, não é expressão de domínio, mas de serviço. Quem o interpreta como «domínio», está seguramente longe da intenção de Cristo, que, no Cenáculo, iniciou a Última Ceia lavando os pés aos Apóstolos. Pôs assim em grande relevo o carácter «ministerial» do sacerdócio, instituído naquela mesma noite. «Porque o Filho do Homem também não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida em resgate por todos» (Mc 10,45).

Sim, o sacerdócio que hoje recordamos com tanta veneração como nossa especial herança, queridos Irmãos, é um sacerdócio ministerial! Servimos o Povo de Deus! Servimos a sua missão! Este nosso sacerdócio deve garantir a participação de todos - homens e mulheres - na tríplice missão profética, sacerdotal e real de Cristo. E não é ministerial apenas o sacramento da Ordem: ministerial é, antes de tudo, a própria Eucaristia. Ao afirmar: «Isto é o meu Corpo, que vai ser entregue por vós; (...) este cálice é a nova aliança no meu Sangue, que por vós se vai derramar» (Lc 22,19.20), Cristo revela o seu maior serviço: o serviço da Redenção, no qual o unigénito e eterno Filho de Deus Se torna, no sentido mais pleno e profundo, Servo do homem.

8. Ao lado de Cristo-Servo, não podemos esquecer Aquela que é «a Serva» - Maria. Segundo refere S. Lucas, a Virgem, naquele momento decisivo da Anunciação, pronunciou o seu «fiat» dizendo: «Eis a serva do Senhor» (Lc 1,38). A relação do sacerdote com a mulher, enquanto mãe e irmã, enriquece-se com um novo aspecto, graças à tradição mariana: o do serviço, à imitação de Maria serva. Se o sacerdócio é, por sua natureza, ministerial, importa vivê-lo em união com a Mãe, que é serva do Senhor. Então, o nosso sacerdócio será guardado nas suas mãos, melhor no seu coração, e poderemos alargá-lo a todos. Tornar-se-á, assim, fecundo e salvífico, em todas as suas dimensões.

Queira a Virgem Santa lançar o seu olhar carinhoso sobre todos nós, seus filhos predilectos, nesta festa anual do nosso sacerdócio. Coloque, em nosso coração, sobretudo um grande anseio de santidade. Escrevi na Exortação Apostólica Pastores dabo vobis: «A nova evangelização tem necessidade de evangelizadores novos, e estes são os presbíteros que se esforçam por viver o seu sacerdócio como caminho específico para a santidade» (n. 82). A Quinta-feira Santa, levando-nos até às origens do nosso sacerdócio, recorda-nos também a obrigação de tender para a santidade, a fim de sermos «ministros de santidade» para os homens e mulheres confiados ao nosso serviço pastoral. Nesta perspectiva, vem a ser muito oportuna a proposta, sugerida pela Congregação para o Clero, de se celebrar, em cada diocese, um «Dia pela Santificação dos Sacerdotes», por ocasião da festa do Sagrado Coração de Jesus ou noutra data mais apropriada às exigências e costumes pastorais do lugar. Faço minha esta proposta, almejando que tal iniciativa ajude os sacerdotes a conformarem-se cada vez mais plenamente com o coração do Bom Pastor. Invocando sobre todos vós a protecção de Maria, Mãe da Igreja e Mãe dos sacerdotes, afectuosamente vos abençoo.

Vaticano, 25 de Março de 1995 - solenidade da Anunciação do Senhor.

 

 

 

 

 

CARTA AOS SACERDOTES POR OCASIÃO DA QUINTA-FEIRA SANTA 1996

 

(Esta transcrição é feito do Jornal L'Osservatore Romano, ou do site do Vaticano, edição em português, de Portugal; algumas palavras são escritas de forma diferente do português usado no Brasil)

 

 

Amados Irmãos no sacerdócio!

«Consideremos (...), irmãos, a nossa voca- ção» (cf. 1 Cor 1, 26). O sacerdócio é uma vocação, uma vocação particular: «Ninguém se atribua esta honra, senão o que for chamado por Deus» (Heb 5, 4). A Carta aos Hebreus refere-se ao sacerdócio do Antigo Testamento, mas para iniciar na compreensão do mistério de Cristo Sacerdote: «Cristo não Se atribuiu a glória de tornar-Se sumo sacerdote, mas recebeu-a d'Aquele que Lhe disse: (...) Tu és sacerdote para sempre segundo a ordem de Melquisedec» (5,5.6).

A vocação singular de Cristo Sacerdote

1. Cristo, Filho consubstancial ao Pai, é constituído sacerdote da Nova Aliança segundo a ordem de Melquisedec: portanto, também Ele é chamado ao sacerdócio. É o Pai que «chama» o próprio Filho - Filho por Ele gerado num acto de amor eterno -, para que «entre no mundo» (cf.Heb10, 5) e Se faça homem. Quer que o seu Filho unigénito, encarnando-Se, Se torne «sacerdote para sempre»: o único sacerdote da nova e eterna Aliança. Na vocação do Filho ao sacerdócio, exprime-se a profundidade do mistério trinitário. Na verdade, só o Filho - o Verbo do Pai, no qual e pelo qual tudo foi criado - pode incessantemente oferecer em sacrifício ao Pai a criação, confirmando que tudo quanto foi criado provém do Pai e deve tornar-se uma oferta de louvor ao Criador. Deste modo, o mistério do sacerdócio encontra o seu início na Trindade e, ao mesmo tempo, é consequência da Encarnação. Fazendo-Se homem, o Filho unigénito e eterno do Pai nasce de uma mulher, entra na ordem da criação e torna-Se assim sacerdote, o único e eterno sacerdote.

O autor da Carta aos Hebreus assinala que o sacerdócio de Cristo está ligado ao sacrifício da Cruz: «Cristo veio como sumo sacerdote dos bens futuros, através de um tabernáculo mais excelente e mais perfeito, que não é construído pela mão do homem, isto é, que não pertence a esta criação. Entrou uma vez por todas no Santuário, (...) com o próprio sangue, tendo obtido uma redenção eterna» (9, 11-12). O sacerdócio de Cristo radica-se na obra da redenção. Cristo é sacerdote do próprio sacrifício: «Por um Espírito eterno, ofereceu-Se a Si mesmo a Deus, como vítima sem mancha» (Heb 9, 14). O sacerdócio da Nova Aliança, ao qual somos chamados na Igreja, constitui, por isso mesmo, uma participação neste sacerdócio singular de Cristo.

Sacerdócio comum e sacerdócio ministerial

2. O Concílio Vaticano II apresenta o conceito de «vocação», em toda a sua amplitude.

Efectivamente, fala de vocação do homem, vocação crista~, vocação à vida conjugal e familiar.

Neste contexto, o sacerdócio constitui uma das vocações, uma das formas possíveis de realização do seguimento de Cristo, que várias vezes, no Evangelho, dirige o convite: «Segue-Me». Na Constituição dogmática sobre a Igreja, Lumen gentium, o Concílio ensina que todos os baptizados participam do sacerdócio de Cristo; ao mesmo tempo, porém, distingue claramente o sacerdócio do povo de Deus, comum a todos os fiéis, do sacerdócio hierárquico, ou seja, ministerial. Vale a pena, a propósito disto, transcrever integralmente um trecho expressivo do citado documento conciliar: «Cristo Nosso Senhor, Pontífice escolhido de entre os homens (cf. Heb 5, 1-5), fez do novo povo um 'reino sacerdotal para seu Deus e Pai' (Ap 1, 6; cf.5, 9-10). Na verdade, os baptizados, pela regeneração e pela unção do Espírito Santo, são consagrados para serem casa espiritual, sacerdócio santo, para que, por meio de todas as obras próprias do cristão, ofereçam oblações espirituais e anunciem os louvores d'Aquele que das trevas os chamou à sua luz admirável (cf. 1 Ped 2, 4-10). Por isso, todos os discípulos de Cristo, perseverando na oração e louvando a Deus (cf.Act 2, 42-47), ofereçam-se a si mesmos como hóstias vivas, santas, agradáveis a Deus (cf.Rom12, 1), dêem testemunho de Cristo em toda a parte e, àqueles que lha pedirem, dêem razão da esperança da vida eterna que neles habita (cf. 1 Ped 3, 15). O sacerdócio comum dos fiéis e o sacerdócio ministerial ou hierárquico, embora se diferenciem essencialmente e não apenas em grau, ordenam-se mutuamente um ao outro; pois um e outro participam, a seu modo, do único sacerdócio de Cristo. Com efeito, o sacerdócio ministerial, pelo seu poder sagrado, forma e conduz o povo sacerdotal, realiza o sacrifício eucarístico fazendo as vezes de Cristo e oferece-o a Deus em nome de todo o povo; os fiéis, por sua parte, concorrem para a oblação da Eucaristia em virtude do seu sacerdócio real, que eles exercem na recepção dos sacramentos, na oração e acção de graças, no testemunho da santidade de vida, na abnegação e na caridade operosa».1

O sacerdócio ministerial está ao serviço do sacerdócio comum dos fiéis. De facto, quando o sacerdote celebra a Eucaristia e administra os sacramentos, torna os fiéis conscientes da sua peculiar participação no sacerdócio de Cristo.

A vocação pessoal ao sacerdócio

3. Deste modo, fica claro que a vocação sacerdotal constitui, no âmbito mais vasto da vocação crista~, um chamamento específico. E isto está de acordo, de modo geral, com a nossa experiência pessoal de sacerdotes: recebemos o baptismo e a confirmação; participámos na catequese, nas celebrações litúrgicas e sobretudo na Eucaristia. A nossa vocação ao sacerdócio desabrochou no contexto da vida crista~.

Todavia, cada vocação ao sacerdócio tem a sua história individual, relacionada com momentos bem precisos da vida de cada um. Quando chamava os Apóstolos, Cristo dizia a cada um: «Segue-Me!» (Mt 4, 19; 9, 9; Mc 1, 17; 2, 14; Lc 5, 27; Jo 1, 43; 21, 19). Desde há dois mil anos que Ele continua a dirigir o mesmo convite a tantos homens, particularmente aos jovens. A<s vezes chama de modo surpreendente, embora nunca se trate de um chamamento totalmente inesperado.

Mas, habitualmente, o convite de Cristo a segui-l'O é preparado num longo período de tempo. Presente já na consciência do adolescente, ainda que ofuscado depois pela indecisão ou pela solicitação a seguir outras estradas, quando o convite volta a fazer-se ouvir não constitui uma surpresa. Por isso, não é caso para maravilhar-se, se precisamente esta vocação foi a que prevaleceu sobre as outras, acabando o jovem por tomar o caminho que lhe foi indicado por Cristo: deixa a família e vai começar a preparação específica para o sacerdócio.

Existe uma tipologia da vocação, a que desejo agora acenar. Temos um esboço dela no Novo Testamento. Com o seu «segue-Me!», Cristo dirige-Se a diferentes pessoas: temos pescadores como Pedro ou os filhos de Zebedeu (cf. Mt 4, 19.22), mas há também Levi, um publicano, depois chamado Mateus. Em Israel, a profissão de cobrador de impostos era considerada pecaminosa e merecedora de desprezo; e, no entanto, Cristo chama para o grupo dos Apóstolos precisamente um publicano (cf. Mt 9, 9). Mas maior espanto desperta certamente o chamamento de Saulo de Tarso (cf. Act 9, 1-19), conhecido e temido perseguidor dos cristãos, que nutria um ódio de morte contra o nome de Jesus. Pois foi exactamente este fariseu, o chamado no caminho de Damasco: o Senhor quer fazer dele «um instrumento privilegiado», que muito haveria de sofrer pelo seu nome (cf. Act 9, 15-16).

Cada um de nós, sacerdotes, se reconhece pessoalmente nesta original tipologia evangélica da vocação; ao mesmo tempo, porém, sabe que a história da sua vocação, o caminho ao longo do qual Cristo o conduz durante toda a existência, é em certo sentido irrepetível.

Queridos Irmãos no sacerdócio, devemos frequentemente deter-nos a rezar, meditando no mistério da nossa vocação, com o coração repleto de encanto e gratidão para com Deus por dom tão inefável.

A vocação sacerdotal dos Apóstolos

4. A imagem da vocação, que os Evangelhos nos transmitem, está particularmente ligada à figura do pescador. Jesus chamou para junto d'Ele alguns pescadores da Galileia, entre os quais Simão Pedro, e definiu a missão apostólica aludindo à profissão deles. Depois da pesca miraculosa, quando Pedro se lançou aos pés de Jesus exclamando: «Afasta-Te de mim, Senhor, porque sou um homem pecador!», Cristo respondeu: «Não tenhas receio; doravante serás pescador de homens» (Lc 5, 8.10). Pedro e os outros Apóstolos viviam junto de Jesus e com Ele percorriam as estradas da sua missão. Ouviam as palavras que Ele pronunciava, admiravam as suas obras, maravilhavam-se com os milagres que realizava. Sabiam que Jesus era o Messias, mandado por Deus para indicar o caminho da salvação a Israel e à humanidade inteira. Mas a sua fé devia passar através daquele misterioso acontecimento salvífico, que Ele preanunciara várias vezes: «O Filho do Homem vai ser entregue às mãos dos homens, que O matarão; mas, ao terceiro dia, ressuscitará» (Mt 17, 22-23). Tudo isto se realizou com a sua morte e ressurreição, nos dias que a Liturgia chama Triduum Sacrum.

Precisamente durante esse acontecimento pascal, Cristo revelou aos Apóstolos que a sua vocação consistia em tornarem-se sacerdotes como Ele e n'Ele. Sucedeu isso no Cenáculo, quando, na véspera da sua morte na cruz, Ele tomou o pão e depois o cálice com o vinho, pronunciando sobre eles as palavras da consagração. O pão e o vinho tornaram-se o seu Corpo e o seu Sangue, oferecidos em sacrifício pela humanidade inteira. Jesus concluiu este gesto, ordenando aos Apóstolos: «Fazei isto em memória de Mim» (1 Cor 11, 25). Com estas palavras, confiou-lhes o seu próprio sacrifício e, através das mãos deles, transmitiu-o à Igreja de todos os tempos. Ao confiar o Memorial do seu sacrifício aos Apóstolos, Cristo tornou-os também participantes do seu sacerdócio.

Na verdade, existe um laço estreito e indissolúvel entre a oferta e o sacerdote: aquele que oferece o sacrifício de Cristo deve ter parte no sacerdócio de Cristo. A vocação ao sacerdócio é, pois, uma vocação a oferecer in persona Christi o sacrifício, em virtude da participação no seu sacerdócio.

Foi dos Apóstolos que herdámos o ministério sacerdotal.

O sacerdote realiza-se a si mesmo por uma resposta sempre renovada e vigilante

5. «O Mestre está cá e chama-te» (Jo 11, 28). Estas palavras podem-se aplicar à vocação sacerdotal. O chamamento de Deus está na origem do caminho, que o homem há-de cumprir na vida: esta é a dimensão primária e fundamental da vocação, mas não a única. Na verdade, com a ordenação sacerdotal tem início um caminho que se prolonga até à morte, sendo todo ele um itinerário «vocacional». O Senhor chama os presbíteros às diversas funções e ministérios, gerados de tal vocação. Mas há um nível ainda mais profundo: por detrás das funções que são a expressão do ministério sacerdotal, permanece sempre, na base de tudo, a própria realidade do «ser sacerdote». As situações e as circunstâncias da vida convidam incessantemente o sacerdote a confirmar a sua opção originária, a responder sempre e de novo ao chamamento de Deus. A nossa vida sacerdotal, como toda a existência crista~ autêntica, é uma sucessão de respostas a Deus que chama.

Emblemática é, a este propósito, a parábola dos servos que aguardam o regresso do seu senhor. Visto que este tarda, eles devem estar alerta para, à sua chegada, serem encontrados vigilantes (cf. Lc 12, 35-40). Não poderia esta vigilância evangélica ser outra definição da resposta à vocação? Com efeito, esta cumpre-se mercê de um atento sentido de responsabilidade. Cristo sublinha: «Felizes os servos que o senhor, à sua chegada, encontrar vigilantes. (...) E se vier na segunda ou na terceira vigília e assim os encontrar, felizes serão eles!» (Lc 12, 37.38).

Os presbíteros da Igreja latina assumem o compromisso de viver no celibato. Se a vocação é vigilância, um aspecto significativo desta última é certamente a fidelidade a tal compromisso durante a existência inteira. O celibato, todavia, constitui apenas uma das dimensões da vocação, que se realiza, ao longo do caminho da vida, no contexto de um empenho global com as múltiplas funções que derivam do sacerdócio.

A vocação não é realidade estática: possui uma dinâmica própria. Queridos Irmãos no sacerdócio, nós confirmamos e realizamos cada vez mais a nossa vocação, na medida em que vivemos fielmente o «mysterium» da aliança de Deus com o homem e, de modo particular, o «mysterium» da Eucaristia; realizamos a vocação, na medida em que, com crescente intensidade, amamos o sacerdócio e o ministério sacerdotal, que somos chamados a desempenhar. Descobrimos então que é no ser sacerdotes que nos «realizamos» a nós mesmos, corroborando a autenticidade da nossa vocação, segundo o desígnio singular e eterno de Deus para cada um de nós. Este projecto divino concretiza-se na medida em que é reconhecido e assumido por nós, como nosso projecto e programa de vida.

O sacerdócio como «officium laudis»

6. Gloria Dei vivens homo: estas palavras de Santo Ireneu2 unem profundamente a glória de Deus à auto-realização do homem. «Non nobis, Domine, non nobis, sed nomini tuo da gloriam» (Sal115/113 B, 1): repetindo muitas vezes estas palavras do Salmista, damo-nos conta de que o «realizar-se a si mesmo» na vida tem um ponto de referência e um fim transcendentes, contidos no conceito «glória de Deus»: a nossa vida é chamada a tornar-se officium laudis.

A vocação sacerdotal é um chamamento especial ao «officium laudis». Quando o sacerdote celebra a Eucaristia, quando na Penitência comunica o perdão de Deus, quando administra os outros sacramentos, sempre dá louvor a Deus. Por isso, é preciso que o sacerdote ame a glória do Deus vivo e proclame, juntamente com a comunidade dos crentes, a glória divina, que resplandece na criação e na redenção. O sacerdote é chamado a unir-se, de modo particular, com Cristo, Verbo eterno e Homem verdadeiro, Redentor do mundo: na redenção, de facto, manifesta-se a plenitude da glória que a humanidade e a criação inteira rendem ao Pai em Jesus Cristo.

Officium laudis não são apenas as palavras do Saltério, os hinos litúrgicos, os cânticos do Povo de Deus, entoados na presença do Criador em tantas línguas diversas; officium laudis é sobretudo a descoberta incessante da verdade, do bem e da beleza, que o mundo recebe em dom do Criador, e é simultaneamente a descoberta do sentido da existência humana. O mistério da redenção cumpriu e revelou plenamente este sentido, aproximando a vida do homem à vida de Deus. A redenção, actuada de forma definitiva no mistério pascal por meio da paixão, morte e ressurreição de Cristo, não só revela a santidade transcendente de Deus, mas revela também, como ensina o Concílio Vaticano II, «o homem a si mesmo».3

A glória de Deus está inscrita na ordem da criação e da redenção; o sacerdote é chamado a viver este mistério em toda a sua profundidade, para participar no grande officium laudis que incessantemente se realiza no universo. Só vivendo profundamente a verdade da redenção do mundo e do homem, é que ele poderá aproximar-se dos sofrimentos e problemas das pessoas e das famílias, e afrontar também a realidade do mal e do pecado, sem temor e com as energias espirituais necessárias para a superar.

O sacerdote guia os fiéis para a plenitude da vida em Deus

7. Gloria Dei vivens homo. O sacerdote, cuja vocação é dar glória a Deus, está, ao mesmo tempo, marcado profundamente pela verdade contida na segunda parte da expressão de Santo Ireneu: vivens homo. O amor pela glória de Deus não afasta o sacerdote da vida e de tudo o que a compõe; pelo contrário, a sua vocação leva-o a descobrir o pleno significado daquela.

Que quer dizer vivens homo? Significa o homem na plenitude da sua verdade: o homem criado por Deus à sua imagem e semelhança; o homem a quem Deus confiou a terra para que a dominasse; o homem distinguido com uma multiforme riqueza de natureza e de graça; o homem livre da escravidão do pecado e elevado à dignidade de filho adoptivo de Deus.

Este é o homem e a humanidade que o sacerdote tem diante dele, quando celebra os mistérios divinos: desde o recém-nascido que os pais trazem ao baptismo, às crianças e adolescentes que encontra na catequese ou na aula de religião. E depois os jovens, que, no período mais delicado da vida, escolhem a sua estrada, a própria vocação, e se preparam para formar novas famílias ou então consagrar-se por amor do Reino de Deus, entrando no Seminário ou num Instituto de vida consagrada. É preciso que o sacerdote esteja muito perto dos jovens. Nesta fase da vida, dirigem-se muitas vezes a ele, procurando o conforto de um conselho, o apoio da oração, um sábio acompanhamento vocacional. Deste modo, o sacerdote pode constatar quanto é aberta e dedicada às pessoas a sua vocação. Aproximando-se dos jovens, ele encontra futuros pais e ma~es de família, futuros profissionais ou, de qualquer modo, pessoas que poderão contribuir com as suas próprias capacidades, para a edificação da sociedade de amanha~. Cada uma destas várias vocações passa através do seu coração sacerdotal e manifesta-se como um caminho particular ao longo do qual Deus guia as pessoas e leva-as a encontrarem-se com Ele.

O sacerdote torna-se, assim, participante de tantas decisões da vida, de sofrimentos e alegrias, de esperanças e desilusões. Em cada situação, a sua função é mostrar Deus ao homem, como o fim último da sua existência pessoal. O sacerdote torna-se aquele a quem as pessoas confiam as coisas mais íntimas e os seus segredos, por vezes tão dolorosos. Torna-se o desejado dos enfermos, dos idosos e dos moribundos, cientes de que só ele, enquanto participante do sacerdócio de Cristo, os pode ajudar no último transe que os há-de conduzir a Deus. O sacerdote, testemunha de Cristo, é mensageiro da vocação suprema do homem à vida eterna em Deus. E enquanto acompanha os irmãos, prepara-se a si mesmo: o exercício do ministério permite-lhe aprofundar a sua própria vocação de dar glória a Deus para tomar parte na vida eterna. Encaminha-se assim para o dia em que Cristo lhe dirá: «Muito bem, servo bom e fiel, (...) entra no gozo do teu senhor» (Mt 25, 21).

O jubileu sacerdotal: tempo de alegria e de acção de graças

8. «Considerai (...), irmãos, a vossa vocação» (1Cor 1, 26). Esta exortação de Paulo aos cristãos de Corinto assume um significado particular para nós, sacerdotes. Havemos de «considerar» frequentemente a nossa vocação, redescobrindo o seu sentido e a sua grandeza, que sempre nos ultrapassam. Ocasião privilegiada para isso é Quinta-feira Santa, o dia comemorativo da instituição da Eucaristia e do sacramento do sacerdócio. São também ocasião propícia os aniversários da Ordenação sacerdotal e, especialmente, os jubileus sacerdotais.

Queridos Irmãos sacerdotes, ao partilhar convosco estas reflexões, penso no cinquentenário da minha Ordenação sacerdotal que este ano se cumpre. Penso nos meus companheiros de Seminário que tiveram, como eu, de superar um caminho para o sacerdócio, condicionado pelo período dramático da segunda guerra mundial. Então, os Seminários estavam fechados e os seminaristas viviam na diáspora. Alguns deles perderam a vida durante os combates. O sacerdócio alcançado naquelas condições adquiriu para nós um valor particular. Permanece vivo na memória aquele grande momento de há cinquenta anos, quando a Assembleia invocava o «Veni Creator Spiritus» sobre nós, jovens Diáconos, prostrados por terra ao centro do templo, antes de receber a Ordenação sacerdotal pela imposição das mãos do Bispo. Damos graças ao Espírito Santo por aquela infusão de graça que marcou a nossa existência. E continuamos a implorar: «Imple superna gratia, quae tu creasti pectora».

Desejo convidar-vos, amados Irmãos no sacerdócio, a participardes no meu Te Deum de agradecimento pelo dom da vocação. Os jubileus, como sabeis, são momentos importantes na vida de um sacerdote: representam como que marcos miliários no caminho da nossa vocação.

Segundo a tradição bíblica, o jubileu é tempo de alegria e de acção de graças. O lavrador dá  graças ao Criador pelas colheitas; por ocasião dos nossos jubileus, nós queremos agradecer ao Pastor eterno os frutos da nossa vida sacerdotal, o serviço prestado à Igreja e à humanidade nos vários lugares da terra, nas condições mais díspares e nas múltiplas situações de trabalho, onde a Providência nos quis e guiou. Sabemos que somos «servos inúteis» (Lc 17, 10), mas sentimo-nos gratos ao Senhor porque quis fazer de nós seus ministros.

Sentimo-nos gratos também aos homens: primeiro, àqueles que nos ajudaram a chegar ao sacerdócio e a quantos a divina Providência colocou no caminho da nossa vocação. Agradecemos a todos, a começar pelos nossos pais, que foram para nós um dom multiforme de Deus: tantas e tão grandes riquezas de ensinamentos e bons exemplos nos transmitiram!

Ao mesmo tempo que damos graças, pedimos também perdão a Deus e aos irmãos pelas negligências e faltas, fruto da fraqueza humana. O jubileu, segundo a Sagrada Escritura, não podia ser apenas acção de graças pelas colheitas; comportava igualmente o perdão das dívidas. Por isso, imploramos a Deus misericordioso que nos perdoe as dívidas contraídas ao longo da vida e no exercício do ministério sacerdotal.

«Considerai (...), irmãos, a vossa vocação» - adverte-nos o Apóstolo. Estimulados pela sua palavra, «consideremos» o caminho percorrido até agora, durante o qual a nossa vocação se confirmou, aprofundou, consolidou. «Consideremos», para ganhar uma consciência mais clara da acção amorosa de Deus na nossa vida. Mas, ao mesmo tempo, não podemos esquecer os nossos irmãos no sacerdócio que não perseveraram no caminho encetado. Confiamo-los ao amor do Pai, enquanto asseguramos a nossa oração por cada um deles.

E assim, o «considerar» transforma-se, quase sem nos darmos conta, em oração. É nesta perspectiva que desejo convidar-vos, queridos Irmãos no sacerdócio, a unir-vos à minha acção de graças pelo dom da vocação e do sacerdócio.

Obrigado, ó Deus, pelo dom do sacerdócio

9. «Te Deum laudamus, Te Dominum confitemur...» Nós Vos louvamos e bendizemos, ó Deus: toda a terra Vos adora. Nós, vossos ministros, com as vozes dos Profetas e o coro dos Apóstolos, Vos proclamamos Pai e Senhor da vida, de cada forma de vida que de Vós somente provém.

Reconhecemo-Vos, ó Trindade Santíssima, como seio e início da nossa vocação: Vós, Pai, desde a eternidade nos pensastes, quisestes e amastes; Vós, Filho, nos escolhestes e chamastes para participar no vosso único

e eterno sacerdócio; Vós, Espírito Santo, enchestes-nos com os vossos dons e consagrastes-nos com a vossa santa unção. Vós, Senhor do tempo e da história, colocastes-nos no limiar do terceiro milénio cristão,

para sermos testemunhas da salvação, por Vós operada em favor de toda a humanidade. Nós, Igreja que proclama a vossa glória, Vos imploramos: nunca venha a faltar sacerdotes santos ao serviço do Evangelho; ressoe solenemente em cada Catedral e em cada ângulo do mundo o hino «Veni Creator Spiritus». Vinde, Espírito Criador! Vinde suscitar novas gerações de jovens,

prontos a trabalhar na vinha do Senhor, para espalhar o Reino de Deus até aos últimos confins da terra.

E Vós, Maria, Ma~e de Cristo, que, aos pés da cruz, nos acolhestes como filhos predilectos, com o apóstolo João,

continuai a velar pela nossa vocação. A Vós confiamos os anos de ministério que a Providência nos deixar ainda viver. Permanecei ao nosso lado para nos guiar

pelas estradas do mundo, ao encontro dos homens e mulheres,que o vosso Filho redimiu com o seu Sangue.

Ajudai-nos a cumprir integralmente a vontade de Jesus,

de Vós nascido para a salvação do homem. Cristo, Vós sois a nossa esperança!' «In Te, Domine, speravi,

non confundar in aeternum». Vaticano, 17 de Março - IV Domingo da Quaresma - do ano 1996, décimo oitavo de Pontificado.

 

 

 

CARTA DO SANTO PADRE JOÃO PAULO II

AOS SACERDOTES POR OCASIÃO DA QUINTA-FEIRA SANTA DE 1998

 

(Esta transcrição é feito do Jornal L'Osservatore Romano, ou do site do Vaticano, edição em português, de Portugal; algumas palavras são escritas de forma diferente do português usado no Brasil)

 

 

Queridos Irmãos no Sacerdócio!

Com a mente e o coração fixos no Grande Jubileu, solene celebração do bimilenário do nascimentode Cristo e início do terceiro milénio cristão, desejo invocar convosco o Espírito do Senhor, a Quem é particularmente dedicada a segunda etapa do itinerário espiritual de imediata preparação para o

Ano Santo que ocorrerá no ano 2000. Dóceis às suas amorosas inspirações, disponhamo-nos a viver com todas as nossas forças este tempo favorável, implorando do Dador dos dons as graças necessárias para discernir os sinais da salvação e responder com plena fidelidade à chamada de Deus. Um estreito vínculo une o nosso sacerdócio ao Espírito Santo e à sua missão. No dia da Ordenação presbiteral, por uma singular efusão do Paráclito, o Ressuscitado renovou em cada um de nós aquilo que efectuou nos seus discípulos ao anoitecer do dia de Páscoa, constituindo-nos continuadores da sua missão no mundo (cf. Jo 20,21-23). Este dom do Espírito, com a sua misteriosa força santificadora, é fonte e raiz da tarefa singular de evangelização e santificação que nos foi confiada. A Quinta-Feira Santa, dia em que comemoramos a Ceia do Senhor, põe diante dos nossos  olhos Jesus, o Servo « obediente até à morte » (Fil 2,8), que institui a Eucaristia e a Ordem sagrada como sinais singulares do seu amor. Ele deixa-nos este testamento extraordinário de amor, a fim de perpetuar em todos os tempos e lugares o mistério do seu Corpo e do seu Sangue, para que os homens possam aproximar-se da fonte inesgotável da graça. Porventura existe para nós, sacerdotes, um momento mais oportuno e sugestivo do que este para contemplar a obra do Espírito Santo em nós, e implorar os seus dons para nos conformarmos sempre mais a Cristo, Sacerdote da Nova Aliança?

1. O Espírito Santo criador e santificador Veni Creator Spiritus, Mentes tuorum visita, Imple superna gratia,

Quae tu creasti pectora. Vinde, Espírito Criador, visitai a alma dos vossos fiéis enchei de graça celestial os corações que Vós criastes. Este antigo cântico litúrgico recorda na mente de cada sacerdote o dia da sua Ordenação, evocando os propósitos de plena disponibilidade à acção do Espírito Santo, formulados em circunstância tão singular. Lembra-lhe, igualmente, a especial assistência do Paráclito e tantos momentos de graça, alegria e intimidade, que o Senhor lhe fez saborear ao longo da sua vida. A Igreja, que no Símbolo Niceno-Constantinopolitano, proclama a sua fé no Espírito Santo, Senhor que dá a vida, põe claramente em evidência o papel que Ele realiza acompanhando as vidas humanas e, de modo particular, as dos discípulos do Senhor no caminho da salvação. Ele é o Espírito criador que a Sagrada Escritura apresenta, no início da história humana, « pairando sobre as águas » (Gn 1,2) e, nos prelúdios da redenção, como o artífice da encarnação do Verbo de Deus (cf. Mt 1,20; Lc 1,35). Consubstancial ao Pai e ao Filho, o Espírito Santo é, « no mistério absoluto de Deus uno e trino, a Pessoa-Amor, o Dom incriado, que é fonte eterna de toda a dádiva que provém de Deus na ordem da criação, o princípio directo e, em certo sentido, o sujeito da autocomunicação de Deus na ordem da graça. O mistério da Encarnação constitui o ápice dessa dádiva suprema, dessa autocomunicação de Deus » (Carta enc. Dominum et vivificantem, 50). O Espírito Santo orienta a vida terrena de Jesus para o Pai. Graças à sua intervenção misteriosa, o Filho de Deus é concebido no seio da Virgem Maria (cf. Lc 1,35) e faz-Se homem. É também o Espírito que, descendo sobre Jesus em forma de pomba, O manifesta como Filho do Pai, no baptismo do Jordão (cf. Lc 3,21-22), e logo a seguir impele-O até ao deserto (cf. Lc 4,1). Depois da vitória sobre as tentações, Jesus inicia a sua missão « com a força do Espírito » (Lc 4,14): n'Ele, exulta de alegria e bendiz o Pai pelos seus desígnios de graça (cf. Lc 10,21); com Ele, expulsa os demónios (cf. Mt 12,28; Lc 11,20). Na hora dramática da cruz, oferece-Se a Si próprio « mediante um Espírito eterno » (Hb 9,14), pelo Qual foi depois ressuscitado (cf. Rm 8,11) e « constituído filho de Deus em todo o seu poder » (Rm 1,4). Ao anoitecer do dia de Páscoa, Jesus ressuscitado diz aos Apóstolos reunidos no Cenáculo: « Recebei o Espírito Santo » (Jo 20,22); e mais tarde, depois de prometer uma nova efusão, confia-lhes a salvação dos irmãos, enviando-os pelas estradas do mundo: « Ide (...) ensinai todas as nações, baptizando-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, ensinando-as a cumprir tudo quanto vos tenho mandado. E Eu estarei sempre convosco, até ao fim do mundo » (Mt 28,19-20).  Esta presença de Cristo na Igreja de todos os tempos e lugares torna-se viva e eficaz no coração, dos crentes por obra do Consolador (cf. Jo 14,26). Também na nossa época o Espírito é « o agente principal da nova evangelização (...) que constrói o Reino de Deus no curso da história e prepara a sua plena manifestação em Jesus Cristo, animando os homens no mais íntimo deles mesmos e fazendo germinar dentro da existência humana os gérmens da salvação definitiva que acontecerá no fim dos tempos » (Tertio millennio adveniente, 45).

2. Eucaristia e Ordem, frutos do Espírito Qui diceris Paraclitus, Altissimi donum Dei, Fons vivus, ignis, caritas Et spiritalis unctio Vós, chamado o Consolador dom do Deus altíssimo, fonte viva, fogo, caridade e unção espiritual.

Com estas palavras, a Igreja invoca o Espírito Santo como spiritalis unctio, unção espiritual. Pela unção do Espírito no seio imaculado de Maria, o Pai consagrou Cristo sumo e eterno Sacerdote da Nova Aliança, o Qual quis partilhar o seu sacerdócio connosco, chamando-nos a ser o seu prolongamento na história para a salvação dos irmãos.

Na Quinta-Feira Santa, Feria quinta in Cena Domini, nós, sacerdotes, somos convidados a dar graças a Deus com toda a comunidade dos crentes pelo dom da Eucaristia, e a consciencializarmo-nos ainda mais da graça da nossa vocação especial. Somos também levados a confiarmo-nos, com coração jovem e plena disponibilidade à acção do Espírito, deixando que Ele nos conforme cada dia a Cristo sacerdote. O Evangelho de S. João, com palavras cheias de carinho e de mistério, refere a narração daquela primeira Quinta-Feira Santa, quando tomou lugar à mesa com os discípulos, no Cenáculo, o Senhor — « ...Ele que amara os Seus que estavam no mundo, levou até ao extremo o Seu amor por eles » (13,1). Até ao extremo: até à instituição da Eucaristia, antecipação de Sexta-Feira Santa, do sacrifício da cruz e do mistério pascal. Durante a Última Ceia, Cristo toma o pão nas mãos e pronuncia as primeiras palavras da consagração: « Isto é o meu Corpo que será entregue por vós ». Logo a seguir, proclama sobre o cálice com vinho as sucessivas palavras da consagração: « Este é o cálice do meu Sangue, o Sangue da nova e eterna aliança, que será derramado por vós e por todos para remissão dos pecados », e acrescenta: « Fazei isto em memória de Mim ». Cumpre-se assim, no Cenáculo, de modo incruento o Sacrifício da Nova Aliança, que será realizado com o derramamento de sangue no dia seguinte, quando Cristo disser sobre a cruz: « Consummatum est », « Tudo está consumado! » (Jo 19,30).

Oferecido uma vez por todas sobre o Calvário, este Sacrifício é confiado aos Apóstolos, graças ao Espírito Santo, como o Santíssimo Sacramento da Igreja. Para impetrar a intervenção misteriosa do Espírito, a Igreja, antes das palavras da consagração, implora: « Humildemente Vos suplicamos, Senhor: santificai, pelo Espírito Santo, estes dons que Vos apresentamos, para que se convertam no Corpo e Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que nos mandou celebrar estes mistérios » (Oração Eucarística III). De facto, sem a força do Espírito divino, como poderiam lábios humanos fazer com que o pão e o vinho se tornassem o Corpo e o Sangue do Senhor, até ao fim do mundo? É somente devido à força do Espírito divino que a Igreja pode professar incessantemente o grande mistério da fé: « Anunciamos, Senhor, a vossa morte, proclamamos a vossa ressurreição. Vinde, Senhor Jesus ».

Os sacramentos da Eucaristia e da Ordem são frutos do mesmo Espírito: « Assim como na Santa Missa o Espírito Santo é o artífice da transubstanciação do pão e do vinho no Corpo e no Sangue de Cristo, assim também no sacramento da Ordem Ele é o artífice da consagração sacerdotal ou episcopal » (Dom e mistério, p. 53).

3. Os dons do Espírito Santo Tu septiformis munere Digitus paternae dexterae Tu rite promissum Patris, Sermone ditans guttura. Vós, com vossos sete dons, sois força da dextra de Deus, Vós, o prometido do Pai; vossa palavra enriquece nossos lábios. Como não reservar uma particular reflexão sobre os dons do Espírito Santo, que a tradição da Igreja, na esteira das fontes bíblicas e patrísticas, indica como um sacro Septenário? Debruçou-se atentamente sobre esta doutrina a teologia escolástica, que ilustrou amplamente o seu significado e características. « Deus enviou aos nossos corações o Espírito que clama: Abbá! Pai » (Gal 4,6). « Todos aqueles que são movidos pelo Espírito de Deus, são filhos de Deus (...). O próprio Espírito atesta em união com o nosso espírito que somos filhos de Deus » (Rm 8,14.16). As palavras do apóstolo Paulo lembram-nos que o dom fundamental do Espírito é a graça santificante (gratia gratum faciens), juntamente com a qual se recebem as virtudes teologais — fé, esperança e caridade —, e todas as virtudes infusas (virtutes infusae) que habilitam a agir sob o influxo do mesmo Espírito. Na alma iluminada pela graça celestial, esta bagagem sobrenatural é completada pelos dons do Espírito Santo. Ao contrário dos carismas, que são concedidos a alguns para utilidade dos outros, os dons são oferecidos a todos, porque se ordenam à santificação e ao aperfeiçoamento da pessoa. Os seus nomes são conhecidos. O profeta Isaías menciona-os, ao delinear a figura do futuro Messias: « Sobre ele repousará o espírito do Senhor: espírito de sabedoria e de entendimento, espírito de conselho e de fortaleza, espírito de ciência e de temor do Senhor. Ele se inspirará no temor do Senhor » (11,2-3). O número dos dons será, depois, elevado a sete na versão dos Setenta e da Vulgata, que acrescentam a piedade, em vez da repetição no texto citado, do temor do Senhor. Já S. Ireneu lembra o Septenário e acrescenta: « O Senhor deu o mesmo Espírito à Igreja, [...] enviando o Consolador sobre a terra » (Adv. haereses III, 17, 3). S. Gregório Magno, por sua vez, ilustra a dinámica sobrenatural suscitada na alma pelo Espírito, descrevendo os dons pela ordem inversa: « De facto, pelo temor elevamo-nos à piedade, pela piedade à ciência, pela ciência alcançamos a fortaleza, pela fortaleza o conselho, pelo conselho avançamos para o entendimento até à sabedoria; e, assim, pela graça septiforme do Espírito, é-nos aberta, no fim da ascensão, a entrada na vida celestial » (Homilias sobre Ezequiel, II, 7, 7). Os dons do Espírito Santo — comenta o Catecismo da Igreja Católica —, que são uma particular sensibilização da alma humana e das suas faculdades à acção do Paráclito, « completam e levam à perfeição as virtudes de quem os recebe. Tornam dóceis os fiéis na obediência às inspirações divinas » (n. 1831). Isto quer dizer que a vida moral dos cristãos é sustentada por tais « disposições permanentes que tornam o homem dócil aos impulsos do Espírito Santo » (ibid., n. 1830). Por eles, é levado à sua maturidade o organismo sobrenatural que, pela graça, é constituído em cada homem. De facto, os dons adaptam-se admiravelmente às nossas disposições espirituais, aperfeiçoando-as e abrindo-as de modo particular à acção do próprio Deus.

4. Influência dos dons do Espírito no homem Accende lumen sensibus Infunde amorem cordibus Infirma nostri corporis

Virtute firmans perpeti. Acendei vossa luz em nossas almas, infundi vosso amor em nossos peitos; e a fraqueza da nossa carne, fortalecei-a com redobrada força. Por meio do Espírito, Deus faz-Se mais íntimo à pessoa e penetra sempre mais no mundo humano: « Deus uno e trino, que « existe » em Si mesmo como realidade transcendente de dom interpessoal, ao comunicar-Se no Espírito Santo como dom ao homem, transforma o mundo humano a partir de dentro, a partir do interior dos corações e das consciências » (Dominum et vivificantem, 59). Na grande tradição escolástica, esta verdade leva a privilegiar a acção do Espírito na vida humana e a pôr em evidência a iniciativa salvífica de Deus na vida moral: sem anular a nossa personalidade, nem privar-nos da liberdade, Ele salva-nos para além de todos os nossos anseios e projectos. Os dons do Espírito Santo entram nesta lógica, sendo « perfeições do homem que o dispõem a seguir com prontidão a moção divina » (S. Tomás, Summa Theologiae I-II, q. 68, a. 2). Com os sete dons, é dada ao crente a possibilidade duma relação pessoal e íntima com o Pai, na liberdade própria dos filhos de Deus. É o que sublinha S. Tomás, salientando como o Espírito Santo nos incite a agir, não com a força, mas com o amor: « Os filhos de Deus — ele afirma — são movidos livremente pelo Espírito Santo, por amor, não servilmente pelo temor » (Contra gentiles, IV, 22). O Espírito torna os actos do cristão deiformes, isto é, em sintonia com o modo de pensar, amar e agir divino, de forma que o crente torna-se sinal onde se pode reconhecer a Santíssima Trindade no mundo. Sustentado pela assistência do Paráclito, pela luz do Verbo, pelo amor do Pai, ele pode corajosamente decidir-se a imitar a perfeição divina (cf. Mt 5,48). O Espírito intervém num duplo âmbito de acção, como recordava o meu venerado predecessor, o Servo de Deus Paulo VI: « O primeiro campo é o da cada alma [...], é o nosso eu: nesta cela profunda, a nós misteriosa, da nossa existência, entra o sopro do Espírito Santo; difunde-se na alma por aquele primeiro e imenso carisma que chamamos graça, que é como uma vida nova, habilitando-a, em seguida, a realizar actos que superam a sua eficiência natural ». O segundo campo, « em que se propaga a virtude do Pentecostes », é o « corpo visível da Igreja [...]. Sem dúvida, « Spiritus ubi vult spirat » (Jo 3,8); mas, na economia estabelecida por Cristo, o Espírito passa através do canal do ministério apostólico ». É graças a este ministério que é dada aos sacerdotes a potestade de transmitir o Espírito aos fiéis, « no anúncio autorizado e fidedigno da Palavra de Deus, na guia do Povo cristão e na distribuição dos sacramentos (cf. 1 Cor 4,1), que são fontes da graça, ou seja, da acção santificadora do Paráclito » (Homilia de Pentecostes, 25 de maio de 1969).

5. Os dons do Espírito na vida do sacerdote Hostem repellas longius Pacemque dones protinus: Ductore sic te praevio

Vitemos omne noxium. O inimigo, afugentai-o bem para longe; dai-nos a paz quanto antes; abrindo-nos caminho como guia, venceremos todos os perigos. O Espírito Santo restabelece no coração humano a plena harmonia com Deus e, garantindo-lhe a vitória sobre o Maligno, abre-o às dimensões universais do amor divino. Assim, faz passar o homem do amor de si próprio ao amor da Trindade, introduzindo-o na experiência da liberdade interior e da paz e ajudando-o a fazer da própria vida um dom. Deste modo, com o sacro Septenário, o Espírito guia o baptizado em direcção à plena configuração com Cristo e à sintonia total com as perspectivas do Reino de Deus. Se este é o caminho por onde o Espírito impele suavemente cada baptizado, Ele não deixa de reservar uma especial atenção aos que receberam a sagrada Ordem, para uma adequada realização do seu exigente ministério. Assim, pelo dom da sabedoria, o Espírito leva o sacerdote a avaliar todas as coisas à luz do Evangelho, ajudando-o a ler nos acontecimentos da sua vida e da Igreja o desígnio secreto e amoroso do Pai; com o entendimento, dá-lhe uma penetração mais profunda da verdade revelada, levando-o a proclamar convicta e vigorosamente o feliz anúncio da salvação; com o conselho, o Espírito ilumina o ministro de Cristo, a fim de que saiba orientar a própria acção segundo a perspectiva da Providência, sem deixar-se condicionar pelos juízos do mundo; com o dom da fortaleza, sustenta-o no meio das dificuldades do ministério, infundindo-lhe a coragem (parresia) que necessita para o anúncio do Evangelho (cf. Act 4,29.31); com o dom da ciência, prepara-o para compreender e aceitar o encontro, por vezes misterioso, das causas segundas com a Causa primeira, nos acontecimentos do mundo; com o dom da piedade, reanima a sua relação de comunhão íntima com Deus e de abandono confiante na sua  providência; enfim, com o temor de Deus, último na hierarquia dos dons, o Espírito consolida no sacerdote a consciência da própria fragilidade humana e do papel indispensável da graça divina, pois « nem o que planta nem o que rega é alguma coisa, mas só Deus, que dá o crescimento » (1 Cor 3,7).

6. O Espírito introduz na vida trinitária Per te sciamus da Patrem, Noscamus atque Filium, Teque utriusque Spiritum

Credamus omni tempore. Que por Vós conheçamos o Pai, conheçamos igualmente o Filho, e em Vós, Espírito de ambos, creiamos todo o tempo. Como é sugestivo imaginar estas palavras na boca do sacerdote que, unido com os fiéis que estão confiados aos seus cuidados pastorais, caminha ao encontro do seu Senhor! Anseia chegar com eles ao verdadeiro conhecimento do Pai e do Filho, e passar assim da experiência « per speculum in aenigmate » (1 Cor 13,12) da obra do Paráclito na história, à contemplação « facie ad faciem » (ibid.) da Realidade Trinitária viva e palpitante. Ele bem sabe que tem de enfrentar « uma longa travessia em pequenas barcas », e elevar-se para o céu « servindo-se de pequenas asas » (Gregório de Nazianzeno, Poemas teológicos, 1); mas sabe também que pode contar com Aquele que tem a missão de ensinar aos discípulos todas as coisas (cf. Jo 14,26). Tendo aprendido a decifrar os sinais do amor de Deus na sua história pessoal, o sacerdote, à medida que se aproxima da hora do encontro supremo com o Senhor, torna mais instante e ardente a sua oração, no desejo de se conformar com fé amadurecida à vontade do Pai, do Filho e do Espírito. O Paráclito, « escada da nossa subida para Deus » (S. Ireneu, Adv. haereses, III, 24, 1), atrai-o ao Pai, pondo-lhe no coração o ardente desejo de ver a sua face. Faz-lhe conhecer tudo o que diz respeito ao Filho, atraindo-o para Ele com crescente ansiedade. Ilumina-o acerca do mistério da sua mesma Pessoa, levando-o a perceber a sua presença no próprio coração e na história. Assim, por entre as alegrias e as canseiras, os sofrimentos e as esperanças do ministério, o sacerdote aprende a confiar na vitória final do amor graças à perene acção do Paráclito que, apesar das limitações dos homens e das instituições, leva a Igreja a viver em plenitude o mistério da unidade e da verdade. Por isso, ele sabe que pode confiar no poder da Palavra de Deus, que supera toda a palavra humana, e na força da graça, que vence os pecados e as falhas dos homens. Isto torna-o forte, apesar da fragilidade humana, no momento da provação, e pronto a voltar de boa vontade ao Cenáculo, onde, perseverando na oração com Maria e com os irmãos, pode reencontrar o entusiasmo necessário para retomar o peso do serviço apostólico.

7. Prostrados na presença do Espírito Deo Patri sit gloria, Et Filio, qui a mortuis Surrexit, ac Paraclito, In saeculorum saecula. Amen. A Deus Pai a glória, ao Filho que, depois de morto, ressuscitou e ao Espírito Santo, pelos séculos  eternos. Amen. Ao meditarmos hoje, Quinta-Feira Santa, o nascimento do nosso Sacerdócio, volta à memória de cada um o momento litúrgico altamente sugestivo da prostração no chão, no dia da Ordenação presbiteral. Aquele gesto de profunda humildade e submissa disponibilidade foi, certamente, oportuno para dispor o nosso espírito para a imposição sacramental das mãos, mediante a qual o Espírito Santo entrou em nós para realizar sua obra. Depois de nos levantarmos do chão, fomos ajoelhar aos pés do Bispo a fim de sermos ordenados presbíteros e dele recebermos a unção das mãos para a celebração do Santo Sacrifício, enquanto a assembleia cantava: « fonte viva, fogo, caridade e unção espiritual ». Estes gestos simbólicos, que indicam a presença e a acção do Espírito Santo, convidam-nos a retornar cada dia a esta experiência, para se consolidar em nós os seus dons. De facto, é importante que Ele continue a agir em nós, e que nós caminhemos sob a sua influência, mas, ainda mais, que seja Ele mesmo a agir por meio de nós. Quando a tentação for insidiosa e as forças humanas vierem a faltar, é então que se deve invocar o Espírito com mais ardor, para que corra em ajuda da nossa fraqueza e nos faça prudentes e fortes como Deus quer. É preciso manter o coração constantemente aberto a esta acção, que eleva e enobrece as forças do homem e lhe confere aquela profundidade espiritual, que introduz no conhecimento e no amor do mistério inefável de Deus. Caríssimos Irmãos no sacerdócio! A solene invocação do Espírito Santo e o sugestivo gesto de humildade realizado durante a Ordenação sacerdotal fizeram também ressoar na nossa vida o fiat da Anunciação. No silêncio de Nazaré, Maria torna-se para sempre disponível à vontade do Senhor e, pela acção do Espírito Santo, concebe Jesus Cristo, salvação do mundo. Esta obediência inicial percorre toda a sua existência terrena e atinge o ápice aos pés da Cruz. O sacerdote é chamado a confrontar constantemente o seu fiat com o de Maria, deixando-se conduzir, como Ela, pelo Espírito. A Virgem ampará-lo-á nas suas opções de pobreza evangélica, e fazê-lo-á disponível para escutar humilde e sinceramente os seus irmãos, para individuar, nos seus dramas e aspirações, os « gemidos do Espírito » (cf. Rm 8,26), torná-lo-á capaz de servir os irmãos com luminoso discernimento, para os educar nos valores evangélicos; induzi-lo-á a buscar com solicitude « as coisas do alto » (Col 3,1), para ser válida testemunha do primado de Deus. A Virgem ajudá-lo-á a acolher o dom da castidade como expressão dum amor maior, que o Espírito suscita a fim de gerar para a vida divina uma multidão de irmãos. Ela conduzi-lo-á pelos caminhos da obediência evangélica, para que se deixe guiar pelo Paráclito, sem olhar aos próprios projectos, na total adesão aos desígnios de Deus. Acompanhado por Maria, o sacerdote saberá renovar todos os dias a sua consagração até quando, sob a guia do mesmo Espírito invocado com confiança no itinerário humano e sacerdotal, entrar no oceano de luz da Trindade. Pela intercessão de Maria, Mãe dos sacerdotes, invoco sobre todos vós uma especial efusão do Espírito de amor. Vinde, Espírito Santo! Vinde tornar fecundo o nosso serviço a Deus e aos irmãos! Com renovado afecto e votos de ampla consolação divina para o vosso ministério, de coração concedo a todos vós uma especial Bênção Apostólica. Vaticano, 25 de Março, Solenidade da Anunciação do Senhor de 1998, vigésimo ano de Pontificado.

 

 

 

CARTA DO SANTO PADRE

JOAO PAULO II

AOS SACERDOTES

POR OCASIAO DA

QUINTA-FEIRA SANTA DE 1999

 

 

  (Esta  transcrição é feito do Jornal L'Osservatore Romano, ou do site do Vaticano, edição em português, de Portugal; algumas palavras são escritas de forma diferente do português usado no Brasil)      

 

             

  « Abbá, Pai! »

  Queridos Irmãos no sacerdócio, o meu coló quio convosco por ocasião da Quinta-feira Santa deste ano, que precede e prepara imediatamente o Grande Jubileu do Ano 2000, tem como motivo inspirador esta invocação na qual, segundo o parecer dos exegetas, ecoa a ipsissima vox Iesu. É uma invocação onde se encerra o mistério insondável do Verbo encarnado, enviado pelo Pai ao mundo para a salvação da humanidade. A missão do Filho de Deus fica cumprida quando Ele, oferecendo-Se a Si mesmo, realiza a nossa adopção filial e torna possível a cada ser humano a participação na própria comunhão trinitária, com o dom do Espírito Santo. No mistério pascal, Deus Pai, pelo Filho e no Espírito Paráclito, aproximou-Se de cada homem, oferecendo-lhe a possibilidade da redenção do pecado e da libertação da morte.

 1. Na celebração eucarística, concluímos a oração da Colecta com estas palavras: « Por Nosso Senhor Jesus Cristo, vosso Filho, que é Deus convosco na unidade do Espírito Santo ». Pode-se dizer que esta conclusão tem um carácter ascendente: por Cristo, no Espírito Santo, ao Pai. O mesmo esquema teológico subjaz à estruturação do triénio 1997-1999: primeiro o ano do Filho, depois o ano do Espírito Santo e agora o ano do Pai.

Este movimento ascendente enraíza-se, por assim dizer, naquele movimento descendente, descrito pelo apóstolo Paulo na Carta aos Gálatas e que meditámos intensamente na liturgia do Natal: « Ao chegar a plenitude dos tempos, Deus enviou o seu Filho, nascido de mulher, nascido sujeito à Lei, para resgatar os que se encontravam sob o jugo da Lei e para que recebêssemos a adopção de filhos » (Gal 4, 4-5). Está aqui descrito o movimento descendente: Deus Pai envia o Filho para, n'Ele, nos tornarmos seus filhos adoptivos. No mistério pascal, Jesus realiza o desígnio do Pai dando a vida por nós. Então o Pai envia o Espírito do Filho para nos iluminar sobre este privilégio extraordinário: « E, porque sois filhos, Deus enviou aos nossos corações o Espírito que clama: “Abbá, Pai!” Portanto, já não és servo, mas filho; e, se és filho, também és herdeiro, pela graça de Deus » (Gal 4, 6-7). Como não salientar a peculiaridade do que escreve o Apóstolo? Afirma que é precisamente o  Espírito que grita: « Abbá, Pai! » Na verdade, a testemunha histórica da paternidade divina foi o Filho de Deus, no mistério da encarnação e da redenção: foi Ele que nos ensinou a dirigirmo-nos a Deus chamando-O « Pai ». Ele invocava-O dizendo « meu Pai » e, a nós, ensinou-nos a rezar-Lhe com o nome dulcíssimo « Pai nosso ». No entanto, São Paulo diz-nos que o ensinamento do Filho deve, em certo sentido, ser vivificado na alma de quem o escuta pelo ensinamento íntimo do Espírito Santo. Só por obra sua é que somos capazes de adorar a Deus em verdade, invocando-O « Abbá, Pai ».

  2. Escrevo-vos, queridos Irmãos no sacerdócio, estas palavras a pensar em Quinta-feira Santa, imaginando-vos reunidos à volta dos vossos Bispos na Missa Crismal. Para mim, é muito importante que, na comunhão dos vossos presbitérios, vos sintais unidos a toda a Igreja que está vivendo o ano do Pai, um ano que preanuncia o fim tanto do século vinte como do segundo milénio cristão. Deste ponto de vista, como não dar graças a Deus ao pensar na imensa multidão de sacerdotes que, neste amplo espaço de tempo, consumiram a sua existência ao serviço do Evangelho, chegando por vezes ao sacrifício supremo da própria vida? No espírito do próximo Jubileu, enquanto confessamos as limitações e faltas das gerações cristãs passadas — e, portanto, também dos sacerdotes que nelas se incluem —, reconhecemos com alegria que uma parte muito significativa do inestimável serviço prestado pela Igreja à história da humanidade se deve ao trabalho humilde e fiel de tantos ministros de Cristo que, ao longo destes mil anos, actuaram como artífices generosos da civilização do amor. As grandes dimensões do tempo! Apesar de o tempo ser sempre um afastar-se do início, todavia, pensando bem, é simultaneamente um retorno ao início. Isto tem uma importância fundamental: é que se o tempo fosse apenas um distanciar-se do início sem aparecer bem clara a sua orientação final — precisamente o reencontro com o início — toda a nossa existência no tempo estaria privada duma direcção definitiva; ficaria privada de sentido. Mas não! Cristo, « Alfa e Omega (...), Aquele que é, que era e que há-de vir » (Ap 1, 8), conferiu direcção e sentido à passagem humana pelo tempo. Falando de Si próprio, disse: « Saí do Pai e vim ao mundo; de novo deixo o mundo e vou para o Pai » (Jo 16, 28). E assim, a nossa passagem está envolvida pelo acontecimento de Cristo. Passamos com Ele, seguindo na sua mesma direcção: rumo ao Pai Isto torna-se ainda mais claro durante o Triduum Sacrum, os dias santos por excelência durante os quais misteriosamente participamos no regresso de Cristo ao Pai, através da sua paixão, morte e ressurreição. De facto, a fé garante-nos que esta passagem de Cristo ao Pai, ou seja a sua Páscoa, não é um acontecimento que diga respeito só a Ele; também nós somos chamados a tomar parte nela: a sua Páscoa é a nossa Páscoa. Caminhamos, pois, juntamente com Cristo para o Pai. Fazemo-lo através do mistério pascal, revivendo aquelas horas cruciais quando Ele, agonizante na cruz, exclamou: « Meu Deus, meu Deus, porque Me abandonaste? » (Mc 15, 34), acrescentando depois: « Tudo está consumado! » (Jo 19, 30), e, por fim, « Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito » (Lc 23, 46). Estas expressões evangélicas são familiares a todo o cristão e, de modo particular, a cada sacerdote. Dão testemunho do nosso viver e do nosso morrer. No fim de cada dia, repetimos na Liturgia das Horas: « In manus tuas, Domine, commendo spiritum meum », desejando deste modo prepararmo-nos para o grande mistério da passagem, da páscoa existencial, quando Cristo, em virtude da sua morte e ressurreição, nos tomar Consigo para nos entregar ao Pai celestial.

3. « Bendigo-Te, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e aos entendidos e as revelaste aos pequeninos. Sim, ó Pai, porque isso foi do teu agrado. Tudo Me foi entregue por meu Pai, e ninguém conhece o Filho senão o Pai, como ninguém conhece o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho O quiser revelar » (Mt 11, 25-27). É verdade! Só o Filho conhece o Pai. Ele, que « está no seio do Pai » — como escreve São João no seu Evangelho (1, 18) —, aproximou de nós este Pai, falou-nos d'Ele, revelou-nos a sua face e o seu coração. Durante a Última Ceia, respondendo ao pedido do apóstolo Filipe « Mostra-nos o Pai » (Jo 14, 8), Cristo disse: « Estou há tanto tempo convosco e não Me conheces, Filipe? (...) Não crês que Eu estou no Pai e que o Pai está em Mim? » (Jo 14, 9-10). Com estas palavras, Jesus dá testemunho do mistério trinitário da sua geração eterna como Filho do Pai, do mistério que constitui o segredo mais profundo da sua Pessoa divina. O Evangelho é uma contínua revelação do Pai. Quando Jesus, aos doze anos de idade, foi encontrado por José e Maria no Templo entre os doutores da Lei, à interpelação da Mãe « Filho, porque nos fizeste isto? » (Lc 2, 48), Ele responde fazendo apelo ao Pai: « Não sabíeis que devo ocupar-Me das coisas de meu Pai? » (Lc 2, 49). Somente com doze anos, e já tem consciência clara do significado da sua vida, do sentido da própria missão, dedicada totalmente, da primeira à última hora, às « coisas do Pai ». A missão atinge o seu cume no Calvário, com o sacrifício da Cruz, aceite por Cristo com espírito de obediência e amor filial: « Meu Pai, se é possível passe de Mim este cálice; todavia, não seja como Eu quero, mas como Tu queres. (...) Faça-se a tua vontade » (Mt 26, 39.42). E o Pai, por sua vez, acolhe o sacrifício do Filho, pois amou de tal modo o mundo que lhe deu o seu Filho unigénito, para que o homem não pereça, mas tenha a vida eterna (cf. Jo 3, 16). É verdade que só o Filho conhece o Pai e, por isso, só Ele no-Lo pode revelar.

4. « Per ipsum, et cum ipso, et in ipso... ». « Por Cristo, com Cristo, em Cristo, a Vós, Deus Pai todo-poderoso, na unidade do Espírito Santo, toda honra e toda a glória, agora e para sempre ». Unidos espiritualmente e congregados visivelmente nas igrejas catedrais neste dia singular, damos graças a Deus pelo dom do sacerdócio. Damos graças pelo dom da Eucaristia que, como presbíteros, celebramos. A doxologia, com que se conclui a Anáfora da Missa, possui uma importância fundamental em cada celebração eucarística. Exprime, em certo sentido, a coroação do Mysterium fidei, do núcleo central do Sacrifício eucarístico que tem lugar no momento em que, pelo poder do Espírito Santo, realizamos a conversão do pão e do vinho no Corpo e Sangue de Cristo, tal como Ele mesmo fez a primeira vez no Cenáculo. Precisamente quando a grande oração eucarística atinge o seu ponto culminante, a Igreja, na pessoa do ministro ordenado, dirige ao Pai estas palavras: « Por Cristo, com Cristo, em Cristo, a Vós, Deus Pai todo-poderoso, na unidade do Espírito Santo, toda honra e toda a glória ». Sacrificium laudis!

  5. Depois da assembleia responder com a solene aclamação do « Amen », o celebrante entoa o « Pai nosso », a oração do Senhor. A sequência destes momentos é muito significativa. Narra o Evangelho que os Apóstolos, impressionados pelo recolhimento do Mestre no seu colóquio com o Pai, Lhe pediram: « Senhor, ensina-nos a rezar » (Lc 11, 1). Então, pela primeira vez, Ele pronunciou as palavras que haveriam de tornar-se, depois, a principal e mais frequente oração da Igreja e de todos os cristãos: o « Pai nosso ». Quando durante a celebração eucarística, fazemos nossas, enquanto assembleia litúrgica, tais palavras, estas ganham uma particular eloquência. É como se, naquele momento, confessássemos que Cristo nos ensinou definitiva e plenamente a sua oração ao Pai, quando a comentou com o sacrifício da Cruz. É no âmbito do Sacrifício eucarístico que o « Pai nosso », recitado pela Igreja, exprime todo o seu significado. Cada uma das invocações, nele contidas, adquire uma especial luz de verdade. Sobre a cruz, o nome do Pai é « santificado » no máximo grau, e o seu Reino irrevogavelmente realizado; no « consummatum est », a sua vontade alcança definitivo cumprimento. E, porventura, não é verdade que a petição « perdoai-nos as nossas ofensas, assim como nós perdoamos... » se vê plenamente confirmada com as palavras do Crucificado « perdoa-lhes, ó Pai, porque não sabem o que fazem » (Lc 23, 34)? Também o pedido do pão de cada dia se torna mais eloquente do que nunca com a Comunhão e ucarística, quando, sob as espécies do « pão repartido », recebemos o Corpo de Cristo. E a súplica « não nos deixeis cair em tentação mas livrai-nos do mal » não atinge, porventura, a sua máxima eficácia no instante em que a Igreja oferece ao Pai o preço supremo da redenção e da libertação do mal?

6. Na Eucaristia, o sacerdote abeira-se pessoalmente do mistério infindável de Cristo e da sua oração ao Pai. Pode mergulhar diariamente neste mistério de redenção e de graça, celebrando a Santa Missa, que mantém o seu sentido e valor mesmo quando, por justo motivo, é celebrada sem a participação do povo, mas oferecida, em todo o caso, sempre pelo povo e pelo mundo inteiro.

Precisamente por este vínculo indissolúvel com o sacerdócio de Cristo, o presbítero é mestre de oração, e os fiéis podem legitimamente fazer-lhe a mesma solicitação dos discípulos: « Ensina-nos a rezar ». A liturgia eucarística é a escola de oração cristã por excelência para a comunidade. Deste centro que é a Missa, irradiam numerosos caminhos de salutar pedagogia do espírito. Dentre eles, sobressai a adoração do Santíssimo Sacramento, que é o prolongamento natural da celebração. Através dela, os fiéis podem fazer uma peculiar experiência do « permanecer » no amor de Cristo (cf. Jo 15, 9), penetrando cada vez mais profundamente na sua relação filial com o Pai É precisamente nesta perspectiva que exorto cada sacerdote a cumprir, com confiança e coragem, a sua missão de guiar a comunidade para uma oração cristã autêntica. É uma tarefa de que não lhe é lícito abdicar, mesmo que as dificuldades resultantes da mentalidade secularizada possam, às vezes, torná-la muito cansativa.

O grande impulso missionário, que a Providência suscitou na Igreja dos nossos tempos sobretudo através do Concílio Vaticano II, interpela de modo particular os ministros ordenados chamando-os antes de mais à conversão: converter-se para converter, ou, por outras palavras, viver intensamente a experiência de filhos de Deus, para que cada baptizado descubra novamente a dignidade e a alegria de pertencer ao Pai celestial.

7. No dia de Quinta-feira Santa, renovaremos, queridos Irmãos, as promessas sacerdotais. Ao fazê-lo, desejamos que Cristo, em certo sentido, nos abrace novamente com o seu sacerdócio santo, com o seu sacrifício, com a sua agonia no Getsémani e morte no Gólgota, e com a sua ressurreição gloriosa. Reproduzindo, por assim dizer, os passos de Cristo em todos estes acontecimentos de salvação, descobrimos a sua abertura profundíssima ao Pai. E é por isso que, em cada Eucaristia, se renova de algum modo o pedido feito pelo apóstolo Filipe no Cenáculo: « Senhor, mostra-nos o Pai », e de cada vez Cristo, ao Mysterium fidei, parece responder assim: « Estou há tanto tempo convosco e não Me conheces, Filipe? (...) Não crês que Eu estou no Pai e que o Pai está em Mim? » (Jo 14, 9-10). Nesta Quinta-feira Santa, amados sacerdotes do mundo inteiro, recordando a unção crismal recebida no dia da Ordenação, proclamaremos  unanimemente com sentimentos de renovada gratidão:

Per ipsum, et cum ipso, et in ipso, est tibi Deo Patri omnipotenti, in unitate Spiritus Sancti, omnis honor et gloria per omnia sæcula sæculorum. Amen!   Vaticano, 14 de Março — IV domingo da Quaresma — do ano 1999, vigésimo primeiro de Pontificado.

 

 

 


 

Fonte: Vaticano - Santa Sé - Papa João Paulo II

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