INTRODUÇÃO AOS LIVROS DA BÍBLIA
LIVROS DO
ANTIGO TESTAMENTO
O Pentateuco - é o nome dado aos
cinco primeiros livros da Bíblia (Gen, Ex, Lev, Num, Dt) e constituem a Lei de
Moisés ou Torá.
O livro do Gênesis - narra as
origens do homem e do mundo criados por Deus, e apresenta-nos a
maravilhosa história dos Patriarcas: Abraão, Isac e Jacó. A mensagem deste
livro é importantíssima. Entre outras coisas traz a revelação de Deus sobre os
seguinte pontos:
1 - Deus é o Criador do mundo e do
homem.
2 - Deus é distinto do universo;
quer dizer, não existe o Panteísmo que defende que Deus e o mundo são a mesma
coisa; e o mundo seria apenas uma "emanação de Deus".
3 - O mundo é bom.
4 - O mundo criado manifesta a
glória e a paz de Deus.
5 - O homem foi criado da terra, mas
foi animado de um espírito de vida (alma) imortal, criado e dado por Deus.
6 - O homem foi criado para viver na
amizade de Deus.
7 - O homem foi criado livre.
8 - A harmonia primitiva foi
destruída pelo pecado da desobediência a Deus. O homem tem a vã esperança de
ser Deus (pecado original).
9 - O homem foi excluído do Paraíso.
10 - Deus faz a Promessa de Redenção
da humanidade através da Mulher.
11 - O homem foi dominado pelo
pecado e o mal se generaliza: Caím, Torre de Babel, Sodoma e Gomorra, etc..
12 - Deus faz uma primeira aliança
com o homem através de Noé.
13 - Deus continua a aliança com
Abraão, Isac e Jacó.
O livro do Êxodo - narra a ida do povo de Israel para o Egito e a escravidão
alí sofrida. Deus chama Moisés e através dele tira o povo do Egito
milagrosamente; em seguida estabelece uma Aliança com Moisés e dá ao Povo os
seus Mandamentos, leis, preceitos, ritos e cultos.
O livro do Levítico - narra as Leis dos rituais, as leis sociais, as
prescrições, as bênçãos e maldições, os sacrifícios oferecidos a Deus
(holocaustos, oblações, sacrifícios pacíficos, sacrifícios de expiação). Era o
livro dos levitas ou sacerdotes do povo. São as leis relativas ao culto e à
santidade do povo.
O livro dos Números - fala do recenseamento do povo feito por Moisés no deserto
e apresenta as listas de nomes e números. Contém ainda outras leis misturadas
com a narrativa da caminhada até as margens do rio Jordão.
O livro do Deuteronômio, que quer dizer "segunda lei", consta de
cinco sermões de Moisés que recapitulam a Lei e narra o fim da vida de Moisés.
Os livros Históricos - Há 16 Livros históricos na Bíblia (Josué, Juízes, Rute,
I e II Samuel, I e II Reis, I e II Crônicas, Esdras, Neemias, Tobias, Judite,
Ester, I e II Macabeus) que narram a história do povo hebreu desde a entrada na
Terra Prometida até os tempos dos Macabeus, já próximo de Jesus cerca de 150
anos.
O livro de Josué - Narra a árdua missão de Josué, indicado por Deus a Moisés
para ser o seu sucessor e introduzir o povo na Terra prometida, fazendo o povo
viver as leis que Deus deu a Moisés, distribuindo a terra entre as tribos de
Israel e lutando contra os cananeus. Mostra a fidelidade de Deus às suas
promessas feitas ao povo. É uma continuação lógica do Pentateuco.
O livro dos Juízes - narra as suas histórias desde a morte de Josué até Samuel.
Josué ao morrer não deixou sucessor. As doze tribos de Israel já estavam
estabelecidas na terra prometida, mas não tinham um governo central, mas eram
unidas pela religião monoteísta (um só Deus), diferente dos outros povos de
Canaã que tinham muitos deuses (Baal, Aserá, Astarte). Israel convivia com
esses povos pagãos e muitas vezes caiu na idolatria. Neste contexto Deus
suscitou os Juízes em Israel. Eram heróis, muitas vezes dotados de força física
ou carismas especiais para libertarem uma ou mais tribos de Israel dominadas
pelos extrangeiros. Não tinham sucessores nem dinastia, não promulgavam leis e
nem impunham impostos. São o testemunho vivo de que Javé jamais abandonou o seu
povo. Entre os grandes juízes encontramos Eli e Samuel, que foram os únicos que
tiveram autoridade sobre todo o Israel, embora não tinham sido chefes de
exércitos como os outros. Ao todo foram doze juízes. Os maiores foram Otoniel
(da tribo de Judá), Aod (Benjamim), Barac (Neftali), Gedeão (Manassés), Jefté
(Gad), Sansão (Dã). Os menores são Samgar (Simeão), Tolá (Issacar), Jair
(Galaad), Abesã (Aser), Elon (Zabulon) e Abdon (Efraim). Os 21 capítulo de
Juízes cobre um período de quase 200 anos que vai de 1250 a 1050, da
morte de Josué até o primeiro rei de Israel, Saul.
O livro de Rute - é posterior ao exílio na Babilônia (587 - 537 AC). Conta a
bela história de Rute, a moabita que desposou Booz, israelita, e dos
quais nasceu Obed, o pai de Jessé, que foi o pai do rei Davi. A finalidade do
livro é transmitir uma história edificante sobre as origens da família de Davi,
que teve, então, entre os seus antepassados uma moabita, isto é, um membro que
não era do povo judeu, e até seu inimigo. Isto já ensina a universalidade da
salvação preparada por Deus para todos os homens (cf. Rt 2,12). O mesmo se dá
com o livro de Jonas. Mateus, na genealogia de Jesus, faz questão de citar
Rute, para significar que Ele não é filho apenas de israelitas, e Salvador não
só dos judeus, mas de todos os homens.
Os livros de Samuel - foram escritos após o ano 622AC, e narra as histórias de
Samuel, o último dos Juízes, do rei Saul e do rei Davi. Continuam as narrações
contidas nos livros dos Juízes e cobrem um período da história de Israel de
1050 a 970 aC. Samuel, o último dos juízes foi incumbido por Deus para sagrar o
primeiro rei de Israel, Saul.
Os livros dos Reis - narram a história dos reis de Israel, Saul, Davi, Salomão,
etc. , e vai até o exílio do ano 587aC quando aconteceu o exílio para a
Babilônia. Narra a construção do Templo por Salomão, a separação das 12
tribos de Israel em dois reinos rivais (Samaria e Judá), e conta, entre outras coisas,
a queda de ambos os reinos, a destruição de Jerusalém, , a história de Elias,
Eliseu, a Reforma de Josias e a destruição de Jerusalém pelos babilônios. O
livro cobre cerca de 400 anos de história de Israel (970-570 aC). Começa com os
últimos dias de Davi e vai até a libertação de Jeconias, rei de Judá, detido na
Babilônia (561). O livro conta a história dos dois reinos de Israel separados e
rivais. Apresenta os doze reis de Judá, todos da descendência de Davi; e
os dezenove reis da Samaria, pertencentes a nove dinastias diferentes,
perdendo, então, a descendência de Davi.
Os dois livros das Crônicas I e
II(ou Paralipômenos = as coisas omitidas) - formam com os livros de Esdras e
Neemias um bloco homogêneo chamado de "obra do Cronista".
Narram as histórias de Israel, repetindo ou completando o que já foi narrado em
Samuel e Reis. Na
verdade, reapresenta a história
narrada em Samuel e Reis, mas com uma perspectiva ainda mais religiosa. Trazem
uma tabela genealógica desde Adão até Davi; a história do rei Davi, de Salomão
e dos reis de Judá, e procura dar um significado teológico aos acontecimentos
narrados.
O livro de Esdras (sacerdote) e
Neemias (governador) - são do mesmo autor das Crônicas e contam as histórias
desses personagens importantes que restabeleceram a restauração religiosa e
moral de Israel após o exílio da Babilônia. Cobre uma época que vai de 538 a
430 aC. Narram a construção e a dedicação do Templo, a reconstrução das
muralhas e da cidade de Jerusalém. É o tempo dos profetas Ageu, Zacarias e
Malaquias. Foi o renascimento do judaísmo após o exílio, a partir de Judá que
volta do exílio; e daí nascerá o Messias. Por isso Esdras é chamado o "
pai do Judaísmo".
Os livros de Tobias, Judite e Ester
- são livros escritos no gênero literário chamado de midraxe, que é a narração
de um fato histórico com ênfase religiosa, isto é, na ação de Deus que age em
defesa dos fiéis, realçando os aspectos edificantes e moralizantes dos fatos
narrados, com o intuito de formar os leitores. São histórias edificantes que
não se pode saber bem quando ocorreram, e que não se referem a todo o Israel,
mas apenas a uma pessoa, família (Tobias) ou cidade (Judite). São belos livros,
de leitura muito edificante, que mostram a ação de Deus, na vida de uma pessoa,
de uma família ou de uma cidade que nele confia. É importante notar a figura de
duas mulheres, usadas por Deus para a sua obra de salvar o seu povo. Ester é
figura de Nossa Senhora.
Os livros dos Macabeus - contam a
história do povo Judeu no tempo da opressão dos sírios, especialmente pelo rei
Antíoco IV Epífanes (175 -163), que queria obrigar o povo a praticar as leis
pagãs e rejeitar a lei de Deus. Levantou-se Matatias, sacerdote, como chefe de
guerrilha e guerra contra os sírios, com os seus filhos João, Simão, Judas,
Eleazar e Jônatas. A revolta dos Macabeus surgiu
por esta causa e vai aproximadamente de 175 a 163 aC., já no limiar da chegada
de Jesus.
Do tempo de Esdras (400) até os
Macabeus (175), temos um período de cerca de 225 anos dos quais a Bíblia nada
fala. Parece terem sido tempos de paz, embora Israel ainda vivesse sob o jugo
de Alexandre Magno, e depois os sírios.
Os livros sapienciais - Há 7 livros
na Bíblia que são chamados de Sapienciais, isto é, que falam da
sabedoria de Deus. Vamos examiná-los.
O livro de Jó - foi escrito no
século V antes de Cristo, e medita sobre a questão do sofrimento humano. Por
que sofrem os bons? A sua mensagem principal é que o homem deve humilhar-se no
sofrimento e confiar em Deus que sabe tirar o bem até mesmo do mal. Mostra a
vitória, pela fé, de um homem que mesmo coberto de lepra da cabeça aos pés,
sabe ainda confiar em Deus, sem perder a fé e sem blasfemar. A grande mensagem
do livro é que não podemos conhecer todas as causas do sofrimento, mas
devemos fazer um ato de confiança absoluta em Deus. E não ficaremos frustrados.
O livros dos Salmos - contém 150
salmos de Davi, Salomão e outros. Eram orações "cantadas com o
acompanhamento de instrumentos de corda". Era por excelência
o livro de oração dos judeus e também da nossa Igreja. Canta os louvores de
Deus, as lamentações do povo, os cânticos religiosos, os poemas e as súplicas.
Exprimem as mais diversas situações de ânimo; adoração, louvor, perseguição,
saudades do santuário, desejo de Deus, confissão dos pecados, esperança em Deus
que salva, oráculos messiânicos, cânticos de Sion, etc..
O livro dos Provérbios - trazem a
riquíssima sabedoria que o povo judeu armazenou durante a vida muito sofrida,
especialmente no exílio. É o mais representativo da literatura sapiencial
bíblica, que datam do século X a.C., às quais foram acrescentadas normas que
são do séc IV /III aC. Aos poucos a sabedoria foi tomando aspecto religioso,
com as suas raízes no "temor do Senhor", e procura agradar a Deus. É
vista como um dom de Deus. Os sábios atribuíam a ao próprio Deus a sabedoria. O
termo provérbio vem do hebraico "Meschalim", que quer dizer
"Máximas". O livro consta de nove coleções de máximas, as mais
antigas atribuídas a Salomão.
O livro do Eclesiastes - é
parecido com o livro de Jó; uma vez que ambos tratam da questão do sofrimento.
O termo eclesiastes quer dizer "orador" ou "pregador",
aquele que fala na assembléia. Enquanto Jó parte a realidade do mal,
Eclesiastes parte da vaidade e da deficiência de todos os bens. Quem lê o livro
pode à primeira vista ficar confuso, quando recomenda o gozo dos bens
materiais; no entanto são apenas reflexões que o autor faz consigo mesmo,
contraditórias, antes de chegar às conclusões. Por fim termina dizendo:
"teme a Deus e guarda os seus mandamentos". O autor do livro não é
Salomão, mas um judeu da Palestina que viveu no séc. III
a.C.
O livro do Cântico dos Cânticos -
quer dizer "o mais belo dos cânticos" . O tema do livro é o amor de
um homem chamado Salomão e rei por uma jovem chamada de "a sulamita",
guarda de vinhas e pastora. A interpretação é a seguinte: sob a imagem
do esposo é figurado o próprio Deus e, sob a imagem da esposa, a filha de Sion,
o povo de Israel, que Deus escolheu entre todas a nações. Na perspectiva cristã
é a figuração de Cristo (Esposo) e a Igreja (Esposa).Os místicos viram também
na figura da esposa a Virgem Maria e, também, qualquer alma fiel a Deus. As
fortes cenas de amor são uma maneira oriental de se expressas e não devem nos
impressionar ou levar-nos a conclusões erradas; são fortes para mostrar o
quanto Deus ama a humanidade.
O livro da Sabedoria - foi escrito
por um judeu de Alexandria no norte do Egito, com o objetivo de fortalecer a fé
dos judeus que viviam nesta região, de modo a não aderirem à religião dos povos
desta região. Muitos judeus viviam nesta rica cidade fundada por Alexandre
Magno (†324a.C). O autor exalta a Sabedoria judaica, cuja origem é Deus; e quer
mostrar que ela nada é inferior à grega, que domina Alexandria.
O livro do Eclesiástico (ou
Sirácidas) - A tradução grega é "Sabedoria de Jesus filho de Sirac".
Os cristãos de língua latina o chamavam de "Ecclesiasticus", já que
era usado para ensinar os bons costumes aos catecúmenos que se preparavam
para o Batismo. Era o livro da "Ecclesia" (Igreja). É um pouco
parecido com o livro dos Provérbios, mas revela uma fase mais avançada do
pensamento dos judeus. O livro deve ter sido escrito aproximadamente no ano 190
aC em Jerusalém, em hebraico, e depois foi traduzido para o grego em 132 aC.
Os livros proféticos - são 18. A partir de Samuel (sec.XI a.C) até Malaquias
(sec.V a.C) a série dos profetas foi ininterrupta e eles exerceram papel muito
importante no reino de Israel: eram conselheiros dos reis, censuravam as
injustiças, condenavam toda idolatria, etc.
Os profetas Isaías, Jeremias,
Oséias, e Amós, atuaram antes do exílio (587-538 a.C) e mostravam aos
reis e ao povo as suas faltas, pelas quais Deus os abandonaria nas mãos dos estrangeiros.
Os profetas Ezequiel e o
"segundo" Isaías (Is 40-55) agiram durante o exílio procurando erguer
o ânimo do povo.
Os profetas Ageu, Zacarias e
Malaquias atuaram depois do exílio incentivando o povo a reconstruir o Templo e
os muros de Jerusalém, além de empreender a reforma religiosa, moral e social
da comunidade judaica e predizendo a glória do futuro Messias.
Os profetas Oséias, Amós, Miquéias, Joel, Abdias, Jonas, Naum, Habacuc,
Sofonias, Ageu, Zacarias, Malaquias, em número de 12, são chamados de profetas
menores, não porque não foram importantes, mas porque nos deixaram escritos
pequenos, que já no século II antes de Cristo eram colecionados em um só volume
(rolo). Não é possível se saber com exatidão a época em que cada um deles atuou,
mas sabemos que agiram do século VIII ao século III a.C. e fornecem dados
importante da história de Israel e dos povos vizinhos.
O livro de Isaias - o profeta viveu
de 740 a 690aC. Mas não foi o único autor de todo o livro. Este está
dividido em três partes: Isaias I (capítulos 1-39) é do tempo do profeta;
Isaias II (40-55) é da época do exílio da Babilônia (587-638aC) e Isaias III
(56-66) foi escrito após o exílio na época da restauração do povo na sua
terra. O profeta Isaías era filho de nobre família de Jerusalém, poeta , foi
conselheiro dos reis Jaotã, Acaz e Ezequias numa época de infidelidade moral e
religiosa por parte do povo de Israel. O livro de Isaías, por isso, é dito da
"escola de Isaías"; isto é, seus discípulos devem ter continuado a
obra do mestre através dos séculos.
O livro de Jeremias - O profeta
viveu de 650 a 567aC, nasceu perto de Jerusalém. O reino de Judá estava cada
vez mais ameaçado pelos adversários, e o profeta anunciou a ruína da Cidade
Santa e do Templo, por isso foi condenado à morte pelos sacerdotes e falsos
profetas, mas escapou da morte. O livro contém os quarenta anos de pregação do
profeta.
O livro das Lamentações - é
uma coleção de cinco cânticos que choram a queda da Cidade Santa de Jerusalém
ocorrida e 587aC. Os quatro primeiros são acrósticos. Reconhece a culpa
do povo por causa dos seus pecados e o convoca à penitência e à oração.
O livro de Baruc - Baruc foi
conselheiro e secretário (amanuense ) de Jeremias. Acompanhou-o ao Egito após a
queda de Jerusalém em 587aC; o autor trato do povo no exílio da Babilônia e
exorta-o para que não caia na idolatria dos babilônios, viva a lei de Moisés e
não desanime.
O livro de Ezequiel - O profeta
Ezequiel (= Deus dá força), era sacerdote, casado, e perdeu a esposa um pouco
antes da queda de Jerusalém em 587aC. Exerceu o seu ministério até 571aC e,
segundo uma tradição judaica morreu apedrejado pelos judeus. Acompanhou o povo
de Judá na fase mais crítica da sua história, quando Jerusalém caiu sob Nabucodonosor.
O livro de Ezequiel tem quatro partes: 1- (cap. 4-24), onde censura os judeus
antes da queda de Jerusalém por causa dos seus pecados; 2- (cap. 25-32), que
contém oráculos contra os povos estrangeiros que oprimiram os hebreus; 3 -
(cap. 33-39), consola o povo durante e após o cerco de Jerusalém,
prometendo-lhe tempos melhores; 4 - (40-48), descreve a nova cidade e o novo
Templo após a volta do exílio.
O livro de Daniel - O profeta Daniel
(=Deus é meu juíz), é o principal personagem do Livro. Os capítulos de 1 a 6
formam um núcleo histórico e contam a históri do profeta. Daniel foi um hebreu
deportado para a Babilônia em 606 aC, fiel à lei de Deus, que o enriqueceu com
dons diversos, tendo-se tornado importante na corte de Babilônia. Os capítulos
7 a 12 tem uma forma apocalíptica, que tem o seguinte sentido: na época em que
os judeus estavam oprimidos por Antíoco Epifanes (167-164 aC) um hebreu piedoso
escreveu a história dos último séculos de Israel, com a finalidade de animar os
irmãos e apresentou a sua época como próxima da libertação messiânica. Faz
referência ao Filho do Homem (7,13) e ao seu reino definitivo sobre as nações.
Mais do que um livro profético, é um Midraxe e um Apocalipse, escrito no século
II aC, não pelo profeta, mas por alguém que contou a sua história.
Os profetas menores
Amós - era natural de Técua (Judá).
Pastor de gado e cultivador de sicômoros. Exerceu o chamado profético no reino
da Samaria, sob o rei Jeroboão (783-743 aC). Pregou contra o luxo, a depravação
dos costumes, o culto idolátrico, previu a queda do reino da Samaria em 721aC
nas mãos dos Assírios. Foi um ministério curto mas forte.
Oséias - pregou também no
reino do norte, da Samaria, sob Jeroboão II (783-743 aC). O livro mostra as
relações de Javé com o povo judeu simbolizadas pelo casamento do profeta, que
se casa com uma mulher leviana (Gomer), que o engana; mas que cai na
escravidão; é, então resgatada pelo profeta que a recebe de novo como esposa. O
tema principal do livro é o amor de Javé pelo seu povo.
Miquéias - profetizou sob Joatã,
Acaz e Ezequias, reis de Judá (740-690 aC). Deve ter conhecido a queda do reino
do norte em 721 e a invasão de Judá em 701 por Senaquerib. O profeta
Jeremias cita um dos seus oráculos contra Judá (Jr 26, 18). Encontramos neste
livro uma notável profecia messiânica (5,1-4).
Sofonias - Exerceu seu ministério
sob o piedoso rei Josias (640-609 aC), que fez uma forte reforma religiosa em
622 (2Rs22,3-23,21). A mensagem principal de Sofonias é o anúncio do Dia do
Senhor, também abordado por Amós e Isaías. O Senbor salvará o resto do seu
povo, que lhe servirá na justiça, na humildade e na piedade.
Naum - era natural de Elcós. Trata
somente da queda de Nínive, capital do império Assírio, que ameaçava os povos
vizinhos e Judá. O livro é pouco anterior à queda de Nínive em 612 aC.
Habacuc - O livro trata do tema
"porque o ímpio prevalece sobre o justo e o oprime?". É da época das
ameaças dos Assíris sobre Israel. O Senhor responde indicando a queda final dos
ímpios e a vitória dos justos. Mostra que Deus, por caminhos obscuros, prepara
a vitória do direito e dos justos. "O justo viverá pela fé" (Hab 2,4;
Rm 1, 17; Gal 3, 11; Hb 10,38).
Ageu - este profeta dá início ao
último período dos profetas, após o exílio. O tom e a da Restauração. Ageu
acompanha o povo na volta da Babilônia. Essa gente era hostilizada pelos
estrangeiros que moravam na Judéia e nos países vizinhos, passava dificuldades.
Então o profeta exorta este povo a reconstruir o Templo, e isto como condição
para a vinda de Javé e do seu reino. Exerceu seu ministério no ano 520aC.
Zacarias - Exerceu o ministério
também por volta do ano 520aC., após o retorno do exílio. O livro se
refere a oito visões do profeta que tratam da restauração e da salvação de
Israel. Seguem-se os oráculos messiânicos. A segunda parte do livro é de
difícil entendimento, com fatos históricos difíceis de conhecer e com um
apocalipse que descreve as glórias de Jerusalém nos últimos tempos.
Malaquias - seu nome significa
"meu mensageiro". Dois grandes temas são abordados pelo profeta: as
faltas dos sacerdotes e dos fiéis na celebração do culto; e o escândalo dos
matrimônios mistos e dos divórcios. O Senhor anuncia o dia do Senhor que
purificará os sacerdotes e levitas, punirá os maus e concederá o bem aos
justos. Fala da promessa da vinda de Elias que precederá o dia do juízo
final. O livro de aproximadamente 515 aC, anterior à proibição dos
casamentos mistos devida à reforma de Esdras e Neemias em 445 aC.
Abdias - é o menor dos livros
proféticos, e de difícil entendimento. Dirigido a Edom, povo vizinho de Judá,
sob o rei Jorã (848-841 aC). O livro exalta a justiça e o poder de Javé, que
age como defensor do direito.
Joel - o livro foi escrito após o
exílio, próximo do ano 400aC. É um compêndio da escatologia (últimos tempos)
judaica. Descreve o Dia do Senhor, caracterizado pela efusão do Espírito Santo,
o juízo sobre as nações e a restauração messiânica do povo eleito. O ataque dos
gafanhotos, da primeira parte, indica os acontecimentos que antecederão
imediatamente o Dia do Senhor. A segunda parte tem a forma de um apocalípse que
descreve a intervenção final de Deus na história, com abalo cósmico.
Jonas - é diferente de todos os
outros livros proféticos. Narra a história de um profeta, Jonas, que
recusou a ordem do Senhor para que fosse pregar aos ninivitas. Milagrosamente
conduzido pela providência divina chega a Nínive e consegue converter a grande
cidade. Deus lhe ensina que a sua misericórdia atinge a todos os povos. É uma
narração didática, parabólica, não história, para mostrar aos judeus do século
V aC, muito nacionalistas, que a salvação é universal.
RESUMO DOS LIVROS DO NOVO TESTAMENTO
Os Evangelhos
A palavra "Evangelho" vem
do grego "evangélion", que quer dizer "Boa Notícia". Para
os apóstolos era "aquilo que Jesus fez e disse"(At 1,1). É a força
renovadora do mundo e do homem.
A Igreja reconhece como canônicos
(inspirados por Deus) os quatro Evangelhos: Mateus, Marcos, Lucas e João. Os
três primeiros são chamados de "sinóticos" porque podem ser lidos em
paralelo, já o de São João é bastane diferente. Existem também evangelhos
apócrifos que a Igreja não reconheceu como Palavra de Deus. São os de Tomé, de
Tiago, de Nicodemos, de Pedro, os Evangelhos da Infância, etc. Eles contém
verdades históricas junto narrações fantasiosas e heresias.
Os evangelhos são simbolizados pelos
animais descritos em Ez 1,10 e Ap 4,6-8: o leão (Marcos), o touro (Lucas), o
homem (Mateus), a águia (João). Foi a Tradição da Igreja nos séculos II a IV
que tomou esta simbologia tendo em vista o início de cada evangelho. Mateus
começa apresentando a genealogia de Jesus (homem); Marcos tem início com João
no deserto, que é tido como morada do leão; Lucas começa com Zacarias a
sacrificar no Templo um touro, e João começa com o Verbo eterno que das alturas
desce como uma águia para se encarnar.
Jesus pregou do ano 27 a 30 sem nada
deixar escrito, mas garantiu aos Apóstolos na última Ceia, que o Espírito Santo
os faria "relembrar todas as coisas" (Jo14, 25) e lhes
"ensinaria toda a verdade" (Jo 16,13). Desta promessa, e com esta
certeza, a Igreja que nasceu com Pedro e os Apóstolos, sabe que nunca errou o
caminho da salvação. De 20 a 30 anos após a morte de Jesus os Apóstolos
sentiram a necessidade de escrever o que pregaram durante esses anos, para que
as demais comunidades fora da Terra Santa pudessem conhecer a mensagem de
Jesus.
O Evangelho de Mateus - é
o primeiro que foi escrito, em Israel e em aramaico, por volta do
ano 50. Serviu de modelo para Marcos e Lucas. O texto de Mateus foi traduzido
para o grego, tendo em vista que o mundo romano da época falava o grego. O
texto aramaico de Mateus se perdeu. Já no ano 130 o Bispo Pápias, da Frígia,
fala deste texto.
Também Santo Irineu (†200), que foi
discípulo de S. Policarpo, que por sua vez foi discípulo de S. João
evangelista, fala do Evangelho de Mateus, no século II.
Comprova-se aí a historicidade do
Evangelho de Mateus. Ele escreveu para os judeus de sua terra, convertidos ao
cristianismo. Era o únicos dos apóstolos habituado à arte de escrever, a
calcular e a narrar os fatos. Compreende-se que os próprios Apóstolos do tenham
escolhido para esta tarefa. O objetivo da narração foi mostrar aos judeus que Jesus
era o Messias anunciado pelos profetas, por isso, cita muitas vezes o Antigo
Testamento e as profecias sobre o Messias. Como disse Renan, o evangelho de
Mateus tornou-se "o livro mais importante da história universal".
O Evangelho de Marcos - S. Marcos
não foi apóstolo, mas discípulo deles, especialmente de Pedro, que o chama de
filho (1Pe 5,13). Foi também companheiro de S. Paulo na primeira viagem
missionária (At 13,5; Cl 4, 10; 2Tm 4,11). O testemunho mais antigo sobre a
autoria do segundo evangelho, é dado pelo famoso bispo de Hierápolis, na Ásia
Menor, Pápias (†135).
O Evangelho de Lucas - Lucas não era
judeu como Mateus e Marcos (isto é interessante!), mas pagão de Antioquia da
Síria (Cl 4, 10-14). Era culto e médico. Ligou-se profundamente a S. Paulo e o
acompanhou em trechos da segunda e terceira viagem missionária do apóstolo (At
16, 10-37; 20,5-21). No ano de 60 foi para Roma com Paulo (At 27,1-28) e ficou
com ele durante o seu primeiro cativeiro (Cl 4, 14; Fm 24) e acompanhou Paulo no
segundo cativeiro (2Tm 4,11). A Tradição da Igreja dá seguinte
testemunho deste Evangelho.
O texto foi escrito em grego, numa
linguagem culta e há uma afinidade com a linguagem e a doutrina de S. Paulo.
foi escrito por volta do ano 70. Como escreveu para os pagãos convertidos ao
cristianismo, não se preocupou com o que só interessava aos judeus.
Mateus mostra um Jesus como Mestre
notável por seus sermões - o novo Moisés, Marcos o apresenta como o herói
admirável ( o Leão da tribo de Judá - Ap 5,5), Lucas se detém mais nos traços
delicados e misericordiosos da alma de Jesus. É o evangelho da salvação e da
misericórdia. É também o evangelho do Espírito Santo e da oração. E não
deixa de ser também o evangelho da pobreza e da alegria dos pequenos e humildes
que colocam a confiança toda em Deus.
O Evangelho de João - S. João era
filho de Zebedeu e Salomé (cf. Mc 15,40) e irmão de Tiago maior (cf. Mc 1,
16-20). Testemunhou tudo o que narrou, com profundo conhecimento. É o
"discípulo que Jesus amava" (Jo 21,40). Este evangelho foi escrito
entre os anos 95 e 100 dC., provavelmente em Éfeso onde João residia.
João não quis repetir o que os três
primeiros evangelhos já tinham narrado, mas usou essas fontes. Escreveu um
evangelho profundamente meditado e teológico, mais do que histórico como os
outros. Contudo, não cedeu a ficções ou fantasias sobre o Mestre, mostrando
inclusive dados que os outros evangelhos não tem. Apresentando essa
doutrina ele quis fortalecer os cristãos contra as primeiras heresias que já
surgiam, especialmente o gnosticismo que negava a verdadeira encarnação do
Verbo. Cerinto e Ebion negavam a divindade de Jesus, ensinando a heresia
segundo a qual o Espírito Santo descera sobre Jesus no batismo, mas o deixara
na Paixão. É um evangelho profundamente importante para a teologia dogmática e
sacramental especialmente.
Os Atos dos Apóstolos
Não há dúvida de que foi escrito por
S. Lucas, médico e companheiro de S. Paulo. Conta a história da Igreja, desde
Pentecostes, guiada pelo Espírito Santo, até chegar em Roma com S. Pedro
e S. Paulo.
Teofilacto (†1078) dizia que: Os
evangelhos apresentam os feitos do Filho, ao passo que os Atos descrevem os
feitos do Espírito Santo".
O livro se divide em duas partes:
uma que é marcada pela pessoa de Pedro (At 1 a 12), e a outra marcada por Paulo
(At 13 a 28) . Pedro leva o evangelho de Jerusalém à Judéia e à Samaria,
chegando até a conversão marcante do primeiro pagão, batizado, Cornélio (At
10,1-11), o que abriu a porta da Igreja para os não judeus. Paulo promove a
evangelização dos gentios mediante três viagens missionárias de grande
importância. O capítulo 15 é a ligação entre as duas partes do livro, mostrando
Pedro e Paulo juntos em Jerusalém, no ano 49, no importante Concílio de Jerusalém,
que aboliu a circuncisão e reconheceu que o Reino de Deus é para toda a
humanidade.
O testemunho mais antigo de que
Lucas é o autor dos Atos é o chamado cânon de Muratori, do século II, que
afirma:
"As proezas de todos os
apóstolos foram escritas num livro. Lucas, com dedicatória ao excelentíssimo
Teófilo, aí reconheceu todos os fatos particulares que se desenrolaram sob seus
olhos e os pôs em evidência deixando de lado o martírio de Pedro e a viagem de
Paulo da Cidade (Roma) rumo à Espanha."
Notamos que o início de Atos dá uma
sequência lógica ao final do evangelho de Lucas, e ambos são dedicados a
Teófilo, além de que o estilo e o vocabulário são parecidos. Segundo São
Jerônimo (348-520) os Atos foram escritos em Roma, quando Lucas estava alí ao lado
de Paulo prisioneiro, em grego, por volta do ano 63.
Os Atos dos Apóstolos são portanto o
primeiro livro de História da Igreja nascente, escrito por uma testemunha
ocular dos fatos, que os narrou de maneira precisa e sóbria. Aí podemos
conhecer o rosto da Igreja no primeiro século, sua organização, etc. É o
evangelho do Espírito Santo.
As cartas de São Paulo
Paulo (ou Saulo) nasceu em Tarso na
Cilícia (Ásia menor) no início da era cristã, de família israelita, muito fiel
à doutrina e à tradição judaica; seu pai comprara a cidadania romana, o que era
possível naquele tempo, então Saulo nasceu como cidadão romano, legalmente. Aos
15 anos de idade foi enviado para Jerusalém onde recebeu a formação do rabino
Gamaliel (At 22,3; 26,4;5,34), e foi formado na arte rabínica de
interpretar as Escrituras, e deve ter aprendido a profissão de curtidor de
couro, seleiro. Por volta do ano 36 era severo perseguidor dos cristãos, mas se
converteu espetacularmente quando o próprio Senhor lhe apareceu na estrada de Jerusalém
para Damasco, onde foi batizado por Ananias. Em seguida permaneceu num lugar
perto de Damasco chamado Arábia. No ano 39 se encontrou com Pedro e Tiago em
Jerusalém (Gal 1, 18) e depois voltou para Tarso (At 9,26-30) acabrunhado pelo
fracasso do seu trabalho em Jerusalém. Alí ficou por cerca de 5 anos, até o ano
43. Nesta época, Barnabé, seu primo, que era discípulo em Antioquia, importante
comunidade cristã fundada por S.Pedro, o levou para lá. Em 44 Paulo e Barnabé
são encarregados pela comunidade de Antioquia para levar a ajuda financeira aos
irmãos pobres de Jerusalém. No ano 45, por inspiração do Espírito Santo, Paulo
e Marcos (o evangelista) foram enviados a pregar aos gentios (At 13,1-3). A
primeira viagem durou cerca de 3 anos (45-48) percorrendo a ilha de Chipre a
parte da Ásia Menor. No ano de 49 Paulo e Barnabé vão a Jerusalém para o
primeiro Concílio da Igreja, para resolver a questão da circuncisão, surgida em
Antioquia. A segunda viagem foi de 50 a 53, durante a qual Paulo escreveu, em Corinto,
as duas cartas aos Tessalonicenses (At 15,36-18,22). São as primeiras cartas de
Paulo. A terceira viagem foi de 53 a 58. Neste período ele escreveu "as
grandes epístolas", Gálatas e I Coríntios, em Éfeso; II Coríntios, em
Filipos; e aos Romanos, em Corinto. No final desta viagem Paulo foi preso por
ação dos judeus e entregue ao tribuno romano Cláudio Lísias, que o entregou ao
procurador romano Felix, em Cesaréia. Aí Paulo ficou preso dois anos (58-60),
onde apelou para ser julgado em Roma; tinha direito a isso por ser cidadão
romano. Partiu de Cesaréia no ano 60 e chegaram em Roma em 61, após sério
naufrágio perto da ilha de Malta. Em Roma ficou preso domiciliar até 63. Neste
período ele escreveu as chamadas "cartas do cativeiro" (Filemon,
Colossenses, Filipenses e Efésios). Depois deste período Paulo deve ter sido
libertado e ido até a Espanha, "os confins do mundo" (Rom
15,24), como era seu desejo. Em seguida deve ter voltado da Espanha para o
oriente, quando escreveu as Cartas pastorais a Tito e a Timóteo, por volta de
64-66. Foi novamente preso no ano 66, no oriente, e enviado a
Roma, sendo morto em 67 face à perseguição de Nero contra os cristãos desde o
ano 64. S. Paulo foi um dos homens mais importantes do cristianismo. Deixou-nos
13 Cartas. Vejamos um resumo delas.
As Cartas aos Tessalonicenses
As duas cartas tem como tema central
a segunda vinda de Jesus (Parusia), que as primeiras comunidades cristãs
esperavam para breve e a sorte dos que já tinham morrido. Paulo admoesta a
comunidade para a importância da vigilância. As cartas do Apóstolo depois delas
falam mais do Cristo presente na Igreja do que da sua segunda vinda.
Tessalônica era porto marítimo muito
importante da Grécia, onde havia forte sincretismo religioso e decadência moral;
havia uma colônia judaica na cidade, e é na sinagoga que Paulo começa a pregar
o Evangelho. Havia dúvidas sobre a iminente volta do Senhor.
Na segunda carta Paulo retoma o
mesmo assunto, exortando os fiéis a trabalharem, uma vez que ninguém sabe a data
da vinda do Senhor. As cartas devem ter sido escritas por volta do ano 52
quando estava em Corinto, durante a sua segunda viagem missionária pela Ásia.
A Carta aos Gálatas
São Paulo visitou os gálatas na
segunda e na terceira viagem apostólica. É hoje a região de Ankara na Turquia.
A carta foi escrita por volta do ano 54, quando Paulo estava em Éfeso, onde
ficou por três anos. O motivo da carta são as ameaças dos cristãos oriundos do
judaísmo que querem obrigar ainda a observância da Lei de Moisés. Paulo mostra
que é a fé em Jesus que salva e não a Lei. E exorta os gálatas a viverem as
obras do Espírito e não as da carne.
Esta carta é também um documento
autobiográfico de São Paulo, além de ser um documento de alta espiritualidade.
A Carta aos Coríntios
Corínto ficava na Grécia, região
chamada de Acaia, e no ano 27aC. Cesar Augusto, imperador romano, fez de
Corinto a capital da província romana da Acaia. Foi nesta cidade portuária,
rica e decadente na moral, que Paulo fundou uma forte comunidade cristã
na sua segunda viagem. Aí encontrou o casal Átila e Priscíla que muito o
ajudou. Paulo ficou um ano e seis meses em Corinto, até o ano 53. Na sua
terceira viagem ele ficou três anos em Éfeso, também na Grécia, e daí escreveu
para os coríntios. A primeira carta contém sérias repreensões dos pecados da
comunidade: as divisões e a imoralidade. Em seguida dá respostas a questões
propostas sobre o matrimônio, a virgindade, as carnes imoladas aos ídolos, as
assembléias de oração, a ceia eucarística, os carismas, a ressurreição dos
mortos, etc. É uma das cartas mais amplas de S. Paulo em termos de doutrina e
disciplina na Igreja.
A segunda carta é bem diferente da
primeira, não é tanto doutrinária, mas trata das relações de Paulo com a
comunidade, e desfaz mal entendidos, inclusive, e faz a sua defesa diante de
acusações sérias que recebeu dos cristãos judaizantes. Nesta carta Paulo mostra
a sua alma, seus sofrimentos e angústias pelo reino de Cristo. Resume-se na
frase: "É na fraqueza do homem que Deus manifesta toda a sua força"
(2Cor 12,9).
A Carta aos Romanos
A carta aos romanos é bem diferente
das outras cartas de São Paulo, pelo fato de ser uma comunidade cristã que não
foi fundada por ele, o que foi feito por S. Pedro. Esta carta foi escrita no
final da terceira viagem missionária de Paulo, em Corinto, por volta do ano
57/58a fim de preparar a sua chegada em Roma. É uma carta onde temos o ponto
mais elevado da elaboração teológica do apóstolo. Não trata de assuntos
pessoais, mas da vida cristã, a justificação por Cristo que nos faz ser e viver
como filhos de Deus e mostra a Lei de Moisés como algo provisório na história
do povo de Deus. O ponto alto da carta é o capítulo 8, onde mostra que a vida
cristão é uma vida conforme o Espírito Santo, que habita em nós, nos leva à
santificação, vencendo as obras da carne, levando-a à transfiguração no dia da
ressurreição universal. Tudo foi preparado por Deus Pai que nos fez filhos no
Seu Filho, a fim de dar a Cristo muitos irmãos, co-herdeiros da glória do
Primogênito (8,14-18).
As Epístolas do Cativeiro
Essas cartas são as escritas a Filemon, aos Colossenses, aos Efésios e
aos Filipenses. Cada uma delas apresenta Paulo prisioneiro (Fm 1.9.10.13; Cl 4,
3.10.18; Ef 3,1; 4,1; 6,20; Fl 1, 7.13s). Trata-se do primeiro cativeiro em
Roma (At 27,1-28). Paulo também esteve preso em Filipos (At 16,23-40);
Jerusalém (At 21,31-23,31), em Cesaréia (At 23,35-26,32); em Roma segunda vez
(2Tm 1,8.12.16s; 2, 9).
Carta a Filemon
Quando Paulo estava preso em
Roma pela primeira vez, entre os anos 61- 63, foi procurado pelo escravo
Onésimo, que fugira de seu patrão Filemon em Colossos e procurou abrigo em
Roma. Pela legislação judaica o escravo fugitivo não devia ser devolvido ao
dono (Dt 23,16), diferente da lei romana que protegia o patrão. Então Paulo
devolve Onésimo a a Filemon, cristão, e pede-lhe que pela caridade de Cristo,
receba o escravo não mais como coisa, mas como um irmão. É a primeira
declaração dos direitos humanos no cristianismo.
Carta aos Filipenses
Filipos era uma grande cidade
fundada por Filipe II, pai do Imperador macedônio Alexandre Magno, e que o
imperador romano Augusto transformou em importante posto avançado de Roma
(At 16,12). Durante suas viagens Paulo esteve três vezes em Filipos, e fez
fortes laços de amizade com os cristãos. Esta carta é chamada de "a carta
da alegria cristã", por repetir 24 esta palavra, aos filipenses que
sofriam perseguições, como ele na prisão. "Alegrai-vos sempre no Senhor.
Repito, alegrai-vos! " (Fl 4,1). Nada pode tirar a alegria daquele que
confia em Jesus.
Carta aos Colossenses
Colossos era notável centro
comercial, que ficava na Frígia, na Ásia Menor, a 200 km de Éfeso, próxima de
Laodicéia e Hierápolis. Paulo esteve por duas vezes na região da Frígia. O
motivo da carta são os pregadores de "doutrinas estranhas",
provocando um sincretismo religioso, com elementos judaicos, cristão e
pré-gnósticos. Paulo fala do primado absoluto de Jesus Cristo, numa linguagem
que os gnósticos entendiam. O ponto alto da carta é o hino cristológico
(1,15-20) que mostra Cristo como o primeiro e o último, o Senhor absoluto no
plano da criação e da redenção.
Carta aos Efésios
Éfeso era a capital da Ásia romana,
proconsular, famosa, onde se cultuava a deusa Artemis. Aí Paulo esteve durante
três anos. A carta não trata de assuntos pessoais, mas teológicos. É um pouco
parecida com a carta aos colossenses, a fim de combater os erros de doutrina
que também alí começavam a surgir. Paulo mostra a importância da Igreja para a
realização da obra de Deus. É a eclesiologia de São Paulo: "Há um só corpo
e um só Espírito, um só Senhor, uma só fé, um só Deus e Pai de
todos".(Ef 4,4s). É de importância e beleza ímpar o prólogo da carta (Ef
1, 3-14), que apresenta um hino de ação de graças à Trindade.
As Epístolas Pastorais
As Cartas a Timóteo e Tito - São as cartas que Paulo escreveu a Timóteo (duas)
e uma a Tito. No final de sua vida, na última ida ao oriente, antes de ser
preso e enviado a Roma pela segunda vez, por volta do ano 65, Paulo deixou
Timóteo em Éfeso e Tito na ilha de Creta, no mediterrâneo, como bispos. A carta
é cheia de recomendações sobre o pastoreio das ovelhas, especialmente no
combate às falsas doutrinas, além de dar as orientações sobre a organização da
vida da Igreja, normas que até hoje são normas seguras para a indicação de
diáconos, presbíteros e bispos. São cartas de um valor imenso para a Igreja.
A Carta aos Hebreus
Até 50 anos atrás se dizia que esta carta era de São Paulo, mas com os novos
estudos, hoje já não se afirma o mesmo. Contudo, é uma carta canônica, é
Palavra de Deus. O grande escritor cristão de Alexandria, Orígenes (†234)
admitia que Paulo fora o autor da carta, mas não o redator, e assim explicava a
diferença de estilo das demais cartas do apóstolo. Contudo, o conteúdo da Carta
é paulino. A carta é dirigida aos hebreus convertidos ao Cristianismo,
especialmente aos sacerdotes judeus convertido, ameaçados pela
perseguição aos que começava por volta do ano 64 com Nero. Talvez
esses sacedotes convertidos estivessem desanimados e tentados a voltar ao
judaísmo. O autor da carta lhes escreve a fim de fortalecer-lhes a fé e a
certeza na mensagem de Jesus Cristo. O objetivo da carta é mostrar a primazia
da Nova Aliança em Jesus Cristo sobre a Antiga Aliança. Aparece aí uma
verdadeira cristologia que mostra Cristo como homem e Deus. A carta foi
escrita por volta dos anos 64-66. Devemos lembrar que em 70 o general romano
Pompeu destruiu o Templo de Jerusalém; e, a partir daí não haverá mais os
cultos judaicos em Jerusalém como eram antes.
As Epístolas Católicas
As Epístolas ditas católicas, ou "universais", são as sete: Tiago, 1
e 2 Pedro, 1,2 e 3 João, e Judas. São chamadas de católicas (universais) porque
não eram dirigidas apenas a uma comunidade, como as de Paulo, mas a muitas
comunidades da Ásia Menor.
A Carta de Tiago
Escrita pelo apóstolo Tiago, menor,
filho de Alfeu, "irmão do Senhor" , com quem Paulo se encontrou em
Jerusalém. Não deve ser confundido com Tiago maior, irmão de S. João, que foi
martirizado no ano 44, antes desta carta ter sido escrita. Tiago, autor da
carta, se tornou famoso bispo de Jerusalém. A carta é dirigida "às doze
tribos da dispersão" (1,1). Acredita-se que tenha sido escrita por volta
do ano 50. Trata da importância das obras que é a frutificação da fé. Desta
carta a Igreja compreendeu o sacramento da Unção dos Enfermos (5,14s).
As Cartas de João
Oss destinatários são os fiéis oriundos
do paganismo. A primeira carta mostra que Jesus é o Messias, contra os falsos
pregadores que negavam que a Redenção tinha acontecido pelo sangue de Cristo;
era a influência do pré-gnosticismo, principalmente apresentadas por um tal
Cerinto. Na mesma carta aparece a excelência do amor cristão, como a mensagem
fundamental do Evangelho.
Na segunda carta de João, ele é chamado de "ancião", o que
mostra a dignidade do autor, é o título que os discípulos lhe deram quando ele
vivia em Éfeso. O assunto é o amor de Deus, o perigo dos
"anti-cristos" já em ação, o amor à verdade, etc.
A terceira carta foi escrita a um certo Gaio, não identificado e o louva pelas
suas belas ações em favor da Igreja.
A primeira Carta de Pedro
Os destinatários da primeira carta de São Pedro foram os cristãos da Ásia Menor
(Ponto, Galácia, Capadócia, Bitínia, etc), convertidos do paganismo. O objetivo
era fortalecer a fé cristã nessas comunidades que sofriam perseguições e
tribulações. Mostra a fecundidade do sofrimento, e a grandeza da imitação da
Paixão do Senhor. Fala da dignidade sacerdotal do povo cristão, da descida de
Jesus à mansão dos mortos e sua Ascensão ao céu. Ensina-lhes a responder
aos provocadores da fé com paciência e boa conduta. Pedro deve ter escrito em
Roma nos anos 63-64.
As Epístolas de Judas e II Pedro
Judas é o "irmão de
Tiago", primos de Jesus; segundo a tradição escrita por Egezipo, escritor
judeu do século dois, ambos eram filhos de Cléofas, discípulo de Emaus (Lc 24).
Judas escreve para cristãos oriundos do paganismo ameaçados por falsas
doutrinas, o que era comum em toda a Ásia Menor, onde se negava a divindade de
Jesus, injuriavam os anjos, zombavam das verdades pregadas pelos apóstolos e
causavam divisões na comunidade. É o pré-gnosticismo presente na Igreja. A
carta de Judas tem grande semelhança com a segunda de Pedro. A Segunda carta de
Pedro tem grande afinidade com a de Judas; em ambas aparecem as mesmas
expressões raras e as mesmas idéias, especialmente com relação aos falsos
pregadores e falsas doutrinas. Por isso houve dúvidas sobre o verdadeiro autor
de II Pedro, mas a tradição preferiu atribuir a Pedro esta carta.
O livro do Apocalipse
O imperador romano Domiciano (81-96)
moveu forte perseguição aos cristãos, tendo deportado S. João, que era o bispo
de Éfeso para a ilha de Patmos . Ao mesmo tempo os cristãos eram hostilizados
pelo judeus e aguardavam a volta de Cristo, que não acontecia, para livrá-los
de todos os males. Foi neste contexto que o Apóstolo escreveu o Apocalipse para
confortar e animar os cristãos das já inúmeras comunidades da Ásia Menor.
Apocalipse, em grego "apokálypsis"(= revelação), era um gênero
literário que se tornou usual entre os judeus após o exílio da Babilônia (587-535aC),
e descreve os fins dos tempos onde Deus vai julgar os homens. Essa intervenção
de Deus abala a natureza (fenômenos cósmicos), com muita simbologia e números.
A mensagem principal do livro é que Deus é o Senhor da História dos homens, e
no final haverá a vitória dos justos. Mostra a vida da Igreja na terra como uma
contínua luta entre Cristo e Satanás, mas que no final haverá o triunfo
definitivo do Reino de Cristo, triunfo que implica na ressurreição dos mortos e
renovação da natureza material.
As calamidades que são apresentadas não devem ser interpretadas ao pé da letra.
Deus sabe e saberá tirar de todos os sofrimentos da humanidade a vitória final
do Bem sobre o Mal.
Infelizmente há muitos que querem interpretar a Bíblia "a seu modo",
mesmo sem conhecer os gêneros literários, as línguas antigas, a história
antiga, etc, e isto tem levado multidões a caminhar longe da verdade de Deus.
Até "tarô bíblico" já se apresenta na TV; isto é, interpreta-se a Bíblia
com o auxílio das cartas esotéricas do tarô ... Por tudo isso, e para que
não acontecesse essas aberrações, e a Bíblia não ficasse sujeita à
interpretação subjetiva de muitos, foi que Jesus deixou Pedro e os Apóstolos,
hoje o Papa e os Bispos, sucessores dos Apóstolos, para interpretarem sem erro
o que foi revelado sem erro. É o que chamamos de Magistério da Igreja, e que
analisaremos à frente.
Pelo que foi dito acima você pode entender agora, o que disse, por exemplo
Santo Agostinho:
"Eu não acreditaria no Evangelho, se a isto não me levasse a autoridade da
Igreja." (Fund, 5, 6).
Não é fácil muitas vezes interpretar a Bíblia; é claro que há passagens que
devem ser lidas ao pé da letra, como a que diz "Isto é o meu corpo que é
dado por vós", mas muitos versículos são difíceis. O próprio S. Pedro
recriminava os não preparados que, já no seu tempo queriam interpretar as
Escrituras a seu bel prazer. É o que Pedro fala quando se refere às Cartas de
S. Paulo, que já naquele tempo eram consideradas partes da
Escritura:
" ... como também vosso irmão Paulo vos escreveu, segundo o Dom de
sabedoria que lhe foi dado. É o que ele faz em todas as suas cartas... Nelas há
algumas passagens difíceis de entender, cujo sentido os espíritos ignorantes ou
pouco fortalecidos deturpam, para a sua própria ruína, como o fazem também com
as demais Escrituras. " (2Pe 3,15-16)
Este ensinamento tão claro de S. Pedro mostra-nos que é uma temeridade cada um
de nós ir interpretando a Bíblia a seu bel prazer, sem obedecer ao
Sagrado Magistério da Igreja, a garantia que Jesus nos deixou. Se,
para o próprio S. Pedro, que vivia ao lado de Paulo, que conhecia o Hebraico,
as Escrituras apresentavam "passagens difíceis de entender", ora,
imagine então para nós, que estamos a 2000 anos dos Apóstolos !... Por isso, é
preciso prudência e obediência àquilo que a Igreja ensina. Não sejamos
"iluminados" mais do que a Igreja é; os santos, nenhum deles, foi
assim.
Fonte: Prof. Felipe Aquino -
Editora Cléofas
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