Como ler a Bíblia?

 

 

 

 

Devemos compreender que a Bíblia é a Palavra de Deus escrita para os homens e pelos homens; logo, ela apresenta duas faces: a divina e a humana. Logo, para poder interpretá´la bem é necessário o reconhecimento da sua face humana, para depois, compreender a sua mensagem divina. Não se pode interpretar a Sagrada Escritura só em nome da “mística”, pois muitas vezes podemos ser levados por idéias religiosas pré´concebidas, ou mesmo podemos cair no subjetivismo. Por outro lado, não se pode querer usar apenas os critérios científicos (lingüística, arqueologia, história, ...); é necessário, após o exame científico do texto, buscar o sentido teológico. A Bíblia não é um livro caído do céu, ela não foi ditada mecanicamente por Deus e escrita pelo autor bíblico (=hagiógrafo), mas é um Livro que passou pela mente de judeus e gregos, numa faixa de tempo que vai do séc. XIV aC. ao século I dC. É por causa disto que é necessário usar uma tradução feita a partir de originais e com seguros critérios científicos. Os escritos bíblicos foram inspirados a certos homens; isto é, o Espírito Santo iluminou a mente do hagiógrafo a fim de que ele, com sua cultura religiosa e profana, pudesse transmitir uma mensagem fiel à vontade de Deus. A Bíblia é portanto um livro humano´divino, todo de Deus e todo do homem, transmite o pensamento de Deus, mas de forma humana. É como o Verbo encarnado, Deus e homem verdadeiro. É importante dizer que a inspiração bíblica é estritamente religiosa; isto é, não devemos querer buscar verdades científicas na Bíblia, mas verdades religiosas, que ultrapassam a razão humana: o plano da salvação do mundo, a sua criação, o sentido do homem, do trabalho, da vida, da morte, etc. Não há oposição entre a Bíblia e as ciências naturais; ao contrário, os exegetas (estudiosos da Bíblia) usam das línguas antigas, da história, da arqueologia e outras ciências para poderem compreender melhor o que os autores sagrados quiseram nos transmitir. Mas é preciso ficar claro que a revelação de Deus através da Bíblia não tem uma garantia científica de tudo o que nela está escrito. É inútil pedir à Bíblia uma explicação dos seis dias da criação, ou da maneira como podiam falar os animais, como no caso da jumenta de Balaão. Esses fatos não são revelações, mas tradições que o autor sagrado usou para se expressar. A própria história contida na Bíblia não deve ser tomada como científica.O que importa é a “verdade religiosa” que Deus quis revelar, e que às vezes é apresentada imbutida em uma parábola, ou outra figura de linguagem. O mais importante é entender que a verdadeira leitura bíblica deve sempre ter em vista a finalidade principal de toda a Sagrada Escritura que é a de anunciar Jesus Cristo e dar testemunho de sua pessoa. Para aqueles que viviam no Antigo Testamento, se tratava apenas de um Salvador desconhecido, que viria. Mas para nós, se trata do Salvador que “habitou no meio de nós”, e que ressuscitado está no meio de nós até o fim dos tempos, quando voltará visível e glorioso para encerrar a história. Por ser Palavra de Deus, a Bíblia nunca fica velha, nem caduca; ela fala´nos hoje como para além dos séculos. Cristo é o centro da Sagrada Escritura. O Antigo Testamento o anuncia em figuras e na esperança; o Novo Testamento o apresenta como modelo vivo. O Catecismo nos ensina que “Deus, na condescendência de sua bondade, para revelar´se aos homens, fala´lhes em palavras humanas” (§101). “Através de todas as palavras da Sagrada Escritura, Deus pronuncia uma só Palavra, seu Verbo único, no qual se expressa por inteiro” (§102). “Com efeito, as palavras de Deus, expressas por linguagem humana, tal como outrora o Verbo do Pai Eterno, havendo assumido a carne da fraqueza humana, se fez semelhante aos homens” (DV,13). Santo Agostinho ensinava que: “É uma mesma Palavra de Deus que se ouve em todas as Escrituras, é um mesmo Verbo que ressoa na boca de todos os escritores sagrados, ele que, sendo no início Deus, junto de Deus, não tem necessidade de sílabas, por não estar submetido ao tempo”(Salmos 103,4,1). Somente as palavras originais com as quais a Bíblia foi escrita (hebraico, aramaico e grego) foram inspiradas; as traduções não gozam do mesmo carisma da inspiração; é por isso que a Igreja sempre teve muito cuidado com as traduções, pois podem conter algum sentido que não foi da vontade do autor e de Deus. As traduções devem ser fiéis aos originais; e isto não é fácil.

 

A ESCRITA BÍBLICA

 

Os livros da Bíblia foram escritos em três línguas muito antigas: o hebraico (todos os livros protocanônicos do AT), aramaico (Ev. Mateus); grego (livros do NT). O hebraico era escrito sem vogais até o século VII dC. Somente nos séculos VII a X dC, os rabinos judeus fizeram a vocalização do texto hebraico introduzindo as vogais (texto massorético). O leitor colocava mentalmente as vogais entre as consoantes, o que podia gerar dúvidas. Por exemplo, a palavra “ah”, podia significar irmão, primo ou parente. O hebraico não tinha superlativo e não separava as palavras. O aramaico era parecido com o hebraico, falado pelos arameus, comerciantes na mesopotâmia; adotado pelos judeus desde o século V aC; foi a língua falada por Jesus. O hebraico aos poucos ficou apenas sendo usado no culto divino. O grego era a língua de um povo culto; era falada em todo o império romano, e foi muito usada por escritores judeus, uma vez que este povo se espalhou por todo o império. Os escritores antigos não dividiam o texto sagrado em capítulos e versículos. Os cristãos é que o fizeram para fazer as citações e para a Liturgia. Eusébio de Cesaréia (†340) dividiu os Evangelhos em 1162 capítulos. Na idade média, o arcebispo Estêvão Langton, de Cantuária (†1228), distribuiu o texto latino do AT e do NT em capítulos; esta divisão foi introduzida no texto hebraico do AT e no texto grego dos LXX e do NT e está em uso até hoje. A divisão dos capítulos e versículos como temos hoje é do século XVI. Santes Pagnino de Lucca (†1554) dividiu o AT e o NT em versículos numerados. Roberto Estêvão, tipógrafo francês, refez a distribuição do NT em 1551. Os textos da Bíblia foram escritos em material frágil (pergaminho ou papiro); por isso, os originais se perderam ou não se conservaram; mas temos cópias dos originais. Com a descoberta dos manuscritos de Qumran, em 1947, em Israel, às margens do Mar Morto, que datam do século I aC e I dC, foi possível recuar mil anos na tradição manuscrita. Antes de 1947 não possuíamos cópias dos textos hebraicos do AT anteriores aos séculos IX/X depois de Cristo; tínhamos apenas os manuscritos da idade média, e viu´se que há identidade com os documentos descobertos em Qumran, o que quer dizer que os textos se foram transmitindo fielmente através dos séculos. Isto se deu porque os judeus guardavam ciosamente a sua literatura religiosa e não permitiam que ela se deteriorasse.

 

GÊNEROS LITERÁRIOS

 

Como a Bíblia é a Palavra de Deus, escrita no linguajar humano, ela utiliza dos gêneros literários que são os artifícios das linguagens dos homens para se expressar. O gênero literário a ser usado depende do assunto a ser transmitido. Eis alguns tipos: leis, genealogias, oráculos proféticos, poemas, poesia, parábolas, epopéias, orações, hino litúrgico, sermões, conto de amor, salmo, relato histórico (santa Ceia, por exemplo), crônicas, midraxe, cartas, fábulas, apocalípse, etc; para cada caso temos um jeito de escrever. Cada gênero literário tem a sua forma de interpretação própria; ora, não se pode interpretar o texto de uma lei da mesma forma que uma parábola! É por isso que não se pode interpretar a Bíblia ao pé da letra; daí surgem muitos erros. É preciso lembrar também que a Bíblia foi escrita num intervalo de tempo de aproximadamente 14 séculos, 1400 anos, desde o séc XIII aC. até o século I depois de Cristo. Isto implica em conceitos diferentes dos nossos; portanto, não se pode ler a Bíblia com a mesma mentalidade e valores do nosso tempo. Algo que era normal naquele tempo pode hoje nos parecer um absurdo; mas Deus quis usar o homem para transmitir a sua Palavra. Na Bíblia não há erros; esses são parte de quem a interpreta. Muitas vezes o que para nós hoje tem um sentido, para o autor sagrado quer dizer outra; às vezes ele está usando apenas um artifício de linguagem e nós interpretamos ao pé da letra. Daí a dificuldade de se interpretar certas partes da Escritura. Por isso Jesus deixou o Sagrado Magistério da Igreja (Papa e bispos) para que a sua interpretação não tenha erro.

 

OS SENTIDOS DA ESCRITURA

 

Para se fazer uma boa leitura da Bíblia, a Igreja nos recomenda ter em mente o que chamamos de cinco sentidos.

 

1. A analogia da fé – A Bíblia é um livro de verdades religiosas reveladas por Deus. Cada texto está de certa forma relacionado com toda a Bíblia e com a fé da Igreja. Não podemos tirar um texto ou um versículo que seja deste contexto, sem que possa haver erro de interpretação. Aqui entra a fundamental importância da Tradição e do Magistério da Igreja. É a Igreja que deve ter a palavra final, a fim de se evitar o perigoso subjetivismo pessoal (“eu acho que...”).

 

2. O sentido da História – Deus é o Senhor da história dos homens e a sua santa vontade se realiza por meio das vicissitudes humanas. O avançar da história também nos ajuda a compreender a Sagrada Escritura. Jesus mandou observar os sinais dos tempos.

 

3. O sentido do movimento progressivo da Revelação É importante notar que Deus na sua paciência diferente da nossa, foi se revelando lentamente, durante 14 séculos, e continuou a se revelar durante mais de 20 séculos pelos caminhos da Sua Igreja, através da Sagrada Tradição (transmissão oral, não escrita) que para nós católicos tem o mesmo valor das Sagradas Escrituras.

 

4. O sentido da relatividade das palavras – as palavras são relativas, nem sempre absolutas. Para compreender o texto bíblico importa saber o que certas palavras significavam exatamente quando foram usadas pelo autor sagrado.

 

5. O bom senso e senso crítico – também é recomendado; isto é, a nossa inteligência e equilíbrio diante dos fatos. É bom saber perguntar diante de certas interpretações: isto tem fundamento no texto original? Ou são apenas o ponto de vista de alguém em desacordo com o autor sagrado?

 

A Constituição Dogmática do Concílio Vaticano II sobre a Revelação divina, Dei Verbum, recomenda três pontos ao se ler a Palavra de Deus:

 

1. Conteúdo e unidade da Escritura inteira. Quer dizer, não interpretar uma parte da Escritura fora do seu contexto integral. Muitas vezes um versículo só será bem entendido quando lido juntamente com outros.

 

2. A Tradição viva da Igreja. Observar como a Tradição da Igreja interpretou a parte que está sob estudo; especialmente pesar a palavra dos Papas, Santos Padres da Igreja e seus doutores.

 

3. Analogia da fé – Isto é, verificar a coesão das verdades da fé entre si. Uma não pode ser oposta a outra, pois o Espírito Santo não se contradiz.

 

O Concílio Vaticano II

 

O Concílio indica também três critérios para uma interpretação da Escritura conforme ao Espírito que a inspirou:

 

1. Prestar muita atenção ao conteúdo e à unidade da Escritura inteira.

 

Pois, por mais diferentes que sejam os livros que a compõem, a Escritura é una em razão da unidade do projeto de Deus, do qual Cristo Jesus é o centro e o coração, aberto depois da sua Páscoa (§112). São Tomás de Aquino assim explica: “O coração de Cristo designa a Sagrada Escritura que dá a conhecer o coração de Cristo. O coração estava fechado antes da Paixão, pois a Escritura era obscura. Mas a Escritura foi aberta após a Paixão, pois os que a partir daí têm a compreensão dela consideram e discernem de que maneira as profecias devem ser interpretadas”. (Sl. 21,11).

 

2. Ler a Escritura dentro da Tradição viva da Igreja inteira.

 

Conforme o ensinamento dos Padres da Igreja, “a Sagrada Escritura está escrita mais no coração da Igreja do que nos instrumentos materiais”. Com efeito, a Igreja leva na sua Tradição, a memória viva da Palavra de Deus, e é o Espírito Santo que lhe dá a interpretação espirital da Escritura (“... segundo o sentido espiritual que o Espírito dá à Igreja”) (Orígenes, hom. Lv. 5,5), (§113).

 

3. Estar atento “à analogia da fé”(Rom 12,6).

 

Por analogia da fé entendemos a coesão das verdades da fé entre si e no projeto total da Revelação.

 

O sentido literal e o espiritual

 

O Catecismo da Igreja nos ensina que há dois sentidos nas Escrituras, segundo uma antiga tradição da Igreja. O sentido literal ´ é dado pelo significado das palavras da Escritura e descoberto pela exegese (estudo profundo do texto bíblico) que segue as regras da correta interpretação.São Tomás de Aquino dizia que “todos os sentidos devem estar fundados no literal” (Suma Theol. 1,1, 10, ad 1).(§116) O sentido espiritual ´ Graças à unidade do projeto de Deus, não somente o texto da Escritura, mas também as realidades e os acontecimentos de que fala, podem ser sinais. O sentido espiritual pode ser subdividido em alegórico, moral e anagógico. O sentido alegórico ´ Podemos adquirir uma comprensão mais profunda dos acontecimentos reconhecendo a significação deles em Cristo; assim, a travessia do Mar Vermelho é um sinal da vitória de Cristo, e também é um sinal do Batismo (cf. 1Cor 10,12). O sentido moral ´ Os acontecimentos relatados na Escritura podem conduzir´nos a um justo agir. São Paulo diz que eles foram escritos para a nossa instrução (1 Cor 10,11; Hb 3´4,11) O sentido anagógico ´ Podemos ver realidades e acontecimentos na sua significação eterna, conduzindo´nos (em grego: anogoge) para a nossa Pátria. Assim, a Igreja na terra é sinal da Jerusalém celeste. (cf. Ap 21,1´22, 5) (§117). Um ensinamento medieval resume a significação dos quatro sentidos: “A letra ensina o que aconteceu; a alegoria, o que deves crer; a moral, o que deves fazer; a anagogia, para onde deves caminhar”(§118)

 

A relação entre o Antigo e o Novo Testamento

 

Embora o Novo Testamento seja “o coração das Escrituras”, já que contém os Evangelhos, o Antigo Testamento continua sendo uma parte inalienável da Sagrada Escritura. Seus livros são divinamente inspirados e conservam um valor permanente (cf. DV, 14), uma vez que a Antiga Aliança nunca foi revogada, como ensina a Igreja. O nosso Catecismo ensina que: “Os cristãos veneram o Antigo Testamento como verdadeira Palavra de Deus. A Igreja sempre rechaçou vigorosamente a idéia de rejeitar o Antigo Testamento sob o pretexto de que o Novo o teria feito caducar (Marcionismo)”(§123). “A Igreja, já nos tempos apostólicos (1Cor 10,6.11; Hb10,1; 1 Pe 3,21), e depois, constantemente na sua Tradição, iluminou a unidade do plano divino nos dois Testamentos graças à tipologia. Esta discerne nas obras de Deus contidas na Antiga Aliança prefigurações daquilo que Deus realizou na plenitude dos tempos, na pessoa de seu Filho encarnado.”(§128) “Por isso os cristãos lêem o Antigo Testamento à luz de Cristo morto e ressuscitado. Esta leitura tipológica manifesta o conteúdo inesgotável do Antigo Testamento. Ela não deve levar a esquecer que este conserva o seu valor próprio de Revelação, que o próprio Nosso Senhor reafirmou (cf. Mc 12, 29´31). De resto, também o Novo Testamento exige ser lido à luz do Antigo. A catequese cristã primitiva recorre constantemente a ele (cf. 1Cor 5,6´8; 10, 1´11).(§129)

 

Hugo de São Vitor também dizia que:

 

“Toda a Escritura divina é um único livro, e este livro único é Cristo, já que toda Escritura divina fala de Cristo, e toda Escritura divina se cumpre em Cristo”.(Noe 2,8; CIC §134).

 

Segundo uma palavra de Santo Agostinho:

 

“O Novo Testamento está escondido no Antigo, ao passo que o Antigo é desvendado no Novo” (Hept 2, 73; DV,16; CIC §129).

 

COMO A BÍBLIA FOI ESCRITA

 

Os textos da Bíblia começaram a ser escritos desde os tempos anteriores a Moisés (1200 aC). Escrever era uma arte rara e cara, pois se escrevia em tábuas de madeira, papiro, pergaminho (couro de carneiro). Moisés foi o primeiro codificador das leis e tradições orais e escritas de Israel. Essas tradições foram crescendo aos poucos por outros escritores no decorrer dos séculos, sem que houvesse uma catalogação rigorosa das mesmas. Assim foi se formando a literatura sagrada de Israel. Até o século XVIII dC, admitia´se que Moisés tinha escrito o Pentateuco (Gen, Ex, Lev, Nm, Dt); mas, nos últimos séculos, os estudos mais apurados mostraram que não deve ter sido Moisés o autor de toda esta obra. A teoria que a Igreja Católica aceita é a seguinte: O povo de Israel, desde que Deus chamou Abrão de Ur na Caldéia, foi formando a sua tradição histórica e jurídica. Moisés deve ter sido quem fez a primeira codificação das Leis de Israel, por ordem de Deus, no séc. XIII aC. Após Moisés, o bloco de tradições foi enriquecido com novas leis devido às mudanças históricas e sociais de Israel. A partir de Salomão (972´932), passou a existir na corte dos reis, tanto de Judá quanto da Samaria (reino cismático desde 930 aC) um grupo de escritores que zelavam pelas tradições de Israel, eram os escribas e sacerdotes. Do seu trabalho surgiram quatro coleções de narrativas históricas que deram origem ao Pentateuco:

 

1. Coleção ou código Javista (J), onde predomina o nome Javé. Tem estilo simbolista, dramático e vivo; mostra Deus muito perto do homem. Teve origem no reino de Judá com Salomão (972´932).

 

2. O código Eloista (E), predomina o nome Elohim (=Deus). Foi redigido entre 850 e 750 aC, no reino cismático da Samaria. Não usa tanto o antropomorfismo (representa Deus à semelhança do homem) do código Javista.

 

Quando houve a queda do reino da Samaria, em 722 para os Assírios, o código E foi levado para o reino de Judá, onde ouve a fusão com o código J, dando origem a um código JE.

 

3. O código (D) ´ Deuteronômio (= repetição da Lei, em grego). Acredita´se que teve origem nos santuários do reino cismático da Samaria (Siquém, Betel, Dã,...) repetindo a lei que se obedecia antes da separação das tribos. Após a queda da Samaria (722) este código deve ter sido levado para o reino de Judá, e tudo indica que tenha ficado guardado no Templo até o reinado de Josias (640´609 aC), como se vê em 2Rs 22. O código D sofreu modificações e a sua redação final é do século V aC, quando, então, na íntegra, foi anexado à Torá. No Deuteronômio se observa cinco “deuteronômios” (repetição da lei). A característica forte do Deuteronômio é o estilo forte que lembra as exortações e pregações dos sacerdotes ao povo.

 

4. O código Sacerdotal (P) – provavelmente os sacerdotes judeus durante o exílio da Babilônia (587´537aC) tenham redigido as tradições de Israel para animar o povo no exílio. Este código contém dados cronológicos e tabelas genealógicas, ligando o povo do exílio aos Patriarcas, para mostrar´lhes que fora o próprio Deus quem escolheu Israel para ser uma nação sacerdotal (Ex 19,5s). O código P enfatiza o Templo, a Arca, o Tabernáculo, o ritual, a Aliança.

 

Tudo indica que no século V aC, um sacerdote, talvez Esdras, tenha fundido os códigos JE e P, colocando como apêndice o código D, formando assim o Pentateuco ou a Torá, como a temos hoje.

 

A importância da Igreja

 

Se não fosse a Igreja Católica, não existiria a Bíblia como a temos hoje, com os 73 livros canônicos, isto é, inspirados pelo Espírito Santo. Foi num longo processo de discernimento que a Igreja, desde o tempo dos Apóstolos, foi “berçando” a Bíblia, e descobrindo os livros inspirados. Se você acredita no dogma da infalibilidade de Igreja, então pode acreditar na Bíblia como a Palavra de Deus. Mas se você não acredita, então a Bíblia perde a sua inerrância, isto é, ausência de erro. Esta conclusão nos leva a outra também importantíssima, que é a seguinte: se foi a Igreja, que guiada pelo Espírito Santo, compôs a Bíblia, logo, é ela também a única autoridade capaz de a interpretar segundo o que Deus quis nos dizer de fato. Por que a Igreja tem tanta certeza de que ela não erra naquilo que é essencial para levar os seus filhos à salvação? Por causa das grandes promessas que o próprio Senhor lhe fez, garantindo que ela guardaria sem erros o “depósito da fé” que Jesus nos deixou através dos Apóstolos. Demorou alguns séculos para que a Igreja chegasse à forma final da Bíblia. Em vários Concílios, alguns regionais outros universais, a Igreja estudou o cânon da Bíblia; isto é, o seu índice.

 

Garante´nos o Catecismo da Igreja e o Concílio Vaticano II que:

 

“Foi a Tradição apostólica que fez a Igreja discernir que escritos deviam ser enumerados na lista dos Livros Sagrados”(DV 8; CIC,120).

 

Portanto, sem a Tradição da Igreja não teríamos a Bíblia. Santo Agostinho dizia: “Eu não acreditaria no Evangelho, se a isso não me levasse a autoridade da Igreja Católica”(CIC,119).

 

Por que a Bíblia católica é diferente da protestante? Esta tem apenas 66 livros porque Lutero e, principalmente os seus seguidores, rejeitaram os livros de Tobias, Judite, Sabedoria, Baruc, Eclesiástico (ou Sirácida), 1 e 2 Macabeus, além de Ester 10,4´16; Daniel 3,24´20; 13´14.

 

A razão disso vem de longe.

 

No ano 100 da era cristã os rabinos judeus se reuniram no Sínodo de Jâmnia (ou Jabnes), no sul da Palestina, a fim de definirem a Bíblia Judaica. Isto porque nesta época começava a surgir o Novo Testamento com os Evangelhos e as cartas dos Apóstolos, que os Judeus não aceitaram.

 

Nesse Sínodo os rabinos definiram como critérios para aceitar que um livro fizesse parte da Bíblia, o seguinte:

 

(1) deveria ter sido escrito na Terra Santa;

 

(2) escrito somente em hebraico, nem aramaico e nem grego;

 

(3) escrito antes de Esdras (455´428 a.C.);

 

(4) sem contradição com a Torá ou lei de Moisés.

 

Esses critérios eram nacionalistas, mais do que religiosos, fruto do retorno do exílio da Babilônia. Por esses critérios não foram aceitos na Bíblia judaica da Palestina os livros que hoje não constam na Bíblia protestante, citados antes.

 

Acontece que em Alexandria no Egito, cerca de 200 anos antes de Cristo, já havia uma forte colônia de judeus, vivendo em terra estrangeira e falando o grego. Os judeus de Alexandria, através de 70 sábios judeus, traduziram os livros sagrados hebraicos para o grego, entre os anos 250 e 100 a.C, antes do Sínodo de Jâmnia (100 d.C). Surgiu assim a versão grega chamada Alexandrina ou dos Setenta. E essa versão dos Setenta, incluiu os livros que os judeus de Jâmnia, por critérios nacionalistas, rejeitaram.

 

Havia então no início do Cristianismo duas Bíblias judaicas: uma da Palestina (restrita) e a Alexandrina (completa – Versão dos LXX).

 

Os Apóstolos e Evangelistas optaram pela Bíblia completa dos Setenta (Alexandrina), considerando canônicos os livros rejeitados em Jâmnia. Ao escreverem o Novo Testamento usaram o Antigo Testamento, na forma da tradução grega de Alexandria, mesmo quando esta era diferente do texto hebraico. O texto grego “dos Setenta” tornou´se comum entre os cristãos; e portanto, o cânon completo, incluindo os sete livros e os fragmentos de Ester e Daniel, passou para o uso dos cristãos.

 

Das 350 citações do Antigo Testamento que há no Novo, 300 são tiradas da Versão dos Setenta, o que mostra o uso da Bíblia completa pelos apóstolos.

 

Verificamos também que nos livros do Novo Testamento há citações dos livros que os judeus nacionalistas da Palestina rejeitaram. Por exemplo: Rom 1,12´32 se refere a Sb 13,1´9; Rom 13,1 a Sb 6,3; Mt 27,43 a Sb 2, 13.18; Tg 1,19 a Eclo 5,11; Mt 11,29s a Eclo 51,23´30; Hb 11,34 a 2 Mac 6,18; 7,42; Ap 8,2 a Tb 12,15.

 

Nos séculos II a IV houve dúvidas na Igreja sobre os sete livros por causa da dificuldade do diálogo com os judeus. Finalmente a Igreja, ficou com a Bíblia completa da Versão dos Setenta, incluindo os sete livros.

 

Por outro lado, é importante saber também que muitos outros livros que todos os cristãos têm como canônicos, não são citados nem mesmo implicitamente no Novo Testamento. Por exemplo: Eclesiastes, Ester, Cântico dos Cânticos, Esdras, Neemias, Abdias, Naum, Rute.

 

Outro fato importantíssimo é que nos mais antigos escritos dos santos Padres da Igreja (patrística) os livros rejeitados pelos protestantes (deutero´canônicos) são citados como Sagrada Escritura. Assim, São Clemente de Roma, o quarto Papa da Igreja, no ano de 95 escreveu a Carta aos Coríntios, citando Judite, Sabedoria, fragmentos de Daniel, Tobias e Eclesiástico; livros rejeitados pelos protestantes. Ora, será que o Papa S. Clemente se enganou, e com ele a Igreja? É claro que não. Da mesma forma, o conhecido Pastor de Hermas, no ano 140, faz amplo uso de Eclesiástico, e do 2 Macabeus; Santo Hipólito (†234), comenta o Livro de Daniel com os fragmentos deuterocanônicos rejeitados pelos protestantes, e cita como Sagrada Escritura Sabedoria, Baruc, Tobias, 1 e 2 Macabeus.

 

Fica assim, muito claro, que a Sagrada Tradição da Igreja e o Sagrado Magistério sempre confirmaram os livros deuterocanônicos como inspirados pelo Espírito Santo.

 

Vários Concílios confirmaram isto: os Concílios regionais de Hipona (ano 393); Cartago II (397), Cartago IV (419), Trulos (692). Principalmente os Concílios ecumênicos de Florença (1442), Trento (1546) e Vaticano I (1870) confirmaram a escolha.

 

No século XVI, Martinho Lutero (1483´1546) para contestar a Igreja, e para facilitar a defesa das suas teses, adotou o cânon da Palestina e deixou de lado os sete livros conhecidos, com os fragmentos de Esdras e Daniel.

 

Sabemos que é o Espírito Santo quem guia a Igreja e fez com que na hesitação dos séculos II a IV a Igreja optasse pela Bíblia completa, a versão dos Setenta de Alexandria, o que vale até hoje para nós católicos.

 

Lutero, ao traduzir a Bíblia para o alemão, traduziu também os sete livros (deuterocanônicos) na sua edição de 1534, e as Sociedades Biblícas protestantes, até o século XIX incluíam os sete livros nas edições da Bíblia.

 

Neste fato fundamental para a vida da Igreja (a Bíblia completa) vemos a importância da Tradição da Igreja, que nos legou a Bíblia como a temos hoje. Disse o último Concílio:

 

“Pela Tradição torna´se conhecido à Igreja o Cânon completo dos livros sagrados e as próprias Sagradas Escrituras são nelas cada vez mais profundamente compreendidas e se fazem sem cessar, atuantes. Assim o Deus que outrora falou, mantém um permanente diálogo com a Esposa de seu dileto Filho, e o Espírito Santo, pelo qual a voz viva do Evangelho ressoa na Igreja e através da Igreja no mundo, leva os fiéis à verdade toda e faz habitar neles copiosamente a Palavra de Cristo” (DV,8).

 

Por fim, é preciso compreender que a Bíblia não define, ela mesma, o seu catálogo; isto é, não há um livro da Bíblia que diga qual é o índice dela. Assim, este só pode ter sido feito pela Tradição dos apóstolos, pela tradição oral que de geração em geração chegou até nós.

 

Se negarmos o valor indispensável da Tradição, negaremos a autenticidade da própria Bíblia.

 

É interessante notar que o Papa São Dâmaso (366´384), no século IV, pediu a S.Jerônimo que fizesse uma revisão das muitas traduções latinas que havia da Bíblia, o que gerava certas confusões entre os cristãos. São Jerônimo revisou o texto grego do Novo Testamento e traduziu do hebraico o Antigo Testamento, dando origem ao texto latino chamado de Vulgata, usado até hoje.

 

 


 

Fonte: Prof. Felipe Aquino - Editora Cléofas

Conheça os livros do  prof. Felipe Aquino e documentos da Igreja EDITORA CLÉOFAS,Caixa Postal 100 - CEP: 12600-970,  Lorena-SP, (0xx12)552-6566

Home Page: www.cleofas.com.br

Email : cleofas@cleofas.com.br

----------------------------------------------------------------

Copyright  2002 -  Paróquia do Divino Espírito Santo - Maceió/AL