CARTA
ENCÍCLICA DO PAPA PIO XII
AUSPICIA
QUAEDAM
ORAÇÕES NO
MÊS DE MAIO
PARA A
CONCÓRDIA ENTRE AS NAÇÕES
Aos veneráveis irmãos
Patriarcas, Primazes,
Arcebispos, Bispos e outros
Ordinários locais,
em paz e comunhão com a Sé
Apostólica
1. Alguns indícios parecem hoje
demonstrar claramente que toda a grande comunidade dos povos, após tantos
excídios e devastações causados pela longa e terrível guerra, se orienta com
ardor para os caminhos salutares da paz; e que no presente se ouve com melhor
boa vontade os que se dedicam incansavelmente às obras de reconstrução,
procuram acalmar e compor as discórdias e se propõem reconstruir tantas ruínas,
do que aqueles que instigam contendas acerbas, ódios e rancores, dos quais não
podem surgir senão novos e maiores danos.
2. Entretanto, bem que nós mesmos
e o povo cristão tenhamos não leves motivos de consolação e possamos
confortar-nos com a esperança de tempos melhores, não faltam todavia fatos e
acontecimentos que acarretam grande preocupação e angústia à nossa alma
paternal. Com efeito, não obstante a guerra tenha terminado quase por toda
parte, a suspirada paz ainda não serenou as almas e os corações; pelo
contrário, vemos ainda o céu toldar-se de nuvens ameaçadoras.
3. De nossa parte, não só não
deixamos de nos esforçar, quanto nos seja possível, para afastar da família
humana os perigos de outras calamidades que a ameaçam, mas, quando os meios
humanos se revelam insuficientes, nos voltamos suplicantes a Deus, e exortamos
ao mesmo tempo a todos os nossos filhos em Cristo, espalhados em todos os
países da terra; a unirem-se a nós na impetração do auxílio divino.
4. Por esse motivo, como nos anos
passados tivemos o conforto de dirigir nossa exortação a todos, e especialmente
às crianças a nós tão queridas, afim de que durante o mês de maio cerrassem
fileiras em torno do altar da grande Mãe de Deus, para implorar-lhe o término
da funesta guerra, assim também hoje, por meio desta carta, convidamo-los
ardentemente a não interromperem esse piedoso costume e a unirem às suas
súplicas propósitos de renovação cristã e obras de salutar penitência.
5. Antes de tudo apresentem à
Virgem Mãe de Deus e nossa Mãe benigníssima os mais vivos agradecimentos por
ter alcançado com sua poderosa intercessão o tão almejado término da grande
conflagração mundial, e pelos outros muitos benefícios alcançados do Altíssimo.
Mas ao mesmo tempo implorem, com orações repetidas, que finalmente resplandeça
como um dom do céu a paz mútua, fraterna e plena, entre todos os povos, e a
suspirada concórdia entre todas as classes sociais.
6. Cessem as discórdias, que não
trazem vantagem a ninguém; de acordo com a justiça, componham-se as contendas,
que são freqüentemente origem de novas desventuras; cresçam e consolidem-se
entre as nações as relações públicas e privadas; goze a religião, alimentadora
de todas as virtudes, da liberdade que lhe é devida; e o pacífico trabalho
humano, sob os auspícios da justiça e o bafejo divino da caridade, produza,
para o bem de todos, os frutos mais abundantes.
7. Bem sabeis, veneráveis irmãos,
que nossas orações são gratas a santíssima Virgem sobretudo quando não são
vozes passageiras e vazias, mas refletem almas ornadas das necessárias
virtudes. Esforçai-vos; portanto, com vosso zelo apostólico por que, às orações
públicas elevadas ao céu durante o mês de maio, corresponda um renascimento da
vida cristã. De fato, somente daí é lícito esperar que o curso dos fatos e dos
acontecimentos, na vida tanto pública quanto privada, possa ser dirigido
conforme a reta ordem, e que aos homens seja dado conquistar, com o auxílio de
Deus, não só a prosperidade deste mundo, mas também a felicidade sem fim do
céu.
8. Mas há no momento outro motivo
particular que aflige e angustia vivamente nosso coração. É sabido que os
lugares santos da Palestina já de há muito tempo são perturbados por
acontecimentos lutuosos, e são quase todos os dias devastados por novos
morticínios e ruínas. Entretanto, se há uma região no mundo que deve ser
particularmente cara a toda alma civilizada, é de certo aquela donde nasceu
para todos os povos, desde os mais remotos primórdios da história, tanta luz de
verdade; na qual o Verbo de Deus encarnado mandou anunciar por coros de anjos a
paz a todos os homens; e na qual, enfim, Jesus Cristo, suspenso ao madeiro da cruz,
trouxe a salvação a todo o gênero humano, e estendendo os braços como que a
convidar todos os povos a um amplexo fraterno, consagrou com a efusão de seu
sangue o grande preceito da caridade.
9. Desejamos, portanto, veneráveis
irmãos, que neste ano as orações do mês de maio tenham de um modo particular o
fim de impetrar da santíssima Virgem que finalmente as coisas da Palestina
sejam compostas com eqüidade, e que também lá triunfem felizmente a concórdia e
a paz.
10. Nutrimos grande confiança no
poderosíssimo patrocínio de nossa Mãe celestial; patrocínio que durante o mês a
ela consagrado, especialmente as criancinhas inocentes impetrarão com uma santa
cruzada de orações. E será vossa tarefa exortá-las e estimulá-las para tanto
com toda a solicitude; e não só elas, mas também seus pais e suas mães, que
também nisso devem precedê-las com o exemplo.
11. Sabendo que jamais apelamos em
vão ao vosso zelo ardente, já nos parece ver multidões de crianças, de homens e
de mulheres, encherem os templos para impetrar da virgem Mãe de Deus grande
abundância de favores celestes.
12. Obtenha-nos a santíssima
Virgem - que nos deu Jesus - que todos aqueles que se afastaram do caminho reto
a ele voltem arrependidos; obtenha-nos nossa Mãe benigníssima - que em todos os
perigos se mostrou sempre nosso valoroso auxílio e mediadora dos favores
divinos - que também nas graves necessidades que hoje nos angustiam se
componham os dissídios, e uma paz segura e livre resplandeça finalmente sobre a
Igreja e sobre todas as nações.
13. Há poucos anos, como todos
recordam, quando ainda enfurecia a recente guerra mundial, nós, vendo que os
meios humanos se mostravam insuficientes e desproporcionados para extinguir a
conflagração, voltamos nossas fervorosas preces ao misericordiosíssimo
Redentor, interpondo o poderoso patrocínio do coração imaculado de Maria. E
como o nosso predecessor de imortal memória Leão XIII, nos albores do século
XX, quis consagrar todo o gênero humano ao sacratíssimo coração de Jesus,
também nós, como que representando a família humana por ele redimida, quisemos
solenemente consagrá-la ao coração imaculado de Maria virgem.
14. Desejamos que todos façam o
mesmo, sempre que a oportunidade o aconselhar; e não só em cada diocese e cada
paróquia, mas também em cada família. Assim esperamos que desta consagração
particular e pública nasçam abundantes benefícios e favores celestiais. Seja
presságio desses favores celestes e penhor de nossa benevolência paterna a
bênção apostólica que damos com efusão de coração a cada um de vós, veneráveis
irmãos, a todos aqueles que de boa mente corresponderem a esta nossa carta de
exortação, e de um modo particular as caríssimas crianças.
Dado em Roma, junto de São
Pedro, no primeiro dia de maio de 1948, X ano de nosso pontificado.
PIO PP. XII
Fonte: Vaticano – Santa Sé
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