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CARNE E OSSO Mons. Pedro
Teixeira Cavalcante* CLIQUE AQUI p/a copiar este livro em arquivo de WORD
(*.doc) APRESENTAÇÃO A bibliografia teresiana é imensa. São
milhares de livros escritos em
muitíssimas línguas do mundo. Diante
desse fato, mais uma livro sobre Santa Teresinha pode até parecer inútil. Nossa intenção, porém, não foi escrever
mais um livro sobre Santa Teresinha do Menino Jesus e da Sagrada Face. Nosso
objetivo foi escrever um livro atual sobre Teresa de Lisieux, a santa querida
do mundo inteiro. Dispondo de um material-fonte abundante para
estudos e meditação sobre a pessoa, a
obra e a mensagem de Santa Teresinha, resolvemos escrever este livro com a
finalidade definida de mostrar uma face diferente,que julgamos verdadeira e
autêntica, dessa grande Santa da Igreja. Não quisemos fazer mais um livro, mas
apresentar, numa visão de conjunto, embora não completa, a pessoa, o modo de
viver, a caminhada espiritual e a mensagem de Teresinha ou Teresa de Lisieux. O livro não é um biografia, nem apenas um
comentário sobre a doutrina teresiana. Ele quer ser uma exposição diferente
do que comumente já se escreveu até hoje sobre quem era a Santa e qual foi a
sua mensagem, que Ela por primeiro viveu. Partindo da análise do físico e do
espiritual de Santa Teresinha, que é aprofundada na sua harmonia existencial,
distribuímos o livro, em seguida, em duas grandes partes. A primeira é a
apresentação da parte humana de Santa Teresinha, enquanto que a segunda
investiga a mensagem, que chamamos de
Pequeno Caminho e, não, Infância Espiritual. Apresentada, pois, a Santa ao
público na sua verdadeira face e, não, como um manequim ou marionete, ela é
investigada em todo o seu valor humano, como pintora, escritora, mestra,
doutora e,depois, na sua doutrina. Três características marcam a segunda
parte, a saber, toda afirmação é confirmada pelas palavras da própria Santa e
sempre mostramos em primeiro lugar como a Santa viveu o que disse e
ensinou.A terceira é que, com a
intenção de fazer um discurso na base de uma comparação, para facilitar a
compreensão, usamos a analogia da Montanha do Amor. Não queremos com isso
dizer que, Santa Teresinha tenha ensinado sua doutrina na base dessa
analogia, mas a usamos,dentro da mais pura tradição carmelitana,com fins
didáticos. Em suma, depois de muitos anos de estudo
e meditação, pensando exclusivamente no bem dos irmãos e querendo apenas a
maior difusão do Reino de Deus, escrevemos este livro para os discípulos (e
também para os simplesmente interessados) de Santa Teresinha do Menino Jesus
e da Sagrada Face,apresentando uma visão nova da grande e genial Santa, que
entrou nos corações de milhões de pessoas no mundo inteiro. Se este livro fizer algum bem, que seja
ele debitado a Deus, Nosso Senhor; se, pelo contrário, ele não servir para
nada, confesso-me culpado pela incapacidade de expressar e explicar a
grandeza, a genialidade e a profundidade da vida, da caminhada espiritual e
da mensagem da "maior santa dos tempos modernos". LEGENDA C.A.
-Caderno Amarelo da Irmã Inês,contendo suas últimas conversas com Santa Teresinha. Carta
-Cartas, que se encontram
no final da
edição completa francesa do "Derniers Entretiens". C.T.
-Carta de Santa Teresinha. D.E.
-Derniers Entretiens. Edição completa francesa. M.A.
-Manuscritos Autobiográficos,
de Santa Teresinha. Caderno A. M.B.
-Manuscritos Autobiográficos,
de Santa Teresinha. Caderno B. M.C.
-Manuscritos Autobiográficos,
de Santa Teresinha. Caderno C. N.V.
-Novissima Verba. P.A.
-Processo Apostólico. Segundo
volume do "Procès de Bétification et Canonization de
Sainte Thérèse de l'Enfant-Jésus et de Sainte
Face". PN
-Poesias de Santa Teresinha, segundo a edição do Centenário. P.O.
-Processo Ordinário Informativo.Primeiro volume da obra citada acima. TERESA, MULHER É natural o desejo, que se possa ter, de
conhecer o físico da pessoa, que se admira. Querer saber, pois, como era
Teresa de Lisieux, nossa querida Santa Teresinha, parece-me que não é apenas
justo, mas até útil e proveitoso. Com efeito, muita coisa que se diz de
Teresinha e muita coisa que lemos nos seus escritos, passa a ter um sentido e
um valor mais concreto e mais real, quando conhecemos bem quem disse, quando
disse, como disse, etc. Conhecer Teresa, no seu aspecto físico
feminino, não é apenas uma curiosidade.É muito mais. É aprofundar o
conhecimento sobre essa Santa, para aprofundar também o conhecimento de sua
mensagem. E o bom e curioso é que, ao contrário do
que às vezes acontece, o conhecimento mais aprofundado e mais pormenorizado
de Teresa, mulher, leva-nos a gostar
mais dela, a saborear melhor seus gestos
e palavras, a amá-la com um amor mais simples, mais concreto, mais
humano.Senão, vejamos. Domingo, segunda-feira e terça-feira
foram três dias de intensa adoração do Santíssimo Sacramento, durante a
Semana Santa de 1895, no Carmelo de Lisieux. Durante aqueles momentos de adoração e
contemplação, Teresa, envolvida e elevada pela aura de amor, que a penetrava até o mais íntimo de sua medula,
é arrebatada por Deus e canta, no profundo de sua alma, um canto de amor que,
belo e caloroso, é, ao mesmo tempo, real e concreto. Na noite da terça-feira, 26 de fevereiro,
ele colocou no papel o belíssimo poema, que compusera. Foi,assim, que
apareceu a sua poesia "Viver de Amor!". Na décima terceira estrofe, nossa Santa,
com grande realismo espiritual, escreve:
"Viver de amor, que estranha loucura! Diz-me o mundo "Ah! cessai de cantar Não percais vossos perfumes,
vossa vida Utilmente procurai
utilizar". Essas palavras indicam, claramente, que Teresa de Lisieux não era nenhuma
sonhadora doentia ou complexada. Pelo contrário, ela tinha consciência do que
era e do que possuía(vossos perfumes e vossa vida). Ela sabia que possuía
encantos, que poderiam fazer sucesso no mundo. Sua experiência nesse campo
era pouca, mas o suficiente para provar que, a Teresa, menina bonita e
elegante, tornara-se uma jovem
atraente, no corpo e na alma. Percorramos, rapidamente, sua vida e leiamos
alguns testemunhos referentes a ela e descobriremos como eram essa elegância e essa beleza de Teresa de Lisieux. As Cartas de sua mãe, mesmo descontando
os entusiasmos próprios de uma mãe, dão-nos uma idéia de Teresa, menina. Maria Francisca Teresa Martin nasceu às
23 horas e 30 minutos, quinta-feira,
do dia 2 de janeiro de 1873, e nasceu "muito forte e bem saudável",
pesando entre seis a oito libras e parecendo "muito graciosa"(1). Essa normandinha, gorda e saudável, desde
cedo, chamou a atenção de todos. Com quatorze dias de nascida já sorria e
todos diziam que ela era bela. E seu sorriso, que será sempre um dos seus
fortes, era delicioso e a menina parecia até querer cantar, quando ouvia sua
mamãe cantar(2). Apenas entrada no segundo mês de vida,
Teresinha começou sua longa lista de doenças. Sua primeira enfermidade foi
enterite, mas, mesmo doente, ela está sempre alegre e "desde que tenha
um momentinho de descanso, ela ri a valer"(3). Na nossa pequenina, pois, já estava uma
beleza gentil e uma alma alegre, que encantava a todos. E será sempre assim
até sua morte. A doença a maltratou, mas, quando foi
para o campo e lá ficou com uma ama de leite, recuperou-se e se tornou, de
novo, saudável e forte(4). Sua mãe, um dia, vendo-a quase restabelecida, não
pôde deixar de escrever que ela
estava gordinha(14 libras) e que "será muita graciosa e mesmo muito
bonita mais tarde"(5). Com
seis meses, ela adora sorrir e "parece muito inteligente e tem uma
figura de predestinada"(6). E, no campo, a loura menina ficou um
pouco queimada, bronzeada e se
tornou um bebê gorducho(7). Com pouco mais de um ano de idade,
Teresinha é "doce e mimosa como um anjinho, tem um caráter
encantador...e um sorriso tão doce!"(8). Teresa está com um ano e seis meses
e,agora, está muito forte, dá mostras de ser muito inteligente, é graciosa e
tudo prova que será bela. Sua boquinha chama a atenção de todos(9). Já fala
quase tudo e se torna, cada dia, mais atraente(10). É verdade que, como todas as crianças do
mundo, terá, de vez em quando, uma doencinha. Isso,porém, não tira sua beleza
de criança encantadora. Ela, cada dia, se torna mais graciosa,
"garrulha de manhã até à noite,
canta cançõesinhas, é muito inteligente e faz sua oração com um
anjinho". Em suma, é uma meninazinha ideal(11). Com dois anos e dois meses, Tersinha
diverte sua família com conversas agradáveis e é, sem dúvida, "uma mina
de prosperidade"(12). Nessa idade, porém, uma tosse cabulosa
acompanhada de febre dão o primeiro grande sinal na vida da nossa Santa(13). Sua
garganta vai sofrer as conseqüências desse mal. Mais tarde, nos verdes anos
da juventude, a mesma doença será o início da sua caminhada para a morte, Nessa época, também, sua mãe nota,
claramente, o temperamento forte e decidido de Teresinha(14). Sua força de
vontade dá suas primeiras amostras. No futuro, ela fará uma composição
perfeita dessa força pessoal de vontade
com a ajuda da graça divina. Assim, a beleza, do corpo e da alma, vai
se formando na pequena Teresa. Saudável, alegre, inteligente, piedosa,
decidida, gentil, graciosa, em suma, uma menina admirável para a pouca idade, que possuía. Teresinha não é, porém, uma menina
anormal, ou mesmo, fora do normal. Como todas as outras crianças, sofre com
os dentes(15), os quais, porém, na idade adulta, não vão mais inquietá-la. Agora,
sua gengiva fica inflamada; mais tarde, nem os muitos anos após sua morte poderão enfraquecê-la(16). Simples e graciosa, a menina Teresa adora
presentes e gosta de usar coisas bonitas, como "um lindo chapéu
azul"(17). Mas essas coisas bonitas não perturbam seu espírito de
criança, que já pensa e se deleita
com coisas mais lindas e mais profundas, como o desejo do céu, que será
sempre um dos grandes sonhos e desejos de Teresa de Lisieux(18). Essa coisa linda, chamada Maria Francisca
Teresa, é já, também, um começo de harmonia. O humano e o divino; o simples e
o fantástico; o cotidiano e o raro, nela fazem um acordo maravilhoso. Sua mãe
resume tudo, dizendo: "ela é sempre mimosa e danandinha"(19). Em suma, até à morte de sua
mãe(28-8-1877), Teresina aparece - e o é de fato - uma criança maravilhosa. Nela
brilha uma composição harmônica estupenda. Como toda criança do mundo, gosta
de brincar(20); chora quando não se sente feliz(21); tem suas
amizadezinhas(22); mas também, como não muitas, é de uma inteligência
maravilhosa, é gentil, mimosa, tem um forte no seu gracioso sorriso; viva e
de um coração muito sensível(23).A loura Teresinha, de boca pequena, de olhos
azuis, é uma criança bonita, que reza com piedade, deseja ir para o céu e já
tem muita força de vontade. A Teresa, mulher, vai se construir sobre
esse pedaço de gente, que deseja alto, sonha com um ideal e que não bamboleia
entre o tudo e o nada. Com efeito, para ela só o tudo tem valor(24). É, assim, que vemos Teresa de Lisieux, no
seu físico e no seu espírito, com quatro anos e meio de idade. Saltemos, agora,
todos os demais anos de sua vida e vejamos logo o que os médicos encontraram
na sua segunda exumação, em agosto de 1917. O Dr. de Cornice escreve, nessa época:
"Quando da abertura do caixão, o conteúdo se apresentou sob forma de uma
poeira escura, cor casca de carvalho, da qual emerge a extremidade de alguns
ossos importantes... Em geral, os dentes estão bem implantados nos
alvéolos". E, depois de examinar várias outras partes do esqueleto de
Teresa, o médico concluiu: "Em resumo, segundo os dados do esqueleto e,
principalmente, pela forma da bacia, podemos deduzir que se trata, na
espécie, de um esqueleto de mulher com a idade talvez de vinte e três a vinte
e cinco anos e cuja estatura devia ser cerca de um metro e sessenta
centímetros"(25). O Dr. Paulo Loisnel, outro perito que
examinou os ossos de Santa Teresinha, na segunda exumação de agosto de 1917,
escreveu, por seu turno: "É impossível encontrar vestígio das partes
moles do cadáver(pele, tecido celular gordurento, aponeuroses, músculos,
nervos, , tendões, vísceras e órgãos
intra-torácicos e intra-abdominais). Os cabelos ajustados pelo tecido negro
do véu estão aglutinados ao redor do crânio. De cor castanho claro, quase
louros, medem de 8 a 10 centímetros de comprimento". E, na conclusão,
ela atesta: "O esqueleto examinado é o de um ser humano, do sexo
feminino. A idade exata do sujeito não pode ser muito exatamente determinada:
os caratéres anatômicos das peças observadas são os de um ser, cuja idade é
compreendida entre 20 e 25 anos. A estatura aproximada é de 1m 59 cm. a 1m
60cm.(26). Eis aí o pouco que se pode dizer de
Teresa, mulher, após alguns anos de sua morte. Da menina graciosa,
inteligente, amável, piedosa, carinhosa, de cabeça dura, loura, de boca
pequena, que gostava de rir e de
contar histórias engraçadas, louca pela família, adorada pelos pais, que
sonhava com o céu, restaram apenas alguns ossos, alguns dentes, um pouco de
cabelo e desse pouco se pode dizer apenas que tinha cabelos quase louros, que
media um metro e sessenta ou sessenta e dois centímetros e que era mulher. Mas, agora, pergunta-se: como era mesmo
Teresa de Lisieux? Era grande? Era bonita? Era charmosa? Em suma, como eram o
corpo e alma da Irmã Teresa do Menino Jesus da Sagrada Face? Como era, em
suma, Teresa, mulher? Vejamos, logo, seu físico e, depois, a
beleza completa de seu espírito pelo lado, digamos, humano. Teresa tinha treze anos. Adoecera mais
uma vez, provavelmente por questões psicológicas. Fora obrigada, então, a deixar o colégio. Para não perder
tempo, seu bondoso pai contratou uma professora particular, chamada Senhora
Papinau. Na sua Autobiografia, Teresa,
referindo-se a essas aulas, assim as descreve: "Essas aulas tinham ainda
a vantagem (além da instrução que recebia) de me fazer conhecer o mundo... Quem
poderia acreditar?!... Naquela sala,
mobiliada à antiga, cheia de livros e de cadernos, eu via visitas de todas as
espécies: padres, senhoras, moças, etc... A Senhora Cochain, tanto quanto possível,
mantinha a conversa, a fim de deixar sua filha me dar a aula, mas naqueles
dias não aprendia muita coisa, o nariz em um livro, eu ouvia tudo o que se
dizia e mesmo o que teria sido melhor para
mim não ouvir. A vaidade entra tão facilmente no coração!... Uma
senhora dizia que eu tinha belos cabelos... outra, ao sair, crendo que não era ouvida, perguntava quem era aquela mocinha tão
bela e essas palavras, mais lisonjeiras porque não eram ditas na minha
presença, deixavam no meu coração uma impressão de prazer, que me mostrava
claramente que estava cheia de amor próprio!"(27). Portanto, com 13 anos de idade, Teresinha
era uma jovem atraente e bonita, que
chamava a atenção das outras pessoas. Seus belos cabelos eram a marca
registrada, como, mais tarde, o será seu belo sorriso angelical. Sorriso, que
fora na infância uma atração toda especial. Entre os biógrafos teresianos, Mons. Ascânio
Brandão se interessou por esse
assunto do aspecto físico de Teresa de Lisieux. De posse da famosa
foto oval, retocada, que o Carmelo conseguiu modelar,subescritada por um
autógrafo da Madre Inês de Jesus, no qual ela afirma que aquela fotografia era a mais semelhante
com Teresa, Mons. Ascânio escreve: "...bela, de uma beleza rara, a nossa
santinha foi das mais belas mulheres
de França, dotada de todos os encantos de seu sexo e da sua raça. Dizem as
Irmãs de Santa Teresinha que não há retrato, não há pintura que possa
traduzir a expressão de sobrenatural beleza da nossa santinha, principalmente
daquele seu olhar cheio de doçura e de angelical pureza. Teresinha era linda,
linda, de uma beleza toda celestial. Quando menina, arrebatava os olhares de
quantos a contemplavam, na rua e no colégio... O olhar de Teresinha, dizem as
suas Irmãs e contemporâneas, é intraduzível nos retratos e na tela; só quem a
viu poderá avaliar o abismo de doçura, bondade e encanto que ele possuía... Teresinha
era alta, de olhos azuis, cabelos de ouro, como os filhos da Normandia, tinha
o rosto oval, tez de lírio, e os traços mais suaves e delicados de uma mulher
bela. Tudo nela resplandecia em proporção, integridade e doce brilho da luz,
três requisitos da beleza física. E que beleza casta, meu Deus! É a beleza
que lembra o céu e arrebata o coração para o alto!"(28). Mesmo partindo de alguns dados
verdadeiros, é preciso, porém, convir que Mons. Ancânio Brandão exagera um
pouco. Já sabemos que Teresa tinha cerca de um
metro e sessenta ou sessenta e dois centímetros; que tinha olhos azuis; que
tinha cabelos dourados, e sabemos, também, que teve sempre um rosto cheio,
gordinho, mesmo quando esteve doente, uma boca pequena com o lábio inferior
um pouco para dentro. Para completar nosso quadro físico de Teresa,
examinemos outras declarações. O Cônego Jomard, apoia-se em um
bilhete inédito com o juízo de duas
antigas Mestras de Teresa, na Abadia,
Madre São Leão e Madre Estanislau, a respeito de sua antiga aluna: "Ela
não era precisamente linda, tinha o queixo bastante acentuado; mas uma maravilhosa
cabeleira dourada e um ar tocante de inocência"(29). O senhor V.Lahaye, farmacêutico em
Lisieux, esteve presente à cerimônia de profissão religiosa de Irmã Teresa do
Menino Jesus e eis como ele a descreve: "Na sua profissão, eu estava no
santuário, bem perto da grade atrás da qual ela se encontrava. O véu negro
que ela ia receber estava carregado com uma coroa de rosas e exposto sobre o
altar. O véu branco, que ela trazia ainda, estava levantado sobre a cabeça e
deixava perceber uma feliz harmonia no conjunto dos seus traços. Contudo, o
fronte era ligeiramente curvada, o
nariz curto, a boca quase grande, o queixo bastante largo e arredondado,
enquanto que as bochechas, sem ser cavadas, compreendiam as maçãs do rosto um
pouco salientes. Seus olhos possuíam
um brilho temperado pela candura e pela pureza, mas, em certa circunstância,
comovente e decisivo, sua doçura natural cedia lugar à gravidade. Sua tez era
de marfim novo com transparência superficial,ligeiramente alambrada, com uma
nuance de rosa. Ela parecia esbelta, apesar das pesadas vestes de religiosa. Sua
pessoa e sua atitude estavam impregnadas de uma beleza mística e majestosa,
que inspirava o respeito mais ainda do que a admiração"(30). Em outro documento, a mesma testemunha
diz que viu Teresa "pequena, esbelta sob suas pesadas vestes de
religiosa, mãos finas...olhos azuis e brilhantes, o olhar límpido e
profundo"(31). Eis outra descrição que, em parte, verdadeira, parece que, segundo
Frei Francisco de Santa Maria, está um pouca enfeitada: "Ela era alta de
estatura. Tinha os cabelos louros, os olhos esverdeados e profundos, as
sobrancelhas altas e finas, a boca pequena, os traços delicados e regulares. Seu
rosto, da cor de lis, era de um corte harmonioso, bem proporcionado, sempre
impregnado de uma amável serenidade e de uma paz celeste. Enfim, seu caminhar
era cheio de dignidade e, ao mesmo tempo, de simplicidade e de
graça"(32). Fernando Laudet, segundo ainda Frei
Francisco de Santa Maria, talvez tenha sido mais acertado na sua descrição:
"Uns asseguram que era muito bonita, outros que sua fisionomia era
sedutora; creio que o melhor é dizer que, seu rosto, um pouco irregular,
brilhava de charme. Tinha, sob as sobrancelhas muito retas, dois grandes
olhos profundos, uma tez de lis que enquadrava uma cabeleira dourada e vaporosa.
O povo dizia: "Ela é celestial!""(33). Afinal, como era Teresa, fisicamente? O que é certo já sabemos. Não era
baixa(tinha 1 metro e sessenta ou sessenta e dois centímetros), tinha uma
bonita cabeleira dourada, olhos azuis, nariz pequeno,boca pequena, rosto um
pouco cheio, olhar límpido, sereno, profundo, mãos finas, dedos compridos e
um sorriso encantador. Era bonita? Se não foi linda, ou
bonitona, era simpática, atraente, dona de charme sedutor! Mas, o que mais atraía em Teresa,
sobretudo quando já religiosa, não
foi certamente o seu físico, foi,sim, sua alma,foi seu espírito maravilhoso e rico, que se deixava transparecer
fisicamente. Foi,sim, a conjugação, perfeita e harmônica, do seu corpo e de
sua alma. Nesse ponto, os testemunhos são unânimes e concordes. Por isso,
todos diziam que ela era celestial! Em 1893, no verso de uma fotografia
enviada ao Carmelo de Tours, Madre Maria Gonzaga escreveu,a respeito de Irmã
Teresa do Menino Jesus, então com vinte anos de idade, o seguinte: "É a
jóia do Carmelo, seu querido benjamim. Ofício de pintura, no qual ela
brilha sem jamais ter tido outras
lições a não ser ver trabalhar nossa Reverenda Madre, sua irmã querida. Grande e forte com um ar de criança, com
um som de voz, uma expressão igual escondendo nela uma sabedoria, uma
perfeição, uma perspicácia de cinqüenta anos. Alma sempre calma e se
possuindo perfeitamente em tudo e com todas.
Pequena "santa não toque nela", a quem dar-se-ia o bom Deus
sem confissão, mas o boné é cheio de malícias para fazer a quem quiser. Mística,
cômica, tudo lhe serve. Ela poderia fazer-vos chorar de devoção e igualmente
fazer-vos desmaiar de rir no recreio"(34). Essa é
realmente uma descrição bonita, embora incompleta, da nossa Teresinha. Nela
reflete um conjunto de dados maravilhosos, que brilha e seduz. A sedução de Teresa de Lisieux! Eis aí um
ponto forte e interessante dessa mulher encantadora. E qual será a fonte e raiz dessa atração
sedutora? Foi a sua santidade. Sua perfeição. Sua
harmonia interior. O santo, quer queira, quer não, ele exala uma aura que denota claramente que aquela pessoa
tem algo de especial. É que o santo vive no caminho da perfeição, na
aproximação da luz de Deus, e isso não pode deixar de exalar um não sei quê
de extraordinário. Ademais, cada santo tem certos predicados próprios do seu caráter, do seu temperamento, da
sua personalidade. No caso de Santa Teresinha, algo
angelical foi, sem dúvida, uma nota
característica da sua transparência perante as pessoas. Irmã Marta de Jesus, no Processo
Apostólico, declarou: "Quando vi a Irmã Teresa do Menino Jesus, pela
primeira vez, ela me deu a impressão de um anjo.. Seu rosto tinha
verdadeiramente um reflexo todo
celestial e essa impressão ficou sempre a mesma, não somente durante seu
postulantado, mas ainda durante todo o tempo de sua vida religiosa"(35). E a mesma Irmã Marta de Jesus conta,
nesse Processo, que, certa vez, foi
ao parlatório, acompanhada de Teresa, para atender a uma religiosa, que viera
visitá-la. Quando Teresa saiu do parlatório, a irmã visitante disse à Madre
que, na ocasião, estava presente: "Como é arrebatadora essa menina. Ela
é mais do céu do que da terra. Tem qualquer coisa de tão puro, de tão cândido
que, quando se a vê, a alma repousa. Como lhe agradeço, minha Madre, por
tê-la trazido!"(36). Irmã Teresa de Santo Agostinho, no
Processo Ordinário, conta que, certa feita,
uma das irmãs do Mosteiro, durante uma recreação, fez esta bonita
ponderação: "Olhai Irmã Teresa do Menino Jesus, não se diria que ela vem
do céu? Ela tem um ar de um anjo!"(37). São interessantes e maravilhosos os
testemunhos da Madre Maria dos Anjos a esse respeito. Sobre Teresa
adolescente, ela confessa: "Foi-me fácil constatar que, essa sedutora
jovem era uma menina de bênção. Quando me encontrava perto dela, o efeito que
ela me produzia era aquele que a alma sente perto do tabernáculo. Exalava desse anjo uma atmosfera de calma,
de silêncio, de doçura e de pureza que me fazia contemplá-la com um
verdadeiro respeito"(38). A mesma religiosa nos transmite,
outrossim, uma informação que recebera de fora do Carmelo. É que o sobrinho
da Irmã Santo Estanislau, vendo Teresa passar com o senhor Martin, dissera a
sua irmã: "Olha a senhorita Martin!...Eis aí um anjo! Queres que te diga
uma coisa? Pois bem, tu verás que um dia ela será canonizada"(39). Iríamos longe demais, se quiséssemos
copiar e transcrever todas as declarações encontradiças nos Processos de
Canonização, a respeito do aspecto angelical de Teresinha. Mas não podemos deixar de observar
que, em companhia desse ar angelical,
Teresa apresentava toda uma estrutura psicológica admirável, que se
manifestava fisicamente. A já citada Madre Maria dos Anjos fala da
calma, do silêncio. da doçura, da pureza e relembra a impressão de Luiza
Delarue sobre a candura e a inocência de Teresinha. Ainda, mais. Havia algo em Teresa que
sempre chamou a atenção de todos. Foi o seu sorriso. Na verdade, Teresa de
Lisieux sempre sorriu, do berço até à morte. Sua mamãe, como já vimos,
encantava-se com os seus primeiros
sorrisos, quando ela era apenas uma criancinha de poucos dias. Mais tarde, já
moça e no Carmelo. Teresa vai mostrar a todos sempre seu sorriso encantador. Com
o seu sorriso, ela capaz de conquistar uma pessoa difícil e mal humorada. Na
sua Autobiografia, ela nos conta que, conseguiu as boas graças da Irmã São
Pedro, doente e anciã, porque lhe fazia uma servicinho extra, além de
trazê-la da capela ao refeitório, que ela não lhe pedira, mas "sobretudo
(e ou soube mais tarde) porque, depois de ter cortado seu pão, eu lhe fazia ,
antes de partir, meu mais belo sorriso"(40). Sua irmã, Madre Inês de Jesus, disse no
Processo Ordinário para a Canonização de Teresa: "Ela estava sempre em
paz, apesar de sua aridez e seus sofrimentos; ela era toda doçura, a graça
tinha se espalhado sobre seus lábios com um sorriso perpétuo"(41). Quase o mesmo testemunho nos dá a sua
madrinha de batismo, Irmã Maria do Sagrado Coração: "De fato, não é
ordinário ver sempre a mesma igualdade de
alma, o mesmo sorriso nos lábios, no meio das adversidades, dos abusos
e das provas da vida cotidiana"(42). Sorriso nos momentos alegres e nas horas
difíceis e cheias de dor! Onde estava a razão de tudo isso? Foi apenas um dom
natural? Foi efeito também da graça divina? Madre Inês de Jesus nos responde: "A
maior parte das vezes esse sorriso não era a expressão de uma alegria natural, mas o resultado do
seu amor pelo bom Deus, que lhe faz ver o sofrimento como uma causa de alegria(43). A
própria Teresa, relatando a história do seu relacionamento com a Irmã Teresa
de Santo Agostinho,"que tinha o talento de lhe desagradar em tudo",
diz que, quando a encontrava, não só a tratava amavelmente, prestando-lhe
"todos os serviços possíveis", mas lhe fazia seu "mais amável
sorriso". Essa Irmã Teresa de Santo Agostinho ficou, então, muito
intrigada com aquele comportamento excepcional de Teresinha e lhe perguntou, certa feita: "A senhora
queria me dizer o que a atrai tanto
para mim, a cada vez que me olha, eu a vejo sorrir?" Teresinha ,
respondendo, escreve:"Ah! o que me atraía, era Jesus escondido no fundo
de sua alma... Jesus que torna doce o que há de mais amargo... Eu lhe
respondi que sorria, porque estava contente por vê-la(bem entendido, não
acrescentei que era no ponto de vista
espiritual)"(44) Aí está a razão profunda de todo seu sedutor sorriso: era a
composição harmônica de toda a pessoa de Teresa de Lisieux. Nela, a graça e o
humano dançavam o baile da perfeição, da harmonia, da concórdia, do
equilíbrio. Teresa de Lisieux sorria, porque gostava de sorrir. Teresa de
Lisieux sorria também, porque amava seu Deus e seus irmãos, por causa dEle. Bonita no físico, que Deus lhe deu,
Teresa de Lisieux foi realmente linda na sua alma. E na composição de sua
beleza e de sua lindeza, Irmã Teresa
do Menino Jesus da Santa Face foi, realmente, um encanto sedutor de mulher. NOTAS (1) -MARTIN,Z. CORESPONDANCE FAMILIALE (1863-1877),Office
Central de Lisieux
1958,p.141. (2) -Idem,ibidem,p.143. (3) -Idem,ibidem,p.147. (4) -Idem,ibidem,p.160,164. (5) -Idem,ibidem,p.170. (6) -Idem,ibidem,p.172. (7) -idem,ibidem,p.176. (8) -Idem,ibidem,p.192. (9) -Idem,ibidem,p.196. (10)-Idem,ibidem,p.197. (11)-Idem,ibidem,p.209. (12)-Idem,ibidem,p.228. (13)-Idem,ibidem,p.232. (14)-Idem,ibidem,pp.234,260,289. (15)-Idem,ibidem,p.250. (16)-PROCÉS DE BÉATIFICATION ET CANONISATION DE SAINTE THÉRESE
DE L'Enfant-JÉSUS
ET DE SAINTE FACE,VOL.I, PROCES
APOSTOLIQUE, Roma, 1976,p.542. (17)-MARTIN,Z. op.cit.p.256. (18)-Idem,ibidem,pp.263,282. (19)-Idem,ibidem,pp.270,311. (20)-Idem,ibidem,p.200. (21)-Idem,ibidem,pp.330,369. (22)-Idem,ibidem,p.369; Manuscrito A, 6r. (23)-MARTIN,Z. Op.cit.p.317. (24)-Manuscrito A,9v. (25)-PROCÉS...Op.cit.Vol.II,pp.538-540.Segundo Celina,irmã da
Santa, ela teria um metro e
sessenta e dois centímetros.Cf.CONSEILS ET SOUVENIRS,Carmel de Lisieux,1952,p.39. (26)-Ibidem,pp.540,541,546. (27)-Manuscrito A,39r. (28)-BRANDÃO,A. SANTA TERESINHA, Vozes, Petrópolis,1937,pp.60,62,63. (29)-VISAGE DE THÉRESE DE LISIEUX, Office Central de
Lisieux,1960, Introduction et
Notes,p.19. (30)-Ibidem, p.19. (31)-Ibidem. (32)-Cf.ibidem,p.20. (33)-LAUDET,F. L'ENFANT CHÉRIE
DU MONDE,Mame,Paris,1927,p.88. (34)-Apud VISAGE,op.cit.p.14. (35)-PROCÉS...Op.cit.[1069]. (36)-Ibidem. (37)-PROCÉS...op.cit.vol.I,[528v]. (38)-Ibidem,[595r]. (39)-Ibidem,[611r]. (40)-Manuscrito C,29r. (41)-PROCÉS...Op.cit.vol.I,[163r] e[163v]. (42)-Ibidem,[309bis] e [309bisv]. (43)-Ibidem,[163v]. (44)-Manuscrito C,14r. HARMONIA EXISTENCIAL Já dissemos, algumas vezes, que Santa
Teresa de Lisieux alcançou uma harmonia estupenda entre o divino e o humano,
ou seja, ela conseguiu uma interação maravilhosa, organizada e harmônica
entre a ação da graça e o agir, o pensar e o ser do homem; entre o seu corpo
e o seu espírito. Essa harmonia, Teresa a demonstrou na sua vida e nas suas
palavras. Isso não implica faltas e falhas, tanto no corpo quanto na alma;
isso diz apenas que ela, enquanto um ser humano, pelo esforço pessoal e pela
sua correspondência à graça divina, chegou a um altíssimo estágio de domínio
de si mesma, e, ao mesmo tempo, de perfeição espiritual na linha da
assemelhação com Deus. A conseqüência desse estado foi a paz, a profunda
paz,da qual nossa Santa veio a
usufruir, mesmo nos momentos mais difíceis da sua vida. E o mais importante de tudo é como ela
chegou a esse estágio. Foi de uma maneira simples, comum, isto é, caminhando
como simples mortal, sem deixar de ser humana, mas sobretudo - e aqui está o
segredo - entregando-se totalmente à força transformante da graça
divina.Poderíamos, pois, aqui, lembrar as palavras do grande apóstolo Paulo:
"Basta-te a minha graça, pois é na fraqueza que a força manifesta todo o
seu poder"(1). Essa harmonia existencial é tão admirável em Teresinha, que qualquer leitor
atento de suas obras e de sua vida,
fica estupefato, extasiado e admirado
com a coordenação perfeita das coisas e dos fatos, vivida e realizada
por essa Santa.Nela nada é supérfluo, indesejável, descontrolado.Ela sabe
aproveitar de tudo, que Deus lhe deu. Diante da realidade do seu próprio eu,
com dons e fraquezas, ela não se irrita, não reclama, não lamenta. Está
contente com sua realidade. Depois, com muita humildade e submetendo-se à
força da graça, ela dirige tudo, quase sem saber, com uma extraordinária
ordem e harmonia, de tal modo que,apesar de sua pouca idade, chega a provocar
a admiração dos mais velhos e esses mesmos, juntamente com os mais jovens do
que ela, vêem todos lhe pedir luz, orientação e conselhos. Santa Teresinha é uma obra-prima humana e
divina; humana, enquanto soube ser criatura humana, viver como criatura
humana e, especialmente, como mulher. Divina, enquanto soube se colocar à
disposição da graça e se deixou modelar pelas mãos de Deus. Isso tudo provoca um encanto e uma
atração irresistível a quem contempla. longa e profundamente, nossa Santa. Vale,
pois, estudar essa faceta da sua personalidade e da sua santidade, bem como
da sua mensagem, porque,certamente, nisso ela é um exemplo magnífico para
nós, homens, fracos e imperfeitos, mas sonhadores com uma felicidade, com uma
paz, com uma harmonia existencial,interior e exterior, que possa nos dar
coragem, força, sentido e luz para viver e sobreviver. O anseio por essa harmonia existencial é
inata no homem. Toda criatura humana sonha com uma ordem perfeita, em
si, tanto física quanto espiritual. E
é curioso que,o homem deseja, de uma maneira inata, a harmonia não somente de
si mesmo, mas de todo o universo. Assim, por exemplo, uma catástrofe não
deixa ninguém feliz e todo o mundo deseja que ela não aconteça ou que não
tivesse acontecido. Na verdade, o homem quer, por natureza, a ordem, a
tranqüilidade, o domínio organizado de si mesmo e de tudo quanto esteja ao
seu redor. No caso pessoal, o exemplo bem claro é a doença. Uma doença,
qualquer que seja seu tipo, é sempre algo indesejado, porque ela é a
desordem, a falta de harmonia dentro do corpo e, às vezes, entre o corpo e a
alma. Na doença não há o domínio de
si mesmo e o homem fica fora de si. A harmonia existencial, pois, é algo tão inato, que o homem a deseja não só
para si, mas para toda sua comunidade, isto é, sua família, sua casa, seu
trabalho, toda sua sociedade e até mesmo todo seu mundo social, político,
cultural e religioso. Sem ela, o homem
não pode se realizar perfeitamente e quanto mais o homem a possui,
tanto mais ele é perfeito, quer na saúde corporal e mental, quer na vida
religiosa, social, política, cultural, etc. Por ser tão forte e tão necessária, o
homem mais perfeito é o que a possui em grau maior. Assim é que, às vezes, em
momentos de depressão, ou mesmo de sonhos fortes, o homem apela para
certos meios, inconvenientes e
perigosos, mas que parecem lhe dar a sensação de certo equilíbrio na vida. Dessa
maneira, o homem, às vezes, envereda pelas drogas, pelo álcool e por certos
atos e feitos marginais, que parecem dar ao homem um estado privilegiado de
superioridade e domínio dos males, que o perturbam. Por outro lado, nota-se a necessidade e a
força dessa harmonia existencial, quando muitas filosofias se preocuparam
muitíssimo em encontrar uma resposta à sua urgência e utilidade. Já o
estoicismo, por exemplo, assegurava que,a virtude é o único bem e que o homem
virtuoso é aquele que alcançou a felicidade através da sabedoria como
Sócrates ensinara. Assim, o homem virtuoso encontra a felicidade em si mesmo
e é independente do mundo externo, que ele conseguiu vencer pelo domínio de
si mesmo, de suas paixões e de seus sentimentos. Destarte, o estóico queria
possuir um domínio perfeito de si mesmo, que o levaria a um estado de
felicidade e de paz. Leibniz(1646-1716) chegou a falar de
certa "harmonia preestabelecida" por Deus entre o corpo e a alma. Seu
discípulo, C.Wolf(1679-1754) explicava essa harmonia preestabelecida como
sendo "aquilo pelo qual a relação entre alma e corpo é explicada com uma série de percepções e
desejos na alma e uma série de movimentos no corpo, que são harmônicos ou
acordados, graças à natureza da alma e do corpo"(2). F.Nietzsche(1844-1900) conjeturou a
existência do super-homem, que seria um tipo mais alto de humanidade e que ele considerava como o fim último da
evolução. O super-homem seria, então, o homem mais perfeito, mais organizado,
mais senhor de si mesmo. O anarquismo, que sustenta a necessária
abolição do Estado, para que sejam eliminados os males da vida humana, é, também, no fundo, um
sonho do homem em querer ser mais livre, mais perfeito, mais senhor do seu
nariz. Em tempos mais recentes, certas
tendências do existencialismo, de tal modo sublimaram a liberdade e a
superioridade necessária do homem, que caíram no anarquismo e, depois,
desfeito o sonho ou vendo-o impossível, apostaram na negação do impossível,
ou seja, na falta total de toda esperança. Assim, Jean-Paul Sartre afirmava a necessidade do
ser-em-si-e-por-si, para que existisse o ser-que-não-é-em e, diante da
negação categórica daquele primeiro e necessário ser, ele concluía
melancolicamente:"L'homme est une passion innutile". Além das filosofias, também as religiões
têm tido sempre essa preocupação de dar ao homem o seu senhorio, tanto de si
mesmo, quanto das demais criaturas. O Budismo, por exemplo, chega mesmo a
criar e a apresentar técnicas práticas de domínio, para que o homem chegue
àquele estado maravilhoso de superação de tudo, que se chama Nirvana.Assim, o
Budismo fala dos oito estados,que conduzem ao nirvana,a saber, reto
conhecimento, reto propósito, reto falar, reto agir, reta vida, reta
intenção, reto pensar, reta concentração. Para o Budismo, não existe Deus. Cada
budista deve se tornar um Buda,isto é, um iluminado, um homem perfeito. O cristianismo tem sua razão de ser no
fato mesmo de que Deus tenha querido reposicionar o homem, decaído pelo
pecado. Assim, Jesus vem para estabelecer uma nova ordem e nesta o homem tem
esperança, alcança o sentido último da sua existência na terra e recebe todos
os meios, para que possa, realmente, reanimar-se, realizar-se, ser, de fato,
o senhor e si, das forças maléficas que o atormentam, em uma palavra, para
que possa ser perfeito como o"pai celeste é perfeito"(3). Jesus foi muito claro sobre esse ponto.Do
início ao fim da pregação da sua Boa Nova sobre o Reino de Deus, ele insiste
sobre a necessidade de o homem se recompor, ser como deve ser segundo os
planos divinos. No início da sua pregação, Ele dizia às
multidões: "Convertei-vos" (4), e essa conversão significa mudar de
vida, mudar para viver segundo sua mensagem, já que o Reino dos Céus está
próximo. Porque o homem deve ser superior e não andar perturbado, mas
dominando-se em tudo, Jesus insistia: "Olhai as aves do céu...aprendei
dos lírios do campo..."(5) Durante toda a sua vida, Jesus vai insistir
nessa revalorização do homem, para cujo restabelecimento ele veio pregar o
Reino de Deus. Por isso, o homem deve vigiar, para que não se deixe enganar
pelas fraquezas da carne, mesmo que seu espírito esteja pronto(6). Por isso, o apóstolo Paulo, renovado pela
força da graça de Deus, escreveu aos Coríntios: "Vede, pois, quem sois,
irmãos, vós que recebestes o chamado de Deus"(7). A nós, chamados por
Deus, para sermos um novo homem, o mesmo Paulo dizia: "Tudo é permitido,
mas nem tudo convém"(8). É, por isso, que ele aconselhava a mortificação
dos nossos membros, para que sejam postos "a serviço da justiça para a
santificação"(9). A verdade é que a "vontade de Deus é a nossa
santificação(10) e essa santificação exige de cada um de nós todo um domínio
de si mesmo, toda uma harmonia entre corpo e alma, toda uma hierarquia de
valores entre visível e invisível, todo um novo comportamento, que
corresponda, de fato, a ressurreição para a vida nova, para a qual o Senhor
Jesus nos começou a chamar pelo batismo. Santa Teresinha viveu uma harmonia
maravilhosa entre corpo e alma, entre teoria e ação, entre vida e fé, entre
instintos e idéias, entre sentimentos e razão.Pouco a pouco, por uma ascese
contínua, ela foi progredindo a passos de gigante, a ponto de chegar mesmo a
voar na perfeição, como ela mesma o diz. Foi todo um trabalho da graça e da
cooperação de Teresa a essa mesma graça. Caminhando pelas veredas da
perfeição, e mesmo voando, ela chegou a um perfeito domínio de si mesma, com
a conseqüente superioridade sobre as coisas do mundo, a ponto de, no final da
sua vida, já nada mais poder a abalar ou atingi-la no seu íntimo: "Meu
coração está cheio da vontade de Deus, assim, quando se coloca alguma coisa
por cima, não penetra absolutamente no interior. É um nada que desliza
facilmente, como o óleo que não pode se misturar com a água. No fundo,
permaneço sempre em uma paz muito
grande, que nada pode me perturbar"(12). Esse estado de equilíbrio é
muito alto para uma pessoa humana! Celina, irmã da Santa, dá-nos, sobre
isso, o seguinte testemunho: "Irmã Teresa do Menino Jesus julgava as
coisas com verdade. Ela não deixava
as coisas subirem à cabeça...Nada de precipitado na sua conduta, ela tinha um
domínio de si mesmo muito notável...Nada podia excitá-la, nem transtorná-la. As
ameaças de perseguição, os
cataclismos do mundo faziam subir
mais alto seus cantos. Em todas as ocasiões, a paz e a tranqüilidade se
refletiam no seu rosto e ela queria ver nas suas noviças a mesma serenidade,
não suportando, por exemplo, que franzíssemos a testa, pois, isso indica uma
preocupação qualquer"(13). Madre Inês de Jesus, a esse propósito,
conta-nos um fato curioso: "O sacristão a tinha em grande veneração e
dizia que essa irmã não era como as outras irmãs; que quando ele vinha
trabalhar no interior do mosteiro,
ele a reconhecia, apesar de seu véu abaixado, pelo seu caminhar sempre tão
digno"(14). Vejam como Teresa de Lisieux conseguiu o domínio de si
mesma, a ponto de fazer-se conhecer por alguém, mesmo estando coberta pelo
véu e apenas pelo modo sempre digno do seu caminhar! Aliás, os testemunhos dos contemporâneos de Teresinha são
unânimes e maravilhosos a esse respeito.Basta consultar alguns deles nos
Processos de Beatificação e Canonização, para se ter uma idéia exata dessa
segurança psicológica, moral, ascética e espiritual de Teresa de Lisieux. Irmã Maria do Sagrado Coração atesta que,
Teresinha, com a idade de apenas três anos, já tinha o domínio de si mesma:
"Com a idade de três anos, Teresa assistia as lições, que eu dava a
Celina, e tinha já bastante domínio de si mesma, para não dizer uma só
palavra, durante as duas horas, que durava a lição"(15). Teresinha foi, pouco a pouco, conseguindo
essa superioridade espiritual, de tal maneira que, ao chegar ao Carmelo,
diz-nos Irmã Inês, "as irmãs que, advertidas de sua jovem idade,
acreditavam ver uma criança, foram
como que tomadas de respeito em sua presença, admirando seu comportamento tão
digno e tão modesto, seu aspecto profundo e resolvido"(16) Irmã Maria de Jesus assim testemunha:
"Apesar da sua jovem idade, Irmã Teresa se mostrou, desde o começo de
sua vida no Carmelo, uma perfeita religiosa. Jamais eu a vi cometer a menor infidelidade. O que mais me tocou, foi sua humildade:
ela se ocultava sempre... O que a caracterizava sobretudo era sua perfeita
igualdade de humor; não importava o momento, ela vos recebia sempre com
aquele amável sorriso, que lhe era habitual(17). E Irmã Maria Filomena
escreveu o seguinte depoimento: "Eu não creio que, com nossa natureza,
seja possível ter menos busca de si mesmo e mais igualdade de humor,do que quanto observei na Serva de
Deus"(18). A Irmã Maria do Sagrado Coração, por sua vez, diz
textualmente: "A característica dessa vida religiosa foi uma grandíssima fidelidade no cumprimento de
sua regra, uma constante igualdade de alma, uma caridade sempre amável e
sorridente, apesar das provações escondidas das securas quase constantes ,
que ela suportou, e a falta de apoio e de consolação da parte da priora Madre
Maria de Gonzaga"(19). E todo esse domínio de si mesma, toda
essa segurança espiritual foram
efeito de um processo - e também nisso, nossa Santa é modelo para todos que
querem progredir - desde sua mais tenra infância. Sua Madrinha nos lembra
que, ela tinha uma natureza muito sensível e a própria Teresinha escreve, na
sua Autobiografia, que, em certo tempo da sua vida, derramava lágrimas com
facilidade. Desde, porém, segundo a própria Santa, o episódio de Natal(1886),
ela iniciou um corrida de gigante. Eis como ela mesma escreve: "Com uma
natureza, como a minha, se tivesse sido educada por pais sem virtude, ou,
mesmo, se, como Celina, tivesse sido mimada por Luiza, tinha me tornado bem
má e, talvez, teria me perdido..."(20). Essas palavras são fortes demais
e só a humildade da Santa faz-nos
compreendê-las melhor. Mas, essa mesma Santa, falando das graças
recebidas no dia de Natal de 1886, colocando toda força da sua transformação
na graça do Senhor, diz-nos na sua Autobiografia: "Naquela noite
luminosa, que aclara as delícias da Santíssima Trindade, Jesus, o doce Menino
de uma hora, mudou a noite de minha alma em torrentes de luz...Nessa noite,
em que Ele se fez fraco e sofredor por nosso amor, Ele me tornou forte e
corajosa, Ele me revestiu com suas armas e desde aquela noite bendita, não
fui vencida em nenhum combate, mas,
ao contrário, marchei de vitórias em vitórias e comecei, por assim dizer, uma
corrida de gigante!..."(21).Por isso, Irmã Maria do Sagrado Coração
testemunhou: "Desde sua infância, apesar de sua natureza muito sensível,
ela dominava corajosamente suas impressões e sua vivacidade
natural"(22). Foi, assim, que, pouco a pouco, ela, com muita coragem e
esforço e, sobretudo, com muita docilidade à graça, alcançou um maravilhoso equilíbrio:"Posso dizer que, Irmã
Teresa do Menino Jesus tinha uma
sabedoria celeste. Ela não excedia em nada; não era nem presunçosa, nem
inconsiderada"(23). Na verdade, acrescenta ainda Irmã Maria do Sagrado
Coração, "ela era sempre igual
na alegria ou na
provação". E, conclui:"Ora, essa constância absoluta na virtude,
sem jamais nenhum falha, parece-me
heróica"(24) E, ainda: "Irmã Teresa do Menino Jesus era tão
equilibrada em tudo, que a ponderação me parecia nela como natural(25). E
Celina, que é muito categórica nas suas palavras, aqui nos dá um
testemunho bem ponderado e bonito:
"A Serva de Deus praticou sempre as virtudes com heroísmo, porque ela se
distinguiu, mesma das mais valorosas, pelo grau e pela continuidade de seus
esforços...Sempre achei tudo muito bem regrado nela. Ela não tinha
absolutamente uma virtude realçada. Sua
contacto era muito agradável e ela dava conta de todas suas funções
com uma grande liberdade de espírito"(26). E essa mesma Celina nos dá
conta de alguns fatos e dados
importantes.Assim, diz Irmã Genoveva: "Quando acontecia qualquer acidente, ela reparava os desgastos
com uma tranqüilidade perfeita. Pouco
tempo,após minha entrada no Carmelo, aconteceu-me derramar todo um tinteiro sobre a parede branca de nossa cela e
sobre o soalho. Corri até ela, fora de mim: "Venha depressa",
disse-lhe eu. -Para me socorrer, segundo pensava, teria sido necessário voar!
Ela, sempre mestra de si mesma, teve dificuldade para ficar séria. É verdade
que, meu aspecto era de dar piedade e, o que o aumentava ainda, era o grande
véu de crepe, que pendia de minha touca de postulante. Olhando-me a sorrir,
disse-me com doçura: "Não se aborreça, vamos reparar imediatamente o
desastre, seu véu me representa essa
toalha de tinta, de que você me fala, mas vamos fazê-la desaparecer". E, tomando calmamente os utensílios
necessários, ela reparou, com efeito, bem rápido, o desastre, embora sem se apressar. E eu, estupefata,
admirava sua calma, que a impedia de se desconcertar diante dos contratempos
da vida(27). E a mesma Celina relembra outro fato
interessante, que nos mostra muito bem o domínio de si mesma, o equilíbrio
superior, que Santa Teresinha sempre mostrou em todos os momentos de sua
existência, sobretudo na sua vida religiosa. "Num dia de festa de nossa
Madre Priora, Irmã Teresa do Menino Jesus, representando Joana D'Arc sobre a
fogueira, quase era queimada como conseqüência de uma imprudência. Mas, a uma ordem de nossa Madre de não se mover de seu lugar,
enquanto se esforçavam para apagar as chamas, que crepitavam a seus pés, ele
ficou calma no meio do perigo, oferecendo sua vida ao bom Deus, como ela
no-lo confiou em seguida"(28). Quando uma pessoa chega a um alto grau de
perfeição, ela sabe se dominar totalmente.É maravilhoso ver na vida dos
santos, como eles chegaram a esse equilíbrio, digamos, físico, no próprio
corpo. Sobre Teresinha temos dois casos que nos mostram,claramente, como
ela foi, pouco a pouco, adquirindo
essa superioridade sobre si mesma, e como ela chegou mesmo a ser muito
equilibrada, vendo e usando as coisas da vida, com a maior naturalidade possível. Certo dia, estava ela no refeitório,
quando uma religiosa, querendo lhe arrumar o escapulário, atravessou-lhe, ao
mesmo tempo, o ombro com o grande
alfinete, que serve para sustentar o escapulário. Quando a Irmã Inês
lhe perguntou por quanto tempo ela tinha sofrido aquele alfinete enfiado no
seu ombro, sem nada reclamar, ela respondeu: "Várias horas; fui à adega
encher as garrafas, trouxe-as de volta nos cestos, eu estava tão contente! Mas,
por fim, tive medo de não estar obedecendo, já que nossa Madre não sabia de
nada"(29). Nossa Santa, pois, chegou a um grau
elevado de controle emocional e físico, a ponto de jamais perder a calma e
nem mesmo reclamar. E isso, segundo testemunho da Irmã Inês, desde sua tenra
infância,pois,desde essa idade"ela adquirira o hábito de nunca se lamentar e de não se escusar. No
Carmelo, sobretudo no tempo da Irmãzinha Teresa, por causa das contingências
do meio, as ocasiões de conflitos, atritos, conseqüentemente, de sofrimentos,
eram contínuas. Almas, mesmo excelentes
e muito virtuosas, deixavam ver as marcas de impaciência e de
descontentamento. Posso testemunhar que, nunca, Irmã Teresa, mesmo quando lhe
acontecia algo muito humilhante e muito doloroso, saía de sua calma, de sua
doçura, de sua caridade sempre amável"(30). Foi, assim, que Santa Teresinha adquiriu
um tal domínio e um tal equilíbrio sobre seu corpo e sobre seu espírito, que
os sentidos lhe obedeciam admiravelmente, mesmo, é claro, não deixando de
sentir repugnâncias ou atrações. Um exemplo típico é a comida. Nossa Santa
tinha certo menosprezo pelo fato de comer e ela achava que isso, se não fosse
o exemplo das bodas de Caná, só devia acontecer em família. Mas, como comer é necessário para viver,
ela se alimentava como todo mortal, todavia, aqui, mostrava-se
maravilhosamente o domínio da nossa Heroína: "Ela era muito mortificada
desde cedo, jamais eu a vi fazer um
ato de gulodice. Nas refeições, ela comia
o que se lhe dava, sem demonstrar nem repugnância nem
interesse"(31) Essa demonstração de superioridade diante dos
alimentos,trouxe-lhe, certamente, muitas ocasiões de mortificações. Segundo
Irmã Maria, "a irmã cozinheira, conhecendo bem sua virtude, servia-lhe o
que ela não podia dar às outras, e mesmo recusava lhe dar um ovo à la coque,
se os ovos estavam caros. Madre Inês de Jesus se apercebeu do fato e teve
pena, mas Irmã Teresa do Menino Jesus lhe disse: "Não se tormente por minha causa, por favor, eu estou ainda
muito bem cuidada""(32). É evidente, como aliás já notamos,
que houve um progresso nessa
caminhada de perfeição. Ninguém se torna
um perfeito do dia para a noite. Podemos observar o desenvolver-se
dessa subida no caso típico da vida sexual. Santa Teresinha foi de uma pureza
angelical. Todavia, ela conseguiu progredir, digamos, também no
relacionamento com seu próprio corpo. Nesse propósito, Irmã Inês nos dá um testemunho muito valioso:
"É preciso ter visto a Serva de Deus, para julgar a sua pureza. Ela era
como envolvida de inocência, mas não
era uma inocência infantil, ignorando o mal,
era uma inocência esclarecida, que adivinhou a lama deste mundo e
resolveu, com a ajuda da graça, não sujar com ela a sua alma...Ela pensava,
pois, que era necessário lutar, e mesmo que ela, conforme me revelou, jamais
tenha sido tentada contra a santa virtude, ela observava uma grande vigilância, para guardar , até
o último suspiro, a integridade do seu tesouro."(333). Quando pequena, Teresa temia o mal,
queria até ignorá-lo e confiava-se, esperançosa, à proteção de Maria e de S.
José para a defesa de sua pureza. Com
o passar do tempo, ela progrediu. Compreendeu a realidade das coisas. Entendeu
o sentido das obras de Deus: "Ela compreendeu que tudo é puro para os
puros. Vendo que era instruída sobre as coisas da vida perguntei-lhe quem lhe
tinha ministrado aquele conhecimento. Ela me respondeu que o achara, sem
buscá-lo, na natureza, observando as flores e os pássaros., e acrescentou:
"Mas, a Santíssima Virgem sabia bem tudo...Não é o conhecimento das
coisas que é mal. O bom Deus tudo fez bem muito bem e muito nobre. O
casamento é belo para aqueles que Deus chama a esse estado; é o pecado que o
desfigura e o suja""(34). Às vezes, a pessoa vive controladamente,
enquanto tudo lhe corre bem. Quando, porém, acontece-lhe algo pesado e desastroso,
como uma terrível doença, então, os nervos se descontrolam e vem à tona toda
uma carga reprimida do subconsciente.
A experiência tem mostrado a todos
nós certo número de casos de pessoas maravilhosas e santas que, porém, diante
da realidade de uma enfermidade mortal,decomponhem-se totalmente, revoltam-se
e chegam às raias de blasfemar. Teresinha, ao contrário desses casos,
mostrou-se muito mais equilibrada, segura e dominada, quando a doença, que a
levou à morte, bateu-lhe à porta. Era já noite. Ela ia se deitar. De
repente, sentiu uma golfada quente subindo pela garganta. O vômito saiu forte e rápido. Caiu no
travesseiro. A lamparina estava apagada. Ela, para não desobedecer à regra
religiosa, não acendeu a luz. Ficou calma. Dentro de si surgiu uma suspeita. Mas,
era preciso dormir, dormir calmamente. Esperou, pois, o amanhecer do dia. Levantou-se e procurou ver os sinais
do vômito no travesseiro. E viu estampado na mancha vermelha do sangue o
sinal do início da partida. Era, como ela mesma disse,a chamada do seu esposo
querido.Sua alma se alegra e ela canta um poema do encontro feliz e tão
desejado. Ao invés de desespero, satisfação. Ao invés de lágrimas, sorriso. Ao
invés de tristeza, alegria. Ao invés de revolta, felicidade.Ao invés de inquietação,
paz e segurança. E na longa caminhada desde aquela noite
entre 2 e 3 de abril, de 1896, até sua morte, aos 30 de setembro de 1897, ela
vai subir, cada dia mais, nessa coragem, nesse domínio de si mesma, nessa
compostura perfeita de uma santa diante das realidades da vida. Sua ascensão
na montanha do amor é vertical! Irmã Genoveva tem um testemunho comovente
do que aconteceu nos últimos meses da vida de nossa Santa. Em poucas
palavras, ela resume tudo desta maneira: "Os últimos meses, que a Serva
de Deus passou sobre a terra, foram o eco de sua vida, ela não se desmentiu um só instante de seu terno abandono a Deus, de sua paciência,
de sua humildade. Seu rosto tinha uma
expressão de paz indefinível. Sentia-se que sua alma chegara lá aonde a tinham
conduzido os desejos de toda uma vida, dirigidos para um fim único agora atingido. Como Nosso Senhor, antes de
expirar, ela me disse um dia, com um tom grave: "Tudo está bem, tudo
está realizado, só o amor conta""(35). Nem a destruição dos seu pulmões, que
provocou a contínua sufocação pela falta de ar; nem a gangrena; nem a
magreza, que a fazia parecer um esqueleto; nem as aplicações dolorosas dos
vesicatórios; nem a impossibilidade de comer; nem a febre constante; nem as
dores terríveis provocadas pela tuberculose galopante; nem a tosse aborrecida
e contínua; nem as hemoptises, que minavam com sua resistência; nem a falta
de uma assistência mais completa em determinados momentos;nem as agonias de
noites em claro, acrescidas às dores,à febre,à falta de ar; nem mesmo as provações na fé, tanto mais dolorosas
quanto a fé era e deveria ser seu
sustento em momentos tais como ela estava vivendo;nada pôde transtorná-la e,como Paulo(36), nada
mesmo, na sua doença, pôde separá-la do amor de Deus.Pelo contrário, quanto
mais sofria, mais ela vivia o seu amor, mais estava em paz, mais era feliz! Não se ouve de Teresa doente uma palavra
de revolta, nem sequer de tristeza. Ela
não perde a paciência, o controle de si mesma. Ela coloca cada coisa no seu
devido lugar. E, apesar de todas as angústias físicas e espirituais, ela
aproveita o tempo para ensinar, instruir, quase doutrinar todos os que cercam
seu leito de moribunda, principalmente suas irmãs mais velhas, que se tornam
suas dóceis discípulas. Dos remédios amargos, dolorosos e intragáveis aos
cuidados recebidos no seu tão recatado e guardado corpo,Teresa de Lisieux
mostra como se deve proceder reta,
simples e perfeitamente.Não há um deslize; uma palavra fora de lugar; um
olhar ou mesmo um gesto desviado da
harmonia existencial entre o humano e o divino. A doença de Teresinha é a mostra mais autêntica e mais bem
acabada que se possa ter, de uma pessoa santamente equilibrada e
equilibradamente santa. Não há exageros; não há arroubos; não há milagres. As
previsões são simples e raras; as instruções são evangélicas e humanas.Seu
pensamento está no céu, mas sua vida ainda está na terra, com os homens.Ela
não recusa tomar os remédios, mas não os pede e os toma a todos, bons e
ruins, agradáveis e repugnantes. Conversa com todos e sorri para todos, mesmo
quando está muito mal, mas não dirá, de jeito nenhum, uma palavra
fingida, porque ela é autêntica, verdadeira, correta. Ela é justa, como José
e é sem fingimento como Bartolomeu! Mesmo doente, sabe repreender suas
noviças;mas recebe qualquer colaboração de uma irmã, mesmo inoportuna.Não
quer incomodar ninguém, mas está sempre disposta para dizer uma palavra de
consolo ou orientação, ou mesmo um olhar de agradecimento.Seus murmúrios são
suaves e intercalados de atos de amor e de abandono total.Não há quem leia a
história completa da paixão e da morte de Santa Teresinha, sem se comover e
sem admirar o alto grau de perfeição, de harmonia existencial entre o humano
e o divino, que ela alcançou. Onde nossa Santa foi buscar tudo isso? Como
ela chegou a esse lugar privilegiado na montanha do amor? O segredo é simples: ela colaborou
perfeitamente com a graça divina, ou seja, entregou-se, com muito esforço, à
ação transformadora e libertadora da graça de Deus. Segundo o testemunho de Irmã Maria, ela
pensava, sem cessar, em Deus. Um dia, Irmã Maria lhe perguntou: "Como
você faz para pensar sempre no bom
Deus?" Ao que, nossa Santa respondeu: "Não é difícil, pensa-se
naturalmente naquilo que se ama". Então, retrucou Maria, "você não
perde nunca sua presença?" Teresinha deu essa belíssima resposta:
"Oh! não, creio que jamais passei três minutos sem pensar
nele"(37). Teresinha viveu em profunda união com
Deus. Cada minuto da sua vida foi
intimamente ligado ao seu Deus. Mas, não foi uma simples união passiva. Ela
amava e amava profundamente com um amor de confiante. Por isso, sua união com
Deus se concretizava em se colocar totalmente nas mãos dEle. Por sua vez, Deus cumulou sua alma com grandes
graças, por isso, ela diz, no início da sua Autobiografia, que vai cantar as misericórdias do Senhor e é
isso que o fará por toda a eternidade. Aí está a fonte de toda essa perfeição
teresiana. Foi a graça de Deus, que a
transformou, pois, afinal, "tudo é graça!"(38). Mas, Teresa de Lisieux correspondeu à
abundância das graças divinas, que o Senhor derramou sobre ela.Sua vida de
ascese foi a resposta mais séria na sua correspondência à ação do Espírito
Santo. No Processo Incoativo Ordinário para a Beatificação e Canonização de
Santa Teresinha, lê-se esse bonito testemunho de sua irmã Celina: "A
prática da mortificação foi sempre familiar à Serva de Deus. Ela se
reservava, em todas as ocasiões, o último lugar e tomava, como sua parte, o
que era menos cômodo, tanto em viagem como em casa. Ainda bem pequena, tomara
o hábito de nunca deixar escapar as
menores ocasiões de se mortificar; por exemplo, interrompia suas
leituras justamente na passagem mais
emocionante, assim que chegara a hora de cessar de ler. Mais tarde, ela se
aplicou, coma ardor, a estudos especiais de história e de ciências naturais:
"Eu empregava nisso apenas certo número de horas - disse ela - que não
queria ultrapassar, a fim de mortificar meu desejo muito vivo de
saber"... No Carmelo, seus
hábitos de mortificação se estenderam a todas as coisas. Observei
que ela jamais perguntava por
notícias; se via um grupo em alguma parte,
e que a Madre Priora parecia
aí estar a contar alguma coisa interessante, ela tomava o cuidado de
não passar por aquele lado. No refeitório, a Serva de Deus aceitava, sem
nunca se lastimar, que se lhe servissem os restos dos alimentos. Jamais
apoiava as costas; não cruzava as pernas; ficava sempre ereta. Não queria que
se sentassem de lado, mesmo que fosse
para relaxar; nada que parecesse comodidade e bem-estar mundanos. A não ser
por grande necessidade, ela não enxugava o suor, porque ela dizia que, era convir que se tinha
muito calor e isso era uma maneira de
fazer saber. A propósito dos
instrumentos de penitência, eu lhe disse que
o instinto de conservação
fazia que, naturalmente se evitassem muitos movimentos, quando a gente
os trazia, e que a gente se enrijecia
durante a disciplina para
sofrer menos. Ela me olhou estupefata
e replicou: "Eu acho que não
vale a pena fazer as coisas pela
metade, tomo a disciplina para sofrer e quero que ela me faça sofrer o mais
possível..." Ela me disse que isso, algumas vezes, a fazia sofrer tanto,
que as lágrimas lhe vinham aos olhos, mas que ela se esforçava para sorrir, a
fim de ter no seu rosto as marcas dos
sentimentos do seu coração, que estava tão alegre por sofrer em união com seu Bem-Amado, para lhe salvar as
almas. Quanto aos instrumentos de penitência permitidos fora da Regra, ela
dizia que sua devoção teria sido de trazer um deles todos os dias, que não são dias de disciplina. Ele assim agiu tanto quanto
foi permitido. No inverno, apesar das
numerosas frieiras que lhe inchavam as mãos consideravelmente, eu a via
raramente tê-las escondidas. Um dia, que fazia frio demasiadamente, e que estávamos sem fogo, observei que ela tinha as mãos completamente descobertas e estendidas
sobre seus joelhos. Eu falei com ela sobre isso, porque aquilo me exasperava;
mas ela se contentou em sorrir com um
arzinho malicioso; vi, assim, que ela as expunha, propositadamente, ao
frio"(39). Depois de tão longo e comovente
testemunho, parece que não teríamos mais nada a acrescentar. Todavia, Irmã
Marta de Jesus nos diz mais alguma coisa: "A Serva de Deus era
mortificada em todas as coisas. Na cozinha, não se sabendo a quem dar os
restos, reservava-os sempre à Irmã Teresa do Menino Jesus, sabendo bem que
não voltaria nada; por isso, era muito difícil saber seus gostos, o que ela gostava ou não gostava. Foi só durante sua última doença que ela confessou que, cada
vez que comia certos alimentos,
ficava doente. Seu caminhar indicava também
uma grande mortificação e um grande domínio sobre si mesma. Era
modesta, recolhida, os olhos sempre abaixados, não procurando nada ver nem
saber do que se passava ao redor dela, não se ocupando jamais do que não lhe dizia respeito. Não dava sua
opinião sobre nada, a menos que lhe
pedissem...Irmã Teresa do Menino Jesus era, sobretudo, admiravelmente fiel na
mortificação dos seus sentimentos
interiores"(40). Portanto, foi a graça divina, que operou
maravilhas na sua alma e a colaboração de Teresinha a essa mesma ação de
Deus, que a fez uma obra prima de harmonia entre o divino e o humano. Com
efeito, se sua vida foi uma "oração contínua"(41), isto é, se ela
esteve sempre muito unida a Deus, o seu espírito se abria ã ação do Espírito
Divino, de tal maneira que suas palavras, seus gestos, seus pensamentos, seu
comportamento total, do corpo e da alma, foram modelados, sublimados, aperfeiçoados, equilibrados e
harmonizados. Nada em Teresa de Liseux é fora do lugar.
Em tudo, ela soube ter o lugar
adequado e conveniente. Há, pois, uma harmonia maravilhosa em todo seu ser. E,
o mais interessante, é que, quando se nos apresenta uma situação nova qualquer
na nossa vida e nós buscamos uma
resposta em Teresa ou procuramos
saber o seu posicionamento, caso ela tenha passado pela mesma situação, logo
descobrimos, estupefatos, que ela fez justamente como se devia fazer, isto é,
ela soube sempre dar a resposta adequada a cada situação, a cada problema. E
o mais importante é que as propostas e proposições de Santa Teresinha estão sempre no nível justo e regulado da
harmonia existencial. Poucas pessoas alcançaram,em tão pouco
tempo de vida, uma tão encantadora, tão atraente, tão admirável e tão
extraordinária harmonia existencial. Se Santa Teresinha não fez muito
alarde com atos e gestos extraordinários, durante sua
vida, foi, certamente, muito extraordinária essa sua magnífica harmonia
existencial entre o divino e o humano, alcançada com amor e simplicidade,
fruto da graça e da sua correspondência a essa mesma graça divina. NOTAS (1) -2 Cor 12,9. Cf. 2 Cor.12,10;11,30; 1 Cor 1,27-31 (2) -Apud RUNES,D.D. "Dizionario di Filosofia",
Mondadori,Milano,1979,p.50-51 (3) -Mt 5,48 (4) -Mt 4,17 (5) -Mt 6,26 e 28 (6) -Mt 26,41 (7) -1 Cor 1,26 (8) -1 Cor 6,12. Cf. 1 Cor 10,23 (9) -Rom 6,19 (10)-1 Tes 4,3 (11)-M a, 44v; 73v (12)-C.A. 14.7.9 (13)-C.S. p.158-159 (14)-P.A. p.209 (15)-P.A. p.227 (16)-P.A. p.209 (17)-P.A. p.210 (18)-P.A. p.210 (19)-P.A. p.230 (20)-M a, 8v (21)-M a, 44v (22)-P.A. p.239 (23)-P.A. p.238 (24)-P.A. p.243 (25)-P.A. p.244 (26)-P.A. p.310 (27)-C.S. p.159-160 (28)-C.S. p.159 (29)-P.A. p.185 (30)-P.A. p.187 (31)-P.A. p.185 (32)-P.A. p.241 (33)-P.A. p.190 (34)-P.A. p.190-191 (35)-P.A. p.315 (36)-Rom 8,35 (37)-P.A. p.231 (38)-C.A. 5.6.4 (39)-P.O. p.295-296 (40)-P.O. p.431 (41)-P.A. p.236 TERESA, HUMANA Certo dia, após uma leitura de uma carta,
escrita por Teresinha, alguém
perguntou a um seu estudioso e admirador, se aquela era uma carta escrita
por uma Santa, ou por uma
jovem enamorada. É que ele ficara sumamente estupefato com o
"humanismo" de Teresa de Lisieux, naquela carta. Jamais poderia
ele imaginar que existisse uma Santa,
que escrevesse cartas com tanta simplicidade, com uma comunicação e um
relacionamento tão humanos com uma pessoa de outro sexo, como ele lera e vira
naquela carta. Até certo ponto, o leitor estupefato
tinha razão, porque Teresa é tão simplesmente humana e tão humanamente
simples, que pode provocar, em qualquer leitor menos avisado, um assombro
maravilhado e interrogativo. Na verdade, pouca gente já entendeu que o santo
é a pessoa mais humana, que possa existir no mundo, justamente porque ele
vive, em profundidade,toda a razão do seu viver; porque ele realiza, tanto
quanto pode, todo o significado e sentido de ser pessoa humana. O seu
relacionamento com Deus é tão profundo e tão alto, que ele, à luz divina,
termina descobrindo quem é como homem e vive, então, toda a extensão da sua
humanidade. Não é por nada que, no evangelho de João, o teólogo, quando se
fala da vinda do Verbo à terra, diz-se, belamente, que ele "se fez carne
e habitou entre nós"(1). Fala-se, portanto, de encarnação e. logo em
seguida, diz-se que o Verbo, tomada a carne humana, veio habitar entre
nós. E S.Paulo, com toda sua grande
sabedoria divina, diz-nos que, Cristo se fez semelhante a nós em tudo, exceto
no pecado(2). É, por isso, que os evangelistas não têm vergonha de dizer que,
Cristo teve fome e sede e que chorou, quando soube que seu amigo, Lázaro,
tinha morrido. Jesus foi e é um de nós, na sua carne humana! Só quem não entende que o santo é, antes
de tudo, uma pessoa humana ,que procura viver sua existência humana em alto
grau, é que pode se admirar do humanismo dos santos. E é interessante que,
alguns santos, que alcançaram um altíssimo grau de perfeição, sobretudo no
fim da vida, tornaram-se sumamente humanos. S.João da Cruz e S.Francisco de
Assis, antes de morrer, tiveram desejos estanhos de se servirem de alimentos,
que lhes apeteciam. Não é, pois, para admirar que "a
maior santa dos tempos modernos" tenha sido uma criatura humana no mais
profundo sentido da palavra. Ela foi, realmente, humana e viveu como tal,
embora, como dissemos anteriormente, numa harmonia maravilhosa com o divino. Teresa
foi humana e foi mulher! Certo poeta brasileiro disse que, santa
Teresinha foi como uma flor: nasceu, desabrochou, cresceu, murchou, morreu. Na
verdade, o poeta disse muito bem toda a simplicidade humana da vida de nossa
Santa. Ela foi, de fato, uma criatura
humana, não só enquanto ser humano, mas por ter vivido como humana,
profundamente humana, igual a um de nós, e, mesmo tendo alcançado altíssimo
grau de santidade, foi sempre uma criatura humana, que falava como humana,
escrevia como humana, rezava como humana; em suma, vivia simplesmente como uma criatura humana. Se olharmos a vida de Teresa de Lisieux,
veremos, de logo, que, desde pequena, foi uma menina igual a outras meninas
do mundo inteiro. Foi,pois, do comum dos mortais. As Cartas de sua Mãe,
datadas dessa época, são ricas em pormenores. No nascimento de Teresinha não houve nada
de extraordinário. Nasceu como qualquer criança do seu tempo e sua mãe
registrou assim o evento: "Minha filhinha nasceu, ontem, quinta-feira,
às 11 horas e meia, da noite. Ela é
muito forte e de bom aspecto. Dizem-me que pesa oito libras, ponhamos nisso
seis, e já não é mal; ela me parece bem graciosa"(3). Menos de dois
meses depois, a mãe preocupada escrevia
a seu irmão: "Depois que você partiu de Alençon, minha Teresinha
se comportou perfeitamente. Ela se
fortificava à vista d'olhos e eu estava orgulhosa. Mas, hoje, as coisas
mudaram muito, ela está muito mal e não tenho esperança de salvá-la. Essa
pobre pequena sofre horrivelmente, desde ontem, corta o coração vê-la
assim.Contudo, dorme bem; na noite passada eu a acordei apenas uma vez, ele
bebeu e dormiu em seguida até às dz horas desta manhã. Mas, agora, já são dez
horas da noite!"(4). Poucos dias depois, a mãe, mais preocupada ainda,
escreve a sua cunhada: "Estou tão ocupada e tão infeliz há já quinze
dias, que não tenho repouso nem de dia nem de noite: minha filhinha está
doente, ela está com enterite e estou com medo de perdê-la"(5). Como se vê, nada há de estranho nos
primeiros dias de Teresinha. Ela dorme, ela come, ela fica doente. E quando a
doença ficou grave, ela precisou de uma ama de leite e, por isso, deixou a
casa paterna e foi morar no campo com uma senhora camponesa. Lá brinca com as
outras quatro crianças da ama, leva muito sol, diverte-se a valer e fica boa.
Nesse tempo, veio, certo dia, com sua ama, até à cidade.A ama deixou Teresinha
nos braços dos seus e foi à missa. A criança, já acostumada com sua ama, não quis saber de ninguém. Entrou
em prantos. Chorou tanto que foi preciso mandar buscar a ama na Igreja. A ama
deixou a missa pela metade e veio correndo. Logo que tomou Teresinha nos
braços, ela se aclamou de repente.A pobre da mãe tinha feito tanto esforço
para acalmar a filha, que ficou doente durante todo o dia. De nada valeu seu
esforço. Teresinha, como qualquer criança, tinha seus caprichos. Os dias vão se passando. A menina Teresa
vai se fortificando. Ela é igual a outras, mas duas coisas a marcam
profundamente: seu doce sorriso e seu aspecto de anjo. E nisso vemos a união, desde essa idade, do humano com o
divino. Em janeiro de 1874, Teresinha já anda sozinha. Em junho do mesmo ano,
ela já diz quase tudo. Nessa data, sua mãe já fala do apego da criança com
ela. Não a deixa um momento.Na verdade, seu coraçãozinho, tão sensível e
carente de amor, já começa a dar sinal de que será, no futuro, um coração
verdadeiramente apaixonado. Com um ano e poucos meses, adora brincar
no balanço. E quer se balançar bem alto e bem forte, do contrário, ela grita.
Demonstra, então, que gosta de aventuras, de caminhar para o alto. Ela não
tem medo do perigo! Mas, por outro lado, é criança e, por isso, gosta de
brincar! Aliás, em falando de brinquedo,
vem a propósito uma carta da senhora Guérin a sua cunhada, escrita no
final de dezembro de 1874, na qual se lê: "Você tem feito sempre Teresa e Celina bem
felizes. Quando o pai delas desembrulhou os brinquedos, quisera que você
visse Teresa! Tinham dito a ela:
"Há belos brinquedos aí dentro, que a Tia de Lisieux enviou". Ela
batia as mãos! Eu me apoiava sobre a caixa para ajudar meu marido a abri-la,
ela soltava gritinhos angustiados, dizendo: "Mamãe, a senhora vai
quebrar meus belos brinquedos!" Ela me puxava pelo vestido, para que eu
parasse. Mas, quando ela viu sua linda casinha, ficou muda de
prazer"(6). Eis aí a descrição de uma menina, que tinha o aspecto de um
anjo e um sorriso encantador,e que um dia seria uma santa, mas que é uma
criaturinha inteiramente igual a todas as demais crianças do mundo. Toda criança normal do mundo sofre
muito,quando lhe aparecem os primeiros dentes. Com Teresinha não foi
diferente. De início, ela passou oito dias terríveis, sem quase poder comer
ou beber, pois a língua ficou toda inflamada. Deu muito trabalho!(7).E não
foram somente os dentes, que deram trabalho, outras doenças de criança
fizeram muito barulho na vidinha de Teresa(8). As mães piedosas sabem muito bem ensinar
aos seus filhinhos as primeiras orações, logo quando eles começar a perceber
as coisas deste mundo. Com Teresinha foi tudo igualzinho. Ela ia crescendo e,
ao mesmo tempo, foi aprendendo a rezar ao seu bom Deus. Menina piedosa, tomou
logo gosto pelas coisas de Deus e demonstrou, bem cedo, uma grande devoção
pela santa Missa. Assim, certo dia, após o passeio do domingo à tarde, ao
voltar, Teresa abre a boca no mundo e
começa a chorar e a gritar que quer ir
à Missa. Como ninguém se dispõe a levá-la, ela abre a porta e, debaixo
de um torrencial, corre para a
Igreja. Pegaram-na logo e fizeram-na voltar para casa, mas os seus soluços
duraram uma boa hora(9). Teresa de Lisieux, desde pequenina,
mostrou que seria, no futuro, uma pessoa de muita força de vontade. Quando
criança, teve seus caprichos, que podem ser vistos sob o prisma de um
posterior desenvolvimento dessa força de
vontade. Sua mãe ficou muito preocupada com o que chamou de
"cabeça dura" de Teresa. Com efeito, em uma carta a sua cunhada,
aos 4 de julho de 1875, ela escrevia: "Quanto a Teresa, quando ela tiver
cinco ou seis anos, não se poderá deixá-la mais, será necessário que nos
acompanhe, porque não creio que ela será como Leônia para querer ceder seu
lugar, nem por ouro, nem por prata..."(10). E os fatos vão mostrar
que,Teresinha não é uma menina tola. Ela sabe o que quer e, como toda menina,
é meia caprichosa e,como um burro,quando emperra, fica no seu lugar e não
sai.A senhora Guérin nos conta que,
ao subir a escada, Teresinha, a cada degrau, chamava "Mamãe,
mamãe!" e quando ela não respondia, dizendo: "Sim, minha
filhinha!", a menina, caprichosa, ficava emburrada no lugar e não
avançava nem recuava(11). Em maio de
1876, a mamãe, talvez exagerando um pouco, escrevia a Paulina que Teresinha
era de uma cabeça dura invencível, "quando ela diz "não", nada
pode fazê-la ceder, se a pusesse um dia inteiro na adega, ela dormiria ali, mas não diria "sim""(12). Toda criança normal é assim caprichosa e
Teresa não fez exceção. Mas, aqui, vemos mais longe. Teresa de Lisieux será
sempre decidida e saberá sempre o que
realmente quer. Por isso, não é de admirar que, ainda tão pequena, já mostre
esse lado humano de criança. Aliás, essa faceta do caráter de
Teresinha se completa com aquilo, que ela chamaria, na sua Autobiografia, de
amor-próprio. Um fato, contado pela própria Santa, mostra-nos,
admiravelmente, seu lado humano de criança, igual às outras: "Um dia,
Mamãe me disse: -"Minha Teresinha, se você beijar o chão, eu lhe darei
um soldo". Um soldo era para mim toda uma riqueza; para ganhá-la não
tinha necessidade abaixar minha grandeza, pois minha alturazinha não punha uma grande distância entre mim e
o chão, contudo minha altivez se revoltou
com o pensamento de "beijar o chão". Pondo-me bem ereta,
disse à mamãe -"Oh! não, minha Mãezinha, prefiro não ter o
soldo!..."(13). Como se pode ver, a menininha Teresa
era decidida e tinha os seus
caprichos naturais, como toda criança. Por isso, sua mamãe a definiu, nesse
tempo, como uma mistura de boa e danadinha(14). E é sempre assim, quando uma
criança é perfeitamente normal. Se há uma coisa que toda criança adora é,
sem dúvida, bombom. Ora, a senhora Martin recebeu de sua cunhada, certo dia,
uma caixa de bombons. Não é preciso dizer que, Teresinha se deliciou com os
confeitos, de tal modo que sua mãe anunciava a sua cunhada, agradecendo o
presente, que os bombons fizeram
"a felicidade completa de Teresa!"(15). O quanto já dissemos e narramos diz,muito
bem, que Teresa de Lisieux foi uma menina comum, normal, igual a todas as
outras do mundo. Em suma, foi uma menina humana, simplesmente humana. Passemos,
agora, a considerar outros aspectos desse humanismo teresiano. Um aspecto curioso e saliente do
humanismo teresiano é a sensibilidade de Teresa. Ele sempre teve um coração
muito sensível e desde a pequena mostrou esta faceta de seu caráter. Ela tinha apenas três anos e dez meses, quando sua mãe escrevia para Paulina, dizendo que sua Teresa era
"uma criança encantadora, fina como a sombra, muito viva, mas seu
coração é sensível"(16). Teresa haverá de observar, muitíssimas
vezes, esta sua marcante sensibilidade. Certamente, foi ela que lhe deu
tantos dons maravilhosos, mas,certamente, foi ela também que lhe daria motivo para lutas e vitórias com o objetivo de aperfeiçoar seu
temperamento e sublimar os seus dons naturais.A sua Autobiografia tem algumas referências preciosas sobre esta
faceta humana da vida de Teresa de Lisieux. Logo no início da história de sua vida,
observa a Santa que Deus pusera,ao
seu redor, muito amor e que também o colocara no seu coraçãozinho,
"criando-o amoroso e sensível"(17). Temos, aqui, ma confissão
preciosa da própria Santa a respeito das disposições internas e profundas do
seu coração, quando ainda era tão pequena. Teresinha perdeu sua mamãe, quando ainda
era muito criança. Tinha apenas três anos e três meses. Sensível e muito
afeiçoada à mãe, a menina sentiu a carência do amor materno, de uma maneira acentuada. Foi, por isso, que
ela mesma anotou, mais tarde, que seu
temperamento mudara naquela ocasião
completamente. Assim, ela que era "tão viva, tão expansiva"
tornou-se "tímida e doce, excessivamente sensível"(18). E a própria
Santa nos dá exemplos dessa excessiva sensibilidade: "Bastava um olhar
para que eu me desmanchasse em lágrimas, era preciso que ninguém se ocupasse
comigo, para que estivesse contente, não podia suportar a companhia de
pessoas estranhas e só reencontrava minha alegria na intimidade da
família..."(19). Pobre criança, órfã tão cedo! Se não fossem os cuidados
amorosos de seus familiares, certamente Teresinha teria chegado a um desastre
psicológico, como, aliás, quase chegou quando da sua doença, doença que outra coisa não foi senão um
stress fortíssimo, que atacou a sensibilidade da menina,que tinha apenas dez
anos(20), e que, além do sofrimento da perda da mãe, sofria a ausência de sua
irmã querida, que ela tomara como segunda mãe. E ela mesma reconhece esse
perigo, quando se referindo às atrações do amor, confessa, humana e
humildemente, que seu "coração
sensível e amoroso teria facilmente
se dado, se tivesse encontrado um coração capaz de
compreendê-lo..."(21). Aqui, chegamos às raias de um humanismo puro,
confessado e não negado, e confessado pela própria Santa, como sendo um
grande empecilho para sua caminhada de libertação espiritual. Será, pois, com
esse coração, sensível e amoroso, que Teresa de Lisieux vai conquistar,
apesar de tudo, as alturas de uma santidade extraordinária. Uma como nós,
sentindo as pontadas do coração, carente e ansioso, teve a coragem de lutar
e, com a graça, venceu para nossa alegria e exemplo. Teresa cresceu, tornou-se uma mocinha,
mas sua sensibilidade continuava sendo um problema. Já com treze anos e ela
sentia ainda que era
"verdadeiramente insuportável por causa da minha exagerada
sensibilidade; assim, se me acontecia de provocar, involuntariamente, algum
pequeno problema a uma pessoa, que eu
amava, em vez de passar por cima e não chorar, o que aumentava minha falta ao
invés de diminuí-la, chorava como uma Madalena e, quando começava a me
consolar daquilo, chorava por ter
chorado...Todos os raciocínios eram inúteis e eu não podia conseguir me corrigir desse vilão
defeito"(22). Era preciso, segundo a Santa, um milagre de Deus, para que
ela se curasse e esse milagre aconteceu na bendita noite de Natal, de 1886. Após
a vitória, que a Santa reconhece como
sendo um presente de Deus, ela pôde
se desenvolver espiritualmente, de uma maneira admirável(23). Vemos por tudo isso,
como Teresa de Lisieux foi uma criatura humanamente simples; como foi difícil
sua luta para vencer as dificuldades de seu próprio temperamento, para poder
crescer e voar nos caminhos da perfeição. Outra característica que marca o
humanismo da santidade e da personalidade de Teresa de Lisieux é seu grande
amor à família. Já no ano de sua morte,1897, no mês de maio, ela fazia a
seguinte e interessante confissão: "Teófanes Venard amava muito sua
família; e eu, também, amo muito
minha "pequena" família. Não compreendo os santos, que não amam sua
família... Minha pequena família de agora, oh!eu a amo muito! Amo muito,
muito, minha mãezinha"(24). Teresa fora educada em uma família
cristã, sumamente unida. Viveu, em casa, cercada de todo carinho e afeto. Após
a morte de sua mãe, seu pai voltou-se para ela com mais amor e dedicação do
que nunca. Ela passou a ser, de fato, a rainhazinha do lar. Todos a admiravam
e a mimavam. Seu lar, pois, passou a ser seu castelo e sua família sua
corte.Era natural, portanto, que Teresa amasse muitíssimo sua família. E ela
assim o fez e tanto mais cresceu no amor de Deus, tanto mais amou sua
família. É evidente que nunca foi um amor exagerado. Em primeiro lugar,
estava o seu Deus. Sua família fazia parte especial do mundo, que a
circundava e que merecia, constantemente, o seu amor, mas isso nunca a levou
a transgredir uma só norma do Carmelo, para que tivesse oportunidade de viver
no mosteiro como em sua casa.E, aqui, está a beleza dessa alma privilegiada. Ela
é humana, mas sabe conjugar o humano com o divino até nas menores e mais
íntimas coisas, como o amor à sua família. Sua irmã e madrinha nos conta, no Processo
Apostólico, que, logo após a entrada de Teresa no Carmelo, muitas vezes,
tentou pará-la para dizer uma palavrinha,
aproveitando do motivo de lhe ensinar o Ofício do dia, mas, certa vez, a
Santa lhe disse estas palavras sensatas e equilibradas: "Eu lhe
agradeço, eu o encontrei bem, hoje; seria feliz se ficasse com a senhora, mas
é preciso privar-me disso, pois não estamos mais em nossa casa"(25). Era,assim,
que Teresa de Lisieux era humana,mas era assim que ela sabia unir seu
humanismo com a graça, que trabalhava dentro dela. Mas, há coisas e fatos curiosos e simples
que demonstram, carinhosa e claramente, esse amor humano e sublime de Teresa
para com sua família, como foi o pedido que ela fez a sua Inês faltando
apenas onze dias para sua morte. Vejam bem, que maravilha de Santa: está nas
portas da morte e ainda pode se dirigir para sua irmã querida e dizer; "Eu
a amo muito, mas muito! Quando ouço abrir a porta, creio sempre que é a
senhora; e quando a senhora não vem, fico toda triste. Dê-me um beijo, um
beijo que faça barulho; enfim, que os
lábios façam "pit!""(26). Meu Deus, como pode ser isso? Uma santa, quase na hora da morte,
está fazendo declaração de amor a sua irmã, e ainda lhe pede um beijo
barulhento de verdade! Não podemos desconhecer essa faceta teresiana, porque
ela é sumamente rica e preciosa, para
que possamos compreender melhor como Teresa de Lisieux foi nossa irmã em
tudo, nesta vida humana que Deus nos deu. Mas há, ainda, muitas outras
demonstrações do humanismo teresiano. Certa vez, falou-se no Carmelo da
possível viagem da Irmã Inês para terras de missão, no Oriente. Eis como
Teresa comenta o fato: "Ah! eu não quereria fazer um movimento para impedi-la de partir;
sentia, contudo, uma grande tristeza
no meu coração, achava que sua alma tão sensível, tão delicada, não
era feita para viver no meio de almas, que não saberiam compreendê-la; mil
outros pensamento se juntavam, em multidão,
no meu espírito e Jesus se calava, ele não aplacava a tempestade... E
eu lhe dizia: Meu Deus, por vosso amor,aceito tudo"(27). É claro que,
Teresa sentiu tristeza só em pensar em se separar de sua irmã! Mas, isso não
impediu a ordenação harmônica de sua santidade, que,imediatamente, se dispõe
a aceitar tudo que Deus quiser. A alma,vibrante e sensível, de
Teresa sentiu, certa vez, uma dor
profunda diante de uma alegria
natural, que lhe foi recusada. A
Santa,ficou profundamente amargurada, pois, desejara ardentemente ter a presença do seu pai querido na
festa de sua tomada de véu, o que não conseguiu. Tudo estava pronto, quando o
sr. Guérin, tio da Santa, achou melhor que o sr. Martin não assistisse à
cerimônia. Teresa escreveu, na ocasião, uma carta a sua irmã Celina, que tem
passagens nestes termos: "Oh! Celina como lhe dizer o que se passa na
minha alma? Ela está despedaçada... Você sabe quanto eu desejava, esta manhã,
rever nosso Pai querido; ah! precisamente agora, vejo claramente que a
vontade do bom Deus é que ele não
esteja presente". É verdade que a Santa logo se refaz e acrescenta:
"Jesus me quer órfãzinha, ele quer que eu esteja só com Ele só, para se unir mais intimamente
a mim; ele quer também me devolver, na Pátria, as alegrias tão legítimas, que
me recusou no exílio"(28). Nesse fato aparece, de um lado, a alma
humana de Teresa, cheia de tristeza e de dor, como qualquer um dos mortais,
que sentiria muito a ausência de um
ente querido numa sua festa solene;
do outro lado, aparece a grandeza espiritual de Teresa, que logo encontra uma
razão para suportar a tristeza com amor. Ela sente as fraquezas de uma
saudade, de uma tristeza, de uma ausência; mas não fica somente nisso. Como
santa, ela supera a limitação do ser humano e busca a harmonia dos
sentimentos com os princípios espirituais,que norteiam sua vida. Há outro caso interessante, em que podemos admirar essa harmonia e, ao mesmo
tempo, a força do lado humano na vida de Santa Teresinha. Foi quando, certa
feita, era apresentada, para a Comunidade, uma peça teatral escrita por ela. Acharam
que a peça era longa demais, e por isso foi interrompida. Nossa Teresa sentiu profundamente a
decisão tomada e, escondidamente, deixou rolar algumas lágrimas, mas logo se
refez e aceitou a ordem dada com espírito de grande obediência(29). No nosso
propósito, é interessante observar que, o coração da Santa, apesar da alta
união com Deus, era coração humano e, por isso, nunca deixou de sentir as alfinetadas
da vida. Ele não se tornou insensível, mesmo com a subida da Montanha do
Amor. Continuou humano e,assim,
morreu, muito embora tenha se purificado e tenha sabido reagir,
impecavelmente, diante das dificuldades,que teve de enfrentar. A alma de Teresa foi profundamente
franciscana. Teresa de Lisieux sempre demonstrou um amor de predileção pela
natureza: plantas, flores, mar, tempestades, neve e pássaros. Tudo isso
provocou sempre a admiração e uma grande atração na alma de Teresinha. Às
vezes, essa atração e essa admiração chegam a produzir, na pena de Teresa de
Lisieux, verdadeiras poesias em prosa. Logo nos inícios da sua Autobiografia,
Teresinha escreve, com tom de saudade: "Eram para mim belos os dias, em que meu "rei querido" me levava à pesca com ele,
amava tanto os campos, as flores e os pássaros...A propósito das nuvens,
lembro-me de que, um dia, o belo Céu azul do campo escureceu e que, logo, a
tempestade pôs-se a rugir, os relâmpagos
sulcavam as nuvens
sombrias e vi, a alguma distância,
cair um raio; longe de ficar apavorada, estava encantada, parecia-me que o
bom Deus estava bem perto de mim!..."(30) E nos dá um prazer especial ler, devagar,
as descrições, que a Santa nos
oferece, na sua Autobiografia, a respeito das belezas naturais da
Suíça. Essas belezas encantaram e arrebataram a alma sensível e humaníssima
de Teresinha, que soube aproveitar de todas elas, extasiando-se com a bondade
e magnanimidade de Deus. "Antes de chegar a essa "cidade
eterna", objetivo de nossa peregrinação, foi-nos dado contemplar muitas
maravilhas. Primeiramente, foi a Suíça com suas montanhas, cujos cumes se perdem nas nuvens, suas cascatas
graciosas, jorrando de mil maneiras
diferentes, seus vales profundos, cheios de fetos gigantescos e de charnecas
róseas. Ah! minha Madre querida, como essas belezas da natureza, espalhadas em profusão, fizeram bem à minha alma! Como elas a elevaram para Aquele, a
quem aprouve lançar semelhantes obras-primas em uma terra de
exílio, que deve durar apenas um dia...Eu não tinha bastantes olhos para
olhar. De pé,junto da portinhola,
quase perdia a respiração; quisera estar dos dois lados do vagão, pois ao me voltar, via paisagens de um aspecto encantador e completamente
diferentes daquelas, que se estendiam diante de mim. Às vezes, estávamos no
cume de um montanha, a nossos pés precipícios, dos quais o olhar não
podia sondar a profundidade,pareciam
prontos para nos engolir...ou, então, era um encantador vilarejo com seus
graciosos chalés e seu campanário, sobre o qual se
balançavam, devagar, algumas nuvens
cintilantes de brancura...Mais longe, era um grande lago, que se
dourava com os últimos raios do sol; as ondas calmas e puras, que tomavam
emprestado a cor azulada do Céu, que
se misturava com as cores de fogo do ocaso, apresentavam a nossos olhares
maravilhados o espetáculo mais poético e mais encantador, que se possa
ver...No fundo do vasto horizonte, percebiam-se as montanhas, cujos contornos indecisos teriam escapado a
nossos olhos, se seus cumes nevados,
que o sol tornava resplandecentes, não viessem acrescentar um encanto a mais ao belo lago, que nos
encantava...Ao olhar todas essas belezas, nascia, na minha alma, pensamentos
bem profundos. Parecia-me compreender já a grandeza de Deus e as maravilhas
do Céu..."(31). Mas, em particular, Teresinha sempre
mostrou uma predileção pelas flores, pelos pássaros, pelos animais e por
certas coisas especiais da natureza. Ela mesma gostava de se chamar a
"Florzinha" de Jesus. As suas Cartas e a sua Autobiografia estão
cheias dessas delicadas e sensíveis declarações amorosas! Na Autobiografia, aparecem as palavras
flor e flores nada menos do que 101 vezes; nas Cartas as mesmas palavras
aparecem 84 vezes, sem contar quando elas se apresentam dentro de uma
expressão nominal; no Caderno Amarelo, copilado pela Madre Inês, cerca de 14
vezes;e muitíssimas vezes nas Poesias e até mesmo nas suas peças de teatro.É
quase impossível mostrar a sensibilidade do humanismo teresiano, quando se
trata de escolher uma passagem de suas obras, tantas são as referências da
Santa à flor e às flores. Ela tinha um cachorrinho predileto, que se chamava Tom,que jamais deixou de
amar sua dona. Possuía também uma pequena gaiola com passarinhos(32), e
sofreu muito quando da morte de um cordeirinho(33), que seu pai lhe dera de
presente.Por isso, podia comparar a vida espiritual à vida de um passarinho,
isto é, seu canto, seu vôo, sua fraqueza, tudo isso lhe serviu para explicar
a caminhada de amor no seu caminho reto e curto. Mas, nossa Santa manifestou sempre uma
predileção toda especial pela neve. Uma predileção tão forte, que ela
procurou até uma explicação para o fato. Foi no dia 10 de janeiro de 1889, que se
deu a vestição religiosa de Santa Teresinha. A solenidade tinha sido
procrastinada e a Santa sofrera um pouco
com isso. Todavia, ficou encantada com a beleza da sua festa e pôde
escrever, depois: "A espera fora longa, mas também, que bela
festa!...nada faltava, nada, nem mesmo a neve...Não sei, se já lhe falei de meu amor pela neve?... Ainda bem
pequena, sua brancura me encantava; um dos maiores prazeres era passear sobre
os flocos de neve. Donde me vinha esse gosto pela neve?... Talvez porque
sendo uma florzinha de inverno, o primeiro adorno, com o qual meus olhos viram
a natureza embelezada, deve ter sido
seu manto branco... Enfim, sempre desejara que, no dia da minha
vestição religiosa, a natureza estivesse como eu, vestida de branco. Na véspera desse belo dia, olhava,
tristemente, o céu cinzento, donde escapava, de vez em quando, uma chuva fina e a temperatura era tão doce, que não
esperava mais a neve. Na manhã seguinte, o Céu não mudara... Após ter
abraçado, uma última vez, meu Rei querido, voltei à clausura; a primeira
coisa que percebi, no claustro, foi
"meu Jesusinho cor de rosa", sorrindo-me no meio das flores e das
luzes e, depois, logo meu olhar se dirigiu aos flocos de neve...o pátio estava branco, como eu. Que delicadeza
de Jesus! Antecipando-se aos desejos
de sua noivinha, ele lhe dava a neve...Neve... qual é, pois, o mortal ,
poderoso que seja, que pode fazê-la cair do céu para encantar sua bem-amada?... Talvez as
pessoas do mundo se puseram essa pergunta, o que há de certo é que, a neve de
minha vestição lhes pareceu um pequeno milagre, e que toda a cidade ficou
admirada. Acharam que eu tinha um gosto
engraçado por amar a
neve...Tanto melhor! Isso fez sobressair ainda mais a incompreensível
condescendência do Esposo das virgens...dAquele que adora os Lírios brancos
como a NEVE!...(34). Santa Teresinha foi chamada pelo Papa Pio
X, "a maior santa dos tempos modernos". Pois bem, essa Santa,amada
no mundo inteiro, maravilhosa e extraordinária, era tão humana, tão humana,
que dormia em algumas das suas orações. E ela é mais humana ainda, quando
confessa essa limitação, que não era culpa sua, porque não a desejava, com
toda a simplicidade: "Verdadeiramente estou longe de ser uma santa...
deveria desolar-me por dormir (há
sete anos) durante minhas orações e minhas ações de graças; pois bem, não me
desolo...penso que as criancinhas agradam tanto aos seus pais quando dormem,
como quando estão acordados; penso que para fazer operações, os médicos
adormecem seus doentes. Enfim, penso que" "O Senhor vê nossa
fragilidade, que Ele se lembra que somos apenas pó""(35). Bastariam essas palavras para provar a
todo o mundo que, "a maior santa dos tempos modernos" foi realmente
assim, porque soube ser humana em toda a extensão da palavra. Teresa ama, ama
apaixonadamente, mas é humana, é fraca, por isso, mesmo não querendo,
adormece em algumas das suas orações. Que escândalo para muita gente: uma
santa, que dorme nas orações! No entanto, ela continuava amando, mesmo
quando, por causa da fraqueza da sua humanidade, adormecia nas suas orações. Esse humanismo de Teresa de Lisieux é,
certamente, um dos elementos mais fortes para se compreender a personalidade
e a espiritualidade teresianas. Quem o entende perfeitamente, apaixona-se por
essa irmã, que soube ser uma grande santa, continuando sendo humana, isto é,
amando o mundo, a natureza e os homens; sofrendo, com um coração sensível e
carente, diante das dificuldades da vida; mas, sabendo, como poucos, unir o
humano com o divino, para formar uma sinfonia harmoniosa, que apaixonou a
Deus e cativou os homens. NOTAS (1) -Jo 1,14 (2) -Fil 2,7 (3) -C.F. p.141 (4) -C.F. p.144 (5) -C.F. p.147 (6) -C.F. p.211 (7) -C.F. p.204 (8) -C.F. p.232 (9) -C.F. p.228-229 (10)-C.F. p.234 (11)-C.F. p.260 (12)-C.F. p.289 (13)-M.a, 8r-8v (14)-C.F. p.270 (15)-C.F. p.295 (16)-C.F. p.313 (17)-M.a, 4v (18)-M.a, 13r (19)-M.a, 13r (20)-M.a, 27r-30v (21)-M.a, 38r (22)-M.a, 44v (23)-M.a, 46v (24)-C.A. 21/26.5.1 (25)-P.A. p.242 (26)-C.A. 11.9.2 (27)-M.c, 9v (28)-CT 120 (23-09-1890) (29)-C.S. p.19 (30)-M.a, 14v (31)-M.a, 57v-58r (32)-M.a, 53r (33)-P.A. p.270 (34)-M.a, 72r-72v (35)-M.a, 75v TERESA, LÍDER E MESTRA É evidente que se toma, aqui, a palavra
líder no seu sentido lato. Na verdade, Santa Teresinha jamais exerceu alguma
liderança, no sentido estrito da palavra, na sua Casa ou dentro do seu
Carmelo. Todavia, ninguém pode negar que, pela sua santidade, pelo seu
comportamento, pelas suas constantes lições, distribuídas às suas noviças e a todas quantas
religiosas, que a procuravam, incluindo-se as que tinham algum cargo
importante na Comunidade, nossa Santa foi, de algum modo, uma líder no
Carmelo e o foi, sobretudo, porque, realmente, ela foi uma Mestra das suas
irmãs. No entanto, no Processo Apostólico existe uma declaração da Irmã Maria do
Sagrado Coração, que parece nos contradizer totalmente. Eis o testemunho da
madrinha da Santa: "Durante sua vida, Irmã Teresa do Menino Jesus passou
despercebida. Com exceção de nós, suas irmãs, e de algumas noviças, poucos a
conheciam.Ela pedira para ser "esquecida, pisada aos pés como um grãozinho
de areia", foi o que lhe aconteceu no Carmelo"(1). Não vemos,
porém, nenhuma contradição entre o que foi dito e o que testemunhou a Irmã Maria do Sagrado Coração. Na
verdade, a mesma Irmã Maria do Sagrado Coração, em continuação ao seu
testemunho, acima citado, diz o seguinte: "Contudo, sua madre
priora(Madre Maria de Gonzaga), mesmo tendo tido ciúmes dela algumas vezes,
dizia que, não havia mesmo ninguém igual a ela na comunidade. Outras a
notavam pela sua obediência às menores recomendações, que nossa madre
tinha feito. Uma irmã conversa, que a
humilhara injustamente, julgou-a uma santa, vendo de que virtude ela dera
prova nessa circunstância... Eu mesma, habituada a vê-la todos os dias, dizia
a mim mesma, muitas vezes:"Como é encantadora!" e me perguntava o
que Deus faria dela um dia. Mais
tarde, no Carmelo, vendo sua virtude
tão grande, tão extraordinária na sua simplicidade, pensava,
suspirando:"E dizer que ninguém a conhecerá jamais!""(2). Irmã Maria da Trindade foi noviça de
Santa Teresinha e soube aproveitar bem de tudo quanto a Santa lhe ensinou. Seus
depoimentos no Processo Apostólico para a Beatificação e Canonização de nossa
Santa são muito preciosos, porque exalam um quê de muita simplicidade e
sinceridade. Pois bem, para mostrar o papel de certa liderança, como exemplo
de vida religiosa, que Santa Teresinha teve, apesar de muitas adversidades,
vejamos algumas das palavras dessa noviça privilegiada da Santa. Com sinceridade e simplicidade, ela nos
diz, logo, a situação do Carmelo no tempo de Teresa: "O que me parece
acentuar ainda a heroicidade de sua virtude, é que ela viveu no Carmelo em um
tempo, em que tudo estava em desarranjo na comunidade. Partidos tinham sido
formados, sob a influência da madre
Maria de Gonzaga; faltava-se muito com a caridade. A regularidade e o
silêncio eram mal observados."(3). Mas, havia uma circunstância relevante em tudo isso, que dizia respeito
diretamente a Teresa, é que ela tinha, no Carmelo, três irmãs e um prima
legítima.Ora, numa comunidade bem pequena, isto é, com cerca de trinta e duas
pessoas, um grupo de cinco já era bastante forte.Foi por esse motivo, que
nossa Teresinha, sem culpa alguma, teve de suportar alguns dissabores
particulares. Assim nos explica a situação, a Irmã Marta da Trindade: "O
que prejudicava também à justa apreciação das virtudes heróicas de Irmã
Teresa do Menino Jesus, foi que várias religiosas estendiam até ela a
animosidade, que sentiam contra o
grupo das "quatro irmãs Martin", como elas designavam,
desdenhosamente, Irmã Teresa do Menino Jesus e suas irmãs. Esse movimento de
antipatia fora despertado e era
sustentado pela Madre Maria de
Gonzaga. Fora, contudo, ela que tudo fizera, para favorecer a entrada das quatro
irmãs na comunidade;mas seu caráter ciumento fê-la lamentar, amargamente,
esses esforços. As qualidades superiores dessas pessoas de elite lhe fizeram
sombra e ela fez tudo para impedir,
que a comodidade as apreciasse. Sua
conduta, para conseguir o que queria, foi, muitas vezes, dura, e nossa
reverenda Madre Inês de Jesus foi, em particular, durante seu priorado, a vítima de sua triste paixão. Ela, contudo, a tinha feito nomear priora,
porque estava persuadida de que, Madre Inês, possuidora de um caráter muito doce, deixar-se-ia,inteiramente, dominar por
ela. Quando viu que, sob aquela
doçura, escondia-se uma firmeza de caráter, que se impunha à comunidade,
mudou, inteiramente, de disposições
com relação à Madre Inês. A Serva de Deus lhe fazia menos sombra,
porque era muito jovem, e ficava em sua dependência na qualidade de
noviça"(5). Semelhante descrição de uma realidade
existente no Carmelo, no tempo de Santa Teresinha, pode escandalizar algumas
pessoas, o que não deveria, pois, aquela comunidade era composta de criaturas
humanas que, embora fossem pessoas
consagradas, não deixavam de ter seus problemas particulares e pessoais,
contra os quais, certamente, deviam, na medida do possível, lutar para evitá-los.
Por outro lado, ela nos serve, maravilhosamente, para entender a posição de
Teresa diante de toda a comunidade do seu tempo, no Carmelo de Lisieux. Pois bem, diante de toda essa situação
contrária, Teresa aparece como alguém especial, que sabe superar contrastes e
provocar admiração.A própria Madre Maria de Gonzaga era obrigada a fazer
juízos bem elevados de nossa
Santa e considerá-la como uma espécie de liderança espiritual. Irmã
Maria da Trindade testemunhou a esse respeito, da seguinte maneira: "bem
que a tratasse severamente, ela sabia reconhecer suas virtudes e dizia,
com admiração, que jamais encontrara
tanta maturidade e santidade reunidas numa tão jovem religiosa". E
acrescenta, para maior conhecimento de pormenores: "No fundo, era esse o pensamento íntimo de toda a
comunidade, com exceção de dois ou três maus espíritos, que não estão mais na
comunidade, e que, aliás, mudaram de opinião, após a morte da Serva de Deus. Madre
Maria de Gonzaga exprimiu, diante de
mim, essas apreciações favoráveis;
ela me disse mesmo, várias vezes: "Se fosse para escolher uma priora em
toda a comunidade, sem hesitar, escolheria Irmã Teresa do Menino Jesus,
apesar de sua jovem idade. Ela é perfeita em tudo; seu único defeito é
ter suas três irmãs com ela"(6). Não poderia existir uma declaração mais
formal e completa da capacidade e de certo prestígio de Santa Teresa de
Lisieux, no seu próprio Carmelo. E esse conceito tão alto, Teresa adquiriu,
apesar de todos os obstáculos, com sua vida perfeitamente regular. Os testemunhos de Irmã Marta de Jesus, no
Processo Apostólico, são convergentes para esse propósito, isto é, Teresa era
uma verdadeira santa, porque foi perfeita em tudo. Diz a Irmã Marta:
"Fiquei sempre muito tocada com
o grande recolhimento, no qual vivia a Serva de Deus, mesmo nas mais
distraídas ocupações. Sentia-se que
ela estava sempre unida ao bom Deus, jamais mostrava dissipação, mesmo em um
trabalho fatigante, por exemplo, na lavanderia...Irmã Teresa do Menino Jesus
era de uma modéstia perfeita, não corria jamais, caminhava muito
religiosamente, os olhos abaixados; ela não buscava ver ou saber o que se
passava ao seu redor...A Serva de Deus era muito silenciosa; não me lembro de
tê-la ouvido dizendo palavras inúteis...A Serva de Deus era verdadeiramente
morta para si mesma; jamais agia pela
natureza nem para satisfazer suas paixões; sentia-se que tudo nela era
sobrenatural...A Serva de Deus não se lamentava jamais, quando sentia frio,
embora sofresse muito com ele. Quando eu ia até ela, ficava muito edificada
com sua mortificação, ao ver suas pobres mãos totalmente inchadas, cobertas
de frieiras e sustentando sua agulha com dificuldade...Sempre admirei a
constante fidelidade da Serva de Deus nas menores sujeições da virtude da pobreza, como apanhar do
chão um fósforo ou um pedaço de papel. Notei ainda que, era muito assídua ao
trabalho; jamais perdia um minuto...A Serva de Deus foi sempre uma religiosa
muito obediente. Jamais a vi praticar
a menor infidelidade contra a regra. Estava
atenta a obedecer até nos menores
detalhes...Ela deixava tudo ao primeiro toque do sino,mesmo no meio de uma
conversa, interessante que fosse.e se estivesse no trabalho, deixava sua
agulha sem acabar um ponto começado"(7). Eis por que, a mesma Religiosa
disse no mesmo Processo: "A primeira vez que vi Irmã Teresa do Menino
Jesus, ela me deu a impressão de um anjo"(8). Na verdade, para ser tão
perfeita assim e para ser tão equilibrada dessa maneira a tal ponto que, em
tudo, ela parecia ser um ideal, Teresa de Lisieux devia ter alcançado um tal
grau de santidade, ou seja, de perfeição, que a muitíssimas pessoas ela dava
a impressão de um anjo. É exatamente essa idéia, esse posicionamento dos outros com relação a ela,
esse, digamos, prestígio espiritual, que chamamos de liderança, mesmo porque
uma pessoa de tal fibra e de tal porte leva muita gente a admirá-la, a
ouvi-la, a seguí-la. Assim, querendo ou não, Teresa apareceu, no Carmelo,
como uma luz, um farol, um exemplo,uma
mestra, um guia. Foi sua força espiritual, sua santidade que
provocaram não só a admiração de
muitos, mas também o interesse em assimilar e seguir seus ensinamentos, como
veremos melhor mais adiante. Mas, como explicar, se assim o foi,
que Teresa de Lisieux não tenha de
fato se tornado uma líder, no sentido restrito da palavra? Afora o quanto já foi dito a respeito da
situação do Carmelo, por obra da Madre Maria de Gonzaga e por causa da
presença das quatro irmãs e uma prima legítima, há uma explicação muito mais
profunda para o fato de que, muitas religiosas desconhecessem todo o valor e toda a santidade de Santa
Teresinha. E essa explicação é a
humildade querida e vivida por nossa
Santa. Com esse propósito, os
testemunhos dos contemporâneos são muitos. A Irmã Maria da Trindade, dá-nos um testemunho semelhante ao da Irmã
Maria do Sagrado Coração, que transcrevemos acima: "Quanto a mim, desde
minha entrada no Carmelo, sempre considerei como heróica a santidade de Irmã
Teresa do Menino Jesus...As três irmãs da Serva de Deus, que a conheciam,
também elas, intimamente, partilhavam da minha veneração. Para o resto da
comunidade, Irmã Teresa passava despercebida, por causa da sua grande
simplicidade e de sua humildade"(9). A Irmã Marta de Jesus, por sua vez,
diz: "Irmã Teresa do Menino Jesus queria ser esquecida e passar sempre como a última"(10). E isso, como diz
Irmã Maria do Sagrado Coração, realmente aconteceu, ou par causa do ciúme da
Madre Gonzaga, ou por causa da indiferença ao grupo das quatro irmãs, ou por
causa de qualquer outra fraqueza humana, e, sobretudo, por causa da humildade
da Santa, que não deixava transparecer nada do que realmente era. Mesmo
assim, as suas obras brilharam diante dos homens para a glória de Deus. Temos
muitos depoimentos acerca da consideração, em que nossa Santa era tida e havida na sua Comunidade. Já
fizemos alusão a alguns desses depoimentos,
e queremos salientar alguns outros ainda. Leônia, com a beleza de sua humildade e
simplicidade, testemunhou o seguinte: "Quando ela estava no Carmelo,
várias religiosas me disseram no parlatório, que ela não era ordinária, que
tinha maturidade de uma pessoa de 40 anos, que era considerada como uma
religiosa modelo por toda a santidade de sua vida"(11). Para fortalecer o testemunho de Leônia,
leiamos esta declaração da Irmã Maria
do Sagrado Coração: "No Carmelo, uma irmã, ao vê-la sempre observar,
fielmente, as menores recomendações, julgou, só por esse fato, que ela era
uma santa"(12). Irmã Genoveva de Santa Teresa nos oferece
duas confidências de outras irmãs do Carmelo, que merecem nossa atenção. Todos
sabem da história dramática da Irmã São Pedro que, doente, era,caridosa e
amavelmente, ajudada, durante algum tempo, no seu trajeto da capela ao
refeitório,por Santa Teresinha. A própria Santa nos conta, com detalhes, seu
gesto de amor para com essa pobre irmã, doente e necessitada. Pois bem,
Celina, no Processo Apostólico, confidencia-nos o seguinte: "No carmelo,
desde os primeiros dias de minha entrada, Irmã São Pedro mandou me chamar a
sua enfermaria, dizendo, que tinha uma coisa muito importante para me confiar. Fez-me sentar-me em um
banquinho na frente dela e me contou,
com detalhes, toda a caridade que Irmã Teresa exercera com ela. Depois, com um tom solene, disse-me
misteriosamente: "Guardo tudo que penso sobre isso...mas, essa menina
irá longe... Se lhe contei tudo isso, é porque você é jovem e poderá dizer a
outras pessoas posteriormente, pois semelhantes atos de virtude não devem
ficar sob o alqueire"(13). E, logo em seguida, Irmã Genoveva nos
transmite outra confidência: "Outra religiosa anciã(Irmã Maria Emanuel)
me dizia: "Irmã Teresa do Menino Jesus
tem um tal maturidade e tanta virtude, que eu a quereria priora, se
ela tivesse mais de 22 anos""(14). Joana Guérin, prima de nossa Santa,
testemunhou no Processo Informativo
Ordinário, para a beatificação e canonização de Santa Teresinha. Seu
depoimento é, até certo ponto, frio. Todavia, às tantas, ela relembra uma
passagem curiosa de uma carta, que a Madre Gonzaga escreveu para seus pais. Nessa
carta, lê-se: "Jamais teria podido acreditar em um capacidade de julgar
tão avançada em quinze anos de idade; nem uma palavra para lhe dizer: tudo é
perfeito""(15). Realmente, essa declaração da Madre Priora, que a
tratava tão severamente e que lhe casou tanto sofrimento, certamente tem um
valor especial, sobretudo, quando ela diz, simples e
categoricamente:"tudo é perfeito". Mas, há um depoimento, que não é de uma
pessoa ligada, por parentesco, com a Santa e, por isso, merece uma atenção
especial. Trata-se de algumas declarações da Irmã Teresa de Santo Agostinho. É
aquela irmã, que tinha o dom de desagradar Santa Teresinha em tudo, mas que
recebia da Santa toda a atenção e sempre com um precioso sorriso. Pois bem,
essa religiosa testemunhou, no Processo Apostólico, o seguinte: "Creio
que, a virtude heróica consiste em uma perfeição de virtude,que ultrapassa o
que se observa nas religiosas boas e
fervorosas. Conheci e conheço um
grande número de ótimas religiosas; mas Irmã Teresa do Menino Jesus tinha uma
maneira de agir diferente e superior. Essa diferença não se fazia notar tanto no objeto de seus atos de virtude,
quanto na maneira mais perfeita de
realizá-los. Notadamente, observei nela uma constância e uma regularidade de
perfeição, que não vi em nenhum outro lugar; o élan de seu fervor era sempre
igual; ela praticava essas virtudes com uma destreza e uma generosidade, que a faziam sempre
parecer amável e alegre. Ademais, observei, muitas vezes, que boas e santas
religiosas suportavam, com resignação e paciência, as emendas e as reflexões
descorteses; mas fazer disso um objeto de alegria e de exultação,só vi isso
em Irmã Teresa do Menino Jesus"(16). Esse é, realmente, um testemunho
magnífico do prestígio que Teresa gozava entre algumas religiosas, suas
contemporâneas. É verdade, como já dissemos, que isso não era comum, por
aqueles motivos que citamos acima. A mesma Irmã Teresa de Santo
Agostinho nos dá, a esse propósito, a
sua opinião: "Durante a vida da Serva de Deus no Carmelo, um pequeno número de irmãs, enganadas pela
sua humildade ou por algum
preconceito, não soube reconhecer a
grande virtude de Irmã Teresa do Menino Jesus, mas a maior parte concordava
em reconhecer nela uma alma excepcionalmente privilegiada por Deus e
heroicamente fiel à graça"(17). Esse reconhecimento da maioria, segundo
Irmã Teresa de Santo Agostinho, ou mesmo de algumas poucas religiosas,
segundo as declarações de outros depoimentos, é uma prova de que nossa Santa
aparecia na sua comunidade, como alguém "excepcionalmente privilegiado
por Deus" e é a isso, que chamamos de certa liderança. É verdade que, uma religiosa chegou a
perguntar o que se poderia assinalar de especial sobre Santa Teresinha, após
sua morte. Mas, nos mesmos
"Artigos", do Processo Informativo Ordinário, onde lemos essa
notícia, lemos também essa categórica afirmação: "Várias carmelitas se
enganaram sobre isso"(18). Não há, pois, dúvida de que, Santa
Teresinha, apesar de toda sua humildade, não ficou totalmente escondida das
observações de suas coirmãs e para muitas ela foi, de fato, um modelo de
religiosa. Assim, não é de admirar que, a Irmã Marta de Jesus tenha deposto:
"Irmã Teresa do Menino Jesus mostrou sempre uma prudência e uma
maturidade de juízo bem acima de sua idade. Muitíssimas vezes, naquele tempo,
por causa da mentalidade de Madre Maria de Gonzaga e de certos espíritos na comunidade, havia desavenças, por
vezes muito tempestuosas; então,
quando os choques eram por demais envenenados, era sempre Irmã Teresa do
Menino Jesus que, com um tato e uma habilidade pouco ordinários, repunha a
paz na comunidade"(19). Não era, assim, uma verdadeira líder a nossa
Santa na sua comunidade religiosa? Semeadora da paz entre suas irmãs, como
Teresinha era maravilhosa mesmo no redemoinho das fraquezas da sua
comunidade! A Irmã Teresa de Santo Agostinho, nesse particular, confirma o
que se disse acima, com estas palavras: "Nas circunstâncias penosas do
governo da Madre Maria de Gonzaga, a Serva De Deus deu prova de uma grande
prudência para evitar o que teria podido agravar a situação já tão difícil. Ela procurava conciliar as coisas, apaziguar os
espíritos transtornados, a fim de que a paz voltasse e que as almas pudessem
retomar sua vida interior, muitas vezes, tão perturbada"(20). Sabemos que, Irmã Teresa do Menino Jesus
gozou de muita estima entre alguns sacerdotes, que a conheceram, menos do
padre Domin que, aliás, confessa que seu julgamento era porque pensava que a
Santa era muita bajulada, mas que mudara, completamente, de opinião após sua
morte. Pois bem, um sacerdote que conheceu nossa Santa foi o padre
Armand Le Monnier. Ele foi seu
confessor, diretor espiritual de Celina e bem relacionado com a família
Martin. Esse padre pregou alguns retiros no Carmelo de Lisieux e
testemunhou nos processos teresianos
de canonização. Eis seu precioso e seguro depoimento: "Minha convicção
pessoal, determinada pelo conhecimento que eu mesmo pude adquirir sobre as
disposições de Irmã Teresa do Menino Jesus, era também que não se podia
encontrar melhor guia, e eu encorajava as religiosas a seguir, com confiança,
seus conselhos e seus exemplos. O que é ainda notável a esse respeito, é o
julgamento que fazia sobre isso o
padre Youf, capelão do Carmelo. Era um padre e um diretor de uma
espiritualidade um tanto austera; a Serva de Deus, pelo contrário, era uma
alma dilatada e que pregava, em tudo, a confiança. Pareceria,pois, que padre
Youf devia professar certa reserva nas suas apreciações sobre a
influência de Irmã Teresa do Menino Jesus. Ora, bem ao contrário,
ele me exprimiu, de uma maneira muito clara, e da qual tenho a lembrança muito presente, que ele tinha uma confiança absoluta nos
conselhos de direção, que a Serva de Deus dava às noviças"(21). E
os conselhos do padre le Monnier e a segurança do padre Youf tinham
muita repercussão na prática. Com efeito, Celina, no seu segundo depoimento
no Processo canônico de canonização de Santa Teresinha, descobre-nos cenas
parecidas com aquela de Nicodemos, procurando Jesus para tomar orientação. Pois, diz-nos Irmã Genoveva de
Santa Teresa, "duas outras irmãs anciãs recorriam a seus conselhos. Madre Hermance do Coração de
Jesus tinha por ela uma grande estima e, durante a doença de Irmã Teresa,
como eu me aproximava dela a cada momento pela minha condição de enfermeira,
ela me passava bilhetinhos para lhe
entregar e me fazia dar, incessantemente, recados orais, pelos quais eu podia
julgar sobre a alta opinião que ela tinha da sua virtude"(22). Uma nova eleição para Priora do Carmelo
de Lisieux aconteceu no dia 21 de março de 1896. Madre Maria de Gonzaga foi
eleita mais uma vez, porém somente no sétimo escrutínio, em um eleitorado de
vinte e duas professas. Madre Gonzaga sentiu profundamente essa hesitação da
comunidade em a escolher, novamente, como Priora. Procurou, então, Irmã
Teresa do Menino Jesus e lhe expôs a ferida da sua alma torturada. A questão
tinha seu eixo na discussão entre Madre Gonzaga e Madre Inês, a mãe querida
de Teresinha. O caso era delicado, sumamente delicado. Santa Teresinha,
porém, sentada nas asas do amor, quase se esquece de seus laços de sangue com
a Madre Inês e escreve uma carta magistral, aos 29 de junho de 1896, para
consolar a Madre Priora, que, três meses após aquela tumultuada eleição,
ainda não se consolara de sua dor. É preciso ver nesse fato e nessa famosa
carta, que se intitula a"Legenda de um Cordeirinho", duas coisas
importantes. A primeira é a procura de Teresa por parte da Madre Gonzaga,
mesmo sabendo que era muito jovem e que era irmã da Madre Inês. A segunda é a
maneira como Teresa consola a Madre ferida, falando-lhe da "prova de
escolha", que ainda lhe faltava(23). Na procura da Madre e na maneira
como é consolada, Teresa aparece como uma orientadora, como uma líder
espiritual dentro do seu Carmelo, até mesmo para sua própria Priora. Compreende-se, então, por que, após a
morte de Teresa, a Madre Gonzaga,banhada em lágrimas, disse à Irmã Genoveva
de Santa Teresa: "Só eu posso saber o que lhe devo! Oh! o que ela me
disse... tudo o que ela me reprovou!...mas, tão docemente!..."(24). Não é necessário dizer que, após a morte
da Santa, muita coisa mudou, isto é, todo a comunidade carmelitana de Lisieux
descobriu que, vivera no seu meio nada menos do que uma grande santa.Irmã
Teresa de Santo Agostinho diria simplesmente: "Desde sua morte, a reputação
de santidade e de milagres da Serva
de Deus vai se afirmando de dia para dia"(25), mas Celina seria mais
expressiva, ao escrever: "Após a morte da Serva de Deus, a atitude das
irmãs, que lhe tinham sido hostis, mudou em veneração. Não havia ninguém mais
apressado para guardar suas lembranças e suas fotografias do que Irmã São
Vicente de Paulo, essa irmã conversa, que a fizera sofrer"(26 Mas, toda a influência benfazeja de
Teresa de Lisieux sobre seu Carmelo aparece muito mais claramente, quando analisamos
sua atitude e sua atividade de Mestra, entre suas coirmãs. Na verdade, Teresa
foi mestra e grande mestra, com um grande prestígio e uma grande influência
na formação de algumas religiosas e na orientação de toda sua comunidade. Que Teresa de Lisieux foi, de fato, uma
mestra no seu Carmelo não resta dúvida, se consultarmos os documentos
preciosos dos Processos de sua canonização. De início, entre muitas outras
coisas, podemos assinalar alguns pontos
básicos, ou características, a respeito da missão teresiana de
ensinar. O primeiro é que, Santa Teresinha tinha uma sabedoria toda especial.
Os depoimentos, a esse respeito, são unânimes. Basta citar a palavra
autorizada da Irmã Maria do Sagrado Coração, que diz: "Se entendemos,
por prudência, a sabedoria sobrenatural, posso dizer que, Irmã Teresa do
Menino Jesus tinha uma sabedoria celeste"(27). E, então, a Irmã Maria
lembra uma passagem de uma poesia conhecida de Santa Teresinha, na qual ela
pede ao Senhor: "Nos negócios do céu, digna-te tornar-me hábil"(28).
E,aqui, lembramos a palavra de Jesus, quando disse: "Sede prudentes como
as serpentes e simples como as pombas"(29) E, em falando de
simplicidade, aqui está o segundo ponto básico dos ensinamento de Teresinha. Ela
ensinava com prudência, sim, mas também com simplicidade: "Irmã Teresa
do Menino Jesus era, ao mesmo tempo, de uma grande simplicidade e de uma
grande prudência nos conselhos, que dava às almas"(30). Um terceiro ponto básico, que podemos
assinalar nos ensinamentos especiais de Santa Teresinha é que ela ensinava o que ela, primeiro,
tinha vivido. Referindo-se às suas lições sobre a pobreza, Irmã Genoveva testemunhou: "A Serva de Deus
ensinava aos outros essa perfeita pobreza, que ela mesma praticava"(31).
E não foi só com relação à pobreza, que Teresa ensinou o que vivia. Se
tomamos, por exemplo, seu ensinamento básico, que foi sobre sua estrada do
amor, veremos, de imediato, que cada palavra, que ela disse, saiu totalmente
da sua experiência espiritual. Prudente, celestial, simples,vivido, e,
também, bonito era o ensinamento de Teresa de Lisieux.Sim, o que Teresa
ensinava e ensinou tinha e tem uma
beleza toda particular. Irmã
Marta de Jesus disse, a esse respeito, algumas palavras bem interessantes:
"Vendo que os conselhos que ela me dava, faziam-me tanto bem, nossa
Madre Priora me permitia, durante o tempo de meu retiro, passar com ela as
recreações. Ela sabia, muito bem, elevar
minha alma para as coisas divinas! Nada de terrestre vinha se misturar a nossas conversas; eram todas
do céu; ela só me falava do amor de
Jesus e das almas, que queria salvar. Confiava-me também seus grandes desejos
de perfeição e de santidade. Tudo o que ela me dizia era tão belo, que eu
ficava toda embalsamada pelo perfume de sua virtude"(32). Outra característica dos ensinamentos de
Teresa de Lisieux foi a paciência. Ela tinha uma psicologia toda especial no
trato com as pessoas. No que diz respeito às noviças, no nosso exame mais
adiante, aparecerá claramente essa psicologia aplicada de Teresa, mas, todas as demais pessoas que dela se
aproximaram e que tiveram oportunidade de usufruir dos seus ensinamentos,
sentiram com que paciência admirável a Santa procurou aconselhar cada uma,
seguindo os critérios básicos da psicologia, que ensina ser cada pessoa um
mundo à parte. Na verdade, Teresinha jamais identificou dois mundos de duas
pessoas diferentes e, por isso,nunca usou a mesma pedagogia no trato com
pessoas diversas e diferentes. A
paciência, pois, foi uma marca dominante de Teresa de Lisieux, como
Mestra de suas irmãs. Madre Inês de Jesus conta-nos, a esse respeito, o
seguinte caso: "A pobre Irmã Maria de São José, atualmente de volta à
casa, obteve de mim a permissão para lhe pedir conselhos. A irmã, de quem
falo, só tinha boas intenções, mas, com seu pobre espírito doente, fez que
sua heróica conselheira sofresse um verdadeiro martírio, mas essa não deixou
jamais de lhe consagrar seu tempo e
suas forças"(33). Outra característica dos ensinamentos de
Santa Teresinha era o seu conhecimento, tido por alguns como sobrenatural, do
que se passava nas almas dos interlocutores. Não era sempre, mas algumas
vezes parecia que ela adivinhava o que se passava no íntimo daquela, que a
procurava. Há alguns testemunhos dessa natureza. Citamos apenas um: "Em
várias circunstâncias, pareceu-me que tinha o conhecimento sobrenatural do
que se passava na minha alma"(34). Ao lado desse conhecimento do que se
passava ou se passou no interior das pessoas, às vezes, nossa Santa
demonstrou ter também um conhecimento profético, no sentido de predição de
coisas futuras. Com efeito, ela ensinou muitas coisas, até mesmo a respeito
dela mesma e de sua mensagem espiritual, que deveriam acontecer no futuro, e
que, realmente, aconteceram.Por isso, Irmã Maria do Sagrado Coração podia
dizer: "Pode-se notar na vida da Serva de Deus uma visão e várias
palavras, que parecem proféticas"(35). A própria Santa, de certa maneira,
reconheceu esse fato. Ela escreveu no Manuscrito C: "Muitas vezes, as
noviças me dizem:"Mas, a senhora tem uma resposta para tudo, pensava
que, desta vez,ia embaraça-la...onde
vai buscar o que diz?" Há mesmo algumas bastante cândidas que acreditam
que, eu leio nas suas almas, porque me aconteceu de preveni-las ao lhes dizer
o que elas pensavam. Uma noite, uma de minhas companheiras(36) decidira me
esconder um pena, que lhe fazia sofrer muito. Eu a encontro bem cedo, ela me fala com a cara alegre e eu, sem responder àquilo que ela me dizia,
disse-lhe com um tom convencido: você tem problema. Se tivesse feito cair a
lua sob seus pés, creio que ela não me teria olhado com maior espanto. Sua
estupefação era tão grande, que me
ganhou. Por um instante, fui tomada por um temor sobrenatural. Estava bem
segura de não ter o dom de ler nas almas e isso me fazia admirar mais de ter
acertado tão bem. Sentia mesmo que o
bom Deus estava muito perto, que, sem me aperceber, dissera, como uma
criança, palavras que não vinham de mim, mas dEle"(37) Se Santa Teresinha foi uma alma simples,
se sua mensagem é toda ela de simplicidade e de amor; ela foi sempre uma
pessoa de muita firmeza e decisão. Sua doçura, sua meiguice, sua bondade
nunca deram lugar à moleza, à cumplicidade. Temos vários fatos, na sua vida,
que se tornaram marcantes pela sua firmeza de decisão, sobretudo na sua
atividade de mestra das noviças, como veremos mais adiante. De logo, notemos
que Teresa foi, algumas vezes, até severa na
direção e formação de suas coirmãs. Não se trata,aqui, de uma
severidade esquisita e desnecessária, como se fosse apenas para manter uma
ordem à força. Trata-se, antes, de uma severidade, que seria melhor traduzida
por firmeza. Na verdade, quando ela julgava que estava certa,sustentava seu
método e suas decisões com muito empenho. A Irmã Maria da Trindade conta-nos
esse fato interessante, que aconteceu com ela mesma: "Um dia, não
agüentando mais porque me faziam
ficar longe dela, fui à enfermaria e soltei minhas lamúrias, bem alto, diante
de uma de suas irmãs. A Serva de Deus sentiu essa lamentação e me mandou
embora, reprovando-me severamente pela minha falta de virtude. De noite, ela
me mandou esse bilhete: "Minha querida irmãzinha, não quero que você
fique triste; você sabe que tipo de perfeição eu sonho para sua alma, eis por
que lhe falei severamente...Eu a teria consolado docemente, se você não
tivesse proclamado, bem alto, sua pena e se a tivesse guardado no seu coração
todo o tempo que Deus o tivesse permitido..."(38). Portanto, poderíamos
dizer que, severidade, ou firmeza, foi mais uma característica de nossa
Santa, quando exercia sua missão de mestra, sobretudo, com suas noviças. E já que falamos de sua missão de Mestra
de Noviças, podemos, em seguida, comentar essa atividade teresiana, porque
nela se sobressai, de uma maneira maravilhosa, a atividade de orientadora e
de mestra, de Santa Teresinha do Menino Jesus. Vamos descobrir, aí, muitas
outras características dessa sua missão de mestra, que completarão as que já
foram acima enunciadas. No Manuscrito C, Teresa se refere, várias
vezes, à sua missão junto às noviças do Carmelo. Na verdade, após a sua
eleição à Priora, Madre Inês quis
que, ao lado de Madre Gonzaga, a quem ela confiou o cargo de Mestra de
noviças, ficasse Irmã Teresa do Menino Jesus, como sub-mestra. Isso aconteceu
em fevereiro de 1893. A própria Madre Inês declarou que, essa nomeação de
Teresa foi para "contrabalançar a influência incômoda"(39) da Madre
Gonzaga, junto às noviças. Quando Madre Gonzaga foi, novamente, eleita
Priora(21 de março de 1896), conservou, contra toda a expectativa e todo o
costume, o cargo de Mestra de noviças, mantendo, porém, Teresinha como sua
ajudante especial nessa função. Acontece, porém, que Teresa, apesar de ter
professado, continuava também entre as noviças, como nos explica Irmã Maria
da Trindade: "Quando entrei no carmelo em 1894, Irmã Teresa do Menino já
era professa há quatro anos; ela
teria devido pois, segundo nossas regras, sair do noviciado no ano
precedente, porque ficamos no noviciado três anos após a profissão. Não obstante, eu a encontrei ainda entre as
noviças. Madre Maria de Gonzaga, que era, então, mestra de noviças me
explicou que, Irmã Teresa do Menino Jesus
pedira, por humildade, para ficar no noviciado. Por outro lado, Madre
Inês de Jesus, então Priora, acedeu,
de boa vontade, a esse pedido, porque
ela pensava que, Irmã Teresa poderia
ter,assim, uma influência muito feliz sobre as noviças. Em 1896, Madre Maria
de Gonzaga voltou a ser Priora, mas
conservou, ao mesmo tempo, o cargo de Mestra de noviças; ela conservou Irmã
Teresa do Menino Jesus no noviciado, de sorte que Irmã Teresa aí permaneceu,
nessa situação um pouco especial, até sua morte em 1897"(40). No
Processo Informativo Ordinário, Irmã Maria da Trindade disse alguma coisa,
que deve complementar essa sua declaração: "Quando entrei no Carmelo em
1894, Irmã Teresa do menino Jesus já era professa há cerca de quatro anos. Contudo, a seu pedido, tinham-na
deixado no noviciado, onde as sujeições
à Regra são mais rigorosas. Madre Inês de Jesus, que era, então,
Priora, sabendo que os conselhos da Serva de Deus e seus exemplos me seriam
muito úteis, assim como a outras noviças, encarregou-a de nos dirigir e,
sobretudo, de nos repreender por nossas falhas"(41). Portanto, Teresa
foi nomeada sub-mestra de noviças, tanto para contrabalançar a nefasta
influência da Madre Gonzaga, bem como pela sua própria capacidade de ensinar
e orientar as noviças. O Padre
Armando le Monnier, que pregou retiros no Carmelo algumas vezes,
confirma esse juízo sobre essa função
de Teresa, declarando o seguinte: "Quando nos anos 1893, 1894 e 1895, preguei e dirigi os
retiros do Carmelo, tomei conhecimento, pelas confidências das religiosas,
que a Serva de Deus, que tinha, então, 20 a 22 anos, exercia, entre elas,
a função de mestra de noviças, sem
ter o título. Constatei que, as noviças tinham uma grande confiança nela;
elas a consideravam muito virtuosa e
muito esclarecida; seus juízos, sobretudo nas coisas da vida sobrenatural,
pareciam-lhes particularmente sábios"(42). Portanto, fica claro que, Santa Teresinha exerceu, realmente, a função de
Mestra de noviças, dirigindo-as e aconselhando-as com muita clareza,
sabedoria, prudência, simplicidade, vivência e firmeza(43). Examinemos,
agora, com as palavras da própria Santa, como,de fato, tudo isso aconteceu,
ou seja, como foi, realmente, o cumprimento da sua missão de mestra das
noviças. No Manuscrito C, Santa Teresinha lembra à
Madre Gonzaga o fato de ter sido reconduzida por ela ao cargo de auxiliar na
direção das noviças e diz que, ficou admirada, já que era "por demais
pequena" e, então pediu para que a Madre mesma fosse o pastor e que ela
apenas pudesse participar do seu rebanho. Todavia, acrescenta a Santa que a
Madre mandou-a ajudá-la, apesar da
sua inexperiência e da sua juventude, lembrada da palavra de Jesus que aos
pequeninos fora concedida a revelação das coisas do céu.E, logo, a Santa
expõe alguns pontos do seu pastoreio junto às noviças: mostrar-lhes as ervas
melhores e mais fortificantes; mostrar-lhes as flores brilhantes, que não
devem ser tocadas, a não ser para pisá-las(44). Portanto, a Santa tem
consciência que vai orientar a caminhada de um pequeno rebanho. Mais adiante, no mesmo Manuscrito C,
Santa Teresinha volta ao assunto e lembra que, Deus tem "o direito de se
servir de uma de suas criaturas para dispensar às almas, que ele ama, o alimento que lhes é
necessário"(45) Todavia, e aqui mais uma característica da Mestra
Teresa, ela não se esquece de acrescentar, que é apenas " um
pincelzinho, que Jesus escolheu para pintar sua imagem nas almas"(46),
que a Madre Priora lhe confiara. Na verdade, aqui está uma idéia fundamental
do pensamento teresiano, a saber, Jesus é o artista de tudo, nós somos apenas
seus instrumentos. É a graça que opera; as criaturas são instrumentos da
graça! Nossa Santa, em seguida, lembra um fato
que se deu entre ela e a sua companheira de noviciado, a Irmã Marta de Jesus(47). É que a Irmã
Marta devia mudar de comportamento em alguns pontos de seu relacionamento com
a Madre Priora e com outras irmãs. Teresa diz que, esperou
"pacientemente" que Jesus desse o sinal, para que ela pudesse falar
à sua companheira. Refletindo na missão de suas conversas com a irmã,
conforme a permissão da superiora, nossa Santa julgou,um dia, que chegara o
momento. Nessa ocasião, Irmã Marta
notou que Teresinha "não era mais a mesma". Então, a Santa apoiando
a cabeça dela sobre seu coração, disse-lhe,"com lágrimas na voz",
tudo que pensava sobre ela, "mas, com expressões tão ternas,
testemunhando-lhe uma afeição tão grande, que logo suas lágrimas se misturam
às minhas"(48). Aqui, aparecem a coragem, a firmeza, o sentido do
verdadeiro e o desejo de realizar nas pessoas apenas o que é a vontade de
Deus. Foi, assim, que Teresa conseguiu superar as dificuldades da Irmã Marta,
que dirá, depois, que aquele dia ficara para ela inesquecível. Continuando seu discurso sobre seu cargo
de mestra de noviças, Santa Teresinha
lembra que, diante de sua pequenez, colocou-se totalmente nas mãos de
Deus, pedindo-lhe que pusesse nas suas mãos tão somente o alimento que Ele
queria para suas companheiras. E eis outra característica da atividade de mestra de nossa Santa. Ela jamais
confiou em si; jamais quis ser a Mestra.Ela mesma reconhece que, se assim
tivesse agido, teria logo entregado
as armas e acrescenta que, o alimento oferecido por Jesus pelas suas
mãos, mesmo amargo, seria dado por ela, que jamais haveria de procurar outro
alimento. É, pois, unicamente a vontade de Deus que Teresa, em toda sua vida,
haverá de procurar cumprir e haverá de ensinar aos outros. Nada pessoal, nada
simplesmente humano. Suas palavras de mestra serão para ensinar o caminho da
vontade divina. Mas, a Santa traça um esquema de alguns
pontos, diríamos espirituais e psicológicos, que é preciso levar em contar,
quando se trata de dirigir os outros no caminho da formação interior. Segundo Santa Teresinha, para dirigir
pessoas no caminho espiritual, é preciso "se unir cada vez mais a
Jesus"; esquecer os gostos e
as concepções pessoais e "guiar
as almas pelo caminho que Jesus lhes traçou", sem procurar fazê-las caminhar pela sua própria via"; "observar as faltas, as mais leves
imperfeições e lhes travar uma guerra
mortal"(49). Teresinha reconhece que, isso é muito difícil; gostaria mil
vezes mais de receber chamadas do que dá-las; sabe que as noviças a acham
severa, embora aja assim só por dever
de ofício. No fundo, a Santa
reconhece que é preciso amar seus dirigidos com o verdadeiro amor, que
não procura atenção nem quer conquistar seus corações. Ela afirma que, em instruindo os outros,
também aprendeu muito. E enumera alguns pontos da sua experiência na direção
de suas irmãs. Viu, em primeiro lugar, que quase todo o mundo tem os mesmos
combates, mas que os homens são muito diferentes entre si e que,
portanto,"é impossível agir com todos da mesma maneira". Com
alguns, é preciso se humilhar, ser pequeno, confessar também nossas
fraquezas; com outros, é preciso "ter muita firmeza e jamais voltar
atrás sobre uma coisa dita". Ademais, confessa a Santa, as suas armas
invisíveis para a vitória no seu trabalho de direção espiritual foram a
oração e o sacrifício(50). E, aqui, mais uma característica da Mestra Teresa.
Nada ensinar sem rezar; nada ensinar sem estar pronto para se sacrificar por
aqueles que nos estão confiados! Rezar é fundamental na espiritualidade e,
conseqüentemente, nos ensinamentos de Teresa. Ela exclamava na sua
Autobiografia: "Como é grande o poder da Oração! Dir-se-ia uma rainha,
que tem, a cada instante, livre acesso ao rei e que pode obter tudo o que ela pede"(51). E que é, verdadeiramente, a oração? Teresinha
responde, com simplicidade: "Para mim, a oração é um élan do coração, é
um simples olhar lançado para o céu, é um grito de reconhecimento e de amor
no seio da provação como no meio da alegria; enfim, é algo de grande, de
sobrenatural, que me dilata a alma e me une a Jesus"(52). Santa Teresinha amava a oração litúrgica da Igreja, todavia,
recomendava muito aqueles suspiros do coração para Deus, sobretudo, nos
momentos de necessidade. Recitar, muito lentamente, o Pai-Nosso ou invocar,
num momento de aperreio, a Virgem Santa, eis aí o que ela diz ter feito
sempre, quase como que aconselhando-nos a fazer o mesmo. Certa feita, alguém trouxe para os discípulos
de Jesus um menino, que tinha um espírito imundo. Os discípulos não
conseguiram resolver o problema do menino, mas Jesus o conseguiu. Quando
voltaram para casa, os discípulos perguntaram a Jesus por que eles não tinham
podido fazer o milagre. A resposta de Jesus, segundo Marcos, foi: "essa
espécie não pode sair a não ser com oração"(52). E, segundo variante,
Jesus teria dito"a não ser com oração e jejum". A Vulgata, para Mateus 17,20 ou 21,
traz a mesma sentença de Cristo. A verdade é que, Jesus inculcou sempre a
necessidade da oração, da vigilância e da metanóia, o que, em última análise,
significa a necessidade de rezar e de fazer sacrifícios. Teresa, pois, tinha
toda razão em falar de oração e de sacrifício, como duas necessidades insubstituíveis e inseparáveis para se
poder dirigir os homens e ensinar aos
outros os caminhos de Deus. Quem dirige as pessoas deve estar sempre
pronto a ouvi-las, ensina-nos ainda a Mestra Teresa de Lisieux. Todos têm
direito de dizer o que bem querem. É preciso que o mestre esteja pronto para
receber humilhações e respeitar a
liberdade dos dirigidos.(53) Uma última característica da pedagogia
teresiana é procurar saber desculpar
os outros, procurando-lhes, talvez, possíveis boas intenções. Na verdade,
ensinar não é sempre corrigir, mas é sempre descobrir novos caminhos, novas belezas e, às vezes,
as pessoas parecem que estão em erro, mas, na verdade, somos nós quem não as
entende. Por isso, toda a paciência e toda prudência são poucas na arte de
ensinar e dirigir e a essas virtudes nunca pode faltar a caridade, que sabe
sempre perdoar, desculpar e descobrir valores.(54) São muitos, antes, muitíssimos os
depoimentos, que temos a cerca da pedagogia e da maneira reta, prudente e
santa, que Teresinha usou na direção de suas coirmãs. A título de
complemento, selecionamos alguns testemunhos preciosos. "Na condução das
noviças, das quais ela se encarregou, é notável que, ela não procurou
jamais conciliar as afeições
delas por concessões da prudência
humana. Ela só via o interesse de sua perfeição religiosa e esforçava-se para
procurá-la até às custas de sua popularidade. Fui cem vezes testemunha da
fidelidade que ela tinha no agir para com elas,seguindo sua
consciência", depõe Madre Inês de Jesus(55). E a mesma Madre Inês, no
mesmo depoimento do Processo Incoativo Informativo Ordinário, dizia:
"Ela não temia seu sacrifício,advertia sem nada temer, apesar de tudo
aquilo que lhe custava. Fazia-o, contudo, com prudência e discernimento. Dizia-me
claramente: "Há delas que preciso pegar pela pele, e há outras pela
ponta das asas". Não confessava jamais suas penas, seus abusos; jamais
colocou para as noviças questões para satisfazer sua curiosidade; não
procurava atrair seus corações;nas suas necessidades, colocava toda sua
confiança em Deus e implorava,
então, mais especialmente, o socorro da Santíssima Virgem.Disse-me, um dia,
esse pensamento, que transcrevi imediatamente: "Jogo à direita e à
esquerda, para meus passarinhos, os bons grãos que o bom Deus coloca na minha
mão, depois, aconteça o que acontecer, não me ocupo mais com isso; algumas
vezes, é como se não tivesse semeado nada, mas o bom Deus me diz: dá, dá
sempre, sem te ocupar com outra coisa".(56). Irmã Marta de Jesus depôs, com muita
sinceridade: "Posso dizer, com toda a verdade, que Irmã Teresa do Menino
Jesus foi sempre para minha alma uma
verdadeira mãe, pelo cuidado que tinha em me formar.Reconheço que, muitas
vezes, exerci sua virtude, e estou convencida que outra irmã, em seu lugar,
ter-me-ia abandonado, tanto eu era insuportável; mas, ela me tratou sempre
com muito amor e caridade, sem deixar jamais transparecer o menor
enjôo". E, mais adiante, acrescenta: "Considero, como um dom
sobrenatural, o discernimento que a Serva de Deus manifestava na sua conduta com suas noviças. Ela mostrava nisso uma
prudência bem acima de sua idade". E, ainda: "As noviças, que a
contactavam mais, tinham-na como uma santa. Irmã Maria Madalena, que morreu
há pouco e que depôs no primeiro
Processo, evitava, certa época, falar
com ela, porque, dizia, Irmã Teresa do Menino Jesus era santa demais e porque
ela adivinhava tudo o que se passava
na sua alma""(57). O Cônego Pedro Alexandre Faucon, que
ouviu a última confissão de Santa Teresinha, declarou, no Processo Apostólico:"
As religiosas do Carmelo me faziam da Serva de Deus um grande elogio como
mestra e diretora das noviças. Aquelas, particularmente, que estavam sob sua
direção, disseram-me que ela as esclarecia, solucionando suas dúvidas, que as
consolava maravilhosamente, encorajava-as admiravelmente e parecia ler nas
suas almas. Tinha uma resposta para tudo; por isso, como elas a lamentaram
após sua morte!Como ela lhes fazia falta!"(58). Irmã Maria da Trindade conta-nos um fato
interessante, que mostra a pedagogia curiosa de Teresa de Lisieux, na direção de suas noviças: "Minha
exagerada sensibilidade me fazia chorar muitas vezes e por nada. Irmã Teresa
do Menino Jesus, constatando que, essa fraqueza estava obstaculando meu progresso espiritual, teve a idéia
genial, para me curar, de me fazer recolher, cada vez,minhas lágrimas em uma
concha. Esse meio original foi um sucesso para mim!"(59). Os depoimentos das noviças e de outras
religiosas são abundantes. Cada um traz-nos algo de novo, quer sobre a
metodologia empregada, quer sobre o assunto da direção dada. O certo é que,
todos são unânimes em reconhecer, em Teresa de Lisieux, uma Mestra de
primeira qualidade, que vivia o que ensinava, e que usava de muita prudência
e amor no trato com as suas dirigidas. A propósito da direção e dos ensinamentos
de Teresa de Lisieux, vem, aqui, a questão, se ela mesma teve algum diretor. A
esse respeito, a Santa nos diz que teve dificuldades, no início, de abrir sua
alma para seus orientadores, mas que nunca se negou a fazê-lo. Antes,
procurou diretores. Um a intimidou e não soube ler sua alma;outro não teve
muito tempo para ela; alguns a compreenderam e lançaram-na, de velas soltas,
no mar da confiança e do amor. Todavia, por circunstâncias várias, terminou
ficando somente com o Diretor dos diretores, Jesus(60). Irmã Genoveva, na segunda vez que
testemunhou nos Processos de Beatificação e Canonização de Teresa de Lisieux,
explicou o que quis dizer, quando afirmou que sua irmã não teve, propriamente
falando, um diretor espiritual: "Eu entendia por isso que, ela não sentia
a necessidade de uma direção espiritual habitual, distinta da
confissão, como se pratica, muitas vezes, na França, mas ela tinha o cuidado
de pedir conselho cada vez que encontrava uma dificuldade na sua vida
espiritual"(61). Mas, Santa Teresinha não foi Mestra
somente de algumas noviças. Ela foi orientadora e formadora até mesmo de suas próprias irmãs, Celina, Maria e
Paulina. A antiga aluna se tornou a mestra de suas mestras. Quanto a Celina, podemos notar que, mesmo
antes de sua entrada no carmelo, Teresa já exercia sobre ela uma grande
influência através de suas cartas. Com muito jeito e muito amor, nossa Santa
soube fazer que, Celina caminhasse como ela o desejava. E, quando não pode
cancelar um compromisso social de Celina, que não era de seu gosto, rezou ao
Senhor e tudo terminou como ela desejava. Mais tarde, quando Celina entrou para o
Carmelo, em 1894, foi fazer seu noviciado sob a direção de Teresa. As orientações recebidas por Carta, ou no
parlatório, tornaram-se, agora, freqüentes e constantes. E Santa Teresinha
soube modelar, perfeitamente, a alma de sua irmã querida. O temperamento
vivo, irrequieto, meio altivo, de Irmã Genoveva, foi aproveitado e sublimado.
Quem lê as "Ultimas Conversas" de Santa Teresinha com Irmã Genoveva
e, também, os "Conselhos e Lembranças", fica logo convencido, que a
verdadeira mestra de Celina e de Irmã Genoveva de Santa Teresa foi mesmo sua
irmãzinha adorada. E Teresa sempre
soube acertar, perfeitamente, na direção espiritual de sua irmã. Tome-se,como
exemplo, esse depoimento da própria Irmã Genoveva: "A Serva de Deus
ensinava aos outros essa perfeita
pobreza, que ela mesma praticava. Eis algumas instruções, que me deu a esse
respeito. A propósito de um alfinete inglês, que me tinham tirado e que eu
lamentava, Irmã Teresa do Menino Jesus me disse: "Oh! como você é rica! Você
não pode ser feliz!...Observei que se dá ainda com bastante boa vontade, mas
há poucas almas que deixam lhes tirar o que lhes pertence, e,contudo, a
palavra do Santo Evangelho está lá:"Se tomam o que lhe pertence, não o
reclame"(62). Irmã Maria do Sagrado Coração, devido à
sua idade e à sua posição de irmã muito velha e mesmo de madrinha e de quase
mãe com relação a Santa Teresinha, não foi uma aluna constante, como o foi Celina, da nossa
Santa.Todavia, confessa, claramente, que, antes de entrar no carmelo, sempre
admirou a perfeição de Teresinha e, após ter reencontrado no Carmelo sua
santa Irmã, tornou-se, pouco a pouco, sua grande dirigida. Teresa soube
convencê-la a fazer o Ato de Oferta ao Amor Misericordioso do bom Deus e foi
para ela, atendendo, aliás, um pedido seu,em setembro de 1896, que nossa
Santa escreveu o chamado Manuscrito B, que é uma síntese de toda a mensagem
espiritual teresiana. E Irmã Maria do Sagrado Coração, apesar
de seu temperamento não inclinado a
se deixar levar por outra cabeça que não a sua, confessa, com humildade, que,
às vezes, fora, no Carmelo, corrigida e dirigida pela sua afilhada, que ela
considerava uma santa: "Um dia, em que ela me viu acabar de escrever uma linha após a hora, disse-me:
"Valeria mais perder isso e fazer um ato de regularidade. Se soubesse o
que ele é!". E, ainda: "No seu leito de morte, num momento em que
era consumida pela febre, quis tirar o lençol de cima de seus pés. Ela me
disse: "Não é, talvez, permitido""(63). A própria Madre Inês, sua segunda mãe e
sua priora no Carmelo, não pôde resistir, com toda sua altura de conhecimentos
e de cargo, e terminou, também, como discípula de sua filha e irmã querida. Nos Buissonnets, Teresinha foi a filhinha
querida, que aprendia tudo, ou quase tudo, de Paulina e de Maria. Mas, no
Carmelo, a garota de quinze anos, que fizera tudo para entrar no mosteiro
ainda bem jovem, assombrou todo o
mundo,inclusive às suas antigas mestras. Agora, Teresa segue segura na sua
estrada de amor, equilibrada,
harmoniosa, quase perfeita em tudo. Madre Inês, que está quase sempre a seu
lado, observa de soslaio e descobre que sua irmã e filha é uma santa. Então,
orientada por Maria, ordena que ela escreva
lembranças da sua vida; anota, nos últimos meses de 1897,durante a
fase final da doença da Santa, todas as suas principais mensagens. Está
convencida, enfim, que Teresa é uma grande mestra de espiritualidade. E como Madre Priora, tão importante que
disputava,talvez sem querer, o poder com a Madre Gonzaga, confessa,
humildemente, que Teresa foi também sua mestra: "Vou contar, mais
particularmente, alguns conselhos, que ela me deu a mim mesma, conselhos, que
manifestam sua grande prudência e a segurança de suas direções espirituais. Um
dia, pedi-lhe conselho, sendo priora. "Uma madre priora, disse-me,
deveria sempre deixar crer que ela não tem nenhum sofrimento. Dá muita força, não confiar suas penas! Por
exemplo, é preciso evitar dizer: Você
tem problema,eu também o tenho com tal irmã,etc..." Ela disse, outra vez, a mim e as minhas duas irmãs, quando saíamos do parlatório:
"Atendam bem à regularidade. Depois do parlatório, não parem para
conversar entre si; pois, então, seria como se estivessem em casa, quando não
se é privado de nada...Quando eu não estiver mais aqui, façam atenção para
não levar entre si a vida de
família"(64). Nas declarações dos Processos de Canonização e nas
"Últimas Conversas" aparecem, muitas vezes, essas orientações de
Santa Teresinha a sua própria segunda mãe, que,também, foi-lhe Madre Priora,
no Carmelo de Lisieux. Mas, Santa Teresinha não foi apenas uma
Mestra de noviças e de algumas outras religiosas do Carmelo de Lisieux, ela é uma Mestra consumada de
espiritualidade, cujo mensagem tem atravessado os anos com força e vitalidade
admiráveis, uma vez que é profundamente evangélica. Mas, antes de falar
propriamente dessa sua grande mensagem, anotemos, a título de complemento,
alguns de seus ensinamentos práticos, que demonstram, tão bem, a lucidez, a
simplicidade e a funcionalidade do caminho teresiano. Sobre a vida de comunidade: "Na
comunidade, cada uma deve procurar bastar-se a si mesma, e não pedir
serviços, sem os quais a gente pode passar...Para só pedir dispensas e licenças no último caso, digam,
interiormente,"se cada uma fizesse a mesma coisa?...a resposta lhes fará
ver, imediatamente, a desordem,que resultaria e lhe dará o equilíbrio, que se deve ter...Às vezes, a gente se
sente fatigado somente porque os outros se esqueceram de nos lamentar. Se
alguém disser a uma irmã: "A senhora está muito cansada, vá
descansar", imediatamente ela não sentiria mais a fadiga...Quando todos
faltassem ao cumprimento da Regra, não seria isso uma razão para nos
justificar. Cada uma deveria agir, como se a perfeição da Ordem dependesse de
sua conduta pessoal...Quando vocês virem várias irmãs conversando juntas, não
parem:isso não é mortificação"(65) Sobre a santidade: "Se você quer
chegar à santidade, é preciso não se contentar em imitar os santos, mas é
preciso que você seja perfeita como o Pai celeste é perfeito. Não acredite
que, para chegar à perfeição seja necessário fazer grandes coisas. Oh, não!
nosso amor basta para Nosso Senhor. Demos-lhe tudo o que Ele nos pede sem
fazer reserva. É tão doce se
sacrificar por aquele que a gente ama
mais do que a si mesmo! Então, nada custa e tudo se torna fácil!(66). Sobre problemas de família:
"Confie-os ao bom Deus e não se inquiete mais: tudo ficará bom pra eles.
Se vocês mesma se inquieta, o bom
Deus não se inquietará com o problema, e você privará seus parentes das
graças que você lhes teria obtido pelo seu abandono"(67). Sobre as tentações: "Observe o
método empregado para fazer brilhar os cobres; untam-nos com lama, com
materiais que os sujam e os tornam
deslustrados; após essa operação, eles brilham como o ouro! Pois bem,
as tentações são como essa lama para a alma; elas só servem para fazer
brilhar em nós as virtudes opostas a essas mesmas tentações"(68). Esses breves ensinamentos, ou mensagens,
mostram, maravilhosamente, como Santa Teresinha tinha conhecimento da alma
humana e como, muito simples mas profundamente, ela conseguiu atingir o alvo
de suas recomendações. Ontem, como hoje, a praticidade, a simplicidade, a
profundidade, o esclarecimento, a funcionalidade dos ensinamentos teresianos
foram e são vivos, atuantes, práticos e efetivos. Mas, a grande lição de Santa Teresa de
Lisieux é seu Caminho"bem reto, bem curto, um caminhozinho inteiramente
novo"(69). É esse caminho, que já recebeu tantos elogios e tantos
comentários; que já salvou tanta gente e que também já foi tão
incompreendido, que é o grande ensinamento de Teresa de Lisieux. Agora, não vamos examinar esse caminho
teresiano. Vamos, apenas, considerá-lo em geral, isto é, como nasceu, quê
significa, qual o seu valor. Mais adiante é que vamos detalhar o mapa do
caminho, na intenção de torná-lo mais conhecido e mais palmilhado. Madre Inês de Jesus, nos últimos meses da vida da nossa Santa, tomou o
cuidado precioso de anotar, carinhosamente, algumas palavras e mensagens que
sua irmã doente dizia, no seu leito de dor. Pois bem, no sábado do dia 17 de
julho de 1897, Madre Inês ouviu umas palavras memoráveis, que ela transcreveu
à medida que ia ouvindo-as de Santa Teresinha, embora haja algumas pequenas
diferenças nas várias transcrições do texto e que, também, a própria Madre
Inês confesse, no Processo Apostólico: "Lembro-me que não pude
transcrever senão incompletamente o que ela me dizia sobre o caminho de
infância, sua explicação era muito desenvolvida, mas não me lembro o
bastante para reconstituí-la"(70).
Mesmo assim, vamos tentar transcrever as palavras escritas por Madre Inês,
fazendo fé que elas transmitam o pensamento verdadeiro de Santa Teresinha e
acreditando que a Santa tenha pronunciado mesmo todas as palavras escritas no
texto da Madre. Por outro lado, devemos observar que, as variantes das
diversas transcrições não são importantes, a ponto de transformar o sentido
conjuntural do texto.. Todo cuidado,porém, é pouco em assunto de tanta monta
e tão importante significado e sentido. E, aqui, está o texto da Madre Inês,
conforme se encontra no texto do Processo Apostólico, usado por nós:
"Sinto que vou entrar no repouso. Mas, sinto, sobretudo, que minha missão vai começar, minha missão de
fazer amar o bom Deus como o amo, de
dar meu caminhozinho às almas. Se o
bom Deus ouvir meu desejo, meu Céu vai se passar fazendo o bem sobre a
terra até o fim do mundo. Sim, sim, quero passar meu Céu fazendo o bem sobre a terra. Isso não é
impossível, pois que, mesmo no seio da visão beatífica, os anjos velam sobre
nós. Não poderei gozar de meu repouso, enquanto houver almas para salvar;
mas, quando o anjo disser: "Não há mais tempo!", então, eu
repousarei, porque o número dos eleitos estará completo, e porque todos terão
entrado na alegria e no repouso... Meu
coração exulta com esse pensamento".-"Que caminho você quer ensinar às almas?", disse-lhe eu.
-"Minha Madre, é o caminho da infância espiritual, é o caminho da
confiança e do total abandono. Quero lhes ensinar os pequenos meios, que
serviram tão perfeitamente para mim, dizer-lhes que só há uma coisa a fazer
aqui na terra: jogar para Jesus as flores dos pequenos sacrifícios, pegá-lo
com carícias; foi assim que o peguei e será por isso que serei tão bem
recebida"(71). Deixando de lado as pequenas variações
das várias transcrições dessas palavras memoráveis de Santa Teresinha, vemos aí que, pouco antes de morrer, nossa
Santa queria, com entusiasmo e convicção, começar uma missão, que era a de
ensinar aos homens o seu caminho de confiança e de total abandono nas mãos de
Deus; caminho das pequenas coisas para pegar a Deus pelo coração, com as
carícias de pequenos sacrifícios. Teresa sente, pois, que sua missão vai
começar, mas teria dito melhor que ia
continuar, porque, segundo o depoimento de Irmã Maria da Trindade : "O
que ela chamava "seu caminhozinho de infância espiritual" era o
objeto contínuo de nossas conversas"(72). Mas, é claro que nossa Santa
queria se referir à sua nova missão de ensinar no mundo inteiro, e, não,
apenas, no Carmelo de Lisieux. Era, de fato, uma nova missão. Era, de verdade,
sua missão!. Irmã Genoveva sintetiza, assim, o
"pequeno caminho" de Teresa: "O conjunto de sua doutrina espiritual e de suas
direções se resume no que ela chamava "seu caminhozinho de
infância". Ele se liga, parece-me, a duas idéias gerais: o abandono e a
humildade. Estudei-o particularmente sob esse último aspecto, que foi o que
mais me tocou, nas instruções de Irmã Teresa do Menino Jesus a suas
noviças."Para caminhar no seu "caminhozinho" -dizia ela - é
preciso ser humilde, pobre de espírito e simples"(73). Pelas palavras da Santa, citadas acima,
sabemos que seu caminho é feito dos pequenos meios, que lhe serviram
perfeitamente. Logo, fica claro que, foi com sua experiência espiritual que
ela ordenou sua mensagem, seu caminho. Foi Deus, com sua luz divina, que
iluminou Teresa de Lisieux, para que ela descobrisse, numa época de certa
burguesia religiosa e espiritual, a estrada certa e verdadeira do evangelho. Certo
dia, Irmã Maria da Trindade lhe fez essa pergunta: "Quem lhe ensinou seu
"pequeno caminho de amor", que dilata tanto o coração?". A
Santa lhe respondeu, sem rodeios: "Foi Jesus só quem me instruiu. Nenhum
livro, nenhum teólogo mo ensinou, e, contudo, sinto, no fundo do meu coração,
que estou na verdade. Não recebi encorajamento de ninguém, salvo de Madre
Inês de Jesus. Quando a ocasião se apresentou para abrir minha alma, era tão
pouco compreendida, que dizia ao bom Deus, como São João da Cruz: "Não
me envieis mais doravante mensageiro, que não saiba me dizer o que
quero"(74). Chega a ser engraçado, embora muito
sério, mesmo porque denota o espírito
de amor e reverência que Teresinha tinha para com a Igreja, o Papa e as
autoridades eclesiásticas, o fato que a mesma Irmã Maria da Trindade nos relata
em seguida: "Ela me perguntou, certo dia, se eu abandonaria , após sua
morte, seu "caminhozinho de confiança e de amor"?. -Seguramente,
não, disse-lhe eu, creio nele tão firmemente, que me parece que, se o Papa me
dissesse que a senhora se enganou, não poderia crer nele". -"Oh!,
replicou ela vivamente, seria necessário crer no Papa antes de tudo; mas, não
tenha medo que ele venha lhe dizer
para mudar de caminho, eu não lhe darei o tempo, pois, se, ao chegar no céu,
tomar conhecimento de que a induzi em erro, obterei do bom Deus a permissão
para vir adverti-la imediatamente. Até lá, creia que meu caminho é seguro e
siga-o fielmente"(75). É curioso como a Santa estava convencida
de que tinha uma missão; de que tinha um novo caminho pra ensinar ao mundo;
de que estava certa com seu novo caminho. A denominação de "infância
espiritual" para o caminho de Santa Teresinha fez que, muita gente o julgasse de uma maneira totalmente
errada, ou seja, como sendo uma mensagem simplesmente infantil, ou cheia de
infantilices, com meios de santificação cor de rosa. Na verdade, o caminho de
Teresa de Lisieux é o evangelho puro e simples. É fruto de uma teologia viva
e vital. É a transcrição mais pura da própria santidade de Deus, aparecida em
Jesus. Num dia de setembro de 1896, Irmã Maria
do Sagrado Coração pediu a Santa Teresinha, que ela lhe escrevesse sobre seu
pequeno caminho espiritual. A Santa atendeu ao pedido de sua madrinha e irmã.
O resultado foi o Manuscrito B, da sua Autobiografia. Nesse Manuscrito,
Teresa se refere à "Ciência do Amor", dizendo: "eu só desejo
essa ciência"(76). Essa ciência do amor, pela qual a jovem Santa, como a
Esposa dos Cânticos, tendo dado todas
suas riquezas, julga que não deu nada, é, exatamente, a mensagem espiritual,
que ela foi formando, no passar dos seus anos, e que nos deixou, como seu
grande legado, sob o nome mais conhecido de "pequeno caminho". Na
verdade, como veremos mais adiante, tudo, na essência da mensagem teresiana,
se reduz ao amor e é dele que parte para, depois, a ele voltar, fazendo a
grande roda viva do amor. Em outra parte, examinaremos os detalhes
de todo o "pequeno caminho", ou da "ciência do amor",
mas, aqui, seguindo as palavras da Santa, vão ficar expostas as balizas da
espiritualidade teresiana. A própria Santa, no Manuscrito B, explicando sua "ciência do amor", escreve
sobre o móvel primeiro de todo o seu edifício espiritual:"Compreendo,
muito bem, que só o amor pode nos tornar agradáveis ao Bom Deus e que esse amor é o único bem, que
ambiciono"(77). Portanto, o amor é a razão de tudo; ele é o único bem
que se deve ambicionar. E, como chegar a esse amor? Como chegar a
possuir a "ciência do amor"? Santa Teresa de Lisieux responde:
"Apraz a Jesus me mostrar o
único caminho, que conduz à essa fornalha Divina, esse caminho é o abandono
da criancinha, que adormece, sem medo, nos braços de seu Pai..."(78). Aqui,
está o começo da exposição da dialética teresiana: o amor é tudo e para
chegar à fonte de todo amor há um caminho, que é, exatamente, a atitude de
uma criancinha, que se abandona, sem medo, nos braços do seu pai. Aqui, está,
em poucas palavras, a síntese também do que é o "pequeno caminho"
teresiano: caminhar no amor e para o
amor, como uma criancinha inocente anda, cheia de confiança, nos
braços de seu pai.Na verdade, dessa atitude, desse início, desse
posicionamento espiritual vai sair toda uma caminhada do homem, neste mundo,
para Deus, totalmente evangélica, sem rodeios, sem complicações, sem torturas
psicológicas, com um relacionamento profundamente humano e divino entre a criatura
e seu Criador. Tudo isso é e provoca o "pequeno caminho" de Teresa,
que é feito, evangelicamente, para todos os homens, como a própria Santa o
confirma mediante várias citações bíblicas(79). O "pequeno caminho"
de Santa Teresinha não é mais uma espiritualidade entre as muitas, que
existem dentro da Igreja Católica. Não, absolutamente não. O "pequeno
caminho" é a estrada mesma da evangelho; é também uma conseqüência
teológica do e no relacionamento do homem com seu Deus; é a dialética
espiritual mais essencial, cristãmente falando, da caminhada do homem neste
mundo rumo ao cumprimento de sua própria realidade existencial cristã. Em
Teresa de Lisieux, tudo parece simples e o é, mas, por trás dessa
simplicidade, há uma lógica férrea,
como no próprio Deus. Coube a Santa Teresinha, nos nossos
tempos, essa missão estupenda de convocar os homens, seus irmãos, para
caminharem, como Deus pediu e ensinou, na realização de suas próprias
existências. Caminharem, como, de fato, o são, isto é, criaturas fracas e
imperfeitas. Por isso, Teresa de Lisieux escreveu: "Ah! se todas as
almas fracas e imperfeitas sentissem o que sente a menor de todas as almas, a
alma de vossa Teresinha, nem uma só
desesperaria de chegar ao cume da montanha do amor, pois que Jesus não
pede grandes ações, mas somente o abandono e o reconhecimento, visto que ele disse no Salmo 49: "Não tenho
necessidade dos bodes dos vossos rebanhos, porque todos os animais das
florestas me pertencem e os milhares de animais, que pastam sobre as colinas,
conheço todos os pássaros das montanhas... Se tivesse fome, não diria a vós,
pois a terra e tudo que ela contém me pertencem. Devo, por acaso, comer a carne dos touros e beber o sangue dos
bodes?...IMOLAI A DEUS SACRIFÍCIOS DE LOUVORES E DE AÇõES DE GRAÇAS"(80).
Eis aí tudo o que Jesus reclama de nós, ele não tem necessidade de nossas
obras, mas somente de nosso amor, pois, esse mesmo Deus, que declara não ter
absolutamente necessidade de nos dizer se tem fome, não teve medo de mendigar um pouco de água à Samaritana. Ele tinha
sede... Mas, ao dizer: "dá-me de beber"(81), era o amor de sua
pobre criatura, que o Criador do universo reclamava. Ele tinha sede de
amor... Ah! sinto-o mais do que nunca: Jesus está sedento! Ele só encontra
ingratos e indiferentes entre os discípulos do mundo e entre seus discípulos,
encontra, ah! poucos corações, que se entregam a ele sem reserva, que
compreendem toda a ternura de seu Amor infinito"(82). O "pequeno caminho" de Santa
Teresinha é a subida amorosa, simples, cheia de quedas, confiante, e alegre
da Montanha do Amor. Ninguém é excluído dele; todos são convocados para
seguí-lo, porque ele é totalmente
direto, curto e simples para quem,como nós, pobres criaturas fracas e
imperfeitas, quiser chegar ao seio da fornalha ardente do Amor, que é a
Trindade, três vezes Santa e Adorável. NOTAS (1) -P.A.p.249 (2) -P.A.pp.249-250 (3) -P.A.p.489 (4) -NTab.p.130 (5) -P.A.p.494 (6) -P.A.pp.494-495 (7) -P.A.pp.413,414,415,416,417 (8) -P.A.p.416 (9) -P.A.p.249 (10)-P.A.p.417 (11)-P.A.p.382 (12)-P.A.p.242 (13)-P.A.p.321 (14)-P.A.p.321 (15)-P.O.p.494 (16)-P.A.pp.339-340 (17)-P.A.p.341 (18)-P.O.p.63 (19)-P.A.p.479 (20)-P.A.p.334 (21)-P.O.p.582 (22)-P.A.pp.321-322 (23)-CT 190 (24)-P.A.p.324 (25)-P.A.p.341 (26)-P.A.p.323 (27)-P.A.p.238 (28)-PN 24 (29)-Mt 10,16 (30)-P.A.p.181 (31)-P.A.p.303 (32)-P.O.p.428 (33)-P.A.p.187 (34)-P.A.p.244 (35)-P.A.p.244 (36)-A Santa se refere à Irmã Marta de Jesus. (37)-M.C, 26r (38)-P.A.p.491 (39)-P.A.p.144 (40)-P.A.p.466 (41)-P.O.p.451 (42)-P.O.p.582 (43)-Quando Santa Teresinha começou seu trabalho com as noviças
em fevereiro de 1893, o noviciado
era composto de duas irmãs conversas:Irmã Marta de Jesus (23-12-1887)e Irmã Maria Madalena do
Santíssimo Sacramento(22-07-1892).
Posteriormente, entraram no noviciado: Irmã Maria da
Trindade(16-06-1894); Irmã
Genoveva de Santa Teresa(inicialmente, chamada Irmã Maria da Santa Face:14-09-1894); Irmã Maria da
Eucaristia(15-08-1895).<me> (44)-M.C, 3v-4r (45)-M.C, 20r (46)-M.C, 20r (47)-A Irmã Marta de Jesus foi uma religiosa do véu branco, ou
seja, uma irmã conversa. Nascida
aos 16 de julho de 1865, perdeu a mãe logo cedo e foi educada pelas irmãs de caridade. Entrou
no Carmelo de Lisieux, aos 23 de
dezembro de 1887. Foi sempre muito devotada aos seus trabalhos, porém,
com seu espírito um pouco
inclinado à contradição, fez as irmãs sofrerem com ela. Santa Teresinha, com o propósito de encorajá-la, às
vezes se deixou inclinar aos
seus gostos. Os depoimentos de Irmã Marta de Jesus, nos Processos de Beatificação e
Canonização de Santa Teresinha, são muito ricos em pormenores preciosos.<me> (48)-M.C, 21r-21v (49)-M.C, 22v-23r (50)-M.C, 23v-26r (51)-M.C, 25r (52)-Mc 9,26 (53)-M.C, 26v (54)-M.C, 27v (55)-P.O. p.165 (56)-P.O. p.144 (57)-P.A. pp.414,418,419 (58)-P.A. p.423 (59)-P.A. p.479 (60)-M.A, 70r-71r (61)-P.A. pp.288-289 (62)-P.A. pp.303-304 (63)-P.A. p.242 (64)-P.A. pp.181 e 182 (65)-P.A. p.290 e 467;P.O. p.431 (66)-P.A. pp.413-414 (67)-P.A. p.473 (68)-P.A. p.479 (69)-M.C, 2v (70)-P.A. p.200 (71)-P.A. p.200. Existem algumas variantes nas
transcrições dessas palavras de
Santa Teresinha. Exemplos: O texto das "NV" começam já por
"Sinto que minha missão
vai começar"; no Caderno Amarelo está escrito: "Se o bom Deus ouvir meus desejos, meu Céu se passará sobre a terra até o fim do
mundo. Sim, quero passar meu Céu
fazendo o bem sobre a terra". Assim também se encontra esse texto no Processo Ordinário, mas nos
"Cadernos Verdes", ele
começa logo com: "Quero passar meu Céu fazendo o bem sobre a
terra até o fim do
mundo". Nas "NV", o texto é igual ao dos "CV", porém
termina com "...fazendo o
bem sobre a terra". Há outras variantes nas diversas transcrições, que,porém, não
mudam o sentido das palavras teresianas. (72)-P.A. p.488 (73)-P.A. pp.290-291 (74)-P.A. p.480. S.João da Cruz, Cântico Espiritual,estrofe
6,v 3-5 (75)-P.A. pp.480-481 (76)-M.B, 1r (77)-M.B, 1r (78)-M.B, 1r (79)-Santa Teresinha cita, em abono às suas idéias: Prov 9,4;
Sab 6,7;Is 40,11; 46,13 e
12<me> (80)-Traduzimos o texto teresiano como ele se encontra no
Manuscrito. A Bíblia de Jerusalém cita essa passagem do Salmo
50, da seguinte maneira: "Não vou
tomar um novilho de tua casa, nem um cabrito dos teus apriscos; pois
são minhas todas as feras da
selva, e os animais nas montanhas, aos milhares; conheço as aves
todas do céu, e o rebanho dos campos me pertence. Se eu
tivesse fome não o diria a ti, pois o mundo é meu, e o que nele
existe. Acaso comeria eu carne
de touros, e beberia sangue de cabritos? Oferece a Deus um sacrifício de confissão e cumpre teus votos ao
Altíssimo".<me> (81)-Jo 4,7 (82)-M.B, 1v. TERESA, DOUTORA João Paulo II, em outubro de 1970,proclamou
duas grandes mulheres, como Doutoras da Igreja. São elas Teresa de Ávila e
Catarina de Sena. Foram as primeiras e as únicas até o dia de hoje. Santa Tersinha do Menino Jesus tem tudo,
a nosso ver, para ser proclamada, um dia, também, doutora da Igreja. Já se
falou sobre isso e até um livro sério foi escrito, na França, sobre esse
tema(1). Na verdade, o importante não é que ela seja proclamada,oficialmente,
Doutora da Igreja, o que seria muito bonito
e bom, mas é que sua mensagem já foi, através dos pronunciamentos dos
Papas, proclamada como caminho seguro de santidade evangélica. Ademais, a mensagem teresiana, segundo
pronunciamentos de Pio X, Bento XV, Pio XI, Pio XII, João XXIII, Paulo VI e
João Paulo II, está, mais do que nunca, confirmada em graça na fé da Igreja
e, sobretudo, tida e havida, como correspondente às necessidades dos tempos
atuais. No Manuscrito B, nossa Santa, no auge do
seu entusiasmo espiritual, escreveu:"Ah! apesar da minha pequenez,
quisera iluminar as almas como os Profetas, os Doutores..."(2). Iluminar
e esclarecer os homens com a luz da fé, como fizeram e fazem os doutores da
Igreja, eis um sonho de Teresa no seu arroubo de amor. Esse sonho,
certamente, se tornou uma realidade. Não se pode contar o número das pessoas,
que se converteram à fé católica, ou que se reavivaram na vivência da sua fé,
escutando e seguindo a mensagem teresiana. Ela, de fato, continua
sendo uma Mestra perfeita gerações após gerações. Apesar de todo esse sonho teresiano, é
preciso fazer notar algumas atitudes e palavras de nossa Santa justamente com
relação a teólogos e teologia. Conta-nos Irmã Maria da Trindade que, certa
feita, perguntou a Santa Teresinha: "Quem lhe ensinou seu
"caminhozinho de amor", que dilata tanto o coração?". A esse
pergunta, a Santa respondeu: "Foi somente Jesus quem me instruiu. Nenhum
livro, nenhum teólogo mo ensinou e,
contudo, sinto, no fundo do meu coração, que estou na verdade. Não recebi
encorajamento de ninguém, salvo da Madre Inês de Jesus. Quando se apresentou
a ocasião para abrir minha alma, era tão pouco compreendida, que dizia ao bom
Deus como S.João da Cruz: "Não me envie mais doravante mensageiro, que
não saiba me dizer o que quero""(3). Evidentemente não se pode tomar essa
resposta de Santa Teresinha como uma ofensa à teologia e aos teólogos. A
Santa quis dizer, mui simplesmente,que, nesse seu particular, não recebeu
luzes de ninguém, mas apenas e tão só de Jesus. Aliás, na sua Autobiografia,
Santa Teresinha diz a mesma coisa com estas palavras: "A via, pela qual
eu caminhava, era tão reta, tão luminosa que não me era necessário outro
guia além de Jesus...Comparava os diretores
a espelhos fiéis, que refletiam Jesus nas almas e dizia que, para mim, o Bom
Deus não se servia de intermediário, mas agia diretamente!..."(4). Madre
Inês esclareceu essas palavras de sua Irmã, dizendo que: "ela não põe,
como princípio, que sempre é esclarecida
diretamente por Deus e que não tem necessidade dos conselhos dos
diretores. Ela fala de um momento determinado de sua vida, em que,
efetivamente, nenhuma obscuridade
tornava incerto seu caminho; trata-se dos dois anos, que precederam
sua entrada no Carmelo, Mas, no Carmelo,o sol se cobriu para a Serva de Deus
e ela buscou, avidamente, ser esclarecida, desconfiando, aliás, de suas
próprias luzes. Eu a vi consultar, não somente os padres, mas, no mosteiro,
aquelas que tinham autoridade sobre ela, e até outras madres anciãs, como
Madre Genoveva, nossa fundadora,Madre Coração de Jesus, antiga priora do
Carmelo de Coutances, e seguir também meus conselhos pessoais. Sei que ela
confiava tudo aos padres: seus temores de ofender a Deus, seus desejos de se
tornar uma santa, as graças que recebia do céu; ela solicitou ao Padre Alexis
para sancionar seu caminho de abandono e de confiança; ela submeteu aos
padres seu ato de oferta ao amor misericordioso; enfim, ela pediu a vários
ajuda e consolação, para se conduzir com prudência na sua grande provação
contra a fé. Ela dizia, no seu leito de morte: "Não há ninguém menos
segura de si mesmo do que eu". Embora ela se sentisse muito atraída para seu caminho de amor e
de abandono, não se entregou a ele, com plena confiança, senão quando o Padre
Alexis lhe disse que ela estava no bom caminho, o que não diziam muitos
diretores antes dele. "Até então, escreveu ela, não ousava avançar sobre
as ondas da confiança, as quais, contudo, me atraíam muito
fortemente""(5). Como se vê, Santa Teresinha, embora
reconhecesse que recebia muitas graças e muitas luzes diretamente de Jesus,
nunca deixou de desconfiar de si mesma e sempre procurou a orientação da
Igreja através dos padres e de suas coirmãs. É verdade que, ela declara, expressamente,
que se sente na verdade, mas,é verdade também que, apesar disso, sempre quis
ter a segurança de quem recebe uma confirmação autorizada. A Santa, como uma grande mística, tinha,
pois, suas luzes especiais, mas, também, tinha suas escuridões e, por isso,
de Jesus e de outra pessoas sempre procurou a paz para seu coração e o
esclarecimento para sua caminhada. É o que ela quis dizer, na sua
Autobiografia, quando escreveu: "Não creia, que eu nade nas consolações.
Oh! não, minha consolação é de não tê-las na terra. Sem se mostrar, sem fazer
ouvir sua voz, Jesus me instrui em segredo, não é por meio dos livros, pois
não compreendo o que leio, mas, às vezes, uma palavra como esta que encontrei
no final da oração( após ter ficado no silêncio e na secura), vem me
consolar: "Eis o mestre que te dou, ele te ensinará tudo que deves
fazer. Quero te fazer ler no livro da vida, no qual esta contida a ciência do
AMOR"(6). Como se vê, é o bom Deus, que instrui sua
querida em segredo(7), quando ela não entende o que lê nos livros. Mais
tarde, será um teólogo, que vai ajudá-la, quando quer escrever certinho os
seus sentimentos e suas idéias sobre a oferta ao amor misericordioso do bom
Deus. Com efeito,Madre Inês, no Processo Ordinário, a respeito desse fato, testemunhou:
"Ela compôs, então, a fórmula de sua doação e a submeteu a mim,
exprimindo também o desejo de fazê-la
examinar por um teólogo. Foi o Reverendo Padre Le Monnier, superior dos
missionários da Délivrande, que a examinou. Ele respondeu, simplesmente, que
não encontrava nada de contrário à fé; contudo, que não se devia dizer
"Sinto em mim desejos infinitos", mas "Sinto em mim desejos
imensos". Foi um sacrifício para a Serva de Deus; ela o aceitou,
contudo, sem recriminar de modo algum. Aliás, o principal era aprovado e sentiu por isso muita
alegria"(8). Feitas algumas correções em certas afirmações das
testemunhas desse caso(9), o fato é, para nós, muito especial. Primeiro, pelo
desejo da própria Santa de que sua fórmula de consagração fosse examinada por
um teólogo, e isso mostra, muito bem, o respeito pela autoridade na fé e pela
vontade de andar sempre na verdade, bem como demonstra a humildade de Santa
Teresinha. Segundo, porque a correção proposta pelo teólogo foi um desastre. Diz
Madre Inês que a Santa sofreu bastante para mudar o seu texto, mas o fez sem
recriminação. Só isso mostra a santidade de Teresinha e, ao mesmo tempo, a
sua inteligência que, neste caso, está muito superior a do teólogo
consultado. Oficialmente, Santa Teresinha ainda não
foi declarada doutora da Igreja,mas é
importante observar que ela se interessou, muitíssimo, por certas questões
teológicas, sobretudo, por aquelas que dizem respeito à vida cotidiana, por
aquelas que costumam provocar perguntas entre o povo cristão. Santa
Teresinha, diga-se logo, não foi uma teóloga no sentido estrito da palavra,
mas seu interesse teológico é tão grande e interessante, que merece uma
consideração aprofundada. Logo nos inícios da sua Autobiografia,
Teresa de Lisieux se põe um problema teológico de primeira grandeza, a saber,
como pode haver, em Deus, que é imutável, eterno e absoluto, preferências com
relação aos homens. Ora bem, o problema já se grave, quando é posto
simplesmente no seu posicionamento mais elementar, isto é, quando se pergunta
como pode Deus amar os homens, ou mesmo ainda, como pôde Deus criar os
homens, quanto mais quando é posto sob uma forma mais refinada, como é posto por Teresa, que já supõe o
amor de Deus pelas criaturas, e pergunta, então, como pode haver - o que de
fato existe - preferências no amor de Deus para com os homens. Vejamos como a própria Santa propõe a
questão, que, certamente, muita gente já se colocou também: "Durante
muito tempo, perguntei a mim mesma, por que o bom Deus tinha preferências, por
que todas as almas não recebiam
um igual grau de graças. Eu me admirava ao vê-Lo prodigalizar favores
extraordinários aos Santos, que o
tinham ofendido, como São Paulo, Santo Agostinho e que Ele forçava, por assim
dizer, a receber suas graças; ou então,
ao ler a vida dos Santos, que aprouve a Nosso Senhor acariciar desde o berço
até o túmulo, sem deixar na sua passagem nenhum obstáculo, que os impedisse
de se elevarem até Ele e prevenindo essas almas com tais favores, que elas
não podiam manchar o brilho imaculado de suas vestes batismais;
perguntava-me por que os pobres selvagens, por exemplo, morriam, em grande
número, antes mesmo de terem ouvido pronunciar o nome de Deus..."(10). Com sua simplicidade costumeira, Teresa
de Lisieux nos apresenta um dos difíceis problemas teológicos: as
preferências de Deus! Na verdade, depois de aceito o fato do amor
misericordioso de Deus, a criatura humana, levada por curiosidade, por
interesse de conhecimento, ou mesmo por orgulho, nunca se deixa de perguntar:
por que Abraão? por que Maria? por que Pedro e Paulo? No fundo, embora se
trate de uma questão profundamente divina, é também uma questão profundamente
humana. Esse problema das preferências de Deus,
além da questão da própria possibilidade do amor divino para com as
criaturas, inclui, também, outras questões
correlatas, como a da predestinação,da ação da graça, da liberdade do
homem e da própria justiça, como se pode ver na parábola dos operários das
diversas horas(11). Com efeito, se Deus quer dar a um mais do
que a outro e previne a um com graças tão especiais, que ele quase é levado
pelas mãos divinas a viver na graça do Senhor, não há, de fato, aí uma
predestinação, isto é, aquela pessoa não está, realmente, marcada para a
salvação? Por outro lado, mesmo sendo a graça um dom gratuito de Deus aos
homens, qual é, realmente, a força dessa graça, que para uns é apenas
suficiente, e para outros é tão eficaz? Ademais, por que uns recebem as
graças divinas de uma maneira tal, que quase são forçados a aceitá-las,
enquanto que outros nem sequer ouvem falar dessas graças divinas? Ainda, como
pode ser um homem totalmente livre, se a graça quase o força a aceitá-la? Na
vida dos santos não aparecem, muitas vezes, cenas dramáticas, em que se pode,
muito bem, imaginar o Senhor a procurar o homem, que Ele ama e que não quer
aceitar esse amor? É aí que se põe o problema da total liberdade humana
diante da ação da graça. Por fim, não será natural a murmuração dos
vinhateiros das primeiras horas, e do filho mais velho, na parábola do filho
pródigo(12), já que eles trabalharam mais, serviram mais e estiveram, por
mais tempo,presentes e obedientes à palavra do Senhor e do Pai? Além disso,
coaduna-se com a própria razão do amor de um Pai para com seus filhos, amar
muito mais a um do que a outro, mostrando, claramente, suas preferências? Se
não teologicamente, pelo menos psicologicamente, não seria essa atitude de
Deus um ato de imperfeição? É justo e é natural que sejam postas
essas questões diante do fato,claro e inegável, das preferências do amor de
Deus para com os homens. E também é justo e natural que se procurem as
respostas a tais questões. O fundamento teológico para se entender
toda esse discurso e, sobretudo, para se ter um início de explicação razoável
e bíblica, é o fato da própria soberania de Deus. Em palavras filosóficas,
teríamos de falar da aseidade divina, da infinitude de Deus. Em termos
teológicos, referimo-nos à liberdade do seu dom gratuito. A graça, como diria
Rahner sobre a revelação, pode ser chamada de autocomunicação de Deus(13),
isto é, é a vida de Deus que nos é dada por livre e espontâneo ato de amor
misericordioso desse mesmo Deus. Essa liberdade divina, que nos oferece um
dom gratuito, conjuga-se, aqui, com o não merecimento igual ou satisfatório
da parte do homem.Há,assim, três elementos básicos para a compreensão
preliminar do problema maior, isto é, a auto-suficiência divina, que não
precisa, em nada, do homem; a liberdade divina no ato do amor para com os
homens; o não merecimento do homem, ou mesmo, o desmerecimento do homem com
referência a esse amor de Deus. Baseados nessas três premissas básicas,
podemos, mais ou menos, compreender o fato das preferências divinas. Afinal
de contas, Deus poderia até nem nos amar e se ele o fez, de algum modo, já é
muito, até demais.Todavia, não resta dúvida que essas premissas precisam de
ser completadas, porque, na verdade, mesmo com elas, as dificuldades da
justiça e do tratamento psicológico, acima referidas, parecem ainda continuar
com força. Aqui, entra o mistério dos desígnios de
Deus. Os caminhos do Senhor não são os nossos, diz Isaías(14).Além disso, só
o amor e, sobretudo, o Amor infinito, onipotente e onisciente, pode saber
tudo de que um amado precisa. Ademais, se olharmos, friamente, as
preferências divinas, vamos enxergar, em seguida, que elas são,de fato, o
processo psicológico amoroso mais bem feito que se possa imaginar.Para os
diferentes caráteres, Deus distribui sua graça, que para todos, diz a
teologia, é suficiente para a salvação, embora, algumas vezes, aja
eficazmente, sem porém forçar a liberdade, porque mesmo diante dos maiores
excessos de loucura do amor de Deus, o homem permanece sempre livre para
recusar o dom magnífico, que lhe é ofertado. Santa Teresinha, sem descer a questões
complicadas da graça, da predestinação, da liberdade do homem, teve também
sua resposta. Uma resposta tirada do livro da natureza. Uma resposta, que não
parte dos problemas teológicas, propriamente ditos, mas da própria angústia
psicológica do homem. Uma resposta simples, que responde ao homem, que
interroga, porque quer ter felicidade e paz pelo dom de amor divino, que lhe
pode ser oferecido. A resposta teresiana, pois, não se preocupa com detalhes
teológicos, mas, sem deixar de ser teológica, está mais voltada para o homem,
que tem sede de amor e de felicidade. Vejamos, então, a resposta de Teresa de
Lisieux: "Jesus se dignou me instruir sobre esse mistério. Ele pôs
diante dos meus olhos o livro da natureza e compreendi que, todas as flores que Ele criou são belas, que o brilho da
rosa e a brancura do lírio não
tiram em nada o perfume da violetinha
ou a simplicidade encantadora da bonina... Compreendi que, se todas as
floreszinhas quisessem ser rosas, a natureza
perderia seu adorno primaveril, os campos não seriam mais esmaltados de florinhas... Do mesmo modo acontece no mundo das almas,
que é o jardim de Jesus. Ele quis criar os grandes santos, que podem ser
comparados aos lírios e às rosas; mas, Ele criou também os menores e esses
devem se contentar em ser boninas ,
ou violetas destinadas a alegrar o olhar do bom Deus, quando Ele se digna
abaixá-lo até seus pés. A perfeição consiste em fazer sua vontade, em ser o
que Ele quer que sejamos... Compreendi ainda que, o amor de Nosso
Senhor se revela tão bem na mais simples alma, que não resiste em nada a sua
graça, quanto na mais sublime. De fato, sendo próprio do amor se abaixar, se
todas as almas se assemelhassem às dos Santos doutores, que iluminaram a
Igreja com o brilho de suas doutrinas, parece que o bom Deus não desceria
bastante baixo ao vir até seus corações; mas Ele criou a criança, que não
sabe nada e só faz ouvir fracos vagidos, criou o pobre selvagem, que não tem
para se conduzir senão a lei natural, e é até seus corações que Ele se digna
se abaixar, eles são suas flores do campo, cuja simplicidade O encanta... Descendo
assim, o bom Deus mostra sua grandeza infinita. Assim como o sol ilumina, ao
mesmo tempo, os cedros e cada
florzinha, como se ela estivesse só na terra, igualmente Nosso Senhor se ocupa também
particularmente de cada alma, como se ela não tivesse semelhantes; e, como na
natureza todas as estações são arranjadas de tal maneira a fazerem surgir, no
dia marcado, a mais humilde bonina, do mesmo modo tudo corresponde ao bem de
cada alma"(15). Teresinha expõe, assim, com uma
simplicidade encantadora, uma parte da doutrina teológica da graça. Sua
simplicidade,juntamente com sua profunda união com Deus, abriram seu
entendimento à ação da graça e ela encontrou uma explicação, simples, mas
satisfatória, do mistério das preferências de Deus. E ela ficou feliz e
escreveu os pensamentos sobre as graças, que o bom Deus se dignou
conceder-lhe(16). Em falando de graça, podemos dizer que,
esse é o campo teológico predileto de Teresa de Lisieux. Toda a sua vida é um
cantar as misericórdias do Senhor; sua Autobiografia é a descrição dessas
misericórdias divinas, que lhe foram concedidas em abundância e ela quer
continuar, por toda a eternidade, a cantar as graças misericordiosas e
transformantes, que aprouve a Deus lhe prodigalizar: "Aliás,só fazer uma
coisa: começar a cantar o que devo
repetir eternamente: As misericórdias do Senhor!!!"(17). Teresa de Lisieux falará, constantemente,
sobre a graça em si e sobre as graças abundantes, que recebia do céu. Em
particular, sobre a graça em si, merece especial atenção uma mensagem
belíssima, que Teresa de Lisieux, no seu leito de morte, disse para Madre
Inês, que tomou o cuidado de no-la transmitir da seguinte maneira: "Se,
uma manhã, a senhora me encontrar morta, não tenha pena: foi que Papai, o bom
Deus, terá vindo, mui simplesmente, me buscar. Sem dúvida, é uma grande graça
receber os sacramentos; mas quando o bom Deus não o permite, está bem do
mesmo modo. Tudo é graça!"(18). Na transcrição, que Madre Inês fez nos
chamados "Cadernos Verdes", há um pormenor bem interessante, um
acréscimo valioso: "Foi que Papai, o bom Deus, terá vindo, mui
simplesmente, me pegar(não, buscar), como um pai, que leva seu filho para sua
casa, sem embaraço, porque ele tem todo o direito"(19). Tudo é graça! Eis uma afirmação audaciosa
e profunda na boca de uma jovem carmelita, no final do século passado! Foi
pela sua própria experiência pessoal,pela sua comunicação com a graça divina,
que operou nela maravilhas, que Teresa descobriu o valor do pensamento
teológico de Jesus, quando disse: "Sem mim, nada podeis fazer"(20).
Paulo, o grande apóstolo, estava tão convencido da força da graça, que diria:
"Pela graça de Deus, sou o que sou; e sua graça a mim dispensada não foi
estéril. Ao contrário, trabalhei mais do que todos eles; não eu, mas a graça
de Deus que está comigo"(21). E, ainda, o mesmo Paulo afirmava: "E
ninguém pode dizer: "Jesus é Senhor" a não ser no Espírito
Santo"(22).Por isso, convencido da força englobante da graça, o
Apóstolo, pregando aos pagãos de Atenas, tinha a coragem de dizer que, só
porque Deus opera em nós é que temos "a vida, o movimento e o
ser"(23). O dom de Deus, que é a própria vida
divina comunicada ao homem, ou seja, a sua graça, que nos dá vida e ação,
como disse Paulo, é,pois, englobante, ou seja, como diria Teresinha, numa
fórmula teológica arrojada e bem feita: Tudo é graça! Se tomarmos a graça em sentido amplo,
isto é, como toda e qualquer doação de Deus, então, de fato, tudo(no sentido
mais amplo possível!) é graça, pois, que temos, ou que há, sobre a terra, que
não tenha vindo de Deus? Se considerarmos a graça em sentido restrito, isto
é, como o dom gratuito e sobrenatural
de Deus à criatura, que, no fundo, é a própria vida divina, que nos é
dada pelo amor misericordioso do próprio Deus, então, tudo é graça, enquanto
"todas as coisas concorrem para o bem dos que amam a Deus"(24); e
tudo é graça, porque dessa maneira( e até com mais excelência), tudo é obra
de Deus. É verdade que, temos de colaborar com a
graça. Temos de complementar o que falta à paixão do Senhor, mas mesmo essa
colaboração nossa é ação misteriosa da graça de comum acordo com a nossa
liberdade. Não foi difícil para Teresa, que considerava,
abismada e entusiasmada, Deus como
Pai, descobrir que tudo é graça, como não lhe foi difícil, depois, edificar
toda sua espiritualidade na simplicidade, na confiança, no abandono e no
amor, porque tudo ela recebia, magnanimamente, do seu Pai do céu.No fundo,
tudo era graça para ela! É evidente que, a Teresa de Lisieux não
interessou a discussão teológica como tudo, na nossa vida, posa ser graça. As
opiniões, as discussões, as teses sobre a graça e sua ação no homem diante do
mistério da liberdade humana, que passaram pelas mentes de grandes teólogos,
como Agostinho, Tomás de Aquino e Suarez e que por eles foram expostas nos seus livros, certamente, não
foram conhecidas por Teresa de Lisieux. Isso não importava para ela. O que,
realmente, lhe importava era a realidade da ação do Espírito Santo, ou seja,
era a ação misteriosa da graça divina no seu ser, que era, totalmente,
revolvido e transformado, por essa mesma graça. Por isso, ela podia exclamar:
Tudo é graça! Partindo desse princípio fundamental,
Teresa, construindo o seu edifício espiritual, que ela chamará de
"pequeno caminho de amor", não terá dificuldade para fazer certas
afirmações delicadas sobre a ação da graça na sua alma, sobre sua liberdade e suas obras de amor. Com efeito, muitíssimas vezes, nossa
Santa faz afirmações, que, à primeira vista, pode causar suspiros à teologia.
Sua posição, em síntese, é que, como tudo é graça, Deus não precisa de nossas
obras, mas de nosso amor. Conseqüentemente, não devemos confiar nos nossos méritos,
mas na graça do Senhor. Isso não significa quietismo, ou, como diria Lutero,
apenas a fé confiante. Pelo
contrário, o amor se prova pelas
obras. Mas quem, realmente, considera-se um fraco, imperfeito, pequenino,
joga-se nas mãos do Pai e, confiado nos méritos de Cristo, de Maria, dos
Santos e da Igreja, preocupa-se mais em amar do que em conseguir méritos. Mas,
é justamente por esse amor, cheio de confiança e abandono, que o homem
consegue muitos méritos junto do Senhor, uma vez que, além de provar seu amor
pelas obras, ele se reveste, humildemente, dos méritos de seus irmãos, Cristo
e os santos, e de suas mães, Maria e a Igreja. Não há, pois,no pensamento teresiano,
nada de contrário à fé católica, mas há, sim, um aprofundamento de um lado da
questão, que é, justamente, o acento forte sobre o amor, sobre a graça, sobre
a confiança e o abandono nas mãos de Deus. Esse é o outro lado de uma
conjunto só, cujo reverso seria a preocupação com os méritos, numa maior
confiança em si mesmo do que na ação purificadora e libertadora da graça
divina. Teresa de Lisieux foi insigne nesse ponto: numa época em que se
insistia tanto na colaboração do homem, a ponto de se chegar a certas atitudes, que sabiam a jasenismo, Teresa de
Lisieux, jovem, religiosa contemplativa, sem muito estudo, descobre, por
inspiração do Espírito Santo, que o principal mesmo é a graça que tudo opera
em nós, se colaborarmos com ela, abrindo o nosso coração aos eflúvios
das inspirações divinas e agindo segundo os ditames dessas inspirações. Devemos confessar, de logo, que há textos
teresianos, que, pela força da expressão mística, podem confundir o leitor
menos avisado. Vejamos algumas afirmações de Santa Teresinha e, depois, vamos
discutir o assunto mais pormenorizadamente. Vamos transcrever apenas algumas
passagens dos escritos teresianos, em seguida, porém, com a análise das
questões, outros textos serão citados e comentados. No Manuscrito A, Teresinha, falando sobre
uma grande graça recebida, isto é, a de compreender que nascera para a
glória, mas uma glória que não
apareceria aos olhos dos mortais, a glória de ser uma grande Santa, comenta:
"Esse desejo poderia parecer temerário
se considera quanto era fraca e imperfeita e quanto o sou ainda após
sete anos passados no convento, contudo sinto sempre a mesma confiança audaciosa de me tornar
uma grande Santa,pois não conto com meus méritos, já que não tenho nenhum,
mas espero nAquele que é a Virtude, a própria Santidade"(25). Mais
adiante, no mesmo Manuscrito A, ela afirma: "Se o Céu me cobria de
graças, não era porque eu as merecia, era ainda muito imperfeita"(26). No Manuscrito C, referindo-se ao amor
imenso recebido de Jesus, ela diz: "Mas, aqui na terra, não posso
conceber uma maior imensidade de amor
do que a que te aprouve me prodigalizar gratuitamente sem nenhum mérito de
minha parte"(27). Frases e mensagens como essas poderiam,
na verdade, confundir algum leitor de primeira vista. Todavia, toda a
doutrina teresiana deve ser vista no seu contexto. Com efeito, nossa Santa
jamais negou a ação colaboradora do homem com a graça divina. Também jamais
negou o mérito, que se possa adquirir. O que realmente ela afirma é tão
simplesmente que, todas as graças recebidas foram graças, isto é, dons
gratuitos e nada mais. Todas as suas provas de amor, portanto, para ela eram
apenas gestos simples, que não mereciam muita atenção da parte de Deus. Portanto,
Deus a cumulava de graças, justamente porque era pequena, imperfeita e fraca,
mas amava e queria amar ainda muito mais. Portanto, toda a dialética
teresiana se coloca neste binômio, amor misericordioso e gratuito de Deus e
pequenez, fraqueza e imperfeição de Teresinha.Daí é que, a Santa parte para
explicar as maravilhas de sua alma apenas por obra da graça. Na verdade,
assim o é, mas, como é preciso colaborar com essa graça, Teresa sempre fez
tudo para agradar a Deus, para pegá-lo com suas carícias de amor. Essa questão aparece, com muita
freqüência, nos escritos teresianos, sobretudo, nas "Últimas
conversas", o que é bastante compreensível, pois, Teresa está às
vésperas da morte e, diante de si, aparecem as realidades escatológicas. As palavras humildes e místicas de Santa
Teresa de Lisieux não devem nos enganar. Nossa Santa sempre foi muito ativa
na obra de sua santificação. Ainda quando toda a sua crença parece ter sido
ilusória, ela trabalha na escuridão: "Ah! que Jesus me perdoe, se lhe
causei desgosto, mas Ele sabe bem que, mesmo não tendo a alegria da fé,
procuro, pelo menos, fazer as obras"(28). No início de sua vida espiritual,Teresa
se entregou a certas práticas,
contadas e medidas com rigor matemático. Foi grande sua atividade, sobretudo
quando da sua preparação à primeira eucaristia(29). Mais tarde, a matemática
das práticas desaparece, embora tenha de se submeter a ela alguma vez por
força da caridade(30).Todavia, seu trabalho continuou intenso. A sua
disposição é total: "É a vontade do bom Deus que eu lute até à
morte"(31). E. nos "Conselhos e Lembranças", há uma passagem
muito interessante: "Um dia, em que eu tinha lido estas palavras no
Eclesiástico: "A misericórdia dará a cada um, segundo o mérito de suas
obras e segundo a inteligência de sua peregrinação"(Ecl 16,15); eu lhe
observei que, ela teria um belo lugar, pois houvera dirigido sua barca com
uma sublime inteligência; mas, por que estava escrito segundo o mérito de
suas obras? Ela explicou, então, com
energia, que o abandono e a confiança em Deus se alimentam do sacrifício. "É
preciso, disse-me ela, fazer tudo o que está em si, dar-se sem contar, renunciar-se
constantemente, em uma palavra, provar o seu amor por todas as boas obras em
sua possibilidade.Mas, na verdade, como tudo isso é pouca coisa... é
necessário, quando fizermos tudo que julgamos dever fazer, confessar-nos
"servos inúteis", esperando, todavia, que o bom Deus nos dê, pela
graça, tudo o que desejamos. É isso o que esperam as pequenas almas, que
"correm" no caminho da Infância: eu digo correm" e, não,
repousam"(32). Embora, muitas vezes, nossa Santa afirme
que, não tem méritos, isso não significa, de modo algum, que ela despreze os
méritos. Pelo contrário, ela sabe que precisa desses méritos, por isso, certa
feita, chegou mesmo a temer ter perdido algum mérito adquirido.Com efeito, em
um diálogo com Madre Inês, ela revelara ter feito uma mortificação. Como a
Madre Inês tomara da pena para escrever o fato, ela perguntou: "Será,
talvez, que meu mérito vá ficar
perdido, porque eu lho comuniquei e a senhora o escreveu?". Madre Inês,
aproveita a decha e lhe pergunta: "Você quer adquirir méritos?" A
Santa lhe respondeu, dando a síntese do seu pensamento: "Sim, mas não
para mim; para os pobres pecadores, pelas necessidades de toda a Igreja,
enfim, para jogar flores para todo o mundo, justos e pecadores"(33). Eis
aí o pensamento de Teresa de Lisieux, já às portas da morte, ela quer ter
méritos, mas para os outros. Para si, basta o seu amor vivo e provado em
obras. Ademais, ela se reveste dos
méritos de Cristo, da Igreja e dos santos, através da comunhão dos
santos, como ela faz questão de salientar. É preciso ver as palavras de Teresinha no
seu contexto. O amor tem as suas delicadezas. É extraordinário, ou muito
ordinário. No seu amor, Teresinha mostra a grandeza de sua alma. Ela sabe que
amando, tem tudo: "Se, por impossível, o bom Deus não visse as minhas
boas obras, não ficaria aflita. Amo-o tanto que gostaria de poder causar-lhe
alegria por meu amor e meus pequenos sacrifícios, até mesmo sem que ele saiba
que venham de mim. Sabendo-o e vendo-o, ele é como que obrigado a me
recompensar... eu não queria lhe dar esse trabalho(34). Na verdade, o amor
faz-nos esquecer de nós mesmos, para nos fazer pensar só no amado. É sob a
luz desse amor, que podemos compreender suas palavras: "Há,portanto,
almas que ganham a sua vida nessa pequena escala, há outras que querem ser
pagas na medida. Mas eu, eu jogo na Banca do amor... eu jogo em grosso. Se eu
perco, não faz mal. Não me preocupo com os golpes da bolsa, é Jesus quem os
faz por mim, não sei se sou rica ou pobre. Mais tarde, vê-lo-ei"(35). Portanto,é
preciso compreender as palavras de Teresinha sob a luz do seu amor abnegado,
desinteressado, unicamente preocupado em dar prazer a Jesus. Assim, ela podia
dizer: "NUnca desejei outra coisa senão causar prazer ao bom Deus. Se
tivesse buscado adquirir méritos, na hora em que se está, eu estaria
desesperada"(36). Irmã Genoveva comenta essas palavras, dizendo:
"Sim, porque sabendo que, "toda as nossas justiças têm manchas
diante de Deus", na sua humildade, ela julgava nada as obras que fizera
e não apreciava senão o amor que as tinha inspirado"(37). Mas, nessa questão de méritos há duas
idéias interessantes e constantes em Teresa de Lisieux. A primeira é: a gente
pode se revestir dos méritos de Jesus, da Igreja, dos Santos e, entre esses,
em particular de Maria Santíssima. Em maio de 1897, ela dizia a sua irmã
Madre Inês: "Estou muito contente por ir em breve para o céu, mas quando penso nessa palavra do bom
Deus:"Carrego minha recompensa comigo para dar a cada um segundo suas
obras", digo a mim mesma que, para mim, ele ficará bem embaraçado. Não
tenho obras! Ele não poderá, pois, me recompensar "segundo minhas
obras"...Pois bem! ele me recompensará "segundo suas próprias
obras...""(38). Na verdade, Teresa está correta, pois, os méritos
do Cristo, Salvador, são também nossos méritos se quisermos nos acobertar com
eles. Foi por seus méritos, que a Virgem Maria foi preservada do pecado
original e é pelos seus méritos que somos, em última análise, redimidos. Quando
Jesus pede água à Samaritana, ela lhe diz:"Se conhecesses o dom de Deus
e quem é que te diz:Dá-me de beber, tu é que lhe pedirias e ele te daria água
viva!"(39). É, na verdade, Deus quem nos dá a vida e a vida em
abundância. Jesus veio pra isso! A segunda idéia é a da comunhão dos
santos. Na verdade, Teresa é uma apaixonada pelo dogma da comunhão dos
santos. Ela sabe que, seus méritos ajudam toda a Igreja e todos os homens,
seus irmãos, mas ela sabe também que todos os méritos da Igreja, de Maria,
dos santos podem ajudá-la. Nos "Cadernos Verdes", da Madre Inês,
lemos este comentário: "A propósito da Comunhão dos Santos, ela me
comunicou as luzes muitos vivas, que recebera do céu. Ela me explicou, com
clareza e suavidade, como os bens de uns seriam os bens dos outros. Recolhi
estas palavras: "Como uma mãe é orgulhosa de seus filhos, assim seremos
nós uns dos outros sem o menor ciúme"(40). A Comunhão dos Santos é um dogma
inserido, desde o quinto século, no Símbolo dos Apóstolos. O fundamento desse dogma é a koinonia, isto
é, todos os que crêem em Cristo a Ele se unem e se unem por Ele com todos os
demais irmãos, que comungam da mesma fé e do mesmo amor. Portanto, somos
unidos pela graça e pelo amor aos que vivem e aos que já viveram. Fazemos,
pelo Cristo, um só povo e temos uma só vida. Teresa entendeu esse mistério de
uma maneira muito profunda, porque ela fundou toda sua mensagem sobre o amor,
que é justamente a manifestação
concreta dessa comunhão. A
idéia, pois, da Comunhão dos Santos é
palpável e palpitante em Santa Teresinha: "...diante da nossa
impotência, é preciso oferecer as obras dos outros, está aí a vantagem da
comunhão dos santos e, dessa
impotência, é preciso nunca nos lastimar..."(41).Madre Inês transcreveu, a esse respeito, uma história
contada e comentada por nossa Santa, que merece ser lida na íntegra: "Irmã Maria da Eucaristia
queria acender umas velas para uma
procissão; ela não tinha fósforos, mas vendo a lampadazinha, que se queima
diante das relíquias, aproximou-se dela. Ah! ela a encontra quase apagada, só resta um fraco clarão no pavio
carbonizado. Ela conseguiu, contudo, acender sua vela e, por essa vela, todas
as demais da Comunidade foram acesas. Foi, pois, essa lampadazinha, meio
apagada, que produziu essas belas chamas que, por sua vez, podem produzir uma
infinidade de outras e até abrasar o
universo. Contudo, seria sempre
à lampadazinha que se deveria a primeira causa desse abrasamento. Como as belas chamas poderiam se gloriar,
sabendo disso, de terem provocado semelhante incêndio, já que elas só foram
iluminadas pela correspondência com a pequena centelha?...É a mesma coisa com
a Comunhão dos Santos. Muitas vezes, sem o saber, as graças e as luzes, que
recebemos, são devidas a uma alma
escondida, porque o bom Deus quer que os Santos comuniquem uns aos outros a graça pela oração, a fim de que no céu se amem com um grande amor,
com um amor bem maior ainda do que aquele da família, mesmo da família mais
ideal sobre a terra. Quantas vezes
tenho pensado que, podia dever todas as graças que recebi às orações de uma
alma, que mas teria pedido ao bom Deus e que só conhecerei no céu.Sim, uma
chamazinha poderá fazer nascer
grandes luminares em toda a Igreja, como doutores e mártires, que
estarão, sem dúvida, bem acima dela no céu; mas como se poderia pensar que a
glória deles não se tornará a sua? No
céu não se encontrarão olhares indiferentes, porque todos os eleitos
reconhecerão que, eles se devem, entre si, as graças que lhe mereceram a
coroa"(42). Madre Inês toma o cuidado de acrescentar que, a conversa foi
bastante longa e que ela não pôde anotar tudo, nem palavra por palavra. Nessa Comunhão entre os eleitos de Deus,
tudo é possível. Santa Teresinha se apraz em salientar as diversas
modalidades dessa Comunhão com uma simplicidade e uma prática
extraordinárias. Assim, ela fala de
rezar por alguém oferecendo a Deus os próprios méritos daquela pessoa(43); de
entregar tudo nas mãos de Deus, para que disponha como quiser, já que Ele
sabe dispor perfeitamente dos nossos méritos(44); de não ter nada nas suas
mãos, pois tudo o que ganha é para a Igreja e pela salvação dos homens(45);
do exagero no fervor de praticar bem nossas obras, assim como da necessária
humildade na prática das boas obras(46); da participação especial de Maria
Santíssima nessa Comunhão dos Santos(47),etc. É claro que, Deus poderia fazer tudo
sozinho, mas, para Santa Teresinha, Ele pode querer como o é de fato. Isso
não tira a liberdade humana, nem é uma lei sem exceção. É evidente que, nossa
Santa fala em geral e, não, categoricamente. Mas, na verdade o que acontece é
que, Deus quer a nossa colaboração e nem é preciso a nossa intenção atual. De
modo admirável, pois, somos colaboradores de Deus na obra da
salvação:"Que mistério!...Jesus não é todo poderoso? As criaturas não
são dAquele que as fez? Por que Jesus diz "pedi ao Senhor da messe, que
envie operários". Por quê?...Ah!, é que Jesus tem por nós um amor tão
incompreensível, que quer que tenhamos parte, com Ele, na salvação das almas.
Ele não quer fazer nada sem nós. O criador do universo espera a oração de uma
pobre alminha para salvar as outras almas, redimidas, como ela, pelo preço de
todo o seu sangue"(48). E, nossa Santa leva o dogma às ultimas
conseqüências, a ponto de dizer que Deus mendiga nossa colaboração: "Ah!
Celina, sinto que Jesus pede a nós duas para dessedentar sua sede dando-lhe
almas, almas de padres sobretudo; sinto que Jesus quer que te diga isso,
porque nossa missão é de esquecermo-nos, de aniquilarmo-nos...somos pouca
coisa...contudo,Jesus quer que a salvação das almas dependa dos nossos
sacrifícios, de nosso amor, ele nos mendiga almas...ah! compreendamos seu
olhar! Tão poucos sabem compreendê-lo!"(49). É
maravilhoso como nossa Santa
compreendeu e viveu o dogma da Comunhão dos Santos, o mistério do Corpo
Místico de Cristo, no qual o próprio Cristo, Maria Santíssima, a Igreja e
todos nós vivemos a grande comunhão de amor, como reflexo do mistério
inefável de amor na Trindade Santíssima! Teresa de Lisieux compreendeu e
viveu esse mistério, por isso toda a sua vida foi um rosário contínuo de
oração e de sacrifícios, num grande élan missionário para ajudar a realização
da redenção na concretização do reino de Deus. E toda a colaboração teresiana
é resumida na palavra amor. Teresa ama por si e pelo mundo inteiro, porque,
no seio da Igreja, ela encontrou sua vocação, a vocação de amar. Assim,
podemos entender que, a padroeira principal das missões católicas, ao lado de
S.Francisco Xavier(50), pudesse jogar com as palavras e dizer: "Eis aí o
que Jesus reclama de nós, ele não tem
absolutamente necessidade de nossas obras, mas somente de nosso amor,
pois esse mesmo Deus que declara não ter, de modo algum, necessidade de
nos dizer se tem fome, não tem receio de mendigar um pouco d'água à
Samaritana. Ele tinha sede... Mas, ao dizer: "dá-me de beber", era
o amor de sua pobre criatura que o Criador do universo reclamava. Ele tinha
sede amor..."(51). Santa
Teresinha sabe que amor se paga com amor. Ela fez tudo o que lhe era possível
para provar esse amor, mas, como amava demais, sempre reconheceu que era
pouco o que fazia, antes, era nada. Por isso, tendo amado muito, doou-se
totalmente, confiou cegamente e pôde declarar: "Nada retenho nas mãos.
Tudo que tenho, tudo que ganho, é para a Igreja e para as almas. Se viver até
80 anos, serei sempre assim, pobre"(52). Certo dia,
Madre Inês lhe dizia: "Ah! não terei nada para dar ao bom Deus, na hora
da minha morte, tenho as mãos vazias! Isso me entristece muito!". Então,
Teresa, já bastante doente, respondeu-lhe: "Pois bem, a senhora não é como Bebê" (ela dava
a si mesma esse nome, algumas vezes), que se encontra, contudo, nas mesmas
condições... Mesmo quando tivesse realizado todas as obras de São Paulo, eu
me julgaria ainda "servo
inútil",acharia que tenho as
mãos vazias; mas é justamente isso que faz minha alegria, pois, não tendo
nada, receberei tudo do bom Deus"(53). Na verdade, as obras, Teresa as
faz, mas não é esse seu grande problema, seu maior interesse; seu grande
interesse é justamente amar e se entregar a Deus para seu prazer. Por isso,
ela podia dizer: "Ser pequeno é ainda não se atribuir, de modo algum, a
si mesmo as virtudes que se pratica, crendo-se capaz de alguma coisa, mas
reconhecer que, o bom Deus põe esse tesouro
na mão de seu filhinho, para que ele se sirva quando tiver
necessidade; mas é sempre o tesouro do bom Deus"(54). Portanto,
o mistério das mãos vazias deve ser entendido nesse élan do amor, que, mesmo
fazendo tudo que pode, ainda julga que não fez nada, ou que fez apenas pouca
coisa. Numa carta de 18 de julho de 1893, dirigida a Celina, ela dizia:
"Não é para fazer minha coroa, para ganhar méritos, é para dar
prazer a Jesus. Quando não tenho
ocasiões, quero, ao menos, dizer-lhe, muitas vezes, que o amo, não é difícil
e isso sustenta o fogo; mesmo que me parecesse extinto esse fogo de amor,
quisera jogar nele alguma coisa e Jesus saberá bem, então,
reacendê-lo"(55). Aqui, é o amor desinteressado, o amor puro e
benevolente! Será
sempre sob esse prisma, que poderemos entender o conceito ou a conceituação
de méritos, segundo Santa Teresinha: "O mérito não consiste em fazer ou
em dar muito, mas antes em receber, em amar
muito"(56). Por isso, é preciso amar, amar muito, porque não há
outro meio para se "chegar à perfeição fora do amor"(57) e Teresa
de Lisieux, como esposa de Jesus, sabe que é preciso dar-lhe provas de
amor(58). Se
examinarmos o pensamento teresiano à luz da teologia atual, veremos que
Teresa de Lisieux alcançou uma profundidade maravilhosa na sua concepção de
mérito, que, no fundo, é uma participação do mistério da graça, da vida
divina em nós pela qual crescemos em Deus. Em suma, tudo é obra do amor
misericordioso de Deus! Como
conseqüência de tudo isso, aparece o
sentido e o papel de nosso trabalho entre os irmãos. Que fazemos, que
somos, quando o Senhor nos convida a trabalhar na sua messe? Teresinha
explicou o mistério dessa colaboração com Deus na sua obra, através de uma
comparação simples, mas perfeitamente adequada e compreensível.
"Desde quando o Senhor não tem mais o direito de se servir de uma
de suas criaturas para dispensar às almas, que ama, o alimento que lhes é
necessário? No tempo do Faraó, o
Senhor tinha ainda esse direito, pois, na Escritura, diz a esse monarca:
"Elevei-vos, expressamente, para fazer brilhar em vós MEU PODER, a fim
de que se anuncie meu nome por toda a terra"(59). Os séculos se
sucederam desde que o Altíssimo pronunciou essas palavras e, desde então, sua
conduta não mudou, sempre se serviu de suas criaturas, como de instrumentos,
para fazer sua obra nas almas. Se a tela pintada por um artista pudesse
pensar e falar, certamente, não se lamentaria de ser, incessantemente, tocada
e retocada por um pincel e não invejaria, de modo nenhum, a sorte desse
instrumento, pois saberia que não é ao pincel, mas ao artista, que a faz, que
deve a beleza de que é revestida. O pincel, por seu turno, não poderia se
gloriar da obra-prima feita por ele, sabe que os artistas não se embaraçam, que brincam das
dificuldades e se comprazem em escolher, por vezes, instrumentos fracos e
defeituosos... Minha Madre bem-amada, sou um pincelzinho que Jesus escolheu
para pintar sua imagem nas almas, que a senhora me confiou. Um artista não se
serve apenas de um pincel, são-lhe necessários pelo menos dois; o primeiro é
o mais útil, é com ele que dá as tintas gerais, que cobre completamente a
tela em pouco tempo, o outro, menor, serve-lhe pra os detalhes...eu sou o
pequenino, do qual Ele se digna se servir, em seguida, para os mínimos
detalhes"(60). Aqui, Santa Teresinha salienta o posicionamento do homem, como colaborador de Deus na obra da
salvação. Na verdade, admitida e tida como verdadeira e indispensável essa
colaboração do homem, fica-se ainda a perguntar qual seria, de fato, o tipo
dessa colaboração, uma vez que entre o finito e o Infinito, entre a criatura
e o Criador há tanta distância, que é difícil, mesmo por causa dos
descompassos humanos, descobrir-se logo, sobretudo na prática, o lugar devido
do homem na missão de colaborador de Deus na obra salvífica. Santa Teresinha,
com essa comparação simples, ensina-nos que somos intermediários de uma obra,
cujo produto benéfico é devido a
Deus, enquanto que as sujeiras da missão ficam por nossa conta. Isso suposto,
é preciso salientar a humildade necessária para compreender essa missão do
homem e, então, realizá-la com a maior pureza de intenção. Com efeito, a
tinta e o pincel têm suas funções, mas a obra, como um todo, é devida ao
pintor, que, porém, pintará melhor ou pior dependendo também da ajuda e da
qualidade do pincel e da tinta, embora possa ele usar outros pincéis e outras
tintas, quando e como quiser. Deus se serve de nós, como de pincéis e tintas
e, às vezes, teima em se servir de alguém, mesmo que esse alguém não seja de
primeira qualidade. No fundo, nada disso tem uma explicação total, porque é
mistério do amor misericordioso de Deus! E, em
falando de mistério do amor misericordioso, devemos lembrar que, Santa
Teresinha encara o amor de Deus como o fator primário para se entender todos
os demais atributos divinos. Analisaremos, mais adiante, esse caráter de
misericordioso do amor de Deus, mas, aqui, queremos salientar essa força do
amor, como fator iluminativo de tudo que existe em Deus, já que, por
essência, segundo a teologia, "Deus é amor"(61). Toda a
espiritualidade teresiana se baseia no amor e só enxerga a Deus sob a ótica
do amor. Logo, também todos os atributos divinos são vistos sob essa luz, o
amor: "Compreendo, contudo, que todas as almas não podem se assemelhar, é preciso que haja diferentes
famílias, a fim de honrar, especialmente, cada uma das perfeições do Bom
Deus. A mim Ele deu sua Misericórdia infinita e é através dela que contemplo
e adoro as outras perfeições divinas!... Então, todas me aparecem brilhando
de amor, mesmo a Justiça (e, talvez, ainda mais do que qualquer outra) me
parece revestida de amor... Como é
doce pensar que o Bom Deus é justo, isto é, que Ele leva em conta nossas
fraquezas, que conhece, perfeitamente, a fragilidade de nossa natureza. De
quê, pois, teria eu medo? Ah! o Deus infinitamente justo que se digna
perdoar, com tanta bondade, todas as faltas do filho pródigo, não deve ser
Justo também para comigo, que "estou sempre com Ele"?..."(62). Essa
contemplação de Deus sob o prisma do amor, modifica,sem dúvida, totalmente,
toda uma idéia, que se possa ter ou formar de Deus, quer na religião, quer na
moral, quer na espiritualidade. Caem por terra ídolos, tabus, temores e
desaparecem ilusões, falsas idéias,
covardia e desânimo. Temos, então, diante e dentro de nós um Deus puro,
autêntico, transcendente e, porque misericordioso, voltado, ao mesmo tempo,
para a miséria, a fraqueza e a limitação do homem. O relacionamento, pois, com Ele se torna pessoal, amigável e mesmo
amoroso. Assim, miséria, contingência, limitação, fraqueza começam a se
entender com o Necessário, o Infinito, o Forte, o Puro, o Santíssimo. Assim,
entende-se e acha-se um sentido para a necessária providência do mundo e do
homem, pois Criador e criatura, apesar de todas as distâncias e malgrado
tudo, amam-se. Todo
relacionamento, pois, entre Deus e o homem muda de direção e de índole,
quando se vê Deus pelo seu lado essencial do amor. Para dar um exemplo desse
comportamento, sob a ótica do amor, podemos considerar uma noção cara a Santa
Teresinha, a saber, a de pecados que não ofendem a Deus. Essa idéia, Teresa a
apresenta em uma carta de 3 de setembro de 1890, dirigida a Madre Inês. Mais
tarde, durante o retiro de 1891, pregado pelo Frei Alexis Prou(63), nossa
Santa ouve do pregador a mesma idéia e ficou,realmente, entusiasmada. Na carta à
Madre Inês de Jesus, ela manifesta o seu ardente desejo de amar muitíssimo a
Jesus e, conseqüentemente, de não querer, de modo algum, ofendê-lo e revela,
assim, seu desejo de receber a graça especial de nunca mais ofendê-lo ou,
pelo menos, de só cometer faltas, que não o ofendam: "Parece-me que o
amor pode suprir uma vida longa. Jesus não olha para o tempo, pois que ele
não existe mais no céu. Ele só deve olhar o amor. Pedi-lhe que o dê muito também
a mim. Não desejo o amor sensível,
mas somente sentido por Jesus. Oh! amá-lo e fazê-lo amar, como é doce!
Diga-lhe para me levar no dia de minha Profissão, se devo ofendê-lo ainda,
pois quisera levar para o céu a roupa
branca do meu segundo batismo, sem nenhuma mancha. Mas, parece-me que Jesus
pode muito bem dar a graça de não
mais ofendê-lo, ou então, de só cometer faltas que não o ofendem, mas que só fazem humilhar e tornar o amor mais forte"(64). No retiro
de 1891, Santa Teresinha ouviu do
padre pregador a declaração explícita de que suas faltas não ofendiam a Deus. Ficou delirante! Na
sua Autobiografia chega a declarar que, jamais ouvira dizer que houvesse faltas que não ofendem a Deus, o
que, evidentemente, mostra que ela, quando escrevia, esqueceu-se do que ela
mesma já houvera sonhado e desejado: "Ele (o Frei Alexis) me lançou, de
velas cheias, nas ondas da confiança e do amor, que me atraíam tão
fortemente, mas sobre as quais eu não ousava avançar... Ele me disse que,
minhas faltas não desagradavam ao bom Deus, que, estando no seu lugar,
dizia-me, em seu nome, que Ele estava muito contente comigo... Oh! como
fiquei feliz ao ouvir essas consoladoras palavras!... Jamais ouvira dizer
que, as faltas podiam não desagradar o bom Deus, essa segurança me cumulou de
alegria, fez-me suportar, pacientemente, o exílio da vida... Sentia, bem no
fundo do meu coração, que era verdadeiro, pois o bom Deus é mais terno do que uma Mãe"(65). Se pelo
amor Teresa descobriu que suas faltas não ofendiam o bom Deus, pelo amor
também ela enxergou qualquer espécie
de possível purgação devida aos nossos pecados. A Teologia
contemporânea tem discutido muito a questão do purgatório. Da idéia
tradicional e rigorosa de alguns passou-se, com certa facilidade, a uma certa
displicência sobre a doutrina do purgatório, a ponto que sua discussão chegou
mesmo a não interessar mais a muita gente, que o considerou obsoleto. A palavra
purgatório vem desde a Idade média e designa, segundo a doutrina da Igreja(é
de fé definida), o processo de purificação total do homem, que morreu na
graça do Senhor, mas que não foi
completamente libertado do castigo dos seu pecados. Não há na Escritura
Sagrada nenhuma palavra definida sobre a natureza exata desse processo, bem
como da sua localização, embora tenhamos algumas palavras importantes, como a
do segundo livro dos Macabeus 12,42-45. Hoje em
dia, os teólogos procuram um termo mais apropriado para dizer e significar esse processo de purificação
após a morte, bem como procura-se, hoje, uma explicação desse castigo
merecido de purificação. Atualmente, não se apela tanto para o
"fogo",mas para a ausência do amor perfeito, uma vez que a
exigência desse processo purificador é porque, o homem, mesmo tendo morrido
em graça, não pode ainda ter a sua integração e realização totais. É
sumamente interessante ver como Santa Teresinha, já nos fins do século
passado, quando se insistia bastante nas formas tradicionais de apresentação
de algumas doutrinas da Igreja, como, por exemplo, o purgatório, tenha
concebido, pela luz do Espírito
Santo, certas idéias peculiares a respeito desse processo
purificador(66). Teresa de
Lisieux não apresenta nenhuma idéia nova a respeito da essência do
purgatório. Antes, parece seguir as idéias tradicionais do sofrimento pelo
fogo, pelo menos é o que parece significar algumas das suas palavras
referentes ao seu sofrimento. Assim, em uma carta da Irmã Maria da Eucaristia
ao seu pai, lemos que Teresa, depois de uma noite de muito sofrimento, dizia
pela manhã que: "no purgatório não se deve queimar mais, de tal modo foi
forte a febre"(67). Ela falará
também de rezar pelas almas do purgatório; de salvar as almas do
purgatório(68), o que, de fato, em última análise, mostra o profundo
arraigamento da noção católica
tradicional de purgatório em
Teresa de Lisieux. Todavia,
três coisas, a respeito de purgatório, são peculiares em Teresa de Lisieux. A
primeira é: ela não tem medo do
purgatório, isto é, ela não se preocupa se vai ou não para o purgatório e não
quer fazer nenhum movimento para evitar diretamente o purgatório, ou seja,
não tem nenhuma intenção direta de fazer alguma expressamente para evitar o
purgatório: "Minha Madre querida, a senhora que me permitiu oferecer-me assim ao bom Deus, a senhora sabe os rios
ou, antes, os oceanos de graças que vieram inundar minha alma... Ah! desde
aquele dia feliz, parece-me que o Amor me penetra e me cerca; parece-me que, a cada instante, esse Amor Misericordioso me renova,
purifica minha alma e não deixa nela nenhuma marca de pecado, por isso não posso ter medo do
purgatório..."(69). Tomada e invadida pelo amor de Deus, Teresinha só se preocupara em amar esse Amor
Misericordioso. Tudo o mais será conseqüência, será produto e efeito desse
seu amor e do amor de Deus para com ela: "Não teria querido apanhar uma
palha, para evitar o purgatório. Tudo o que fiz, foi para dar prazer ao bom
Deus, para lhe salvar as almas"(70). A Idéia e a realidade do processo
purgativo, pois, não preocupam Teresinha. Ela se entregou ao amor e vive só
desse e para esse amor. Ir ou não ao purgatório, pois, não entra na lista de
suas preocupações. Aliás,
preocupada unicamente com o seu Amor, Teresa de Lisieux não teme o purgatório
nem se preocupa com ele. Ela não queria rezar para ser livre do purgatório,
nem mesmo queria que os outros rezassem nessa intenção. Seu interesse nas
orações era ajudar os outros, por isso, escrevia a seu irmão espiritual:
"Não desejo que você peça ao bom
para me livrar das chamas do
purgatório. Santa Teresa dizia às suas filhas, quando elas queriam rezar por
ela: "Que me importa ficar, até o fim do mundo, no purgatório,se, por
minhas preces, salvo uma só alma!" Essa palavra ecoa no meu
coração..."(71). E, depois, já bastante doente, reafirmou essa idéia
heróica à Madre Inês, dizendo: "Não sei se irei para o purgatório, não
me inquieto absolutamente com isso; mas, se eu for para lá, não lamentarei de
não ter feito nada para evitá-lo. Não me arrependerei jamais de ter
trabalhado, unicamente, para salvar almas. Como sou feliz em saber que Nossa
Mãe Santa Teresa pensava assim!"(72). A segunda
coisa peculiar em Teresinha, a respeito do purgatório, é o fato de que ela
não teme ir ao purgatório se, por esse meio, pode salvar almas, ajudar os
outros. Essa é, de fato, uma idéia original: ficar no purgatório para ajudar
na salvação dos irmãos! Isso é
heroísmo! É doação total pela felicidade dos irmãos, que nem a conhecem e que
não a amam: "Se a senhora soubesse como o bom Deus é doce para mim! Mas,
se acontecer que não o seja mesmo um pouquinho, eu o acharei doce ainda... Se
eu for para o purgatório, ficarei muito contente; farei como os três hebreus
na fornalha, caminharei por entre as
chamas cantando o cântico do Amor. Oh! como ficaria feliz,se indo ao
purgatório, pudesse livrar outras almas, sofrer no lugar delas, pois, então,
eu faria o bem, eu libertaria os
cativos"(73). E,agora, a
terceira coisa peculiar no pensamento de Teresinha a respeito do purgatório.
É que, para ela, muito mais purificante e purificador do que o
purgatório é o fogo do amor. Aqui,
temos uma idéia teológica muito
profunda. Na verdade, o ausência de temor em Teresinha, com respeito ao
purgatório, se deve ao fato de que ela acreditava na força purificadora e
libertadora do amor. Só o amor liberta de fato! Assim, ela escrevia na sua
Autobiografia: "Sei que, por mim mesma, não mereceria nem mesmo entrar nesse lugar de expiação, pois aí só as almas santa podem ter
acesso, mas sei também que o Fogo do Amor
é mais santificante do que o
do purgatório"(74). Assim, nossa Santa propõe uma maneira de purgação
muito mais forte do que o próprio purgatório, que seria o fogo do amor. Não
queremos dizer com isso que, ela teria pensado que o fogo do purgatório seria
a ausência do amor, mas que ela pensou e disse que, o fogo do amor, aqui na
terra, é mais forte e mais purificador do que o purgatório após a morte. Na
citada carta de Irmã Maria da Eucaristia a seu pai, lemos ainda o seguinte:
"Quando nós lhe falávamos do purgatório para nós, ela nos dizia:
"Oh! como vocês me dão pena, vocês fazem uma grande injúria ao bom Deus crendo ir para o purgatório.
Quando se ama, não pode haver purgatório"(75). Essa última sentença é
forte demais: quando se ama, não pode haver purgatório! Santa Teresinha não
quis, é evidente, negar os ensinamentos da Igreja; ela quis, somente e
sobretudo, salientar a força do amor, dizendo que para os verdadeiros amantes
de Deus não pode haver purgatório, isso porque o amor , na terra, já os purifica
e porque Deus não deixa que eles sofram mais depois da morte, já que será
sobre o amor que seremos julgados na tarde da vida, como lembrou S.João da
Cruz,segundo os ensinamentos dos evangelhos. Por esse motivo, Santa Teresinha
podia consolar seu irmão espiritual, Padre Roulland, dizendo em uma carta de
9 de maio de 1897: "Como ele purificaria nas chamas do purgatório almas
consumadas pelos fogos do amor divino? É verdade que, nenhuma vida humana é
isenta de faltas, só a Virgem Imaculada se apresenta absolutamente pura
diante da Majestade Divina. Que
alegria em pensar que essa Virgem é
nossa mãe! Já que ela nos ama e conhece nossa fraqueza, que teremos para
temer? Eis aí frases para exprimir
meu pensamento ou, antes, para não
chegar a fazê-lo. Queria, simplesmente, dizer que me parece que, todos os missionários são mártires pelo
desejo e a vontade e, por conseqüência nem um deveria ir ao purgatório. Se
resta nas suas almas, no momento de comparecer diante de Deus, algum traço da fraqueza humana, a
Santíssima Virgem lhes obtém a graça de fazer um ato de amor perfeito e,
depois, lhes dá a palma e a coroa que
muito bem mereceram"(76). Deixando de lado essa idéia de uma intervenção
misteriosa da Santíssima Virgem no julgamento dos mártires após a morte,podemos
considerar como maravilhosa a outra idéia de que quem é, aqui na terra,
consumido pelo amor de Deus, certamente não será mais purificado no processo
do purgatório após a morte. Em suma, o fogo do amor é mais purificador do que
o purgatório após-morte! Então, podemos concluir, dizendo com
Teresa:"quando se ama, não pode haver purgatório!". Desejar é
tão natural no homem como o ar que ele respira. Aliás, sem desejo o homem não
vive, nem se realiza. O desejo na medida em que é mais forte, mais impulsiona
o homem para sua própria realização. Por outro lado, a filosofia nos ensina
que, o homem, mesmo finito, contingente e limitado, pode ter desejos
infinitos, já que sua capacidade espiritual de inteligência e vontade é
infinita. Esse é um velho ensinamento da filosofia aristotélica-tomista, que
Santo Agostinho supunha como um resquício da divindade no homem. Por esse
motivo, não vemos nenhuma razão para que o teólogo consultado pela Madre Inês
a respeito do Ato de Oferta ao Amor Misericordioso, composto por Santa
Teresinha, tivesse pedido para mudar a expressão da Santa "desejos
infinitos" para "desejos imensos". A nosso ver, o teólogo
errou duas vezes. Primeiramente, porque imenso se refere a não
mensurabilidade, quando desejo, por si mesmo, não pode ser medido.Essa é uma
questão filosófica. Segundo, porque ele se esqueceu de que o homem,
filosófica e teologicamente, pode ter desejos infinitos. Assim, Santa
Teresinha, nesse caso, foi muito mais teóloga do que o teólogo consultado
pela Madre Inês! Mas, nesse
caso, temos um pensamento teresiano digno de observação teológica. É que
nossa Santa sustenta que, nossos bons desejos, por infinitos que sejam, não
podem ser inúteis, ou seja, não podem deixar de serem realizados. A razão
disso é muito simples: Deus teria
dado o desejo e, ao mesmo tempo, teria frustrado o homem não ajudando na sua
realização! Vejamos as palavras da Santa: "...sei que Jesus não pode
desejar para nós sofrimentos inúteis e que Ele não me inspiraria os desejos que sinto, se Ele não quisesse
realizá-los..."(77). É preciso
entender bem nossa Santa. Ela nunca quis dizer que, todos os seus desejos
deviam ser realizados. Ela mesma confessa que, alguns dos seus desejos não
foram realizados(78). Mas, se é impressionante como a palavra desejo aparece
tanto nos escritos teresianos, muito mais impressionante é a convicção de
Santa Teresinha de que, Deus realizaria os seus grandes desejos e é
exatamente isso que nos deixa admirados. Na verdade, nossa Santa
fundamenta-se no só no argumento de que, Deus não deixaria alguém ter grandes e belos desejos
inutilmente, mas também e, sobretudo, no fato de os amantes sempre procurarem
realizar os desejos um do outro. É evidente que, nossa Santa se refere aos grandes
desejos, aos desejos de perfeição, de santidade, mas, aqui,por força do amor,
entram também alguns desejos humanos e, até infantis, como querer ter neve no
dia da sua profissão, o que, de fato, aconteceu. Assim, ela podia escrever:
"todas os meus desejos eram realizados..."(79). O amor, profundo
e verdadeiro, tem essa característica: querer o bem do outro, por isso,
Teresinha, usando de uma comparação bem humana, assim se explicava:
"Filha da luz, compreendi que meus desejos de ser tudo, de abraçar todas
as vocações, eram riquezas que podiam me tornar injusta, então me servi delas
para fazer amigos...Jesus, não posso aprofundar meu pedido, temeria de me
achar acabrunhada sob o peso de meus desejos audaciosos...Minha desculpa é
que sou uma criança, as crianças não refletem sobre a extensão de suas palavras, contudo seu pais, quando
estão sentados em tronos, quando possuem imensos tesouros, não hesitam em
contentar os desejos dos seus
pequenos seres, que eles amam tanto quanto a si mesmos; para lhes dar prazer,
fazem loucuras, vão até à fraqueza"(80). Eis aí a explicação da idéia
curiosa de Teresinha: seus desejos serão realizados, porque ela ama
apaixonadamente seu Pai do céu e sabe que Ele a ama também apaixonadamente.
Por essa razão, ela não teme lhe expor seus mais profundos desejos, sabendo
que eles serão atendidos. No fundo, temos aqui uma explicação psicológica de
uma realidade teológica, que não deve buscar uma explicação teórica na
teologia, mas concreta na prática do amor. Assim, temos, aqui, uma versão da
palavra de Jesus: "Pedi e recebereis, buscai e achareis, batei e
abrir-se-vos-á"(81). No final
do século passado, as idéias sobre a comunhão eucarística eram bem diferentes
das idéias que temos hoje. Foi o Papa Pio X, quem modificou muitas normas a
esse respeito, facilitando a comunhão freqüente, que deu origem a uma
verdadeira evolução até o ponto de ser permitida duas comunhões, em certos
casos, durante um só dia. Mas, essa evolução, essa mudança de idéias não foi
fácil. Dizem
que,"antes mesmo da introdução, na Corte de Roma, da Causa de Irmã
Teresa do Menino Jesus, sua doutrina eucarística, tão segura, provocou a
admiração do santo Papa Pio X, que dizia, a esse respeito, a Monsenhor de
Teil, vice-postulador dessa Causa: "Oh! isso me dá uma grande alegria! -
gaudio magno! -é preciso fazer esse processo depressa!""(82). Na
verdade, Teresa de Lisieux tinha suas idéias próprias, originais e
revolucionárias para o seu tempo, a respeito da comunhão. Com efeito, ela
sempre pensou, a despeito de toda uma tradição e de normas da sua época, que
Jesus está na eucaristia, não para ficar preso em um cibório, mas para vir
para os corações dos seus fiéis e
amigos. Assim, ela jamais entendeu por que a comunhão não fosse freqüente e
que alguém, por motivo simples e sem sentido, deixasse de comungar. Vejamos
duas situações concretas. No dia 29
de maio de 1889, Maria Guérin escreveu uma carta a Santa Teresinha, na
qual dizia que estava atormentada
pelo que via em Paris e, por isso, ia se abster de comungar. Confessa, porém,
que estava louca para comungar, e sabia que a comunhão lhe enchia o coração.
Nossa Santa responde-lhe no dia seguinte, 30 de maio de 1889, quinta-feira,
dizendo sua opinião à consulta feita pela prima: "Você fez bem em me
escrever, compreendi tudo...tudo, tudo, tudo!... Você não cometeu nem sombra
do mal, sei tão bem que são essas
espécies de tentações, que posso lho assegurar sem medo,aliás Jesus mo diz no
fundo do coração... É preciso desprezar todas essas tentações, não lhes dar
nenhuma atenção. Devo lhe confiar uma coisa, que me deu muita pena?...Foi que
minha Mariazinha deixou suas comunhões...no dia da Ascensão e no último dia
do mês de Maria!...Oh! como isso fez sofrer a Jesus!... O demônio deve ser
bem fino pra enganar assim uma alma! Mas, você não sabe que está aí todo o
fim de seus desejos? Ele sabe bem, o
pérfido, que não pode fazer pecar uma alma, que quereria ser toda de Jesus,
assim ele procura convencê-la de ter pecado. Já é muito para ele fazer
confusão nessa alma, mas para sua raiva é preciso outra coisa, ele quer
privar Jesus de um tabernáculo amado, não podendo entrar nesse santuário,
quer, pelo menos, que ele fique vazio e sem mestre!... Ah! que acontecerá com
esse pobre coração?... Quando o diabo conseguiu afastar uma alma da santa
Comunhão, ele ganhou tudo...E Jesus chora!... Ó minha querida, pense que
Jesus está lá no tabernáculo expressamente para você, para você somente, ele
arde de desejo de entrar no seu coração...vá. não escuta o demônio, mangue
dele e vá, sem medo, receber o Jesus
da paz e do amor!...Mas, ouço-a dizer: "Teresa diz isso, porque ela não
sabe... não sabe como eu o faço expressamente...isso me diverte...e, depois,
não posso comungar, pois que creio cometer um sacrilégio,etc..." Sim,
sua pobre Teresinha sabe bem, digo-lhe que
ela advinha tudo, ela lhe assegura que você pode ir, sem medo, receber
seu único amigo verdadeiro...Ela também passou pelo martírio do escrúpulo,
mas Jesus lhe deu a graça de comungar mesmo assim, mesmo quando ela
acreditava ter cometido grandes pecados...pois bem, eu lhe asseguro que ela
reconheceu que era o único meio de se
desembaraçar do demônio, pois quando ele vir que perde seu tempo, ele a deixa
em paz!...Não, não é possível que, um coração "que não descansa senão à
vista do tabernáculo" ofenda Jesus, a ponto de não poder recebê-lo. O
que ofende Jesus, o que fere o seu coração é a falta de
confiança!...Irmãzinha querida, comungue muitas vezes, muitíssimas
vezes...Eis o único remédio, se você quer se curar. Jesus não colocou por
nada essa atração na sua alma. (Creio que ele ficaria contente,se você
pudesse refazer suas duas comunhões,
porque então a vitória do demônio
seria menor, pois que não teria conseguido afastar Jesus do seu
coração)"(83). Eis aqui
uma lição magistral de teologia e de psicologia. A mestra Teresa sabe, por
experiência, que é preciso vencer o mal, vencer o demônio e que a comunhão é
santo remédio para isso. Ademais, não dissera ela que há pecados, que não
ofendem a Jesus? Seria, de fato, em grande parte inútil a presença de Jesus na
eucaristia, se ele ficasse só no cibório, sem poder transformar o homem nele
mesmo pela comunhão, o que é o fim de toda a vida espiritual e o cume de toda
a vida litúrgica da Igreja, como ensina o Vaticano II. O segundo
caso concreto é a insistência de Teresa de Lisieux na comunhão freqüente.Na
sua Autobiografia, ela descreve como ficou feliz, quando seu confessor, ao
contrário do que se podia esperar, deu-lhe licença para fazer mais comunhões
do que se podia pensar no primeiro momento, logo após sua primeira comunhão.
E, assim, ela faz suas observações a esse respeito: "Ele mesmo se dava a
mim na Santa Comunhão muito mais vezes do que eu não teria ousado esperar.
Tomara por regra de conduta fazer, sem faltar a uma só, as comunhões que meu
confessor me permitisse, mas deixá-lo
regulamentar o número delas, sem jamais lho pedir. Não tinha mesmo, nessa
época, a audácia que possuo agora, sem isso teria agido de outra forma, pois
estou bem certa de que uma alma deve dizer a seu confessor a atração que ela
sente para receber seu Deus. Não é
para ficar no cibório de ouro que Ele desce, todas os dias, do céu; é
a fim de encontrar outro céu, que lhe é infinitamente mais querido do que o
primeiro: o céu da nossa alma, feita à sua imagem, o templo vivo da adorável
Trindade!..."(84). Teresa
tinha toda razão! Nenhuma teologia justificava os costumes da época. Madre
Inês, num depoimento trágico, conta-nos o que sucedia naqueles tempos, no
Carmelo de Lisieux, a respeito da comunhão eucarística: "Quanto mais
pungente foi, muitas vezes, a
maneira pela qual ela (Madre Gonzaga)
dispensava a santa Eucaristia! Aconteceu à Madre Maria de Gonzaga prometer
uma comunhão como recompensa a uma irmã, que pegasse um rato! Tirava-se a
comunhão também por um nada. Como é vergonhoso revelar! Quando os decretos de
1891 retiraram dos superiores o direito de determinar as comunhões de suas comunidades, Madre
Maria de Gonzaga os recebeu, de início,
com respeito e submissão à Igreja; mas logo, o confessor, tendo achado
bom permitir a algumas irmãs a
comunhão quotidiana e a outras menos
vezes, seu ciúme reapareceu. O
Padre Youf teve medo e o número das comunhões voltou a ser o mesmo para todas
as religiosas."(85). Era essa a
situação no Carmelo de Lisieux. Outra, porém, era a idéia interior de Santa
Teresinha. Assim, a mesma Madre Inês nos diz que, quando os Decretos de
1891(86) apareceram, ela ficou muito
alegre, mas diante dos fatos que acabamos de relatar, ficou decepcionada(87). Não podia
acreditar que Jesus eucarístico devesse ser privado de morar no cibório dos
corações das pessoas, que o amavam. A esse propósito, Irmã Maria do Sagrado
Coração diz-nos o seguinte: "Após sua primeira comunhão, ela teria
querido comungar todos os dias. Ela sofreu tanto por ser privada da comunhão
cotidiana, que sempre pensei que foi, por sua intercessão, que essa
graça da comunhão freqüente foi
concedida aos fiéis e que é a ela que as criancinhas devem o favor de fazer
sua primeira comunhão, ainda tão jovens. Aliás, creio me lembrar de que ela nos disse, durante
sua vida: "As senhoras verão, quando eu estiver no céu, haverá, no que
toca à santa comunhão, uma mudança na prática da Igreja. Lembro-me,
perfeitamente, de que, algum tempo antes de sua morte, ela disse à Madre
Maria de Gonzaga, que se opunha à prática da comunhão cotidiana: "Minha
Madre, quando eu estiver no céu, eu a farei mudar de opinião". E é o que
aconteceu"(88). E Irmã Genoveva complementa essas informações, dizendo:
"Seus desejos da comunhão foram
bem grandes no mundo, quando o tempo que se estendia entre cada
comunhão parecia-lhe muito longo! No Carmelo, ela rezou, com fervor, para que
o bom Deus fizesse cessar esse costumes de se abster, em princípio, da
comunhão cotidiana"(89). Teresa de
Lisieux foi, certamente, uma revolucionária, em questão de idéias teológicas,
para o pensamento dominante na sua época. Uma das suas idéias revolucionárias
foi, sem dúvida, a respeito da comunhão freqüente, antes, cotidiana. Ainda
hoje, quando tudo que ela sonhou e pediu é permitido pela Igreja, o seu grito
ressoa forte, porque muitos católicos ainda não entenderam que Cristo
eucarístico não quer permanecer no cibório de ouro do tabernáculo, mas no
cibório vivo dos corações daqueles que o amam. No final
deste capítulo, vamos ressaltar o pensamento especial de Teresa de Lisieux a
respeito da Virgem Maria. Com efeito, a devoção à Virgem Mãe sempre foi uma
constante na Igreja, todavia, nem sempre com o mesmo grau de intensidade e de
verdade. Dela, disse S.Bernardo, nunca se diz o bastante e Santa Teresinha
acrescentou que nunca se a ama demasiado(90). Na
história da Igreja, porém, a devoção a Maria tem percorrido um caminho de
altos e baixos. Nos tempos de Teresinha era costume se ter uma imagem de
Nossa Senhora tão inacessível, que quase ninguém podia chegar perto dela. A
Mãe quase desaparecia nas nuvens!
Depois, vieram novos tempos e houve uma época lamentável, em que se
queria quase esquecer-se de Maria, embora muitos sustentassem, com afeto filial,
um profundo amor à mãe do Amor. Atualmente, após o Concílio Vaticano II,
parece que se chegou a bom termo e a claro acordo. Os Padres
concilares,depois de muita discussão, colocaram o seu tratado mariano bem
dentro do documento conciliar sobre a Igreja, e, assim, a Mãe da Igreja e de
todos os homens cristãos, apareceu em toda sua simplicidade e altíssima
dignidade e poder. Teresa de
Lisieux, já na sua época, viveu os tempos e o pensamento do Vaticano II.Em
primeiro lugar, porque tinha uma
devoção filial sincera e um amor profundíssimo à Virgem Mãe de Deus. Em
segundo lugar, porque viu Maria em toda sua dignidade, mas, sobretudo, em
toda sua simplicidade e aproximação dos homens, seus filhos e irmãos. Muitas
páginas dos escritos teresianos são
perpassadas por declarações de amor a Nossa Senhora. Mas, não são
apenas declarações sentimentais que existiram na alma de Teresinha com
respeito a Nossa Senhora. Não. Toda sua vida foi um ato de amor, de veneração
e de súplica à Virgem Santíssima. De seus pais e irmãs mais velhas aprendeu,
desde cedo, a amar e venerar Nossa Senhora. No dia de sua primeira comunhão, foi, vencido algum obstáculo,
escolhida para recitar, em nome de todas as companheiras, o ato de
consagração à Mãe de Deus. Aos dez anos, foi curada pelo sorriso da Virgem.
Em todos os momentos, difíceis ou não, ela está sempre se dirigindo a Nossa
Senhora. Quando está orientando uma noviça, de repente lança um pensamento a
Maria e tudo se resolve. No leito de dor, a toda hora ela está conversando
com a Mãe de Deus e confia nEla de um modo todo especial e chega mesmo a
dizer: "Quisera, contudo, ter mesmo uma bela morte, para lhe agradar.
Eu pedi isso à Santíssima Virgem. Não
o pedi ao bom Deus, porque quero deixá-lo fazer como quiser. Pedir à
Santíssima Virgem não é a mesma
coisa. Ela sabe bem o que fazer de meus pequenos desejos, se é preciso que
ela os diga ou não os diga...enfim,
compete a ela ver as coisas para não forçar o bom Deus a me ouvir, para
deixá-lo agir em toda sua vontade"(91). Todas as
testemunhas são unânimes em afirmar a terna e filial devoção de Teresinha e
de Irmã Teresa do Menino Jesus a Maria Santíssima. Assim se expressa Madre
Inês de Jesus: "Ainda criança, durante o mês de maio, ela fazia,
sozinha, suas oraçõeszinhas, acendendo velas diante da estátua da Santíssima
Virgem no seu quarto. Na sua primeira confissão, o padre a exortou à devoção
para com a Virgem Santíssima; relatando o fato na sua vida, ela acrescenta:
"Prometi a mim mesma redobrar a
ternura para com ela, que já tinha um lugar bem grande no meu coração".
Durante sua doença, na idade de dez anos, sua felicidade era tecer coroas de
flores campestres para ornar a estátua da Virgem Santíssima, que estava perto
dela. Foi rezando a Maria com ardor que, ao olhar essa estátua, ela a viu avançar em sua direção e lhe sorrir e, imediatamente, ela ficou
curada.Mais tarde, fez questão de ser
recebida na Associação das Filhas de Maria. Ao passar por Paris, no momento
de sua viagem a Roma, não se interessou por nenhuma das maravilhas da
capital. Só o Santuário de N.Senhora das Vitórias a reteve, aí ela rezou, com
fervor, à Rainha dos céus e dela recebeu graças muito grandes. No Carmelo,
ficou feliz por fazer a profissão no dia 8 de setembro. Ela escreveu a esse
respeito: "A natividade de Maria, que bela festa para se tornar a esposa
de Jesus!". Gostava de meditar sobre a vida da Virgem Santa. Um dia, em que recebemos a carta de um
padre, dizendo que a Santíssima Virgem não conheceu os sofrimentos físicos,
ela me disse: "Ao olhar, esta tarde, a estátua de Maria, compreendi que
não era verdade. Ela sofreu muito nas viagens, de frio, de calor, da fadiga,
jejuou muitas vezes. Sim, ela sabe o que é sofrer fisicamente... Na fórmula
de seu Oferecimento ao Amor Misericordioso, ela diz: "É à Santíssima
Virgem, minha mãe querida, que eu entrego meu oferecimento, pedindo-lhe de
vo-lo apresentar". Ela chamava, muitas vezes, a Santíssima Virgem com o nome de "mamãe", porque,
dizia ela, é mais terno do que o de
"Mãe". Um dia, em que ela
me confiava seu desamparo interior e até que ponto Jesus estava escondido
para ela, eu lhe disse: "A Santíssima Virgem também está
escondida?" "Não, respondeu-me ela vivamente, A Santíssima Virgem
jamais está escondida para mim. E quando não vejo mais o bom Deus, é ela que lhe dá todos os meus
recados.Eu a envio, sobretudo, para
lhe dizer de não ter medo de me provar". As últimas linhas, que ela
escreveu nesta terra, exprimem, de uma maneira muito delicada, seu amor para
com a Virgem Santíssima. Ela escreveu,
penosamente, no reverso de uma imagem, no dia 8 de setembro de 1897:
"Ó Maria, se eu fosse a rainha do céu e a senhora fosse Teresa, quisera
ser Teresa para que a senhora fosse a rainha do céu!!!". Na manhã de sua
morte, ela me disse, olhando a estátua da Santíssima Virgem: "Oh! eu
rezei para ela durante esta noite com um fervor!". E, à tarde, olhando
uma imagem de Nossa Senhora do Monte Carmelo, ela dizia à Madre Priora:
"Minha Madre, apresente-me bem depressa
à Santíssima Virgem""(92). Irmã Maria
do Sagrado Coração acrescenta: "Ela me disse um dia: "Quando a
gente se dirige aos santos, eles fazem esperar um pouco: sente-se que eles
devem ir apresentar suas petições,
mas, quando eu peço uma graça à Santíssima
Virgem, é um socorro imediato que recebo. Faça a experiência disso, e a senhora
verá...""(93). Irmã Genoveva de Santa Teresa complementa essas
informações, dizendo: "Teresinha tinha apenas quatro, quando já
manifestava sua felicidade em rezar diante do altar de Maria. Ela batia as
mãos e saltava de alegria, quando via no altar muitas flores"(94). Com uma
devoção filial e um amor tão terno como este, é natural que ela tivesse a coragem de dizer: "...A
Santíssima Virgem não tem a
Santíssima Virgem para amar, ela é menos feliz do que nós"(95). Três
coisas marcam o relacionamento de Teresa de Lisieux com a Santíssima Virgem.
A primeira é a simplicidade. Com efeito, todo o trato de Tersinha com Maria é
revestido de uma caráter de ternura filial, de simplicidade evangélica.As
palavras já citadas mostram, muito bem, essa simplicidade que lhe é tão
peculiar. A segunda
marca da devoção Mariana de Teresa de Lisieux é seu pensamento de que Maria é
mais Mãe do que rainha. Na verdade, ela se refere a Maria, algumas vezes,
como a Rainha dos céus, todavia, como conseqüência própria da sua
personalidade e da sua mensagem espiritual, Maria é vista sob esse ângulo
especial da maternidade, que é tão salientado no Vaticano II: "Sabe-se
bem que, a Santíssima Virgem é Rainha do céu e da terra, mas ela é mais Mãe
do que rainha"(96). A terceira
marca da devoção Mariana de Santa Teresinha é sua visão da comunhão de Maria
com a simplicidade e a dureza da nossa vida neste vale de lágrimas. Aqui,
está o ponto principal e peculiar de Teresinha no seu pensamento teológico a
respeito de Maria Santíssima. Ela protestava contra a maneira enfeitada e
puramente celestial como se apresentava certas vezes a Virgem Santíssima. Não
aceitava os sermões, que elevava tanto Nossa Senhora que ela parecia deixar
de ser uma criatura, nossa irmã querida que partilhou conosco dos sofrimentos
e aperreios desta vida. Faltando pouco mais de um mês para morrer, ela
confessou o seguinte: "Como teria querido ser padre para pregar sobre a
Santíssima Virgem. Uma vez só me teria bastado para dizer tudo que penso a
esse respeito. Teria feito, primeiramente, compreender a qual ponto se
conhece pouco sua vida. Não seria necessário dizer coisas inverossímeis, ou
que não se sabe; por exemplo, que ainda bem pequena, com três anos, a
Santíssima Virgem foi ao Templo se oferecer ao bom Deus com sentimentos
ardentes de amor e totalmente extraordinários; enquanto que ela lá foi talvez
simplesmente para obedecer aos seus pais. Por que dizer ainda, a propósito
das palavras proféticas do velho Simeão, que a Santíssima Virgem, a partir
daquele momento, teve constantemente diante dos olhos a paixão de Jesus?
"Uma espada de dor transpassará vossa alma", dissera o velho. Não
era, pois, para o presente, a senhora vê bem, minha Madrezinha; era uma
predição geral para o futuro. Para que um sermão sobre a Santíssima Virgem me
agrade e me faça bem, é preciso que veja sua vida real, não sua suposta vida;
e estou certa de que sua vida real
devia ser totalmente simples. Mostram-na inabordável. Seria necessário mostrá-la
imitável, salientar suas virtudes, dizer que ela vivia de fé como nós e dar
as provas pelo Evangelho, em que lemos: "Eles não compreenderam o que
lhes dissera". E esta outra, não menos misteriosa: "Seus pais se
admiravam do que diziam sobre ele".Essa admiração supõe certa
estupefação, a senhora não acha, minha Madrezinha?...e não é preciso dizer,
por causa de suas prerrogativas, que ela eclipsa a glória de todos os santos,
como sol, quando se levanta, faz desaparecer as estrelas. Meus Deus, como
isso é estranho! Uma Mãe que faz desaparecer a glória de seus filhos! Eu
penso exatamente o contrário, penso que ela aumentará muito o esplendor dos
eleitos. Está bem falar de sua prerrogativas, mas não se deve dizer apenas
isso, e se, em um sermão, a gente é obrigado, do começo ao fim, a exclamar Ah!
Ah!, é demais. Quem sabe, se alguma alma
não chegaria mesmo a sentir, então, certo distanciamento de uma
criatura de tal modo superior e não diria para si mesma: "Se é assim, é
melhor ir brilhar, como se pode, em um cantinho!". O que a Santíssima
Virgem tem mais do que nós, é que ela não podia pecar, que ela era isenta do
pecado original, mas, por outro lado, ela teve muito menos chance do que nós,
pois que não teve a Santíssima Virgem para amar; e isso é uma doçura a mais
para nós e uma doçura a menos para ela!"(97). Visão
espetacular, essa de Teresa! Maria é nossa irmã de dor, de luta, de caminhada
neste vale de lágrimas! Visão teresiana, que foi a visão do Vaticano II!
Visão real e realística, sem rodeios e sem floreios. com efeito, a Virgem
Maria, cujos privilégios maravilhosos como o da maternidade divina e o da
imaculada conceição tanto a elevaram, não deixou de ser criatura igual a nós.
Maria é nossa mãe, mas é também nossa querida irmã e companheira. Teresa de
Lisieux não foi padre, mas nos deixou, mesmo assim, seu sermão, que foi sua
belíssima poesia sobre Nossa Senhora. Irmã Maria do Sagrado Coração anotou a
esse respeito: "A meu pedido, ela compôs sua última poesia: "Por
que te amo, ó Maria". Ela nos dizia: "Meu pequeno cântico exprime
tudo que penso e o que pregaria sobre a Santíssima Virgem, se eu fosse
padre(98). "Por
que te amo, ó Maria" foi a última poesia composta por Santa Teresinha.
Veio à luz por um pedido de sua irmã. Maria, mas, na verdade, ela estava toda
no coração e na mente de Teresinha, desde muito tempo. A poesia tem 25
estrofes e cada estrofe tem 9 versos alexandrinos. A composição é de maio de
1897. Muitos livros, artigos e estudos em geral já foram feitos sobre essa
poesia de Teresa. No fundo, se não é uma obra-prima de literatura, é,
todavia, uma obra-prima de devoção Mariana na mais pura e mais real
teologia.Na verdade, ela é a síntese de um sermão completo, ou melhor, de
toda a teologia Mariana de Teresinha.
A Santa parte da sua idéia básica:
Maria foi uma igual a nós, apesar de todos seus privilégios e, ademais, como
mãe, não pode espantar, afastar ou
eclipsar nenhum de seus filhos. Após as duas primeiras estrofes dedicadas a
essa idéia fundamental, Teresinha canta, estrofe por estrofe, toda a vida de Nossa Senhora, interpretando-a e
aplicando-a à sua própria vida. No
final, une todas suas idéias e,
lembrando o sorriso de Maria na manhã
da sua vida, pede que a Virgem lhe venha sorrir na tarde, em que ela já
está. Ela sofreu com Maria e quer cantar, para sempre, por que a ama e
repetir, eternamente, que é sua filha:
Em breve ouvirei essa doce harmonia;
Em breve, no belo céu, eu te verei!
Tu que vieste me sorrir na manhã de minha vida,
Vem me sorrir ainda...Mãe, eis a tarde!
Não temo mais o brilho de tua glória suprema;
Contigo eu sofri... e quero agora
Cantar nos teus joelhos, Virgem, por que te amo...
E repetir para sempre que sou tua filha! NOTAS (1) -LALUQUE,B. UN DOCTEUR POUR
L'ÉGLISE, THÉRESE DE LISIEUX, N.Cité, Paris, 1897. (2) -M.B,3r (3) -P.A.p.480 (4) -M.A,48v (5) -P.A.p.180-181 (6) -M.B,1r (7) -Salmo 51 (8) -P.O.p.158 (9) -Pr.p.86-87 (10)-M.A,2r-2v (11)-Mt 20,1-16 (12)-Lc 15,11-32 (13)-God's Self-Communication (14)-Is 55,8 (15)-M.A,2v-3r (16)-M.A,3r (17)-M.A,2r (18)-C.A. 5.6.4 (19)-C.V. 5.6.2 (20)-Jo 15,5 (21)-I Cor 15,10 (22)-l Cor 12,3 (23)-At 17,28 (24)-Rom 8,28 (25)-M.A,32r (26)-M.A,45r (27)-M.C,35r (28)-M.C,7r (29)-CT,11 (30)-CT,144 (31)-C.A,18.4.1 (32)-CS,p.49-50 (33)-C.A,18.8.3 (34)-C.A,9.5.3 (35)-CS,p.71 (36)-CS,p.57 (37)-CS,p.57-58 (38)-C.A,15.5.1 (39)-Jo 4,10 (40)-C.V,11.7.2 (41)-CS,p.62 (42)-C.A,15.7.5 (43)-M.C,14r (44)-C.A,4.8.8 (45)-C.A,12.7.3; 4.6.1 (46)-E.p.98;CS,p.283-284 (47)-CT,226 (48)-CT,135 (49)-CT,96 (50)-Aos 14 de dezembro de 1927,
Pio XI promulgou Santa Teresinha patrona principal, ao lado de S.Francisco Xavier, de todos os missionários e de todas as missões católicas. (51)-M.B,1v (52)-C.A,12.7.3 (53)-C.A,23.6; C.V,23.6. Só o
C.A. não tem a frase:
"acharia que tenho as mãos vazias". (54)-C.A,6.8.8 (55)-CT,143 (56)-CT,142 (57)-CT,109 (58)-CT,121 (59)-êx 9,16 (60)-M.C,20r (61)-I Jo 4,8 (62)-M.A,83v-84r. Cf Lc 15,31 (63)-Frei Alexis Prou, Francisco
recoleto de Caen, pregou esse retiro às carmelitas de Lisieux, de 8 a 15 de
outubro de 1891 (64)-CT,114 (65)-M.A,80v (66)-Cf.TRINITÉ,PH. de la, LA
DOCTRINE DE STE.THÉRESE DE L'ENFANT JÉSUS SUR LE PURGATOIRE, Paris, 1945. Trata-se de um opúsculo, que aliás não aprofunda o tema proposto. (67)-DE,II,p.682. Cf C.A,29.7.8 (68)-M.A,76v; CT,74,182;
C.A,18.5.2; 6.8.4; 11.9.5 (69)-M.A,84v (70)-C.A,30.7.3 (71)-CT,221 (72)-C.A,4.6.1 (73)-C.A,8.7.15 (74)-M.A,84v (75)-DE,II,p.683 (76)-CT,226 (77)-M.A,84v (78)-M.A,26v (79)-M.A,73v;81r;81v;82v;M.B,3r,3v (80)-M.B,4r (81)-Mt 7,7 (82)-Apud "A l'ÉCOLE DE
SAINTE THÉRESE DE L'ENFANT-JÉSUS",Carmel de Lisieux,1948,p.XIII (83)-CT,92 (84)-M.A,48v (85)-P.A.p.144 (86)-Trata-se do Decreto da
Sagrada Congregação dos Bispos e Regulares, datado de 17 de dezembro de 1890. Eis o
ponto essencial: "No que diz respeito à permissão ou à proibição de se aproximar da santa Mesa, o Santo Padre decreta
que essas permissões ou proibições referem-se
somente ao confessor ordinário ou extraordinário,sem que os superiores tenham alguma autoridade para ingerir nesse assunto. Aquele que tiver obtido do confessor a autorização de uma comunhão mais freqüente, ou mesmo cotidiana, deverá comunicar ao superior". (87)-P.A.p.152-153 (88)-P.A.p.231-232 (89)-P.A.p.263 (90)-CT,92 (91)-C.A,4.6.1 (92)-P.A.p.154-156 (93)-P.A.p.233 (94)-P.A.p.267 (95)-C.A,11.8.4 (96)-C.A,21.8.3 (97)-C.A,21.8.3 (98)-P.A.p.233 TERESA,
ESCRITORA E PINTORA Grande parte
do furacão provocado por Santa Teresinha se deve à sua Autobiografia, que se
tornou conhecida, no mundo inteiro, com o nome de "História de uma
Alma". A Divina Providência se serviu desse livro, para que o fenômeno
Teresa de Lisieux se tornasse conhecido, amado e venerado no mundo inteiro.
Mas, pouca gente sabe que Santa Teresinha escreveu muito e nos deixou um
legado precioso, além de sua Autobiografia, de Cartas,de Poesias, Peças Teatrais e Orações. A
história desse conjunto, valiosíssimo para a espiritualidade cristã, é já
muito longa e tem seus altos e baixos. A partir
das festas do centenário de Santa Teresinha temos tido a felicidade de ver o
resultado de trabalhos sérios e profundos, realizados por equipe
extraordinária, que levantou todo o acervo literário teresiano e vem
publicando todos as peças, escritas por Santa Teresinha, não só segundo os
textos originais, expurgadas, portanto, de adições, glosas,interpretações e
comentários, mas também acompanhadas de introduções esclarecedoras, notas
explicativas e comentários críticos e
literários. Em suma, as edições do Centenário, como são chamadas, são uma
obra preciosíssima, que dá ao leitor e ao estudioso de Teresa de Lisieux um
material nunca dantes alcançado, para que possa investigar, examinar,
pesquisar e conhecer melhor a pessoa e a obra daquela que é "a maior
santa dos tempos modernos". Quando dos
Processos para a Beatificação e Canonização de Santa Teresinha, foi feito
também, em 1910, um "Pequeno Processo" para a busca e listagem dos
escritos da Santa. O comentarista, que faz a introdução ao texto desse
"Pequeno Processo", na edição publicada pelo Teresianun, de Roma, a
respeito das interferências feitas nos textos originais da Santa, diz o
seguinte: "Não convém insistir, aqui, sobre a maneira que nós
julgaríamos estranha, arbitrária e sem respeito, como foram remanejados
-mesmo com as melhores das intenções e, não, somente em 1910! - os escritos
de Teresa"(1). É difícil
julgar acontecimentos passados,
embora bem lamentáveis para nós de hoje.É certo que, houve muitas e muitas
manipulações dos preciosos textos originais de nossa Santa. Não discutimos as
intenções, que julgamos as melhores possíveis. Agora, tudo passou e, apesar
de tudo e com tudo, a vontade de Deus se realizou e Teresinha nos deu a sua
mensagem. Portanto, o que verdadeiramente nos interessa, agora, é o
conhecimento sério e pormenorizado de tudo quanto nossa Santa escreveu. A
finalidade desse conhecimento é poder, por meio dele, penetrar, mais
profundamente, na vida, na personalidade e na mensagem de Santa Teresinha,
para, assim, vivermos melhor sua
espiritualidade de amor,de simplicidade, de confiança e de abandono. No citado
"Pequeno Processo", encontramos a listagem completa dos escritos de
Santa Teresinha, distribuídos, então, em quatro volumes. O primeiro volume
tem 141 páginas e contém o exemplar do manuscrito da autobiografia de Santa
Teresinha, que se apresenta com o título de "História primaveril de uma
Florzinha branca, escrita por ela mesma". O segundo volume tem 184 páginas e contém os exemplares autênticos das cartas e de outros escritos de Santa Teresinha.A
listagem das cartas está assim estabelecida: A. Cartas aos seus parentes e
outras pessoas antes de sua entrada na Carmelo: 21 cartas; B. Cartas aos seus
parentes desde sua entrada no Carmelo de Lisieux: 37 cartas. C. Cartas depois
de sua entrada no Carmelo às suas irmãs Maria e Paulina: 26 cartas. D. Cartas
à sua irmã Celina: 44 cartas. E. Diversos escritos endereçados à sua irmã
Celina, que no Carmelo tomou o nome de Irmã Genoveva de Santa Teresa: 8 e
mais 4 pequenos bilhetes dirigidos à mesma irmã. F. Cartas à sua irmã Leônia,
que, no mosteiro da Visitação em Caen, tomou o nome de Irmã Francisca Teresa:
16 cartas. G. Cartas a dois missionários e a uma religiosa beneditina de
Bayeux:Ao Padre Belliere: 9 cartas; ao Pe. Roulland: 5 cartas; à Irmã Maria
José da Cruz:1 carta. H. Diversos: 1.Uma Legenda... 2.A uma religiosa doente.
Pequenos bilhetes dirigidos a uma religiosa atingida por uma doença mental: 7
bilhetes.3. Pequenos bilhetes dirigidos a uma de suas noviças, Irmã Maria da
Rindade e da Santa face: 7 bilhetes. I. Orações compostas pela Serva de Deus:
6 orações. J.Orações compostas para
uma de suas noviças, Irmã Marta de Jesus: 9 orações. Uma carta à sua prima
Maria Guérin, Irmã Maria da Eucaristia. O terceiro volume tem 94 páginas e
contém exemplares autênticos de escritos autógrafos intitulados: Recreações
Piedosas: 8 documentos. O quarto volume
tem 72 páginas e contém exemplares autênticos de escritos autógrafos
intitulados: Poesias. A.Poesias para sua irmã Celina: 5 poesias. B. Poesias
endereçadas a diversas pessoas: 46 poesias. Essa é a
listagem completa dos escritos originais de Santa Teresinha, que foi
apresentada em 1910. O total é o seguinte: Uma Autobiografia; 163 Cartas; 21
Pequenos Bilhetes; 12 Orações; 53 Poesias; 8 Recreações Piedosas; 6 Diversos. O
trabalho, na época, foi imenso. Ninguém esperava o furacão de glória que
seria Teresa de Lisieux, por isso, seus escritos originais tinham se
conservado apenas por obra da Providência. Mesmo assim, alguma coisa tinha
desaparecido. No "Pequeno Processo", Irmã Genoveva confessa:
"Nada,certamente, foi destruído por fraude; só um original foi pedido
fortuitamente("Jesus em Betânia"), mas tínhamos uma cópia exata ,
que reproduzimos na cópia geral. Enfim, algumas cartas, como já disse,
ficaram apenas em fragmentos, porque destruíram o que parecia insignificante.
A recreação piedosa "O triunfo da humildade" foi restaurada, em
algumas passagens, segundo o desejo claramente manifestado pela Serva de Deus, reconhecendo a
falsidade da história de Diana Vaughan, da qual ela tirara alguns
passos"(2). Irmã Maria
da Trindade, no mesmo Processo, afirma que: "Não perdi nada, senão um
bilhetinho sem importância, que cortei em pedaços para dar como autógrafos a
várias pessoas"(3). Irmã Marta de Jesus, por sua vez, confessa
arrependida: "Mesmo enquanto a Serva de Deus estava viva, queimei vários
dos seus bilhetes, o que lamento amargamente"(4).Sua irmã Leônia também
confessa, com arrependimento: "Recebi, quer no mundo, quer após minha
entrada na Visitação, certo número de cartas, que queimei sem lhes dar
importância e o lamento hoje. Certo número de cartas escritas para seu pai, a seus parentes, e a outras
pessoas, desapareceram também por esse mesmo motivo, que não lhes davam
importância, ou ainda porque tinham detalhes íntimos da vida de família, mas
essas destruições são anteriores à ordem do sr.Bispo relativa à busca dos
escritos da Serva de Deus, e não supõe nenhuma má intenção"(5). A Irmã
Maria José da Cruz, da qual temos uma carta de Teresa, confessa também que :
"Recebera da Serva de Deus outra carta, quando da minha vocação à vida
religiosa(1889); era um bilhetinho, que não conservei"(6). Como se
pode ver, a listagem do "Pequeno Processo" não ficou completa,
porque alguns documentos originais de Teresa não foram conservados,
lamentavelmente. Os tempos
se passaram. A história dos documentos continuaram sua trajetória. Antes da
morte da Madre Inês já se falava de uma edição completa dos originais da
"História de uma Alma". Os
superiores do Carmelo de Lisieux e a própria Santa Sé queriam essa edição. Foi, assim, que em 1953, Frei Francisco de
Santa Maria recebeu do Definidor Geral da Ordem do Carmo a incumbência de
providenciar a primeira edição dos documentos autênticos da "História de
uma Alma",o que, de fato, aconteceu em 1956. Aos 16 de
julho de 1956, Frei Francisco de Santa Maria recebia, uma carta do Vaticano,
na qual se dizia: "O Santo Padre gosta de pensar que sua publicação suscitará uma renovação dos estudos teresianos
e favorecerá um conhecimento sempre
mais exato e mais profundo do "caminho de infância", que a Santa
recebeu a missão de revocar a nosso mundo"(7). O desejo do Papa, com
efeito, se tornou realidade.Com efeito, para comemorar o centenário do nascimento
de Santa Teresinha, com um Comitê de Patrocínio de alto gabarito e com o
trabalho de várias equipes, começou-se
a publicar a "Edição crítica das obras completas (Textos e
Palavras) de Santa Teresa do Menino Jesus e da Santa Face",que se tornou
conhecida com o nome de "Edição do Centenário".Assim, além dos
Manuscritos Autobiográficos, nome da publicação do texto original da
"História de uma Alma", vieram à luz a "Correspondência
Geral"(1972-1974), em dois volumes; as "Poesias" (1979), em
dois volumes; as "Últimas Conversas"(1971), em dois volumes;
"Teatro no Carmelo, Recreações Piedosas" (1985);
"Orações" (1988). O valor
dessa Edição do Centenário é inestimável. O estudioso e o devoto de Santa
Teresinha, que nunca tiveram a felicidade de penetrar os umbrais do Carmelo
para pesquisar no seu riquíssimo arquivo, têm, com as obras dessa Edição, um
tesouro de altíssimo valor, no qual pode encontrar muita coisa para alimentar
suas pesquisas e desenvolver seu conhecimento a respeito da sua Santa querida.
As introduções, as notas; os comentários, as tabelas, os índices analíticos
de assuntos, de autores citados e de textos bíblicos, as informações gerais
concernentes a muita coisa que teve
importância na vida de Teresa, tudo isso é apresentado, com detalhes técnicos
e profundidade crítica, nessa preciosa edição. Enquanto que em 1910, eram
enumeradas e recolhidas 163 Cartas e 21 Bilhetinhos,a "Correspondência
Geral" nos oferece 266 cartas, bilhetes ou dedicatórias de Teresa, além
de pequenos fragmentos originais. Só
isso prova o valor dessa obra. Todavia, ainda não estamos no final do
trabalho. Os estudiosos e devotos de Santa Teresinha esperam outras
publicações, como seriam as da Correspondência completa a respeito de Santa
Teresinha e as Informações de muitíssimos contemporâneos. Quem estuda Santa
Teresinha sabe, muito bem, que ainda lhe falta muitos dados preciosos.
Esperamos que as autoridades de Lisieux possam nos oferecer, num futuro
próximo, mais dados e mais informações, para que possamos conhecer, melhor e
mais profundamente, a vida, as obras e a mensagem de Teresa de Lisieux. A
"História de uma Alma" é a obra mais conhecida e mais lida de nossa
Santa. Tudo se iniciou, diz Madre
Inês de Jesus,quando: "No começo de 1895,numa noite de inverno, irmã
Teresa do Menino Jesus nos contou várias passagens encantadoras de sua infância. A pedido de Irmã Maria do Sagrado
Coração, ordenei à Serva de Deus que escrevesse só para nós(suas irmãs) todas
suas lembranças de infância. Como eu era sua Madre Priora, ela teve de
obedecer. Ela escreveu unicamente durante seus tempos livres e me deu seu
caderno no dia 20 de janeiro de 1896.
Essa narrativa era incompleta. A Serva de Deus insistia nele,
particularmente, sobre sua infância e sua primeira juventude; sua vida religiosa
era nomeada apenas de passagem. Esse primeiro manuscrito forneceu os oito
primeiros capítulos da "História de uma Alma"(página 1 à 149 da
edição in 8º de 1914). Madre Maria de Gonzaga sendo reeleita priora, eu a
persuadi de ordenar à Serva de Deus a
continuação de sua narrativa: era o dia 2 de junho de 1897.A Serva de Deus
endereçou, pois, à Madre Maria de Gonzaga a continuação de sua narração; ela
forma os capítulos 9 e 10 da "História de uma Alma"(página 151 à
205). Essa parte foi escrita de um só jato e sem rasuras no decorrer desse
mês de junho de 1897. A Serva de Deus era, constantemente, perturbada pelas
idas e vindas das enfermeiras e das noviças, que queriam aproveitar de seus
últimos dias. Ela me dizia: "Eu não sei o que escrevo, nada tem
seqüência...será preciso que a senhora retoque tudo isso". Outra vez
ainda, ela me disse: "Minha Madre, o que a senhora achar bom de tirar ou
ajuntar ao caderno de minha vida, serei eu a tirar ou a ajuntar. Lembre-se
disso mais tarde, e não tenha nenhum escrúpulo a esse respeito". Ela
cessou de escrever no começo de julho de 1897. O que segue no volume impresso
(capítulo XI, página 207 à 222), foi escrito pela Serva de Deus durante seu
retiro de 1896, a pedido de Irmã Maria do Sagrado Coração. Depois da morte de
Irmã Teresa do Menino Jesus, Madre Maria de Gonzaga consentiu em publicar, em
um volume, esses três manuscritos diversos, mas sob a condição que os
modificasse para deixar entender que todos eles tinham sido endereçados a
ela. Essas modificações não mudaram o
fundo da narrativa. Aliás, no mês de
abril de 1910, Irmã Maria do Sagrado Coração reconstituiu, no seu estado
primeiro, o manuscrito original,
cópia autêntica foi enviada para Roma. Ademais, na última edição in 8º, de 1914, restabeleceu-se a
distinção dos três manuscritos"(8). A
narrativa da Madre Inês é boa, mas deixa entrever, ao leitor atento, duas
preocupações. Primeira, que ela tinha
autoridade para fazer os
retoques, que fez. Na verdade, a Madre levou muito a sério a sugestão da Santa
e retocou a seu bel prazer.Ela, Irmã Genoveva e as sugestões de Madre Maria
de Gonzaga mudaram muito a fisionomia original da Autobiografia de Teresa. É
verdade que, o fundo da narrativa ficou quase intacto, quase...No trabalho
precioso de Frei Francisco de Santa Maria
são páginas e páginas, com letras bem pequenas, que estão cobertas com
passagens dos Manuscritos Autobiográficos omitidas na História de uma Alma,
segundo a edição de 1955. É estarrecedora a comparação entre o texto dos
Manuscritos e o texto da História de uma Alma! E, para dizer a verdade, não
foi fácil a publicação dos Manuscritos originais, como não foi fácil a
publicação da nova e bem feita Edição do Centenário. Por certos documentos,
tem-se a impressão que Celina e Paulina não se aperceberam bem que, Santa
Teresinha, canonizada pela Igreja, não era mais propriedade delas. Ademais,
sabemos que a intenção dos retoques foi justamente para tirar assuntos
familiares mais íntimos, mas também sabemos que foi para definir uma certa
linha de exposição da chamada Infância Espiritual. Celina tinha medo que o
conhecimento, por parte do público devoto e estudioso, de muitos documentos
originais pudesse prejudicar o conceito de Teresa e, ao mesmo tempo,
atrapalhar a explicação, que ela concebera, da Infância Espiritual. Apesar
disso tudo, porém, com muita constância, os estudiosos e devotos foram
fazendo caminho pouco a pouco. Assim, Madre Inês, antes de morrer, ordenou à
Irmã Genoveva que ajudasse no trabalho da edição dos Manuscritos. Frei Francisco
só conseguiu publicar sua obra maravilhosa em 1956, três anos antes da morte
da última irmã viva de Teresa, Celina. A Madre,
pois, se defendeu com as palavras da Santa, esquecendo-se que abusou do
"tirar e ajuntar", que lhe fora concedido pela escritora
humilde.Mesmo assim, Deus obrou seus milagres! A segunda
preocupação da Madre Inês é mostrar que as distinções dos três manuscritos já
tinham sido repostas, quando, na verdade, o mais importante era o texto
original como um todo.Tudo isso, porém, não tira o mérito e o esforço das
irmãs de nossa Santa, particularmente, de
Madre Inês e Irmã Genoveva, em nos dando oportunidade de termos, hoje, quase todos os documentos teresianos
no texto original. Irmã Maria
do Sagrado Coração explica, melhor, como foi que nasceu o Manuscrito B.:
"No mês de setembro de 1896, pedi-lhe para me colocar, por escrito, seu "caminhozinho espiritual".
Ela o fez e essas páginas formam o fim da "História de uma Alma""(9). Como
atesta Irmã Genoveva de Santa Teresa, a Santa escreveu as lembranças da
primeira infância para dar prazer a
suas irmãs(10). No primeiro instante, não houve, portanto, nenhum pensamento
de publicação nem sequer de dar conhecimento a pessoas outras fora do círculo
dos Martins. "Mas, acrescenta Madre Inês,quando em 1897, no mês de
junho, ela escreveu para a Madre Maria de Gonzaga o que é a matéria dos capítulos IX e X, ela sabia que, eu me
propunha dar a conhecer seus escritos após sua morte. Ela sabia então (nos
últimos meses de sua vida) que utilizaria, para essa publicação, uma parte,
pelo menos, do que ela escrevera sobre sua infância e sua juventude...No seu
leito de morte, ela dava uma grande importância a essa publicação e via nela um meio de
apostolado. Ela me disse, um dia, com
segurança: "Será necessário publicar o manuscrito sem nenhuma demora
após minha morte. Se a senhora tardar, se cometer a imprudência de falar seja
a quem for, salvo à Nossa Madre, o demônio lhe fará mil ciladas para impedir
essa publicação, que é,contudo,bem importante. Mas, se a senhora fizer o que
lhe for possível, para não deixá-la entravar, não tema nada das dificuldades
que encontrará. Para minha missão, como para a de Joana d'Arc, a vontade de
Deus se cumprirá, apesar do ciúme dos homens". -"Você pensa, então,
que será por esse manuscrito que fará bem às almas?" -"Sim, é um
meio do qual o bom Deus se servirá para me ouvir. Ele fará bem a toda espécie
de almas, exceto àquelas que estão nos caminhos extraordinários".
-"Mas, se Nossa Madre o jogasse no fogo?". -"Pois bem, não
teria a menor pena, nem a menor dúvida sobre minha missão. Pensaria bem
simplesmente que, o bom Deus ouvirá os meus desejos por outro meio".
Aliás, mesmo na parte composta para Madre Maria de Gonzaga, o pensamento que
seu manuscrito poderia ser publicado, não modificou, em nada, a
espontaneidade de sua redação. Nessa parte, como nas duas outras, ela nos
entrega sua alma toda inteira"(11). Portanto,
tudo começou com umas histórias contadas num recreio. Depois, veio a sugestão
de Maria e, em seguida, a ordem da Madre Inês. Depois, a sugestão da Madre
Inês à Madre Gonzaga, para que Teresa continuasse a narrativa da sua vida e,
em seguida, a ordem da Madre Gonzaga. Nesse meio termo, veio o pedido da Irmã
Maria do Sagrado Coração e apareceu o Manuscrito B, em setembro de 1986. Tudo
se estendeu dos inícios de 1895 até julho de 1897. Mais precisamente, o
Manuscrito A foi iniciado nos inícios
de 1985 e terminado aos 20 de janeiro de 1896. O Manuscrito B foi escrito
entre 13 e 16 de setembro de 1896. O Manuscrito C foi escrito entre 3 de
junho e os primeiros dias de julho de 1897. Mas, a
história da origem do Manuscrito C merece mais pormenores. Depois da
oração da noite, do dia 20 de janeiro de 1896, ao passar por sua Madre Priora, Teresa se ajoelhou e lhe entregou
o Manuscrito A. Madre Inês recebeu o Manuscrito, mas não lhe deu importância.
Guardou-o simplesmente. Teresa, por sua vez, também não lhe disse mais nada,
nem sequer lhe perguntou se lera o Manuscrito. O tempo foi passando. Tendo
voltado a ser uma simples religiosa, após as eleições de março de 1896, Irmã
Inês reencontrou o Manuscrito, leu-o e deu-o a conhecer às suas irmãs. Não
disse mais nada a ninguém. Somente aos 2 de junho de 1897, foi que ela o deu
a conhecer à Madre Maria de Gonzaga. A
propósito desse fato, ou seja, desse retardamento em dar a conhecer o
Manuscrito à Madre Gonzaga, Madre Inês, no Processo Informativo, nos dá
explicações interessantes, que servem para compreendermos melhor a história
do Manuscrito C: "Achei suas narrativas incompletas. Irmã Teresa do
Menino Jesus tinha insistido, particularmente, sobre sua infância e sua
adolescência, como eu lhe pedira; sua vida religiosa foi apenas
esboçada...Pensei que fazia pena que, ela não tivesse redigido, com o mesmo
desenvolvimento, o que tinha relação com sua vida no Carmelo. Mas, nesse
ínterim deixara de ser Priora e a Madre Maria de Gonzaga voltara a esse
cargo. Eu temia que ela não tivesse
por essa composição o mesmo interesse
que eu e não ousava lhe dizer
nada sobre ela. Mas, enfim, ao ver Irmã Teresa do Menino Jesus ficando muito
doente, quis tentar o impossível. Na noite do dia 2 de junho de 1897, quatro
meses antes da morte de Irmã Teresa, por volta da meia-noite, fui encontrar
nossa Madre Priora: "Minha Madre, disse-lhe, me é impossível dormir
antes de lhe ter confiado um segredo. Enquanto era Priora, Irmã Teresa me
escreveu, para me dar prazer e por obediência, algumas lembranças de sua
infância. Reli isso outro dia; está
gracioso, mas a senhora não poderá tirar dali muita coisa para ajudá-la
a fazer sua circular após sua morte, pois não há quase nada sobre sua
vida religiosa. Se a senhora ordenar, ela poderia escrever alguma coisa mais
séria, e não duvido que o que a senhora teria será incomparavelmente melhor do que o que tenho" O bom Deus
abençoou minha iniciativa e, no dia seguinte, pela manhã, Nossa Madre ordenou
à Irmã Teresa do Menino Jesus continuar sua narrativa. Eu já houvera lhe
escolhido um caderno, mas ela o julgava muito bonito, embora fosse muito
ordinário...ela temia cometer uma falta contra a pobreza servindo-se dele.Ela
me perguntou, se não seria necessário, pelo menos, apertar as linhas para
empregar menos papel. Respondi que ela estava bastante doente para se fatigar
escrevendo assim e que era necessário, ao contrário, espaçar as linhas e
escrever com letras grandes. Ela se pôs, então, a escrever de um só jato,
sempre sem rasuras, mas tão desordenadamente, por causa de sua doença, por causa também das idas e
vindas das enfermeiras e das noviças, que queriam aproveitar de seus últimos
dias, que ela me dizia: "Não sei o que escrevo". E, um dia, em que
ela tinha sido particularmente incomodada: "Escrevo sobre a caridade,
mas não fiz o que queria; é o que não se pode fazer mais mal feito. Enfim, meu
pensamento está aí. Será necessário
que a senhora retoque tudo isso; asseguro-lhe que isso não tem nenhuma
seqüência"... Ela parou de escrever no começo de julho desse último ano
de 1897. Ela só pôde escrever a última página a lápis, por causa de sua grande
fraqueza..."(12). Na
verdade, por outras informações, sabemos que a então Irmã Inês tinha
receio não só da falta de interesse
da Madre Gonzaga, mas também que ela chegasse a destruir o Manuscrito, o que
graças a Deus, não aconteceu. Logo a pós
a morte de Teresa, Irmã Inês começou
a providenciar a publicação dos Manuscritos. Em primeiro lugar, procurou a
aprovação da Madre Priora, que, então, era Madre Maria de Gonzaga. Esta deu o
seu consentimento, mas exigiu,como vimos, que os textos fossem de tal modo
ordenados que parecessem terem sido todos dirigidos a ela mesma. Essa
adaptação foi feita em uma cópia, mas, após a publicação do livro, foi
transcrita para o texto original. O segundo
passo foi obter o imprimatur do Bispo diocesano. O Carmelo apelou para a
intercessão do Padre Godofredo de Madalena, Prior da Abadia de Mondaye. Madre
Gonzaga escreveu, então, uma carta ao Padre Prior, pedindo-lhe que corrigisse
o texto. Durante algum tempo, Padre Godofredo leu o Manuscrito
autobiográfico, enquanto que o Padre Norberto ajudava o trabalho do Prior com
a leitura e correção das Poesias. Padre Godofredo e Padre Norberto ficaram
entusiasmados com os textos teresianos, mas fizeram algumas observações,
porque achavam que algumas coisas não deviam ser publicadas. Padre Godofredo
vai reivindicar para si a paternidade da divisão da autobiografia em
capítulos, bem como o título de História de uma Alma, o que, verdadeiramente,
não é verdade. O terceiro
passo foi conseguir o Imprimatur do
bispo D.Hugonin. Padre Godofredo foi pedi-lo ao Bispo no dia 7 de
março de 1898. O Bispo fez algumas observações, mas terminou concedendo a
devida licença eclesiástica, mas se negou a escrever a apresentação, que foi
feita,então, pelo próprio Padre Godofredo.Nessa apresentação, o reverendo
Padre diz uma frase lapidar: "Aqui se encontra uma teologia, que os mais belos livros espirituais só
atingem raramente em um grau tão
elevado". O texto a
ser impresso foi, como já dissemos, totalmente retocado e acrescentado pela
Madre Inês. As variantes entre o texto publicado e o texto original
chegam,dependendo da classificação adotada, a mais de 7.000. O sr.
Guérin, em nome do Carmelo, procurou diversas Editoras. Finalmente, a Obra
São Paulo de Bar-le-Duc publicou o livro. A primeira edição, de 2.000
exemplares, saiu no dia 30 de setembro de 1898, com o título de "Irmã
Teresa do Menino Jesus e da Santa Face, Religiosa Carmelita(1873-1897).
História de uma Alma escrita por ela mesma. Cartas. Poesias". Impresso o
livro, começaram outras dificuldades. A editora era provinciana; os
encarregados do livro eram monjas enclausuradas;as reações contrárias de
outras Casas da Ordem; por fim, era a própria Comunidade de Lisieux,que
devia aceitar o que estava escrito,
sobretudo, quando se apontava alguma falha de uma irmã e até mesmo as
severidades da Madre Gonzaga.Tudo, porém, foi superado e a graça de Deus,
mais uma vez, triunfou. Teresa começava, de fato, a sua missão por meio do
seu livro. A História
de uma Alma provocou um verdadeiro incêndio. Em 1902, já aparecia a terceira
edição, com anúncio de graças recebidas e a comunicação de que o livro já
fora traduzido em cinco línguas. As edições começaram a se multiplicar e não
davam conta dos pedidos dos leitores interessados. Entretanto, o Carmelo foi
assaltado por pedidos de toda a natureza:orações, livros, imagens,
lembranças. Em 1914, o Carmelo chegou
a receber a média de quinhentas
cartas por dia. Enquanto isso, a
História de uma Alma continuava a se multiplicar. Nos doze primeiros anos,
foram impressos quarenta e sete mil exemplares, em francês. Ente 1910 e 1915,
chegou-se à cifra de cento e sessenta e quatro mil exemplares. Sabemos que,
atualmente, os exemplares publicados da História de uma Alma, nos vários
idiomas, chegam a milhões. O bombardeio do Carmelo em 1944 impediu que
tenhamos uma cifra mais exata, em todo caso, na Biblioteca do Carmelo de
Lisieux existem cerca de 38 traduções em idiomas diversos. Tinha razão o
Cardeal Pacelli, futuro Pio XII,quando disse aos 11 de julho de 1937:
"Há de um extremo a outro do mundo, milhões de almas, cuja vida interior
recebeu a influência benfazeja desse livrinho". Como já
assinalamos, surgiu, pouco a pouco, um desejo imenso, da parte de estudiosos
e devotos, de conhecerem os textos originais teresianos. O Definidor Geral
dos Carmelitas, o Padre Maria-Eugênio
do Menino Jesus escreveu, aos 3 de setembro de 1947, uma longa carta à Madre
Inês, na qual, entre outras coisas, dizia mui sabiamente: "A Igreja
falou. A santidade e a missão doutrinária de Santa Teresa do Menino Jesus são
reconhecidas universalmente. Resulta
desse fato que ela pertence, doravante, à Igreja e à história. Para refutar e
evitar as interpretações errôneas ou incompletas; para aprofundar,
progressivamente, a doutrina e a alma da Santinha, os documentos e os textos
que nos são fornecidos tão generosamente
não nos bastam, somente os textos originais podem permitir descobrir o movimento do pensamento, o
ritmo, de alguma maneira, da vida e toda a luz das fórmulas, ordinariamente, tão precisas e tão
firmes"(13). Houve opiniões contra e a favor da publicação dos textos
originais. A Santa Sé achou por bem interferir no assunto e a pobre Madre
Inês, antes de morrer, ainda pôde dizer à Irmã Genoveva: "Após minha
morte, eu a encarrego de fazê-lo em meu nome"(14). A história continuou
seu curso e de tudo, como já vimos, saiu a obra magnífica, organizada pelo
Frei Francisco de Santa Maria. A História
de uma Alma ou os Manuscritos Autobiográficos é, sem dúvida, um dos livros mais lidos na literatura
eclesiástica. Que tem esse livro de extraordinário, de maravilhoso, de tão
atraente? Muitos
foram os fatores que, nos inícios do século, ajudaram a difusão maravilhosa
desse livro. E, em todos os exames que se possa fazer sobre esse assunto,
nunca se poderá negar que, o próprio livro tem os seus motivos internos de
atração. A
Autobiografia de Teresa de Lisieux tem, apesar das divisões, certa ordenação.
Pode-se, com facilidade, descobrir seu alinhamento , seus temas principais,
seu fio da meada, sua linha de pensamento. Em
primeiro lugar, essa Autobiografia, como não podia ser diferente, é um livro
de lembranças de família e,
particularmente, de lembranças pessoais de Teresinha.Foi essa a intenção das
irmãs da Santa, que pensaram, no primeiro momento, que Teresinha deveria
escrever as histórias que contava sobre sua infância. O livro, pois, se
reveste desse caráter. Até mesmo o Manuscrito B, que parece ser universal,
foi escrito para sua madrinha e irmã. E o Manuscrito C não perdeu o caráter
de família, embora seja dirigido à Madre Gonzaga e fale sobre a vida no Carmelo. Outro
ponto fundamental e característico da Autobiografia teresiana é a explanação,
ao lado de narração de fatos, da mensagem de Teresa de Lisieux. Na verdade,
quem lê, pela primeira vez, a História de uma Alma, fica com a impressão de
ter lido mais um livro espiritual, isto é, de mensagem espiritual do que
mesmo um livro de história. Com efeito, Teresa soube intercalar, muito bem,
suas narrativas com reflexões, ensinamentos, doutrinação, lições. Todo sua
Autobiografia é uma grande explicação da sua doutrina espiritual.O discurso
do livro é muito mais espiritual do que propriamente histórico. Nossa Santa,
cheia de Deus, cheia de entusiasmo pelo seu caminho, foi, à medida que
escrevia fatos e lembranças de sua própria vida, preenchendo as páginas com
meditações bem apropriadas para explanar e expor o seu pensamento. Na
verdade, em Santa Teresinha, doutrina e vida são uma coisa só. Cada fato,
cada ato, cada gesto de Teresinha refletiam o seu pensamento íntimo, a sua
maneira de viver sua união profunda de amor com Deus e com os homens, por
isso, sua Autobiografia não podia ser diferente, ela espelha, na verdade, uma
vida e cada minuto dessa vida é explicado pelo sentir, pelo pensar espiritual
de quem a vive. Eis por que, a História de uma Alma tem, como uma de suas
características, ser um livro de mensagem espiritual, que, de certa maneira,
se acentua sobre a própria finalidade do livro, que é de ser a narração de
uma vida.
Evidentemente, as traduções dos Manuscritos Autobiográficos não dizem
do feitio literário da obra. Mas, o leitor que pode degustar a texto
original, sentirá, certamente, o estilo de Teresa de Lisieux com real
sensibilidade. História
de uma Alma, em questão de literatura, é uma verdadeira salada. Há momentos,
em que a Santa mistura vários assuntos. Por outro lado, usa pessimamente a
pontuação e, às vezes, complica o sentido da frase. Há momentos, porém, em
que toda a riqueza lírica, poética e até dramática de Teresinha explode no
livro. Suas narrações, então, tornam-se encantadoras e elevadas. Citem-se,
por exemplo, no lado humano, suas descrições sobre as belezas naturais da
Suíça e, pelo lado espiritual, o
Manuscrito B, que é, sem dúvida, um dos mais belos e mais profundos poemas da
literatura espiritual cristã. Em geral,
o estilo de Santa Teresinha é franco, sincero, simples, em suma, um reflexo
da linguagem falada. Teresa, com efeito, escreve quase sempre como fala. Isso
torna a obra, sem dúvida, mais comunicativa, mais atraente, mais simples,
mas, por vezes, faz que ela perca seu caráter de livro e, mais ainda,
prejudica um estilo mais apurado e mais claro. De
qualquer maneira, foi assim que Teresa de Lisieux escreveu. Escreveu um livro
por obediência, para cantar as misericórdias do Senhor, sem nenhum interesse
literário. Escreveu para dar prazer aos outros; escreveu, com sua alma
simples, franca, comunicativa, humilde, poética, amorosa, para alegrar e
ensinar os outros através de fatos da sua vida, que foram o espelho do seu
pensamento, da sua doutrina, da sua mensagem, da sua própria caminhada
espiritual. Além da
sua Autobiografia, Santa Teresinha escreveu numerosas cartas. Como já
anotamos, a Edição do Centenário transcreve 266 cartas, bilhetes e
dedicatórias, além de duas dedicatórias suplementares. Trata-se, pois, de um
material abundante e precioso, que merece uma consideração especial. A história
das Cartas de Santa Teresinha foi tão movimentada quanto a de sua
Autobiografia. De 1897, ano da morte da Santa, até 1948, as Cartas só foram
publicadas em fragmentos e através de uma seleção especial. Nesse ínterim, os
originais foram sofrendo os horrores de todos os tipos, como perdas, queima,
reconstituição, reformulação, interpretação,etc. De 1946 a
1948,desenvolveram-se os trabalhos de uma edição apurada das Cartas, sob a ordenação e coordenação
do Padre André Combes, que, em 1948,teve a alegria de prefaciar o coroamento
de seu trabalho tão difícil, quanto
ainda distante da realidade desejada. De 1962 a 1972 desenvolveram-se os
trabalhos da Edição da "Correspondência Geral", dentro da linha
crítica e técnica da Edição do Centenário. Em 1972, pois, vieram à luz os
dois maravilhosos volumes da "Correspondência Geral", que inclui um
farto material epistolar de Teresa de Lisieux. Desde o
início da publicação da História de uma Alma, começaram a aparecer,
conjuntamente, fragmentos de Cartas de Santa Teresinha. Eram textos escolhidos e revisados pelas irmãs
da Santa. Com as
festas de 1944(Santa Teresinha é indicada Padroeira da França ao lado de
Santa Joana D'Arc) e de 1947 (cinqüentenário da morte de nossa Santa), surge
uma onda de entusiasmo por Santa Teresa de Lisieux, bem como pelos estudos de
sua vida e de suas obras. Na ocasião, o renomado professor do Instituto
Católico de Paris, Padre André Combes, resolve dar todo um curso de estudos
sobre a doutrina espiritual de Santa Teresinha. Desse projeto, vai nascer
outro projeto não menos importante e muito mais abrangente, a saber, a
publicação da edição completa das Cartas de nossa Santa, já que, para Padre
Combes, a doutrina de Teresa de Lisieux devia ser vista na sua vida e as
Cartas de Teresinha eram uma documentação preciosa para mostrar, pela vida, a
orientação de sua mensagem espiritual. Aos 15 de
agosto de 1945, Padre Combes entra em contacto epistolar com Madre Inês de
Jesus. Começa, então, a caminhada que nos levaria à edição de 1948. Madre
Inês para atender ao Padre Combes, diante dos obstáculos de sua idade (84
anos), confia a missão de ajudar o estudioso de Paris a secretárias,
sobretudo, à Irmã Maria Henriqueta, que era arquivista no Carmelo. Por trás,
porém, de tudo, ficará a Irmã Genoveva (Celina), que será a grande
interlocutora do Pe.Combes e com o qual terá grandes discussões e desacordos
até o momento da aparição da edição de 1948. O trabalho
começa mesmo aos 22 de outubro de 1946, quando, após um entendimento com Irmã
Genoveva, que sonhava apenas com uma publicação de certa antologia das
Cartas, resolve-se iniciar a preparação do livro, mesmo com as primeiras
diferenças de opinião entre Irmã Genoveva e o Padre Combes. Passam-se
três meses de trabalho intenso. Padre Combes fixa-se em Lisieux. Duas secretárias,
no Carmelo, copiam os documentos, à medida que Irmã Genoveva os fornece.
Padre Combes estuda-os e os datilografa, pessoalmente. Aos 2 de
fevereiro de 1947, primeiro balanço e se chega à conta de 196 cartas e
bilhetes. Todavia, aparece mais uma divergência. Padre Combes quer que os
primeiros bilhetinhos de Teresa sejam incorporados ao corpo geral das suas
Cartas. Não consegue, porém, superar os obstáculos de Celina. Terminada,
porém, a compilação dos Documentos, Irmã Genoveva quer um Prefácio. Padre
Combes responde que só fará o prefácio, se tiver oportunidade de examinar os
autógrafos das Cartas, que, até então, lhe foram negados. Com dificuldade,
ele conseguiu vencer dessa vez. No dia 7 de abril de 1947, durante algumas
horas, pôde, enfim, examinar os
desejados autógrafos. Tempo bastante insuficiente para uma análise mais
séria, mas suficiente para descobrir que o texto datilografado não correspondia ao texto original. Houve,
então, um encontro dramático, com discussão serrada entre Padre Combes e Irmã
Genoveva, que sempre se julgou, juntamente como Madre Inês e Irmã Maria do
Sagrado Coração, proprietária e senhora da vida e da herança teresiana, bem
como legítima intérprete, em instância superior e definitiva, da mensagem de
Teresa. Mas, tudo acabou muito feliz. As carmelitas reexaminam as cópias
datilografadas e enviam todo o material para Paris, onde já se encontrava o
Padre Combes. No exame
preliminar para a entrega do material à editora, Padre Combes descobre que a
Carta à Irmã Maria do Sagrado Coração ( o Manuscrito B, da Autobiografia) não
estava conforme o texto original. O problema tornou-se mais grave do que
podia parecer à primeira vista, porque enfrentar essa questão nas Cartas era
colocar o mesmo problema para a História de uma Alma, na qual Madre Inês
tinha tido uma notável influência pelas inumeráveis mudanças. Apesar da gravidade do caso, Celina
resolveu atender à verdade e concedeu o texto original. Os trabalhos então
continuaram, todavia, quando saíram as provas da Imprensa, Irmã Genoveva
entrou, novamente, em crise, pois lhe voltaram as dúvidas se, de fato, era
aquilo que devia ser feito, ou, se devia providenciar apenas uma boa
antologia, como pensara a Madre Inês. Celina temia que certas cartas banais
não fossem dignas de uma santa canonizada. Padre Combes responde com palavras
memoráveis, como estas: "Da parte de um santo, nada é banal"(15).As
argumentações do historiador convencem a irmã desolada e hesitante. Não foi,
porém, por muito tempo. Nos
inícios de 1948, Padre Combes cita o Bispo de Bayeux, segundo o qual nada
precisava de retoques. Celina, a eterna Celina preocupada com a imagem de
Teresa e esquecida que sua irmã era já uma propriedade do mundo, rebate categórica. Ela afirma que tem o direito
de retocar e cortar o que lhe parecer oportuno no material, que ela possui em
cópia. Padre Combes volta à sua
costumeira argumentação, recordando que Teresa "é uma Santa
universal..., que pode entusiasmar os
mais doutos pela elevação de sua doutrina, enquanto consola os mais
humildes pelas próprias banalidades,
que a vida, às vezes, lhe impôs"(16). Irmã Genoveva, porém, não cede. É
uma pena! A edição das Cartas, contudo, saiu em 1948, embora não fosse
conforme o projeto sério e científico do sue organizador, o Padre Combes.
Muita coisa, porém, foi feita. Um progresso notável foi realizado, mesmo
diante das exigências da Madre Inês e da Irmã Genoveva. Esta, porém, apesar
de todas suas reações e apegos, ajudou muito na obra pioneira do Padre
Combes. Em 1962,
começou-se a pensar numa reedição das Cartas, agora partindo dos textos
originais, já que não havia mais obstáculos para isso. As irmãs da Santa
estavam mortas e o Carmelo de Lisieux já entrara em ritmo de publicação dos
textos originais com a aparição dos Manuscritos Autobiográficos, segundo o
original, em 1956. No início, pensou-se apenas numa edição melhorada, isto é,
conforme os textos originais, com melhor cronologia e mais rica em notas.
Trabalho iniciado, logo se mudou a direção, porque apareceram imprevistos que
orientaram para uma edição mais crítica e mais completa. Três
etapas levam os estudiosos à publicação da Correspondência Geral. Primeiros
esclarecimentos: de 1963 a 1966. Para
dar lugar à edição das "Últimas Conversas", uma parada nos
trabalhos: de 1966 a 1969. Trabalhos reiniciados e completados até à
publicação da atual edição: de 1969 a 1972. O texto
atual da "Correspondência Geral" é riquíssimo e preciosíssimo. Ele
está divido em dois volumes e tem as Cartas escritas por Santa Teresinha(266
de 4 de abril de 1877 a 24 de agosto a 1897) com outros documentos: as Cartas de pessoas que escreveram para a
Santa, enquanto vivia(202 cartas de 8 de janeiro de 1880 a 4 de outubro de 1897); Cartas diversas, que dizem
respeito a Teresa, enquanto ele estava viva. São fragmentos que vão de 21 de
julho de 1872 a 19 de setembro de 1897. E uma série de dados e informações de
muito valor para o estudo e conhecimento de nossa Santa. As Cartas
de Santa Teresinha são a expressão mais viva de uma alma, que se possa ter.
Na verdade, nas Cartas, Teresa perde toda e qualquer coibição, torna-se livre
e fala como ele era, sem rodeios, sem preocupação de ser lida. As Cartas são
de uma leitura agradabilíssima, já pelo estilo epistolar, já pela
simplicidade como a Santa escreve. Ademais, as Cartas de Teresa, à diferença
de muitas, são, sobretudo, uma oportunidade para a Santa enviar suas
mensagens, para pregar sua doutrina, para expor sua vida e, conseqüentemente,
todo seu pensamento espiritual. O estilo
das Cartas é simples. Não tem rodeios, nem subterfúgios. Não é
encomendado.Ademais, nos originais, a confusão é tremenda. A Santa erra aqui
e acolá; não respeita a sintaxe; não obedece muito à ortografia; não segue as
regras de pontuação, que ficam a seu bel prazer. Mas,justamente por isso
tudo, as Cartas, nos textos originais, são muito mais atraentes e ricas do
que nas suas traduções. Essa
libertação das regras gramaticais nas Cartas é, realmente, um elemento digno
de nota. Parece que a Santa se solta de vez e pensa só no que diz e no que diz que sai do seu coração. Sua
única preocupação é se comunicar, é enviar sua mensagem espiritual. Seu
espírito livre, simples, humilde, sincero, desapegado das coisas do mundo,
ligado apenas ao essencial, não pára para refletir nas coisas da gramática e
do estilo. Santa Teresinha é uma especialista no estilo epistolar, mas
especialista no seu estilo epistolar. Muitas,
muitíssimas das idéias básicas da mensagem espiritual teresiana se encontram
nas Cartas em frases soltas, em períodos longos ou no conjunto de toda uma
missava. É difícil, pois, agrupar essas idéias fundamentais da
espiritualidade teresiana, que aparecem nas Cartas, mas podemos, a título de
exemplo, apresentar algumas. Nas Cartas
aparece, fortemente, a idéia do céu, da pátria celeste. Teresinha sonha por
essa pátria e, a cada linha, ela exclama pelo porto desejado. O desapego
desse mundo, das coisas efêmeras e passageiras, das bagatelas terrenas é outro tema característico das
Cartas. O amor desinteressado, apaixonado e total a Jesus é a nota dominante
de todo o material epistolar teresiano. A cada momento, Teresinha se refere a
Jesus, protesta-lhe amor integral e total e convida destinatários de suas cartas para essa mesma entrega de amor. O
sofrimento é, também, um tema predileto das Cartas. Nossa Santa expõe não
somente seu desejo profundo de sofrer, porque o sofrimento se tornou para ela
a fonte de paz e de união à paixão de Jesus, mas também explica, com
detalhes, a razão do valor do sofrimento. Por isso, constantemente, ela
convida seus leitores a participarem das dores de Jesus, recebendo o
sofrimento não com resignação, mas com amor e gratidão. E, por tudo isso,
nossa Santa, constantemente, fala do martírio, que, para ela, é a expressão
máxima de amor no sofrimento. Ela afirma que há várias espécies de martírio
e se compraz, sobretudo, em falar do
"martírio do coração", já que não pode gozar da felicidade do
"martírio de sangue". Martírio, para Teresa, é declaração
profundíssima de amor, é, por outro lado, o prato que se nos apresenta, a
cada instante, em todos os dias da nossa vida, já que somos convidados,
constantemente, a nos purificar, sobretudo, no esvaziamento de tudo que é má
inclinação. Outro tema
predileto das Cartas é a pequenez. Certamente, Santa Teresinha parte desse
ponto para a construção do seu edifício espiritual, o que, aliás, é muito
lógico, porque é de baixo que se deve começar a construir. Ora, a pequenez,
sendo o fundamento de toda a mensagem teresiana, não podia deixar de aparecer,
ricamente exaltada e aconselhada, nas mensagens que a Santa enviava aos
amigos. Mas, como em todos os outros temas, Santa Teresinha não faz,
simplesmente, um sermão sobre o assunto, ela mostra o exemplo na sua vida,
deseja que a realidade pregada seja realidade existencial em si mesma, e,
depois, convida os leitores a participarem do seu interesse. Nas Cartas, há
uma deixa especial para falar da pequenez, da humildade, que é a expressão
"grãozinho de areia". Teresa se julga uma "grãozinho de
areia" e quer ser sempre esse "grãozinho de areia", o que
significa que ela se sente pequena, humilde, fraca, imperfeita, quase nada e
que gosta desse estado e quer continuar assim, porque só assim pode fazer
parte da praia imensa,onde estão os filhos prediletos de Deus. Ao lado do
"grãozinho de areia", aparece também outra expressão com o mesmo significado, a saber,
""gota de orvalho". Expressões poéticas, que não dizem apenas
a beleza da realidade espiritual, mas são ricas de significado real na dinâmica da dialética espiritual
teresiana. Salta à
vista nas Cartas, a exposição simples e humilde do estado de alma da própria
Santa. Ela não tem vergonha nem medo de dizer, muitíssimas vezes, que está na
secura espiritual, na noite da alma, ou, como gosta de escrever, num terrível
subterrâneo. A declaração de um estado especial não é, em Teresa, nem uma
confissão de derrota, nem o pedido de socorro por uma desilusão.É,
simplesmente, a declaração de uma alma, que está num estado de purificação e
assim se declara para a alegria e animação de muitas outras, mesmo porque,
apesar de tudo, ela não perde a fé, não desanima, não volta atrás. Chama a
atenção, sobretudo a um leitor não acostumado com os escritos teresianos, o
humanismo da Santa nas suas Cartas. Nessas, Teresa escreve com todo seu
coração. Sua alma se abre e os seus belos sentimentos vêm à luz, com toda a
simplicidade e beleza. Nas Cartas, não há vacilações, subterfúgios,
esconderijos, dramatização. Não. Nas Cartas, a alma simples, pura, límpida e
amorosa de Teresinha vem à tona e fala com seus leitores com todo o amor e
carinho, sobretudo, quando ela escreve para alguns parentes mais chegados. É
bonito ver nas Cartas como tudo é puro para aqueles que são puros. Por ser
santa, Teresa não perdeu nem diminuiu a força dos seus sentimentos. Seu
coração puro e simples mostra, nas Cartas, um amor humano bem profundo para
com todos aos quais ela envia uma carta, especialmente, as pessoas de sua
família. Amar e amar humanamente nunca foi proibido a ninguém. pelo
contrário, a única verdadeira lei, que Jesus nos deixou, foi a de amar e amar
de verdade, isto é, com todas as forças do coração. Santa
Teresinha não podia deixar passar uma ocasião tão propícia para espalhar o
seu"pequeno caminho", como eram as suas Cartas. Por isso, quase
todas elas estão impregnadas das idéias mestras do"pequeno
caminho". Já falamos da pequenez, do sofrimento, da simplicidade, mas,
tomadas em conjunto, são todas as virtudes do "pequeno caminho",
que aparecem constantemente nas Cartas. Assim, a Santa fala sempre da
confiança e do abandono. Muitíssimas frases-síntese e conselhos-mestres sobre
a confiança e o abandono estão nas Cartas. A Santa, a cada instante, está
animando seus leitores não só a confiarem, a continuarem confiando apesar de
tudo, mas a irem um passo adiante, isto é, a se entregarem, totalmente, nos
braços de Deus, que é Pai e sabe tudo de que precisamos. São
muitos, muitíssimos os temas das Cartas teresianas. Aqui, salientamos apenas
alguns e para terminar, não podíamos esquecer o principal, o mais falado, o
mais importante de todos, a saber, o amor a Jesus. Com efeito, as Cartas se
revestem desse refrão do começo ao fim: amar Jesus! Em tudo, em qualquer
situação, em cada momento, apesar de todos os obstáculos, Teresa fala do seu
amor a Jesus, declara que quer amá-lo sempre mais e convida sempre todos os
que recebem sua correspondência para esse grande objetivo: amar Jesus. É por
Ele que Ela julga realizar todo o mistério de Deus a seu respeito. Jesus é o
centro de sua espiritualidade. Ele é o Mestre, o Guia, a Força, a Razão de
ser, o Centro das atenções, o Mediador entre o céu e a terra, a Paixão da
vida; em suma, por Ele, para Ele, nEle, Teresa encontra toda o sentido de sua
existência e de sua espiritualidade. Amar Jesus, eis aí uma expressão-síntese
das Cartas de Santa Teresinha do Menino Jesus e da Santa Face. Teresa de
Lisieux tinha alma de artista.Seu coração amoroso e puro foi capaz de atingir
regiões de belezas raras, mesmo sem ter tido os estudos necessários para aí
chegar. Com efeito, o gênio teresiano, sem ter ajuda externa, por si só, foi
capaz de chegar lá, onde muitos estudiosos não conseguem. Seu espírito foi
dotado, naturalmente, pela misericórdia divina, de dons extraordinários. E,
nessa alma de artista,cheia de qualidades humanas estupendas, não podia
faltar o dom da poesia. Teresa de Lisieux foi, também, poetisa. Poetisa, sem
nunca ter estudado métrica, rima e a arte de poetar. Poetisa nata ou, como se
poderia dizer, poetisa selvagem. Selvagem no sentido de natural, vivo, que
nasce sem os cuidados artificiais de um estudo esmerado. Selvagem no sentido
de bonito,simples, espontâneo, sem requintes, sem enfeites. A poesia de
Teresa de Lisieux já foi examinada por grandes escritores e muitos
estudiosos. todos reconheceram o dom inato da Santa, assinalaram-lhe os
defeitos de sua poesia e, sobretudo, apontaram as grandes qualidades. No
nosso entender, a poesia de Santa Teresinha não é literária; é simples,
modesta, mas encanta pela mensagem que envia, pela síntese das idéias que
quer comunicar e, às vezes, delicia pelas imagens e pelas palavras
escolhidas, que expressam o sentimento e o pensamento da Santa. Irmã Maria
da Trindade conta-nos, a propósito, o seguinte: "Outro dia, a senhora
lamentava que nossa Santa Teresinha não tivesse aprendido as regras de
versificação para evitar as faltas de suas poesias. Pois bem, minha
Madrezinha, sua ignorância foi voluntária. Quando da minha entrada no
Carmelo, em junho de 1894, trouxera um tratado de versificação; ela deu no
livro uma olhadela e mo entregou logo em seguida, dizendo-me: "Prefiro
não conhecer todas essas regras; minhas poesias são um jato do coração, uma
inspiração, não poderia me sujeitar a fazer delas um trabalho de espírito, um
estudo. Por esse preço, preferiria renunciar a fazer poesias"(17). Jato do
coração, sem atender às exigências de regras estipuladas pelos homens, eis aí
a poesia de Teresa e, diga-se logo, nela só podia ser assim, por causa do seu
espírito simples, humilde, cheio de amor e que não era preso às etiquetas dos
homens. Mesmo
assim, Teresinha teve dificuldade para escrever suas poesias. Foi o fator
tempo sua principal dificuldade. Sua vida regrada era toda cheia de
atividades. Por isso, poetar, que para ela era também rezar, podia ser feito
a qualquer hora, mas escrever as poesias era outra questão. A Santa sentiu
mesmo dificuldade nesse ponto, porque, como ela mesma diz: "o bom deus
não permitiu que ela (a Madre)me dissesse para escrever minhas poesias à medida
em que as compunha e eu não queria lho pedir, com medo de cometer uma falta
contra a pobreza. Esperava, pois, a hora do tempo livre e era com muita
dificuldade que eu me recordava, às oito horas da noite, o que compusera pela
manhã"(18). A primeira
poesia de Santa Teresinha foi composta
aos dois de fevereiro de 1893, para atender ao pedido de Irmã Teresa
de Santo Agostinho. A segunda poesia veio à luz um ano depois, precisamente
aos 20 de fevereiro de 1894. É verdade que, nos fins de 1893, compusera sua
primeira Recreação Piedosa, na qual encontramos 381 versos.Mas, é a partir de
fevereiro de 1894 que começa, de fato, o trabalho poético de Teresinha, pois,
entre fevereiro de 1893 e maio de 1897, ela compôs 54 poesias, das quais 53
foram compostas entre fevereiro de 1894 e maio de 1897. A poesia
teve um papel de relevo, nesses anos, na vida de nossa Santa. Na verdade,
embora não revelem sempre exemplos de literatura, elas espelham sempre a
mensagem teresiana em toda sua beleza. É verdade que nem sempre elas diziam o
que a Santa sentia mesmo, mas diziam sempre o que ela queria sentir e o que,
verdadeiramente, acreditava: "Se a senhora me julgar segundo os
sentimentos que exprimo nas poesiazinhas que compus este ano, devo lhe
parecer uma alma cheia de consolações
e para a qual o véu da fé quase se rasgou
e, contudo... não é mais um véu para mim, é um muro que se levanta até
os céus e cobre o firmamento estrelado... Quando canto a felicidade do céu, a
posse eterna de Deus, não sinto nisso nenhuma alegria, pois canto
simplesmente o que EU QUERO
CRER"(19). Assim, a
poesia teresiana alcança o cume do misticismo, porque, não sendo voltada para
as convenções gramaticais, ela se desdobra apenas na expressão dos sentimentos profundos, dos desejos espirituais:
"Uma vez que você gostou do cântico sobre o amor, nossa Boa Madre me
disse para lhe copiar vários outros... Essas pobres poesias lhe revelarão,
não o que sou, mas o que quisera e deveria ser... Ao compô-las, dei mais
atenção ao fundo do que à forma; assim, as regras da versificação não são
sempre respeitadas; minha finalidade era traduzir meus sentimentos(ou, antes,
os sentimentos da carmelita), a fim de responder aos desejos de minhas
irmãs"(20). E, nesse
último texto, somos chamados para considerar um pormenor, isto é, as poesias
de Teresa são, na maioria, para atender "aos desejos de suas
irmãs". Na verdade, ela escreve o que pensa, o que sente, o que quer
crer, mas quase sempre a pedido de alguém, para satisfazer os desejos ou
necessidades espirituais de uma irmã. Dissemos
que, literariamente, as poesias teresianas não são lá grande coisa. Isso,
porém, vale se falamos em geral. Na verdade, Teresa, em algumas poesias,
alcança um estilo poético só alcançado por grandes poetas. Sua poesia selvagem,
portanto, pura e natural, é, de fato, o espelho de sua grande alma, toda
voltada para uma realidade transcendental e absoluta. Por isso, a poesia de
Teresa, mesmo sem rebuscamentos, tem, às vezes, cumes de beleza poética e literária, que faria
inveja a muitos grandes poetas. O poema, por exemplo, sobre Santa Cecília é
considerado uma verdadeira "sinfonia". O seu grande cântico
"Por que te amo, ó Maria" é, ao lado do estilo e objetivo
didáticos, um poema com traços de rara beleza poética. Além desses, muitos
outros, já mundialmente conhecidos, são belíssimos pela forma e pelo
conteúdo, como, por exemplo, "Lembra-te, Jesus", "Meu Canto de
Hoje", "Viver de Amor", e "Tenho Sede de Amor". As poesias
de Teresa têm uma característica especial, a saber,em geral, elas foram
feitas para serem cantadas e, assim, segundo Celina, ficavam mais bonitas.
Com efeito, a intenção da poetisa Teresa de Lisieux é promover o amor de Deus
e sua poesia é apenas um meio para ajudá-la nesse objetivo. Por isso, algumas
de suas poesias são hinos de inspiração litúrgica e poemas de contemplação do
amor de Jesus nos seus mistérios. Não é de estranhar, pois, que quase todas
as composições sejam acompanhadas de um suporte musical. Infelizmente, as
melodias apresentadas para servirem de modelo musical não valorizam a arte poética da autora. Em
todo caso, temos de respeitar a época em que tudo isso aconteceu, para
podermos entender melhor o significado dessas músicas e de seu relacionamento
com a poesia de Teresa. Nas suas
poesias, Teresa canta, sobretudo, o amor. O seu amor por Deus e o amor de
Deus pelas suas criaturas. Mas, ao lado desse tema fundamental, aparecem
outros, como o sofrimento, o exílio nessa terra, os mistérios de Jesus, as
ações maravilhosas dos santos, a vida de Maria Santíssima. Assim, as poesias
são um canto e, ao mesmo tempo, uma oração amorosa, na qual aparece a Teresa
apaixonada, como mulher, como esposa. As
poesias, em suma, são um outro espelho da alma teresiana. Na prosa, Teresa se
mostra límpida, simples e encantadora como
era. Na poesia, por força mesma da forma poética, a alma teresiana,
alma de mulher, de apaixonada, de carmelita, de mística, é obrigada a se
desfolhar ainda mais, para, em formas bem claras, se apresentar tal qual, no
fundo, a religiosa, a carmelita, a mulher, a apaixonada Teresa era e queria
ser. Sobrepassando, pois, pelo convencional, pelo lugar comum, pela pobreza
literária até das poesias teresianas, vamos descobrir nessas mesmas poesias
não só uma alma encantadora, mas uma mensagem espiritual forte e maravilhosa.
Assim, as poesias são um complemento indispensável dos escritos, em prosa, de
Santa Teresinha. No inicio
da sua Autobiografia, Teresa afirma que quer somente cantar, para sempre, as
misericórdias do Senhor. Sua vida mesma será um contínuo canto de amor ao seu
Deus. Todavia, o canto de Teresa foi
sempre, como já dissemos, uma prece. Sua vida foi um eterno dialogar
com seu Deus.Ela mesma declara que, nunca passou três minutos sem pensar em
Deus. Ora, isso é rezar, porque rezar é conversar com Deus. A vida de
Teresinha foi uma constante oração. Assim,
podemos entender por que Teresa de Lisieux tenha escrito tantas orações(21).
Mas, embora tenha escrito vinte e um orações, não devemos pensar que Santa
Teresinha, sobretudo no final da sua vida, fosse apegada a rezar mediante fórmulas. Na sua
Autobiografia, lemos esta confissão: "Afora o Ofício Divino, que sou
muito indigna de recitar, não tenho a coragem de me submeter a procurar, nos
livros, belas orações, isso me dá dor de cabeça, há tantas dela!... e,
depois, todas elas são belas, cada uma mais do que a outra! Não poderia
recitá-las todas e, não sabendo qual escolher, faço como as crianças que não
sabem ler, digo, bem simplesmente, ao bom Deus o que quero lhe dizer, sem fazer
belas frases, e Ele me compreende sempre..."(22). Na verdade, Teresa
vivia em contínua oração, ou seja, num contínuo conversar com Deus, pois sua
oração era o grito constante de sua alma para o Amado de sua vida: "Para
mim, a oração é um élan do coração, é um simples olhar lançado para o céu, é
um grito de reconhecimento e de amor no meio da provação como no meio da
alegria; enfim, é alguma coisa de grande, de sobrenatural, que me dilata a
alma e me une a Jesus"(23). Pois bem,
as orações de Teresa são exatamente isso,
são palavras usadas pela Santa para dizer o que queria, com muita
simplicidade, ao bom Deus, pois sua oração é toda ela feita na simplicidade
do amor: "O bom Deus não se cansa de me ouvir, quando lhe digo, bem
simplesmente, minhas penas e minhas
alegrias, como se Ele não as conhecesse..."(24). E, em uma carta
dirigida a Senhora Guérin, aos 17 de novembro de 1893, ela dizia:
"Quando estou junto do Tabernáculo, só sei dizer uma coisa a Nosso
Senhor:"Meu Deus, vós sabeis que
vos amo". E sinto que minha oração não cansa Jesus, conhecendo a
impotência de sua pobre esposinha, Ele se contenta com sua boa
vontade"(25). Por isso
mesmo, a oração de Teresa, às vezes, não tem palavras para ser traduzida. O
amor quase sufoca e a pessoa, apaixonada, fica calada, porque não tem
palavras para traduzir seus sentimentos, suas idéias. Assim, às vezes, a
oração de Santa Teresinha é o silêncio: "Muitas vezes, só o
silêncio é capaz de exprimir minha
oração, mas o hóspede divino do tabernáculo compreende tudo; mesmo o silêncio
de uma alma que está cheia de reconhecimento"(26). Por esse
prisma é que devemos enxergar as Orações escritas por Santa Teresinha. Elas
não têm nada de artificial, de superficial, de comercial. Seja para ela
mesma, seja para outras pessoas, suas Orações são sempre simples eláns de
amor dirigidos aos amores de sua vida. D. Guy
Gaucher divide as Orações de Teresa em três grupos. O primeiro seria composto
de "orações espontâneas escritas no aperreio ou na alegria"(Orações
1,14,15,16,17,19,21). O segundo grupo comportaria as "orações
'pedagógicas', compostas para as noviças ou para um leigo"(Orações
3,4,5,7,18,20,10). Finalmente, o terceiro grupo teria as "orações maiores de um momento decisivo da vida
de Teresa" (profissão:Oração 2; Ato de Oferecimento ao Amor
Misericordioso: Oração 6;Oração para um irmão espiritual" Oração 8;
Consagração à Santa Face: oração 12). No total, Santa Teresinha escreveu vinte e uma Orações, que variam de tamanho
entre uma e setenta e cinco linhas. Que valor
têm essas Orações de Teresa? Não muito
conhecidas, elas, no entanto, além de necessárias para se conhecer
melhor a vida de Teresa de Lisieux, são o complemento de toda a mensagem
teresiana, como se encontra nos outros escritos da nossa Santa. Partindo do
amor, que Teresinha contempla e adora, ela, na vontade de fazer somente a
vontade do Amado, entrega-se totalmente como vítima de holocausto ao Amor
Misericordioso, ao tempo em que se oferece também por aqueles que não amam ou
não amam o bastante. Ademais, pelo amor a Deus ela abraça o mundo inteiro e
se liga à Igreja toda, militante, padecente e triunfante. Assim, reza pelos
que precisam e implora os que já estão na glória. Em suma, as Orações não são
apenas algumas preces escritas por Santa Teresinha, elas são o eco da
mensagem e da vida de Santa Teresinha do Menino Jesus. Em 1985, a
Edição do Centenário publicou um volume longamente esperado: "Santa
Teresa do Menino Jesus e da Santa Face, Teatro no Carmelo, Recreações
Piedosas". A parte, provavelmente, mais desconhecida ou menos conhecida,
de toda a produção literária de Santa Teresinha foi dada à luz, para que se
pudesse compreender, cada vez melhor, a vida e a mensagem de Teresa de
Lisieux. Conhecer
melhor a vida, porque essas Recreações piedosas mostram muito o que foi o dia
a dia de nossa Santa na sua comunidade carmelitana, de Lisieux. Conhecer
melhor a mensagem, porque Teresa, em todos seus escritos,segue uma só
orientação e persegue um só objetivo, comunicar aos seus leitores as suas idéias,
os seus sentimentos, o seu pensamento, a sua espiritualidade vivida na sua
própria caminhada. Santa
Teresinha escreveu oito peças teatrais, que foram compostas entre janeiro de
1894 e fevereiro de 1897. Essas peças
de teatro não são obras-primas da
arte dramática, mas mostram que a alma de Teresa era rica demais, com
predicados tão abundantes, que explodiriam,de uma maneira magnífica, se
tivessem sido cultivados e formados. Deus quis que ela usasse dos seus dons,
com simplicidade e sem galanteios e floreios dos estudos e das pesquisas,
justamente para mostrar, nas obras, o que era na vida e o que praticava e vivia na sua espiritualidade. Por outro
lado, é importante saber que o teatro, escrito por Teresinha, foi composto
por obediência, ou, então, para fazer felizes as suas coirmãs. E Teresa não
mediu esforços, para que tudo saísse bem. E, aqui, está mais uma beleza da
existência dessa Santa tão estupenda
e genial quanto simples, pois, ela escrevia a peça teatral, dirigia sua
execução e, ainda por cima, era
atriz. Quantos dons em uma jovem religiosa de poucos anos, cheia de amor por
Deus e pelos homens, pouco conhecida na sua própria comunidade, mas que, a
todo custo, aproveitando do que Deus lhe deu, queria fazer os homens mais
felizes e alegrar também o coração do seu Jesus amado! Aliás,
essa atividade teresiana se coloca justamente dentro de uma tradição
carmelitana muito antiga. Santa Teresa de Ávila, com seu profundo realismo e
pela própria experiência, sabia quanto era necessário desenvolver entre suas
filhas o são divertimento, para evitar distúrbios nervosos e para despertar
sempre a alegria no serviço do Senhor. Assim, o canto, a poesia e o teatro
foram sempre cultivados,sobretudo, através de peças paralitúrgicas ou autos
sacros,que apresentavam, para divertimento espiritual e edificação da
platéia, cenas religiosas com uma dramatização própria da época. Aliás, é
mais do que compreensível que uma alma que se consagra a Deus deva ser alegre e feliz. A tradição
dos tempos de Teresa de Ávila veio para a França através das carmelitas
espanholas, primeiras fundadoras do Carmelo reformado, na França. Assim,
quando Teresa de Lisieux entrou no Carmelo já encontrou uma longa tradição,
que se enraizara e se organizara no seu mosteiro. Antes dela, sua irmã mais
velha, Paulina, já iniciara a atividade de poetisa e de dramaturga. Foi desse
modo que, Teresinha representou, pela primeira vez, no Carmelo de Lisieux.
Ela tinha apenas dez semanas de vida religiosa e lhe foi confiado o papel principal
numa peça sobre Santa Inês. A própria Paulina comentava a estréia teatral de
sua irmã caçula: "Com túnica branca, a suntuosa cabeleira dourada desdobrada sobre os ombros,a postulante,
na frescura dos seus quinze anos, encarna uma Inês irradiante de amor pelo
Cristo, seu Noivo"(28). Aos 25 de
dezembro de 1889, nossa Santa representa, de novo, o papel principal numa
peça teatral,a última de Madre Inês, intitulada "O primeiro sonho do
Menino Jesus". A mesma Madre Inês anotou que "A Comunidade ficou tão profundamente emocionada com a
apresentação (de Teresa), que lágrimas jorraram de todos os olhos. As Irmãs
diziam, depois: 'Será que a Santíssima Virgem podia ser mais bela e mais
celeste?' E essa festa não se apagou
jamais da memória delas"(29). Se Santa Teresinha iniciou sua vida teatral
no Carmelo sob a influência de Paulina, não podemos esquecer que essa
influência vem de tempos mais distantes. Na verdade, foi nos Buissonnets que
Teresa foi instruída na arte dramática e poética pela sua irmã mais velha.
Com efeito, Paulina não só versificava os cumprimentos
infantis que a "rainhazinha" fazia para seu "Rei" na
festa de São Luis, mas também organizava, todos os anos, a festa da
distribuição dos prêmios de sua querida aluna, justamente sua irmãzinha mais
nova. Foi aí que se deram os primeiros contactos de nossa Santa com o teatro.
Teresa jamais se esquecerá desses tempos maravilhosos: "Com que alegria
eu via,cada ano, chegar a distribuição dos prêmios!... Aí, como sempre, a
justiça era feita e só tinha recompensas merecidas; sozinha, de pé no meio da
nobre assembléia, escutava minha
sentença lida pelo "Rei de França e de Navarra"; o coração
me batia muito forte ao receber os prêmios e a coroa...era para mim como uma
imagem do julgamento!... Logo após a distribuição, a Rainhazinha deixava seu
vestido branco, apressavam-se a
maquiá-la, a fim de que tomasse parte na grande representação!... Ah!
como eram alegres aquelas festas de família..."(30). No Carmelo
de Lisieux, as festas celebrativas eram comuns. As principais eram a festa da
priora, que se estendia por dois dias;
a festa das irmãs conversas no dia 29 de julho; a festa dos Santos
Inocentes e a festa de um Jubileu de Ouro. Quando Madre Inês foi eleita
priora aos 20 de fevereiro de 1893, não pôde mais continuar seu trabalho de
organizadora oficial das festas no Carmelo. Como a Irmã Maria dos Anjos não
tinha dons para tal, Madre Inês foi se valer dos dotes e predicados de sua
querida irmãzinha. A partir de então, Teresa vai iniciar sua própria
atividade teatral. Doravante, ela vai ser dramaturga e diretora e atriz de
suas próprias peças. Seu período de arte dramática, propriamente dito, vai de
1893 a 1897. Como
Teresa ainda se encontrava no Noviciado,pois não o deixara, como teria devido
aos 8 de setembro de 1893, e como competia às noviças organizarem as festas
do Carmelo, Madre Inês viu que a ocasião era propícia e pediu a Teresa que se
iniciasse nessa nova atividade. Aos 21 de
janeiro de 1894, já estava pronta a sua primeira peça teatral, intitulada
"A Missão de Joana d'Arc". Foi escrita para a festa da Priora, que
se comemorava no dia de Santa Inês. Como já
dissemos, Teresinha nunca escreveu por simples gosto literário, escreveu sempre ou por obediência ou para
dar prazer e alegria às suas coirmãs. E seu tempo para isso foi sempre muito
limitado. Teve, no máximo, duas horas livres por dia e assim mesmo, nesse
tempo, sempre teve muitas outras coisas para fazer. A escolha
dos temas foi, em parte, saída de assuntos em voga na época, em parte,
seguindo a tradição carmelitana dos autos sacros espanhóis. Assim, as
carmelitas, ao tempo em que seguiam sua mais pura tradição, estavam em
contacto também com as realidades do seu tempo. Das oito peças teatrais, seis têm partes em
prosa e em versos, que devem ser cantados. Isso também exigiu muito tempo e
cuidado. A entrada de Maria Guérin no Carmelo veio ajudar, em muito, essa
tarefa, já que a prima da Santa era pianista e tinha uma bela voz. As peças
foram representadas, na sua maioria, na sala de calefação, que aliás era
bastante pequena, mas que tinha muitas janelas e portas, o que ajudava a
separação do palco por uma cortina. Por outro lado, o Carmelo dispunha de
algum material para as vestes e outros elementos necessários para as representações.
Às vezes,porém, era necessário recorrer à ajuda exterior, em grande parte da
família Guérin. A
preparação dessas festas agitavam, de
certa maneira, o noviciado, trazendo-lhe um ar de alegria e animação.
Preparar o material necessário para a representação, ensaiar a peça e, mesmo,
apresentá-la eram coisas que provocavam grande alegria e uma espécie de
exultação durante alguns dias. Santa
Teresinha sempre procurava os papéis mais escondidos,dando como motivo a
adaptação deles à sua voz rouca(31), mas, segundo o testemunho de Irmã Maria
Madelana do Santíssimo Sacramento, sempre lhe davam os belos papéis, que ela
representava muito bem(32).Assim, das
suas oito peças teatrais, nossa Santa representou o papel principal em cinco
delas. Que ela representasse muito bem, aliás,já sua mãe anotava, quando ela
tinha apenas quatro anos de idade. Teresa
representava, no teatro, muito bem, porque vivia a cena que fazia. Na
verdade, o teatro foi um campo maravilhoso, em que nossa Santa teve
oportunidade de entrar em contacto com
toda a sua Comunidade e de lhe dar um recado sutil, mostrando-lhe não
só seu pensamento, mas também toda a riqueza da sua própria vida. É verdade,
que nem todas as suas coirmãs entenderam, na época, as maravilhas que a Santa
lhes expunha nas suas peças de teatro. Posteriormente, quando todas elas
foram relidas sob a luz do conhecimento posterior, então, sim, foi visto como
o teatro foi importante para Teresa, já que ele foi um canal precioso de
comunicação de suas idéias, assim como ele traduzia a encarnação dessas
idéias na vida simples, humilde e escondida de Teresa de Lisieux. Além disso,
foi do teatro que Teresa se serviu para levar uma mensagem de paz e de amor
às suas coirmãs, diante de certos problemas cotidianos no seu Carmelo. Com os
demais escritos, sua Autobiografia, suas Cartas, suas Poesias, suas Orações,
as peças teatrais fazem um conjunto precioso. Um gênero completa o outro e
cada um revela uma faceta da alma e da vida teresianas. Juntos devem ser
lidos e interpretados, porque, juntos, formam um complexo harmônico, que
mostram, muito bem, a alma e a vida de Santa
Teresinha. A
temática, em geral, das peças teatrais teresianas é a mesma dos seus outros
escritos. Sobressaem-se alguns temas, porém, com muito vigor, os quais,
aliás, são também tratados em outros escritos. O amor a Jesus, sobretudo, a
Jesus esposo, aparece com relevância. E, na sua contemplação cristológica, a
infância e a paixão têm lugares de relevo. O Menino Jesus é um Deus poderoso,
enquanto que a Face velada de Jesus é toda ela o símbolo mais perfeito do
amor misericordioso. A Eucaristia é outro tema de realce, justamente porque é
"o último limite" do amor de Jesus(33). Por sua vez, o Amor
Misericordioso é o tema e o motivo prediletos do seu canto e de sua vida.
Maria Santíssima, como sempre, é assunto favorito de Teresinha. Na "Fuga
para o Egito", porém, aparece uma Maria bem diferente daquela que vamos
encontrar no famoso poema "Por que te amo, ó Maria". O tema dos Anjos ocupa lugar de destaque no teatro
teresiano. Não se trata somente de uma facilidade de contracenar, mas, sem
dúvida, é porque eles sempre ocuparam um lugar privilegiado no mundo
espiritual de Teresa. Como os Anjos,
os Santos ocupam um lugar especial no teatro teresiano. Eles são seus
amigos e são os imitadores da vida
escondida de Jesus. Aqui, a oração pelos Padres chama a atenção. E, numa
passagem personalíssima, Teresa
expressa o que mostrará em outros escritos, seu desejo de ser Padre. Por fim,
a Bíblia é, sem dúvida, uma das suas mais profundas inspirações.Do
milheiro,mais ou menos,de citações bíblicas
das obras teresianas, as peças teatrais ou as Recreações Piedosas têm
um quarto, o que mostra quanto a Sagrada Escritura foi tema predileto do seu
teatro. Apesar de
todo seu valor, as peças teatrais de Teresa(34), foi, com certa lentidão e
dificuldade, que foram dadas à luz e podemos assegurar que,ainda hoje, são
pouco conhecidas, o que é de se lamentar profundamente, pois, como dissemos,
elas são complemento indispensável para se conhecer melhor a vida e a
mensagem de Santa Teresinha do Menino Jesus e da Santa Face.
Certamente, com a História de uma Alma e algumas Poesias, as Últimas
Palavras de Teresinha são o material escrito, do mundo teresiano, mais
conhecido e mais lido. Isso se deve ao fato de terem sido divulgadas com mais
liberalidade não muito tempo após a
morte da Santa, embora, inicialmente, com certas reticências, mas também pelo
valor próprio dessas Palavras de uma enferma, que, nas horas que precedem sua
partida deste mundo, dita,sem cessar, às suas irmãs, uma parte preciosa de
sua mensagem espiritual. Entre os
volumes publicados pela Edição do Centenário, destacam-se, com muita razão,
os dois dedicados às "Últimas Conversas" de Teresa. Na verdade, trata-se
de um trabalho de mestres. O pequeno manancial do antigo e muito precioso
"Novissima Verba" se tornou
dois volumes grossos cheios de informações e de estudos, que nos
revelam toda uma face oculta dos últimos meses da vida de Teresinha. Antes de Teresa
ser obrigada a ficar no seu leito de enferma grave, Madre Inês parece ter
sentido a necessidade de uma aproximação maior com sua irmã querida.Uma série
de bilhetes, trocados entre ambas, revelam essa direção do relacionamento
entre Madre Inês e sua irmã mais nova. Por obra
da providência divina, Madre Inês foi encarregada, pela Madre Gonzaga, de
atender a sua irmã enferma durante as matinas, para que as irmãs enfermeiras
descansassem e pudessem participar das orações comuns. Pouco a pouco,porém, a
Madre Inês foi conseguindo mais tempo para estar presente junto ao leito de
dor de Teresa. Nesse tempo, veio-lhe a idéia de escrever tudo quanto sua irmã
dizia de belo e de útil. Não sabemos se ela pediu licença para isso, nem
sabemos quais foram todos os motivos que a levaram a assim proceder, todavia
sabemos que o desejo de perpetuar as mensagens de Teresinha, como já fizera
com a elaboração da Autobiografia, foi, certamente, o móvel principal da sua
iniciativa. E não foi
só a Madre Inês quem assim procedeu. Irmã Genoveva e a Irmã Maria do Sagrado
Coração também tomaram a mesma iniciativa, com a diferença de que estas
últimas anotaram apenas algumas palavras, sobretudo, palavras de referência
mais pessoal. Irmã Maria da Eucaristia, por sua vez, tornou-se como que a
escrivã-mor dos fatos da doença da nossa Santa, enquanto, constantemente,
esteve enviando para seus familiares as notícias esperadas sobre a saúde da
prima. É, portanto, precioso e vasto o material coletado, nos últimos meses
da vida de Santa Teresinha, pelos seus parentes, que com ela viviam no
Carmelo. Com
relação às palavras da Santa, porém, a fonte mais abundante foram certamente
as anotações, que Madre Inês fazia em notas avulsas ou mesmo em um caderno.
Essas anotações, juntamente com outras informações, serviram, primeiramente,
para a feitura do capítulo XII, da primeira edição da História de uma Alma,
que saiu em setembro de 1898. Mas, já
na segunda edição da mesma História de uma Alma, (1899), aparecia um apêndice
ao capítulo XII, que trazia algumas das palavras ditas por Santa Teresinha
nos últimos meses de sua vida e anotadas por Madre Inês. Assim, pouco tempo
após a morte da Santa, suas Últimas Palavras já começam a serem divulgadas e
conhecidas pelo público. Em 1904,
Madre Inês detêm-se no trabalho de copiar e ordenar suas anotações feitas junto ao leito de Teresinha. Essa cópia é
feita em um "Pequeno Caderno de Lembranças", que, segundo as
últimas pesquisas, deve ser o mesmo
que a "Grande Caderneta Preta", de que nos fala também a
Madre Inês. A história dessas Últimas Palavras tem novo
passo entre os anos 1906 e 1909. É o
período em que o sucesso da História de uma Alma provoca o interesse pela Causa de Santa Teresinha.
Em 1907, o bispo de Bayeux, D. Lemonnier, já em vista de um futuro processo
de canonização, pede às carmelitas, que tinham conhecido a Serva de Deus, que
pusessem por escrito suas lembranças. Surgem, assim, muitos documentos
preciosos, que, porém, não foram usados no momento e servirão para as
deposições nos Processos de canonização. Atendendo
ao pedido de Mons. de Teil, vice-postulador da causa de Santa Teresinha, que
precisava de informações sobre a doença da Santa, Madre Inês, em dez dias,
encheu 132 páginas de cinco cadernos escolares, de cobertura verde, que se
tornaram, atualmente, a mais antiga versão das "Últimas Conversas".
Essa cópia,que contém cerca de 306 palavras da Santa, é meio tendenciosa,
enquanto procura relevar o sofrimento de Santa Teresinha, bem como sua
paciência e seu heroísmo. Em vista
do Processo de Ordinário, de 1910, Madre Inês preparou uma nova versão das
"Últimas Conversas", que ficou conhecida como a versão do Processo.
Essa versão contém 275 palavras de Teresa e tem como objetivo mostrar a
santidade da Serva de Deus perante os juízes dos tribunais. A Teresa, que
conhecemos hoje, está aí muito
heroína e quase inimitável. Entre 1915
(época do Processo Apostólico) e 1921 (data possível do início da
"Caderneta Amarela"),
aparecem ainda muitas "Palavras" inéditas no Processo
Apostólico; no famoso livro de Irmã Genoveva "O Espírito da
Bem-aventurada Teresa do Menino Jesus
(1923) e em várias cópias espalhadas
entre pessoas que foram aquinhoadas por favores da Madre Inês. Madre
Inês,então, quis fazer uma cópia completa e definitiva das Últimas palavras
da nossa Santa e realizou,para isso, um trabalho longo e difícil,
provavelmente entre 1921 e 1924. Foi,assim, que nasceu a versão da
"Caderneta Amarela", que é a mais completa até hoje. Em 1927,
apareceu uma brochura, que fez muito sucesso e se chamou "Novissima
Verba". Foi um trabalho da Madre Inês, no qual ela colocou algumas
"Palavras" de Teresa doente, para satisfazer às exigências dos
leitores e estudiosos de Santa Teresinha,embora ela mesma não quisesse
realizar tal trabalho nem publicar semelhante espécie de livro. O livro foi
feito na base da versão do Processo Ordinário, com adjuntas tiradas dos
Cadernos Verdes, da Caderneta Amarela, de seis palavras fornecidas pela Irmã Maria do Sagrado
Coração e pela Irmã Genoveva e mais
cinco "Palavras, cuja fonte até hoje é ignorada. Esse livrinho teve um
sucesso imenso e chegou a ser traduzido em onze línguas. Isso prova não só o
seu sucesso, mas quanto, de fato, ele foi útil e precioso. Com efeito, o
"Novissima verba" trouxe para o público em geral um manancial maravilhoso de informações e
dados sobre a doença da Santa, bem como foi sumamente precioso para o
aprofundamento da sua espiritualidade.
"Novissima Verba" se esgotou em 1960. Desde 1948, começou-se
a pensar em uma reedição desse valioso livrinho. Madre Inês consentia nessa reedição, chegando mesmo a pensar
num melhoramento e aumento de palavras citadas, o que já era muito para ela,
que sempre defendeu o ponto de vista de que as coisas íntimas e humanas da
Santa interessavam só à sua família.
Como, porém, alguns autores privilegiados tiveram conhecimento das
versões acima citadas e delas puderam
fazer uso, começou-se a perguntar por que não dar ao público um texto
especial baseado nessas versões, ou, então, por que não publicar uma dessas
versões. Baseado em
critérios vários e procurando examinar os fins e valores de cada versão, a
Edição do Centenário chegou à conclusão que, devia publicar um volume com
todas as versões e outro volume
introdutório sobre as "Últimas Conversas", tendo, como texto base,
a versão da "Caderneta Amarela". E foi assim que, em 1971,
apareceram esses dois valiosíssimos volumes, que têm um manancial inédito
para o público em geral, sobre a doença de nossa Santa e suas últimas
palavras. Além do
valor técnico, crítico, exegético e informativo das "Últimas
Conversas" de Santa Teresinha, esse documento é valioso, porque nos
mostra a sua alma nos últimos meses de sua vida, bem como porque apresenta
grandes pontos da mensagem teresiana, agora já definida, enquanto a Santa,
quase às vésperas da morte, já se sente totalmente mergulhada no amor pelo
qual tanto lutou e se doou. Nesse
documento, vemos uma Teresa já madura, mestra dos outros e de si mesma,
segura nas palavras e nas atitudes, uma mulher sem ilusões, já realizada
espiritualmente, em suma, uma Teresa que já alcançou o cume da montanha,
mesmo que ainda esteja caminhando, noite afora, pelas últimas pedras da
íngreme e dolorosa subida. Assim, enquanto o documento nos revela uma alma,
que fez um curso de gigante e já se encontra às portas da eternidade com todo
o brilhantismo de sua veste, longa e penosamente preparada, aparece também,
por esse motivo, a mulher Teresinha com toda a sua simplicidade, com todo o seu
coração humano e carente, com toda a sua afetividade, com todo o seu amor à
sua família. É encantador ver essa faceta da vida de Santa Teresinha. Aliás,
os grandes santos, no final da vida, chegaram a esse grau de perfeição, que
os torna mais humanos e mais simples. Durante todas suas vidas, eles lutaram
para superar as fraquezas do humano e de tal modo se esforçaram que, às
vezes, perderam ou relaxaram certas atitudes, gestos e palavras simples e
naturais. Todavia, quando eles alcançam, no final da vida, o cume da
montanha, então aparecem criaturas humanas em todo a sua grandeza e em toda
a sua beleza. Assim, aconteceu, por
exemplo, com S.João da Cruz e com S.Francisco de Assis. Com Teresinha
aconteceu o mesmo, pois, no final de sua vida, não teme mais pedir beijos
carinhosos e estridentes à sua irmã! Por outro
lado, a mensagem teresiana se enriquece com
a relevância dada a alguns temas da sua espiritualidade nas
"Últimas Conversas". O sofrimento, por exemplo, tem um realce todo
especial. O antigo sonho de Teresinha de sofrer por amor torna-se realidade e
uma realidade tão forte, que ela a sente na própria pele. O sofrimento,
então, não é mais um sonho, mas uma realidade fortíssima, da qual a Santa
tira as mais altas conseqüências. O desapego
das coisas terrenas e a ânsia pela Pátria, ao tempo em que a Santa se torna
mais humana e deseja mais ardentemente estar presente nesse mundo, é o
binômio-paradoxal, ou a dialética teresiana mais interessante, que se possa
encontrar nesse documento. A antiga vocação missionária de Teresinha volta,
agora, com uma força incrível e, na hora de deixar esse mundo, a Santa faz
questão de afirmar, muitas vezes, que não o deixará, que ficará aqui até o
final dos tempos. Sonho e desejo do transcendente, do absoluto, do infinito,
do céu; desejo e promessa pelo presente, pelo tempo, pelo humano, pela terra.
Tudo isso é chocante e maravilhoso nas "Últimas Conversas"! Algumas
das palavras mais belas de Teresinha encontram-se nesse maravilhoso documento, que salienta, de uma maneira
fantástica, a humildade, a pequenez, a simplicidade, a confiança e o
abandono, que formam a base e o miolo do "pequeno caminho"
teresiano. Eis por que esse documento é valioso e indispensável. Mas, Santa
Teresinha do Menino Jesus e da Santa face não foi apenas uma escritora, por
mais rica que tenha sido. Seus dons e seus dotes foram muito além. Mais além
de ensaísta, poetisa, dramaturga! Ela foi também artista ou, mais
especificamente, foi também uma pintora.
É verdade que nunca fez curso de pintura. Vontade não faltou, como podemos
depreender desse testemunho de Celina: "Um dia, em que meu pai me
anunciava que ele ia me mandar estudar desenho, perguntou a Teresa se ela
gostaria também de fazer esse estudo, mas ela se privou de responder, porque
Maria interveio em sentido contrário.E, contudo, ela morria de
vontade"(35).A própria Maria, no Processo Apostólico, confessou o fato:
"Quando tinha mais ou menos 10 anos, ela tinha um grande desejo de aprender pintura, vendo sua irmã Celina
tomar lições dessa arte de diversão, ela só teria a dizer uma palavra para obter de meu pai que lhe
propunha o mesmo. Com a minha
observação que isso seria pouco útil, ela guardou silêncio e deixou crer que
não o desejava. Ela nos contou, mais tarde, no Carmelo, que isso tinha sido
para ela um grande sacrifício. Disse-lhe, então, que ela deveria ter
reclamado: "Sim, me respondeu, mas não queria recusar nada ao bom
Deus"(36).Por outro lado, também aptidão não faltava, pois, mais tarde,
uma religiosa ficará admirada como a
Santa tenha feito alguns trabalhos de pintura sem jamais ter estudado essa
arte, a no ser algumas aulas que
Celina lhe deu sobre desenho, durante
algumas semanas, algum
tempo antes da entrada de Teresa no
Carmelo, e a tenha aprendido,praticamente, vendo sua irmã pintar e pelo
tendência natural que tinha pela pintura. Assim se expressa, a esse respeito,
a própria Santa: "Exteriormente, minha vida parecia a mesma, estudava,
tomava lições de desenho com Cellina
e minha hábil mestra encontrava em
mim muita disposição para sua
arte"(37). Os tempos
se passaram. Teresa não conseguiu mesmo estudar pintura. Todavia, seu gosto e
sua atração pela grande arte
continuavam fortes, sobretudo porque ela via as pinturas de sua irmã, Paulina, que para ela sempre foi um
verdadeiro ideal: "Vendo sempre a senhora, minha Madre querida,
como meu ideal, desejava
assemelhar-me a senhora em tudo; vendo-a
fazer belas pinturas e encantadoras poesias, eu me dizia: "Ah!
como seria feliz, se pudesse pintar, saber exprimir meus pensamentos em
versos e fazer assim o bem às
almas..." Não teria querido pedir esses dons naturais e meus desejos
ficavam escondidos no fundo de meu coração.A Jesus escondido, nesse pobre
coraçãozinho, aprouve lhe mostrar que
tudo é vaidade e aflição de espírito sob o sol... Para grande espanto das irmãs, fizeram-me pintar e o bom Deus
permitiu que eu saiba aproveitar as lições que minha Madre querida me
deu"(38). Teresinha
recebeu o encargo de pintar precisamente
no mês de junho de 1892,
Assim, mais um desejo de Teresinha estava realizado. E ela não perdeu o tempo, nem se desleixou
com seu novo encargo. Mesmo com pouca cultura artística, pintou e pintou
muita coisa.Assim, depôs Madre Inês:
"A partir dessa época até fevereiro de 1893, ela se ocupou de
vários trabalhos de pintura: fresco do Oratório, diversos ornamentos do
altar, imagens que eram vendidas fora...Nas eleições de 1893, ela foi
nomeada porteira, sem deixar de se
ocupar de pintura"(39). Da sua
tela saíram muitos quadros, além dos já mencionados, como uma imagem da Santa
Face,que fez para o seu breviário, as Armas de Jesus e Teresa, nas quais
aparece, de novo, uma Santa Face, e um quadro do Menino Jesus, que Madre Inês
enviou à Irmã Maria Aloísia Vallée, em janeiro de 1894. Na carta que Madre
Inês enviou a essa Irmã,juntamente com a pintura do Menino Jesus, comenta que
a Santa "tem pintado muito belas
coisas em flores e em paisagens", mas que no caso daquele quadro "o pincel a enganou". Todavia,
acrescenta a Madre Inês, o importante é o que ela queria dizer com seu
quadro, já que tinha uma clara visão do que queria pintar: "Na verdade,
esse quadro é uma verdadeira côdea, mas quando se pensa que ele foi feito por
inspiração, a gente é mais indulgente, sobretudo por uma criança que nunca
aprendeu o desenho nem a pintura"(40). As irmãs da Visitação de Mans
acharam o quadro pouco gracioso e o Menino Jesus semelhante a uma criança
bochechuda. Ainda hoje
os peregrinos podem ver, ao lado da capela do Carmelo de Lisieux, em uma
sala, onde se encontram algumas relíquias preciosas de Santa Teresinha, uma
casula com uma pintura da Santa Face, feita por Santa Teresinha. Na
verdade, as pinturas de Santa Teresinha valem mais pela inspiração, pelo
desejo de expressar na arte aquilo que a Santa, como dizia Madre Inês, via
tão claramente no seu coração. A própria Teresa estava convencida disso. Em
uma carta a Maria Guérin, datada de 19 de novembro de 1887, e escrita em
Roma, a Santa confessava, com humildade: "Na Itália se ouve muito a
música; tu sabes que é o país dos artistas; tu poderias julgar melhor do que
eu aquilo que é belo, pois eu não sou artista"(41). Ademais, se algum
sucesso ela alcançou com suas poesias, seus quadros, suas peças teatrais,
tudo lhe serviu para uma bela meditação sobre a vaidade das coisas que
passam. Com efeito, na sua Autobiografia, depois de comentar seu trabalho com
pintura e poesia, acrescenta:
"Assim como Salomão, voltando para as obras de suas mãos, nas quais
tinha tido um aperreio tão inútil, viu que tudo era vaidade e aflição de espírito, eu também reconheci, por
EXPERIÊNCIA, que a felicidade consiste em se esconder, a ficar na ignorância
das coisas criadas. Compreendi que, sem amor, todas as obras não são nada,
mesmo as mais brilhantes, como ressuscitar os mortos ou converter os
povos..."(42). Mas, o
encargo de pintura lhe serviu também para exercitar sua caridade e sua
paciência. No Manuscrito C, a Santa refere-se a certas ocasiões, em que encontra
seu material de pintura em desordem ou faltando alguma coisa, quando,
então, lhe foi preciso "tomar coragem com as duas Mãos": "No
encargo de pintura nada me pertence, eu o sei bem; mas se, pondo-me ao
trabalho, encontro pincéis e pinturas tudo em desordem, se uma regra ou um
canivete desapareceu, a paciência
fica bem perto de me abandonar e devo
pegar minha coragem com as duas mãos, para não reclamar com amargura
os objetos que me faltam"(43). Assim, vemos que, mesmo nas coisas mais
simples e mais humanas, Santa Teresinha soube se portar com muita grandeza de
alma. Os seus dons não a ensoberbecem, suas fraquezas não a abatem. O
equilíbrio de uma alma santificada pela graça reluz, pois, em Teresa de
Lisieux, mesmo nas coisas mais humanas e mais naturais. Como disse a Madre
Gonzaga, em tudo ela é perfeita! NOTAS (1) -P.A.p.573 (2) -P.A.p.588 (3) -P.A.p.590 (4) -P.A.p.590 (5) -P.A.p.593 (6) -P.A.p.594 (7) -Manuscrits
Autobiographiques, Carmel de Lisieux,1957,p.VIII (8) -P.A.p.201-202 (9) -P.A.p.246 (10)-P.A.p.314 (11)-P.A.p.202-203 (12)-P.A.p.146-147 (13)-Apud MA, T.I,p.87-88 (14)-Ibidem, p.88 (15)-CG,T.I,p.46 (16)-Ibidem, p.50 (17)-Carta à Madre Inês de
Jesus, de 28 de fevereiro de 1932 (18)-CS,p.120-121 (19)-M.C, 7v (20)-CT,220 (21)-Cfr. nosso livrinho
"Rezando com Santa Teresinha" (22)-M.C, 25r (23)-M.C,25r (24)-M.C,32v (25)-CT,152 (26)-CT,138 (27)-P.p.10 (28)-VT,71,p.231 (29)-VT,69,p.67 (30)-M.A, 19v (31)-No Carmelo, Santa Teresinha
começou a sofrer da garganta no verão de 1894 (32)-NPPO,p.14 (33)-RP 2,v.5 (34)-A denominação de
"Recreações Piedosas" não é de Santa Teresinha (35)-P.O.p.295 (36)-P.A.p.239 (37)-M.A,52r (38)-M.A, 81r (39)-P.A.p.149 (40)-CG,T.II,p.1150 (41)-CT,35 (42)-M.A, 81v (43)-M.C, 16v O AMOR Começamos
este livro apresentando a pessoa de Teresa de Lisieux. Sob esse prisma,
procurávamos ver a mulher Teresa e a
personalidade humana e espiritual de Teresa ou Teresinha.Posto esse fundamento para o nosso conhecimento,
examinávamos o acordo maravilhoso que existiu em Teresa de Lisieux, ou Santa
Teresinha do Menino Jesus e da Santa Face. Estupefatos e admirados diante da
harmonia existencial da Santa, procurávamos examinar os dois ângulos da
questão, ou, os dois lados do maravilhoso mundo teresiano, isto é, o lado
humano e o lado espiritual. Na primeira linha de análise, vimos a humana, a
mestra, a doutora, a escritora, a pintora, ao tempo em que, conjuntamente,
apareciam outras facetas do lado humano de Teresa, como a amante da natureza
e dos animais. Chegou a
hora de entrarmos no recinto sagrado e misterioso do lado espiritual de Santa
Teresinha. Na primeira linha de exame, tivemos de mesclar a análise do humano
com a face do espiritual, porque, em Teresa, tudo é harmônico, perfeito, não
há separação entre vida e fé, entre o divino e o humano. Nessa segunda linha
de estudo, vamos continuar a mesma metodologia. Teremos de analisar a
mensagem de Santa Teresinha que é a mesma coisa que a caminhada de Teresa de
Lisieux. Aqui, como lá, teremos de mesclar o espírito com o corpo, de juntar
o pensamento com as palavras, a mensagem com a vida,pois, nela, tudo é
perfeita harmonia. Não vamos seguir, porém, passo a passo, em sentido
cronológico, o "curso de gigante" da nossa Santa. Nosso método será
a contemplação da obra realizada. Santa Teresinha chegou ao topo da montanha.
De lá, ela teve uma visão maravilhosa. Suas palavras e sua vida foram a
tradução do seu pensamento e da sua mensagem. Nós, agora, podemos contemplar,
em conjunto, como ela viveu, o que ela disse, e, então, poderemos apontar o essencial, que plasma,
sistematiza, orienta, forma a mensagem espiritual da "maior Santa dos
tempos modernos". O que queremos, agora, é, pautados na vida e nas
palavras de Teresa de Lisieux,analisar e sintetizar, enquanto possível for,
aquilo que é o "pequeno caminho" de Santa Teresinha.
Evidentemente, jamais conseguiremos
fazer uma explanação completa e definitiva. Os Santos estão muito além
de nós, de nosso entendimento e de nossas palavras. Se o mundo interior de um
simples mortal já é maravilhoso e misterioso, imaginemos o que não será o
mundo interior de um Santo, que chegou a alto grau de mística e que alcançou
o cume da montanha.Convencidos da nossa limitação, vamos, no entanto, expor o
que pensamos e o que compreendemos do lado espiritual de Teresa de Lisieux,
que é a sua mensagem, ou o "pequeno caminho". A palavra
chave, que define e sintetiza toda a vida e toda a mensagem teresiana é AMOR.
O amor é o sangue, o ar, o coração da vida e da espiritualidade teresianas.
Dele parte tudo e para ele converge tudo.Tinha, pois, muita razão e sabedoria
Irmã Genoveva de Santa Teresa, quando, no Processo Apostólico, disse:
"Embora Irmã Teresa do Menino Jesus tenha praticado todas as virtudes de
um modo excepcional, aquela que nela brilha mais e lhe dá seu caráter próprio é a caridade para com Deus. O
amor foi o objetivo de toda a sua vida e o móvel de todas as suas
ações"(1). Na verdade, quando em setembro de 1896, nossa Santa quis
expressar todo o sentido de sua vida, escreveu um dos mais belos poemas, que
já se fez sobre o amor: "Durante a oração, meus desejos fazendo-me
sofrer um verdadeiro martírio, abri
as epístolas de São Paulo, a fim de buscar alguma resposta. Os
capítulos XII e XIII da primeira epístola aos Coríntios caíram sob meus
olhos... Li, então, primeiramente, que todos não podem ser apóstolos,
profetas, doutores, etc... que a Igreja é composta de diferentes membros e
que o olho não poderia ser, ao mesmo tempo, a mão...A resposta era clara, mas
não satisfazia aos meus desejos, não me dava a paz... Como Madalena se
abaixando sempre, junto ao túmulo vazio, terminou por encontrar o que
buscava, assim, abaixando-me até às profundezas do meu nada, elevei-me tão
alto que pude atingir meu objetivo... Sem me desencorajar, continuei minha leitura e esta frase me aliviou:
"Aspirai aos dons mais altos. Aliás, passo a indicar-vos um caminho que
ultrapassa a todos". E o Apóstolo
explica como todos os mais perfeitos dons não são nada sem o AMOR...
Que a Caridade é o CAMINHO EXCELENTE, que conduz seguramente a Deus. Enfim,
encontrara o repouso... Considerando o corpo místico da Igreja, não me
reconhecera em nenhum dos membros descritos por São Paulo, ou, antes, queria
me reconhecer em todos... A Caridade me deu a chave de minha vocação. Compreendi
que, se a Igreja tinha um corpo,
composto de diferentes membros, o mais necessário, o mais nobre de todos não
lhe faltava, compreendi que a Igreja tinha um Coração, e que esse Coração
estava QUEIMANDO de AMOR, Compreendi que, só o AMOR fazia agir os membros da Igreja, que se o AMOR
viesse a se extinguir, os apóstolos não anunciariam mais o Evangelho, os
Mártires recusariam derramar seu
sangue... Compreendi que, o AMOR ENGLOBAVA TODAS AS VOCAÇÕES, QUE O AMOR ETA
TUDO, QUE ELE ABRAÇAVA TODOS OS TEMPOS E TODOS OS LUGARES... EM UMA PALAVRA,
QUE ELE É ETERNO!... Então, no excesso de minha alegria delirante, exclamei:
Ó Jesus, meu Amor... minha vocação, enfim, eu a encontrei, MINHA VOCAÇÃO É O
AMOR!... Sim, achei meu lugar na Igreja e esse lugar, ó meu Deus, fostes vós
que mo destes... no Coração da Igreja, minha Mãe, eu serei o AMOR... assim,
eu serei tudo... assim, meu sonho será realizado!!!..."(2). Amar, amar
sempre, eis o objetivo de toda a vida de Teresinha, justamente porque o amor
é a razão de ser de tudo e objetivo e fim também de tudo. O amor não é só a
razão e o fim de tudo, ele também engloba tudo, encerra tudo. Assim, tinha
razão Teresa de Lisieux, quando no excesso de seus sublimes desejos, queria
ser o Amor. Toda a
vida de Santa Teresinha foi um ato de amor. Ela amou a sua família
ternamente, amou as flores, amou os campos, amou os pássaros, amou os
animais, amou as suas festas, amou os atos litúrgicos, amou a leitura, amou a sua existência, amou o grande, o
belo, amou a natureza, a neve de modo especial; em suma, ela amou o mundo, os
homens, mas amou,apaixonadamente, o seu Deus. Certo
dia,Irmã Maria do Sagrado Coração disse a Teresa: "Como é que você faz
para pensar sempre no bom Deus?". Então, a Santa lhe respondeu:
"Não é difícil, pensa-se naturalmente naquele que se ama". Irmã
Maria lhe retrucou: " Então, você não perde jamais sua presença?" A
resposta de Teresa veio logo: "Oh! não, creio que não estive jamais três
minutos sem pensar nele"(3). Três minutos sem pensar em Deus e isso
jamais aconteceu na vida de Teresinha e a razão disso foi o amor, porque
pensamos, naturalmente, naquele que amamos! Tinha razão, pois, a Irmã Teresa
de Santo Agostinho, quando disse: "O amor de Deus era a nota dominante
dessa alma seráfica"(4). É verdade
que Teresa subiu, aos poucos, a montanha do amor, mas é verdade também que,
já de pequena, ela amava muito a Deus. Assim ela se confessa, quando, ainda
garotinha, vivia os dias felizes de sua infância ao lado de seu pai: "Eu
amava muito o bom Deus e lhe entregava, muitíssimas vezes, o meu coração,
servindo-me da formulazinha que mamãe
me ensinara..."(5). Teresinha
tinha já treze anos, quando fez uma viagem à sua terra natal, Alençon. Aí
passou alguns dias e pôde conhecer muita gente. Viveu, durante algum tempo,
podemos dizer, as alegrias da vida de algumas famílias burguesas. Sua
experiência foi muito importante e dela ela tirou uma conclusão mais
importante ainda: "E vejo que tudo é vaidade e aflição de espírito sob o
sol...que o único bem é amar a Deus de todo seu coração e ser, aqui na terra,
pobre de espírito"(6). O tempo
foi se passando. nossa Teresa já está madura na sua transformação
espiritual. Está mesmo dentro da noite da fé,que, segundo S.João da Cruz, é a
purificação dos sentidos e das faculdades espirituais do santo aqui na terra.
Além do mais, está prestes a partir deste mundo. Pois bem, é justamente nesse
momento, que ela escreve estas palavras: "Madre bem-amada, parece-me
agora que nada me impede voar, pois já não tenho grandes desejos a não ser o
de amar até morrer de amor..."(7). Mas em
1894, Teresinha já podia escrever à Madre Inês estas frases, que refletem,
profundamente, o seu estado espiritual: "Não desejo mais o sofrimento
nem a morte, e, contudo, amo todos os dois, mas é só o amor que me atrai...
Posso dizer estas palavras do cântico espiritual de Nosso Pai S.João da Cruz:
'Na adega interior do meu Bem-Amado, bebi e
quando saí, em toda essa planície eu
não conhecia mais nada e perdi o rebanho que seguia antes... Minha alma
se empregou, com todas as suas forças a seu serviço, não cuido mais de
rebanho, não tenho outra ocupação, porque,agora, todo meu exercício é
AMAR!...", ou ainda: 'Desde que o conheci, o AMOR é tão poderoso em
obras, que sabe tirar proveito de
tudo, do bem e do mal que encontra em mim, e transformar minha alma
Nele". Ó minha Madre! como é doce a estrada do amor!"(8). Mas, para
Teresa de Lisieux amar a Deus, concreta e historicamente, é amar Jesus. Jesus
é sua grande devoção, é a sua grande atração, é a sua grande paixão. Ela é
loucamente apaixonada por Jesus. Jesus encarna, para ela, todo o sentido de
Deus. Ele não é, como dizem alguns teólogos modernos, o representante de
Deus, mas, para Teresa de Lisieux, ele é o próprio Deus, que ela ama loucamente
e adora de todo seu coração. Isso significa que, em última análise, todas suas declarações de amor a Deus
estão, em grande parte, concentradas nas declarações de amor a Jesus. E no seu
amor a Jesus, Santa Tersinha salientou, sobremodo, duas grandes devoções, a
saber, a Infância do Senhor e a sua sagrada Face. Com efeito, o Jesus Menino
e a Face adorável de Jesus marcaram, profundamente, a espiritualidade
teresiana. Ela viveu, seriamente, o seu próprio nome de religiosa, como sendo
eles a orientação significativa de sua espiritualidade. A Infância
de Jesus significa, para Teresinha, a humildade, a simplicidade, a pobreza,
que são o sopé da montanha do amor; a base da caminhada para a santidade. A
Face sagrada significa o sofrimento, o escondimento, a vida contemplativa.
Ambas, a Infância e a Face divina espelham todo o amor de Deus por nós e, ao
mesmo tempo, tudo quanto o homem, em resposta, tem de dar a Deus pela
humildade, pelo sofrimento, pelo amor.
Descrevendo as horas amargas que passou após a audiência com o Papa,
entre outras coisas, ela diz:"Desde algum tempo, eu me ofertara ao
Menino Jesus para ser seu brinquedinho; eu lhe dissera para não se servir de
mim como de um brinquedo de valor, que as crianças se contentam em olhar sem
ousar tocá-lo, mas como de uma bolinha sem valor, que Ele podia jogar ao
chão, chutar com o pé, furar, deixar em um canto ou mesmo apertar sobre seu
coração se isso lhe desse prazer; em uma palavra, quisera divertir o pequeno
Jesus, dar-lhe prazer, quisera me entregar aos seus caprichos infantis...Ela
ouvira minha oração..."(9). O
interesse pela Infância de Jesus levou nossa Santa a cuidar, com carinho, de
uma imagem do Menino Jesus, que se encontrava no claustro do Carmelo e no
Natal de 1896, ela compôs uma poesia simples e bonita, na qual compara o
Carmelo ao viveiro do Menino Jesus. Às tantas, ela escreve:"Como ele(o
passarinho) no nosso viveiro, Nós recebemos tudo de tua mão, A única coisa
necessária, É te amar, Menino Divino"(10) As
carícias, as ternuras, as delicadezas de Teresa para com o Menino Jesus foram
constantes e com muito sabor
feminino, porém, o que, realmente, encantava a Santa na Infância do seu Jesus
era o significado profundo, que ela lhe dava para sua caminhada. Significado
de pobreza, de simplicidade, de pequenez, de amor, que são linhas mestra de
sua espiritualidade. Irmã
Genoveva, comentando a devoção de
Teresinha à Sagrada Face, testemunhou:"A Sagrada Face de Nosso Senhor
lhe inspirava ficar escondida aos olhos dos outros e aos seus próprios. Foi
contemplando a Face morta de Jesus, meditando suas humilhações, que ela
hauriu a humildade, o amor aos sofrimentos, a generosidade no sacrifício, o
zelo pelas almas, o desapego das criaturas, enfim, todas as virtudes ativas,
fortes, viris, que nós vimo-la praticar. Ela dizia ter haurido sua devoção à
santa Face nos capítulos 53 e 60 de Isaías, descrevendo os sofrimentos e as
humilhações de Cristo. Em diversas obras que ela compôs, fez figurar a Santa
Face principalmente na ornamentação de uma casula, na qual ela ornou com
lírios essa Face adorável. Esses lírios representavam toda sua família; ela
se desenhou a si mesma como uma flor
semi fechada sob o véu. Estou persuadida de que foi a serva de Deus quem foi
a inspiradora do meu projeto de reproduzir a Santa Face, segundo o santo
Sudário de Turim(11). A
descoberta da Sagrada Face para a vida espiritual de Teresa se deu nos
primeiros anos de sua vida no Carmelo. Assim ela conta como aconteceu:"A
florzinha transplantada para a montanha do Carmelo devia se desabrochar à
sombra da Cruz; as lágrimas, o sangue de Jesus tornaram-se seu orvalho e seu
Sol foi sua Face adorável, velada de lágrimas...Até então, não sondara a profundidade dos tesouros escondidos na
santa Face; foi pela senhora, minha
Madre querida, que aprendi a
conhecê-los, assim como outrora a senhora tinha precedido a todas nós no
Carmelo, assim também, por primeira, a senhora penetrara nos mistérios de
amor escondidos no Rosto do nosso
Esposo"(12).
Descobertos os tesouros da Face sagrada, Teresa se interessa
seriamente por eles e os toma como luz e guia de sua vida espiritual e como
norma para seu pequeno caminho:"Compreendi o que era a verdadeira
glória. Aquele, cujo reino não é deste mundo, mostrou-me que a verdadeira sabedoria
consiste em "querer ser ignorada e tida por nada", - em "pôr
sua alegria no desprezo de si mesma'...Ah! como o de Jesus, eu queria que
:'Meu rosto fosse verdadeiramente escondido, que na terra ninguém me
reconhecesse'.Tinha sede de sofrer e de ser esquecida..."(13). Feita a
descoberta, a Sagrada Face passou a ser seu grande título de nobreza. Não
era, como podia parecer, sua vergonha ou sua tristeza. Não, pelo contrário.
Era sua alegria, sua felicidade, sua honra, pois, como dote de seu casamento com
Jesus,recebera "A infância de Jesus e sua Paixão, sendo seus títulos de
nobreza: do Menino Jesus e da Santa Face"(14). Teresa de
Lisieux foi mulher e mulher consciente dos seus direitos. Visitando Florença,
ela faz um comentário sobre as proibições constantes que, naquela época, ela
encontrou com relação às mulheres. Teresa faz, então um desabafo natural
feminino, mas não perdeu a ocasião de pincelar, para nós, mais uma vez, seu
pequeno caminho:"Não posso compreender por que as mulheres são tão facilmente
excomungadas na Itália. A cada instante nos diziam:'Não entrem aqui...não
entrem ali...vocês serão excomungadas!...'Ah! as pobres mulheres, como elas
são menosprezadas!... Contudo, elas amam o bom Deus em bem maior número do que os homens e, durante a Paixão de
Nosso Senhor, as mulheres tiveram mais coragem do que os apóstolos, pois elas enfrentaram os insultos dos soldados
e ousaram enxugar a Face adorável de Jesus... É, sem dúvida, por isso que Ele
permite que o desprezo seja sua partilha sobre a terra, já que Ele o escolheu
para Si mesmo..."(15). Destarte,
Teresa tomou a Face Sagrada de Jesus como norma de vida e como luz e guia do
seu pequeno caminho. No desenho de suas armas, colocou a Sagrada Face e na explicação que dá, escreve:"O
brasão de JHS é o que Jesus se dignou dar, como dote, a sua pobre esposinha.
A orfãzinha de Beresina tornou-se Teresa do MENINO JESUS da SANTA FACE, estão
aí seus títulos de nobreza, sua riqueza, sua esperança"(16). Riqueza,
esperança, título de nobreza estão todos na Infância e na Face ensangüentada
de Jesus! Isso equivale a dizer que, a vida de Teresa, bem como seu pequeno
caminho, estão marcados pela dor, pela pobreza, pela simplicidade. Uma
expressão especial de demonstração de amor a Deus, sobretudo à Pessoa de
Jesus Cristo, em Teresa de Lisieux, encontra-se na Eucaristia. Com efeito, a
Eucaristia, como sacrifício e como sacramento, foi, sem dúvida nenhuma, um
dos pontos altos na escolha de devoções e amor de Teresa de Lisieux. De pequena
até os últimos momentos, Teresinha teve sempre um relacionamento todo
especial com a Missa e com Jesus Eucaristia.
As suas irmãs testemunharam sua alegria e seu gosto especial pelas
procissões do Santíssimo Sacramento e pela santa Missa. Madre Inês, no
Processo Apostólico, assim disse:"Quando criancinha, ela jogava flores
diante do Santíssimo Sacramento, tinha, então, um olhar celestial; sentia-se
que o amor divino abrasava seu coração. Sua atenção e seu olhar ficavam fixos
na santa Hóstia e ela jogava bem alto suas pétalas de rosas para fazê-las
tocar, dizia ela, no ostensório sagrado. Ela teve sempre pela assistência à
santa Missa uma atração particular."(17) A própria Teresa confirma esse
depoimento, quando escreve, na sua Autobiografia:"Amava, sobretudo, as
procissões do Santíssimo Sacramento, que alegria semear flores sob os passos
do bom Deus!...mas, antes de deixá-las cair, eu as lançava o mais alto que
podia e não ficava muito feliz senão quando via minhas rosas desfolhadas
tocarem no Ostensório sagrado(18) Toda a
educação familiar de Teresa foi de tal modo que favoreceu, profundamente, um
amor especial pela santa Missa e por Jesus Hóstia. Podemos encontrar
resquícios dessa educação e formação
em muitas passagens da sua Autobiografia. Assim, por exemplo, encontramos
no Manuscrito A, esta bonita observação:"Todas as tardes, eu ia fazer um
pequeno passeio com papai; fazíamos, juntos, nossa visita ao Santíssimo
Sacramento, visitando, cada dia, uma nova igreja"(19).E não menos bonita
ainda é a sua narração da assistência da missa dominical por parte de toda a
família ("depois, toda a família partia para a Missa"(20)) Durante a
sua vida de estudante na Abadia, Teresinha teve alguns problemas, pois não se sentia à vontade em certas
brincadeiras durante os recreios. Nessas ocasiões, ela procurava outros meios
de viver o seu lazer. Nesse seu tempo de estudos,segundo um depoimento de
Madre Inês, "quando se celebravam várias missas na capela do mosteiro, e ela estava livre, sua
felicidade era assistir a todas"(21). Mas, na infância de Teresinha um fato que realmente a marcou e a marcou
profundamente foi, sem dúvida nenhuma, sua primeira comunhão. Esse fato foi
não só bem preparado, como também foi vivido, em cada particular, a ponto de
se tornar, realmente, um marco na existência de santa Teresinha. Parece
que a idéia de sua primeira comunhão tomou conta dela de tal maneira que, a
menina Teresinha vivia se preparando para ela. Na sua Autobiografia, a Santa
nos conta como um dia encontrou um pobre, que não quis receber sua
esmola.Então, Teresinha prometeu a si mesma que rezaria por ele no dia de sua
primeira comunhão, já que, ouvira dizer que o que se pedia naquele dia
bendito, recebia-se.Ela cumpriu sua promessa, alguns anos depois. Ela fez
sua primeira comunhão no dia 8 de maio de 1884. Pois bem, numa cartinha do
final de 1882, dirigida à madre Maria de Gonzaga, Teresinha já
escrevia:"...quero me corrigir e em cada buraquinho colocar uma linda
florzinha, que oferecerei ao Menino Jesus para me preparar para minha
primeira comunhão"(22).Um ano e alguns meses depois, algum tempo antes
de sua primeira Eucaristia, escrevia à Madre Inês, referindo-se a uma bela
imagem que havia num livrinho, que a Madre lhe enviara de presente:"Como
há uma bela imagem no começo! É uma pombinha que dá seu coração ao Menino
Jesus. Pois bem, eu também quero o ornar
com todas as belas flores que encontrarei, para oferecê-lo ao Menino
Jesus no dia de minha Primeira Comunhão; e quero de fato, como está na
oraçãozinha que se encontra no início do livro, que o Menino Jesus se
encontre tão bem no meu coração, que ele não mais pense em voltar para o
céu"(23). A respeito
dessa preparação remota e próxima à primeira Comunhão, e como Teresinha
ansiava por esse dia bendito,Irmã Genoveva teve o cuidado de nos oferecer, no
Processo Apostólico, um relatório interessante:"Ela desejou, desde cedo,
fazer sua primeira Comunhão, foi sobretudo por ocasião da minha que ela
manifestou seus desejos. Paulina me tomava, cada dia, à parte, para me preparar.
Teresa insistia para ser admitida a essas orientações, dizendo 'não é demais
quatro anos pra se preparar para receber o bom Deus'. Ela tinha, então,
apenas sete anos e devia esperar sua
idade de 11 anos, segundo o costume. Tendo nascido aos 2 de janeiro, ele se
via obrigada a esperar ainda um ano e dizia, lamentando:'Quando penso que se
tivesse vindo ao mundo somente dois dias mais cedo, avançaria um ano para minha primeira comunhão!'.
Quando veio o momento dessa primeira comunhão, ela se preparou oferecendo,
cada dia,um ramalhete de sacrifícios e de atos de amor, dos quais ela anotava
tudo em uma cadernetinha: ela anotou aí 818 sacrifícios e 2773 atos de
amor"(24). A
preparação para a primeira Comunhão não foi apenas remota, ela incluiu também
um movimento muito profundo nos últimos dias anteriores ao grande dia. Assim,
ela fez um retiro de três dias com a maior seriedade do mundo, do qual temos
até os pormenores contados e anotados pela própria santa. É
emocionante ler Teresinha descrevendo
o belo dia, em que ela se tornou, verdadeiramente, uma com Jesus,
porque,segundo sua própria expressão, houve mesmo uma fusão entre Jesus e
Teresa, na hora de sua primeira Comunhão:"O 'belo dia entre os dias'
chegou enfim, que inefáveis lembranças deixaram na minha alma os menores
detalhes desse dia do céu!...O alegre despertar da aurora, os beijos
respeitosos e ternos das mestras e companheiras maiores...O grande quarto
cheio de flocos de neves, com os
quais cada menina se revestia, por sua vez...Sobretudo, a entrada na capela e
o canto matinal do cântico:'Ó santo altar, que os Anjos rodeiam!'. Mas, não
quero entrar em detalhes, há coisas que perdem seu perfume quando são
expostas ao ar, há pensamentos da alma que não podem ser traduzidos na
linguagem da terra sem perder seu
sentido íntimo e celeste...Ah! como foi doce o primeiro beijo de Jesus na
minha alma! Foi um beijo de amor, eu me sentia amada e dizia também:'Eu vos
amo, eu me entrego a vós para sempre'. Não houve pedidos, lutas, sacrifícios;
desde muito tempo, Jesus e a pobre Teresinha
se tinham entreolhado e se tinham compreendido...Naquele dia não era
mais um olhar, mas uma fusão, eles não eram mais dois, Teresa desaparecera,
como a gota d'água se perde no meio do oceano. Jesus ficava só, Ele era o mestre, o Rei. Teresa
não lhe pedira para lhe tirar sua liberdade, porque sua liberdade lhe dava
medo? Ela se sentia tão fraca, tão frágil que, para sempre, queria se unir à Força divina! Sua alegria
era demasiado grande, demasiado profunda para que pudesse contê-la, lágrimas
deliciosas logo a inundaram para grande admiração de suas
companheiras...naquele dia só a alegria
enchia meu coração..."(25). Devemos lembrar que Teresinha tinha,
nessa ocasião, apenas onze anos e, no entanto, ela já nos fala que sua união,
pela Eucaristia, com Jesus foi uma verdadeira fusão! Ademais,
devemos observar como Teresa soube unir-se a Jesus, unindo-se, ao mesmo
tempo, aos seus irmãos. Ela se uniu à sua família, à sua comunidade, aos que
a tinha precedido no reino dos céus, como sua mamãe, não se esqueceu do seu
pobre, pelo qual prometera a si mesma rezar no dia de sua primeira
Eucaristia. Os anos se
passaram e no Carmelo, Teresa de Lisieux continuou seu amor e sua devoção a
Jesus Eucaristia. Uma de sua irmãs chega quase a lamentar que não se tivesse
podido enxergar sua fisionomia,
durante a missa e a comunhão, por causa da meia escuridão do ambiente, para
que se pudesse apreciar seu amor
transbordante nos momentos da comunhão. Teresa, porém, reconhece que
nem sempre viveu, sensivelmente, nas alturas durante suas orações, o que
significa que o essencial foi seu amor e não seus sentimentos,como ela mesma
ensinou à sua prima, Maria Guérin:"Não se angustie por não sentir
nenhuma consolação nas suas comunhões, é uma provação que é preciso suportar
com amor, não perca nenhum dos espinhos que encontra todos os dias; com um
deles você pode salvar uma alma!"(26) No
Carmelo, nossa Santa continuou se preparando para a comunhão com o mesmo
fervor de criança. A respeito de uma carta, que Madre Inês recebera para ela,
e que ainda não fora lida, assim falou a Santa:"Mamãe, é preciso me ler
a carta, que a senhora recebeu para mim. Eu me privei de vo-lo pedir durante
a oração, para me preparar para a minha comunhão de amanhã..."(27). Um dia,
Teresa, muito doente, foi à Missa e comungou, mas estava tão esgotada que
Madre Inês não se conteve e chorou. Como Madre Inês notasse que suas lágrimas
a faziam sofrer mais ainda, ajoelhou-se diante dela e lhe pediu perdão. A
cena comovente merecia uma mensagem bonita e Teresa no-la deu,
dizendo:"Isso não é sofrer demais para se ganhar uma Comunhão!".
Madre Inês termina a narrativa, dizendo:"Mas, repetir a frase não é
nada, é preciso ter ouvido a entonação!"(28). No
Carmelo, é evidente que nossa Santa cresceu no seu amor à Eucaristia, quer
como sacrifício, quer como sacramento. Uma série de fatos simples provam à
saciedade quanto ela amava a Eucaristia e como procurava viver esse mistério
de amor, onde Jesus, de certa maneira, se esconde e se humilha, mas onde nos
dá a grande prova de seu amor, pela sua contínua presença. Foi
durante a adoração do Santíssimo Sacramento, que ela compôs, em fevereiro de
1895, seu famoso poema "Viver de Amor!", no qual, ela canta:
"Viver de Amor é viver de tua vida,
Rei glorioso, delícia dos eleitos.
Tu vives para mim, escondido em uma hóstia
Eu quero por ti me esconder, ó Jesus!
Aos amantes é preciso a
solidão
Um coração a coração, que dure noite e dia
Só teu olhar faz minha felicidade
Eu vivo de Amor!"(29). Outra
poesia, embora secundária e traduzindo apenas os pensamentos de outra
religiosa, mas que tem, contudo, seu significado para nosso tema, é "O
Átomo de Jesus Hóstia". Teresa a compôs a pedido de Irmã São Vicente de
Paulo. São pensamentos dessa religiosa, mas reflete,de certo modo, o
pensamento também de Teresa, porque ela os traduziu na sua linguagem e no seu
modo de ver:
"Ah! para a hóstia minha
alma suspira
Eu a amo e não quero nada mais É
o Deus escondido que me fascina!"(30). Na peça
teatral "Os Anjos na
Creche", na cena quatro, aparece o Anjo da Eucaristia, que canta
os pensamentos de Teresinha, da seguinte maneira:
"Contemplai, anjo, meu irmão,
Jesus subindo ao céu,
Eu venho à essa terra
Para adorá-lo no altar
Escondido na Eucaristia
Eu vejo o Deus Todo-Poderoso
Eu vejo o Autor da vida
Muito menor que uma criança" Então, segue-se o refrão, que canta:
"De hoje em diante no santuário
Ah! quero fixar minha morada
Oferecer a Deus minha oração E
o hino de meu amor" Em seguida, vem a segunda estrofe, que diz:
"Quero cantar com minha lira
Os encantos do Deus escondido
Quero num santo delírio
Embebedar-me com sua beleza
Ah! que eu possa no tabernáculo Alimentar-me
do Deus de amor E
por um milagre muito doce
Unir-me a Ele cada dia"(31). Observamos
que Teresa olha Jesus Hóstia sempre como o Deus escondido por amor. É bem
típico de sua espiritualidade: a humildade, o escondimento, e tudo por amor! Digna de
nota, neste particular é a Oração, composta por Santa Tersinha e
intitulada"Prece a Jesus no Tabernáculo". É verdade que se trata de
uma oração composta a pedido de Irmã Marta de Jesus, com particulares
reservados a uma irmã conversa, que não era obrigada ao Ofício e que
encerrava sua atividade com uma visita ao Santíssimo Sacramento. Todavia,
essa oração, como todas as composições teresianas, encerra também as idéias de Teresinha, como
podemos observar: "Ó
Deus escondido na prisão do tabernáculo! É, com felicidade, que venho até vós
cada noite, a fim de vos agradecer as graças que me concedestes e
implorar meu perdão pelas faltas, que
cometi durante o dia, que passou como um sonho... Ó Jesus!
como seria feliz se tivesse sido bem fiel, mas, ah! muitas vezes à noite fico
triste, pois sinto que teria podido responder melhor a vossas graças...Se
fosse mais unida a Vós, mais caridosa com minhas irmãs, mais humilde e mais
mortificada, sofreria menos ao me entreter convoco na oração. Contudo, ó meu
Deus, bem longe de me desencorajar com a vista de minhas misérias, venho a
Vós com confiança, lembrando-me de que:'Os sãos não têm necessidade de
médico, mas os doentes'. Eu vos suplico, pois, que me cureis, me
perdoeis, e eu me lembrarei, Senhor,
que 'a alma à qual mais perdoastes, deve também vos amar mais do que as outras!'. Eu vos ofereço
todas as batidas do meu coração como outros tantos atos de amor e de
reparação e os uno a vossos méritos infinitos. Eu vos suplico, ó meu Divino
esposo, sede vós mesmo o Reparador de minha alma, agi em mim sem levar em
conta minhas resistências, enfim, não quero ter outra vontade senão a vossa;
e, amanhã, com o socorro de vossa graça, recomeçarei uma nova vida, da qual
cada instante será um ato de amor e de renúncia. Após ter
assim vindo, cada noite, ao pé do vosso Altar, chegarei, enfim, à última
noite de minha vida, então começará para mim o dia sem ocaso da eternidade,
quando repousarei sobre vosso Divino Coração, das lutas do exílio!"(32). Como se
pode bem ver, toda a oração está eivada das idéias básicas da mensagem
teresiana. Se quiséssemos resumir tudo, poderíamos dizer que Teresa, diante
do Tabernáculo, apenas abria seu coração cheio de amor, e confessava ao seu
Bem-Amado unicamente uma coisa: seu amor. É isso mesmo que ela nos diz, em
uma carta à Senhora Guérin, em novembro de 1893:"Quando estou diante do
Tabernáculo, só sei dizer uma coisa a Nosso Senhor:'Meu Deus, vós sabeis que eu
vos amo"(33). Essa será também a última frase, que Santa Teresinha dirá
antes de morrer! Ela expressa tudo, porque expressa o amor! Alguns
fatos, simples, mas relevantes, mostram-nos como Santa Teresinha amava a
Eucaristia, durante sua vida de carmelita.
Sabemos, por exemplo, que, por duas vezes, Santa Teresinha exerceu, no
Carmelo, a função de sacristã. A propósito, Irmã Genoveva nos dá o seguinte
depoimento:"Seu amor pela Eucaristia levou-a a cumprir, com muito
fervor, o ofício de sacristã. Sua felicidade chegava ao auge,quando ficava
sobre a patena ou sobre o corporal uma partícula da hóstia consagrada. Um
dia, em que o cibório foi purificado insuficientemente, ela chamou várias
noviças para acompanhá-la ao oratório, onde ela o colocou com uma alegria e um
respeito indizíveis. Ela me falou de sua felicidade, quando, uma vez, tendo a
hóstia consagrada caído das mãos do padre, ela a recebeu estendendo seu
escapulário:dizia-me que tivera o mesmo privilégio que a Santíssima Virgem,
pois carregara o Menino Jesus nos braços. Ao preparar os vasos sagrados para
a santa missa, ela gostava, dizia, de se mirar no cálice e na patena:
parecia-lhe que,tendo o ouro refletido sua imagem, era sobre ela que
repousariam as divinas espécies"(34). Madre Inês
conta os mesmos fatos com mais pormenores, mas vamos acrescentar aos já
mencionados apenas um do depoimento dessa madre, sua irmã:"Durante sua
última doença, mostraram-lhe um cálice de um jovem padre, que acabava de
dizer sua primeira missa, ela olhou o interior do vaso sagrado e nos disse:
'Gostava de me refletir assim nos cálices quando era sacristã. Pensava que,
em seguida, o sangue de Jesus cairia ali, onde minha imagem fora reproduzida
e purificaria minha alma'"(35). A
propósito de seu ofício de sacristã, é bom lembrar que ela compôs uma poesia, simples e bonita, em novembro de
1896, na qual ela expressou alguns dos seus sentimentos e pensamentos sobre a divina Eucaristia:
"Aqui na terra nosso doce ofício É
preparar para o altar O
pão, o vinho do Sacrifício
Que oferece à terra: O Céu!
Não existem rainhas sobre a terra
Que sejam mais felizes do que nós.
Nosso ofício é uma prece
Que nos une a nosso Esposo
As maiores honras deste mundo
Não podem se comparar À
paz celeste e profunda
Que Jesus nos faz saborear.
Mas, seu amor nos escolheu
Ele é nosso Esposo, nosso Amigo
Somos também como hóstias
Que Jesus quer nEle transformar.
Missão divina do Padre,
Tu te tornas nossa, nesta terra
Transformadas pelo divino Mestre É
Ele quem dirige nossos passos.
Nós devemos ajudar os apóstolos
Por nossas preces, nosso amor
Seus campos de combates são os nossos
Por eles nós lutamos cada dia.
Nossa alegria e nossa glória É
trabalhar por Jesus.
Seu belo céu eis o cibório
Que queremos encher de eleitos!"(36) Aqui,
nesses versos, aparecem as mesmas idéias de Teresa, quando estava diante do
tabernáculo: o Deus escondido, símbolo da humildade, do sofrimento e do amor;
a lembrança dos irmãos que precisam ser reunidos pelo amor de Deus; o cibório
espiritual, que é nossa alma ou o céu! Portanto, a Eucaristia é considerada
sob três prismas: em si, em relação à própria pessoa e em relação aos outros.
Há, pois, todo uma extensão de pensamento sobre a Eucaristia, que se torna
vida da pessoa e da comunidade, mesmo dos que não crêem ainda. Todos
sabem que Santa Teresinha sofreu muito, porque, no seu tempo, a comunhão não
era freqüente. Quando ela fez sua primeira comunhão, ficou ansiosa para
continuar a comungar e bem feliz, quando conseguiu do seu confessor a licença
para comungar mais vezes do que esperava:"...só Jesus podia me
contentar, suspirava pelo momento em que pudesse recebê-lo pela segunda vez.
Cerca de um mês após minha minha
comunhão, fui me confessar para a festa da Ascensão e ousei pedir a permissão
para fazer a Santa Comunhão. Contra toda a esperança, o Padre mo permitiu e
tive a felicidade de ir me ajoelhar à Mesa Santa entre Papai e Maria; que
doce lembrança guardei dessa segunda visita de Jesus! Minhas lágrimas
caíram ainda com uma inefável doçura,
eu repetia, sem cessar, para mim mesma, estas palavras de S.Paulo: 'Não sou
eu quem vive, é Jesus quem vive em mim!'. Depois dessa comunhão, meu desejo de
receber o bom Deus tornou-se cada vez maior, obtive a permissão de fazê-lo em
todas as principais festas. Na
véspera desses dias, Maria me tomava no seu colo e me preparava, como o
fizera para minha primeira comunhão"(37). No Carmelo
esse desejo de receber Jesus Eucaristia aumentou muito mais ainda. Teresa
sentia, profundamente, o fato de não haver a comunhão cotidiana. No Carmelo
de Lisieux, o número de comunhões era regulado pelo Madre Maria de
Gonzaga,segundo seu bel prazer.
Teresa não gostava desse processo. Quando veio o Decreto da Sagrada
Congregação dos Bispos e Religiosos, aos 17 de dezembro de 1890(38), em que
era concedido aos confessores o poder
de permitir a comunhão aos religiosos quantas vezes achassem conveniente,sem
que os superiores tivessem nenhuma ingerência nesse assunto, Santa Teresinha
exultou e disse:"Não, não é a Madre Priora quem deve regular as comunhões; sempre me admirei
disso"(39).Infelizmente, no Carmelo se seguiram bem as normas emanadas pela Santa Sé a esse
respeito. Todavia, Teresinha sempre foi a favor da comunhão freqüente.Na
célebre carta a Maria Guérin sobre a comunhão, ela recomendava,com muita
ousadia para seu tempo:"Irmãzinha querida, comungue muitas vezes,
muitíssimas vezes...Eis o único remédio, se você quere se curar. Jesus não
colocou por nada essa atração na sua
alma"(40). Santa
Teresinha, antes de morrer, prometeu à Madre Maria de Gonzaga que, no céu,
haveria de trabalhar para que a regulamentação sobre a recepção da Eucaristia
fosse mudada. Foi o que, de fato, aconteceu. Quando o Papa, Pio X, tomou
conhecimento do ensinamento dessa Carta teresiana, disse:"Oportunismo!
oportunismo!"(41). Deus tem
os seus caminhos. Tanto amor e tantos desejos e, no entanto, nossa Santa, nas
últimas cinco semanas de sua vida, ficou privada de receber a Eucaristia!
Mesmo doente, quando ainda podia andar, fazia todo esforço possível para ir à
Capela para participar da Missa e da Comunhão. Depois, ficou à mercê da boa
vontade dos superiores. Depois, enfim, ficou privada de Jesus Hóstia, apesar
de todo seu imenso desejo de recebê-lo. Teresa sentiu o golpe e
lamentou:"Não me crêem tão doente quanto estou. É mais punível, então,
ser privada da Comunhão, do Ofício"(42).Mesmo sentindo a falta da
Eucaristia, ela se consola, porque, assim, não incomoda a ninguém. É muito
amor e muita caridade! Nos
Cadernos Verdes, Madre Inês anotou as angústias, que Teresinha sofreu, por
causa disso, sobretudo no dia 20 de agosto de 1897:"Ela teve puníveis
angústias nesse dia. Eis por que. A comunhão que ela desejava tanto
antigamente tornou-se um motivo de tormento
durante sua doença. Por causa dos vômitos, da opressão, da fraqueza,
ela temia acidentes e teria querido que nós lhe disséssemos para não
fazê-la. Não queria tomar, por si
mesma, essa responsabilidade, mas como não dizia nada, acreditamos ser-lhe
agradável insistindo para que ela comungasse. Ela continuava calada, mas,
nesse dia, não agüentando mais, ela se desfez em lágrimas. Não sabíamos a que
atribuir essa aflição e lhe pedimos que nos dissesse. Mas, a opressão, produzida
pelos soluços, era tão violenta que, não somente ela não pôde nos responder,
mas nos deu um sinal para que não lhe
dirigíssemos uma só palavra, nem mesmo a olhássemos.Ao cabo de várias horas,
ficando só com ela, ousei me aproximar e lhe disse que adivinhara, muito bem, o motivo de suas lágrimas.
Consolei-a como pude, ela parecia pronta a morrer de dor. Jamais a vira em
semelhantes angústias. Ela não comungou mais
até à sua morte. No dia 19 de agosto, dia de sua última comunhão e dia
de S.Jacinto, ela comungou pela conversão do infeliz Padre Jacinto.Essa
conversão a ocupara durante toda a sua vida"(43). Certo
dia,Madre Inês disse a Teresinha,quando estava muito doente, que ela poderia
morrer no dia seguinte, que era a festa de Nossa Senhora do Carmo, após a
comunhão. Isso era belo demais para Teresa. Ela adorava a Eucaristia e ainda
podia comungar, mas a Santa aproveitou da deixa e deu seu recado:"Oh!
isso não se acomodaria ao meu Pequeno Caminho. Sairia dele para morrer?
Morrer de amor após a comunhão é demasiado belo para mim; os pequeninos não
poderiam imitá-lo. Cuide somente que não me aconteçam acidentes amanhã, pela
manhã.São coisas desse tipo que podem me acontecer:impossível, então,
comungar e o bom Deus seria obrigado a voltar.Veja só!"(44). Nessa passagem bonita, Teresa mostra que,
embora deseje comungar sempre, não quer nada de extraordinário, pois seria
sair do Pequeno Caminho, que ela viveu e construiu para os pequeninos. Mas,
Teresa não queria ficar privada da Comunhão, como aconteceu logo depois. no
mês seguinte. Podemos imaginar o drama, que ela sofreu pela narração, que
apresentamos acima, feita pela Madre Inês. Todavia, a alma de Teresa estava
já em grau altíssimo de amor. Sua compreensão das coisas de Deus já era muito
profunda, tão profunda que, para ela, o importante era a vontade de Deus,
mesmo que morresse privada não só da Eucaristia, mas de outros sacramentos.
Vale a pena lembrar, aqui, o que ela disse a esse respeito à Madre Inês,
conforme já citamos, anteriormente, quando falamos de "Teresa,
Teóloga:"Se a senhora me encontrar
morta numa manhã, não tenha
pena: foi que Papai, o bom Deus, veio simplesmente me buscar. Sem dúvida, é
uma grande graça receber os sacramentos; mas quando o bom Deus não o permite, está bem da mesma maneira, tudo é
graça!"(45)
Eucaristia, resposta e exigência de amor! Amor para si, para Deus,
para os outros, foi assim que Teresa de Lisieux adorou diante do tabernáculo,
participou da Santa Missa e comungou enquanto pôde. Como não
poderia deixar se ,o Espírito Santo esteve profundamente presente na vida e
na mensagem teresianas. Ela teve uma devoção especial à Terceira Pessoa da
Santíssima Trindade. Basta ver como se preparou para receber o sacramento da
Confirmação: "Pouco tempo após
minha primeira comunhão, entrei, de novo,em retiro para minha Confirmação.
Preparara-me, com muito cuidado, para receber a visita do Espírito Santo, não compreendia que não se desse
uma grande atenção à recepção desse sacramento de Amor...Ah! como minha alma
estava alegre! Como os Apóstolos, esperava, com alegria, a visita do Espírito
Santo..."(46).É verdade que, Santa Teresinha não se refere muito ao
Espírito Santo nos seus escritos,mas todas as vezes que se dirige ao
"Espírito de amor", como ela dizia, o faz com muito amor e devoção. Com
relação à Trindade Santíssima, nossa Santa teve uma devoção especialíssima.
Nos grandes momentos de sua vida, ela sempre se dirige à Trindade, como que a
solenizar aquela ocasião ou aquele gesto. Tomemos, por exemplo, seu ato de
consagração ao Amor Misericordioso. Aí, ela começa se dirigindo a toda a
Trindade: "Ó meu Deus! Trindade bem-aventurada, eu desejo vos Amar e vos
fazer Amada... desejo cumprir, perfeitamente, vossa vontade e chegar ao grau
de glória, que preparastes para mim no vosso reino, em uma palavra, desejo
ser Santa, mas sinto minha impotência e vos peço, ó meu Deus, para ser vós
mesmo minha Santidade"(47). E foi na festa da Santíssima Trindade, 9 de
junho de 1895, que ela se consagrou ao Amor Misericordioso. No seu
brasão, desenhou um triângulo
luminoso do qual deu a seguinte explicação: "O triângulo luminoso
representa a Adorável Trindade, que não cessa de derramar seus dons
inestimáveis sobre a alma da pobre Teresinha..."(48). Teresa
também se refere,com amor, à presença da adorável Trindade no templo vivo de
nossa alma(49) e fala, com carinho, do seu vôo até "à fornalha
divina da Santíssima
Trindade..."(50). Em algumas
Cartas, Teresa se refere à Trindade Santa com muito amor(51) e para Irmã Marta de Jesus compôs a sua
belíssima oração "Homenagem à Santíssima Trindade: "Ó meu Deus,
eis-nos aqui prosternadas diante de vós. Vimos implorar a graça de trabalhar
para vossa glória. As blasfêmias dos pecadores ressoaram, dolorosamente, aos nossos ouvidos; para vos consolar
e reparar as injúrias que vos fazem
sofrer as almas resgatadas por vós, ó Trindade adorável, queremos formar um
concerto de todos os pequenos sacrifícios, que faremos por vosso amor.
Durante quinze dias, nós vos ofereceremos
o cântico dos passarinhos do céu, que não cessam de vos louvar e de
reprovar aos homens suas ingratidões. Nós vos oferecemos, também, ó meu
Deus, as melodias dos instrumentos de
música e esperamos que nossa alma
mereça ser uma lira harmoniosa, que
fareis vibrar para vos consolar
da indiferença de tantas almas, que não pensam em vós. Queremos, também, durante oito dias,
ajuntar diamantes e pedras preciosas,
que repararão o empenho dos pobres mortais, que perseguem as riquezas
passageiras sem cuidar das riquezas da eternidade. Ó meu Deus, dai-nos a
graça de ser mais vigilantes na procura dos sacrifícios do que as almas, que
não vos amam, o são na busca dos bens
da terra. Enfim, durante oito dias, o perfume das flores será recolhido por
vossas filhas, que querem, assim, reparar todas as indelicadezas, que vos
fazem sofrer as almas sacerdotais e religiosas. Ó Bem-aventurada Trindade,
concedei-nos ser fiéis e dai-nos a graça de vos possuir, após o exílio desta
vida. Assim seja!"(52). Contudo,
quase toda a direção devocional e mesmo a orientação da sua espiritualidade é
dirigida ao próprio Jesus. Teresa fala, muitas vezes, do Verbo Encarnado;
dirige-se ao Cristo, segunda Pessoa da Santíssima Trindade, mas a sua
concentração espiritual está em Jesus, não só o Jesus histórico, no qual ela
contempla sobretudo a infância e a paixão, mas também o Jesus Cristo,
salvador e redentor dos homens. Sua
Autobiografia é, em grande parte, uma oração
dirigida a Jesus, que ela chama, apaixonadamente, Bem-Amado. Basta
consultar o Manuscrito B, no qual ela diz: "Ao escrever, é a Jesus que
eu falo, assim me é mais fácil exprimir meus pensamentos... "(53). E
todo o Manuscrito B é um grito de amor por Jesus, por isso encontramos aí
frases como estas: "Ó Jesus! meu amor, minha vida..."; "Ó
Jesus,eu o sei, o amor só paga com amor, assim procurei, encontrei o meio de
aliviar meu coração em te dando Amor por Amor"; "Ó meu Jesus, eu te
amo"; "Jesus, Jesus, se é tão delicioso o desejo de te Amar, como não
o é o de possuir, de gozar do Amor?..."; "Ó Jesus, meu primeiro,
meu único Amigo, tu a quem amo unicamente..."; "Ó Verbo divino, és
tu a Águia adorada, que eu amo e que me atrai"; "Ó Jesus deixa-me
dizer, no excesso do meu reconhecimento, deixa-me dizer que teu amor vai até
à loucura...Como queres, diante dessa Loucura, que meu coração não se lance
para ti?". E para não ficar apenas no Manuscrito B, podemos lembrar uma
passagem das Cartas, quando ela escreveu: "...os diretores fazem avançar
na perfeição ao mandar fazer um grande número de atos de virtudes e eles têm
razão, mas meu diretor, que é Jesus, ensina-me a não contar meus atos; ele me
ensina a fazer tudo por amor, a não lhe recusar nada, a estar contente quando
ele me oferece uma ocasião para lhe provar que eu o amo..."(54). E, na
Caderneta Amarela, podemos ler estas palavras emocionantes: "Sim, eu o
vejo bem...É uma imagem do amor, que o bom Deus tem por mim. Eu só lhe dei
amor, então ele me retribui com amor, e não está terminado, ele dará mais em
breve..."(55). Seria,
realmente, impossível procurar citar todas as expressões e declarações de
amor, que Santa Teresinha escreveu e disse para seu Bem-Amado, Jesus. As suas
Cartas têm, a cada passo, uma expressão amorosa para com Jesus e um convite
aos seus leitores para amarem, loucamente, a esse mesmo Jesus, tão amado por
Teresinha. Em suma,
Santa Teresinha foi uma alma profundamente apaixonada por Jesus e pôs nesse
amor o centro, a atenção principal, o fim, o objetivo e a razão de sua vida,
de sua caminhada e de sua mensagem. Até aqui
temos falado do amor, que Teresinha teve por Deus e, concretamente, por
Jesus. Não dissemos, explicitamente, ainda, uma palavra sobre o significado e
a importância do amor na espiritualidade e na mensagem teresianas. Ora bem,
já dissemos muitas vezes e, agora, o repetimos, que, em Teresa de Lisieux,
vida e mensagem, são uma coisa só, confundem-se. O que Teresa vivia e como
vivia, ela ensinava, pregava e deixou como sua herança espiritual. Portanto,
ao dizer que Santa Teresinha amava loucamente a Deus, estamos dizendo, ao
mesmo tempo, que o amor é a base de sua mensagem espiritual, pois nossa Santa
só pregou e ensinou o que viveu. A sua mensagem é a sua vida, por isso,
quando estava prestes para morrer, pronunciou
estas palavras inspiradas que, enquanto unem vida e mensagem teresianas,
traçam a linha mestra da sua herança espiritual: "Sinto que vou entrar
no repouso... Mas sinto, sobretudo, que minha missão vai começar, minha
missão de fazer amar o bom Deus como eu o amo..."(56).Essas palavras nos
evocam outras, que a Santa escreveu aos 14 de julho de 1897, em uma carta
dirigida ao seu irmão espiritual, Padre Roulland: "O que me atrai para a
Pátria dos céus é o apelo do Senhor, é a esperança de amá-lo enfim como tenho desejado tanto e o
pensamento que poderei fazê-lo amado por uma multidão de almas, que o
bendirão eternamente"(57). Todavia,
para que não fique explícito que o amor é a base e o fim de toda a mensagem
teresiana, aprofundemos, diretamente,a doutrina da Santa nesse particular. Em uma
Carta a Maria Guérin, datada de julho de 1890, Santa Teresinha diz estas
palavras-chave: "Minha querida Mariazinha, para mim não conheço outro
meio para chegar à perfeição fora do amor...Amar, como nosso coração é bem
feito para isso!...Às vezes procuro outra palavra para exprimir o amor, mas
na terra do exílio as palavras são impotentes para dizerem todas as vibrações
da alma, assim é preciso se ater a esta palavra única: Amar!..."(58). O amor não
só é necessário em si, mas o é tanto quanto é ele que dá valor às nossas
obras, por isso, ensinava Teresa de Lisieux: "Você vê bem que a menor
obra, a mais escondida, feita por amor, tem, muitas vezes, mais valor do que
as grandes obras. Não é o valor nem
mesmo a santidade aparente das ações que contam, mas somente o amor que se
coloca nas obras..."(59).No seu Manuscrito, ela escreveu estas palavras
categóricas: "Compreendi que, sem o amor, todas as obras não são nada,
mesmo as mais brilhantes, como ressuscitar os mortos ou converter os povos..."(60).
No começo do Manuscrito B. nossa Santa, entusiasmada pela Ciência do Amor,
expõe um fruto da sua experiência sobre o amor: "A ciência do amor, ah!
sim,essa palavra ressoa, docemente, ao ouvido da minha alma, só desejo essa ciência. Por ela, tendo
dado todas as minhas riquezas, estimo como a esposa dos sagrados cantos, não
ter dado nada... Compreendo muito bem que só o amor pode nos tornar
agradáveis ao bom Deus..."(61). Com o
grande místico, S.João da Cruz, Teresinha se lembra que: "O menor
movimento de PURO AMOR lhe (à Igreja) é mais útil do que todas as obras reunidas"(62).E, em
uma carta à sua irmã Leônia, ela a incitava a não recusar o menor sacrifício
a Deus e acrescentava: "Apanhar do chão um alfinete, por amor, pode
converter uma alma. Que mistério!..."(63). E o
curioso, na doutrina teresiana, é que esse amor da criatura que, em si, não
vale nada, é o tudo que Deus quer de nós. Antes, muito mais ainda: é o tudo
que Deus reclama de nós. Na Autobiografia e nas Cartas, Santa Teresinha
insiste muito neste ponto: Deus pede, solicita, reclama, mendiga o nosso
amor! Parece incrível, mas é esse o pensamento de Teresa: Deus quase precisa,
na atual ordem da economia da salvação, do amor de suas criaturas! Assim ela
se expressa na Autobiografia: "Eis tudo o que Jesus reclama de nós, ele não tem mesmo necessidade de nossas
obras, mas somente de nosso amor, pois, esse mesmo Deus que declara não
ter,absolutamente, necessidade de nos dizer se tem fome, não temeu mendigar
um pouco de água à Samaritana. Ele tinha sede... Mas, ao dizer: 'dá-me de
beber', era o amor de sua pobre criatura, que o Criador do universo
reclamava. Ele tinha sede de amor...Ah! eu o sinto, mais que nunca, que Jesus
está sedento, ele só encontra ingratos e indiferentes entre os discípulos do
mundo e entre seus próprios discípulos. Ah! ele encontra poucos corações, que
se entregam a ele, sem reserva, que compreendem toda a ternura de seu Amor
infinito"(64). Mas, o
amor, pregado por Teresinha, não é sonho, não é ilusão, nem apenas poesia. Se
é somente o amor que dá valor às obras; se o menor ato de amor é muito útil à
Igreja toda, o verdadeiro e puro amor se prova com as obras. Com efeito,
nossa Santa acentuou essa verdade como o fruto de sua própria experiência,
por isso, só na sua Autobiografia, por duas vezes, ela transcreve o velho e
sempre certo axioma:"Amor só se paga com amor", como está escrito
no Brasão de Jesus e Teresa, que ela mesma pintou.(65). Com efeito, é próprio
do amor ser ativo, provar-se e ser provado, por isso, como diria a Santa,
"uma alma embrasada de amor não pode ficar inativa"(66). Daí é que
surge uma grande questão, a saber, como pagar esse amor englobante de Deus,
quando a criatura, por mais que queira, é sempre fraca e impotente? Teresa de
Lisieux encontrou uma resposta consoladora e maravilhosa, uma resposta que
satisfaz a todos, grandes e pequenos. Ouçamo-la: "Ó Jesus, eu o sei, o
amor só se paga com amor, por isso procurei, encontrei o meio de aliviar meu
coração retribuindo-te Amor por Amor. -'Fazei amigos com o Dinheiro da
iniqüidade, a fim de que, no dia em que faltar, eles vos recebam nos
tabernáculos eternos'. Eis aí, Senhor, o conselho que dás a teus discípulos
após lhes ter dito que "Os filhos deste séculos são mais prudentes com a
sua geração do que os filhos da luz'. Filha da luz, compreendi que meus
desejos de ser tudo, de abraçar todas as vocações, eram riquezas que poderiam
me tornar injusta, então me servi delas para fazer amigos... Lembrando-me da
prece de Eliseu a seu pai Elias, quando ousou pedir-lhe SEU DUPLO ESPÍRITO,
apresentei-me diante dos Anjos e dos Santos e lhes disse: 'Sou a menos das
criaturas, conheço minha miséria e minha fraqueza, mas sei também quanto os
corações nobres e generosos gostam de fazer o bem, suplico-vos,pois, ó
Bem-aventurados habitantes do céu, eu vos suplico que me ADOTEIS COMO FILHA,
será só vossa a glória, que me fareis conquistar, mas dignai-vos ouvir minha
oração, ela é temerária, eu o sei, contudo ouso vos pedir que me obtenhais
VOSSO DUPLO AMOR'. Jesus, não posso aprofundar meu pedido, temeria me
encontrar acabrunhada sob o peso de meus desejos audaciosos... Minha desculpa
é que sou uma criança, as crianças não refletem no significado de suas
palavras, contudo seus pais, quando estão no trono, quando possuem imensos tesouros,
não hesitam em contentar os desejos
dos pequenos seres, que eles amam
tanto quanto a si mesmos; para lhes dar prazer, fazem loucuras, vão até à
fraqueza... Pois bem! eu sou uma Filha da Igreja e a Igreja é Rainha, pois
ela é tua Esposa, ó Divino Rei dos Reis... Não são as riquezas e a Glória
(mesmo a Glória do Céu), que reclama o coração da criancinha... A glória, ela compreende que pertence, de
direito, a seus irmãos, os Anjos e os Santos... Sua glória será o reflexo que sairá da fronte de sua
Mãe. O que ela pede é o Amor... Ela só sabe uma coisa, amar-te, ó Jesus!...
São-lhe proibidas as obras brilhantes, ela não pode pregar o Evangelho,
derramar seu sangue... mas, que importa, seus irmãos trabalham no seu lugar e
ela, criancinha, fica bem junto do trono do Rei e da Rainha, ela ama pelos
seus irmãos que combatem... Mas, como testemunhará seu Amor, pois que o Amor
se prova pelas obras? Pois bem, a criancinha jogará flores, embalsamará com
seus perfumes o trono real, cantará, com sua voz Argentina, o cântico do
Amor...Sim, meu Bem-Amado, eis como se consumirá minha vida... Não tenho
outro meio de te provar meu amor senão jogando flores, isto é, não deixando
escapar nenhum sacrificiozinho, nenhum olhar, nenhuma palavra,aproveitando
todas as coisinhas e as fazendo por amor...Quero sofrer por amor e mesmo
gozar por amor..."(67). Aqui,
chegamos a um ponto fundamental da doutrina teresiana, isto é, o
reconhecimento da própria fraqueza,
da própria limitação, da própria impotência diante da grandeza, da beleza e
do poder do amor. Teresa ensina, então, que cada um dá aquilo que pode. No
caso particular dela, pela sua humildade, ela afirmou que, não podendo fazer
obras estupendas e maravilhosas como fizeram os grandes luminares da Igreja,
contentava-se em amar pelos outros e amar a Deus com toda a simplicidade e
limitação de suas forças. A expressão teresiana "jogar flores"
outra coisa não significa senão saber aproveitar daquilo que se é e, contente
consigo mesmo, sem nenhum desespero e ilusão; aproveitar os seus esforços,
por pequenos que possam parecer, e oferecê-los, com amor, ao seu Deus. Uma
semelhante tomada de posição é a maior prova de amor da criatura, que não se
revolta contra seu Deus por não ter mais alguma coisa, mas, contente com o
que é e com o que tem, faz tudo o que pode para amar o seu Amado. Nesse caso,
é o amor que dá sentido a tudo, isto é, às obras, aos esforços, às pequenas e
grandes coisas; em suma, à própria vida e à caminhada espiritual. Com
semelhante atitude de amor, vão-se embora o medo, o temor e até mesmo o
pecado, porque amando assim, não se receia a Deus e não se quer ofender a tão
grande e bom Amado: "Parece-me a mim que, se todas as criaturas tivessem
as mesmas graças que eu, o bom Deus não seria temido por ninguém, mas amado
até à loucura e que, por seu amor, e não por temor, jamais alguma alma consentiria em ofendê-lo..."(68).
E,aqui, Teresa entra na questão da força purificadora do amor, durante a
nossa existência. Entram em jogo o pecado,a confiança e o amor para se chegar
à conclusão de que o Amor de Deus e o do homem, quando se encontram,
purificam o homem elevando-o até Deus: "Quando se joga suas faltas, com
uma confiança toda filial, na fornalha devoradora do Amor, como não seriam
elas consumidas sem retorno?"(69). Teresa de
Lisieux insiste nessa perspectiva, nessa ótica, nesse prisma do amor para
tudo. Por ele, deve-se ver tudo e todos e até o próprio Deus. Assim, todos
seus atributos devem ser encarados sob a visão do amor, até mesmo a sua
justiça que, por tantos, é vista apenas como a atitude julgadora de Deus:
"A mim, Ele(Deus) deu sua Misericórdia infinita e é através dela que
contemplo e adoro as outras perfeições divinas!... Então, todas me aparecem
brilhando de amor, mesmo a Justiça (e talvez mais do que todas as outras) me
parece revestida de amor...Que doçura pensar que, o bom Deus é Justo, isto é,
que leva em conta nossas fraquezas, que Ele conhece perfeitamente a
fragilidade de nossa natureza. De quê, pois, teria eu medo? Ah! o Deus
infinitamente justo, que se dignou perdoar com tanta bondade todas as faltas
do filho pródigo, não deve ser Justo também para comigo, que "estou
sempre com Ele"?..."(70). Na
verdade, o fogo do amor é transformador. Tudo que é tocado pelo amor, fica
com sua força, com seu ardor, com seu entusiasmo, com sua coloração. Ademais,
o fogo do amor é purificador. Ele limpa tudo, consome tudo, devora tudo,
sublima tudo. Assim, como dissemos acima, o fogo do amor é mais purificador
do que o próprio purgatório("mas, eu sei também que o Fogo do Amor é
mais santificante do que o do purgatório"(71)), por isso, quem ama de
verdade já se purifica totalmente aqui nesta terra. Depois da morte, nada tem
a temer,pois só lhe resta receber o prêmio da justiça, como diz
S.Paulo:"Desde já me está reservada a coroa da justiça, que me dará o
Senhor, justo juiz, naquele Dia; e não somente a mim, mas a todos os que
tiverem esperado com amor a sua Aparição"(72). Diante
dessa visão, é que Teresa de Lisieux, exclamava, feliz: "Oh! como é doce
o caminho do Amor!..."(73). Isso, porém, não nos deve enganar, pois o
amor é provado no sofrimento e na dor. Teresinha, de uma maneira, até certo
ponto contundente, insistiu muitíssimo sobre a importância e o papel do
sofrimento, não só como prova do amor, mas como caminho do amor. Esse tema,
vamos aprofundá-lo mais adiante, quando comentarmos, especialmente, o papel e
o sentido do sofrimento na vida e na espiritualidade teresianas. Todavia,
diga-se logo que, o sofrimento, pela via teresiana do amor, não é encarado como
masoquismo, ou estoicismo, nem muito menos com revolta e desilusão. Nada
disso. O sofrimento é sublimado, transformado e elevado pela força
purificadora e santificadora do amor. Assim, nada deve espantar o amante
verdadeiro. Ninguém pode desesperar diante da montanha do amor:"Ah! se
todas as almas fracas e imperfeitas sentissem o que sente a menor de todas as
almas, a alma de sua Teresinha, nem uma só desesperaria de chegar ao cume da
montanha do amor"(74). Eis por que, Teresa de Lisieux deseja ser ela a
vítima feliz, que se oferece em holocausto
ao Amor Misericordioso de Deus:"Este ano, aos 9 de junho, festa
da Santíssima Trindade, recebi a graça de compreender, mais do que nunca,
quanto Jesus deseja ser amado. Pensava nas almas, que se oferecem como vítimas
à Justiça de Deus, a fim de desviar e atrair sobre si os castigos reservados
aos culpados, esse oferecimento me parecia
grande e generoso, mas estava longe de me sentir levada a fazê-lo.. 'Ó
meu Deus! exclamei no fundo do meu coração, só a vossa Justiça receberá almas
se imolando como vítimas?... Vosso Amor Misericordioso não tem necessidade
delas também?... Em toda parte, ele é desconhecido, rejeitado; os corações
aos quais vós desejais prodigalizá-lo voltam-se para as criaturas
pedindo-lhes a felicidade com suas miseráveis afeições, ao invés de se
jogarem nos vossos braços e de
aceitarem vosso Amor infinito... Ó
meu Deus! vosso Amor desprezado vai
ficar no vosso Coração? A mim me parece que se encontrásseis almas, que se oferecessem como vítimas a vosso
Amor, consumi-las-íeis rapidamente; a mim me parece que seríeis feliz por não comprimir as ondas de
infinita ternura, que estão em vós... Se vossa Justiça gosta de se
descarregar, ela que só se estende
sobre a terra, quanto mais não deseja vosso Amor Misericordioso abrasar as
almas, pois que vossa Misericórdia se
eleva até os céus... Ó meu Jesus! que seja eu essa feliz vítima, consumi
vosso holocausto no fogo de vosso
Divino Amor!..."(75). Diante do
espetáculo maravilhoso da força do amor misericordioso de Deus frente à
pequenez e à fraqueza do homem que, apesar de tudo, quer retribuir com amor a
esse Amor de misericórdia, Teresa, seguindo as linhas mestras da sua mensagem
espiritual, suplica, ardentemente, a Deus que não escolha apenas a ela, mas a uma legião de pequeninos, para
serem, malgrado e mesmo por causa da sua pequenez, "pequenas vítimas
dignas" do amor divino(76). Ser
consagrado, como vítima, ao Amor Misericordioso significa deixar-se consumir,
livre e totalmente, pelo Amor infinito de Deus; significa não querer outra
coisa senão a vontade de Deus; significa jogar-se completamente nos braços do
Deus que é Pai e do pai que é Deus; significa não ver, pensar, não querer,
não falar senão só Deus em tudo e em todos; significa não desanimar apesar de
todas as quedas e fraquezas, porque o fogo do amor é devorador e purificante;
significa viver, como Teresinha, quando dizia: "Não conto mais senão com
o amor"(77); significa, pois, viver "na lei do amor"(78);
significa pegar a Deus "pelo coração", porque "Ele se contenta
com um olhar, com um suspiro de amor...", já que "as menores ações
feitas por amor são as que encantam seu coração..."(79); significa não
ter medo de Deus, porque "como temer aquele que se deixa aprisionar por
um cabelo, que voa no nosso pescoço?"(80); significa aproveitar de tudo
para entreter o fogo do amor,pois, como disse Teresa: "A madeira não se
acha à nossa mão, quando estamos nas trevas, na secura, mas, pelo menos, não estamos obrigados a jogar nele pequenas palhas? Jesus é poderoso bastante para entreter sozinho o fogo, contudo ele fica contente ao ver-nos pôr nele um pouco de alimento, é uma
delicadeza, que lhe agrada e, então, ele joga no fogo muita lenha, nós não o
vemos, mas sentimos a força do calor do amor. Já fiz a experiência disso,
quando não sinto nada, quando sou incapaz de rezar, de praticar a virtude, é
então o momento de procurar pequenas
ocasiões, nadas que dão prazer, mais prazer a Jesus do que o império do mundo
ou mesmo do que o martírio sofrido
generosamente. Por exemplo, um sorriso, uma palavra amável quando teria
vontade de não dizer nada, de ter a cara bem fechada, etc."(81);
significa não desejar outra coisa a não ser o amor, como Santa Teresinha que
escreveu: "Não desejo mais nem o
sofrimento, nem a morte, e contudo amo a todo os dois, mas é o amor somente
que me atrai..."(82); significa não desanimar, não voltar atrás, apesar
de todos os obstáculos e malgrado todas as quedas, pois o amor sabe tirar
proveito de tudo:"Sem dúvida, pode-se muito bem cair, pode-se
cometer infidelidades, mas, sabendo o
amor tirar proveito de tudo, bem depressa consume tudo quanto pode desagradar
a Jesus, não deixando senão uma humilde
e profunda paz no fundo do coração..."(83). E não é
preciso ser consagrado, como vítima, ao Amor Misericordioso para responder a
tudo isso que acabamos de expor. Não. Basta amar o Amor Misericordioso.
Portanto, amar o Amor e deixar-se amar por ele significa tudo aquilo que
dissemos e muito mais, porque o amor tem seus mistérios e suas profundidades,
que a própria razão desconhece. Quem ama de verdade a Deus entra numa espécie
de esfera superior de conhecimento, da qual nos fala muito bem o filósofo
Jacques Maritain, como se tratasse de uma ordem quase sobrenatural de conhecimento
dentro da ordem natural do conhecer. É algo sensacional, que os místicos, os
santos têm dificuldades de expressar e, por isso, costumam dizer que, não
podem nem sabem expressar o que, na verdade, eles sentem no seu mundo
interior do amor. Na medida
do possível, aprofundemos um pouco mais o campo do amor na doutrina e na
mensagem de Teresa de Lisieux. Investiguemos mais pormenorizadamente o que de
fato venha a ser esse amor apaixonado a Deus e como ele, de fato, se
concretiza na nossa vida do dia a dia. Em
primeiro lugar, não devemos confundir esse amor com um simples sentimento
humano. Não. Não se trata, aqui, de sensações, de experiências, ou de
sentimentos, bons que sejam, e que se possa sentir ou ter em algum momento ou
em alguns dias. Se a isso fosse reduzido, o amor teresiano seria realmente
uma total frustração. Trata-se, na verdade, de algo muito mais profundo. Pode
ser,algumas vezes, até sentido, mas, ele não é obrigatoriamente sensível.
Antes, ser sentido e sensível pode ser até perigoso, porque pode acostumar
mal às pessoas.Por isso, Santa Teresinha
escreveu à Madre Inês, aos 3 de setembro de 1890:" A mim me
parece que o amor pode suprir uma longa vida... Jesus não olha para o tempo,
já que ele não existe mais no céu, Ele só olha para o amor. Pedi-lhe que mo
dê muito também a mim, não peço o amor sensível, mas somente sentido por
Jesus. Oh! amá-Lo e fazê-lo amado, como é doce!..."(84). Portanto, amar
a Deus não significa sentir vibrações, sentir sensações maravilhosas. Isso
pode acontecer, mas não é a linha normal. Amar a Deus é coisa muito mais
profunda, como veremos no transcorrer do nosso discurso. Outra
característica do amor teresiano a Deus é que ele é voltado para a
misericórdia divina. Com efeito, nossa Santa descobriu uma coisa muito
simples, isto é, que nós somos pobres miseráveis e que, apesar disso, Deus se
volta para nós com todo seu amor. Ora, misericórdia, etimologicamente,
significa exatamente isso, ter um coração voltado para a miséria. Quando o
amor de Deus se volta para nós, ele se dirige a miseráveis, a pessoas que
vivem na miséria, portanto, o amor de Deus para com as criaturas é, por
essência, um Amor Misericordioso. E,aqui, estão a grandeza e a beleza do amor
divino. Na verdade, Deus não precisa de nós, na sua infinita e estupidamente
eterna pericoresis, Ele vive o amor total e absoluto, pois conhecendo a Si
gera o Filho e o amor a esse Filho, numa verdadeira roda eterna e
infinitamente abrasadora de amor, torna-se uma realidade também divina, que é
o Espírito Santo, de tal maneira que, a essência da unidade está justamente
na Trindade pelo amor. Contudo, Deus se volta ed extra, para fora, numa
espécie de extravasamento do infinito. Assim, surge o amor de Deus pelos
homens desde a criação. Nada nem ninguém merecia nem sequer ser criado.
Todavia, o amor criou e apesar de todas as ingratidões, o amor continuou. Se
o homem já não era muita coisa antes do pecado, tornou-se menor com o pecado.
Mesmo assim, o amor de Deus tornou-se, de certa maneira, maior e mais bonito,
porque ainda quis o homem. Como a miséria era maior, o Amor de Deus tornou-se
mais belo e mais admirável, por ser mais misericordioso. Teologicamente,pois,
Teresa de Lisieux tem toda a razão, o amor de Deus pelas criaturas é,
essencialmente, um amor misericordioso.Somos, com efeito, fruto das
misericórdias divinas. O grande
Santo Tomás de Aquino já, no seu tempo, inferira toda essa doutrina, quando,
na Suma de Teologia, pergunta se a misericórdia é a maior(máxima) das
virtudes. E, na sua resposta, disse o Doutor Angélico: "Uma virtude pode
ser a maior(máxima) de duas maneiras; primeiramente, por ela mesma; em
segundo lugar, por comparação com aquele que a possui. Na verdade, por ela
mesma, a misericórdia é a maior(máxima), pois lhe pertence o se dar aos outros;
e, o que é mais, atender às necessidades dos outros e isso é maximamente do
superior.Daí é que ter misericórdia é próprio de Deus e é assim que se
manifesta maximamente sua
onipotência"(85). No início
da sua Autobiografia, Teresinha escreve, de uma maneira: "...não vou
fazer senão um só coisa: Começar a cantar o que devo repetir eternamente-'As
Misericórdias do Senhor!!!'..."(86). Sua vida e sua mensagem serão todas
as duas voltadas para esse amor de misericórdia de Deus para com ela e,
conseqüentemente, voltadas para o amor de reconhecimento e gratidão às
misericórdias desse divino amor misericordioso.Por isso, faltando dois anos e
poucos meses para morrer, ela se entregou totalmente, como vítima de
holocausto, a esse Amor Misericordioso, o que aconteceu precisamente no dia 9
de junho de 1895, na festa da Santíssima Trindade: "A fim de viver em um
ato de perfeito Amor, EU ME OFEREÇO COMO VÍTIMA DE HOLOCAUSTO A VOSSO AMOR
MISERICORDIOSO, suplicando-vos que me consumais sem cessar, deixando transbordar
em minha alma as ondas de ternura infinita, que estão represadas em vós e
que, assim, eu me torne Mártir de vosso Amor, ó meu Deus!..."(87). Toda a
vida de Santa Teresinha foi não só uma demonstração do amor misericordioso de
Deus, como a própria Santa o atesta(88), como também foi uma resposta
maravilhosa de uma criatura humana à força transformante desse amor, que
chegou ao auge precisamente na sua consagração como vítima de holocausto ao
amor misericordioso. Santa
Teresinha lamentava ao seu irmão espiritual, Padre Bellière, que esse amor
misericordioso fosse pouco conhecido:"Ah! meu irmão, como a bondade, o
amor misericordioso de Jesus são
pouco conhecidos!..."(89) e a esse mesmo Padre ela pediu que
rezasse,todos os dias, uma pequena oração, composta por ela mesma, e que
continha todos os seus desejos e que dizia assim: "Pai misericordioso,
em nome de nosso Doce Jesus, da Virgem Maria e dos Santos, eu vos peço para abrasar minha irmã com vosso Espírito
de Amor e para lhe conceder a graça
de vos fazer muito amado"(90). Amor
misericordioso, em suma, é a essência do amor de Deus para com as criaturas,
que deve lhe responder cantando sempre as misericórdias divinas, porque, como
diria belamente Teresa, "Não posso temer um Deus que se fez por mim tão
pequeno...eu o amo!...pois Ele só é amor e misericórdia!"(91). Teresa nos
ensina que nosso amor para com Deus não deve ser, essencialmente, sensível;
ensina-nos também que deve ser dirigido na linha da misericórdia, isto é,
deve ser uma resposta e um canto ao Amor Misericordioso de Deus. Mas,
ensina-nos também que,ele deve ser desinteressado. Há muitas
razões teológicas e espirituais para sustentar e defender esse posicionamento
teresiano. Mas, queremos salientar aqui a razão real do amor de Deus para
conosco. Na sua pericoresis divina, Deus tem tudo em modo eterno, absoluto e
infinito. Portanto,o amor de Deus para com suas criaturas é uma ação ad
extra, fruto da própria pericoresis, quase como se imaginássemos, a título de
comparação mal feita, uma extravasamento da roda do fogo abrasador -fornalha
ardente - da vida íntima trinitária. As criaturas são fruto dessa ação íntima
da vida privada da Trindade. Somos,pois, fruto, de um amor desinteressado.
Por outro lado, quando fomos redimidos, o mistério de Deus se transformou,
para sempre, no mistério de Cristo. Novamente, a iniciativa foi divina e
tudo, simplesmente, porque o amor divino transbordou mais uma vez,e só se
explicando pela infinitude da mesma pericoresis divina, já que sem se
entender o amor eterno e infinito da vida trinitária não se pode entender nem
a criação, nem muito menos a encarnação. S.João faz questão de lembrar que,no
segundo ato dessa manifestação do amor misericordioso, foi Deus quem amou por
primeiro(92). Teresa
entendeu essa característica do amor divino e dela se revestiu para amar, do
mesmo modo, o seu Deus. Os
estudiosos, com Santo Tomás de Aquino, falam de um amor de concupiscência,
que, de fato, nem merece o nome de amor, pois é aquela paixão, que sai do
homem através dos seus instintos e meros sentimentos. Na verdade, temos aí um
interesse pelo outro, que outra coisa não é senão paixão, egoísmo, ou procura
de alguma satisfação. Falam também de um amor em grau elevado, em que o homem amaria, querendo o bem do outro, mas
não deixando de lado certa dose de interesse. Parece que estamos aqui no caso
geral do amor humano. Com efeito, dificilmente, o amor humano é totalmente
desprovido de interesse. Há sempre um motivo, uma razão,que nos dá uma
resposta de alegria, de satisfação compensadora pelo amor que dispensamos a
alguém. No caso dos pais, isso é bem patente. Os pais amam seu filhinho, mas
se deliciam com seus afetos, com seus beijinhos, com suas carícias, e com o
próprio fato de terem um bonequinho de carne e osso, que é uma alegria mesmo
com as suas travessuras. Há aí um amor que quer realmente o bem do outro, mas
está misturado com certa dosagem de egoísmo, de alegria pessoal. Finalmente,
fala-se outrossim de um amor totalmente puro e sublime, que seria o chamado
amor de benevolência. Esse amor seria o querer o bem do amor sem nenhum
sentimento ou desejo de troca, de recompensa, de resposta. Certamente, tal
amor só existe puro e limpo em Deus. Nos homens ele deve ser sempre o ideal e
buscá-lo e prová-lo deve ser a intenção de todos os amantes. No caso de
Teresinha, ela pensa justamente nesse terceiro tipo de amor, que seria o de
benevolência. O homem deve, pois, amar a Deus, querendo unicamente a vontade
dEle, o prazer de Deus e, não, a sua vontade humana. Amor desinteressado,
pois, para Teresinha, significa não pensar em si, mas só pensar em dar prazer
a Deus; significa, portanto,como conseqüência, aceitar tudo o que Deus quiser
ou permitir para nós; significa, ainda, continuar firme no amor apesar de
todas as provações e obstáculos, que possam aparecer; significa, outrossim,
querer de tal modo amar a Deus, que se procura todos os meios, todos os
lugares, todas as possibilidades imaginárias para realizar esse amor, não
querendo, de jeito nenhum, que Deus não seja amado,mas fazendo todo o
possível, para que Ele seja amado, adorado em todos os cantos do mundo e por
todos os homens. Lê-se, no
Processo Apostólico, as seguintes observações da Irmã Maria do Sagrado
Coração, a esse respeito: "Seu amor por Deus era puro e desinteressado.
Ela me disse pouco tempo antes de sua morte:'Se o bom Deus me dissesse: 'Se
você morrer imediatamente, terá uma grande glória; se morrer aos 80 anos, sua
glória será bem menor, mas isso me dará muito mais prazer', então, eu não
hesitaria em lhe responder: 'Meu Deus, quero morrer aos 80 anos, porque não
procuro minha glória, mas somente vosso prazer'...Eu seria feliz em suportar
os maiores sofrimentos, sem que Deus
o soubesse, se isso fosse possível'...Ela escreveu alguns meses antes
de sua morte:'Quero mesmo ficar
doente durante toda a minha vida, se isso der prazer ao bom Deus e consinto
até que minha vida seja muito longa. A única graça que desejo, é que ela seja
desmantelada pelo amor"(93). Aqui, temos, na prática da vida de Teresa,
o que ela queria para a essência da sua mensagem de amor. Nos
últimos tempos de sua vida, Santa Teresinha sofreu, terrivelmente, a provação
da fé, aquela provação de que nos fala S.João da Cruz, pela qual, o homem é purificado
de todo e qualquer sentimentalismo na fé. Foi duro para Teresinha suportar
essa provação da noite escura joanina. Todavia, ela escreveu na sua
Autobiografia: "Mas, Senhor, vossa filha compreendeu vossa divina luz,
ela vos pede perdão pelos seus irmãos, ela aceita comer, tanto tempo quanto
quiserdes, o pão da dor e não quer mesmo se levantar dessa mesa cheia de
amargura, na qual comem os pobres pecadores, antes do dia que vós
marcantes...Ó Jesus, se é necessário que a mesa, manchada por eles, seja purificada
por uma alma que vos ame, quero mesmo comer nela, sozinha, o pão da provação
até quando vos aprouver me introduzir no vosso luminoso reino. A única graça,
que vos peço, é a de jamais vos ofender!..."(94). Portanto,
amor desinteressado quer dizer amor no qual o amante se esquece de si mesmo e
só quer a felicidade, a alegria, o prazer do amado.Foi assim que Teresinha
viveu e amou e foi assim que ela ensinou que devia ser o nosso amor para com
Deus.Amor desinteressado significa, outrossim, estar contente com tudo que
Deus nos dá ou permite. A esse propósito, nossa Santa disse no dia 14 de
julho do ano de sua morte: "Sempre o que o bom Deus me deu, agradou-me,
a ponto que se me tivesse dado escolher, era exatamente aquilo que teria
escolhido,mesmo as coisas que me parecessem menos boas e menos belas do que
aquelas que os outros tivessem"(95) Aí está a
vida de Teresinha, que é também sua mensagem. Amor, que é amor de
verdade, só quer o bem do amado. Não
é que o amante perca a sua personalidade, pois isso seria um desastre
psicológico e um desrespeito a si mesmo e Deus mandou amar os outros como a
si mesmo. Também, amar de verdade não é simplesmente gostar de alguém, porque
gostar se gosta de coisas, como de uma fruta, já que dela se pode saborear o
gosto. Amar de verdade significa fazer do eu com o tu um grande nós. Assim,
amar de verdade são duas vidas, que se fundem, sem se misturarem a ponto de
cada uma se desfazer na outra. Não. O amor quer o bem do outro, o bem
substantivo. Amar não é, pois, simplesmente, querer bem(bem, advérbio),
porque isso pode significar simplesmente que o outro nos agrada e, nesse
caso, temos um abuso do outro, que será aproveitado, enquanto nos der gosto,
o que, convenhamos, é um desastre. Amar assim é amor de animais; é gostar de
certas frutas. Como pessoas humanas, ou existe amor de verdade, ou existem
aproveitamento, egoísmo, paixões inúteis, ou, o que seria pior, um perder-se
de personalidade no mar desconhecido do outro, o que, no fundo, seria uma
entrega de si, desordenada. Teresinha
entendeu tudo isso, por isso, seu amor foi desinteressado,o que significa, no final das contas, que
ela só queria a vontade do seu Deus bem-amado, que, a mais das vezes, ele
personifica e concretiza em Jesus. A propósito, conta-nos Madre Inês que,
certo dia, durante as Matinas, disse a Teresinha: "Você teve, hoje,
muitas contrariedades". Ao que, a Santa respondeu: "Sim, contudo,
eu as amo...Amo tudo o que o bom Deus me dá"(96). Uma tal atitude no
amar já não tem mais escolha, porque só quer o que o Amado deseja. Nesse caso
específico, não há perigo de se perder a personalidade, porque o Amado é
Deus, que merece tudo de nós e que retribui, de uma maneira incomensurável,
tudo quanto nós lhe possamos dar em troca pelo tudo que Ele nos deu. Foi, por
isso, que, pertinho da sua morte, Teresinha, interrogada se preferia morrer a
viver, respondeu prontamente: "Não prefiro uma coisa a outra, não
poderia dizer como Nossa Madre Santa
Teresa: 'Morro, porque não morro". O que o bom Deus prefere e escolhe
para mim, eis aí o que me agrada mais"(97). Outro dia, sendo novamente
interrogada se ficaria contente, se lhe fosse anunciado que morreria logo ou
se ela preferia esse anúncio a saber que sofreria ainda muito, ela respondeu,
imediatamente: "Oh! não, não ficaria, absolutamente, mais contente. O
que me contenta, unicamente, é fazer a vontade do bom Deus"(98). Fazer,
pois, unicamente a vontade de Deus, eis, em síntese, o sentido do amor
desinteressado de Teresa de Lisieux. Suas Cartas, suas Poesias, suas Orações
quase não pedem outra coisa. Em seus escritos, é constante o apelo a fazer
unicamente a vontade de Deus, porque ela falava do que estava cheio seu
coração: "Meu coração está cheio da vontade do bom Deus, por isso,
quando se derrama alguma coisa por cima, isso não penetra no
interior"(99). Na oração
enviada ao Pe. Bellière, para que a rezasse todos os dias, por Teresa,
pede-se que ela possa fazer que Deus seja muito amado. Segundo ela mesma,essa
oração englobava todos os seus desejos. Pois bem, a Santa
acrescenta, na carta do pedido, que esse era seu grande desejo, mesmo no céu:"Amar Jesus e o fazê-lo amado". Em seguida,
ela explica que o seu amor está ligado à vontade de Deus,pois, na verdade, a
única coisa que ela deseja "é a vontade de Deus"(100). Por isso, a
cada instante, na sua narração da sua vida, nós encontramos declarações
explicitas e categóricas de que ela só queria fazer a vontade de Deus,e, não,
a sua. No que
concerne, mais explicitamente, à sua mensagem, ela declara, logo no início de sua Autobiografia, que "A
perfeição consiste em fazer sua vontade, em ser o que Ele quer que nós
sejamos..."(101). Com tão taxativa
declaração sobre a santidade, fica definido que, na mensagem
teresiana, o verdadeiro amor é aquele que é desinteressado, ou seja, que
procura unicamente a vontade do Amado, que é Deus, pois, sem ela,nada. Em uma
carta ao Padre Roulland, Teresa, concordando com o Padre que a vontade de
Deus deve ser feita, acrescenta, em forma de mensagem: "É somente aí que
se encontra o repouso, fora dessa amável vontade não faríamos nada, nem por
Jesus, nem pelas almas"(102). Mas, o amor, segundo a doutrina
teresiana, não pode ser desinteressado, se não for generoso no sentido mais
largo da palavra, isto é, completo, total. Quando
nossa Santa era criança, foi-lhe dado escolher alguma coisa para brincar, que estava em uma cesta cheia de
vestidos e de belos retalhos e por
cima de tudo havia uma boneca, feliz destinatária de tanta roupa. Foi Leônia
quem apresentou a ela e a Celina a bonita e rica cesta, dizendo-lhe que dava
tudo a elas e que elas podiam escolher o que quisessem. Teresa nos conta o final da história: "Celina estendeu
a mão e pegou um pequeno pacote de cordões, que lhe agradava. Após um momento
de reflexão, estendi a mão, por minha vez, dizendo" -'Eu escolho tudo!'
e peguei a cesta sem mais cerimônia"(103). Essa é Teresinha; mais tarde,
Teresa de Lisieux será a mesma. Ela escolherá sempre tudo: "Essa pequena
passagem de minha infância é o resumo de toda minha vida; mais tarde, quando
a perfeição me apareceu, compreendi que, para me tornar uma santa, era necessário sofrer muito, procurar
sempre o mais perfeito e se esquecer de si mesmo; compreendi que havia muitos
degraus na perfeição e que cada alma era livre para responder aos avanços de
Nosso Senhor, para fazer pouco ou muito por Ele, em uma palavra, para
escolher entre os sacrifícios, que Ele pede. Então, como nos dias de minha
primeira infância, exclamei: 'Meu Deus, "escolho tudo". Não quero
ser uma santa pela metade, não tenho medo de sofrer por vós, só temo uma
coisa é guardar minha vontade, tomai-a, pois"Eu escolho tudo" o que
vós quereis!...'"(104). Em uma
belíssima carta a Celina, datada de 23 de julho de 1888, Teresa, recém
entrada no Carmelo, escrevia: "Jesus pede TUDO a seus dois lírios, ele
não quer lhes deixar nada senão seus brancos vestidos, TUDO...Jesus te pede
TUDO, TUDO, TUDO, tanto quanto ele pode pedir aos grandes Santos"(105). Vejam que
Teresa insiste no TUDO, escrevendo-o várias vezes e com letras maiúsculas. A
Santa, de fato, não quer abrir nenhuma exceção. As exigências do amor divino
são totais. Dois exemplos podem nos esclarecer até onde vão essas exigências
do amor teresiano. Escrevendo
em outubro de 1893, à sua irmã, Celina, nossa Santa volta a esse tema do amor
total. Ela, no início da carta, referindo-se a Jesus, descarrega logo sua
posição: "É Jesus, que deve ser nosso divino traço de união. Somente Ele
tem o direito de penetrar no santuário do coração de sua esposa...Oh! sim,
Somente Ele entende quando nada nos responde... Somente Ele dispõe os
acontecimentos de nossa vida de exílio, é Ele quem nos apresenta, por vezes,
o cálice amargo...Ele quer que as mais puras alegrias se transformem em
sofrimentos, a fim de que, não tendo, por assim dizer, o tempo de respirar à
vontade, nosso coração se volte para Ele, pois só Ele é nosso Sol e nossa
alegria...". E, aqui, Teresa faz uma comparação bonita, poética e
mística. Ela fala das flores do caminho e nos diz que elas foram feitas para
serem contempladas, mas que ela e Celina não podem parar para contemplá-las
ou apanhá-las. Os seus corações estão voltados para a grande Flor do
campo:"As flores do caminho são os prazeres puros da vida, não há nenhum
mal em gozar deles, mas Jesus é ciumento de nossos almas, Ele deseja que
todos os prazeres sejam para nós misturados com amargura...Contudo, as flores
do caminho conduzem ao Bem-Amado, mas não é um caminho direto, é a placa ou
espelho que reflete o Sol, mas não é o Sol mesmo". Aí está um exemplo,
que mostra muito bem a força exigente do amor teresiano. Nada fora de Jesus.
Só Ele,nem mesmo as flores do caminho, que são alegrias puras que conduzem
até Ele, porque elas não são caminho reto para Deus. A conclusão da Santa,
nessa carta, é clara e categórica: "É preciso ver somente Ele em
tudo..."(106). O segundo
exemplo aparece também em uma carta.
Desta vez, estamos em setembro de 1890. Teresa se preparou, belamente, para
sua tomada de véu, que se deu no dia 24 de setembro. Ela desejara, ardentemente,
que o sr. Martin, um pouco restabelecido, viesse assistir à cerimônia.
Todavia, o sr. Guérin, temendo uma emoção muito forte para o doente, opôs-se
à presença do sr. Martin na cerimônia de Teresa, conforme projetara a própria
Celina. Nossa Santa sentiu esse
choque, profundamente. Doeu-lhe na alma o fato de se ver privada de uma
alegria tão pura, tão simples, tão natural, como a presença do seu pai
querido na sua festa de tomada de véu. Escreveu, então, a Celina,abrindo sua
alma e, ao mesmo tempo, instruindo-nos como o amor de Deus é
exigente:"Oh! Celina, como te dizer o que se passa na minha alma?... Ela
está dilacerada, mas sinto que essa ferida
foi feita por uma mão amiga, por uma mão divinamente ciumenta!...Foi
Jesus só quem conduziu esse negócio, foi Ele, e eu reconheci seu toque de
amor...Tu sabes até que ponto eu desejava, esta manhã, rever nosso Pai
querido. Pois bem, agora, vejo, claramente, que a vontade do bom Deus é que
ele não esteja presente; Ele permitiu isso simplesmente para provar nosso amor... Jesus me quer
orfãzinha, Ele quer que eu esteja só com Ele somente para se unir, mais
intimamente, a mim e quer, também, retribuir-me na Pátria as alegrias,tão
legítimas, que me recusou no exílio!..."(107) Eis aí o
discurso sobre o amor total, segundo Teresa de Lisieux. Nada pode ser
recusado ao amor, porque Deus é ciumento e nos quer inteiramente para Ele.
Nem mesmo alegrias tão legítimas e naturais podem atrapalhar essa união de
amor! Nem as flores dos campos, tão lindas e puras, podem nos deter na
caminhada! Nada! Somente Ele! É
interessante observar como há uma verdadeira dialética do amor teresiano. Uma
coisa chama outra; uma posição atrai outra, numa lógica impecável. Falamos,
por exemplo, que esse amor é desinteressado, ou seja, que o amante quer
somente a vontade do Amado, pois bem, não é uma conseqüência natural que,em
assim sendo, o mesmo amor exija ser total e completo? Foi assim que nossa Teresa tirou todas as
conseqüências de suas premissas sobre o amor. Em uma carta à Irmã Inês de Jesus, ela, referindo-se à sua
provação dos sentimentos, escreve:"Hoje mais do que ontem, se isso é
possível, fui privada de toda consolação; agradeço a Jesus que acha isso bom
para minha alma, e, depois, talvez, se ele me consolasse, eu pararia nessas
doçuras, mas ele quer que tudo seja para ele!... Pois bem, tudo será para
ele, tudo, mesmo quando eu não sentir nada para poder lhe oferecer, então,
como nessa noite, eu lhe darei esse nada!...(108).Aqui, estamos nas raias da
mística, isto é, quando o homem, não tendo mais nada para dar a Deus, por
causa de sua pobreza ou porque já leu deu tudo, dá-lhe, por fim, o nada que
lhe resta. Sem desânimo, sem tristeza, em profunda paz, o amante se entrega totalmente. Santa
Teresinha dá-nos um exemplo disso, quando, escrevendo à Irmã Inês,
diz:"Creio que o trabalho de Jesus nesse retiro foi o de me desligar de
tudo o que não é ele...Se a senhora soubesse
quanto minha alegria é grande por não ter nenhuma para agradar a
Jesus!..."(109). Alegrar-se por não ter alegria! E só porque isso é o
que quer Jesus! Santa
Teresinha, como boa psicóloga que é, descobriu uma razão natural para
explicar essa exigência do amor. É que nosso coração só se satisfaz com o
infinito. O amor das criaturas, sendo limitado, jamais poderá satisfazer as
exigências do coração de alguém loucamente apaixonado. Foi, por esse caminho
psicológico, que ela instrui sua prima, Maria Guérin:"Oh! Maria, como tu
és feliz, por ter um coração que sabe amar assim...Agradeça a Jesus por ter te
dado um dom tão precioso, e dá-lhe teu coração todo inteiro. As criaturas são
demasiado pequenas para encher o vazio imenso, que Jesus provocou em ti, não
lhes dê lugar na tua alma..."(110). Aqui, ouvimos o grito de Santo
Agostinho:"Ó Beleza, tão antiga e tão nova, quão tarde te amei. O nosso
coração está irrequieto, enquanto não repousar em ti"(111). E,
agora,analisemos outra característica
do amor teresiano, a saber, que ele deve ser provado. Provado por Deus, que é
exigente, como vimos acima; provado por nós, que devemos não resgatar, não
vender a varejo, não negar nada, saber suportar tudo e todos os obstáculos,
saber superar os entraves ao amor, em suma, saber pagar amor com amor, custe
o que custar, sobretudo, na dor e no martírio do coração, porque, na verdade,
nós jogamos, ou antes, Ele joga por nós,
na banca do amor, onde nada se faz pela metade, onde nada se vende a
retalho. Em uma
carta de 12 de março de 1889, Teresa, seguindo o pensamento do S.João da
Cruz, repete uma homenagem-padrão, que, alhures, aparecerá outras vezes. É um
pensamento síntese, que desencadeia a exigência de provar o amor da criatura
pelo seu Deus: "O amor não se paga senão com amor e as feridas do amor
não se curam senão com o amor"(112). É verdade
que Deus não precisa de nossas obras. Teologicamente, Deus nem se quer
precisa de nós. Todavia, já que ele nos fez, ele nos quer inteiramente para
ele. Fomos feitos para sua glória. Assim, entendeu Teresa de Liseux, quando
diz:"Ele não tem necessidade de nossas obras, mas somente de nosso
amor"(113). Todavia, esse amor divino,que só se paga com amor, precisa
ser provado pelas nossas obras:"Ó Jesus, eu o sei, o amor não se paga senão com amor, assim
procurei, encontrei o meio de aliviar meu coração ao te retribuir Amor com
Amor...Mas, como testemunhar meu Amor, uma vez que o Amor se prova com as
obras?"(114). Aí está a dialética: Deus não precisa de nossas obras, mas
quer o nosso amor e esse amor deve ser provado, testemunhado com as nossas
obras. Assim estabelecida a lei dialética
da necessidade de um amor provado pelas nossas pobres obras, Teresinha, ainda
jovem, entusiasmada pelo amor de Deus, após a leitura do livro do Padre
Arminjon, escreveu:"Todas as grandes verdades da religião, os mistérios
da eternidade mergulhavam minha alma em uma felicidade, que não era da
terra... Pressentia já o que Deus reserva àqueles que o amam(não com o olho
do homem, mas com o do coração), e vendo que as recompensas eternas não
tinham nenhuma proporção com os leves sacrifícios da vida, queria amar, amar
Jesus com paixão, dar-lhe mil provas de amor enquanto eu pudesse
ainda..."(115). E Teresa,
com o passar dos anos, vai, cada vez mais, aprofundando-se nesse amor
desinteressado, total, que busca unicamente a vontade de Deus, e que ela quer
provar por todos os meios, porque o amor sabe tirar proveito de
tudo:"Não posso pedir mais nada com ardor, salvo o cumprimento perfeito
da vontade do bom Deus sobre minha alma, sem que as criaturas possam colocar
aí algum obstáculo. Posso dizer estas palavras do cântico de N.Pai S.João da
Cruz: 'Na adega interior de meu Bem-Amado, bebi e quando saí, em toda esta planície, não conhecia mais nada e
perdi o rebanho que seguia anteriormente...Minha alma se entregou, com todas
suas potências, a seu serviço, não cuido mais do rebanho, não tenho outro
ofício, porque agora todo meu exercício é AMAR!...', ou ainda: 'Desde que
tive a experiência dele, o AMOR é tão poderoso em obras que sabe tirar
proveito de tudo, do bem e do mal que encontra em mim, e transformar minha
alma NELE'. Ó minha Madre querida! como é doce o caminho do amor"(116). E,aqui,
está o segredo das obras do amor, pois ele sabe tirar proveito de tudo, do
bem e do mal, para transformar tudo por ele mesmo. Na verdade, o grande
problema é saber quais são as obras que devem provar o amor. A resposta é
simples: o amor sabe tirar proveito de tudo! Cada um responde como pode e
como quer. Teresa, ela mesma, teve a sua experiência e a ensinou a todos
quantos, como ela, se sentissem fracos e limitados, para que seguindo o seu
pequeno caminho, pudessem ficar felizes nas provas do seu amor.
Entusiasmada e apaixonada por Deus, sobretudo na pessoa de Jesus, ela
sonha, longamente, com o martírio. Dar sua própria vida, derramar seu próprio
sangue, era, no seu desejo, a maior prova que poderia dar do seu amor. No
desenho de seu brasão, ela colocou um dardo inflamado e na explicação que dá
desse dardo mortal, ela diz:"É nesse lugar bendito(o Carmelo), que
Teresa escolheu para figurar em seu brasão o dardo inflamado do amor, que
deve lhe merecer a palma do martírio, esperando que ela possa,
verdadeiramente, dar seu sangue por Aquele que ela ama"(117). No seu
poema sobre o amor, a Santa exclama: "eu sinto em mim a vocação de
GUERREIRO, de PADRE, de APÓSTOLO, de DOUTOR, de MÁRTIR..."(118). E, logo
mais adiante, ela afirma categórica:"Quisera sofrer todos os suplícios
infligidos aos mártires"(119).Por isso, sua oração será:"Jesus, que
por ti eu morra mártir!"(120). Na verdade,Teresa, desde jovem, sonhou
com o martírio:"O martírio, eis o sonho de minha juventude"(121).
Mas, o doloroso era que ela sentia que um só gênero de martírio não lhe seria
suficiente. Ele os queria a todos, como confessa no seu longo e belíssimo
poema do amor, na Manuscrito B. Porém, o
martírio de sangue nunca veio. Teresa, porém, não ficou frustrada. Encontrou
outras espécies de martírio na sua vida e ela os foi descobrindo, um a um, e
aproveitando de cada um deles. Em uma carta a sua irmã,Celina, ela
advertia:"Não tema nada, aqui encontrarás, mais do que em qualquer outro
lugar, a cruz e o martírio!..."(122). E qual é esse martírio? Teresa
fala de dois, em modo especial. Primeiramente, o martírio do coração, que ela
assim explica:"As cruzes exteriores, que são isso?... Uma cruz
verdadeira é o martírio do coração, o sofrimento íntimo da alma, e aquele que
ninguém vê..."(123). Um segundo tipo de martírio, encontrado no Carmelo,
Teresa o chama de "prova de escolha". Ela fala sobre ele na sua
famosa" Legenda de um Cordeirinho", que escreveu para consolar a Madre Gonzaga, após a eleição de 21 de
março de 1896, quando Madre Gonzaga só foi reeleita Priora após sete
escrutínios:"O Bom Pastor sorriu e, se inclinando para o cordeiro: 'Sim,
diz ele, eu compreendo...mas que tua Pastora se console, fui eu quem, não
permitiu, mas quis a grande provação, que a fez sofrer tanto'.-'É possível,
Jesus!', retruca o cordeiro. Acreditava que o senhor fosse tão bom, tão
doce...não teria podido dar o cajado a outra, como o desejava minha Madre
querida, ou, então, se o senhor queria absolutamente colocá-lo em suas mãos,
por que não tê-lo feito após a primeira deliberação?...' 'Por quê,
cordeirinho? É porque eu amo tua Pastora! Guardei toda sua vida com um
cuidado ciumento, ela já sofrera muito por mim em sua alma, no
seu coração, contudo lhe faltava a prova
de escolha, que acabo de lhe enviar, após tê-la preparado desde toda
eternidade'"(124). Teresa
sabia, pois, que o amor, aqui na terra,se alimenta de sacrifícios(125), ela,
portanto, procura aproveitar, diante da sua sensação de pequenez, de fraqueza
e de impotência de fazer grandes sacrifícios, todas as pequenas ocasiões, as
mil coisinhas da vida cotidiana para provar o seu amor.É,assim, que ela viveu
e foi assim que ensinou a todos quantos querem seguir o seu pequeno caminho
de amor. Comparando-se a uma criancinha, fraca em si mas poderosa pela
grandeza dos seus, ela diz que o que a criancinha pede:"é o amor...ela
não sabe mais senão uma coisa, te amar, ó Jesus...As obras brilhantes lhe são proibidas, que importa?
seus irmãos trabalham no seu
lugar". Mas, sendo preciso provar, de alguma maneira, seu amor, ela
descobre o caminho e diz:"Pois bem, a criancinha jogará flores,
embalsamará, com seus perfumes, o trono real, cantará,com sua voz Argentina,
o cântico do Amor...Sim, meu Bem-Amado, eis como se consumirá minha
vida...Não tenho outro meio para te provar meu amor senão jogar flores, isto
é, não deixar escapar nenhum pequeno
sacrifício, nenhum olhar, nenhuma palavra, aproveitar de todas as coisinhas e
fazê-las por amor...Quero sofrer por amor e mesmo gozar por amor, assim
jogarei flores diante do teu trono; não encontrarei uma só sem a desfolhar
para ti...depois, jogando minhas flores, cantarei (poder-se-ia chorar fazendo
uma tão alegre ação?), cantarei, mesmo quando me for necessário colher minhas
flores no meio dos espinhos e meu canto será tanto mais melodioso quanto os
espinhos forem longos e picantes"(126). Sim, aqui
está a solução do problema para aqueles que querem amar e provar o seu amor,
mas que se sentem fracos, pequenos, incapazes de grandes ações. Para provar o
amor, basta fazer o que se pode, responde Teresa. Basta aproveitar os
pequenos nadas da vida e aceitá-los,
e vivê-los e oferecê-los com amor ao Amor. Já
dissemos e mostramos, até agora, que Santa Teresinha foi a santa do amor. Na
sua vida e na sua mensagem, o amor ocupa a razão de fim, de objetivo, de
modelo, de sentido de toda uma caminhada. Dissemos, também, que Teresa
dirigia esse amor à Trindade adorável; a Deus, que amava chamava de Pai, mas
que, de um modo mui particular, todas suas expressões de amor eram dirigidas
a Jesus, seu Bem-Amado. Acontece, porém, que esse apaixonado amor por seu
Deus se estendia a todas as criaturas. Teresa simplesmente amou e amou
loucamente a Deus, aos homens, o mundo, os animais, os pássaros, as flores, a
natureza toda. Examinemos, agora, alguns fios da extensão desse amor. Essas
extensões seriam, de um modo geral, a expressão da caridade teresiana. Mas,
sobre a caridade individual, falaremos no final. De logo, vamos focalizar
como Teresa soube estender o seu amor muito além das fronteiras do seu
claustro e das suas grades de ferro. Seu coração imenso não podia ficar
prostrado ou resumido apenas a um amor egoísta ou individualista de Deus. O
seu Deus foi sempre o Deus Pai e o Deus, senhor de todos os homens e de todo
o mundo. Era, pois, preciso amar a todos e a tudo. O amor
teresiano, de vida e de mensagem, foi dirigido, em primeiro lugar, a Deus,
como Trindade adorável, a Deus com Pai querido, a Deus como espírito de amor,
mas foi concretizado em Jesus, o bem-Amado. Mas, como dissemos, pelo amor a
Deus, Teresa abriu o seu coração para todos e para tudo e, em primeiro lugar,
para sua Mãe do céu, tão querida. O amor a
Maria é uma constante profunda e marcante na vida e na mensagem teresianas.
Podíamos até dizer que a devoção a Nossa Senhora, em Teresinha, nasceu no
berço. A Imagem, conhecida depois como da Virgem do Sorriso, sempre
acompanhou a família Martin em todos os momentos. Basta dar uma olhadela na
vida de Teresinha e logo ficamos admirados como ela tem um relacionamento
bonito, sincero e profundo com Maria Santíssima. Ainda
pequena, não ia ao mês de maio, mas fazia, com amor, suas devoções diante do
seu "pequeno mês de Maria"(127); no internato torna-se filha de
Maria, é curada por um sorriso da Mãe de Deus, quando tinha dez anos; no dia
de sua primeira comunhão foi ela quem pronunciou o ato de consagração à
Santíssima Virgem; na sua vida de
carmelita esteve, a cada momento, tão ligada à Mãe de Deus, que chama a
atenção de qualquer leitor dos escritos teresianos como a Santa amava
extraordinariamente Nossa Senhora; nos últimos dias de sua vida, esteve
constantemente invocando a Virgem Mãe e falando sobre ela. Maria, de fato,
esteve realmente presente na vida e na caminhada espiritual de Teresa. Basta ver os textos teresianos e qualquer
um se admira como essa Santa amou tanto Nossa Senhora. E a
devoção de Teresinha a Maria se confunde com sua própria espiritualidade.De
fato, para uma mensagem que encara a Deus como Pai e o homem como uma
criancinha fraca e imperfeita, que depende, em tudo, de seu Pai, não podia
faltar a presença feminina de uma mãe, par completar o quadro geral da
mensagem e da caminhada. Teresinha sempre foi muito feminina e não seria na
sua mensagem, tão humana, que iria faltar o rosto feminino da santidade, que
é Maria. A devoção
Mariana em Teresa de Lisieux tem umas marcas distintivas bem salientes.
Poderíamos dizer que é espontânea,
filial, simples e constante. Na
verdade, o amor de Teresa a Maria não é mero sentimentalismo, pois se funda
em premissas teológicas. Foi sua ligação com Jesus, que fê-la amar Maria com
muita profundidade e seriedade. Maria fez parte, pois, de um contexto
teológico do pensamento teresiano. Ela considerou a história da salvação e
descobriu que, sem Maria, não podia ser realizada, como cristã, nem podia
realizar os planos de Deus a seu respeito. Foi meditando o evangelho, que ela
viu crescer os fundamentos reais de sua devoção Mariana. Sendo
evangélica, essa devoção tornou-se para Teresinha um relacionamento
espontâneo. Nada aí foi forçado ou etiquetado. Teresa encara sua Mãe com toda
a sua espontaneidade e com ela é capaz de falar e sobre ela é capaz de dizer
tudo aquilo que ela mesma pensa, que ela mesma descobriu nas suas meditações.
Maria não lhe é um mistério. Seu relacionamento com a Mãe de Deus surge,
cresce e se desenvolve espontaneamente com a mesma força com que ela se
relaciona com Deus pelo amor.Por isso, ela podia explicar as iniciais FMT, no
seu brasão, como significando "Maria Francisca Teresa, a florzinha da
Santíssima Virgem"(128). A devoção
teresiana a Maria é também marcada pelo caráter filial. No mês de agosto, do
ano de sua morte, ela disse:"Sabe-se bem que a Santíssima Virgem é a
Rainha do céu e da terra, mas ela é
mais Mãe do que rainha"(129). Esse caráter filial marcou
profundamente o relacionamento entre Teresa e Maria. Em tudo e por tudo, a
Santa recorria a sua Mãe e isso foi assim até o dia de sua morte, pois,
referindo-se à sua última noite na terra, ela, olhando a estátua de Nossa
Senhora, disse:"Oh! como rezei para ela com grande fervor!"(130).
Justamente por causa desse relacionamento filial, ela não podia acreditar que
as grandezas de Maria eclipsassem a glória dos santos:"Não se deve
dizer, por causa de suas prerrogativas, que ela eclipsa a glória dos santos,
como o sol, ao nascer, faz desaparecer as estrelas. Meu Deus! como isso é
estranho! Uma Mãe que faz desaparecer a glória de seus filhos! Eu penso
totalmente o contrário, creio que ela aumentará em muito o esplendor dos
eleitos"(131). Esse
relacionamento filial tem sua origem teológica nos próprios princípios
teresianos de espiritualidade. Com efeito, Teresa considera sempre a Deus
como a um Pai, por isso não poderia deixar de considerar Maria como sua Mãe.
Assim, ela já chegava ao pensamento conciliar do Vaticano II, na Lumen
Gentium. A terceira
característica da devoção Mariana em Teresa de Lisieux é a simplicidade.
Aqui, entramos mais ainda nas linhas mestras da espiritualidade teresiana,
pois, qualquer tipo de relacionamento com Maria, que não fosse caracterizado
pela simplicidade, não seria jamais teresiano. Essa simplicidade
leva Teresa a ver Maria apenas com olhos simples, como uma peregrina neste
vale de lágrimas, como nós, como o Papa João Paulo II muito bem caracterizou
na sua encíclica Mater Redemptoris: "É bom falar de suas prerrogativas,
mas não se deve dizer só isso, e se, em um sermão, a gente é obrigado, do
começo ao fim, a exclamar e fazer ah! ah!, é demais. Quem sabe se alguma alma
não iria mesmo até sentir, então, certo distanciamento por uma criatura de
tal modo superior e não diria: 'Se é assim, é melhor ir brilhar como se puder
em um cantinho!'. O que a Santíssima Virgem tem mais do que nós, é que ela
não podia pecar, que ela era fôra isenta da mancha original, mas, por outra
parte, ela teve menos chances do que nós, pois que não teve a Santíssima Virgem
para amar; e isso é uma doçura a mais para nós, e uma doçura a menos para
ela!"(132). Foi,
assim, com essa simplicidade, que Teresa olhou para Maria. Ela era capaz de
lhe dizer coisas simples e infantis, mas que refletiam, bem profundamente,
seus sentimentos sinceros e leais:"A Santíssima Virgem não tem Santíssima Virgem para amar, ela é
menos feliz que nós"(133). Foi por
esse caminho da simplicidade, que ela encarou Maria em toda sua vida terrena.
Teresa jamais pôde conceber Maria como sendo uma mulher, humanamente
diferente das demais; uma mulher especial. Não. Para nossa Santa. a Virgem
Maria viveu e morreu como todos os demais mortais. Sua vida em Nazaré, em
Belém, no Egito e, de novo, em Nazaré foi realmente simples, igual à de todo
o mundo, e sua caminhada espiritual foi normal e regular como a caminhada de
todos os grandes santos. Assim, ela se insurgia contra os sermões, que
exageravam as prerrogativas de Maria, como vimos acima, e que não
apresentavam Maria Santíssima como uma peregrina igual a nós:"Como teria
querido ser padre para pregar sobre a Santíssima Virgem! Um só vez me teria
bastado, para dizer tudo o que penso a esse respeito. Primeiramente, teria
feito compreender a que ponto se conhece pouco sua vida. Não seria necessário
dizer coisas inverossímeis, ou que não se sabe; por exemplo, que ainda
pequena, com três anos, a Santíssima Virgem foi ao Templo se oferecer a Deus
com sentimentos abrasadores de amor e
completamente extraordinários; enquanto que para lá ela talvez foi muito simplesmente para obedecer a seus pais. Por que dizer
ainda, a propósito das palavras proféticas do velho Simeão, que a Santíssima
Virgem, a partir daquele momento, teve, constantemente, diante dos olhos, a
paixão de Jesus? "Uma espada de dor transpassará sua alma", dissera
o velho. Não era, pois, para o presente...era uma predição geral para o
futuro. Para que um sermão sobre a
Santíssima Virgem me agrade e me faça bem, é preciso que eu veja sua vida
real, não sua vida suposta; e estou segura de que sua vida real devia ser
toda simples. Mostram-na inabordável; deveriam mostrá-la imitável, fazer ressaltar suas virtudes,
dizer que ela vivia de fé como nós, dar as provas disso pelo Evangelho, no qual lemos:"Eles
não compreenderam o que lhes dizia". E isso também, não menos
misterioso:"Seus pais estavam admirados com o que se dizia dele'. Essa
admiração supõe certo espanto"(134).
Simplicidade no relacionamento; simplicidade no modo de ver a própria
Virgem Maria; simplicidade, pois, é determinante na devoção Mariana tal como
Teresa de Lisieux a teve, a viu e a ensinou. Além da
simplicidade, o relacionamento de Teresa com Maria foi marcado pela
constância. Sim, nossa Santa nunca deixou de amar Nossa Senhora. Quando ela
fez sua primeira confissão, o confessor lhe aconselhou a devoção para com a
Santíssima Virgem, e, então, comentando o fato, Tersinha
escreveu:"E prometi a mim mesma
redobrar de ternura para com ela"(135). E, com o passar do tempo, esse
amor foi crescendo sempre, de tal modo que, no seu último autógrafo, nossa
Santa podia escrever essas palavras tão ingênuas quanto belas e
amorosas:"Ó Maria, se eu fosse a Rainha do céu e a senhora fosse Teresa,
quisera ser Teresa a fim de que a senhora fosse a Rainha do céu". Em todos
os momentos de sua vida, Teresinha esteve com Maria. Quando, certa feita,
recebeu uma graça especial de comunicação de Deus, ela se sentiu
"inteiramente escondida sob o véu da Santíssima Virgem"(136). Mas,
quando a dor lhe bateu à porta com muita intensidade, sobretudo nos últimos
dias de sua vida terrena,Teresa não deixou de invocar a amiga, a companheira, a mãe solícita que
não a abandonava um só instante:"Ó minha boa Santíssima Virgem, vinde em
meu socorro!"(137), são palavras suas bem pertinho de dar o último
suspiro. E ela, sofrendo também os horrores da provação da fé, sente que,
apesar de tudo, a Mãe do céu nunca lhe fica escondida:"Os anjinhos se
divertiram muito a brincar comigo com pequenas farsas...Eles todos se puseram
a me esconder a luz, que me mostrava
meu fim próximo. -Eles também esconderam a Santíssima Virgem? -Não, a
Santíssima Virgem nunca ficará escondida para mim, porque eu a amo
demais"(138). É
impressionante observar nas "Últimas Conversas" anotadas por Madre
Inês, como Santa Teresinha volta-se sempre para Maria. Nas orações, nas
reflexões, nas mensagens, a Santa está sempre com o pensamento em Maria
Santíssima. E seu relacionamento constante com Maria toma sempre como
fundamento o fator de que a Mãe de Deus é uma pessoa simplesmente humana, bem
abaixo de Deus e bem acima de nós, simples pecadores mortais.Maria, assim, é
a irmã e companheira de todas as horas e a mãe que sabe muito bem como deve
proceder com os nossos pedidos e desejos:"Quisera, contudo, ter uma bela
morte, para lhe agradar. Eu o pedi à Santíssima Virgem. Não o pedi ao bom
Deus, porque quero deixá-lo fazer
como quiser. Pedir à Santíssima Virgem
não é a mesma coisa. Ela sabe bem o que deve fazer com meus pequenos
desejos, se é preciso que ela os transmita ou não os diga...enfim, compete a
ela ver, para não forçar o bom Deus a me ouvir, para deixá-lo fazer segundo
sua inteira vontade"(139).
Espontânea, filial, simples, constante é a devoção de Teresinha para
com a Mãe de Deus. Foi assim que ela encarou Maria e foi assim que ela
ensinou que olhássemos a Virgem Santa. A seu modo, Maria ocupou um lugar
importante na espiritualidade teresiana e, ao lado de Jesus, foi,certamente,
o alvo certo da atenção, da veneração e do amor de Teresa de Lisieux. Santa
Teresinha teve, como já dissemos, um amor todo especial pelo dogma da
comunhão dos santos. Ela sempre falou sobre ele e procurou viver e ensinar o
significado e a importância desse dogma na nossa vida. Foi, por ele, que ela
se relacionou, sincera e profundamente, com seus amigos, os Santos canonizados.
Evidentemente, que, para Teresa, a palavra santo tem uma conotação
muito elástica. Vivendo o dogma da
comunhão dos santos, ela tem a mesma concepção de santo que tinha e expôs o
apóstolo Paulo. Assim, ela considerava como santos os seus próprios pais e
não teve dúvida em invocar seus irmãozinhos, que morreram bem pequenos e que,
segundo ela, no céu podiam muito bem interceder por ela nas suas aflições,
como aconteceu na sua grande crise de escrúpulos. Todavia, para com os santos
canonizados pela Igreja, Teresa sempre teve um respeito e uma veneração
especiais. Entre
esses Santos, elas tinha alguns como seus prediletos. Embora cite vários
santos, como S.Estanislau Kostka, S.Joaquim, S.Luis de Gonzaga, Santa
Catarina de Bolonha, S. Crispim, Santo Antônio, Santo Inácio de Antioquia,
Santa Gertrudes, Santa Cecília, Santa Inês, Santo Joana D'Arc, S.Pedro,
S.Paulo, S.João da Cruz, Santa Teresa de Ávila, S.José, o mártir Teófanes
Vénnard, ela tinha, entre eles, suas predileções. Podemos dividir esses
prediletos em duas classes. Na primeira se encontram aqueles que ela cita
várias vezes, como orientadores e como luzes do seu caminho, como é caso de
S.João da Cruz e de Santa Teresa de Ávila, pais e reformadores do Carmelo. Na
segunda classe estão aqueles que ela amava muito, porque suas vidas se
assemelhavam à sua e o seus modos de pensar se conformavam perfeitamente com
a sua espiritualidade e a sua mensagem. Nessa segunda classe estão S.José,
Santa Cecília, Santa Inês, Santa Joana d'Arc, e o mártir Teófanes Vénard. Para
S.José ela nutria uma veneração carinhosa
por ser o pai legal de Jesus e, seguindo uma tradição carmelitana,
tinha-o também como seu grande protetor. Conta-nos Irmã Genoveva, no Processo
Apostólico:"Sua devoção a S.José era viva. Era uma antiga dívida, pois
quando tinha apenas alguns meses, fora curada e salva da morte por esse
grande santo. Havia em casa uma estatueta de S.José, sustentando o Menino
Jesus nos seus braços, e Teresinha lhe prodigalizava seus carinhos. Mais
tarde, quando de sua viagem a Roma, ela me disse que não temia nada do que
pudesse lhe cair sob os olhos, porque se pusera sob a proteção de S.José. Ela
me ensinou,então, recitar, como ela, todos os dias, a oração: "Ó S.José,
pai e protetor das virgens...".No Carmelo, ela pediu a S.José,
sobretudo, para obter uma mais freqüente participação na santa comunhão. Ela
atribuía à sua intercessão o decreto libertador de Leão XIII"(140). Nas
"Últimas Conversas" encontramos algumas referências a S.José, que
são a expressão sincera e filial de sua devoção e de seu amor a esse Santo.
Referindo-se ao jejum na casa de Nazaré, ela comenta:"E o bom S.José!
Oh! como eu o amo! Ele não podia jejuar, por causa de seus
trabalhos"(141). Entre as suas
"Poesias" encontramos umas
estrofes, simples e delicadas, dedicadas"a nosso pai, S.José", uma
das quais diz assim:"Após o exílio desta vida. Nós temos a doce
esperança. Com a nossa Mãe, tão querida. S.José, nós iremos te
ver".(142). Uma santa,
que mereceu uma veneração especial de Teresa foi Joana D'Arc. No seu tempo,
essa Santa ainda não era canonizada, por isso, Teresa compôs um "Cântico
para obter a canonização de Joana d'Arc", que, na sua simplicidade
poética, expressa os sentimentos religiosos e patrióticos de nossa Santa. Em
maio de 1897, já doente, Teresa escreveu um poema bonito dedicado a Joana d'Arc, no qual não mais o sentimento
patriótico resplandece, mas, sim, a dor, a traição, o sofrimento da santa,
que a faz parecer com o Servo Sofredor de Javé, que encanta Teresinha. Assim,
nossa Santa ver em Joana d'Arc, da qual se tornara fã desde pequena, um laço
de união profunda na paixão pela qual uma passou e a outra está
passando(143). Joana
d'Arc exerceu uma grande influência na alma de nossa Santa. Primeiramente,
quando Teresinha, ainda bem jovem, sentia os ardores da sua idade: "É
assim que, ao ler os relatos das ações patrióticas das heroínas francesas, em
particular as da Venerável Joana D'Arc, sentia um grande desejo de imitá-las,
parecia-me sentir em mim o mesmo
ardor, do qual elas eram animadas, a mesma inspiração celeste"(144). No seu
grande entusiasmo pelo heroína da França e da Igreja, Teresa escreveu duas
peças teatrais sobre Joana D'Arc. A primeira
data de janeiro de 1894 e se intitula "A missão de Joana D'Arc ou
a Pastora de Domremy escutando suas vozes", e a segunda se intitula: "Joana D'Arc completando
sua missão", que foi escrita em janeiro de 1895. Antes de sua morte, em
1897, Teresinha ainda comentava o que escrevera sobre Joana D'Arc e
observava:"Reli a peça de Joana d'Arc, que compus. A senhora verá nela
meus sentimentos sobre a morte; eles são todos expressos; isso lhe dará
prazer. Mas, não creia que me pareço com Joana d'Arc, quando ela teve medo
por um momento...Ela arrancava os cabelos!...eu não arranco meus
cabelinhos..."(145). Não foi essa a única vez, que Tereza se recordou de
sua heroína. Nas "Últimas Conversas" aparece claramente que, nossa
Santa, de fato, recebera forte influência no pensar e no agir daquela
que,para ela, desde seus verdes anos, tornara-se como que uma inspiração
viva. Teófanes
Vénard foi, sem dúvida alguma, mesmo não sendo ainda nem sequer Venerável,
como o era Joana d'Arc, um santo predileto de Teresinha. O motivo certamente
foi o fato de que esse jovem, martirizado com apenas trinta e um anos de idade, aparentava
muita semelhança espiritual com ela(146). A alegria, a simplicidade, o amor
ao sofrimento, as missões, o martírio, que foram a realidade de João Teófanes
Vénard, foram também os sonhos de Teresa de Lisieux. Na sua
poesia dedicada ao jovem mártir, nossa Santa expressa todos esses
sentimentos, mas é nas "Últimas Conversas" que aparece, com força,
todo seu carinho humano, toda sua admiração para com Teófanes Vénard. Ela
fala sobre ele com muito afeto e respeito e chega mesmo a desejar abraçá-lo,
mas como não pode, contenta-se em acariciar, amorosamente, seu retrato. As
relíquias e a imagem do Mártir
estiveram sempre ao seu lado, durante o tempo em que a doença
tornou-se mais grave e séria. Certamente
o martírio, a virgindade, a confiança e o abandono de Santa Inês foram os
motivos da atração de Teresinha por essa virgem e mártir romana. Descrevendo
sua peregrinação à Cidade eterna, ela anota:"A visita à igreja de Santa
Inês me foi também bem doce, era uma amiga de infância, que ia visitar em sua
casa. Falhei-lhe, longamente, sobre aquela que traz o seu nome tão bem e fiz
todos os meus esforços para obter uma
das relíquias da Angélica patrona de minha Madre querida, a fim de lha
trazer, mas foi-nos impossível conseguir outra a não ser uma pedrinha vermelha, que se soltou de um
rico mosaico, cuja origem remonta ao tempo de Santa Inês e que ela deve ter
olhado muitas vezes. Não era encantador que, que a amável Santa nos desse, ela
mesma, o que buscávamos e que nos era proibido trazer?...Sempre considerei isso como uma delicadeza e uma
prova do amor, com o qual a doce Santa Inês olha e protege minha Madre
querida!..."(147). Entre as
suas Poesias, encontramos uma intitulada "O Responsório de Santa
Inês", que é a tradução, em versos novos, do Responsório do antigo Ofício de Santa Inês. Teresa compôs esse
poema para sua Madre Priora, que, então,era a Madre Inês. Foi no dia 21 de
janeiro de 1896, festa de Santa Inês. Nos versos, a Santa espelha sua própria
alma: a noiva apaixonada de Cristo sofredor:"Eu também não temo nada,
nem o ferro nem a chama. Não, nada pode perturbar minha paz inefável. E o
fogo do amor, que consome minha alma, Não se apagará jamais!..."(148). Foi com
entusiasmo, que nossa Santa, como já dissemos, representou o papel de Santa
Inês, na peça teatral, composta por Irmã Inês. Mais tarde, em junho de 1897,
já muito doente, em um bilhete, escrito para suas três irmãs carmelitas,
Teresinha lembrava um texto dessa peça, que dizia:"Vejo o que cri.
Possuo o que esperei. Estou unida Àquele, que amei com toda a minha força
para amar"(149). Como
Inês, outra mártir romana caiu nas graças de Teresa. Foi Santa Cecília. Seu
canto, seu martírio, seu amor, seu abandono, foram,certamente, os motivos
dessa devoção:"Era necessário mesmo trazer alguma lembrança das
catacumbas. Assim, tendo deixado a procissão se distanciar um pouco, Celina e
Teresa correram, juntas, até o fundo do antigo túmulo de Santa Cecília e
pegaram da terra santificada por sua presença. Antes de minha viagem a Roma, não tinha por essa santa nenhuma
devoção particular, mas ao visitar sua casa, transformada em igreja, o lugar
de seu martírio, ao saber que fora proclamada rainha da harmonia, não por causa de sua bela voz nem de seu
talento pela música, mas em memória do canto virginal, que ela fez ouvir a
seu Esposo celeste, escondido no fundo de seu coração, senti por ela mais que
devoção: uma verdadeira ternura de amiga...Ela se tornou minha santa de predileção,
minha confidente íntima...Tudo nela me encanta, sobretudo, seu abandono, sua
confiança ilimitada, que a tornaram capaz de virginizar almas, que não
desejaram jamais outras alegrias além daquelas da vida
presente..."(150). No final
de junho de 1987, Irmã Inês lhe falava sobre alguns santos, que levaram uma
vida extraordinária.Teresinha lhe disse,então: "Eu amo mais os santos,
que não têm medo de nada, como Santa Cecília que se deixa casar e não teme
nada..."(151). Dois
grandes santos da Igreja tiveram muita influência na vida de Teresinha,
embora não possamos dizer que nossa Santa lhes consagrou uma devoção
especial, com muito amor e carinho, como o fez com os santos que citamos
acima. Foram eles, Santa Teresa de Jesus e São João da Cruz. Santa
Teresa era sua protetora, a santa do seu nome. Quando pequenina e ouvia os
sermões,na Igreja, ao lado do seu pai, este lhe dizia, baixinho, quando o
Padre citava Santa Teresa:"Escuta bem, minha rainhazinha, falam de tua
patrona"(152). A influência, porém, de Santa Teresa foi devido mais ao
fato de que nossa Santa se tornou uma carmelita. Todos sabemos que Santa
Teresa de Ávila foi a reformadora do carmelo. É evidente que, nos Carmelos,
fala-se muito sobre a santa reformadora e que seus livros e sua doutrina ali
são lidos, meditados e propagados. Assim é que, Teresinha cita muitas vezes a
grande Santa espanhola."Como fiquei feliz em saber que nossa é Santa
Teresa pensava isso!", dizia ela a respeito do fato de ter trabalhado
"unicamente para salvar as almas"(153). Nem sempre, porém, houve
essa concordância de pensamento entre a grande doutora e a grande Teresinha.
"Ó minha Madrezinha, não prefiro uma coisa a outra(referia-se a viver ou
a morrer). Não poderia dizer como nossa Mãe Santa Teresa" 'Morro de não
morrer'"(154). Seja como
for, o certo é que Teresa de Lisieux foi uma carmelita autêntica, uma
seguidora de Teresa de Ávila, naturalmente no que diz respeito às regras
monásticas e também à caminhada do amor. Parece ter
sido mais profunda em Teresinha a influência do grande reformador e místico,
S.João da Cruz. É verdade que, toda a caminhada de Teresinha parece muito
diferente do Homem da Cruz e as
palavras teresianas, que afirmam categoricamente que não seguia os santos que
fizeram coisas extraordinárias, parecem colar direitinho com as palavras e a
vida de penitência de João da Cruz, todavia, João foi um santo do amor e foi
exatamente aí que a Santa de Lisieux e o Santo de Medina del Campo se
encontraram. Por isso, Teresa podia escrever na sua Autobiografia:"Posso
dizer estas palavras do cântico
espiritual de nosso Pai, S.João da Cruz:'Não tenho mais outro ofício, porque,
agora, AMAR é todo meu exercício!"(155). Embora,
pois, S.João da Cruz não lhe seja um santo de devoção e carinho, ele, certamente,
não só como reformador do Carmelo, mas também e, sobretudo, como guia e
mestre espiritual, teve muita influência sobre Santa Teresinha, na sua subida
da montanha do amor. Em todas suas obras, a cada instante, Teresinha cita
João da Cruz, para explicitar o seu pensamento ou para confirmar suas palavras, expressão da sua própria
vida. Muitos
outros santos mereceram sua atenção e até mesmo orações, como os Santos
Inocentes e São Sebastião, todavia foram os citados os que mais mereceram seu
amor e sua devoção. Ao lado
dos santos, Teresinha sempre cultuou, com amor, os Anjos, como o atestam as
suas irmãs. Irmã Genoveva testemunhou:"Durante a sua estada na pensão
das Beneditinas, ela assinava todos seu deveres: 'Teresa, filha dos santos
anjos'. No Buissonnets, ela tinha sobre a sua mesa de garotinha uma estatueta
do anjo da guarda; ela atribuía a preservação do pecado ao anjo da guarda,
como me escreveu aos 26 de abril de
1894, quando eu estava ainda no mundo e ela no Carmelo:'Jesus colocou, junto
de ti, um anjo do céu, que te guarda sempre, ele te carrega nas suas mãos com medo que teu pé não bata
em alguma pedra; tu não o vês e, contudo, é ele que, desde 25 anos, preservou
tua alma; é ele que afasta de ti as
ocasiões de pecado...Não tema as tempestades da terra: teu anjo da
guarda te cobre com suas asas".
No Carmelo, ela recomendava às suas noviças
manter sempre um porte digno e amável, para honrar os santos anjos,
que nos circundam"(156). Seguindo,
pois, suas crenças tradicionais, Teresa conservou, em tudo, a atitude de um
amor generoso para com tudo e para com todos. Um dos
amores de Teresa de Lisieux foi a Igreja. Filha espiritual de Teresa de
Ávila, ela podia exclamar, radiante e entusiasmada:"Ó meu Jesus! eu te
amo, amo a Igreja, minha Mãe!"(157); ou, então, "Eu sou filha da
Igreja"(158); e, escrevendo a última parte da sua Autobiografia,
repetia, com todo seu amor:"Eu quero ser filha da Igreja, como o era
nossa Mãe Santa Teresa"(159). Levada por
esse amor à sua Igreja querida, na qual nasceu para a vida de Deus e na qual
vivia, com alegria e fé, ela se sentia capaz de dar a vida por essa mesma
Igreja, continuação do seu Cristo amado e instrumento da sua
salvação:"Quisera morrer, num campo de batalha, pela defesa da
Igreja"(160). Se se pensa que não há maior prova de amor do que dar a
vida pelo amado, então se compreende até que ponto Teresinha amava a sua
Igreja. Assim, é
que ela estava sempre pronta e disposta a fazer tudo pela Igreja. Certa vez,
Madre Inês lhe perguntou: "Você quer adquirir méritos?". Ela
respondeu, imediatamente:"Sim, mas não para mim; para os pobres
pecadores, pelas necessidades de toda a Igreja..."(161). Nessa
linha de pensamento, Teresinha compreendeu que, pela Igreja, ela podia
realizar muito mais do que sozinha. Aqui, vai também a vivência do dogma da
Comunhão dos Santos. Por isso, ela sabe que pela Igreja, da qual ela é menina
querida, ela pode muito, já que a Igreja é sua mãe e é, ao mesmo tempo,
rainha, pois que ela é esposa de Jesus(162) e os pais poderosos fazem tudo
que podem pelos seus filhos. Assim, continuando na linha das conseqüências,
Teresa afirma que alguns santos chegaram a enriquecer a Igreja com suas sublimes revelações(163), ela,
pessoalmente, porém, acha que, sendo pequenina e pobre,o que pode mesmo é
usar dos tesouros de sua mãe, a Igreja.Assim, no arfam de ver um criminoso
convertido, tomou uma atitude de fé, conforme ela mesma descreve na sua
Autobiografia:"...sentindo que de mim mesma não podia nada, ofereci ao
bom Deus todos os méritos infinitos
de Nosso Senhor, os tesouros da santa Igreja..."(164). Ainda, nesse
entrelaçamento entre nós e a Igreja, Teresinha enxerga muito mais além e põe
em prática toda a profundidade do mistério da Konoinía. Para ela, as Igrejas
do céu, da terra e a que padece na esperança do amor total se entrelaçam no
gesto e num ato de amor profundo.
Teresa se explica melhor através de suas próprias palavras:"Jesus, para
quê te servirão minhas flores e meus cantos?...Ah! eu o sei bem, essa chuva
embalsamada, essas pétalas frágeis e sem nenhum valor, esses cantos de amor
do menor dos corações te encantarão. Sim, esses nadas te darão prazer, farão
sorrir a Igreja triunfante, ela recolherá minhas flores desfolhadas por amor
e as fazendo passar por tuas divinas mãos, ó Jesus, esse Igreja do céu,
querendo brincar com sua filhinha, jogará, ela também, essas flores, que
adquiriram pelo teu toque divino um valor infinito, sobre a Igreja padecente,
a fim de se apagar as chamas, ela as jogará sobre a igreja militante, a fim de
lhe dar a vitória!..."(165). Aqui, Teresa vê as Igrejas como sendo uma
só pelos laços de amor, que não faz distinção nem separação de tempo, de
lugar ou de estado. Por outro lado, há uma confiança total da Santa no
mistério da Igreja. Ela vive e, assim, ensina-nos a viver, toda a
profundidade do ser Igreja viva. Mas, para
melhor esclarecer e dizer toda a profundidade e todo o significado do amor de
Teresa pela Igreja é preciso lembrar, mais uma vez, o seu belo poema sobre o
amor, transcrito no Manuscrito B, da sua Autobiografia. Aí, nossa Santa, no
arfam amoroso de querer ser tudo na Igreja, para poder realizar por Deus toda
a riqueza e toda a extensão do seu amor, descobre que o sangue, o ar e a vida
da Igreja é o amor:"Compreendi que se a Igreja tinha um corpo, composto
de diferentes membros, o mais necessário, o mais nobre de todos não lhe faltava, compreendi que a Igreja
tinha um Coração, e que esse Coração estava QUEIMANDO de AMOR. Compreendi que
só o Amor fazia agir os membros da Igreja, que se o Amor viesse a se
extinguir, os Apóstolos não anunciariam
mais o Evangelho, os Mártires recusariam derramar seu sangue...Compreendi que o AMOR ENGLOBAVA TODAS AS
VOCAÇÕES, QUE O AMOR ERA TUDO, QUE ELE ABRAÇAVA TODOS OS TEMPOS E TODOS OS
LUGARES...EM UMA PALAVRA,QUE ELE É ETERNO!..."(166). Aqui,
chegamos ao cume do encontro: Igreja-Teresa-Amor! A Santa ama a Igreja; a Igreja vive de amor; a Santa quer tudo
na Igreja e, por isso, exclama, delirante:"Sim, encontrei meu lugar na Igreja e esse lugar, ó meu
Deus, fostes vós que mo destes... no Coração da Igreja, minha Mãe, eu serei o
Amor...assim, serei tudo...assim, meu sonho será realizado!!!..."(167). Mas, se o
amor de Teresa de Lisieux foi imenso e profundo e total para com seu Deus e,
por ele, à sua Mãe do céu, aos seus
irmãos os santos humanos e os espirituais, e à continuação de Cristo na
terra, que é a Igreja, esse amor se transluz, de uma maneira toda especial,
na caridade para com o próximo. Com efeito, se assim não o fosse, seria
mentiroso e falso o amor de Teresa para com seu Deus. Por isso, examinemos,
agora, a doutrina da caridade segundo a vida e a mensagem de Teresa de
Lisieux. Madre
Inês, no Processo Apostólico,testemunhou:"Ela, de fato, compreendeu e
praticou esse preceito de uma maneira totalmente notável...Desde sua
infância, Teresinha era tão doce, tão amável para com todo o mundo, que
era não somente a alegria da família,
mas os domésticos também a amavam. Ao crescer e se desenvolvendo na virtude,
sua amabilidade se tornou mais
atraente ainda: havia no seu sorriso, em toda sua pessoa, um charme
incomparável. No Carmelo, apenas o aproximar-se dela dava alegria e fazia achar doce o jugo do
Senhor. No recreio, sua doce e franca alegria, fruto de sua abnegação, espalhava
a felicidade ao seu redor. Era seu hábito
nunca parecer apressada para
deixar toda a liberdade às irmãs para lhe pedirem serviços, e ter assim a ocasião de seguir o conselho
de Nosso Senhor, do qual ela fala no seu Manuscrito:'Não evite aquele que
quer pedir algo emprestado'. Ela tomava parte ativa, a mais punível que
pudesse, nos trabalhos comuns, escolhendo para ela o lugar menos cômodo, a
fim de evitá-lo para os outros. Foi assim que, durante o verão, na
lavanderia, ela se colocava no lugar onde havia menos ar. Lembram-se disso
muito bem, de tal modo que aquele lugar, atualmente, é chamado "o lugar
de Irmã Teresa", e as jovens irmãs ali se colocavam, por devoção, para
imitar sua mortificação e sua caridade"(168). A caridade
em Santa Teresinha tem suas características pessoais. Podemos assinalar,
sobretudo, três dessas características. A primeira é que nossa Santa foi,
apesar de tudo quanto acabamos de ler, progressivamente, descobrindo o valor
da caridade e aprofundando também a sua vivência. A segunda é que, às vezes,
não lhe foi fácil praticar a caridade, mesmo sabendo-se quanto amor ela tinha
no seu coração para com seu Deus adorado. A terceira é que Santa Teresinha
aproveitava todas as ocasiões, mesmo as menores, para praticar a caridade, ou
seja, o amor ao próximo segundo o
ensinamento evangélico. No
Manuscrito A, da sua Autobiografia, Teresa
narra sua vida e reflete sobre ela. No Manuscrito B, respondendo à
Irmã Maria do Sagrado Coração, expõe
a linha fundamental do seu "pequeno caminho", que é o amor. No
Manuscrito C, completa a sua exposição sobre o amor, falando
sobre a caridade para com o próximo. Pois bem, é nesse manuscrito C, que
vamos ler como nossa Santa foi compreendendo, mais e melhor, o preceito do
amor fraterno:"Neste ano, minha Madre querida, o bom Deus me deu a graça
de compreender o que é a caridade; antes, eu a compreendia, é verdade, mas de
uma maneira imperfeita, não aprofundara
esta palavra de Jesus:'O segundo mandamento é SEMELHANTE ao primeiro:
amarás o teu próximo como a ti mesmo'. Eu me aplicava, sobretudo, a amar a
Deus e foi em o amando que compreendi que meu amor não devia se traduzir só
em palavras, pois:'Não são aqueles que dizem: Senhor! Senhor!, que entrarão
no reino dos céus, mas os que fazem a vontade de Deus'.Essa vontade, Jesus a
deu a conhecer muitas vezes, deveria dizer quase a cada página do seu
evangelho; mas, na última ceia, quando ele sabe que o coração dos seus
discípulos queima de um amor mais
ardente por ele, que acaba de se dar por eles, no inefável mistério de sua
Eucaristia, esse doce Salvador quer lhes dar um mandamento novo. Ele lhes
diz com uma ternura inexprimível:'Eu
vos dou um mandamento novo, é que vos ameis um ao outro. COMO EU VOS AMEI,
AMAI-VOS TAMBÉM UNS AOS OUTROS. Nisso conhecerão todos que sois meus
discípulos, se tiverdes amor uns pelos outros'. Como Jesus amou seus
discípulos e por que os amou? Ah! não
foram suas qualidades naturais, que puderam atraí-lo, pois havia entre eles e
Ele uma distância infinita. Ela era a ciência, a Sabedoria eterna; eles eram
pobres pescadores, ignorantes e cheios de pensamentos terrestres. Contudo,
Jesus os chama de seus amigos,seus irmãos. Ele quer vê-los reinar com Ele no
reino de seu Pai e, para lhes abrir esse reino, Ele quer morrer em uma cruz,
pois disse:'Ninguém tem maior amor do
que aquele que dá a vida por seus amigos'. Madre bem-amada, meditando essas
palavras de Jesus, compreendi quanto meu amor pelas minhas irmãs era
imperfeito; vi que não as amava como o bom Deus as ama."(169). Portanto, o
primeiro grande passo de Teresinha foi amar como o bom Deus ama. Embora ela
já praticasse a caridade, seu amor, segundo ela mesma confessa, ainda não era
como manda o evangelho. Sua caridade não era perfeita, embora pudesse dizer
que, já nos idos de sua conversão de Natal(1886), sentia que a caridade
entrara no seu coração(170). Foi,
assim, que nossa Santa descobriu que "a caridade é o CAMINHO EXCELENTE
que conduz, seguramente, a Deus" e foi assim que a caridade lhe deu a
chave de sua vocação(171). E nossa
Santa nos explica como é que se pode
amar como Jesus amou:"Quando o Senhor ordenou a seu povo a amar seu
próximo como a si mesmo, Ele ainda não viera à terra; assim, sabendo bem a
que ponto a gente ama a si mesmo, Ele não podia pedir a suas criaturas um
amor maior pelo seu próximo. Mas, quando Jesus deu aos seus apóstolos um
mandamento novo, SEU MANDAMENTO, como Ele diz mais adiante, não é mais par
amar o próximo como a si mesmo que Ele fala, mas para amá-lo como Ele, Jesus,
o amou, como Ele o amará até à consumação dos séculos...Ah! Senhor, sei que o
senhor não ordena nada impossível, conheceis, melhor do que eu, minha
fraqueza, minha imperfeição, sabeis bem que jamais poderia amar minhas irmãs
como vós as amais, se vós mesmo, ó meu Jesus, não as amásseis em mim. Foi
porque queríeis me dar essa graça, que destes esse mandamento novo.-Oh! como
o amo, pois que ele me dá a segurança que vossa vontade é amar em mim todos
aqueles que me ordenais amar!...Sim, eu o sinto, quando sou caridosa, é Jesus
só quem age em mim: quanto mais estou unida a Ele, tanto mais amo todas minhas irmãs"(172). Portanto,
amar, como Jesus amou, é deixar Jesus amar em nós. Na prática, como isso se
dá, explica-nos também Santa Teresinha, apelando para coisas simples, para o
dia a dia de cada um de nós, pois a caridade, ou amor evangélico pelo
próximo, faz-se e se concretiza nas coisas rotineiras da vida
cotidiana:"Ah! compreendo, agora, que a caridade perfeita consiste em
suportar os defeitos dos outros, em não se espantar, de modo algum, com suas
fraquezas, em se edificar com os menores
atos de virtude que vemo-los praticar, mas, sobretudo, compreendi que
a caridade não deve absolutamente ficar trancada no fundo do coração:'Nem, disse Jesus, se acende uma lâmpada e se coloca debaixo
do alqueire, mas no candelabro e assim ela brilha para todos os que estão na
casa'. Parece-me que essa lâmpada representa a caridade, que deve iluminar,
alegrar, não somente os que me são mais caros, mas TODOS aqueles que estão em
casa, sem exceção de ninguém"(173). Portanto,
a caridade não é virtude para momentos especiais. Ela é virtude de todo
momento. Não se pode perder nenhuma ocasião(174) e deve se realizar em
coisinhas do dia a dia, como não julgar :"Então eu digo com S.Paulo:'Quanto
a mim, pouco me importa ser julgado
por vós ou por um tribunal humano. Eu também não me julgo a mim mesmo...quem
me julga é o Senhor'. Assim, para fazer que esse julgamento me seja favorável
ou, antes, a fim de não ser julgada absolutamente, quero sempre ter
pensamentos caridosos, pois Jesus disse:'Não julgueis e não sereis
julgados'"(175);Praticar a caridade
é procurar a companhia dos colegas menos agradáveis; é uma simples
palavra oportuna; é um sorriso amável; é "ser amável com todo o mundo (
e, particularmente, com as irmãs menos amáveis) para alegrar Jesus e
responder ao conselho que Ele dá no evangelho"(176); é não se deixar
levar pelos sentimentos, mas procurar vivê-la nas obras(177); é superar-se a
si mesmo, não se deixando levar pelas simpatias ou pelas antipatias, mesmo
quando não se tem inimigos para amar também(178); é, às vezes, quando isso é
possível e necessário para não se cair, ter de fugir de certos momentos e da presença de certas pessoas(179). É nesse
espírito de doação total e cotidiana, procurando não perder ocasião, que
Teresa de Lisieux foi capaz de suportar todos as incompreensões da Irmã
S.Vicente de Paulo, a doença e os
achaques da Irmã S.Pedro e, depois de tudo, pôde dizer:"Ah! para
gozar mil anos de festas mundanas,
não teria dado os dez minutos empregados em cumprir meu humilde ofício de
caridade..."(180). E ninguém
pense que o exercício do amor para com o próximo seja fácil, mesmo para os
grandes santos, como Teresinha. Ela mesma confessa que, não foi sempre com
transportes de alegria que praticou a caridade, que a prática da caridade nem
sempre lhe foi tão doce e que teve de enfrentar pequenos combates para ser
caridosa(181), mas confessa, outrossim, que, pouco a pouco, vendo Jesus em
cada pessoa, foi se superando e vencendo as
dificuldades:"Minha Madre, ao ler o que acabo de escrever, a
senhora pode pensar que a prática da caridade não me é difícil. É
verdade, desde alguns meses não
preciso mais combater para praticar esse bela virtude; não quero dizer com isso que não me acontece jamais de não cometer
alguma falta- ah! sou demasiado imperfeita para isso - mas, não tenho muito
dificuldade para me levantar, quando caio, porque em certo combate, saí
vitoriosa. Também, a milícia celeste vem em meu socorro, não podendo sofrer
em me ver vencida após ter sido vitoriosa na gloriosa guerra, que vou tentar
descrever"(182). Foi,
assim, que Teresinha viveu, praticou a caridade e foi, assim, que ela ensinou
a todos nós: ver Cristo em cada irmão, fazer por cada um, como se fizesse
pela pessoa mais amada(183), como se não pudesse fazer melhor, se fosse o
próprio Cristo que estivesse usufruindo da nossa caridade(184). No fundo,
sabendo que "a caridade cobre a multidão de pecados", como diz o
livro dos Provérbios(10,12), ela afirma:"Aproveito desta mina fecunda, que Jesus abriu diante de mim"(185). Aqui,
podemos entender por que Santa Teresinha é a patrona das missões, ao lado de
S.Francisco Xavier. Querendo ser, no coração da Igreja, o próprio amor, que
dá vida a tudo e a todos; amando sem distinção a tudo e a todos, querendo que
Jesus amasse nela mesma os seus irmãos, não podia deixar de ser a grande
missionária. No seu
grande poema sobre o amor, ela diz:"Tenho a vocação de ser
Apóstolo...quisera percorrer a terra, pregar teu nome e plantar sobre o solo
infiel tua Cruz gloriosa, mas, ó meu Bem-Amado, uma só missão não me
bastaria, quisera, ao mesmo tempo, anunciar o Evangelho nas cinco partes do
mundo e até nas ilhas mais distantes...Quisera ser missionária não somente
durante alguns anos, mas quisera tê-lo sido
desde a criação do mundo e sê-lo até à consumação dos
séculos"(186). Essa é, de fato, uma declaração completa de um amor total
por toda a humanidade, porque o coração de Teresa estava cheio do Deus que
deu a sua vida por todos. Na
verdade, Teresinha sempre sentiu uma atração especial pelas missões. Irmã
Maria do Sagrado Coração testemunhou que "ela lia, avidamente, a vida
dos missionários, parque aí encontrava a expressão dos seus próprios
desejos"(187). Irmã Genoveva tem um testemunho mais completo,quando
diz:"A Serva de Deus desejava, com muito ardor, a propagação da fé.
Ouvira dizer que, no seu nascimento, nossos pais esperavam, pela última vez,
'um pequeno missionário', resolveu não desiludir suas esperanças. Aos 14
anos, tendo lido algumas páginas dos anais de religiosas missionárias,
interrompeu logo sua leitura e me disse:'Não quero tomar conhecimento disso;
sinto já um desejo tão violento de ser missionária, que aconteceria se o
avivasse ainda com o quadro desse apostolado? Quero ser
carmelita'"(188).. Ser
carmelita poderia parecer, então, uma contradição e apenas um capricho para
estar perto de suas irmãs. Na verdade, não foi esse o pensamento e o desejo
de Teresinha. A propósito do texto apenas citado, Irmã Genoveva completa seu
depoimento, dizendo:"Ela me explicou, em seguida, o porquê dessa
determinação:"Era para sofrer mais e, assim, salvar mais almas". E
Irmã Genoveva acrescenta:"Ela me escrevia em agosto de 1892:'O apostolado
da oração não é, por assim dizer, mais elevado do que o da palavra? Nossa
missão, como carmelitas, é formar operários evangélicos, que salvarão
milhares de almas, das quais seremos as mães"(189). Ei-la aí
como Teresa realizou seu sonho de ser missionária,isto é, pelo sofrimento e
pela oração, mesmo e, sobretudo, escondida e trancada no Carmelo.Mas, o sonho
de ir para as missões de terras distantes jamais desapareceu de todo, pois,
quase no final de sua vida, ela escreveu ao Padre Rouland, dizendo que
sonhava em ir para Tonkin. Explicando
ao Padre uma estrofe de um poema seu que lhe enviara, ela diz:"A
penúltima estrofe exige algumas explicações: digo que, com felicidade,
partiria para Tonkin, se o bom Deus se dignasse me chamar para lá. Isso o
surpreenderá, talvez, não é um sonho, de fato, que uma carmelita pense em partir para Tonkin? Pois bem, não, não é um sonho e posso mesmo lhe
assegurar que,se Jesus não vier em
breve me buscar para o Carmelo do céu, partirei, um dia, para o de Hanoi,
pois, agora, há um Carmelo naquela cidade, foi o de Saigon que o fundou
recentemente"(190). Foi,
então, com grande alegria que ela recebeu a incumbência de ser irmã
espiritual de dois missionários:"Desde muito tempo, tinha um desejo que
me parecia completamente irrealizável, o de ter um irmão padre. Pensava,
muitas vezes, que se meus irmãoszinhos não tivessem voado para o céu, teria
tido a felicidade de vê-los subir ao altar, mas, já que o bom Deus os
escolheu para fazê-los anjinhos, não podia esperar mais ver meu sonho se
realizar; e eis que não somente Jesus me deu a graça que desejava, mas Ele me
uniu, por laços da alma, a dois de seus apóstolos, que se tornaram meus
irmãos"(191). A esses
dois irmãos espirituais, Teresa se uniu profundamente pela oração e pelos
sacrifícios. Foi assim que nossa Santa compreendeu sua nova missão:"Foi
nossa Santa Mãe Teresa, quem me enviou, como ramalhete de festa em 1895, meu
primeiro irmãozinho. Estava no trabalho de lavagem, bem ocupada com meu
trabalho, quando Madre Inês de Jesus, tomando-me à parte, leu para mim uma
carta que acabava de receber. Era um jovem seminarista, inspirado, dizia ele,
por Santa Teresa, que vinha pedir uma irmã, que se devotasse, especialmente,
à salvação de sua alma e o ajudasse com suas orações e sacrifícios, quando ele fosse
missionário, a fim de que pudesse salvar muitas almas. Prometia lembrar-se
sempre daquela que viesse ser sua irmã, quando pudesse oferecer o santo
sacrifício. Madre Inês de Jesus me disse que queria que fosse eu quem se
tornasse a irmã daquele futuro missionário. Minha Madre, dizer-lhe minha
felicidade seria coisa impossível"(192). Mas, logo em seguida, Teresa
completa sua narrativa, dizendo:"sem dúvida, é pela oração e pelo
sacrifício que se pode ajudar os missionários"(193). Nas Cartas
que Teresa escreveu aos seus irmãos, essa idéia é uma constante. Aos 23 de
junho de 1896, ela escreveu ao Padre Roulland:"Sinto-me bem indigna de
ser associada especialmente a um dos missionários de nosso adorável Jesus,
mas já que a obediência me confia essa doce tarefa, estou segura de que meu
celeste Esposo suprirá meus fracos méritos (sobre os quais não me apóio de
modo algum) e que Ele ouvirá os
desejos de minha alma fecundando seu apostolado. Ficarei verdadeiramente
feliz em trabalhar com você na salvação das almas; é para esse fim que me fiz
carmelita; não podendo ser missionária de ação, quis sê-lo por amor e pela
penitência como Santa Teresa, minha seráfica Mãe"(194). e a esse mesmo
Padre, ele escreveu a 30 de julho de 1896:"Eu lhe estarei sempre unida pela
oração e peço a Nosso Senhor para não me deixar jamais ter prazer, quando
você estiver sofrendo. Quisera mesmo que meu irmão tenha sempre as
consolações e eu as provações, isso será, talvez, egoísmo?...Mas, não, pois
que minha única arma é o amor e o sofrimento, enquanto sua espada é a da
palavra e dos trabalhos apostólicos"(195). Teresinha
foi uma apóstola, uma missionária autêntica pelo amor, pela oração, pelo
sofrimento, porque só assim, pensava ela, poderia viver, autenticamente, sua
vocação de carmelita. Escrevendo ao Padre Bellière, ela diz:"Você o
sabe, uma carmelita que não fosse apóstola se afastaria da finalidade de sua
vocação e cessaria de ser filha da
seráfica Santa Teresa, que desejava dar mil vidas para salvar uma
alma"(196). Teresa
recebe seus dois irmãos espirituais justamente quando começa seu grande
calvário, que a levará à morte. Durante todo esse tempo, ela não vai perder
ocasião de oferecer seus sofrimentos e suas orações,para que eles possam
fecundar seu apostolado. Madre Inês testemunhou que, quando nossa Santa estava no auge de suas tentações contra
a fé, dissera-lhe:"Ofereço esses sofrimentos muito grandes para obter a
luz da fé para os pobres incrédulos e por todos os que se afastam da fé da
Igreja"(197). Nas
Cartas, que escreveu aos seus irmãos missionários, Santa Teresinha garantiu,
várias vezes, que, após sua morte, sua missão seria ao lado deles, nas terras
de missão, na esperança de converter os homens ao seu amado Deus. Ao Padre
Roulland, aos 9 de junho de 1897, ela escreveu:"Aproveito de um momento,
em que a enfermaria está vazia para lhe escrever uma última palavrinha de
adeus. Quando você recebê-la, terei deixado o exílio...Para sempre sua
irmãzinha estará unida a seu Jesus, será então que ela poderá lhe obter graças
e voar com você para as missões distantes"(198).Ao Pe.Bellière, ela
promete:"Quando meu querido irmãozinho partir para a África, eu o
seguirei não mais pelo pensamento,
pela oração, minha alma estará sempre unida a ele e sua fé saberá muito bem
descobrir a presença de uma irmãzinha, que Jesus lhe deu não para ser seu
sustento durante dois anos apenas, mas até o último dia de sua
vida"(199). E ao Pe.Roulland, ela faz uma confissão estupenda sobre seus
desejos maravilhosos de ser missionária após sua morte:"Conto de verdade não ficar inativa
no céu, meu desejo é de trabalhar ainda pela Igreja e pelas almas,
peço isso ao bom Deus e estou certa de que Ele me ouvirá. Os Anjos não estão
eles, continuamente, ocupados conosco
sem jamais cessar de ver a Face divina, de se perder no oceano sem praias do
Amor? Por que Jesus não me permitiria imitá-los? Meu Irmão, você vê que,se eu
deixo já o campo de batalha, não é com o desejo egoísta de repousar, o
pensamento da beatitude eterna faz apenas vibrar meu coração, desde muito
tempo o sofrimento se tornou meu céu aqui na terra e tenho, verdadeiramente,
dificuldade para conceber como poderei me aclimatar em um País, onde a
alegria reina sem nenhuma mistura de tristeza. Será necessário que Jesus
transforme minha alma e lhe dê a capacidade de gozar, do contrário, não
poderei suportar as delícias eternas. O que me atrai para a Pátria dos céus,
é o apelo do Senhor, é a esperança de amá-lo enfim como tenho tanto desejado
e o pensamento de que poderei fazê-lo amado por uma multidão de almas, que o
bendirão eternamente"(200). Nas
"Últimas Conversas", encontramos as declarações mais estupendas e
as promessas mais maravilhosas que se poderia ouvir de uma Santa, que
apaixonada por Deus e pelos seus irmãos da terra, mesmo à porta da morte, não
pensa em abandoná-los, porque os ama e quer vê-los todos no céu. Madre Inês
lhe perguntou, certo dia, se ela olharia para os seus do alto do céu, ao que
ela respondeu de imediato:"Não, eu descerei!"(201). À irmã Genoveva
ela fez a seguinte reflexão, acompanhada de uma bela promessa:"Tudo
passa neste mundo mortal, até "bebê", mas ele
voltará..."(202). Essa era, de fato, a convicção de Teresinha, de tal
sorte que ela pôde fazer esta sublime e admirável confissão de presença e de amor:"Sinto que vou entrar no
repouso...Mas sinto, sobretudo, que minha missão vai começar, minha missão de
fazer meu Deus amado como eu o amo, de dar meu pequeno caminho às almas. Se o
bom Deus ouvir meus desejos, meu céu se passará sobre a terra até o fim do mundo.
Sim, quero passar meu céu fazendo o bem sobre a terra. Isso não é impossível,
pois que no seio da visão beatífica, os Anjos velam sobre nós. Não posso
fazer festa para gozar, não quero repousar enquanto houver almas para
salvar...Mas, quando o Anjo tiver dito:'Não há mais tempo!', então, eu
repousarei, poderei gozar, porque o número dos eleitos estará completo e
porque todos terão entrado na alegria
e no repouso. Meu coração vibra com esse pensamento..."(203). Sim, esse
foi o sonho, o desejo, o ideal de Teresinha ao chegar no céu. O que a atraía
mesmo no céu era o amor em toda sua
plenitude:"Oh! é o amor! Amar, ser amada e voltar à terra"(204). Teresinha
passou toda sua vida num ato contínuo de amor. Ensinou, durante toda a sua
vida, a amar o bom Deus e, por Ele e para Ele, todos os homens. Ao partir
deste mundo, após ter deixado sua vida como lição e ensinado seu pequeno
caminho como mensagem de amor, ela podia ir para a casa do Pai,
dizendo:"Ah! eu o sei bem, todo o mundo me amará..."(205). Sim,
hoje, sabemos que só o amor é tudo, por isso, Teresinha nos ensinou que ele
deve ser o ideal, a força, o ar, a vida da nossa vida. NOTAS (1) -P.A.p.275 (2) -M.C,3r-3v (3) -P.A.p.231 (4) -P.A.p.332 (5) -M.A,15v (6) -M.A,32v (7) -M.C,7v (8) -M.A,83r (9) -M.A,64r (10) -PN,43 (11) -P.A.p.281-282 (12) -M.A,71r (13) -M.A,71r;Imitação de
Cristo,I,2,3;III,49,7 (14) -M.A,77v (15) -M.A,66v (16) -M.A,85v (17) -P.A.p.153 (18) -M.A,17r (19) -M.A,14r (20) -M.A,17r (21) -P.A.p.153 (22) -CT,9 (23) -CT,11 (24) -P.A.p.265 (25) -M.A,35r-35v (26) -CT,93 (27) -C.A.18.8.3 (28) -C.V.21/26.5.6 (29) -PN,17 (30) -PN,19 (31) -Teatro,p.100 (32) -Orações,p.42 (33) -CT,152 (34) -P.A.p.266 (35) -P.A.p.153 (36) -PN,40 (37) -M.A,36r (38) -Decreto de 17.12.1890: De
nonnullis abusibus qui in Instituta religiosa irrepserant evel- lendis.Cf.P.A.p.152. (39) -P.O.p.152 (40) -Ct,92 (41) -L'Esprit,p.67 (42) -C.A.12.6.1 (43) -C.V.20.8.4 (44) -C.A.15.7.1 (45) -C.A.5.6.4 (46) -M.A,36v (47) -Ato de Oferta ao Amor Misericordioso (48) -M.A,85v (49) -M.A,48v (50) -M.B,5r (51) -CT,118,165,169,182,183 (52) -Orações,p.35-36 (53) -M.B,1v (54) -CT,142 (55) -C.A.22.7.1 (56) -C.A.17.7 (57) -CT,254 (58) -CT,109 (59) -CS.p.65 (60) -M.A,81v (61) -M.B,1r (62) -M.B,4v. S.João da Cruz,
Cântico Espiritual Explicação da Estrofe 29 (63) -CT,164 (64) -M.B,1v (65) -M.A.85v (66) -M.C,36r (67) -M.B,4r-4v (68) -M.A,83v (69) -CT,247 (70) -M.A,83v (71) -M.A,84v (72) -2 Tim 4,8 (73) -M.A,84v (74) -M.B,1v (75) -M.A,84r (76) -M.B,5v (77) -CT,242 (78) -CT,191 (79) -CT,191 (80) -CT,191 (81) -CT,143 (82) -M.A,83r (83) -M.A,83r (84) -CT,114 (85) -S.Th.II-II,q.30,a.4 (86) -M.A,2r (87) -Ato de Oferta ao Amor
Misericordioso (88) -M.A,71r;84r (89) -CT,261 (90) -CT,220 (91) -CT,266 (92) -I Jo 4,10 (93) -P.A.p.235-236 (94) -M.A,6r (95) -C.A.14.7.5 (96) -C.A.14.8 (97) -C.A.4.9.7 (98) -C.A.30.8.2 (99) -C.A.14.7.9 (100)-CT,220 (101)-M.A,2v (102)-CT,201 (103)-M.A,10r (104)-M.A,10r-10v (105)-CT,57 (106)-CT,149 (107)-CT,120 (108)-CT,76 (109)-CT,78 (110)-CT,93 (111)-Confissões,I,1;X,27 (112)-CT,85. S.João da Cruz,
Cântico Espiritual Explicação das Estrofes IX e XI (113)-M.B,1v (114)-M.A,4r (115)-M.A,47v (116)-M.A,83r. S.João da
Cruz,Cântico Espiritual XXVI e XXVIII,Poesias,Glosa sobre o Divino (117)-M.A,85v (118)-M.A,2v (119)-M.B,3r (120)-M.A,76bis (121)-M.B,3r (122)-CT,167 (123)-CT,167 (124)-CT,190 (125)-M.C,21v (126)-M.B,4r-4v (127)-M.A,15v (128)-M.A,85v (129)-C.A.21.8.3 (130)-C.A.30.9 (131)-C.A.21.8.3 (132)-C.A.21.8.3 (133)-C.A.11.8.4 (134)-C.A.21.8.3 (135)-M.A,16v (136)-C.A.11.7.2 (137)-C.A.30.9 (138)-C.A.8.7.11 (139)-C.A.4.6.1 (140)-P.A.p.268-269 (141)-C.A.20.8.14 (142)-PN,14 (143)-PN,50 (144)-M.A,33r (145)-C.A.5.6.2 (146)-Cf. TROCHU,F.,"Le
Bienheureux Théophane Vénard" Paris, M.E.,1931 (147)-M.A,61v-62r (148)-PN,26 (149)-Antífona do
"Benedictus", do Ofício
de Santa Inês (150)-M.A,61v (151)-C.A.30.6.1 (152)-M.A,17v (153)-C.A.4.6.1 (154)-C.A.4.9.6 (155)-M.A,83r (156)-P.A.p.268 (157)-M.B,4v (158)-M.B,4r (159)-M.C,33v (160)-M.B,2v (161)-C.A.18.8.3 (162)-M.A,4r (163)-M.C,2v (164)-M.A,45v-46r (165)-M.B,4v (166)-M.B,3v (167)-M.B,3v (168)-P.A.p.173-174 (169)-M.C,11v-12r (170)-M.A,45r (171)-M.B,3v (172)-M.C,12v (173)-M.C,12r-12v (174)-M.C,12r (175)-M.C,29r (176)-M.C,13v (177)-M.C,28v (178)-M.C,13v (179)-M.C,15v (180)-M.C,14v (181)-M.C,30r (182)-M.C,30r-30v (183)-Cf.M.C,13v (184)-M.C.14r (185)-M.C,15v (186)-M.B,3r (187)-P.A.p.231 (188)-P.A.p.263 (189)-P.A.p.263 (190)-CT,221 (191)-M.C,31v (192)-M.C,31v-32r. Aos 17 de
outubro de 1895,Teresa foi designada, por Madre Inês de Jesus, como
irmã espiritual de M.-B. Bellière, ainda seminarista e que será, depois, missionário na África. Aos 30 de maio de 1896, Madre Gonzaga dá a Teresa seu segundo irmão espiritual,que foi o Pe.Adolfo- João-Luis-Eugênio-Roulland, que foi missionário na China. (193)-M.C,32r (194)-CT,189 (195)-CT,193 (196)-CT,198 (197)-P.A.p.151 (198)-CT,244 (199)-CT,253 (200)-CT,254 (201)-C.A.13.7.3 (202)-C.A.2.8.5 (203)-C.A.17.7 (204)-N.V.18.7.4 (205)-N.V.1.8.2 NO SOPÉ
DA MONTANHA Na vida e
na mensagem espiritual de Santa Teresinha, o amor é o ideal, é o ar, é o
sangue, é a vida de tudo. A montanha do amor é a caminhada, que cada um de
nós tem de fazer na sua vivência do amor, embora usemos dessa comparação
apenas para esclarecer nossa exposição, uma vez que nossa Santa não usou
propriamente dessa terminologia, nem nunca pensou em sistematizar a sua
doutrina. Olhando
para si mesma, Teresa só enxerga, porém, pequenez, fraqueza, limitação. Ao
invés, porém, de desanimar, voltar atrás, desistir, ela insiste na sua
caminhada, porque ama. O amor, então, é seu móvel, enquanto é objetivo, meio
e fim ao mesmo tempo. Foi, pois, o amor quem lhe descobriu como partir na sua
subida, ou seja, como sair do sopé da montanha do amor. No sopé da
montanha, pois, em primeiro lugar, Teresa descobriu e viu a sua pequenez, a
sua limitação, a sua impotência diante do grande ideal. Leiamo-la no seu
Manuscrito Autobiográfico, para entendermos a história do seu começo:"É
verdade que, ao ler certas narrativas cavalheirescas, não sentia sempre, no
primeiro momento, a verdade da vida; mas, logo, o bom Deus me fazia sentir
que a verdadeira glória é aquela que durará eternamente e que para aí chegar,
não é necessário fazer obras brilhantes, mas esconder-se e praticar a
virtude, de tal sorte que a mão esquerda ignore o que faz a direita...Foi assim que, lendo as narrativas das
ações patrióticas das heroínas francesas, em particular, as da Venerável
Joana D'Arc, tinha um grande desejo de imitá-las, parecia-me sentir em mim o
mesmo ardor do qual elas estavam animadas, a mesma inspiração celeste. Então,
recebi uma graça, que sempre considerei como uma das maiores de minha vida,
pois, nessa idade eu não recebia luzes, como agora, quando sou inundada por
elas. Pensei que nascera para a glória e, buscando o meio para aí chegar, o
bom Deus me inspirou os sentimentos
que acabo de escrever. Ele me fez compreender também que, não apareceria aos
olhos mortais, que ela consistiria em
me tornar uma grande Santa!!!...Esse desejo poderia parecer temerário, se se
considera como era fraca e imperfeita e como ainda o sou após sete anos passados na vida religiosa,
contudo sinto sempre a mesma confiança audaciosa de me tornar uma grande
Santa, pois não conto com meus méritos, não tendo nenhum, mas espero nAquele
que é a virtude, a própria Santidade. É Ele só, que se contentando dos meus
fracos esforços, elevar-me-á até Ele e, cobrindo-me com seus méritos
infinitos,me fará Santa"(1). Portanto,
no começo da caminhada, temos que considerar nossa fraqueza diante do grande
ideal da santidade. Esse reconhecimento é importante, porque, do contrário,
ou tentaremos caminhar por conta própria e,então, será um desastre total,
porque certamente fracassaremos, ou, então, vamos desanimar, porque a
empreitada é alta demais para nossas capacidades. Teresinha tomou, nesse
particular, a direção certa:"Tu te enganas, minha querida, se crês que
tua Teresinha caminha sempre com
ardor no caminho da virtude. Ela é fraca e bem fraca, todos os dias ela tem
disso uma nova experiência, mas, Maria, Jesus se apraz em lhe ensinar, como a
S.Paulo, a ciência de se gloriar nas suas enfermidades. Isso é uma grande
graça e peço a Jesus para te ensiná-la, porque somente assim se encontram a paz e o repouso do
coração. Quando a gente se vê tão miserável, não quer mais se considerar e só
se olha para o único Bem-Amado!"(2). Jesus
bendisse ao Pai, porque revelara as coisas sagradas aos pequeninos e negara o
conhecimento das mesmas aos soberbos e orgulhosos. O reconhecimento da
própria pequenez, da própria insuficiência deve levar a pessoa a se encostar
em um cantinho especial junto de Deus, e Ele, ao ver a pequenez reconhecida,
mas audaciosa, porque não desanimada, daquela pessoa, certamente, vai
cumulá-la com suas graças divinas: "Há um alma menor, mais impotente do
que a minha?...Contudo, por causa mesmo de minha fraqueza, tu te dignaste,
Senhor,de realizar meus pequenos desejos infantis e tu queres, hoje, realizar
outros desejos maiores do que o universos"(3). Portanto,
o primeiro passo é reconhecer nossa fraqueza, nossa pequenez,como fez
Teresinha:"Jesus, sou demasiado pequena para fazer grandes coisas(4). Na
verdade, Teresa sempre amou os diminutivos. A si mesma se chamava de
"Teresinha", "pequeno zero"(5), "gota de
orvalho"(6), "grão de areia"(7)e o adjetivo
"pequeno", que faz o
diminutivo em francês, aparece, só na sua Autobiografia, nada menos do que ,
trezentos e vinte e cinco vezes, sem contar as suas referências ao "pequeno
Jesus, ao "pequeno anjo", etc. O espírito feminino de Teresinha é
apurado. Ela, por natureza, é graciosa, gentil, delicada, cheia de carinho e
de afeto. Assim, era natural o uso constante de diminutivos, de palavras
recheadas de pequenez, de limitação. Foi quase
natural para Teresa a descoberta de sua própria fraqueza, de sua pequenez, de
sua limitação. Assim, diante do abismo, profundidade, grandeza e altura do
mistério do amor divino, ela, ao invés, de se eclipsar e correr, simplesmente
reconheceu o fato existencial e essencial e olhou para Deus com os olhos do
pequeno:"Como uma alma tão imperfeita, como a minha, pode aspirar a
possuir a plenitude do Amor?"(8), perguntava ela a Jesus, na sua
Autobiografia. A resposta ela mesma no-la dá: "A senhora o sabe, minha
Madre, sempre desejei ser uma santa, mas ah! sempre constatei, quando me
comparei aos santos, que há entre eles e mim a mesma diferença que
existe entre uma montanha, cujo cume
se perde nos céus, e o grão de areia obscuro pisado pelos pés dos passantes.
Ao invés de me desencorajar, disse-me:'O bom Deus não poderia inspirar
desejos irrealizáveis, posso, malgrado minha pequenez, aspirar à santidade;
ser grande é impossível, devo me suportar tal como o sou, com todas as minhas
imperfeições"(9). Portanto,
o segredo está no reconhecimento da própria pequenez, mesmo quando o Senhor
já se tenha dignado cobri-la com
graças e dons maravilhosos, como aconteceu com Maria Santíssima, que se
reconhecendo serva e pequena, abriu-se à graça e o Senhor nela realizou
maravilhas.Por isso, Teresa, à imitação de Maria, escrevia a Celina estas
palavras inspiradas:"Contudo, 'o caminho do homem não está no seu poder'
e, por vezes, surpreendemo-nos a desejar o que brilha. Então, coloquemo-nos,
humildemente, entre os imperfeitos, estimemo-nos alminhas, que têm necessidade
da sustentação de Deus a cada instante; desde que Ele nos vê bem convencidos
de nosso nada, Ele nos estende a mão; se queremos tentar fazer algo de grande, mesmo sob o pretexto de zelo, o
bom Jesus nos deixa sós"(10).
Reconhecer-se pequeno é uma graça especial, porque é o começo de uma
subida:"Madre bem-amada, a senhora não temeu me dizer, um dia, que o bom Deus iluminava minha alma, que
Ele me dava mesmo a experiência dos
anos...Ó minha Madre, sou demasiado pequena para ter, agora, vaidade, sou
demasiado pequena ainda para fazer
belas frases, a fim de fazê-la crer que tenho muita humildade. Prefiro
convir, bem simplesmente, que o Todo-Poderoso fez grandes coisas na alma da
filha de sua divina Mãe, e a maior
foi a de lhe mostrar sua pequenez, sua impotência"(11). Assim
pensou Teresa de Lisieux. Assim ela viveu. Assim ela ensinou. Com efeito, no
mês anterior ao de sua morte, Madre Inês lhe perguntou o que ela entendia por
"permanecer pequeno diante do bom Deus", ao que ela respondeu
prontamente:"É reconhecer seu nada, esperar tudo do bom Deus, como uma
criancinha espera tudo de seu pai. É não se inquietar com nada, não fazer,
absolutamente, fortuna. Mesmo entre os pobres, dá-se à criança o que lhe é
necessário, mas logo que ela cresce, seu pai não quer mais alimentá-la e lhe
diz: Trabalhe, agora, você pode se bastar a si mesmo Foi para não ouvir isso,
que não quis crescer, sentindo-me incapaz de ganhar minha vida, a vida eterna do céu. Fiquei, pois, sempre pequena,
não tendo outra ocupação senão a de colher flores, as flores do amor e do
sacrifício e de oferecê-las ao bom Deus para seu prazer. Ser pequeno é ainda
não atribuir, de modo algum, a si mesmo as virtudes que se pratica, crendo-se
capaz de alguma coisa,mas reconhecer que o bom Deus põe esse tesouro na mão
de seu filhinho, para que ele se sirva quando tiver necessidade, mas é sempre
o tesouro do bom Deus. Enfim, é não se desencorajar jamais por causa de suas
faltas, pois as crianças caem muitas vezes, mas elas são demasiado pequenas
para se fazerem muito mal"(12). Nessa
linha de pensamento, podemos entender
as palavras, que ela escreveu a sua tia, Senhora Guérin, em julho de
1895:"Pois bem, é preciso me perdoar se digo a verdade, eu que sou e quero permanecer sempre uma
criança"(13).E tão convencida
estava Teresinha de que era esse o verdadeiro caminho, que a Leônia, sua
irmã, em dezembro de 1893, pedia, em uma carta:"Querida Irmãzinha, não
esqueça de rezar por mim durante o mês do querido Menino Jesus, pede-lhe que
eu permaneça sempre pequena,
pequenina!"(14)
Reconhecer-se pequeno, aceitar sua pequenez, e fazer aquilo que se
pode, é o dialética do"Pequeno Caminho":"Os grandes santos
trabalharam para a glória do bom Deus, mas eu que sou apenas uma alminha, eu
trabalho unicamente para seu prazer e ficaria feliz em suportar os maiores sofrimentos, quando isso
servisse para fazê-lo sorrir mesmo
uma só vez"(15).
Psicologicamente, não há receita mais recomendável do que essa tomada
de posição diante da nossa realidade existencial. Os psicólogos, falando do
ponto de vista médico, recomendam esse posicionamento pessoal diante das
nossas fraquezas. O resultado é sempre satisfatório. E se o é no campo
simplesmente humano, imaginemos
quanto não o será na vida espiritual. Teresinha sentiu os efeitos
benéficos de sua atitude de "permanecer pequena" diante de
Deus:"É tão doce a gente se sentir fraco e pequeno!"(16). Em outra
ocasião, reconhecendo uma falta, ela disse:"Oh! como sou feliz em me
vendo imperfeita e por ter tanta necessidade da misericórdia do bom Deus no
momento da morte!"(17). E, ainda mais perto da morte, disse:"Sinto
uma alegria muito viva não somente quando me acham imperfeita, mas sobretudo
por eu mesma me sentir. Isso sobrepassa todos os cumprimentos que me
enjoam"(18). Vê-se, por
aí, que nossa Santa já alcançara o cume da montanha e o alcançara pelo
caminho da pequenez. Lá, em cima da montanha, ela ainda se enxerga pequena e
não era para menos, porque onde estava, dava para ver, muito melhor do que na
planície, a grandeza de Deus. A alegria
de ser pequeno diante de Deus leva o homem a uma fé muito além da sua
existência. Essa situação de pequenez, reconhecida e aceita, gera certezas
consoladoras, mesmo para além do horizonte terreno. Se na terra, o pequeno
goza dos benefícios do amor predileto de Deus, como não o gozará depois da
morte? Por isso, Teresa afirma com convicção:"As criancinhas não se
condenam!"(19). Não foi
por nada que Teresa de Lisieux apelidou a sua mensagem espiritual de
"Pequeno Caminho". Caiu-lhe muito bem esse nome, que a Santa lhe
deu. Muito melhor do que de "Infância Espiritual", que é
uma glosa posterior. A pequenez
lembra e se correlata com a humildade. Com efeito, quem se julga pequeno,
sabe o seu lugar, reconhece o seu limite, em suma, é humilde, porque é
verdadeiro. Separamos
o conceito de pequenez do conceito de humildade, porque o primeiro releva
mais um significado psicológico e se refere mais à própria pessoa, enquanto
que o conceito de humildade se relaciona mais com o de virtude e parece dizer
mais respeito ao relacionamento entre a pessoa e Deus,porém, ambos estão tão
unidos que a pequenez só se entende com a humildade, embora a humildade não
requer, de imediato, que o homem viva a modo teresiano, isto é, de querer
permanecer sempre pequeno. Antes de
mais nada, temos de salientar a idéia de Santa Teresa de Ávila de que a
humildade é a verdade. Com efeito, ser humilde é reconhecer aquilo que
realmente se é. Ora bem, o homem, na verdade, por mais importante que seja
entre os homens, ele, diante de Deus, é muito pouco. Ademais, cada homem tem
seus limites e suas limitações. Por isso, ser humilde é reconhecer a verdade
de si mesmo. Santa Teresinha, na sua peça teatral "S.Estanislau
Kostka", faz que S.Francisco
Bórgia leia uma carta de S.Francisco Canísio, na qual estão escritas
as seguintes palavras:"Alguns dos nossos padres se admiraram do que lhes
parecia ser uma falta contra a virtude da humildade; quanto a mim devo
confessar a Vossa Reverendíssima que a simplicidade do irmãozinho Estanislau
me instruiu mais do que vários tratados, que meditei longamente e que
falavam, todos, sobre a humildade. Uma vez que essa virtude outra coisa não é
senão a verdade, acho que nosso simples noviço a possui em
plenitude"(20) Teresinha
sempre amou a verdade, jamais quis ter pó nos olhos para não ver "as
coisas tais quais elas o são"(21). Por isso, seu coração foi voltado
para Deus, para as coisas sagradas, e, não, para as vaidades do mundo que
passam:"Falem-me do bom Deus, do exemplo dos santos,de tudo o que é
verdade"(22). Amante da verdade, consciente da sua pequenez, ela, no
final da vida, podia, tranqüilamente, confessar publicamente:"Sim,
parece-me a mim que sou humilde...O bom Deus me mostra a verdade; sinto muito
bem que tudo vem dEle"(23). Nossa
Santa compreendeu tão bem o valor da verdade, que não somente aceitou ser o
que era, com toda humildade, mas quis que ser humilhada, ou seja, quis que os
outros descobrissem o que realmente ela era:"Não posso dizer que Jesus
me faz andar, exteriormente, pelo caminho das humilhações; Ele se contenta em
me humilhar no fundo de minha alma. Aos olhos das criaturas tudo me sai bem;
sigo o caminho das honras, tanto quanto isso é possível na vida religiosa.
Compreendo que não é para mim, mas para os outros, que é preciso andar por
esse caminho, que parece tão arriscado. De fato, se eu passasse aos olhos da
comunidade por uma religiosa cheia de defeitos, incapaz, sem inteligência nem
juízo, ser-lhe-ia impossível, minha Madre, fazer-me sua ajudante. Eis por que o bom Deus colocou um véu
sobre todos os meus defeitos interiores e exteriores. Esse véu, por vezes,
atrai para mim certos cumprimentos da parte das noviças. Sinto bem que elas
não o fazem por adulação, mas que é a expressão de seus sentimentos ingênuos;
verdadeiramente isso não poderia me inspirar vaidade, pois tenho,
constantemente, presente no pensamento a lembrança do que eu sou. Contudo,
algumas vezes, vem-me um desejo bem grande de ouvir outras coisas que não
sejam louvores. A senhora sabe, minha Madre, que prefiro o vinagre ao açúcar;
minha alma também se cansa de um alimento demasiado açucarado e Jesus
permite, então, que lhe sirvam uma boa saladinha, bem avinagrada, bem
picante, nada lhe faltando exceto o óleo, o que lhe dá um sabor a mais...Essa
boa saladinha me é servida pelas noviças no momento em que menos espero. O
bom Deus levanta o véu, que esconde minhas imperfeições, então, minhas
queridas irmãzinhas, vendo-me tal qual eu sou, não me acham mais
completamente a seu gosto. Com uma simplicidade, que me encanta, elas me
contam todos os combates que lhes provoco, o que lhes desagrada em mim;
enfim, elas não se preocupam mais como se fosse com outra, sabendo que me dão
um grande prazer agindo assim. Ah! verdadeiramente é mais do que um prazer, é
um festim delicioso, que enche minha alma de alegria. Não posso me explicar como uma coisa, que desagrada
tanto à natureza, possa causar tão grande felicidade; se não o tivesse
experimentado, não poderia
crê-lo...Um dia, que desejara, particularmente, ser humilhada,
aconteceu que uma noviça se encarregou tão bem de me satisfazer, que logo
pensei em Semei amaldiçoando Davi e
eu dizia a mim mesma: Sim, é bem o Senhor que lhe ordena me dizer todas essas
coisas...E minha alma saboreava, deliciosamente, o alimento amargo, que lhe
era servido com tanta abundância"(24).Em uma bela carta, dirigida à
Madre Inês de Jesus, ela pedia que rezasse por ela na seguinte
intenção:"Reze pelo pobre grãozinho de areia, que o grão de areia esteja
sempre no seu lugar, isto é, sob os pés de todos, que ninguém pense nele, que
sua existência seja,por assim dizer, ignorada, o grão de areia não deseja ser
humilhado, isso é ainda demasiado glorioso, porque seriam obrigados a se
ocupar com ele, ele só deseja uma coisa:ser esquecido, tido por
nada"(25). Nossa
Teresa guardará sempre esse desejo de ser humilhada, para que, de fato, nela
nada viesse, um dia,contrapor-se à verdade do que ela pensava de si mesma. Já
pertinho de morrer, ela dizia:"Oh! como quisera ser humilhada e
maltratada para ver se tenho, verdadeiramente, a humildade do
coração!...Contudo, quando era humilhada
há tempos atrás, ficava bem feliz"(26). E, na sua
consciência esclarecida pela verdade da humildade, Teresa nunca quis aparecer
diferente do que ela se julgava. Assim, não só se alegra quando lhe dão uma
saladinha bem avinagrada, mas ela mesma confessa, pública e simplesmente,
suas fraquezas. Assim,certo dia, disse à Madre Inês, com toda a
simplicidade:"Eu dormi um segundo (alguns instantes, segundo N.V.)
durante a oração"(27). No
Manuscrito C, da sua Autobiografia, Teresinha fala, com toda a sinceridade
com Madre Gonzaga, sobre o relacionamento entre ela e a Priora. Relembra,
então, a dureza de que foi vítima por parte da Superiora, enquanto algumas
pessoas pensavam que ela era a menina querida da Madre.Teresa olha tudo com
os olhos da verdade e da humildade, ensinando-nos que, no trato com as
pessoas, sobretudo, com os superiores, é preciso ser humilde para receber, no
reconhecimento de nossa pequenez, o que eles nos dão. A humildade, então,
faz-se mais do que necessária:"Ah! sinto-o bem, Madre querida, é o bom
Deus quem me fala sempre pela senhora. Muitas irmãs pensam que a senhora me
tem ninado; que, desde minha entrada na arca santa, da senhora só tenho recebido
carícias e cumprimentos, contudo, não é assim. A senhora verá, minha Madre,no
caderno, que contém minhas lembranças de infância, o que penso da educação
forte e maternal, que recebi da senhora. Do mais profundo do meu coração, eu
lhe agradeço por não me ter poupado. Jesus sabia bem que era necessária à sua florzinha a água vivificante da
humilhação, ela era demasiado fraca para pegar raízes sem esse recurso e foi
pela senhora, minha Madre, que esse benefício lhe foi dispensado. Desde um
ano e meio, Jesus quis mudar a maneira de fazer crescer sua florzinha, ele a
achava, sem dúvida, bastante orvalhada, pois, agora, é o sol que a faz
crescer. Jesus não quer mais para ela senão seu sorriso, que Ele lhe dá ainda
pela senhora, minha Madre bem-amada. Esse doce sol, longe de fazer
murchar a florzinha, fá-la desenvolver-se maravilhosamente. No fundo
de seu cálice ela conserva as preciosas gotas de orvalho que recebeu e essas
gotas lhe lembram sempre que ela é pequena e fraca...Todas as criaturas podem
se voltar para ela, admirá-la, cumulá-la com seus louvores, não sei por que,
mas isso não poderia ajuntar uma só gota
de falsa alegria à verdadeira
alegria que ela saboreia no seu coração, vendo-se como ela é aos olhos do bom
Deus: um pobre nadinha, nada mais. Digo não compreender por que, mas não é
porque ela foi preservada da água dos
louvores durante todo o tempo, que seu pequeno cálice estava bastante cheio do orvalho da humilhação? Agora, não há
mais perigo, pelo contrário, a
florzinha acha tão delicioso o orvalho, do qual está cheia, que ela
tomaria todo o cuidado para não mudá-lo pela água tão insossa dos
cumprimentos"(28). E mais
ainda, nossa Santa afirma que, algumas vezes, é preciso não temer se humilhar
diante de alguma pessoa, porque esse é o caminho certo no trato com certas
almas:"Com certas almas, sinto que é preciso fazer-me pequena, não
temer, absolutamente, humilhar-me, confessando meus combates, meus defeitos.
Vendo que tenho as mesmas fraquezas que elas, minhas irmãzinhas me confessam, por sua vez, as faltas de
que se reprovam e se alegram porque eu as compreendo por experiência(29).
Aqui, a humildade se une à caridade, à psicologia espiritual, pois o Pequeno
Caminho teresiano é um conjunto bem organizado e sintonizado. Uma vez
que, a humildade é a base da subida da montanha do amor, o pequenino que
subir essa montanha, tem de aceitar, pois, a humildade como a vontade do
Senhor. Ora bem, aceitar a vontade do Senhor é a expressão prática do amor no
Pequeno Caminho, por isso, nada mais justo e consentâneo do que considerar as
humilhações, ou seja, os atos e fatos da vida que parecem nos humilhar, como
a vontade expressa do Senhor, que, querendo-nos bem, quer nos purificar de
todo o orgulho, já que o orgulho é o afastamento de Deus. Comentando
a grave doença, de que foi acometida, quando era ainda bem pequena, Teresinha
escreve:"O bom Deus, que queria sem dúvida me purificar e, sobretudo, me
humilhar, deixou-me esse martírio íntimo até minha entrada no
Carmelo"(30). E, para que todos entendem que essa é mensagem teresiana
no seu Pequeno Caminho, aqui estão umas palavras bonitas de Santa Teresinha
dirigidas a sua irmã, Celina, em abril de 1894:"Não tema, minha Celina
querida, enquanto tua lira não cessar de cantar por Jesus, ela não se quebrará...Sem
dúvida, ela é frágil, mais frágil do que o cristal; se a desses a um músico
inexperiente, logo estaria quebrada, mas é Jesus quem faz vibrar a lira do
teu coração...Ele está feliz, porque sentes tua fraqueza; é Ele quem imprime
na tua alma os sentimentos de desconfiança de si mesma. Celina querida,
agradece a Jesus. Ele te cumula com suas graças de escolha, se ficares sempre
fiel a lhe dar prazer nas coisas pequenas, Ele ficará obrigado a te ajudar
nas GRANDES...Os Apóstolos, sem Nosso Senhor, trabalharam toda uma noite e
não apanharam nenhum peixe, mas o trabalho deles era agradável a Jesus, Ele
queria lhes provar que Ele só pode nos dar
qualquer coisa, Ele queria que os apóstolos se humilhassem...'Rapazes,
disse-lhes, não têm nada para comer? -Senhor, respondeu S.Pedro, pescamos a
noite toda sem pegar nada'. Talvez se eles tivessem pegado alguns peixinhos,
Jesus não teria feito o milagre, mas
ele não tinha nada, por isso Jesus encheu sua rede a quase se romper. Eis aí
o caráter de Jesus. Ele dá, como Deus, mas quer a humildade do
coração"(31).E ao Padre Bellière, nossa Santa escrevia, como Mestra e
Guia, estas palavras-mensagem:"Ah! meu irmão, como a bondade, o amor
misericordioso de Jesus são pouco conhecidos!...é verdade que, para gozar
desses tesouros, é preciso se humilhar, reconhecer seu nada, e eis o que
muitas almas não querem fazer"(32). Dissemos
que o Pequeno Caminho é uma Mensagem de Amor. Pois bem, a humildade, que é a
verdade, só tem sentido quando ela está unida ao amor e é feita por amor. O
Pequeno Caminho, pois, é de humildade, que inicia a caminhada, e de amor, que
envolve toda a caminhada, como seu fim, seu ideal, seu objetivo, seu ar, sua
vida. Por isso, Teresinha, a um mês de sua morte, ainda pôde escrever à Irmã
Maria da Trindade, por ocasião do aniversário daquela irmã:"Que sua vida
seja toda de humildade e de amor, a fim de que, em breve, você venha para
onde eu vou:para os braços de Jesus!"(33). Assim,
fica claro que a humildade é a base da santidade, da caminhada da perfeição
espiritual. Numa carta bonita a Celina, na qual ela se subscreve como "o
pobre grão de areia", Teresinha afirma entusiasmada:"Que felicidade
ser humilhada, é o único caminho que faz os santos!"(34). E, em junho de
1897, ela escrevia, de novo, a Celina, com este convite fraterno:"Sim,
basta se humilhar, suportar, com doçura, suas imperfeições. Eis aí a
verdadeira santidade! Peguemos a mão uma da outra, irmãzinha querida, e
corramos para o último lugar...ninguém virá disputá-lo conosco"(35). Além da
razão fundamental de que a humildade é a verdade e é a base de toda a
caminhada da santidade, Teresa de Lisieux enxerga para a necessidade da
humildade alguns fatores práticos. Por exemplo, o fato de sermos pecadores leva-nos, diretamente, à humildade,
pois, certamente, os pecados são motivo para nossa humilhação. Todavia, é bom
nunca esquecer que agrada a Deus, como diz o salmista, o coração contrito e
humilhado. Assim, na peça "S.Estanislau Kostka", Teresa coloca nos
lábios de S.Francisco Bórgia, estas
palavras do salmo, e de uma maneira mais forte:"Não existe mesmo
sacrifício mais agradável a Deus do que o de um coração contrito e
humilhado"(36). Outro
motivo prático da humildade, apresentado por Teresa, é um motivo bíblico. Com
efeito, foi pelo orgulho que nossos primeiros pais pecaram, querendo ser
iguais a Deus. A tentação continua e o nosso pecado outra coisa não é senão o
nosso orgulho de querer ser livre da lei do Senhor. Por isso, desobedecemos.
Assim, o demônio, filho das trevas, é o filho do orgulho, porque é o símbolo
de um levantamento claro, consciente e formal contra Deus. Certamente, diz
Teresa, a humildade é arma forte e decisiva para afugentar a tentação e
vencer o maligno. Na famosa peça teatral "O Triunfo da Humildade",
a própria Teresa diz estas palavras:"Ó minhas irmãs! Que graça o Senhor
acaba de nos conceder!...É preciso ir bem depressa contar à Nossa Madre o que
ouvimos; é preciso lhe dizer que sabemos, agora, o meio de vencer o demônio e
que, a partir de agora, só temos um desejo, o de praticar a humildade...eis
nossas armas, nosso escudo; com essa força toda poderosa, saberemos, quais
novas Joana D'Arc, expulsar o estrangeiro do reino, isto é, impedir que o
orgulhoso Satanás entre em nossos mosteiros"(37). E a peça termina com
esta declaração interessante:"A Humildade põe o inferno em
polvorosa!"(38).Aliás, na mesma peça, Teresa relembra, por meio de S.Miguel, a humildade da Virgem ,que
esmagou a cabeça da serpente,com seu pé virginal, mostrando-nos, assim, a
Virgem Mãe, como exemplo de humildade e de vencedora do Mal. A
humildade é necessária e é fundamental, mas nunca devemos esquecer de que ela
é a verdade. Portanto, com toda nossa imperfeição, não podemos nem devemos
esquecer as maravilhas, que Deus pode operar em nós, o que nos deve levar a
querer amar a Deus mais ainda. Nesse sentido, Santa Teresinha esclarecia seu
irmão espiritual, Padre Bellière, com estas palavras bem sensatas:"Ó meu
Irmão! eu lhe peço, creia em mim, o bom Deus não vos deu, por irmã, uma grande
alma, mas uma pequenina e muito imperfeita. Não creia que seja a humildade
que me impede reconhecer os dons do
bom Deus. Sei que Ele fez em mim grandes coisas e eu o canto, cada dia, com
felicidade. Lembro-me que aquele a quem se perdoou mais, deve amar mais, por
isso procuro fazer de minha vida um ato de amor e não me inquieto por ser uma
alminha, pelo contrário, eu me alegro com isso"(39). O pequeno
tem de ser, por natureza, humilde. Reconhecendo-se fraco, impotente,ele
procura seu lugar e fica feliz com a sua verdade. Assim, ele é humilde. E é
assim que se começa a subida da montanha do amor. O
pequenino, o humilde, é, também, por natureza, pobre. Aliás, ele já se julga
pequeno e é humilde, porque é pobre. Por
outro lado, para ser humilde e pequeno, no sentido teresiano, é
preciso ser pobre. Pobre nos dois sentidos, isto é, no sentido de pobreza
material e no sentido evangélico, a saber, a pobreza em espírito. Qualquer
coisa pode impedir nosso vôo com a Águia Dourada para o cume da montanha do
amor. Até mesmo um fio de cabelo pode amarrar o pobre passarinho, que, então,
ficará agarrado ao seu lugar e não poderá subir a montanha, nem mesmo, e
muito menos, nas asas da Águia Dourada. Por isso, o peregrino do Pequeno
Caminho tem apenas o que lhe é necessário. É desapegado de todos os bens
materiais.Ademais, seu espírito é livre. julgando que tudo é de Deus e que
tudo é para todos. O verdadeiro pobre evangélico é simples, é puro, é limpo,
é livre. Assim, pequenez, humildade e pobreza formam parte do conjunto dos apetrechos do
viandante, do peregrino, que quer subir a montanha da amor. No
Processo Informativo Ordinário, Madre Inês testemunhou a respeito da pobreza
em Teresinha, da seguinte maneira:"A prática da pobreza religiosa lhe
era muito cara; não somente ela aceitava com alegria a pobreza ordinária do
Carmelo, mas no Carmelo ela ficava feliz por lhe faltarem algumas coisas,
mesmo as mais necessárias. Quando, por exemplo, no refeitório, esqueciam-se
de servi-la, ela ficava feliz com isso e evitava fazer notar. Ela dizia:'Sou como os verdadeiros pobres, não
vale a pena fazer o voto de pobreza, e não sofrer com isso'. Algumas
vezes,plagiavam algum dos seus pensamentos. Ela achava bem natural e dizia que, em virtude da pobreza, ela não
devia reclamar esse bem como qualquer outro"(40). Teresa amou
a pobreza e os pobres desde pequenina. Sua vida toda, por incrível que
pareça, foi voltada para os pobres e a pobreza. Quando ainda bem pequena, aos
domingos, durante seus passeios com a família, acontecia, às vezes, encontrar
alguns pobres, então:"Era sempre Teresinha que era encarregada de lhes
dar esmola, com o que ela ficava bem feliz"(41). Um dia, um pobre
marcou-a profundamente. Dele ela não vai mais se esquecer:"Durante os
passeios, que fazia com Papai, ele gostava de me fazer dar esmola aos pobres,
que encontrávamos.Um dia, vimos um que andava, com muita dificuldade, com
suas muletas. Aproximei-me dele para lhe dar um soldo, mas, não se achando
bastante pobre para receber a esmola,
ele me olhou, sorrindo tristemente, e recusou receber o que lhe oferecia. Não posso dizer o que se passou no meu coração,
teria querido consolá-lo, aliviá-lo; ao invés disso pensava lhe ter feito sofrer.
Sem dúvida, o pobre doente adivinhou meu pensamento, pois o vi se virar e me
sorrir. Papai acabara de me comprar um presente, tinha muita vontade de lho
dar, mas não ousei, contudo, queria lhe dar alguma coisa, que ele não pudesse
recusar, pois sentia por ele uma simpatia muito grande, então, lembrei-me de
ter ouvido dizer que, no dia da primeira comunhão se obtinha tudo que se
pedia; esse pensamento me consolou e, embora não tivesse ainda senão seis
anos, disse para mim mesma: 'Rezarei pelo meu pobre no dia de minha primeira
comunhão'. Cumpri minha promessa cinco anos mais tarde e espero que o bom
Deus tenha ouvido a prece, que me inspirou para lhe fazer por um de seus
membros sofredores"(42). Mais
tarde, no final da sua vida, Teresinha guardará sempre o mesmo pensamento com
relação à pobreza e aos pobres. Antes, tê-lo-á aperfeiçoado, porque, então,
terá sentido o sacrifício da pobreza na vida de carmelita:"Se tivesse
sido rica, ter-me-ia sido impossível ver um pobre passando fome sem lhe dar,
imediatamente, dos meus bens. Assim, na medida em que ganho algum tesouro espiritual,
sentindo que, no mesmo instante, há almas em perigo de se perder e de cair no
inferno, dou-lhes tudo que possuo, e ainda não encontrei um momento para me
dizer: Agora, vou trabalhar para mim"(43). Entre as
muitas razões que Teresinha aponta
para se amar a pobreza material, uma é de realce, a saber, porque
Jesus foi pobre:"Ah! como não amar um amigo, que se reduz a uma tão
extrema indigência? Como ousar alegar
ainda sua pobreza, quando Jesus e torna semelhante à sua Noiva?...Ele era
rico e se fez pobre, para unir sua pobreza à pobreza de Maria do Santíssimo
Sacramento...Que mistério de amor!"(44). Por isso,
Teresa compreende a preferência de Jesus pelos pobres. Evidentemente, aqui,
nossa Santa une os dois conceitos de pobre, espiritual e material, mas, não
resta dúvida que sua opinião é muito atual diante da situação real em que
vivemos e diante da tomada de posição dos Bispos latino-americanos, em
Puebla. A sua peça
teatral, "A Fuga para o Egito", termina com um canto triunfal de um
Anjo, que, às tantas, diz assim:
"Mas, se os grandes desprezam vosso império, ó
Rei do céu! Astro misterioso,
Desde muito tempo, mais de um coração vos deseja.
Sois vós a esperança de todos os infelizes.
Astro divino, ó Sabedoria profunda.
Vós espalhais vossos inefáveis dons,
Sobre os pequenos, os pobres deste mundo. E
no céu vós escreveis seus nomes"(45). Essa
convicção teresiana não era momentânea, pois no ano seguinte, ano da sua
morte, ela escrevia a respeito das lições que teve e que aprendeu durante sua
viagem a Roma:"Sou muito feliz por ter estado em Roma, mas compreendo as
pessoas do mundo que pensaram que, Papai me dera essa grande viagem a fim de mudar minhas idéias de vida
religiosa; havia, com efeito, o que podia abalar uma vocação pouco firme. Não tendo jamais vivido no meio do
grande mundo, Celina e eu, encontramo-nos no meio da nobreza, que compunha,
quase exclusivamente, a peregrinação. Ah! bem longe de nos seduzir, todos
esses títulos e esses "de" nos apareceram só como fumaça..De longe,
isso me tinha lançado nos olhos um pouco de pó, mas de perto, vi que
"nem tudo que brilha é ouro", e compreendi esta palavra da Imitação:'Não
procurai essa sombra, que se chama um grande nome, não desejai nem muitas ligações, nem a amizade
particular de algum homem'. Compreendi que a verdadeira grandeza se encontra
na alma e não no nome, pois que, como o diz Isaías:'O Senhor dará OUTRO NOME
aos seus eleitos', e S.João diz também:'Que o vencedor receberá uma pedra branca, sobre a qual está escrito um NOME NOVO, o qual
ninguém conhece a não o que o recebe'.Será, pois, no céu, que saberemos quais
são nossos títulos de nobreza. Então, cada um receberá de Deus o louvor que
merece e aquele que, na terra, terá querido ser o mais pobre, o mais
esquecido pelo amor de Jesus, esse será o primeiro, o mais nobre e o mais
rico!"(46). Neste texto, Teresa enxerga mais longe e encara a questão
social com vistas de cristã. No seu tempo, essa questão estava no auge.
Discutia-se, por toda a parte, a desigualdade entre ricos e pobres. A
carmelita Teresinha não ficou indiferente às discussões e aos problemas do
seu tempo.Por ser contemplativa, não foi uma alienada. Pelo contrário, ela
refletiu e meditou sobre o problema. E deu também sua opinião. Deus ama os
pobres e, no final dos tempos, no momento da recompensa, então, sim, Lázaro
será o bendito do Pai. Todavia, Teresa não aceita a revolta e a anarquia:"A
bem-aventurança da pobreza não é um programa social, mas ela determina um
estilo de vida finalmente contestatório, o dos pobres de Javé"(47).Na
"Fuga para o Egito", a revoltada Suzana diz a José e a
Maria:"O negócio pelo qual fazeis essa tão punível viagem deve ser muito
importante. Se é para buscar fortuna no Egito, eu nos vos animo a continuar
vosso caminho: lá, os pobres são, parece, ainda mais infelizes do que no
nosso país. Aliás, deveis saber que a miséria segue, por toda a parte, os que nasceram sob sua estrela. O
único meio de subtrair-se dela é se revoltar contra os ricos e tomar deles,
pela força, as riquezas que são divididas injustamente". A esse discurso
de Suzana, S.José responde calmo:"Não é da pobreza que nós fugimos. A
felicidade não consiste em possuir a riqueza, mas em submeter, humildemente,
sua vontade à vontade de Deus, que dá a cada um o que Ele sabe ser necessário
à salvação de sua alma"(48). Assim, sem ocultar-se à questão social,
Teresa reconhece o problema, tem certeza de que Deus ama os pobres e
desprezados e que lhes dará, na Pátria,o necessário reconhecimento. Todavia,
não aceita, de modo algum, a anarquia e a revolta pela força, pois esse não é
o caminho bíblico para os pobres de Javé. Por isso, Tereza diz, pela boca da
Maria Santíssima,:"A pobreza, que encontraremos no exílio, não me
amedronta, pois que possuiremos sempre o Tesouro, que faz a riqueza do céu.
Sua divina Providência, que alimenta os passarinhos, sem esquecer um só,
dar-nos-á o pão de cada dia"(49). Seguindo todo
o discurso bíblico sobre a pobreza, bem como seguindo toda a dialética
teresiana da pequenez e da humildade diante do Senhor, nada mais consentâneo
e natural do que colocar, no sopé da montanha do amor, a pobreza. Impõem-se,
aqui, razões de necessidade evangélica e psicológica. No Pequeno Caminho, o
homem, reconhecendo sua insignificância, aceita, de bom grado, seu estado
limitado de pequenez, e, com essa humildade, procura voar nas asas da Águia
Dourada, porém, para isso, tem de aceitar ser pobre, ou seja, livre de
qualquer coisa que possa ser uma riqueza, um bem, de tal modo que lhe pareça
não precisar mais de nada, nem muito menos de Deus, pois Deus resiste aos
orgulhosos. Assim, é natural que a pobreza seja uma base essencial do Pequeno
Caminho teresiano. Sem ela, o homem não precisaria de Deus, poderia andar
sozinho, o que certamente levá-lo-ia ao fracasso, e dispensaria o ascensor
divino, que são as asas da Águia Dourada, ou os braços de Jesus. Depois de
constatar sua pequenez e fraqueza para se tornar uma grande santa, Teresinha
escreve na sua Autobiografia:"Quero procurar um meio de ir para o céu
por um pequeno caminho bem reto, bem curto,um pequeno caminho todo novo.
Estamos num século de invenções, agora não vale mais a pena subir os degraus de uma escada; na casa dos ricos um
ascensor o substitui vantajosamente. Também eu quisera encontrar um ascensor para me elevar até
Jesus, pois sou demasiado pequena para subir a dura escada da perfeição.
Então, busquei nos Livros santos a indicação do ascensor, objeto de meu
desejo e li estas palavras saídas da boca da Sabedoria eterna:'Se alguém é
pequenino, que venha para mim'. Então, vim, pensando que encontrara o que
buscava e querendo saber, ó meu Deus, o que faríeis ao pequenino que
respondesse ao vosso apelo, continuei minhas pesquisas e eis o que
encontrei:'Como uma mãe acaricia seu filho, assim eu vos consolarei, eu vos
carregarei no meu regaço e vos embalarei sobre meus joelhos!'. Ah! jamais
palavras mais ternas, mais melodiosas vieram alegrar minha alma. O ascensor,
que deve me elevar até o céu, são vossos braços, ó Jesus! Por isso, não tenho
necessidade de crescer, pelo contrário, é preciso que permaneça pequena, que
me torne cada vez mais"(50). É, pois,
pela própria essência do Pequeno Caminho e, não só, pela experiência
existencial de Teresa, que ela insiste na união da pequenez e da humildade
com a pobreza. Aqui, evidentemente, entra também, a questão da pobreza
material e da pobreza em espírito e é evidente também que, nossa Santa insista
mais na pobreza em espírito, uma vez que ela já vivia a pobreza material pelo
voto de pobreza, como veremos mais adiante. Todavia,partindo do conceito
geral e abrangente de pobreza, podemos ver como ele se conecta, direta e
essencialmente, com o Pequeno Caminho, segundo as palavras de Teresa, para,
depois, salientar os dois aspectos da pobreza na vida e no pensamento de
Santa Teresinha. Em uma
carta a sua irmã, Maria do Sagrado Coração, depois de falar do significado
dos seus desejos de martírio,Teresa acrescenta:"Ah! sinto bem que não é
isso, de modo algum, que agrada ao bom Deus na minha alma, o que lhe agrada é
me ver amar minha pequenez e minha pobreza, é a esperança cega que tenho na
sua misericórdia"(51). E, nessa mesma carta, ela acrescenta:"Só o
desejo de ser vítima basta, mas é preciso consentir em permanecer pobre e sem
força..."(52). Bem se vê, por essa carta, que Teresa une pequenez e
pobreza, como sendo dois elementos fundamentais do seu Pequeno Caminho. E não
basta, na verdade, o simples fato de ser pobre, permanecer pobre. É
necessário também amar essa pobreza. Teresa insiste, várias vezes, nesse
amor. Trata-se, pois, de uma aceitação total, de uma aceitação
amorosa.Referindo-se Santa Teresinha à sua visita à casinha de Loretto, durante
sua viagem pela Itália, e à comunhão que fez naquela casinha, faz o seguinte
comentário:"E a senhora compreende, minha Madre querida, qual foi nosso
encanto por fazermos, todas as duas, a Santa Comunhão nessa casa
bendita!...Era uma felicidade toda celestial, que as palavras são impotentes
para traduzir. Que será, pois, quando recebermos a comunhão na morada eterna do Rei dos céus?...Então, não
veremos mais terminar nossa alegria, não haverá mais a tristeza da partida, e
para levar uma lembrança não nos será mais necessário raspar, furtivamente,e
os muros santificados pela presença divina, pois que sua casa será a nossa
pela eternidade...Ele não nos quer dar a da terra, ele se contenta de no-la
mostrar para nos fazer amar o pobreza e a vida escondida"(53). Portanto,
amar a pobreza, porque estamos num tempo de passagem, de expectativa, de
esperança. Santa
Teresinha foi uma carmelita, portanto, uma religiosa com voto de pobreza.
Como ela entendeu esse voto? Em que consiste, realmente, esse voto de pobreza
para uma pessoa, que o faz? A Santa
nos responde por partes. Ela levou muito a sério esse voto de pobreza. Ela,
que nunca sentiu falta de nada. Que sempre foi rodeada de presentes, de
carinho, de afeto, de distinção, de amor. Ela que tinha seus brinquedos, suas
belas roupas,seus livros, e que recebia muitos presentes. Ela levou muito a
sério esse voto de pobreza:"Desde minha vestição, já recebera abundantes
luzes sobre a perfeição religiosa, principalmente, a respeito do voto de
Pobreza. Durante meu postulantado, ficava contente ao ver coisas agradáveis à
minha disposição e a ter em mãos tudo que me era necessário. "Meu
Diretor" sofria isso pacientemente, pois ele não gosta de mostrar tudo
às almas ao mesmo tempo. Ordinariamente, ele dá sua luz pouco a pouco...Uma
noite, após Completas, procurei, em vão, nossa lamparina nas prateleiras
reservadas para esse uso. Era o
grande silêncio, impossível reclamá-la... Compreendi que uma irmã, crendo
pegar sua lamparina, pegara a nossa, da qual eu precisava tanto; ao invés de
sentir um pesar por estar privada
dela, fiquei bem feliz, sentindo que a pobreza consiste em se ver
privado não somente das coisas
agradáveis, mas também das coisas indispensáveis. Assim, nas trevas
exteriores, fui iluminada interiormente"(54). Assim, o
voto de pobreza vai muito além do que se possa, à primeira vista, imaginar.
Segundo Teresinha, ele não é somente a privação do útil, do agradável, mas é
também privação, livre e amorosa, do necessário.E, ainda mais, é amar essa
nova situação existencial:"Fui tomada, nessa época, por um verdadeiro
amor pelos objetos mais feios e menos cômodos, assim, foi com alegria que vi
me tirarem a linda bilhazinha de
nossa cela e colocar, no seu lugar, um grosso cântaro todo
esborcinado"(55). E Teresinha
levava tão a sério seu voto de pobreza, que chegou mesmo a pensar em outro
Carmelo, onde até mesmo fosse privada de afeto, de conhecimento, do carinho,
que recebia em Lisieux:"Aqui, minha Madre, vivo sem nenhum embaraço dos
cuidados da miserável terra, só tenho que cumprir a doce e fácil missão que a
senhora me confiou. Aqui, sou cumulada de seus obséquios maternais, não sinto
a pobreza não me tendo jamais faltado nada. Mas, sobretudo, aqui, sou amada
pela senhora e por todas as irmãs e essa afeição me é bem doce. Eis por que
sonho com um mosteiro, onde seria desconhecida, ou teria se sofrer a pobreza, a falta de atenção, enfim, o
exílio do coração"(56). Portanto,
purificação total; desapego completo; de corpo e de alma. Assim, entendeu
Teresinha o seu voto de pobreza. E, para que não se pense que se trata apenas
de sentimentalismo, ela nos dá, na sua experiência existencial, um exemplo
concreto,pois quando solicitada pela Pe.Bellière, para que lhe deixasse uma
lembrança, respondeu com toda a simplicidade:"Dar-lhe-ia, com alegria, o
que você me pede se não tivesse feito o voto de pobreza mas, por causa dele,
não posso depor nem sequer de uma imagem, é somente nossa Madre quem pode
satisfazê-lo e sei que ela atenderá a seus desejos"(57). Pobreza
material bem rigorosa e pobreza em
espírito, como pede a bem-aventurança
de Jesus! E nossa Santa se esmerou muito em falar e explicar a necessidade
dessa pobreza em espírito- que ela chama simplesmente de "pobreza de
espírito" - dentro da espiritualidade do seu Pequeno Caminho. Na carta,
que citamos, dirigida à Irmã Maria do Sagrado Coração, Teresinha, citando um
texto da Imitação de Cristo, que, por sua vez, cita o livro dos Provérbios,
escreve:"'O verdadeiro pobre em espírito, onde o encontrar? É preciso
procurá-lo bem longe', diz o salmista...Ele não diz que é preciso procurá-lo
entre as grandes almas, mas 'bem longe', isto é, na baixeza, no nada... Ah!
permaneçamos, pois, bem longe de tudo o que brilha, amemos nossa pequenez,
amemos não sentir nada, então, seremos pobres em espírito e Jesus virá nos
buscar, mesmo que estejamos longe, Ele nos transformará em chamas de amor"(58). Quando
tinha quinze anos, na flor, pois, da idade, Teresinha fez sua primeira grande
"entrada" no mundo. Foi numa viagem a Alençon, quando teve
oportunidade de conhecer muita gente rica e burguesa. De tudo, ela tirou uma
grande conclusão:"O bom Deus me deu a graça de conhecer o mundo
justamente o bastante para
desprezá-lo e dele me distanciar.Poderia dizer que foi durante minha estada em Alençon, que fiz
minha primeira entrada no mundo. Tudo era alegria, felicidade ao redor de
mim, era festejada, acariciada, admirada; em uma palavra, minha vida durante
quinze dias foi semeada apenas de flores...Confesso que essa vida tinha seus
encantos para mim!...A dez anos, o coração se deixa facilmente seduzir,
assim, tenho como uma grande graça não ter ficado em Alençon; os amigos que
tínhamos lá eram demasiado mundanos, eles sabiam aliar, muito bem, as
alegrias da terra com o serviço do bom Deus. Não pensavam bastante na morte
e, contudo, a morte veio visitar um grande número de pessoas que conheci,
jovens, ricas e felizes! Gosto de voltar, pelo pensamento, aos lugares
encantadores, onde eles viveram e de me perguntar onde estão e o que lhe
adveio dos castelos e dos parques, onde os vi gozar das comodidades da
vida...E vejo que tudo é vaidade e aflição de espírito debaixo do sol...que o
único bem é amar a Deus de todo seu coração e ser, aqui na terra, pobre em
espírito"(58). Só os
verdadeiramente pobres de espírito podem compreender as verdades do Senhor.
Só os verdadeiros pobres em espírito são instruídos sobre as coisas do amor
de Deus:"Porque sou pequena e fraca, Ele(Jesus) se abaixava até a mim,
instruía-me, em segredo, sobre as coisas do seu amor. Ah! se sábios, que
passaram suas vidas nos estudos, tivessem vindo me interrogar, sem dúvida
teriam ficado admirados ao ver uma criança de quatorze anos compreender os
segredos da perfeição, segredos que toda a ciência deles não pode lhes descobrir, pois que, para os
possuir, é preciso ser pobre em espírito!"(59). Na
prática, ser pobre em espírito é ser desapegado, é não somente não
ter,mas nem sequer reclamar o que se
usa, se ele desaparece ou alguém dele se apodera; é ser livre, puro,
descompatibilizado com todos e com tudo. Teresa nos dá o seguinte
exemplo:"Eu dizia: Jesus não quer que eu reclame o que me pertence; isso
deveria me parecer fácil e natural, pois que não tenho nada. Os bens da terra,eu os renunciei pelo voto
de pobreza, não tenho, pois, o direito de me lamentar, se me tiram uma coisa
que não me pertence, devo, pelo contrário,alegrar-me, quando me acontece sentir a pobreza. Antigamente, parecia-me
que não estava apegada a nada, mas, depois que compreendi as palavras de Jesus,
vejo que em algumas ocasiões sou bem imperfeita. Por exemplo, no ofício de
pintura nada me pertence, eu o sei muito bem; mas se, pondo-me ao trabalho,
encontro pincéis e pinturas em desordem, se um régua ou uma canivete
desapareceu, a paciência fica bem perto de me abandonar e devo pegar minha
coragem com as duas mãos para não reclamar, com amargura, os objetos que me
faltam. É preciso, muitíssimas vezes, pedir coisas indispensáveis, mas ao
fazê-lo com humildade não se falta ao mandamento de Jesus; pelo contrário,
age-se como os pobres que estendem as mãos, a fim de receber o que lhes é
necessário, se são repelidos, não se
admiram, ninguém lhes deve nada. Ah! que paz inunda a alma, quando ela se
eleva acima dos sentimentos da natureza...Não, não existe alegria comparável
àquela que desfruta o verdadeiro pobre em espírito. Se ele pede, com
desapego, uma coisa necessária, e quando não somente essa coisa lhe é negada,
mas se procura tomar o que ele tem, ele segue o conselho de Jesus:'Àquele que
quer pleitear contigo, para tomar-te a túnica, deixa-lhe também a
veste'(Mat,5,40). Abandonar seu manto é, parece-me, renunciar a seus
direitos, é se considerar como servo, o escravo dos outros. Quando a gente
deixa seu manto, é mais fácil caminhar, correr"(60). É nesse
espírito de despojamento total, que Teresinha,pouco tempo antes de morrer,
dizia à Madre Maria de Gonzaga:"Nada fica nas mãos. Tudo que tenho, tudo
que ganho, é pela Igreja e pelas almas. Que viva até 80 anos, serei sempre
assim pobre"(61). Ser pobre, pois, não é somente não ter, ou passar
necessidade, mas é viver esse despojamento total, pois tudo que tem é para
dar aos outros, até mesmo os bens espirituais, até mesmo as idéias próprias
que se possa ter:"Madre bem-amada, escrevia, ontem, que, os bens da
terra não me pertencendo, não deveria achar difícil jamais reclamá-los,se,
algumas vezes, mos tirassem. Os bens do céu não me pertencem igualmente, eles
me foram emprestados pelo bom deus, que pode mos retirar sem que tenha o
direito de me lamentar. Contudo, os bens que vêm diretamente do bom Deus, os
eláns da inteligência e do coração, os pensamentos profundos, tudo isso forma
uma riqueza à qual nos apegamos como a um bem próprio, no qual ninguém tem o
direito de tocar... Por exemplo, se, durante a licença, comunica-se a uma
irmã alguma luz recebida durante a oração e se, pouco tempo depois, essa irmã
falando com outra lhe comunica, como se o pensamento fosse dela, a coisa que
se lhe confiara, parece que ela toma o que não é dela. Ou então,se na recreação
se diz, baixinho, a sua companheira uma palavra cheia de espírito e
proposital e repetem-na, bem alto, sem dar a conhecer a fonte donde vem a
palavra, isso parece um furto à proprietária que não reclama, mas que teria muita vontade de fazê-lo e ela pegará
a primeira ocasião pra fazer saber, finalmente, que usaram de seus
pensamentos...Se me acontece pensar ou dizer uma coisa que agrada a minhas
irmãs, acho bem natural que dela usem como de um bem próprio. Esse pensamento
pertence ao Espírito Santo e, não, a mim, pois que S.Paulo diz que não
podemos, sem esse Espírito de Amor, dar o nome de 'Pai' a nosso Pai, que está
nos céus. Ele é, pois, livre para se servir de mim para dar um bom pensamento
a uma alma; se acreditasse que esse pensamento me pertence, seria como 'O
asno, que levava as relíquias', que pensava que as homenagens prestadas ao
Santíssimo Sacramento se dirigiam a ele"(62). Diante da
necessidade da pobreza e da realidade de nossa situação existencial, não
podemos, de modo algum, ficar tristes com nossa pobreza. Devemos, pelo
contrário, amá-la. Mas, não basta amá-la. Poderíamos ficar, assim, numa
atitude de passividade. É preciso partir para um trabalho com a própria
pobreza e esse trabalho é usar das riquezas de Cristo, da Igreja e dos nossos
irmãos, os santos. Assim, ficamos sossegados e uma doce paz inunda nosso
coração:"Não posso me apoiar em nada, em nenhuma de minhas obras para
ter confiança. Assim, gostaria muito de poder dizer: Estou quite com todos
meus ofícios dos mortos. Mas, essa pobreza tem sido para mim uma verdadeira
luz, uma verdadeira graça. Pensei que não tinha podido jamais, na minha vida,
pagar uma só de minhas dívidas para com Deus. mas que isso era para mim uma
verdadeira riqueza e uma força, se quisesse. Então, fiz esta prece: Ó meu
Deus, eu vos suplico, pagai a dívida que contraí com as almas do purgatório,
mas pagai-a como Deus, para que seja infinitamente melhor do que se eu
tivesse rezado meus ofícios dos mortos. E me lembrei, com grande doçura,
destas palavras de S.João da Cruz:'Pagai todas as dívidas'. Aplicara sempre
isso ao Amor... Sinto que essa graça não pode se pagar...Era demasiado doce!
Prova-se uma tão grande paz ao ser absolutamente pobre, ao contar só com o
bom Deus"(63). Outra
maneira de se usar, ativa e proveitosamente, da nossa pobreza, é tomarmos
consciência de que Deus pode nos usar para sermos seus instrumentos, pincéis
da sua graça, já que, às vezes, Deus se serve de instrumentos vis para nos
mostrar, a nós pobres e miseráveis, que só Ele é o poder. Era esse o conselho
que Santa Teresinha dava à sua irmã, Celina, numa carta que lhe dirigiu aos
13 de agosto de 1893:"Ao se ver em uma tão grande pobreza, essas
almazinhas têm medo, parece-lhes que elas não servem para nada, já que
recebem tudo dos outros e não podem dar nada, mas não é assim, a essência de
seu ser trabalha em segredo, Jesus forma nelas o germe, que deve se
desenvolver lá em cima, nos jardins celestiais dos céus. Apraz-lhe
mostrar-lhes seu nada e a potência dele, ele se serve, para chegar até elas,
dos mais vis instrumentos, a fim de lhes mostrar que é só Ele quem
trabalha"(64). A obra de
esvaziamento de uma alma é,realmente, algo maravilhoso.Jesus se aniquilou,
como diz S.Paulo, e foi assim que ele salvou o mundo. Do mesmo modo, quando
uma pessoa reconhece o seu nada, a sua pobreza e vive esse nada e essa
pobreza, amando-os e deles se servindo, positivamente, para crescer no amor,
então Deus se comprar, feliz, nessa pessoa, como uma obra-prima do trabalho
divino do Espírito Santo. Aquela pessoa, com efeito, está no sopé da montanha
do amor e, como Jesus, está pronta para se oferecer como vítima pela sua e
pela salvação dos seus irmãos. É,pois, o início da sua subida e, por isso,
Deus se alegra com essa pessoa, como aconteceu com Maria, segundo ela mesma
confessa no seu Magnificat. Foi assim
que Teresa de Lisieux entendeu a pequenez, a humildade e a pobreza, como
declarava à sua irmã, Celina:"Jesus está contente com sua Celinazinha, à
qual ele se deu, pela primeira vez, há 13 anos. Ele está mais orgulhoso do
que fez na sua alminha, de sua pequenez, de sua pobreza, do que ele o é por
ter criado os milhões de sóis e a extensão dos céus!"(65). Uma das
maneiras mais claras e positivas de alguém se mostrar e viver humilde,
pequeno e pobre é ser obediente. Na obediência, dobramos nossa vontade, nosso
querer, nossos desejos, nossos sentimentos e os recolhemos à vontade, aos
desejos, aos sentimentos e ao querer de quem nos manda. Destarte, ficamos
pobres de nós mesmos e até daquilo que é mais profundo dentro de nós mesmos,
que é a nossa vontade, o nosso determinar de nós mesmos nas nossas ações, nas
nossas palavras e nos nossos gestos. Obedecer é a versão concreta, dura, real
e completa da pobreza, da pequenez e da humildade, na caminhada pela montanha
do Amor. Humilde,
pequena, pobre, Teresa se despojou de tal maneira de si mesma, que ficou
totalmente nas mãos de Deus e, conseqüentemente,viveu segundo a vontade de
seus superiores, fossem eles quem fosse. No
Processo Diocesano, Madre Inês nos informa sobre o espírito de obediência da
nossa Santa, dizendo:"No fim de sua vida, ouvi a Serva de Deus convir
que ela jamais fizera sua vontade na terra, que era por isso que o bom Deus
faria todas suas vontades no céu. Eu a vi, de fato, desde sua infância,
aplicada a obedecer. Não me lembro de que ela tenha me desobedecido uma só
vez,mesmo nas menores coisas. Até meus conselhos eram ordens para ela. Ela
pedia licenças par tudo. Quando, à tarde, estando suas lições aprendidas e
seus deveres terminados, meu pai a convidava para sair com ele, ela respondia
sempre:'Vou pedir licença a
Paulina'.Meu pai mesmo a levava a essa submissão.E, se eu recusava, ela não
discutia e nem manifestava nenhuma impaciência, malgrado seu vivo desejo de
obter a licença. Lembro-me de que, à noite, para dominar seu medo da
escuridão, eu a enviava sozinha, não importa aonde, na casa e mesmo no
jardim. Ela me obedecia sem réplica, apesar de seu medo, que ela terminou
vencendo inteiramente. Ela gostava muito de ler, mas quando a hora dessa
recreação terminava, fechava logo o livro, sem jamais se permitir ler uma
palavra a mais. Em um dos livros, postos a sua disposição, encontrava-se uma
imagem que eu lhe proibira olhar. Se, por acaso, o livro se abria nessa
página, ela se apressava em fechá-lo...No Carmelo, seu voto de obediência não
foi uma vã promessa. Ela se submetia, não somente de fato, mas no seu
julgamento, e ensinava às suas noviças essa perfeita maneira de
obedecer...Ela chamava a obediência sua bússola infalível:'Como me é doce-
escrevia ela à Madre Maria de Gonzaga - fixar sobre a senhora meus olhos,
para saber e voar para onde Deus me chama'. Ela chegara a obedecer não
somente aos mandamentos formais, mas aos desejos adivinhados de seus
superiores, sempre porque envia Deus neles...Ela tinha a mais alta estima da
regularidade religiosa, e sofria muito quando constatava infrações na
comunidade. Ouço ainda essa lamentação sair de seus lábios, no ano de sua
morte:'Oh! como há pouca regularidade aqui! Como há poucas perfeitas religiosas,
que não fazem nada pela metade,
dizendo:'Não sou obrigada a isso, àquilo...ademais, não há grande mal em
falar aqui, em fazer isso,etc'.Como são raras as que fazem o melhor
possível!'.Quando o Reverendo Pe.Roulland, das Missões Estrangeiras, foi-lhe
dado como irmão espiritual pela Madre Maria de Gonzaga, ela recebeu a
proibição expressa de mo dizer. Ela foi encarregada de pintar uma imagem em
pergaminho, sempre a minha revelia, para esse irmão espiritual; mas ela tinha
necessidade para isso de meus pincéis, de minhas cores, de meu brunidor. Ela
levou a delicadeza de sua obediência até se esconder na biblioteca para
pintar essa imagem; e, para guardar o segredo ordenado, ela se atinha a
buscar e trazer os instrumentos, de que tinha necessidade, durante minha
ausência. Quando a madre priora tinha uma recomendação geral, Irmã Teresa
era-lhe fiel mesmo após vários anos, quando as outras esqueciam, facilmente,
esses detalhes(66). Semelhante
testemunho nos dá Irmã Maria do Sagrado Coração, nos Processos de Canonização
de Santa Teresinha. Todavia, há uma cartinha de Teresinha, quando tinha
apenas nove anos, dirigida à Madre Gonzaga, na qual a garotinha faz uma
interessante confissão:"Devo lhe fazer uma confissão. Desde algum tempo,
respondo sempre, quando Maria me manda fazer alguma coisa"(67). Para que
a confissão infantil não pareça contradizer aos depoimentos das Religiosas,
há uma observação importante na "Correspondência Geral", que diz
assim:"Maria assegurará não ter jamais visto sua irmã "praticar a
menor desobediência'. Esse testemunho, como muitos outros, pede uma correção.
Segundo uma tradição oral, conservada na família Maudelonde, Margarida Maria,
de quinze anos, julgara útil induzir Teresa
a mais submissão a Maria, que substituía a Paulina. É preciso dizer,
para defesa da criança, que o temperamento embrulhado da mais velha dava
motivo para pôr a rude prova a
paciência das mais jovens"(68).Na verdade, Teresa sempre foi
obediente,como ela mesma reconhece:"Ele refez minha carta; no momento em
que eu ia despachá-la, recebi uma da senhora, dizendo-me para não escrever, para esperar alguns
dias; obedeci imediatamente, pois estava segura de que era o melhor meio para
não me enganar"(69). Aliás,
toda sua vida será um ato contínuo de obediência. Sua obra-prima, a sua
Autobiografia, conhecida no mundo
inteiro, como a 'A História de uma Alma', foi escrita por obediência.
Primeiramente, foi uma ordem da Madre Inês e saiu, então, o Manuscrito A.
Depois, foi uma ordem da Madre Gonzaga e saiu o Manuscrito C, no qual Teresa
confessa:"Enfim, minha Madre, não escrevo para fazer uma obra literária,
mas por obediência"(70). E, no mesmo Manuscrito C, ela declara que toda
sua Autobiografia foi feita por pura obediência:"Devo continuar por obediência
o que comecei por obediência"(71). E não foi
só a sua vida que ela escreveu por obediência. Também, quando teve de fazer
cartas para seus irmãos espirituais, ela o fazia com licença. Por isso, ela,
na sua Autobiografia, de certa maneira,
dava um conselho à Madre Gonzaga e às demais irmãs a respeito dessas
cartas:"Pra mim, nisso como em outras coisas, sinto que é preciso, para
que minhas cartas façam bem, que elas
sejam escritas por obediência e que prove antes repugnância do que prazer ao
escrevê-las"(72). No que diz
respeito à obediência, Teresa expõe,
mesmo sem ordem sistemática, os seus fundamentos, a sua devida maneira de ser
e suas benéficas conseqüências. Com
relação ao fundamento, além do quanto já dissemos a respeito da ligação profunda
entre pobreza, humildade, pequenez e obediência, é preciso considerar que a
obediência é, sobretudo, um ato
profundamente relacionado com outrem. A humildade, a pequenez e a
pobreza dizem mais respeito à pessoa mesma no seu relacionamento com Deus,
todavia, a obediência é um relacionamento com Deus através de outra pessoa. E
aí Santa Teresinha enxerga um dos
motivos profundos da razão de ser da própria obediência. Madre Inês
esclarece a questão com estas palavras do seu depoimento no Processo Apostólico:"Sua
obediência era toda sobrenatural. Era ao bom Deus que ela entendia obedecer
na pessoa de seus superiores e mesmo de seus inferiores que, de longe, lhe
revelavam também alguma coisa da vontade de Deus"(73). Na escolha
de qual tipo de santo mais agradou a Deus entre aqueles que muito escreveram
e outros que nada deixaram escrito, ela responde tomando a virtude da
obediência como o prisma e guia da escolha:"Sim, tudo é bom quando só se
busca a vontade de Jesus, é por isso que eu, pobre florzinha, obedeço a Jesus
tentando dar prazer à minha Madre bem-amada"(74). Este texto é
importante, porque esclarece, definitivamente, que muita coisa humana que
Teresinha fazia para as criaturas era
simplesmente por causa do seu grande amor a Deus. A razão fundamental de suas
ações era, pois, o amor de Deus. Por amor a Ele, ela fazia coisas incríveis
para os homens, como tentar agradar a uma Madre superiora, que a tratava tão
severamente! É nessa
ótica que Teresa enxerga o voto de obediência. Há, com efeito, nesse voto, um
desapego total, um despojamento de si mesmo, um entregar-se nas mãos de Deus,
um amor desenfreado a Deus. Ela sempre temeu a sua liberdade.Por isso, viu
sempre no voto de obediência não uma fuga à responsabilidade,o que não seria
do seu caráter, mas uma maneira de se defender, de se entregar,seguramente, à
vontade de Deus:"Ó minha Madre, de quantas inquietudes a gente se livra
ao fazer o voto de obediência! Como as simples religiosas são felizes! Sendo
a sua única bússola a vontade dos superiores, elas estão sempre seguras de
estarem no caminho certo, elas não temem se enganar, mesmo se lhes parece que
os superiores se enganam. Mas, quando se cessa de olhar para a bússola
infalível, quando a gente se distancia do caminho que ela diz para seguir,
sob o pretexto de fazer a vontade de Deus, que não ilumina bem mesmo os que têm o seu lugar, logo a
alma se perde nos caminhos áridos, onde, em breve, falta-lhe a água da graça.
Madre bem-amada, a senhora é a bússola que Jesus me deu para me conduzir,
seguramente, à praia eterna. Como me é doce fixar sobre a senhora meu olhar e
cumprir, em seguida, a vontade do Senhor!"(75). Ver Jesus
nos superiores, como isso pode parecer - e, de fato, às vezes, o é - difícil,
mas como isso é importante, para que o homem fiel tenha certeza de que está
fazendo a vontade de Deus. A alguém isso pode parecer uma fraqueza, ou uma
fuga, já que cada um de nós tem seu caráter, sua personalidade e seu
julgamento das coisas. Todavia, a obediência, vista sob o prisma da pequenez,
da pobreza, da humildade, na procura de seguir o caminho do Senhor na
orientação daqueles que são, pelo próprio Deus, colocados para nos
orientarem, é, sem dúvida, não só a manifestação mais autêntica de uma vida
humilde, pequena e pobre, mas também o caminho mais seguro para uma pessoa
não se desgarrar por veredas falsas, embora atraentes e convidativas. E, Para
Teresa, nossa obediência deve ser sempre total. Como em tudo o mais,
Teresinha nunca quis nada pela metade. Ser obediente, pois, significa sê-lo
na forma mais completa, mais exigente, mais radical. Teresa nos dá alguns
exemplos. No
Processo Apostólico, a respeito das orientações dos superiores, lê-se um
depoimento de Madre Inês, que diz assim:" A Serva de Deus dizia a suas
noviças:'Causa sempre uma peninha ao bom Deus, quando se discute um pouquinho
que seja o que diz a Madre Priora; e causa muita pena, quando se discute
muito, mesmo no seu coração'"(76). Irmã Maria do Sagrado Coração, com
seus depoimentos sinceros e pessoais, diz-nos no mesmo Processo
Apostólico:"Tentava, muitas vezes,
pará-la, para lhe dizer uma palavra que me parecia útil. Dava-lhe,
algumas vezes, como motivo, que era necessário que lhe ensinasse a procurar o
Ofício do dia. Três semanas somente após sua entrada no Carmelo, ela me disse
em uma dessas ocasiões:'Eu lhe agradeço, achei-o muito bem ,hoje; ficaria
feliz em ficar com a senhora, mas é preciso que me prive disso, porque não
estamos mais em casa'. Ao primeiro toque do relógio, ela interrompia mesmo no
meio de uma palavra, seu escrito. Conservei dela um bilhete, que termina
assim:'Sou obrigado a deixá-la, 9 horas só...' Um dia, em que ela me via, ao
contrário, acabando de escrever uma linha depois da hora, disse:'Valeria
muito mais perder isso e fazer um ato de regularidade. Se se soubesse o que
ele é!'.No seu leito de morte, quando ela estava se consumindo de febre,eu
quis retirar o lençol que estava sobre seus pés. Ela me disse:'Isto não é,
talvez, permitido'"(77). Irmã Genoveva, nos seus Depoimentos mais livres,
recorda coisas que nos mostram até que ponto Santa Teresinha levou a sua
obediência, como virtude sem rodeios, sem medeios, sem divisões:"A Serva
de Deus tinha o hábito de obedecer a cada uma das Irmãs, mesmo com prejuízo
para si. Assim, durante sua doença, ela acompanhara, punivelmente, a
comunidade ao eremitério do Sagrado Coração, e se assentara durante o canto.
Uma irmã lhe fez sinal para se juntar ao coro. Ela estava esgotada e não
podia se sustentar de pé. Ela se levantou, não obstante, imediatamente, e como eu lhe recriminasse após a reunião, ela me respondeu
simplesmente:'Peguei o hábito de obedecer a cada uma como se fosse o bom
Deus, que me manifestasse sua vontade'"(78). Por esses
fatos e pelas palavras que acabamos de transcrever, fica bem claro que a
obediência de Teresa de Lisieux vai aos últimos detalhes. Não é uma
obediência pela metade e só quando
convém, porque, assim, teríamos também uma pequenez, uma humildade e
uma pobreza pela metade, o que não condiz com o amor total, global e completo,
que a Santa teve e exige de cada um dos que seguem seu Pequeno Caminho. E a extensão dessa
obediência deve ir muito além do próprio ato de obedecer, que,porém, deve ser
completo, como acabamos de ver. Segundo Teresinha, a obediência deve ser
feita por ela mesma, pelo seu significado, pelo seu valor, portanto, apenas
obedecer e nada mais. Em outras palavras, o total, o completo, o sério da
obediência é obedecer e,depois, despojar-se do resultado da nossa própria
obediência.Um exemplo desse comportamento muito superior e, psicologicamente,
profundo, eficaz e útil, encontramos na sua Autobiografia, quando a Santa
referindo-se aos seus Manuscritos, diz à Madre Gonzaga:"Não creia, minha
Madre, que eu busque que utilidade possa ter meu pobre trabalho; porque eu o
faço por obediência, isto me basta e não sentiria nenhuma pena, se a senhora
o queimasse diante de mim ante de tê-lo lido"(79). É evidente
que, semelhante obediência, radical, total, completa, séria, profunda,
convencida, amorosa, não poderia ficar sem frutos. Ela é, de fato, uma
conseqüência dialética do Pequeno Caminho, justamente não só porque se
enquadra dentro do desenrolar-se essencial dos princípios fundamentais da
mensagem teresiana, mas também porque ela ajuda e colabora na formação e no
aperfeiçoamento do homem que a ela se entrega. Não é
difícil cascavilhar nas obras teresianas alguns dos benefícios espirituais da
obediência total. Com efeito, Teresa não se esqueceu de anotar alguns. Basta
ver, por exemplo, a peça teatral "Santo Estanislau Kostka". Aí,
nossa Santa coloca na boca de S.Francisco
Bórgia, na resposta que dá a Santo Estanislau, que lhe pedira um meio
para se tornar um santo e reparar o tempo perdido, estas palavras-chave:"Penso
que o único meio será se desprezar a si mesmo sinceramente, estimar muitos os
outros e lhes provar, por todos os meios possíveis, o amor que consumirá seu
coração. Se a obediência é a regra e a guardiã de sua caridade, você poderá, em pouco tempo, fazer muito
bem"(80). Portanto, o amor está em primeiro lugar, mas a obediência deve
ser a regra e a guardiã desse amor. Aí está um grande benefício da obediência
teresiana, isto é, por ela, o amor, em pouco tempo, faz muito bem. Quando
Madre Gonzaga ofereceu a Teresa um segundo irmão espiritual, ela fez ver à
Madre que já tinha um irmão pelo qual devia se sacrificar e rezar e que havia
outras irmãs, que podiam se responsabilizar pelo segundo candidato a irmão
espiritual. As objeções de Teresa foram inúteis. Então, a Santa perguntou à
Madre se "a obediência poderia
dobrar os méritos"(81) dela. Madre Gonzaga, mui sabiamente, respondeu
que sim. E, sem dúvida, aqui está outro benefício da obediência, ela duplica
ou multiplica os méritos, que nós
podemos aplicar em benefício dos nossos irmãos. No fundo,
podemos dizer, como Santa Teresinha, que a obediência é uma das nossas armas
infalíveis, capaz de afugentar o Maligno e nos levar, mais facilmente, ao
cumprimento da santa vontade de Deus:
'O anjo orgulhoso no seio da luz
Exclamou:"Não obedecerei!'
Eu exclamo na noite da terra
'Quero sempre obedecer neste mundo'
Sinto nascer em mim uma santa audácia
De todo o inferno enfrento o furor
A Obediência é minha forte couraça
E o Escudo do meu coração
Deus dos Exércitos, não quero outras glórias
Senão submeter em tudo minha vontade
Porque o Obediente repetirá suas vitórias
Por toda a eternidade".(82) NOTAS (1) -M.A,32r (2) -CT,109 (3) -M.B,3r (4) -M.B,5r (5) -CT,226 (6) -CT,141,161 (7) -CT,54 (8) -M.B,4v (9) -M.C,2v (10)-CT,243 (11)-M.C,4r (12)-C.A.6.8.8 (13)-CT,178 (14)-CT,154 (15)-C.A.16.7.6 (16)-C.A.5.7.1 (17)-C.A.29.7.3 (18)-C.A.2.8.6 (19)-C.A.10.7.1 (20)-Teatro,p.272 (21)-C.A.21.7.4 (22)-C.A.3.9.1 (23)-C.A.4.8.3 (24)-M.C,26v-27r (25)-CT,95 (26)-C.A.4.8.3 (27)-C.A.4.8.6. Cf.NV,4.8.4 (28)-M.C,1v-2r (29)-M.C,23v (30)-M.A,28v. Cf.M.A,54r (31)-CT,161 (32)-CT,261 (33)-CT,264 (34)-CT,82 (35)-CT,243 (36)-Teatro,p.277 (37)-Teatro,p.258 (38)-Teatro,p.260 (39)-CT,244 (40)-P.O.p.170 (41)-M.A,11v (42)-M.A,15v (43)-C.A.14.7.2 (44)-CT,109 (45)-Teatro,p.237 (46)-M.A,56r (47)-Teatro,p.207 (48)-Teatro,p.225 (49)-Teatro,p.215 (50)-M.C,2v-3r (51)-CT,197 (52)-CT,197 (53)-M.A,60r (54)-M.A,74r-74v (55)-M.A,74v (56)-M.A,10r (57)-CT,258 (58)-M.A,32v (59)-M.A,49r (60)-M.A,16v (61)-C.A.12.7.3 (62)-M.C,18v-19v (63)-C.A.6.8.4 (64)-CT.147 (65)-CT,227 (66)-P.O.p.192-193 (67)-CT,9 (68)-C.G.p.133 (69)-M.A,67v (70)-M.C,6r (71)-M.C,18v (72)-M.C,32v (73)-P.A.p.192 (74)-M.C,2v (75)-M.C,11r (76)-P.A.p.192 (77)-P.A.p.242 (78)-P.A.p.306 (79)-M.C,33r (80)-Teatro,p.277 (81)-M.C,33v (82)-PN,48 A SUBIDA O
viandante do amor que, aparelhado com o reconhecimento da sua pequenez e, por
isso, humilde, pobre e obediente, dispõe-se a subir a montanha do amor, deve
saber que, no Pequeno Caminho, tem que continuar sua marcha, até o fim, com
as mesmas disposições em que se encontrava no sopé da montanha. Todavia, ao
iniciar sua marcha, tem necessidade de tomar certas e importantes atitudes,
ou de se revestir de outras virtudes, típicas do Caminho Teresiano, para que
possa, mais fácil e seguramente, chegar ao cume da montanha. Diríamos que, ao
iniciar essa subida e até o fim, ela precisa de um modo de ser,que será sua
veste própria de um teresiano, que se propõe a aventura de procurar as
alturas da perfeição. A primeira
veste, ou seja, a primeira atitude interior necessária para o peregrino do
amor é a simplicidade. Essa virtude é tão necessária e tão essencial no
Pequeno Caminho, que as irmãs de Santa Teresinha fizeram de tudo para
espelhar a mensagem teresiana com o nome curioso de "Infância
Espiritual". Essa alcunha, que
não sei se ajudou ou não a compreensão e a simpatia pela doutrina
teresiana, mas que foi, durante muito tempo, a marca registrada do Pequeno
Caminho,de certo modo, mostrou ao mundo inteiro a orientação fundamental do
Pequeno Caminho, ou seja, a simplicidade. Na verdade,
a simplicidade surge na doutrina teresiana como uma conseqüência toda natural
de tudo quando já expomos até agora. Com efeito, aquele que se julga pequeno,
fraco, imperfeito, e que é verdadeiramente humilde, pobre e obediente, não
pode ter outra atitude, na sua caminhada espiritual, a não ser a da
simplicidade. Ser simples, pois, é uma conseqüência lógica da dialética
teresiana. É a maneira própria de ser do Pequeno Caminho. É o posicionamento
natural do viandante do amor. Como é
nossa metodologia,devemos, porém, buscar nas palavras e na vida de Santa
Teresinha, os seus ensinamentos diretos e explícitos, para que o nosso
discurso não se torne uma exposição pessoal, mas que ele seja, de fato, a expressão autêntica da mensagem
teresiana. Santa
Teresinha, do nascer ao morrer, foi extremamente simples. Ela amou a
simplicidade e viveu sempre simples. Suas palavras, seus gestos, suas ações,
sua doutrina, sua santidade, tudo, enfim,
foi profundamente simples. Em Teresa de Lisieux,mesmo as coisas
extraordinárias, revestiram-se de simplicidade.Nela não há fantasias
exóticas, gongorismo, esoterismo,histerismo, mania de complicação,
labirintos, hieróglifos. Teresa foi menina, moça, mulher; nasceu, cresceu,
viveu, morreu e tudo como qualquer um dos comuns mortais. É verdade que todo
santo, por mais simples que seja, é um ser, na vida, nas palavras e nas
ações, todo especial, um gênio, um herói. Teresa não foi uma exceção a essa
regra. Todavia, mesmo o seu heroísmo, sua genialidade e sua especialidade se
apresentam sob formas simples,porque bem humanas, embora bem trabalhadas pela
graça divina. Uma dia,
nos seus primeiros anos de vida religiosa, Teresinha teve um diálogo
interessante com uma Madre anciã, durante um recreio."Minha filhinha,
parece-me que você não deve ter muita coisa para dizer aos seus
superiores",disse-lhe a freira. De imediato, Teresinha lhe
perguntou:"Por que, minha Madre, a senhora diz isso?". E a Madre
anciã lhe respondeu, profeticamente:"Porque sua alma é extremamente
simples, mas quando você for perfeita, será ainda mais simples, quanto mais a
gente se aproxima do bom Deus, tanto mais a gente se simplifica". Santa
Teresinha complementa o diálogo, dizendo:"A boa Madre tinha
razão"(1). No final
de sua vida, Teresa alcançou um altíssimo grau de simplicidade. Assim,
quando, no final de sua vida, Madre Inês lhe pediu para que dissesse
"algumas palavras de edificação e de amabilidade ao senhor de
Cornière", ela respondeu, imediatamente:"Ah! minha Madrezinha, isso
não faz meu generozinho...Que o senhor de Corniètre pense o que ele quiser.
Só amo a simplicidade, tenho horror do fingimento"(2). Em
muitíssimas partes dos escritos teresianos, encontramos o ensinamento de
Santa Teresinha de que devemos ser como um criancinha diante de Deus. Essa comparação,
que deu lugar à criação da expressão "Infância Espiritual", não se
baseia, como se pode constatar nas obras teresianas, no texto evangélico de
Mateus, em que Jesus afirma que quem não se tornar como uma criança não
entrará no reino dos céus (Mat 18,3-4), mas é, sim, uma conseqüência lógica
da própria espiritualidade de Teresa de Lisieux, como dissemos acima.
Todavia, o fato de que Santa Teresinha insista na necessidade de ser como uma
criancinha, diante de Deus, declara, por si só, que a simplicidade de uma
criança deve ser a veste primeira do peregrino do amor.
Inumeráveis vezes, a Santa se compara, ela mesma, a uma criancinha,
que não sabe andar sozinha, que não sabe falar como gente grande. Seu plano
era, de fato, permanecer pequena e como uma simples criancinha tanto tempo
quanto vivesse:"Que não se creia que, se eu curar, isso desencaminhará e
destruirá meus planoszinhos. De modo nenhum! A idade não é nada aos olhos do
bom Deus e eu me arranjarei bem para permanecer criancinha, mesmo que viva
muitíssimo"(3). Certo dia,
depois de ter visto uma imagem, que representava Nosso Senhor com duas
criancinhas, das quais o menorzinho estava sobre seus joelhos e o outro a
seus pés, ela comentou para Madre Inês:"Eu sou esse pequenino que subiu
sobre os joelhos de Jesus, que estira, tão gentilmente, sua perninha, que
levanta sua cabecinha e que lhe faz carinho sem temer nada. O outro pequeno
não me agrada muito. Ele se comporta como uma pessoa grande"(4). É
preciso, pois, notar que a criancinha é tomada na mensagem teresiana não pela
sua infantilidade ou pelo seu infantilismo, mas, sim, pela sua impotência,
pela sua carência, pela sua simplicidade, que gosta de carinho, de afeto, de
amor.No seu leito de dor, ela explicava à Madre Inês:"Veja as criancinhas:
elas não param de destruir, de rasgar, de cair, mas tudo amando muito, muito,
os seus pais. Quando caio assim, isso me faz ver, ainda mais, meu nada e me
digo: que faria, que seria, se me apoiasse nas minhas próprias
forças?!"(5). Criança
fraca e sem forças, também que não sabe ler direito. Assim, ela desde pequena
não se preocupa em ler as belas orações, que se encontravam nos livros.
Quando cresceu e se tornou religiosa,continuou com a mesma simplicidade nas
suas orações:"Fora do Ofício Divino, que sou muito indigna de recitar,
não tenho a coragem de me dedicar ã procura
de belas orações nos livros. Isso me dá dor de cabeça, pois há tantas!
E, depois, cada uma é mais bela do que a outra...Não saberia recitá-las todas e não sabendo qual
escolher, faço com as criancinhas que não sabem ler, digo simplesmente ao bom Deus o que quero lhe dizer, sem
fazer belas frases e Ele sempre me compreende"(6). Não só
quis ser como criancinha diante de Deus, nos seus gestos, nas suas palavras,
nas suas carícias, na sua fraqueza, mas Teresa quis ser criancinha também
naquilo que agita tão profundamente o ser humano, ou seja, no sofrimento.
Sofrer como uma criança, eis aí uma idéia genial, pois, o sofrimento passa a
ser mais leve, mais suportável e chega mesmo a provocar uma atenção maior de
Deus - se isso fosse possível - já que o pai fica sem saber o que faça,quando
seu filhinho querido está doente. Sofrendo muito na primeira quinzena de agosto de 1897, Teresa disse:"Não
esperava sofrer assim; sofro como uma criancinha. Não quisera jamais pedir ao
bom Deus sofrimentos maiores. Se ele os aumentar, suportá-los-ei com prazer e
com alegria, porque virão dele. Mas, sou pequena demais para ter força por mim mesma. Se pedisse sofrimentos,
seriam os meus sofrimentos, seria necessário suportá-los sozinha e jamais
pude algo sozinha"(7). Simples
como uma criancinha nos gestos, nas palavras, no coração. Simples com Deus e
com Maria. Foi assim nossa Teresinha. Numa carta a Celina, ela
contava:"A propósito da Santíssima Virgem, é preciso que te confie uma
das minhas simplicidades com ela. Por vezes, surpreendo-me a lhe dizer:'Mas,
minha boa Santíssima Virgem, acho que sou mais feliz do que a senhora, pois
eu a tenho como Mãe e a senhora não tem a Santíssima Virgem para amar..."(8).
Aliás, como vimos anteriormente, todo o relacionamento de Teresinha com a Mãe
de Deus se baseia no estilo de simplicidade total. Com efeito, para ela a
vida de Maria foi totalmente simples, igual a nossa quase em tudo:"Sua
vida foi tão simples!"(9).Por isso, seu tratamento com Maria não podia
ser senão na base da simplicidade:"Compreendi que ela velava por mim,
que eu era sua filha, por isso só podia lhe dar o nome de "Mamãe",
pois ele me parecia ainda mais terno que o de Mãe"(10). Aliás, não
foi só na contemplação da vida de Maria que Teresa encontrou a simplicidade.
Ela se deliciava em meditar e em falar sobre a vida de toda a Sagrada
Família, pois se encantava com a simplicidade de Jesus,Maria e José. Ler e
meditar as palavras teresianas a esse respeito chega mesmo a criar em nós uma
visão mais tranqüila e quase humana da Família de Nazaré:"O que me faz
bem, quando penso na Sagrada Família é imaginar uma vida inteiramente
ordinária"(11). Falando muito, no seu leito de morte, sobre a Santa
Família de Nazaré, resumia tudo, dizendo,simplesmente:"Como me parece
que a vida dela era simples!"(12). Era com toda a simplicidade que ela
tratava essa Família Sagrada.Uma passagem meio interessante e meio
infantil,mas também muito importante na sua vida, dá-nos um exemplo desse
tratamento familiar e simples de Teresa para com a Sagrada Família. Madre
Inês nos conta que tinham-lhe enviado
belas frutas,mas que ela não podia comê-las. Então, ela as pegou uma a uma,
como se fosse para oferecê-las a alguém e disse:"A Sagrada Família foi
bem servida. S.José e o Menino Jesus receberam, cada um, um pêssego e duas
ameixas...A Santíssima Virgem teve sua parte também. Quando me dão leite com
rum, eu o ofereço a S.José; digo para mim mesma: Oh! como isso vai fazer bem
ao pobre S.José! No refeitório, via sempre a quem era preciso dar. O doce era
para o Menino Jesus, o forte para S.José, a Santíssima Virgem não era
esquecida, não.Mas, quando me faltava
alguma coisa por exemplo, quando se esqueciam de me passar o molho, a salada, ficava muito mais
contente, porque me parecia dar algo melhor à Sagrada Família, sendo privada
realmente do que oferecia"(13). Simples
com Deus, com a Sagrada Família, com Maria especialmente, Teresinha foi
simples, muito simples com todos seus irmãos.Em uma carta ao Pe. Bellière,
ela, tratando-o como verdadeiro irmão, escrevia:"Está na hora de parar
e, contudo, devo ainda lhe agradecer as datas que você me envia. Quisera
ainda que você acrescentasse aí os anos, pois não sei sua idade. A fim de que
você desculpe minha simplicidade, envio-lhe as datas memoráveis de minha vida
e é também na intenção de que sejamos
particularmente unidos pela oração e o reconhecimento nesses dias
benditos"(14). E a esse mesmo Pe.Bellière, em outra carta, já mais perto
de sua morte, ela passava uma espécie de reprimenda, porque ele, sem a devida
simplicidade, pedia-lhe desculpas porque lhe perguntara pelo seu verdadeiro
nome, quando ainda não estava no Carmelo:"Quisera que você seja simples
com o bom Deus,mas também...comigo,está admirado de minha frase? É que, meu
querido irmãozinho, você me pede desculpas "por sua indiscrição",
que consiste em desejar saber, se no mundo, sua irmã se chamava Genoveva;
acho a pergunta muito natural; para lhe provar, vou lhe dar detalhes de minha
família, pois você não recebeu todas as informações sobre ela"(15). Simples
nas suas palavras, simples nos seus gestos, simples com Deus, com Maria e com
os homens, Teresinha foi simples
também na sua mensagem. Seu Pequeno Caminho é o caminho bem curto, bem reto,
bem simples e bem adaptado aos simples, àqueles que não vivem pelos caminhos
do fantástico, do maravilhoso, do extraordinário. A propósito do manuscrito
de sua vida, portanto, do conjunto de biografia e de mensagem espiritual, ela
afirmou pouco antes de morrer:"Nele haverá para todos os gostos, exceto
para os caminhos extraordinários"(16). Na
verdade, Teresinha não só viveu e se santificou com muita simplicidade, mas
também quis que sua mensagem fosse a mensagem da simplicidade. Instruindo sua
irmã, Celina, nos caminhos da santidade, ela lhe escrevia aos 25 de abril de
1893:"Vou lhe dizer um pensamento que me veio esta manhã, ou antes, vou
lhe dar conhecimento dos desejos de Jesus a respeito de sua alma...Quando
penso em você ao lado do único amigo das almas, é sempre a simplicidade que
se apresenta a mim como o caráter distintivo de teu
coração...Celina!...simples florzinha Celina, não inveje as flores dos
jardins". Nesta carta bonita, toda ela cheia de mensagens sobre a simplicidade,
que Celina devia cultivar na sua alma, ela insiste numa comparação
interessante entre a gota de orvalho e a Flor dos campos, que é Jesus. É
preciso, diz a Santa,ser essa gotinha de orvalho, tão pequenina, tão pura,
tão simples, mas tão preciosa para a Flor dos campos. E Teresa afirma,
convencida:"Ele só se fez a Flor dos campos, a fim de nos mostrar quanto
ama a simplicidade". E, quase no final da carta, ela conclui:"Que
privilégio ser chamada para uma tão
alta missão!...Mas, para lhe corresponder, como é preciso permanecer
simples!(17). Observe-se que, aqui, nossa Santa une, definitivamente, a
simplicidade com a pequenez. Com efeito, como anteriormente, ela usara da
expressão basilar "é preciso permanecer pequeno", aqui, agora, ela
usa da mesma forma de expressão, mudando, porém, o adjetivo, contudo, com o
mesmo sentido e com a mesma orientação espiritual:é preciso permanecer
simples! E, para confirmar sua irmã querida nos caminhos da simplicidade, que
deve ser o caminho de todos os querem seguir suas pegadas, ela usava de outra
comparação, feminina e graciosa, bem adequada ao seu estilo. Com efeito,
referindo-se ao seu ofício de ajudante da Mestra de noviças, ela se
reconhecia um "cãozinho de caça" e chamava sua noviça de coelhinho. Então, ela pedia
a Celina que fosse:"Um coelhinho bem simples, que só se ocupa com a ervazinha que deve pastar.
Divirto-me, mas no fundo penso que o coelho vale mais do que o
cãozinho"(18). Essas comparações e esse linguajar teresiano podem
parecer infantis demais, mas ai está a prova da simplicidade de Santa
Teresinha. Seus grandes sonhos, seu fantástico ideal, seus pensamentos mais
profundos são ditos e expressos com a maior simplicidade do mundo, pois, aos
simples nada de complicado, como ela dizia, pensando como cumprir, perfeitamente, sua missão de
irmã espiritual de dois missionários e encarregada das noviças do seu
Carmelo:"Às almas simples, nada de meios complicados; como sou desse
número, uma manhã, durante minha ação de graças, Jesus me deu um meio simples
de cumprir minha missão"(19). Quem
quiser, pois, seguir o Pequeno Caminho tem que ser simples, como uma
criancinha, diante do Pai Celeste, do grande irmão e amigo Jesus, das
inspiração maravilhosas do Espírito
Santo, do coração materno de Maria. com os irmãos do céu, os santos, e
da terra, os homens todos. Em suma, é preciso guardar todo o cuidado, para
nunca perder, mesmo nas coisas mais santas, a "simplicidade do
coração"(20). É verdade
que Deus é o Deus de todos, isto é, dos grandes e dos pequenos.É verdade que
Ele distribui suas graças a todos e a todos é dado o necessário para sua
santificação e salvação. Assim compreendia Teresa, quando
escrevia:"Compreendi ainda que o amor de Nosso Senhor se revela tão bem
à mais simples alma, que não resiste, em nada, à sua graça, quanto à mais
sublime"(21). Todavia, Deus tem suas preferências e os preferidos de
Deus são os pequeninos, os pobres, os puros de coração, os simples. Isso
compreendeu também Santa Teresinha e o expressou muito bem, quando colocou
nos lábios de Jesus estas palavras evangélicas:"Tua Pastora sabe bem que
me agrada esconder meus segredos aos sábios e aos prudentes, ela sabe que os
revelo aos pequeninos, aos simples cordeiros, cuja lã branca não se sujou com
a poeira do caminho"(22). Eis aí a
doutrina teresiana da simplicidade: ser simples como uma criancinha; ser
simples como uma gotinha de orvalho; ser simples no trato com Deus, com as
coisas santas, com os homens; ser simples como as crianças, que não têm medo
de nada, pois "as criancinhas não se condenam"(23); como as
criancinhas que sabem "que agradam tanto aos seus pais quando dormem,
quanto quando estão
acordadas"(24); como as criancinhas que, sem medo de ninguém, dizem a
verdade, como Teresa quando escrevia à sua tia,senhora Guérin:"É preciso,
contudo, que eu tente com o risco de dizer à minha tiazinha coisas, que vão
lhe desagradar. Não sai a verdade da boca das crianças? Pois bem, é preciso me perdoar se digo a
verdade, eu que sou e quero permanecer sempre uma criança"(25).. Muita razão
tinha a Irmã anciã, que profetizou
sobre o crescimento de Teresa na
simplicidade. Tinha razão, porque a simplicidade aproxima a pessoa de Deus, e
Deus não somente é simples, mas é O Simples; tinha razão a velha irmã,
porque, por esses princípios teresianos, teológicos e filosóficos,
"quanto mais alguém se aproxima do bom Deus, tanto mais se
simplifica". A simplicidade, pois, não só é uma veste do peregrino do
Pequeno Caminho, mas ela é uma marca registrada, uma característica
determinante da mensagem espiritual de Santa Teresinha do Menino Jesus. E não se
pense que a simplicidade teresiana seja símbolo de fraqueza, de covardia, de
inutilidade, de passividade, de despersonalização. Pelo contrário, ela é
fruto do amor,que tudo simplifica; ela é a expressão máxima da finitude do
homem diante da onipotência divina; é a raiz de uma atitude de paz e de
alegria; é a expressão real da verdade cristã, que fez de Deus um Pai e do
homem um filho querido; ela é, em suma, a essência síntese de todo um
comportamento, que,psicológica, filosófica e teologicamente, é o mais
perfeito, o mais adequado, o mais conveniente, o mais consentâneo com a
realidade humana cristã. Em suma, ser simples, como as criancinhas, é a
libertação total e interior do homem, que, livre e feliz, pode voar nas asas
da Águia adorada para as regiões infinitas da própria vida de Deus. Ser
simples, teresianamente, não é infantilismo, é ser maduro e adulto. Ser
simples, teresianamente, não é covardia ou desespero, é coragem e
ousadia,pois se encontrou o verdadeiro caminho para o autêntico tratamento
com Deus. Ser simples, teresianamente, em uma palavra, é viver, com Deus e
com os homens, neste mundo, evangelicamente, isto é, como Jesus ensinou e
pediu. Ser simples, pois, teresianamente, é o único caminho certo do homem
neste mundo complicado, misterioso e difícil. Ser simples, teresianamente, é
viver como pessoa humana e pessoa humana cristã, na caminhada da vida em
demanda da Casa do Pai. O
peregrino do amor caminha nas asas da simplicidade, mas, exatamente por isso,
enche-se, completamente, da verdadeira confiança amorosa.Santa Teresinha, na
vida e na doutrina, viveu e ensinou, com muita insistência e profundidade, a
virtude da confiança. Aliás, toda sua mensagem espiritual é marcada também, além
da simplicidade, pela profunda e total confiança, pois é próprio do amor
confiar. Quando entre dois amantes não existe confiança, é porque,
certamente, entre eles não existe mesmo amor. Podem existir paixão,
interesse, egoísmo, mas nunca amor, porque quem confia de verdade, sabe
confiar nele e no outro. Confiar
significar pôr sua fiança no outro, portanto, significa fiar-se do e no
outro. Ora, o amor é exatamente se colocar para o outro, dando-se,
oferecendo-se, consagrando-se, entregando-se, portanto, amar supõe,
essencialmente, que você tenha fiança no outro, coloque-se, sem medo, no
pensamento e na decisão do outro, em uma palavra, ponha sua fiança no outro.
Donde se conclui, naturalmente, que amor sem confiança não existe; que a
confiança é nota característica e essencial do amor. A vida de
Santa Teresinha foi um ato de confiança contínuo e total. Seu Pequeno Caminho
é todo ele, porque baseado no amor, baseado também na confiança total e
completa em Deus. As últimas
palavras da sua Autobiografia, não mais traçadas a tinta, mas a lápis, e,
assim mesmo, muito trêmulas, dizem muito bem como foi o espírito que animou
nossa Santa:"Minha Madre querida, agora quisera lhe dizer o que entendo
pelo odor dos perfumes do Bem-Amado. -Pois que Jesus subiu ao céu, não posso
seguí-lo a não ser pelas pegadas que deixou, mas como essas pegadas são
luminosas, como são perfumadas! Devo apenas olhar o Santo Evangelho e logo
respiro os perfumes da vida de Jesus e sei para que lado correr... Não é para
o primeiro lugar, mas para o último que me dirijo; ao invés de avançar como o
fariseu, repito, cheia de confiança, a humilde prece do publicano; mas,
sobretudo, imito a conduta de Madalena, sua admirável ou, antes, sua amorosa
audácia, que encanta o Coração de Jesus, seduz o meu. Sim, eu o sinto, mesmo
quando tivesse, na consciência, todos os pecados que se podem cometer, iria,
o coração espedaçado pelo arrependimento, jogar-me nos braços de Jesus, pois
sei quanto Ele quer ao filho pródigo, que volta para Ele. Não é porque o bom
Deus, na sua previdente misericórdia, preservou minha alma do pecado mortal,
que me elevo para Ele pela confiança e pelo amor"(26). Sim, nem o pecado
tiraria a confiança de Teresa em Deus, nem foi a ausência do pecado mortal que
a fez confiante no seu Bem-Amado. A confiança nasceu nela com o amor, ou
seja, com a sua própria vida. A
santidade foi o grande sonho e o grande ideal de Teresa, desde pequenina.
Pois bem, na sua Autobiografia, ela nos conta como pôde ser orientada por
Deus para que, no seu desejo de buscar a glória, como as heroínas francesas,
se encaminhasse na estrada da santidade. Diante, porém, da contemplação de
sua fraqueza e imperfeição, a Santa fez a seguinte reflexão:"Pensei que
nascera para a glória e, buscando o meio de conseguí-la, o bom Deus me
inspirou os sentimentos que acabo de
escrever. Ele me fez compreender também que, minha glória não apareceria aos
olhos mortais, que ela consistiria a me tornar uma grande Santa!!!...Esse
desejo poderia parecer temerário se considera quanto era fraca e imperfeita e
quanto o sou ainda, após sete anos de vida religiosa, contudo, sinto ainda a
mesma confiança audaciosa de me tornar uma grande Santa, porque não conto com
meus méritos não tendo nenhum, mas espero nAquele que é a Virtude, a própria
Santidade"(27). Aí está a alma de Teresa com toda sua "audaciosa
confiança" diante do mistério da
sua própria realização pessoal. Com efeito, malgrado tudo, Teresa insiste em
confiar e nos dá logo a razão dessa sua confiança, a saber, ela não conta com
sua fraqueza, mas com o poder do próprio Deus. É
interessante como nossa Santa leva até a pequenos detalhes essa sua
confiança. Um fato marcante na sua vida de criança mostra-nos como ela.agindo
como qualquer criatura humana, demonstra sua confiança em Deus, a ponto de
transformá-la numa verdadeira certeza. Ao mesmo tempo, também, mostra como
ela,continuando humana, chega a exigir um sinal, não para confirmar sua fé,
como o fez Gedeão, mas, sim, apenas para sua consolação. Referimo-nos ao caso
do criminoso Pranzini:"Sentia no fundo meu coração a certeza de que
nossos desejos seriam satisfeitos, mas, a fim de criar coragem para continuar
rezando pelos pecadores, disse ao bom Deus que estava bem segura de que Ele
perdoaria ao pobre infeliz Pranzini, que eu acreditaria mesmo se ele não se
confessasse e não desse nenhum sinal de arrependimento, tanta era minha
confiança na misericórdia infinita de Jesus, mas eu lhe pedia somente
"um sinal" de arrependimento para minha simples consolação...Minha
oração foi ouvida ao pé da letra!"(28). A vida de
Santa Teresinha está cheia de fatos, que exigiram dela uma total e irrestrita
confiança e em todos eles ouvimos sempre a mesma confiança na infinita
misericórdia de Deus. Foi assim na sua audiência com Leão XIII, quando ela
esperava receber do Papa a permissão para entrar no Carmelo,aos 15 anos de
idade("estava cheia de confiança"(29)); foi assim, que aconteceu
quando ela voltava para Lisieux após sua aparentemente malograda audiência com o Papa ("Antes de ver
se abrir, diante de mim, as portas da prisão bendita pela qual suspirava,
era-me ainda necessário lutar e sofrer; eu o sentia, ao voltar para França,
contudo, minha confiança era tão grande que não cessei de esperar que me
seria permitido entrar aos 25 de Dezembro"(30)). Será sempre assim! Nada
poderá tirar ou destruir a confiança de Teresinha! Nem mesmo os fatos
contrários, nem mesmo as decepções com os homens! Teresa não recua, não volta
atrás. Ela sente a dor e a tristeza como qualquer criatura humana normal, mas
não desanima: reza, implora, pede, confia, alcança...
Apaixonada, sincera e profundamente, por Deus, como poderia ela não
confiar nEle? No seu grande poema sobre o amor, no Manuscrito B, ela mesma dá
a resposta:" Ó Jesus, deixa-me, no excesso de minha gratidão, deixa-me
te dizer que teu amor vai até à loucura...Como queres que, diante desta
Loucura, que meu coração não se lance para ti? Como minha confiança poderia
ter limites?"(31). No
Carmelo, Santa Teresinha foi, cada dia, descobrindo mais o valor e o sentido
do seu Pequeno Caminho. Foi compreendendo cada marca e cada passo da sua
estrada. Porém, não lhe foi fácil partir para uma vivência clara, límpida,
descontraída, e, portanto, irrestrita, total, do caminho da confiança e do
amor. Um dia, porém, durante um retiro, que parecia não conduzi-la a nenhum
proveito espiritual, ela se encontrou com o Padre Alexis. Ela mesma conta
esse famoso encontro e como, desde então, jogou-se, inteiramente, nas ondas
da confiança e do amor:"Sentia, então, grandes provações interiores de
todas as espécies (até me perguntar, por vezes, se havia um céu). Não me
sentia disposta a dizer nada de minhas disposições íntimas, não sabendo como
exprimi-las, mas, logo que entrei no confessionário, senti minha alma se
dilatar. depois de ter dito poucas palavras, fui compreendida de uma maneira
maravilhosa e até adivinhada...minha alma era como um livro, no qual o Padre
lia melhor que eu mesma...Ele me lançou, a velas cheias, sobre as ondas da
confiança e do amor, que me fascinavam tão fortemente, mas sobre as quais não
ousava avançar"(32). Aí está a
alma de Teresa de Lisieux: viveu e navegou sobre as ondas da confiança. A
expressão onda diz muito bem o estado de espírito de quem, realmente, confia,
pois, às vezes, é jogado para cima e para baixo, e, muitas vezes, parece-lhe
que vai se afogar, mas ressurge sempre por cima, porque a confiança lhe dá
esperança, vida, coragem. Pois bem,
se a vida de Santa Teresinha foi toda ela firmada na confiança na infinita misericórdia
de Deus, não menos o foi a sua mensagem. Seu pequeno Caminho é o caminho da
confiança total na bondade infinita de Deus. Foi,assim, que ela ensinou; foi
assim que ela quis que os seus discípulos vivessem, justamente como ela
viveu. Em maio de
1897, numa carta ao Pe.Roulland, ela sintetizava sua mensagem, após um
pequeno sermão sobre a confiança na salvação eterna dos missionários do Senhor:"Eis aí, meu Irmão,o que penso
da justiça do bom Deus, meu caminho é
todo de confiança e de amor, não compreendo as almas que têm medo de um tão terno Amigo"(33). Mas,
é na carta dirigida à Irmã Maria do
Sagrado Coração, aos 17 de setembro de 1896, quando Teresa, atendendo a um
pedido de sua Madrinha, envia-lhe essa carta-resposta magnífica, que vamos
encontrar uma das frases mais significantes e marcantes de Santa Teresinha,
sobretudo, no que se refere à doutrina da confiança. Depois de ter explicado
que a pequenez e a fraqueza nada impedem
à transformação pelo amor, pelo contrário, elas são justamente a base
dessa transformação, Teresinha, iluminada pelo Espírito Santo,como doutora,
mestra e guia, conclui categórica e animadora:"É a confiança e só a
confiança que deve nos conduzir ao
Amor...O temor não conduz à Justiça?...Já que vemos o caminho, corramos
juntas. Sim, eu o sinto, Jesus quer nos dar as mesmas graças, ele quer nos
dar gratuitamente seu Céu"(34). Ninguém poderia exprimir melhor, com
tanto ardor, tanto entusiasmo e tanta sabedoria, a força, o significado e a
importância da confiança na vida espiritual como o faz aqui Teresa de
Lisieux. É evidente que devemos entender
o advérbio"gratuitamente" no seu sentido e na sua colocação
perfeita teologicamente, como aliás já explicamos anteriormente, quando
falamos sobre Teresa, teóloga. Esse mesmo advérbio, aqui,simplesmente reforça
e revigora a mensagem da confiança,
pois ela supõe nossa limitação, nossa quase incapacidade. É na ótica dessa
limitação, dessa quase impotência, que Teresa reforça a confiança dizendo que
o céu nos é dado gratuitamente, o que, evidentemente, não dispensa a
colaboração do homem na subida da montanha do amor. Sem
dúvida, outra carta , bonita e importante, é a que nossa Santa dirigiu ao
Pe.Bellière, aos 18 de julho de 1897. Durante esse último de sua vida, Santa
Teresinha tem um cuidado todo especial em orientar, em formar, em ensinar aos
que a rodeiam ou que têm algum
relacionamento com ela, os passos significativos de sua mensagem espiritual.
Pois bem, nessa carta, Teresa traça linhas mestras da sua espiritualidade.
Fala do amor, do sofrimento, do abandono e da confiança. E, à confiança ela
volta,explicitamente, três vezes. De início, escreve assim:"Quisera
tentar fazê-lo compreender, por uma comparação bem simples, quanto Jesus ama
as almas, mesmo imperfeitas, que confiam nEle". Vem, em seguida, a
parábola de "dois meninos travessos e desobedientes". No meio da
história, ela comenta:"Não creio que o coração de um feliz pai possa
resistir à confiança filial de seu filho, do qual ele conhece a sinceridade e
o amor". No final da sua parábola, nossa Santa, sentindo-se incapaz de
explicar todo o sentido da confiança e do amor no seu Pequeno Caminho, diz
para seu irmão espiritual:"Mas, por que lhe falar da vida de confiança e
de amor? Eu me explico tão mal, que é preciso esperar o céu para entretê-lo
sobre essa vida feliz"(35). Teresinha viu, muito bem, que com a
linguagem da terra lhe era impossível dizer o poder e explicar toda a
necessidade da confiança numa vida de amor. E é curioso que a Santa não diz,
aqui, caminho (voie), mas vida(vie), pois para ela o seu Caminho era a
própria vida. Oito dias
depois dessa carta, Santa Teresinha envia outra ao mesmo Pe. Bellière, em resposta a uma longa carta do Padre,
na qual ele dizia:"Você é feliz, querida irmã, por me ver entrar no Amor
pela confiança. Creio, com você, que é o único caminho, que me possa conduzir
ao Porto". Teresa se entusiasma com essa resposta. Sabe que conquistou
mais um para seu Pequeno Caminho, então, insiste e confirma:" O caminho
da confiança simples e amorosa é feito bem para você"(36). Estava aí
confirmado que o caminho teresiano é feito de amor e para andar por ele é
preciso ter muita confiança. E, para indicar e qualificar essa confiança,
Teresa denomina-a de "simples e amorosa".Não basta, na verdade, uma
simples confiança, é preciso uma confiança simples e cheia de amor. E Teresa
não falou ao Pe. Bellière apenas como uma simples amiga. Não. Ela estava
convencida de que estava orientando, ensinando. Era o seu Caminho, que ela
transmitia, nas cartas, a um irmão,
que ela queria que caminhasse, com ela, pelas estradas espirituais da
montanha do amor. Com efeito, um mês após essa última carta,ela, olhando a
fotografia do Pe.Bellière, vestido de soldado, disse à Madre Inês:"A
esse soldado, que tem o aspecto tão esperto. eu dou conselhos como a uma
menina! Eu lhe indico o caminho do amor e da confiança"(37). Não se
tratava, pois, de palavras confortadoras. Teresa não perdia tempo com
palavras bonitas, mas apenas de valor momentâneo. Não. O que ela escreveu nas
suas cartas, era, de fato, seu pensamento, sua vida, sua doutrina. No
Processo Ordinário e no Novissima Verba, encontramos uma passagem muito rica
e importante, em que nossa Santa expõe, claramente, o que ela entende pelo
seu Caminho de vida espiritual. Os textos das duas fontes citadas estão,
infelizmente, interpolados, pois, sabemos, hoje, que Teresa jamais usou a
expressão "infância espiritual"(38). Mas, as palavras principais e
próprias de Teresa se encontram na
primeira edição de "História de uma Alma"(1898, c. XII,
p.241).Aí encontramos esse maravilhoso diálogo de Madre Inês com nossa
Santa:"Que caminho você quer ensinar às almas? -Minha Madre, é o caminho
da confiança e do total abandono". Com
semelhantes declarações, não há, pois, nenhuma dúvida de que, o Pequeno
Caminho é todo ele de confiança e de confiança total e amorosa. E todo essa
doutrinação surge, naturalmente, como já dissemos, de toda a estrutura
fundamental da mensagem teresiana. Resta-nos,
porém, inquirir ainda sobre algumas características dessa confiança
teresiana. Já assinalamos, com
palavras da própria Santa, que ela deve ser amorosa, isto é, fundada no amor;
deve ser total, isto é, completa, sem nenhum resquício de medo, de desconfiança,
ou mesmo, de confiança na própria pessoa. Mas, há ainda outras notas
marcantes. Mais de
uma vez, Teresa fala de uma confiança grande, o que supõe uma confiança maior
do que a comum de cada dia. Numa carta dirigida a Maria Guérin, falando sobre
a dificuldade de falar com o Papa, ela diz:"Verdadeiramente, se o bom
Deus não se encarregasse de tudo, não sei como faria. Mas, tenho uma tão
grande confiança nele, que ele não poderá me abandonar"(39) O curioso e
importante é que essa grande confiança não diminui, quando nem tudo sai como
nós desejamos. Foi assim que aconteceu com Teresinha. Numa carta de novembro
de 1887, à Madre Inês, nossa Santa, referindo-se às provações que passava
antes de entrar no Carmelo, dizia:"O bom Deus me faz passar por muitas
provações, antes de me fazer entrar no Carmelo. Vou lhe contar como a visita
do Papa se passou. Oh! Paulina, se você tivesse podido ler no meu coração,
veria nele uma grande confiança; creio que fiz o que o bom Deus queria de
mim, agora só me resta rezar"(40). Mas,Santa
Teresinha fala também de uma confiança ilimitada. Estamos aí numa
qualificação muito mais forte do que possa dizer o adjetivo grande.Por outro
lado, essa expressão ilimitada parece
se confundir com o termo total, porém, parece indicar, também, não o volume
da nossa confiança, que deve ser total, mas a extensão ou o campo dessa mesma
confiança. Assim, total se referiria mais à pessoa, ao seu estado de
confiança, enquanto que ilimitada se refere à extensão, ao campo. dessa mesma
confiança, portanto, diz respeito à confiança em si. Na citada
carta dirigida à Irmã Maria do Sagrado Coração, Teresinha, explicando a razão
de sua confiança, diz:"Meus desejos de martírio não são nada, não são
eles que me dão a confiança ilimitada que sinto no meu coração"(41). Não
há uma explicitação do termo ilimitada, mas somente uma afirmação, uma
qualificação. Mas, na Autobiografia, falando sobre Santa Cecília,
Teresinha parece explicitar melhor
seu pensamento, quando escreve:"Tudo nela me encanta, sobretudo, seu
abandono, sua confiança ilimitada, que a tornaram capaz de virginizar almas,
que jamais desejaram outras alegrias senão as da vida presente"(42). Outra nota
marcante da confiança teresiana é designada pelo advérbio sempre. Não se pode
confiar em Deus apenas em alguns momentos, isto é, nossa confiança não pode
ser momentânea, ou seja, das ocasiões de necessidade, ou então, ausente
quando não se alcança o que se espera. Seria, assim, uma confiança
interesseira. Nossa confiança será completada pelo abandono e ambos exigem,
para serem autênticos, um colocar-se constante nas mãos de Deus. Portanto,
confiança de momento, quando sentimos necessidade ou confiança que
desaparece, porque não vemos o resultado, não é autêntica confiança segundo o
espírito teresiano.Quando estava angustiada para receber a permissão de entrar no Carmelo, Teresinha
escreveu uma cartinha ao Vigário Geral da Diocese, Padre Révérony, e lhe
disse:"Acabo de escrever ao Sr.Bispo, Papai e meu Tio me permitiram.
Espero sempre com confiança o sim do Menino Jesus. Sr.Padre, faltam apenas
oito dias para Natal! Quanto mais o tempo avança, tanto mais
espero"(43). Devemos
ajudar nossa confiança com os méritos dos outros. Aliás isso é uma
conseqüência também da comunhão dos santos. Psicologicamente, precisamos da
ajuda fraterna. Ela nos fortalece, anima, encoraja. Eis por que devemos
confiar também por força das orações dos outros. Sozinhos, temos sempre
dificuldades para vencer. Com a ajuda dos irmãos, teológica e
psicologicamente, tudo fica mais fácil e mais humano até. Santa Teresinha,
sempre no afã de conseguir a licença
para entrar no carmelo - e como foi difícil conseguir essa licença! -
escrevia a Maria Guérin:"Espero, minha querida irmãzinha, que você
continuará rezando por mim,tenho muita confiança nas suas orações, parece-me
que o bom Deus não poderá lhe recusar nada"(44). Se devemos
pedir ajuda aos outros, para sustentar e fortalecer nossa confiança, não
resta dúvida que Maria Santíssima tem em tudo isso -como sempre na mensagem
teresiana - um papel importante. Pela sua própria devoção a Maria, Teresa
depositava na Mãe de Deus uma confiança inabalável. Aliás, Maria provou e
confirmou sua ajuda a Teresinha em muitíssimas ocasiões. Então, pela fé e
pela experiência, ela podia, muito bem, dar um conselho a Maria Guérin, que
passava por uma crise de escrúpulos
muito perigosa:"Irmãzinha, antes de receber sua carta, pressentia
suas angústias, meu coração estava unido ao seu, esta noite no meu sonho,
procurar consolá-la, mas, ah!, não conseguia!...Não vou ser mais feliz hoje a
menos que Jesus e a Santíssima Virgem venham em meu socorro; espero que meu
desejo vai ser realizado e que no último dia de seu mês a Santíssima Virgem
vai curar minha irmãzinha querida. Mas, para isso é preciso rezar, rezar
muito. Se você pudesse colocar uma vela nos pés de N.Senhora das
Vitórias...tenho tanta confiança nela!"(45). A
confiança teresiana tem uma fonte certa e
clara,é a nossa própria fraqueza. Confia-se em Deus, não só porque Ele
é Deus, o Todo-Poderoso, mas, também porque somos criaturas. Isso pode
parecer evidente, mas, quando se reflete bem, nota-se logo que há aí uma
conotação diferente. Confiar, porque se é fraco, quer dizer, não desanimar,
não voltar atrás, prosseguir, marchar sempre para diante, mesmo sabendo e
sentindo que não temos muita coisa, que não podemos muita coisa,que não
conseguiremos muita coisa. Portanto, é verdade que só confiamos em Deus,
porque Ele é Deus, mas a confiança teresiana parte daí para encarar nossa
fraqueza e, apesar dela, querendo vencer, confiar naquele que tudo pode e
pode até mesmo transformar essa fraqueza.Portanto, a fraqueza não é motivo
para parar,para desanimar, mas, pelo contrário, é razão para confiar, para
vencer. A confiança,pois, tem endereço certo, que é justamente Deus, porque
só Ele e, não, as pessoas humanas,é quem pode nos fortalecer e nos dar a
graça da vitória.A confiança teresiana, portanto, funda-se no motivo
teológico do poder divino, mas surge, psicologicamente, da limitação humana,
o que lhe dá um caráter humano todo especial e, com iso, um sentido
consolador.Numa belíssima comparação, Teresa explica tudo isso, isto é, os
dois pólos-fonte da sua confiança, numa carta à Irmã Inês de Jesus:"Sim,
eu as desejo, a essas angústias do coração, essas picadas de alfinete de que
fala o cordeiro; que importa ao
canicinho se dobrar, ele não tem medo de se quebrar, porque foi plantado às
margens das águas; ao invés de ir tocar na terra, quando ele se dobra, só
encontra uma onda benfazeja, que o fortifica e lhe faz desejar que outra
tempestade venha passar sobre sua frágil cabeça. É sua fraqueza que faz toda
sua confiança, ele não poderia se quebrar, pois em qualquer coisa que lhe
aconteça, ele só ver a doce mão de
seu Jesus...Algumas vezes, as pequenas rajadas de vento são mais insuportáveis
ao caniço do que as grandes tempestades, pois então ela vai se
retemperar no seu regato querido,mas
as pequenas rajadas de vento não o fazem dobrar bastante para baixo, são
assim as picadas de alfinete"(46). Assim, o
fraco, o pobre, o pequenino, o humilde, quando vê que não tem nada em si
mesmo, ao invés de desesperar e desanimar, sente nascer dentro si uma nova
luz, a esperança de vencer, que lhe dá a confiança:"Não posso me apoiar
sobre nada, em nenhuma de minhas obras para ter confiança"(47). Portanto,
a confiança nasce da fraqueza, da limitação, mas ela vem de Deus, que é Bom e
Poderoso.Assim, a confiança teresiana é bipolar. De um lado, a limitação
humana; do outro lado, a grandeza e a bondade de Deus, que Teresa traduz
referindo tudo ao Coração de Deus:"Perto desse Coração, aprende-se a
valentia e, sobretudo, a confiança"(48). Mas, Santa
Teresinha sustenta uma tese especial e característica a respeito da fonte da
nossa confiança. Uma tese toda sua, que ela aplicou constantemente na sua
vida e que ensinou com tantos detalhes, que não se pode deixar de comentá-la.
Trata-se da tese dos desejos. Em toda
sua existência, como também em toda sua doutrina, Teresinha atendeu muito ao
lado psicológico. Ela encarou, com prazer, o dia a dia de cada um de
nós.Assinalou os problemas, as dificuldades; procurou encarar tudo isso com
realismo e sem medo. Depois, procurou em Deus a solução para tudo. E,a
encontrou. Por esse
caminho, Teresinha descobriu a tese dos desejos: sua razão de ser, o seu
sentido, a sua importância e as suas conseqüências. Ter
desejos é uma coisa normal em qualquer pessoa normal. Todavia, para Teresa de
Lisieux ter desejos, sentir um desejo especial, fortemente, significa algo
mais, muito mais profundo.Significa que Deus está aí. Significa que há nele
uma vontade explícita de Deus. Deus, pois, se manifesta também nos desejos
que suscita na pessoa, que o ama. Por outro
lado, seguindo um velho raciocínio filosófico, embora não tenha tido dele
nenhum conhecimento expresso, Teresinha raciocinava que Deus não podia fazer
coisas inúteis, não podia provocar anélitos, sonhos, desejos, vontades
infrutíferas, como se quisesse brincar com o homem. Santo Anselmo, por esse
caminho, procurou dar uma demonstração da existência de Deus. Teresinha, pelo
mesmo caminho, supondo já essa existência, afirmou que nada pode ser inútil,
quando a sua razão de ser é o próprio Deus. A teoria é
avançada e até perigosa, mas, não resta dúvida, teológica e filosoficamente,
tem toda a razão de ser e de ser verdadeira.Com efeito, o que sentimos de bom
e de grande dentro de nós, é obra do Espírito Santo. Por outro lado, o
Espírito Santo não poderia viver brincando conosco, isto é, dando-nos santos
e bons desejos e, ao mesmo tempo, martirizando-nos com a simples não
realização desses mesmos desejos. Em suma, filosófica e teologicamente,
Teresinha tem razão,embora, convenhamos, nem todo bom desejo é a vontade
expressa do Senhor. Vejamos, porém, como ela nos fala sobre isso, na sua
simplicidade de explicar as coisas profundas, que o Espírito de Deus lhe
comunica. Numa longa
carta ao Pe. Roulland, falando dos seus desejos de ser missionária e, ao
mesmo tempo, da necessidade de fazer sempre a vontade de Deus, ela
diz:"Oh como minha gratidão é grande, quando considero as delicadezas de
Jesus!...Que nos reserva Ele no céu,se, desde aqui, seu amor nos dispensa tão
deliciosas surpresas? Mais do que nunca, compreendo que os menores acontecimentos
de nossa vida são conduzidos por Deus, é Ele quem nos faz desejar e quem
realiza nossos desejos"(49). Assim, em poucas palavras, a tese foi
colocada. Na peça teatral, o Triunfo da Humildade, o pensamento é
completado:"Diria que o bom Deus se compraz em ouvir os desejos das almas simples e inocentes"(50).
Portanto, não se trata, aqui, de qualquer tipo de desejo. As almas simples e
puras só desejam coisas boas, inspiradas pelo Espírito Santo. São esses bons
desejos, gritos inenarráveis do Espírito dentro de nós, que não podem ficar
sem efeito. Em muitas
passagens teresianas, fica bem claro que a Santa considerava seus desejos
como a expressão da vontade de Deus e, por isso, eles julgava que eles
deveriam ser realizados.Assim, quando ela confia à Irmã Inês os motivos de
sua vocação, faz que sua irmã fique certa de que seus desejos são a vontade
do céu(51); quando confia a seu pai seu desejo de ser carmelita, logo seu pai
ficou convencido de que aquele desejo era do próprio Deus(52); na sua volta a
França, depois de sua viagem pela Itália, ela comenta:"Meu coração
aspirava por outras maravilhas, ele contemplara bastante as belezas da terra,
as do céu eram o objeto de seus desejos"(53). Todavia,
quando Teresa fala dos desejos dos corações simples e inocentes, não
determina que se trata apenas de santos e elevados desejos espirituais.
Trata-se, sim, de desejos que saem de um coração, que ama a Deus, mas que
tem, também, seus desejos simples e inocentes. Assim, quando ela quis ter um
sinal de que seu pai tinha ido direto para o céu, não hesitou em expressar a
Jesus esse seu desejo tão humano quanto filial:"Um dia, quando as
dificuldades pareciam insuperáveis disse a Jesus, durante minha ação de
graças:"O senhor sabe, meu Deus, quanto desejo saber,se Papai foi diretinho
para o céu, não lhe peço que me fale, mas me dê um sinal. Se minha Irmã A. de
J. consentir na entrada de Celina ou não colocar obstáculo nela, será a
resposta de que Papai foi diretinho para o senhor'. Essa irmã, como a senhora
sabe, minha Madre querida, achava que éramos já demais as três e, por
conseqüência, não queria admitir mais outra, mas o bom Deus, que tem em suas
mãos o coração das criaturas e o inclina como quer, mudou as disposições da
irmã. A primeira pessoa que encontrei após a ação de graças, foi ela, que me
chamou, amavelmente, e me disse para ir até a senhora e me falou de Celina,
com lágrimas nos olhos...Ah! quantos motivos não tenho eu para agradecer a
Jesus, que soube realizar todos meus desejos!"(54). Teresa
teve a coragem de confessar que todos seus desejos foram realizados. Dos
grandes, como "o de amar até morrer de amor"(55) até aos mais
simples:"Sim, de dois anos para cá, compreendi bem os mistérios até então escondidos para
mim. O bom Deus me mostrou a mesma misericórdia que mostrou ao rei Salomão.
Ele não quis que eu tenha um só desejo que não seja realizado, não somente
meus desejos de perfeição, mas ainda aqueles, dos quais compreendia a
vaidade, sem a ter experimentado". Teresa se refere, aqui, aos seus
desejos de poetar e pintar, como sua irmã, Paulina. A propósito, ela comenta,
logo abaixo:"Não teria querido pedir esses dons naturais e meus desejos
ficavam escondidos no fundo do coração.A Jesus, escondido também ele nesse
pobre coraçãozinho, aprouve
mostrar-lhe que tudo é vaidade e aflição de espírito sob o sol...Para
grande admiração das irmãs, fizeram-me pintar e o bom Deus permitiu que eu
saiba aproveitar das lições que minha
Madre querida me deu"(56). E, nossa Santa, com toda sua simplicidade e
naturalidade, confessa, feliz:"Há ainda outros desejos de outro gênero,
que a Jesus aprouve atender, desejos infantis semelhantes àqueles da neve de
minha tomada de hábito"(57).Assim, tinha toda razão nossa Santa, quando
no excesso de sua paixão por Deus, queria ser tudo para lhe dar prazer, mas,
sentindo sua impotência, exclamava:"Ó Jesus! meu amor, minha vida...como
aliar esses contrastes? Como realizar os desejos de minha pobre
alminha?...Ah! apesar de minha pequenez, quisera esclarecer as almas como os
Profetas, os Doutores,...Ó meu Jesus! a todas essas loucuras que vás
responder? Há uma alma menor, mais impotente do que a minha?...Contudo, por
causa mesmo de minha fraqueza,aprouve a ti, Senhor, realizar plenamente meus
desejoszinhos infantis, e tu queres, hoje, realizar outros desejos maiores do
que o universo"(58). Desejos infantis, como ter neve no dia de sua
vestição de hábito e isso aconteceu(59);desejo espiritual, como o de ter um
irmão padre e assim aconteceu(60); desejos de sofrer por Deus e assim
aconteceu(61); desejo de ter um sinal da conversão de um criminoso pela qual
ela rezava, e isso aconteceu(62); desejo de ser uma carmelita, mesmo tendo
apenas quinze anos de idade, e isso aconteceu, mesmo contra a vontade de
muita gente(63); desejos de ser uma santa apesar de sua fraqueza e pequenez e
isso aconteceu, porque Deus lhe fez descobrir um caminho especial(64);
desejos de amar até morrer de amor e isso aconteceu, porque foi assim que ela
morreu. Por isso, ela podia dizer, com toda a sinceridade da alma, apesar de
todos os seus sofrimentos:"...privada de toda a consolação era, contudo,
a mais feliz das criaturas, pois todos meus desejos estavam
satisfeitos"(65). Ei-la aí
uma tese fantástica, por muitos esquecida ou menosprezada, a tese teresiana
dos desejos. Ela é fonte de uma confiança inabalável e é, sem dúvida, fonte
certa e salutar de consolação e esperança, que não engana. Por esse motivo,
Santa Teresinha podia afirmar que a confiança faz milagres:"Não deixemos
de rezar, a confiança faz milagres"(66). Mas não
seriam os nossos pecados, que são ingratidões constantes para com nosso Deus,
um impedimento sério à confiança?
Santa Teresinha nos responde através de uma carta dirigida ao Pe.
Bellière, que ela orientava nas trilhas do Pequeno Caminho:"Ah! meu
querido Irmãozinho, desde quando me foi dado compreender também o amor do Coração de Jesus,
confesso-lhe que ele arrancou do meu
coração todo medo. As lembranças de
minhas faltas me humilha, leva-me a nunca me apoiar na minha força, que só é
fraqueza, porém, mais ainda, essa lembrança
me fala de misericórdia e de amor. Quando jogamos as faltas, com uma
confiança toda filial, na fornalha devoradora do Amor, como não seriam elas consumidas sem
retorno"(67). Não, de modo algum os nossos pecados podem nos resfriar na
confiança. Pelo contrário, eles são até motivo de crescermos nessa confiança,
porque Deus é misericórdia e amor:"Poder-se-ia pensar que é porque não pequei que tenho uma confiança tão
grande no bom Deus. Diga, minha Madre, que, se eu tivesse cometido todos os
crimes possíveis, teria sempre a mesma confiança, sinto que toda essa
multidão de ofensas seria como uma gota d'água jogada em uma fornalha
ardente"(68). Sua segurança ia tão longe, que ela chega a falar não do
pecado em geral, mas até especificar
o pecado mortal:"O pecado mortal não me tiraria a confiança"(69). A razão
fundamental disso tudo é a misericórdia divina, porque Deus quando se volta
para nós, sabe que está se voltando para pobres miseráveis pecadores. Assim,
se o homem é humilde, sente-se fraco, imperfeito e pequeno e é despojado de
tudo como um pobre, pode e deve voltar-se para Deus, que, por primeiro se
voltou para nós e quer nos encher com seus tesouros divinos. Ademais, tudo é
graça e até os pecados podem se transformar em graças,quando sabemos
aproveitá-los, usando do momento em que Deus se dirige para nós, com a sua
graça, para colocar nEle toda a nossa confiança. Perto de morrer, durante a
preparação para a santa comunhão,
Teresinha sentiu, durante o "Eu Pecador", a sensação de fraqueza e
de humilhação, então comentou em seguida:"Como é extraordinário ter
provado isso no "Eu Pecador"! Creio que é por causa da minha
disposição presente; sinto-me tão miserável! Minha confiança não diminuiu,
pelo contrário..."(70). Por esse
motivo, Teresinha colocou nos lábios da Virgem Maria umas palavras
consoladoras, que ela dirige a Suzana, na peça teatral "A Fuga para o
Egito":"Sem dúvida, os que você ama ofenderão o Deus que os cumula
de benefícios; contudo, tenha confiança na misericórdia infinita do bom Deus;
ela é bastante grande para apagar os maiores crimes, quando encontra um
coração de mãe que põe nela toda sua confiança"(71). Eis aí a
doutrina teresiana da confiança. Tudo é muito simples, muito seguro, muito
humano e muito divino. A confiança é como uma couraça, um capacete, um escudo
protetor e fortificador, que dá ao homem que confia em Deus, uma força
especial, uma defesa particular e uma possibilidade de vencer, porque, então,
o homem está revestido com a própria força, com a própria grandeza, com a
própria sabedoria, com a própria santidade, com a própria virtude de Deus. Se é
verdade que o único caminho que leva ao amor é a confiança, como disse acima
Teresa de Lisieux, é verdade também, como disse a mesma Santa, pelos motivos
que acabamos de expor, que "O que ofende Jesus, o que o fere no coração
é a falta de confiança!"(72), pois faltar com a confiança, é não ter fé,
não aceitar a Deus como Ele o é, é, em suma, renegar todo o cristianismo na
sua essência, porque é negar a Deus em todo seu ser de bondade, de amor, de
misericórdia e de poder. Mas, a
virtude da confiança, por mais bela, grande e importante que seja, ela
precisa se completar. E a complementação
essencial da confiança é o abandono. A
confiança é pôr a fiança em alguém. É uma decisão profunda e séria. O
abandono, porém, vai mais longe. Ele supõe a confiança, mas. além da decisão
séria e profunda da confiança, ele é um passo, um salto, um mergulho. A
confiança, por grande que seja, fica ainda no homem. Há, é verdade, um
relacionamento com Deus, muito sério e muito profundo, porque o homem fica
esperando tudo de seu Deus. Mas, é ainda uma atitude que deixa o homem no seu
lugar, com sua liberdade, seus desejos, suas aspirações e sua esperança. O abandono vai muito mais longe: ele não só
supõe a confiança, a esperança, mas faz que o homem se entregue a Deus, ponha
em Deus sua vontade, seus desejos, sua esperança. Pelo abandono, o homem sai
de si mesmo; já não tem mais desejo a não ser fazer a vontade de Deus, pois
ele se entrega totalmente ao querer divino.Portanto, o abandono vai mais
longe, enquanto tira o homem confiante de si mesmo e faz com que ele se jogue
nos braços de Deus, para que Deus realize o que quer, mesmo que o homem tenha
ainda algum desejo pessoal, ou alguma vontade própria. Teresinha, numa carta
à senhora Guérin, mostrou, muito bem, esses dois passos na caminhada
espiritual do seu Pequeno Caminho:"Eu tenho uma tão grande confiança
nEle, que Ele não poderá me
abandonar, coloco tudo nas suas mãos"(73). Aqui se pode ver, claramente,
que além da confiança, o abandono leva a pessoa a se entregar nas mãos de
Deus, tal é o elan da alma na procura de se entregar a Deus. Aqui, o
pequenino pode levar vantagem, porque não importa se alguém é fraco, o que importa
mesmo é o abandono:"Ó Jesus! não posso mesmo dizer a todas as alminhas
quanto tua condescendência é inefável...sinto que se, por impossível,
encontrasses uma alma mais fraca, menor
do que a minha, te comprazerias
a cumulá-la de favores ainda maiores, se ela se abandonasse, com uma
inteira confiança, à tua misericórdia infinita"(74). Esse
abandono deve ser total. Não pode ser pela metade. Nem mesmo o resultado do
que poderá acontecer com ele, deve importar àquele que se entrega. Assim
ensinava Teresinha a Celina:"ó Celina! como é fácil agradar a Jesus,
conquistar seu coração, basta só amar sem se olhar para si mesmo, sem
examinar demasiado suas faltas...Sua Teresa não se encontra nas alturas nesse
momento, mas Jesus lhe ensina 'a tirar proveito de tudo, do bem e do mal que
ela encontra em si'.Ele lhe ensina a jogar na banca do amor ou, antes, Ele
joga por ela sem lhe dizer como Ele se arranja, pois isso é seu ofício e,
não, o de Teresa, o que importa a ela
é se abandonar, entregar-se sem reserva, até mesmo a alegria de saber quanto a banca lhe rende"(75). Esse
ensinamento, pois, é muito sério e muito profundo. Ele significa, em última
palavra, que, sendo o abandono um entregar-se ou jogar-se nas mãos de Deus, o
homem não deve olhar mais nem pra trás, para suas faltas e seus fracassos,
nem para frente, o seu futuro. tudo deve ser colocado nas mãos de Deus. Na
peça teatral "A Missão de Joana d'Arc", S.Miguel fala para Joana
nestes termos:"Joana, invoca teu Deus, cujo amor é tão terno. Confia-lhe
o futuro!". E Joana, como numa resposta ao convite do Arcanjo, a
responde ao temor de sua irmã, Catarina:"Minha irmãzinha querida, é
preciso abandonar o futuro nas mãos do bom Deus"(76). Assim,
entende-se a admiração de Santa Teresinha por Santa Cecília. Foi o abandono
total e quase despreocupado da Santa romana, que deixou fascinada a Santa de
Lisieux:"Não posso pensar, sem me fascinar, na querida santinha
Cecília...No meio do mundo, mergulhada no seio de todos os perigos, no
momento de se unir a um jovem pagão,
que só respira o amor profano, parece-me que Cecília teria devido tremer e
chorar...mas, não, ao ouvir o som dos instrumentos que celebravam suas
núpcias, Cecília cantava em seu coração...Que abandono!"(77). No seu
primeiro longo e pessoal poema(78), Teresa de Lisieux cantou esse abandono de
Santa Cecília, como a expressão dos seus próprios sentimentos, dos seus
sonhos e do seu ideal no que diz respeito ao abandono:
Sem dúvida, querias abandonar a vida
E te unir, para sempre,a Jesus no céu
Mas, não...ouço vibrar tua lira seráfica,
Lira de teu amor, cujo som foi tão doce,
Cantavas ao Senhor este sublime cântico:
Conserva pura meu coração,Jesus,meu terno Esposo!
Inefável abandono! Divina melodia!
Revelas o amor pelo teu canto celestial.
O amor que não teme,que adormece e se esquece
Sobre o coração de seu Deus,como uma criancinha" O tema é
sempre o mesmo. Em Teresa, tudo é dialeticamente coordenado e disposto. Uma
coisa puxa a outra. Assim, como numa cascata, tudo se segue ordenadamente.
Ser como uma criança diante de Deus, isto é, humilde, simples, pobre,
obediente, pequenino, reconhecendo sua fraqueza, confiando totalmente na
bondade e na grandeza de Deus, tudo isso tem que levar a uma conclusão só:
o total abandono! Como é belo e
encantador! Por este motivo, referindo-se a esse poema sobre Santa Cecília,
que ela enviara a Celina, por ocasião da festa de seus 25 anos, em abril de
1894, Teresa dizia:"Seria necessária outra língua que não a da terra,
para exprimir a beleza do abandono de uma alma nas mãos de Jesus, meu coração
pôde apenas balbuciar o que ele sente"(79). É ponto,
pois, essencial do Pequeno Caminho a doutrina do abandono, como entrega total
nas mãos de Deus. Teresa repete isso várias vezes, esclarecendo sempre que
essa é a atitude mais natural da criancinha, que dorme nos braços de seu
pai:"Compreendo, muito bem, que só amor pode nos tornar agradáveis ao
bom Deus, que esse amor é o único bem que ambiciono. Jesus se compraz em me
mostrar o único caminho que conduz a essa fornalha divina, esse caminho é o
abandono da criancinha, que adormece, sem medo, nos braços de seu Pai(80). Pelo que
dissemos, fica claro que esse abandono total, semelhante aonde uma criancinha
que dorme, confiante, nos braços de seu pai, é, de fato, uma entrega
completa, é procurar fazer somente a vontade de Deus, é um querer perder-se
no querer divino. Por isso, Teresa dizia:"Oh! como é doce o caminho do
Amor!...Como eu quero me aplicar a fazer sempre, com o maior abandono, a
vontade do bom Deus!"(81). Esse entregar-se à vontade divina deve ser
completo, isto é,deve ser para qualquer coisa que se refira à pessoa em jogo.
Teresinha nos deu um exemplo, quando, perto de morrer, disse à Irmã
Inês:"Vou morrer em breve; mas, quando? Oh! quando?...Isso não vem! Sou
como uma criancinha a quem se promete um presente; mostram-lho de longe;
depois, quando ela se aproxima para pegá-lo, a mão se afasta...Mas, no fundo,
estou bem abandonada para viver, para morrer, para ficar curada e para ir
para a Cochichina, se o bom Deus quiser"(82).E, ainda mais perto de morrer:"Estou
bem abandonada(=entregue totalmente ao abandono), esperarei tanto quanto Ele
quiser"(83)
Compreende-se, por esse discurso, que o abandono é uma tomada perfeita
de posição do cristão, que crê realmente no seu Deus, todo-poderoso e
onisciente. Fazer somente a vontade de Deus, que é o ideal para cada um de
nós, só pode ser o melhor caminho e a melhor decisão. Assim ensinou
Teresinha, quando disse na sua Autobiografia:"Agora, é o abandono
somente que me guia, não tenho outra bússola!...Não posso pedir mais nada com ardor, a não ser o
cumprimento perfeito da vontade do bom Deus na minha alma, sem que as
criaturas possam pôr aí algum obstáculo"(84).Portanto, quem se abandona,
está seguro de que fez o que devia fazer, de que escolheu o melhor, o mais
certo e, por isso, não procura mudar nada, deixa tudo sob a responsabilidade
de seu Deus, a quem se entregou totalmente. Foi esta conseqüência que
Teresinha entendeu, quando a vinte e cinco dias de sua morte, respondendo ao
médico, que lhe dizia que ela estava como
um barco, que não avança nem recua, disse à Irmã Inês:"A senhora ouviu,
veja como muda! Mas, eu não quero mudar, quero continuar me abandonando
inteiramente ao bom Deus"(85). Nada,
pois, deve fazer o homem recuar do seu abandono a Deus. Nada. Nem mesmo os
nossos pecados.Humildemente, nossa Santa confessava à sua irmã,
Celina:"Não sou sempre
fiel", e acrescentava, de imediato:"mas não me desencorajo nunca,
abandono-me nos braços de Jesus"(86). Os
pecados, pois, ao invés de serem motivo de desencorajamento, de desestímulo,
devem ser, pelo contrário, razão para maior abandono,justamente porque eles
nos mostram nossa fraqueza diante da bondade e da santidade de Deus.Assim, o
homem escapa do fracasso total e da decepção diante de suas limitações espirituais.
Santa Teresinha foi muito longe nessa trilha, a ponto de não se importar
muito com os pecados, e, sim, com o amor, com a graça, com a vontade de Deus,
entregando a Ele até os seus pecados:"Procuro não me ocupar comigo em nada, e o que Jesus se digna operar em
minha alma, eu lho abandono, pois não escolhi uma vida austera para expiar
minhas faltas, mas as dos outros"(87). Se nada nos deve separar do abandono nas
braços do Pai, é bom saber que Deus, algumas vezes, prova nosso abandono ou,
então, permite que nosso abandono seja provado. Mas aí também, como disse
S.Paulo, nem o frio, nem a fome, nem açoites, nada deve nos separar do amor
de Deus. Nesse caso, se a provação vem dos homens, que ela nos faça crescer
na entrega nas mãos de Deus. Foi o que aconteceu com Teresinha, quando ela
recebeu a licença dos superiores eclesiásticos para entrar no Carmelo, mas a
Madre Gonzaga protelou essa entrada por mais três meses:"Uma carta da
Madre Maria de Gonzaga me anunciou que a resposta do Senhor Bispo chegara no
dia 28, festa dos Santos Inocentes, mas ela não mo fizera saber, tendo decido
que minha entrada não aconteceria senão após a quaresma. Não pude conter as
lágrimas com o pensamento de tão longo adiamento. Essa provação teve para mim
um caráter todo particular, via meus laços rompidos do lado do mundo e, dessa
vez, era a arca santa que recusava sua entrada à pobre pombinha...Quero crer
que devo ter parecido desrrazoada não
aceitando, alegremente, meus três meses de exílio, mas creio também que, sem
o parecer, essa provação foi muito grande e me fez crescer muito no abandono
e nas outras virtudes"(88). Se, por outro lado, a provação parece vir
diretamente do céu, então, há maior razão para se crescer no abandono e dar
nossa prova e testemunho de que queremos apenas a vontade de Deus, mesmo que
isso nos custe muito, antes, muitíssimo. No mês de julho do ano de sua morte,
Teresa pensou que o seu médico estava enganado e que ela estava realmente
muito doente. Depois de fazer alguns comentários sobre o abandono nessa
ocasião, ela acrescentou:" Creio que não é a Santíssima Virgem quem
brinca comigo nesses dias!...Ela é forçada pelo bom Deus!...Ele lhe diz de me
provar, a fim de que eu lhe dê mais testemunhos de abandono e de
amor"(89). Se tudo
isso é verdade, é também verdade que Deus jamais abandona ninguém. É preciso
ter essa segurança e essa fé, pois, do contrário não adiantaria nosso
abandono, e, certamente nem sequer o teríamos, já que estaríamos convencidos
de que Deus pode nos abandonar. O abandono do homem é baseado no não-abandono
de Deus. Quando Teresinha começou a lutar pela sua entrada no Carmelo, aos
quinze anos de idade, teve de enfrentar o tio tutor, para conseguir também
dele a licença esperada. Teve, então, com ele um conversa muito séria, mas
notou que ele apresentara muito obstáculos que, segundo ela, não existiam
para Deus. Relatando esse acontecimento à Irmã Inês de Jesus, ela
escreveu:"Oh! minha Paulina querida, não posso lhe dizer, hoje, todas as
coisas, das quais meu coração está cheio, não posso ajuntar todas as minhas
idéias. Sinto-me, apesar de tudo, cheia de coragem, estou bem segura de que o
bom Deus não vai me abandonar"(90). Deus não
abandona ninguém, que a Ele tenha se entregado com toda a confiança e com
todo o amor. Isso supõe que o homem deve fazer esforço também. O abandono não
é quietismo; não é hedonismo; não é um passivismo. Na verdade, abandonar-se
requer coragem, disposição, ânimo para enfrentar todas as adversidades e até
as provações de Deus. Não é fácil entregar-se totalmente nas mãos de Deus,
quanto tudo parece correr adversamente e vemos, de certa maneira, naufragar o
barquinho da nossa existência. Por outro lado, abandonar-se não significa
entregar tudo a Deus e ficar esperando que Ele resolva tudo, como se tudo dependesse
só dEle, sem nenhuma colaboração nossa. Afinal, Deus nos deu a cabeça foi
para pensar e não somente para usar cabelo. Santa Teresinha nos adverte,
indiretamente, sobre essa necessidade de fazer tudo o que é possível da nossa
parte, mesmo tendo entregado tudo a Deus, para que Ele resolva e decida segundo sua santíssima vontade,
quando se referindo aos seus esforços para entrar no Carmelo, escreveu no seu
regresso a França, após a audiência com o Papa:"Eu me abandonei
completamente, fiz tudo o que dependia de mim, tudo, até falar com o Papa,
assim não sabia o que devia fazer ainda"(91).É bom lembrar que, mesmo
quando fizemos tudo que podíamos, nosso abandono não pode ser uma mera
espera. Nesses casos, Teresinha dizia,como anotamos acima, que é preciso
continuar rezando e rezando muito. Um modo
errado de proceder com Deus seria querer fazer somente a vontade própria.
Outro modo errado seria querer se entregar a Deus e cair num quietismo
pernicioso quanto indolente. O modo certo é o que Teresa nos ensinou, a saber, fazer tudo que se tem a fazer
até o ponto de não saber mais o que se pode fazer, mas, ao mesmo tempo,
entregar tudo a Deus num abandono total e completo, querendo fazer somente a
vontade do Senhor. E, às vezes, acontece que não podendo realizar muita
coisa, temos pouco para apresentar a Deus. Mas, então, nesse caso, é preciso
saber que o Senhor se contenta com nosso abandono. A propósito de sua
profissão, Teresinha escreveu à sua irmã Leônia estas palavras
consoladoras:"Não me inquietei mais
com a data da minha profissão, pensando que, no dia em que meu vestido
de núpcias estiver pronto, Jesus virá buscar sua pobre esposasinha"(92) Contudo,
se o abandono supõe nosso esforço, nossa colaboração, não podemos deixar de
lembrar que ele é uma graça, uma
grande graça de Deus, pois é Deus quem nos pode levar ao abandono, como
virtude. Nas "Últimas Conversações", Santa Teresinha recorda-nos esta verdade:"Essa
palavra de Jó:'Ainda quando o Senhor me matasse, esperaria ainda nEle' me
encanta desde minha infância. Mas foi preciso muito tempo para me estabelecer
nesse grau de abandono. Agora, já cheguei aí; o bom Deus me colocou, Ele me
tomou nos seus braços e me pôs lá"(93). Sendo uma
graça de Deus, o homem que quer se abandonar a Ele, não deve se inquietar com
nada, consciente de ter feito o que devia, pois, no fundo, tudo é graça e o
que Deus quer mesmo é o que está dentro de nós,ou seja, esse abandonar-se e a
nossa gratidão por tudo que Ele faz por nós.Teresa de Lisieux, no auge do seu
entusiasmo, exclamava, iluminada pelo Espírito Santo:"Ah! se todas as
almas fracas e imperfeitas sentissem o que sente a menor de todas as almas, a
alma de sua Teresinha, nem uma só desesperaria de chegar ao cume da montanha
do amor, pois Jesus não pede grandes ações, mas somente o abandono e o
reconhecimento"(94). Foi, por isso, que numa carta ao Pe. Bellière,
nossa Santa escrevia, feliz:"Ah! como é doce se abandonar nos seus (de
Deus) braços, sem temores nem desejos"(95). É
interessante que o Pequeno Caminho, no conjunto e nos seus detalhes
essenciais e principais, tem seu lado teológico, espiritual, religioso, mas
tem também seu lado humano e psicológico. No caso específico do abandono,
podemos falar de certa psicologia do abandono na doutrina teresiana. Podemos
mesmo determinar a ação psicológica desse abandono, falando de certa
liberação. Queremos dizer que, com o abandono teresiano, a pessoa não só
progride espiritualmente, mas também pode até se libertar de muita coisa, que
incomoda psicologicamente. Nesse mister, nossa Santa é mestre consumada. Ela
sempre acerta, porque passou por fases duras, viveu num ambiente difícil e
terminou vencendo tudo.Assim, na dúvida sobre seu real estado de saúde, ela
dizia:"Se minha alma não estivesse a priori toda cheia de abandono à
vontade do bom Deus, se fosse necessário que ela se deixasse submergir pelos
sentimentos de alegria ou de tristeza
que se sucedem tão rapidamente na terra, seria uma maré de dor bem amarga e
não poderia suportá-la. Mas essas alternativas só tocam a superfície de minha alma...Ah! são, contudo, grandes
provas"(96). Notemos que a Santa reconhece o problema humano até como
sendo uma grande provação, todavia, com o abandono, afirma que tudo corre
pela superfície de sua alma, sem descer à profundidade do seu interior. Belo
efeito de calma e de ordem, que as grandes almas conseguem mediante o
abandono à vontade do Senhor. Essa
liberação chega mesmo a trazer um sentimento de felicidade. A pessoa
desinquieta-se e mesmo nas vagas e
marés da vida, sente-se feliz. Foi isso que aconteceu com Teresinha, conforme
suas próprias palavras:"A Santíssima Virgem atende bem aos meus recados, vou lhe dar um,outra vez.
Repito-lhe muitíssimas vezes:'Diga a Ele para não se preocupar comigo'. Ele
ouviu e é o que fez. Não compreendo
mais nada da minha doença. Eis que estou melhor! Mas, eu me abandono e
sou feliz mesmo assim. O que me aconteceria se alimentasse a esperança
de morrer em breve? Que decepção! Mas não tenho nenhuma, porque estou
contente com tudo o que o bom Deus faz, só desejo sua vontade"(97). Essa
liberação, que traz calma, que traz felicidade,deve trazer também alegria até
mesmo para outrem, que ama alguém que
sofre, porque o sofredor, que se abandonou a Deus, sabe que Ele não o deixará sofrer acima de suas forças. Irmã
Inês mostrava-se triste,porque pensava que sua santa irmã ainda poderia
sofrer muito. Comunicou, então, esse sentimento à nossa Santa, que lhe disse
de pronto:"Estou pronta para tudo...A senhora vê, contudo, que até aqui
não sofri acima de minhas forças. É
preciso se abandonar. Quisera que a senhora se alegrasse"(98). Aqui,
temos um passo adiante. É um alto grau de abandono, em que a pessoa não só se
libera de muitos incômodos interiores, mas até chega a desejar que os outros
fiquem felizes com o estado dela, mesmo sofrendo, porque ela está sempre
superando e vencendo a dor. A morte é
sempre um mistério, mistério que deixa o homem entre incógnitas. Mesmo com
muita fé, a passagem para a vida eterna ainda é um abismo para o lado humano
de cada pessoa. Um belo dia, Teresinha enfrentou esse pensamento, mas o
abandono logo a libertou do medo do mistério:"Tenho medo de ter tido
medo da morte. Mas, não tenho medo do
depois, certamente. E não lamento a vida, não. Apenas me pergunto: que é essa separação misteriosa da alma e
do corpo? Foi a primeira vez que senti isso, mas, imediatamente, abandonei-me
ao bom Deus"(99). Nem a morte é capaz de perturbar a paz do abandonado
totalmente nos braços do Pai do céu! No mundo
espiritual, a libertação é total. O homem que se abandona, sabe que assim
procede porque é pequeno, frágil, pobre. Então, ele obedece e segue a vontade
do seu Senhor, que é grande, forte, poderoso e santo. Ora bem, nessa linha, o
abandono não só é uma conseqüência natural,mas é também um estado de
salvação, de libertação espiritual. No famoso Manuscrito B, Teresinha nos
explica melhor todo esse discurso liberador do abandono:"Como uma alma
tão imperfeita como a minha pode aspirar a possuir a plenitude do Amor?...Ó
Jesus, meu primeiro, meu único Amigo, a ti a quem amo UNICAMENTE, diz-me qual
é esse mistério? Por que não reservas essas imensas aspirações às grandes almas, às Águias que planam nas alturas?
Eu me considero como um fraco passarinho coberto somente com uma leve penugem;
não sou uma águia, dela tenho apenas os OLHOS e o CORAÇÃO, pois apesar de
minha extrema pequenez, ouso fixar o Sol Divino, o Sol do Amor e meu coração
sente nEle todas as aspirações da Águia...O passarinho queria voar voar para
esse brilhante Sol, que encanta seus olhos, ele queria imitar as Águias, seus
irmãos, que ele vê se elevar até à fornalha
divina da Trindade Santa...ah! tudo o que ele pode fazer, é levantar
suas asinhas, mas voar, isso não está no seu poder! Que vai ser dele? Morrer
de tristeza vendo-se tão impotente?...Oh, não! o passarinho não vai nem se
afligir. Com um audacioso abandono, ele quer ficar fixando seu Sol Divino; nada poderá atemorizá-lo, nem o vento
nem a chuva, e se nuvens sombrias
chegam a esconder o Astro Divino, o passarinho muda de lugar, ele sabe
que além das nuvens seu Sol brilha sempre, que seu brilho não poderia se
eclipsar nem um só instante"(100). Eis aí, como também na linha
espiritual, o abandono teresiano é consolador, animador, incentivador,
libertador. Nada pode decepcionar, atemorizar, derrotar aquele que, de fato,
abandona-se totalmente nos braços do seu Pai do céu! Essa é a
pura e simples doutrina teresiana. O gênio de Teresa de Lisieux a descobriu
no evangelho, à luz do Espírito Santo. Já muitos tinham falado sobre o
abandono, mas foi Santa Teresinha quem no-lo revelou como sendo a atitude de
completa doação e total entrega à vontade divina na semelhança de uma
criancinha que se entrega, confiante e totalmente, nos braços de seu pai.Essa
é a pura mensagem teresiana, conforme
nossa Santa escrevia à Irmã Maria do Sagrado Coração:"A ciência do Amor,
ah, sim! essa palavra ressoa docemente ao ouvido de minha alma, só desejo
essa ciência. Por ela, tendo dado todas as minhas riquezas, estimo como a
esposa dos sagrados cânticos, não ter dado nada...Compreendo muito bem que só
o amor pode nos tornar agradáveis ao bom Deus, que esse amor é o único bem
que ambiciono. Jesus se compraz em me
mostrar o único caminho que conduz a essa fornalha divina, esse caminho é o
abandono da criancinha que dorme, sem medo, nos braços de seu pai"(101).
Se o amor é o sangue da mensagem teresiana, o abandono é o único caminho que
leva a esse amor! Quando,
perto de morrer, foi interrogada pela Irmã Inês para que lhe explicasse o que
era mesmo o seu Caminho, ela respondeu:"É o caminho da confiança e do
total abandono"(102).E é difícil caminhar por essa estrada do abandono?
A resposta a própria Santa no-la dá numa carta à Irmã Maria de São José, em
dezembro de 1896:"É demais pedir à criancinha para fechar os olhos?...para não lutar contra as quimeras da
noite?...Não, não é demais e a
criancinha vai se abandonar, vai acreditar que Jesus a leva, vai consentir em
não vê-lo e deixar bem longe o medo estéril de ser infiel(medo que não convém
a uma criança)"(103). Foi por isso que, querendo orientar seu irmão
espiritual, Pe. Roulland, pelo seu próprio Caminho, a Santa lhe escreveu em maio de 1897, estas
palavras:"Então, tudo me parece luminoso, uma só palavra descobre à
minha alma horizontes infinitos, a perfeição me parece fácil, vejo que basta
reconhecer seu nada e se abandonar como uma criança nos braços do bom
Deus"(104). Retomando
uma idéia querida do seu tempo de lutas para entrar no Carmelo, Teresinha, na
peça teatral "O Divino Mendigozinho de Natal" relembra o simbolismo
do Brinquedo do Menino Jesus com estas palavras, cantadas por um anjo:
"Quereis ser sobre a terra O
Brinquedo do Menino Jesus?...
Minha Irmã, desejais agradar-lhe?
Permanecei na sua mãozinha.
Se o amável Menino vos acaricia
Se Ele vos aproxima do seu coração, E
se, por vezes, Ele vos deixa ao lado
Fazei de tudo isso vossa felicidade"(105) Não resta,
pois, dúvida de que o Pequeno Caminho é a estrada da confiança e do abandono,
que conduz ao cume da montanha do amor. Esse abandono. tão importante na
doutrina teresiana, é sempre comparado ao comportamento de uma criancinha que
dorme tranqüila nos braços de seu pai e -o que é mais importante ainda- sem
se preocupar com o que vai acontecer com ela, agora e no futuro:"O bom Deus quer que eu me abandone como
uma criancinha que não se inquieta com o que farão dela"(106).
Atendendo a um pedido da Irmã
Teresa de Santo Agostinho, Santa Teresinha, no dia 31 de maio de 1897, compôs alguns versinhos, tão simples quanto
deliciosos, que englobam quase tudo que dissemos sobre sua doutrina do abandono total nos braços do Pai do
céu. Nessa poesia, o abandono aparece não como caminho para o amor, mas como
"o fruto delicioso do Amor", o que, na verdade, vem apenas
completar nosso discurso, já que quanto mais amor, tanto mais abandono no
amante:
"Existe nesta terra
Uma Árvore maravilhosa
Sua raiz, oh mistério!
Encontra-se lá nos céus...
Jamais sob sua sombra
Algo poderia ferir
Lá, sem temer a tempestade A
gente pode repousar.
Dessa Árvore inefável O
Amor é o seu nome, O
seu fruto deleitável
Abandono ele se chama.
Esse fruto já nessa vida
Me dá a felicidade
Minha alma se alegra
Com seu divino odor
Quando toco nesse fruto ele
me parece um tesouro
Quando o levo à minha boca
Ele é mais doce ainda.
Ele me dá neste mundo
Um oceano de paz E
nessa paz profunda
Eu repouso para sempre.
Só o Abandono me entrega
Nos teus braços, ó Jesus É
ele que me faz viver
Da vida dos eleitos. A
ti eu me abandono, Ó
meu Esposo divino e
agora só ambiciono o
teu olhar tão doce. Eu quero sorrir para ti
Dormindo sobre teu coração
Quero ainda repetir
Que te amo,ó Senhor!
Tal qual a bonina
De cálice vermelho
Eu, uma florzinha
Me abro para o sol. Meu doce Sol de vida Ó
meu amável rei É
a divina Hóstia
Pequenina como eu...
De sua celeste Chama O
luminoso raio
Faz nascer na minh'alma O
perfeito abandono. Todas as criaturas
Podem me desprezar
Saberei sem murmúrios
Perto de ti, superar. E
se tu me desprezas, Ó
meu divino tesouro
Privada de tuas carícias
Mesmo assim quero sorrir.
Em paz vou esperar
Doce Jesus, tua volta E
jamais suspenderei
Os meus cânticos de amor.
Não, nada me inquieta
Nada pode me turbar
Mais alto que a cotovia Minha alma sabe voar.
Por cima das nuvens O
céu é sempre azul A
gente toca as praias
Onde reina o bom Deus
Espero, em paz, a glória
Da celeste morada
Pois encontro no Cibório O
doce fruto do Amor!"(107). NOTAS (1) -M.A,70v (2) -C.A.7.7.4 (3) -C.A.27.5.5 (4) -C.A.5.7.3 (5) -C.A.7.8.4 (6) -M.C,25r (7) -C.A.11.8.3 (8) -CT,137 (9) -C.A.23.8.9 (10) -M.A,57r (11) -C.A.20.8.14 (12) -C.A.20.8.14 (13) -C.A.24.7.1 (14) -CT,224 (15) -CT,261 (16) -C.A.9.8.2 (17) -CT,141 (18) -CT,167 (19) -M.C,33v (20) -C.A.25,7.13 (21) -M.A,2v (22) -CT,190 (23) -C.A.10.7.1 (24) -M.A,75v (25) -CT,178 (26) -M.C,36v-37r (27) -M.A,32r (28) -M.A,46r (29) -M.A,62v (30) -M.A,67r (31) -M.B,5b (32) -M.A,80v (33) -CT,226 (34) -CT,197 (35) -CT,258 (36) -CT,261 (37) -C.A.12.8.2 (38) -Madre Inês reconheceu.
formalmente, ter participado da origem da expressão "Infância Espiritual".
Cita- mos, aqui, as observações encontradas no "Derniers Entretiens", I vol., p.579: "À Irmã Maria dos
Anjos que deplorava as ambigüidades dessa fórmula e
as deformações às quais ela dava lugar,Madre Inês respondeu ,espontaneamente,:'Mas, a senhora sabe bem que Teresa nunca a
empregou! Fui eu...'. (39) -CT,132 (40) -CT,36 (41) -CT,197 (42) -M.C,61v (43) -CT,39 (44) -CT,37 (45) -CT,92 (46) -CT,55 (47) -C.A.6.8.4 (48) -CT,200 (49) -CT,201 (50) -Teatro,p.251 (51) -M.A,26r (52) -M.A,50r (53) -M.A,67r (54) -M.A,82v (55) -M.C,7v (56) -M.A,81r (57) -M.A,81v (58) -M.B,3r (59) -M.A,72r (60) -M.C,31v (61) -M.C,36v (62) -M.A,46r (63) -M.A,69r (64) -M.C,2v-3r (65) -M.A,73v (66) -CT,129 (67) -CT,247 (68) -C.A.11.7.6 (69) -C.A.20.7.3 (70) -C.A.12.8.3 (71) -Teatro,p.235 (72) -CT,92 (73) -CT,32 (74) -M.B,5v (75) -CT,142 (76) -Teatro,pp.76 e 79 (77) -CT,149 (78) -PN3 (79) -CT,161 (80) -CT,196 (81) -M.A,84v (82) -C.A.21/26.5.2 (83) -C.A.1.8.5 (84) -M.A,83r (85) -C.A.5.9.4 (86) -CT,143 (87) -CT,247 (88) -M.A,68r (89) -C.A.10.7.14 (90) -CT,27 (91) -M.A,67r (92) -CT,176 (93) -C.A.7.7.3 (94) -M.B,1v (95) -CT,263 (96) -C.A.10.7.3 (97) -C.A.10.6 (98) -C.A.25.8.8 (99) -C.A.11.9.4 (100)-M.B,4v-5r (101)-M.B,1r (102)-NV.17.7.2 (103)-CT,205 (104)-CT,226 (105)-Teatro,p.193 (106)-C.A.15.6.1 (107)-PN52 O PESO
DA SUBIDA
Ninguém pode subir uma
montanha sem fazer esforço. É verdade que Santa Teresinha fala de um ascensor
para subir os degraus da perfeição. É verdade que ela lembra também as asas
da Águia Adorada, sobre as quais podemos voar para o alto da montanha do
amor. Tudo isso é verdade. Todavia, mesmo com todos esses recursos, quem se
dispuser a subir essa montanha, mesmo que não vá até o seu cume, deve estar
preparado para enfrentar todas as dificuldades que essa subida acarreta para
o aventureiro do amor. Essas dificuldades fazem o peso da subida. Em outras
palavras, queremos falar do sofrimento que é, além do peso, o preço da
subida, mesmo que ela seja, como dissemos, nos braços do Pai do céu e pelas
asas da Águia adorada. Aliás,
Jesus não enganou ninguém. Ele foi bem claro e taxativo. Falou sobre sua
mensagem de amor, de paz, de alegria, de vida, mas disse a todos, bem
categoricamente, que quem quisesse seguí-lo, teria de carregar sua cruz e foi
esse caminho que Ele mesmo seguiu. Só pela efusão de sangue pode haver
redenção, diz a Escritura. Fora da cruz, pois, não há salvação. A teologia da
cruz, por conseguinte, não é poesia ou apenas um campo específico dos
místicos. A cruz é o único caminho, de fato, para se seguir Jesus Cristo! Teresa de
Lisieux foi uma santa da cruz, do sofrimento, da dor. Os seus escritos estão
repletos da idéia da cruz. Quase todas suas Cartas falam de sofrimento, quer
usando essa palavra, quer falando de sofrer, quer se referindo a uma qualquer
espécie de cruz.É impressionante como essa era uma idéia fixa de nossa Santa.
Ela compreendeu, perfeitamente, que só se consegue o amor pelo sofrimento, ou
seja, unindo-nos ao Autor do amor que provou o amor pregado em uma cruz. Com
efeito, na cruz começa o mistério pascal; na cruz começa a vida em
abundância; das chagas de Jesus jorra para o mundo a nova vida. Teresa não
só compreendeu o mistério e a importância do sofrimento, mas sofreu, séria e
profundamente, do início ao fim de sua vida. Ela também foi uma crucificada
com Jesus para a sua e a salvação dos seus irmãos. A propósito Teresinha nos
conta um fato interessante, sobretudo por causa do comentário que a ele faz a
Santa:"Desde essa comunhão, meu desejo de receber o bom Deus tornou-se cada vez maior. Obtive a licença para comungar em todas as principais
festas. Na véspera desses dias felizes, Maria me punha no colo e me preparava
como ela o fizera para minha primeira comunhão. Lembro-me de que, um dia, ela
me falou do sofrimento, dizendo-me que, provavelmente, eu não andaria por
esse caminho, mas que o bom Deus me levaria sempre como a uma criança...No
dia seguinte, após minha comunhão, as palavras de Maria me vieram ao
pensamento; senti nascer em meu
coração um grande desejo do sofrimento e, ao mesmo tempo, a certeza íntima de
que Jesus me reservava um grande número de cruzes; senti-me inundada de
consolações tão grandes que as tenho como uma das maiores graças de minha
vida.O sofrimento se tornou minha atração, ele tinha encantos que me fascinavam
sem conhecê-los bem. Até então,
sofrera sem amar o sofrimento, desde esse dia senti por ele um verdadeiro
amor"(1). Esse
desejo do sofrimento cresceu à medida em que Teresa também crescia. O tempo
foi se passando e a Santa foi entendendo, cada vez melhor, o sentido, a
importância e o valor do sofrimento. Assim, já no Carmelo, ela podia dizer:
"A florzinha transplantada para a montanha do Carmelo devia desabrochar
à sombra da Cruz; as lágrimas, o sangue de Jesus tornaram-se seu orvalho e
seu Sol foi sua Face Adorável coberta de dor...Até então não sondara a
profundidade dos tesouros escondidos na Santa Face...Compreendi que era a
verdadeira glória. Aquele cujo reino não é deste mundo, mostrou-me que a verdadeira sabedoria consiste em
'querer ser ignorada e contada por nada',- em 'por sua alegria no desprezo de
si mesmo'. Ah, como o de Jesus, queria que 'meu rosto fosse verdadeiramente
escondido, que, na terra, ninguém me reconhecesse'! Sentia sede de sofrer e
de ser esquecida..."(2) O tempo se
passou ainda mais. Teresinha adoeceu. A Florzinha da Montanha do Amor começou
a fenecer neste mundo. A doença ameaçava a religiosa santa, que alcançara o
cume da Montanha. Foi aí que ela compreendeu, ainda melhor, todo o valor e
importância do sofrimento, da teologia da cruz. Certo dia, Madre Inês lhe
disse:"Você vai sofrer talvez ainda muito, antes de morrer". A
Santa não se angustiou, mas simplesmente respondeu:"Oh, não se preocupe,
sinto um grande desejo de sofrer!"(3). Na
verdade, o sofrimento, na vida de Teresa, não foi só uma questão de desejo.
Aliás, ela nem sequer tinha medo da dor, da cruz. Sempre cheia de confiança
em Deus e abandonada,totalmente, nas mãos de Deus, no mês de maio de 1897,
quando sua doença começou a se agravar, iniciando sua caminhada para a morte,
ela dizia:"Não tenho, de modo algum, medo dos últimos combates, dos
sofrimentos, grandes que sejam, nem da doença. O bom Deus sempre me socorreu;
Ele me ajudou e conduziu pela mão desde a minha mais tenra infância...Conto
com Ele"(4). Pois bem,
nossa Santa sempre desejou o sofrimento e nunca teve medo do sofrimento.
Isso, porém, não é tudo. Na verdade, Teresa de Lisieux sofreu durante toda a
sua vida, isto é, o sofrimento foi uma constante na vida de Teresinha. Da
infância à idade adulta, em casa dos Buissonnets e no Carmelo, na saúde e na
doença, no corpo e na alma, nos sentimentos e na própria fé, Santa Teresinha
sempre esteve, de algum modo, pregada na cruz de Cristo. Com a alma sensível
que tinha, os sofrimentos lhe foram, certamente, o preço muito alto para sua
subida da Montanha do Amor. Por outro lado, qualquer um que olhe para seu
itinerário espiritual e humano não poderá deixar de ficar admirado com a
fantástica força espiritual que marcou a têmpera de Teresinha,tanto no suportar
os sofrimentos físicos quanto no agüentar e sublimar os sofrimentos
espirituais. Outro que não tivesse sua força espiritual, certamente teria
sucumbido diante das cruzes do caminho, sobretudo se levamos em consideração
seu bem-estar familiar, sua renúncia a tantas alegrias humanas e naturais,
seu amor ativo e provado a Deus. Teresa teria, na verdade, muitos motivos
para se revoltar, se não fosse aquela Santa, cheia de amor e ardentemente
desejosa de se imolar na cruz, com Jesus, para completar nos seus
membros o que faltava à Paixão de
Cristo. Ainda bem
pequena ficou órfã de mãe. Tomou então, nessa ocasião, sua irmã Paulina como
sua segunda mãe. Não demorou, porém, muito tempo e Paulina partiu para o
Carmelo:"...qual não foi sua dor ao ouvir, um dia, sua querida Paulina
falar com Maria sobre sua entrada, em breve, no Carmelo. Não sabia o que era
o Carmelo, mas compreendia que Paulina ia
me deixar para entrar em um convento, compreendia que ela não me esperaria
e que ia perder minha segunda Mãe!...Ah, como poderia eu narrar a angústia do
meu coração!? Em um instante, compreendi o que era a vida; até então eu não a
vira tão triste, mas ela me apareceu em toda sua realidade, vi que ela não
era senão um sofrimento e uma separação contínua. Derramei lágrimas bem amargas, pois não compreendia ainda a
alegria do sacrifício, era fraca, tão fraca que considero como uma grande
graça ter podido suportar uma provação que parecia estar bem acima de minhas
forças! Se tivesse tomado conhecimento, aos poucos, da partida de minha Paulina querida, talvez não teria
sofrido tanto, mas tendo sabido dela de supetão, foi como se uma espada tivesse cravado o meu coração"(5). Paulina
partiu para o Carmelo, aos 2 de outubro de 1882. Teresinha sofreu duramente
essa provação. Suas próprias palavras são o depoimento mais claro do quanto
possamos dizer:"À tarde, minha Tia veio nos buscar para ir ao Carmelo e
eu vi minha Paulina querida atrás das grades...Ah,como sofri naquele
parlatório do Carmelo! Já que escrevo a história de minha alma, devo dizer
tudo à minha Madre querida e confesso que os sofrimentos que precederam sua
entrada não foram nada em comparação
com os que se seguiram"(6). Teresinha
reentrou na Abadia para continuar seus estudos nessa mesma data. Pouco tempo
depois,isto é, em dezembro do mesmo ano,
começou a sentir-se mal. Foi o início de sua estranha e complicada
doença, que, a nosso ver, não passou de um esgotamento nervoso causado não só
pelos sofrimentos passados, mas
também pela falta de ambientação da menina na Escola.A própria Teresinha faz
uma confissão interessante a esse respeito:"É surpreendente ver quanto meu espírito se desenvolveu no
meio do sofrimento; desenvolveu-se a tal ponto que não tardei a cair
doente"(7).E só Deus sabe quanto sofreu aquela Pequena durante os longos
dias de sua enfermidade:"Muitas vezes parecia desmaiada, não fazendo o
mais leve movimento, então teria deixado fazer de mim o que quisessem, até
matar, contudo ouvia tudo que se dizia à minha volta e me lembro ainda de tudo.
Aconteceu-me, uma vez, ficar,por muito tempo, sem poder abrir os olhos e abri-los um instante
enquanto estava só"(8). Curada
pela Virgem do Sorriso, Teresinha terá de sofrer ainda duas grandes angústias
interiores. A primeira era a dúvida se, de fato,estivera doente ou se apenas
fingira estar. A segunda, a angústia
de ter confessado o sorriso da Virgem Maria:"...durante quatro anos, a
lembrança da graça inefável, que recebera, foi para mim uma verdadeira dor na
alma"(9). O tempo se
passou e Teresinha sentiu que chegara o tempo de partir, também ela, para o
Carmelo. Sua vontade, seu desejo, sua vocação vieram lhe trazer muito
sofrimento.Primeiramente, foram as dificuldades para convencer seu Pai(que
não lhe opôs obstáculo) e seu tio. Depois, foram as batalhas com as
autoridades eclesiásticas e do Carmelo. Como Teresinha era forte e nunca
desanimava e quando queria algo ia até o fim, foi até Roma para falar com o
Papa sobre sua entrada para o Carmelo. Sabemos quanto sofreu aquela garota de
quinze anos, que sonhava ardentemente fixar morada na montada do Carmelo. Ela
mesma nos narra como foi profunda a dor, que sentiu após a audiência com Leão
XIII:"Meu Papai querido sentiu muito ao me encontrar, toda em lágrimas,
ao sair da audiência, fez de tudo que pôde para me consolar, mas em vão...No
fundo do meu coração, sentia uma grande paz, porque fizera absolutamente tudo
o que estava no meu poder para responder ao que o bom Deus me pedia, mas essa
paz estava no fundo e a amargura enchia minha alma, pois Jesus estava calado.
Ele parecia ausente, nada me revelava sua presença...Naquele dia, o sol não
ousou brilhar e o belo céu azul da Itália, carregado de nuvens sombrias, não parou de chorar comigo"(10). Mas a luta
teve sua vitória. Teresinha conseguiu entrar no Carmelo, mas aí, como algum
tempo depois ela diria a Celina, estava justamente o lugar propício para o
sofrimento e a cruz("Não tema nada, aqui você encontrará, mais do que em
qualquer outra parte, a cruz e o martírio!"(11)),e ela se imolou na monotonia do sacrifício de cada dia. Ao entrar
no Carmelo, apesar de ter apenas quinze anos, Teresa levou uma maturidade
muito superior à sua idade. Não tinha ilusões. Não era, como nunca foi, uma
sonhadora iludida. Sua confissão é categórica:"O bom Deus me deu a graça
de não ter NENHUMA ilusão ao entrar no Carmelo; encontrei a vida religiosa
tal qual imaginara, nenhum sacrifício me espantou e, contudo, a senhora sabe,
minha Madre querida, meus primeiros passos
encontraram mais espinhos que rosas! Sim, o sofrimento me estendeu os
braços e nele me lancei com amor.O
que vinha fazer no Carmelo, declarei-o aos pés de Jesus Hóstia, no exame que
precedeu minha profissão:'Vim para salvar almas e, sobretudo, a fim de rezar pelos
padres'.Quando se quer atingir um fim, é preciso seguir os meios; Jesus me
fez compreender que era pela cruz, que Ele queria me dar almas e meu fascínio
pelo sofrimento aumentou na medida em
que o sofrimento aumentava. Durante cinco anos foi esse o meu caminho; mas,
exteriormente, nada traduzia meu
sofrimento, tanto mais doloroso porque só eu o conhecia"(12). Seria
longo demais seguir todos os passos de Teresa pelas trilhas do sofrimento.
D.Guy Gaucher escreveu um livro maravilhoso, que nos mostra muito bem, nos
seus pormenores, todo o calvário de Teresinha durante sua doença
mortal(13).Aqui, vamos lembrar apenas algumas passagens bonitas entre os
meses abril e setembro, durante os quais Santa Teresinha sofreu os assaltos
dolorosos e mortais da tuberculose. Certo dia,
uma Religiosa lhe contou certa conversa do recreio, na qual se
perguntava:"Por que se fala de Irmã Teresa do Menino Jesus como de
santa? Ela praticou a virtude, é verdade, mas não era uma virtude adquirida
pelas humilhações e sobretudo pelos sofrimentos". Teresa ouviu a informação
e, depois, disse à Madre Inês:"Logo eu que tenho sofrido tanto desde a
minha mais tenra infância! Ah, como me faz bem ouvir a opinião das criaturas,
no momento da morte!"(14). No último
dia de julho de 1897, nossa Santa, talvez adivinhando a necessidade que
muitos sentiriam de saber que ela também passou pelo crisol do sofrimento,
disse estas palavras, que têm um sabor de um anúncio profético para os homens
de hoje:"...sofri muito aqui na terra; será necessário fazer que as
pessoas saibam disso"(15). Aqui, vemos que a Santa estava convencida da
necessidade de que os seus leitores e seguidores soubessem da realidade da
sua cruz. Não se trata de dizer que ela sofreu, mas de dizer que ela sofreu
muito! É uma lembrança e uma notícia animadoras e significativas. Madre Inês
lhe perguntou no dia 4 de agosto de 1897, como ela estava arranjando seu
pequena vida naquela situação. A Santa não demorou a dar a resposta segura,
dizendo, à guisa de síntese:"Minha pequena vida é sofrer e, depois, é
isso aí!"(16). A palavra de Teresinha, pois, é como que um resumo de
toda sua existência: ela sofreu e sofreu durante toda sua vida! Apesar de
tudo, porém, ela ainda podia dizer cerca de dois meses antes de sua
morte:"Só tenho incômodos para suportar e, não, sofrimentos"(17).É
que a alma de Teresa já estava bem temperada pela dor e ela já alcançara uma
altura admirável na subida da Montanha do Amor, de tal maneira que seu
horizonte já era de infinitos distantes. Nesse ótica é que entendemos essas
palavras sobre seu desejo de sofrer ainda mais:"No momento das provações
de papai, sentia um desejo violento de sofrer. Uma noite, em que eu sabia que
ele estava mais doente, Irmã Maria dos Anjos, vendo-me bem triste,
consolava-me como podia, mas eu lhe disse:'Ó minha Irmã Maria dos Anjos,
sinto que posso sofrer ainda mais!' Ela me olhou toda admirada e, muitas
vezes, lembrou-me disso"(18). A
propósito, porém, dessa passagem,que a Irmã Maria dos Anjos guardou para
sempre, pois, segundo ela,Teresa estava muito linda, devemos recordar o
comentário que a própria Santa faz na sua Autobiografia:"Não pensava,
então, naqueles sofrimentos que me
estavam reservados. Não sabia que, aos 12 de fevereiro, um mês após minha
vestição, nosso Pai querido beberia o mais amargo, o mais humilhante de todos
os cálices...Ah, naquele dia não disse poder sofrer mais ainda!!!"(19).
Vê-se, por aqui, que Teresinha caminhava com sua cruz, porém ainda sentia a
angústia do suor. O aumento dos seus
sofrimentos e a subida acelerada da Montanha do Amor, fá-la-ão ,mais tarde,
descobrir novos valores e novos métodos de viver na dor e pela dor.Na
verdade, Teresinha terá ainda que sofrer muito e pelo sofrimento purificar-se
e santificar-se ainda mais:"Faz muito tempo que sofro, mas eram pequenos
sofrimentos. Desde 28 de julho são, porém, grandes sofrimentos"(20).A
partir de então, Teresa terá de passar por momentos quase insuportáveis
alternados por instantes de calmaria. Suas dores, a gangrena, a destruição
dos pulmões, a excessiva magreza, fazendo seus ossos perfurarem a pele, a
febre, a falta de ar, as dolorosas aplicações irão, pouco a pouco,
massacrando e crucificando a nossa Teresinha. Teresa foi
uma psicóloga nata. E, ainda, sua própria doutrina ajudou-a a fazer boas e
oportunas descobertas psicológicas. Os santos são sempre gênios e à luz do
Espírito Santo descobrem sempre novos caminhos e novas maneiras de ser,
sobretudo, nos momentos mais difíceis. Foi, assim, que Teresa,diante do
desenvolvimento das dores e dos sofrimentos de sua doença, descobriu um modo
psicológico de suportar, sem desespero, o sofrimento. E isso é magnífico para
nós, porque,depois de termos ouvido a Santa dizer que podia sofrer mais
ainda, vemo-la, na hora mais dolorosa, procurar abrigo, bem humanamente, nos
recursos naturais. Assim, no final de
maio do ano de sua doença mortal, ela explicava como se devia ver o lado bom
das coisas, com relação ao sofrimento, dizendo:"Vejo sempre o lado bom
das coisas.Há pessoas que se comportam de maneira a sofrerem mais. Para mim, é o contrário. Se só tenho
o sofrimento puro, se o céu está de tal maneira negro que não vejo nenhuma
claridade, então, faço disso minha alegria, eu me apavoro! Como aconteceu com
as provações de papai, que me tornaram mais gloriosa do que uma
rainha"(21). Essa é a primeira lição teresiana para se enfrentar, com
calma e com soberania, o sofrimento: ver o lado bom das coisas e, então,
fazer do sofrimento uma causa de alegria e até dar ares de importância por
cima de tudo! Mas há
outra lição e essa muito importante e muito prática. A pouco mais de um mês
para sua morte, no meio de indizíveis sofrimentos, Teresa saiu-se com essa
mensagem tão oportuna quanto útil para nossa vida prática de cada
dia:"Não, o bom Deus não me faz pressentir uma morte próxima, mas sofrimentos muito maiores. Mas eu não me
atormento, só quero pensar no momento presente"(22). Só pensar
no momento presente! Sofrer por gotas! Aliás, Teresinha disse coisa
semelhante na sua famosa e bonita poesia "Meu canto de Hoje": "Se sonho com o amanhã, temo
minha inconstância
Sinto nascer em meu coração a tristeza e o enjôo
Mas quero de verdade, meu Deus, a provação,o sofrimento Só
por hoje!"(23). Nenhum
psicólogo do mundo poderá negar que,dessa maneira, Teresa nos deu uma
fórmula,humanamente maravilhosa, de suportar o sofrimento. O próprio Jesus já
nos advertira que, para cada dia basta a sua cruz! Querer sofrer o que ainda
não se sofreu, é tolice e pode aumentar, em muito, o que se está padecendo no
momento. Por outro lado, é muito mais fácil, mais simples e mais suportável,
ficar apenas com o sofrimento do momento, ou dividir os sofrimentos em
retalhos, isto é,sofrer apenas o que é de cada dia. É evidente
que, o grande meio de saber sofrer e poder sofrer, Teresa não o encontrou em
estratégias humanas, mas, sim, na sua própria doutrina. Foi, com efeito, seu
Pequeno Caminho, que lhe ensinou a maneira mais humana e mais divina de
enfrentar o sofrimento. A confiança e o abandono, moldados pelo amor apaixonado, foram, sem dúvida, o
grande instrumental, usado por Teresa, para sofrer e saber sofrer, como
criatura humana e como uma santa, em união com o Cristo crucificado. Em um
bilhete à Irmã Genoveva, em agosto de 1897, numa espécie de oração a Deus,
ela dizia:"Ó meu Deus, como sois doce para vossa vitimazinha de vosso
Amor Misericordioso! Agora mesmo, quando juntastes o sofrimento exterior às
provações de minha alma, não posso dizer:'as angústias da morte me
circundaram', mas exclamo na minha gratidão:'Desci ao vale da sombra da
morte, contudo não temo nenhum mal, porque vós estais comigo,
Senhor!'"(24) E, sete dias depois, ela escrevia ao Padre Bellière,
dizendo:"Bem ao contrário de me lamentar, alegro-me porque o bom Deus me permite sofrer ainda por seu
amor. Ah, como é doce abandonar-se entre seus braços, sem temores nem
desejos!"(25). Certamente
não é fácil entender e, muito menos viver, essas palavras de Teresa. De
longe, elas soam muito bonitas, mas, de perto, na hora difícil da dor, elas
podem parecer apenas poesia, todavia, para aquele que, realmente, conseguiu
chegar à montanha e se abandonou totalmente nos braços do Pai do céu, em quem
pôs toda sua fé e sua confiança, certamente, tudo se torna muito mais suave e
até a cruz se torna leve e suportável.
Salientamos, em todo esse discurso apresentador, que Teresa sempre
insistiu que nossa atitude, diante de Deus, deve ser a de uma criancinha, que
se entrega,confiante, nos braços de seu Pai.Essa é a atitude de fé, de
abandono, de esperança, de confiança, do humilde, do simples, do pobre. Pois
bem, essa foi também a maneira como Teresa enfrentou o sofrimento.Com efeito,
em agosto de 1897, quando os sofrimentos estavam consumindo-a, ela disse à
Madre Inês:"Não esperava sofrer assim; sofro como uma criancinha. Não
quisera jamais pedir ao bom Deus sofrimentos
maiores. Se Ele os aumentar, suportarei com prazer e com alegria, já
que virão dEle. Mas sou demasiado pequena para ter força por mim mesma. Se
pedisse sofrimentos, seriam meus sofrimentos, seria necessário que os
suportasse sozinha e jamais pude fazer algo sozinha"(26). Mas Teresa
soube sempre unir o divino ao humano. Assim, olhando para a criancinha, ela
descobre o lado espiritual da confiança e do abandono nos braços do Pai, mas,
ao mesmo tempo, descobre o lado humano da despreocupação pelo futuro, pelo
que virá amanhã. A Santa junta os dois lados
e,assim, carrega sua cruz:"Ah, sofrer na alma, sim, eu o posso
muito! Mas quanto ao sofrimento físico, sou como uma criancinha, bem pequena.
Estou sem idéias, sofro de minuto em minuto"(27) Essa é,
aliás, a conseqüência mais óbvia de toda a sua doutrina. Teresinha não podia
pensar diferentemente. Seu Caminho foi o caminho do amor, da pequenez, da
simplicidade, da confiança e do abandono. Como poderia sofrer sem estas
virtudes características da sua mensagem espiritual? Por isso, diante do
temor de Irmã Inês pelos seus
possíveis maiores sofrimentos no futuro, ela disse:"Acho que nós, que corremos
no Caminho do Amor, não devemos pensar naquilo que pode nos acontecer de doloroso no futuro, porque, então,
seria faltar com a confiança e seria como meter-se a criar"(28). Foi,
assim, que, pouco a pouco, nossa Santa foi galgando as alturas da Montanha do
Amor. Na medida em que subia, respirava novos ares, a vista de dilatava em
novos e distantes horizontes, o coração se elevava diante das belezas que
apareciam, a luz se tornava mais clara, o ambiente era mais límpido, a brisa
era suave, o céu mais azul, o mundo mais bonito e Deus estava mais
perto.Destarte, a cruz, preço da subida, foi lhe parecendo muito abaixo do
real valor. Nesse estado, com todas os sofrimentos possíveis no corpo e na
alma, porque o seu físico era torturado por todos os lados e meios, enquanto
sua alma mergulhava na noite escura da provação da fé, Teresa ainda podia
escrever, em junho de 1897, ao Padre Bellière, estas palavras tão
significativas:"Ó meu caro irmãozinho, como estou feliz em morrer! Sim,
estou feliz, não porque ficarei livre dos sofrimentos de agora( o sofrimento,
ao contrário, é a única coisa, que me parece desejável no vale de
lágrimas)mas porque sinto mesmo que essa é a vontade do bom Deus"(29).
Cerca de um mês depois, ao mesmo Padre, ela quase repetia a carta anterior,
acrescentando, porém, uma palavrinha muito necessária e significativa:"O
sofrimento unido ao amor é, pelo contrário, a única coisa, que me parece
desejável no vale de lágrimas"(30).Aqui, Teresa aparece mais completa,
porque diz "o sofrimento unido ao amor". Na verdade, o sofrimento
só tem sentido, quando ele é "unido ao amor". Querer o sofrimento
por ele mesmo,seria masoquismo, loucura. Aceitar o sofrimento que aparece,
-Teresa diz que, a certa altura da sua caminhada, não pedia o
sofrimento- com amor, é próprio
daquele que quer seguir o Mestre crucificado, que ensinou que era preciso
tomar a cruz de cada dia par seguí-lo. Foi, dessa
maneira e por esse caminho, que o sofrimento, unido ao amor, tornou-se,de
certo modo, uma espécie de estado feliz para nossa Santa. Mais uma vez, é
preciso dizer que não é fácil entender essa doutrina,sobretudo quando se está
pregado em uma cruz, numa perspectiva de morte, todavia, os santos
conseguiram alcançar esse estado privilegiado e Teresinha confessou que
chegara lá e, por isso, já tinha dificuldades de entender o céu como estado
de felicidade total. Numa carta de 14 de julho de 1897, ao seu irmão
espiritual, Padre Roulland, ela escrevia:"Meu irmão, você vê que se
estou deixando o campo de batalha não é pelo prazer egoísta de repousar,o
pensamento da beatitude eterna faz bater meu coração, desde muito tempo o
sofrimento tornou-se meu céu aqui na terra e tenho, verdadeiramente,
dificuldade em conceber como poderei
me aclimatar em um País, onde a alegria reina sem nenhuma mistura de
tristeza. Será necessário que Jesus transforme minha alma e lhe dê a
capacidade de gozar, do contrário não poderei suportar as delícias
eternas"(31). Essa declaração é forte demais para o simples entendimento
humano do comum dos mortais. Como uma pessoa pode dizer que terá dificuldades
em conceber e viver a glória da visão beatífica, pelo simples fato de que,
assim, não poderá sofrer? A resposta é simples, porém, para o santo que já
chegou no céu, estando ainda aqui na terra, porque de tal modo ele está
crucificado com Cristo, que quase não concebe outra maneira de ser feliz. É
evidente, porém, que Teresa expunha tão só a sua situação atual, e não levava
em conta a situação futura da visão beatífica, que ela ainda não conhecia.
Destarte, devemos ler e procurar compreender as palavras de Teresinha em
outra carta ao Padre Bellière:"O pensamento da felicidade celeste não
somente não me causa nenhuma alegria, mas ainda eu me pergunto, algumas
vezes, como me será possível ser feliz sem sofrer. Jesus, sem dúvida, mudará
minha natureza, do contrário, sentirei falta do sofrimento e do vale de
lágrimas"(32 Santa
Teresinha, numa verdadeira corrida de gigante, ou melhor, voando nas asas da
Águia adorado, chegou, em pouco tempo, ao cume da Montanha do Amor.Foi,
então, que toda a sua doutrina se abriu no grande leque da apoteose final e
gloriosa. Lá em cima, ela pôde começar a entender que o céu era muito mais do
que toda e qualquer felicidade aqui da terra, mesmo a própria crucificação
com o Senhor.Podemos dizer que, lá em cima, Teresa chegou à sua plenitude, e,
então, todos os meios de que se serviu na subida desembocaram no oceano, sem
fim, desse Amor, que é o próprio Deus. Lá em cima, quando houvera superado
todos os obstáculos, a Santa foi invadida pela luz do Espírito de Deus,
apesar da sua provação sensível da fé, e exclamou, como uma grande mística em
êxtase no cume da Montanha do Amor:"Ah, quantas coisas não tenho eu para
agradecer a Jesus, que soube realizar todos os meus desejos! Agora, não tenho
mais nenhum desejo, a não ser o de amar Jesus loucamente. Meus desejos
infantis voaram. Sem dúvida, gosto ainda de preparar flores para o altar do
Menino Jesus, mas, desde quando ele me deu a Flor que eu desejava, minha
Celina querida, não desejo mais outra...Não desejo mais o sofrimento nem a morte e, contudo, eu os
amo todos os dois, mas é só o amor que me atrai. Desejei-os durante muito
tempo; possuí o sofrimento e acreditei tocar as praias do céu, acreditei que
a florzinha seria colhida em sua primavera, agora é o abandono somente que me
guia, não tenho absolutamente outra bússola! Não posso pedir mais nada com
ardor, exceto o cumprimento perfeito da vontade do bom Deus na minha alma,
sem que as criaturas possam lhe opor algum obstáculo. Posso dizer estas
palavras de nosso Pai, S.João da Cruz:'...Minha alma se empregou, com todas
suas possibilidades, ao seu serviço, não tomo mais cuidado de rebanho, não
tenho outro ofício, porque, agora, amar é todo meu exercício!' Ó minha
Madre querida! como é doce o caminho
do amor! Sem dúvida, podemos muito
bem cair, podemos cometer infidelidades, mas, sabendo o amor tirar proveito
de tudo, bem depressa consumiu tudo o que pode desagradar a Jesus, não
deixando senão uma humilde e profunda paz no fundo do coração"(33). Tendo
exposto, em primeiro lugar, como foi o relacionamento de Teresa com o
sofrimento na sua própria vida, analisemos agora, mais detalhadamente, qual a
relação do sofrimento com a mensagem teresiana, ou seja, qual o significado,
o papel, a importância do sofrimento dentro do Pequeno Caminho. Aqui,vamos
estudar e meditar um pouco sobre o sofrimento e sua relação direta com a doutrina espiritual de Santa
Teresinha; depois,veremos como é o papel do próprio Deus nesse mistério; em
terceiro lugar,meditaremos sobre algumas maneiras de responder ao mistério da
cruz na nossa vida; em quarto lugar,enlaçaremos os vários tipos de
sofrimentos apontados por Teresinha
dentro do Pequeno Caminho; finalmente, veremos os efeitos que o
sofrimento pode produzir em nós, se for aceito com amor para nossa santificação
e a de nossos irmãos, mediante nosso mergulho no mistério de Cristo redentor. Certo dia,
13 de junho de 1897, nossa Santa, conversando com Irmã Inês, fez um
comentário interessante, como o sofrimento é ação de Deus em uma pessoa, para
que ela se transforme numa bela obra. Em outras palavras, a mensagem é
esta,isto é, Deus opera em nós transformando-nos, o que exige dor e sangue,
mas essa operação divina não é uma plástica exterior, mas profundamente
interior, a ponto de nos mudar no modo de ser mais interno de nós mesmos. Por isso, Teresa
dizia:"Pareço-me a mim mesma como um pano esticado no bastidor para ser
bordado e ninguém aparece para bordá-lo!Espero, espero! É inútil! Enfim não é
para admirar, as criancinhas não sabem o que querem! Digo isso, porque penso
no Menino Jesus. Foi ele quem me esticou no bastidor do sofrimento para ter o
prazer de me bordar e, depois,de me despregar para ir mostrar, lá em cima,
sua bela obra"(34). A
santificação, pois, exige o sofrimento da operação divina. Lembramos, aqui,
as palavras da Carta aos Hebreus:"Sem efusão de sangue, não há
redenção"(35). O que servia para os sacrifícios dos judeus, também serve
para nossos próprios sacrifícios pessoais. Que esse seja o pensamento
teresiano no seu Pequeno Caminho, não resta dúvida, quando ouvimos as
palavras que a Santa escreveu, na sua Autobiografia, numa declaração
afetuosa, narrando o que lhe acontecera após a eleição da sua querida
irmã,Inês, ao cargo de Priora do Carmelo:"Ó minha madre! foi sobretudo depois
do dia bendito de sua eleição que voei nos caminhos do amor...Naquele dia,
Paulina tornou-se meu Jesus vivo. Já desde muito tempo, tenho a felicidade de
contemplar as maravilhas que Jesus opera por meio de minha Madre querida.
Vejo que só o sofrimento pode gerar almas
e, mais do que nunca, estas sublimes palavras de Jesus me revelam sua
profundidade:Em verdade, em verdade
vos digo: Se o grão de trigo que cai na terra não morrer, permanecerá
só; mas se morrer produzirá muito fruto'(36)" Quando
Teresinha era Teresinha, isto é, ainda bem pequena, aconteceu um fato, do
qual já falamos, isto é, o presente de Leônia a Celina e a Teirinha de uma
cesta com uma boneca e material abundante para brincar com ela. Comentando,
depois, esse fato e, sobretudo, sua palavra famosa"Eu escolho
tudo!",a Santa escreve:"Essa pequena passagem de minha infância é o
resumo de toda a minha vida; mais tarde, quando a perfeição me apareceu,
compreendi que para me tornar uma santa era preciso sofrer muito, procurar sempre
o mais perfeito e esquecer-se de si mesma; compreendi que havia muitos graus
na perfeição e que cada um era livre para responder aos avanços de Nosso Senhor, para fazer pouco ou muito por Ele,
em uma palavra, para escolher entre os sacrifícios que Ele pede. Então, como
nos dias de minha infância, exclamei: 'Meu Deus, eu escolho tudo'. Não quero
ser uma santa pela metade, isso não me dá medo de sofrer por vós, eu só temo
uma coisa é guardar minha vontade, tomai-a, pois 'eu escolho tudo' o que
quiserdes!"(38). Aqui, Teresa comenta uma passagem de sua vida; dá a sua
mensagem espiritual sobre a necessidade do sofrimento para a santidade e
aplica tudo à sua própria existência. O importante,porém, da mensagem
teresiana para nós é que para ser santo é preciso sofrer e que para ser um
grande santo é preciso sofrer muito!
Essa é mensagem teresiana, que é a mensagem do evangelho! Mais
tarde, no seu tempo de estudante na Abadia, Teresa tomará um gosto especial
pela leitura. E, ao ler as narrativas das gloriosas façanhas das heroínas
francesas, ela sentirá, no seu coração adolescente e vibrante, um entusiasmo
especial e sonhará se transformar também numa grande heroína e alcançar
grande glória. O senhor, porém, logo a esclareceu que ela alcançaria uma
grande glória, contudo, seria uma glória escondida aos olhos dos homens, sua
glória seria a de se tornar uma grande Santa. Teresa, aqui, volta ao tema da
santidade e de sua vocação para ser uma santa.As palavras de Teresa são,
então, importantes, porque confessam que a Santa teve de passar por um
progresso de entendimento sobre as coisas da santidade:"Ele me fez
compreender também que minha glória não apareceria aos olhos dos mortais, que
ela consistiria em me tornar uma
grande Santa!!!...Eu não pensava, então, que era preciso sofrer muito para
chegar à santidade, o bom Deus não tardou a mo mostrar, enviando-me as
provações, de que falei acima"(39). Aqui, a idéia é sempre a mesma: para
ser santo é preciso sofrer! É sobretudo nas Cartas, que Santa Teresinha
explica sua doutrina sobre o papel e a importância do sofrimento no Pequeno
Caminho. Nas Cartas, nossa Santa aparece mais como Mestre e Guia e, por isso,
nelas ela fala, mais claramente, sobre o papel da cruz na nossa santificação. Em janeiro
de 1889, quando a Santa estava no noviciado e o sr. Martin muito doente, ela
escreveu uma carta a Celina, intitulada:"Jesus e sua cruz!". Nessa
carta, Teresa compara as cruzes da nossa vida a riquezas, às quais alguém
gostaria de dar as costas, porque elas poderiam angustiá-lo. A Santa aproveita
da comparação e instrui sua irmã,dizendo:"...essas riquezas estão
preparadas para a noiva de Jesus...e para ela somente!...Deus bateria o mundo
todo para achar o sofrimento, a fim
de dá-lo a uma alma sobre a qual seu DIVINO olhar se fixou com um amor
indizível"(40). O pensamento final não é de Teresa, ela o tomou do Padre
Pichon, mas fê-lo seu e com ele quis dizer como o amor de Deus está
intimamente ligado ao sofrimento. O amor purificador de Deus não poderia, com
efeito, deixar de fazer uma verdadeira cirurgia plástica nos escolhidos do
olhar divino. À mesma
Celina, algum tempo depois, em abril
de 1889, Teresa escreveu outra carta maravilhosa. Aqui, a Mestra e Doutora se
mostra excelente. O motivo da carta foi o aniversário natalício de Celina.
Teresa parte daí para mostrar que Deus tem suas preferências e que é preciso
responder a essas preferências de Deus com muito amor, amor que leva à
santidade. Mas, então, a Santa chega à sua doutrina, aos seus ensinamentos e
nos dá uma verdadeira aula sobre o sofrimento e seu relacionamento profundo e
sério com o amor e a santidade, isto é, amor, santidade e sofrimento são como
a Trindade Santíssima, inseparáveis e interativos:"Não acreditemos poder
amar sem sofrer, sem sofrer muito...está aí nossa pobre natureza! e ela não
está ai por nada!...É nossa riqueza, nosso ganha-pão!...Ela é tão preciosa
que Jesus veio à terra expressamente para possuí-la. Soframos com amargura,
sem coragem!...'Jesus sofreu com tristeza! Sem tristeza, será que a alma
sofreria?...' E queríamos sofrer
generosamente, muitíssimo!...Celina! Que ilusão!...Oh, se você soubesse!...A
Santidade não consiste em dizer
coisas belas, ela não consiste mesmo
em pensá-las, em senti-las!...Ela consiste em sofrer e em sofrer de tudo. 'A Santidade!...é preciso
conquistá-la na ponta da espada, é preciso sofrer...é preciso agonizar!'. Um
dia virá em que as sombras desaparecerão, então só ficarão a alegria, o
delírio...Aproveitemos nosso único
momento de sofrimento!"(41). Tais palavras podem parecer a um leitor
menos avisado, que nossa Santa era uma histérica ou que ensinou uma doutrina
de masoquismo ou estoicismo moderno, baseado talvez num desespero de causa.
Mas, na verdade, não foi nada disso! Teresinha apenas encarou a realidade.
Neste mundo, nas condições em que vivemos, sobretudo no mundo de hoje,somos
constantemente atacados pela dor, pela enfermidade, pela angústia. Na
verdade, não temos aqui morada permanente. Somos passageiros e peregrinos por
esse vale de lágrimas. Acontece que, diante dessa realidade, Teresa não
desesperou nem se iludiu. Ela simplesmente entendeu que, na economia atual da
salvação, o caminho mesmo é a subida do calvário, não para uma morte final e
infrutífera, mas para uma ressurreição de glória e de vida por toda a eternidade.
Se Teresinha tivesse errado, errado estaria todo o evangelho e, aí, sim,
talvez tivesse lugar uma ideologia fanática ou mesmo o estoicismo grego. Foi nessa
linha, que Teresinha escreveu a Celina em julho de 1893, dizendo-lhe que o
sofrimento na sua vida provoca a
felicidade de Jesus, mas que enquanto ela passa pela noite, Ele espera a
aurora, quando, então, Jesus
despertará:"A esposa dos Cânticos também diz que 'Seu Bem-Amado é
um ramalhete de mirra e que Ele repousa sobre seu seio'. A mirra é o
sofrimento e é assim que Jesus repousa sobre o coração de Celina...Contudo,
Jesus está feliz em vê-la no sofrimento, Ele está feliz em receber tudo dela
durante a noite...Ele espera a aurora, então, oh, então! que despertar será o
de Jesus!!!"(42). Portanto, o pensamento teresiano é todo positivo, isto
é, ele simplesmente nos relembra e nos ensina que vivemos em alto mar, mas o
porto está próximo, quando então teremos toda a calmaria que pudermos ter.
Por enquanto, na caminhada à santidade
só temos uma estrada:"Lembre-se que é pelo sofrimento que uma
Irmã Genoveva de Santa Teresa pode chegar à santidade"(43). Essa é,
pois, a estrada teresiana; esse é, pois, o Pequeno Caminho de Teresa de
Lisieux.Foi assim que ela ensinou ao seu irmão espiritual e discípulo Padre
Bellière, quando lhe escreveu dizendo:"Eu o sinto, nós devemos ir ao céu
pelo mesmo caminho, o do sofrimento unido ao amor"(44). O Pequeno
Caminho é simples, cheio de confiança, moldado no abandono, inspirado e realizado no amor, mas, é uma subida
de montanha, subida da Montanha do Amor, portanto, tem o seu preço, e esse
preço, nesta terra de homens mortais, fracos, limitados, é, justamente, o
sofrimento.Sofrimento que não tem valor em si, pois, em si mesmo, ele é o
fracasso do homem, mas o sofrimento unido ao amor, que lhe dá sentido, vida,
e importância. E o
sofrimento, nos planos da atual economia salvífica, tem muitos motivos de
ser. Motivos de salvação, de purificação, de seguimento do Cristo e até
motivos místicos. Em
primeiro lugar, nós sofremos e devemos sofrer porque Jesus também sofreu.
Nosso sofrimento se faz, pois, necessário para nossa união com Jesus
crucificado e nossa semelhança com Jesus em tudo. Essa era uma razão que
Teresa apontou a Celina, numa carta de abril de 1889, quando lhe aconselhava
a respeito dos sofrimentos provocados pela doença do sr.Martin:"Para ser
esposa de Jesus, é preciso assemelhar-se a Jesus, Jesus está todo sangrando,
Ele está coroado de espinhos!...O cântico do sofrimento unido a seus
sofrimentos é o que mais fascina seu coração!"(45). À sua irmã Leônia,
ela repetia essa idéia, capital no seu Pequeno Caminho, de que o sofrimento
nos torna semelhantes a Jesus e, na verdade, só quem já passou por essa
experiência, isto é, de sofrer por amor em união com Deus e para cumprir a
vontade de Deus é que sabe quanto isso tudo é pura verdade. Por isso, Teresa
escrevia a Leônia:"Querida Irmãzinha, como suas cartas me dão prazer e,
sobretudo, me fazem bem à alma, alegro-me ao ver quanto o bom Deus a ama e a
cumula com suas graças. Ele a acha digna de sofrer por seu amor e é a maior
prova de ternura que Ele possa lhe
dar, pois é o sofrimento que nos torna semelhantes a Ele"(46). Não é,
pois, de admirar que a Mãe de Deus, que se assemelhou tanto a Jesus e que a
Ele se uniu, profundamente, no mistério da Redenção, tenha sofrido tanto. Com
efeito, uma espada transpassou o seu coração e é, por isso, que ela é
chamada a Mãe das Dores. Esse
pensamento agradava a Teresinha, porque via nele não só a semelhança de Maria
conosco, mas também a semelhança de Maria com Jesus.A Santa tomou
conhecimento de uma carta de certo padre, que dizia que a Santíssima Virgem
não teve experiência dos sofrimentos físicos. Teresa contestou essa idéia e
disse à Madre Inês:"Olhando a Santíssima Virgem esta noite, compreendi
que não era verdade; compreendi que ela sofrera não somente na alma, mas
também no corpo. Ela sofreu muito nas viagens, com o frio, com o calor, com a
fadiga. Ela jejuou muitas vezes. Sim, ela sabe o que é sofrer. Mas faz mal,
talvez, querer que a Virgem Maria tenha sofrido? Eu, que a amo tanto!"(47). O
sofrimento, pois, unido ao amor e por causa do amor, tem um valor
incomensurável. Ele é, assim, o caminho da salvação, é a nossa participação
na economia da salvação. Foi, com efeito, na cruz, com o derramamento de
sangue, que o mistério da salvação chegou à oferta máxima pela redenção dos
homens. O nosso sofrimento, suportado com amor e pelo amor, participa desse
mistério. Eis por que Teresinha tinha um pensamento muito ousado a respeito
do valor do sofrimento:"Quando se pensa que, se o bom Deus nos desse o
mundo inteiro, com todos seus tesouros, isso não seria comparável ao mais
leve sofrimento!"(48). E, em uma carta a Celina, depois de comparar sua
irmã a uma flor, que floresce no inverno, ela comenta, numa espécie de
resposta a quantos não são capazes de entender o valor do sofrimento,o qual,
na verdade, é muito contrário aos nossos sentimentos e sensibilidades
naturais:"O inverno é o sofrimento incompreendido, menosprezado, tido
por inútil aos olhos profanos, mas fecundo e poderoso aos olhares de Jesus e
dos Anjos"(49). Aqui, já aparece o pensamento teresiano do valor do
sofrimento na linha de uma recompensa, por isso a Santa se refere aos Anjos, que
como abelhas, sabem tirar o mel que existe nas flores de inverno. No fundo,
tudo se confunde no amor. Deus nos amou e nos enviou seu Filho para nos
salvar. A salvação, gesto de amor, foi realizada pela cruz e, assim, Jesus
nos quer, "após nos ter pedido, por assim dizer, Amor por amor,
pedir-nos ainda sangue por sangue e
vida por vida"(50). Não é de
admirar, pois, que Santa Teresinha considere o sofrimento como uma espécie de
presente de Deus. Parece incrível, mas, se o sofrimento é, de fato, a
participação concreta e real no mistério da redenção, não há por que não
aceitar a idéia de Teresinha. Eis
como ela a apresenta à sua tia, a senhora Guérin, referindo-se à doença do
sr. Martin:"...é a cruz, somente a cruz que Ele nos dá para repousarmos.
Oh, minha tia querida! Se somente eu sofresse, isso não era nada, mas
sei a grande parte que a senhora toma
na nossa provação, quisera, na sua festa, tirar-lhe toda tristeza, tomar
sobre mim todas suas penas. É o que pedia, há pouco, Àquele cujo coração bate
uníssono com o meu. Sentia, então, que tudo quanto Ele podia nos dar de
melhor era o sofrimento, que Ele não o dava senão aos seus amigos de escolha,
essa resposta me provava que não seria atendida, pois via que Jesus amava demais a minha tia querida
para lhe tirar a cruz!"(51).
Aqui, aparece uma das expressões características de Teresa de Lisieux, ou
seja, amigos de escolha, equivalente a amigos privilegiados, escolhidos a
dedo. Veja-se bem que, segundo nossa Santa, esses são, de fato, os escolhidos
por Jesus para sofrerem, isto é, para participarem mais intensamente da sua
cruz redentora. Na verdade, a marca da cruz é vento de amor:"Esteja
segura, minha Celina querida, que sua barca está em pleno mar, já talvez bem
perto do porto. O vento de dor que a impulsiona é um vento de amor e esse
vento é mais rápido do que o relâmpago"(52).Por isso, Teresa considera o
sofrimento um privilégio e os amigos de Jesus, que recebem dele esse
presente, são os seus privilegiados. Em março de 1889, nossa Santa escreveu uma
carta a Celina, na qual ela diz tudo isso claramente:"Cada novo
sofrimento, cada angústia do coração é como um suave zéfiro que vai levar a
Jesus o perfume de seu lírio, então Ele sorri com amor e logo prepara uma
nova amargura, enche o cálice até à borda, pensando que quanto mais seu lírio
cresce no amor, tanto mais deve crescer no sofrimento! Que privilégio Jesus
nos faz em nos enviando uma tão grande dor. Ah, a eternidade não será
demasiado longa para agradecer-lhe. Ele nos cumula com seus favores, como cumulava
os maiores santos, por que uma tão grande predileção?"(53). Para
explicar, com seus próprios termos, porque o sofrimento é um presente de Deus
aos seus amigos escolhidos, Teresinha usa de outra comparação muito rica. É a
comparação da mão, da mão sangrenta de Jesus. Na verdade, a mão de Jesus foi
pregada na cruz e transpassada por um prego. Sua mão, pois, ficou rasgada e
sangrenta. Segundo nossa Santa, todas as vezes que essa mão bendita repousa
sobre a cabeça de alguém, ela deixa aí a marca do seu sangue. Ela nos
conta, na sua Autobiografia, o seguinte fato:"Um domingo, olhando uma
fotografia de Nosso Senhor na cruz, fui tocada pelo sangue que caía de uma de suas mãos divinas, senti
uma grande pena pensando que esse sangue caí na terra sem que ninguém se
apressasse a recolhê-lo e decidi ficar, em espírito, ao pé da cruz, para
receber o divino orvalho que dela saía, compreendendo que deveria, em
seguida,espalhá-lo sobre as almas"(54). Esse fato se liga, naturalmente,
com a idéia do sofrimento relacionado à mão de Jesus.E foi numa carta de
fevereiro de 1889, dirigida a Celina,que Santa Teresinha se referindo a uma
crise grave do sr.Martin, propôs a idéia da mão sangrenta:"Vou
espantá-la, irmãzinha querida, ao lhe dizer que não a lamento de modo algum,
mas, veja lá, acho sua sorte digna de inveja. Jesus tem sobre você vistas de um amor indizível, Ele quer seu
pequeno lírio-imortal somente para Ele, mas é Ele mesmo que se encarrega de
seu primeiro noviciado, é sua mão divina que orna sua esposa para o dia das
núpcias,mas sua mão querida não se engana com o enfeite. Jesus é um esposo de
sangue. Ele quer para Ele todo o sangue do coração"(55). Curioso
que, nas interpretações teresianas, a mão de Jesus não somente é sangrenta,
mas também, no mesmo sentido de ser um mão que fere, ela é chamada de
ciumenta.Por ser ciumenta, ela quer tudo pra si e nesse querer tudo para si,
termina ferindo o amado. Todavia, justamente porque se trata apenas de um
ciúme divino e santo, é que devemos receber seus golpes com amor e
coragem:"Oh, Celina, como lhe dizer o que se passa na minha alma?! Ela
está dilacerada, mas sinto que essa ferida é feita por uma mão amiga, por uma
mão divinamente ciumenta!"(56). Em suma, Teresinha queria dizer que
devemos ver nas pancadas da vida um toque de amor da mão de Deus, que pensa
em nós e nos quer todo para Ele. Portanto,
a conseqüência é lógica:"Ele nos apresenta um cálice tão amargo quanto
nossa natureza pode suportar! Não retiremos nossos lábios desse cálice
preparado pela mão de Jesus"(57). O cálice pode ser bem amargo, mas será
sempre proporcional às nossas forças e também sempre bem preparado pelas mãos
de Jesus. Portanto, nada de medo, de temor:"Oh, não, não temerei suas
batidas, pois, mesmo nos mais amargos sofrimentos, sente-se sempre que é sua
doce mão que bate"(58). A questão,
pois, é ver em tudo que nos acontece um toque da doce e sangrenta mão de
Jesus. Ela não nos ferirá acima de nossas forças e tudo que faz ou permite é
para nosso bem:" em qualquer coisa que lhe acontece, ele só vê a doce mão de Jesus"(59). Aqui,
está a velha doutrina da presença de Deus em tudo que nos acontece, por isso,
o grande Paulo dizia:"E nós sabemos que Deus coopera para o bem daqueles
que o amam"(60) Por tudo isso, é que Teresa dirá que a "sua mão é
tão doce!"(61). É que Jesus fere ou deixa que nos firam, por amor, e se
nós amamos, vamos descobrir em tudo uma suavidade desconhecida àqueles que
sofrem no mundo, a contragosto, por
mil e uma razões humanas. A idéia,
portanto, dominante é o amor. Ele dá razão a tudo, até ao que não tem razão,
como é o caso do sofrimento. Há na cruz de Cristo a maior manifestação do
amor. É toda a Trindade quem aí opera. O Pai abandona o Filho numa terrível
alteridade, para que Ele se solidarize com os pecadores. O Filho entrega ao Pai o seu Espírito, numa aceitação
total do mistério redentor. Depois, tudo voltará, como no caso de Jó. O Pai
dará ao Filho o seu Espírito pela ressurreição e, então, os homens, que, de
fato, pelo sofrimento, aceitarem a
solidariedade de Cristo, poderão participar da vida íntima trinitária de
Deus.É algo maravilhoso, esse admirável comércio! Teresinha o entendeu muito
bem, por isso escreveu na sua Autobiografia:"Quero sofrer por amor e até
alegrar-me por amor"(62). Nesse
particular, Teresa chegou a ser mais do que delicada. O amor levou-a a um
estado de delicadeza especial para com Deus, a ponto de estar disposta a
sofrer tudo para que Deus fique alegre:"Os grandes santos trabalharam
pela glória do bom Deus,mas eu, que sou uma alminha, trabalho só para seu prazer, e ficaria feliz em
suportar os maiores sofrimentos,
quando isso fosse só para fazê-lo sorrir, nem que fosse uma só vez"(63). Mas, se é
certo que Deus aceita nossa participação no seu mistério redentor, mediante a
cruz, qual seria a atitude de Deus diante de nossos sofrimentos? Em outras
palavras, Deus toma parte,de algum modo, nos nossos sofrimentos, ou nos deixa
a sós, esperando que cheguemos até o fim? Santa
Teresinha nos dá três respostas interessantes a esse questionamento
importante. São respostas complementares a tudo quanto já dissemos até agora,
porque, no Pequeno Caminho, o homem nunca age sozinho e, de modo especial,
ele se santifica jogando-se totalmente nos braços de Deus. Assim, a resposta
às perguntas saem como uma conseqüência lógica de tudo quanto já dissemos
sobre a base e a subida da Montanha do Amor. Portanto,
dentro do contexto e na seqüência das idéias básicas do Pequeno Caminho,
Santa Teresinha responde, em primeiro lugar, que Deus não quer para nós
sofrimentos inúteis. Se o sofrimento, por si mesmo, não tem muito valor,
valor nenhum tem, certamente, o sofrimento inútil e querer suportá-lo seria,
certamente, uma extravagância. Certa
feita, Santa Teresinha protestou, em público, contra uma atitude da Madre
Priora Maria de Gonzaga e o motivo alegado à Religiosa que aprovava a atitude
da Madre Priora era, para Teresa, injusto, porque não se pode exigir certas
coisas aos subordinados(64). No fundo, a reação estranha de Teresa nada mais
foi, senão o efeito de toda a sua doutrina de que Deus não deseja sofrimentos
inúteis para nós. Na verdade, o que Deus quer é que tenhamos participação no
seu mistério redentor, e, não quer gozar e se divertir com o sofrimento dos outros. Por essa
razão, ligando sua teoria dos desejos à sua doutrina do sofrimento, Teresinha
concluía, ensinando-nos outra verdade, isto é, que Deus não quer para nós
sofrimentos inúteis:"Sei que Jesus não pode desejar para nós sofrimentos inúteis e que Ele não
me inspiraria desejos que sinto, se
não quisesse realizá-los"(65). Outro
pensamento muito caro a Teresa de Lisieux é que é Deus quem dispõe todas
as coisas a nosso respeito. Destarte,
também dispõe Ele sobre nossos sofrimentos. É sua mão divina que nos
apresenta, algumas vezes, algum cálice amargo:"Ele e só Ele dispõe os acontecimentos de nossa vida de
exílio,é Ele quem nos apresenta,por vezes, o cálice amargo. Mas não o vemos,
Ele se esconde, esconde sua mão divina e só percebemos as criaturas, então
sofremos porque a voz do nosso Bem-Amado não se faz ouvir e porque a das
criaturas parece nos desprezar"(66). Mas,
exatamente pelo fato de que Deus é quem dispõe os nossos sofrimentos, é que
Teresinha tirava duas conclusões maravilhosas, A primeira é que Deus só nos deixa sofrer o que podemos
suportar, ou seja, Deus permite ou quer nossos sofrimentos na medida das
nossas forças:"O bom Deus me dá coragem em proporção aos meus
sofrimentos. Sinto que, pelo momento, não poderia suportar mais, porém não
tenho medo, pois se eles aumentarem, Ele aumentará, ao mesmo tempo, minha
coragem"(67). A segunda conclusão é ainda mais consoladora. Se Deus
dispõe nossos sofrimentos; se Ele só nos permite sofrer na medida das nossas
forças, é claro que Deus nunca nos abandona nos nossos sofrimentos. A verdade
é que Deus nunca abandona ninguém em nenhum momento. Mas, na hora da cruz,
somos tentados a blasfemar,julgando que Deus nos deixou sozinhos, quando o
Pai só procedeu assim com o seu Filho
unigênito, já que assim fora estabelecido, para que o Filho, por essa
tremenda alteridade e esse cruel exílio, ficasse solidário com o outro lado,
isto é, o do pecado e da miséria humana. Com os filhos adotivos, já
regenerados pelo Espírito, que o Filho recebeu pela ressurreição e que nos
mereceu pela sua morte, não pode acontecer mais o angustiante estado de
exílio da morte de Jesus. Já estamos com o Espírito, por isso, nem o Pai nem
o Filho podem nos abandonar um instante sequer, mesmo e, sobretudo, quando
estamos participando do mistério da cruz de Jesus. À Madre Inês,que se
espantava com os possíveis sofrimentos futuros de Teresinha, ela
respondia:"Que é isso? O sofrimento poderá atingir limites extremos, mas
estou segura de que o bom Deus jamais me abandonará"(68). Depois de
analisarmos essas três atitudes de Deus, devemos, agora, meditar como deve
ser nossa resposta diante do sofrimento. Na verdade, não somos objetos, nem
peças de uma máquina de tortura. Somos pessoas e, como tais,temos liberdade e
inteligência. Se aceitamos, livremente, o sofrimento por causa do amor
purificador, devemos, porém, usar da nossa inteligência, para que esse
sofrimento tenha algum resultado verdadeiramente positivo. Entre as
muitas coisas possíveis, Santa Teresinha nos dá quatro conselhos a esse
respeito. O primeiro deles é oferecer nossos sofrimentos. Isso
poderia parecer inútil, uma vez que o Senhor, que conhece todas as coisas,
conhece também o íntimo de nossos corações e sabe o que pensamos e queremos,
todavia, o próprio Senhor pediu que rezássemos e rezássemos sem cessar, pois
lhe agrada ouvir o clamor do seu povo e dos seus filhos.Assim, Teresinha
aproveitava dos seus sofrimentos não
somente para si, mas para também para os outros. Mas, aqui, como em tudo,
Teresinha é comedida e prudente. Nada de exageros inúteis. Assim, ela
aconselha a não se afadigar, pensando em cada um ou em cada coisa pelo qual
ou pelo que se deseja oferecer os sofrimentos. É preciso continuar sempre nos
braços do Pai. É preciso, também aqui, ter aquele senso de entrega e de
confiança próprio do Pequeno Caminho. Por isso, ela falava e ensinava desta
maneira:"Minha vidazinha é sofrer e, depois, está tudo aí! Não poderia dizer: Meu Deus, é pela
Igreja; meu Deus, é pela França...etc.O bom Deus sabe bem o que é preciso que
se faça dele; eu lhe dei tudo para lhe dar prazer. E, depois, fatigar-me-ia
demais dizer-lhe:Dai isso a Pedro, dai aquilo a Paulo. Só faço isso depressa
quando uma irmão mo pede e, depois, não penso mais. Quando rezo pelos meus
irmãos missionários, não ofereço meus sofrimentos, digo simplesmente: Meu
Deus, dai-lhes tudo que desejo para mim"(69) Aqui, mais
uma vez, aparece o dogma da Comunhão dos Santos tão caro a Santa Teresinha.
Ela vivia,constantemente, a profundidade desse Dogma católico. O Padre de
Cornières, quando ainda seminarista fora muito tentado e, depois, soube que
Teresinha oferecera seus sofrimentos por ele, e mandou uma carta muito
humilde e tocante para o Carmelo de Lisieux. Ao tomar conhecimento da carta,
nossa Santa disse:"Oh, como essa carta me trouxe consolação! Vi que meus
pequenos sofrimentos deram seus frutos.
A senhora notou os sentimentos de humildade, que ela exprime? Era
justamente isso, que desejava. E como isso me faz bem ao ver que, em tão
pouco tempo, pode-se ter tanto amor e tanta gratidão por uma alma que lhe fez bem e que você não conhecia até
então. Que acontecerá, então, no céu, quando as almas conhecerão aqueles que
as terão salvado?"(70). Isso nos
leva ao segundo conselho de Santa Teresinha a propósito de como aproveitar
bem os nossos sofrimentos mediante a caridade. E o segundo conselho é sofrer
pelos outros. Não se trata, aqui, de oferecer os sofrimentos pelos outros,
mas de querer aceitar os sofrimentos dos outros, para que eles fiquem livres
da dor, que nós envergaremos no lugar deles. É um caso de heroísmo, como o
foi, por exemplo, o martírio de S.Maximiliano Kolbe, que. livremente,
ofereceu-se para morrer no lugar de um companheiro de prisão no campo nazista
de concentração. Numa carta a Joana Guérin, sua prima, aos 17 de outubro de
1891, Teresinha, com muita gentileza, aborda o tema e
escreve:"...quisera que nada faltasse à felicidade perfeita de minha
querida irmãzinha e à do meu bom primo. Mas na terra há sempre alguma
nuvenzinha, pois a vida não passa sem isso e porque só no céu a alegria será
perfeita, mas desejo que o bom Deus poupe, quanto for possível, aqueles que
amo dos sofrimentos inevitáveis na
vida, deixe para mim, se for necessário, as provações que Ele lhes
reserva"(71). Ao seu
irmão espiritual, Padre Roulland, Teresa insistia na mesma tecla, mostrando
toda a grandeza do seu coração, mas, ao mesmo tempo, ensinando-nos que, no
Pequeno Caminho, a caridade vai até ao extremo do heroísmo em se sacrificar
pelos irmãos.Numa carta de 30 de julho de 1896, ela escrevia:"...eu lhe
estarei sempre unida pela oração e peço a Nosso Senhor que não me deixe
jamais gozar, enquanto você sofre. Quisera até que meu irmão tenha sempre
consolações e eu as provações, é isso, talvez, egoísmo? Mas, não, pois que
minha única arma são o amor e o
sofrimento e sua espada é a da palavra e dos trabalhos apostólicos"(72).
Aqui, Teresa nos ensina a não querer viver gozando, quando nosso irmão, ao
lado, está sofrendo. É o chorar com os que choram, do apóstolo Paulo. É o
comungar dos mesmos sentimentos dos nossos irmãos, que padecem. Nesse mundo
de hoje, cheio de tantas misérias e injustiças e, sobretudo, nessa América
Latina, em que vivemos, tão grande, tão rica e tão injusta, essas palavras de
Teresinha não são poesia. São o grito mais autêntico do evangelho,hoje,
secundado pelo Episcopado latino-americano em Medellin e Puebla. Só sabe o
que é sofrer, quem sofreu ou está sofrendo. Sentir a dor; sofrer a dor;
carregar a cruz é um momento existencial de uma profundidade rara e única na
vida de cada ser humano. Teresinha sofreu, sobretudo nos últimos meses de sua
vida, como poucas pessoas puderam ou podem sofrer. Por isso, ela entendeu o
que é o sofrimento e que é necessário rezar pelos que sofrem. E esse é o
terceiro conselho, que ela nos dá, nessa série Certo dia,
quando as dores eram muito fortes, ela disse, numa espécie de pedido de
socorro:"Oh, como é preciso rezar pelos agonizantes! Se o
soubessem!"(73). Sim, Teresa tinha experiência disso e até aconselhara
que não se deixassem remédios perigosos junto de alguns doentes, porque a
tortura da dor consome até o espírito e o uso da razão. Por outro lado, ela
conhecia o poder da oração, por isso pedira que rezassem pelos que sofrem. O
seu conselho saiu da sua experiência de cruz!
Chegamos, enfim, ao quatro conselho de Santa Teresinha no que se
refere ao aproveitamento dos nossos sofrimentos, mediante a caridade. Esse
quarto conselho é a síntese e a complementação de todos os três primeiros.
Trata-se, com efeito, de um verdadeiro apostolado pelo sofrimento. Em outras
palavras, Santa Teresinha aconselha que usemos de todas as possibilidades do
sofrimento, para que possamos ajudar os outros, que trabalham, ou que sofrem
também. É, em poucas palavras, tirar do tesouro dos sofrimentos todas as
riquezas possíveis para aplicá-las nos nossos trabalho apostólicos entre os
irmãos, que necessitam de nossa ajuda. Trata-se
de um pensamento bem ao contrário do que comumente se pensa no mundo profano.
Pois, na verdade, quando alguém sofre, pensa em como ficar bom, em como se
livrar do sofrimento, em como ser libertado da dor o mais rápido possível.
Teresinha ensina-nos, porém, que o sofrimento é uma mina preciosa e, por
isso, temos de aproveitá-la séria e profundamente, a ponto de servirmo-nos
dela da melhor maneira possível. Assim,perguntava ela à Madre Gonzaga, quase
no final de sua vida:"Como, de fato, poderia eu não rezar pelas almas,
que eles salvarão nas suas missões distantes pelo sofrimento e a
pregação?"(74). Teresa, aqui, refere-se aos seus irmãos missionários e
vê nos sofrimentos deles um meio de apostolado salvífico semelhante ao da
pregação. Nas suas
Cartas, Teresinha salientou sempre uma idéia importante na sua
espiritualidade pessoal, a saber, o sofrimento e a oração são as armas
principais do apostolado de uma carmelita:"É lá que Jesus me colocou e
espero aí permanecer sempre, seguindo-o de longe, pela oração e o
sacrifício"(75). Mas, ela estende, implicitamente, essa idéia a todos
quantos irão seguir o seu Pequeno Caminho, quando recorda, aqui e acolá, a
idéia básica de que "sofrendo, pode-se salvar almas"(76). Em uma
outra, ela escreveu:"Ofereçamos, sim, nossos sofrimentos a Jesus para
salvar almas, pobres almas!...elas têm menos graças do que nós,mas todo o
sangue de um Deus foi derramado para salvá-las...contudo, Jesus quer mesmo
fazer depender a salvação delas de um suspiro de nosso coração...Que
mistério!...Se um suspiro pode salvar uma alma, que não podem fazer
sofrimentos como os nossos?...Não recusemos nada a Jesus!"(77). E, numa
carta de julho de 1891, dirigida a Celina, ela usou de seu vocabulário
próprio e escreveu:"Só o sofrimento pode gerar almas para
Jesus"(78). Ela consolava seu irmão missionário, o Padre Roulland,
lembrando-lhe que "seus sofrimentos já tinham salvado muitas
almas"(79). Não
devemos esquecer, como já dissemos anteriormente, que um meio eficaz e
salutar de apostolado do sofrimento é justamente sofrer pelos
outros.Referindo-se à doença de seu pai, a Santa escreveu à Irmã Maria do
Sagrado Coração, em maio de 1889:"O Senhor ama incomparavelmente mais Papai do que o amamos. Papai é a
criancinha do bom Deus; o bom Deus, para lhe poupar grandes sofrimentos, quer
que soframos por ele!"(80). Esse último"ele" se refere,
certamente, ao sr. Martin,mas mesmo que se referisse a Deus, o sentido era o
mesmo: podemos e devemos sofrer pelos outros para lhes poupar grandes
sofrimentos. Numa vida
de carmelita,os acontecimentos decorrem, naturalmente, de uma maneira diferente
daquela que acontece com as pessoas que vivem no meio do mundo. Todavia, é
bom lembrar que as carmelitas são mulheres, isto é, pessoas humanas iguais a
nós e, conseqüentemente, elas têm, na vida diária, quase os mesmos problemas
que nós temos. A verdade é que, onde há gente, há problemas e que esses
problemas são sempre da mesma natureza quando são gerados por pessoas
humanas. A inveja, o orgulho, a vaidade, os maus desejos, a maledicência, a
ingratidão, as incompreensões e toda uma gama bem grossa de faltas e
imperfeições são quase conaturais à natureza humana e, apesar de todos os
esforços de ascese, elas deixam sempre sua marca profunda, sobretudo, quando
se vive numa comunidade pequena e fechada. Ora bem, a psicóloga Teresa de
Lisieux conheceu todas essas intempéries e teve o cuidado de anotá-las para
que pudéssemos tirar de tudo isso o melhor proveito possível. Em suma,
Teresinha anotou vários tipos de sofrimento,que lhe aconteceram na sua vida
de religiosa carmelita,o que pode muito bem servir para a compreensão das
nossas tempestades interiores e para que possamos, compreendendo-as no seu
sentido e na sua importância, aproveitar delas para nossa santificação. É
claro que, aqui, não se vai falar de sofrimentos públicos e notórios, como
uma perseguição declarada na cidade ou mesmo uma martírio de sangue, mas,
simplesmente, de momentos escondidos e ocultos de grandes sofrimentos
interiores, que passam, as mais das vezes, despercebidos dos outros, mas que
maltratam e ferem como uma espada de dois gumes. Santa Teresinha lembra, em primeiro lugar,
que muitos problemas na nossa vida geram, certamente, verdadeiras "lutas
íntimas", que temos de suportar e sofrer(81). São lutas quase naturais,
mas que estão aí para serem vencidas. Por isso,é preciso que a pessoa as
enfrente com coragem. Querer viver sem elas, seria impossível e antinatural.
É preciso saber conviver com essas lutas interiores, mas é preciso,
sobretudo, ter coragem para superá-las. Teresa nos
dá um exemplo simples desse tipo de lutas íntimas e como podemos vencê-las
facilmente:"Jamais esquecerei o dia 2 de agosto de 1896,justamente no
dia da partida dos missionários,quando se falou seriamente sobre a partida da Madre Inês de Jesus.
Ah, não teria querido fazer um movimento para impedi-la de partir; sentia,
contudo, uma grande tristeza no meu coração, achava que sua alma sensível,
tão delicada, não era feita para
viver no meio de almas que não saberiam compreendê-la. Mil outros pensamentos se juntavam, em multidão, no meu espírito
e Jesus se calava, Ele não ordenava a tempestade...E eu lhe dizia:Meu Deus,
por vosso amor, aceito tudo: se o quiserdes, quero mesmo sofrer até morrer de
aflição. Jesus se contentou com a aceitação..."(82). Nesse
particular, é bom lembrar também o efeito maravilhoso da obediência. Por ela,
muitas lutas íntimas são solucionadas ou, pelo menos, por ela somos levados a
ficar calmos e a encontrar uma solução que responda às necessidades do nosso espírito. Além
dessas lutas íntimas, que, muitas vezes, são causadas ou motivadas por
indecisões, esperanças frustradas ou missões difíceis e inesperadas, na nossa
vida cotidiana, uma maneira muito comum de sofrimento é aquilo que Santa
Teresinha costumava chamar de alfinetadas.
Alfinetadas são essas pequenas - e doloridas - pregadas em cima de
nós, quando menos esperamos e, sobretudo, de quem menos esperamos.
Alfinetadas não são difamações públicas; perseguições notórias; injustiças
desmedidas. Não. Alfinetadas são maledicências inconvenientes; invejas
inconseqüentes; incompreensões injustas; menosprezo intolerante; insultos
camuflados. As alfinetadas são pequenas coisas, feitas com muita sagacidade,
e que ferem profundamente. Alfinetadas também podem ser pequenas e dolorosas
provações de Deus, mediante superiores, companheiros, amigos. Alfinetadas
podem ainda ser pequenas ameaças da natureza ou da própria vida. Seja como
for, alfinetadas doem e doem pra valer. Às vezes, doem mais do que um grande
sofrimento, porque sempre vêm com muita malícia e são realizadas sempre no silêncio
e às ocultas. Pois bem,
Teresa de Lisieux sofreu muitas alfinetadas na sua vida de carmelita. Ela nos
fala desse modo de sofrer, aproveitando de sua experiência pessoal e querendo
nos ensinar como aproveitar dessas pregadas, das quais ninguém está isento na
vida. Certo dia,
Celina lhe mandou uma carta, contando-lhe um belo sonho, no qual Teresa
morria mártir e a própria Celina se acordava quando estava sendo, de certa
maneira, sacrificada. Teresa lhe responde, com muita sabedoria:"O sonho
de minha Celina é muito bonito,
talvez um dia seja realizado...mas, na expectativa, comecemos nosso martírio,
deixemos Jesus nos tirar tudo o que nos é mais caro e não lhe recusemos nada.
Antes de morrer pela espada, morramos com picadas de alfinetes"(83). O
martírio de sangue foi sempre o grande sonho de Teresinha,mas ela nunca se
iludiu. Não viveu de esperança. Preparando-se para aceitar o martírio de
sangue, se, um dia, ele viesse, ela, sem perca de tempo, ia se deixando
martirizar pelas alfinetadas de cada dia. A
propósito das maledicências picantes sobre a doença do sr. Martin, Teresa
escrevia a Celina nestes termos de exposição de vida e, ao mesmo tempo, de
ensinamento doutrinal:"Que nos fazem a nós, as coisas da terra? Seria
nossa pátria esse limão tão pouco digno de uma alma imortal? Que nos importa,
se homens mesquinhos cortam o mofo que cresce sobre esse limão? Quanto mais nosso coração está no céu, tanto
menos sentimos essas picadas de alfinetes"(84). As picadas de alfinetes
podem, pois, ser superadas, se nos apegamos, de verdade, às coisas do alto.
Com o bálsamo das verdades celestes, certamente, viveremos mais na esperança
da ressurreição do que choramingando as pequenas, embora dolorosas,
alfinetadas da vida. Todos
sabem quanto Santa Teresinha desejou, ardentemente, o martírio de
sangue:"O martírio, eis o sonho da minha juventude, esse sonho cresceu
comigo nos claustros do carmelo. Mas
mesmo aí, sinto que meu sonho é uma loucura, pois não saberia me limitar a desejar um gênero de martírio. Para me
satisfazer, ser-me-iam necessários todos. Como tu, meu Esposo Adorado,
quisera ser flagelada e crucificada. Quisera morrer esfolada como
S.Bartolomeu. Como S.João, quisera ser mergulhada em óleo fervendo, quisera
sofrer todos os suplícios infligidos aos mártires.Com Santa Inês e Santa
Cecília, quisera apresentar meu pescoço à espada e como Joana d'Arc, minha
irmã querida, quisera,na fogueira, murmurar teu nome, ó Jesus. Sonhando com
os tormentos, que serão a partilha dos cristãos no tempo do Anti-Cristo,
sinto meu coração exultar e quisera que esses tormentos me fossem
reservados"(85). Apesar de
todos esses desejos, o martírio de sangue para Teresinha não passou de um
sonho, como o sonho de Celina, do qual falamos acima. Porém, nossa Santa não
se deu por rogada. Ela aproveitou as alfinetadas da vida, aproveitou-se das
contínuas lutas íntimas, que tanto maltratam e nos fazem sofrer e, então,
criou outra espécie de martírio do coração, que, às vezes, é muito mais duro,
porque oculto, silencioso, demorado e sem ajuda de ninguém, pois, por vezes,
até o Senhor se esconde.Numa carta ao Padre Bellière, Teresa, continuando sua
doutrinação àquele que ela tomara como discípulo, deu-nos essa belíssima
lição:"Um Santo disse: A maior honra que Deus possa dar a uma alma, não
é de lhe dar muito, mas é de lhe pedir muito! Jesus o trata como
privilegiado. Ele quer que você comece já sua missão e que, pelo sofrimento,
você salve as almas. Não foi
sofrendo, morrendo, que Ele resgatou o mundo? Sei que você aspira à felicidade
de sacrificar sua vida pelo divino Mestre, mas o martírio do coração não é
menos fecundo do que a efusão de sangue e desde agora esse martírio é o seu;
tenho, pois, razão em dizer que sua parte é bela, que ela é digna de um
apóstolo de Cristo(86). Martírio
do coração, pois, é saber morrer a tudo quanto não é perfeição, arrancando de
dentro de nós todos os vícios, todas as debilidades, todas as imperfeições.
Martírio do coração é a mortificação dos sentimentos, dos desejos, dos
sentidos. Martírio do coração é agüentar as incompreensões, os maltratos, as
calúnias, as maledicências, as pequenas torturas dos companheiros e dos
amigos. Martírio do coração é a lenta e dolorosa purificação, que temos de
fazer conosco mesmos cada dia da nossa vida. Ninguém enfrentaria martírio de
sangue, se antes não for preparado com o martírio do coração, conforme nos
adverte S.Jerônimo. Ele é, pois, necessário não só para nossa santificação
diária, mas também para nos preparar para maiores lutas por causa do Reino de
Deus. Semelhante
ao martírio do coração, ou mesmo dentro do martírio do coração, há outras
espécies de sofrimentos, que Teresa analisa como sendo pão de cada dia, mas
sumamente precioso para nossa subida da Montanha do Amor.Assim, ela fala de
uma "prova de escolha", que outra coisa não é senão a situação
difícil, em que uma pessoa passa para ser escolhido pelos outros. No dia 21
de março de 1896, houve no Carmelo de Lisieux uma difícil eleição para o
cargo de Priora. Madre Maria de Gonzaga
foi candidata e só conseguiu sua reeleição após sete escrutínios, o
que feriu profundamente a Madre Gonzaga, que se via assim rejeitada pelas
suas irmãs, no momento difícil e crucial de sua escolha pelas religiosas, que
ela ajudara tanto a formar. Santa Teresinha escreveu, então, uma curiosa
Lenda de um pequenino Cordeiro, na
qual ela procura consolar a Madre Gonzaga, explicando-lhe os planos de Jesus
a seu respeito naquela eleição. Pois bem, às tantas, a Santa fala da prova de
escolha, como sendo mais uma que faltava na caminhada de santificação da
Madre. A lição, então, serve para todos nós:"Durante toda a sua vida, eu
a guardei com um cuidado ciumento, ela já sofrera muito por mim, em sua alma,
no seu coração, contudo lhe faltava a prova de escolha, que acabo de lhe enviar
após tê-la preparado desde toda a eternidade"(87). Pelo texto da Santa,
observamos que a prova de escolha é mais do que um simples sofrimento no
coração,de que falamos acima. Ela parece ser um grau mais místico com caráter
de purificação. Falamos,
há pouco, sobre o martírio de sangue e o martírio do coração. Pois bem,
Teresinha nos apresenta ainda duas outras espécies de martírio, isto é, o
martírio de desejo e o martírio de amor. Em
Fevereiro de 1896, atendendo a um pedido de Irmã Genoveva, Santa Teresinha
lhe escreve uma espécie de alegoria a respeito do que se passaria no céu no dia de suas núpcias com o Cordeiro
Imaculado. às tanta da fantasiosa narração, Teresa resume todas as espécies
de sofrimentos de uma pessoa, que ama verdadeiramente a Deus e que sabe
aproveitar todas as ocasiões para demonstrar esse amor, sobretudo, quando se
trata de momentos de cruz e dor, com as seguintes palavras:"Os Santos
Mártires tomarão cuidado para não ficarem ociosos; palmas inigualáveis e
flechas inflamadas serão dispostas com uma tocante delicadeza sobre todo o
percurso do desfile real. Eles quererão, assim, render homenagem ao martírio de amor que deve, em pouco
tempo, consumir a vida da feliz Esposa"(88). Ouve-se,aqui, um eco do
grande Ato de Oferta ao Amor Misericordioso, no qual Santa Teresinha suplica
a Deus que ela se torne mártir do amor divino:"Que esse Martírio, após
me ter preparado a comparecer diante de Vós, faça-me, enfim, morrer e que
minha alma se lance, de imediato, no abraço eterno de Vosso Misericordioso
Amor"(89). Martírio
de Amor eis aí a síntese de toda uma vida de um apaixonado por Deus, de um
peregrino da Montanha do Amor. Martírio de amor significa sofrer tudo por
amor e por causa do amor, de tal maneira que, mesmo não padecendo o martírio
de sangue, a pessoa amante se torna um mártir do desejo(90) e dá sentido ao
sofrimento pelo amor que tem e, por causa mesmo desse amor, está pronta a
sofrer para sua santificação e para colaborar na redenção do mundo. O último
tipo de sofrimento de que fala nossa Santa é bastante curioso. É o que
poderíamos chamar de um estado certamente já nas rais da mística, a saber, a
oração de sofrimento. Oração de
sofrimento seria, na verdade, uma oração especial, em que o orante não diz
palavras, talvez não possa nem se concentrar, porque está num estado
doloroso, todavia reza ofertando a Deus aquele mesmo sofrimento. Não são
palavras que saem de sua boca; não são profundas reflexões; não são bonitas
expressões de sentimentos íntimos, mas o orante, em silêncio e incomodado,
oferece-se e oferece tudo o que tem, que é justamente a sua cruz do momento.
Um exemplo típico dessa oração e desse modo de saber sofrer, próprios da
mística joanina-teresiana, é-nos apresentado na Autobiografia de Santa
Teresinha, quando ela nos conta o sofrimento que sentia, durante a oração,
por causa de certo barulho cabuloso,que uma Religiosa provocava, bem perto
dela:"Dizer-lhe, minha Madre, quanto esse barulhozinho me fatigava é
coisa impossível; tinha muita vontade de virar a cabeça e olhar a culpada
que, seguramente, não se apercebia de
seu tique. Seria o único meio de adverti-la, mas, no fundo do coração, sentia
que valia mais sofrer aquilo por amor do bom Deus e para não causar pena à irmã. Ficava, pois, tranqüila, tentava me
unir ao bom Deus, esquecer o barulhozinho...tudo era inútil, sentia o suor
que me inundava e era obrigada a fazer, simplesmente, uma oração de
sofrimento,mas, mesmo sofrendo, procurava o meio de fazê-lo não com
irritação, mas alegria e paz, pelo menos no íntimo da alma. Então, procurava
amar o barulhozinho tão desagradável; ao invés de procurar não ouvi-lo(coisa
impossível), punha minha atenção em escutá-lo bem, como se fosse um
encantador concerto e toda minha oração(que não era a de quietude) se passava
a oferecer aquele concerto a Jesus"(91). Com as
últimas palavras de Santa Teresinha, entramos já na maneira recomendável pela
Santa como devemos saber sofrer. Na verdade, não basta sofrer, o que acontece
a todos os homens nesta terra, mesmo àqueles que não amam a Deus. O
importante é saber sofrer com amor e, por isso, Teresinha nos ensina como, de
fato, na prática, possamos viver o sofrimento por amor. Em
primeiro lugar, é preciso aceitar o sofrimento tal qual ele vem e como nós
nos encontramos. Teresinha é uma excelente psicóloga. Ela sabe que mudar as
circunstâncias ou nosso estado interior não é coisa de um dia só. Requer-se
muito esforço e muita calma. Eis por que ela proclama que o segredo de nossa
vitória, humanamente falando, está na nossa disposição de aceitar o
sofrimento como ele é e aceitarmos como nós somos. Ela olha Jesus e lembra-se
de uma frase que o Pe.Pichon dissera, citando outro autor, e numa carta
consoladora a Celina, ela comenta:"Não acreditemos poder amar sem
sofrer, sem sofrer muito...nossa pobre natureza é assim!...Soframos com
amargura, sem coragem! 'Jesus sofreu com tristeza!' Sem tristeza será que a
alma sofreria? E queríamos sofrer generosamente, muitíssimo! Celina, Que
ilusão! Queríamos jamais cair? Que importa, meu Jesus, se caio a cada
instante? Vejo nisso minha fraqueza e ela é para mim um grande
ganho"(92). Mas, Santa
Teresinha vai muito mais longe. Na verdade, não basta saber suportar o
sofrimento, isto é, recebê-lo com toda sua amargura. Esse é apenas o primeiro
passo. O amante de Deus sofre mesmo é com alegria. Parece incrível, falar
assim,mas é essa a verdade, toda a verdade do Pequeno Caminho. E não 'é dura
verdade, é apenas uma verdade consoladora e mística. Vejamos como Teresinha
nos esclarece sobre esse importante ponto do Pequeno caminho. Na sua
Autobiografia, a respeito de sua possível ida para um Carmelo de missão, ela
expõe à Madre Gonzaga estes sentimentos íntimos sobre o
sofrimento:"Sinto muito bem que não teria nenhuma decepção, pois quando
se espera um sofrimento puro e sem nenhuma mistura, a menor alegria se torna
uma surpresa inesperada; e, depois, a senhora sabe, minha Madre, o próprio
sofrimento se torna a maior das alegrias, quando se o busca como o mais
precioso dos tesouros"(93). Esse é o caminho, isto é, encarar o
sofrimento como um tesouro precioso. Aí, então, o sofrimento é padecido com
alegria. Quando
Teresinha foi duramente provada na fé, sentiu as pancadas amargas de momentos
cruéis, em que a pessoa amante não vê mais o Amado e tudo lhe diz que esse
Amado não olha mais para ela e que, talvez, nunca tenha mesmo existido. É,
realmente, um momento de angústia. Pois bem, Teresa, que passou por essa fase
dolorosa, ensina-nos como tirar proveito até mesmo de momentos iguais ou
piores do que esse:"Ah, que Jesus me perdoe se Lhe causei tristeza, mas
Ele sabe bem que, mesmo não tendo o gozo da Fé, procuro, pelo menos,praticar
as obras. Creio ter feito mais atos de fé desde um ano do que durante toda
minha vida.A cada nova ocasião de combate, quando meu inimigo vem me
provocar, porto-me com bravura, sabendo que é uma covardia bater-se em duelo,
dou as costas ao meu adversário sem me dignar olhá-lo no rosto, mas corro
para meu Jesus, digo-Lhe que estou pronta a derramar até à última gota de meu
sangue para confessar que há um Céu. Digo-lhe que estou feliz por não gozar,
na terra, desse belo Céu, a fim de que Ele o abra, para a eternidade, aos
pobres incrédulos. Assim, apesar da provação que me tira todo gozo, posso,
contudo, exclamar:'Senhor, vós me cumulais de ALEGRIA por TUDO que fazeis'(Sl
91). Pois, existe uma alegria maior do que a de sofrer por vosso amor? Quanto
mais o sofrimento é íntimo, quanto menos ele aparece aos olhos das criaturas,
tanto mais ele Vos alegra, ó meu Deus! Mas, se por impossível, Vós mesmo
devêsseis ignorar meu sofrimento, ficaria ainda feliz em possuí-lo, se por
ele pudesse impedir ou reparar uma só falta cometida contra a Fé"(94). Como se
pode constatar,é o amor que dá alegria até mesmo ao nosso sofrimento.O amor
pode nos levar ao heroísmo de aceitar o sofrimento com calma,alegria e até
mesmo com certo ciúme. Um caso na vida de Teresinha pode nos iluminar a esse
respeito, ou seja, pode nos fazer compreender melhor como o verdadeiro amante
está disposto a deixar tudo e até mesmo sofrer para agradar ao amado. Certa
tardinha, quando Teresinha ajudava, com todo amor e carinho, a Irmã S.Pedro a
se dirigir ao refeitório, sentiu na sua alma toda a efusão de sentimentos
confusos, numa mistura do humano com o divino, e pôde, então, calmamente,
aquilatar o sentido mais profundo de sua doação de amor. Naquele momento
crítico da existência da Santa, ainda bem jovem e bem humanamente talentosa,
a grandeza da graça divina sobrepujou na sua alma diante dos sentimentos mais
humanos e mais naturais, mostrando-nos como o sofrimento de um peregrino do
Amor encontra seu lugar mesmo na caminhada penosa do dia a dia de nossa
simples e complicada vida:"Numa noite de inverno, cumpria, como de
costume, meu oficiozinho. Fazia frio! Era noite! De repente, ouvi ao longe o
som harmonioso de um instrumento musical, então me representei um salão bem
iluminado, todo brilhante de dourados, jovens elegantemente vestidas
trocando, mutuamente, cumprimentos e delicadezas mundanas;depois, meu olhar
se dirigiu para a pobre doente que eu sustentava; ao invés de uma melodia eu
ouvia,de vez em quando, seus gemidos queixosos, ao invés de dourados, via os
tijolos de nosso claustro austero,mal iluminado por um fraco clarão. Não posso
exprimir o que se passou na minha alma, o que sei é que o Senhor a iluminou
com raios da verdade, que sobrepassaram de tal modo o brilho tenebroso das
festas da terra,que não podia crer na minha felicidade. Ah, para gozar mil
anos das festas mundanas, não teria dado os dez minutos empregados em cumprir
meu humilde ofício de caridade. Se já no sofrimento, no meio do combate,
pode-se gozar de um instante de uma felicidade que ultrapassa todas as
felicidades da terra, pensando que o bom Deus nos retirou do mundo, que será
no céu...?"(95). Nas suas
Cartas, Santa Teresinha sempre insistiu sobre esse caráter alegre no
sofrimento. Podemos dizer que ela até insiste, implícita ou explicitamente,
para que nosso sofrimento seja suportado com alegria, mesmo que, dentro de
nós, o espírito esteja mergulhado no sepulcro da amargura e das trevas.
Assim, já em março de 1888, ela escrevia a Paulina nestes termos:"E,
depois,quando penso que, por um sofrimento suportado com alegria, durante
toda a eternidade, amar-se-á melhor o bom Deus!"(96) Mesmo que
nos sintamos fracos demais para carregarmos nossas cruzes, só existe aí,
segundo Teresinha, motivo de alegria, justamente porque nos entregamos a Deus
tais quais somos de verdade,e, portanto, carentes da ajuda divina. Por isso,
ela exclamava, em janeiro de 1889, numa carta a Celina:"Que alegria
inefável carregar nossas cruzes FRACAMENTE!"(97). Uma das
causas dessa alegria no sofrimento é o fato de que pelo sofrimento se
participa do mistério da redenção, feito pela cruz, como S.Paulo nos
ensina:"Agora eu me alegro nos meus sofrimentos por vós, e completo, na
minha carne, o que falta das tribulações de Cristo pelo seu Corpo, que é a
Igreja"(98). Por esse motivo profundo, podemos dizer, com Teresa, que
Deus, de certa maneira, alegra-se com nosso sofrimento. Evidentemente, não é
propriamente com nosso sofrimento em si, mas pelo amor manifestado no nosso
sofrimento:"Cada novo sofrimento, cada angústia do coração é como um
leve zéfiro que vai levar a Jesus o perfume de seu lírio, então Ele sorri com
amor e logo prepara uma nova amargura, enche o cálice até à borda, pensando
que quanto mais seu lírio cresce no amor, tanto mais ele deve crescer no
sofrimento"(99).Eis por que, Teresa, em março de 1889, abria sua alma a
Celina numa confissão arrebatadora:"Sinto necessidade, esta noite, de
vir com minha Celina mergulhar no infinito...sinto necessidade de esquecer a
terra...aqui tudo me cansa, tudo me é uma carga...Só encontro uma alegria, a
de sofrer por Jesus, mas essa alegria não sentida está acima de toda
alegria!"(100). É bom notar que, Teresa não engana ninguém. Não se
trata, é evidente,de uma alegria sensível ou sentida. Sofrer dificilmente
pode provocar uma alegria sensível, mas nem por isso deixa de provocar uma
alegria profunda, interior e sobrenatural:"Que alegria por um momento de
sofrimento!"(101). Dentro da
sua visão límpida, Teresinha adverte que querer sentir alegria ou atração
pelo sofrimento pode até tirar o mérito do próprio sofrimento, já que
pode fazer do saber sofrer por
amor não uma virtude, mas
simplesmente um prazer natural. Em setembro de 1896, ela escrevia à Irmã
Maria do Sagrado Coração, a esse propósito, a seguinte admoestação:"A
senhora não está pronta para sofrer tudo o que o bom Deus quiser? Sei bem que sim,então, se a senhora deseja
sentir alegria, ter atração pelo sofrimento, é sua consolação que está
buscando, pois quando se ama uma coisa, a pena desaparece. Asseguro-lhe que,
se fôssemos, juntas, para o martírio nas disposições em que estamos, a senhora
teria uma grande mérito e eu não teria nenhum, a menos que aprouvesse a Jesus
mudar minhas disposições:(102). Não é de
admirar, pois, que semelhantes amantes, apaixonados por Deus, cheguem a
sentir que as próprias alegrias na terra se misturem sempre com sofrimentos.
Nada mais natural! O apaixonado de Deus está sempre insatisfeito, mesmo com
as alegrias naturais desse mundo:"...para nós, as alegrias serão sempre
misturadas com o sofrimento"(103). Ao Padre
Roulland, em março de 1897, ano de sua morte, nossa Santa comparava a alegria
do sofrimento por amor a Deus, como participação no mistério redentor, com o
pre-gosto do céu,portanto, muito superior a qualquer alegria
mundana:"S.João da Cruz disse:'O
menor movimento de puro amor é mais útil à Igreja do que todas as obras
reunidas'. Se é assim, quanto suas penas e suas provações devem ser proveitosas à Igreja, pois é só
por amor de Jesus que você as sofre
com alegria. Verdadeiramente, meu irmão, não posso lamentá-lo, pois em você
se realizam estas palavras da Imitação:'Quando você achar doce o sofrimento e
o amar por amor a Jesus Cristo, terá encontrado o Paraíso na terra'. Esse
paraíso é mesmo aquele do missionário e da carmelita; a alegria que os
mundanos buscam no meio dos prazeres é apenas uma sombra fugaz; mas nossa
alegria, procurada e apreciada nos trabalhos e sofrimentos, é uma realidade
bem doce, um pre-gosto da felicidade do céu"(104). Muitas
vezes, nossa Santa ao se referir à alegria no meio dos sofrimentos, fala,
igualmente, de sentir, ao mesmo tempo, uma paz espiritual no fundo da alma.
Alegria e paz serão os nossos temas do próximo capítulo, todavia, vamos
focalizar, de logo, algumas idéias teresianas a respeito dessa paz no meio
dos sofrimentos. Numa carta
a Celina, em abril de 1889, nossa Santa explicava como se pode, na vida
cotidiana, sofrer em paz. Trata-se de uma paz espiritual. Buscar uma paz
sensível é um perigo, porque certamente o sofrimento provoca em nós, como
humanos, uma reação natural de desconforto e, às vezes,de revolta. Por isso,
Santa Teresinha esclarecia:"Vejamos a vida sob seu dir verdadeiro. É uma
instante entre duas eternidades.Soframos em paz...Confesso que essa palavra
paz me parecia um pouco forte, mas, outro dia,refletindo sobre isso, achei o
segredo de sofrer em paz. Quem diz paz, não diz alegria ou, pelo menos,
alegria sentida. Para sofrer em paz basta querer tudo o que Jesus quer. Para
ser esposa de Jesus, é preciso assemelhar-se a Jesus, Jesus é todo sangrento,
Ele está coroado de espinho!"(105). Assim, ela pedia também a Leônia,
para que, na expectativa de Jesus, esperasse, sofrendo em
paz:"Esperemos, soframos em paz, a hora do repouso se aproxima, as leves
tribulações desta vida de um momento produzem em nós um peso eterno de
glória"(106) Todos
sabemos que, Teresinha, apesar da pouca idade, sempre foi uma pessoa de muita
maturidade. Seus superiores já tinham observado esse precocidade excepcional
na nossa Santa. Quando ela entrou no Carmelo, com apenas quinze anos de
idade,segundo sua própria confissão, não teve ilusão, porque encontrou tudo
como de fato imaginara. Ela confessou ainda que, seus primeiros tempos na
vida carmelitana não foram fáceis, pois o sofrimento lhe abrira os
braços.Pois bem, apesar de tudo isso, Teresa deixou umas palavras dignas de
meditação, quando escreveu, na sua Autobiografia, a narração da sua entrada
no Carmelo:"Enfim, meus desejos estavam realizados, minha alma sentia
uma PAZ tão doce e tão profunda que
me seria impossível exprimi-la e
desde sete anos e meio essa paz íntima tem permanecido como minha herança,
ela não me abandonou no meio das maiores provações"(107). E,como se
falar de alegria e paz no meio dos sofrimentos não bastasse, Teresinha chega
a usar expressões mais fortes, como sentindo mais além do que se possa
imaginar. Na verdade, sofrer por amor, para Teresinha, é conseguir a
felicidade. Sofrer por amor não traz à alma somente alegria e paz, mas leva-a
muito mais longe,pois lhe dá a própria felicidade. Em janeiro
de 1889, numa carta à Irmã Maria do Sagrado Coração, ela explicava o que era
a verdadeira felicidade nesta terra. Sabemos que, usualmente por causa do nosso insaciável coração, dificilmente
teremos uma felicidade completa e total sobre esta terra. A psicóloga Teresa
de Lisieux descobriu esse fato com muita clarividência. então, juntando sua
iluminação psicológica com suas inspirações espirituais dadas pelo Espírito
de Deus, Teresa chegou a uma conclusão bem clara e simples:"Por que
procurar a felicidade nesta terra? Confesso-lhe que meu coração sente uma
sede ardente de felicidade, mas ele vê bem, esse pobre coração, que nenhuma
criatura é capaz de saciar sua sede, ao contrário, quanto mais ele bebe nesse
fonte encantada, tanto mais sua sede se torna ardente! Conheço outra fonte. É
aquela em que, após ter bebido, tem-se ainda sede, mas uma sede que não é
ofegante, mas que é, ao contrário, muito doce, porque ela tem com que se
satisfazer. Essa fonte é o sofrimento conhecido só por Jesus!"(108). Aí está a
doutrina clara e límpida. Mesmo com Jesus, nosso coração humano ainda sentirá
sede, porque estamos neste mundo, nesta peregrinação, nesta dura subida da
Montanha. Todavia, é muito diferente a felicidade passageira do mundo da
felicidade também passageira, enquanto estamos neste mundo, de quem, na subida,
tem de sofrer, mas sofre por amor a Deus. Por isso, uma felicidade mais
perfeita neste mundo é o preço e o peso da subida da montanha,ou seja, o
sofrimento por amor.Era isso o que nossa Santa queria dizer à Madre Inês,
numa carta de sete de janeiro de 1889:"Se Jesus não me dá consolação,
Ele me dá uma paz tão grande, que me faz mais bem! E a carta do Padre? Acho-a
celeste, meu coração encontra nela muitas belas coisas,mas a felicidade? Oh,
não, nada de felicidade...a felicidade só existe no sofrimento e no sofrimento sem nenhuma
consolação!"(109). Essa
teoria de Teresa não deve ser interpretada como uma espécie de corrida ou
escapatória de uma situação sem saída. Na verdade, Teresa era uma mulher
realizada.E até se não foi uma mãe fisicamente, o foi espiritualmente e tudo
que sonhou, viu realizado, como ela mesma confessa.A teoria de Teresa
encontra eco numa realização pessoal. Quem ama,mesmo sofrendo, sente-se
feliz. Se isso acontece com certas pessoas no seu relacionamento com as
coisas e as pessoas do mundo,as quais são efêmeras e não respondem mesmo às
aspirações do nosso coração, quanto mais isso é verdade, quando se trata de
uma apaixonado por Deus! Por isso, Teresinha, no final de julho do ano de sua
morte, pôde dizer à Madre Inês:"Encontrei a felicidade e a alegria na
terra, mas unicamente no sofrimento, porque sofri muito neste
mundo"(110). Alegria,
paz, felicidade, tudo isso já poderia bastar para quem sofre por
amor.Teresinha, porém, vai muito mais além. Ela acha pouco tudo que se possa ter
como recompensa neste mundo. Por isso, procura na sua fé uma resposta, ou
seja, algo que possa corresponder como o outro lado do sofrimento, aquele
lado que é a resposta de Deus.Destarte, não bastando a alegria, a paz e a
felicidade, Teresa vai encontrar uma satisfação mais profunda e mais completa
na própria glória. Aliás,
sofrer por Deus já é uma glória, ou seja, um privilégio:"Sofrer e ser
desprezada! Que amargura, mas que glória!"(111). Mas, por que é uma
glória? Justamente porque nos leva à glória. Por isso, toda a eternidade será
pouca, por assim dizer, para agradecer a Deus todos esses favores:"Que
privilégio Jesus nos concedeu ao nos enviar uma tão grande dor! Ah, a
ETERNIDADE não será demasiado longa
para agradecer-lhe"(112). No fundo, nossa glória será
proporcional a esses sofrimentos. É isso o que Teresinha dizia a Celina em fevereiro de 1889:"Ah, irmãzinha
querida, longe de me lamentar a Jesus da cruz que nos envia, não posso compreender o amor infinito que o
levou a nos tratar assim.É preciso que nosso Pai querido seja muito amado por
Jesus, para que tenha de sofrer
assim, você não acha que a infelicidade, que o fere, é o complemento
de sua bela vida? Sinto, Líriozinho Imortal, que lhe digo verdadeiras
loucuras, mas não importa, penso ainda muitas outras coisas sobre o amor de
Jesus, que são talvez mais fortes do que o que lhe digo. Que felicidade ser
humilhada, é o único caminho que faz os santos!...Podemos duvidar, agora, da
vontade de Deus a respeito de nossas almas?
A vida é apenas um sonho, logo despertaremos, e que alegria!...quanto
mais nossos sofrimentos são grandes,
tanto mais nossa glória será infinita. Oh, não percamos a provação que Jesus nos envia, é uma mina
de ouro a explorar. Vamos perder a
ocasião? O grão de areia quer se pôr à obra, sem alegria, sem coragem, sem
força, e são todos esses títulos que lhe facilitarão a empresa, ele quer
trabalhar por amor"(113). A
proporção é, pois, bem evidente, embora os termos sejam tão distantes uns dos
outros. Teresinha ensinava a Celina, o que S.Pedro já escrevia em sua Carta,
a saber, que o tempo presente não tem proporção com a glória futura:"Ah,
não recusemos chorar com Ele durante um dia, pois que gozaremos de sua glória
durante uma eternidade!"(114). S.Pedro,na
sua primeira Carta, insiste sobre essa
temática, isto é, aqui, neste mundo, o sofrimento é proporcional à
nossa glória celeste:"...na medida em que participais dos sofrimentos de Cristo, alegrai-vos,
para que também na revelação da sua glória possais ter uma alegria
transbordante. Bem-aventurados sois, se sofreis injúrias por causa do nome de
Cristo, porque o Espírito de glória, o Espírito de Deus repousa sobre
vós...Depois de terdes sofrido um pouco, o Deus de toda a graça, aquele que
os chamou para a sua glória eterna em cristo, vos restaurará, vos firmará,
vos fortalecerá e vos tornará inabaláveis"(115). Nessa mesma linha,
Teresinha escrevia a Celina, usando palavras do livro da Sabedoria:"Não
estamos ainda na nossa Pátria e a provação deve nos purificar como o ouro no
cadinho"(116).O certo é que, no final, como lembrava ainda nossa Santa,
a Santíssima Trindade tomará posse de nós e seremos eternamente felizes, na
glória da Trindade.Na famosa Lenda do Cordeirinho, Teresinha termina sua alegoria com estas palavras
saídas da boca do Bom Pastor:"...então, durante a eternidade,você
bendirá o feliz sofrimento, que lhe mereceu tanta felicidade, e eu enxugarei
todas as lágrimas de seus olhos!"(117). Esse é o
verdadeiro preço, ou valor do sofrimento suportado por amor. Teresa o
conhecia bem, por isso escrevia a Celina: "Quisera consolá-la, se não o faço,é porque conheço
o preço do sofrimento e da angústia do coração"(118). E é sob essa ótica
bíblica, que Teresinha procurava animar o Padre Bellière, escrevendo
assim:"Trabalhemos juntos pela salvação das almas, só temos o único dia
desta vida para salvá-las e dar assim ao Senhor provas de nosso amor. O
amanhã desse dia será a eternidade, então Jesus lhe retribuirá em cêntuplo as
alegrias tão doces e tão legítimas que você sacrificou por Ele. Ele conhece a
extensão do seu sacrifício, sabe que o sofrimento daqueles que lhe são caros
aumenta mais o seu, mas Ele também sofreu esse martírio; para salvar nossas
almas deixou sua Mãe, viu a Virgem Imaculada aos pés da cruz, o coração
transpassado por uma espada de dor, assim espero que nosso Divino Salvador
consolará sua boa Mãe, eu lho peço insistentemente. Ah, se o divino Mestre
deixasse entrever àqueles que você vai deixar, por seu amor, a glória que Ele
lhe reserva, a multidão de almas que formarão seu cortejo no céu,eles já
estariam recompensados pelo grande sacrifício que sua separação vai lhes
causar"(119). Em suma,
dói, mas vale a pena! O sacrifício até mesmo de coisas legítimas e naturais,
ainda que sintamos a dor da separação, do desapego e do despojamento, vai
para a conta do Banco do Amor. No final, teremos tudo com juros altíssimos e
no céu a glória eterna, como prometeu o Senhor. Ao Padre Roulland, por
ocasião de sua partida para as missões, Teresa envia palavras de instrução e
consolação no mesmo teor daquelas enviadas ao Padre Bellière:"Aquele que
tiver deixado tudo para me seguir, receberá o cêntuplo neste mundo e a vida
eterna no outro. Estas palavras de Jesus já se realizaram para você, pois
você me diz:'Parto feliz'. Compreendo que essa alegria deve ser toda
espiritual; é impossível deixar seu pai, sua mãe e sua pátria sem sentir
todos os rasgos da separação. Ó meu irmão, sofro com você, com você ofereço
seu grande sacrifício e suplico a Jesus para espalhar suas abundantes
consolações sobre seus queridos pais, esperando a união celeste, quando os
veremos gozar de sua glória que, enxugando para sempre suas lágrimas,
cumulá-los-á de alegria durante a bem-aventurada eternidade"(120). Chegamos
ao final dessa meditação sobre o sofrimento, seguindo as pegadas de Santa
Teresinha. Pouco a pouco fomos desvendando os segredos de saber sofrer;, sofrer por amor;, de sofrer nas
pequeninas coisas, que fazem o martírio do coração; de sofrer com alegria; de
sofrer em paz; de se encontrar a felicidade no sofrimento e, enfim, de saber
que por esse sofrimento por amor teremos, um dia, uma glória, que não tem
comparação com os sofrimentos passageiros desse mundo efêmero. Terminemos
essa meditação com as palavras de Teresa, tiradas de uma carta, que já
citamos, acima, por duas vezes. A Santa estava prestes a partir deste mundo e
sofria muito com sua doença física e sua provação na fé. Foi nesse estado
doloroso, física e espiritualmente, que ela escreveu:"Eu estou segura de
que, após minha entrada na vida, a tristeza de meu querido irmãozinho se
mudará em uma alegria calma, que
nenhuma criatura pode lhe tirar. Eu o sinto, devemos ir ao céu pelo mesmo
caminho, o do sofrimento unido ao amor. Quando estiver no porto, eu lhe
ensinarei, querido irmãozinho de minha alma, como você deverá navegar sobre o mar tempestuoso do mundo com o
abandono e o amor de uma criança, que sabe que seu Pai a ama e não poderia
deixá-la só na hora do perigo"(121). É esse o
Pequeno Caminho;é essa a subida da Montanha de Amor; é esse o Ascensor do
amor de que nos fala Teresa de Lisieux, que nos facilita a subida da
Montanha, isto é, os braços de Jesus ou as asas da Águia adorada, que,em
outras palavras, são a confiança, o abandono, o amor de uma criancinha pelo
seu Pai; é esse o preço e o peso da subida, isto é, o sofrimento por amor! NOTAS (1) -M.A,36r (2) -M.A,71r (3) -C.A.30.5.2 (4) -C.A.27.5.2 (5) -C.A,25v-26r (6) -M.A,27r (7) -M.A,27r (8) -M.A,28v (9) -M.A,30v (10) -M.A,64r (11) -CT,167 (12) -M.A,69v-70r (13) -GUAUCHER,G. "A Paixão
de Teresa de Lisieux",trad.bras., Loyola, S.Paulo,1977 (14) -C.A.29,7.2 (15) -C.A.31.7.13 (16) -C.A.4.8.8 (17) -C.A.18.7.2 (18) -C.A.23.7.4 (19) -M.A,73r (20) -C.A.3.8.8 (21) -C.A.27.5.6 (22) -C.A.23.8.3 (23) -PN5 (24) -CT,262 (25) -CT,263 (26) -C.A.11.8.3 (27) -C.A.26.8.3 (28) -C.A.23.7.3 (29) -CT,244 (30) -CT,253 (31) -CT,254 (32) -CT,258 (33) -M.A,83r (34) -C.A.13.6 (35) -Heb 9,22 (36) -Jo 12,24 (37) -M.A,81r (38) -M.A,10r (39) -M.A,32r (40) -CT,81 (41) -CT,89 (42) -Ct,144 (43) -CT,184 (44) -CT,258 (45) -CT,87 (46) -CT,173 (47) -C.A.20.8.11 (48) -CT,65 (49) -CT,132 (50) -CT,132 (51) -CT,67 (52) -CT,144 (53) -CT,83 (54) -M.A,45v (55) -CT,82 (56) -CT,120 (57) -CT,87 (58) -CT,43b (59) -CT,55 (60) -Rm 8,28 (61) -CT,74 (62) -M.B,4v (63) -C.A.16.7.6 (64) -P.A.p.188-189 (65) -M.A,84v (66) -CT,149 (67) -C.A.15.8.6 (68) -C.A.4.7.3 (69) -C.A.4.8.8 (70) -C.A.23.8.6 (71) -CT,131 (72) -Ct,193 (73) -C.A.25.8.6 (74) -M.C,35v (75) -CT,226 (76) -CT,43b (77) -Ct,85 (78) -Ct,129 (79) -CT,221 (80) -CT,91 (81) -M.A,50r (82) -M.C,9v (83) -CT,86 (84) -CT,81 (85) -M.B,3r (86) -CT,213 (87) -CT,190 (88) -CT,182 (89) -Ato de Oferta ao Amor
Misericordioso (90) -CT,226 (91) -M.C,30v (92) -Ct,89 (93) -M.C,10v (94) -M.C,7r (95) -M.C,30r (96) -CT,43b (97) -CT,82 (98) -Col 1,24 (99) -CT,83 (100)-CT,85 (101)-CT,91 (102)-CT,197 (103)-CT,114 (104)-CT,221 (105)-CT,87 (106)-CT,173 (107)-M.A,69r-69v (108)-CT,75 (109)-CT,76 (110)-C.A.31.7.13 (111)-CT,81 (112)-CT,83 (113)-Ct,82 (114)-CT,132 (115)-1 Pd 4,13; 5,10 (116)-Ct,165 (117)-CT,190 (118)-CT,221 (119)-CT,213 (120)-CT,193 (121)-CT,258 NO CUME
DA MONTANHA Quem,
alguma vez, teve a felicidade de subir uma montanha, sobretudo, se escalou
uma verdadeira montanha, pode aquilatar, muito bem, a maravilhosa sensação
que o "alpinista" sente, quando chega ao cume da montanha. O
panorama encantador que se descortina; o vento frio e puro que enche os
pulmões; a agradável sensação de estar acima do mundo comum e mais perto do
céu; o eco que ribomba ao menor barulho; os sentimentos de vitória e de
conquista que se apoderam de nós; em suma, a escalada da montanha, agora
vencida e dominada, retribui ao corajoso "alpinista", em cêntuplo,
tudo aquilo que ele teve de deixar para chegar ao cume da montanha e lhe
proporciona, outrossim, maravilhosos benefícios, que são o troféu da vitória
por tantos sofrimentos, por tanta ousadia, por tanta coragem, por tanta
confiança e pela vontade indômita de querer vencer. No caso da
subida da Montanha do Amor, segundo as trilhas do Pequeno Caminho, esses
benefícios ou esses frutos são a alegria e a paz. Alma joanina, a alma de
Teresinha foi também uma alma profundamente franciscana. Por isso, como o
Poverello de Assis, Teresinha foi sempre alegre e buscou sempre (e a encontrou) uma profunda paz
interior, que, no final da vida, no cume da montanha, foram o apanágio de sua
vitória. Alegria e
paz, eis aí os frutos de uma penosa, dolorosa, mas valorosa e admirável
subida da Montanha do Amor. A alma de Teresa de Lisieux, sobretudo, à medida
que foi subindo a Montanha de Amor, foi se enchendo desses dois grandes dons
do Espírito Santo. Alegria, porque estava em paz com Deus, consigo mesma e
com o mundo. Paz, porque sua alma alegre, contemplava, com serenidade, mesmo
nas horas de tempestade, o poder e o amor do seu Bem-Amado. Alegria e paz,
como frutos serenos e felizes de sua confiança, de seu abandono, em uma
palavra, de seu amor apaixonado por Deus. No seu
Manuscrito, Teresa recorda um dos seus encontros com a famosa Madre Genoveva,
quando esta santa lhe disse, como um ramalhete espiritual, estas palavras
inspiradas:"Sirva a Deus com paz e com alegria. Lembre-se, minha filha,
que nosso Deus é o Deus da paz". Teresa comentando o conselho da Madre,
escreveu:"Depois que lhe agradeci simplesmente, saí comovida até às
lágrimas e convencida de que o bom Deus lhe tinha revelado o estado de minha
alma; naquele dia fora seriamente provada, quase triste, em uma noite tal que
sabia mais se era amada pelo bom Deus, mas a alegria e a consolação que
senti, a senhora advinha, minha Madre querida!"(1). Teresinha
aprendeu a lição da santa Madre. Foi, pouco a pouco, unindo sua alegria
natural à paz de sua alma, e transformou tudo numa roseta final de beleza ,
como uma mensagem final de seu Pequeno Caminho. Na sua carta a Celina, em
abril de 1889, muito tempo antes de entrar na sua caminhada de dor, que a
levou à morte, ela já aconselhava e instruía sua irmã, contando-lhe sua
experiência pessoal:"Vejamos a vida sob seu dia verdadeiro. É um
instante entre duas eternidade. Soframos em paz. Confesso que essa palavra
paz me parecia um pouco forte, mas um dia desses, refletindo, achei o segredo
de sofrer em paz. Quem diz paz, não diz alegria ou, pelo menos, alegria sentida.
Para sofrer em paz, basta querer mesmo tudo o que Jesus quer"(2). Nesse
último texto, Teresinha, embora se mostre ainda numa fase de reflexão e
amadurecimento quanto ao binômio alegria e paz, sobretudo durante o
sofrimento, mostra-se, contudo, que já alcançara alto grau de compreensão do
assunto, já que explica o sentido espiritual dessa paz e como essa se coliga
diretamente com a alegria também espiritual. Ademais, acrescenta o ponto
fundamental, que será a chave de toda sua caminhada, faze, por amor, a
vontade do seu Bem-Amado. Mais
tarde, em agosto de 1893, a Santa apresentou à mesma Celina, sua irmã, outra
razão fundamental de sua alegria, que gera paz, e de sua paz, que gera
alegria, a saber, o desprezo de si mesmo. Veremos, mais adiante, como Teresa
acentuará esse ponto fundamental que, considerado mesmo apenas
psicologicamente, tem uma boa dose de razão de ser. Recordando as palavras da
Imitação de Cristo, que ela tanto amou e da qual tanto se serviu na sua vida,
ela escreveu para Celina:" 'Glorie-se
em uma coisa esse, em outra aquele, quanto a você não se alegre
senão no menosprezo de si mesmo'(Im.
III,49,7). Que essas palavras dêem paz à alma, minha Celina, você as conhece,
mas você não tudo que eu quisera lhe dizer?"(3). O tempo
foi se passando e Teresa cresceu sempre mais na compreensão dos favores
divinos. Assim, em julho de 1894,
escrevendo a uma antiga companheira de infância, no momento já casada, ela
juntava os dois frutos do amor e aconselhava sua amiga como a uma discípula
de sua escola de amor:"As provações, como pude colocar essa palavra na
minha carta, quando sei que para você tudo é felicidade. Perdoe-me, querida
amiguinha, goze em paz da alegria que o bom Deus lhe dá sem se inquietar com
o futuro"(4). Aqui, Teresa junta a paz e a alegria, como sendo dois
frutos do amor de Deus, dignos de serem sorvidos pela alma privilegiada de
Deus. Por esse caminho, nossa Santa procurou enveredar seu irmão espiritual,
o Padre Bellière, quando lhe assegurava que ele teria uma alegria cheia de
paz, após sua entrada na vida
eterna:"Sim, estou segura, após minha entrada na vida, a tristeza de meu
querido irmãozinho se mudará em uma alegria cheia de paz, que nenhuma
criatura poderá lhe tirar"(5). No final
da sua vida, a cinco dias antes de morrer,
Teresinha podia contar à Madre Inês uma pena que sofrera, algum tempo antes,
pela poda dos castanheiros e dizer-lhe, então, que sua alegria se misturava
com uma paz celestial, como frutos da sua caminhada espiritual no Pequeno
Caminho:"Primeiramente, foi uma tristeza amarga e, ao mesmo tempo,
grandes combates.Gostava tanto da sombra deles e não havia mais naquele ano!
Os ramos já verdes estavam em feixe pelo chão, apenas troncos! Depois, de
repente, passei por cima dizendo-me: se estivesse em outro Carmelo, que
importaria para mim que se cortasse, até completamente, os castanheiros do
carmelo de Lisieux?! E senti uma grande paz e uma alegria celeste!"(6). Assim,
pelas próprias palavras de Teresa descobrimos o estado de alegria e de paz,
que reinava no seu interior até os últimos momentos de sua vida. Aliás, isso
foi atestado pelas próprias irmãs, que viram Santa Teresinha, sobretudo
naqueles meses difíceis de tortura e de sofrimento indizível, pelos quais
passou a nossa Santa. Irmã Maria da Eucaristia, a escrivã--mor que relatava
todos os pormenores da doença de Teresa a seus pais, o senhor e a senhora
Guérin, contamos em uma de suas cartas o seguinte:"Não é preciso crer
que seu desejo de ir para o céu seja um entusiasmo. Oh, não, é bem cheio de
paz! Ela m dizia hoje pela manhã:'Se
me dissessem que vou curar, não creia que
ficaria atrapalhada; ficaria contente tanto quanto fosse morrer. Tenho
um grande desejo do céu, mas é sobretudo porque estou em uma grande paz que
estou feliz, pois para sentir uma
alegria imensa como algumas vezes, quando o coração bate de
felicidade...oh, não!...estou em paz, eis por que estou feliz!"(7). Foi isso
que aconteceu com Teresinha, a saber, pouco a pouco, ela foi conseguindo
fazer que sua alegria,dom quase inato nela, fosse se moldurando com uma
grande paz, de tal maneira que alegria e paz foram os frutos benditos de sua
vitória feliz na subida da Montanha do Amor. Após essa
introdução, na qual mostramos como Santa Teresinha conseguiu viver,
perfeitamente, o binômio maravilhoso da alegria e da paz, vamos, agora,
examinar esses dois estados de alma separadamente. Em outras palavras, vamos
considerar,primeiramente, como ela foi alegre e qual foi sua mensagem sobre a alegria; depois, vamos analisar a
paz na vida e na mensagem teresianas. Destarte, ficaremos com uma visão e uma
compreensão completas desses dois grandes frutos, que o peregrino do amor
adquire, quando sobe a Montanha do Amor. Santa
Teresinha foi sempre uma pessoa alegre. Podemos até dizer que a alegria
foi-lhe um dom quase inato, pois desde pequena até à morte ela foi sempre
alegre e muito alegre. Basta conferir as cartas de sua Mãe e logo ficamos
admirados como Teresinha é apresentada sempre com uma menininha muito alegre,
que transmitia a todos alegria e
felicidade.Na sua Autobiografia, Teresa nos conta coisas deliciosas, que
mostram muito bem o espírito alegre de que era possuída. É verdade que, em
certo tempo da sua vida, passou a ser uma menina muito chorona, mas, mesmo
nesse tempo, ela não deixou de ser também alegre e, muitas vezes, seu
espírito dava expansão à alegria com boas risadas:Em Lisieux os papéis tinham
mudado, era Celina que se tornara um diabetezinho e Teresa não mais
senão que uma garotinha bem doce, mas
excessivamente chorona...Para me consolar, ela pregava uma de suas bonecas e
lhe dizia:'Minha querida, abrace sua tia'. Certa feita, a boneca foi tão
apressada em me abraçar ternamente, que seus dois bracinhos prenderam meu
nariz. Celina que não procedera assim de propósito, olhava-me estupefata, com
a boneca pendurada no nariz. A tia não
tardou a afastar os abraços
demasiado ternos de sua sobrinha e me pôs a ir, de todo seu coração,
por uma tão singular aventura. O mais
divertido era ver-nos comprar, juntas, nossos surpresas no bazar...Esses
presentezinhos nos davam quase tanto prazer quantos belos surpresas de meu
tio, aliás era apenas o começo das alegrias. Naquele dia, vistáimo-nos
depressa e cada uma ficava esperando o momento de saltar no pescoço de papai;
logo que ele saía do quarto, eram gritos de alegria em toda a casa e esse
pobre paizinho parecia feliz em nos
ver tão contentes. As surpresas que Maria e Paulin davam às suas filhinhas não tinham um grande
valor, mas lhe causavam também uma grande alegria"(8). Mais tarde, relembrando o tempo de sua primeira
comunhão, Teresa descreveu a sua preparação ao primeiro grande encontro com
Jesus Eucaristia como sendo uma época de alegria especialíssima:"A época
de minha primeira Comunhão ficou gravada no meu coração como uma lembrança
sem nuvens. Parece-me que eu não poderia estar melhor disposta do que estive
e, depois, minhas penas da alma me
deixaram durante quase um ano. Jesus queria me fazer sentir uma alegria tão
perfeita quanto é possível neste vale de lágrimas"(9) Os anos se
passaram mais e no dia de sua entrada na arca santa do Carmelo, Teresinha
pôde sentir, de novo, uma alegria maravilhosa que, cheia de paz, inundava
profundamente sua alma. Eis como ela nos conta essa maravilhosa sensação de
felicidade naquele dia bendito:"...depois, segui a Madre Maria de
Gonzaga pelos diferentes lugares da
comodidade; tudo me parecia fascinante; julgava-me transportada a um deserto,
nossa celazinha sobretudo me encantava, mas a alegria que sentia era calma, o
mais leve zéfiro não fazia ondular as águas tranqüilas sobre as quais vogava
minha barquinha, nenhuma nuvem
obscurecia meu céu de azul. Ah, estava plenamente recompensada por todas minhas provações! Com que
alegria profunda repetia, repetia estas palavras:'É para sempre, para sempre
que estou aqui!'"(10) Teresinha
entrou , alegre e feliz, no seu Carmelo tão desejado e sonhado. Passará, em
seguida, por momentos muito difíceis. Não teve, porém, ilusões. Sua alegria
não nem falsa, nem passageira. Sua alegria residia no mais profundo do seu
ser. Sua alegria também tinha uma razão muito mais do que um simples
sentimento ou uma mera auto-realização. Por isso, sua alegria foi um estado
permanente. Meses depois após sua entrada no Carmelo, ela iniciava uma carta
para sua tia, com a seguinte frase:"Sua filhinha está no auge da
alegria!"(11).E, feliz com uma carta de Celina, ela lhe respondia em
julho de 1890, com a seguinte declaração:"Se você soubesse o que sua
carta disse à minha alma!...Ah, a alegria inundava meu coração como um vasto
oceano!"(12). Os anos se
passaram. Teresa de Lisieux teve de enfrentar um longo período de sofrimentos
de todas as espécies. Ela não perdeu, porém, seu estado habitual de alegria.
Mesmo na dor, ela sorria; mesmo no sofrimento, ela era alegre com aquela
alegria pura e espiritual. No começo
de maio de 1897, quando a doença ameaçava a jovem carmelita no esplendor de
seus verdes anos, ela dizia à Madre Inês:"É licença, hoje. Enquanto me
vestia, cantei "Minha Alegria""(13). Vejam só: sendo dia de
licença, ou seja, de recreação extraordinária, quando as irmãs podiam cantar
livremente em certas horas do dia, Teresa, ao se vestir, cantava e cantava
sua bela poesia "Minha Alegria"! Além de cantar, santa sua Alegria! A
tuberculose vai, pouco a pouco, devorando a pobre jovem carmelita. Em julho,
a doença já mostra seus primeiros grandes estragos. Pois bem, nesse mês,
precisamente, no dia oito, Madre Inês anotava:"Ela estava transbordante
de alegria e se esforçava para no-la
comunicar", e acrescentar estas palavras da Santa:"Se, quando
estiver no céu, não puder vir lhe fazer brincadeirinhas na terra, irei chorar
em um cantinho"(14). Mesmo com
a aproximação da morte, Teresa de Lisieux não deixe de ser alegre. Pelo
contrário, ela espanta, de certa maneira, a todos pelo seu espírito forte,
que é capaz de sorrir e fazer sorrir, todas as vezes que pode. Com efeito, há
poucos dias de sua morte, ela, segundo testemunho da Madre Inês, "chorou
de alegria, à tarde, quando lhe levaram uma relíquia do Venerável Teófanes Vénard". E a
mesma Madre Inês anotou esta frase que a Santa disse nesse mesmo ida, quando
lhe observou que ela voltava a ser o que era, quando podia:"Ah, é bem
verdade! Sim, quando eu posso, faço tudo para ser alegre, para dar
prazer"(15). Na
ante-véspera de sua morte, ela passou toda a tarde prodigalizando a todos com
seus sorrisos, que foram sempre sua marca registrada(16). Mesmo no dia de sua
morte, a Santa não deixou de sorrir e, nas Anotações de Madre Inês, podemos
ler esta bela frase:"Após sua morte, ela conservou um sorriso
celestial"(17). Foi tão
forte a impressão que nossa Santa causou nos seus visitantes mediante sua
alegria, que Irmã Maria da Eucaristia, numa carta-relatório à sua mãe,
senhora Guérin, fazia a seguinte
observação:"Ela está de tal maneira fraca que não pode mais lavar as
mãos sozinha; é uma verdadeiro trabalho para ela, que a faz sofrer em todos
os membros. Esta noite, antes de vomitar, ela teve um tal suor, que ele atravessou
os travesseiros ,que tiveram de ser mudados. Mas para o moral, é sempre a mesma coisa, a própria alegria,
fazendo rir a todos quanto se aproximam dela e falando, com felicidade, do
ladrão(o bom Deus), que virá em breve"(18). Até aqui,
vimos que Santa Teresinha foi sempre alegre, que teve sempre um sorriso
cativante, que soube espalhar, mesmo nos períodos difíceis da sua
enfermidade, a alegria com todos. A partir de agora, vamos examinar,
detalhadamente, como foi essa alegria de Santa Teresinha e, ao mesmo tempo,
qual é a sua mensagem a respeito da
alegria, ou seja, qual é o sentido e qual é o papel da alegria no Pequeno
Caminho teresiano. Em
primeiro lugar, é preciso dizer que, para nossa Santa, alegria perfeita só se
encontrará no céu. Em outras palavras, por mais razão que tenhamos para
sermos alegres neste mundo, sobretudo por causa dos efeitos da graça divina
em nós e pela visão de amor que devemos ter em todos as coisas, com todas as
pessoas e em todos os momentos, na verdade, só na Pátria teremos alegria
perfeita, isto é, sem vislumbre de amargura, sem cores de ocaso, sem finais
amargos, como sempre acontece com as nossas alegrias neste mundo.
Descrevendo, com muita poesia, os dias bonitos em que ia pescar com
seu pai querido, Teresinha escreveu na sua Autobiografia:"Eram belos
para mim aqueles dias, em que meu
"rei querido" me levava à pesca
com ele. Amava tanto os campos, as flores e os pássaros! Algumas
vezes, tentava pescar com minha linhazinha, mas preferia ir me sentar, sozinha,
na relva florida, então meus pensamentos eram bem profundos e, sem saber o
que era meditar, minha alma mergulhava numa verdadeira oração...Escutava os
barulhos distantes...O murmúrio do vento e mesmo a música indecisa dos
soldados, cujo som chegava até mim, entristecia docemente meu coração...A
terra me parecia um lugar de exílio e eu sonhava com o céu...A tarde passava
rápida, logo devia voltar para os Buissonnets, mas antes de partir,
tomava o lanche que trouxera no meu
cestinho; a bela fatia de doce, que a senhora me preparara, mudara de
aspecto: em vez de sua cor viva via apenas uma leve cor de rosa,
envelhecida e murcha...então, a terra me parecia ainda
mais triste e compreendia que somente no céu a alegria seria sem
nuvens"(19). Aqui na
terra, Teresa encontrou muito motivo de alegria, mas seu grande motivo mesmo
foi Deus. Deus em si, Deus nos seus benefícios, Deus na sua providência, Deus
no seu amor e, por isso mesmo, por causa de Deus e pelo amor de Deus, Teresa
de Lisieux foi sempre alegre. Já no dia seguinte ao de sua primeira Comunhão,
Teresinha percebeu que só Deus é a razão de toda a alegria e de toda a
felicidade,por isso, ele disse, referindo-se a essa descoberta:"Sentia
também o desejo de só amar o bom Deus, de não encontrar alegria senão
nEle"(20). Essa atitude e essa compreensão nunca deixaram nossa Santa e
a acompanharam até o final de sua vida. Destarte, quando as nuvens cobriram
os objetos de sua fé, na sua misteriosa noite mística, ela, pelo amor
apaixonado ao seu Deus, sentia que alcançara, então, a perfeita alegria
espiritual. É isso que ela quer dizer com sua história do Passarinho,pobre e
fraco, que a representa:"Por vezes, é verdade, o coração do passarinho é
assaltado pela tempestade, parece-lhe não crer que exista outra coisa
senão as nuvens que o envolvem; é, então, o momento da alegria
perfeita para o pobre pequeno ser fraco"(21). Nessa
ótica, Teresa pôde distinguir a verdadeira alegria das alegrias falsas e
enganadoras. Mais de uma vez, Teresinha toca nessa tecla muito importante, ou
porque ela se livrou dessas alegrias, ou porque ela condena essas mesmas
alegrias. A verdadeira alegria é ver-se bem aos olhos de Deus. Os louvores e
as bajulações não adiantam nada para nossa alegria, porque só a verdade deve
nos alegrar e a verdade sobre nós é a que está perante Deus e, não, a que
está perante os homens. Noutra bela comparação, em que a Santa é representada
por uma simples florzinha, ela declara:"Todas as criaturas podem se
voltar para ela, admirá-la, cumulá-la com seus louvores, não sei por que, mas
isso não poderia ajuntar uma só gota de falsa alegria à verdadeira alegria,
que ela saboreia no seu coração, vendo-se como ela é aos olhos do bom Deus;
um pobre nadinha, nada mais"(22). Além das
falsas alegria provindas dos elogios e dos louvores, há outro tipo também de
falsa alegria, a saber, aquela que se pode encontrar nos simples prazeres da
vida, prazeres que não passam de sombra passageira, prazeres que enganam
porque são fugidios e, às vezes, têm o veneno, ou seja, a dor e a tristeza na
cauda. Em março
de 1897, nossa Santa distinguia, muito bem, para seu irmão e discípulo, Padre
Roulland, as marcas e características da verdadeira e da falsa alegria,
dentro dessa ótica dos prazeres puramente mundanos:""A alegria que
os mundanos buscam no seio dos prazeres é apenas uma sombra fugidia, mas
nossa alegria, procurada e degustada nos trabalhos e nos sofrimentos, é uma
doce realidade, um pré-gosto da felicidade do céu"(23).Por isso, quando
já perto de morrer, ela ouvir dizer que a Madre e outras irmãs afirmavam que
ela era bela,imediatamente retrucou, dizendo:"Ah, que me dá isso!? Isso
me dá menos que nada, enjoa-me. Quando se está tão perto da morte, não se
pode ter alegria com isso"(24) Irmã
Genoveva anotou que, certo dia, no mês de julho de 1897, quando a Santa lhe
repetia uma pequena oração, que costumava rezar, na época de sua primeira
comunhão, acrescentou a seguinte observação:"Todavia, não rezava para
ser privada das consolações divinas,
mas somente das ilusões e das alegrias, que podem afastar do bom
Deus"(25). Teresa
tinha consciência das realidades terrestres. Ela nunca foi uma iludida.
Assim, quanto à alegria, sempre teve uma consciência clara de que, neste
mundo, as alegrias, mesmo as mais santa e perfeitas, são passageiras. Por
isso, ela buscou a fonte das verdadeiras alegrias e esperou, consciente, o
momento de gozar dessas verdadeiras alegrias. Teresinha tinha consciência de
que a figura desse mundo passaria e passaria com todas suas fragilidades e
sofrimentos e, então, para aqueles que foram fiéis peregrinos da cruz, haverá
uma alegria sem fim, uma verdadeira e eterna alegria:"Um dia virá, em
que as sombras desaparecerão, então só restarão a alegria, a
embriaguez"(26). Assim, será no céu, assim será a nossa alegria quando
pudermos ver a Deus face à face. Por isso, Teresinha, recordando Teresa de
Ávila, escrevia à Irmã Inês de Jesus:"Que alegria a de ver a deus; de
ser julgada por Aquele que teremos amado acima de todas as coisas"(27). A visão
da alegria celeste, da verdadeira alegria, pois, deverá nos dar uma coragem
para continuar a marcha por esse vale de lágrimas. Foi nessa ótica, que
Teresinha escreveu uma carta a Celina, na qual dizia:"Celina querida, um
dia nós iremos para o céu, para sempre, então não haverá mais nem dia nem
noite como nesta terra. Oh, que alegria! Marchemos em paz, fitando o céu, o
único objetivo de nossos trabalhos"(28). Essa idéia
de fitar sempre o céu, de olhar, fixamente, o céu, sobretudo nos momentos
mais difíceis da vida, é bem peculiar a Teresa de Lisieux. Ela, com extrema
sensibilidade, encara o sofrimento face à face, e, como é natural, procurando
um bálsamo ou uma razão para superar qualquer tipo de sofrimento, ela
encontra na esperança das alegrias do céu, um motivo mais do que justo e
adequado. Vejamos como ela escreve a Celina, seguindo essa trilha
espiritual:"Minha alma não a deixa...ela sofre o exílio com você! Oh,
como custa viver, permanecer nesta terra de amargura e de angústia!Mas,
amanhã...em uma hora, estaremos no porto, que felicidade! Ah, como será bom
contemplar Jesus face à face durante toda a eternidade! Sempre, sempre mais
amor, sempre alegrias mais inebriantes...uma felicidade sem nuvem!"(29). Essa visão
do céu, ou melhor, esse olhar fixo nas alegrias do céu era não só um motivo
teresiano para suportar as tristezas e amarguras desta vida, mas também uma
espécie de esperança, para Teresa, do cumprimento de uma legítima propriedade
ou de um natural e legítimo sentimento humano. Destarte, diante dos sofrimentos
de cada dia, como, por exemplo, a não realização de um desejo humano e belo,
como era o de ter seu velho pai presente na cerimônia de sua tomada de
hábito, Teresa olha, de novo, para o céu e escreve para sua
irmã,Celina:"Você sabe como eu desejava, esta manhã, rever nosso Pai
querido. Pois bem, agora vejo, claramente, que a vontade do bom Deus é que
ele não esteja presente. Ele permitiu isso simplesmente para provar nosso
amor(30).Em uma carta à senhora Guérin, datada de 18 de novembro de 1888, Teresa
parece contrapor as alegrias de Deus com a cruz, que Ele nos envia na nossa
vida cotidiana. O texto teresiano reza assim:"Esta manhã, na minha
comunhão, rezei muito a Jesus para cumulá-la com suas alegrias; ah, não é
isso que Ele nos envie desde algum tempo, é a cruz, só a cruz que Ele nos dá
para repousarmos!"(31). Com essas palavras, parece que a nossa Santa
contrapõe a alegria com as cruzes, que o Senhor nos envia. Na verdade, em
algumas passagens de Teresinha há certa dicotomia entre cruz e alegria até
que a Santa chega à compreensão perfeita sobre o valor da cruz e a identidade
de uma alegria perfeita com o sofrimento, suportado por amor. Podemos
observar, por exemplo, que já em maio de 1890, ela escrevia a Celina
dizendo:"você pode dizer muito bem que sua recompensa é grande nos céus,
porque está escrito:'Bem-aventurados sois, quando vos injuriarem e vos
perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós'. Então, alegre-se e
exulte de alegria!"(32). Em setembro desse mesmo ano, Teresinha já colocava
a questão em termos de comparação entre as alegrias da terra e as alegrias do
céu. Não se tratava mais, pois, do binômio cruz e alegria, mas de alegrias
terrenas e alegrias celestes. O posicionamento teresiano aparece em uma carta
à Irmã Maria do Sagrado Coração:"Gostaria que as velas do Menino Jesus
estivessem acesas, quando eu for ao Capítulo. Quer me fazer esse favor?
Peço-lhe que não se esqueça. Não coloquei as velas cor-de-rosa novas, pois essas me falam mais profundamente à alma, elas começaram
a queimar no dia da minha vestição, quando eram róseas e frescas. Papai (que
mas dera) estava presente em tudo era alegria!...,mas, agora, a cor róseas
desapareceu, há ainda para a orfãsinha de Beresina alegrias cor-de-rosa aqui
na terra?Oh, para ela só existem alegrias celestes...alegrias, em todo o
criado, que não é nada, dá lugar ao incriado, que é a realidade"(33). Assim,
Santa Teresinha entra num mundo real, que é todo espiritual. Ela já não
compara mais o terreno com o terreno, mas, fixada no terreno, grava seus
olhos no celeste. Ela encontra, dessa maneira, toda uma paz e uma alegria
especial. Tudo é visto, então, numa chave celeste e tudo toma novo sentido.
Na carta a Celina, acima citada, depois de falar da provação divina, quando o
sr. Guérin não esteve presente na sua vestição, a Santa
acrescenta:"Jesus me quer órfãzinha, Ele quer que eu esteja só com Ele
só, para se unir mais intimamente a mim e Ele quer também me conceder, na
Pátria, as alegrias tão legítimas, que Ele me recusou no exílio!"(34).
Quase um ano mais tarde, em julho de 1891, Teresa, em outra carta a Celina,
voltava ao mesmo tema e dizia, com um quê de nostalgia romântica:"Celina
querida, a figura desse mundo passa, as sombras declinam, logo estaremos na
nossa terra natal, em breve as alegrias de nossa infância, as noitadas de
Domingo, , as conversações íntimas...tudo isso nos será concedido de novo
para sempre e com juros, Jesus nos dará as alegrias, das quais Ele nos privou
por um instante"(35). Portanto,
Teresa reconhecia os valores terrestres e sabia, muito bem, que havia também
alegrias naturais e legítimas. Mas, por outro lado, ela sabia também que, o
Senhor podia exigir de nós o despojamento também dessas alegrias humanas e
naturais. Diante da possibilidade, ou antes, diante mesmo do fato dessa
exigência divina, ela não se exaspera, não se descontrola, não perde sua
alegria, porque ela encontra a razão de ser alegre num dado real de sua fé,
que são as alegrias celestiais:"Mas, sobre a terra haverá sempre uma
nuvenzinha, pois que a vida não pode passar sem isso e somente no céu a alegria será perfeita"(36). Baseada
nessa esperança, nossa Teresinha ia até o fundo e, humana como era, não se
esquecia de nada. A sua convicção do retorno das alegrias justas, humanas,
naturais e legítimas estendia-se a tudo quanto realmente desse quilate.Assim,
a Santa não temia lembrar à sua irmã Leônia que, no céu, elas teriam a
alegria de se reverem:"Digo-lhe vê-la, mas sei que não terei essa
felicidade senão no céu. Que alegria,
então, rever-nos após o exílio da vida!"(37). A visão da
alegria celeste, da verdadeira alegria, pois, deverá nos dar uma coragem para
continuar a marcha por esse vale de lágrimas. Foi nessa ótica, que Teresinha
escreveu uma carta a Celina, na qual dizia:"Celina querida, um dia nós
iremos para o céu, para sempre, então não haverá mais nem dia nem noite como
nesta terra. Oh, que alegria! Marchemos em paz, fitando o céu, o único
objetivo de nossos trabalhos"(28). Essa idéia
de fitar sempre o céu, de olhar, fixamente, o céu, sobretudo nos momentos
mais difíceis da vida, é bem peculiar a Teresa de Lisieux. Ela, com extrema
sensibilidade, encara o sofrimento face à face, e, como é natural, procurando
um bálsamo ou uma razão para superar qualquer tipo de sofrimento, ela
encontra na esperança das alegrias do céu, um motivo mais do que justo e
adequado. Vejamos como ela escreve a Celina, seguindo essa trilha
espiritual:"Minha alma não a deixa...ela sofre o exílio com você! Oh,
como custa viver, permanecer nesta terra de amargura e de angústia!Mas,
amanhã...em uma hora, estaremos no porto, que felicidade! Ah, como será bom
contemplar Jesus face à face durante toda a eternidade! Sempre, sempre mais
amor, sempre alegrias mais inebriantes...uma felicidade sem nuvem!"(29). Essa visão
do céu, ou melhor, esse olhar fixo nas alegrias do céu era não só um motivo
teresiano para suportar as tristezas e amarguras desta vida, mas também uma
espécie de esperança, para Teresa, do cumprimento de uma legítima propriedade
ou de um natural e legítimo sentimento humano. Destarte, diante dos
sofrimentos de cada dia, como, por exemplo, a não realização de um desejo
humano e belo, como era o de ter seu velho pai presente na cerimônia de sua
tomada de hábito, Teresa olha, de novo, para o céu e escreve para sua
irmã,Celina:"Você sabe como eu desejava, esta manhã, rever nosso Pai
querido. Pois bem, agora vejo, claramente, que a vontade do bom Deus é que
ele não esteja presente. Ele permitiu isso simplesmente para provar nosso
amor(30).Em uma carta à senhora Guérin, datada de 18 de novembro de 1888,
Teresa parece contrapor as alegrias de Deus com a cruz, que Ele nos envia na
nossa vida cotidiana. O texto teresiano reza assim:"Esta manhã, na minha
comunhão, rezei muito a Jesus para cumulá-la com suas alegrias; ah, não é
isso que Ele nos envie desde algum tempo, é a cruz, só a cruz que Ele nos dá
para repousarmos!"(31). Com essas palavras, parece que a nossa Santa
contrapõe a alegria com as cruzes, que o Senhor nos envia. Na verdade, em
algumas passagens de Teresinha há certa dicotomia entre cruz e alegria até
que a Santa chega à compreensão perfeita sobre o valor da cruz e a identidade
de uma alegria perfeita com o sofrimento, suportado por amor. Podemos
observar, por exemplo, que já em maio de 1890, ela escrevia a Celina
dizendo:"você pode dizer muito bem que sua recompensa é grande nos céus,
porque está escrito:'Bem-aventurados sois, quando vos injuriarem e vos
perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós'. Então, alegre-se e
exulte de alegria!"(32). Em setembro desse mesmo ano, Teresinha já
colocava a questão em termos de comparação entre as alegrias da terra e as
alegrias do céu. Não se tratava mais, pois, do binômio cruz e alegria, mas de
alegrias terrenas e alegrias celestes. O posicionamento teresiano aparece em
uma carta à Irmã Maria do Sagrado Coração:"Gostaria que as velas do
Menino Jesus estivessem acesas, quando eu for ao Capítulo. Quer me fazer esse
favor? Peço-lhe que não se esqueça. Não coloquei as velas cor-de-rosa novas, pois essas me
falam mais profundamente à alma, elas
começaram a queimar no dia da minha vestição, quando eram róseas e frescas.
Papai (que mas dera) estava presente em tudo era alegria!...,mas, agora, a
cor róseas desapareceu, há ainda para a orfãsinha de Beresina alegrias
cor-de-rosa aqui na terra?Oh, para ela só existem alegrias
celestes...alegrias, em todo o criado, que não é nada, dá lugar ao incriado,
que é a realidade"(33). Assim,
Santa Teresinha entra num mundo real, que é todo espiritual. Ela já não
compara mais o terreno com o terreno, mas, fixada no terreno, grava seus
olhos no celeste. Ela encontra, dessa maneira, toda uma paz e uma alegria
especial. Tudo é visto, então, numa chave celeste e tudo toma novo sentido.
Na carta a Celina, acima citada, depois de falar da provação divina, quando o
sr. Guérin não esteve presente na sua vestição, a Santa
acrescenta:"Jesus me quer órfãzinha, Ele quer que eu esteja só com Ele
só, para se unir mais intimamente a mim e Ele quer também me conceder, na
Pátria, as alegrias tão legítimas, que Ele me recusou no exílio!"(34).
Quase um ano mais tarde, em julho de 1891, Teresa, em outra carta a Celina,
voltava ao mesmo tema e dizia, com um quê de nostalgia romântica:"Celina
querida, a figura desse mundo passa, as sombras declinam, logo estaremos na
nossa terra natal, em breve as alegrias de nossa infância, as noitadas de
Domingo, , as conversações íntimas...tudo isso nos será concedido de novo
para sempre e com juros, Jesus nos dará as alegrias, das quais Ele nos privou
por um instante"(35). Portanto,
Teresa reconhecia os valores terrestres e sabia, muito bem, que havia também
alegrias naturais e legítimas. Mas, por outro lado, ela sabia também que, o
Senhor podia exigir de nós o despojamento também dessas alegrias humanas e
naturais. Diante da possibilidade, ou antes, diante mesmo do fato dessa
exigência divina, ela não se exaspera, não se descontrola, não perde sua
alegria, porque ela encontra a razão de ser alegre num dado real de sua fé,
que são as alegrias celestiais:"Mas, sobre a terra haverá sempre uma
nuvenzinha, pois que a vida não pode passar sem isso e somente no céu a alegria será perfeita"(36). Baseada
nessa esperança, nossa Teresinha ia até o fundo e, humana como era, não se
esquecia de nada. A sua convicção do retorno das alegrias justas, humanas,
naturais e legítimas estendia-se a tudo quanto realmente desse quilate.Assim,
a Santa não temia lembrar à sua irmã Leônia que, no céu, elas teriam a
alegria de se reverem:"Digo-lhe vê-la, mas sei que não terei essa
felicidade senão no céu. Que alegria,
então, rever-nos após o exílio da vida!"(37). Numa bela
carta dirigida a Celina, Teresinha, voltando à sua costumeira reflexão sobre
a fugacidade do tempo presente e a felicidade que nos espera na Pátria
celestial, escreveu:"Durante a noite da vida, você foi errante e
solitária, agora terá um companheiro, e sou Eu, Jesus, teu Esposo, teu Amigo
ao qual você sacrificou tudo, quem será esse companheiro, que deve te cumular
de alegria nos séculos dos séculos!..."(38). Ao
Pe.Roulland nossa Santa animava com a mesma idéia das alegrias celestiais,
quando ela lhe escrevia encorajando-o diante do sofrimento de deixar a
família:"Oh, meu Irmão! Sofro com você, com você ofereço seu grande
sacrifício e peço a Jesus para espalhar suas abundantes consolações sobre
seus queridos Pais, na expectativa da união celeste, quando vê-los-emos
alegrarem-se com sua glória que,
enxugando para sempre suas lágrimas, cumulá-los-á de alegria durante a
bem-aventurada eternidade..."(39). Embora,
seja uma idéia fixa em Teresinha a esperança dessa alegria eterna e lá nos
céus, é bom notar que nossa Santa via as coisas com muito realismo e não se
alienava diante das realidades terrestres, nem mesmo delas ela fugia. Assim é
que ao mesmo Pe. Roulland, Santa Teresinha faz questão de observar que, para
ela, não são as alegrias celestiais que a atraem para querer ir para o céu.
Esse motivo podia ser muito bom para ser usado como consolo, mas a realidade
pessoal de Teresinha é outra. No fundo, ela gosta mesmo é dos sofrimentos da
terra. A alegria celestial será, sem dúvida, outra atmosfera ao qual ela
deverá se acostumar com a graça divina. A realidade do céu é tomada como uma
realidade mesmo e Teresa a aceita como sendo um apelo do Senhor, portanto, no
cumprimento de sua santíssima vontade. Portanto, não é o gozo, o descanso, a
alegria quase egoísta que atraem Teresinha para o céu, mas, sim, a chamada do
Senhor, mesmo porque ela sabe que, então, terá a outra alegria de poder
continuar ajudando seus irmãos da terra e de uma maneira muito melhor:
"Meu Irmão, veja que se eu deixo já o campo de batalha, não é com o
desejo egoísta de repousar, o pensamento de beatitude eterna faz apenas exultar
meu coração, desde muito tempo o sofrimento tornou-se meu céu aqui na terra e tenho
verdadeiramente dificuldade para conceber
como poderei me aclimatar em
um país, onde a alegria reina sem mistura de tristeza. Será necessário que
Jesus transforme minha alma e lhe dê a capacidade de gozar. do contrário não
poderei suportar as delícias eternas"(40). Essa mesma idéia, encontramos
em uma carta, que a Santa dirigiu ao
Pe. Belliere quatro dias depois da carta anterior:"Sem dúvida me
expliquei muito mal na última
cartinha, porque você me diz, meu mui querido irmãozinho "para não lhe
pedir essa alegria, que sinto à aproximação da felicidade". Ah, se por
alguns instantes, você pudesse ler na minha alma, como ficaria surpreso! O
pensamento da felicidade celeste não somente não me causa nenhuma alegria,
mas ainda eu me pergunto, por vezes, como me será possível ser feliz sem
sofrer. Jesus, sem dúvida, mudará minha natureza, do contrário, sentirei o
sofrimento e o vale das lágrimas. Jamais pedi ao bom Deus para morrer jovem,
isso me teria parecido covardia, mas Ele, desde minha infância, dignou-se me
dar a íntima persuasão que meu curso, aqui na terra, seria curto. É,pois, só
o pensamento de cumprir a vontade do Senhor, que faz toda minha
alegria"(41).
Evidentemente, Teresinha não quer negar a felicidade celeste, mas,
sim, afirmar o verdadeiro sentido de sua aceitação alegre da vontade do
Senhor. Mas, isso não tem nada contra o constante pensamento teresiano da
beatitude da Pátria, tão ardentemente desejada. Com efeito, ela, em maio de
1897, confessava à Madre Inês: eu me faço uma tão idéia do céu, que, às
vezes, pergunto-me como, na minha morte, como Deus fará para me causar
surpresa. Minha esperança é tão grande, ela me é um tal objeto de alegria,
não pelo sentimento, mas pela fé, que me será necessário alguma coisa acima
de todos os pensamentos para me satisfazer plenamente. Preferiria conservar
um esperança eterna a ser decepcionada."(42). Se para
si, Teresa revela o motivo último de seu desejo do céu, para os outros, na
verdade, é dominante o acento nas alegrias celestiais como recompensa dos
sofrimentos terrenos. Na famosa Legenda de um Cordeirinho, que ela escreveu
para Madre Gonzaga, a idéia vem à tona duas vezes. Com efeito, referindo-as
às suas chagas, o Bom Pastor diz à Madre:"Vê estas chagas, são elas que
recebi na casa daqueles que me
amam!...É por isso que são tão belas, tão gloriosas e que, durante toda a
eternidade, seu brilho encantará de alegria os anjos e os santos...". E,
no final do texto, voltando ao mesmo tema, a Santa escreveu:Caro cordeirinho,
ouvirei seu pedido, em breve, sim em breve, pegarei a Pastora e seu cordeiro;
então, durante toda a eternidade vocês abençoarão o feliz sofrimento, que
lhes terá merecido tanta felicidade e eu mesmo enxugarei todas as lágrimas de
seus olhos!"(43). E não se
pode, de modo algum negar, que, também para a própria Teresa, esse era um
pensamento dominante e importante. Em uma carta de Irmã Maria da Eucaristia,
datada de 12 de julho de 97, lê-se que, à pergunta dessa Irmã sobre o que a
Santa diria e o que faria ao ver o bom Deus pela primeira vez, Teresinha
respondeu:"Não me fala disso, não posso pensá-lo tanta felicidade me dá;
o que farei...chorarei de alegria!!!"(44). Não resta,
pois, dúvida de que Teresinha sabia encarar a realidade feliz do céu com toda
pessoa humana comum, que tenha fé, todavia, como santa, seu olhar estava
sempre mais adiante, descobrindo, além do horizonte humano, outras
realidades, que o Espírito Santo revela aos pequeninos. Assim, numa carta à
Irmã Maria da Trindade, aos 6 de junho de 1897, ela revelara uma dessas
divinas inspirações do Santo Espírito, que vão muito além do que se possa
esperar normalmente de uma comum pessoa de fé:"Você quer saber, se sinto
alegria em ir para o Paraíso. Teria muita, se lá fosse, mas...não conto com a
doença, é uma condutora demasiado lenta. Só conto com o amor..."(45). É dentro
desse quadro de realismo espiritual e humano, que podemos entender o desejo
teresiano de deixar este mundo e partir para o céu. Não se trata, pois, de
covardia, de lassidão, de egoísmo, de interesse pessoal, ou mesmo de uma
neurose, que procurasse alhures uma reconciliação e uma recompensa calmante
ao seu estado doloroso e doentio. Nada disso. Teresa é alta demais, para se
perder com ninharias. Teresa é gênio demais para ficar petiscando em detalhes
sem importância. Teresa é santa demais para se perder com coisinhas humanas
muito baixas e sem importância. Que ela sonha, alegremente, partir para o
céu, isso não resta dúvida nenhuma. Já no mês de sua morte e, precisamente,
aos 4 de setembro de 1897, ela confidenciava à Madre Inês:"Se a senhora
soubesse como o pensamento de ir em breve para o céu me deixa calma. Contudo,
estou bem feliz, mas não posso dizer que sinto uma alegria viva e transportes
de alegria, não!"(46). E, alguns meses antes, já dentro da sua noite
escura da fé, confessava à mesma Madre Inês:"Se não tivesse essa
provação na alma, que me é impossível compreender, creio que morreria de
alegria ao pensamento de deixar em breve a terra"(47). E, ao Pe. Youf,
que lhe perguntara se estava resignada a morrer, a Santa deu uma resposta,
que não deve ser interpretada como um desejo de fuga da realidade, mas como
um desapego deste mundo e, ao mesmo tempo, como uma visão realista diante das
misérias humanas:"Ah, Padre, acho que não há necessidade de resignação
senão para viver. Para morrer, é alegria que sinto"(48). Mesmo assim,
nunca devemos esquecer de que o
realismo teresiano não é feito de fantasia, mas da sua própria vida com altos
e baixos, com sua provação na fé, com seus sofrimentos e felicidades de cada
dia. Teresa não é falsa, não deseja enganar. Ela abre sua alma a quem a
procura e, para entendê-la, é preciso ler os dois lados da páginas. Assim, se
ela sente alegria verdadeira em deixar a terra, em ir para o céu, no seu
estado final,de muita provação espiritual, ela esclarece, como já dissemos
acima, que o verdadeiro motivo de tudo é bem outro além de apenas o gozo
eterno e celestial:"Não imagine que sinto para morrer uma alegria viva,
como, por exemplo, sentia outrora de ir passar um mês em Trouville ou em
Alençon; não sei mais o que são as alegrias vivas. Ademais, não faço festa
por gozar, não é isso que me fascina.Não posso pensar muito na felicidade,
que me espera no céu; uma só expectativa me faz bater o coração: é o amor que
receberei e o que poderei dar. E, depois, penso em todo o bem que gostaria de
fazer após minha morte: fazer batizar as criancinhas, ajudar os padres, os missionários, toda a
Igreja...Esta tarde, ouvia uma música
distante e pensava que, em breve, ouviria melodias incomparáveis, mas esse sentimento de alegria foi
passageiro"(49). Diante
dessa perspectiva espiritual, é que algumas frases teresianas, ao invés de
causar-nos um susto e nos provocar uma idéia de masoquismo desenfreada, são
entendidas e compreendidas como verdadeiras mensagens de realismo humano e
espiritual. Teresa sente a miséria humana, quer, naturalmente, desfazer-se
desse estado passageiro terrestre em direção à Pátria, alegra-se com a
iminência desse acontecimento, mas sabe, perfeitamente, que tem uma missão
neste mundo. Por outro lado, vive uma situação mística especial, a saber, a
provação da fé, por isso, confessa sua alegria, mas nega que se trate de
sentimentalismo passageiro. Tudo tem que ser visto sob esta ótica, mesmo
frases como esta:"Oh, como sinto alegria ao me ver
destruir-me"(50);ou como esta, respondendo se teria medo se devesse
morrer no dia seguinte:Ah, mesmo se fosse hoje à noite, só teria alegria"(51);
ou como esta, escrita numa carta à Senhora Guérin, a respeito da morte de
certo senhor David:"Acho, minha querida tia, que nesses momentos de
grandes tristezas, tem-se necessidade de olhar para o céu, ao invés de
chorar, todos estão alegres, porque Nosso Senhor possuía mais um eleito, um
novo sol ilumina com seu brilho os anjos do céu, todos estão no arrebatamento
do êxtase divino, admiram-se que possamos chamar de morte o começo da vida.
Para eles estamos num túmulo estreito,e a alma deles pode transportar-se à
extremidade de praias etéreas, de horizontes infinitos.Minha Tia querida,
quando se olha a morte do justo, não se pode impedir de invejar sua sorte.
Para ele o tempo do exílio não existe mais, não mais do que Deus, nada senão
Deus"(52). Até aqui,
falamos da alegria teresiana na direção do céu, da eternidade, do após morte.
É preciso descer à terra e ver a Teresa de cada dia, que foi sempre alegre e
entusiasmada, que tinha seu forte no sorriso e que sabia fazer os outros
alegres e felizes. Falamos acima
que Teresinha reconheceu, bem cedo, as falsas alegrias e delas quis se
livrar. Na verdade, o olhar profundo e interior de Teresa de Lisieux foi
muito além do simples suceder-se cotidiano. Ela enxergou, com olhos de santa,
o sentido dos sentimentos, admirou-os, mas não quis jamais parar no simples
vai e vem da vida de cada dia. Certa vez, nossa Santa pensou que podia não
estar realmente tão doente. Isso lhe provocou uma crise de sentimentos. Nessa
ocasião, Teresinha confidenciou à Madre Inês:"Se minha alma não
estivesse, antes de mais nada, toda cheia
de abandono à vontade do bom Deus, se ela devesse deixar-se
submergir pelos sentimentos de
alegria ou de tristeza que se
sucedem tão depressa sobre a terra,
seria uma onde de dor bem amarga e eu não poderia suportá-la. Mas, essas
alternativas não tocam senão a superfície de minha alma...Ah, elas são
contudo grandes provações!"(53). Se Santa
Teresinha foi capaz de distinguir as alegrias entre as falsas e as
verdadeiras, se também foi capaz de fundamentar suas alegrias a ponto de não
se deixar simplesmente pelos mutáveis sentimentos, devemos constatar, porém,
que houve uma evolução nesse processo de compreensão e valorização da
alegria. A própria
Santa confessa essa evolução. Nos Manuscritos Autobiográficos podemos ler a descrição do sofrimento que
Teresinha suportou quando da entrada de Paulina no Carmelo. Diz a
Santa:"Ah, como poderia dizer a angústia de meu coração!? Em um instante
compreendi o que era a vida; até então não a vira tão triste, mas ela me
apareceu em toda sua realidade, vi que ela não era senão um sofrimento e uma
separação contínua. Derramei lágrimas bem amargas, porque não compreendia
ainda a alegria do sacrifício, era
fraca, tão fraca que considero uma grande graça ter podido suportar uma
provação, que parecia estar bem acima de minhas forças"(54). Está claro,
por essas palavras, que Teresinha ainda não tinha, na ocasião, a compreensão
de um dos seus futuros motivos de alegria, que será o sofrimento.Mais tarde,
ela compreender que até a dor pode ser motivo de alegria. Antes, vai
compreender, pelo mistério pascal da cruz e da ressurreição, que é justamente
aí que o cristão pode encontrar a verdadeira alegria.Vamos, pois, examinar,
de logo, essa primeira faceta da alegria teresiana, a saber, a alegria no,
pelo e do sacrifício. Certo dia,
no Coliseu de Roma, Teresa procurou, com Celina, um meio de ir até o mais
profundo da arena para pisar na terra, onde os mártires derramaram o seu
sangue. Procurou e encontrou não sem algumas dificuldades, que poderiam ter
desanimado uma pessoa de vontade fraca e com medo do sacrifício. Às tantas da
sua narração, a Santa nos diz:...como os guerreiros sentiam sua coragem
aumentar no meio do perigo, assim nossa alegria crescia na proporção da pena
que sentíamos para atingir o objetivo de nossos desejos"(55). Essas
palavras não podem nos passar despercebidas, porque elas são um retrato de
Teresa no que diz respeito à alegria no e pelo sacrifício. Sua têmpera, sua
força de vontade, seu motivo de alegria encontram aqui um eco de expressão
clara e sincera. O
sofrimento foi, sem dúvida nenhuma, um dos grandes motivos das alegrias de
Teresa de Lisieux. Pouco a pouco, nossa Santa foi descobrindo o sentido do
mistério da cruz. No Manuscrito C, ela confidencia esse salto de gigante,
quando escreve:"Madre querida, a senhora o sabe bem, o bom Deus se
dignou fazer passar minha alma por muitos gêneros de provações; sofri muito
desde estou no mundo, mas se na minha infância sofri com tristeza, não é
assim que sofro agora, é na alegria e na paz, sou verdadeiramente feliz por
sofrer"(56). Foi o amor
que fez Santa Teresinha descobrir o valor do sofrimento. Afinal, não é
sofrendo que se ama, aqui na terra? Todos
sabemos como Teresinha sofreu pela provação da noite escura da fé. Ela teve o
cuidado de nos descrever alguns pormenores, que nos fazem pensar quanto foi
generoso o seu sacrifício e como foi imensa e profunda a sua fé. Com efeito,
crer sem sentir; amar sem poder sentir a fé; doar-se sem perceber o objetivo da
doação, tudo isso é heróico e foi o que aconteceu com Teresinha. Pois bem,
foi nessas circunstâncias que ela escreveu estas palavras:"Assim,
malgrado essa provação que me tira
todo prazer, posso, contudo, exclamar:'Senhor, vós me cumulais de
ALEGRIA por TUDO que fazei'"(Sl 91). Na verdade, existe uma alegria
maior do que a de sofrer por vosso
amor?"(57). Devemos observar que se trata, aqui, de uma alegria
espiritual. Na verdade, Teresinha não era nenhuma anormal para ter
sentimentos de alegria num momento de provação. Ela mesma teve o cuidado de
explicar isso bem claro à Madre Gonzaga, quando escreveu:"Minha Madre
Bem-Amada, eu lhe pareço talvez
exagerar minha provação. De fato, se a senhora julgar segundo os
sentimentos que exprimo nas poesiazinhas que compus este ano, devo lhe
parecer uma alma cheia de consolações e para a qual o véu da fé quase se
rasgou e contudo...não é mais um véu para mim, é um muro que se eleva até aos
céus e cobre o firmamento estrelado. Quando canto a felicidade do céu, a eterna
posse de Deus, não sinto nenhuma alegria, pois canto simplesmente o que EU
QUERO CRER. Por vezes, é verdade, um raiozinho de sol vem iluminar minhas
trevas, então a provação cessa por um instante, mas, em seguida, a lembrança
desse raio ao invés de me causar alegria torna minhas trevas mais espessas
ainda"(58).Aqui, vale a pena lembrar uma frase, que a Santa escreveu em
março de 1889:"Tenho necessidade, esta noite, de vir, com minha Celina,
mergulhar no infinito...tenho necessidade de esquecer a terra...aqui no mundo
tudo me cansa, tudo me é pesado...Só tenho uma alegria, a de sofrer por
Jesus, mas essa alegria não sentida
está acima de toda alegria!"(59). Essa idéia de uma alegria não sentida
é bem típica de Teresa, que não é anormal, pois é impossível sentir duas
coisas opostas ao mesmo tempo, isto é, sentir alegria e dor conjuntamente,
todavia isso pode acontecer,se tomamos esses estados psicológicos, ou um
deles, no sentido espiritual. Pode-se, pois, sofrer e estar alegre, embora
não se sinta essa alegria, enquanto se aceita o sofrimento por amor. Pode-se
mesmo chegar a sofrer com alegria e, não, simplesmente, agüentar o
sofrimento. É o que Teresa disse em
janeiro de 1889 à Irmã Inês de Jesus:"Se a senhora soubesse como
minha alegria é grande por não ter nenhuma para agradar a Jesus!...É a
alegria refinada, mas, de modo algum, sentida"(60). Por essas palavras,
Santa Teresinha demonstra não só um realismo existencial muito profundo e
harmonioso, mas também uma profunda vida mística, pela qual, ela alcançou ser
alegre por não ter nenhuma alegria sentida.Todavia, não devemos nos esquecer
do que dissemos acima, isto é, que o céu sempre foi um motivo profundo de
esperança da alegria teresiana. Teresa não é nenhuma desumana, nenhuma
masoquista,ela sabe e ensina que,depois da tormenta, após a provação, virá a
bonança, chegará o momento da verdadeira alegria. Assim, numa carta à sua
irmã Leônia, ela dizia:"Irmãzinha querida, você verá que a alegria
sucederá à provação e que, mais tarde, você será feliz por ter sofrido"(61). Mas, o
importante em tudo isso é que Teresinha descobriu mesmo que o sofrimento pode
e deve ser razão de alegria e de felicidade, porque ele é o caminho seguido
por Jesus. Referindo-se, na sua Autobiografia, a uma possível ida sua para
outro Carmelo, ela comenta:"Sinto muito bem que não teria nenhuma
decepção, pois quando se espera um sofrimento puro e sem mistura, a menor alegria se torna uma surpresa
inesperada; ademais, a senhora o sabe, minha Madre, o sofrimento mesmo se
torna a maior das alegrias quando nós o buscamos como o mais precioso dos tesouros"(62). Refletindo
sobre a fugacidade da vida e, ao mesmo tempo, sobre a possibilidade de
aproveitar bem dessa mesma vida, Teresa chegou fácil à conclusão de que o
caminho da cruz é o único que poderia valorizar a vida, mesmo sendo tão
passageira. O jogo entre tempo e eternidade, entre alegria e sofrimento
encontrou em Teresa de Lisieux uma solução no mistério da cruz. Já antes de entrar no Carmelo, ela escrevia à
Irmã Inês a síntese dessa reflexão que é, ao mesmo tempo, mística e
teológica:"Só desejo uma coisa, quando estiver no Carmelo, é de sempre
sofrer por Jesus. A vida passa tão depressa que verdadeiramente vale
mais ter uma belíssima coroa e um pouco de mal do que ter uma coroa ordinária
sem mal. E ademais, por um sofrimento suportado com alegria, quando penso
que, durante toda a eternidade, amar-se-á mais o bom Deus!"(63). Nesse
texto, aparece também outra idéia tipicamente teresiana, a saber, que o
sofrimento não é para ser suportado simplesmente, mas ser suportado com
alegria. E, aqui, temos mais um passo na contemplação e na vivência das
realidades terrestres, pois, pode-se até agüentar o sofrimento, mas
suportá-lo com alegria é algo muito mais superior, é heróico mesmo e, por isso,
é digno de quem ama de verdade. Aliás, na sua Autobiografia, Teresinha
lembrou, muito bem, as palavras sagradas de que o Senhor "ama os que dão
com alegria"(64).Se devemos sofrer com alegria, não podemos esquecer,
porém, que o próprio sofrimento, como ensinou tantas vezes Teresinha, é fonte
de alegria, às vezes já pregustada aqui na terra. É memorável o grito
teresiano de maio de 1889:"Que alegria por um momento de
sofrimento!"(65). Esse foi o
pensamento de Teresinha; esse foi seu norte e guia; esse foi seu desejo e
sonho; esse foi seu modo de viver e esse também foi seu ensinamento aos que a
procuraram e aos que, de alguma maneira, ela pôde alcançar com sua palavra ou
com seus escritos. Assim, à Irmã Maria da Trindade ela encorajava a amar Jesus com essas palavras, escritas
como fossem pronunciadas pela próprio Jesus:"Eu lhes (aos querubins)
disse que , certamente, seu sorriso me era mais doce do que suas melodias,
porque você não podia tocar e sorrir senão
sofrendo e esquecendo-se de si mesma"(66). Ao Pe. Bellière, Teresa
ensinava a mesma lição em dezembro de 86:"A Venerada Madre lhe envia a
imagem de S.Francisco de Assis, que lhe ensinará o meio de encontrar a
alegria entre as provações e os combates da vida"(67) E ao Pe. Roulland,
na longa carta de março de 87, Santa Teresinha insistia na mesma tecla, só
que aqui volta a lembrar que é tudo por amor, isto é, o sofrimento só tem
valor quando nós o suportamos por amor a Deus:"S.João da Cruz disse:'o
menor movimento de puro amor é mais útil à Igreja do que todas as obras
reunidas'. Se é assim, como suas penas e suas provações devem ser proveitosas
à Igreja, pois que é somente por amor de Jesus que você as sofre com
alegria"(68). Aqui, Teresinha insiste nos três constitutivos da sua
idéia: sofrimento, alegria e amor. Sofrimento, ou seja, o mistério da cruz
tem valor,mas é preciso saber aproveitar dele mediante o amor. Por amor,
então, o sofrimento que passa a ser suportado com alegria e, não, apenas
agüentado, trará, por sua vez, uma alegria inigualável por toda a eternidade,
e que, de certa maneira, já começa aqui neste mundo:"Papai parecia gozar
daquela alegria tranqüila que dá o sacrifício cumprido"(69). Não
devemos esquecer que, toda a mensagem teresiana é fruto de uma vivência. Para
ensinar assim aos seus irmãos e irmãs, Teresinha viveu, antes, tudo que
escreveu ou disse. Podemos constatar tudo isso em frases e fatos simples da
sua vida.Aos 19 de maio de 1897, por exemplo, respondendo a uma pergunta da
Irmã Inês por que ela estava tão alegre na manhã daquele dia, respondeu de
pronto:"Porque, esta manhã, tive dois probleminhas. Oh, bem sensíveis!
Nada me causa mais pequenas alegrias do que as pequenas
penas"(70).Poucos dias depois, ela revelava mais uma faceta do seu modo
de viver:"Vejo sempre o bom lado das coisas. Há pessoas que vêem tudo de
maneira a sofrerem mais. Para mim, é o contrário. Se só tenho o sofrimento
puro, se o céu está de tal modo preto que não enxergo nenhuma luz, pois bem,
faço disso minha alegria...Vanglorio-me! como no caso das provações de papai,
que me tornam mais gloriosa do que uma rainha"(71). No final de julho
desse mesmo ano, Teresa tinha de tomar um remédio muito amargo e ruim, mas
que tinha a aparência de um suave licor. Pela aparência do remédio, a Irmã
Teresa de Santo Agostinho foi enganada e desejou à Santa que bebesse o bom
licor. Teresa comentou o fato com sua irmã Inês e disse a
propósito:"Pois bem, minha Mãezinha, eis o que apareceu aos olhos das
criaturas.Sempre lhes pareceu que bebia licores esquisitos e era a amargura.
Digo amargura, mas não, pois minha vida não foi amarga, porque soube fazer
minha alegria e minha doçura de toda amargura"(72). E no dia 31 desse
mesmo mês, Teresa resumia tudo com estas palavras memoráveis:"Encontrei
a felicidade e a alegria na terra, mas unicamente no sofrimento, pois sofri
muito aqui; será necessário que almas tomem conhecimento disso"(73). E, agora,
duas observações finais. A primeira diz respeito à própria natureza de Santa
Teresinha. Ela confessa que, naturalmente, sempre teve mais capacidade para o
sofrimento do que para o gozo:"Não tenho, de modo algum, capacidade para
gozar, fui sempre assim; mas tenho uma muito grande para sofrer. Outrora,
quando sofria muito, sentia apetite no refeitório,mas quando tinha alegria, era
o contrário:impossível comer"(74). Anotamos essa observação da própria
Santa, mas ela não tira em nada o valor do seu sofrimento com alegria e da
sua alegria por sofrer pelo seu Deus amado. Anotamos a observação por uma
questão de honestidade, mas sabemos perfeitamente que o suportar sofrimentos
como Teresinha suportou só um santo pode fazê-lo. A segunda
observação é também pessoal, mas tem seu valor para todos nós. Com efeito,
Teresinha nos confessa que nunca pediu a Deus para aumentar seus
sofrimentos.Isso é importante, porque diante do peso das dores, ela pôde
confiar em Deus, para que Ele lhe desse as forças necessárias. Assim, sem
vaidade nem orgulho, ela simplesmente aceitou a vontade de Deus tal como era
mandada. Tal comportamento, além do sentido psicológico profundo, evita
também o perigo da soberba, do masoquismo e da auto-realização, que, às
vezes, esconde-se sob as aparências de boas intenções. Eis as próprias
palavras da Santa a esse respeito:"Não esperava sofrer dessa maneira;
sofro como uma criancinha. Não quisera jamais pedir ao bom Deus sofrimentos
maiores. Se Ele os aumentar, eu os suportarei com prazer e com alegria,
porque isso virá dEle"(75). Como sempre, Teresa, em tudo, aparece
sumamente harmônica. Mesmo chegando aos graus de uma grande santa, nunca
deixa de ser humana e é sendo humana que ela consegue também ser uma grande
santa. A prudência, o cuidado, o conhecimento adequado e oportuno da própria
natureza, dos limites e das grandezas do homem, fazem de Teresinha um gênio
da espiritualidade cristã. Mas,
temos uma advertência muito preciosa da Santa a respeito de tudo isso. Na
verdade, tudo o que foi dito anteriormente é certo, todavia há um perigo que
se deve evitar, pois, do contrário, vamos cair nas malhas do orgulho e do
egoísmo. Esse perigo está justamente no desejo do verdadeiro amor a Deus.
Vejamos como Teresinha no-lo explica. Aos 17 de
setembro de 1896, Teresa respondeu a uma carta de sua irmã Maria, na qual ela
diz textualmente:"Não está a senhora pronta a sofrer tudo o que o bom
Deus quiser? Sei muito bem que sim, então, se a senhora deseja sentir
alegria, ter atração pelo sofrimento, é sua consolação que está procurando,
pois que, quando se ama uma coisa, a pena desaparece"(76). Aí está a
explicação de nossa Santa por que não devemos estar querendo desejar o sofrimento, mesmo em se tratando de
sofrimento por Deus. É claro que, Santa Teresinha se refere ao desejo
sentido, àquela atração humana e sentimental que é tão forte que a pessoa se
sente feliz e alegre por possuir o que se desejou. Com efeito, esse
sentimentalismo pode, no fundo, estar escondendo um egoísmo ou uma satisfação
própria. Santa Teresinha foi humana e sempre concedeu que devemos viver a
santidade como criaturas humanas, mas, por outro lado, viveu e ensinou uma
admirável harmonia existencial, por isso, sempre teve o cuidado de proceder
harmonicamente e de ensinar harmoniosamente, de tal maneira que, conhecendo
os limites e as fraquezas do homem, esse mesmo homem pudesse viver o binômio
concorde e maravilhoso do humano com o divino. Um segundo
ponto digno de reflexão na exposição do discurso teresiano sobre a alegria é
o segundo motivo desse mesma alegria. Vimos já que Teresinha insiste que a
alegria é fruto do amor, mesmo quando se sofre, porque o sofrimento suportado
com amor gera também alegria. Mas, especificando e concretizando esse amor,
Teresa de Lisieux nos ensina que ele está no fazer a vontade do bom Deus. E
é, por isso, que ela, tantas vezes, ensina que nossa alegria deve se
fundamentar no ter feito a vontade do Senhor. Contando,
em forma de alegoria, como o cordeirinho(ela mesma) está diante de Deus,
nossa Santa escreve esta frase meio dramática:"Sua única consolação é
uma força e uma paz muito grande e,
depois, ele espera ser como Jesus
quer, eis sua alegria, pois, do contrário, tudo é tristeza"(77). Ser
como Jesus quer que ela seja, isto é, fazer só e exclusivamente a vontade de
Deus, porque o ama, é o grande motivo de toda a alegria de Teresinha:"É,
pois, só o pensamento de cumprir a vontade do Senhor, que faz toda a minha
alegria"(78). No mês de
julho do ano de sua morte, nossa Santa advertiu suas três irmãs carmelitas de
que, após sua morte, não lhes daria nenhuma mordomia especial, mas, pelo
contrário, talvez elas tivessem muitas provações. Todavia, a Santa
acrescentou:"Mas eu vos enviarei
luzes, que vos farão apreciá-las e amá-las. Vós sereis obrigadas a
dizer como eu:'Senhor, vós nos cumulais de alegria por tudo quanto nos
fazeis'"(79). Aqui, volta o tema de uma alegria, fruto da aceitação e do
cumprimento da vontade de Deus,porque essa é a prova final de que, realmente,
alguém ama o seu Deus. Com efeito, é próprio do amante querer fazer a vontade
do amado, quando ele tem razão e merece. No caso divino nem se pode
discutir o merecimento ou a razão de
Deus, por isso, quem ama a Deus, de fato, só deseja fazer sua vontade.
Psicologicamente, esse posicionamento teresiano é totalmente justificável e
completamente justificado, já que a grande alegria do amante é ver o amado
feliz, é realizar sua vontade e na realização do amado e na felicidade do
amado encontra o amante a razão de uma alegria profunda. O mesmo acontece com
quem ama apaixonadamente, como Teresa de Lisieux, ao seu Deus. Na realização
de sua vontade, na alegria de Deus ele vai encontrar o motivo mais profundo e
mais sério de sua própria alegria. Mas, em
falando de alegria na vida e na mensagem teresianas, há ainda algumas facetas
particulares e especiais, que podemos examinar. Dentro do
contexto da mensagem teresiana, baseada na pequenez e no amor, portanto, na
confiança e no abandono, Teresa de Lisieux encontrou alegria até na sua
própria imperfeição. Quando Teresinha tinha de 13 para 14 anos de idade, já
julgava ter alcançado a perfeição e pensou que não tinha mais nada para
compreender sobre ela, todavia, como o passar do tempo e o progredir nesse
mesmo caminho, ela fez uma grande descoberta:"Reconheci, bem depressa,
que quanto mais se avança nesse caminho, tanto mais se crê distante do termo,
assim, agora, resigno-me a me ver sempre imperfeita e encontro nisso minha
alegria"(80). Nas "Últimas Conversas",ela completará esse
pensamento, dizendo mais extensivamente:"Sinto uma alegria muito viva
não somente quando me acho imperfeita, mas sobretudo por me sentir nesse
estado. Isso sobrepassa todos os cumprimentos, que me
enjoam"(81).Ouvimos, aqui, o grito de S.Paulo, quando dizia que se
alegrava na sua fraqueza. Na verdade, Teresa de Lisieux compreendeu o fardo
de ser humana, por isso confessou com muita humildade, como o apóstolo
Paulo:"Oh, como custa dar a Jesus o que Ele pede!...Que felicidade que
isso custe!...Que alegria inefável a de levar nossa cruz
FRACAMENTE!"(82). Seguindo
esse mesmo caminho, Teresinha, dentro ainda do contexto de seu Pequeno
Caminho, alegrava-se também por não ter nada; alegrava-se por sua pobreza
espiritual, embora saibamos que ela era rica das graças divinas; alegrava-se
na confiança total e no abandono sem limites nas mãos do Pai:"Ainda
quando eu tivesse realizado todas as obras de S.Paulo, crer-me-ia ainda 'servo inútil', mas é justamente
isso que faz minha alegria, pois não tendo nada, receberei tudo do bom
Deus"(83). Teresa não
se angustia por causa da sua fraqueza
e da sua presumível miséria. Antes, reconhecendo-se tão fraca e tão pobre,
lembrava, como já anotamos acima, numa carta a Leônia o famoso conselho da
Imitação de Cristo:"Quero por em prática este conselho da Imitação:'Que um se glorifique com uma coisa,
que aquele se glorifique com outra, quanto a vós, colocai vossa alegria no
desprezo de vós mesmos, na minha vontade e na minha glória'"(84). Eis
por que Teresinha sempre manteve uma calma imperturbável. Na verdade, ela
chegou a um estado de domínio de si mesma, que encantava a todos. Foi
seguindo seu pequeno Caminho, que ela entendeu que nem sua fraqueza, nem sua
imperfeição, nem mesmo a incompreensão dos outros deviam perturbá-la. Antes,
tudo isso devia ser um grande motivo de alegria. Foi esse o conselho que ela
mandou para Celina numa carta de maio de 1890:"Ah, você pode dizer muito
bem que sua recompensa é grande nos céus, pois que está escrito:'Vós sereis
felizes, quando vos perseguirem e quando disserem, mentindo, toda mal contra
vós'. Então, rejubile e exulte de alegria!"(85). O amor é o
grande motivo da alegria teresiana. Por ele, Teresinha transformou os cálices
amargos em cálices de suavíssimo licor. Ela mesma quis que, as almas
soubessem que ela sofreu por amor; antes, que soubessem que teve transportes
espirituais de alegria, como confessou à Madre Inês, em agosto de
1897:"Será necessário dizer que, estão no fundo de minha alma"a
alegria e os êxtases'...Mas, isso não encorajaria tantas almas, se
acreditassem que eu não sofri muito"(86). Por outro lado, Santa
Teresinha sempre pensou que, as verdadeiras e grandes alegrias nos estão
reservadas na eternidade, segundo escreveu, em agosto de 1893:"Oh, sem
dúvida, minha alegria é toda espiritual, pois de agora em diante não devo
rever mais, neste terra, minha querida Leônia; não devo ouvir mais sua voz nem extravasar meu coração no seu.
Mas, sei que a terra é o lugar do nosso exílio, somos caminheiros que
marchamos em direção à nossa pátria,
que importa se o estrada que seguimos não é a mesma, pois o término único será o céu; é lá que
estaremos reunidas para não nos separar mais; será lá que gozaremos
eternamente das alegrias da família"(87). Portanto, as alegrias
teresianas têm, sem dúvida alguma, uma natureza especial, a saber, elas são
espirituais, embora naturais. Teresinha
deu muito valor a essas alegrias humanas e naturais. Ela não via nada demais
que as recebêssemos como um presente do céu. À senhora Guérin confessou a alegria de tê-la como uma mãe,
já que, desde criança, ficara órfã e sem as carícias de uma mãe querida e
afetuosa:"Quanto mais avanço na vida, tanto mais sinto como é doce a
festa de uma Mãe. Pois bem, desde minha infância o bom Deus parecera me ter tirado para sempre uma alegria, que jamais experimentara, mas
do alto do céu aquela que não podia me prodigalizar suas carícias, inspirou a
um coração maternal, que lhe era muito caro, a ternura de uma Mãe para sua
pobre criancinha e, desde então, ela também pôde sentir as doces alegrias que
gozamos ao festejar uma Mãe querida!"(88). A mesma Santa que declara que
suas alegrias são espirituais, foi quem escreveu essas palavras tão ternas,
tão humanas e tão naturais. Na verdade, Teresinha jamais negou a natureza
humana. Pelo contrário, ela sempre insistiu que devemos nos portar como
criaturas. Todavia, essas criaturas são, de certa maneira, espiritualizadas,
enquanto revestidas e interiormente transformadas pela graça e pela luz do
Espírito Santo. Assim, podemos entender que, as alegrias de Teresa possam ser
humanas, simples, puras e espirituais
ao mesmo tempo. E, quando essas mesmas alegrias naturais e humanas, tão
simples e tão puras, por um motivo superior qualquer, vêem a faltar, ainda
assim ficam como alegrias espirituais, porque nunca perderam seu saber de
espiritualizadas. Nesse caso, as alegrias naturais e puras tornam-se ainda
mais puras e mais belas:"Ó Celina! minha Celina querida...não são os
precipícios que é preciso evitar, estamos nos braços de Jesus e, se vozes
amigas nos aconselham temer, é nosso Bem-Amado mesmo quem o quer assim, e por
quê?...Ah, no seu amor ele escolheu para suas esposas o mesmo caminho que
escolheu para Ele mesmo. Ele quer as mais puras alegrias se mudem em sofrimentos, a fim de que não
tendo, por assim dizer, nem mesmo o tempo de respirar à vontade, nosso coração
se volte para Ele, pois só Ele é nosso Sol e nossa alegria"(89). Daqui se
segue que, para Teresinha quanto mais puras e elevadas são as alegrias tanto
mais elas podem merecer nossa atenção. Antes, Teresa faz questão que nossas
alegrias sejam puras, porque só assim elas são também espirituais e dignas
de serem vividas com amor. À sua
amiga de infância, Celina Maudelonde, que lhe comunicava seu próximo
casamento, Teresa responde dizendo:"Enquanto você segue o caminho que o
bom Deus lhe traçou, rezarei por minha Celina, a companheira de minha
infância, pedirei para ela que todas suas alegrias sejam tão puras, que ela possa desfrutá-las sob o olhar de
Deus. Pedirei sobretudo que ela goze da alegria incomparável de levar uma
alma a Nosso Senhor"(90). Se essa era a mensagem que Santa Teresinha enviava
a uma jovem que, em breve, iria se casar, não diferente foi a mensagem que, a
esse respeito, mandou para uma de suas próprias irmãs, a
Leônia:"Parece-me que, se nossos sacrifícios são cabelos que cativam
Jesus, nossas alegrias também o são, para isso basta não se concentrar em uma
felicidade egoísta, mas oferecer a nosso Esposo as pequenas alegrias que Ele
semeia no caminho da vida para
encantar nossas almas e nos elevar até Ele"(91). Portanto, nossas alegrias,
mesmo as mais naturais e mais simples, devem ter sempre esse caráter de
espiritualidade, que é o encanto de Deus em tudo. Daqui se seguem duas
conseqüências bem lógicas. A primeira
é que não pode haver nenhum sinal de egoísmo nas nossas alegrias, como aliás,
acima, nossa Santa já observara.Na abundância ou na carência, devemos estar
sempre satisfeitos, o que significa que estaremos sempre alegres em qualquer
situação, em qualquer circunstância e, nunca, tristes. Teresa nos conta, na
sua Autobiografia, que ela mesma passou por essa experiência:"Fui
tomada, nessa época, por um verdadeiro amor pelos mais feios e menos cômodos
objetos, assim foi com alegria que vi me levarem a linda bilhazinha de nossa
cela e colocarem, em seu lugar, uma grande e toda esborcinada"(92).O
desapego deve ser tanto, que até não ter alegria não pode ser desculpa para o
desânimo:"O grão de areia quer se por à obra, sem alegria, sem coragem,
sem força, e são todos esses títulos que lhe facilitarão a empresa, ele quer
trabalhar por amor"(93). Esse
desapego se liga, natural e cristãmente, com a caridade, de tal maneira que,
a pessoa é levada a se alegrar com os que se alegram, seguindo à risca o
conselho de S.Paulo:"Que festim poderia uma carmelita oferecer a suas
irmãs, a não ser um festim espiritual, composto de caridade amável e alegre?
Quanto a mim, não conheço outro e quero imitar S.Paulo, que se alegrava com os que estavam alegres; é verdade
que ele chorava com os aflitos e as lágrimas devem, algumas vezes, parecerem
no festim que quero servir, mas sempre procurarei que, no final, essas lágrimas se mudem em alegria, pois que o
Senhor ama os que dão com
alegria"(94). Aqui, Teresinha, usando de algumas citações bíblicas,
expressa o seu pensamento de uma forma total.Com efeito, o importante é
distribuir com os irmãos a alegria, portanto alegrar-se com os que estão
alegres, mas, se por acaso, temos de provocar algumas lágrimas, que, no fim
de tudo,essas mesmas lágrimas levem à alegria, pois será pelo reconhecimento
da verdade, pensada e sentida, que o afligido se tornará alegre pela
libertação do seu mal. Para
completar o discurso teresiano sobre a alegria, é preciso aludir a alguns
pontos especiais do pensamento de Teresinha a esse respeito. Na verdade,
trata-se de coisas muito simples, mas que estão conectadas com a doutrina do
Pequeno Caminho e espelham a alma de Teresinha em toda sua simplicidade e, ao
mesmo tempo, em toda sua grandeza. Assim, em
primeiro lugar, podemos lembrar que, para nossa Santa, a alegria verdadeira e
autêntica é fruto do Espírito Santo. Com efeito, tudo que é bom, santo,
precioso é dom do Espírito, o doador da Trindade Santíssima. Por isso,
Teresa,escrevendo aos seus tios Guérin, dizia:"Com suas flores a
Teresinha queria enviar todos os
Frutos do Espírito Santo a seus queridos Parentes, particularmente o da
Alegria!"(95). É de se notar, com interesse, que essas palavras foram
escritas pela Santa em julho de 1897, quando ela já se encontrava bastante
doente e sem muita esperança de recuperação. Pois bem, é nessa ocasião que
Teresinha se lembra de querer para seus tios queridos os dons do Espírito
Santo, mas, de modo particular, o dom da alegria! Em segundo
lugar, é preciso nunca esquecer que, Teresinha se alegra sempre como uma
criancinha, ela nunca sai do seu Pequeno Caminho. Destarte, seus sentimentos
são todos eles permeados pela sua mensagem evangélica da simplicidade e do
amor. Foi assim que ela ensinou à Irmã Maria de São José, em um bilhetinho
simples, mas profundo:"Se a noite provoca medo à criancinha, se ele se
lamenta de não ver Aquele que o carrega, que ele feche os olhos, que faça VOLUNTARIAMENTE o sacrifício que lhe
é pedido e, depois, que espere o sono...comportando-se assim com calma, a
noite, que ela não olhará mais, não poderá fazer-lhe medo e, logo, a calma,
senão a alegria, renascerá no seu coraçãozinho"(96). Por essa
estrada do Pequeno Caminho, que sabe se alegrar como é possível a uma
criancinha que, no meio da noite e com medo, pode descobrir um meio de ter
calma e encontrar a alegria,
Teresinha sente alegria por coisas bonitas e simples, que só uma criança de
Deus pode sentir. Assim, Teresinha se alegra por ter Maria Santíssima como
mãe. Escrevendo ao Pe.Roulland e explicando o seu Pequeno Caminho,
ela,mesmo diante da realidade da
nossa fraqueza, não tem medo de castigos depois da morte. Ela se lembra,
então de Maria; sabe que a Mãe não vai abandonar seus filhos em momentos
difíceis, e exclama, feliz:"Que alegria pensar que essa Virgem é nossa
Mãe!"(97). Em suma, mesmo diante das realidades fortes da fé, Teresa não
perde sua alegria, porque é menininha de Deus, é menininha de Maria. Sua
alegria não desfalece, antes aflora com intensidade maior ainda,porque sabe
que a Mãe de Deus é também sua Mãe e nunca vai abandoná-la. De Maria,
podemos passar, de logo, para Jesus. Já sabemos que o centro da devoção
teresiana é Jesus. Ele é, para Teresa, a expressão visível, a imagem perfeita
do amor da Trindade. Nele, Teresa se concentra com todos seus afetos e com
toda a força do seu coração. Pois bem, com respeito à alegria com Jesus, dois
pontos merecem lembrança. O primeiro é o fato de que aquele que o ama, não
pode querer ofendê-lo; pelo contrário, quer fazer tudo para Ele, mas, se por
acaso, chega a ofendê-lo, deve logo se arrepender, jogar-se novamente nos
seus braços,e isso,certamente, dar-lhe-á muita alegria. A Santa lembra, aqui,
a palavra sagrada de que no céu haverá mais alegria por um pecador que se
converta do que por noventa e nove justos. Eis como ela exorta seu irmão
espiritual, o Pe. Belliere:"Ó meu irmão, creia-o, não terei necessidade
de 'por a mão na boca de Jesus'! Ele, desde muito tempo, esqueceu suas
infidelidades, somente seus desejos de perfeição estão presentes para alegrar
seu coração...Para aqueles que o amam e que vêm, após cada indelicadeza,
pedir-lhe perdão jogando-se nos seus braços, Jesus exulta de
alegria..."(98). A segunda
conseqüência é tipicamente teresiana. Com efeito, sempre se temeu a justiça
divina; sempre tivemos diante do julgamento de Deus um certo receio. Teresa,
ao contrário, segundo a linha do seu Pequeno Caminho, nunca temeu a justiça
de Deus,mas antes se alegou pela existência e pela ação dessa mesma justiça.
O motivo desse procedimento está na raiz da sua mensagem, que é de amor. Quem
ama, não teme, nem mesmo quando deve se submeter ao julgamento do amado,
porque então será nesse momento mesmo que terá a resposta do seu
amor:"Sei que é preciso ser bem puro para comparecer diante do Deus de
toda Santidade, mas sei também que o Senhor é infinitamente justo e é essa
justiça, que faz temer tantas almas, que faz o objeto de minha alegria e de minha confiança"(99). Foi assim
que Teresa foi uma alma alegre. Nos albores de sua vida, teve a felicidade de
ver e apreciar o Sorriso de Maria. Seu grande forte foi sempre seu belo e
maravilhoso sorriso. Ela foi a Santa da alegria. Soube sorrir para todos e em
todos os momentos. Sua presença irradiava essa alegria santa, que nada tem a
ver com certas alegrias humanas, cujos motivos são bem outros. No dia sua
primeira comunhão, ela derramou lágrimas, lágrimas abundantes. As
companheiras não entenderam o motivo daquelas lágrimas num dia de tanta
alegria e felicidade. A esse respeito Teresinha fez o seguinte comentário na
sua Autobiografia:"Elas não compreendiam que toda a alegria do céu vindo
a um coração, esse coração não pode suportá-la sem derramar lágrimas.Oh, não, a ausência de mamãe não
me causava tristeza no dia de minha primeira comunhão...eu não chorava a
ausência de Paulina...naquele dia só a alegria enchia meu
coração..."(100). Os anos se
passaram. No dia 9 de abril de 1888, Teresinha, com quinze anos, três meses e
sete dias, após uma tremenda batalha, conseguia penetrar os umbrais do
Carmelo. Talvez para muitos aquela entrada não tinha sentido e,
conseqüentemente, não era motivo de festa nem de alegria. Teresa estava,
porém, segura do que queria e do que fazia. Seu espírito estava firme e ela
já era bem madura para entender as coisas do mundo e do céu. Após as
cerimônias de despedida e da entrada de fato na arca santa do Carmelo, ela se
sentiu profundamente alegre. Sua
alegria, porém, tinha algo de especial, pois seu motivo era profundo e seu
estado era de calma e de paz:"...segui a Madre Gonzaga pelos diversos
lugares da comunidade; tudo me parecia fascinante, acreditava-me transportada
a um deserto; nossa cela, sobretudo, me encantava; mas a alegria que sentia
era calma, o mais leve zéfiro não fazia ondular as águas tranqüilas sobre as
quais vogava minha barquinha, nenhuma
nuvem obscurecia meu céu de
azul...ah, estava plenamente recompensada por todas minhas provações! Com que
alegria profunda eu repetia estas palavras:'É para sempre, sempre que estou
aqui!'"(101). Sim, a alegria teresiana foi sempre constante,porque tinha
motivos sérios e profundos. Ela foi,sim, constante, porque não se baseava nas
circunstâncias momentâneas da vida profana. Um dia,
Teresinha pensou que só se podia gozar da verdadeira alegria nas comunidades
religiosas(102). Esse pensamento durou bem pouco tempo. Ela mesma, ainda bem
pequena, descobriu que em toda parte
podemos e devemos ser alegres. Motivos não nos faltam. O que nos
falta, às vezes, é o estado de espírito; é a procura desse estado de
espírito. Mais
tarde, com o passar dos anos, Teresa de Lisieux descobriu muito mais.
Descobriu que a vida é um preço, o preço da eternidade,na qual seremos
felizes na medida em que formos felizes, espiritualmente, aqui nesta terra.
Assim, a vida tem seu valor, um valor estupendo e grandioso. No Carmelo, em
outubro de 89, ela escreveu a sua irmã Celina:"A vida...ah, é verdade
que para nós ela não tem encanto...mas eu me engano, é verdade que os
encantos do mundo se evaporaram para nós, mas são uma fumaça...e a realidade
ficou pra nós, sim, a vida é um tesouro...cada instante é uma eternidade, uma
eternidade de alegria para o céu..."(103). Esse pensamento de Teresa não
somente é profundo, mas é também carregado de uma dosagem altíssima de
otimismo e de paz. É, pois, bem atual e necessário para quantos, neste vale
de lágrimas, andam nervosos, aperreados, desgostosos, revoltados e
desiludidos pela vida. Para todos esses, vale a pena repetir a palavra de
Teresa de Lisieux de que cada instante da vida é uma eternidade de alegria
para o céu! Assim, no
cume da montanha do amor e, sobretudo, no momento supremo e definitivo da
entrada na Pátria celeste, apesar de todos os sofrimentos, obstáculos,
dificuldades e provações da vida, tudo terá o seu valor verdadeiro, porque
então aí entraremos para a casa do Pai, que será de eterna felicidade e de
eterna alegria. Ao pe.Belliere, Teresa consolava dizendo estas
palavras:"Jesus quer possuir
completamente seu coração, quer que você seja um grande santo. Para
isso, ser-lhe-á necessário sofrer muito,mas também que alegria inundará sua
alma, quando você chegar no momento feliz de sua entrada na Vida
Eterna!"(104). Portanto, no último passo na subida da montanha de amor,
que é a entrada definitiva na Casa do Pai, tudo será alegria e, a partir de
então, não haverá mais choro nem ranger de dentes. E foi aí,
então, que santa Teresinha do Menino Jesus,diante de todo esse panorama
fantástico do amor e da alegria, prometeu que, mesmo depois de sua morte,
haveria de estar ao lado de seu irmão espiritual, o Pe.Belliere, sorrindo
para ele, numa demonstração de afeto e carinho, mas também num atestado de
amor fraterno e de caridade efetiva nos trabalhos para o reino de
Deus:"Justamente, em vista de minha morte próxima, uma irmã me
fotografou para a festa de nossa Madre. As noviças se admiraram ao me
vieram muito séria, parece que, ordinariamente, sou mais sorridente, mas
creia, meu irmãozinho, que se minha
fotografia não lhe sorri, minha alma
não cessará de lhe sorrir, quando estiver perto de você".(105). Santa
Teresinha sempre soube sorrir nesta vida, mesmo quando suas forças estavam
quase esgotadas e quando a doença mortal lhe tomava quase toda sua capacidade
de sorrir. Antes de morrer, prometeu, como vimos, a seu irmão que haveria de
lhe sorrir sempre, quando, após a morte, pudesse estar ao seu lado. Oxalá que
ela esteja sempre ao nosso lado, ensinando-nos e ajudando-nos a sorrir
sempre, sobretudo nos momentos mais difíceis e mais escuros da nossa
vida! Parece que
seria bem oportuno terminar essas considerações sobre a alegria segundo Santa
Teresinha do Menino Jesus da Santa Face, com a tradução da sua bonita poesia,
intitulada "Minha Alegria"
"Existem almas nesta terra
Que buscam em vão a felicidade
Mas para mim, é tudo o contrário
A alegria se encontra no meu coração
Essa alegria não é passageira
Eu a possuo para sempre
Como uma rosa primaveril
Ela me sorri todos os dias.
Na verdade eu sou feliz demais
Faço sempre minha vontade...
Poderia então não ser alegre
E não mostrar minha alegria?...
Minha alegria é amar o sofrer
Eu sorrio ao derramar minhas lágrimas
E aceito com gratidão Os espinhos no meio das flores.
Quando o céu azul se torna sombrio
E parece me abandonar
Minha alegria é ficar na sombra
E me esconder e me abaixar.
Minha alegria é a Vontade Santa
De Jesus, meu único amor
Assim eu vivo sem nenhum temor
E amo tanto a noite quanto o dia.
Minha alegria é ficar pequena
Por isso, quando caio no caminho
Posso me levantar bem depressa
E Jesus me pega pela mão
Então, cumulando-o de carícias
Eu lhe digo que Ele é tudo pra mim
E redobro de ternuras
Quando Ele se esconde à minha fé. Se,por vezes,derramo lágrimas
Minha alegria é escondê-las
Oh, como o sofrer tem seus encantos,
Quando se sabe com flores escondê-lo!
Quero de verdade sofrer sem dizê-lo
Para consolar o meu Jesus
Minha alegria é vê-lo sorrir
Quando meu coração está no exílio...
Minha alegria é lutar sem cessar
A fim de gerar mais eleitos
É o coração, vibrando de ternura
Repetir muitas vezes a meu Jesus:
'Por Ti, meu Divino Irmãozinho
Estou feliz em sofrer
Minha única alegria nesta terra
É poder te alegrar.
Quero viver ainda muito tempo
Se é,Senhor, o teu desejo
No céu quisera te seguir
Se isso de fato te agradar
O amor, esse fogo da Pátria
Não cessa de me consumir
Que me fazem a morte ou a vida
Jesus, minha alegria é te amar!' No cume da
montanha, o peregrino do Pequeno Caminho goza de uma grande alegria e,
juntamente com essa alegria, ele desfruta de uma paz incomensurável. É
verdade que, essa alegria e essa paz já o acompanham desde o início da subida
da montanha do amor, todavia é lá cima que ele pode gozar de toda a
profundidade, de toda a largueza e de toda a beleza dessa alegria e dessa
paz. Teresa não só ensinou essa doutrina, viveu-a sinceramente e a prometeu como um dom de si após sua morte.
Aquela alegria que ela prometera ao Pe. Belliere, conforme vimos acima, é uma
alegria cheia de paz, segundo suas próprias palavras:"Sim, estou certa
de que, após minha entrada na vida, a tristeza de meu querido irmãozinho se
mudará em uma alegria cheia de paz, que nenhuma criatura poderá lhe tirar"(106). Com
efeito, Teresa atinha consciência de que servia e amava o Deus da paz e do
amor; tinha consciência de que estava na verdade e essa consciência lhe dava
a mais profunda alegria e paz. Falamos, há pouco sobre a alegria teresiana,
aprofundemos, agora, a paz segundo a vida e o pensamento teresianos. Iniciemos
examinando um pouco a própria vida de nossa Santa. E dizemos de logo que,
ela, malgrado os sofrimentos, os percalços, as incompreensões, as
dificuldades e contrariedades, foi sempre cheia de muita paz. Com efeito,
Teresa de Lisieux viveu sempre cheia de paz desde pequenina até à morte. Certa
tarde, junto de sua irmã querida, Paulina, em Trouville, contemplando o por
do sol, Teresa tomou uma resolução bem séria:"À tardinha, na hora em que
o sol parece se banhar na imensidade
das ondas, deixando diante dele uma trilha luminosa, fui me assentar,
sozinha, sobre um rochedo, com Paulina...Então, lembrei-me da emocionante
história "Do raio de ouro!...'. Contemplei longamente esse raio
luminoso, imagem da graça, que ilumina o caminho que deve percorrer o pequeno barco de graciosa vela branca...Ao
lado de Paulina, tomei a resolução de nunca me distanciar minha alma do olhar
de Jesus, a fim de que navegue em paz para a Pátria dos céus!"(107). E
essa paz que ela desejava, já como criança, vai ficar sempre na sua alma.
Teresa vai afirmar essa segurança muitíssimas vezes em toda sua vida. Os
exemplos e as palavras da Santa são inúmeros. Ainda pequena, quando reflete
sobre seu desejo de entrar no Carmelo, diz claramente:"Lembrar-me-ei
sempre, minha Madre querida, com que ternura a senhora me consolou...Depois,
a senhora me explicou a vida do Carmelo, que me pareceu muito bela! Ao
repassar no meu espírito tudo o que senhora me dissera, senti que o Carmelo
era o deserto, para onde o bom Deus queria que eu fosse também me
esconder...Eu o senti com tanta força, que não havia a menor dúvida no meu coração: não era um
sonho de criança, que se deixar levar, mas a certeza de uma chamado divina;
queria ir para o carmelo não por Paulina, mas por Jesus somente...Pensei
muitas coisas, que as palavras não podem traduzir, mas que deixaram uma
grande paz na minha alma"(108). Já como
criança, Teresinha sabe unir a alegria com a paz, de tal maneira que qualquer
que seja o tipo de sua al No cume da
montanha, o peregrino do Pequeno Caminho goza de uma grande alegria e,
juntamente com essa alegria, ele desfruta de uma paz incomensurável. É
verdade que, essa alegria e essa paz já o acompanham desde o início da subida
da montanha do amor, todavia é lá cima que ele pode gozar de toda a
profundidade, de toda a largueza e de toda a beleza dessa alegria e dessa
paz. Teresa não só ensinou essa doutrina, viveu-a sinceramente e a prometeu como um dom de si após sua morte.
Aquela alegria que ela prometera ao Pe. Belliere, conforme vimos acima, é uma
alegria cheia de paz, segundo suas próprias palavras:"Sim, estou certa
de que, após minha entrada na vida, a tristeza de meu querido irmãozinho se
mudará em uma alegria cheia de paz, que nenhuma criatura poderá lhe tirar"(106). Com
efeito, Teresa atinha consciência de que servia e amava o Deus da paz e do
amor; tinha consciência de que estava na verdade e essa consciência lhe dava
a mais profunda alegria e paz. Falamos, há pouco sobre a alegria teresiana,
aprofundemos, agora, a paz segundo a vida e o pensamento teresianos. Iniciemos
examinando um pouco a própria vida de nossa Santa. E dizemos de logo que,
ela, malgrado os sofrimentos, os percalços, as incompreensões, as
dificuldades e contrariedades, foi sempre cheia de muita paz. Com efeito,
Teresa de Lisieux viveu sempre cheia de paz desde pequenina até à morte. Certa
tarde, junto de sua irmã querida, Paulina, em Trouville, contemplando o por
do sol, Teresa tomou uma resolução bem séria:"À tardinha, na hora em que
o sol parece se banhar na imensidade
das ondas, deixando diante dele uma trilha luminosa, fui me assentar,
sozinha, sobre um rochedo, com Paulina...Então, lembrei-me da emocionante
história "Do raio de ouro!...'. Contemplei longamente esse raio
luminoso, imagem da graça, que ilumina o caminho que deve percorrer o pequeno barco de graciosa vela branca...Ao
lado de Paulina, tomei a resolução de nunca me distanciar minha alma do olhar
de Jesus, a fim de que navegue em paz para a Pátria dos céus!"(107). E
essa paz que ela desejava, já como criança, vai ficar sempre na sua alma.
Teresa vai afirmar essa segurança muitíssimas vezes em toda sua vida. Os
exemplos e as palavras da Santa são inúmeros. Ainda pequena, quando reflete
sobre seu desejo de entrar no Carmelo, diz claramente:"Lembrar-me-ei
sempre, minha Madre querida, com que ternura a senhora me consolou...Depois,
a senhora me explicou a vida do Carmelo, que me pareceu muito bela! Ao
repassar no meu espírito tudo o que senhora me dissera, senti que o Carmelo
era o deserto, para onde o bom Deus queria que eu fosse também me
esconder...Eu o senti com tanta força, que não havia a menor dúvida no meu coração: não era um
sonho de criança, que se deixar levar, mas a certeza de uma chamado divina;
queria ir para o carmelo não por Paulina, mas por Jesus somente...Pensei
muitas coisas, que as palavras não podem traduzir, mas que deixaram uma
grande paz na minha alma"(108). Já como
criança, Teresinha sabe unir a alegria com a paz, de tal maneira que qualquer
que seja o tipo de sua alegria, ela não perturbe jamais sua paz interior. Um
exemplo disso, temos no dia de sua primeira comunhão. Aquele dia e aquele
acontecimento marcaram profundamente a alma da Santa. Os anos se passaram e,
mais tarde, ela podia lembrar-se de tudo e comentar sobre sua paz e sua
alegria daquele belíssimo e inesquecível dia:"Ah, minha alegria foi sem
amargura!...Não fiquei insensível à festa de família, que aconteceu na noite
de minha primeira comunhão; o belo relógio que me Rei me deu causou-me um
grande prazer, mas minha alegria era tranqüila e nada veio perturbar minha
paz íntima"(109). Essa paz,
tranqüila, doce, suave, profunda, ficará sempre na alma de Teresinha, apesar
do correr dos anos. No momento bonito de sua entrada no carmelo; naquela hora
dramática de despedida, especialmente no instante da bênção solene que lhe
deu seu querido Rei e Pai, apesar de toda a dramaticidade e seriedade da
ocasião, Teresinha sentiu, no mais profundo do seu pequeno ser, a força de
sua paz interior:"Enfim, meus desejos estavam realizados, minha alma
sentia uma PAZ tão doce e tão profunda
que me seria impossível exprimi-la e já há sete anos e meio essa paz íntima
continua como minha herança, ela não me abandonou no meio das maiores
provações"(110). Os anos
vão se passando e Teresinha, conforme suas próprias palavras, continua com
sua grande paz íntima e profunda. Chegou o dia de sua profissão, 8 de
setembro de 1890. Nossa Santa estava com dezessete anos de idade. Na véspera
do grande dia, uma tempestade irrompeu na sua alma,mas logo s Santa, com
muita prudência, pôde voltar ao seu normal e,assim, ela descreveu a manhã
radiosa do dia de sua profissão:"Na manhã do dia 8 de setembro, eu me
senti inundada por um rio paz e foi nesta paz 'que ultrapassava todo
sentimento' que pronunciei meu Santos Votos"(111). Comentando ainda seu
dia de profissão, nossa Santa registrou estas importantes observações sobre
sua paz interior:"Naquele dia tudo era pequeno exceto as graças e a paz que recebi, exceto a
alegria cheia de paz que senti à noite, olhando as estrelas cintilarem no
firmamento, pensando que, em breve, o belo céu se abriria a meus olhos
fascinados e que poderia me unir a meu Esposo no seio de uma
alegria eterna"(112). Completando essa belíssima narração, Teresa lembra
o dia de sua tomada de véu. Joga com as palavras véu e velado (em francês:
voile e voilé) para dizer que esse dia foi marcado por lágrimas e tristezas.
Todavia, de repente, a Santa volta ao
tema preferido da paz e escreve:"Contudo a paz, sempre a paz, se
encontrava no fundo do cálice"(113). Assim foi
a vida de Santa Teresinha do menino Jesus até sua morte. A alegria e a paz
foram, de fato, sua partilha, mesmo quando muitos outros dons lhe foram
retirados como uma provação e purificação da fé. Madre Inês, na sua
emocionante descrição do dia da morte de Santa Teresinha, assim relatou os
momentos do grande êxtase da Santa, logo após sua morte:"As tiveram o
tempo para se ajoelharem em volta do leito e foram testemunhas do êxtase da
santinha moribunda. Seu rosto retomara a tez de lírio, que ela tinha em plena
saúde, seus olhos ficaram no alto, brilhando de paz e de alegria"(114). Essa paz
de Santa Teresinha,porém, não foi momentânea nem fruto de instantes de
felicidade. Na verdade, a Santa teve, como já vimos, uma existência bastante
atribulada e cheia de sofrimentos.A paz de Teresa foi constante, mesmo com os
altos e baixos de sua vida. nada perturbava sua paz, de tal maneira que,
mesmo em momentos de profunda provação espiritual ou de sofrimentos físicos
intensos como aconteceu na sua doença mortal, a Santa nunca perdeu a sua
profunda paz interior. É verdade que, quando pequena, na grande provação da crise de escrúpulos,
ela sentiu atormentada a sua paz. Todavia, nunca a perdeu. A crise
psicológica foi de tal modo violenta, que a menina Teresinha se viu como que
perdida dentro dela, todavia a paz sempre continuou nela. Assim, quando
estava aliviada, logo sua paz a inundava, embora fosse apenas por alguns
instantes:"...foi durante meu retiro para a segunda comunhão que me vi
assaltada pela terrível doença dos escrúpulos. É preciso ter passado por esse
martírio para compreendê-lo bem. Dizer o que sofri durante um ano e meio,
ser-me-ia impossível. Todos os meus pensamentos e ações, as mais simples,
tornavam-se para mim um motivo de aperreio; só tinha repouso quando os dizia
a Maria, o que me custava muito, porque me via obrigada a lhe dizer os mais extravagantes
pensamentos, que tinha dela mesma. Assim que meu fardo era deposto, gozava de
um instante de paz, mas essa paz passava como um relâmpago e logo meu
martírio recomeçava"(115). Com o
passar do tempo e o progresso da caminhada nas sendas da perfeição, Teresa de
Lisieux vai descobrindo que, mesmo nos momentos difíceis, ela não podia, de
modo algum, perder sua paz. Antes, seria justamente nesses momentos que ela
deveria sustentar a paz e servir-se dela como um pano de fundo de toda a
dramaticidade da circunstância. Podemos dizer, então, que Teresa não vai
jamais perder sua paz e que vai conservá-la em todos os instantes, sobretudo
em duas circunstâncias especiais, isto é, nos sofrimentos físicos e
espirituais e nas chamadas provações da alma. No
Manuscrito C há uma declaração maravilhosa de Teresa a respeito do seu estado
de espírito durante o sofrimento. Aí, nossa Santa confessa claramente que fez
uma magnífico progresso na sua corrida de gigante na subida da montanha do
amor. A confissão de Teresa é, de fato, impressionante, porque, em poucas
palavras, ela diz todo o estado permanente de uma alma,que já chegou no cume
da montanha:"Madre querida, a senhora sabe bem, o bom Deus se dignou
fazer passar a minha alma por muitos
gêneros de provações; sofri muito desde que estou nesta terra, mas, se na
minha infância sofri com tristeza, não é mais assim que sofro agora, é na
alegria e na paz, sou verdadeiramente feliz por sofrer"(116). No mesmo
Manuscrito, um pouco adiante, referindo-se a possíveis sofrimentos, que sua
irmã Inês poderia padecer em um Carmelo de missão, ela conclui suas reflexões
com essas tranqüilidade maravilhosa:"...enfim, meu céu estava carregado
de nuvens...somente o fundo de meu coração continuava na calma e na
paz"(117). Pelos
finais de agosto de 1897, Irmã Inês estava, de joelhos, ao lado de Teresa,
vendo-a sofrer muito. Teresa vendo sua irmã um tanto triste,
perguntou-lhe:olhinhos tristes, por quê?" Irmã Inês lhe respondeu de
imediato:"Porque você está sofrendo muito!". Teresa, então,
completou o diálogo com uma sentença digna de sua vida e de sua
mensagem:"Sim, mas paz também, paz!"(118). Seis dias após esse
pequeno diálogo, referindo-se ao seu sofrimento, Teresinha concluía sua conversa
com Irmã Inês, afirmando:"Enfim, no fundo sinto uma grande
paz"(119).
Concretamente, pensando na sua terrível doença, Santa Teresinha não se
angustia como acontece com muitas pessoas, que já estão em estado adiantado
de perfeição ou que, pelo menos, vivem na busca da perfeição. A notícia ou
mesmo o fato de uma doença grave deixa, muitas vezes, algumas pessoas
terrivelmente transtornadas, quando não revoltadas. Teresa de Lisieux nunca
perdeu a sua paz desde o dia em que tomou, por si mesma, conhecimento de que
estava gravemente doente até o final da sua caminhada de enferma. Como sua doença se prolongasse e não
houvesse esperança de melhora, ela, em julho de 1897, disse:"Uma
grandíssima paz na minha alma. Minha barquinha voltou às ondas. Sei que não
voltarei, mas estou resignada a permanecer doente muitos meses, tanto quanto
o bom Deus quiser"(120). Ao leitor
atento não pode passar despercebida certa desatenção, da parte de alguns que
se aproximavam de Santa Teresiana, quando ela estava muito doente, com
respeito a certo modo de falar e, mais precisamente, com relação à sua morte.
Com efeito, algumas pessoas, imprudentemente, pelo menos sob o ponto de vista
humano, não foram prudentes ao falar, certas vezes e de certos modos, com a
Santa a respeito da sua própria morte. Nota-se, na leituras das "Últimas
Conversas" certa ânsia por pormenores acerca da morte da Santa, de tal
maneira que alguns chegam a lhe pedir informações, a falar-lhe a respeito do
dia, do modo de sua morte, como se isso fosse natural com alguém que está
psicologicamente muito abalado e que precisa, naturalmente, um pouco mais de
ânimo e encorajamento. Todavia,
mesmo assim, é impressionante como nossa Santa está tão acima das fraquezas
humanas, que não perde a paz e se mostra superiora a todos esses limites dos
homens. Um exemplo claro temos com o que aconteceu entre ela e a Irmã Inês no
dia 25 de agosto de 1897. A Inês diz que chegou a lhe falar sobre seu desejo
de conhecer a data de sua morte. A resposta de Teresinha é verdadeiramente
digna de uma santa! Ela disse simplesmente:"Ah, eu não o desejo! Como
estou em paz! Isso não me inquieta de modo nenhum!"(121). Mas, se
Teresa de Lisieux soube sempre conservar sua paz em todos os sofrimentos,
especialmente, nos momentos mais dolorosos de sua doença mortal, não menos a
conservou nos seus sofrimentos espirituais, sobretudo, nas suas provações. Essas
provações foram de diversas espécies. Uma delas, talvez a mais dolorosa, foi
a provação contra a fé. S. João da Cruz descreve-nos essa provação, pela qual
passam os grandes santos, como sendo uma noite escura.. Teresa no-la compara
a um túnel, a um escuro subterrâneo, a um grande muro elevado até os céus. É
difícil medir a dor, a angústia, o sofrimento de alguém que ama
apaixonadamente e, de repente, vê que parece que seu amor está se
distanciando e indo embora. É duro, é duro demais ver desmoronar todo um
castelo que, durante anos e anos, foi se construindo dentro de nós! É quase
insuportável para um amante de Deus sentir, um belo dia, que tudo que ele
acreditou, sentiu, viveu, começa a tomar a forma de fumaça, de mentira, de
ilusão, de sonho. E, de repente, a pessoa sente que não tem mais nada, que
perdeu tudo, que foi enganada a vida inteira, que tudo foi mentira, que a
vida não é senão uma ilusão! Foi por essa terrível provação, que Teresa de
Lisieux passou nos últimos anos de sua vida nesta terra! Todavia, malgrado
tudo, ela nunca se atemorizou, acovardou-se, sentiu-se derrotada, angustiada.
A paz, sempre a paz no fundo do seu coração. Nos inícios
de setembro do anos de sua morte, mais precisamente, no dia 8, ela recebeu
algumas manifestações de carinho e apreço. Depois de tudo, ela
comentou:"É por causa das delicadezas do bom Deus a meu respeito;
exteriormente, estou rodeada de delicadezas e, contudo, no interior estou
sempre na provação...mas também na paz"(122). Para dar
uma idéia da situação em que ela se encontrava por causa da sua provação
interior, certo dia, durante o silêncio do meio-dia, nossa Santa disse à Irmã
Inês:"Veja lá na frente o buraco escuro(debaixo dos castanheiros perto
do cemitério), onde não se distingue mais nada; é num buraco como esse que eu
estou com a alma e o corpo. Ah, sim, que trevas! Mas, mesmo assim estou em
paz"(123). Seis dias
antes de sua morte, Santa Teresinha ainda estava totalmente mergulhada nas
suas terríveis trevas interiores, ou seja, na sua noite escura. Até o fim da
vida, ela terá de suportar essa cruz e demonstrar, por essa cruz mais do que
pesada, que crê e que aceita todo o mistério do Deus insondável. Era o
momento da grande Santa viver só de fé! Ela aceita a vontade de Deus e
permanece, apesar de tudo, na sua grande paz. Irmã Inês lhe perguntara se ela
tinha intuições a respeito do dia de sua morte. A resposta não se fez
esperar:"Ah, minha Madre, intuições?! Se a senhora soubesse em que
pobreza estou! Só sei o que a senhora sabe; não adivinho nada a não pelo que
vejo e sinto. Mas, minha alma, apesar de suas trevas, está numa paz
admirável"(124). Em janeiro
de 1889, Teresa escreveu um bilhete fraternal e confidencial para sua irmã
Inês. Nesse bilhete, nossa Santa abre sua alma e confessa o que atormenta a
sua alma, mas que não chega a perturbar sua paz:"O cordeiro está
enganado pensando que o brinquedo de Jesus não está nas trevas, ele está mergulhado
nelas. Talvez, e o cordeirinho concorda, essas trevas sejam luminosas, mas,
apesar de tudo, são trevas...Sua única consolação é uma força e uma paz muito
grande e, depois, ele espera ser como Jesus quer. Eis aí sua alegria, pois,
do contrário, tudo é tristeza!"(125). Nem a dor,
nem a doença, nem os sofrimentos morais, nem as provações, nada poderá acabar
com a paz interior de Teresa de Lisieux. Podemos resumir essa afirmação com
as próprias palavras da Santa, quando no final de sua poesia "Os Responsórios
de Santa Inês", ela coloca nos lábios de Inês:
"Por isso, não temo nada, nem o ferro nem a chama
Não, nada pode perturbar minha paz inefável
E o fogo do amor, que consome minha alma Não se extinguirá
jamais!..."(126). Sem
dúvida, o pensamento do céu, a esperança da bem-aventurada felicidade na
Pátria, sem dúvida, são motivos bem fortes para sustentarem Teresinha na
segurança de sua paz. Servindo-se de alguns pensamentos do mártir Teófanes
Venard, a Santa escreveu numa imagem estas palavras de adeus ás suas três
irmãs:"Não encontro nada na terra que me faça feliz; meu coração é
demasiado grande, nada daquilo que se chama felicidade neste mundo pode satisfazê-lo. Meu pensamento voa para
a eternidade, o tempo vai terminar!...meu coração está calmo como um lago
tranqüilo ou um céu sereno"(127). É bonito
ver que Teresa chega a querer aproveitar todos os possíveis sacrifícios para
demonstrara a deus seu amor por Ele e, quando acontece que Ela deixa escapar
algum pequeno sacrifício, então, o orgulho ou o desânimo ou a tristeza não a
vencem.Ela aceita o sacrifício de ter pedido aquele sacrifício e a paz que
ele lhe daria, pois os sacrifícios lhe trazem sempre a paz à alma:"Madre
bem-amada, a senhora está vendo que sou uma alminha que não pode oferecer ao
bom Deus senão coisas pequeninas e ainda me acontece, muitas vezes, de deixar
escapar esses sacrificiosinhos, que dão tanta paz à alma. Isso não me
desencoraja, suporto ter um pouco menos de paz e procuro ser mais vigilante
na próxima vez"(128). Nesse
texto aparece, claramente, uma idéia teresiana de profundo sentido e alcance
psicológico. A paz, na verdade, é efeito de uma tranqüilidade interior, que,
por sua vez, provém da ordem das coisas dentro de nós. Havendo, pois, a
justiça, ou seja, a justa ordem ou ordenação do nosso mundo interior,
certamente sentiremos uma profunda paz na alma. Com efeito, quando estamos
desarrumados interiormente não nos sentimos bem e a intranqüilidade logo se
apodera de nós. Teresa sente o efeito de seus sacrifícios justamente porque
eles a conduziam nessa ordem espiritual, que era o atendimento ao apelo do
Espírito, que gritava dentro dela com palavras inenarráveis. Entende-se,
assim, por que Ela não queria perder nenhum momento ou ocasião para fazer um
sacrifício, que fosse a resposta a um apelo do Espírito Santo. Um pequenino
fato da sua vida em comunidade demonstra como nossa Santa era solícita em
descobrir, com a luz de Deus, motivos, até humanos e psicológicos
especialmente, para conservar sempre a sua paz. Certo dia, Teresa teve uma
pequena discussão com outra religiosa à porta da cela da Madre, que estava
descansando. O barulho produzido fez a Madre abrir os olhos.De imediato, a
irmã acusou Teresa de ter sido a responsável pelo desagradável fato de ter
acordado a Madre. A Santa nos conta todo esse acontecido e conclui:"Eu
que sentia tudo ao contrário, tinha vontade de me defender; felizmente me
veio uma idéia luminosa, isto é, disse para mim mesma que certamente se eu
começasse a me justificar não ia poder guardar a paz de minha
alma"(129). Mas, o
grande motivo da paz de Teresinha foi, sem dúvida nenhuma, o seu amor a Deus.
Amor ardente e apaixonado, que queria ver em todas as coisas, em todos os
acontecimentos, em todas as pessoas a expressão de uma vontade divina, de um
querer de Deus. Quando da sua doença mortal, Ela deu testemunho eloqüente,
por palavras e por atitudes, de seu amor cheio de fé e baseado na fé. Maria
Guérin, sua prima e religiosa carmelita como Ela, redigiu algumas cartas
preciosas relatando à sua família o desenrolar-se dos dias e da doença da
nossa Santa. Na Carta de 20 de julho de 1897, dirigida a Celina, ela faz a
seguinte eloqüente declaração:"Pensei, minha Celininha, que ao lhe dando
nossa doentinha como exemplo, não podia
lhe dar melhores conselhos. Oh, se estivesse no seu lugar, se ela
tivesse, como você, uma provaçãozinha por parte de sua família, como ela
saberia tirar proveito disso. Ela veria o bom Deus em todas as circunstâncias
e lhe ofereceria cada espinhozinho, que fere o coração, como um ato de
perfeito amor. Eis o que Ela faria e sentiria uma grande paz"(130). Essa paz
trouxe para Teresa uma grande felicidade. Realmente, para o peregrino da
Montanha do Amor, as alturas e, cobretudo, o cume da montanha oferecem uma
tranqüilidade de espírito, que é, sem dúvida, uma expressão magnífica da
felicidade espiritual, que alguém possa sentir na sua vida. Vendo na vida de
Teresa de Lisieux, aprendemos também para a nossa vida de cada dia, por isso,
lembramos, aqui, a passagem preciosa de outra carta de Maria Guérin, datada
de 17 de agosto de 1897, e dirigida a seu pai:"Não se deve crer que seu
desejo de ir para o céu seja um entusiasmo. Oh, não, é tudo bem cheio de paz!
Ela me dizia nesta manhã:'Se me dissessem que vou ficar boa, não pense que
ficaria sem jeito; ficaria contente tanto quanto se tivesse de morrer. Tenho
um grande desejo do céu, mas é sobretudo porque estou em uma grande paz que
sou feliz, pois para sentir uma alegria imensa como algumas vezes, quando o
coração bate de felicidade, oh, não!...estou em paz, eis por que estou
feliz"(131). Vê-se,
claramente, pelo contexto da mensagem e da vida de Teresa de Lisieux que, não
devemos confundir jamais essa paz de que Ela tanto fala, como um simples
sentimento. Ademais, essa paz é, muitas vezes, conseqüência de uma
superposição, que paira acima de muitos sentimentos da natureza. Em suma, a
paz é espiritual, portanto, ela não se confunde com os sentimentos e, às vezes,
ela procede justamente de elevação acima de certos sentimentos. É isso que
Teresa quer nos explicar e ensinar, quando, no Manuscrito C,
escreve:"Ah, que paz inunda a alma, quando ela se eleva acima dos
sentimentos da natureza...Não, não há alegria comparável àquela de que
desfruta o verdadeiro pobre em espírito"(132). Nesse texto, Teresinha
nos dá um exemplo claro do seu pensamento e de sua mensagem, a saber, a
pobreza em espírito, que faz o homem despojado de tudo e livre para voar. O
desapego por Deus torna o homem mais
leve do que uma pena e ele se inebria na felicidade do vôo, seguindo o sopro
do Espírito, que sopra quando e onde quer! Quase em
seguida do que foi citado de Teresinha, podemos encontrar outro
esclarecimento sobre que espécie de paz ela fala e como essa paz interior
está acima e fora de qualquer espécie de sentimentalismo. Eis como a Santa
nos esclarece:"Minha Madre querida, estou muito longe de praticar o que
compreendo e, contudo, só o desejo que sinto de por em prática me dá a paz"(133).
A humildade, pois, encontra aqui sua garrida. Não se trata de praticar a
virtude por simples desejo de perfeição; trata-se de um exercício de amor.
Assim, quando, sem culpa alguma, não se consegue chegar até lá, então, o
espírito não se abate, porque ele sabe muito bem que o amor só faz o que pode
e quando pode. A esse estado de aceitação da própria fraqueza, o amor de
Teresa acrescenta, porém, outro meio de ficar em paz, que é a purificação
dessa mesma fraqueza. Não basta, pois, aceitar-se como se é, mas é preciso
repelir o mal e fazer força para se progredir na subida da montanha do amor.
Teresinha nos lembra essa paz de espírito, que se consegue quando a gente
pede perdão a Deus e promete, com a sua graça divina, fazer todo o esforço
para não se desbaratar no amor. Por esse caminho, a confissão sacramental
aparece como outro grande canal da paz interior:"Na vigília do grande
dia, recebi a absolvição pela segunda vez, minha confissão geral me deixou
uma grande paz na alma e o bom Deus não permitiu que a mais leve nuvem viesse
perturbá-la"(134). Hoje em
dia, muita gente recorre a especialistas na esperança de conseguir paz para
sua alma. Paga-se muito para isso. Emprega-se muito tempo precioso nesse
sentido. No entanto, os resultados nem sempre são animadores. A Igreja,
sacramento de Cristo, sempre nos deu um meio simples e seguro através o
sacramento da confissão. Nele se obtém, facilmente, o perdão de Deus e a
graça do Espírito Santo é derramada, em profusão, na alma, de tal maneira que
se possa se sentir aliviado do peso das nossas fraquezas e animado para a
batalha da vida. A vida sacramental é instrumental de paz, da grande paz, da
paz interior, dom do Espírito. Teresa de Lisieux bebeu nessa fonte
incensurável de paz e felicidade. Na sua poesia "O Átomo de Jesus
Hóstia", ela escreve:
"Se sou desprezada pelo mundo
Se ele me olha como um nada
Uma paz divina me inunda
Pois tenho a Hóstia como meu sustento"(135). E ainda sobre a fonte de paz, que é a Eucaristia,
ela cantou em maio de 1897:
"Aguardo em paz a glória,
Da celeste morada
Pois encontro no cibório
o doce fruto do amor!"(136). O doce fruto do amor, a que se refere a poesia, é o
abandono. Teresa faz, aqui, uma ligação entre o sacramento e a vida
sacramental, isto é, o sacramento vivido é a própria experiência da caminhada
pessoal. Assim, a Eucaristia nos leva ao amor,que nos leva ao abandono, que é
parte fundamental do Pequeno Caminho teresiano. Toa a
espiritualidade teresiana é, essencialmente, um caminho de paz. O Pequeno
Caminho, pelas suas marcas fundamentais, é, essencialmente, caminhada para a
paz. O abandono, que é capital no Pequeno Caminho, é,sem dúvida, a estaca
mais segura para uma profunda e inabalável paz interior.Nessa mesma poesia,
apenas citada, nossa Santa canta feliz:
"Ele me dá neste mundo
Um oceano de paz
E nessa paz profunda
Eu repouso para sempre"(137). O famoso
Manuscrito B, da Autobiografia de Santa Teresinha do Menino Jesus e da Santa
Face traz uma página, que merece toda nossa meditação. Vamos transcrevê-la,
porque ela encerra todo o discurso que poderíamos fazer sobre a paz e o
abandono, segundo os ensinamentos do Pequeno Caminho. Ver-se-á pelas linhas
de Teresa quanto é profunda e séria sua doutrina, mesmo porque une a mais
profunda mensagem evangélica aos ensinamentos mais modernos da psicologia
contemporânea:"Jesus, Jesus, se é tão doce o desejo de te amar, como não
o será o de te possuir, de gozar do
Amor?...Como uma alma tão imperfeita como a minha, 'pode aspirar a possuir a
plenitude do Amor?...Ó Jesus, meu primeiro, meu único amigo, tu, a que
unicamente amo, dize-me qual é esse mistério?...Por que tu não reservas essas
imensas aspirações às grandes almas, às Águias que planam nas alturas?...Eu
me considero como um fraco passarinho coberto somente com uma leve penugem;
não sou uma águia, dela tenho apenas os olhos e o coração pois, malgrado
minha extrema pequenez, ouso fixar o Sol divino, o Sol do Amor, e meu coração
sente nele todas as aspirações da Águia... O passarinho quisera voar para
esse Sol brilhante que encanta seus olhos, quisera imitar as Águias, seus
irmãos, que ela vê se elevar até à
fornalha divina da Santíssima Trindade...ah, tudo o que ela pode fazer é
levantar suas asinhas, mas levantar vôo, isso não está no seu pobre poder!
Que vai acontecer com ele? Morrer de tristeza ao se ver tão impotente? ...Oh,
não! o passarinho nem sequer vai se afligir. Com um abandono audacioso, ele
quer ficar contemplando seu Sol divino; nada poderia atemorizá-lo, nem o
vento nem a chuva e, se nuvens sombrias vêm esconder o Astro de Amor, o
passarinho não muda de lugar, ele sabe que além da nuvens seu Sol brilha
sempre, que seu brilho não poderia se eclipsar por um só instante. Às vezes, é verdade, o coração do
passarinho se vê assaltado pela tempestade, parece-lhe não crer que exista
outra coisa afora as nuvens que o envolvem; é, então, o momento de alegria
perfeita para o pobre e fraco pequeno ser. Que felicidade para ele ficar lá
apesar de tudo, fixar a luz invisível que se oculta à sua fé!!!... Jesus, até
o presente, compreendo teu amor pelo passarinho,pois que ele não se afasta de
ti...mas eu o sei e tu o sabes também,muitas vezes, a criaturinha imperfeita,
mesmo ficando em seu lugar(isto é, sob os raios do Sol),deixa-se distrair um
pouco de sua única ocupação,pega um grãozinho à direita e à esquerda, corre
atrás de um vermezinho...depois, encontrando uma pocinha d'água, molha suas
penas ainda em formação, vê uma flor que lhe agrada, então seu espiritozinho
se ocupa com essa flor...enfim, não podendo planar como as águias, o pobre
passarinho se ocupa ainda com bagatelas da terra. Contudo, após todas suas
traquinices, ao invés de ir esconder-se em um canto para chorar sua miséria e
morrer de arrependimento, o passarinhos e dirige para seu Bem-Amado Sol,
apresenta aos seus raios benfazejos suas asinhas molhadas, geme como a
andorinha e no seu doce canto ele
confia, conta, em detalhes, suas infidelidades, pensando, com seu temerário
abandono, conquistar assim mais império, atrair mais plenamente o Amor
dAquele, que não veio chamar os justos mas os pecadores... Se o Astro Adorado
fica surdo aos gorjeios queixosos de sua criaturinha, se ele continua
velado...pois bem! a criaturinha fica molhada, aceita ficar transida de frio
e se alegra ainda com esse sofrimento que, entretanto, mereceu... Ó Jesus,
como teu passarinho é feliz em ser fraco e pequeno, que seria dele se fosse
grande?... Jamais teria a audácia de
comparecer na tua presença, de sonecar diante de ti.. Sim, está aí ainda uma
fraqueza do passarinho, quando quer fixar o Sol divino e as nuvens lhe
impedem de ver um só raio, malgrado seu, fecham-se seus olhinhos, sua
cabecinha se esconde sob a asinha e o pobre pequeno ser adormece, acreditando
sempre fixar seu Astro querido. Quando se acorda, não se desola, seu
coraçãozinho fica em paz, recomeça seu ofício de amor..."(138). Pelo
Pequeno Caminho, Teresinha vai descobrindo como conquistar e possuir,
inalterável, a sua paz. O abandono, fruto do amor, dá-lhe total confiança e
ensina-lhe a se entregar, total e completamente, nas mãos do Senhor. Isso,
independentemente, de qualquer circunstância ou situação, outorga, como
recompensa maravilhosa, o doce fruto da paz interior. Mas, esse mesmo amor,
que sabe tirar proveito de tudo, ele mesmo é portador da paz. O amor humano,
confuso, limitado e sempre desconfiado, porque quase sempre muito
interesseiro e egoísta, nem sempre dá aquela paz de espírito, que seria o
ideal. O amor a Deus, porém, quando autêntico e real, levado até às últimas
conseqüências, é como um fogo devorador, que consome toda inquietação e deixa
na alma uma tranqüilidade incomensurável, mesmo diante de muitas limitações e
fraquezas: Foi assim que Santa Teresinha conseguiu uma profunda paz mediante
o seu grande e apaixonado amor a Deus:"Sem dúvida, pode-se muito bem
cair, pode-se cometer infidelidades, mas,como o amor sabe tirar proveito de
tudo, consumiu bem depressa tudo o que pode desagradar a Jesus, não
deixando senão uma humilde e profunda
paz no fundo do coração"(139). Esse
amor,para Teresa, concretizava-se na perfeita submissão à vontade de Deus, no
desejo ardente e constante de fazer sempre a vontade do bom Deus. É,pois, em
concreto, a conformidade de duas vontade, a humana de Teresa e divina, de
Deus. Teresa procurava se conformar, aceitando, cumprindo alegremente a
vontade do seu deus. O amor teresiano, pois, é fusão, unidade,
é,conseqüentemente, felicidade, tranqüilidade, paz. Nada, portanto, pode
perturbar essa paz, porque o vontade de Deus é sempre como ela vem, como ela
aparece, como ela é. Quando da sua visita ao Papa, em Roma, para lhe pedir a
permissão para entrar no carmelo com apenas quinze anos, Teresa sentiu-se
frustrada com a resposta evasiva do Santo Padre. Ela se sentiu desolada, como
se tudo tivesse chegado ao fim e nada do seu ideal pudesse, então, ser
realizado. Mesmo assim sua paz continuou inalterada:"Minha alma estava mergulhada na amargura, mas também
na paz, pois não buscava senão a vontade do bom Deus"(140). Ainda a
propósito dessa mesma audiência com Leão XIII, Teresa nos faz um belíssimo
comentário, onde nos explica que amargura e paz podem muito bem se
encontrarem, ao mesmo tempo, na alma, ou seja, que os sofrimentos de cada
dia, mesmo continuando na sua rotina, não são obstáculo e impedimento para
nossa paz:"Meu Papai querido teve muita pena quando me encontrou toda em
lágrimas ao sair da audiência, ele fez tudo que pôde para me consolar, mas em
vão...No fundo do coração, eu sentia uma grande paz, porque houvera feito
absolutamente tudo que estava no meu poder para responderão que o bom Deus me
pedia, mas essa paz estava no fundo e a amargura enchia minha alma, pois
Jesus se calava"(141). Está aí uma profunda lição de psicologia: apesar
de todas as angústias da vida cotidiana, podemos e devemos nos conservar em
paz e isso é possível quando se ama de verdade a Deus, pois na procura
unicamente de fazer a sua santa vontade, apesar do sofrimento, o homem está
feliz porque faz a vontade do Amor e do Amado.Quando da sua tomada de véu,
Teresinha sofreu, humanamente, alguns dissabores e viu o seu belo dia
encher-se de tristeza e amargura. Como humana, ela sentiu a dor e a tristeza;
como apaixonada de Deus, ficou na sua profunda e imensa paz:"No dia 24
aconteceu a cerimônia de minha tomada de véu, o dia foi todo inteiro velado
de lágrimas...Papai não estava lá para abençoar sua Rainha...O Padre estava
no Canadá...O Bispo que devia vir e jantar na casa de meu tio,adoeceu e não
veio, enfim tudo foi tristeza e amargura...Contudo, a paz, sempre a paz,
encontrava-se no fundo do cálice"(142). Note-se que, ao falar de
amargura, Teresinha se apressa imediatamente de juntar a palavra mágica:paz!
Sempre a paz! Na procura
de fazer sempre a vontade de Deus, porque muito O ama, Teresinha,mesmo
vivendo a vida normal de qualquer filho de Deus, sofrendo, pois, as amarguras
de cada dia, em nada se altera, nunca perde sua paz, mesmo quando,realizando
propriamente os trabalhos do Senhor, encontra dificuldades, sobretudo, por
parte dos homens. Um exemplo claro é a sua Direção espiritual. Trabalho
importante e difícil, pois é plasmar a alma de seus irmãos segundo os planos
de Deus. Aí as dificuldades são enormes. Trabalha-se com gente, com
personalidades diferentes e diversas, com reações muito diversificadas. Mas,
Teresinha apenas ama e porque ama seu Deus, faz todo seu trabalho por amor e,
não, por interesse pessoal, por isso nada a perturba. Seu ideal, seu objetivo
é muito alto, é a vontade de Deus unicamente. Ela se sente pincel nas mãos do
grande artista, que é Jesus. Cumpre, pois, apenas sua missão com toda
humildade e alegria. No mais, fica sempre feliz e em paz:"Quando me foi
dado penetrar no santuário das almas, vi, imediatamente, que o ofício estava
cima de minhas forças,então me coloquei nos braços do bom Deus, como uma
criancinha e escondendo meu rosto entre seus cabelos, disse-Lhe: Senhor, sou
demasiada pequena para alimentar suas filhas; se o Senhor quiser lhes dar,
por meu intermédio, o que convém a cada uma,encha minha mãozinha e sem deixar
seus braços, sem virar a cabeça, darei seus tesouros à alma que vier me pedir
seu alimento. Se ela o achar a seu gosto, saberei que não é a mim, mas ao
Senhor que ela o deve; pelo contrário, se ela se lamentar e achar amargo o
que lhe apresentar, minha paz não ficará perturbada, tentarei persuadi-la que
esse alimento vem do Senhor e tomarei cuidado para não lhe procurar
outro"(143). Em suma,
de pequena até à morte, Teresa de Lisieux esteve sempre em paz e, mesmo
quando as turbulências da vida quiseram prejudicar sua paz, ela soube
conservá-la com carinho e cuidado. Quando criança, tendo conseguido a
permissão de entrar na Associação da Virgem Santíssima, teve de ir algumas
vezes à Abadia. Então, como ninguém lhe dava atenção e como não tinha uma
Mestre amiga, ela se sentia só e triste. Para uma criança sentimental como
Teresinha seria bem normal um pouco de desespero e revolta. No entanto, o que
lemos e encontramos na sua Autobiografia é bem diferente. Ela nos fala de
paz, da sua constante e inabalável paz, mesmo sendo ainda uma criança, que
começava a subir a Montanha do Amor:"Ah, era,sim, pela Santíssima Virgem
somente que vinha à Abadia! Às vezes, eu me sentia só, bem só; como nos dias
de minha vida de pensionista, quando eu passeava triste e doente no grande
pátio, repetia estas palavras que sempre faziam renascer a paz e a força no
meu coração:'A vida é teu navio e não tua morada!'..."(144). Os anos se
passaram, Teresinha se tornou Teresa de Lisieux e sua paz continuou
inabalável. Madre Genoveva, a santa fundadora do carmelo de Lisieux, tinha
razão no seu conselho, que foi como que uma leitura do íntimo da alma de
Teresa. Teresa de Lisieux serviu ao Senhor na paz e na alegria, porque esses
são os frutos benditos para quem semeia no amor e são o prêmio de quem sobe a
Montanha do amor: espere, minha filhinha, vou somente lhe dizer uma
palavrinha. Todas as vezes que você vem aqui, você me pede um ramalhete
espiritual, pois bem, hoje vou lhe dar este:Sirva a Deus com paz e com
alegria, lembre-se minha menina, que nosso Deus é o Deus da paz"(145). Santa
Teresinha do Menino Jesus e da Santa Face é o nome oficial e completo de
nossa Santa. E nesse nome, Teresa encontrou também a razão de sua paz.
Encontrou no Menino Jesus, que vem trazer a paz ao mundo, pois foi isso que
os anjos anunciaram quando o Menino nos foi dado. Na Face adorada de Jesus,
mesmo com o aspecto triste e doloroso, Teresa encontrou também uma razão de
sua paz:
"Tua Face é minha única Pátria
Ela é meu Reino de amor
Ela é minha alegre Pradaria
Meu doce Sol de cada dia
Ela é o Lírio do vale
Cujo perfume misterioso
Consola minha alma exilada
E fá-la saborear a paz do céu"(146). Alma de
paz, ela foi também uma mestra da paz. Suas palavras, seus ditos, seus
conselhos, suas cartas, suas poesias, sua Autobiografia, tudo canta a paz e
ensina a paz aos seus discípulos e devotos. Alguém poderia pensar e objetar
que, Teresa de Lisieux foi levada à paz pelo fato mesmo de sua angústia.
Nesse caso, ela não teria tido a paz; pelo contrário, teria sido uma alma
aprofundamento angustiada. No seu desespero, ela teria apelado constantemente
para a paz. Esse
discurso é absurdo, embora se relacione com um aspecto digno de ser
refletido. É verdade que, uma pessoa, como Teresinha ou Irmã Teresa,tinha
muitos motivos para ser uma alma angustiada e desesperada. Na sua vida nos
Buissonnets, sem mãe e sem sua segunda mãe, sua irmã Paulina, mesmo cercada
de carinho e afeto dos seus, ela foi acometida de muitos problemas
psicológicos, que poderiam tê-la frustrado para sempre. No Carmelo, bem
jovem, na flor da idade, com seus quinze anos diante de uma comunidade
adulta, seguindo uma vida austera e regulamentada pela regra carmelitana,
Teresinha, menina bonita e cheia de vida, não deixou de ser uma garota humana
com todos seus sonhos e anseios. Mesmo assim, ela soube aliar a dureza de uma
vida carmelitana com as alegrias de uma vida humana perfeita e ideal. Não sentiu
angústia, nem desespero, porque ela sabia o que queria, tinha um ideal
sublime a colimar e se empregou totalmente em tudo por amor. Que tenha havido
conflitos na sua alma, isso é mais do que natural. Mas, Teresa não dá
importância a isso. Ela os descreve implicitamente, somente para mostrar como
os venceu e como a graça divina foi capaz de modelar a sua alma. Na harmonia
existencial de sua vida, Teresa de Lisieux encontrou a paz, porque se
apaixonou por Deus e nessa linha foi capaz de superar todos os obstáculos
humanos. Foi aí que ela encontrou a paz, a paz interior, que é divina, porque
vem de Deus. Assim, nos momentos mais difíceis e dramáticos de sua vida,
Teresa deixa transparecer a doce harmonia da paz na sua alma.Descrevendo a
sua emocionante entrada no carmelo de Lisieux, ela faz questão de
dizer:"Alguns instantes depois, as portas da arca santa se fechavam
atrás de mim e lá eu recebia os abraços das irmãs queridas, que me tinham
servido de mães e que ia, a partir de então, tomar como modelos de minhas
ações. Enfim, meus desejos estavam realizados, minha alma sentia uma Paz tão
doce e tão profunda que me seria impossível
exprimi-la e desde 7 anos e
meio essa paz íntima ficou como herança, ela não me abandonou no meio das
maiores provações"(147).E não foi fácil para Teresa conservar sua paz na
vida de comunidade. Certas feitas, quase que era levada desespero, mas foi
aí, então, que a paz venceu, como é caso que ela nos conta a respeito de
certa mania de uma irmã, que na hora da oração provocava um barulho cabuloso
e chato, que fatigava sobremaneira a nossa Santa:"Dizer-lhe, minha
Madre, quanto esse barulhozinho me fatigava é coisa impossível; sentia uma
enorme vontade de voltar-me para ela e encarar a culpada que, seguramente, não se apercebia de seu tique, era o único
meio de adverti-la; mas, no fundo do coração, sentia que valia mais sofrer
isso por amor do bom Deus e para não desgostar à irmã. Ficava, pois,
tranqüila, tentava me unir ao bom Deus, esquecer o barulhozinho...tudo era
inútil, sentia o suor que me inundava e era obrigada a fazer, simplesmente,
uma oração de sofrimento, mas mesmo sofrendo, procurava o meio de fazê-lo não
com aborrecimento, mas com alegria e paz, pelo menos no íntimo da
alma"(148). E foi justamente essa paz, fruto de todo um trabalho divino
na sua alma, que Teresa de Lisieux ensinou aos seus discípulos. Nesta
segunda parte, vamos expor os ensinamentos de Santa Teresinha sobre a paz,
embora continuemos perscrutando sua vida, seus exemplos, seu comportamento,
porque tudo que a Santa ensinou e disse sobre as coisas boas de Deus, ela o
viveu primeiramente. Agora, vamos considerar mais a doutrina, a mensagem, os
ensinamentos, mas tudo ficará sempre mais claro e evidente, porque
continuaremos mostrando a teoria nos fatos da existência cotidiana de Teresa
de Lisieux. Numa carta
a Leônia, Teresinha inculcou a atitude de abandono e de verdade, porque essa
nos dá a paz. Ela lhe fala de sua experiência pessoal, isto é, de seu
interesse pela data de sua profissão religiosa, com a finalidade explícita de
ajudar sua irmãzinha, que se sentia abatida pelo atraso de sua profissão.
Teresa, com um tato todo especial e como verdadeira pedagoga, não se faz de
mestra, mas conta sua experiência como uma verdadeira aula em busca da paz:"As
criaturas não verão meus esforços,
que ficarão escondidos no meu coração.Procurando fazer-me esquecida, não
queria outro olhar a não ser o de Jesus. Que importava se parecia pobre e
desprovida de espírito e de talentos. Quero por em prática este conselho da Imitação:'Que
este se glorifique com uma coisa, aquele outro com outra coisa, mas colocai
vossa glória no desprezo de vós mesmo, na minha vontade e na minha glória';,
ou ainda:'Quereis aprender alguma coisa que vos sirva? Gostai de ser ignorado
e tido por nada!'. Pensando em tudo isso, senti uma grande paz em minha alma,
senti que era a verdade e a paz! Não me inquietei mais com a data da minha
profissão..."(149). Sabemos
que a vida de Teresa de Lisieux não foi nada fácil. O sofrimento foi a nota
dominante e o sofrimento com todas suas amarguras finas e sutis, como o
menosprezo, a secura espiritual, as incompreensões e os maltratos físicos.
Vimos, acima, como Teresa soube conservar sempre a sua paz mesmo nas horas
mais difíceis de sofrimento até à morte. Pois bem, essa será também a
mensagem que Ela deu sempre enquanto viveu mediante os seus conselhos
escritos e orais. Numa belíssima carta a Celina, de 4 de abril de 1889, ela
instruía sua irmã querida de uma maneira sutil, como aliás costumava fazê-lo,
isto é, pondo-se como escudo e como exemplo. Mas, nessa carta está também uma
lição de psicologia profunda. Teresa separa, admiravelmente, a paz da
alegria. Não se trata de separar dois frutos inseparáveis do amor.Trata-se
apenas de não confundir sentimentos. Paz não se confunde com alegria sentida,
ou seja, estar em paz não significa estar sentindo alegria por não estar em
paz. Em primeiro lugar, refere-se a Santa à alegria sentida, mas podemos
também pensar no sentimento de alegria em toda sua extensão. Isso quer dizer
que estar em paz não quer dizer que alguém está ou se sente alegre
humanamente. A alegria espiritual, essa nunca se separa da paz, mas, às
vezes, por motivos vários, a alegria humana ou, mais especialmente, aquela
alegria sentida fica como que oculta. No fundo, paz e alegria não se separam,
mas paz e alegria humana, sobretudo aquela muito sentida, podem não coexistir
obrigatoriamente. Essa é a lição teresiana:"Vejamos a vida sob seu dia
verdadeiro...É um instante entre duas eternidades...Soframos em
paz...Confesso que essa palavra paz me parecia um pouco forte, mas, outro
dia, refletindo sobre isso, encontrei o segredo de sofrer em paz...Quem diz
paz não diz alegria, ou, pelo menos, alegria sentida...Para sofrer em paz,
basta querer mesmo tudo o que Jesus quer"(150). Observe-se
que, a Santa acrescenta outra mensagem de suma importância, a saber, os
segredo de sofrer em paz. O sofrimento no fundo é uma contradição, ou seja, é
uma desordem entre o meu querer, o meu bem-estar, a minha situação e o que me
acontece, o que vem de contra a mim. Ora bem, pelo amor, sem nos deixarmos
levar por sentimentalismos inúteis e estéreis, podemos cancelar o ponta de
contradição, justamente entrando em acordo com o Supremo Senhor de todas as
coisas. Amando-O, podemos e devemos quere o que Ele quer. Pois bem, é nesse
encontro de vontades, de querer, que está a paz. O sofrimento humano
continuará, porque a contradição não é totalmente extirpada- o que acontecerá
só no céu - mas, pela fusão de vontades, a paz invade o coração mesmo no
sofrimento. É o que ensinava Teresa à irmã Inês numa carta de 8 de janeiro de
1889:"O cordeiro se engana não crendo que o brinquedo de Jesus esteja
nas trevas, ela está mergulhado nelas. Talvez, o cordeirinho concorde que essas trevas são luminosas, mas, apesar de tudo, são
trevas...Sua única consolação é uma força e uma paz muito grande e, depois,
ele espera ser como Jesus quer, eis aí sua alegria, porque, do contrário,
tudo é tristeza!"(151). Teresa
voltará sempre a esse tema, isto é, querer o querer de Deus, querer o querer
do Amado, fundir as vontades, a própria com a de Deus. Todavia, ela apresenta
outro motivo para nossa paz interior, a saber, a esperança da eternidade
feliz e recompensadora. Não se pense, porém, que nossa Santa procure sempre
uma válvula de escape para não enfrentar, diretamente, as realidades da vida,
de tal maneira que seja alienada e sentina uma doutrina alienante. Teresa foi
realista no mais profundo sentido da palavra. Acontece que, por ser realista
é que Ela não esquece os valores transcendais e sobrenaturais, que são os
mais importantes e os únicos realmente permanentes. Assim é que aparece em
cena a esperança da Pátria, quando nem tudo vai bem conosco, ou seja, quando
entramos em contradição com alguma coisa e, então, sofremos.A Leônia ela
enviou essa mensagem de esperança e de paz:"Aguardemos, , soframos em
paz, a hora do repouso se aproxima, as leves tribulações dessa vida de um
momento produzem em nós um peso eterno de glória"(152).Numa carta a
Celina, em abril de 1889, ela repetia, com ênfase, esse pensamento de
confiança e de esperança:"Celina querida, um dia iremos para o céu, para
sempre, então não haverá mais nem dia
nem noite como nesta terra...Oh, que alegria, marchemos em paz olhando o céu,
o ÚNICO objetivo de nossos trabalhos.A hora do repouso se
aproxima"(153). Portanto,
aceitação tranqüila da vontade de Deus e a confiança provocada pela esperança
podem nos dar aquela tranqüilidade de espírito, que chamamos de paz interior,
mesmo quando o sacrifício pedido é grande e quando a noite, mesmo espiritual,
se faz pesada sobre nós:"Se a noite dá medo à criancinha, se ele reclama
porque não Aquele que o carrega, que feche os olhos, que faça,
VOLUNTARIAMENTE, o sacrifício que lhe é pedido e, depois, que aguarde o
sono...comportando-se assim em paz, a noite, que ele não verá mais, não
poderá fazer-lhe medo e logo a calma, senão a alegria, renascerá no seu
coraçãozinho"(154). Teresa de
Lisieux trouxe uma mensagem ao mundo, ela ensinou aos homens um novo caminho
para irmos até Deus. Sua espiritualidade é chamada de Pequeno Caminho. Esse
Pequeno Caminho é o caminho da alegria e o caminho da paz. Ele, pelas suas
próprias estruturas intrínsecas e essenciais, é o condutor mais direto para a
paz da alma. Com efeito, quem se humilha, que se reconhece pequeno e fraco,
quem, por conseguinte, confia e se abandona nos braços do Pai, quem, em uma
palavra, ama de verdade a Deus, só pode ter paz no coração. Nada o perturba,
nem as calúnias, nem as ingratidões, nem as incompreensões, nem as dores
físicas e morais, nem mesmo as provações vindas de Deus. Assim, Teresinha
instruía Celina, numa carta de 6 de julho de 1893:"...meu Diretor, que é
Jesus me ensina a não contar meus atos; Ele me ensina a fazer tudo por amor,
a nada Lhe recusar, a estar contente quando Ele me dá uma ocasião de Lhe provar que o amo, mas isso se faz na paz, no abandono, é Jesus quem
faz tudo e eu não faço nada"(155).
Abandonar-se nas mãos de Deus, querer fazer só sua vontade,
entregar-se totalmente ao seu querer, jogando-se mesmo nos braços do Pai, eis o Pequeno Caminho da
paz:"Pensei, durante algum tempo, que agora, já que Jesus não pedia
nada, era preciso ir docemente na paz e no amor fazendo somente o que Ele me
pedia"(156). Essa atitude de caminhar tranqüilamente além de ser uma
demonstração de paz, ela leva de fato a alma à paz verdadeira e ela nunca
deve deixar de existir nas nossas tomadas de posição, mesmo quando estamos
excitados pelo amor de Deus. A paz é uma espécie de marca da presença de
Deus. A Celina Maudelonde, nossa Santa escrevia aos 26 de março de
1894:"A grande paz, que você está sentindo, para mim é um sinal bem
manifesto da vontade do bom Deus, porque só Ele pode derramá-la na sua alma e
a felicidade, que você sente sob seu olhar divino, não pode vir senão
dEle"(157).Assim, Ela mesma, a Santa, quando delirava de alegria pela
descoberta de sua vocação de amor, teve o cuidado de anotar na sua
Autobiografia:"Por que falar de uma alegria delirante? Não, essa
expressão não é justa, é antes a paz calma e serena do navegador que se
apercebe do farol, que deve conduzi-lo ao porto"(158). Na
conhecida poesia "Viver de Amor", Teresinha volta a esse tema com a
seguinte estrofe:
"Viver de amor é navegar sem cessar Semeando a paz, a alegrai em todos os
corações"(159). O amante
de Deus, o peregrino do Pequeno Caminho, o alpinista da Montanha do Amor se
alegra e vive em paz,pois, mesmo sabendo que se consume na caminhada da vida.
Tudo é alegria, tudo é paz, mesmo quando, como uma vela, tem de se consumir
por amor:
"Agora, vítima feliz
Que se imola ao Amor
Gozai da alegria, da paz íntima
De vos consumir cada dia"(160). Para nos
ajudar, psicologicamente, sobretudo porque somos sempre fracos e apegados às
limitações da nossa natureza humana, Teresinha, além dos motivos
sobrenaturais acima apontados, lembra uma razão humana e simples, que pode
nos ajudar a manter a paz da alma. E a lição é pensar que outra situação poderia
acontecer ou ter acontecido e que, certamente, aquilo que nos incomoda não
nos afetaria de modo algum. Esse pensamento deixa-nos em paz, quando às vezes
somos perturbados por algum fato que não queríamos que acontecesse. Na vida
da Santa encontramos uma reflexão sobre determinado fato, que nos esclarece o
pensamento de Teresinha. É que podaram os castanheiros do Carmelo e a Santa
sentiu a falta da beleza das sombras dos castanheiros. Mais tarde, ela contou
a Irmã Inês a reflexão que fizera sobre o fato:"Primeiramente, foi uma
tristeza amarga e grandes combates ao mesmo tempo. Gostava tanto das sombras e elas não estariam mais esse ano! Os
ramos já verdes estavam em pedaços pelo chão, mais nada senão troncos! Depois,
de repente, passei por cima dizendo-me: Se estivesse em outro Carmelo, que me
importaria se cortassem, mesmo inteiramente, os castanheiros do Carmelo de
Lisieux?! E senti uma grande paz e uma alegria celeste"(161). Eis aí a
constatação de um fato importante: até mesmo os grandes santos não perdem
seus sentimentos humanos e, por isso, às vezes eles sentem tremendamente uma
provação humana. Todavia, as palavras de Teresa nos ensinam a passar por
cima, apontando, entre outros motivos, a razão mesma, bem humana, de pensar
que poderia tal situação não dizer nada para nós, se estivéssemos em outra
circunstância. Todos nós
humanos mortais vivemos num campo de combate.Aqui e ali, agora e mais tarde,
sempre estamos em luta contra alguma coisa. São as tentações, são as
dificuldades dos irmãos, são as humilhações da vida, em suma, é uma multidão
de coisas que nos trazem os combates da vida. Teresinha estava convencida
dessa realidade, por isso escreveu para Celina:"Li, esta manhã, uma
passagem do Evangelho, na qual se diz:'Não vim trazer a paz,mas a espada'.Só
nos resta combater!"(162). Paz interior, portanto, não significa
passivismo, quietismo, indiferença, alienação. A paz interior teresiana
significa, como Jesus ensinou, combate, luta, guerra. Todavia,
em todos os combates não se deve nunca perder essa paz. A própria paz exige o
combate, mas é com a paz que se deve lutar, porque,de pois, sairemos da luta
com maior paz ainda. Santa Teresinha sofreu muito no Carmelo por parte de
algumas irmãs. Foi muito humilhada. Ela, no leito de morte, confessou muita
coisa a esse respeito à sua irmã Inês e, depois, acrescentou:"O bom Deus
me dá assim todos os meios de permanecer bem pequena; mas é isso que é
preciso; estou sempre contente; eu me arranjo, mesmo no meio da tempestade,
de modo a me conservar bem em paz por dentro. Se me contam sobre combates
contra as irmãs, procuro não me animar, da minha parte, contra esta ou
aquela. É preciso, por exemplo, que mesmo escutando, possa olhar pela janela
e gozar interiormente da vista do céu, das árvores...A senhora compreende? Há
pouco, durante minha luta a propósito de Irmã X, olhava, com prazer, as
lindas gralhas brigarem no prado, estava em paz como na oração...Combati
muito com...fiquei muito cansada! Mas, não temo a guerra. É a vontade de Deus
que lute até à morte"(163). Teresinha
chegou a um alto grau de perfeição, de tal modo que muita coisa já não podia
penetrar no seu mundo interior, que se tornara um castelo bem
fortificado.Essa é, sem dúvida, uma meta a ser alcançada. Nas lutas da vida
contra tantas coisas e, às vezes, contra tanta gente, temos que ficar quase
imunes, untando nossa alma com um óleo especial, de tal maneira que as águas
sujas do mundo e das pessoas não possam nos sujar. Foi assim que Teresa
ficou:"Meu coração está cheio da vontade do bom Deus, assim, quando
derramam alguma coisa sobre ele, ela não penetra no interior; é um nada que
desliza facilmente, como o óleo que não pode se misturar com a água. Fico
sempre, no fundo, numa paz profunda, que nada pode perturbar"(164). Esses
combates da vida, como dissemos, tomam as mais variadas formas de
apresentação. Assim, ora são as opiniões dos homens, ora são tentações do
demônio, ora é a nossa própria natureza, em suma, ora somos nós mesmos, ora
são os outros, ora são as coisas da vida. Diante de tudo, Teresa nos
aconselha sempre a permanecer em paz. Quando ela estava muito doente, ouviu
as mais diversas opiniões sobre seu estado de saúde. Isso a levou a fazer a
seguinte interessante reflexão:Com que paz eu deixo dizer, a minha volta, que
estou melhor! Na semana passada estava de pé e me achavam bem doente. Esta
semana, não posso me sustentar, estou esgotada e eis que me julgam salva!
Mas, em que dá tudo isso?!"(165). A
propósito de falsas acusações, nossa Santa tem um conselho muito importante para
os peregrinos do Pequeno Caminho:"Quando somos incompreendidos e
julgados desfavoravelmente, para que nos defender, nos explicar? Deixemos
para lá, não digamos nada, é tão doce não dizer nada, deixar-se julgar não
importa como! Não vemos no Evangelho que Santa Madalena se tenha explicado,
quando sua irmã a acusava de ficar aos pés de Jesus sem fazer nada. Ela não
disse:'Ó Marta, e você soubesse a
felicidade que estou sentindo, se você ouvisse as palavras que estou ouvindo!
E, ademais, foi Jesus quem me disse de ficar aqui'. Não, ela preferiu se
calar. Ó bem-aventurado silêncio, que dá tanta paz à alma!"(166). Teresinha
sabia de cor a Imitação de Cristo. Esse livrinho a influenciou muito, mesmo
quando, tendo escalado a montanha do amor, já se encontrava no cume da
perfeição. Um exemplo podemos ver,
quando ela, relembrando um texto da Imitação e, ao mesmo tempo, o silêncio de
Jesus diante dos seus falsos acusadores, escrevia para Celina:"Que este
se glorifica com uma coisa, que aquele
com outra, quanto a vós, colocai vossa alegria no menosprezo de vós
mesmo'. Como essas palavras dão paz À
alma..."(167). Portanto, o ensinamento teresiano é que as falsas
acusações não nos devem perturbar. Mas, isso ainda é pouco. Teresa vai mais
adiante e acrescenta que, mesmos os desprezos por parte dos outros devem
deixar sempre em nós a paz interior. Não basta, pois, não perturbar a paz; é
preciso encontrar a paz, onde ela poderia até desaparecer, como no caso de
menosprezo por parte dos nossos irmãos. Em outra carta, essa dirigida a
Leônia, Teresa volta à mesma temática da Imitação. Como essas palavras dão paz À alma..."(167). Portanto, o
ensinamento teresiano é que as falsas acusações não nos devem perturbar. Mas,
isso ainda é pouco. Teresa vai mais adiante e acrescenta que, mesmos os
desprezos por parte dos outros devem deixar sempre em nós a paz interior. Não
basta, pois, não perturbar a paz; é preciso encontrar a paz, onde ela poderia
até desaparecer, como no caso de menosprezo por parte dos nossos irmãos. Em outra
carta, essa dirigida a Leônia, Teresa volta à mesma temática da Imitação de
Cristo, relembrando mais um pensamento do mesmo precioso livrinho e
concluindo que o menosprezo tem uma razão de verdade e, conseqüentemente,
deve nos dar a paz interior:" 'Você quer aprender alguma coisa que lhe sirva? Goste de ser ignorado e
tido por nada!'. Pensando em tudo
isso, senti uma grande paz em minha alma, senti que era a verdade e a paz!"(168). Aqui,
observamos a ligação que Teresinha estabelece entre a paz e a verdade. Sim, a
paz é fruto da ordem, a ordem, por sua vez, tem que ser a segundo a verdade.
A desordem é erro, é mentira, é engano, conseqüentemente, não produz a paz,
mas o desconforto, a angustia. Na sua Legenda do Cordeirinho, escrita para consolar a Madre Gonzaga, Teresa
escreve estas palavras:"Senhor, eu o creio, mas sobretudo sinto que
vossas palavras são a verdade, pois elas dão a paz, a alegria no meu
coraçãozinho..."(169). Eis até onde chega o raciocínio teresiano: as
palavras de Jesus são verdadeiras, porque dão a paz! Com efeito, se assim não
fosse, certamente elas seriam engano, logo, angústia, mentira. Se devemos
manter a paz no nosso relacionamento com os outros, também devemos fazê-lo,
quando se trata do nosso relacionamento conosco mesmo. Aí, é que é preciso
manter a paz. E, às vezes, não é fácil! As nossas estruturas, a nossa
personalidade, o nosso caráter, as nossas limitações e fraquezas, as nossas
tendências, tudo isso pode nos levar à intranqüilidade interior e produzir um
mundo complicado e complexo, cheio de problemas e angústias. Temos, pois, que
aprender a nos suportar, pois esse é o primeiro passo para manter nossa paz
interior. Muitas doenças mentais, muitos internamentos, muitos suicídios,
muitos desesperos, muitas lágrimas são ocasionados pelo simples fato de que
não aprendemos ou não queremos nos suportar. Por isso, Teresinha colocou na
boca de Nossa Senhora essas palavras
dirigidas a Celina:"Se você quiser suportar em paz a provação de
não se agradar a si mesma, você me dará um doce asilo..."(170). Suportar
a provação de ser como se é, eis aí o começo de um segredo precioso para
manter a nossa paz. Na mesma
passagem acima citada, Teresa lembra
a Celina que, quanto mais se é pobre, mais se é amado por Jesus. Aqui está
outra análise preciosa de nossa Santa. Uma das causas de nossa angústia
interior é não querer aceitar nossa fraqueza. Não nos aceitamos por vários
motivos, mas, no fundo, é por causa das nossas limitações, debilidades,
fraquezas. Ora bem, toda a mensagem do Pequeno Caminho se envereda justamente
para ir ao encontro dessa situação, transformando-a em trampolim para um
salto para o alto. Já vimos isso de sobejo através de todo o discurso desse
livro, mas lembremos como aceitar as fraquezas, transformando-as em movimento
de elevação, por amor, confiança e abandono, é caminho de paz interior,
segundo o ensinamento teresiano:"Só encontramos a paz e o repouso do
coração, quando nos vemos tão miseráveis, quando não queremos mais nos
considerar e quando só fitamos o único Bem-Amado!"(171). Em síntese, é
nos aceitando e olhando para Ele, Deus, ponde nEle toda nossa esperança, que
teremos a paz e o repouso do coração. Outro
passo teresiano nesse discurso da paz interior, quando se trata de nós
mesmos, é um conselho, próprio da Santa, que, embora já tenha sabor de
santidade, é, sem dúvida, um conselho de paz para todos seus discípulos. O
fato é que, muitas vezes, nossa perturbação interior é ocasionada por
bagatelas da vida, por coisas que encontramos na estrada da existência, às
margens dos nossos caminhos de cada dia. Às vezes, são coisas boas,são flores
que crescem à beira da estrada. Não têm maldade, são atraentes, podem até nos
deliciar e encantar. Não fazem mal. Mas, quantas vezes elas perturbam,
encantam demais, atraem demais e, conseqüentemente, perturbavam a pobreza, a
ordem, a paz da alma. No cume da
montanha, o peregrino do Pequeno Caminho goza de uma grande alegria e,
juntamente com essa alegria, ele desfruta de uma paz incomensurável. É
verdade que, essa alegria e essa paz já o acompanham desde o início da subida
da montanha do amor, todavia é lá em cima que ele pode gozar de toda a
profundidade, de toda a largueza e de toda a beleza dessa alegria e dessa
paz. Teresa não só ensinou essa doutrina,mas a viveu sinceramente e a prometeu como um dom de
si após sua morte. Aquela alegria que ela prometera ao Pe. Belliere, conforme
vimos acima, é uma alegria cheia de paz, segundo suas próprias
palavras:"Sim, estou certa de que, após minha entrada na vida, a tristeza
de meu querido irmãozinho se mudará em uma alegria cheia de paz, que nenhuma
criatura poderá lhe tirar"(106). Com
efeito, Teresa tinha consciência de que servia e amava o Deus da paz e do
amor; tinha consciência de que estava na verdade e essa consciência lhe dava
a mais profunda alegria e paz. Falamos, há pouco, sobre a alegria teresiana,
aprofundemos, agora, a paz segundo a vida e o pensamento teresianos. Iniciemos
examinando um pouco a própria vida de nossa Santa. E dizemos de logo que,
ela, malgrado os sofrimentos, os percalços, as incompreensões, as
dificuldades e contrariedades, foi sempre cheia de muita paz. Com efeito,
Teresa de Lisieux viveu sempre cheia de paz desde pequenina até à morte. Certa
tarde, junto de sua irmã querida, Paulina, em Trouville, contemplando o por
do sol, Teresa tomou uma resolução bem séria:"À tardinha, na hora em que
o sol parece se banhar na imensidade
das ondas, deixando diante dele uma trilha luminosa, fui me assentar,
sozinha, sobre um rochedo, com Paulina...Então, lembrei-me da emocionante
história "Do raio de ouro!...'. Contemplei longamente esse raio
luminoso, imagem da graça, que ilumina o caminho que deve percorrer o pequeno barco de graciosa vela branca...Ao
lado de Paulina, tomei a resolução de nunca distanciar minha alma do olhar de
Jesus, a fim de que navegue em paz para a Pátria dos céus!"(107). E essa
paz que ela desejava, já como criança, vai ficar sempre na sua alma. Teresa
vai afirmar essa segurança muitíssimas vezes em toda a sua vida. Os exemplos
e as palavras da Santa são inúmeros. Escrevendo sobre sua reflexão a respeito
do seu desejo de entrar no Carmelo,
diz claramente:"Lembrar-me-ei sempre, minha Madre querida, com que
ternura a senhora me consolou...Depois, a senhora me explicou a vida do Carmelo,
que me pareceu muito bela! Ao repassar no meu espírito tudo o que senhora me
dissera, senti que o Carmelo era o deserto, para onde o bom Deus queria que
eu fosse também me esconder...Eu o senti com tanta força, que não havia a menor dúvida no meu coração: não era um
sonho de criança, que se deixar levar, mas a certeza de um chamado divina;
queria ir para o Carmelo não por Paulina, mas por Jesus somente...Pensei
muitas coisas, que as palavras não podem traduzir, mas que deixaram uma
grande paz na minha alma"(108). Já como
criança, Teresinha sabe unir a alegria com a paz, de tal maneira que qualquer
que seja o tipo de sua alegria, ela não perturbe jamais sua paz interior. Um
exemplo disso, temos no dia de sua primeira comunhão. Aquele dia e aquele acontecimento
marcaram profundamente a alma da Santa. Os anos se passaram e, mais tarde,
ela podia lembrar-se de tudo e comentar sobre sua paz e sua alegria daquele
belíssimo e inesquecível dia:"Ah, minha alegria foi sem amargura!...Não
fiquei insensível à festa de família, que aconteceu na noite de minha
primeira comunhão; o belo relógio que meu Rei me deu causou-me um grande
prazer, mas minha alegria era tranqüila e nada veio perturbar minha paz
íntima"(109). Essa paz,
tranqüila, doce, suave, profunda, ficará sempre na alma de Teresinha, apesar
do correr dos anos. No momento bonito de sua entrada no Carmelo, naquela hora
emocionante da despedida, especialmente no instante da bênção solene que lhe
deu seu querido Rei e Pai, apesar de toda a dramaticidade e seriedade da
ocasião, Teresinha sentiu, no mais profundo do seu pequeno ser, a força de
sua paz interior:"Enfim, meus desejos estavam realizados, minha alma
sentia uma PAZ tão doce e tão
profunda que me seria impossível exprimi-la e já há sete anos e meio essa paz
íntima continua como minha herança, ela não me abandonou no meio das maiores
provações"(110). Os anos
vão se passando e Teresinha, conforme suas próprias palavras, continua com
sua grande paz íntima e profunda. Chegou o dia de sua profissão, 8 de
setembro de 1890. Nossa Santa estava com dezessete anos de idade. Na véspera
do grande dia, uma tempestade irrompeu na sua alma,mas logo s Santa, com
muita prudência, pôde voltar ao seu normal e,foi assim que ela descreveu a
manhã radiosa do dia de sua profissão:"Na manhã do dia 8 de setembro, eu
me senti inundada por um rio de paz e foi nesta paz 'que ultrapassava todo
sentimento' que pronunciei meus Santos Votos"(111). Comentando ainda seu
dia de profissão, nossa Santa registrou estas importantes observações sobre
sua paz interior:"Naquele dia tudo era pequeno, exceto as graças e a paz que recebi, exceto a
alegria cheia de paz que senti à noite, olhando as estrelas cintilarem no
firmamento, pensando que, em breve, o belo céu se abriria a meus olhos
fascinados e que poderia me unir a meu Esposo no seio de uma
alegria eterna"(112). Completando essa belíssima narração, Teresa lembra
o dia de sua tomada de véu. Joga com as palavras véu e velado (em francês:
voile e voilé) para dizer que, esse dia foi marcado por lágrimas e tristezas.
Todavia, de repente, a Santa volta ao
tema preferido da paz e escreve:"Contudo a paz, sempre a paz, se
encontrava no fundo do cálice"(113). Assim foi
a vida de Santa Teresinha do Menino Jesus até sua morte. A alegria e a paz
foram, de fato, sua partilha, mesmo quando muitos outros dons lhe foram
retirados por uma provação e purificação da fé. Madre Inês, na sua
emocionante descrição do dia da morte de Santa Teresinha, assim relatou os
momentos do grande êxtase da Santa, logo após sua morte:"As irmãs
tiveram o tempo para se ajoelharem em volta do leito e foram testemunhas do
êxtase da santinha moribunda. Seu rosto retomara a tez de lírio, que tinha em plena saúde, seus olhos se
fixaram no alto, brilhando de paz e
de alegria"(114). Essa paz
de Santa Teresinha,porém, não foi momentânea nem fruto de instantes de
felicidade. Na verdade, a Santa teve, como já vimos, uma existência bastante
atribulada e cheia de sofrimentos.A paz de Teresa foi constante, mesmo com os
altos e baixos de sua vida. Nada perturbava sua paz, de tal maneira que,
mesmo em momentos de profunda provação espiritual ou de sofrimentos físicos
intensos, como aconteceu na sua doença mortal, a Santa nunca perdeu a sua
profunda paz interior. É verdade que, quando pequena, na grande provação da crise de escrúpulos,
ela sentiu atormentada a sua paz. Todavia, nunca a perdeu. A crise
psicológica foi de tal modo violenta, que a menina Teresinha se viu como que
perdida dentro dela, todavia a sua paz sempre continuou. Assim, quando estava
aliviada, logo paz a inundava, embora fosse apenas por alguns
instantes:"...foi durante meu retiro para a segunda comunhão que me vi
assaltada pela terrível doença dos escrúpulos. É preciso ter passado por esse
martírio para compreendê-lo bem. Dizer o que sofri durante um ano e meio,
ser-me-ia impossível. Todos os meus pensamentos e ações, as mais simples,
tornavam-se para mim um motivo de aperreio; só tinha repouso quando os dizia
a Maria, o que me custava muito, porque me via obrigada a lhe dizer os mais extravagantes
pensamentos, que tinha dela mesma. Assim que meu fardo era deposto, gozava de
um instante de paz, mas essa paz passava como um relâmpago e logo meu
martírio recomeçava"(115). Com o
passar do tempo e o progresso da caminhada nas sendas da perfeição, Teresa de
Lisieux vai descobrindo que, mesmo nos momentos difíceis, não podia, de modo
algum, perder sua paz. Antes, seria justamente nesses momentos que ela
deveria sustentar a paz e servir-se dela como um pano de fundo de toda a
dramaticidade da circunstância. Podemos dizer, então, que Teresa jamais
perdeu sua paz e que o conservou em todos os instantes, sobretudo em duas
circunstâncias especiais, isto é, nos sofrimentos físicos e espirituais e nas
chamadas provações da alma. No
Manuscrito C, há uma declaração maravilhosa de Teresa a respeito do seu
estado de espírito durante o sofrimento. Aí, nossa Santa confessa claramente
que fez uma magnífico progresso na sua corrida de gigante na subida da
Montanha do Amor. A confissão de Teresa é, de fato, impressionante, porque,
em poucas palavras, ela diz todo o estado permanente de uma alma,que já
chegou ao cume da Montanha:"Madre querida, a senhora sabe bem que, o bom
Deus se dignou fazer passar a minha alma
por muitos gêneros de provações; sofri muito desde que estou nesta
terra, mas, se na minha infância sofri com tristeza, não é mais assim que
sofro agora, é na alegria e na paz, sou verdadeiramente feliz por
sofrer"(116). No mesmo Manuscrito, um pouco adiante, referindo-se a
possíveis sofrimentos, que sua irmã Inês poderia padecer em um Carmelo de
missão, ela conclui suas reflexões com essa tranqüilidade
maravilhosa:"...enfim, meu céu estava carregado de nuvens...somente o
fundo de meu coração continuava na calma e na paz"(117). Pelos
finais de agosto de 1897, Irmã Inês estava, de joelhos, ao lado de Teresa,
vendo-a sofrer muito. Teresa vendo sua irmã um tanto triste,
perguntou-lhe:"Olhinhos tristes, por quê?". Irmã Inês lhe respondeu
de imediato:"Porque você está sofrendo muito!". Teresa, então,
completou o diálogo com uma sentença digna de sua vida e de sua
mensagem:"Sim, mas paz também, paz!"(118). Seis dias após esse
pequeno diálogo, referindo-se ao seu sofrimento, Teresinha concluía uma
conversa com Irmã Inês, afirmando:"Enfim, no fundo sinto uma grande
paz"(119).
Concretamente, pensando na sua terrível doença, Santa Teresinha não se
angustia como acontece com muitas pessoas, que já estão em estado adiantado
de perfeição ou que, pelo menos, vivem na busca da perfeição. A notícia ou
mesmo o fato de uma doença grave deixa, muitas vezes, algumas pessoas
terrivelmente transtornadas, quando não revoltadas. Teresa de Lisieux nunca
perdeu a sua paz desde o dia em que tomou, por si mesma, conhecimento de que
estava gravemente doente até o final da sua caminhada de enferma. Como sua doença se prolongasse e não
houvesse esperança de melhora, ela, em julho de 1897, disse:"Uma
grandíssima paz na minha alma. Minha barquinha voltou às ondas. Sei que não
voltarei, mas estou resignada a permanecer doente muitos meses, tanto quanto
o bom Deus quiser"(120). Ao leitor
atento não pode passar despercebida certa desatenção, da parte de alguns que
se aproximavam de Santa Teresinha, quando ela estava muito doente, com
respeito a certo modo de falar e, mais precisamente, com relação à sua morte.
Com efeito, algumas pessoas, imprudentemente, pelo menos sob o ponto de vista
humano, não foram cautas ao falar em
certas vezes e de certos modos com a Santa a respeito da sua própria
morte. Nota-se, na leitura das "Últimas Conversas", certa ânsia por
pormenores acerca da morte da Santa, de tal maneira que alguns chegam a lhe
pedir informações, a falar-lhe a respeito do dia, do modo de sua morte, como
se isso fosse natural com alguém que está psicologicamente muito abalado e
que precisa, naturalmente,de um pouco mais de ânimo e encorajamento. Todavia,
mesmo assim, é impressionante como nossa Santa está tão acima das fraquezas humanas,
que não perde a paz e se mostra superiora a todos esses limites dos homens.
Um exemplo claro temos com o que aconteceu entre ela e a Irmã Inês no dia 25
de agosto de 1897. A Inês diz que chegou a lhe falar sobre seu desejo de
conhecer a data de sua morte. A resposta de Teresinha é verdadeiramente digna
de uma santa! Ela disse simplesmente:"Ah, eu não o desejo! Como estou em
paz! Isso não me inquieta de modo nenhum!"(121). Mas, se
Teresa de Lisieux soube sempre conservar sua paz em todos os sofrimentos,
especialmente, nos momentos mais dolorosos de sua doença mortal, não menos a
conservou nos seus sofrimentos espirituais, sobretudo, nas suas provações. Essas
provações foram de diversas espécies. Uma delas, talvez a mais dolorosa, foi
a provação contra a fé. S. João da Cruz descreve-nos essa provação, pela qual
passam os grandes santos, como sendo uma noite escura. Teresa no-la compara a
um túnel, a um escuro subterrâneo, a um grande muro elevado até os céus. É
difícil medir a dor, a angústia, o sofrimento de alguém que ama
apaixonadamente e, de repente, vê que parece que seu amor está se
distanciando e indo embora. É duro, é duro demais ver desmoronar todo um
castelo que, durante anos e anos, foi se construindo dentro de nós! É quase
insuportável para um amante de Deus sentir, um belo dia, que tudo que ele
acreditou, sentiu, viveu, começa a tomar a forma de fumaça, de mentira, de
ilusão, de sonho. E, de repente, a pessoa sente que não tem mais nada, que
perdeu tudo, que foi enganada a vida inteira, que tudo foi mentira, que a
vida não é senão uma ilusão! Foi por essa terrível provação, que Teresa de
Lisieux passou nos últimos anos de sua vida nesta terra! Todavia, malgrado
tudo, ela nunca se atemorizou,nunca se acovardou,nunca se sentiu derrotada, angustiada.
A paz, sempre a paz no fundo do seu coração. Nos
inícios de setembro do anos de sua morte, mais precisamente no dia 8, ela
recebeu algumas manifestações de carinho e apreço. Tudo passado, ela
comentou:"... exteriormente, estou rodeada de delicadezas e, contudo, no
interior estou sempre na provação...mas também na paz"(122). Para dar
uma idéia da situação em que ela se encontrava por causa da sua provação
interior, certo dia, durante o silêncio do meio-dia, nossa Santa disse à Irmã
Inês:"Veja lá na frente o buraco escuro(debaixo dos castanheiros perto
do cemitério), onde não se distingue mais nada; é num buraco como esse que eu
estou com a alma e o corpo. Ah, sim, que trevas! Mas, mesmo assim estou em
paz"(123). Seis dias
antes de sua morte, Santa Teresinha ainda estava totalmente mergulhada nas
suas terríveis trevas interiores, ou seja, na sua noite escura. Até o fim da
vida, ela terá de suportar essa cruz e demonstrar, por essa cruz mais do que
pesada, que crê e que aceita todo o mistério do Deus insondável. Era o
momento da grande Santa viver só de fé! Ela aceita a vontade de Deus e
permanece, apesar de tudo, na sua grande paz. Irmã Inês lhe perguntara se ela
tinha intuições a respeito do dia de sua morte. A resposta não se fez esperar:"Ah,
minha Madre, intuições?! Se a senhora soubesse em que pobreza estou! Só sei o
que a senhora sabe; não adivinho nada a não ser pelo que vejo e sinto. Mas,
minha alma, apesar de suas trevas, está numa paz admirável"(124). Em janeiro
de 1889, Teresa escreveu um bilhete fraternal e confidencial para sua irmã
Inês. Nesse bilhete, nossa Santa abre sua alma e confessa o que a atormenta,
mas que não chega a perturbar sua paz:"O cordeiro está enganado pensando
que o brinquedo de Jesus não está nas trevas, ele está mergulhado nelas.
Talvez, e o cordeirinho concorda, essas trevas sejam luminosas, mas, apesar
de tudo, são trevas...Sua única consolação é uma força e uma paz muito grande
e, depois, ele espera ser como Jesus quer. Eis aí sua alegria, pois, do contrário,
tudo é tristeza!"(125). Nem a dor,
nem a doença, nem os sofrimentos morais, nem as provações, nada poderá acabar
com a paz interior de Teresa de Lisieux. Podemos resumir essa afirmação com
as próprias palavras da Santa, quando no final de sua poesia "Os
Responsórios de Santa Inês",
coloca nos lábios da mártir romana:
"Por isso, não temo nada, nem o ferro nem a chama
Não, nada pode perturbar minha paz inefável
E o fogo do amor, que consome minha alma
Não se extinguirá jamais!..."(126). Sem
dúvida, o pensamento do céu, a esperança da bem-aventurada felicidade na
Pátria são motivos bem fortes para sustentarem Teresinha na segurança de sua
paz. Servindo-se de alguns pensamentos do mártir Teófanes Venard, a Santa
escreveu numa imagem estas palavras de adeus às suas três irmãs:"Não
encontro nada na terra que me faça feliz; meu coração é demasiado grande,
nada daquilo que se chama felicidade neste mundo pode satisfazê-lo. Meu pensamento voa para a eternidade, o
tempo vai terminar!...meu coração está calmo como um lago tranqüilo ou um céu
sereno"(127). É bonito
ver que Teresa chega a querer aproveitar todos os possíveis sacrifícios para
demonstrar o seu amor por Deus, quando acontece que deixa escapar algum
pequeno sacrifício, então, o orgulho ou o desânimo ou a tristeza não a
vencem.Ela aceita o sacrifício de ter pedido aquele sacrifício e a paz que
ele lhe daria, pois os sacrifícios lhe trazem sempre a paz à alma:"Madre
bem-amada, a senhora está vendo que sou uma alminha que não pode oferecer ao
bom Deus senão coisas pequeninas e ainda me acontece, muitas vezes, deixar
escapar esses sacrificiosinhos, que dão tanta paz à alma. Isso não me
desencoraja, suporto ter um pouco menos de paz e procuro ser mais vigilante
na próxima vez"(128). Nesse
texto aparece, claramente, uma idéia teresiana de profundo sentido e alcance
psicológico. A paz, na verdade, é efeito de uma tranqüilidade interior, que,
por sua vez, provém da ordem das coisas dentro de nós. Havendo, pois, a
justiça, ou seja, a justa ordem ou ordenação do nosso mundo interior,
certamente sentiremos uma profunda paz na alma. Com efeito, quando estamos
desarrumados interiormente não nos sentimos bem e a intranqüilidade logo se apodera
de nós. Teresa sente o efeito de seus sacrifícios justamente porque eles a
conduziam nessa ordem espiritual, que era o atendimento ao apelo do Espírito,
que gritava dentro dela com palavras inenarráveis. Entende-se, assim, por que
Ela não queria perder nenhum momento ou ocasião para fazer um sacrifício, que
fosse a resposta a um apelo do Espírito Santo. Um pequenino fato da sua vida
na Comunidade demonstra como nossa Santa era solícita em descobrir, com a luz
de Deus, motivos, até humanos e psicológicos especialmente, para conservar
sempre a sua paz. Certo dia, Teresa teve uma pequena discussão com outra
religiosa à porta da cela da Madre, que estava descansando. O barulho
produzido fez a Madre abrir os olhos.De imediato, a irmã acusou Teresa de ter
sido a responsável pelo desagradável fato de ter acordado a Madre. A Santa
nos conta todo esse acontecido e conclui:"Eu que sentia tudo ao
contrário, tinha vontade de me defender; felizmente me veio uma idéia
luminosa, isto é, disse para mim mesma que certamente se eu começasse a me
justificar não ia poder guardar a paz de minha alma"(129). Mas, o
grande motivo da paz de Teresinha foi, sem dúvida nenhuma, o seu amor a Deus.
Amor ardente e apaixonado, que queria ver em todas as coisas, em todos os
acontecimentos, em todas as pessoas a expressão de uma vontade divina, de um
querer de Deus. Quando da sua doença mortal, Ela deu testemunho eloqüente,
por palavras e por atitudes, de seu amor cheio de fé e baseado na fé. Maria
Guérin, sua prima e religiosa carmelita como Ela, redigiu algumas cartas
preciosas relatando à sua família o desenrolar-se dos dias e da doença da
nossa Santa. Na Carta de 20 de julho de 1897, dirigida a Celina, faz a
seguinte eloqüente declaração:"Pensei, minha Celininha, que ao lhe dar
nossa doentinha como exemplo, não podia
lhe dar melhores conselhos. Oh, se estivesse no seu lugar, se ela
tivesse, como você, uma provaçãozinha por parte de sua família, como ela
saberia tirar proveito disso.Veria o bom Deus em todas as circunstâncias e
lhe ofereceria cada espinhozinho, que fere o coração, como um ato de perfeito
amor. Eis o que Ela faria e sentiria uma grande paz"(130). Essa paz
trouxe para Teresa uma grande felicidade. Realmente, para o peregrino da
Montanha do Amor, as alturas e, sobretudo, o cume da montanha oferecem uma
tranqüilidade de espírito, que é, sem dúvida, uma expressão magnífica da
felicidade espiritual, que alguém possa sentir na sua vida.Examinando a vida de Teresa de Lisieux, aprendemos
também para a nossa vida de cada dia, por isso, lembramos, aqui, a passagem
preciosa de outra carta de Maria Guérin, datada de 17 de agosto de 1897, e
dirigida a seu pai:"Não se deve crer que seu desejo de ir para o céu
seja um entusiasmo. Oh, não, é tudo bem cheio de paz! Ela me dizia nesta
manhã:'Se me dissessem que vou ficar boa, não pense que ficaria sem jeito;
ficaria contente tanto quanto se tivesse de morrer. Tenho um grande desejo do
céu, mas é sobretudo porque estou em uma grande paz que sou feliz, pois para
sentir uma alegria imensa como algumas vezes, quando o coração bate de
felicidade, oh, não!...estou em paz, eis por que estou feliz"(131). Vê-se,
claramente, pelo contexto da mensagem e da vida de Teresa de Lisieux que, não
devemos confundir jamais essa paz de que Ela tanto fala, com um simples
sentimento. Ademais, essa paz é, muitas vezes, conseqüência de uma
superposição, que paira acima de muitos sentimentos da natureza. Em suma, a
paz é espiritual, portanto, não se confunde com os sentimentos e, às vezes,
procede justamente da elevação por sobre certos sentimentos. É isso que
Teresa quer nos explicar e ensinar, quando, no Manuscrito C,
escreve:"Ah, que paz inunda a alma, quando ela se eleva acima dos
sentimentos da natureza...Não, não há alegria comparável àquela de que desfruta
o verdadeiro pobre em espírito"(132). Nesse texto, Teresinha nos dá um
exemplo claro do seu pensamento e de sua mensagem, a saber, a pobreza em
espírito, que faz o homem despojado de tudo e livre para voar. O desapego por
Deus torna o homem mais leve do que
uma pena e ele se inebria na felicidade do vôo, seguindo o sopro do Espírito,
que sopra quando e onde quer! Quase em
seguida do que foi citado acima, podemos encontrar outro esclarecimento sobre
que espécie de paz ela fala e como essa paz interior está acima e fora de
qualquer espécie de sentimentalismo. Eis como a Santa nos
esclarece:"Minha Madre querida, estou muito longe de praticar o que
compreendo e, contudo, só o desejo que sinto de por em prática me dá a
paz"(133). A humildade, pois, encontra aqui sua garrida. Não se trata de
praticar a virtude por simples desejo de perfeição; trata-se de um exercício
de amor. Assim, quando, sem culpa alguma, não se consegue chegar até lá,
então, o espírito não se abate, porque ele sabe muito bem que o amor só faz o
que pode e quando pode. A esse estado de aceitação da própria fraqueza, o
amor de Teresa acrescenta, porém, outro meio de ficar em paz, que é a
purificação dessa mesma fraqueza. Não basta, pois, aceitar-se como se é, mas
é preciso repelir o mal e fazer força para se progredir na subida da Montanha
do Amor. Teresinha nos lembra essa paz de espírito, que se consegue quando a
gente pede perdão a Deus e promete, com sua graça divina, fazer todo o
esforço para não se desbaratar no amor. Por esse caminho, a confissão
sacramental aparece como outro grande canal da paz interior:"Na vigília
do grande dia, recebi a absolvição pela segunda vez, minha confissão geral me
deixou uma grande paz na alma e o bom Deus não permitiu que a mais leve nuvem
viesse perturbá-la"(134). Hoje em
dia, muita gente recorre a especialistas na esperança de conseguir paz para
sua alma. Paga-se muito para isso. Emprega-se muito tempo precioso nesse
sentido. No entanto, os resultados nem sempre são animadores. A Igreja,
sacramento de Cristo, sempre nos deu um meio simples e seguro através o
sacramento da confissão. Nele se obtém, facilmente, o perdão de Deus e a
graça do Espírito Santo é derramada, em profusão, na alma, de tal maneira que
se possa se sentir aliviado do peso das nossas fraquezas e animado para a
batalha da vida. A vida sacramental é instrumental de paz, da grande paz, da
paz interior, dom do Espírito. Teresa de Lisieux bebeu nessa fonte
incomensurável de paz e felicidade. Na sua poesia "O Átomo de Jesus
Hóstia", ela escreve:
"Se sou desprezada pelo mundo
Se ele me olha como um nada
Uma paz divina me inunda
Pois tenho a Hóstia como meu sustento"(135). E ainda sobre a fonte de paz, que é a Eucaristia,
ela cantou em maio de 1897:
"Aguardo em paz a glória,
Da celeste morada
Pois encontro no cibório
o doce fruto do amor!"(136). O doce fruto do amor, a que se refere a poesia, é o
abandono. Teresa faz, aqui, uma ligação entre o sacramento e a vida
sacramental, isto é, o sacramento vivido é a própria experiência da caminhada
pessoal. Assim, a Eucaristia nos leva ao amor,que nos leva ao abandono, que é
parte fundamental do Pequeno Caminho teresiano. Toda a
espiritualidade teresiana é, essencialmente, um caminho de paz. O Pequeno
Caminho, pelas suas marcas fundamentais, é, essencialmente, caminhada para a
paz. O abandono, que é capital no Pequeno Caminho, é,sem dúvida, a estaca
mais segura para uma profunda e inabalável paz interior.Nessa mesma poesia,
apenas citada, nossa Santa canta feliz:
"Ele me dá neste mundo
Um oceano de paz
E nessa paz profunda
Eu repouso para sempre"(137). O famoso
Manuscrito B, da Autobiografia de Santa Teresinha do Menino Jesus e da Santa
Face, traz uma página, que merece toda nossa meditação. Vamos transcrevê-la,
porque ela encerra todo o discurso que poderíamos fazer sobre a paz e o
abandono, segundo os ensinamentos do Pequeno Caminho. Ver-se-á pelas linhas
de Teresa quanto é profunda e séria sua doutrina, mesmo porque une a mais
profunda mensagem evangélica aos ensinamentos mais modernos da psicologia
contemporânea:"Jesus, Jesus, se é tão doce o desejo de te amar, como não
o será o de te possuir, de gozar do Amor?...Como uma alma tão imperfeita como
a minha, pode aspirar a possuir a plenitude do Amor?...Ó Jesus, meu primeiro,
meu único amigo, tu, a que unicamente amo, dize-me qual é esse
mistério?...Por que tu não reservas essas imensas aspirações às grandes
almas, às Águias que planam nas alturas?...Eu me considero como um fraco
passarinho coberto somente com uma leve penugem; não sou uma águia, dela
tenho apenas os olhos e o coração pois, malgrado minha extrema pequenez, ouso
fixar o Sol divino, o Sol do Amor, e meu coração sente nele todas as
aspirações da Águia... O passarinho quisera voar para esse Sol brilhante que
encanta seus olhos, quisera imitar as Águias, seus irmãos, que ela vê se
elevar até à fornalha divina da
Santíssima Trindade...ah, tudo o que ele pode fazer é levantar suas asinhas,
mas levantar vôo, isso não está no seu pobre poder! Que vai acontecer com
ele? Morrer de tristeza ao se ver tão impotente? ...Oh, não! o passarinho nem
sequer vai se afligir. Com um abandono audacioso, ele quer ficar contemplando
seu Sol divino; nada poderia atemorizá-lo, nem o vento nem a chuva e, se
nuvens sombrias vêm esconder o Astro de Amor, o passarinho não muda de lugar,
ele sabe que além da nuvens seu Sol brilha sempre, que seu brilho não poderia
se eclipsar por um só instante. Às
vezes, é verdade, o coração do passarinho se vê assaltado pela tempestade,
parece-lhe não crer que exista outra coisa afora as nuvens que o envolvem; é,
então, o momento de alegria perfeita para o pobre e fraco pequeno ser. Que
felicidade para ele ficar lá apesar de tudo, fixar a luz invisível que se
oculta à sua fé!!!... Jesus, até o presente, compreendo teu amor pelo
passarinho,pois que ele não se afasta de ti...mas eu o sei e tu o sabes
também,muitas vezes, a criaturinha imperfeita, mesmo ficando em seu
lugar(isto é, sob os raios do Sol),deixa-se distrair um pouco de sua única
ocupação,pega um grãozinho à direita e à esquerda, corre atrás de um
vermezinho...depois, encontrando uma pocinha d'água, molha suas penas ainda
em formação, vê uma flor que lhe agrada, então seu espiritozinho se ocupa com
essa flor...enfim, não podendo planar como as águias, o pobre passarinho se
ocupa ainda com bagatelas da terra. Contudo, após todas suas traquinices, ao
invés de ir esconder-se em um canto para chorar sua miséria e morrer de
arrependimento, o passarinho se dirige para seu Bem-Amado Sol, apresenta aos
seus raios benfazejos suas asinhas molhadas, geme como a andorinha e no seu doce canto ele confia, conta, em
detalhes, suas infidelidades, pensando, com seu temerário abandono,
conquistar assim mais império, atrair mais plenamente o Amor dAquele, que não
veio chamar os justos mas os pecadores... Se o Astro Adorado fica surdo aos
gorjeios queixosos de sua criaturinha, se ele continua velado...pois bem! a
criaturinha fica molhada, aceita ficar transida de frio e se alegra ainda com
esse sofrimento que, entretanto, mereceu... Ó Jesus, como teu passarinho é
feliz em ser fraco e pequeno, que seria dele se fosse grande?... Jamais
teria a audácia de comparecer na tua
presença, de sonecar diante de ti.. Sim, está aí ainda uma fraqueza do passarinho,
quando quer fixar o Sol divino e as nuvens lhe impedem de ver um só raio,
malgrado seu, fecham-se seus olhinhos, sua cabecinha se esconde sob a asinha
e o pobre pequeno ser adormece, acreditando sempre fixar seu Astro querido.
Quando se acorda, não se desola, seu coraçãozinho fica em paz, recomeça seu
ofício de amor..."(138). Pelo
Pequeno Caminho, Teresinha vai descobrindo como conquistar e possuir,
inalterável, a sua paz. O abandono, fruto do amor, dá-lhe total confiança e
ensina-lhe a se entregar, total e completamente, nas mãos do Senhor. Isso,
independentemente, de qualquer circunstância ou situação, outorga, como
recompensa maravilhosa, o doce fruto da paz interior. Mas, esse mesmo amor,
que sabe tirar proveito de tudo, ele mesmo é portador da paz. O amor humano,
confuso, limitado e sempre desconfiado, porque quase sempre muito
interesseiro e egoísta, nem sempre dá aquela paz de espírito, que seria o
ideal. O amor a Deus, porém, quando autêntico e real, levado até às últimas
conseqüências, é como um fogo devorador, que consome toda inquietação e deixa
na alma uma tranqüilidade incomensurável, mesmo diante de muitas limitações e
fraquezas. Foi assim que Santa Teresinha conseguiu uma profunda paz mediante
o seu grande e apaixonado amor a Deus:"Sem dúvida, pode-se muito bem
cair, pode-se cometer infidelidades, mas,como o amor sabe tirar proveito de
tudo, consumiu bem depressa tudo o que pode desagradar a Jesus, não
deixando senão uma humilde e profunda
paz no fundo do coração"(139). Esse
amor,para Teresa, concretizava-se na perfeita submissão à vontade de Deus, no
desejo ardente e constante de fazer sempre a vontade do bom Deus. É,pois, em
concreto, a conformidade de duas vontades, a humana de Teresa e a divina, de
Deus. Teresa procurava se conformar, aceitando, cumprindo alegremente a
vontade do seu Deus. O amor teresiano, pois, é fusão, unidade;
é,conseqüentemente, felicidade, tranqüilidade, paz. Nada, portanto, pode
perturbar essa paz, porque o vontade de Deus é sempre como ela vem, como ela
aparece, como ela é. Quando da sua visita ao Papa, em Roma, para lhe pedir a
permissão para entrar no Carmelo com apenas quinze anos, Teresa sentiu-se
frustrada com a resposta evasiva do Santo Padre. Ela se sentiu desolada, como
se tudo tivesse chegado ao fim e nada do seu ideal pudesse ser realizado.
Mesmo assim sua paz continuou inalterada:"Minha alma estava mergulhada na amargura, mas também
na paz, pois não buscava senão a vontade do bom Deus"(140). Ainda a
propósito dessa mesma audiência com Leão XIII, Teresa nos faz um belíssimo
comentário, onde nos explica que amargura e paz podem muito bem se
encontrarem, ao mesmo tempo, na alma, ou seja, que os sofrimentos de cada
dia, mesmo continuando na sua rotina, não são obstáculo e impedimento para
nossa paz:"Meu Papai querido teve muita pena quando me encontrou toda em
lágrimas ao sair da audiência, ele fez tudo que pôde para me consolar, mas em
vão...No fundo do coração, eu sentia uma grande paz, porque houvera feito
absolutamente tudo que estava no meu poder para responder ao que o bom Deus me
pedia, mas essa paz estava no fundo e a amargura enchia minha alma, pois
Jesus se calava"(141). Está aí uma profunda lição de psicologia: apesar
de todas as angústias da vida cotidiana, podemos e devemos nos conservar em
paz e isso é possível quando se ama de verdade a Deus, pois na procura
unicamente de fazer a sua santa vontade, apesar do sofrimento, o homem está
feliz porque faz a vontade do Amor e do Amado.Quando da sua tomada de véu,
Teresinha sofreu, humanamente, alguns dissabores e viu o seu belo dia
encher-se de tristeza e amargura. Como humana, ela sentiu a dor e a tristeza;
como apaixonada de Deus, ficou na sua profunda e imensa paz:"No dia 24
aconteceu a cerimônia de minha tomada de véu, o dia foi todo inteiro velado
de lágrimas...Papai não estava lá para abençoar sua Rainha...O Padre estava
no Canadá...O Bispo que devia vir e jantar na casa de meu tio,adoeceu e não
veio, enfim tudo foi tristeza e amargura...Contudo, a paz, sempre a paz,
encontrava-se no fundo do cálice"(142). Note-se que, ao falar de
amargura, Teresinha se apressa imediatamente a juntar a palavra mágica:paz!
Sempre a paz! Na procura
de fazer sempre a vontade de Deus, porque muito O ama, Teresinha,mesmo
vivendo a vida normal de qualquer filho de Deus, sofrendo, pois, as amarguras
de cada dia, em nada se altera, nunca perde sua paz, mesmo quando realizando
propriamente os trabalhos do Senhor, encontra dificuldades, sobretudo, por
parte dos homens. Um exemplo claro é a sua Direção espiritual. Trabalho
importante e difícil, pois é plasmar a alma de seus irmãos segundo os planos
de Deus. Aí as dificuldades são enormes. Trabalha-se com gente, com
personalidades diferentes e diversas, com reações muito diversificadas. Mas,
Teresinha apenas ama e porque ama seu Deus, faz todo seu trabalho por amor e,
não, por interesse pessoal, por isso nada a perturba. Seu ideal, seu objetivo
é muito alto, é a vontade de Deus unicamente. Ela se sente pincel nas mãos do
grande artista, que é Jesus. Cumpre, pois, apenas sua missão com toda
humildade e alegria. No mais, fica sempre feliz e em paz:"Quando me foi
dado penetrar no santuário das almas, vi, imediatamente, que o ofício estava
acima de minhas forças,então me coloquei nos braços do bom Deus, como uma
criancinha e escondendo meu rosto entre seus cabelos, disse-Lhe: Senhor, sou
demasiada pequena para alimentar suas filhas; se o Senhor quiser lhes dar,
por meu intermédio, o que convém a cada uma,encha minha mãozinha e sem deixar
seus braços, sem virar a cabeça, darei seus tesouros à alma que vier me pedir
seu alimento. Se ela o achar a seu gosto, saberei que não é a mim, mas ao
Senhor que ela o deve; pelo contrário, se ela se lamentar e achar amargo o
que lhe apresentar, minha paz não ficará perturbada, tentarei persuadi-la que
esse alimento vem do Senhor e tomarei cuidado para não lhe procurar
outro"(143). Em suma,
de pequena até à morte, Teresa de Lisieux esteve sempre em paz e, mesmo
quando as turbulências da vida quiseram prejudicar sua paz, ela soube
conservá-la com carinho e cuidado. Quando criança, tendo conseguido a
permissão de entrar na Associação da Virgem Santíssima, teve de ir algumas
vezes à Abadia. Então, como ninguém lhe dava atenção e como não tinha uma
Mestre amiga, ela se sentia só e triste. Para uma criança sentimental como
Teresinha seria bem normal um pouco de desespero e revolta. No entanto, o que
lemos e encontramos na sua Autobiografia é bem diferente. Ela nos fala de
paz, da sua constante e inabalável paz, mesmo sendo ainda uma criança, que
começava a subir a Montanha do Amor:"Ah, era,sim, pela Santíssima Virgem
somente que vinha à Abadia! Às vezes, eu me sentia só, bem só; como nos dias
de minha vida de pensionista, quando eu passeava triste e doente no grande
pátio, repetia estas palavras que sempre faziam renascer a paz e a força no
meu coração:'A vida é teu navio e não tua morada!'..."(144). Os anos se
passaram, Teresinha se tornou Teresa de Lisieux e sua paz continuou
inabalável. Madre Genoveva, a santa fundadora do Carmelo de Lisieux, tinha
razão no seu conselho, que foi como que uma leitura do íntimo da alma de
Teresinha. Teresa de Lisieux serviu ao Senhor na paz e na alegria, porque
esses são os frutos benditos para quem semeia no amor e são o prêmio de quem
sobe a Montanha do Amor:"Espere, minha filhinha, vou somente lhe dizer
uma palavrinha. Todas as vezes que você vem aqui, você me pede um ramalhete
espiritual, pois bem, hoje vou lhe dar este:Sirva a Deus com paz e com
alegria, lembre-se minha menina, que nosso Deus é o Deus da paz"(145). Santa
Teresinha do Menino Jesus e da Santa Face é o nome oficial e completo de
nossa Santa. E nesse nome, Teresa encontrou também a razão de sua paz.
Encontrou no Menino Jesus, que veio trazer a paz ao mundo, pois foi isso que
os anjos anunciaram quando o Menino nos foi dado. Na Face adorada de Jesus,
mesmo com o aspecto triste e doloroso, Teresa encontrou também uma razão de
sua paz:
"Tua Face é minha única Pátria
Ela é meu Reino de amor
Ela é minha alegre Pradaria Meu doce Sol de cada dia
Ela é o Lírio do vale
Cujo perfume misterioso
Consola minha alma exilada
E fá-la saborear a paz do céu"(146). Alma de
paz, ela foi também uma mestra da paz. Suas palavras, seus ditos, seus
conselhos, suas cartas, suas poesias, sua Autobiografia, tudo canta a paz e
ensina a paz aos seus discípulos e devotos. Alguém poderia pensar e objetar
que, Teresa de Lisieux foi levada à paz pelo fato mesmo de sua angústia.
Nesse caso, ela não teria tido a paz; pelo contrário, teria sido uma alma
profundamente angustiada. No seu desespero, teria apelado constantemente para
a paz, como uma válvula de escape. Esse
discurso é absurdo, embora se relacione com um aspecto digno de ser
refletido. É verdade que, uma pessoa, como Teresinha ou Irmã Teresa,tinha
muitos motivos para ser uma alma angustiada e desesperada. Na sua vida nos
Buissonnets, sem mãe e sem sua segunda mãe, sua irmã Paulina, mesmo cercada
de carinho e afeto dos seus, ela foi acometida de muitos problemas
psicológicos, que poderiam tê-la frustrado para sempre. No Carmelo, bem
jovem, na flor da idade, com seus quinze anos diante de uma comunidade
adulta, seguindo uma vida austera e regulamentada pela regra carmelitana,
Teresinha, menina bonita e cheia de vida, não deixou de ser uma garota humana
com todos seus sonhos e anseios. Mesmo assim, ela soube aliar a dureza de uma
vida carmelitana com as alegrias de uma vida humana perfeita e ideal. Não
sentiu angústia, nem desespero, porque sabia o que queria, tinha um ideal
sublime a colimar e se empregou totalmente em tudo por amor. Que tenha havido
conflitos na sua alma, isso é mais do que natural. Mas, Teresa não dá importância
a isso. Ela os descreve implicitamente, somente para mostrar como os venceu e
como a graça divina foi capaz de modelar a sua alma. Na harmonia existencial
de sua vida, Teresa de Lisieux encontrou a paz, porque se apaixonou por Deus
e nessa linha foi capaz de superar todos os obstáculos humanos. Foi aí que
ela encontrou a paz, a paz interior, que é divina, porque vem de Deus. Assim,
nos momentos mais difíceis e dramáticos de sua vida, Teresa deixa
transparecer a doce harmonia da paz na sua alma.Descrevendo a sua emocionante
entrada no Carmelo de Lisieux, ela faz questão de dizer:"Alguns
instantes depois, as portas da arca santa se fechavam atrás de mim e lá eu
recebia os abraços das irmãs queridas, que me tinham servido de mães e que
ia, a partir de então, tomar como modelos de minhas ações. Enfim, meus
desejos estavam realizados, minha alma sentia uma Paz tão doce e tão profunda
que me seria impossível exprimi-la e
desde 7 anos e meio essa paz íntima
ficou como herança, ela não me abandonou no meio das maiores
provações"(147).E não foi fácil para Teresa conservar sua paz na vida de
comunidade.Em certas ocasiões, quase
que era levada desespero, mas foi aí, então, que a paz venceu, como é caso
que ela nos conta a respeito de certa mania de uma irmã, que na hora da
oração provocava um barulho cabuloso e chato, que a fatigava
sobremaneira:"Dizer-lhe, minha Madre, quanto esse barulhozinho me
fatigava é coisa impossível; sentia uma enorme vontade de voltar-me para ela
e encarar a culpada que, seguramente,
não se apercebia de seu tique, era o único meio de adverti-la; mas, no
fundo do coração, sentia que valia mais sofrer isso por amor do bom Deus e
para não desgostar à irmã. Ficava, pois, tranqüila, tentava me unir ao bom
Deus, esquecer o barulhozinho...tudo era inútil, sentia o suor que me
inundava e era obrigada a fazer, simplesmente, uma oração de sofrimento, mas
mesmo sofrendo, procurava o meio de fazê-lo não com aborrecimento, mas com
alegria e paz, pelo menos no íntimo da alma"(148). E foi justamente essa
paz, fruto de todo um trabalho divino na sua alma, que Teresa de Lisieux
ensinou aos seus discípulos. Nesta
segunda parte, vamos expor os ensinamentos de Santa Teresinha sobre a paz,
embora continuemos perscrutando sua vida, seus exemplos, seu comportamento,
porque tudo que a Santa ensinou e disse sobre as coisas boas de Deus, ela o
viveu primeiramente. Agora, vamos considerar mais a doutrina, a mensagem, os
ensinamentos, mas tudo ficará sempre mais claro e evidente, porque
continuaremos mostrando a teoria nos fatos da existência cotidiana de Teresa
de Lisieux. Numa carta
a Leônia, Teresinha inculcou a atitude de abandono e de verdade, porque essa
nos dá a paz. Ela lhe fala de sua experiência pessoal, isto é, de seu
interesse pela data de sua profissão religiosa, com a finalidade explícita de
ajudar sua irmãzinha, que se sentia abatida pelo atraso de sua profissão.
Teresa, com um tato todo especial e como verdadeira pedagoga, não se faz de
mestra, mas conta sua experiência como uma verdadeira aula em busca da
paz:"As criaturas não verão meus
esforços, que ficarão escondidos no meu coração.Procurando fazer-me
esquecida, não queria outro olhar a não ser o de Jesus. Que importava se
parecia pobre e desprovida de espírito e de talentos. Quero por em prática
este conselho da Imitação:'Que este se glorifique com uma coisa, aquele outro
com outra coisa, mas colocai vossa glória no desprezo de vós mesmo, na minha
vontade e na minha glória';, ou ainda:'Quereis aprender alguma coisa que vos
sirva? Gostai de ser ignorado e tido por nada!'. Pensando em tudo isso, senti
uma grande paz em minha alma, senti que era a verdade e a paz! Não me
inquietei mais com a data da minha profissão..."(149). Sabemos
que a vida de Teresa de Lisieux não foi nada fácil. O sofrimento foi a nota
dominante e o sofrimento com todas suas amarguras finas e sutis, como o
menosprezo, a secura espiritual, as incompreensões e os maltratos físicos.
Vimos, acima, como Teresa soube conservar sempre a sua paz mesmo nas horas
mais difíceis de sofrimento até à morte. Pois bem, essa será também a
mensagem que Ela deu sempre enquanto viveu mediante os seus conselhos
escritos e orais. Numa belíssima carta a Celina, de 4 de abril de 1889,
instruía sua irmã querida de uma maneira sutil, como aliás costumava fazê-lo,
isto é, pondo-se como escudo e como exemplo. Mas, nessa carta está também uma
lição de psicologia profunda. Teresa separa, admiravelmente, a paz da
alegria. Não se trata de separar dois frutos inseparáveis do amor.Trata-se
apenas de não confundir sentimentos. Paz não se confunde com alegria sentida,
ou seja, estar em paz não significa estar sentindo alegria por não estar em
paz. Em primeiro lugar, refere-se a Santa à alegria sentida, mas podemos
também pensar no sentimento de alegria em toda sua extensão. Isso quer dizer
que estar em paz não significa que alguém está ou se sente alegre
humanamente. A alegria espiritual, essa nunca se separa da paz, mas, às
vezes, por motivos vários, a alegria humana ou, mais especialmente, aquela
alegria sentida fica como que oculta. No fundo, paz e alegria não se separam,
mas paz e alegria humana, sobretudo aquela muito sentida, podem não coexistir
obrigatoriamente. Essa é a lição teresiana:"Vejamos a vida sob seu dia
verdadeiro...É um instante entre duas eternidades...Soframos em
paz...Confesso que essa palavra paz me parecia um pouco forte, mas, outro
dia, refletindo sobre isso, encontrei o segredo de sofrer em paz...Quem diz
paz não diz alegria, ou, pelo menos, alegria sentida...Para sofrer em paz,
basta querer mesmo tudo o que Jesus quer"(150). Observe-se
que, a Santa acrescenta outra mensagem de suma importância, a saber, o
segredo de sofrer em paz. O sofrimento no fundo é uma contradição, ou seja, é
uma desordem entre o meu querer, o meu bem-estar, a minha situação e o que me
acontece, o que vem contra a mim. Ora
bem, pelo amor, sem nos deixarmos levar por sentimentalismos inúteis e
estéreis, podemos cancelar o ponto de contradição, justamente entrando em
acordo com o Supremo Senhor de todas as coisas. Amando-O, podemos e devemos
querer o que Ele quer. Pois bem, é nesse encontro de vontades, de querer, que
está a paz. O sofrimento humano continuará, porque a contradição não é
totalmente extirpada- o que acontecerá só no céu - mas, pela fusão de
vontades, a paz invade o coração mesmo no sofrimento. É o que ensinava Teresa
à irmã Inês, numa carta de 8 de janeiro de 1889, citada acima:"O
cordeiro se engana não crendo que o brinquedo de Jesus esteja nas trevas, ela
está mergulhado nelas. Talvez, o cordeirinho
concorde que essas trevas são
luminosas, mas, apesar de tudo, são trevas...Sua única consolação é uma força
e uma paz muito grande e, depois, ele espera ser como Jesus quer, eis aí sua
alegria, porque, do contrário, tudo é tristeza!"(151). Teresa
voltará sempre a esse tema, isto é, querer o querer de Deus, querer o querer
do Amado, fundir as vontades, a própria com a de Deus. Todavia, ela apresenta
outro motivo para nossa paz interior, a saber, a esperança da eternidade
feliz e recompensadora. Não se pense, porém, que nossa Santa procure sempre
uma válvula de escape para não enfrentar, diretamente, as realidades da vida,
de tal maneira que seja alienada e, assim, ensine uma doutrina alienante.
Teresa foi realista no mais profundo sentido da palavra. Acontece que, por
ser realista é que Ela não esquece os valores transcendais e sobrenaturais,
que são os mais importantes e os únicos realmente permanentes. Assim é que
aparece em cena a esperança da Pátria, quando nem tudo vai bem conosco, ou
seja, quando entramos em contradição com alguma coisa e, então, sofremos.A
Leônia ela enviou essa mensagem de esperança e de paz:"Aguardemos, soframos em paz, a hora do repouso se
aproxima, as leves tribulações dessa vida de um momento produzem em nós um
peso eterno de glória"(152).Numa carta a Celina, em abril de 1889, ela
repetia, com ênfase, esse pensamento de confiança e de esperança:"Celina
querida, um dia iremos para o céu, para sempre, então não haverá mais nem dia nem noite como nesta
terra...Oh, que alegria, marchemos em paz olhando o céu, o ÚNICO objetivo de
nossos trabalhos.A hora do repouso se aproxima"(153). Portanto,
aceitação tranqüila da vontade de Deus e a confiança provocada pela esperança
podem nos dar aquela tranqüilidade de espírito, que chamamos de paz interior,
mesmo quando o sacrifício pedido é grande e quando a noite, mesmo espiritual,
se faz pesada sobre nós:"Se a noite dá medo à criancinha, se ele reclama
porque não vê Aquele que o carrega, que feche os olhos, que faça,
VOLUNTARIAMENTE, o sacrifício que lhe é pedido e, depois, que aguarde o
sono...comportando-se assim em paz, a noite, que ele não verá mais, não
poderá fazer-lhe medo e logo a calma, senão a alegria, renascerá no seu
coraçãozinho"(154). Teresa de
Lisieux trouxe uma mensagem ao mundo, ela ensinou aos homens um novo caminho
para irem até Deus. Sua espiritualidade é chamada de Pequeno Caminho. Esse
Pequeno Caminho é o caminho da alegria; é o caminho da paz. Ele, pelas suas
próprias estruturas intrínsecas e essenciais, é o condutor mais direto para a
paz da alma. Com efeito, quem se humilha, que se reconhece pequeno e fraco,
quem, por conseguinte, confia e se abandona nos braços do Pai, quem, em uma
palavra, ama de verdade a Deus, só pode ter paz no coração. Nada o perturba,
nem as calúnias, nem as ingratidões, nem as incompreensões, nem as dores
físicas e morais, nem mesmo as provações vindas de Deus. Assim, Teresinha
instruía Celina, numa carta de 6 de julho de 1893:"...meu Diretor, que é
Jesus me ensina a não contar meus atos; Ele me ensina a fazer tudo por amor,
a nada Lhe recusar, a estar contente quando Ele me dá uma ocasião de Lhe provar que o amo, mas isso se faz na paz, no abandono, é Jesus quem
faz tudo e eu não faço nada"(155).
Abandonar-se nas mãos de Deus, querer fazer só sua vontade,
entregar-se totalmente ao seu querer, jogando-se mesmo nos braços do Pai, eis o Pequeno Caminho da
paz:"Pensei, durante algum tempo, que agora, já que Jesus não pedia
nada, era preciso ir docemente na paz e no amor fazendo somente o que Ele me
pedia"(156). Essa atitude de caminhar tranqüilamente além de ser uma
demonstração de paz, leva de fato a alma à paz verdadeira e nunca deve deixar de existir nas nossas
tomadas de posição, mesmo quando estamos excitados pelo amor de Deus. A paz é
uma espécie de marca da presença de Deus. A Celina Maudelonde, nossa Santa
escrevia aos 26 de março de 1894:"A grande paz, que você está sentindo,
para mim é um sinal bem manifesto da vontade do bom Deus, porque só Ele pode
derramá-la na sua alma e a felicidade que você sente sob seu olhar divino,
não pode vir senão dEle"(157).Assim, Ela mesma, quando delirava de
alegria pela descoberta de sua vocação de amor, teve o cuidado de anotar na
sua Autobiografia:"Por que falar de uma alegria delirante? Não, essa expressão
não é justa, é antes a paz calma e serena do navegador que se apercebe do
farol, que deve conduzi-lo ao porto"(158). Na
conhecida poesia "Viver de Amor", Teresinha volta a esse tema com a
seguinte estrofe:
"Viver de amor é navegar sem cessar
Semeando a paz, a alegrai em todos os corações"(159). O amante
de Deus, o peregrino do Pequeno Caminho, o alpinista da Montanha do Amor se
alegra e vive em paz, mesmo sabendo que se consume na caminhada da vida. Tudo
é alegria, tudo é paz, mesmo quando, como uma vela, tem de se consumir por
amor:
"Agora, vítima feliz
Que se imola ao Amor
Gozai da alegria, da paz íntima
De vos consumir cada dia"(160). Para nos
ajudar, psicologicamente, sobretudo porque somos sempre fracos e apegados às
limitações da nossa natureza humana, Teresinha, além dos motivos
sobrenaturais acima apontados, lembra uma razão humana e simples, que pode
nos ajudar a manter a paz da alma. E a lição é pensar que outra situação
poderia acontecer ou ter acontecido e que, certamente, aquilo que nos
incomoda não nos afetaria de modo algum. Esse pensamento deixa-nos em paz,
quando às vezes somos perturbados por algum fato que não queríamos que
acontecesse. Na vida da Santa encontramos uma reflexão sobre determinado
fato, que nos esclarece o pensamento de Teresinha. É que podaram os
castanheiros do Carmelo e a Santa sentiu a falta da beleza das suas sombras.
Mais tarde, ela contou a Irmã Inês a reflexão que fizera sobre o fato:"Primeiramente,
foi uma tristeza amarga e grandes combates ao mesmo tempo. Gostava tanto das sombras e elas não
existiriam mais esse ano! Os ramos já verdes estavam em pedaços pelo chão,
mais nada senão troncos! Depois, de repente, passei por cima dizendo-me: Se
estivesse em outro Carmelo, que me importaria se cortassem, mesmo
inteiramente, os castanheiros do Carmelo de Lisieux?! E senti uma grande paz
e uma alegria celeste"(161). Eis aí a
constatação de um fato importante: até mesmo os grandes santos não perdem
seus sentimentos humanos e, por isso, às vezes sentem tremendamente uma
provação humana. Todavia, as palavras de Teresa nos ensinam a passar por
cima, apontando, entre outros motivos, a razão mesma, bem humana, de pensar
que poderia tal situação não dizer nada para nós, se estivéssemos em outra
circunstância. Todos nós
humanos mortais vivemos num campo de combate.Aqui e ali, agora e mais tarde,
sempre estamos em luta contra alguma coisa. São as tentações, são as
dificuldades dos irmãos, são as humilhações da vida, em suma, é uma multidão
de coisas que nos trazem os combates da vida. Teresinha estava convencida
dessa realidade, por isso escreveu para Celina:"Li, esta manhã, uma
passagem do Evangelho, na qual se diz:'Não vim trazer a paz,mas a espada'.Só
nos resta combater!"(162). Paz interior, portanto, não significa
passivismo, quietismo, indiferença, alienação. A paz interior teresiana
significa, como Jesus ensinou, combate, luta, guerra. Todavia,
em todos os combates não se deve nunca perder essa paz. A própria paz exige o
combate, mas é com a paz que se deve lutar, porque,depois, sairemos da luta
com maior paz ainda. Santa Teresinha sofreu muito no Carmelo por parte de
algumas irmãs. Foi muito humilhada. Ela, no leito de morte, confessou muita
coisa a esse respeito à sua irmã Inês e, depois, acrescentou:"O bom Deus
me dá assim todos os meios de permanecer bem pequena; mas é isso que é
preciso; estou sempre contente; eu me arranjo, mesmo no meio da tempestade,
de modo a me conservar bem em paz por dentro. Se me contam sobre combates
contra as irmãs, procuro não me animar, da minha parte, contra esta ou
aquela. É preciso, por exemplo, que mesmo escutando, possa olhar pela janela
e gozar interiormente da vista do céu, das árvores...A senhora compreende? Há
pouco, durante minha luta a propósito de Irmã X, olhava, com prazer, as
lindas gralhas brigarem no prado, estava em paz como na oração...Combati
muito com...fiquei muito cansada! Mas, não temo a guerra. É a vontade de Deus
que lute até à morte"(163). Teresinha
chegou a um alto grau de perfeição, de tal modo que muita coisa já não podia
penetrar no seu mundo interior, que se tornara um castelo bem
fortificado.Essa é, sem dúvida, uma meta a ser alcançada. Nas lutas da vida
contra tantas coisas e, às vezes, contra tanta gente, temos que ficar quase
imunes, untando nossa alma com um óleo especial, de tal maneira que as águas
sujas do mundo e das pessoas não possam nos perturbar. Foi a esse grau de
perfeição que Teresa chegou:"Meu coração está cheio da vontade do bom
Deus, assim, quando derramam alguma coisa sobre ele, ela não penetra no
interior; é um nada que desliza facilmente, como o óleo que não pode se
misturar com a água. Fico sempre, no fundo, numa paz profunda, que nada pode
perturbar"(164). Esses
combates da vida, como dissemos, tomam as mais variadas formas de
apresentação. Assim, ora são as opiniões dos homens, ora são as tentações do
demônio, ora é a nossa própria natureza, em suma, ora somos nós mesmos, ora
são os outros, ora são as coisas da vida. Diante de tudo, Teresa nos
aconselha sempre a permanecer em paz. Quando ela estava muito doente, ouviu
as mais diversas opiniões sobre seu estado de saúde. Isso a levou a fazer a
seguinte interessante reflexão:"Com que paz eu deixo dizer, a minha
volta, que estou melhor! Na semana passada estava de pé e me achavam bem
doente. Esta semana, não posso me sustentar, estou esgotada e eis que me
julgam salva! Mas, em que dá tudo isso?!"(165). A
propósito de falsas acusações, nossa Santa tem um conselho muito importante
para os peregrinos do Pequeno Caminho:"Quando somos incompreendidos e
julgados desfavoravelmente, para que nos defender, nos explicar? Deixemos
para lá, não digamos nada, é tão doce nÃo dizer nada, deixar-se julgar não
importa como! Não vemos no Evangelho que Santa Madalena se tenha explicado,
quando sua irmã a acusava de ficar aos pés de Jesus sem fazer nada. Ela não
disse:'Ó Marta, se você soubesse a
felicidade que estou sentindo, se você ouvisse as palavras que estou ouvindo!
E, ademais, foi Jesus quem me disse de ficar aqui'. Não, ela preferiu se
calar. Ó bem-aventurado silêncio, que dá tanta paz à alma!"(166). Portanto,
o ensinamento teresiano é que as falsas acusações não nos devem perturbar.
Mas, isso ainda é pouco. Teresa vai mais adiante e acrescenta que, mesmos os
desprezos por parte dos outros devem deixar sempre em nós a paz interior. Não
basta, pois, não perturbar a paz; é preciso encontrar a paz, onde ela poderia
até desaparecer, como no caso de menosprezo por parte dos nossos irmãos. Em
uma carta dirigida a Celina, Teresa traz à lembrança umas da Imitação sobre o
menosprezo por parte dos outros e conclui:"Como essas palavras dão paz À
alma..."(167). Portanto, o ensinamento teresiano é que as falsas
acusações não nos devem perturbar. Mas, isso ainda é pouco. Teresa vai mais
adiante e acrescenta que, mesmos os desprezos por parte dos outros devem
deixar sempre em nós a paz interior. Não basta, pois, não perturbar a paz; é
preciso encontrar a paz, onde ela poderia até desaparecer, como no caso de
menosprezo por parte dos nossos irmãos. Em outra carta, essa dirigida a
Leônia, Teresa volta à mesma temática da Imitação de Cristo, relembrando,
mais uma vez, o pensamento do
precioso livrinho e conclui que o menosprezo tem uma razão de verdade
e, conseqüentemente, deve nos dar a paz interior:" 'Você quer aprender alguma coisa que lhe sirva? Goste
de ser ignorado e tido por nada!'. Pensando
em tudo isso, senti uma grande paz em minha alma, senti que era a
verdade e a paz!"(168). Aqui,
observamos a ligação que Teresinha estabelece entre a paz e a verdade. Sim, a
paz é fruto da ordem, a ordem, por sua vez, tem que ser segundo a verdade. A desordem é erro, é
mentira, é engano, conseqüentemente, não produz a paz, mas o desconforto, a
angústia. Na sua Legenda do
Cordeirinho, escrita para consolar a Madre Gonzaga, Teresa escreve estas
palavras:"Senhor, eu o creio, mas sobretudo sinto que vossas palavras
são a verdade, pois elas dão a paz, a alegria no meu
coraçãozinho..."(169). Eis até onde chega o raciocínio teresiano: as
palavras de Jesus são verdadeiras, porque dão a paz! Com efeito, se assim não
fosse, certamente elas seriam engano, logo, angústia, mentira. Se devemos
manter a paz no nosso relacionamento com os outros, também devemos fazê-lo,
quando se trata do nosso relacionamento conosco mesmo. Aí, é que é preciso
manter a paz. E, às vezes, não é fácil! As nossas estruturas, a nossa
personalidade, o nosso caráter, as nossas limitações e fraquezas, as nossas
tendências, tudo isso pode nos levar à intranqüilidade interior e produzir um
mundo complicado e complexo, cheio de problemas e angústias. Temos, pois, que
aprender a nos suportar, pois esse é o primeiro passo para manter nossa paz
interior. Muitas doenças mentais, muitos internamentos, muitos suicídios,
muitos desesperos, muitas lágrimas são ocasionados pelo simples fato de que
não aprendemos ou não queremos nos suportar. Por isso, Teresinha colocou na
boca de Nossa Senhora essas palavras dirigidas a Celina:"Se você quiser suportar em paz a
provação de não se agradar a si mesma, você me dará um doce
asilo..."(170). Suportar a provação de ser como se é, eis aí o começo de
um segredo precioso para manter a nossa paz. Na mesma
passagem acima citada, Teresa lembra
a Celina que, quanto mais se é pobre, mais se é amado por Jesus. Aqui está
outra análise preciosa de nossa Santa. Uma das causas de nossa angústia
interior é não querer aceitar nossa fraqueza. Não nos aceitamos por vários
motivos, mas, no fundo, é por causa das nossas limitações, debilidades,
fraquezas. Ora bem, toda a mensagem do Pequeno Caminho se envereda justamente
para ir ao encontro dessa situação, transformando-a em trampolim para um
salto para o alto. Já vimos isso de sobejo através de todo o discurso desse
livro, mas lembremos como aceitar as fraquezas, transformando-as em movimento
de elevação, por amor, confiança e abandono, é caminho de paz interior,
segundo o ensinamento teresiano:"Só encontramos a paz e o repouso do coração,
quando nos vemos tão miseráveis, quando não queremos mais nos considerar e
quando só fitamos o único Bem-Amado!"(171). Em síntese, é nos aceitando
e olhando para Ele, Deus, pondo nEle toda nossa esperança, que teremos a paz
e o repouso do coração. Outro passo teresiano nesse discurso da
paz interior, quando se trata de nós mesmos, é um conselho, próprio da Santa,
que, embora já tenha sabor de heroísmo, é, sem dúvida, um conselho de paz
para todos seus discípulos. O fato é que, muitas vezes, nossa perturbação
interior é ocasionada por bagatelas da vida, por coisas que encontramos na
estrada da existência, às margens dos nossos caminhos de cada dia. Às vezes,
são coisas boas,são flores que crescem à beira da estrada. Não têm maldade,
são atraentes, podem até nos deliciar e encantar. Não fazem mal. Mas, quantas
vezes elas perturbam, encantam demais, atraem demais e, conseqüentemente,
perturbam a pobreza, a ordem, a paz da alma. Foi
considerando tudo isso, que Teresa de Lisieux, com sua intuição psicológica
e, ao mesmo tempo, com sua experiência de peregrina da Montanha do Amor,
escreveu a Celina prevenindo-a contra o perigo das flores do caminho. Não que
Teresa quisesse uma vida masoquista ou sadista. Não que nossa Santa foi uma
alienada do mundo. Nada disso. Ela simplesmente preveniu e aconselhou,
porque, na verdade, são pequenas flores inofensivas que, muitíssimas vezes,
atrapalham nossa subida na Montanha do Amor:"Não foi Jesus mesmo quem
traçou nosso caminho? Não é Ele quem nos esclarece e se revela a nossas
almas? Tudo nos leva para Ele, as flores que crescem à beira do caminho não
cativam nossos corações; nós as olhamos, nós as amamos, pois elas nos falam
de Jesus, de seu poder, de seu amor, mas nossas almas ficam livres. Porque
perturbar assim nossa doce paz?"(172). Esse
despojamento de si mesmo leva-nos ainda a duas outras considerações sobre a
nossa paz interior. A primeira é sobre a paz e a pobreza. Já
falamos,a cima, que um dos motivos sérios de perdermos a paz é a não
aceitação da nossas limitações, das nossas fraquezas. Isso nos leva a pensar
sobre a pobreza. Na verdade, quem não só descobre que é pobre e nada tem, mas
procura viver nesse despojamento total, colocando-se nas mãos de Deus, ou
seja, não vivendo angustiado para ter mais, mas para ser mais pelo abandono e
pelo amor a Deus, certamente,
sente-se livre e, conseqüentemente, vive em paz. A aceitação dos nossos
limites até chegarmos à pobreza, é, já dissemos, condição essencial para a paz.
Não se pense, por isso, que devemos ser indiferentes e passivos diante da
realidade da sobrevivência na vida. De modo nenhum. O que Teresa de Lisieux
ensina é que, sendo pobres, não devemos nos revoltar. Pelo contrário, no
despojamento interior, no esvaziamento semelhante ao de Jesus na cruz, na
procura de uma semelhança à que nos é de Cristo crucificado, o homem se sente
livre e em paz consigo mesmo. Viver o contrário, ou seja, revoltar-se pelas
suas limitações, não aceitar as próprias limitações e não querer mesmo se
despojar de muita coisa até chegar ao estado quenótico de Cristo na cruz, é,
certamente, caminho para o desespero, angústia, revolta. Vejamos como
Teresinha, no seu leito de morte, explica-nos tudo isso:"Não posso me
apoiar em nada, em nenhuma de minhas obras para ter confiança. Assim, bem
quisera poder me dizer: Estou quites com todos meus ofícios dos mortos. Mas,
essa pobreza tem sido para mim uma verdadeira luz, uma verdadeira
graça.Pensei que não pudera jamais na minha vida pagar uma só das minhas
dívidas para com o bom Deus, mas isso era para mim como uma verdadeira
riqueza e uma força, se o quisesse.Então, fiz esta oração: Ó meu Deus, eu vos
peço, pagai a dívida que contraí com as almas do purgatório, mas pagai-a como
Deus, para que seja infinitamente melhor do que se tivesse rezado meus
ofícios dos mortos. E me lembrei, com uma grande doçura, destas palavras do
cântico de S.João da Cruz:'Pagai todas as dívidas'. Sempre aplicara isso ao
Amor. Penso que não se pode retribuir essa graça...Era demasiado doce!
Sente-se uma tão grande paz, quando se é absolutamente pobre, quando se conta
apenas com o bom Deus!"(173). O pobre
diante de Deus, que aceita sua pobreza, embora, é claro, não fique num estado
de quietismo, torna-se livre e, por
isso, fica em paz.Mas, Teresa faz uma segunda observação a respeito desse
estado de limitação e fraqueza. É que a pessoa pode conquistar a paz,
aproveitando essa sua situação criatural de limitações, enveredando pelo
caminho da obediência. A obediência é sinal de dependência e de humildade.
Há, na vida, momentos confusos em que podemos nos colocar sob a obediência,
para acertarmos o caminho a seguir. A
obediência nessa situação, ou mesmo quando simplesmente se é obrigado a
obedecer a outrem, se é aceita, com sinceridade e com espírito de fé, traz para
a alma aquela tranqüilidade de se ter procurado fazer a vontade de Deus e,
conseqüentemente, o espírito repousa em paz consigo mesmo. Teresinha,
dentro dessa linha de pensamento, escreveu, em 14 de julho de 1889, para
Maria Guérin, aconselhando-a a seguir, tranqüilamente, os conselhos da madre
Priora, porque na obediência ela encontraria a paz:"Parece-me a mim que,
se me tivessem dito o que lhe disseram eu estaria bem curada e teria me
deixado conduzir cegamente, pois é o único meio para ter a paz e, sobretudo,
para agradar a Jesus"(174). O trato
com as pessoas pode, muitas vezes, provocar desencontros que, por sua vez,
constroem muros de divisão. Esses desencontros são, certamente,motivos de
angústia, de perturbação da nossa paz. Por isso, entre os muitos caminhos
para se ter a paz interior, Santa Teresinha aconselhou a se praticar a
caridade. Não se trata de suportar os outros; não se trata de não se zangar
com os outros; trata-se, aqui, de praticar a caridade, quando mesmo se era
livre para se proceder de outra forma. Em suma, um amor para com os outros,
que descobre filigranas de bondade, de ternura, de bom trato, de descoberta
de valores, é, sem dúvida alguma, motivo especial de paz interior. Um fato da
vida da nossa Santa pode nos ilustrar sobre esse discurso. Certa feita,quando
estava muito doente, foi descuidada por uma irmã enfermeira. Como a Madre
Priora tivesse conhecimento do acontecido, pediu-lhe explicações. Teresinha
disse-lhe a verdade, porém, aproveitou da ocasião para praticar a caridade e,
então, sentiu uma grande paz interior. Foi assim que nossa Santa deu notícia
à Irmã Inês de como procedera:"Contei à Nossa Madre a verdade,mas, ao
falar, veio-me ao pensamento uma expressão mais caridosa do que aquela de que
ia me servir e que, contudo, não era má, seguramente; segui minha inspiração
e o bom Deus me recompensou com uma grande paz interior"(175). Como se
pode ver, quem ama sempre descobre alguma coisa melhor para dizer ou fazer e
essas delicadezas da caridades nos trazem certamente muita paz. O futuro é
incerto e sua incerteza é, certamente, providencial. Todavia, a preocupação
com o futuro tem sido, na história de cada pessoa, motivos mais do que
suficientes para a angústia, a tristeza, a falta de paz e tranqüilidade de
espírito.A falta de conformidade com a vontade de Deus, a falta do espírito de pobreza, o desejo
curioso de querer ter, ver, mesmo quando se trata de coisas boas, por vezes
complicam nossa vida e nos tornam impacientes, nervosos e acabrunhados.
Teresinha, vivendo o conselho de Jesus de que basta para cada dia o seu
fardo, recomendava a Celina Maudelonde a viver em paz no presente sem aquela
preocupação desnecessária com o futuro, que a Deus pertence:"Perdoe-me,
minha querida amiga, goze em paz da alegria que o bom Deus lhe dá, sem se
inquietar com o futuro. Ele lhe reserva, estou certa disso, novas graças e
numerosas consolações"(176). Temos aqui, sem dúvida alguma, um eco dos
fundamentos do Pequeno Caminho, que é todo ele baseado no abandono à vontade
de Deus. Na sua famosa poesia "Meu canto de hoje", Teresinha
cantou, feliz, a segurança da paz, fruto desse abandono do peregrino do amor:
"Em breve, devo te ver nas praias eternas Ó
Piloto divino,cuja mão me conduz
Sobre as ondas furiosas guia, em paz, meu barquinho Só
por hoje!"(177). Deus foi a
grande razão da vida de Santa Teresinha. Deus, personificado em Jesus, foi o
centro de sua devoção, de seu coração, da sua existência. A Santa meditou,
atentamente, a vida e as palavras de Jesus. Foi aí que ela, lentamente, foi
haurindo toda sua sabedoria. No final de sua curta existência, já não se
deleitava na leitura de outro livro a não ser a Escritura Sagrada. Na vida e nas palavras de Jesus, ela
absorveu também toda a razão de sua paz interior. Em
primeiro lugar, ela descobriu que Jesus
era "da paz e do amor"(178); depois, conheceu, pela própria
experiência, que fora Jesus quem
pusera a paz na sua alma(179). Ademais, ela se convence que, se, às vezes,
Jesus não a consola, nunca, porém, tira-lhe a paz, que é sempre um dom do seu
Amado:"Se Jesus não me dá consolação, dá-me uma paz tão grande, que me
faz mais bem ainda!"(180). Nos
Evangelhos queridos, Santa Teresinha sorveu as palavras de seu Amado, Jesus.
Aquelas palavras doces e suaves
foram-lhe luz, vida, força e, como fruto de tudo, deram-lhe a paz
suave e doce do coração.À Irmã Inês, que lhe falava de certas práticas de
devoção, Teresa, já doente, responde com sinceridade e profundidade:"Quanto
a mim não encontro mais nada nos livros, a não ser no Evangelho. Esse livro
me basta! Escute, com delícia, esta palavra de Jesus, que me diz tudo o que
tenho a fazer:'Aprendei de mim que sou manso e humilde de coração'; então,
tenho a paz, segundo sua doce promessa:...'e encontrareis repouso para vossas
almas'"(181). Tinha,
pois, muita razão Santa Teresinha para cantar a paz de seu coração, que era
dom de seu Jesus amado:
"Senhor, de teus filhos a paz é a riqueza
Para gozar para sempre
De tua paz inefável
Eu venho ao teu encontro!"(182). Peregrina
do amor, apaixonada por Deus, Teresinha gritava aos quatro ventos que era
feliz, que vivia em paz, porque o Senhor era tudo para ela:
"Minha única paz, minha única felicidade Meu
único Amor, és tu, Senhor!"(183). Eis aí por
que Teresa de Lisieux viveu em paz, nunca se perturbou: Deus era a razão de
sua vida! Por esse amor, ela se esqueceu de si. Irmã Inês, certa feita,
perguntou à Santa como ela fazia para chegar àquela paz inalterável, que era
sua marca registrada. A resposta foi típica de uma apaixonada por
Deus:"Eu me esqueci de mim e decidi
não me procurar em nada"(184). Louca por Deus, esquecida de si,
atenta aos irmãos, Teresa viveu sempre em profunda paz interior! A paz,
pois, é um dom, mesmo sendo um fruto delicioso do amor. Portanto, devemos
pedir esse dom ao Senhor de todos os dons. Precisamos rezar pela paz.
Teresinha rezou pela paz de suas irmãs(185) e pediu, uma vez, à Irmã Inês que
rezasse, para que Jesus conservasse nela o dom da paz, que Ele lhe dera(186).
No seu leito de morte, confessou que rezara, certa noite, muito para Nossa
Senhora e que, no dia seguinte, tinha "o coração todo cheio de uma paz
celeste"(187). Como dom de Deus, como participação da sua própria
felicidade trinitária, a paz deve ser pedida com fé e humildade mediante a
oração. Mesmo o peregrino do amor pode,às vezes, ser tentado a perder sua
tranqüilidade interior e isso seria um desastre. Todos, pois, devemos rezar
pela paz de nós mesmos e pela paz dos nossos irmãos. Na sua
simples e bonita poesia ao seu Anjo da Guarda, Teresinha expressa sua
disposição de esperar em paz a outra vida. Na verdade, está aqui a síntese e
a conclusão de todo nosso discurso sobre a paz teresiana, própria do
peregrino da Montanha de Amor. Teresa viveu na esperança da Pátria, mas viveu
essa esperança com toda a paz possível. Paz e alegria, ela sempre as teve
neste mundo, porque muito amou, mas o que lhe importava mesmo eram a paz e as
alegrias esperadas nas praias da eternidade:
"Eu espero na paz da outra vida As
alegrias que durarão para sempre"(188). O
peregrino que chega ao cume da Montanha do Amor, embora já descortine um
horizonte sem fim, deseja apenas um "distante infinito"(189), que é
a Pátria, onde ele se jogará na fornalha ardente do amor eterno da Santíssima
Trindade, fonte, razão e fim de toda sua vida. NOTAS (1) -M.A.78r (2) -C.T.87 (3) -C.T.145 (4) -C.T.166 (5) -C.T.258 (6) -C.A.24.9.2 (7) -Carta 51 (8) -M.A.24v (9) -M.A.32v (10) -M.A.69v (11) -C.T.73 (12) -C.T.108 (13) -C.A.7.5.1 (14) -C.A.8.7.4 (15) -C.A.6.9.2 (16) -C.A.28.9.2 (17) -C.A.30.9 (18) -Carta 14 (19) -M.A.14v (20) -M.A.36v (21) -M.B.5r (22) -M.C.2r (23) -C.T.221 (24) -C.A.28.8.2 (25) -N.V.21.7.2 (26) -C.T.89 (27) -C.T.56 (28) -C.T.90 (29) -C.T.94 (30) -C.T.120 (31) -C.T.67 (32) -C.T.107 (33) -C.T.116 (34) -C.T.120 (35) -C.T.130 (36) -C.T.131 (37) -C.T.154 (38) -C.T.157 (39) -C.T.193 (40) -C.T.254 (41) -C.T.258 (42) -C.A.15.5.2 (43) -C.T.190 (44) -Carta 17 (45) -C.T.242 (46) -C.A.4.9.6 (47) -C.A.21/26.5.10 (48) -C.A.6.6.2 (49) -C.A.13.7.17 (50) -C.A.14.7.10 (51) -C.A.31.8.2 (52) -C.T.60 (53) -C.A.10.7.13 (54) -M.A.25r (55) -M.A.61r (56) -M.C.4v (57) -M.C.7r (58) -M.C.7v (59) -C.T.85 (60) -C.T.78 (61) -C.T.171 (62) -M.C.10v (63) -C.T.43b (64) -M.C.28v (65) -C.T.91 (66) -C.T.212 (67) -C.T.213 (68) -C.T.221 (69) -M.A.50v (70) -C.A.19.5 (71) -C.A.27.5.6 (72) -C.A.30.7.9 (73) -C.A.31.7.13 (74) -C.A.29.7.14 (75) -C.A.11.8.3 (76) -C.T.197 (77) -C.T.78 (78) -C.T.258 (79) -C.A.13.7.16 (80) -M.A.74r (81) -C.A.2.8.6 (82) -C.T.82 (83) -C.A.23.6 (84) -C.T.176 (85) -C.T.107 (86) -C.A.15.8.1 (87) -C.T.148 (88) -C.T.133 (89) -C.T.149 (90) -C.T.159 (91) -C.T.191 (92) -M.A.74v (93) -C.T.82 (94) -M.C.28v (95) -C.T.260 (96) -C.T.205 (97) -C.T.226 (98) -C.T.261 (99) -C.T.226 (100)-M.A.35r-35v (101)-M.A.69v (102)-M.A.33v (103)-C.T.96 (104)-C.T.244 (105)-C.T.258 (106)-C.T.258 (107)-M.A.22r (108)-M.A.26r (109)-M.A.35v (110)-M.A.69r (111)-M.A.76v (112)-M.A.77r (113)-M.A.77r (114)-C.A.30.9 (115)-M.A.39r (116)-M.C.4v (117)-M.C.9v (118)-C.A.21.8.1 (119)-C.A.27.8.3 (120)-C.A.11.7.8 (121)-C.A.25.8.1 (122)-C.A.8.9 (123)-C.A.28.8.3 (124)-C.A.24.9.10 (125)-C.T.78 (126)-PN 26 (127)-C.T.245 (128)-M.C.31r (129)-M.C.15r (130)-Carta 32 (131)-Carta 51 (132)-M.C.16v (133)-M.C.17r (134)-M.A.34v (135)-PN 19 (136)-PN 52 (137)-PN 52 (138)-M.B.4v-5r (139)-M.A.83r (140)-M.A.55v (141)-M.A.64r (142)-M.A.77r (143)-M.C.22r-22v (144)-M.A.41r (145)-M.A.78r (146)-PN 20 (147)-M.A.69r (148)-M.C.30v (149)-C.T.176 (150)-C.T.87 (151)-C.T.78 (152)-C.T.173 (153)-C.T.90 (154)-C.T.205 (155)-C.T.142 (156)-C.T.143 (157)-C.T.159 (158)-M.B.3v (159)-PN 17 (160)-PN 29 (161)-C.A.24.9.2 (162)-C.T.57 (163)-C.A.18.4.1 (164)-C.A.14.7.9 (165)-C.A.9.6.3 (166)-C.A.6.4.1 (167)-C.T.145 (168)-C.T.176 (169)-C.T.190 (170)-C.T.211 (171)-C.T.109 (172)-C.T.149 (173)-C.A.6.8.4 (174)-C.T.93 (175)-C.A.6.8.7 (176)-C.T.166 (177)-PN 5 (178)-C.T.92 (179)-C.T.120 (180)-C.T.76 (181)-C.A.15.5.3 (182)-PN 24 (183)-PN 36 (184)-C.A.3.8.1 (185)-C.A.27.7.4 (186)-C.T.112 (187)-C.A.1.5.2 (188)-PN 46 (189)-C.T.114 ÍNDICE Teresa,
mulher.............................. 1 Teresinha
e Teresa.......................... 9 Harmonia
existencial........................ 19 Teresa,
humana.............................. 29 Teresa,
líder e mestra...................... 38 Teresa,
doutora............................. 59 Teresa,
escritora e pintora................. 83 O
Amor......................................107 No Sopé
da Montanha.........................150 A
Subida....................................170 O Peso
da Subida............................194 No Cume
da Montanha.........................222 * é
doutor em teologia e Vigário Geral da Arquidiocees de Maceió |