CARTA DO SANTO PADRE

PAPA JOÃO PAULO II

 

POR OCASIÃO DOS 750 ANOS DE DEVOÇÃO AO ESCAPULÁRIO:

 

(1251 a 16 DE JULHO – 2001)

 

 

 

“O rico patrimônio mariano do Carmelo

tornou-se no tempo um tesouro para toda a Igreja” (cf. nº 4)

 

 

Aos reverendíssimos Padres JOSEPH CHALMERS Prior-Geral da Ordem dos Frades da Bem-aventurada Virgem Maria do Monte Carmelo (O C) e CAMILO MACCISE Prepósito Geral da Ordem dos Irmãos Descalços da Bem-aventurada Virgem Maria do Monte Carmelo (OCD).

 

1. O providencial acontecimento de graça, que foi para a Igreja o Ano Jubilar, leva-a a olhar com confiança e esperança para o caminho que acabamos de empreender no novo milênio. “Ao princípio deste novo século, - escrevi na Carta Apostólica Novo millennio ineunte – o nosso olhar deve fazer-se mais lesto... Neste caminho acompanha-nos a Virgem Santíssima; a Ela... confiei o terceiro milênio” (Nº 58).

Por conseguinte foi grande a alegria quando tomei conhecimento que a Ordem do Carmelo, nos seus dois ramos, o antigo e o reformado, deseja exprimir o seu amor filial à sua Padroeira, dedicando-lhe o ano 2001, a ela que é invocada como flor do Carmelo, Mãe e Guia no caminho da santidade. A respeito disto, não posso deixar de realçar uma feliz coincidência: a celebração deste ano mariano para todo o Carmelo é feita, segundo é transmitido por uma venerável tradição da própria Ordem, 750º aniversário da entrega do escapulário. É portanto uma celebração que constitui para toda a família carmelita uma maravilhosa ocasião para aprofundar tanto a sua espiritualidade Mariana, como para a viver cada vez mais à luz do lugar que a Virgem Mãe de Deus e dos homens ocupa no mistério de Cristo e da Igreja e, portanto, de a seguir, Ela que é a “Estrela da Evangelização” (cf. Novo millennio ineunte)

 

2. As várias gerações do Carmelo, desde as suas origens até os dias de hoje, no seu itinerário rumo “à montanha santa, Jesus Cristo nosso Senhor” (cf. Missal Romano, coleta da Missa em honra Bem-aventurada Virgem Maria do Monte Carmelo, 16 de julho), procuram plasmar a própria vida segundo os exemplos de Maria.

Por isso no Carmelo, e em qualquer alma movida pelo terno afeto à Virgem e Mãe santíssima, floresce a sua contemplação, d’Ela que, desde o princípio, soube estar aberta à escuta da Palavra de Deus e ser obediente à sua vontade (cf. Lc 2,19.51). Deus fato, Maria educada e plasmada pelo Espírito (cf. Lc 2,44-50), foi capaz de ler na fé a própria história (cf. Lc 1,46-) e dócil às sugestões divinas, “avançou no caminho da fé, e conservou fielmente a união com seu Filho até à cruz, junto da qual, por desígnio de Deus, se manteve de pé (cf. Jo 19,25); sofreu profundamente com o seu Unigênito e associou-se de coração maternal ao seu sacrifício” (Lumen gentium, 58).

 

3. A contemplação da Virgem apresenta-no-la enquanto como Mãe solícita, vê crescer o seu Filho em Nazaré (cf Lc 2,40.52), o segue pelas estradas da Palestina, o assiste nas bodas de Caná (cf Jo 2,5) e, aos pés da cruz, torna-se a Mãe associada à sua oferenda e doada a todos os homens na entrega que o próprio Jesus faz dela ao seu discípulo predileto (cf Jo 19,26). Como Mãe da Igreja, a Virgem santa está unida aos discípulos que se “entregavam assiduamente à oração” (cf At 1,14) e, como Mulher nova que antecipa em si o que um dia se realizará para todos na plena fruição da vida trinitária, é elevada ao Céu sobre os filhos peregrinos para o monte santo da glória.

Uma atitude contemplativa da mente e do coração como esta, leva a admirar a experiência de fé e de amor da Virgem, que já vive em si o que cada fiel deseja realizar no mistério de Cristo e da Igreja (cf SC 103; LG, 53). Justamente por isso os Carmelitas, nos seus dois ramos, escolheram Maria como própria padroeira e Mãe espiritual e têm sempre diante dos olhos do coração a Virgem Puríssima que guia a todos para o perfeito conhecimento e imitação de Cristo.

Floresce assim uma intimidade de relações espirituais que incrementam cada vez mais a comunhão com Cristo e com Maria. Para os membros da Família carmelita, Maria a virgem Mãe de Deus e dos homens, não é só um modelo para imitar, mas também uma doce presença de Mãe e Irmã na qual confiar. Justamente santa Teresa de Jesus exortava : “Imitai Maria e ponderai qual deva ser a grandeza desta Senhora e o benefício de a ter como Padroeira”(Castelo interior, III,1,3).

 

4. Esta intensa vida Mariana, que se exprime em oração confiante, em entusiástico louvor e em diligente imitação, leva a compreender como a forma mais genuína da devoção à Virgem santíssima, expressa pelo humilde sinal do Escapulário, seja a consagração ao seu Coração Imaculado (cf Pio XII, Carta Neminem profecto later – 11 / 02 1950... LG, 67). É assim que no coração se realiza uma crescente comunhão e familiaridade com a Virgem Santa, “como maneira nova de viver para Deus e de continuar aqui na terra o amor do Filho à sua mãe Maria” ( cf. Angelus, em Insegnamenti XI/3, 1988, p.173). Pomo-nos desta forma, segundo a expressão do Beato mártir carmelita Tito Brandsma, em profunda sintonia com Maria, a Theotokos, tornando-nos como Ela transmissores da vida divina: “Também a nós o Senhor envia o seu anjo... também nós devemos receber Deus nos nossos corações, levá-lo dentro dos nossos corações, nutri-lo e fazê-lo crescer em nós de tal forma que ele nasça de nós e viva conosco como Deus-conosco, o Emanuel” (Da relação do Beato Tito Brandsma ao Congresso Mariológico de Tongerlo, agosto de 1936).

Este rico patrimônio do Carmelo tornou-se, no tempo, através da difusão da devoção do Santo escapulário, um tesouro para toda a Igreja. Pela sua simplicidade, pelo seu valor antropológico e pela relação com o papel de Maria em relação à Igreja e à humanidade, esta devoção foi profundamente recebida pelo povo de Deus, a ponto de encontrar a sua expressão na memória de 16 de julho, presente no Calendário litúrgico da Igreja universal.

 

5. No sinal do Escapulário evidencia-se uma síntese eficaz de espiritualidade Mariana, que alimenta a devoção dos crentes, tornando-os sensíveis à presença amorosa da Virgem Mãe na sua vida. O Escapulário é essencialmente um “hábito”. Quem o recebe é agregado ou associado num grau mais ou menos íntimo à Ordem do Carmelo, dedicado ao serviço de Nossa Senhora para o bem de toda a Igreja (cf. Fórmula da imposição do Escapulário, no “Rito da Bênção e imposição do Escapulário”, aprovado pela Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, 05/01/1996). Por conseguinte, quem veste o escapulário é introduzido na terra do Carmelo, para que “coma os seus frutos e produtos” (cf. Jr 2,7), e experimente a presença doce e materna de Maria, no empenho cotidiano de se revestir interiormente de Jesus Cristo e de o manifestar vivo em si para o bem da Igreja e de toda a humanidade (cf. Fórmula da imposição do Escapulário, cit.).

São portanto duas as verdades recordadas no sinal do Escapulário: por um lado, a proteção contínua da Virgem santíssima, não só ao longo do caminho da vida, mas também no momento da passagem para a plenitude da glória eterna; por outro, a consciência de que a devoção a Ela não se pode limitar a orações e obséquios em sua honra em algumas circunstâncias, mas deve constituir um “hábito”, isto é, um ponto de referência permanente do seu comportamento cristão, tecido de oração e de vida interior, mediante a prática freqüente dos Sacramentos e o exercício concreto das obras de misericórdia espiritual e corporal. Desta forma o Escapulário torna-se sinal de “aliança” e de comunhão recíproca entre Maria e os fiéis; de fato, ele traduz de maneira concreta a entrega que Jesus, na cruz, fez a João, e nele a todos nós, da sua Mãe, e o ato de confiar o seu apóstolo predileto e a nós a Ela, constituída nossa Mãe espiritual.

 

6. Desta espiritualidade Mariana, que plasma interiormente as pessoas e as configura com Cristo, primogênito de muitos irmãos, são um maravilhoso exemplo os testemunhos de santidade e de sabedoria de tantos Santos e Santas do Carmelo, todos crescidos à sombra e sob a tutela da Mãe.

Também eu levo no meu coração, desde há muito tempo o Escapulário do Carmo! Pelo amor que nutro pela Mãe celeste de todos nós, cuja proteção experimento continuamente, desejo que este ano mariano ajude todos os religiosos e as religiosas do Carmelo e os piedosos fiéis que a veneram filialmente, a crescer no seu amor e a irradiar no mundo a presença desta Mulher do silêncio e da oração, invocada como Mãe da misericórdia, Mãe da esperança e da graça.

Com estes votos, concedo de bom grado a Bênção apostólica a todos os frades, monjas, irmãos, leigos e leigas da Família Carmelita, que tanto se empenham para difundir entre o povo de Deus a verdadeira devoção a Maria, Estrela do mar e Flor do Carmelo!

Vaticano, 25 de março de 2001

 

 


 

Fonte: Vaticano - Santa Sé - Papa João Paulo II

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