As mais belas páginas

 

Monsenhor Pedro Teixeira Cavalcante *

 

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Imprimi potest.

 

+ Edvaldo Gonçalves Amaral

 Arcebispo Metropolitano de Maceió.

 

 Maceió, 4 de janeiro de 1990.

 

117º Aniversário do Batismo de Santa Teresinha.

 

APRESENTAÇÃO

 

 

 Muitíssimas pessoas, mesmo nos dias de hoje, quando entram em contacto com a vida e a mensagem de Teresa de Lisieux, conhecida no mundo inteiro, como Santa Teresinha, ficam entusiasmadas e até apaixonadas. A razão é muito simples. Ontem como hoje, o homem, apesar das angústias e dos agravantes de cada época, é sempre o mesmo homem, cheio de problemas e questões, que perturbam o seu coração,mas também sempre à procura de uma resposta simples,cara, objetiva, humana e satisfatória a esses seus problemas e a essas suas questões. Ora bem, Santa Teresinha, pela sua vida e pelas seus escritos, deu e dá a esse homem, de ontem e de hoje, justamente o tipo de resposta que ele procura.

 Muitos santos e muitos escritores conseguem, aqui e acolá, trazer uma resposta, que satisfaz a muita gente. O tempo passa, porém, e eles também passam. No caso de Santa Teresinha a história é diferente.Quem afirmar que ela já teve seu tempo está muito enganado e mostra, pelo menos, ignorância da existência de uma multidão inumerável, que busca, cada dia, insaciavelmente, na vida e nas obras teresianas, uma luz para seu caminho.

 E o motivo de tudo isso é porque, quem descobre Teresinha descobre uma irmã, de carne e osso, que nasceu, cresceu e morreu como uma flor, portanto, igual a todos os mortais, mas que conseguiu, apesar de tudo, se tornar uma santa, e uma grande santa.Com efeito, Santa Teresa de Lisieux foi menina, foi jovem, foi mulher, foi humana, foi freira, foi simples, foi sensível, soube amar, padeceu, lutou, foi igual a nós todos, pobres pecadores mortais, cheios de fraquezas e misérias e, no entanto, tornou-se uma santa, uma grande Santa, a maior santa dos tempos modernos, como disse o Papa Pio X.

 Ao encontrar-se com Teresinha, o homem não se zanga, não se aborrece, não continua desanimado. Pelo contrário, ao se encontrar com Teresinha, ele se alegra, recebe de novo a paz,encoraja-se para a luta, cria a certeza da vitória, descobre um caminho novo, simples, curto, objetivo e reto.Em suma, quando alguém se encontra com Teresa de Lisieux reencontra-se consigo mesmo e passa a viver na paz, na alegria, no amor.

 E tudo isso, porque Santa Teresinha soube viver a harmonia perfeita entre o divino e o humano, entre a grandeza do divino e a fraqueza do humano; descobriu que o evangelho é simplicidade como Deus é simples; viveu e ensinou que o caminho para Deus é a confiança, o abandono, o amor apaixonado de uma criança por seu Pai do céu, já que Deus é amor apaixonado pelo homem.

 A razão deste livro está aí: dar aos amigos e admiradores de santa Teresinha uma antologia de algumas das suas mais belas páginas, para que possa ler, meditar, usar a cada momento que desejar; oferecer aos que ainda não conhecem a grande Santa a oportunidade de começar a entrar em contacto com essa irmã maravilhosa, que viveu e morreu como nós, na simplicidade e na fraqueza, mas que soube, com a graça de Deus, superar as misérias humanas e ser luz e farol para todos nós.

 Muita gente, hoje em dia, procura, na sabedoria oriental, uma literatura que seja capaz de tranqüilizar o seu espírito e ajudar sua caminhada na vida. Aqui está, porém, uma filha desse nosso agitado Ocidente, a nos estender as mãos, para nos dar a paz e a alegria de viver.

 O título do livro diz mais do que ele encerra. É evidente que não estão nele todas as páginas bonitas de Santa Teresinha. Fizemos, porém, um esforço para, em poucas páginas, colocar o que havia de mais prático, de mais til para os homens de hoje. Foi a experiência de muitos anos de estudos e meditação sobre Teresa de Lisieux, e, ao mesmo tempo, de contacto na direção de almas, que orientou a escolha dos textos.

 Nosso trabalho foi de selecionar os textos, traduzi-los numa linguagem acessível,introduzi-los para situá-los na leitura e comentá-los para sua melhor compreensão.O autora principal, porém, do livro é Santa Teresinha.

 O livro tem textos dos Manuscritos autobiográficos ( do A, do B e do C), das Cartas, das últimas Conversas, das Poesias e das Orações, de Santa Teresinha. No livro a ordem é exatamente essa, isto é, começamos com os Manuscritos (do A ao C), passamos para as Cartas e dessas para as últimas Conversas, depois vêm as poesias e, finalmente, duas orações. Os textos originais consultados foram os das edições críticas do Centenário. São textos completos, típicos e propriamente originais. Na tradução, procuramos usar uma linguagem fácil e seguir o estilo, o linguajar da Santa tanto quanto fosse possível. Na verdade, Teresa de Lisieux, embora muito dotada, não foi uma literata. Ela, quando escreve, extravasa sua alma, quer conseguir seu objetivo, quer se comunicar o mais autenticamente possível. Para ela é secundário o estilo, é secundária a pontuação, é secundária a ordem nas frases.Até nisso ela é simples e igual ao comum dos mortais. Assim, quisemos traduzir o texto em português bem parecido com o original francês, para que todos sentissem melhor o que disse, como disse e o que foi Teresa de Lisieux.

 Nosso trabalho foi feito com muito amor, com muito carinho,e com o objetivo claro e único de promover um encontro ou reencontro de Santa Teresinha com seus amigos, admiradores e discípulos e também com muita gente que anda à procura da luz, mas de uma maneira simples, clara, humana e divina ao mesmo tempo.

 Teresinha e eu somos,aqui, apenas pincéis nas mãos do grande Artista. Que a graça opere. Que o Espírito Santo ilumine,encoraje e fortifique. Que tudo seja, para que o Reino de Deus se realiza,cada dia mais, sobre a terra dos homens.

 Maceió, 1º de janeiro de 1990.

 

 (117º Aniversário do Nascimento de Santa Teresinha)

 

 Pe. Pedro Teixeira Cavalcante.

 

 

 

 

LEGENDA

 

 

 

CA = CADERNO AMARELO (Assim se denomina um dos cadernos, em que Irmã Inês anotou as últimas palavras de santa Teresinha)

M A = MANUSCRITO AUTOBIOGRÁFICO A

M B = MANUSCRITO AUTOBIOGRÁFICO B

M C = MANUSCRITO AUTOBIOGRÁFICO C

UCC = ÚLTIMA CONVERSAS DE SANTA TERESINHA COM CELINA.

 

 


1. AS PREFERÊNCIAS DE DEUS

 

 Teresa inicia a história de sua vida. De logo, coloca dois pontos básicos: 1º)-O objetivo de sua narração: cantar as Misericórdias do Senhor; 2º)-O problema das preferências de Deus.

 Neste texto aparecem a Teresa mística e a Teresa teóloga, mas tudo isso apresentado com muita simplicidade e encanto feminino.

 

 É à senhora, minha Madre querida, à senhora(1), que é duas vezes minha Mãe, que vou confiar a história de minha alma...No dia em que a senhora me pediu para fazê-lo, parecia-me que isso dissiparia meu coração em o ocupando consigo mesmo, mas, depois, Jesus me fez sentir que, em obedecendo simplesmente, eu lhe agradaria. Aliás, eu só vou fazer uma coisa:Começar a cantar o que devo repetir eternamente-"As Misericórdias do Senhor!!!"...

 Antes de tomar da pena, ajoelhei-me diante da estátua de Maria (aquela que nos deu tantas provas das preferências maternais da Rainha do Céu para com nossa família (2)), supliquei-lhe que guiasse minha mão, a fim de que não traçasse uma só linha, que não lhe agradasse. Em seguida, abrindo o santo Evangelho, meus olhos caíram sobre estas palavras:- "Jesus, tendo subido a um monte, chamou a si os que ele quis, e eles foram até ele"(Mc 3,13). Eis aí o mistério de minha vocação, de toda a minha vida e, sobretudo, o mistério dos privilégios de Jesus para com a minha alma...Ele não chama os que são dignos, mas os que lhe agradam ou, como diz São Paulo-: "Deus tem piedade de quem Ele quer e faz misericórdia a quem Ele quer fazer misericórdia. Não é, portanto, a obra daquele que quer nem daquele que corre, mas de Deus que faz misericórdia"(Rom 9,15-16).

 Durante muito tempo, eu me perguntei por que o bom Deus tinha preferências; por que as almas não recebiam um igual nível de graças. Eu me admirava ao vê-lO prodigalizar favores extraordinários aos santos que O tinham ofendido, como São Paulo, Santo Agostinho e os quais Ele forçava, por assim dizer, a receber suas graças; ou então, lendo a vida dos santos que aprouve a Nosso Senhor mimoseá-los desde o berço até o túmulo, sem deixar, na sua passagem, nenhum obstáculo que os impedisse de se elevarem até Ele e prevenindo essas almas com tais favores que elas não podiam manchar o brilho imaculado de sua veste batismal, eu me perguntava por que os pobres selvagens, por exemplo, morriam,em grande número, antes mesmo de terem ouvido pronunciar o nome de Deus...Jesus se dignou me instruir a respeito desse mistério. Pôs diante dos meus olhos o livro da natureza e eu compreendi que, todas as flores que Ele criou são belas, que o brilho da rosa e a brancura do lírio não roubam o perfume da violetinha ou a simplicidade encantadora da bonina...Compreendi que, se todas as floreszinhas quisessem ser rosas, a natureza perderia seu adorno primaveril, os campos não seriam mais esmaltados de florinhas...

 É assim no mundo das almas, que é o jardim de Jesus. Ele quis criar os grandes santos, que podem ser comparados aos lírios e às rosas; mas ele criou também santos menores e esses devem se contentar em ser boninas ou violetas destinadas a alegrar os olhares do bom Deus, quando ele os abaixa a seus pés. A perfeição consiste em fazer sua vontade, em ser o que Ele quer que nós sejamos...

 Eu compreendi ainda que, o amor de Nosso Senhor se revela tão bem na mais simples alma, que não resiste em nada à sua graça, quanto na mais sublime; com efeito, como é próprio do amor se abaixar, se todas as almas se parecessem às dos santos doutores, que iluminaram a Igreja pelo brilhantismo de sua doutrina, parece que o bom Deus não desceria bastante baixo ao vir aos seus corações; mas Ele criou a criança que não sabe nada e não faz ouvir senão fracos vagidos, criou o pobre selvagem, que não tem para se conduzir senão a lei natural e é até aos seus corações que Ele se digna se abaixar; estão aí suas flores dos campos, cuja simplicidade o arrebata...Em assim descendo, o bom Deus mostra sua grandeza infinita. Da mesma forma como o sol ilumina, ao mesmo tempo, os cedros e cada florzinha como se ela fosse a única sobre a terra, Nosso Senhor se ocupa tão particularmente de cada alma, como se ela não tivesse semelhantes; e como na natureza todas as estações são arrumadas de maneira a fazer desabrochar, no dia marcado, a mais humilde bonina, assim também tudo corresponde ao bem da cada alma.

(M A, 2r-3r).

 

NOTAS

(1) -Como já foi dito anteriormente, o Manuscrito A, ou seja, esta primeira parte da Autobiografia de Santa Teresinha é dirigido à Madre Inês de Jesus, que era, na época, priora do Carmelo de Lisieux. Madre Inês era irmã da Santa e fora escolhida por ela, por ocasião da morte de sua mãe, como sua nova mãe.

(2) -A Santa se refere à imagem da "Virgem do Sorriso", que esteve sempre presente na vida da família Martin e que, atualmente, encontra-se na capela do Carmelo, em Lisieux. Foi através dessa imagem, que Santa Teresinha viu Nossa Senhora sorrir para ela, curando-a de uma terrível enfermidade, aos 13 de maio de 1883.


2.  EU ESCOLHO TUDO

 

 

 Aqui, Santa Teresinha descreve uma das características da sua espiritualidade, que é igualmente uma nota dominante da sua mensagem: sempre o tudo, nada pela metade.

 

 

 Um dia, Leônia (1), pensando que era grande demais para brincar com boneca, veio ao nosso (2) encontro com uma cesta cheia de vestidos e de belos retalhos destinados a fazer outros e por cima estava deitada sua boneca. -"Peguem, minhas irmãzinhas, diz-nos ela, escolham, dou-lhes tudo isso".

 Celina (3) estendeu a mão e pegou um pacote de cordões, que lhe agradavam. Após um momento de reflexão, estendi a mão, por meu turno, dizendo: -"Eu escolho tudo!" e peguei a cesta sem mais cerimônia. As testemunhas da cena acharam a coisa muita justa.

Celina mesma não procurou se lastimar (aliás, não lhe faltavam brinquedos, seu padrinho a acumulava de presentes e Luisa (4) achava meio de lhe arranjar tudo o que ela desejava).

 Esse pequeno traço da minha infância ‚ o resumo de toda a minha vida. Mais tarde, quando a perfeição me apareceu, compreendi que, para se tornar uma santa, era necessário sofrer muito, procurar sempre o mais perfeito e se esquecer de si mesma; compreendi que havia muitos degraus de perfeição e que cada alma era livre para responder aos avanços de Nosso Senhor, para fazer pouco ou muito por Ele; em uma palavra, para escolher entre os sacrifícios que ele pede. Então, como nos dias de minha infância, eu exclamei: "Meu Deus, escolho tudo". Não quero ser uma santa pela metade, não tenho medo de sofrer por vós, não temo senão uma coisa ‚ guardar minha vontade, tomai-a, pois "Eu escolho tudo", que vós quiserdes!..."

 

 (M a,10r,10v)

 

NOTAS

 

(1)- Marie Leonie Martin, irmã de Santa Teresinha, nasceu aos 3 de junho de 1863 e morreu, como religiosa visitandina, aos 16 de junho de 1941. Como religiosa, tinha o nome de irmã Francisca Teresa. De caráter difícil, foi, pouco a pouco, vencendo-se e se

tornou uma religiosa exemplar. Simples, humilde, alegre, foi assim que ela terminou sua vida.

(2)- A Santa se refere a si mesma e a sua irmã, Celina.

(3)- Marie-Céline Martin nasceu em Alençon, aos 28 de abril de 1869. Foi a grande amiga de infância da nossa Santa. Acompanhou o pai, o sr. Martin, juntamente com sua irmã Leônia, durante toda a enfermidade dele até à morte. Então, entrou no Carmelo de Lisieux, tornando-se discípula de sua irmã querida. Como religiosa, recebeu o nome de Irmã Genoveva da Santa Face. Desde o início do processo de canonização de Santa Teresinha,

dedicou grande parte de sua vida aos trabalhos pela glorificação de sua santa irmã. Faleceu aos 25 de fevereiro de 1959, com oitenta e nove anos e dez meses de idade.

(4)- Louise Marie, nascida em 1848, e falecida em 1923. Foi empregada doméstica da família Martin até à morte de Madame Martin. Teve problemas com Leônia e com Madame Martin, mas foi por essa perdoada e sempre bem tratada.

 

 

3.  TUDO ME SORRIA NA TERRA

 

 

 Neste belíssimo texto, aflora, com toda a intensidade,

 Por outro lado, novas características de sua futura espiritualidade começam a aparecer: seu encanto pela natureza, seu amor pelos pobres, sua vida de mortificação para domínio e perfeição de toda a sua personalidade, a alma poética de Teresa.

 

 

 Como eu era feliz nessa idade (infância)! Já começava a gozar da vida, a virtude me encantava, parece-me, com as mesmas disposições em que me encontro agora, possuindo já um grande domínio sobre minhas ações. - Ah! como passaram ráidos os anos

ensolarados da minha primeira infância, mas que doce impressão eles deixaram em minha alma! Recordo, com prazer, os dias em que papai nos levava ao Pavilhão (1); os menores detalhes se gravaram no meu coração... Lembro-me, sobretudo, dos passeios de Domingo, nos quais mamãe sempre nos acompanhava... Sinto ainda as impressões profundas, que nasciam na minha alma … vista dos campos de trigo esmaltados de centáureas e de flores campestres.

 Eu já amava o longínquo... O espaço e os pinheiros gigantescos, cujos galhos tocavam o chão, deixavam em meu coração uma impressão semelhante àquela que provo, ainda hoje, quando olho a natureza... Muitas vezes, durantes esses longos passeios, encontrávamos pobres e era sempre a Teresinha que era encarregada de lhes dar a esmola, o que a fazia muito feliz; mas, muitas vezes também, papai, achando que o caminho era muito longo para sua pequena rainha, conduzia-a para casa antes das outras (com grande descontentamento seu). Então, para consolá-la, Celina enchia de margaridas seu lindo cestinho e lhas dava quando regressava, mas ah! vovó (2) achava que sua netinha tinha demais, pegava então uma boa parte para sua Virgem santa... Isso não agradava a Teresinha, mas ela não dizia nada, tendo adquirido o bom costume de não se lamentar jamais, mesmo quando lhe tiravam o que lhe pertencia; ou então quando era acusada injustamente, preferia se calar e não se desculpar; isso não era m‚rito de sua parte, mas virtude natural... Que pena que essa boa disposição tenha desaparecido!...

 Oh! verdadeiramente tudo me sorria sobre a terra: encontrava flores sob cada um dos meus passos e meu bom caráter contribuía também para tornar minha vida agradável, mas um novo período ia começar para minha alma, devia passar pelo crisol da prova e sofrer, desde a minha infância,a fim de poder ser oferecida a Jesus mais cedo. Assim como as flores da primavera começam a germinar sob a neve e se desabracham aos primeiros raios do Sol, do mesmo modo a florzinha, da qual escrevo as lembranças, teve de passar pelo inverno da provação...

 

 (M a,11v,12r).þ

 

NOTAS

 

(1)-O "Pavilhão" era uma pequena propriedade do sr. Martin. Ficava na rua dos Lavoirs. O nome lhe vinha justamente de sua construção singular, como se fosse uma pequena torre. O interior da construção era ornada com sentenças piedosas. Em uma dependência do Pavilhão, costumava o sr. Martin passar muito tempo em leituras e oração. Era, pois, um local predileto do sr. Martin para seus momentos de contemplação. O "Pavilhão" ainda hoje existe e fica na rua do Pavilhão Santa Teresa.

(2)-Trata-se da avó paterna, Marie-Anne-Fanie Boureau, que nasceu aos 12 de janeiro de 1800, e faleceu aos 8 de abril de 1883. Ela costumava visitar a família Martin aos domingos.

 

 

4. AMOR E TERNURA

 

 

 Sem dúvida nenhuma, a vida familiar marca uma pessoa. Hoje em dia, quando há tantas tentativas de desagregação da família, essa narração, simples e poética, de Teresinha é, de alguma maneira, um eco distante de um grito muito forte, para que os homens modernos não se esqueçam de que, o amor, o carinho, o afeto, a ternura, a compreensão são elementos necessários, para que uma família tenha paz, harmonia e felicidade.

 Neste texto aparecem também o temperamento sentimental e a alma poética de Santa Teresinha.

 

 Foi a partir dessa época de minha vida, que entrei no segundo período de minha existência, o mais doloroso dos três (1), sobretudo depois da entrada no Carmelo daquela que houvera escolhido como minha segunda "Mamãe". Esse período se estende desde a idade de quatro anos e meio até meus quatorze anos, época em que reencontrei meu caráter de criança, mesmo entrando no sério da vida.

 É preciso lhe dizer, minha Madre, que a partir da morte de Mamãe, meu caráter feliz mudou completamente. Eu, tão viva, tão expansiva, tornei-me tímida e doce, excessivamente sensível. Bastava um olhar para me fazer derreter em lágrimas; era necessário que ninguém se ocupasse comigo para que estivesse contente; não suportava a companhia de pessoas estranhas e não reencontrava minha alegria senão na intimidade da família...

 Contudo, continuava a ser cercada da mais delicada ternura. O coração tão terno de Papai acrescentara ao amor, que já possuía, um amor verdadeiramente maternal!... A senhora, minha Madre, e Maria, não eram para mim as mais ternas e as mais desinteressadas mães?... Ah! se o bom Deus não tivesse prodigalizado seus raios benfazejos a sua florzinha, ela não teria podido jamais se aclimatar à terra; ela era fraca demais para suportar as chuvas e as tempestades; tinha necessidade de calor, de um orvalho suave e de brisas primaveris. Esses benefícios jamais lhe faltaram, Jesus fê-la encontrá-los, mesmo sob a neve da provação!

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 ...Era lá (2), que minha vida era verdadeiramente feliz... De manhã, a senhora vinha até perto de mim, perguntando-me se dera meu coração ao bom Deus; em seguida, vestia-me falando sobre Ele e depois, ao seu lado, fazia minha oração. Depois, vinha a lição de leitura. A primeira palavra, que pude ler sozinha foi: "Céus". Minha querida madrinha se encarregou das lições de caligrafia e a senhora, minha Madre, de todas as outras. Eu não tinha grande facilidade para aprender, mas tinha boa memória. O catecismo e sobretudo a história sagrada faziam as minhas preferências, estudava-os com alegria, mas a gramática me fez, muitas vezes, derramar lágrimas...

 Todas as tardes, eu fazia um pequeno passeio com papai; fazíamos juntos nossa visita ao Santíssimo Sacramento, visitando, cada dia, uma nova igreja. Foi assim que entrei, pela primeira vez, na capela do Carmelo (3). Papai me mostrou a grade do coro, dizendo-me que, por trás, estavam as religiosas. Estava bem longe de pensar que, nove anos mais tarde, estaria entre elas!

 Após o passeio (durante o qual, papai me comprava sempre um presentinho de um ou dois soldos), regressava à casa; fazia, então, meus deveres, depois, ficava, todo o tempo restante, a saltitar no jardim ao redor de papai, porque não sabia brincar com boneca...

 Gostava de cultivar minhas floreszinhas no jardim que Papai me dera; divertia-me a erigir altareszinhos na cavidade que se encontrava no meio do muro. Quando tinha terminado, corria para papai e, o conduzindo, dizia-lhe para fechar bem os olhos e só os abrir no momento em que eu dissesse. Ele fazia tudo o que eu queria e se deixava conduzir até meu jardinzinho, então, eu gritava: "Papai, abra os olhos!" Ele os abria e se extasiava para me agradar, admirando aquilo que eu julgava ser uma obra prima!... Ah! como poderia relatar todas as ternuras que "papai" prodigalizava a sua rainhazinha? Há coisas que o coração sente, mas que a palavra e mesmo o pensamento não conseguem traduzir...

 Eram para mim belos aqueles dias em que meu "rei querido" me levava com ele à pesca, eu amava tanto o campo, as flores e os passarinhos! Algumas vezes, eu tentava pescar com minha linhazinha, mas preferia me sentar sozinha na relva florida. Então, meus pensamentos eram muito profundos e, sem saber o que era meditar, minha alma mergulhava numa verdadeira oração... Escutava os barulhos distantes... O murmúrio do vento e mesmo a música indecisa dos soldados, cujo som chegava até mim, melancolizavam, docemente, meu coração... a terra me parecia um lugar de exílio e sonhava com o Céu... A tarde passava depressa, logo era preciso regressar aos Buissonnets, mas, antes de partir, tomava o lanche que trouxera no meu cestinho; a bela fatia de bolo, que a senhora me preparara, mudara de aspecto: no lugar de sua cor viva, eu só via uma ligeira tinta rosa, completamente envelhecida e seca... então, a terra me parecia ainda mais triste e compreendia que, só no céu a alegria seria sem nuvens...

 A propósito de nuvens, lembro-me de que, um dia, o belo céu azul do campo se fechou e que logo a tempestade começou a rugir, os relâmpagos cortavam as nuvens sombrias e vi, a alguma distância, cair um raio. Longe de ficar apavorada, estava encantada, parecia que o bom Deus estava muito perto de mim!...

 Durante os passeios que fazia com Papai, ela gostava de me mandar dar esmola aos pobres, que encontrávamos. Um dia, vimos um que caminhava, penosamente, com suas bengalas. Aproximei-me para lhe dar um dinheiro, mas não se achando bastante pobre para receber a esmola, olhou-me sorrindo tristemente e recusou aceitar o que lhe oferecia. Não posso dizer o que se passou no meu coração, quisera consolá-lo, aliviá-lo, mas, ao invés disso, pensava que o tinha magoado. Sem dúvida, o pobre doente adivinhou meu pensamento, pois eu o vi se voltar e me sorrir. Papai acabara de me comprar um presente, eu tinha mesmo vontade de dá-lo, mas não ousei, contudo queria lhe dar alguma coisa, que ele não pudesse recusar, pois, sentia por ele uma simpatia muito grande, então me lembrei de ter ouvido dizer que, no dia da primeira comunhão, obtinha-se tudo quanto se pedia; esse pensamento me consolou e, malgrado só tivesse seis anos, disse a mim mesma: "Rezarei pelo meu pobre no dia da minha primeira comunhão. Cumpri minha promessa cinco anos mais tarde, e espero que o bom Deus tenha ouvido a oração, que Ele me inspirou lhe dirigir por um dos seus membros sofredores...

 (M A 13r-15r)

 

 

NOTAS

 

(1) -Um pouco antes, a Santa escrevera "Na história de minha alma até minha entrada no Carmelo, distingo três períodos bem distintos; o primeiro, malgrado sua curta duração, não é o menos fecundo em lembranças; ele se estende desde o despertar de minha razão até à partida de minha Mãe querida para a pátria dos Céus". A mamãe de santa Teresinha faleceu aos 28 de agosto de 1877, com 46 anos de idade.

(2) -Nossa Santa se refere aos Buissonnets, em Lisieux, para onde o sr. Martin resolvera vir morar com suas filhas, após a morte de sua esposa, para que sua família estivesse mais perto da família Guérin. As filhas do sr.Martin chegaram em Lisieux aos 15 de novembro de 1877, e se instalaram nos Buissonnets no dia seguinte. Na "história de uma Alma", Madre Inês acrescentou: "No dia seguinte, fomos conduzidas a nossa nova morada,quero dizer os Buissonnets, quarteirão solitário situado bem perto do belo passeio chamado "Jardim da Estrela". A casa me pareceu encantadora: um belvedere, donde a vista se estendia até ao longe, o jardim inglês em frente da fachada, uma grande horta atrás da casa; tudo isso para minha jovem imaginação foi, de novo, ótimo. De fato, essa alegre habitação se tornou o teatro de alegrias bem agradáveis, de cenas de família inesquecíveis. Aliás, como disse mais acima, estava exilada, chorava, sentia que não tinha mais mãe! Lá, meu coraçãozinho se expandia e eu sorria ainda para a vida". O nome original dessa propriedade era "Bissonnets", mas foram as filhas do sr. Martin que o mudaram para o nome atual, porque julgaram o novo nome mais agradável. Atualmente, a casa se encontra como no tempo em que ali viveu a família Martin, de tal modo que os peregrinos têm nos Buissonnets um lugar delicioso para visitas e também para conhecimento da existência de Teresinha e de sua família.

(3) -O Carmelo de Lisieux foi fundado aos 16 de março de 1838, por duas irmãs professas do Carmelo de Poitiers. A construção, porém, do Carmelo só terminou em 1877. Atualmente, o Carmelo de Lisieux é um dos pontos marcantes das peregrinações à terra, onde viveu a nossa Santa. Está situado na rua do Carmelo e, ao seu lado, encontram-se o Ofício Central e uma sala com objetos usados por Santa Teresinha, bem como a relíquia dos seus belíssimos cabelos. Nesse Carmelo viveram, com nossa Santa, três de suas irmãs, isto é,Maria Paulina, que se tornou a Madre Inês de Jesus(7/9/1861-28/7/51); Maria Luiza Josefina, que, no Carmelo, recebeu o nome de Irmã Maria do Sagrado Coração(22/2/1860-19/1/40); e Maria Celina, que se tornou a Irmã Genoveva de Santa Teresa da Santa Face(28/4/1869-25/2/1959).

 

5. RELIGIÃO E VIDA

 

 

 Não há dúvida que, uma vida religiosa autêntica impregna de unidade e de harmonia uma família cristã. Hoje, por vários motivos, os membros de muitas famílias vivem muito distantes uns dos outros.

 O texto teresiano, que segue, mostra-nos, na sua simplicidade poética, toda a beleza de uma educação cristã, em que fé e vida se harmonizam perfeitamente.

 Se para alguém este relato parecer sofisticado e burguês, é porque ele não descobriu ainda que, cada pessoa, mesmo a mais pobre, tem direito e deve, como pode, unir, cada dia, sua fé com sua vida

 

 

 Foi numa quarta-feira que o Pe.Ducellier (1) veio fazer uma visita. Vitória (2), tendo-lhe dito que na casa só estava Teresinha, ele entrou na cozinha para me ver e olhou meus deveres; fiquei muito orgulhosa em receber meu confessor, porque, pouco tempo antes, confessara-me pela primeira vez (3). Que doce lembrança para mim!...

 Ó minha Madre querida! com que cuidado a senhora me preparou, dizendo-me que não era a um homem, mas ao bom Deus, que ia dizer meus pecados. Disso estava verdadeiramente convencida, tanto assim que fiz minha confissão com um grande espírito de fé e lhe perguntei, se não era necessário dizer ao Pe.Ducellier que o amava de todo o coração, pois que era ao bom Deus que eu ia falar em sua pessoa...

 Bem instruída sobre tudo que devia dizer e fazer, entrei no confessionário e me pus de joelhos, mas, abrindo a portinhola, Pe.Ducellier não viu ninguém, eu era tão pequena que minha cabeça estava abaixo do suporte, onde se apóiam as mãos, então ele me disse para ficar de pé; obedecendo imediatamente, levantei-me e, voltando-me bem para a frente dele para vê-lo, fiz minha confissão como uma moça e recebi sua bênção com uma grande devoção, pois a senhora me dissera que, naquele momento, as lágrimas do Menino Jesus iam purificar minha alma. Lembro-me de que a primeira exortação, que me foi dirigida, convidou-me sobretudo à devoção à Virgem Santíssima, e prometi redobrar de ternura para com ela (4). Saindo do confessionário, sentia-me tão contente e leve que jamais sentira tanta alegria na minha alma. desde então, voltei a me confessar em todas as grandes festas e era uma verdadeira festa para mim cada vez que ia me confessar.

 As festas!... ah! quantas lembranças me traz esta palavra!... As festas, gostava tanto delas!... A senhora sabia me explicar tão bem, minha Madre querida, todos os mistérios escondidos em cada uma delas, que era verdadeiramente para mim dias do Céu. Gostava, sobretudo, das procissões do Santíssimo Sacramento, que alegria jogar flores sob os passos do bom Deus!... mas, antes de deixá-las cair, lançava-as o mais alto que podia e não ficava muito feliz, senão quando via minhas rosas desfolhadas tocarem no Ostensório sagrado...(5)

 As festas! ah! se as grandes eram raras, cada semana havia uma bem cara ao meu coração: "O Domingo!". Que dia o Domingo!... Era a festa do bom Deus, a festa do repouso. Primeiramente, ficava na caminha mais tempo do que nos outros dias e, depois, mamãe Paulina mimava sua filhinha, trazendo-lhe seu chocolate na sua caminha, em seguida, a vestia como a uma rainhazinha... Madrinha vinha pentear a afilhada, que nem sempre era gentil, quando lhe estirava os cabelos, mas, em seguida, ela ficava bem contente ao ir pegar na mão de seu Rei que, naquele dia, a abraçava ainda mais ternamente do que de costume, depois, toda a família ia à Missa. Durante todo o percurso e mesmo na igreja, a "Rainhazinha de Papai" lhe dava a mão, seu lugar era ao seu lado e, quando devíamos descer para o sermão, era necessário encontrar ainda duas cadeiras, uma ao lado da outra. Isso não era difícil, pois todo o mundo demonstrava achar tudo aquilo muito bonito, isto é, ver um ancião tão belo com uma filha tão pequena, de tal modo que as pessoas se desarranjavam para ceder seus lugares... Meu tio, que se encontrava nos bancos do encarregados pela igreja, alegrava-se em nos vendo chegar. Ele dizia que, eu era seu raiozinho de sol... Eu não me inquietava, de modo nenhum, por ser olhada, ouvindo bem atentamente os sermões, dos quais, contudo, não compreendia muita coisa. O primeiro que compreendi e que me tocou profundamente foi um sermão sobre a Paixão, pregado pelo Pe.Ducellier, e, a partir de então, compreendi todos os outros. Quando o pregador falava de Santa Teresa, papai se inclinava e me dizia baixinho: "-Escute bem, minha rainhazinha, fala-se de tua Patrona". De fato, escutava bem, mas olhava muitas mais vezes para papai do que para o pregador, sua bela fisionomia me dizia tantas coisas!... Às vezes, seus olhos se enchiam de lágrimas que, em vão, ele se esforçava para reter. Parecia que não estava mais ligado à terra, tal o modo como sua alma gostava de mergulhar nas verdades eternas... Contudo, sua carreira estava bem longe de terminar; longos anos deviam passar antes que o belo céu se abrisse a seus olhos maravilhados e que o Senhor enxugasse as lágrimas de seu bom e fiel servidor!...

 Mas, volto ao meu dia de Domingo. Esse alegre dia, que passava tão rapidamente, tinha também sua nota de melancolia. Lembro-me que, minha felicidade era sem mistura até às Completas(6); durante este Ofício, pensava que o dia de descanso ia terminar... que, no dia seguinte, era necessário recomeçar a vida, trabalhar, estudar as lições, e meu coração sentia o exílio da terra... suspirava pelo repouso eterno do Céu, o Domingo sem ocaso da Pátria!...(7) Até mesmo os passeios, que fazíamos antes de voltar aos Buissonnets, deixavam um sentimento de tristeza na minha alma; então, a família não estava mais completa, pois, para agradar a meu tio, Papai deixava com ele, à tarde de cada Domingo, Maria ou Paulina; eu só ficava muito contente, quando permanecia também. Gostava mais assim do que quando era convidada,porque me davam menos atenção... Era, com prazer, que via Papai chegar para nos buscar. Regressando, olhava as estrelas que cintilavam docemente e essa visão me encantava... Havia, sobretudo, um grupo de pérolas de ouro, que observava com alegria, achando que ele tinha a forma de um T. Mostrava-o a Papai dizendo-lhe que, meu nome estava escrito no Céu e, depois, não querendo ver nada da feia terra, pedia-lhe para me conduzir; então, sem notar onde punha os pés, levantava bem minha cabecinha, não deixando de contemplar o azul estrelado!...(8).

 Que poderia dizer sobre as vigílias de inverno, sobretudo, daquelas de Domingo? Ah! como me era doce, após a partida de dama, assentar-me, com Celina, no colo de Papai...(9) Com sua bela voz, ele cantava canções, que enchiam a alma com pensamentos profundos... ou então, balançando-nos, docemente, recitava poesias impregnadas das verdades eternas... Em seguida, subíamos para rezar a oração em comum e a rainhazinha ficava sozinha, junto do seu Rei, devendo apenas olhá-lo para saber como rezam os santos... Por fim, vínhamos todas, por ordem de idade, dizer boa noite a papai e receber um beijo; a rainha era, naturalmente, a última, o rei, para abraçá-la, pegava-a pelos cotovelos e ela dizia bem alto: "Boa noite, Papai, durma bem", todas as noites, a mesma coisa... Em seguida, minha mãezinha tomava-me nos braços e me levava para o leito de Celina e eu dizia: "Paulina, fui bem comportada, hoje?... Os anjinhos voarão em volta de mim?" A resposta era sempre sim, do contrário, passaria a noite inteira chorando... Depois de me ter abraçado, como também minha querida madrinha, Paulina descia e a pobre Teresinha ficava sozinha na escuridão; pensava nos anjinhos voando em volta dela, o temor a tomava logo, a escuridão lhe fazia medo, pois não via, de sua cama, as estrelas que cintilavam docemente...

 (M A, 16v-18v)

 

 

NOTAS

 

(1) -Trata-se de Pe.Alcide Ducellier, que foi vigário da catedral de São Pedro, em Lisieux. Depois de ter sido vigário em outras comunidades paroquiais, voltou a Lisieux e morreu em 1916. Teve um grande relacionamento espiritual com a família Martin, já que foi diretor espiritual de Maria e de Paulina e confessor da nossa Santa até 1881. Foi ele também quem pronunciou os sermões de tomada de hábito e de véu de Paulina e de Celina. Depôs, como testemunha, no processo de beatificação de Santa Teresinha.

(2) -Vitória Pasquier foi doméstica da família Martin, em Lisieux. Depois de sete anos de serviço, deixou o trabalho para se instalar por conta própria.

(3) -A primeira confissão de Teresa foi realizada ou no fim do ano de 1879, ou nos primeiros meses de 1880. Note-se que, Teresinha só irá fazer sua primeira Comunhão aos 8 de maio de 1884. Naquele tempo, havia o costume de as acrianças se confessarem bem cedo, mesmo muito tempo antes da primeira Eucaristia.

(4) -É bonito observar como, desde cedo, Santa Teresinha se entusiasma com a devoção à Mãe de Deus. Durante toda sua vida, ela amará, com muita ternura, a Virgem Maria e teve idéias própria a respeito da vida e das virtudes de Nossa Senhora. Procurou sintetizar tudo que pensava sobre Maria na sua famosa poesia "Por que te amo, Maria!"(cf.p. ).

(5) -Confira, neste livro, a bela poesia de Santa Teresinha, "Uma Rosa Desfolhada" (p. ).Observa-se que, toda a espiritualidade teresiana foi nascendo da própria vida de Teresa.

(6) -Completas é a última parte do Ofício Divino, rezado pelos Padres e que pode ser rezado também por qualquer católico. Seria, pois, a "Oração da Noite", rezada,portanto, antes de se dormir.

(7) -Aqui, temos outra nota marcante da espiritualidade teresiana: sua saudade do céu e, ao mesmo tempo, seu sentimento de exilada. Suas cartas estão repletas desses sentimentos de exilada, neste vale de lágrimas. Isso, porém, não significa que, Teresa não amasse a vida e esse mundo. Ela foi, ao contrário, uma apaixonada pela família, pela natureza, pela vida, embora sentindo, como São Paulo, um ardente desejo da Pátria. No final de sua vida, apesar de todo seu anelo pelo Pátria, afirmou, categoricamente, que voltaria à terra, trabalhando até o fim dos tempos, para espalhar o amor a Deus, já que sua missão mais profunda ia começar após sua morte.(Cf. pp. ).

(8) -Por aqui se pode observar como vai nascer em Teresa a sua confiança ilimitada no Pai celeste. Ela falará sempre, como ponto fundamental da sua espiritualidade, sobre a necessidade de se abandonar, totalmente, nos braços do Pai do Céu.

(9) -Essas reuniões da família Martin são,realmente, o retrato bonito de uma família cristã unida. Por outras informações, sabemos que, nessas ocasiões, era lida uma passagem do famoso "Ano Litúrgico", de D.Guéranger, ou, então, de outro livro bom e instrutivo. Unidos, todos os membros da família se alimentavam não só do amor recíproco, mas também dos ensinamentos da religião. Por ouro lado, não faltava o lazer sadio e proveitoso. Todo esse encontro familiar terminava com a oração em comum, feita diante da imagem de Nossa Senhora, que sempre acompanhou a família.

 

 

6. MAR, SOL E GRAÇA

 

 

 Neste texto, vemos, bem claramente, a harmonia perfeita entre o humano e o divino, em Teresa de Lisieux.

 De um lado, são os sentimentos humanos de entusiasmo pela natureza, mar e sol; do outro lado, são as reflexões profundas e sérias que essa mesma natureza desperta na alma de Teresa.

 Ainda bem pequena, Teresinha é capaz de compreender o mistério de Deus nas belezas deste mundo.

 Nota-se,ainda, que o domínio do divino sobre o humano não altera a personalidade da Santa. Pelo contrário, é o caminho para a harmoniosa perfeição dessa mesma personalidade.

 

 

 Eu tinha seis ou sete anos (1), quando Papai me levou a Trouville (2). Jamais esquecerei a impressão que me causou o mar; não podia me impedir de olhá-lo sem parar; sua majestade, o barulho das ondas, tudo falava à minha alma da Grandeza e da Potência do Bom Deus. Lembro-me de que, durante o passeio que fizemos na praia, um Senhor e uma Senhora viram-me correndo alegremente em volta de papai e, aproximando-se, perguntaram-lhe se eu era sua e disseram que eu era uma garotinha muito bonita. Papai lhes respondeu que sim, mas me apercebi de que ele lhes fez sinal para não me fazer elogios... Era a primeira vez que ouvia dizer que era bonita. Isso me agradou muito, pois não o acreditava; a senhora dava muita atenção, minha Madre querida, para não deixar, em torno de mim, alguma coisa que pudesse manchar minha inocência, para não me deixar, sobretudo, ouvir alguma palavra capaz de deixar entrar a vaidade no meu coração. Como eu só prestava atenção às suas palavras e às de Maria (e a senhora jamais me dirigira um só elogio), não dei muita importância às palavras e aos olhares admiradores da Senhora. À tardinha, na hora em que o sol parece se banhar na imensidade das ondas, deixando, diante dele, um raio luminoso, fui me assentar, sobre um rochedo,sozinha com Paulina... Então, lembrei-me da emocionante história "Do raio de ouro!..."(3). Contemplei, durante muito tempo, esse raio luminoso, imagem da graça iluminando o caminho, que deve percorrer a barquinha de graciosa vela branca... Perto de Paulina, tomei a resolução de jamais afastar minha alma do olhar de Jesus, a fim de que ela navegue, em paz, para a Pátria dos Céus!...

 Minha vida transcorria tranqüila e feliz, a afeição com a qual era envolvida nos Buissonnets me fazia, por assim dizer, crescer, mas estava, sem dúvida, bastante grande para começar a lutar, para começar a conhecer o mundo e as misérias das quais está cheio...

 

 (M A, 21v-22r)

 

 

NOTAS

 

(1) -Na verdade, Teresa tinha apenas cinco anos e oito meses, pois esse fato aconteceu no dia 8 de agosto de 1878.

(2) -Trouville, cujo nome completo atual é Trouville-sur-mer, é uma pequena cidade portuária, situada a noroeste da França. Fica bem perto de Deauville e a uns 20 quilômetros de Lisieux. Santa Teresinha sempre adorou o mar e não foi essa a única vez, em que teve ocasião de vê-lo e admirá-lo. Na própria Autobiografia, nossa Santa relembra:"...Maria nos enviou, Celina e eu, a passar 15 dias à beira-mar. Eu me diverti muito, porque tinha minha Celina"(M A,41v).

(3) -História que se encontrava em uma antologia de leituras, feita por Louise S.W.Belloc, publicada pela Garnier, em 1870. Por questão de exatidão, é bom lembrar que essa meditação de Teresa não se deu nessa ocasião, mas em outro passeio.

 

 

7. O SORRISO DE MARIA

 

 

 Tem-se discutido muito sobre a doença misteriosa de Teresinha, Os diagnósticos têm sido mui variados, mas o que importa mesmo não é o fato e, sim, o sentido do fato. E esse sentido está no relacionamento entre Maria e Teresa, manifestado no presente caso, pelo sorriso de Maria.

 Maria sorriu para Teresa - e isso nossa Santa o repete com entusiasmo até o fim da vida - e esse sorriso ficou marcado como uma demonstração especial de carinho e de afeto particular da Mãe de Deus para com sua filha privilegiada.

 Assim, pois, para além do fato milagroso, tão bem descrito pela Santa mesma, o importante é aprofundar o sentido do Sorriso de Maria.

 

 

 Meu tio não estava contente, dizia que, ao invés de me fazer pensar no carmelo, era preciso afastá-lo do meu espírito, mas eu sentia o contrário, que era a esperança de ser, um dia, carmelita, que me fazia viver... Meu prazer era trabalhar para Paulina, eu lhe fazia alguns trabalhinhos em papel bristol e minha maior ocupação era fazer coroas de boninas e miosótis para a Santíssima Virgem; estávamos no belo mês de maio, toda a natureza se ornava de flores e respirava alegria, somente a "florzinha" enlanquecia e parecia ter murchado para sempre... Entretanto, ela tinha um Sol junto dela, esse Sol era a estátua milagrosa da Santíssima Virgem, que falara duas vezes a Mamãe(1) e, muitas vezes, muitas vezes mesmo, a florzinha dirigia sua corola para esse Astro bendito...

 Um dia, vi Papai entrar no quarto de Maria, onde eu estava deitada; ele lhe deu várias moedas de ouro, com uma expressão de grande tristeza, e lhe disse, que escrevesse a Paris, para que se celebrassem missas a Nossa Senhora das Vitórias(2), para que ela curasse sua pobre filhinha. Ah! como fiquei comovida, vendo a Fé e o Amor de meu Rei querido! Gostaria de poder lhe dizer que estava curada, mas já lhe dera tantas falsas alegrias; não eram meus desejos que podiam fazer um milagre, pois era necessário um para me curar... Era necessário um milagre e foi Nossa Senhora das Vitórias quem o fez.

 Um domingo(3), - durante a novena de missas - Maria foi ao jardim, deixando-me com Leônia, que lia junto da janela; ao cabo de alguns minutos, comecei a chamar, baixinho: "Mamã...Mamã". Leônia, estando habituada a me ouvir sempre chamar assim, não me deu atenção. Isso durou muito tempo, então chamei mais forte e, enfim, Maria voltou. Eu a vi perfeitamente entrar, mas não podia dizer, que a reconhecia e continuava a chamar sempre mais forte: "Mamã...". Sofria muito com essa luta forçada e inexplicável e Maria, talvez, sofria mais do que eu; após vãos esforços para me mostrar que ela estava perto de mim, ela se ajoelhou, ao lado de minha cama, com Leônia e Celina, depois, voltando-se para a Santíssima Virgem e rezando com o fervor de uma Mãe, que pede a vida de seu filho, Maria obteve o que ela desejava...

 Não encontrando nenhum socorro sobre a terra, a pobre Teresinha se voltara, também, para sua Mãe do Céu, rogava-lhe, de todo seu coração, que tivesse, enfim, pena dela... De repente, a Santíssima Virgem me pareceu bela, tão bela como jamais vira nada tão belo, seu rosto respirava uma bondade e uma ternura inefáveis, mas o que penetrou até o fundo da alma foi o"encantador sorriso da Virgem Santíssima". Então, todos os meus sofrimentos se desvaneceram, duas grossas lágrimas jorraram de minhas pálpebras e caíram, silenciosamente, pelas minhas faces, mas eram lágrimas de uma alegria sem mistura... Ah! pensei, a Virgem Santíssima me sorriu, como sou feliz... mas, jamais direi a ninguém, porque, então, minha felicidade desapareceria. Sem nenhum esforço, abaixei os olhos e vi Maria, que me olhava com amor; parecia emocionada e parecia duvidar do favor que a Virgem Santíssima me concedera... Ah! era mesmo a ela, às suas preces comoventes que eu devia a graça do sorriso da Rainha dos Céus. Vendo meu olhar fixo na Santíssima Virgem, ela dissera: "Teresa está curada!" Sim, a florzinha ia renascer para a vida, o Raio luminoso que a aquecera não devia interromper seus benefícios; ele não agiu imediatamente, mas docemente, suavemente, reergueu sua flor e a fortificou de tal maneira que, cinco anos mais tarde, ela se desabrochava sobre a montanha fértil do Carmelo.

 

 (M A, 29r-30r)

 

 

NOTAS

 

(1) -Trata-se da famosa estátua da "Virgem do Sorriso", que, atualmente, encontra-se sobre o altar de Santa Teresinha, na capela do Carmelo. A senhorita Boudouin ofereceu essa imagem ao senhor Martin, antes do casamento dele. A estátua sempre acompanhou a família Martin por onde morou. Há certa confusão sobre quantas vezes a senhora Martin teria ouvido a voz de Nossa Senhora, diante da estátua. Não sabemos bem, baseada em quê, Teresa anota "duas vezes".

(2) -A devoção de Santa Teresinha a Nossa Senhor veio do berço, pois seus pais sempre cultivaram um profundo amor a Nossa Senhora e uma sincera confiança na sua proteção. Aqui, no texto, a referência é ao Santuário de Nossa Senhora das Vitórias, de Paris. Foi aí, nesse Santuário mariano, que, aos 4 de novembro de 1887, dissiparam-se, definitivamente, as angústias da Santa a respeito da visão,narrada acima.

(3) -A visão e a cura de santa Teresinha aconteceram, precisamente, aos 13 de maio de 1883, domingo de Pentecostes.

 

 

8. VIDA E GLÓRIA

 

 

 Místico e real é como se apresenta, concretamente,este texto. Aqui, Teresinha se mostra menina-moça, como qualquer outra deste mundo, isto é, com seus sonhos, ideais, mas também com seus problemas e as atrações próprias da idade. No mistério de tudo isso, está a graça que trabalha a alma de Teresa na direção do sublime e do belo.

 A Santa, no início da sua adolescência, sonha com a glória, com a grandeza e, ao mesmo tempo, sente os encantos do mundo. Não deixando de ser mulher, ela, sob a luz da graça, endereça-se à glória da santidade, aos encantos de Deus.

 

 

 Se eu não sabia brincar, gostava muito da leitura e nela teria passado minha vida. Felizmente, tinha, para me guiar, anjos da terra, que me escolhiam livros que, enquanto me divertiam, alimentavam meu coração e meu espírito e, ademais, tinha apenas certo tempo para ler, o que me causava grandes sacrifícios, interrompendo, muitas vezes, minha leitura no meio da passagem mais atraente... Essa atração pela leitura durou até minha entrada no Carmelo. Dizer o número de livros, que me passaram pelas mãos, não seria possível, mas jamais o bom Deus permitiu que lesse um só capaz de me fazer mal. É verdade que, em lendo certas narrativas cavalheirescas, não sentia sempre, no primeiro instante, o verdadeiro da vida; mas logo o bom Deus me fazia sentir, que a verdadeira glória é aquela que durará eternamente e que, para chegar até ela, não era necessário fazer obras brilhantes, mas esconder-se e praticar a virtude, de tal sorte que a mão esquerda ignore o que faz a direita... É, assim, que, ao ler as narrativas das ações patrióticas das heroínas francesas, particularmente, as da Venerável JOANA D'ARC (1), sentia um grande desejo de imitá-las; parecia que sentia em mim o mesmo ardor de que estavam animadas, a mesma inspiração Celeste. Então, recebi uma graça que sempre considerei como uma das maiores da minha vida, pois, nessa idade não recebia luzes como agora, quando sou por elas inundada. Pensei que nascera para a glória, e buscando o meio de lá chegar, o bom Deus me inspirou os sentimentos que acabo de escrever. Fez-me compreender também, que a minha glória não apareceria aos olhos dos mortais, que ela consistiria em me tornar uma grande Santa!!!...

 Esse desejo poderia parecer temerário, se considera como eu era fraca e imperfeita e quanto o sou ainda, após sete anos passados em religião(2), contudo sinto sempre a mesma confiança audaciosa de me tornar uma grande Santa, pois não conto com os meus méritos, não tendo nenhum, mas espero nAquele que é a Virtude, a própria Santidade. É Ele só, que se contentando dos meus fracos esforços, elevar-me-á até Ele e, cobrindo-me com seus méritos infinitos, far-me-á Santa. Então, não pensava que era necessário sofrer muito para chegar à santidade. O bom Deus não tardou a mo mostrar, enviando as provações que narrei mais acima... Agora, devo retomar minha narração, no ponto em que a tinha deixado.

 Três meses após minha cura, Papai nos levou em viagem a Alençon(3). Era a primeira vez que lá voltava e minha alegria foi bem grande, quando vi os lugares onde se desenrolara minha infância, sobretudo, por poder rezar junto ao túmulo de mamãe(4) e lhe pedir que me protegesse sempre...

 O bom Deus me deu a graça de não conhecer o mundo, senão o bastante para o desprezar e me afastar dele. Poderia dizer que foi, durante minha estada em Alençon, que fiz minha primeira entrada no mundo. Tudo era alegria, felicidade ao redor de mim; era festejada, acariciada, admirada; em uma palavra, minha vida, durante quinze dias, foi semeada só de flores... Confesso que, essa vida tinha seus encantos para mim. A Sabedoria tem razão ao dizer: "Que o encantamento das bagatelas do mundo seduz até o espírito afastado do mal" (5). Aos dez anos, o coração se deixa facilmente fascinar, assim considero também uma grande graça não ter ficado em Alençon; os amigos que lá tínhamos eram demasiado mundanos; eles sabiam demais aliar as alegrias da terra com o serviço do bom Deus. Não pensavam bastante na morte e, contudo, a morte veio visitar um grande número de pessoas, que conheci jovens, ricas e felizes!!! Gosto de voltar, com o pensamento, aos lugares encantadores em que eles viveram, de me perguntar onde eles estão,o que lhes valeu dos castelos e dos parques, onde os vi gozar das comodidades da vida... (6). E vejo que tudo é vaidade e aflição de espírito sob o Sol... que o único bem é amar Deus de todo o coração e ser, aqui na terra, pobre de espírito...

 Talvez Jesus quis me mostrar o mundo, antes da primeira visita que devia me fazer, a fim de que escolhesse, mais livremente, o caminho, que devia lhe prometer seguir.

 

 (M A, 31v-32v)

 

 

NOTAS

 

(1) -Santa Teresinha nutriu uma grande admiração por santa Joana d'Arc. Nos últimos tempos de sua vida, ela comparou sua missão àquela da heroína francesa. Pio XII, pelo Breve de 3 de maio de 1944, declarou nossa Santa padroeira secundária da França, como santa Joana d'Arc.

(2) -A palavra "religião", aqui, é empregada no sentido de vida religiosa.

(3) -Essa viagem a Alençon, terra natal de Santa Teresinha, aconteceu em agosto de 1883.

(4) -Os restos mortais da senhora Martin só vieram para Lisieux após a morte do senhor Martin(julho de 1894), isto é, aos 11 de outubro de 1894.

(5) -Traduzimos a citação bíblica do livro da Sabedoria(4,12), conforme o texto francês, escrito pela Santa. Na verdade, uma tradução, segundo a Bíblia de Jerusalém, seria assim: "O fascínio do mal obscurece o bem e a vertigem da paixão perverte um espírito sem maldade".

(6) -Durante sua viagem a Alençon(a 95 km ao sul de Lisieux, onde se conservam a Casa Natal de Santa Teresinha e o Batistério, onde ela foi batizada). santa Teresinha teve oportunidade de conhecer muita coisa. As jovens Tifenne e Rome levaram a família Martin de castelo em castelo, facilitando, assim, a Teresinha conhecer muita gente e muita coisa do mundo.

 

 

9. ORAÇÃO

 

 

 Certamente, neste pequeno texto, não está todo o pensamento teresiano sobre a oração. A escolha deste texto não foi pela importância do pensamento teresiano, aqui expresso, sobre a oração, mas pelo fato místico da evolução da santidade de Santa Teresinha.

 Nossa Santa tem, na ocasião, apenas dez anos e, no entanto, já está adiantada no cominho da contemplação. Uma contemplação simples, quase natural, mas já profundamente religiosa e indicadora do estilo da caminhada espiritual da Santa.

 Ademais, não é de se admirar que, uma criança já saiba, aos dez anos, fazer, sozinha, sem nenhum ensinamento, uma meditação de verdade?

 

 

 Nessa época , ninguém me havia ainda ensinado o meio de fazer meditação, eu tinha, contudo, muita vontade de fazê-la,mas Maria achando-me bastante piedosa, só me deixava fazer as minhas orações (1).

 Um dia, uma das minhas mestras na Abadia (2) me perguntou pelo que eu fazia nos dias feriados, quando estava só. Respondi-lhe que ia até atrás do meu leito, em um espaço vazio , que ali havia e que me era fácil fechar com a cortina, e que lá "eu pensava".

 -Mas, em que você pensa? perguntou-me ela.

 -Eu penso no bom Deus, na vida... na ETERNIDADE, enfim eu penso!...

 A boa religiosa(3) riu muito de mim, posteriormente ela gostava de lembrar o tempo em que eu pensava, perguntando-me se pensava ainda...

 Compreendo,agora, que meditava, sem saber e que o bom Deus já me instruía em segredo(4).

 

 (M A,33r)

 

 

NOTAS

 

(1) -Maria confessou, no Processo, que só permitia que Teresinha fizesse suas orações vocais de manhã e à noite, porque tinha medo que Deus a levasse muito cedo, já que a achava muito piedosa.

(2) -Teresa entrou na Abadia, como meio-pensionista, aos 3 de outubro de 1881.

(3) -A madre São Francisco de Sales testemunhou, no Processo Apostólico, que foi com ela que Teresa manteve esse diálogo. Tudo indica, porém, que a história, como um todo, foi repetida algumas vezes, já que outras testemunhas também afirmaram ter ouvido de nossa Santa a mesma narração.

(4) -É interessante conferir essa afirmação com a passagem do Salmo 51,8

 

 

10.                       EUCARISTIA E CONFIRMAÇÃO

 

 

 Procura-se, atualmente, a melhor maneira possível, para que os sacramentos da Eucaristia e da Confirmação sejam recebidos com uma ótima preparação e com muito proveito. Todavia, apesar de muito esforço, os resultados ainda são parcos. Métodos modernos de preparação não estão conseguindo o que tanto se deseja.

 O texto seguinte mostra, pelo menos em parte, como Teresinha foi preparada para a recepção desses sacramentos. Uma preparação séria, simples, bonita e eficaz e, ao mesmo tempo, com quanto proveito ela os recebeu.

 O texto é importante, porque nos apresenta a alma da criança -Teresa já tão apaixonada por Deus, já tão consciente da grandeza e beleza dos sacramentos.

 

 

 Na véspera do grande dia, recebi a absolvição pela segunda vez; minha confissão geral me deixou uma grande paz na alma e o bom Deus não permitiu que a mais leve nuvem viesse perturbá-la. À tarde, pedi perdão a toda a família,que veio me ver, mas só falei através das lágrimas, estava demasiado comovida... Paulina não estava presente, contudo sentia que ela estava perto de mim pelo coração; ela me enviara uma bela estampa por Maria, que eu não deixava de admirar e de fazer que todo o mundo a admirasse!... Escrevera ao Pe.Pichon para me recomendar as suas orações, dizendo-lhe também que, em breve seria carmelita e que, então, ele seria meu diretor.(Foi, de fato, o que aconteceu quatro anos depois, pois que foi no Carmelo que lhe abri minha alma...). Maria me deu uma carta dele; verdadeiramente eu estava feliz demais!... Todas as felicidades me chegavam conjuntamente. O que mais me deu alegria na sua carta foi esta frase: "Amanhã, subirei ao Santo Altar por você e sua Paulina!" Paulina e Teresa tornaram-se, aos 8 de maio, cada vez mais unidas, já que Jesus parecia confundi-las, inundando-as com suas graças...

 O "belo dia entre os dias" enfim chegou(1). Que inefáveis lembranças, os menores detalhes daquele dia do Céu deixaram em minha alma!... O alegre raiar da aurora, os beijos respeitosos e ternos das mestras e das colegas maiores... O grande quarto cheio de flocos de neve, com os quais cada criança se revestia por sua vez... Sobretudo, a entrada na capela e o canto matinal do belo cântico: "Ó santo Altar, que os anjos cercam!"

 Mas, não quero entrar em detalhes... pois, há coisas que perdem seu perfume, quando são expostas ao ar; há pensamentos da alma que não podem ser traduzidos na linguagem da terra,sem perder seu sentido íntimo e celeste; são como esta "Pedra branca que será dada ao vencedor e sobre a qual está escrito um nome, que ninguém conhece, senão Aquele que a recebe"(2). Ah! como foi doce o primeiro beijo de Jesus na minha alma!...

 Foi um beijo de amor,sentia-me amada e dizia também: "Eu vos amo, em me entrego a vós para sempre". Não houve pedidos, nem lutas, nem sacrifícios; desde muito tempo Jesus e a pobre Teresinha se tinham olhado e se tinham compreendido... Naquele dia não era mais um olhar, mas uma fusão, eles não eram mais dois, Teresa desaparecera, como a gota d'água, que se perde no seio do oceano. Jesus ficava só, Ele era o mestre, o Rei. Teresa não lhe tinha pedido para lhe tirar a sua liberdade, pois sua liberdade lhe dava medo? Ela se sentia tão fraca, tão frágil que desejava se unir à Força Divina para sempre!... Sua alegria era grande demais, profunda demais, para que pudesse contê-la, lágrimas deliciosas logo a inundaram para a grande admiração de suas companheiras, que, mais tarde, diziam uma a outra: "Por que ela chorou? Tinha ela algo que a perturbava?...-Não, era por não ter sua Mãe ao seu lado, ou sua irmã, que ela ama tanto e que é carmelita". Elas não compreendiam que toda a alegria do céu vindo a um coração, esse coração exilado não podia suportá-la sem derramar lágrimas... Oh! não, a ausência de mamãe não me causava pena no dia da minha primeira comunhão: o Céu não estava na minha alma e Mamãe não tinha tomado assento nele desde muito tempo? Assim, ao receber a visita de Jesus, recebi também a de minha Mãe querida, que me abençoava, alegrando-se com a minha felicidade... Eu não chorava a ausência de Paulina, sem dúvida teria ficado feliz vendo-a ao meu lado, mas desde muito tempo meu sacrifício estava aceito; naquele dia só a alegria enchia meu coração, unia-me a ela que se dava, irrevogavelmente, Àquele que se dava tão amorosamente a mim!...

 À tarde, fui eu quem pronunciou o ato de consagração à Santíssima Virgem; era muito justo que eu falasse, em nome de minhas companheiras, a minha Mãe do Céu, eu, que fora privada, tão jovem, de minha Mãe da terra... Pus todo o meu coração a lhe falar, a me consagrar a ela, como uma criança que se joga nos braços de sua Mãe e lhe pede para velar sobre ela. Parece-me que a Santíssima Virgem deve ter olhado sua florzinha e lhe sorriu, não fora ela que a curara com um sorriso visível?... Não tinha ela depositado no cálice de sua florzinha seu Jesus, a Flor dos Campos, o Lírio do vale?...(3)

 À tardinha desse belo dia, reencontrei minha família da terra; já de manhã, a pós a missa, abraçara Papai e todos os meus queridos parentes, mas, agora, era a verdadeira reunião, Papai, tomando da mão de sua rainhazinha, dirigiu-se ao Carmelo...Então, vi minha Paulina feita a esposa de Jesus, eu a vi com seu véu branco, como o meu, e sua coroa de rosas... Ah! minha alegria foi sem amargura, esperava reunir-me a ela em breve e aguardar, com ela, o Céu! Não fiquei insensível à festa de família, que aconteceu na noite de minha primeira Comunhão. Deu-me um grande prazer o belo relógio, que meu Rei me ofertou, mas minha alegria era tranqüila e nada veio perturbar minha paz íntima. Maria tomou-me consigo na noite que seguiu esse belo dia, pois, os dias mais radiosos são seguidos de trevas; só o dia da primeira, da única, da eterna Comunhão do Céu será sem ocaso!...

 O dia seguinte ao da minha primeira Comunhão foi ainda um belo dia, mas foi marcado de tristeza. A bela toalete, que Maria me comprara, todos os presentes que recebera não me enchiam o coração, só Jesus podia me contentar, aspirava pelo momento em que pudesse recebê-lo pela segunda vez. Cerca de um mês após minha primeira Comunhão, fui me confessar para a Ascensão e ousei pedir a permissão para comungar. Contra toda esperança, o Padre mo permitiu e tive a felicidade de me ajoelhar na Mesa Sagrada entre Papai e Maria(4). Que doce lembrança guardei dessa segunda visita de Jesus! Minhas lágrimas caíram ainda com uma inefável doçura; repetia a mim mesma, sem cessar, estas palavras de são Paulo: "Não sou eu mais quem vive, é Jesus quem vive em mim!..."(4). Depois dessa comunhão, meu desejo de receber o bom Deus tornou-se cada vez maior; obtive a permissão de comungar em todas as principais festas. Na véspera desses dias felizes, Maria me tomava, à noite, em seu colo e me preparava como fizera para a minha primeira comunhão; lembro-me de que, uma vez, ela me falou do sofrimento, dizendo-me que, provavelmente, eu não caminharia por essa estrada, mas que o bom Deus me carregaria sempre como uma criança...

 No dia seguinte, após minha comunhão, as palavras de Maria me voltaram ao pensamento; senti nascer no meu coração um grande desejo do sofrimento e, ao mesmo tempo, a segurança de que Jesus me reservava um grande número de cruz; senti-me inundada de consolações tão grandes, que as considero como uma das maiores graças de minha vida. O sofrimento tornou-se meu atrativo, ele tinha encantos que me arrebatavam, mesmo sem os conhecer bem. Até então, sofrera sem amar o sofrimento, desde esse dia, porém,senti por ele um verdadeiro amor. Sentia também o desejo de só amar o bom Deus e só encontrar alegria nEle. Muitas vezes, durante minhas comunhões, repetia estas palavras da Imitação: "Ó Jesus, doçura inefável! mudai para mim em amargura todas as consolações da terra!..."(6). Essa oração saía dos meus lábios sem esforço, sem constrangimento; parecia a mim que a repetia, não por minha vontade, mas como uma criança que repete as palavras que uma pessoa amiga lhe inspira... Mais tarde, eu lhe direi, minha Madre querida, como aprouve a Jesus realizar meu desejo; como foi sempre Ele só minha doçura inefável; se lhe dissesse imediatamente, seria obrigada a antecipar o tempo de minha vida de jovem e me faltam ainda muitos detalhes a lhe comunicar sobre minha vida de criança.

 Pouco tempo após minha primeira Comunhão, entrei, de novo, em retiro para minha Confirmação(7). Preparara-me com muito cuidado, para receber a visita do Espírito Santo, não compreendia que não se dê grande atenção à recepção desse sacramento de amor. Ordinariamente, fazia-se apenas um dia de retiro para a Confirmação, mas o Bispo não tendo podido vir no dia marcado, tive a consolação de ter dois dias de solidão. Para nos distrair, nossa Mestra nos conduziu ao Monte Cassino(8) e lá eu colhi, a mãos cheias, grandes boninas para a festa do Corpo de Deus. Ah! como minha alma estava alegre! Como os apóstolos, esperava, com felicidade, a visita do Espírito Santo... alegrava-me o pensamento de ser, em breve, perfeita cristã e, sobretudo, o de ter eternamente na fronte a cruz misteriosa, que o Bispo faz ao administrar o sacramento... Enfim, o momento feliz chegou, não senti um vento impetuoso no momento da descida do Espírito Santo, mas, pelo contrário, aquela brisa leve, da qual o profeta Elias ouviu o murmúrio no monte Horeb...(9).Naquele dia, recebi a força para sofrer(10), pois, em breve, o martírio de minha alma devia começar...

 Após essas deliciosas e inesquecíveis festas, minha vida voltou ao ordinário, ou seja, tive de retomar a vida de pensionista, que me era tão penosa. Por ocasião da minha primeira Comunhão, amava essa existência com as crianças da minha idade, todas cheias de boa vontade, tendo tomado, como eu, a resolução de praticar seriamente a virtude; mas me era necessário entrar em contacto com algumas bem diferentes, dissipadas, que não queriam observar o regulamento e isso me fazia muito infeliz. Eu tinha um temperamento alegre, mas não sabia me entregar aos jogos de minha idade. Muitas vezes, durante o recreio, apoiava-me em uma árvore e de lá eu olhava a brincadeira, entregando-me a sérias reflexões!

 (M A, 34r-36r)

 

 

NOTAS

 

(1) -Santa Tersinha fez sua primeira comunhão no dia 8 de maio de 1884, com 11 anos de idade. Ela já tinha se confessado outras vezes, mas, segundo o costume da época, só recebera a absolvição uma vez.

(2) -Apocalipse 2,17. Observemos que, algumas das idéias básicas da espiritualidade teresiana já aparecem neste texto. Com efeito, a Santa nos fala do "beijo de amor", "sentia-se amada", "linguagem da terra", "fusão", "liberdade",etc. Esses temas reaparecerão nas páginas deste livro.

(3) -Cântico dos Cânticos 2,1. Teresa teve de lutar para ser a leitora do ato de consagração a Nossa Senhora, uma vez que não fora a primeira a ser escolhida para tal mister.

(4) -A segunda comunhão de Teresinha aconteceu no dia 22 de maio de 1884, quinta feira, festa da Ascensão do Senhor.

(5) -Gálatas 2,20. Aqui, temos mais uma característica da mística teresiana, isto é, a comunhão total com Cristo.

(6) -Imitação de Cristo III, 26, 3.

(7) -Santa Teresinha foi crismada no dia 14 de junho de 1884. A seriedade com que a Santa se preparou para receber a Confirmação deixou algumas pessoas impressionadas.

(8) -Tratava-se de um terreno, que prolongava o parque da Abadia.

(9) -Cf. I Reis 19,12-13.

(10)-Note-se que o sofrimento será um dos pontos marcantes da espiritualidade teresiana: sofrimento como caminho de purificação, sofrimento por amor, por expiação e pelo espírito missionário.

 

 

11.EXIGÊNCIAS DO CORAÇÃO

 

 

 O tema central do texto é o coração e suas exigências. Teresa tem um coração sensível e carente de amor. Depara-se, então, entre as afeições das criaturas e o amor zeloso e ciumento de Deus. Decepciona-se com as criaturas e encontra caminho aberto para voar no amor pelo seu Deus.

 Aqui, porém, surge uma questão teológica muito profunda e séria. Com o coração que tem, certamente, Teresa não amaria Deus como devia. Por iso, Deus a amou com um amor previdente. Um amor que não esperou para perdoar, mas que, prevendo, afastou do caminho de Teresa tudo quanto pudesse impedi-la de amar a Deus como devia.

 Esse conceito de amor, que vai além do amor de misericórdia, é algo maravilhoso e, teologicamente, é um dos encontros culminantes entre o teólogo e o místico.

 

 

 Eu considero isso como uma graça: o bom Deus querendo meu coração só para Ele, ouvia já minha oração "mudando em amargura as consolações da terra"(1). Eu tinha disso tanto mais necessidade, quanto não teria sido insensível aos louvores. Muitas vezes, elogiavam, diante de mim, a inteligência dos outros, mas a minha jamais, então eu conclui que não a tinha e me resignei a me ver privada dela...

 Meu coração sensível e amante teria facilmente se entregado, se tivesse encontrado um coração capaz de compreendê-lo... Tentei me ligar com as meninas de minha idade, sobretudo, com duas delas. Eu as amava e, da parte delas, elas me amavam tanto quanto eram capazes; mas ah! como é estreito e volúvel o coração das criaturas!!!... Logo, percebi que meu amor era incompreendido, pois, uma das minhas amigas, tendo sido obrigada a voltar para casa, regressou alguns meses após; durante sua ausência pensara nela, guardando preciosamente um anelzinho que me dera. Revendo minha companheira, minha alegria foi grande, mas ah! não obtive senão um olhar indiferente... Meu amor não era compreendido, eu o senti e não mendiguei uma afeição que me era recusada. Mas, o bom Deus me deu um coração tão fiel que, quando ele amou puramente, ama para sempre, por isso continuei rezando por minha colega e a amo ainda... Ao ver Celina amar uma de nossas mestras, quis imitá-la, mas não sabendo como ganhar as boas graças das criaturas, não tive sucesso. Ó feliz ignorância! como ela me evitou grandes males!... Quanto agradeço a Jesus de não me feito encontrar "senão amargura nas amizades da terra", pois, com um coração como o meu, ter-me-ia deixado prender e cortar as asas e, então, como teria podido "voar e repousar?"(2). Como pode um coração, entregue à afeição das criaturas, unir-se intimamente a Deus?... Sinto que isso não é possível.Mesmo sem ter bebido na copa envenenada do amor demasiado ardente das criaturas, sinto que não posso me enganar; vi tantas almas, seduzidas por essa falsa luz, voar como pobres borboletas e queimar as asas, depois, voltarem à verdadeira, à doce luz do amor que lhes dava novas asas, mais brilhantes e mais ligeiras, a fim de que pudessem voar para Jesus, esse Fogo Divino "que queima sem consumir"(3). Ah! eu o sinto, Jesus sabia que eu era demasiado fraca para me expor à tentação, talvez eu me teria deixado queimar totalmente pela luz enganadora, se a visse brilhar diante dos meus olhos... Não foi assim, só encontrei amargura lá onde almas mais fortes encontram alegria e dela se desapegam por fidelidade. Não tenho, pois, nenhum mérito por não me ter entregue ao amor das criaturas, pois não fui preservada, senão pela grande misericórdia do Bom Deus!... Reconheço que, sem Ele, teria podido cair tão baixo quanto Santa Madalena e a palavra de Nosso Senhor a Simão ressoa, com uma grande doçura, na minha alma... Eu o sei: "aquele a quem menos se perdoa, menos ama"(4), mas sei também que, Jesus perdoou mais a mim do que a Santa Madalena, pois que Ele me perdoou de antemão, impedindo-me de cair. Ah! como gostaria de explicar o que sinto!... Eis um exemplo, que traduzirá um pouco o meu pensamento.

 Suponho que o filho de um hábil doutor encontre, no seu caminho, uma pedra que o faça cair e que nessa queda quebre um membro; imediatamente seu pai vem até ele, levanta-o com amor, cuida de suas feridas, empregando nisso todos os recursos de sua arte e logo seu filho, completamente curado, testemunha-lhe seu reconhecimento. Sem dúvida, esse menino tem muita razão para amar seu pai! Mas, quero fazer ainda outra suposição. O pai, tendo sabido que no caminho de seu filho se encontrava uma pedra, apressa-se a ir antes dele e a retira, sem ser visto por ninguém. Certamente, esse filho, objeto de sua previdente ternura, não sabendo da infelicidade da qual foi salvo por seu pai, não lhe testemunhará seu reconhecimento e amará menos do que se tivesse sido curado por ele... mas, se chega a conhecer o perigo do qual escapou, não o amará mais? Pois bem, sou eu esse filho, objeto do amor previdente de um Pai, que não enviou seu Verbo para redimir os justos, mas os pecadores(5). Ele quer que eu o ame, porque Ele me perdoou, não muito, mas TUDO. Ele não esperou que eu o amasse muito como Santa Madalena, mas quis que eu soubesse como me amara com um amor de inefável previdência, a fim de que agora eu o ame loucamente!... Ouvi dizer que, não se encontrara uma alma pura amando mais do que uma alma arrependida. Ah! como gostaria de desmentir essa palavra!...

 

 (M A, 37r-38v)

 

 

NOTAS

 

(1) -Imitação de Cristo, III,26,3.

(2) -Salmo 55,7. Note que a tradução apresentada é mais uma adaptação do que uma citação literal do texto bíblico.

(3) -Cf. Êxodo 3,2. Pode ser também uma referência ao poema "Viva Chama do Amor", de São João da Cruz, na explicação da estrofe II.

(4) -Lucas 7,47

(5) -Mateus 9,13.

 

12.AMIZADE E CRESCIMENTO

 

 

 Teresa é humana, profundamente humana. Ela quanto mais sobe no caminho da perfeição, tanto mais se torna humana. Um humanismo puro, sublime, elevado é o seu.

 Assim é que entendemos a amizade pura e humana de Teresa com sua irmã, Celina. No Belvedere, as duas alcançam a raia da mística, em profundo e espetacular entrelaçamento de almas entre si e com Deus.

 Com, por e depois dessas graças do Belvedere, da casa de Lisieux, Teresa começa a sua corrida de gigante. Começa a entender o mistério da presença de amor na Eucaristia; o caminho reto pelo qual o próprio Deus a conduz e sente que, a misericórdia divina é muitíssimo pródiga na pequenez e na fraqueza daqueles que a Deus se entregam totalmente.

 

 

 Jesus queria nos fazer avançar juntas, formou nos nossos corações laços mais fortes que os de sangue. Ele nos tornou irmãs de almas; em nós se realizaram aquelas palavras do Cântico de São João da Cruz(falando ao Esposo, a esposa exclama:)"Seguindo vossas pegadas, as donzelas percorrem ligeiramente o caminho. O toque da centelha, o vinho temperado lhes fazem produzir aspirações divinamente embalsamadas"(1). Sim, era bem ligeiramente que seguíamos as pegadas de Jesus; as centelhas de amor que Ele semeava a mancheias em nossas almas, o vinho delicioso e forte que nos dava para beber faziam desaparecer dos nossos olhos as coisas passageiras e de nossos lábios saíam aspirações de amor inspirados por Ele. Como eram doces as conversas que tínhamos, todas as tardinhas, no belvedere! O olhar mergulhado no distante, contemplávamos a lua branca se elevando docemente por trás das grandes árvores... os reflexos prateados que ela espalhava sobre a natureza adormecida... as estrelas brilhantes cintilando no azul profundo... o sopro suave da brisa da noite fazendo flutuar as nuvens vaporosas, tudo elevava nossas almas para o Céu, o belo Céu do qual não contemplávamos ainda "senão o avesso límpido...(2)

 Não sei se me engano, mas a mim me parece que a efusão de nossas almas se assemelhava à de Santa Mônica com seu filho, quando no porto de Hóstia eles ficavam perdidos em êxtase à vista das maravilhas do Criador!... Parece-me que recebíamos graças de uma ordem tão elevada, quanto aquelas concedidas aos grandes santos. Como diz a Imitação, o bom Deus se comunica, muitas vezes, no meio de um vivo esplendor ou, então, "docemente velado, sob sombras e figuras"(3); era dessa maneira que Ele se dignava manifestar-se a nossas almas, mas como era transparente e leve o véu que escondia Jesus dos nossos olhos!... A dúvida não era possível; já a Fé e a Esperança não eram mais necessárias; o amor nos fazia encontrar sobre a terra Aquele que buscávamos. "Tendo-o encontrado sozinho, Ele nos dera seu beijo, a fim de que, para o futuro, ninguém pudesse nos desprezar"(4).

 Graças tão grandes não deviam ficar sem frutos. Assim, eles foram abundantes, a prática da virtude se nos tornou doce e natural. No começo, meu rosto traía, muitas vezes, o combate, mas, pouco a pouco, essa impressão desapareceu e a renúncia tornou-se-me fácil, mesmo no primeiro momento. Jesus o disse: "Àquele que tem, dar-se-á ainda e será em abundância"(5). Por uma graça fielmente recebida, Ele me dava uma multidão de outras... Ele se dava a si mesmo a mim na santa Comunhão muitas mais vezes do que eu não teria ousado esperar. Tomara, como regra de conduta, fazer, sem perder uma só, as comunhões que meu confessor me permitisse, mas deixá-lo determinar o número delas, sem jamais lhas pedir. Não tinha, a essa época, a audácia que possuo agora, do contrário, teria agido diferentemente, pois estou bem convencida de que, uma alma deve dizer a seu confessor a atração que ela sente para receber seu Deus; não é para ficar no cibório de ouro que Ele desce, cada dia, do Céu, é a fim de encontrar outro Céu, que lhe é infinitamente mais querido do que o primeiro: o Céu de nossa alma, feita a sua imagem, o templo vivo da adorável Trindade!...

 Jesus, que via meu desejo e a retidão do meu coração, permitiu que, durante o mês de maio, meu confessor me autorizasse comungar quatro vezes por semana e, passado esse belo mês, ele acrescentou uma quinta, todas as vezes que houvesse uma festa. Muitas doces lágrimas rolaram dos meus olhos ao sair do confessionário; parecia-me que era Jesus mesmo que queria se dar a mim, pois fazia pouco tempo que estava a me confessar, jamais dizia uma palavra de meus sentimentos interiores, o caminho pelo qual eu andava era tão reto, tão luminoso que não me era necessário outro guia fora de Jesus... Comparava os diretores a espelhos fiéis, que refletiam Jesus nas almas e dizia que, para mim, o Bom Deus não se servia de intermediário, mas agia diretamente!...

 Quando um jardineiro cerca, com cuidados, um fruto, que ele quer que amadureça antes da estação, não é jamais para deixá-lo suspenso na árvore, mas para apresentá-lo em uma mesa brilhantemente servida. Era numa intenção semelhante que Jesus prodigalizava suas graças a sua florzinha... Ele, que exclamava nos dias de sua vida mortal, em um delírio de alegria: "Eu te louvo, ó Pai,...porque ocultaste essas coisas aos sábios e doutores e as revelaste aos pequeninos"(6),queria fazer brilhar em mim a sua misericórdia; porque eu era pequena e fraca Ele se abaixava até a mim, instruía-me em segredo sobre as coisas do seu amor. Ah! se sábios, que tivessem passado suas vidas no estudo, viessem me interrogar, sem dúvida, teriam ficado admirados em ver uma criança, de catorze anos, compreender os segredos da perfeição, segredos que todas suas ciências não lhes podem descobrir, pois que, para os possuir, é preciso ser pobre de espírito!...(7)

 

 

 (M A,47v-49r)

 

 

 

NOTAS

 

(1) -São João da Cruz, Cântico Espiritual, XXV.

(2) -Teresa se refere a uma poesia de Alfred Besse de Larze, que tem como título, "O avesso do céu".

(3) -Imitação de Cristo III,42,4.

(4) -O texto é uma interpretação do Cântico dos Cânticos 8,1. Com efeito, no Livro Sagrado, lê-se: "Ah! se fosses meu irmão, amamentado nos seios de minha mãe! Encontrando-te fora, eu te beijaria, sem ninguém me desprezar".

(5) -Mateus 13,12.

(6) -Mateus 11,25.

(7) -Teresinha usa a expressão "pobre de espírito", quando no Evangelho de Mateus está escrito "pobre em espírito"(5,3). Evidentemente, o sentido teresiano é o mesmo do texto de Mateus. Não se trata, pois, de pobres de espírito no sentido de retardados, mas de despojados, desapegados.

 

 

 

13. O BRINQUEDO FURADO E A BOLINHA ABANDONADA

 

 Este texto pode parecer a muitos demasiado simples, tolo e até ridículo. Todavia, é a narração simples e bela de uma luta contra todos os obstáculos para a realização de um ideal. Trata-se de uma menina de quatorze anos, que enfrenta todos os obstáculos para conquistar o direito de viver sua vocação.

 É tão comovente a descrição singela de Teresa, que o leitor é levado a sentir, com ela, as emoções de sua luta, as aspirações dos seus sonhos e as tristezas de uma esperança quase frustrada.

 No fundo, é toda a alma teresiana, que espera contra toda esperança, que confia e se abandona totalmente nas mãos do seu bom Deus.

 

 

 Seis dias se passaram em visitas às principais maravilhas de Roma e foi no sétimo que vi a maior de todas: Leão XIII"... (1). Esse dia eu o desejava e o temia ao mesmo tempo, era dele que minha vocação dependia, pois a resposta que devia receber do sr.Bispo não chegara e eu tomara conhecimento, por uma carta sua, minha Madre, que ele não estava muito bem disposto a meu favor, assim minha única tábua de salvação era a permissão do santo Padre... mas para obtê-la, era preciso pedi-la, seria necessário, diante de todo o mundo, ousar falar : "ao Papa", esse pensamento me fazia tremer; o que sofri, antes da audiência, só o bom Deus sabe com minha querida Celina.

 Jamais esquecerei a parte que ela tomou em todas minhas provações, parecia que minha vocação era a sua. (Nosso amor mútuo era notado pelos padres da peregrinação: uma tarde, estando numa reunião tão numerosa que faltaram cadeiras, Celina me tomou no seu colo e nós nos olhamos tão gentilmente que um padre exclamou: "Como elas se amam! Ah! jamais essas duas irmãs poderão se separar!" Sim, nós nos amávamos, mas nossa afeição era tão pura e tão forte que o pensamento da separação não nos perturbava, pois sentíamos que nada, até o oceano, poderia nos separar uma da outra... Celina via, com calma, minha barquinha chegar à praia do Carmelo, ela se resignava a ficar tanto tempo quanto o bom Deus quisesse no mar furioso do mundo, segura que alcançaria, por sua vez, a margem, objeto dos nossos desejos...)

 Domingo, 20 de Novembro, depois de temo-nos vestido segundo o cerimonial do Vaticano ( isto é de preto, com uma mantilha de rendas na cabeça) e temo-nos condecorado com uma grande medalha de Leão XIII (2), presa … uma fita azul e branca, entramos no Vaticano, na capela do Soberano Pontífice. Às 8 horas, foi profunda nossa emoção, vendo-o entrar para celebrar a Santa Missa... Após ter abençoado os numerosos peregrinos reunidos ao seu redor, subiu os degraus do Santo Altar e nos mostrou , por sua piedade digna do Vigário de Jesus, que era verdadeiramente "O Santo Padre". Meu coração batia muito forte e minhas orações eram muito ardentes enquanto que Jesus descia entre as mãos do seu Pontífice, contudo, estava cheia de confiança, o Evangelho desse dia continha estas palavras encantadoras: "Não tenhais medo, pequenino rebanho, pois foi do agrado do meu Pai dar-vos o seu reino" (3). Não, eu não tinha medo, esperava que o reino do Carmelo me pertencesse logo, não pensava então nessas outras palavras de Jesus: "Eu vos preparo meu reino como meu Pai mo preparou"(3), isto é, eu vos reservo cruzes e provações, ser assim que sereis dignos de possuir esse reino pelo qual suspirais; pois que foi necessário que Cristo sofresse e que assim entrasse na sua glória, se desejais tomar lugar a seu lado, bebei o cálice que Ele mesmo bebeu!... Esse cálice foi-me apresentado pelo Santo Padre e minhas lágrimas se misturaram com a bebida amarga que me era oferecida. Depois da missa de ação de graças,que se seguiu … de Sua Santidade, a audiência começou. Leão XIII estava sentado numa grande poltrona, vestia-se simplesmente com uma batina branca, uma murça da mesma cor e tinha na cabeça apenas um pequeno solidéu. Ao redor dele estavam cardeais,arcebispos, bispos,mas os vi apenas em geral, estando ocupada com o Santo Padre; passávamos diante dele em procissão, cada peregrino ajoelhava-se, na sua vez, beijava o pé e a mão de Leão XIII, recebia sua bênção e dois guardas-nobres tocavam-no, por cerimônia, indicando-lhe, assim,que se levantasse... Antes de penetrar no apartamento pontifício, estava bem resolvida a falar, mas senti minha coragem enfraquecer vendo à direita do Santo Padre "Mons.Révérony!..." Quase no mesmo instante, disseram-nos, em seu nome, que ele proibia falar a Leão XIII, já que a audiência se prolongava por muito tempo...Virei-me para minha Celina querida, a fim de saber sua opinião: "Fala! disse-me ela." Um instante após, estava aos pés do Santo Padre; tendo beijado seu pé, ele me apresentou a mão, mas em vez de beijá-la, juntei as minhas e levantando para seu rosto meus olhos banhados de lágrimas, exclamei: "Santíssimo Padre, tenho uma grande graça a vos pedir!..."

 -Então o Soberano Pontífice baixou sua cabeça para mim, de maneira que meu rosto quase tocava o seu, e vi seus olhos negros e profundos fixaram-se em mim e pareciam me penetrar até o fundo da alma.- "Santíssimo Padre, disse-lhe eu, em honra do vosso jubileu, permiti-me entrar no carmelo aos 15 anos!..."

 A emoção fizera, sem dúvida, tremer minha voz, assim, voltando-se para Mons. Révérony, que me olhava com espanto e descontentamento, o Santo Padre disse: "Não compreendo muito bem." -Se o bom Deus o permitisse, teria sido fácil que Mons. Révérony me obtivesse o que desejava, mas era a cruz e não a consolação que Ele queria me dar. -"Santíssimo Padre, respondeu o Vigário Geral, é uma criança que deseja entrar no Carmelo aos 15 anos, mas o superiores examinam a questão nesse momento" -"Pois bem, minha filha, retomou o Santo Padre, olhando-me com bondade, faça o que os superiores lhe dirão". Apoiando, então, as mãos sobre seus joelhos, tentei um último esforço e disse com uma voz suplicante: "Oh! Santíssimo Padre, se disserdes sim, todo o mundo o querer !..." Ele me olhou fixamente e pronunciou estas palavras, salientando cada sílaba: Vamos... Vamos... Você entrará se o bom Deus o quiser!.. (Seu acento tinha alguma coisa de tão penetrante e de tão convicto que me parece ainda ouvi-lo). Encorajada pela bondade do Santo Padre, queria ainda falar,mas os dois guardas-nobres tocaram-me polidamente para me fazer levantar; vendo que isso não bastava, eles me pegaram pelos braços e Mons. Révérony ajudou-os a me levantar, pois eu continuava ainda com as mãos juntas e apoiadas nos joelhos de Leão XIII e foi à força que me arrancaram de seus pés... No momento em que eu era assim tirada, o Santo Padre pousou sua mão sobre meus lábios, depois levantou-a para me abençoar, então meus olhos se encheram de lágrimas e Mons. Révérony pôde contemplar pelo menos tantos diamantes quantos vira em Bayeux... Os dois guardas-nobres me levaram , por assim dizer, até à porta e lá um terceiro me deu uma medalha de Leão XIII. Celina , que me seguia, fora testemunha da cena que acabava de acontecer; quase tão comovida quanto eu, teve contudo a coragem de pedir ao Santo Padre uma bênção para o Carmelo. Mons. Révérony, com uma voz descontente, respondeu: "O Carmelo já está abençoado". O bom Santo Padre retomou com doçura: "Oh! sim, ele já está abençoado". Antes de nós, Papai viera aos pés de Leão XIII. Mons. Révérony fora amável com ele, apresentando-o como o Pai de duas Carmelitas. O Soberano Pontífice,em sinal de particular benevolência, posou sua mão sobre a cabeça venerável de meu Rei querido, parecendo assim marcá-lo com um selo misterioso, em nome dAquele do qual ele é o verdadeiro presente... Ah! agora que ele está no Céu, esse Pai de quatro Carmelitas, não é mais a mão do Pontífice que repousa sobre sua fronte, profetizando-lhe o martírio... É a mão do Esposo das Virgens, do Rei de Glória, que faz resplandecer a cabeça de seu Fiel Servidor, e jamais essa mão adorada cessar de repousar sobre a fronte que ela glorificou!...

 -Meu Pai querido sofreu muito ao me encontrar toda em lágrimas ao sair da audiência, fez tudo que pôde para me consolar, mas em vão... No fundo do coração, sentia uma grande paz, pois que fizera absolutamente tudo que estava em meu poder para responder àquilo que o bom Deus me pedia, mas essa paz estava no fundo e a amargura enchia minha alma, pois Jesus se calava. Ele parecia ausente, nada me revelava sua presença... Naquele dia ainda o sol não ousou brilhar e o belo céu azul da Itália, carregado de nuvens sombrias, não cessou de chorar comigo... Ah! estava terminado, minha viagem não tinha mais nenhum encanto aos meus olhos, pois que o objetivo falhara. Contudo, as últimas palavras do Santo Padre deveriam me consolar: não eram, de fato, uma verdadeira profecia? Malgrado todos os obstáculos, o que o bom Deus quis, cumpriu-se. Ele não permitiu às criaturas que fizessem o que queriam, mas a vontade dEle... Havia algum tempo que me ofertara ao Menino Jesus para ser seu brinquedinho, dissera-lhe que não se servisse de mim como de um brinquedo de valor, que os meninos e contentam em olhar sem ousar tocar, mas como de uma bolinha sem valor que ele podia jogar no chão , chutar com o pé, furar, deixar em um canto ou, então, apertar sobre seu coração se isso lhe agradasse; em uma palavra, queria divertir o pequeno Jesus, agradar-lhe, queria me entregar a seus caprichos infantis... Ele ouvira minha prece...

 Em Roma, Jesus furou seu brinquedinho, Ele queria ver o que havia por dentro e depois de ter visto, contente com sua descoberta, deixou cair sua bolinha e adormeceu... Que fez ele durante seu doce sono e o que se tornou a bolinha abandonada?... Jesus sonhou que se divertia ainda com seu brinquedo, deixando-o e retomando-o sucessivamente e, depois que o fizera rolar bem longe, apertava-o sobre seu coração, não permitindo mais que se distanciasse jamais de sua mãozinha...

 A senhora compreende, minha Madre querida, quanto a bolinha estava triste em se vendo no chão... Contudo, não cessava de esperar contra toda esperança.

 (M A,62r - 64v)

 

 

 

NOTAS

 

(1) Leão XIII foi Papa de 20.2.1878 a 20.7.1903. Seu nome de família era Vicente Joaquim Pecci. Nasceu na cidade de Carpineto (Itália), aos 2 de março de 1810. Foi um dos Papas mais sábio de todos os tempos e sua encíclica "Rerum Novarum" iniciou a série magistral de documentos pontifícios sobre a doutrina social da Igreja.

 Segundo algumas informações, a decisão dos "superiores" foi apressada e influenciada por intervenção desse grande Papa.

(2) É evidente que, aqui, a Santa descreve os costumes da época. Naturalmente, muita coisa foi mudada.

(3) Lucas 12,32. Fizemos a tradução do texto lucano segundo a transcrição de Santa Teresinha, todavia o texto original diz assim: "Não tenhais medo, pequenino rebanho, pois foi do agrado do vosso Pai dar-vos o Reino".

 

 

14. O SACRIFÍCIO DA SEPARAÇÃO

 

 

 A cena que vai ser narrada‚ é o espelho fiel da vida íntima de uma família profundamente cristã.

 Aqui, tudo respira um sentido humano da vida, com todos seus matizes sentimentais e afetivos, mas, ao mesmo tempo, respira um que de sagrado.

 A separação; a última ceia; os olhares cheios de ternura; os corações oprimidos pela saudade; mas, simultaneamente, quanta paz e que extraordinária compreensão das realidades terrestres vistas na ótica do transcendente.

 A riqueza e a beleza do texto estão justamente nessa harmônica conjunção do humano e do divino na vida cotidiana de uma família cristã.

 

 

 

 A segunda-feira, 9 de abril, dia, em que o Carmelo celebrava a festa da Anunciação, transferida por causa da quaresma, foi escolhida para minha entrada(1). Na véspera, toda a família estava reunida em volta da mesa, junto a qual eu devia me assentar pela última vez. Ah! como essas reuniões íntimas são dilacerantes!...Quando se desejaria ver-se esquecida, as carícias, as mais ternas palavras são prodigalizadas e fazem sentir o sacrifício da separação... Papai não dizia quase nada, mas seu olhar se fixava sobre mim com amor... Minha Tia(2) chorava de vez em quando e meu Tio(3) me fazia mil cumprimentos afetuosos. Joana e Maria(4)estavam também cheias de delicadezas para comigo, sobretudo Maria, que me tomando … parte, pediu-me perdão pelas mágoas, que ela julgava ter-me causado. Enfim, minha querida Leoninha, de volta da Visitação(5) há alguns meses, cumulava-me mais ainda de beijos e de carícias.Só não falei de Celina, mas a senhora advinha,minha Madre querida, como se passou a última noite, em que dormimos juntas... Na manhã do grande dia, após ter lançado um último olhar sobre os Buissonnets(6), esse ninho gracioso de minha infância, que não devia mais rever, parti de braços com meu Rei querido para subir a montanha do Carmelo...Como na véspera, toda a família se achou reunida para ouvir a Santa Missa e comungar. Assim que Jesus desceu no coração de meus parentes queridos, só ouvi em volta de mim soluços, somente eu não derramei lágrimas, mas senti meu coração bater com tanta violência, que me pareceu impossível avançar, quando nos fizeram sinal para ir … porta conventual; no entanto avancei, mesmo me perguntando se não iria morrer por causa da força das batidas de meu coração... Ah! que momento aquele!. É preciso ter passado por ele para saber o que ele é...

 Minha emoção não se traduzia exteriormente: depois de ter abraçado todos os membros de minha família querida, ajoelhei-me diante de meu incomparável Pai, pedindo-lhe sua bênção; para ma dar ele também se ajoelhou e me abençoou chorando... Era um espetáculo, que devia fazer sorrir aos anjos o daquele ancião apresentando ao Senhor sua filha ainda na primavera da vida!...

 

NOTAS

 

(1)- Santa Teresinha entrou no Carmelo de Lisieux no dia 9 de 1988. Portanto, a Santa tinha, na ocasião, 15 anos, 3 meses e 7 dias. O sonho de Teresa de entrar no Carmelo aos quinze anos de idade estava, pois, realizado. Nesse dia de entrada ela iniciou o postulantado que foi até 10 de janeiro de 1889.Sua ocupação principal no Carmelo, durante esse tempo, foi a rouparia.

(2)- Trata-se de Madame Guérin, cujo nome completo era Céline-Élisa-Fournet, que nascera em 1847 e morreu aos 13 de fevereiro de 1900. Essa mulher, de caráter doce e suave, teve um papel de verdadeira mãe para com santa Teresinha.

(3)- O tio de Santa Teresinha, aqui citado, era o irmão de sua mãe, e se chamava Marie-Isidore-Victor Guérin, mais conhecido por M.Guérin. Ele nasceu em Saint-Denys-sur-Sarthon, perto de Alençon, aos 2 de janeiro de 1841. Instalou-se, como farmacêutico, em Lisieux aos 22 de abril de 1866 e aí casou-se com Céline Fournet aos 11 de setembro de 1866. Morreu aos 28 de setembro de 1909. Teve grande influência na vida de nossa Santa,

que o amava e, de certo modo, até o reverenciava com temor. Foi um católico muito ativo e engajado.

(4)- Joana e Maria eram filhas do casal Guérin. Joana , a mais velha, nascera em Lisieux aos 24 de fevereiro de 1868. Casou-se com Dr. La Néele, e morreu aos 25 de abril de 1938. Foi

testemunha no processo de beatificação de nossa Santa. Maria nasceu em Lisieux aos 22 de agosto de 1870. Foi carmelita e discípula de santa Teresinha. Seu nome religioso foi irmã Maria da Eucaristia. Morreu aos 14 de abril de 1905.

(5)- Após ter tentado a vida de Clarissa em Alençon, Leônia entrou na Visitação de Caen, aos 16 de julho de 1887, tendo saído, porém, aos 6 de janeiro de 1888. Mais tarde, Leônia

conseguiu permanecer na Visitação e aí veio a falecer, como uma verdadeira e santa religiosa visitandina.

(6)- Após a morte da senhora Martin, a família veio residir em Lisieux e se instalou no bairro dos "Bissonnets", aos 16 de novembro de 1877. Mais tarde, as meninas Martin mudaram o nome para "Buissonnets", porque assim o achavam mais simpático. Ainda hoje aí está a casa de Santa Teresinha, que se conserva tal qual era no tempo da Santa e é muito visitada pelos seus devotos do mundo inteiro.

 

 

15.UM NOVO CAMINHO SE ABRE

 

 

 Este texto ‚ continuação do precedente. Separamo-los, para que aparecesse, com muita clareza, a espiritualidade teresiana.

 Apenas entrada no Carmelo,Teresa já apresenta algumas linhas mestras da sua espiritualidade, que ela chamar , mais tarde, seu novo caminho. E esse caminho não foi fruto da imaginação, ou de estudos, mas, sim, da própria vida de Teresa.

 Paz, humildade, simplicidade, pureza de coração, sofrimento, visão clara das coisas, amor alto, puro e sublime, compreensão profunda das pessoas,tudo isso numa harmonia perfeita do divino com o humano.

 Na verdade, neste texto Teresa começa a aparecer em toda sua grandeza espiritual. Mais tarde, é certo, muita coisa ser aperfeiçoada e o caminho novo ser bem apresentado, mas, aqui, já se pode vê-lo nos seus primeiros matizes e, ao mesmo tempo, pelo texto se pode compreender bem como e por que nasceu esse novo caminho, que é a espiritualidade teresiana.

 

 

 Alguns momentos depois, as portas da arca santa se fecharam atrás de mim e ali recebi os abraços das irmãs queridas, que me tinha servido de mães e que ia, a partir de então, tomar como modelos de minha ações... Enfim, meus desejos estavam realizados, minha alma experimentava uma PAZ tão doce e tão profunda, que me seria impossível exprimir e há 7 anos e meio essa paz íntima tem continuado como minha partilha, ela não me tem abandonado no meio das maiores provações.

 Como todas as postulantes, fui conduzida ao coro logo após minha entrada; estava meio escuro por causa do Santíssimo Sacramento exposto (1)e o que primeiramente me chamou a atenção foram os olhos de nossa santa Madre Genoveva (2), que se fixaram em mim; fiquei por um momento de joelhos a seus pés agradecendo ao bom Deus a graça que Ele me concedia de conhecer uma santa e, depois, segui a Madre Maria de Gonzaga (3) pelos diversos lugares da comunidade; tudo me parecia encantador, julgava-me transportada a um deserto, nossa celazinha sobretudo me encantava, mas a alegria que sentia era calma, nem o mais ligeiro z‚firo fazia ondular as águas tranqüilas sobre as quais navegava minha barquinha, nenhuma nuvem escurecia meu céu de azul... ah! eu era plenamente recompensada por todas as minhas provações...Com que profunda alegria, repetia estas palavras: "para sempre, sempre que estou aqui!..."

 Essa felicidade não era efêmera, não devia se esvair com "as ilusões dos primeiros dias". As ilusões, o bom Deus me deu a graça de não ter nenhuma delas ao entrar no Carmelo; encontrei a vida religiosa tal qual eu a imaginara, nenhum sacrifício me surpreendeu e, contudo, a senhora o sabe, minha Madre querida, meus primeiros passos encontraram mais espinhos do que rosas!...Sim,o sofrimento me estendeu os braços e aí me joguei com amor...O que vinha fazer no Carmelo, declarei-o aos pés de Jesus-Hóstia, no exame que precedeu minha profissão: "Vim para salvar as almas e sobretudo a fim de rezar pelos padres".

 Quando se quer atingir um fim, ‚ preciso seguir os meios; Jesus me fez compreender que era pela cruz que Ele queria me dar as almas e minha atração pelo sofrimento cresceu na medida em que o sofrimento aumentava. Durante cinco anos esse caminho foi o meu; mas, exteriormente, nada refletia meu sofrimento tanto mais doloroso porque eu era sozinha a conhecê-lo. Ah! que surpresa teremos no fim do mundo ao ler a história das almas!... Como haver pessoas admiradas em vendo o caminho pelo qual a minha foi conduzida!...

 Isso‚ tão verdadeiro que, dois meses após minha entrada, o Pe.Pichon (4), tendo vindo para a profissão de Irmã Maria do Sagrado Coração ficou surpreendido ao ver o que o bom Deus fazia na minha alma e me disse que na véspera, vendo-me a rezar no coro,julgava meu fervor todo infantil e meu caminho bem doce.Minha entrevista com o bom Padre foi para mim uma consolação bem grande, mas velada de lágrimas por causa da dificuldade que experimentava em abrir minha alma. Fiz contudo uma confissão geral, como jamais fizera uma; no final, o Padre me disse estas palavras, as mais consoladoras que vieram ressoar ao ouvido da minha alma: "Na presença do bom Deus, da Santa Virgem e de todos os Santos, DECLARO QUE JAMAIS VOCÊ COMETEU UM SÓ PECADO MORTAL." Depois,acrescentou: agradeça ao bom Deus por aquilo que faz por você, pois se Ele a abandonasse, ao invés de ser um anjinho, você tornaria um demoniozinho. Ah! não tinha dificuldade em acreditar, sentia quanto era fraca e imperfeita,mas o reconhecimento enchia minha alma; tinha tanto temor de ter manchado a veste de meu Batismo, que uma tal afirmação saída da boca de um diretor como os desejava Nossa Santa Madre Teresa, isto é, unindo a ciência … virtude, parecia-me saída da própria boca de Jesus...O bom Padre me disse ainda estas palavras, que se gravaram docemente no meu coração: "Minha filha, que Nosso Senhor seja sempre seu Superior e sua Mestre de Noviças". Ele o foi, de fato, e é também "Meu diretor". Não é que queira dizer com isso que, minha alma tenha sido fechada para meus Superiores, ah! longe disso, sempre procurei que ela fosse um livro aberto; mas nossa Madre, muitas vezes doente, tinha pouco tempo para se ocupar comigo. Sei que ela me amava muito e dizia de mim todo o bem possível, contudo o bom Deus permitia que, sem o saber, ela fosse MUITO SEVERA; não podia encontrá-la sem beijar o chão (5), e acontecia o mesmo nas raras direções que tinha com ela...Que graça inapreciável!...Como o bom Deus agia visivelmente naquela que ocupava seu lugar!...Que teria me tornado se, como o crêem as pessoas do mundo, tivesse sido o "xodó" da comunidade?...Talvez ao invés de ver Nosso Senhor nos meus Superiores eu teria considerado apenas as pessoas e meu coração, tão bem guardado no mundo, teria se apegado humanamente no claustro...Felizmente fui preservada dessa infelicidade. Sem dúvida, amava muito nossa Madre, mas com uma afeição pura que lhe levava ao Esposo de minha alma... Nossa mestra (6) era uma verdadeira santa, o tipo acabado das primeiras carmelitas; durante o dia todo estava com ela, pois, ela me ensinava a trabalhar. Sua bondade para comigo era sem limites e,contudo, minha alma não se dilatava... Só com esforço me era possível fazer direção, não estando habituada a falar de minha alma, não sabia como exprimir o que nela se passava. Uma boa velha madre compreendeu, um dia, o que sentia, e me disse, rindo-se, na recreação: "Minha filhinha,parece-me que você não tem grandes coisas a dizer a seus superiores." -"Por que, minha Madre, a senhora diz isso?..." -"Porque sua alma é extremamente simples, mas quando você for perfeita, ser ainda mais simples, quanto mais a gente se aproxima de Deus, tanto mais a gente se simplifica." A boa Madre tinha razão; contudo, a dificuldade que tinha para abrir minha alma, mesmo vindo de minha simplicidade, era uma verdadeira provação, reconheço-o agora, pois, sem deixar de ser simples, exprimo meus pensamentos com uma grande facilidade.

 Disse que Jesus fora "meu Diretor" -Ao entrar no Carmelo diz conhecimento com aquele que devia me servir como diretor, mas, logo que me admitiu no número dos seus filhos, partiu para o exílio...(7) Assim, apenas o conhecera e já estava privada dele... Reduzida a receber dele uma carta por ano pelas doze que lhe escrevia,meu coração voltou-se, bem depressa, para o Diretor dos diretores e foi Ele quem me instruiu sobre essa ciência escondida aos sábios e aos prudentes, que Ele se digna revelar aos pequeninos...

 A florzinha,transplantada para a montanha do Carmelo,devia desabrochar-se na sombra da Cruz; as lágrimas, o sangue de Jesus tornaram-se seu orvalho e seu Sol foi sua Face adorável, velada de lágrimas... Até então, não sondara as profundezas dos tesouros escondidos na Santa Face (8), foi mediante a senhora, minha Madre querida, que aprendi a conhecê-los, e assim como, outrora, a senhora nos precedera a todas no Carmelo, assim a senhora penetrara, por primeira, nos mistérios de amor escondido na rosto de nosso Esposo; então a senhora me falou sobre isso e eu o compreendi...Compreendi o que era a verdadeira glória. Aquele, cujo reino não ‚ deste mundo, mostrou-me que a verdadeira sabedoria consiste em "querer ser ignorada e tida por nada" (9),- em "por sua alegria no desprezo de si mesmo"...(10) Ah!como aquele de Jesus, queria que: "Minha rosto fosse verdadeiramente escondido, que ninguém, na terra, me reconhecesse" (11). Tinha sede de sofrer e de ser esquecida...

 Como é misericordioso o caminho pelo qual o Bom Deus sempre me conduziu, jamais Ele me fez desejar alguma coisa sem ma dar, assim seu cálice amargo me pareceu delicioso...

 Após as radiosas festas do mês de Maio, festas da profissão e tomada de véu de nossa querida Maria, a mais velha da família, que a última teve a felicidade de coroar no dia de suas bodas, era bem necessário que a provação viesse nos visitar...No ano anterior, durante o mês de Maio, Papai tinha sofrido um ataque de paralisia nas pernas, então nossa inquietação foi muito grande, mas o temperamento forte de meu Rei querido logo o superou e nossos temores desapareceram; contudo, por mais de uma vez, durante a viagem a Roma, tínhamos observado que ele se cansava facilmente, que não era também tão alegre como de costume...O que notei sobretudo era o progresso que Papai fazia na perfeição; a exemplo de São Francisco de Sales, ele chegara a se tornar senhor de sua vivacidade natural ao ponto de parecer possuir a mais doce natureza do mundo... As coisas da terra pareciam apenas tocá-lo,facilmente ele passava por cima das contrariedades desta vida, enfim, o Bom Deus o inundava de consolações; durante suas visitas diárias ao Santíssimo Sacramento seus olhos se enchiam, muitas vezes, de lágrimas e seu rosto refletia uma beatitude celeste...Quando Leônia saiu da Visitação, ele não se afligiu, não fez nenhuma reclamação ao Bom Deus por não ter ouvido as preces que fizera para obter a vocação de sua querida filha, foi até com certa alegria que foi buscá-la...

 Eis com que fé Papai aceitou a separação de sua rainhazinha, ele a anunciou, nestes termos, a seus amigos de Alençon: -"Bem, caros amigos, Teresa, minha rainhazinha, entrou ontem no Carmelo!...Só Deus pode exigir semelhante sacrifício...Não me lamentem, pois meu coração está cheio de alegria" (12).

 Já era tempo que um tal fiel servidor recebesse o prêmio de seus trabalhos, era justo que seu salário fosse semelhante àquele que Deus deu ao Rei do Céu, seu Filho £único... Papai acabava de oferecer a Deus um Altar (13), foi ele a vítima escolhida para nele ser imolada com o Cordeiro sem mancha. A senhora conhece, minha Madre querida, nossas amarguras do mês de Junho e, sobretudo, do dia 24 do ano de 1888 (14), essas lembranças estão muito bem gravadas no fundo dos nossos corações para que seja necessário escrevê-las...Oh! minha Madre! como sofremos!... e não era ainda senão o começo de nossa provação...Entretanto, a época da minha tomada de hábito chegara; fui recebida pela capítulo, mas como pensar em fazer uma cerimônia? Já se falava em me dar o santo hábito sem me fazer sair (15), quando se decidiu esperar. Contra toda esperança, nosso Pai querido se restabeleceu do seu segundo ataque e o Bispo fixou a cerimônia para 10 de Janeiro. A espera fora longa, mas também que bela festa!...nada faltava, nada, nem mesmo a neve... Não sei se já lhe falei de meu amor pela neve?...Pequenina, sua brancura me encantava; um dos maiores prazeres era o de passear sob os flocos nevados. Donde me vinha esse gosto pela neve?... Talvez do fato que, sendo uma florzinha de inverno, o primeiro enfeite com o qual meus olhos viram a natureza embelezada deve ter sido seu manto branco... Enfim, sempre desejara que, no dia da minha tomada de hábito, a natureza estivesse como eu, vestida de branco. Na véspera desse belo dia, olhava tristemente o céu cinzento, donde escapava, de vez em quando, uma chuva fina e a temperatura era tão suave que eu não esperava mais a neve. Na manhã seguinte, o Céu não tinha mudado, contudo a festa foi encantadora, e a mais bela, a mais encantadora flor foi meu Rei querido, jamais fora mais belo, mais digno...Ele causou a admiração de todo mundo, esse dia foi seu triunfo, sua última festa aqui na terra. Dera todas suas filhas ao Bom Deus, pois Celina tendo-lhe confiado sua vocação, ele chorara de alegria e fora com ela agradecer àquele que "dava a honra de tomar todas as suas filhas".

 Ao final da cerimônia, o Bispo entoou o Te Deum, um padre tentou advertir que esse cântico não se cantava a não ser nas profissões, mas já fora dado o impulso e o hino de ação de graças continuou até o fim. Não era necessário que a festa fosse completa, pois que nela se reuniam todas as outras?...Após ter abraçado,uma última vez, meu Rei querido, voltei … clausura, a primeira coisa que percebi sob o claustro foi "meu Jesusinho cor de rosa" sorrindo-me no meio das flores e das luzes e, em seguida, meu olhar voltou-se para os flocos de neve...o pátio estava branco como eu. Que delicadeza de Jesus!

 

 (M a,69r-72v).

 

NOTAS

 

(1)- Segundo um costume da época, o coro ficava numa meia-escuridão para evitar que as carmelitas fossem vistas da capela, já que os postigos da grade ficavam abertos.

(2)- Madre Genoveva de Santa Teresa participara da fundação do Carmelo de Lisieux. Seu nome de família era Claire-Marie-Radegonde Bertrand. Tendo nascido aos 19 de julho de 1805, entrou no Carmelo de Poitiers, aos 20 de março de 1830. Foi Priora, v rias vezes, no Carmelo de Lisieux.Morreu, com fama de santidade, aos 87 anos, no dia 5 dezembro de 1891.

(3)- Madre Maria de Gonzaga, cujo nome de família era Marie-Adéle-Rosalie Davy de Virville, nasceu em 1834 e entrou no Carmelo de Lisieux, aos 29 de setembro de 1860. Foi, por duas vezes, Sub-priora e, por seis vezes, Priora desse Carmelo. Personalidade muito discutida, morreu de um câncer na língua,aos 17 de dezembro de 1904.

(4)- Padre Pichon s.j. era o diretor espiritual de Maria, a irmã mais velha de Teresa. Nessa ocasião, estava no carmelo de Lisieux para as festas do cinqüentenário do Carmelo, profissão

e tomada de v‚u(22 e 23 de maio de 1888)de Maria. Na oportunidade, o Padre Pichon pregou um retiro para a Comunidade.

(5)- Ou por um simples gesto de humildade, como era, então, costume no Carmelo, ou mesmo por causa de alguma repreensão que recebia da Madre.

(6)- Trata-se de Irmã Maria dos Anjos e do Sagrado Coração. Tendo nascido aos 24 de fevereiro de 1845, entrara no Carmelo aos 29 de outubro de 1866. Foi, três vezes, Sub-Priora e, duas vezes, Mestra de noviças. Boa e doce religiosa,mas distraída e sem

grande iniciativa. Sem o querer, provou a virtude de nossa Santa. Faleceu em 1924.

(7)- Aos 3 de dezembro de 1888, Pe.Pichon partiu, como missionário, para o Canadá.

(8)- A devoção começara no Carmelo entre as carmelitas de Tours. Madre Inês aprendera a devoção mediante a Madre Genoveva.Madre Inˆs, ao contrário da intenção das carmelitas de

Tours, via nessa devoção um culto de amor à humanidade de Jesus. Santa Teresinha, aos 10 de janeiro de 1889, dia de sua tomada de hábito, assinou um bilhete da seguinte maneira: "Irmã Teresa do Menino Jesus da Santa Face"(Note: da Santa Face e, não, e da

Santa Face).

(9)- Imitação de Cristo, L.I, cap. II,3.

(10)-Imitação de Cristo, L. III,cap. XLIX, 7.

(11)- Isaías, 53,3.Como sempre,não ‚ uma citação literal.

(12)- Teresa insiste neste particular, porque correram, em Lisieux, certos maus comentários a respeito da doença do senhor Martin, relacionando-a com a ida de nossa Santa para o Carmelo.

(13)- Trata-se do altar-mor da Igreja de São Pedro, em Lisieux. O Sr. Martin era muito generoso e sempre fez grandes doações de sua fortuna para obras religiosas.

(14)- Nossa Santa refere-se …s amarguras causadas pela doença do sr. Martin. Entre outras coisas, houve uma fuga, no sábado de 23 de junho, quando ele saiu sem dizer nada a ninguém e ficou desaparecido durante quatro dias.

(15)- Por um costume da época, no dia de sua tomada de hábito, a postulante saía da clausura e assistia à cerimônia com os seus familiares. Na ocasião, a postulante estava vestida de noiva.

 

 

16.PREPARANDO UM CASAMENTO

 

 

 Embora Teresa já tivesse escalado bastante a montanha do Carmelo, ela se achava ainda muita fraca e imperfeita. Por isso, não perdeu tempo na preparação da sua festa de profissão religiosa.

 No texto, que segue, vemos todo esse caminhar teresiano, que se faz de sofrimento, de aniquilamento ou domínio da vontade própria, de despojamento, da aceitação de pequenas cruzes,que purificam e iluminam.

 Essas páginas teresianas podem parecer simples demais para o nosso tempo, mas, se compreendidas e vividas, então, certamente se entender que elas são uma maneira atual e viva de se viver o evangelho eterno nos dias de hoje.

 

 

 Lembro-me que, no mˆs de Junho de 1888, no momento de nossas primeiras provações, dizia: "Sofro muito, mas sinto que posso suportar ainda provações maiores". Não pensava então naquelas, que me estavam reservadas... Não sabia que, no dia 12 de fevereiro, um mês após minha tomada de hábito, nosso Pai querido beberia a mais amarga, a mais humilhante de todas as taças...(1).

 Ah! naquele dia não disse poder sofrer ainda mais!!!... Sim, os três anos de martírio de Papai me parecem os mais amáveis, os mais frutuosos de toda nossa vida, não os daria por todas os êxtases e revelações dos Santos, meu coração transborda de reconhecimento ao pensar nesse tesouro inestimável, que deve causar uma santa inveja aos Anjos da corte Celeste...

 Meu desejo de sofrimentos estava saciado, contudo minha atração por eles não diminuía, por isso minha alma participou logo dos sofrimentos do meu coração. A secura era meu pão cotidiano e, privada de toda consolação, era, contudo, a mais feliz das criaturas, já que todos os meus desejos estavam satisfeitos...

 Ó minha Madre querida! como foi doce nossa grande provação, pois que de todos os nossos corações só saíram suspiros de amor e de gratidão!... Não caminhávamos mais nas veredas da perfeição, voávamos todas as cinco... Ah! longe de nos separar, as grades do Carmelo uniam mais fortemente nossas almas, tínhamos os mesmos pensamentos, os mesmos desejos, o mesmo amor de Jesus e das almas...Quando Celina e Teresa se falavam, jamais uma palavra das coisas da terra se misturava a suas conversas, que já estavam todas no Céu. Como outrora, no belvedere, elas sonhavam com as coisas da eternidade e, para gozar em breve dessa felicidade sem fim, escolhiam aqui, na terra, por única herança "O sofrimento e o desprezo" (2).

 Assim se passou o tempo de meu noivado... Ele foi bem longo para a pobre Teresinha! Ao final de meu ano, Nossa Madre me disse para não pensar em pedir a profissão, que certamente o Superior recusaria meu pedido, tive de esperar ainda oito meses...No primeiro momento, foi-me muito difícil aceitar esse grande sacrifício, mas logo a luz se fez na minha alma; então, meditava os "Fundamentos da vida espiritual", do Padre Surin; um dia, durante a oração, compreendi que meu desejo muito vivo de fazer a profissão estava misturado com um grande amor próprio; j que me tinha oferecido a Jesus para lhe causar prazer, consolá-lo, não devia obrigá-lo a fazer minha vontade no lugar da sua; compreendi ainda que, uma noiva devia estar preparada para o dia de sua núpcias e eu ainda não fizera nada para esse fim... então disse a Jesus: "ó meu Deus! não vos peço para pronunciar meus santos votos, esperarei tanto quanto quiserdes, somente não quero que, por minha falta, minha união convosco seja diferida, também tomarei todo o cuidado para me preparar um belo vestido, enriquecido de pedrarias; quando o achardes bastante ricamente ornado, estou certa que todas as criaturas não vos impedirão de descer até a mim a fim de me unir para sempre convosco, ó meu Bem-Amado!..."

 Desde minha tomada de hábito, recebera abundantes luzes sobre a perfeição religiosa, principalmente a respeito do voto de pobreza. Durante meu postulado, ficava contente em ter coisas agradáveis para meu uso e em ter à mão o que me era necessário. "Meu Diretor" agüentava isso pacientemente, pois Ele não gosta de mostrar tudo às almas ao mesmo tempo. Dá sua luz, ordinariamente, pouco a pouco. (No começo de minha vida espiritual, na idade de 13 a 14 anos, perguntava-me sobre o que viria a ganhar mais tarde, pois acreditava que era impossível compreender melhor a perfeição; reconheci, bem depressa, que quanto mais se avança nesse caminho, tanto mais se crê longe do fim, por isso agora me resigno a me ver sempre imperfeita e nisso encontro minha alegria...) Volto às lições, que me deu "Meu Diretor". Uma noite, após completas, procurei, em vão, nossa lâmpadazinha nas prateleiras reservadas para esse uso, era grande silêncio (3), impossível reclamá-la... entendi que uma irmã, pensando pegar a sua lâmpada, pegara a nossa (4), da qual eu tinha grande necessidade; ao invés de me aborrecer por estar privada da lâmpada, fiquei muito feliz, sentindo que, a pobreza consiste em se ver privada não somente das coisas agradáveis, mas ainda das coisas indispensáveis, assim nas trevas exteriores fui iluminada interiormente... Nessa época, fui tomada por um verdadeiro amor pelos mais feios e mais incômodos objetos, assim foi com alegria que vi me tirarem a linda bilhazinha de nossa cela e colocarem, no seu lugar, uma grande e toda esborcinada... Fazia também muitos esforços para não me desculpar, o que me parecia bem difícil, sobretudo com nossa Mestra à qual não queria esconder nada; eis a minha primeira vitória, nóo ‚ grande, mas me custou muito. -Um pequeno vaso, colocado atrás de uma janela, foi encontrado quebrado, nossa Mestra, crendo que fora eu que o deixara tirar do seu lugar, mostrou-me dizendo para ter mais atenção noutra ocasião. Sem nada dizer, beijei o chão, em seguida prometi ter mais ordem no futuro.- Por causa de minhas poucas virtudes, essas pequenas práticas me custavam muito e tinha necessidade de pensar que, no julgamento final,tudo seria revelado, pois fazia esta observação: quando se faz seu dever, não se desculpando, jamais ninguém o sabe, ao contrário, as imperfeições aparecem imediatamente...

 Aplicava-me sobretudo a praticar as pequenas virtudes, não tendo a facilidade de praticar as grandes, assim gostava de dobrar as capas esquecidas pelas irmãs e a prestar-lhes todos os servicinhos que podia. O amor pela mortificação me foi dado também, foi tanto maior quanto nada me era permitido para satisfazê-lo... A única mortificaçãozinha que fazia no mundo e que consistia em não apoiar as costas quando estava sentada, foi-me proibida por causa da minha propensão a ficar corcunda.Ah! meu ardor, sem dúvida, não teria durado muito, se me tivessem permitido muitas penitências...As que me concediam, sem que eu as pedisse, consistiam em mortificar meu amor próprio, o que me fazia muito mais bem que as penitências corporais...

 Entretanto, a Santa Virgem me ajudava a preparar o vestido de minha alma; logo que ele foi terminado, os obstáculos desapareceram por si mesmos...

 Tudo o que acabo de escrever em poucas palavras exigiria muitas páginas de detalhes, mas essas páginas não serão lidas jamais sobre a terra; em breve, minha Madre querida, falar-lhe-ei de todas essas coisas na nossa casa paterna, no belo Céu para o qual sobem os suspiros de nossos corações!...

 Meu vestido de núpcias estava pronto, estava enriquecido com antigas jóias, que me dera meu Noivo, isso não bastava a sua liberalidade. Ele queria me dar um novo diamante de inumeráveis reflexos. A provação de Papai era, com todas suas dolorosas circunstâncias,as antigas jóias e o novo (diamante) foi uma provação pequenina na aparência, mas que me fez sofrer muito...

 ... É bem verdade que "jamais o amor apresenta como pretexto a impossibilidade, porque crê tudo possível e tudo permitido (5)... A prudência humana, ao contrário, treme a cada passo e não ousa , por assim dizer, pousar o pé. Por isso o Bom Deus, que queria me provar, serviu-se dela como de um instrumento dócil e no dia das minhas núpcias fui verdadeiramente órfã (6), não tendo mais pai sobre a terra, mas podendo olhar para o Céu com confiança e dizer, com toda a verdade: "Pai nosso, que estais nos Céus".

 

NOTAS

 

(1)- Teresa se refere à entrada do sr. Martin, aos 12 de fevereiro de 1889, na Casa de Saúde,do Bom Pastor, em Caen. Foi aí, nessa Casa, que o Sr. Martin deu provas de um verdadeiro santo.

(2)- Aqui, nossa Santa faz uma alusão a uma sentença de S.João da Cruz: "Sofrer e ser desprezado".

(3)- Esse é o tempo que decorre entre a recitação das Completas e a oração, chamada antigamente de Prima, do dia seguinte. Durante esse período estava proibida qualquer palavra. Uma comunicação, se necessária, devia ser feita através de sinais, ou por escrito.

(4)- Essa curiosa maneira de falar, isto é, sempre no plural, não indica nenhuma arrogância , mas, sim, o modo próprio das irmãs carmelitas, caracterizando assim que nada ‚ pessoal, pois

tudo pertence a todos. É, pois, uma maneira de indicar o voto de pobreza e o desapego.

(5)- Imitação de Cristo, L III, cap.V, 4.

(6)- É claro que, aqui, nossa Santa fala de uma maneira simbólica, uma vez que o sr. Martin ainda não morrera (sua morte aconteceu aos 29 de julho de 1894), mas estava, na ocasião,

internado em Caen.

 

 

17.UM CONVITE DE CASAMENTO

 

 

 Este convite,simples e quase ingênuo, espelha, perfeitamente, a alma de Teresa, bem como o seu profundo humanismo.

 Com efeito, Teresa foi sempre mulher, bem mulher e mulher forte.Por outro lado,toda a sua mensagem, como também toda a sua vida, são profundamente impregnadas de um autentico humanismo.

 Assim, esta pequena página, na sua simplicidade, é o reflexo da caminhada para uma santidade , que não despreza os valores humanos e terrestres, mas une, harmoniosa e melodicamente, o divino com o humano.

 

 

 Carta de Convite para as Núpcias de irmã Teresa do Menino Jesus da Santa Face.

 

 


O Deus Todo-Poderoso, Criador do Céu e da terra, Soberano Dominador do Mundo e a Gloriosíssima Virgem Maria, Rainha da Corte celeste, têm o prazer de vos comunicar o Casamento de seu Augusto Filho,Jesus, Rei dos Reis e Senhor dos senhores, com a Senhorita Teresa Martin, agora Dama e Princesa dos reinos trazidos como dote por seu Divino Esposo, a saber: A Infância de Jesus e sua Paixão, sendo seus títulos de nobreza: do Menino Jesus e da Santa Face.

 O Senhor Luis Martin, Proprietário e Senhor dos Domínios do Sofrimento e da Humilhação, e a senhora Martin, Princesa e Dama de Honra da Corte Celeste, têm o prazer de vos comunicar o casamento de sua Filha, Teresa, com Jesus, o Verbo de Deus, segunda Pessoa da Adorável Trindade que, pela operação do Espírito Santo, fez-se Homem e Filho de Maria, a Rainha dos Céus.


 

 

 Não tendo podido vos convidar para a bênção Nupcial, que lhes fora dada na montanha do Carmelo, aos 8 de setembro de 1890 (pois só a corte celeste foi aí admitida), sois, não obstante, solicitados a estar presentes no Regresso das Núpcias, que acontecerá Amanhã, Dia da Eternidade, quando Jesus, Filho de Deus, virá sobre as Nuvens do Céu no brilho de sua Majestade, para julgar os Vivos e os Mortos.

 Sendo a hora ainda incerta, sois convidados a estar prontos e a velar

 (MA.77v)

 

 

18.SOMENTE COM O AMOR

 

 

 Quando Santa Teresinha escreveu a sua Autobiografia, já se encontrava em alto estado de perfeição. Nas páginas da história de sua vida, ela vai, pouco a pouco, revelando-nos toda sua caminhada até chegar a formar as linhas mestras da sua espiritualidade. Neste texto, nossa Santa apresenta mais algumas facetas dessa espiritualidade, que é o espelho da sua própria vida.

 Aqui, Teresa se apresenta com uma pessoa normal, que dorme e se distrai nas orações, apesar de todo seu esforço. Todavia, aparece logo o que lhe é peculiar, a saber, que sua caminhada é de amor, não de temor, e por isso, ela não se desencoraja. Pelo contrário, voa. Ademais, chegou mesmo a descobrir coisas maravilhosas, como o fato de que suas faltas não fazem mal ao bom Deus.

 

 

 

 Não posso dizer que, tenha tido, muitas vezes, consolações durante minhas ações de graças, é talvez o momento em que as tenho menor...Acho isso muito natural, pois que eu me ofereci a Jesus não como uma pessoa, que deseja receber sua visita para sua própria consolação, mas, ao contrário, para o prazer dAquele que se dá a mim. -Eu imagino minha alma como um terreno livre e peço à Virgem Santíssima para tirar os entulhos que pudessem impedi-lo de ser livre, em seguida suplico-lhe para que ela mesma construa uma vasta tenda digna do Céu, que a orne com seus adornos e, depois, convido todos os Santos e os Anjos a virem fazer um magnífico concerto. Parece-me, quando Jesus desce ao meu coração, que Ele está contente ao se ver tão bem recebido e eu fico contente também...Tudo isso não impede que as distrações e o sono venham me visitar, mas, ao sair da ação de graças, vendo que a fiz tão mal, tomo a resolução de ficar durante todo o resto do dia em ação de graças... A senhora vê, minha Madre querida, que estou longe de ser conduzida pelo caminho do temor, sei sempre encontrar o meio de ser feliz e de aproveitar de minhas misérias...sem dúvida, isso não desagrada a Jesus, pois parece que Ele me encoraja neste caminho.

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 O Bom Deus, querendo me mostrar que era Ele só o diretor de minha alma, serviu-se justamente desse Padre(1), que só foi apreciado por mim...Tinha,então, grandes provações interiores de todas as espécies (até me perguntar, às vezes, se existia um Céu). Sentia-me disposta a não dizer nada a respeito das minhas disposições íntimas, não sabendo como exprimi-las,mas, tendo apenas entrado no confessionário, senti minha alma se dilatar. Depois de ter dito poucas palavras, fui compreendida de uma maneira maravilhosa e até adivinhada...minha alma era como um livro no qual o Padre lia melhor que eu mesma...Ele me lançou a velas soltas sobre as ondas da confiança e do amor, que me atraíam tão fortemente, mas sobre as quais eu não ousava avançar...Disse-me que minhas faltas não incomodavam ao Bom Deus, que, estando no seu lugar, ele me dizia, em seu nome, que Ele estava muito contente comigo...

 Oh!como fiquei feliz ouvindo essas consoladoras palavras!...Jamais ouvira dizer que, as faltas podiam não desagradar ao bom Deus, essa segurança encheu-me de alegria, fez-me suportar pacientemente o exílio da vida...

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 Sou de tal natureza que o temor me faz recuar; com o amor não somente avanço, mas vôo.

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 ... reconheci, pela experiência, que a felicidade não consiste senão em se esconder, em ficar na ignorância das coisas criadas. Compreendi que, sem o amor, todas as obras são apenas nada, mesmo as mais brilhantes, como ressuscitar os mortos ou converter os povos...

 

 

NOTA

 

(1) -Trata-se do Padre Alexis Prou, franciscano, que pregou o retiro entre 8 e 15 de outubro de 1891. Nossa Santa guardará uma bela recordação desse religioso santo, que morreu aos 15 de outubro de 1914. Já bem doente, Teresinha se recordava ainda das palavras do Pe.Prou e dizia, que ele lhe fizera um grande bem.

 

 

19.COMO É DOCE O CAMINHO DO AMOR!

 

 

 Ah! quanto motivos não tenho eu para agradecer a Jesus, que soube realizar todos os meus desejos!...

 Agora, já não tenho outro desejo senão o de amar Jesus até à loucura...Meus desejos infantis se foram, sem dúvida gosto ainda de preparar flores para o altar do Menino Jesus...

 Não desejo mais o sofrimento, nem a morte e, contudo, eu os amo a todos os dois, mas é só o amor que me atrai...Durante muito tempo eu os desejei; possui o sofrimento e acreditei ter chegado às praias do Céu, acreditei que a florzinha seria colhida na sua primavera...agora, é só o abandono que me guia, não tenho absolutamente outra bússola!... Não posso pedir mais nada com ardor, exceto o cumprimento perfeito da vontade do Bom Deus em minha alma, sem que as criaturas possam aí colocar obstáculos. Posso dizer estas palavras do cântico espiritual de N.Pai São João da Cruz: "Bebi na bodega interior de meu amado e, quando saí por toda essa planície, não sabia mais nada e perdi o rebanho, que seguia antes...Minha alma se empregou, com todo seu ardor, ao seu serviço; já não cuido do rebanho, nem tenho mais outro ofício, porque só em amar está meu exercício!..." ou ainda: "Faz tal obra o amor, desde que o conheci, que, se há bem ou mal em mim, tudo o faz de um sabor e transforma a alma em si!"Oh! minha Madre querida! como é doce o caminho do amor! Sem dúvida,a gente pode cair, pode cometer infidelidades, mas, sabendo o amor tirar proveito de tudo, consumiu bem depressa tudo o que pode desagradar a Jesus, não deixando senão uma paz humilde e profunda no fundo do coração... (M A, 82v-83r)

 

 

NOTAS

 

(1) -São João da Cruz, Cântico Espiritual, estrofes 26 e 28.

(2) -São João da Cruz, Glosa ao Divino. Traduzimos diretamente do original, por isso, nossa tradução difere um pouco daquela proposta por Santa Teresinha.

(3) -"sabendo o amor tirar proveito de tudo", essa é a tradução que nossa Santa coloca nos seus Manuscritos, no lugar de "tudo faz de um sabor".No final,o sentido das duas traduções é o mesmo.

 

 

20. O AMOR MISERICORDIOSO

 

 

 Santa Teresinha não é apenas uma santa qualquer, nem mesmo uma mística, ou mestra de espiritualidade. Não. Teresa de Lisieux‚ mesmo uma teóloga. Suas páginas abordam, com uma simplicidade toda natural e com uma clareza extraordinária, problemas dificílimos de teologia. E Ela, com a iluminação do Espírito Santo, sempre sabe dar-lhes uma resposta conveniente e até oferecer exemplos para nossa melhor compreensão.

 No texto, que segue, Teresa examina os chamados atributos de Deus e os coloca, de uma maneira fantástica, a todos sob a luz, o sentido e a força englobante do amor.

 Por outro lado, a Santa descobre o tipo de amor, que Deus pode nos ter. É um amor, diz Ela, voltado para nós, que somos miseráveis. É um amor dirigido à miséria da criatura.Portanto, conclui, é um Amor Misericordioso. E, o mais interessante é que, a Santa não deduz de tudo isso uma conseqüência negativa, mas, pelo contrário, se o Amor de Deus‚ desse tipo, logo, conclui Ela, devemos estar felizes e confiantes, porque Deus está todo voltado para nós e nos compreende tais como somos e, por isso, perdoa-nos e nos leva, se quisermos, às profundezas de sua vida trinitária.

 

 

 Ó minha Madre querida! após tantas graças, não posso eu cantar com o salmista: "Como o Senhor é BOM, como sua MISERICÓRDIA é eterna"? (1) Parece-me que, se todas as criaturas tivessem as mesmas graças que eu, o Bom Deus não seria temido por ninguém, mas amado até à loucura, e que por amor, e, não, temendo, jamais alguma alma consentiria em desagradá-lo... Compreendo, contudo, que todas as almas não podem se assemelhar, é preciso que haja diferentes famílias entre elas, a fim de honrar especialmente cada uma das perfeições do Bom Deus. A mim Ele deu sua Misericórdia infinita e é através dela, que contemplo e adoro as outras perfeições Divinas!... Então, todos me parecem brilhantes de amor, a própria Justiça ( e talvez ainda mais do que qualquer outra) me perece revestida de amor...

 Que doce alegria ‚ pensar que, o Bom Deus é Justo, isto é, que Ele leva em conta as nossas fraquezas, que conhece perfeitamente a fragilidade de nossa natureza. Do que, portanto, teria eu medo? Ah! o Deus infinitamente justo, que se dignou perdoar,com tanta bondade, todas as faltas do filho pródigo, não deve ser Justo também para comigo, que "estou sempre com Ele"? (2) Este Ano, no dia 9 de Junho, festa da Santíssima Trindade, recebi a graça de compreender mais do que nunca quanto Jesus deseja ser amado (3).  Pensava nas almas, que se oferecem como vítimas à justiça de Deus, é a fim de desviar e atirar sobre elas os castigos reservados aos culpados; esse oferecimento me parecia grande e generoso, mas estava longe de me sentir levada a fazê-lo. "Ó meu Deus! exclamei no fundo do coração, só vossa Justiça receber almas, que se imolam como vítimas?... Vosso Amor Misericordioso não tem ele também necessidade dessas almas? Por todos os lados ele ‚ desconhecido, rejeitado; os corações, aos quais desejais oferecê-lo, voltam-se para as criaturas pedindo-lhes a felicidade com suas miseráveis afeições, ao invés de se jogarem nos vossos braços e de aceitarem vosso Amor infinito... Ó meu Deus! vosso amor desprezado vai ficar no vosso Coração? Parece-me que, se encentrásseis almas, que se oferecessem como Vítimas de holocaustos ao vosso Amor, vós as consumiríeis rapidamente; parece-me que serieis feliz por não comprimir as ondas de infinitas ternuras que estão em vós... Se vossa Justiça gosta de se descarregar, ela que só se estende sobre a terra,quanto mais vosso Amor Misericordioso não deseja abrasar as almas, pois que vossa Misericórdia se eleva até os Céus... (4) Ó meu Jesus! que seja eu essa feliz vítima, consumi vosso holocausto com o fogo do vosso Divino Amor!..."

 Minha Madre querida, a senhora que me permitiu que me oferecesse assim ao Bom Deus, a senhora conhece os rios ou, antes, os oceanos de graças, que vieram inundar minha alma... Ah! desde aquele dia feliz, parece-me que o Amor me penetra e envolve-me, parece-me que, a cada instante, esse Amor Misericordioso me renova, purifica minha alma e não deixa nela nenhuma sombra de pecado, por isso não posso temer o purgatório...Sei que, por mim mesma, não mereceria nem mesmo de entrar nesse lugar de expiação, já que só as almas santas podem aí entrar, mas sei também que, o Fogo do Amor‚ mais santificante do que o do purgatório, sei que Jesus não pode desejar para nós sofrimentos inúteis e que Ele não me inspiraria os desejos que sinto, se não os quisesse realizar...

 Oh! como ‚ doce o caminho do Amor!... Como quero me aplicar a fazer sempre, com o maior abandono, a vontade do Bom Deus!...

 

 (M A, 83v-84v)

 

NOTAS

 

(1) -Salmo,118,1. Como sempre, a tradução oferecida pela Santa não é literal.

(2) -Lucas, 15,3.

(3) -Com efeito, Santa Teresinha se ofereceu, como vítima de holocausto, ao Amor Misericordioso, aos 9 de junho de 1895.

(4) -A Santa se refere ao Salmo 36,6, mas, novamente, sua citação.

 

 

21. A CIÊNCIA DO AMOR

 

 

 Santa Teresinha não é contra o estudo e a ciência. O que ela afirma neste texto é que, pela experiência própria, ela absorvera toda a espiritualidade da sua caminhada, que é na base do amor, mediante Jesus.

 Ademais, Teresa inculca o fato que, para se receber essa Ciência do Amor‚ é necessário ser humilde, ser pequeno. Portanto, a grande lição do texto é a necessidade de ser pequeno, de ser humilde diante de Deus, para que Ele possa conceder-nos a Ciência do Amor.

 Ademais, aparece também outra grande mensagem, a saber, Deus não precisa de nossas obras, mas de nosso amor. E, aqui, Teresinha, mais uma vez, penetra nos umbrais dos grandes problemas teológicos, que tratam das obras e dos méritos.

 Teresa, sem negar a doutrina tradicional da Igreja, nem muito menos querendo optar pelas vias da teologia protestante, insiste, todavia, no peso do amor, porque só ele dá sentido às nossas obras; porque só assim elas têm certo valor diante de Deus.

 

 

 Não creia que eu nade nas consolações, oh! não! minha consolação‚ de não tê-la sobre a terra.Sem se mostrar, sem fazer ouvir sua voz, Jesus me instrui em segredo (1), não‚ por meio dos livros,pois não compreendo o que leio,mas muitas vezes uma palavra como esta, que colhi ao final da oração (depois de ter ficado no silêncio e na segura) vem me consolar: "Eis o mestre que te dou, ele te ensinar tudo que deves fazer. Quero te fazer ler no livro de vida, no qual está contida a ciência do AMOR" (2). A ciência do Amor, ah! sim! essa palavra ressoa docemente ao ouvido de minha alma, só desejo essa ciência. Por ela, tendo dado todas as minhas riquezas, julgo, como a esposa dos cânticos sagrados, não ter dado nada(3)... Compreendo tão bem que só o amor pode nos tornar agradáveis ao Bom Deus, que esse amor‚ o único bem que ambiciono. Jesus se apraz em me mostrar o único caminho que conduz a essa fornalha Divina, esse caminho‚ o abandono da criancinha que adormece, sem temor, nos braços de seu Pai... "Se alguém é pequenino, que venha a mim" (4), disse o Espírito Santo pela boca de Salomão e esse mesmo Espírito de Amor disse ainda que é misericórdia ‚ dada aos pequenos (5). Em seu nome, o profeta Isaías nos revela que, no último dia "O Senhor conduzir’s seu rebanho às pastagens, que ele reunirá os cordeirinhos e os apertar sobre seu peito"(6), e, como se todas essas promessas não bastassem, o mesmo profeta, cujo olhar inspirado mergulhava já nas profundezas eternas, exclama em nome do Senhor: "Como uma mãe acaricia seu filho, assim eu vos consolarei, levar-vos-ei sobre meu peito e acariciar-vos-ei sobre meus joelhos"(7). Ó Madrinha querida! após semelhante linguagem, a única coisa a fazer ‚ calar, chorar de gratidão e de amor... Ah! se todas as almas fracas e imperfeitas sentissem o que sente a menor de todas as almas, a alma de sua Teresinha, nem uma só desesperaria de chegar ao cume da montanha do amor, pois que Jesus não pede grandes ações, mas somente o abandono e o reconhecimento, já que disse no Salmo 50: "Não tenho necessidade dos bodes de vossos rebanhos, porque todos os animais das florestas me pertencem e os milhares de animais que pastam sobre as colinas, conheço todos os pássaros das montanhas... Se tivesse fome, não é a vós que diria, pois a terra e tudo o que ela contém me pertencem. Por ventura devo comer a carne dos touros e beber o sangue dos bodes?... IMOLAI a DEUS SACRIFÍCIOS de LOUVORES e DE A€™ES DE GRAçAS" (8).

 Eis tudo quanto Jesus reclama de nós, ele não tem absolutamente necessidade de nossas obras, mas somente de nosso amor, pois esse mesmo Deus que declara não ter, de modo nenhum, necessidade de nos dizer se tem fome, não teme mendigar um pouco d`água à Samaritana. Ele tinha sede... Mas, dizendo: "dai-me de beber" (9), era o amor de sua pobre criatura que o Criador do universo reclamava. Ele tinha sede de amor... Ah! sinto, mais do que nunca, que Jesus está sedento, ele só encontra ingratos e indiferentes entre os discípulos do mundo e entre seus próprios discípulos ele encontra ah! poucos corações , que se entregam a ele sem reserva, que compreendem toda a ternura de seu Amor infinito.

 

 (M b, v.1r-1v)þ

 

NOTAS

 

(1) -Esta passagem nos lembra o salmo 51, quando o salmista diz:"Eis que amas a verdade no fundo do ser, e me ensinas a sabedoria no segredo". É verdade que, as traduções diferem neste ponto, todavia parece que o significado verdadeiro está na explicação de Teresa, isto é, Deus instrui as pessoas sem alarde e no fundo do coração, quando elas se abrem … luz do Espírito Divino.

(2) -Trata-se de palavras dirigidas a Santa Margarida Maria Alacoque por Nosso Senhor. Elas se encontram em um livro,conservado nos Arquivos do Carmelo de Lisieux e do qual

nossa Santa se serviu. O nome do livro é "Pequeno Breviário do Sagrado Coração de Jesus".

(3) -Cântico dos Cânticos 8,7. Aqui, a Santa faz apenas uma referência e com suas próprias palavras.

(4) -Santa Teresinha se refere ao livro dos Provérbio, 9,4. O texto original bíblico diz: "Os ingênuos venham aqui..."

(5) -Sabedoria, 6,7. Nossa Santa segue a tradução da Vulgata, pois o texto original‚ diferente.

(6) -Isaías, 40,11. Como sempre, a tradução citada por Teresa‚ é livre e segue seu pensamento.

(7) -Isaías 66,13 e 12. O texto teresiano é, como sempre, muito livre.

(8) -Salmo 50,9-13. Teresa segue de perto a Vulgata, pois o texto original é diferente.

(9) -João 4,7.

 

22. MINHA VOCAÇÃO O AMOR

 

 Com a devida distância e o devido respeito, podíamos dizer que, assim como o famoso capítulo treze da primeira Carta aos Coríntios‚ é o grande poema de Paulo, assim também o texto teresiano, que se segue, é‚ certamente, o grande poema de amor, escrito por Teresa.

 Sente-se aí que a alma de Teresa extravasa. O amor em Teresa é tão alto, é tão sublime, que ele encerra em si todas as vocações, todos os desejos, todos os dons, todos os carismas.

 Certamente, aqui se tem uma das mais belas páginas teresianas e, ao mesmo tempo, uma das mais ricas e das mais belas entre as tantas que santos e místicos da Igreja escreveram através dos séculos.

 O melhor comentário deste texto deve ser feito por cada um de nós, que o leia e o medite profundamente.

 

 Ó meu Bem-Amado! essa graça (1) era apenas o prelúdio de graças maiores, com as quais querias me cumular; deixa-me, meu único Amor, tas relembrar hoje... hoje, o sexto aniversário de nossa união...(2) Ah! perdoa-me, Jesus, se eu deliro ao querer redizer meus desejos, minhas esperanças que tocam o infinito, perdoa-me e cura minha alma dando-lhe o que ela espera!!!...

 Ser tua esposa, ó Jesus, ser carmelita, ser, por minha união contigo, a mãe das almas, isso deveria me bastar...não ‚assim... Sem dúvida, esses três privilégios dizem bem a minha vocação, Carmelita, Esposa e Mãe, contudo sinto em mim outras vocações, sinto-me com a vocação de GUERREIRO, DE PADRE, de APÓSTOLO, de DOUTOR, de MÁRTIR; enfim, sinto a necessidade, o desejo de realizar por ti, Jesus, todas as mais heróicas obras...Sinto em minha alma a coragem de um Cruzado, de um Zuavo pontifício, quisera morrer no campo de batalha pela defesa da Igreja...

 Sinto em mim a vocação de PADRE; com que amor, ó Jesus,eu te levaria nas minhas mãos, quando, … minha voz, tu descerias do Céu... Com que amor dar-te-ia …às almas!...Mas ah! mesmo desejando ser Padre, admiro e invejo a humildade de São Francisco de Assis e me sinto com a vocação de imitá-lo, recusando a sublime dignidade do Sacerdócio.

Ó Jesus! meu amor, minha vida...como aliar esses contrastes? Como realizar os desejos de minha pobre alminha?

 Ah! malgrado minha pequenez, queria esclarecer as almas como os Profetas, os Doutores, tenho a vocação de ser Apóstolo... quisera percorrer a terra, pregar teu nome e plantar sobre o solo infiel tua Cruz gloriosa, mas, ó meu Bem-Amado, uma só missão não me bastaria, quisera, ao mesmo tempo, anunciar o Evangelho nas cinco partes do mundo e at‚ nas mais remotas ilhas. Quisera ser missionária não somente durante alguns anos, mas quisera ter sido desde a criação do mundo e sê-lo até à consumação dos séculos... Todavia, quisera acima de tudo, ó meu Bem-Amado Salvador, quisera derramar meu sangue por ti até à última gota...

 O Martírio, eis o sonho da minha juventude, esse sonho cresceu comigo nos claustros do Carmelo...Mas ainda aí, sinto que meu sonho‚ uma loucura, pois não saberia me limitar a desejar um gênero de martírio... Para me satisfazer, ser-me-iam necessários todos...Como tu, meu Esposo Adorado, quisera ser flagelada e crucificada...Quisera morrer esfolada como São Bartolomeu...Como São João, quisera ser mergulhada no óleo fervendo, quisera sofrer todos os suplícios infligidos aos mártires... Com Santa Inês e Santa Cecília, quisera apresentar meu pescoço … espada e como Joana D'Arc, minha irmã querida, quisera na fogueira murmurar teu nome, ó JESUS...Pensando nos tormentos, que serão a partilha dos cristãos no tempo do Anticristo, sinto meu coração pular e quisera que esses tormentos me fossem reservados... Jesus, Jesus, se quisesse escrever todos os meus desejos, ser-me-ia necessário pedir emprestado teu livro da vida, aí estão relatadas as ações de todos os Santos e essas ações quisera tê-las realizado por ti...

 Ó meu Jesus! que vai s responder a todas minhas loucuras?...H uma alma menor, mais impotente do que a minha?...Contudo, por causa mesmo de minha fraqueza, aprouve-te, Senhor, realizar meus pequenos desejos infantis, e queres hoje atender a outros desejos maiores do que o universo...

 Durante a oração, meus desejos fazendo-me sofrer um verdadeiro martírio, abri as epístolas de São Paulo,a fim de buscar alguma resposta. Os capítulos XII e XIII da primeira epístola aos Coríntios caíram sob meus olhos... Li, então, no primeiro, que todos não podem ser apóstolos, profetas, doutores, etc... que a Igreja ‚ composta de diferentes membros e que o olho não poderia ser ao mesmo tempo a mão... A resposta era clara, mas não atendia aos meus desejos, não me dava a paz... Como Madalena, abaixando-se sempre junto ao túmulo vazio, terminou por encontrar o que buscava, assim, abaixando-me até às profundezas do meu nada, elevei-me tão alto que pude atingir meu objetivo... Sem me desencorajar, continuei minha leitura e esta frase me aliviou: "Procurai, com ardor, os MAIS PERFEITOS DONS, mas vou vos mostrar ainda uma via mais excelente". E o Apóstolo explica como os mais PERFEITOS dons não são nada sem o AMOR... Que a Caridade ‚ a VIA EXCELENTE que conduz seguramente a Deus.

 Enfim encontrara o repouso... Considerando o corpo místico da Igreja, não me reconhecera em nenhum dos membros descritos por São Paulo, ou, antes, queria me reconhecer em todos... A Caridade me deu a chave da minha vocação. Compreendi que,se a Igreja tinha um corpo composto de diferentes membros, o mais necessário, o mais nobre de todos não lhe faltava, compreendi que a Igreja tinha um Coração, e que esse Coração era ARDENTE de AMOR. Compreendi que, só o Amor fazia agir os membros da Igreja, que se o Amor viesse a se extinguir, os Apóstolos não anunciariam mais o Evangelho, os Mártires recusariam derramar seu sangue... Compreendi que,o AMOR ENGLOBAVA TODAS AS VOCAÇÕES, QUE O AMOR ERA TUDO, QUE ELE ABRAÇAVA TODOS OS TEMPOS E TODOS OS LUGARES...EM UMA PALAVRA, QUE ELE É ETERNO!...

 Então, no excesso de minha alegria delirante, exclamei: Ó Jesus, meu Amor... minha vocação, enfim eu a encontrei, MINHA VOCAÇÃO É O AMOR!...

 Sim, encontrei meu lugar na Igreja e esse lugar, ó meu Deus, fostes vós que mo destes... no Coração da Igreja, minha Mãe, eu serei o Amor... assim,serei tudo... assim, meu sonho será realizado!!!...

 Por que falar de uma alegria delirante? Não, essa expressão não é justa, é antes, a paz calma e serena do navegador percebendo o farol, que deve conduzi-lo ao porto... Ó Farol luminoso do amor, sei como chegar até a ti, encontrei o segredo de me apropriar de tua chama.

 Sou apenas uma criança, impotente e fraca, contudo, minha fraqueza mesmo, que me d a audácia de me oferecer como Vítima ao teu Amor, ó Jesus! Outrora, só as hóstias puras e sem mancha agradavam ao Deus Forte e Poderoso. Para satisfazer à Justiça Divina, eram necessárias vítimas perfeitas, mas … lei do temor sucedeu a lei do Amor, e o Amor me escolheu para holocausto, eu, fraca e imperfeita criatura... Essa escolha não é digna do Amor?... Sim, para que o Amor seja plenamente satisfeito, é necessário que se abaixe, que se abaixe até o nada e que transforme em fogo esse nada...

 Ó Jesus, eu o sei, o amor só se paga com amor, por isso busquei, encontrei o meio de aliviar meu coração, retribuindo-te Amor com Amor. -"Fazei amigos com o Dinheiro da iniqüidade, a fim de que, no dia em que faltar, eles vos recebam nas tendas eternas" (3). Eis, Senhor, o conselho que dás a teus discípulos, após ter-lhes dito que, "Os filhos das trevas são mais hábeis nos seus afazeres do que os filhos da luz". Filha da luz, compreendi que,meus desejos de ser tudo, de abraçar todas as vocações, eram riquezas que poderiam muito bem me tornar injusta, então me servi deles para me fazer amigos... Lembrando-me da oração de Eliseu a seu Pai Elias, quando ousou pedir-lhe SEU DUPLO ESPÍRITO, apresentei-me diante dos Anjos e dos Santos, e disse-lhes: "Sou a menor das criaturas, conheço minha miséria e minha fraqueza, mas sei também como os corações nobres e generosos gostam de fazer o bem, suplico-vos, pois, ó Bem-aventurados habitantes do Céu, suplico-vos que ME ADOTEIS COMO FILHA, só para vós ser a glória que me fareis conquistar, mas dignai-vos ouvir minha prece, ela ‚ temer ria, eu o sei, contudo ouso vos pedir que me obtenhais: VOSSO DUPLO AMOR".

 Jesus, não posso aprofundar meu pedido, temeria ser esmagada sob o peso de meus desejos audaciosos... Minha desculpa é que sou uma criança, as crianças não refletem no alcance de suas palavras, contudo seus pais, quando são colocados em tronos, quando possuem imensos tesouros, não hesitam em contentar os desejos dos pequenos seres, que eles amam tanto quanto a si mesmos; para lhes dar prazer, fazem loucuras, chegam até à fraqueza... Pois bem! eu sou a Filha da Igreja, e a Igreja é Rainha, pois que ela é tua Esposa, ó Divino Rei dos Reis... Não são as riquezas e a Glória (mesmo a Glória do Céu), que reclama o coração da criancinha... A glória, ela compreende que ela pertence, de direito, a seus Irmãos, os Anjos e os Santos... Sua glória é ser o reflexo daquela que jorra da fronte de sua Mãe. O que ela pede é o Amor... Ela só sabe uma coisa, amar-te, ó Jesus... São-lhe proibidas as obras brilhantes, não pode pregar o Evangelho, derramar seu sangue...

mas, que importa? seus irmãos trabalham em seu lugar e ela, criancinha, ela fica pertinho do trono do Rei e da Rainha, ela ama pelos seus irmãos que combatem... Mas, como testemunhar seu Amor, pois que o Amor se prova com as obras. Pois bem, a criancinha jogar flores, perfumar com suas fragrâncias o trono real, cantar , com sua voz Argentina, o cântico do Amor...

 Sim, meu Bem-Amado, eis como se consumir minha vida... Não tenho outro meio para te provar meu amor senão te jogar flores, isto é, não deixar escapar nenhum pequeno sacrifício, nenhum olhar, nenhuma palavra, aproveitar todas as menores coisas e fazê-las por amor... Quero sofrer por amor e mesmo gozar por amor, assim jogarei flores diante do teu trono; não encontrarei uma só que não a desfolhe para ti... depois, jogando flores, cantarei, (poder-se-ia chorar ao fazer uma tão alegre ação?), cantarei, mesmo quando me for necessário colher minhas flores no meio dos espinhos e meu canto ser tanto mais melodioso quanto mais os espinhos forem longos e picantes.

 Jesus, para quê te servirão minhas flores e meus cantos?... Ah! eu o sei muito bem, essa chuva perfumada, essas pétalas frágeis e sem nenhum valor, esses cantos de amor do menor dos corações te encantarão, sim, esses nadas te darão prazer, farão sorrir a Igreja Triunfante, ela recolher minhas flores desfolhadas por amor e fazendo-as passar por tuas Divinas Mãos, ó Jesus, essa Igreja do Céu, querendo brincar com sua filhinha, jogará também ela, essas flores, que adquiriram, por teu toque divino, um valor infinito, jogá-las-á sobre a Igreja padecente, a fim de apagar as chamas, jogá-las-á sobre a Igreja militante, a fim de fazê-la conquistar a vitória!...

 Ó meu Jesus! eu te amo, amo a Igreja, minha Mãe, lembro-me de que: "O menor movimento de PURO AMOR é-lhe mais útil do que todas as obras reunidas" (4), mas, o PURO AMOR está mesmo no meu coração?... Não serão um sonho, uma loucura os meus imensos desejos?... Ah! se ‚ assim, Jesus, ilumina-me, tu o sabes, busco a verdade...se meus desejos são temerários, fá-los desaparecer, pois esses desejos são para mim o maior dos martírios... Contudo, eu o sinto, ó Jesus, após ter aspirado às mais elevadas regiões do Amor, se me for necessário não as atingir um dia, terei experimentado mais doçura no meu martírio, na minha loucura que experimentarei no seio das alegrias da pátria, a menos que, por um milagre, tu me tires a lembrança de minhas esperanças terrestres. Então, deixa-me gozar, durante meu exílio, as delícias do amor... Deixa-me saborear as doces amarguras do meu martírio...

 Jesus, Jesus, se é tão doce o desejo de te amar, como não o é o de possuir, de gozar do Amor?... Como uma alma tão imperfeita como a minha, pode aspirar a possuir a plenitude do Amor?... Ó Jesus, meu primeiro, meu único Amigo, tu, a quem amo unicamente, dize-me qual ‚ esse mistério?... Por que tu não reservas essas imensas aspirações às grandes almas, às águias que planam nas alturas?... Eu, eu me considero como um fraco passarinho coberto somente com uma leve penugem; não sou uma guia, dela tenho apenas os olhos e o coração pois, malgrado minha extrema pequenez, ouso fixar o Sol Divino, o Sol do Amor e meu coração sente nele todas as aspirações da águia... O passarinho quisera voar para esse Sol brilhante, que encanta seus olhos, quisera imitar as águias, seus irmãos, que ele vê se elevar até à fornalha Divina da Santíssima Trindade... ah! tudo o que ele pode fazer é levantar suas asinhas, mas levantar vôo, isso não está no seu pobre poder! Que vai acontecer com ele? morrer de tristeza em se vendo tão impotente?... Oh! não! o passarinho nem sequer vai se afligir. Com um abandono audacioso, ele quer ficar contemplando seu Sol Divino; nada poderia atemorizá-lo, nem o vento nem a chuva, e, se nuvens sombrias vêm esconder o Astro de Amor, o passarinho não muda de lugar, ele sabe que além das nuvens seu Sol brilha sempre, que seu brilho não poderia se eclipsar por um só instante. . às vezes, é verdade, o coração do passarinho se encontra assaltado pela tempestade, parece-lhe não crer que existe outra coisa a não ser as nuvens que o envolvem; é então, o momento da alegria perfeita para o pobre e fraco pequeno ser. Que felicidade para ele ficar l apesar de tudo, fixar a luz invisível que se oculta … sua fé!!!... Jesus, até o presente, compreendo teu amor pelo passarinho, pois que ele não se afasta de ti... mas eu o sei e tu o sabes também, muitas vezes, a criaturinha imperfeita, mesmo ficando em seu lugar (isto é, sob os raios do Sol), deixa-se distrair um pouco de sua única ocupação, pega um grãozinho à direita e à esquerda, corre atrás de um vermezinho... depois, encontrando uma pocinha d'água, molha suas penas ainda em formação, vê uma flor que lhe agrada, então seu espiritozinho se ocupa com essa flor... enfim, não podendo planar com as águias, o pobre passarinho se ocupa ainda com bagaletas da terra. Contudo, após todos seus malfeitos, ao invés de ir se esconder em um canto para chorar sua miséria e morrer de arrependimento, o passarinho se dirige para seu Bem-Amado Sol, apresenta aos seus raios benfazejos suas asinhas molhadas, geme como a andorinha e no seu doce canto ele confia, conta, em detalhes, suas infidelidades, pensando, com seu temer rio abandono,conquistar assim mais império, atrair mais plenamente o amor dAquele, que não veio chamar os justos mas os pecadores... Se o Astro Adorado fica surdo aos gorjeios queixosos de sua criaturinha, se ele continua velado... pois bem! a criaturinha fica molhada, aceita ficar transida de frio e se alegra ainda com esse sofrimento, que, entretanto, mereceu... Ó Jesus! como teu passarinho ‚ feliz em ser fraco e pequeno, que seria dele se fosse grande?... Jamais teria a audácia de comparecer na tua presença, de sonecar diante de ti...Sim, está aí ainda uma fraqueza do passarinho, quando quer fixar o Sol Divino e as nuvens lhe impedem de ver um só raio, malgrado seu fecham-se seus olhinhos, sua cabecinha se esconde sob a asinha e o pobre pequeno ser adormece, acreditando sempre fixar seu Astro Querido. Quando se acorda, não se desola, seu coraçãozinho fica em paz, recomeça seu ofício de amor, invoca os Anjos e os Santos, que se elevam como águias para a Fornalha devoradora, objeto de sua inveja e as águias, tendo pena de seu irmãozinho, protegem-no, defendem-no e afugentam os abutres que queriam devorá-lo. Os abutres, imagens dos demônios, o passarinho não os teme, ele não está destinado a se tornar sua presa, mas a da águia, que ele contempla no seio do Sol de Amor. Ó Verbo Divino, és tu quem, vindo … terra do exílio, quis sofrer e morrer, a fim de atrair as almas até o seio da Fornalha Eterna da Trindade Bem-aventurada; és tu quem,voltando … Luz inacessível que ser doravante tua morada, és tu quem fica ainda no vale de lágrimas, escondido sob a aparência de uma hóstia branca... águia Eterna, queres me alimentar com tua divina substância, a mim, pobre pequeno ser, que voltaria ao nada, se teu divino olhar não me desse a vida a cada instante... Ó Jesus! deixa-me,no excesso de meu reconhecimento, deixa-me te dizer que teu amor vai até … loucura... Como queres, diante dessa Loucura, que meu coração não se lance para ti? Como minha confiança teria limites?... Ah! por ti, eu o sei, os Santos fizeram também loucuras, fizeram grandes coisas, já que eram …guias...  Jesus, sou muito pequena para fazer grandes coisas...e minha própria loucura é esperar que teu Amor me aceite como vítima... Minha loucura consiste em suplicar às águias, meus irmãos, que me obtenham o favor de voar em direção ao Sol do Amor, com as próprias asas da águia Divina...

 Tanto tempo quanto quiseres, ó meu Bem-Amado, teu passarinho ficar sem forças e sem asas, ficar sempre com os olhos fixos em ti, ele quer ser fascinado por teu olhar divino, quer se tornar a presa de teu Amor... Um dia, eu o espero, águia Adorada, virás buscar teu passarinho, e subindo com ele … Fornalha do Amor, tu o mergulharás para a eternidade no Abismo ardente dEsse Amor, ao qual ele se ofereceu como vítima.

 Ó Jesus! que eu possa dizer a todas as almas pequeninas quando tua condescendência é inefável...sinto que se, por impossível, encontrasses uma alma mais fraca, menor do que a minha, terias o prazer de cumulá-la com favores ainda maiores, se ela se abandonasse, com inteira confiança, à tua misericórdia infinita. Mas, por que desejar comunicar teus segredos de amor, ó Jesus, não foste tu somente que mos ensinaste e não podes revelá-los a outros?... Sim, eu o sei, e te conjuro a fazê-lo, suplico-te que abaixes teu olhar divino sobre um grande número de pequenas almas... Eu te suplico que escolhas uma legião de vitimazinhas dignas de AMOR!...

 

 (M B, 2v-5v)

 

 

NOTAS

 

(1) -Santa Teresinha se refere ao sonho que tivera com a Madre Ana de Jesus, a fundadora do Carmelo na França. Nesse sonho, nossa Santa se sentiu muito amada pela reverenda Madre e dela ouviu a afirmação de que, Deus estava contentíssimo com ela.

(2) -Teresa se refere ao aniversário de sua profissão religiosa, realizada aos 8 de setembro de 1890.

(3) -Lucas 16,9. Nossa citação está um pouco diferente do texto teresiano, que segue a Vulgata e não traduz todo o texto original.

(4) -São João da Cruz, Cântico Espiritual. Explicação da estrofe XXIX.

 

 

23.SER UMA SANTA

 

 

 Este é o conhecido texto do ascensor divino. Aqui, Santa Teresinha enfrenta a questão crucial da santidade, ou seja, como o homem, fraco e imperfeito, pode se aproximar dAquele que é o Santíssimo.

 Nossa Santa não se preocupa muito, neste caso, com a questão das obras, embora reconheça que são necessárias, uma vez que amor se paga com amor, todavia, a grande mensagem teresiana é exatamente que o homem, reconhecendo-se fraco e pequenino, ou seja, humilde, lance-se, com toda confiança e completo abandono, nos braços de Deus.

 Há, aqui, uma problemática teológica, ou seja, como o homem pode se apropriar de Deus? Teresa não discute a questão teológica; ela simplesmente propõe a solução do problema. Em uma palavra, seguindo o evangelho, ela ensina que, o homem não pode desanimar diante da sua fraqueza e pobreza, pelo contrário, deve aproveitar esses limites e fazer deles um trampolim para a força e amor de Deus. Aliás, é a graça divina que salva; é a misericórdia de Deus que nos santifica, por isso, o importante é agarrar-se a Deus e caminhar com Ele. É evidente que isso requer uma opção e muito esforço daquele que deseja sinceramente caminhar na santidade de Deus.

 

 

 A senhora o sabe, minha Madre, sempre desejei ser uma santa, mas ah! sempre constatei, quando me comparei aos santos, que há entre eles e eu a mesma diferença que existe entre uma montanha, cujo cimo se perde nos céus, e o obscuro grão de areia calcado sob os pés dos passantes; em vez de me desanimar, disse para mim: O Bom Deus não poderia inspirar desejos irrealizáveis, posso, pois, apesar da minha fraqueza, aspirar à santidade; crescer, é impossível, devo me suportar tal qual eu sou com todas as minhas imperfeições; mas vou procurar um meio para ir ao Céu por um caminhozinho bem direto, bem curto, um caminhozinho todo novo. Estamos em um século de invenções, agora não vale mais a pena subir os degraus de uma escada, na casa dos ricos um ascensor a substitui vantajosamente. Quisera encontrar um ascensor para me elevar até Jesus, pois sou pequena demais par subir a rude escada da perfeição. Então, procurei nos livros santos a indicação do ascensor, objeto de meu desejo, e li estas palavras saídas da boca da Sabedoria Eterna: "Se alguém é pequenino, que venha a mim"(1). Então, vim, adivinhando que achara o que buscava e querendo saber,ó meu Deus! o que faríeis ao pequenino que respondesse ao vosso apelo, continuei minhas pesquisas e eis o que encontrei: -Como uma mãe acaricia seu filho, assim eu vos consolarei, levar-vos-ei sobre o meu peito e vos balançarei sobre meus joelhos! (2)Ah! jamais palavras mais ternas, mais melodiosas vieram alegrar minha alma, o ascensor que deve me elevar até o Céu são os vossos braços, ó Jesus! Por isso, não tenho necessidade de crescer, ao contrário, é preciso que fique pequena, que me torne pequena cada vez mais. ó meu Deus, passastes além da minha expectativa e eu quero cantar vossas misericórdias."Vós me instruístes desde minha juventude e até o presente anunciei vossas maravilhas, continuarei a publicá-las na mais avançada idade"(3). Qual será para mim essa idade avançada? Parece-me que poderia ser agora, pois 2.000 anos não são, aos olhos do Senhor, mais do que 20 anos...do que um só dia...Ah! não creia, Madre bem-amada, que sua filha deseja deixá-la... não creia que ela julga ser uma graça maior morrer na aurora antes que no declínio do dia. O que ela estima, o que ela deseja unicamente, é dar prazer a Jesus... Agora, que Ele parece se aproximar dela para a atrair à morada de sua glória, sua filha se alegra. Desde muito tempo, ela compreendeu que, o Bom Deus não tem necessidade de ninguém (ainda menos dela do que dos outros) para fazer o bem sobre a terra.

 

 (M C, 2v-3v)

 

 

NOTAS

 

(1) -Provérbios 9,4. O texto original é diferente. A idéia, porém, é bíblica.

(2) -Isaías, 46, 13 e 12. Também aqui , o texto original é diferente. Teresa segue mais a tradução da Vulgata.

(3) -Salmo 70,17-18. A citação de Santa Teresinha é, como sempre, livre e isso provavelmente por força dos textos dos quais ela se servia.

 

 

24.O POEMA DA PRIMEIRA CHAMADA

 

 

 Em geral, teme-se a morte. Em geral, procura-se fazer tudo para evitar a morte. Em geral, o homem comum,diante do anúncio de sua morte em um futuro próximo, sente um abalo interior bem profundo. É por tudo isso, que esse texto teresiano merece uma consideração à parte. Teresa não é neurótica; não é uma desiludida; não é uma nervosa. Ela tem paz; ela ama profundamente; ela vive a vida. Todavia, quando tem a primeira hemoptise, quando sente que o Esposo adorado está se aproximando, alegra-se de uma maneira incomum e suspira pelo doce encontro tão esperado e sonhado.

 É, pois, um texto atual e digno de ser lido com atenção, pois é o reflexo de uma alma de fé, para quem a morte é apenas o momento esperado para o encontro tão suspirado com a realidade sonhada e amada, que é a vida eterna na Casa do Pai; que é o encontro suspirado com o único e verdadeiro amor da sua vida.

 Para Teresa, morte e vida se confundem, ou melhor, a morte é realmente o começo da verdadeira vida.

 

 

 Ah! se a provação que sofro há um ano (1) aparecesse aos olhares, que espanto!...

 Madre bem-amada, a senhora conhece essa provação; contudo vou lhe falar dela ainda, pois a considero uma grande graça, que recebi no seu Priorado bendito.

 No ano passado, o Bom Deus me concedeu a consolação de observar a Quaresma em todo seu rigor(2); jamais me sentira tão forte e essa força se manteve até à Páscoa. Entretanto,na Sexta-feira santa, Jesus quis me dar a esperança de ir em breve vê-lo no Céu... Oh!como me é doce essa lembrança!... Após ter ficado junto do Túmulo(3) até meia-noite, entrei na nossa cela, mas apenas tivera o tempo de por minha cabeça no travesseiro que senti como uma golfada que subia, subia fervendo até meus lábios. Não sabia o que era, mas pensava que talvez fosse morrer e minha alma estava inundada de alegria... Entretanto, como nossa lanterna estava apagada,disse-me que era necessário esperar a manhã para me certificar de minha felicidade, pois me parecia que era sangue,que vomitara.A manhã não se fez esperar por muito tempo(4), ao despertar, pensei imediatamente que tinha algo alegre a saber e, ao me aproximar da janela, pude constatar que não me enganara... Ah! minha alma ficou plena de uma grande consolação, estava intimamente persuadida de que Jesus, no dia aniversário de sua morte, queria me fazer ouvir um primeiro apelo.Era como um doce e distante murmúrio, que me anunciava a chegada do Esposo...

 Foi com um fervor bem grande que assisti à Prima e ao capítulo dos perdões(5). Tinha pressa de ver chegar minha vez a fim de poder, ao lhe pedir perdão, confiar-lhe, minha Madre bem-amada, minha esperança e minha felicidade; mas acrescentei que não sofria absolutamente(o que era realmente verdade) e lhe supliquei, minha Madre, para não me dar nada de particular. De fato, tive a consolação de passar o dia de Sexta-feira Santa como o desejava.Jamais as austeridades do Carmelo me tinham parecido tão deliciosas, a esperança de ir para ao Céu me transportava de alegria. Chegando a noite desse dia bem-aventurado, foi preciso repousar,mas, como na noite anterior, o bom Jesus me deu o mesmo sinal de que minha entrada na vida Eterna não estava distante...Gozava, então, de uma fé tão viva, tão clara, que o pensamento do Céu fazia toda a minha felicidade, não podia crer que houvesse ímpios sem fé.Acreditava que eles falavam contra seu pensamento ao negar a existência do Céu, do belo Céu onde o próprio Deus queria ser a recompensa eterna deles. Nos dias tão alegres do tempo pascal, Jesus me fez sentir que há verdadeiramente almas, que não têm a fé, que, por abuso das graças, perdem esse precioso tesouro, fonte das únicas alegrias puras e verdadeiras. Ele permitiu que minha alma fosse invadida pelas mais espessas trevas e que o pensamento do Céu, tão doce para mim, não fosse mais que um motivo de combate e de tormento...Essa provação não devia durar alguns dias, algumas semanas, não devia extinguir-se senão na hora marcada pelo Bom Deus e... essa hora ainda não chegou... Quisera poder exprimir o que sinto, mas ah! creio que é impossível. É preciso ter viajado por esse túnel sombrio para compreender sua escuridão. Vou, contudo, tentar explicá-lo com uma comparação.

 Suponho que nasci em um país envolto por um espesso nevoeiro, jamais contemplei o aspecto risonho da natureza, inundada, transfigurada pelo sol brilhante; desde minha infância, é verdade, ouço falar dessas maravilhas, sei que o país onde estou não é minha pátria, que há outro ao qual devo incessantemente aspirar. Não é uma história inventada por um habitante do triste país onde estou, é uma realidade certa, pois o Rei da pátria de sol brilhante veio viver 33 anos no país das trevas; ah! as trevas não compreenderam mesmo que esse Divino Rei era a luz do mundo...Mas, Senhor, vossa filha compreendeu vossa divina luz, ela vos pede perdão pelos seus irmãos, ela aceita comer, tanto tempo quanto vós quiserdes, o pão da dor e não quer absolutamente se levantar dessa mesa plena de amargura , onde comem os pobres pecadores, antes do dia que marcastes... Mas, também não pode ela dizer em seu nome, em nome de seus irmãos: Tende piedade de nós, Senhor, porque somos pobres pecadores?...(6) Oh! Senhor, despedi-nos justificados... Que todos aqueles que não são de fato esclarecidos pelo luminoso facho da Fé, vejam-no enfim luzir... ó Jesus, se é necessário que a mesa manchada por eles seja purificada por uma alma que vos ama, quero mesmo, sozinha, comer nela o pão da provação até quando quiserdes me introduzir no vosso luminoso reino. A única graça que vos peço é de jamais vos ofender!...

 

 (M C, 4v-6r)

 

NOTAS

 

(1) -Teresa se refere à provação da fé, que começara na Páscoa de 1896. Essa provação da fé, tão bem descrita neste texto, não deve ser interpretada como uma neurose diante da realidade da morte. Não. Os místicos têm falado dessa provação como sendo o momento de uma purificação, aqui na terra, para um amor mais alto e mais sublime em preparação à grande e profunda união com Deus, iniciada já aqui neste mundo. S. João da Cruz compara essas provações como noites da alma. Na verdade, Teresa, no final de sua vida, já estava em alto grau de união mística com Deus.

(2) -Nesse tempo, as carmelitas faziam apenas uma refeição, que era ao meio-dia e à noite comiam apenas um pouco de pão com frutas cruas e uma bebida.

(3) -Trata-se do local onde ficava o Santíssimo desde a Quinta-feira santa.As carmelitas passavam , em oração, ao menos uma parte da noite.

(4) -O despertar era às cinco horas da manhã.

(5) -A Santa se refere a um antigo costume dos Carmelos, na França. Na Sexta-feira santa, a Madre Priora reunia um capítulo e fazia uma alocução às irmãs sobre a caridade e, depois,pedia- lhes perdão. Estas, por sua vez, iam diante da Priora, ajoelhavam-se e a abraçavam. As irmãs pediam perdão entre si.

(6) -Lucas 18,13..

 

25. AMAR COMO DEUS NOS AMOU

 

 Os ensinamentos de Santa Teresinha são diferentes dos ensinamentos que lemos em muitos livros, porque nossa Santa parte da sua própria vida. Ela nos ensina, fazendo, ou melhor, dizendo como ela, por primeiro, o fez. É, pois, uma experiência vivida e bem vivida.

 Se Teresa de Lisieux ‚ a santa do amor, evidentemente sua vida deve ter sido toda ela um ato de amor. Por isso, a caridade, aqui, neste texto, é vista sob o prisma existencial e de uma maneira humana e sem rodeios.Teresa não enfeita, nem faz simples exclamações poéticas. Suas palavras são a expressão de sua vida simples e humana, vivida na base do amor a Deus e aos homens.

 

 

 Este ano, minha Madre querida, o bom Deus me deu a graça de compreender o que ‚ a caridade; antes, eu a compreendia, é verdade, mas de uma maneira imperfeita, não aprofundara esta palavra de Jesus: "O segundo mandamento ‚ SEMELHANTE ao primeiro: tu amar s teu próximo como a ti mesmo" (1). Aplicava-me, sobretudo, a amar a Deus e é, em o amando, que compreendi que era preciso que meu amor não se traduzisse somente por palavras, pois: "Não são aqueles que dizem: Senhor, Senhor! que entram no reino dos Céus, mas os que fazem a vontade de Deus" (2). Jesus deu a conhecer essa vontade muitas vezes, deveria dizer quase a cada página do seu Evangelho; mas, na última ceia, quando Ele sabe que o coração de seus discípulos arde com um amor mais ardente por Ele, que acaba de se dar a eles no inefável mistério de sua Eucaristia, esse doce Salvador quer lhes dar um mandamento novo. Ele lhes diz com inexprimível ternura: Eu vos dou um novo mandamento, é que vos ameis reciprocamente, e que COMO EU VOS AMEI,AMAI-VOS UNS AOS OUTROS. A marca pela qual todo o mundo saber que sois meus discípulos, é se vos amardes reciprocamente (3). Como Jesus amou seus discípulos e por que os amou? Ah! não eram suas qualidades naturais que podiam o atrair, havia entre eles e Ele uma distância infinita. Ele era a ciência, a Sabedoria Eterna; eles eram pobres pecadores, ignorantes e cheios de pensamentos terrestres. Contudo, Jesus os chama seus amigos, seus irmãos. Quer vê-los reinar com Ele no reino de seu Pai e para lhes abrir esse reino quer morrer em uma cruz, pois disse: Não há maior amor do que dar a vida por aqueles que se ama (4).  Madre bem-amada, meditando essas palavras de Jesus, entendi quanto meu amor por minhas irmãs era imperfeito; vi que não as amava como o Bom Deus as ama. Ah! compreendo agora que a caridade perfeita consiste em suportar os defeitos dos outros, a não se admirar de modo nenhum de suas fraquezas, a se edificar com os menores atos de virtude que se ver praticar, mas sobretudo compreendi que, a caridade não deve absolutamente ficar escondida no fundo do coração: Ninguém, disse Jesus, acende um lâmpada para colocá-lo debaixo do alqueire, mas se a põe sobre o candelabro, a fim que ilumine a TODOS que estão na casa (5), sem excetuar ninguém.

 Quando o Senhor ordenara a seu povo para amar seu próximo como a si mesmo, Ele ainda não viera à terra; por isso, sabendo bem quanto se ama a si mesmo, não podia pedir a suas criaturas um amor maior para o próximo. Mas, quando Jesus deu a seus apóstolos um mandamento novo, SEU PRÓPRIO MANDAMENTO, como o diz mais adiante, não ‚ mais para amar o próximo como a si mesmo que Ele fala, mas para amá-lo como Ele, Jesus, o amou, como o amar até à consumação dos séculos.

 Ah! Senhor, sei que não ordenais nada de impossível, conheceis, melhor do que eu, minha fraqueza, minha imperfeição, sabeis bem que jamais poderia amar minhas irmãs como as amais, se vós mesmo, ó Jesus, não as amásseis ainda em mim. É porque queríeis me conceder essa graça, que destes esse mandamento novo -Oh! como o amo, porque me dá a segurança de que vossa vontade é de amar em mim todos os que me ordenais de amar!...

 Sim, eu o sinto, quando sou caridosa, é Jesus só quem age em mim; quanto mais estou unida a Ele, tanto mais amo todas minhas irmãs. Quando quero aumentar em mim esse amor, quando sobretudo o demônio tenta colocar diante dos olhos da alma os defeitos de tal ou tal irmã que me é menos simpática, apresso-me a procurar suas virtudes, seus bons desejos, digo-me que, se a vi cair uma vez, ela pode muito bem ter tido um grande número de vitórias que esconde por humildade, e mesmo o que me parece uma fraqueza pode muito bem ser, por causa da intenção, um ato de virtude.

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 Há na comunidade uma irmã, que tem o talento de me desagradar em todas as coisas, suas maneiras, suas palavras, seu caráter me parecem muito desagradáveis. Contudo, é uma santa religiosa, que deve ser muito agradável ao bom Deus, por isso não querendo ceder à antipatia natural que experimentava, disse-me que a caridade não devia consistir em sentimentos, mas nas obras; então me apliquei a fazer por essa irmã o que faria pela pessoa que mais amo. Cada vez que a encontrava, rezava ao bom Deus por ela, oferecendo-LHE todas suas virtudes e seus méritos. Sentia muito bem que isso dava prazer a Jesus, pois não existe artista que não goste de receber louvores a suas obras e Jesus, o Artista das almas, fica feliz quando não se para no exterior, mas quando, penetrando até o santuário íntimo que Ele escolheu para sua morada, admira-se sua beleza. Não me contentava em rezar muito pela irmã, que me causava tantos combates, procurava prestar-lhe todos os serviços possíveis e, quando tinha a tentação de lhe responder de uma maneira desagradável, contentava-me de lhe fazer meu mais amável sorriso e procurava mudar a conversa, pois está escrito na Imitação: Vale mais deixar cada um no seu sentimento do que pôr-se a contestar (6).  Muitas vezes também, quando não estava na recreação (quero dizer durante as horas de trabalho),tendo algumas relações de trabalho com essa irmã, quando meus combates eram demasiado violentos, fugia como um desertor. Como ela ignorava absolutamente o que sentia por ela, jamais supôs os motivos de minha conduta e continua persuadida de que seu caráter me é agradável.Um dia, na recreação, ela me disse, mais ou menos, estas palavras, com um ar muito contente: "Queria me dizer, minha Irmã Teresa do Menino Jesus, o que a atrai tanto para mim, cada vez que você me olha, eu a vejo sorrir?" Ah! o que me atraía, era Jesus escondido no fundo de sua alma... Jesus que torna doce o que há de mais amargo... Respondi-lhe que sorria porque estava contente por vê-la (bem entendido, não acrescentei que era do ponto de vista espiritual).

 Minha Madre bem-amada, eu lho disse, meu último meio de não se vencida nos combates, é a deserção; eu já empregava esse meio durante meu noviciado, ele sempre me saiu perfeitamente bem.

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 Notei (e ‚ muito natural) que, as irmãs mais santas são as mais amadas, busca-se sua conversação, presta-lhes serviços sem que ela os peça, enfim, essas almas capazes de suportar faltas de atenção, de delicadezas, vêem-se cercadas da afeição de todas. Pode-se aplicar-lhes esta palavras de nosso Pai São João da Cruz: Todos os bens me foram dados, quando não os procurei mais por amor próprio (7).  As almas imperfeitas, pelo contrário, não são procuradas, sem dúvida, procede-se com elas nos limites da polidez religiosa, mas temendo, talvez, de lhes dizer algumas palavras pouco amáveis, evita-se a sua companhia. - Dizendo almas imperfeitas, não quero falar somente das imperfeições espirituais, já que as mais santas só serão perfeitas no Céu, quero falar da falta de juízo, de educação, da susceptibilidade de certos caracteres, coisas que não tornam a vida muito agradável. Sei bem que essas enfermidades morais são crônicas, não há esperança de cura, mas sei, também, que minha Madre não deixaria de tratar de mim, de tentar de me aliviar, se ficasse doente toda a minha vida. Eis a conclusão que tiro: devo procurar, no recreio, nas licenças, a companhia das irmãs, que me são menos agradáveis, fazer a vez do bom Samaritano junto dessas almas feridas. Uma palavra, um sorriso amável, bastam, muitas vezes, para desanuviar uma alma triste; mas, não é absolutamente para atingir esse objetivo que quero praticar a caridade, porque sei que, em breve, estaria desencorajada: uma palavra, que teria dito com a melhor intenção será, talvez, interpretada totalmente ao contrário. Por isso, para não perder meu tempo, quero ser amável com todo mundo (e, particularmente, com as irmãs menos amáveis) para alegrar Jesus e responder ao conselho que Ele dá no Evangelho com estes termos, mais ou menos: "Quando fizerdes uma festa, não convideis vossos parentes e vossos amigos, para que não vos convidem por sua vez e que assim tenhais recebido vossa recompensa; mas convidai os pobres, os coxos, os paralíticos e ficareis felizes porque eles não poderão vos retribuir, pois vosso Pai, que vê no segredo, vos recompensará (8).

 Lembro-me de um ato de caridade, que o Bom Deus me inspirou a fazer, quando era noviça, era pouca coisa, contudo nosso Pai que vê no segredo,que olha mais a intenção do que a grandeza da ação, já me recompensou, sem esperar pela outra vida. Era o tempo em que a Irmã São Pedro ia ainda ao coro e ao refeitório. Durante a oração da noite, ela ficava diante de mim: 10 minutos antes das 6 horas, era necessário que uma irmã, saísse para conduzi-la ao refeitório, pois as enfermeiras tinham, então, doentes demais para poderem vir buscá-la. Custava-me muito me propor para fazer esse pequeno serviço, pois sabia que não era fácil contentar essa pobre irmã São Pedro , que sofria tanto que não gostava de mudar de condutora. Contudo, não queria perder uma tão bela ocasião para exercer a caridade, lembrando-me que Jesus dissera: O que fizerdes ao menor dos meus ‚ a mim que tereis feito (9).Ofereci-me, pois, bem humildemente, para conduzi-la: não foi sem dificuldade que consegui fazer aceitar meus serviços! Enfim, pus-me … obra e tinha tanta boa vontade que me sai perfeitamente bem.

 Cada tarde, quando via minha Irmã São Pedro balançar sua ampulheta, sabia que isso queria dizer: partamos! É incrível como me custava sair, sobretudo no início; contudo o fazia imediatamente, e,depois, começava todo um cerimonial. Era necessário remover e puxar o banco de uma certa maneira, sobretudo não se apressar, em seguida começava o passeio. Tratava-se de seguir a pobre enferma sustentando-a pela cintura, fazia-o com a maior doçura que me era possível; mas se, por infelicidade, ela dava um passo em falso, logo lhe parecia que eu a sustentava mal e que ela ia cair. -"Ah! meu Deus! Você vai depressa demais, vou me quebrar". Se tentava ir ainda mais docemente -"Mas, siga-me! não sinto sua mão, você me largou, vou cair; ah! bem que dissera que você era demasiado jovem para me conduzir". Enfim, chegávamos, sem acidente, ao refeitório; aí vinham outras dificuldades, tratava-se de fazer que a Irmã São Pedro se assentasse e de fazê-lo acertadamente para não feri-la, em seguida, era necessário levantar suas mangas (ainda de uma certa maneira), depois, estava livre para ir-me. Com suas pobres mãos estropiadas, ela arranjava seu pão na sua tigela, como podia. Logo me apercebi disso e, cada tarde, só a deixava depois de ter lhe prestado ainda esse pequeno serviço. Como ela não mo pedira, ficou muito sensibilizada com minha atenção e foi por esse meio, que não procurara expressamente, que ganhei inteiramente suas boas graças e, sobretudo (soube-o mais tarde) porque, após ter cortado seu pão, dava-lhe, antes de partir, o meu mais belo sorriso.

 Minha Madre bem-amada, talvez a senhora esteja admirada porque eu lhe escrevo sobre esse pequeno ato de caridade já passado h tanto tempo. Ah! se o faço é porque sinto que me é preciso cantar, por causa dele, as misericórdias do Senhor. Ele se dignou me deixar a lembrança, como um perfume que me leva a praticar a caridade. Recordo, às vezes, certos detalhes, que são para minha alma como uma brisa primaveril. Eis aqui um que se apresenta … minha memória: Numa tarde de inverno, realizava, como de costume, meu oficiozinho, fazia frio, era quase noite... de repente, ouço bem distante o som harmonioso de um instrumento musical, então me representei um salão bem iluminado, brilhando com adornos dourados, jovens elegantemente vestidas trocavam cumprimentos e delicadezas mundanas; depois, meu olhar se voltou para a pobre doente que eu sustentava; ao invés de uma melodia eu ouvia, de vez em quando, seus gemidos queixosos, no lugar dos dourados, via os tijolos de nosso claustro austero apenas iluminado por uma fraca claridade. Não posso exprimir o que se passou na minha alma, o que sei é que o Senhor a iluminou com raios da verdade, que ultrapassaram de tal modo o brilho tenebroso das festas da terra, que não podia crer na minha felicidade... Ah! para gozar mil anos das festas mundanas, não teria dado os dez minutos empregados a cumprir meu humilde ofício de caridade... Se já no sofrimento, no meio do combate, pode-se gozar por um instante de uma felicidade, que ultrapassa todas as felicidades da terra, ao pensar que o bom Deus nos retirou do mundo, como ser no Céu, quando virmos, no seio de uma alegria e de um repouso eternos, a graça inefável que o Senhor nos concedeu em nos escolhendo para habitar na sua casa, verdadeiro pórtico dos Céus?...

 Não foi sempre com esses transportes de alegria que tenho praticado a caridade, mas no início de minha vida religiosa, Jesus quis me fazer sentir como é doce vê-lo na alma de suas esposas; por isso, quando conduzia minha Irmã São Pedro, fazia-o com tanto amor que me teria sido impossível de fazer melhor se devesse conduzir o próprio Jesus. A prática da caridade não me foi sempre doce, dizia-lo há pouco, minha Madre querida; para lhe provar, vou lhe contar certos pequenos combates, que certamente vos farão sorrir. Durante muito tempo, na oração da tarde, foi colocada diante de uma irmã, que tinha uma curiosa mania, e penso...muitas luzes, pois ela se servia raramente de um livro. Eis como me apercebia: Assim que essa irmã chegava, começava a fazer um estranho barulhozinho, que se parecia com o que se faria esfregando-se duas conchas uma contra a outra. Somente eu me apercebia disso, pois tenho o ouvido extremamente fino ( um pouco demais, às vezes).

Dizer-lhe, minha Madre, quanto esse barulho me cansava, é coisa impossível: tinha muita vontade de virar a cabeça e de olhar a culpada que, certamente, não se apercebia de seu tique, era o único meio de despertá-lo; mas, no fundo do coração, sentia que valia mais sofrer isso por amor de do bom Deus e para não causar sofrimento irmã. Ficava, pois, tranqüila, tentava me unir ao bom Deus, esquecer-me do barulhozinho... tudo era inútil, sentia o suor que me inundava e era obrigada a fazer simplesmente uma oração de sofrimento, mas embora sofrendo, procurava o meio de não fazê-lo com aborrecimento, mas com alegria e paz, pelo menos no íntimo da alma. Então, tentava gostar do barulhozinho tão desagradável; ao invés de procurar não ouvi-lo (coisa impossível) punha minha atenção em escutá-lo bem, como se ele fosse um maravilhoso concerto e toda minha oração (que não era a de quietude)se passava a oferecer esse concerto a Jesus.

 Outra vez, estava lavando roupa diante de uma irmã, que me lançava água suja no rosto cada vez que levantava os lenços na sua lavanderia; meu primeiro movimento foi o de recuar enxugando-me o rosto, a fim de mostrar à irmã, que me aspergia, que ela me prestava um serviço ficando tranqüila, mas logo pensei que era bem tola ao recusar os tesouros que me eram dados tão generosamente e tomei o cuidado para não transparecer meu combate. Fiz todos meus esforços para desejar receber muita água suja, de tal sorte que, ao final, tomara verdadeiramente gosto por esse novo gênero de aspersão e prometi a mim mesma voltar a esse lugar feliz, onde se recebiam tantos tesouros.

 Madre bem-amada, a senhora está vendo que sou uma alminha, que só pode oferecer ao bom Deus coisas muitas pequenas, ainda me acontece, muitas vezes, de deixar escapar esses pequenos sacrifícios, que dão tanta paz à alma; isso não me desencoraja, suporto ter um pouco menos de paz e procuro ser mais vigilante na próxima vez.

 

NOTAS

 

(1) -Mateus 22,39

(2) -Mateus 7,21

(3) -João 13,34-35

(4) -João 15,13

(5) -Mateus 5,15

(6) -Imitação de Cristo, L. III, cap.V. 3

(7) -Sentença que está na representação simbólica do Monte da

 Perfeição, desenhado por São João da Cruz.

(8) -Lucas 14,12-14 e Mateus 6,4

(9) -Mateus 25,40

 

 

26.AMOR E POBREZA

 

 O amor verdadeiro exige do amante um profundo despojamento. O amante de verdade não pode se apegar a nada, que venha atrapalhar a felicidade do amado. Eis por que o verdadeiro amor, a caridade portanto, está ligado intimamente à pobreza em espírito, de que fala o evangelho. Com efeito, o amante sabe que o amado pode dispor, a qualquer momento, de tudo que ele possui e isso significa que o espírito do amante está sempre disposto a se despojar do que possui para a paz e a felicidade do amado

 Foi assim que Santa Teresinha entendeu a pobreza em espírito evangélica e foi assim que viveu o seu amor pelas irmãs, com as quais conviveu.

 

 

Lembrando-me de que a Caridade cobre a multidão de pecados(1), uso desta mina fecunda, que Jesus abriu diante de mim. No Evangelho, o Senhor explica em que consiste: seu mandamento novo. Ele diz em São Mateus: "Ouvistes o que foi dito: amarás teu amigo e odiarás teu inimigo. Eu,porém vos digo:amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem"(2). Sem dúvida, no Carmelo não se encontram inimigos, mas, enfim, há as simpatias, sente-se atraída para tal irmã, enquanto outra vos levaria a fazer uma longa volta para evitar que a encontre, assim, sem mesmo o saber, ela se torna um sujeito de perseguição. Pois bem! Jesus me diz que é preciso amar essa irmã, que é necessário rezar por ela, mesmo quando sua conduta levar-me-ia a acreditar que não me ama: "Se amais os que vos amam, que graça alcançais? Pois até mesmo os pecadores amam aqueles que os amam"(3). E não é bastante amar, é preciso prová-lo. Naturalmente fica-se feliz ao dar um presente a um amigo, gosta-se sobretudo de fazer surpresas, mas isso, isso não é absolutamente a caridade,pois os pecadores o fazem também. Eis o que Jesus me ensina ainda: "Dá a quem te pedir e não reclames de quem tomar o que teu" (4). Dar a todas aqueles que pedem é menos doce do que oferecer-se a si mesmo pelo movimento do coração; ainda, quando se pede gentilmente não custa dar, mas se, por acaso, não se usa de palavras bastante delicadas, logo a alma se revolta se não está firme na caridade.Encontra mil razões para recusar o que se pede e só quando se convenceu a pedinte de sua indelicadeza é que dá enfim por graça o que reclama, ou lhe presta um serviço , que teria exigido vinte vezes menos tempo para ser feito do que foi necessário para fazer prevalecer direitos imaginários. Se é difícil dar a qualquer um que pede, é-o muito mais deixar pegar o lhe pertence sem reclamá-lo.; ó minha Madre, digo que é difícil, deveria antes dizer que parece difícil, pois O jugo do Senhor é suave e leve(5). quando se o aceita, sente-se logo sua doçura e se exclama com o Salmista: "Corri no caminho dos vossos mandamentos desde que dilatastes meu coração"(6). Só a caridade pode dilatar meu coração. ó Jesus, desde que essa doce flama o consume, corro com alegria no caminho do vosso mandamento NOVO... Quero correr nele até o dia bem-aventurado em que, unindo-me ao cortejo virginal, puder vos seguir nos espaços infinitos, cantando vosso cântico NOVO, que deve ser o do Amor.

 Dizia: Jesus não quer que eu reclame o que me pertence; isso deveria me parecer fácil e natural, pois que não tenho nada. Os bens da terra, eu os renunciei pelo voto de pobreza, não tenho pois o direito de lamentar se me tiram uma coisa que me pertence, devo, pelo contrário, alegrar-me quando me acontece sentir a pobreza. Outrora, parecia-me que não me apegava a nada, mas desde que entendi as palavras de Jesus, vejo que na prática sou muito imperfeita. Por exemplo, no ofício de pintura nada me pertence, sei-o muito bem; mas se, pondo-me à obra, encontro pincéis e tintas em desordem, se um régua ou um canivete desapareceu, a paciência quase vai embora e devo segurar minha coragem com as duas mãos para não reclamar com amargura os objetos que me faltam. É preciso, muitas vezes, pedir coisas indispensáveis, mas ao fazê-lo com humildade não se peca contra o mandamento de Jesus; ao contrário, age-se como os pobres que estendem a mão, a fim de receber o que lhes é necessário, se eles são repelidos, não se admiram, ninguém lhes deve nada. Ah! que paz inunda a alma, quando ela se eleva acima dos sentimentos da natureza... Não, não há alegria comparável àquela de que goza o verdadeiro pobre em espírito. Se pede, com desprendimento, uma coisa necessária e quando não somente aquilo lhe é recusado,mas ainda se tenta tirar-lhe o que tem, segue o conselho de Jesus: Abandonai mesmo vossa túnica àquele que quer pleitear para ter vossa veste...(7)

Abandonar sua túnica, é, parece-me, renunciar a seus últimos desejos, é se considerar como a serva, a escrava dos outros. Quando se deixa sua túnica, é mais fácil caminhar, correr, por isso Jesus acrescenta: E se alguém te obriga a andar mil passos, caminha com ele dois mil"(8). Assim não é bastante dar a qualquer um que pede, é preciso adiantar-se aos desejos, apresentar o aspecto de muito penhorado e de muito honrado para prestar serviço e se tiram uma coisa do meu uso, não devo ter o ar de lamentação, mas, ao contrário, parecer feliz por ficar livre dela.Minha Madre querida, estou bem longe de praticar o que compreendo e, contudo, só o desejo que tenho me dá a paz.

 

 

NOTAS

 

(1) -Prov.10,12. O texto original diz: "o amor cobre todas as ofensas".

(2) -Mateus 5,43-44

(3) -Lucas 6,32

(4) -Lucas 6,30

(5) -Mateus 11,30

(6) -Salmo 119,32

(7) -Mateus 5,40

(8) -Mateus 5,40

 

 

 

27.O PINCEL DE DEUS

 

 

 O que realmente opera na pessoa é a graça de Deus. A Trindade, por um misterioso processo de amor trabalha na alma de cada um de nós, transformando-nos e santificando-nos. Somos, pois, resultado e produto da graça, que supõe, é claro, nossa colaboração.

 Na verdade, nós apenas aderimos e colaboramos, mas o fruto da santificação nas pessoas provém diretamente de Deus. Em suma, somos apenas instrumentos no processo transformador dos homens. Foi isso que Teresinha entendeu e procurou nos explicar com o texto seguinte.

 Por sermos pincéis nas mãos de Deus, não podemos fazer o que queremos, nem podemos tentar desfazer o que o Espírito de Deus quer realizar com uma pessoa. Somos pincéis de Deus e, por isso, devemos nos contentar em ser o que somos e não querer passar dos nossos limites, nem tão pouco querer nos eximir da nossa participação. Somos instrumentos de Deus. Nada mais do que instrumentos. Mas, devemos fazer tudo para sermos bons instrumentos, ótimos pincéis nas mãos de Deus.

 

 

 Madre bem-amada, escrevia ontem que, os bens da terra não me pertencendo, não deveria achar difícil jamais reclamá-los se algumas vezes mos tiravam. Os bens do Céu não me pertencem também, eles me são emprestados pelo Bom Deus, que pode mos retirar sem que tenha o direito de lamentar.Contudo, os bens que vêm diretamente do bom Deus, os impulsos da inteligência e do coração, os pensamentos profundos, tudo isso forma uma riqueza, na qual ninguém tem o direito de tocar... Por exemplo, se, durante a licença, diz-se a uma irmã alguma luz recebida durante a oração e, pouco tempo depois, essa irmã, falando com outra, comunica-lhe, como se ela mesma o tivesse pensado o que lhe tinha sido confiado,parece que ela toma o que não é seu. Ou então, no recreio diz-se, baixinho, a sua companheira uma palavra cheia de graça e proposital; se ela a repete bem alto sem dar a conhecer a fonte donde veio, isso parece também um roubo à proprietária que não reclama, mas que queria muito bem fazê-lo e aproveitará da primeira ocasião para fazer saber,finamente,que se serviram de seus pensamentos.

 Minha Madre, não poderia lhe explicar tão bem esses tristes sentimentos naturais, se não os tivesse sentido no meu coração e gostaria de me alimentar da doce ilusão que eles só visitaram o meu, se a senhora não tivesse me ordenado escutar as tentações de vossas queridas noviçaszinhas.Aprendi muito cumprindo a missão que me confiou, sobretudo me vi forçada a praticar o que ensinava aos outros; assim, agora, posso dizê-lo, Jesus me concedeu a graça de não ser mais apegada aos bens do espírito e do coração do que àqueles da terra. Se me acontece de pensar ou dizer uma coisa, que agrada às irmãs, acho bem natural que elas se sirvam dela como de um bem próprio. Esse pensamento pertence ao Espírito Santo e não a mim, pois que São Paulo diz que, não podemos, sem esse Espírito de Amor,dar o nome de "Pai" ao nosso Pai, que está nos Céus.Ele é,pois, bem livre para se servir de mim para dar um bom pensamento a uma alma; se acreditasse que esse pensamento me pertence, seria como "O asno levando as relíquias", que acreditava que, as homenagens prestadas aos Santos se endereçavam a ele.

 Não menosprezo os pensamentos profundos que alimentam a alma e a unem a Deus, mas já faz muito tempo que compreendi que, não é preciso se apoiar sobre eles e fazer consistir a perfeição em receber muitas luzes. Os mais belos pensamentos não são nada sem as obras; é verdade que as outras podem tirar muito proveito deles, se humilham e testemunham ao bom Deus o seu reconhecimento porque Ele lhes permite participar do festim de uma alma, a qual lhe apraz enriquecer com suas graças,mas se esse alma se compraz nos seus belos pensamentos e faz a oração do fariseu, torna-se semelhante a uma pessoa morrendo de fome diante de uma mesa bem guarnecida, enquanto todos seus convidados encontram aí abundante alimentação e,às vezes, lançam um olhar de inveja sobre o personagem possuidor de tantos bens. Ah! como realmente só o Bom Deus conhece o fundo dos corações...como as criaturas têm pensamentos curtos!... Quando vêem uma alma mais esclarecida do que as outras,logo concluem que Jesus as ama menos que aquela alma e que elas não são chamadas à mesma perfeição. -Desde quando o Senhor não tem mais o direito de se servir de uma de suas criaturas para dispensar às almas ,que ama, o alimento que lhes é necessário? No tempo de Faraó, o Senhor tinha ainda esse direito, pois na Escritura diz a esse monarca: "Elevei-vos, expressamente, para fazer a brilhar em vós MEU PODER, a fim de que se anuncie meu nome por toda a terra"(1). Os séculos se sucederam desde que o Altíssimo pronunciou essas palavras e desde então sua conduta não mudou, sempre se serviu de suas criaturas como de instrumentos para fazer sua obra nas almas.

 Se a tela pintada por um artista pudesse pensar e falar, certamente não se lamentaria de ser incessantemente tocada e retocada por um pincel e não invejaria, de modo nenhum, a sorte desse instrumento, pois saberia que não é ao pincel mas ao artista que a faz, que deve a beleza de que é revestida. O pincel, por seu turno, não poderia se gloriar da obra-prima feita por ele, sabe que os artistas não são embaraçados, que brincam das dificuldades e se comprazem em escolher, por vezes, instrumentos fracos e defeituosos...

 Minha Madre bem-amada, sou um pincelzinho que Jesus escolheu para pintar sua imagem nas almas, que a senhora me confiou. Um artista não se serve apenas de um pincel, são-lhe necessários pelo menos dois; o primeiro é o mais til, é com ele que dá as tintas gerais, que cobre completamente a tela em pouco tempo, o outro, menor, serve-lhe para os detalhes...eu, eu sou o pequenino(pincel), do qual Ele se digna se servir, em seguida, para os menores detalhes.(2)

 (M C, 19r-20v)

 

 

NOTAS

 

(1) -Êxodo 9,16

(2) -Teresa se ocupou das noviças a partir de fevereiro de 1893 até sua morte.

 

 

28.O SANTUÁRIO HUMANO

 

 

 A direção espiritual sempre foi considerada muito importante na espiritualidade cristã. Um irmão ajudando a outro, dando-lhe sua experiência e orientando-o nos caminhos do Espírito Santo é já uma tradição profundamente cristã e universalmente aceita em toda a Igreja. Essa direção espiritual, porém, tem suas exigências e suas dificuldades, além dos maravilhosos benefícios que produz.

 No texto que segue, nossa Santa, com admirável luz espiritual e profunda psicologia, dá-nos lições práticas e vividas sobre a direção espiritual. Ninguém pode deixar de admirar como uma jovem tenha conseguido tanta luz na direção das suas discípulas. Com efeito, suas mensagens são reais, psicológicas, existenciais e profundamente impregnadas de Deus.

 

 

 Quando me foi dado entrar no santuário das almas (1), vi imediatamente que a tarefa estava acima das minhas forças, então me coloquei nos braços do bom Deus como uma criancinha e, escondendo meu rosto nos seus cabelos, disse-Lhe: Senhor, sou pequena demais para alimentar vossas filhas; se quiserdes dar-lhes por mim o que convém a cada uma, enchei minha mãozinha e sem deixar vossos braços, sem virar a cabeça, darei vossos tesouros à alma que vier me pedir seu alimento. Se ela a achar conforme seu gosto, saberei que não é a mim mas a vós que ela o deve; ao contrário, se ela se lamenta e acha amargo o que lhe apresento, minha paz não ficará perturbada, tentarei persuadi-la que esse alimento vem de vós e tomarei cuidado para não procurar outro para ela.

 Minha Madre, depois que compreendi que me é impossível fazer alguma coisa por mim mesma, a tarefa que a senhora me impôs não me pareceu mais difícil, senti que a única coisa necessária era unir-me cada vez mais a Jesus e que o resto me seria dado por acréscimo. De fato, jamais minha esperança foi enganada, o Bom Deus se dignou encher minha mãozinha tantas vezes quantas fossem necessário para alimentar a alma de minhas irmãs. Confesso-lhe, Madre bem-amada, se eu me tivesse apoiado o menos possível sobre minhas forças, teria logo lhe entregado as armas...De longe tudo parece róseo fazer o bem às almas, fazê-las amar mais a Deus, modelá-las segundo suas óticas e seus pensamentos pessoais. De perto, é tudo o contrário, a rosa desapareceu...sente-se que fazer o bem é coisa tão impossível, sem o socorro do bom Deus, quanto fazer brilhar o sol durante a noite... Sente-se que é absolutamente necessário esquecer seus gostos, suas concepções pessoais e guiar as almas pelo caminho que Jesus lhes traçou, sem tentar fazê-las caminhar pelo seu próprio caminho. Mas, não é ainda o mais difícil; o que me custa acima de tudo, é observar as faltas,as mais leves imperfeições e lhes travar uma guerra mortal. Ia dizer: infelizmente para mim! ( mas não, seria fraqueza), digo pois: felizmente para minhas irmãs, desde quando me coloquei nos braços de Jesus, sou como a sentinela observando o inimigo da mais alta torre de um castelo fortificado.Nada escapa a meus olhares; às vezes fico admirada de ver tão claro e acho o profeta Jonas-+ muito desculpável por ter fugido ao invés de ir anunciar a ruína de Nínive. Preferiria mil vezes receber repreensões a fazê-las aos outros, mas sinto que é muito necessário que isso me seja um sofrimento,pois, quando se age pela natureza, é impossível que a alma à qual se quer descobrir suas faltas, compreenda seus erros, ela só vê uma coisa: a irmã encarregada de me dirigir está zangada e tudo recai sobre mim, que estou cheia, contudo, das melhores intenções

 Sei que vossos cordeirinhos me acham severa. Se lessem estas linhas, diriam que não parece que me custa absolutamente correr atrás deles, falar-lhes com um tom severo, mostrando-lhes seu belo velo manchado, ou então levar-lhes algum leve floco de lã, que deixaram rasgar com os espinhos do caminho. Os cordeirinhos podem dizer tudo que quiserem; no fundo, sentem que os amo com um verdadeiro amor, que jamais imitarei o mercenário que, ao ver o lobo vir, deixa o rebanho e foge(2). Estou pronta a dar minha vida por eles, mas minha afeição é tão pura que não desejo que a conheçam. Jamais, com a graça de Jesus, tentei atrair para mim seus corações, compreendi que minha missão era de conduzi-los a Deus e fazer-lhes compreender que, aqui na terra, a senhora é, minha Madre, o Jesus visível que eles devem amar e respeitar.

 Eu lhe disse, Madre querida, que instruindo os outros, aprendi muito. Primeiramente, vi que todas as almas têm, mais ou menos, os mesmos combates, mas que elas são, por outro lado, tão diferentes que não tenho dificuldade em compreender o que dizia o Padre Pichon: "Há, na verdade, mais diferença entre as almas do que existe entre os rostos". Por isso, é impossível agir com todas da mesma maneira. Com algumas almas, sinto que é preciso fazer-me pequena, não temer mesmo de me humilhar, confessando meus combates, meus defeitos; vendo que tenho as mesmas fraquezas que elas, minhas irmãzinhas me confessam , por sua vez, as faltas que se reprovam e se alegram que as compreenda por experiência. Com outras, vi que é preciso, ao contrário, para lhes fazer o bem, ter muita firmeza e jamais voltar sobre uma coisa dita.Abaixar-se não seria, então, humildade, mas fraqueza. O bom Deus me deu a graça de não temer a guerra, é preciso que cumpra meu dever a qualquer preço. Mais de uma vez,ouvi isto:-"Se a senhora quer obter alguma coisa de mim, é preciso me pegar pela doçura; pela força, não terá nada".Eu sei que ninguém é bom juiz na sua própria causa e que uma criança, à qual o médico faz suportar uma dolorosa operação, não deixará de dar altos gritos e de dizer que o remédio é pior do que o mal; contudo, se ele se cura alguns dias depois, é bem feliz de poder brincar e correr. É a mesma coisa com as almas, logo eles reconhecem que um pouco de amargura é, por vezes, preferível ao amar e não temem confessá-lo. Algumas vezes, não posso deixar de sorrir interiormente ao ver que mudança se opera de um dia para outro, é feérico... VÊm me dizer: -"A senhora tinha razão, ontem, de ser severa, no começo eu me revoltei, depois me lembrei de tudo e vi que a senhora era muito justa...Escute: ao sair, pensava que estava tudo acabado, dizia-me: "Vou encontrar nossa Madre e lhe dizer que não irei mais falar com minha irmã Teresa do Menino Jesus". Ma senti que era o demônio que me inspirava isso e, depois, pareceu-me que a senhora rezava por mim, então fiquei tranqüila e a luz começou a brilhar imediatamente e é por isso que volto". A conversação se trava bem depressa; eu fico muito feliz em poder seguir a inclinação do meu coração não servindo nenhuma iguaria amarga. Sim, mas...percebo logo que não é preciso avançar demais,uma palavra poderia destruir o belo edifício construído com lágrimas. Se tenho a infelicidade de dizer uma palavra, que parece atenuar o que disse na véspera, vejo minha irmãzinha tentar se agarrar aos ramos, então faço, interiormente, uma oraçãozinha e a verdade triunfa sempre. Ah! é a oração e o sacrifício que formam toda a minha força, são as armas invencíveis que Jesus me deu, elas podem, muito mais do que as palavras, tocar as almas, já fiz muitas vezes essa experiência.

 

 (M C,22r-24v)

 

 

NOTAS

 

(1) -Como já dissemos, Santa Teresinha se ocupou com as noviças desde fevereiro de 1893 até sua morte.

(2) -João 10,12.

 

 

29.HUMILHAÇÃO

 

 

 Diante de tudo que é Deus, o homem se sente pequeno e impotente. Humilha-se, então, diante da verdadeira e grande Realidade. Isso é o que chamamos de humildade, que, como disse santa Teresa de Ávila, é a verdade.

 Há momentos na nossa vida, porém, em que essa humildade é posta à prova, isto é, quando alguém nos provoca menosprezando-nos, ou desprezando-nos, ou relegando-nos, ou nos esquecendo ou tomando outra qualquer maneira de nos diminuir perante as outras realidades. Isso é o que chamamos de humilhação.

 A humildade vem de nós mesmos. É ação subjetivamente produzida, embora, é claro, suponha a graça divina. A humilhação parte dos outros e supõe a humildade e para ser aproveitada pela humildade requer, é evidente, a graça divina.

 Teresinha, aqui, fala-nos da humilhação na sua vida e nos mostra como ela aproveitou de pequenas coisas para, mediante a humildade, provar o seu amor.

 

 

 Não posso dizer que Jesus me fez caminhar, exteriormente, pela via das humilhações. Ele se contenta em me humilhar no fundo da minha alma; aos olhos das criaturas tudo me sai bem sucedido. sigo o caminho das honras, tanto quanto isso é possível na vida religiosa(1). Compreendo que não é por mim, mas para os outros, que é preciso que caminhe por essa via , que parece tão perigosa. Com efeito, se eu passasse aos olhos da comunidade como uma religiosa cheia de defeitos, incapaz, sem inteligência nem discernimento, ser-lhe-ia impossível, minha Madre, ser ajudada por mim. Eis por que o Bom Deus lançou um véu sobre todos meus defeitos interiores e exteriores. Esse véu, por vezes, traz-me alguns cumprimentos da parte das noviças, sinto que elas não o fazem por adulação, mas que são a expressão de seus sentimentos ingênuos; verdadeiramente isso não poderia me inspirar a vaidade, pois tenho, sem cessar, presente no meu pensamento, a lembrança daquilo que sou. Entretanto, algumas vezes, vem-me um desejo bem grande de ouvir outra coisa que não seja louvores. A senhora sabe, minha Madre bem-amada, que prefiro o vinagre ao adoçar; minha alma também se cansa de um alimento açucarado demais. e Jesus permite, então, que lha sirvam uma boa saladinha, bem avinagrada, bem picante, nada faltando a não ser o óleo, o que lhe dá um sabor especial... Essa boa saladinha me é servida pelas noviças no momento em que menos espero. O bom Deus levanta o véu , que esconde minhas imperfeições, então minhas queridas irmãzinhas, vendo-me tal qual eu sou, não me acham mais perfeitamente a seu gosto. Com uma simplicidade que me encanta, elas me contam todos os combates que lhes provoco, o que lhes desagrada em mim; enfim, elas não se preocupam mais do que se fosse com outra, sabendo que me dão um grande prazer, agindo assim. Ah! verdadeiramente, é mais do que um prazer, é um festim delicioso , que enche minha alma de alegria. Não posso me explicar como uma coisa, que desagrada tanto à natureza, pode causar uma tão grande felicidade; se não a tivesse experimentado, não poderia acreditar... Um dia, no qual desejara particularmente ser humilhada, aconteceu que uma noviça(2) se encarregou tão bem de me satisfazer que logo pensei em Semei, amaldiçoando Davi(3), e me dizia: Sim, é mesmo o Senhor quem lhe ordena me dizer todas essas coisas... E minha alma saboreava deliciosamente o alimento amargo, que lhe era servido com tanta abundância.

 É, assim, que o bom Deus se digna tomar conta de mim. Ele não me dá sempre o pão fortificante da humilhação exterior, mas, de vez em quando, permite me alimentar das migalhas que caem da mesa DOS FILHOS (4). Ah! como sua misericórdia é grande, só poderei cantá-la no Céu...............

 

 (M C, 26v-27v)

 

 

NOTAS

 

(1) -Na verdade, santa Teresinha gozava de certo prestígio entre as irmãs. Assim é que algumas irmãs mais velhas a consultavam de vez em quando. A irmã Maria-Emanuel chegou a dizer que ela tinha tal maturidade que gostaria que fosse Priora, se tivesse mais de 22 anos.

(2) -Essa noviça foi sua própria irmã, Celina, chamada, no mosteiro, de irmã Genoveva.

(3) -II Samuel 16,5

(4) -Marcos 7,28

 

 

30.AMOR QUE ATRAI AMOR

 

 

 O santo é um apaixonado por Deus. Mas sua paixão não é apenas sentimento passageiro. Ele ama , sente-se amado e vive por e para esse amor.

 Teresa de Lisieux nos dá, aqui, uma lição da psicologia do amor. Sua alma, apaixonadamente perdida de amor por Deus, sente-se atraída por Ele, deixa-se atrair e leva consigo outras tantas almas, que, pelo caminho, vai encontrando.

 O amor é comunicativo, entusiasmante, atraente. É assim o amor de Teresinha.

 

 

 Para as almas simples, não necessários meios complicados; como sou desse número, uma manhã, durante minha ação de graças, Jesus me deu um meio simples de cumprir minha missão. Ele me fez compreender esta palavra dos Cânticos: "Atraí-nos, nós corremos ao odor de vossos perfumes"(1). Ó Jesus, não é, pois, mesmo necessário dizer: "Em me atraindo, atrai as almas que amo!" Esta simples palavra:"Atraí-me" basta. Senhor, eu o compreendo, quando uma alma se deixou cativar pelo odor inebriante de vossos perfumes, não poderia correr sozinha, todas as almas, que ela ama, são arrastadas nas suas pegadas; isso se faz sem constrangimento, sem esforço,, é uma conseqüência natural de sua atração por vós. Assim como uma torrente, jogando-se com impetuosidade no oceano, leva consigo tudo quanto encontrou na sua passagem, do mesmo modo, Ó meu Jesus, a alma que mergulha no oceano sem praias de vosso amor, arrasta consigo todos os tesouros que possui...Senhor, vós o sabeis, não tenho absolutamente outros tesouros fora das almas que vos aprouve de unir à minha; esses tesouros fostes vós que mos confiastes, por isso ouso tomar emprestado as palavras que dirigistes ao Pai Celeste, na última tarde que vos viu ainda na terra, viajante e mortal. Jesus , meu Bem-Amado, não sei quando meu exílio terminará...mais de uma tarde deve me ver ainda cantar, no exílio, vossas misericórdias, mas, enfim, para mim virá também a última tarde; então, quisera poder vos dizer, Ó meu Deus: "Eu vos glorifiquei sobre a terra; cumpri a obra que me destes para fazer; fiz conhecer vosso nome àqueles que me destes: eles eram vossos e vós mos destes. É agora que eles sabem que tudo que me destes vem de vós; pois lhes comuniquei as palavras que me comunicastes, eles as receberam e acreditaram que fostes vós que me enviastes. Rezo por aqueles que me destes, porque eles vos pertencem. Não sou mais do mundo; quanto a eles, ainda estão aí e eu volto para vós. Pai Santo, conservai, por causa do vosso nome, aqueles que me destes. Vou, agora, para vós, e é a fim de que a alegria, que vem de vós, seja perfeita neles, que digo isto enquanto estou no mundo. Não vos peço para que os tireis do mundo, mas para que os preserveis do mal. Eles não são absolutamente do mundo, da mesma maneira que não sou mais do mundo. Não é somente por eles que rezo, mas é ainda por aqueles, que crerão em vós por aquilo que eles lhes dirão.

 Meu Pai, desejo que onde eu estiver, estejam comigo aqueles que me destes, e que o mundo conheça que vós os amastes como me amastes a mim mesmo"(2)

 Sim, Senhor, eis o que quisera repetir depois de vós, antes de voar para vossos braços. É, talvez, temeridade? Mas, não, desde muito tempo me permitistes ser audaciosa convosco. Como o pai do filho pródigo, falando a seu filho mais velho, dissestes-me: "Tudo que é meu, é teu"(3). Vossas palavras, ó Jesus, são minhas e posso me servir delas para jogar sobre as almas, que me são confiadas, os favores do Pai Celeste. Mas, Senhor, quando digo que, onde eu estiver, desejo que os que me foram dados por vós ai também estejam, não pretendo que eles não possam chegar a uma glória bem mais elevada do que aquela que vos aproverá de me conceder, quero pedir simplesmente que, um dia, estejamos todos reunidos no vosso belo Céu. Vós o sabeis, ó meu Deus, jamais desejei outra coisa a não ser vos amar, não ambiciono outra glória. Vosso amor me preveniu desde minha infância, cresceu comigo, e, agora, é um abismo, cuja profundidade não posso sondar. Amor atrai amor, por isso, meu Jesus, o meu se lança para vós, ele queria encher o abismo que o atrai, mas ah! não é mesmo uma gota de orvalho perdida no oceano!... Para vos amar como me amais, é preciso que tome emprestado vosso próprio amor, só então encontro repouso. Ó meu Jesus, é talvez uma ilusão, mas me parece que não podeis cumular uma alma com mais amor do que cumulastes a minha; é, por isso, que ouso vos pedir para amar os que me destes como me amastes. Um dia, no Céu, se descubro que as amais mais do que a mim, alegrar-me-ei, reconhecendo, desde agora, que essas almas merecem vosso amor muito mais do que a minha; mas, aqui, na terra, não posso conceber uma maior imensidade de amor do que aquela que vos aprouve me prodigar, gratuitamente, sem nenhum mérito de minha parte (4).

 Minha Madre querida, enfim volto a vós; estou muito admirada com o que acabo de escrever, porque não tinha a intenção, e já que está escrito, é preciso que fique...

 Minha Madre, creio que é ainda necessário que lhe dê algumas explicações sobre a passagem do Cântico dos Cânticos: - "Atraí-me, nós corremos", pois, o que quis dizer sobre isso me parece pouco compreensível. "Ninguém, disse Jesus, pode vir a mim se o Pai, que me enviou, não o atrair"(5). Em seguida, mediante sublimes parábolas e mesmo sem usar esse meio tão familiar ao povo, Ele nos ensina que basta bater para que abram, procurar para encontrar e estender, humildemente, a mão para receber o que se pede...Ele diz ainda que, tudo que se pede a seu Pai em seu nome, Ele o concede. É por isso, sem dúvida, que o Espírito Santo, antes do nascimento de Jesus, ditou esta prece profética: Atraí-me, nós corremos.

 Que é, pois, pedir para ser Atraído, senão para se unir, de uma maneira íntima, com o objeto que cativa o coração? Se o fogo e o ferro tivessem inteligência e se esse último dissesse ao outro: Atrai-me, não provaria que desejava se identificar com o fogo de maneira que o penetrasse e o embebesse com sua ardente substância e que parecesse não fazer senão um com ele? Madre bem-amada, eis aí minha oração, peço a Jesus para me atrair para as chamas de seu amor, para me unir tão estreitamente a Ele, que Ele viva e aja em mim. Sinto que quanto mais o fogo do amor queimar meu coração, tanto mais direi: Atraí-me,tanto mais também as almas que se aproximarem de mim (pobre pedacinho de ferro inútil, se me afastasse da fornalha divina), correrão, rapidamente, ao odor dos perfumes de seu Bem-Amado,pois uma alma embrasada de amor não pode ficar inativa; sem dúvida, como santa Madalena, ela fica aos pés de Jesus, escuta sua palavra doce e inflamada. Parecendo não dar nada, dá muito mais que Marta, que se atormenta com muitas coisas e queria que sua irmã a imitasse.Jesus não censura os trabalhos de Marta, a esses trabalhos sua divina Mãe se submeteu, humildemente, durante toda sua vida, pois que devia preparar as refeições da Sagrada Família. É somente a inquietação de (6) sua ardente hospedeira que queria corrigir. Todos os santos o compreenderam e, mais particularmente, talvez aqueles que encheram o universo com a iluminação da doutrina evangélica. Não foi verdadeiramente na oração que os santos Paulo, Agostinho, João da Cruz, Tomás de Aquino, Francisco, Domingos e tantos outros ilustres Amigos de Deus beberam essa ciência Divina, que encanta os maiores gênios? Um Sábio disse: "Dai-me uma alavanca, um ponto de apoio, e eu levantarei o mundo". O que Arquimedes não pôde obter, porque seu pedido não se endereçava a Deus e porque era feito só no ponto de vista material, os Santos obtiveram em toda sua plenitude. O Todo-Poderoso lhes deu por ponto de apoio: ELE MESMO e Só ELE; por alavanca: A oração, que abrasa como um fogo de amor, e foi assim que eles levantaram o mundo; é assim que os Santos, ainda militantes, o levantam e que, até o fim do mundo, os Santos vindouros o levantarão também.

 Minha Madre querida, agora quisera lhe dizer o que entendo pelo odor dos perfumes do Bem-Amado. -Uma vez que Jesus subiu ao Céu, não posso segui-lo a não ser pelas pegadas que deixou, mas como essas pegadas são luminosas, como são perfumadas! Devo apenas lançar os olhos sobre o Santo Evangelho e logo respiro os perfumes da vida de Jesus e sei por que lado correr... Não é no primeiro lugar, mas no último que me lanço; em lugar de avançar como o fariseu, repito, cheia de confiança, a humilde prece do publicano; mas, sobretudo, imito a conduta de Madalena, sua admirável ou, antes, sua amorosa audácia, que encanta o Coração de Jesus, seduz o meu. Sim, eu o sinto, mesmo quanto tivesse na consciência todos os pecados que se pode cometer, iria, o coração partido de arrependimento, jogar-me nos braços de Jesus, pois sei quanto ele quer o filho pródigo, que volta para Ele. Não é porque o bom Deus, na sua previdente misericórdia, preservou minha alma do pecado mortal, que me elevo até Ele pela confiança e pelo amor.

 

 

NOTAS

 

(1) -Cântico dos Cânticos 1,3.

(2) -João 17,4 ss. Como quase sempre, Teresa faz citações muito livres.

(3) -Lucas 15,31

(4) -Santa Teresinha entra, aqui, mais uma vez, numa questão teológica muito discutida entre católicos e protestantes, isto é, a questão dos méritos do homem diante de Deus. O protestantismo nega que o homem possa ter possibilidade de ter algum mérito diante de Deus. Segundo Lutero, a salvação é só pela graça. O catolicismo, de sua vez, afirma que o homem, por graça divina, pode e deve ter algum mérito, embora tudo seja graça de Deus. Teresinha é filha da Igreja e, embora ela ressalte sempre que não tem mérito, viveu segundo todos os postulados católicos,para que alguém tenha algum mérito diante de Deus. Teresa, na sua humildade e também na sua paixão amorosa por Deus, recorre apenas a essa linguagem, que é fruto da seu amor desinteressado, afirmando que seu amor não está preocupado com mérito. Em suma, Teresa ressalta o outro lado da questão, proposta pela teologia católica, isto é, que, no fundo, tudo é graça, embora o homem deva colaborar com essa graça divina.

(5) -João 6,44.

(6) -Aqui, Teresinha não pôde mais levantar a caneta e foi obrigada a escrever a lápis. É impressionante ver nos seus "Manuscritos" a letra, já toda deformada, que a Santa emprega num esforço tremendo para conseguir escrever mais algumas palavras. É admirável ver como uma pessoa, já tão debilitada pela doença e sofrendo tanto, possa escrever coisas tão lindas e tão sublimes.

 

31.O SONHO DA MONTANHA

 

 

 As Cartas de Santa Teresinha merecem um estudo à parte. Com efeito, ai nossa Santa, falando mais simplesmente ainda e com as pessoas a quem ela quer um bem enorme, abre seu coração e descreve sentimentos, expõe idéias e ensina a sua espiritualidade da simplicidade, da confiança, do abandono e do amor. Por outro lado, enquanto o leitor vai seguindo a caminhada de Teresinha, pode, ao mesmo tempo, acompanhá-la mos seus mais profundos sentimentos, como amor, saudade, tristeza, provação na fé,etc.

 Estes textos de uma carta de Teresa, datada de março de 1888, mostra sua vontade imensa de subir a montanha do Carmelo e, ao mesmo tempo, como ela sofreu para realizar seu ideal. Digno de nota é a visão clara que ela já define para sua missão espiritual na vida de carmelita:dar-se todinha a Deus; sofrer por Ele; ação missionária na procura de colaborar no mistério da redenção dos homens.

 

 

 Ó Paulina! é bem verdade que é preciso que a gota de fel se misture em todos os cálices, mas acho que, as provações ajudam muito a se desapegar da terra, elas fazem olhar mais alto do que este mundo. Aqui, na terra, nada pode nos satisfazer, só se pode gozar um pouco de repouso, quando se está pronto a fazer a vontade do Bom Deus.

 O meu barquinho tem dificuldade para chegar ao porto, faz tempo que percebo a margem e sempre me encontro distante; mas, é Jesus que guia meu naviozinho e estou segura de que no dia em que ele quiser,poderá fazê-lo chegar, felizmente, ao porto. ó Paulina! quando Jesus me tiver posto na praia bendita do Carmelo, quero me dar toda inteira a Ele, só quero viver para ele Oh! não, não temerei seus golpes, pois, mesmo nos mais amargos sofrimentos, sente-se sempre que é sua doce mão, eu a senti muito bem em Roma no momento exato, em que acreditei que a terra teria podido desaparecer sob meus pés.

 Não desejo senão uma coisa, quando estiver no Carmelo, é sofrer sempre por Jesus. A vida passa tão depressa, que verdadeiramente vale mais ter uma belíssima coroa e um pouco de mal do que ter uma ordinária sem nenhum mal. E,depois, quando penso que, por um sofrimento suportado com alegria, amar-se-á mais a Deus, por toda a eternidade! Ademais, sofrendo, pode-se salvar as almas. Ah! Paulina se, no momento de minha morte, pudesse ter uma alma para oferecer a Jesus, como seria feliz, haveria uma alma que seria arrancada ao fogo do inferno e que bendiria a Deus por toda a eternidade!

 

 

32.ELE PEDE TUDO!

 

 

 As passagens, que seguem, são de uma carta de Teresinha, dirigida a Celina e datada de 23 de julho de 1888. A Santa já está no Carmelo. Ela tem, agora, um grande desejo: trazer também Celina para o Mosteiro.Nessa intenção, ela vai escrever, com certa sofreguidão, muitas vezes, a sua irmã, tentando ajudá-la a se libertar de tudo que possa impedir sua entrada no Carmelo.

 Ao mesmo tempo, Teresa expõe, aqui e acolá, seus temas prediletos, como, a fugacidade da vida, o sofrimento e a glória eterna, as exigências do amor a Deus.

 No texto,é relevante a idéia de que Deus pede tudo. Essa idéia, tão carmelitana, é conseqüência também de toda a espiritualidade teresiana do amor.

 

 

 Jesus pede tudo a seus dois lírios, ele não quer lhes deixar nada além dos seus vestidos brancos, TUDO, a Imortal(1) compreendeu sua irmãzinha?...

 A vida, muitas vezes, é pesada, que amargura...mas, que doçura!Sim, a vida custa, é penoso começar um dia de labor,o fraco botão o sentiu como o belo lírio; se, ao menos, se sentisse Jesus, oh! far-se-ia muito bem tudo para ele, mas, não, ele parece estar a mil léguas, estamos sozinhas conosco mesmas. Oh! que enfadonha companhia, quando Jesus não está lá. Mas, que faz, pois, esse doce amigo? Ele não vê nossa angústia, o peso que nos oprime? Onde está ele? Por que não vem nos consolar, já que só temos ele como amigo? Ah! ele não está longe, está aí, bem perto, e nos olha, nos mendiga essa tristeza, essa agonia, ele tem necessidade dela para as almas, para nossa alma, quer nos dar uma recompensa muito bela, suas ambições para nós são tão grandes!Mas, como ele dirá: "minha vez"(2), se a nossa não chegou, se não lhe demos nada. Ah! custa-lhe saciar-nos de tristezas, mas ele sabe que é o único meio para nos preparar a "conhecê-lo como ele se conhece e a tornarmo-nos Deuses nós mesmos"(3). Oh! que destino! Como nossa alma é grande!

 Elevemo-nos acima do que passa, fiquemos a distância da terra, mais alto, o ar é puro! Jesus se esconde,mas advinha-se, derramando lágrimas enxugam-se as suas e a Santíssima Virgem sorri, pobre Mãe, sofreu tanto por nossa causa, é justo que a consolemos um pouco, chorando e sofrendo como ela...

 Li, esta manhã, uma passagem do Evangelho, em que se diz:Não vim trazer a paz, mas a Espada"(4).Só nos resta combater, quando não tivermos a força, é,então, que Jesus combate por nós...Ponhamos, juntas, o machado à raiz da árvore...

..................................................

 Jesus te pede TUDO,TUDO.TUDO, tanto quanto pode pedir aos maiores Santos.

 

 (LT 57)

 

 

NOTAS

 

(1) -Nome atribuído a Celina por irmã Inês de Jesus.

(2) -Sentença muita querida por Teresa. É tirada do livro do Padre Arminjon, "Fim do mundo presente e mistérios da vida futura"(2ª ed.,São Paulo,1882).Nos Manuscritos, aparece o entusiasmo de Teresinha por esse livro, que exerceu muita influência na sua adolescência e até mesmo durante toda sua vida.

(3) -Cfr. Arminjon, op.cit.p.290.

(4) -Mateus 10,34.

 

 

33.O AMOR PODE TUDO!

 

 

 A espiritualidade de Teresinha inclui, além dos temas básicos, uma gama de idéias, que são,também, fundamentais, para se poder compreender todo o edifício, proposto por ela. Assim, é que, como conseqüência do amor, linha mestra do pensamento teresiano, estão alguns temas, que aparecem na carta que segue, dirigida a Celina, aos 20 de outubro de 1888.

 Com efeito, aqui aparecem, entre outras coisas, as idéias da unidade com Jesus; a força do amor, que nos ajuda a superar qualquer obstáculo; o valor do sofrimento e o despojamento de tudo, que não seja o ideal, ou seja, Deus. Teresa insiste sempre nessas idéias básicas, sobretudo quando escreve a Celina, que será, mesmo antes de entrar no Carmelo, sua grande discípula.

 

 

 É, pois, amanhã o dia da festa (1). Oh! como quisera ser a primeira a te felicitar. Se isso não é possível, pelo menos posso fazê-lo no meu coração. Para tua festa, que queres que te ofereça? Se desse ouvidos a mim mesma, pediria a Jesus para me enviar todos os desgostos, todas as tristezas, os aborrecimentos da vida de minha Celina querida, mas veja, eu não me dou atenção, pois teria medo que, Jesus me diga que sou uma egoísta; quereria que ele me desse tudo o que há de melhor, sem deixar um pouco para sua noivinha, que ama tudo. É para lhe provar seu amor, que lhe faz sentir a separação(2), por essa razão, não posso pedir isso a Jesus. E, mesmo, ele é tão rico, tão rico, que tem muita coisa com que nos enriquecer a nós duas....

 Quando se pensa que, se o bom Deus nos desse o universo inteiro, com todos seus tesouros, isso não seria comparável ao mais leve sofrimento! Que graça, quando, de manhã, não sentimos nenhuma coragem, nenhuma força para praticar a virtude, é, então,o momento de por o machado à raiz da árvore, ao invés de perder seu tempo a ajuntar palhazinhas, se extraem diamantes. Que proveito no fim do dia!... é verdade que, algumas vezes, deixamos, durante alguns instantes, de ajuntar nossos tesouros, é , então, o momento difícil em que se é tentado a deixar tudo, mas, em um ato de amor, mesmo não sentido, tudo fica reparado e muito mais, Jesus sorri,ajuda-nos sem dar a impressão de fazê-lo e as lágrimas, que os maus lhe fazem derramar, são enxugadas pelo nosso pobre e fraco amorzinho. O amor pode fazer tudo, as coisas mais impossíveis não lhe parecem difíceis. Jesus não olha tanto a grandeza das ações, nem mesmo as suas dificuldades, quanto ao amor que faz fazer esses atos...

 Encontrei, há algum tempo, uma palavra que acho muito bela. Ei-la, creio que te dará prazer:"A resignação é ainda distinta da vontade de Deus, há nisso a mesma diferença que existe entre a união e a unidade. Na união se é ainda dois, na unidade só se é um"(3).Oh! sim, sejamos apenas um com Jesus, desprezemos tudo que passa, nossos pensamentos devem se elevar para o Céu, porque está lá a morada de Jesus. Pensei, outro dia, que não devemos nos apegar àquilo que está a nossa volta, pois poderíamos estar em outro lugar que não aquele em que estamos, nossas afeições e nossos desejos não seriam os mesmos...

 

 (LT 65)

 

NOTAS

 

 

(1) -Teresa se refere ao onomástico de Celina, pois se comemorava o dia litúrgico de Santa Celina, companheira de Santa Genoveva.

(2) -A separação da própria Teresa, que já estava no Carmelo.

(3) -O pensamento é de Madame Swetchine. Esse pensamento ajudou muito nossa Santa durante a doença do senhor Martin.

 

 

34.SECURA E SONO

 

 Nesta carta, datada, provavelmente, do dia 6 de janeiro de 1889, quando Teresa fazia seu retiro de três dias para a sua Tomada de Hábito, no dia 9 do mesmo mês, voltam temas prediletos de nossa Santa. Todavia, aqui, como sempre acontece nas Cartas, o estilo é tão humano, tão simples, tão livre, que a espiritualidade existencial e vivida de Teresa vem até nós com um peso maravilhoso, isto é, o peso da fraqueza e das dificuldades humanas.

 Teresa retoma a temática da "bolinha", mas, agora, a bolinha está num total abandono espiritual, isto é, ela está sofrendo as conseqüências de sua fraqueza. Por outro lado, Jesus dorme também, como ela. Mas, apesar de tudo, a Santa insiste no seu completo abandono nas mãos de Deus; no seu desapego das criaturas, na sua vontade irresistível de só fazer a vontade de Deus.

 Em suma, este texto é rico e belo, porque a grande Santa aparece bem semelhante a nós.

 

 

 Peça (1) a Jesus que eu seja bem generosa durante meu retiro.Ele me criva de picadas de alfinete, a pobre bolinha não pode mais, de todos os lados ela tem buraquinhos, que a fazem sofrer mais do que se ela só tivesse um grande!...Nada, junto de Jesus, secura!... Sono!... Mas, pelo menos, é o silêncio!...o silêncio faz bem à alma...Mas, as criaturas, oh! as criaturas!... A bolinha estremece ao pensar nelas!... Compreenda o brinquedo de Jesus!... Quando é o próprio doce amigo, que pica sua bolinha, o sofrimento só é doçura, sua mão é tão doce!... Mas, as criaturas!... As que estão a minha volta são muito boas, mas há não sei o quê que me repele!...Não posso lhe dar explicação, compreenda sua alminha. Estou, contudo, MUITO feliz, feliz por sofrer o que Jesus quer que sofra, se ele não pica diretamente sua bolinha, é certamente ele que sustenta a mão de quem o faz!...Visto que Jesus quer dormir, por que eu o impedirei? Estou demasiado feliz porque ele não se preocupa comigo, mostra-me que não sou uma estrangeira ao me tratar assim, pois lhe asseguro que ele não se importa para vir conversar comigo!...(2)

 Se a senhora soubesse quanto quero ser indiferente às coisas da terra! Que me importam todas as belezas criadas? Seria infeliz, se as possuísse, meu coração seria vazio!...É incrível como meu coração me parece grande, quando considero todos os tesouros da terra, pois que vejo que, todos reunidos, não poderiam contentá-lo, mas, quando considero Jesus, como me parece pequeno... Quisera amá-lo tanto!Amá-lo mais do que jamais foi amado!...Meu único desejo é fazer sempre a vontade de Jesus, enxugar as lagrimazinhas que os pecadores lhe fazem derramar!... Oh! não quero que Jesus sofra no dia de meu noivado, quisera converter todos os pecadores da terra e salvar todas as almas do purgatório...

 O Cordeiro de Jesus vai sorrir, vendo esse desejo do grãozinho de areia!...(3) Sei que é uma loucura, contudo quisera que assim fosse, a fim de que Jesus não tenha uma só lágrima para derramar.

 Reze para que o grão de areia se torne um ÁTOMO sensível somente aos olhos de Jesus!...

 (LT 74)

 

 

NOTAS

 

(1) -Esta carta foi dirigida à Irmã Inês de Jesus.

(2) -Aqui, aparece o estado de alma de nossa Santa. Por outro lado, aparece também a vontade de Teresa em fazer sempre a vontade Deus, mesmo que não tenha disposição sensível. Os místicos explicam esses estados de secura. No caso de nossa Santa, parece que se trata, também, de um estado natural, que todos sentem, algumas vezes. Santa Teresinha não se apavora com essas coisas, que ela não quer, nem procura. Mas, também não desanima, nem se acomoda. Ela simplesmente continua sua vida de esforço, de luta, mas tudo na paz e no amor.

(3) -Assim, nossa Santa se denomina muitíssimas vezes, sobretudo nas suas Cartas. A expressão é rica de significado pela humildade que quer dizer.Ser pequeno, para Teresinha, é a base de sua caminhada de amor.

 

 

35.CORAÇÃO SENSÍVEL

 

 

 Santa Teresinha está nas vésperas de sua Tomada de Hábito, quando escreve esta carta à Irmã Inês de Jesus. Era o dia 7 de janeiro de 1889. Ela está com 16 anos de idade. Sua caminhada, porém, já está muito além desses poucos anos de vida. Todavia, não é uma caminhada excepcional, quase extravagante. Teresa caminha como qualquer um dos mortais, só que ela ama, ama com toda a intensidade de seu coração e com esse amor ela voa na sua intimidade e união com Deus.

 Porém, fica sempre bem humana e, por isso, sente as securas, as faltas de consolação espiritual. Encontra, todavia, nisso tudo um élan para amar ainda mais.

 Há um ponto, porém, que a Santa sublinha sempre: o desapego das criaturas. Ela sabe que tem um coração sensível, amoroso. Poderia, de fato, se apagar a qualquer coisa, que lhe desse qualquer sombra de felicidade. Luta para esse desapego, porque só quer mesmo a Deus e, por Ele e nEle, é que amará todas as criaturas.Esse desapego, tão apregoado por São João da Cruz, é fundamental, para que a pessoa fique livre e possa realmente voar.Com efeito, um passarinho, mesmo amarrado apenas por um fio de cabelo e numa só perninha, jamais conseguirá ser livre e voar.

 

 

 A senhora compreende alguma coisa da conduta de Jesus?...Bem que lhe dizia eu que, as crianças não sabem o que querem, Jesus age assim com sua bolinha. Ela achou, sem dúvida, que a data de 9 era por demais encantadora, ele não quer nada de encantador para ela!...(1) Eu sei muito bem por quê, é que somente ele é encantador em toda a FORçA do termo, e ele quer mostrar a sua bolinha, que ela se enganaria se procurasse, noutro lugar, uma sombra de beleza, que tomasse pela beleza mesma!...

 Como é bom para mim aquele que será, em breve, meu noivo! Como é divinamente amável ao querer não me permitir me apegar a NENHUMA coisa criada, ele sabe muito bem que, se me desse somente uma sombra de FELICIDADE, eu me apegaria a ela com toda a energia, toda a força do meu coração, essa sombra ele me recusa, prefere me deixar nas trevas do que me dar um falso clarão, que não seria ele!...Visto que não posso encontrar nenhuma criatura,que me contente(2), quero dar tudo a Jesus, não quero dar à criatura nem um átomo de meu amor, possa Jesus me fazer sempre compreender que, somente ele é a felicidade perfeita, mesmo quando parece ausente!...

 Hoje, mais do que ontem, se isso é possível, estive privada de qualquer consolação. Agradeço a Jesus que acha isso bom para minha alma, e, mesmo, talvez, se ele me consolasse, eu parasse nessas doçuras, mas ele quer que tudo seja para ele!... Pois bem, tudo será para ele, tudo, mesmo quando não sentir nada para poder lhe oferecer, então, como hoje à tarde, oferecer-lhe-ei esse nada!...

 Se Jesus não me dá consolação, ele me dá uma paz tão grande, que me faz mais bem!...

 Reze, para que sua filhinha não recuse a Jesus um átomo do seu coração.

 

 (LT 76)

 

NOTAS

 

(1) -A Santa se refere à mudança de data da sua Vestição de Hábito. Por motivo da morte do Vigário Geral honorário, o Bispo mudou o dia da Tomada de Hábito de Teresa para 10 de janeiro. Na verdade, essa cerimônia já fora bastante adiada, por causa da doença do senhor Martin. Teresa adorara a data de 9 de janeiro, porque os nove meses desde sua entrada no Carmelo correspondiam aos nove meses da permanência de Jesus no seio de Maria. A mudança repentina tocou a sensibilidade de Teresa, embora ela saiba logo tirar proveito do acontecido.

(2) -Aqui, a aparecem o coração humano de Teresa e a consciência existencial da Santa diante de seu próprio ser. Ela sabe que coração possui; sabe perfeitamente quem é; aceita a realidade; não tem vergonha nem cerimônia em declarar sua sensibilidade e suas tendências humanas, mas, ao mesmo tempo, numa perfeita harmonia, procura dirigir todo o manancial de amor e sensibilidade humana para a própria Beleza e a própria Felicidade, que é Deus.

 

 

36.A PÁTRIA!... A PÁTRIA!...

 

 

 Para olhos pagãos, pode parece doentio o sonho constante de Teresa com o céu. A Santa, a cada passo de suas Cartas, exclama, pressurosa, pela Pátria, com que tanto sonha. Na verdade, não se trata de uma válvula de escape, ou de um estado doentio.Teresa era perfeitamente equilibrada. Nela, havia uma harmonia, quase perfeita, entre o humano e o divino; entre o corpo e o espírito.

 Para se entender esse grito constante pelo Céu, é preciso lembrar que, Teresinha foi, pouco a pouco, se apegando tanto a Deus pelo amor, que quase já vivia sonhando com a Casa do Pai, o céu. Por outro lado, não podemos negar que, sem nenhum índice de desequilíbrio, nossa Santa encontrou no pensamento do céu, como ensina São Pedro, um motivo forte para superar os sofrimentos passageiros desta vida. Assim, na esperança da Pátria, mesmo quando essa esperança não era sentida, Santa Teresa de Lisieux encontrou o bálsamo para aliviar suas dores e, ao mesmo tempo, uma razão para enfrentar dificuldades e obstáculos, inclusive os sofrimentos, já que havia sempre a esperança de que tudo passaria e chegaria, um dia, o momento do regresso à Casa do Pai, onde não haverá mais choro e ranger de dentes, mas só paz, alegria e amor.

 

 

 ...o brinquedo de Jesus é a própria fraqueza, se Jesus não o leva, ou não jogo ele próprio sua bolinha, ela ficará inerte no mesmo lugar!

 Mais um dia e serei a Noiva de Jesus, que graça!...(1) Que fazer para agradecê-lo, para me tornar menos indigna de um tal favor?...

 Oh! a pátria...a pátria!...(2) Como tenho sede do Céu, lá onde se amará Jesus sem reserva!...

 Mas, é preciso sofrer e chorar para lá chegar...pois bem,quero sofrer tudo o que aprouver a Jesus e deixá-lo fazer o que quiser de sua bolazinha.

 

 (LT 79)

 

NOTAS

 

(1) -Este bilhete foi escrito no dia 8, ou 9, de janeiro, de 1889, e foi dirigido a irmã Maria do Sagrado Coração.

(2) -Essas palavras estão cheias de lembranças na intimidade da Família Martin. Encontram-se vários documentos,de pessoas diferentes, que repetem essas mesmas palavras, cheias de suspiro pelo céu. Isso demonstra a atmosfera familiar Martin, onde se insistia, realmente, com o pensamento das coisas do alto, como aconselha São Paulo(Col 3,1-4; Fil 3,20-21).

 

 

 

 

37.SOFRIMENTO, PROVA DO AMOR

 

 

 Nesta carta,de 28 de fevereiro de 1889, quando Santa Teresinha já estava no Noviciado, aparece mais uma de suas grandes mensagens, a saber, quando alguém sofre muito, apesar de ser um grande amigo de Jesus, é prova de que é amado por Deus. Teresa repetirá muito a idéia de que a mão de Jesus é chagada e molhada de sangue e que, portanto, quem ela toca ou aperta, fica também molhado de sangue.

 O sofrimento, então, recebido com generosidade, é prova da predileção de Deus. Há aí um pensamento totalmente contrário ao pensar comum das pessoas, que não entendem o mistério da cruz, sobretudo quando se trata de uma pessoa muito boa. Há sempre uma associação entre dor e castigo, quando, pelo mistério da cruz de Cristo, o sofrimento deve ser visto como prova de amor, como meio de expiação, como caminho de redenção, como nos diz a Escritura (Heb 9,22).

 

 ...Jesus é um esposo de sangue(1)...Ele quer para Ele todo o sangue do coração...

 Ah! irmãzinha querida(2), longe de me lamentar a Jesus pela cruz que nos envia, não posso compreender o amor infinito que o levou a nos tratar assim... É preciso que nosso Pai querido seja muito amado por Jesus por ter que sofrer assim, mas não acha você que a infelicidade, que o fere, é justamente o complemento de sua bela vida?... Sinto que, digo verdadeiras loucuras, mas não importa, penso ainda muitas outras coisas sobre o amor de Jesus, que são, talvez, muito mais fortes do que o que lhe digo...Que felicidade ser humilhada, é o único caminho que faz os santos!... Podemos duvidar, agora, da vontade de Jesus sobre nossas almas?... A vida é apenas um sonho, logo nos acordaremos, e que alegria!... Quanto mais nossos sofrimentos são grandes, tanto mais nossa glória será infinita...Oh! não percamos a provação que Jesus nos envia, é uma mina de ouro a ser explorada, perderemos a ocasião?...O grão de areia quer se por à obra, sem alegria, sem coragem,sem força e são todos esses títulos que lhe facilitarão a empresa(3), ele quer trabalhar por Amor.

 É o Martírio que começa...

 

 (LT 82)

 

 

NOTAS

 

(1) -Essa expressão tornou-se conhecida no Carmelo mediante o Pe.Pichon.Outras irmãs também a usaram.

(2) -Esta carta é dirigida a Celina, que se encontrava em Caen, para cuidar do Sr. Martin, cujo estado de saúde tinha se agravado.

(3) -Esse é o pensamento do apóstolo Paulo (I Cor 1,25; II Cor,12,10; Fil 4,13)

 

 

38.PAZ E ALEGRIA

 

 

 Nesta carta, dirigida a Celina e escrita aos 4 de abril de 1889, nossa Santa, apesar de toda a sublimação do documento anterior, confessa sua fraqueza, ou seja, sua tristeza humana diante do sofrimento de seu pai.

 Além dessa belíssima confissão de sentimento humano, tão natural em qualquer criatura, há uma grande lição neste texto, a saber, a relação existente entre sofrimento,a paz e a alegria. Teresa não confunde as coisas. Cada uma está no seu devido lugar. É preciso sofrer sempre em paz, mas paz não quer dizer, diretamente, alegria, pelo menos alegria sentida.Ou seja, para se estar em paz não é preciso sentir alegria. Mesmo sofrendo sensivelmente, podemos e devemos estar em paz. Esse pensamento será repetido,mais tarde, quando nossa Santa estiver muito doente. Ele é rico, profundo e humano. Não é preciso, pois, deixar de ser criatura humana para estar em paz, durante o sofrimento.O segredo de tudo é o amor.

 

 Sua carta pôs uma grande tristeza na minha alma! Pobre Paizinho!... (2) Não, os pensamentos de Jesus não são os nossos e seus caminhos não são os nossos caminhos...(2)

 Ele nos apresenta um cálice tão amargo quanto nossa fraca natureza o pode suportar!... Não retiremos nossos lábios desse cálice preparado pelo mão de Jesus...

 Vejamos a vida sob seu dia verdadeiro...É um instante entre duas eternidades... Soframos em paz!...

 Confesso que essa palavra paz me parecia um pouco forte, mas, outro dia, refletindo sobre isso, encontrei o segredo de sofrer em paz... Quem diz paz não diz alegria, ou, pelo menos, alegria sentida...Para sofrer em paz, basta querer mesmo tudo o que Jesus quer... Para ser a esposa de Jesus, é preciso assemelhar-se a Jesus; Jesus está todo ensangüentado, está coroado de espinhos!...

 Não, não cantemos os cânticos do Céu às criaturas...mas, como Cecília, cantemos no nosso coração um cântico melodioso a nosso bem-amado!...(3)

 O cântico do sofrimento unido a seus sofrimentos é o que encanta mais seus coração!...

 Jesus arde de amor por nós...olhe sua Face adorável!... Olhe seus olhos apagados e abaixados! Olhe essas chagas...Olhe Jesus na sua Face...Aí verá como ele nos ama.

 

 (CT 87)

 

NOTAS

 

(1) -Entre os dias 15 e 23 de março, o sr. Martin teve certa melhora, devida a um xarope, mas logo a melhora passou e no final do mês a situação é grave.

(2) -Cf. Isaías 55,8

(3) -Esse é o pensamento de Santo Agostinho, em um dos seus Comentários sobre os Salmos, que é lido justamente na festa litúrgica de Santa Cecília.

 

 

39.SANTIDADE!? QUE É?

 

 

 Há dois pontos interessantes da mensagem teresiana nesta carta dirigida a Celina, para cumprimentá-la pelos seus vinte anos de idade, aos 26 de abril de 1889. O primeiro é a relação, que nossa Santa faz, entre o amor e sofrimento, tema, aliás, sumamente debatido e estudado em toda sua correspondência. O segundo é a posição de Santa Teresinha sobre o conceito, ou a essência mesma de santidade. Aqui, a Santa une santidade com sofrimento. Isso pode espantar muita gente, justamente por dois motivos. Primeiro, porque considera a espiritualidade teresiana como flor de laranja e, portanto, alienada e alienante, o que, diga-se logo, é prova de ignorância. Segundo, porque Teresa vai muito além do que se costuma dizer sobre a santidade. Ela enxerga claro e define a santidade pelo que ela exige em última análise, isto é, uma verdadeira revolução. Portanto, sem sangue, sem dor, sem sofrimento, não pode haver conversão, mudança de vida, opção verdadeira por Deus, em uma palavra,amor profundo, sincero, autêntico e completo por Deus e pelos homens.

 

 Sim, Jesus tem suas preferências. Há no seu jardim frutos que o Sol de seu amor amadurece quase num abrir e fechar de olhos... Por que somos desse número? ...Questão cheia de mistério... Que razão Jesus pode nos dar? Ah! sua razão é que ele não tem razão!...Celina!...usemos da preferência de Jesus, que nos ensinou tantas coisas em poucos anos; não negligenciemos nada do que pode lhe dar prazer!...Ah! deixemo-nos bronzear pelo Sol de seu amor!...São Francisco de Sales diz: "Quando o fogo do amor está em um coração, todos os móveis voam pelas janelas"(1) Oh! não deixemos nada...nada no nosso coração senão Jesus!...

 Não creiamos poder amar sem sofrer, sem sofrer muito...nossa pobre natureza é assim! e ela não é assim para nada!... É nossa riqueza, nosso ganha pão!... Ela é tão preciosa, que Jesus veio à terra expressamente para possuí-la.

 Soframos com amargura, sem coragem!... (Jesus sofreu com tristeza! Sem tristeza será que a alma sofreria?...)(2). E nós queríamos sofrer generosamente, grandemente!...Celina! que ilusão!... Queríamos jamais cair?... Que importa, meu Jesus, se caio a cada instante, vejo assim minha fraqueza e é para mim um grande ganho...Vós vereis,assim, o que posso fazer e, agora, sereis mais tentado a me levar nos vossos braços...Se não fazeis assim é que vos agrada me ver por terra... então, não vou me inquietar, mas estenderei sempre para vós os braços suplicantes e cheio de amor!... Não posso acreditar que me abandonais!...

 (Os Santos, quando estavam aos pés de Nosso Senhor, é então que encontravam sua cruz)!...(3)

 Se você conhecesse minha miséria!... oh! se você soubesse... A Santidade não consiste em dizer belas coisas, ela não consiste nem mesmo em pensá-las, em senti-las!... ela consiste em sofrer e em sofrer de tudo. (A Santidade! é preciso conquistá-la à ponta de espada, é preciso sofrer... é preciso agonizar)!...(4)

 Um dia virá em que as sombras desaparecerão e, então,só ficará a alegria, o inebriamento...

 Aproveitemos de nosso único momento de sofrimento!... vejamos apenas cada instante!... um instante é um tesouro...(5)um só ato de amor far-nos-á conhecer melhor a Jesus...ele nos aproximará dEle por toda a eternidade!... (CT 89)

 

NOTAS

 

(1) -Frase citada pelo Pe.Pichon, na segunda instrução, do sétimo dia de retiro, precisamente no dia 13 de outubro de 1887.

(2) -Citação do Pe.Pichon,no retiro do ano de 1887.

(3) -Citação do Pe.Pichon, do retiro de maio de 1888.

(4) -Citação do Pe.Pichon, no retiro de maio de 1888.

(5) -Essa idéia de sofrer a cada instante, sem a preocupação do que virá depois, vai aparecer em uma das belas poesias de Santa Teresinha, que se encontra neste livro à página . É uma idéia riquíssima tanto espiritual, quanto psicologicamente. Na verdade, o sofrimento, por gotas, está proclamado por Jesus (Mt 6,34) e é, realmente, um antídoto humano ao desespero e à angústia,sobretudo em momentos muito dolorosos da nossa vida.

 

 

40.O MARTÍRIO DO ESCRÚPULO

 

 

 O escrúpulo, verdadeiramente, é uma anomalia psicológica muito perigosa para a vida espiritual. Ele pode criar um mundo fantástico, no qual a pessoa se perde de tal maneira que pode chegar às raias da loucura. E o pior de tudo é que o escrúpulo, ao invés de aproximar a pessoa de Deus, distancia-a, podendo até afastá-la quase completamente.

 Teresinha sofreu o mal do escrúpulo. Foi feliz por ter podido superá-lo. Posteriormente, com seu crescimento no amor, compreendeu que o amor traz liberdade, e, não, opressão e angústia.

 Nesta carta, dirigida a sua prima, Maria Guérin, datada de 30 de maio de 1889, ela se mostra uma doutora na psicologia espiritual. Sua confiança e sua experiência autorizavam-lhe a falar com destimidez e coragem.

 

 Você fez bem em me escrever, compreendi tudo...tudo, tudo, tudo!...

 Você não fez a sombra do mal, sei muito bem o que são essas espécies de tentações, que posso lhe assegurar sem medo, ademais, Jesus mo diz no fundo do coração... É preciso desprezar essas tentações, não lhes dar atenção.

 Devo lhe confiar uma coisa, que me causou muita pena?...

 É que minha Mariinha deixou suas comunhões...no dia da Ascensão e no último dia do mês de Maria!...Oh! como isso causou pesar a Jesus!...

 É preciso que o demônio seja muito esperto para enganar assim a uma alma!...mas, não sabe, minha querida, que está aí todo o objetivo de seus desejos? O pérfido sabe bem que, não pode fazer pecar uma alma, que queria ser toda de Jesus, por isso tenta apenas fazê-la crer. Para ele já é muito fazer confusão nessa alma, mas para sua raiva é necessária outra coisa, quer privar Jesus de um tabernáculo amado, não podendo entrar nesse santuário, quer, pelo menos, que fique vazio e sem mestre!... Ah! que será desse pobre coração?... Quando o diabo conseguiu afastar uma alma da Santa Comunhão, ganhou tudo...E Jesus chora!...

 Ó minha querida, pense,portanto, que Jesus está ali no tabernáculo justamente para você, para você somente, arde do desejo de entrar no seu coração...vá, não escute o demônio, mangue dele e vá, sem medo, receber o Jesus da paz e do amor!...

 Mas, ouço-a dizer: "Teresa diz isso, porque ela não sabe...ela não sabe como o faço expressamente... isso me diverte...e, depois, não posso comungar, visto que creio está fazendo um sacrilégio etc..." Sim, tua pobre Teresinha sabe bem, digo-lhe que ela advinha tudo, ela lhe assegura que você pode ir receber, sem medo, o seu único verdadeiro amigo...Ela também passou pelo martírio do escrúpulo(1), mas Jesus lhe deu a graça de comungar mesmo assim, mesmo quando ela acreditava ter feito grandes pecados...pois bem, asseguro-lhe que ela reconheceu que era o único meio de se desembaraçar do demônio, pois, quando ele vê que está perdendo seu tempo, deixa-nos em paz!...

 Não, é IMPOSSÍVEL que um coração "que não repousa senão vendo o tabernáculo", ofenda Jesus a ponto de não poder recebê-lo. O que ofende Jesus, o que o fere no coração é a falta de confiança!...

 Seu coração é feito para amar Jesus, para amá-lo apaixonadamente, reze muito a fim de que os mais belos anos de sua vida não se passem em temores quiméricos.

 Nós só temos os curtos instantes de nossa vida para amar Jesus, o diabo o sabe bem, por isso, tenta consumi-la com trabalhos inúteis...

 Irmãzinha querida, comungue muitas vezes, muitíssimas vezes...(2) Eis o único remédio, se você quer ficar curada, não foi por nada que Jesus pôs esse atrativo na sua alma. Não tema amar demais a Santíssima Virgem, jamais a amará bastante, e Jesus ficará muito contente, pois a Santíssima Virgem é sua Mãe. (CT 92)

 

NOTAS

 

(1) -Santa Teresinha, quando garota, sofreu muito do martírio do escrúpulo. De maio de 1885 até o outono de 1886, nossa Santa foi vítima desse mal. Todavia, graças a Deus e à ajuda de Maria, sua irmã, pôde superá-lo. Aqui, pois, ela fala com conhecimento de causa.

(2) -Aos 29 de outubro de 1910, Monsenhor de Teil, vice-postulador da Causa de Beatificação de irmã Teresa do Menino Jesus, em audiência particular com Pio X, pediu-lhe para ler essa carta, e disse-lhe:"Santíssimo Padre, essa santinha fez o comentário antecipado do decreto de vossa Santidade sobre a comunhão freqüente". No curso da leitura, o Papa exprimiu sua satisfação, dizendo:"É oportuníssimo! É uma grande alegria para mim". No final, Pio X disse: "É preciso faze rápido este Processo".

 

 

41.SER APÓSTOLO!

 

 

 Há duas idéias fundamentais nesta carta, dirigida a Celina, aos 14 de julho de 1889. A primeira é a do martírio escondido e desconhecido de cada dia, que é a expressão máxima do amor. A segunda, que está coligada com a primeira, é a do aproveitamento de todos os curtos instantes desta vida para ser apóstolo de Jesus. A primeira idéia tem sido já focalizada em outros textos; a segunda, embora não seja novidade, aparece,aqui, com muito relevo. Na verdade, Teresinha convida Celina a serem,juntas, apóstolas em cada instante, aproveitando de tudo e de todos os instantes, e ela sublinha, com cuidado, alguns pontos de seu apostolado. Os Padres merecem, então, um zelo especial. Por experiência, na grande viagem a Roma, nossa Santa descobriu que os padres não são tão santos como ela pensava e que, portanto, precisam muito de oração.

 

 Minha alma não a deixa... ela sofre o exílio com você!... Oh! como custa viver, ficar nesta terra de amargura e de angustia...Mas, amanhã...em uma hora, estaremos no porto, que felicidade! Ah! como será bom contemplar Jesus face à face, durante toda a eternidade! sempre, sempre mais amor, sempre alegrias mais inebriantes... uma felicidade sem nuvem...

 Como foi que Jesus fez para nos desapegar dessa maneira de todo o criado? Ah! ele feriu com um grande golpe... mas, é um golpe de amor, Deus é admirável,mas, sobretudo, é amável, amemo-lo,pois...amemo-lo bastante para sofrer por ele tudo o que ele quiser, mesmo os sofrimentos da alma, a aridez, as angústias, as friezas aparentes... ah! é um grande amor amar Jesus sem sentir a doçura desse amor... é um martírio...Pois bem, morramos mártires! Oh! minha Celina...o doce eco da minha alma, compreende você?... o martírio ignorado, conhecido só por Deus, que o olho da criatura não pode descobrir, martírio sem honra, sem triunfo... Eis aí o amor levado até o heroísmo,,, Mas, um dia, o Deus reconhecido exclamará :Agora, é minha vez"(1) Oh! que veremos,então? Que é essa vida, que não terá mais fim? ... Deus será a alma de nossa alma...mistério insondável... O olho do homem não viu absolutamente a luz incriada, seu ouvido não ouviu as incomparáveis harmonias e seu coração não pode pressentir o que Deus reserva àqueles que ele ama(2). E tudo isso acontecerá em breve, sim, apressemo-nos logo a fazer nossa coroa, estendamos a mão para apanhar a palma e se amarmos muito, se amarmos Jesus com paixão, ele não será cruel para nos deixar por muito tempo nesta terra de exílio... Celina, durante os CURTOS INSTANTES, que nos restam, não perdamos nosso tempo... salvemos as almas, as almas, elas se perdem como flocos de neve(3) e Jesus chora, e nós...nós pensamos em nossa dor, sem consolar nosso noivo...Oh! minha Celina, vivamos para as almas...sejamos apóstolas... salvemos, sobretudo, as almas dos Padres(4), essas almas deviam ser mais transparentes do que o cristal...Ah! quantos maus padres, padres que não são bastante santos... Rezemos, soframos por eles e no último dia Jesus será agradecido. Nós lhe daremos almas!... (CT 94)

 

NOTAS

 

(1) -Frase das conferências do Pe.Arminjon, na obra já anteriormente citada.

(2) -Cf. I Cor 2,9.

(3) -É pensamento do Pe. d'Argentan. É curioso como esse pensamento tenha tocado nossa Santa, que se preocupa mais com o amor, com o céu, com a confiança. Vê-se, então, que mesmo nos seus vôos de liberdade, Teresa estava ligada ao seu tempo, isto é, à preocupação de tirar as almas do inferno. Na verdade, o que é próprio de Teresinha em tudo isso é que,ela não vive do temor do inferno, mas, por amor, não quer que ninguém vá para lá.

(4) -Esse tema de rezar pelos padres se tornou um leit-motivo na correspondência de Teresa com Celina no período 1889-90. Aqui, ele aparece pela primeira vez nos escritos de Teresa. Em 1895, na sua Autobiografia, ela data de sua viagem a Itália (novembro de 1887), a compreensão de um dos fins do carmelo reformado, que é justamente rezar pelos padres.No exame canônico de 2 de setembro de 1890, ela dirá: "Vim para salvar as almas e,sobretudo, a fim de rezar pelos padres".

(5) -É evidente que Teresa é filha do seu tempo e, por isso, usa a terminologia da sua época.Portanto, dirá sempre "salvar almas", como se dizia e pensava então. O que importa, porém, não é a terminologia,mas a intenção. Com efeito, nossa Santa queria salvar seus irmãos, os homens do mundo inteiro, por isso, foi uma autêntica apóstola, uma grande missionária pela oração e pelo sacrifício.

 

 

42.GRÃO DE AREIA

 

 

 Irmã Inês de Jesus está no seu retiro anual. Era, talvez, o dia 4 de maio do ano de 1890. Teresa escreve um bilhete a sua irmã querida. Contempla-a, como sempre, com os olhos de admiração. Aproveita da ocasião para relembrar um dos seus temas prediletas, quando falava de si mesma, isto é, o do grão de areia.

 Todavia, aqui, ela aprofunda mais o sentido e a extensão de ser um grão de areia diante de Deus e do mundo. Não se trata de um sentimento anormal psicologicamente, como se ela se reconhecesse como uma fracassada. Pelo contrário, Teresa descobre sua insignificância por força da sua humildade, pelo seu crescimento na perfeição. Quanto mais ela se desenvolve espiritualmente, tanto mais aprofunda sua espiritualidade baseada na humildade do "ser pequeno" diante do Todo-Poderoso. Só assim ela se sente real e verdadeira e Só assim ela desenvolve todo seu caminho da simplicidade, da pequenez, da humildade.

 

 

 Cordeirinho querido, meu coração o segue na solidão(1), a senhora sabe (cotoviazinha leve) que tem um fio na pata e por mais alto que suba, é necessário carregar seu fardo... mas, um grão de areia não é pesado e, depois, ele será mais leve se a senhora o pedir a Jesus... Oh! como ele deseja ser reduzido a nada, de ser desconhecido de todas as criaturas, pobrezinho, não deseja mais nada, nada fora do ESQUECIMENTO(2) não os desprezos, as injúrias, seria demasiado glorioso para um grão de areia. Se o desprezassem, seria necessário mesmo vê-lo. Mas, o ESQUECIMENTO!....Sim, desejo ser esquecida e não somente pelas criaturas, mas também por mim mesma, quisera ser de tal modo reduzida a nada, que não tivesse nenhum desejo... A glória de meu Jesus, eis tudo; a minha eu lha abandono, e se ele parece me esquecer, pois bem ele é livre, visto que não me pertenço, mas sou dele... Ele se cansará mais depressa de me fazer esperar do que eu de o esperar!...

 Diga a Jesus para olhar para mim, que as "boas-noites" penetrem, com seus raios luminosos, o coração do grão de areia, e se não é pedir demais, que também a Flor das flores entreabra sua corola e que o som melodioso que dela escapa faça vibrar, no meu coração, seus melodiosos ensinamentos...

 Cordeiro querido, não esqueça o grão de areia!... (CT 103)

 

NOTAS

 

(1) -Irmã Inês estava em retiro espiritual anual. Teresinha, com sua delicadeza feminina, tratava, as vezes, as pessoas por apelidos carinhosos e familiares.

(2) -Essa é uma idéia muito cara a Teresa. O Esquecimento, para ela, é mais precioso e mais atraente do que o desprezo, que supõe certa atenção por parte de quem despreza. Confira, neste livro, o Bilhete de Profissão, à página

(3) -Aqui, nossa Santa faz referência a uma oração de Irmã Inês à santa Face. Nessa oração, os traços de Jesus(olhos, boca,etc.) são comparados às flores, formando, no conjunto, um ramalhete de festa.

 

43.A MONOTONIA DO SACRIFÍCIO

 

 

 Nas Cartas de Santa Teresinha, encontramos, aqui e acolá, fragmentos importantes, que juntos, podem nos dar um conjunto de toda sua caminhada espiritual, que, no fundo, é também a sua mensagem espiritual. Catando, com cuidado,nas suas Cartas, podemos formar, pois, um quadro, mais ou menos perfeito, do pensamento espiritual teresiano.

 Neste belíssimo bilhete, dirigido à Irmã Inês de Jesus, no dia 10 de maio de 1890, Teresa releva mais dois pontos importantes de sua mensagem. O primeiro é a preferência pela monotonia do sacrifício. Sim, a vida de uma carmelita é, de certo modo, monótona, enquanto é o seguimento cotidiano de uma regra, até certo ponto, pesada. É claro que isso faz parte da vida de penitência de uma carmelita. Cada um de nós, por sua vez, tem também sua monotonia do sacrifício. É preciso, como ensina Teresa, não perder esse tesouro e saber transformar essa monotonia do sacrifício num canto contínuo de louvor e alegria.

 O segundo ponto é a questão do silêncio. Mais de uma vez, nossa Santa se refere ao silêncio. Para ela, ele é a linguagem do céu; Só ele pode traduzir o que se passa no seu coração. Com efeito, os santos, quando chegam a um certo grau de elevação espiritual, sentem, realmente, dificuldade para traduzir, em palavras, seus sentimentos e suas idéias luminosas. A verdade é que, em certos momentos, é melhor calar, porque Só o silêncio diz tudo que queremos dizer.

 

 Como sou feliz por ser para sempre prisioneira no Carmelo, não tenho gana de ir a Lourdes para ter êxtases(1). Prefiro a monotonia do sacrifício!Que felicidade estar tão bem escondida, de tal maneira que ninguém pensa em você!...ser desconhecida até mesmo das pessoas, que vivem com você...

 Cordeiro querido, como agradeço a Jesus de me ter dado à senhora, de fazer que a senhora compreenda tão bem a minha alma!... Não posso lhe dizer tudo que penso...Ah! o CÉU!!!!!! Então, um Só olhar e tudo estará dito e compreendido!...

 O Silêncio, eis a única linguagem que pode lhe dizer o que se passa na minha alma!...

 (CT 106)

 

NOTA

 

(1) -Provavelmente, aqui, Teresa se refere às consolações recebidas por Celina em Lourdes. Nossa Santa não tem inveja de nada que pareça extraordinário. Sua vida, como sua mensagem, serão simples, humanas, bem comuns, salvo algum ponto próprio daqueles que alcançaram alto grau de perfeição, como é o caso de Teresa. Nossa Santa nunca se sentiu atraída por êxtases, consolações especiais, visões ou outras coisas maravilhosas. Ele viveu e amou o que era simples, não procurando nem desejando o que é fora do comum. Se alguma vez algo maravilhoso lhe aconteceu, ela o recebeu com toda simplicidade e humildade.

 

 

44.O PEQUENO NADA

 

 

 São João da Cruz é, sem dúvida, um dos maiores místicos da Igreja Católica. E um dos pontos básicos de sua mensagem espiritual é exatamente a dicotomia do Tudo e do nada. Basta ver a descrição belíssima, que ele faz da subida do Monte Carmelo. Com efeito, na subida a pessoa vai deixando tudo, ficando sem nada, para poder alcançar o Tudo.

 Nesta carta,dirigida a Maria Guérin, nos finais de julho de 1890, nossa Santa assume essa doutrina e a explica a sua prima com elegância feminina e, ao mesmo tempo, tira dela logo as conseqüências.E a grande conseqüência é, sem dúvida, a exigência do amor. Aniquilado no Tudo, o nada se perde nEle apaixonadamente, já que Só por amor é que se tornou nada e mergulhou,confiante e abandonadamente, no Tudo.

 

 Maria, se você não é nada, é preciso não esquecer de que Jesus é tudo, por isso é preciso perder seu pequeno nada no Seu infinito tudo e não pensar mais a não ser nesse tudo unicamente amável...Também não é necessário desejar ver o fruto recolhido de seus esforços. Jesus se apraz guardar para ele Só esses pequenos nadas, que o consolam...Você se engana, minha querida, se crê que sua Teresinha caminha sempre com ardor no caminho da virtude, ela é fraca, e bem fraca, todos os dias ela tem disso uma pequena experiência, mas, Maria, Jesus se apraz a lhe ensinar, como a São Paulo, a ciência de se gloriar nas suas fraquezas, é essa uma grande graça e peço a Jesus que lha ensine, pois somente aí se encontram a paz e o repouso do coração, quando a gente se vê tão miserável, não quer mais se considerar e Só olha o único Bem-Amado!...

 Minha querida Mariazinha, eu não conheço outro meio de chegar à perfeição senão o Amor... Amar, como nosso coração é bem feito para isso!... Às vezes, procuro outra palavra para exprimir o amor, mas, na terra do exílio, as palavras são impotentes para exprimirem todas as vibrações da alma, por isso é preciso se ater a essa palavra única: Amar!...

 Mas, a quem nosso pobre coração faminto de Amor o prodigalizará?...Ah! quem será bastante grande para isso?... um ser humano poderá compreendê-lo?... e,sobretudo,poderá retribuí-lo?... Maria, Só há um ser, que possa compreender a profundeza dessa palavra: Amar!... Só nosso Jesus sabe nos retribuir infinitamente mais do que lhe damos...

 Maria do Santíssimo Sacramento!...(1) seu nome lhe diz sua missão... Consolar Jesus, fazê-lo amado pelas almas... Jesus está doente e é preciso notar que, a doença do amor Só se cura com amor!...(2) Maria, dê mesmo todo seu coração a Jesus, ele tem sede e fome dele, teu coração, eis o que ele ambiciona a ponto de, para tê-lo para Ele, consentir se alojar sob um ambiente sujo e escuro!...(3) Ah! como não amar um amigo, que se reduz a uma tão extrema indigência? Como ousar alegar ainda sua pobreza, quando Jesus se torna semelhante a sua Noiva?...Ele era rico e se fez pobre, para unir sua pobreza à pobreza de Maria do Santíssimo Sacramento...Que mistério de amor!... (CT 109)

 

NOTAS

 

(1) -Marie-Louise-Héléne Guérin era prima legítima de Santa Teresinha. Antes de entrar no Carmelo, fora-lhe escolhido o nome de Maria do Santíssimo Sacramento. Todavia, quando entrou no Carmelo(15-08-95), recebeu o nome de Maria da Eucaristia.

(2) -Cfr. São João da Cruz, Cântico Espiritual, Explicação da estrofe XI. Note-se que Teresinha inverte a citação joanina, pois, segundo S.João da Cruz, é a alma que está doente de amor.

(3) -A Santa se refere ao tabernáculo da igrejinha, que existia na aldeia vizinha à mansão da Musse, onde a família Guérin passava o verão.

 

 

45.A MONTANHA DO AMOR

 

 

 A Montanha do Amor, eis a subida da perfeição, segundo o itinerário místico de São João da Cruz. Santa Teresinha é uma carmelita e é uma filha autêntica de Santa Teresa e de São João da Cruz.

 Aqui, nesta carta bonita, dirigida à Irmã Inês de Jesus e datada do final de agosto de 1890, nossa Santa se mostra uma verdadeira carmelitana na exposição de sua caminhada espiritual. Seu caminho, de fato, é a subida do Monte Carmelo e a subida do Monte Carmelo é a subida da Montanha do Amor.

 Há, porém, um particular. Aqui, Teresa fala da sua experiência pessoal e, naquele momento da carta, era uma experiência de secura, de escuridão. A subida da Montanha do Amor era no silêncio, no solidão,como se fosse num grande subterrâneo. Teresa segue apenas um guia: o próprio Jesus. E é preciso uma vontade de ferro para não voltar, para não desistir. Só o amor pode fazê-la caminhar sem parar; avançar sempre, nunca retroceder. Só o amor, não sentido, é capaz de lhe dar toda a força necessária para caminhar sem paradas, sem desânimos, sem titubeios. Só o amor!

 

 

 Mas, é preciso que a solitariazinha lhe diga o itinerário de sua viagem. Ei-lo. Antes de partir, seu Noivo pareceu lhe perguntar a que país ela queria viajar, que caminho desejava seguir,etc...A Noivinha respondeu que Só tinha um desejo, o de subir ao cume da montanha do Amor.Para aí chegar muitas estradas se lhe ofereciam, e havia tantas perfeitas que ela se via incapaz de escolher, então disse ao seu divino guia: "Vós sabeis aonde desejo ir, sabeis por quem quero subir a montanha, por quem quero chegar ao termo, vós conheceis aquele que amo e aquele que quero contentar unicamente, é Só por Ele que empreendo essa viagem , conduzi-me, pois, pelos atalhos que ele gosta de percorrer, se ele ficar contente, estarei no cúmulo da felicidade. Então, Jesus me tomou pela mão, fez-me entrar em um subterrâneo, onde não faz frio nem calor, onde o sol não brilha e que nem o vento nem a chuva visitam, um subterrâneo, onde não vejo nada senão uma claridade semi velada, a claridade que os olhos abaixados da Face de meu Noivo espalham a seu redor!...

 Meu Noivo não me diz nada e eu, eu não lhe digo nada também a não ser que eu o amo mais do que a mim e sinto, no fundo do meu coração, que é verdade, pois sou mais dEle do que de mim!...

 Não vejo se avançamos em direção ao termo da montanha, visto que nossa viagem se realiza sob a terra, contudo me parece que nos aproximamos sem saber como. O caminho que sigo não é de nenhuma consolação e,contudo, me traz todas as consolações, visto que foi Jesus quem o escolheu e porque desejo consolá-lo Só a ele,Só a ele!... (CT 110)

 

 

46.DISTANTES INFINITOS

 

 

 Distantes infinitos são os panoramas do céu, onde não haverá mais choro nem dor alguma. Aqui, na terra, o amor é feito, é provado, é sustentado no sofrimento. Um dos grandes sofrimentos é a morte. Teresa falará da morte muitas vezes. Aqui, em se tratando da possível morte de Celina, sua irmã querida, ela sustenta toda a conseqüência de sua fé nos distantes infinitos.

 Como a solução de tudo, para Teresa, é o amor, ela se depara com um problema sério, que é o da própria vida, isto é, é uma vida longa que agrada mais, porque se pode amar mais? Além disso, a vida traz também a problemática do pecado, da ofensa ao Amado e, para quem ama, ofender ao Amado é inaceitável. Como fazer, se a criatura humana é tão frágil? Nossa Santa encontra uma solução: podem existir faltas, que não ofendem ao Amado!

 

 Cordeiro querido,(1)sim, para nós as alegrias serão sempre misturadas com o sofrimento. A graça de ontem (2) pedia um coroamento e foi à senhora que Jesus o deu e, depois, a mim, ao mesmo tempo, pois tudo o que a faz sofrer, fere-me profundamente!...(3)

 A senhora acredita que Celina vai morrer de verdade?...(4). Ontem, prometi-lhe fazer profissão por nós duas, mas não terei a coragem de pedir a Jesus que a deixe aqui na terra, se essa não é sua vontade. Parece-me que o amor pode suprir uma vida longa. Jesus não olha o tempo, visto que ele já não existe no Céu. Ele Só olha o amor. Peça-lhe para mo dar muito também, não peço amor sensível, mas somente sentido por Jesus. Oh! amá-lo e fazê-lo amado, como é doce!...Diga-lhe também para me levar no dia da minha profissão, se devo ofendê-lo ainda depois, pois quisera levar para o céu o vestido branco de meu segundo batismo sem nenhuma mancha, mas me parece que Jesus pode muito bem dar a graça de não mais ofendê-lo, ou então, ...não fazer senão faltas que não o OFENDEM, mas Só fazem humilhar e tornar o amor mais forte. Se a senhora soubesse como iria longe, se tivesse palavras para exprimir o que penso, ou, antes,que não penso, mas que sinto!... mas, no fundo da alma, sente-se que haverá um dia de DISTANTES infinitos, DISTANTES que farão esquecer, para sempre, as tristezas do deserto e do exílio...

 o grãozinho de areia (5) (CT 114)

 

NOTAS

 

(1) -Esta carta é dirigida à Irmã Inês(a palavra Inês significa cordeiro) e foi escrita no dia 3 de setembro de 1890.

(2) -A Santa se refere a uma Bênção de Leão XIII, que chegara no dia anterior.

(3) -Talvez esta cara seja uma resposta a uma correspondência de Irmã Inês. Como essa última correspondência desapareceu, não temos informações a respeito do sofrimento, ao qual a Santa se refere.

(4) -Durante o ano de 1890, Celina apresentou certas perturbações cardíacas, de origem nervosa, tudo devido ao estado de saúde do senhor Martin.

(5) - Esta é a última vez que Teresa fará uso desse simbolismo na sua correspondência.

 

 

47.ATÉ AS ALEGRIAS NATURAIS!

 

 

 Refletindo sobre o que pôde provocar, no mundo inteiro, a onda imensa de admiração e devoção a santa Teresinha, não podemos negar que um dos motivos principais foi, certamente, porque os homens do nosso tempo, finalmente, viram um santo igual a eles, isto é, humano como eles, simples e fraco como eles, sentindo o que eles sentem, e mostrando, ao mesmo tempo, que,mesmo assim, é possível ser um santo, ou seja, alguém que ama apaixonadamente a Deus e aos seus irmãos.

 Nesta carta, de 30 de setembro de 1890,dirigida a Celina, Teresa extravasa sua alma, bem humana, cheia de tristeza, porque não pode ter seu querido Pai junto de si, na solenidade de Tomada de Hábito, no dia 24 de setembro. Teresa, então, sente-se órfã de verdade; sente uma tristeza humana profunda, mas logo encontra uma resposta e um consolo para tudo isso. É que até as alegrias naturais lhe são negadas! Por quê? Ela não sabe bem, porque é tudo um grande mistério. Todavia, o amor procura compreender e consolar. Um amor puro e desinteressado. E é isso que conta, no final de tudo.

 

 Oh! Celina, como lhe dizer o que se passa na minha alma?... Ela está despedaçada, mas sinto que essa ferida é feita por uma mão amiga, por uma mão divinamente ciumenta!...

 Tudo estava pronto para minhas bodas, não acha que faltava alguma coisa para a festa? É verdade que, Jesus já pusera muitas jóias na minha corbelha, mas faltava, sem dúvida, uma de uma beleza incomparável e esse diamante precioso Jesus mo deu hoje...Celina...ao recebê-lo, minhas lágrimas rolaram...elas rolam ainda e quase me reprovaria, se não soubesse "Que existe um amor, do qual as lágrimas são o único penhor"(1) Foi Só Jesus quem conduziu esse negócio, foi Ele, e reconheci seu toque de amor...

 Você sabe como desejava ,esta manhã, rever nosso Pai querido, pois bem, agora, vejo claramente que a vontade do bom Deus é que ele não esteja aqui. Ele permitiu isso simplesmente para provar nosso amor... Jesus me quer órfã, quer que eu esteja Só com Ele Só para se unir , mais intimamente, a mim e Ele quer também me dar, na Pátria, as alegrias, tão legítimas, que me recusou no exílio!... Celina, console-se. nosso esposo é um esposo de lágrimas e, não, de sorrisos, demos-lhe nossas lágrimas para consolá-lo e, um dia, essas lágrimas se mudarão em sorrisos de uma doçura inefável!...

 Celina, não sei se você vai compreender minha carta. Sustento a caneta com dificuldade...e, depois, outra dar-lhe-ia muitas explicações sobre o parlatório com meu Tio, mas sua Teresa não sabe lhe falar senão a linguagem do Céu.

 A provação de hoje é uma dor difícil para se compreender. Vemos uma alegria, que nos é oferecida, ela é possível, natural, avançamos a mão... e não podemos pegar essa consolação tão desejada... mas, Celina, como tudo isso é misterioso!...não temos mais asilo(2) aqui na terra,, ou, pelo menos, você pode dizer como a Santíssima Virgem "Que asilo", sim, que asilo... mas não foi uma mão humana que fez isso, foi Jesus, foi seu olhar velado, que caiu sobre nós!... Recebi uma carta do Padre exilado(3) e eis aqui uma passagem dela: "Oh! meu aleluia é impregnado de lágrimas. Nem um, nem outro de seus pais estará aí para oferecê-la a Jesus. É preciso lastimá-la muito aqui na terra, quando no alto os anjos a felicitam e os santos a invejam? É sua coroa de espinhos, que os torna invejosos. Ame, pois, suas furadas, como outras tantas provas de amor do divino esposo".

 Celina, aceitemos, de bom coração, o espinho que Jesus nos apresenta, a festa de amanhã será uma festa de lágrimas para nós, mas sinto que Jesus ficará tão consolado! Ah! se pudesse lhe comunicar a paz, que Jesus colocou na minha alma, no auge das minhas lágrimas!

 Celina!...as sombras declinam e a figura desse mundo passa, logo, sim, logo veremos o rosto desconhecido e amado, que nos encanta pelas suas lágrimas. (CT 120)

 

NOTAS

 

(1) -Citação de uma poesia de Celina, intitulada "O Divino Charme".

(2) -Nossa Santa se refere à situação dos Buissonnets. Com efeito, em outubro de 1889, os móveis dos Buissonnets foram retirados para dar lugar a novos inquilinos. Existe uma lembrança muito bonita de Celina a respeito dessa ocasião, quando o fiel Tom (cachorro de Teresinha),fez a maior festa.

(3) -Trata-se do Pe.Pichon, que se encontrava no Canadá.

 

 

48.SIMPLICIDADE COM A MÃE

 

 Santa Teresinha tem uma poesia, que se encontra nesta coleção(veja página ), na qual ela expõe as razões do seu bem-querer à Virgem Santíssima.

 Nesta carta, de 18 de outubro de 1892, dirigida a Celina, o que encanta é a simplicidade como ela trata a Mãe de Deus. Aliás, esse é o cunho da devoção teresiana a Maria: a simplicidade. Santa Teresinha enxergava a Virgem Santíssima com os olhos de uma criança, que ama apaixonadamente sua mãe. Sem rodeios, sem mistérios, sem muitos enigmas, Teresa criou um relacionamento autêntico e evangélico com Maria. Este texto é um exemplo desse relacionamento encantador entre filha e Mãe.

 

 Jesus atraiu-nos juntas, embora por caminhos diferentes, juntas ele nos elevou acima de todas as coisas frágeis deste mundo, cuja figura passa(1). Ele colocou, por assim dizer, todas as coisas sob nossos pés. Como Zaqueu subimos em uma árvore para ver Jesus... Então, podíamos dizer com São João da Cruz: "Tudo é meu,tudo é para mim, a terra é minha, os céus são meus, Deus é meu e a Mãe de meu Deus é minha"(2).

 A propósito da Virgem Santíssima, devo lhe confiar uma das minhas simplicidades com ela. Às vezes, surpreendo-me a lhe dizer: "Mas, minha boa Santíssima Virgem, acho que sou mais feliz do que a senhora, pois a tenho como Mãe, e a senhora não tem a Santíssima Virgem par amar... É verdade que, a senhora é a Mãe de Jesus, mas a senhora nos deu inteiramente esse Jesus... e Ele, na cruz, no-la deu como Mãe. Assim, somos mais ricos do que a senhora, visto que possuímos Jesus e a senhora é nossa também. Outrora, na sua humildade, a senhora desejava ser, um dia, a servazinha da feliz Virgem, que teria a honra de ser a Mãe de Deus(3) e eis que eu, pobre criaturinha, sou não sua serva, mas sua filha, a senhora é a Mãe de Jesus e minha Mãe". Sem dúvida, a Santíssima Virgem deve sorrir de minha ingenuidade e, contudo, o que lhe digo é muito verdadeiro!...

 (CT 137)

 

NOTAS

 

(1) -I Cor 7,31

(2) -S.João da Cruz, Oração da alma abrasada de amor.

(3) -Entre outras fontes possíveis desta opinião, pode-se citar o "Ano Litúrgico", de Dom Guéranger, na meditação do dia 9 de dezembro.

 

 

49.GOTA DE ORVALHO

 

 Todos sabem que a mensagem teresiana é, basicamente, a mensagem da pequenez, da simplicidade, da humildade envolvida no amor. Pois bem, para explicitar essa pequenez, nossa Santa usou de vários símbolos. Entre eles, um é o da gota de orvalho. Nesta carta, dirigida a Celina, e escrita aos 25 de abril de 1893, ela pergunta:"Que há de mais simples e mais puro do que uma gota de orvalho?" Então, é preciso ser uma gota de orvalho! Assim, nossa Santa explicita suas idéias sobre a pequenez e a simplicidade diante de Deus.

 

 Uma gota de orvalho, que há de mais simples e de mais puro? Não foram as nuvens que a formaram, visto que, o orvalho desce sobre as flores, quando o azul do Céu está estrelado. Ela não é comparável à chuva, que ela supera em frescura e beleza. O orvalho Só existe durante a noite, assim que o Sol dardeja seus raios quentes, faz destilar as encantadoras pérolas, que cintilam na extremidade das hastes das ervas do prado e o orvalho se muda em um vapor ligeiro.

 Feliz gotinha de orvalho, Só conhecida por Jesus!...(1) não pare para considerar o curso dos rios ruidosos, que provocam a admiração das criaturas. Não inveje nem mesmo o ribeiro cristalino, que serpenteia nos prados. Sem dúvida, seu murmúrio é bem doce... Mas, as criaturas podem ouvi-lo... e, depois, o cálice da flor dos campos não poderia contê-lo.Ele não pode existir Só para Jesus. Para ser dEle, é preciso ser pequeno, pequeno como uma gota de orvalho!... Oh! como há poucas almas, que aspiram a ficar assim pequenas!...(2) Mas, dizem elas, os rios e os riachos não são mais úteis do que a gota de orvalho? que faz ela? não serve para nada a não ser para refrescar, por alguns instantes, uma flor dos campos que existe hoje e, amanhã, terá desaparecido... Sem dúvida, essas pessoas têm razão, a gota de orvalho Só serve para isso, mas elas não conhecem a flor campestre, que quis habitar na nossa terra de exílio e aí ficar durante a curta noite da vida.Se elas a conhecessem, compreenderiam a censura que Jesus fez, outrora, a Marta... Nosso Bem-Amado não tem necessidade de nossos belos pensamentos, de nossas obras brilhantes. Se ele quiser pensamentos sublimes, não tem os anjos, suas legiões de espíritos celestes, cuja ciência supera infinitamente a dos maiores gênios da nossa triste terra?... Não foi, portanto, o espírito e os talentos que Jesus veio buscar aqui na terra.. Ele se fez a flor dos campos para nos mostrar quanto adora a simplicidade. O Lírio do Vale não aspira senão por uma gotinha de orvalho...

 Durante a noite da vida, ela(3) deverá ficar escondida a todo olhar humano, mas quando as sombras começarem a declinar, quando a flor dos campos se tornar o Sol da justiça, quando Ele vier para completar sua corrida de gigante, irá se esquecer de sua gotinha de orvalho?... Oh! não! desde quando aparecer na sua glória, sua companheira de exílio aí aparecerá também. O divino Sol fixará sobre ela um dos seus raios de amor e, logo, mostrar-se-á aos olhares dos anjos e dos santos deslumbrados a pobre gotinha de orvalho, que cintilará como um diamante precioso que, refletindo o Sol da justiça, tornar-se-á semelhante a Ele. Mas, não é tudo! O astro divino, ao olhar sua gota de orvalho, atrai-la-á para Ele, ela subira como um ligeiro vapor e irá se ficar, para a eternidade, no seio da fornalha ardente do amor incriado(4) e, para sempre, ficará unida a Ele. Assim como na terra foi a fiel companheira de seu exílio, de seus desprezos, assim no Céu reinará eternamente...

 Em que estupefação ficarão então mergulhados aqueles que, neste mundo,consideraram como inútil a gotinha de orvalho!... Sem dúvida, terão uma desculpa, o dom de Deus não lhes fora revelado, não aproximaram seus corações ao da flor dos campos e não ouviram estas palavras arrebatadoras "Dá-me de beber"(5). Jesus não chama todas as almas a serem gotas de orvalho.(6) Ele quer que existam licores preciosos, que as criaturas apreciem, que as aliviem nas suas necessidades, mas para Ele reserva uma gota de orvalho. Eis toda sua ambição...

 Que privilégio ser chamada para uma tão alta missão!... Mas, para correspondê-la é preciso permanecer simples... Jesus sabe muito bem que, na terra é difícil se conservar puro, por isso quer que suas gotas de orvalho se ignorem a si mesmas, Ele se compraz em contemplá-las, mas Só Ele as olha e elas, não conhecendo seu valor,estimam-se abaixo das outras criaturas... Eis o que deseja o Lírio dos valeszinhos.

 (CT 141)

 

NOTAS

 

(1) -Nesta carta, Santa Teresinha compara Celina a uma gota de orvalho. Portanto, aqui, refere-se a sua irmã, Celina.

(2) -É a primeira vez que aparece, nos escritos teresianos, a expressão "ficar pequeno". Mais adiante, em outro texto, nossa Santa vai explicar o que significa para ela "permanecer pequeno".

(3) -Aqui, a Santa se refere ainda a Celina.

(4) -São João da Cruz fala da gota de orvalho, que é transformada num vapor imperceptível. Não se sabe, porém, que influência o texto joanino teve sobre o pensamento teresiano. Por outro lado, é de notar que a expressão "amor incriado" Só aparece esta vez nos escritos de nossa Santa. Ela, diferentemente de Santo Tomás de Aquino, que usa dessa expressão para designar o Espírito Santo, indica, aqui, a Jesus.

(5) -João 4,7. Entre os anos 1889-90, Teresinha pensa mais na sede de Jesus crucificado(Jo 19,28). Em 1893, a Santa se refere mais à sede do epiSódio da Samaritana, como é, aqui, o caso. A partir, porém, de 1895, combinará os dois temas evangélicos.

(6) -Aqui, Santa Teresinha se mostra uma doutora de espiritualidade. Com efeito, ela esclarece, imediatamente, que cada pessoa tem sua missão e, assim, tem sua própria vocação, sua própria espiritualidade, que depende, por outro lado, também, da sua personalidade.Teresa não quer, a bem da verdade, que todas as pessoas sigam seu caminho, nem julga que ele é o único para todo o mundo. Esta é, sem dúvida, uma visão clara e profunda dos caminhos de Deus na direção das pessoas.

 

 

50.NA BANCA DO AMOR

 

 Em geral, as cartas dirigidas a Celina, como esta, são cheias de ensinamentos e mensagens. Teresa fala a Celina como uma mestra fala a sua discípula. Isso é muito bom, porque, assim, a espiritualidade teresiana vem, pouco a pouco, sendo apresentada, de tal maneira que, no conjunto das cartas, podemos ter uma visão de muitas facetas do caminho espiritual teresiano.

 Nesta carta, partindo da idéia da Banca do Amor, onde Teresa foi instruída por Jesus mesmo a jogar, nossa Santa fala sobre vários temas espirituais e até temas teológicos correlatos. Assim, analisa a questão dos méritos pessoais diante de Deus; do sentido e essência da perfeição, que já comentara anteriormente(p. ); da mirra na nossa vida; da famosa gota de orvalho e, finalmente, como arremate e sentido de tudo, do amor, a única e necessária coisa a se fazer para agradar a Deus, ou, como diz Teresa, a Jesus.

 

 

 Agora, eis-nos todas as cinco,(1) no nosso caminho. Que felicidade poder dizer: "Estou segura de fazer a vontade do bom Deus".

 "É verdade, (pensa,talvez, minha Celina), mas, enfim, faço menos que as outras pelo bom Deus, tenho mais consolações e, por conseguinte, menos méritos".-(Meus pensamentos não são vossos pensamentos, diz o Senhor) (2). O mérito não consiste em fazer nem em dar muito, mas, antes, em receber, em amar muito...(3). Diz-se que, é bem mais doce dar do que receber(4), e é verdade, mas então, quando Jesus quer tomar para si a doçura de dar, não seria gracioso recusar. Deixemo-lo tomar e dar tudo o que quiser. A perfeição consiste em fazer sua vontade, e a alma que se entrega inteiramente a Ele, é chamada pelo próprio Jesus "Sua Mãe, Sua Irmã" e toda sua família(5). E, alhures: "Se alguém me ama, guardará minha palavra(isto é, fará minha vontade) e meu Pai o amará, e viremos a ele e faremos nele nossa morada" (6). ó Celina! como é fácil agradar a Jesus, encantar seu coração! Basta amá-lo sem olhar para si mesmo, sem examinar demais seus defeitos.Sua Teresa não se encontra nas alturas neste momento, mas Jesus lhe ensina "a tirar proveito de tudo, do bem e do mal que ela encontra em si" (7). Ele lhe ensina a jogar na banca do amor, ou, antes, Ele joga por ela sem lhe dizer como se arranja, porque esse é seu negócio e ,não, o de Teresa.O que lhe diz respeito é de se abandonar, de se entregar sem reservar nada, mesmo a alegria de saber quanto lhe rende a banca (8). Mas, depois de tudo, ela não é o filho pródigo. não vale a pena que Jesus lhe faça um festim "pois ela está sempre com Ele"(9). Nosso Senhor quer deixar as ovelhas fiéis no deserto"(10). Como isso me diz muito!... Ele está seguro delas; não poderiam mais se desgarrar, pois são cativas do amor, por isso, Jesus lhes encobre sua presença sensível para dar suas consolações aos pecadores, ou então, se as conduz ao Tabor é por poucos instantes, o vale é, muito mais vezes, o lugar de seu repouso. É lá que ele toma seu repouso ao meio-dia(11). A manhã de nossa vida passou, gozamos das brisas perfumadas da aurora, então, tudo nos sorria, Jesus fazia-nos sentir sua doce presença, mas quando o Sol ficou forte, o bem-Amado nos conduziu ao seu jardim, fez-nos recolher a mirra da provação, separando-nos de tudo e dEle mesmo. A colina da mirra (12) nos fortificou com seus perfumes amargos, por isso Jesus nos fez descer e,agora, estamos no vale. Ele nos conduz docemente ao longo das águas...(13).

 Ah! sejamos sempre a gota de orvalho de Jesus, aí está a felicidade, a perfeição... Felizmente é a você que falo, pois outras pessoas não poderiam compreender minha linguagem e confesso que ela não é verdadeira senão para poucas almas. Com efeito, os diretores fazem avançar na perfeição, mandando fazer um grande número de atos de virtudes e têm razão, mas meu diretor, que é Jesus, não me ensina a contar meus atos(14). Ensina-me a fazer tudo por amor, a não lhe negar nada, a estar contente quando me dá uma ocasião de Lhe provar que o amo, mas isso se faz na paz, no abandono, é Jesus quem faz tudo e eu não faço nada(15)

 (CT 142)

 

 

NOTAS

 

(1) -Leônia entrara no Convento da Visitação, de Caen, aos 23 de junho de 1893.

(2) -Isaías 55,8

(3) -É curioso como Santa Teresinha, muitas vezes, se adentra em questões teológicas, mesmo sem ter estudo teologia. É que os santos têm a luz da inspiração particular, pela união profunda com Deus. Aqui, mais uma vez, nossa Santa enfrenta um tema teológico e um tema muito discutido: o mérito. Entre católicos e protestantes há aqui uma diferença imensa, porquanto os primeiros afirmam que o homem pode e deve ter méritos diante de Deus, enquanto que os segundos negam qualquer possibilidade de mérito da parte do homem decaído pelo pecado original. Ora bem, Teresinha, aqui, apresenta um conceito de mérito, catolicamente verdadeiro, que soluciona a questão para todos. Na verdade, o mérito não é, propriamente, uma questão de justiça, mas uma questão de amor. Tudo é graça e o próprio mérito é graça. Logo, a essência do mérito não é, propriamente, dar, fazer, mas saber receber, corresponder, ou seja, amar. Quem olha o mérito como uma ação Só do homem, engana-se. O mérito é obra bipolar, isto é, de Deus e do homem. É nesse amor mútuo, nessa correspondência que está a essência do chamado mérito.

(4) -Atos dos Apóstolos 20,35

(5) -Mateus 12,50; Marcos 3,35; Lucas 8,21

(6) -João 14,23

(7) -S.João da Cruz, Glosa sobre o divino.

(8) -Talvez nossa Santa tenha aprendido essa expressão "jogar na banca" na casa dos Guérin-La Néele. Encontramos a expressão em uma carta de Joana La Néele a Leônia.

(9) -Lucas 15,31.

(10)-Mateus 18,12

(11)-Cântico dos Cânticos 1,7

(12)-Cf. Cântico dos Cânticos 4,6

(13)-Cf. Salmo 23,2

(14)- É interessante que Santa Teresinha, vivendo a norma de São Paulo de participar dos sentimentos dos irmãos, em breve, voltará à sua antiga prática do "terço de práticas", para estimular uma religiosa do seu Carmelo.

(15)-Entenda-se esse "não faço nada" dentro do contexto teresiano da noção de graça e de mérito. Teresa viveu uma vida intensa de sacrifícios, de lutas, de penitências, de esforço para ser uma santa, todavia, ela sabia que tudo era graça de Deus, e,por isso, procurou, coerentemente, reconhecer-se pequena, humilde, impotente, dependente totalmente de Deus pelo abandono e a confiança. No fundo, toda essa dialética espiritual e teológica é conseqüência do amor.

 

 

51.OS NADAS IMPORTANTES

 

 

 Santa Teresinha insistiu sempre que a perfeição não consiste em fazer grandes coisas. Pelo contrário, às vezes, são pequenos nadas, que se tornam muito importantes na nossa vida. Aliás, isso acontece até na vida natural do relacionamento com as pessoas. Um sorriso, um tapinha no ombro, às vezes, mudam todo um pensar, desanuvia toda uma tristeza profunda. Assim, diz nossa Santa, há pequenos nadas, que são muito importantes na nossa vida espiritual, sobretudo quando nos sentimos incapazes de algo mais forte, mais elevado.

 Essa é a doutrina também de S.João da Cruz, que chega a nos falar da oração do homem, algumas vezes, como se fosse apenas uma presença de um pobre animal diante de Deus, tal são a fraqueza, a insensibilidade e a impotência nossa em muitas ocasiões da vida. Teresinha, como grande mística, pela própria experiência, descobriu o sentido dessa doutrina joanina e aproveitou-a em toda sua profundidade, já que ela é também uma conseqüência lógica de toda sua mensagem espiritual.

 

 Celina (1), o bom Deus não me pede mais nada...no começo, Ele me pedia uma infinidade de coisas. Pensei, durante algum tempo, que,agora, já que Jesus não pedia nada, era preciso ir, docemente, na paz e no amor, fazendo somente o que Ele pedia... Mas, tive uma luz. Santa Teresa diz que é preciso entreter o amor(2). A lenha não se encontra a nosso alcance, quando estamos nas trevas, nas securas, mas, ao menos, não estamos obrigadas a por aí pequenas palhas? Jesus é bastante poderoso para, sozinho, conservar o fogo, contudo ele fica contente em nos ver colocar nele um pouco de alimento, é uma delicadeza que lhe dá prazer e, então, Ele joga no fogo muita lenha, não o vemos, mas sentimos a força do calor do amor. Tenho tido experiência disso, quando não sinto nada, quando sou INCAPAZ de rezar, de praticar a virtude, é, então, o momento de procurar pequenas ocasiões, nadas que dão prazer, mais prazer a Jesus do que o império do mundo, ou mesmo, do que o martírio sofrido generosamente, por exemplo, um sorriso, uma palavra amável, quando teria vontade de não dizer nada, ou de mostrar uma cara aborrecida,etc...

 Não é para fazer minha coroa, para ganhar méritos, é a fim de dar prazer a Jesus...Quando não tenho ocasiões, quero, pelo menos, dizer-lhe muitas vezes que o amo. Não é difícil e isso alimenta o fogo. Mesmo quando me parecesse que estaria apagado esse fogo de amor, quisera lançar nele alguma coisa e Jesus saberia, então, reacendê-lo. Celina, temo medo de não ter dito o que é preciso, talvez, você vai crer que faço sempre o que digo. Oh! não! não sou sempre fiel, mas jamais me desencorajo, abandono-me nos braços de Jesus.(3). A gotinha de orvalho se afunda mais ainda no cálice da Flor dos campos e aí ela reencontra tudo que perdeu e bem mais ainda.

 

 (CT 143)

 

 

NOTAS

 

(1) -Esta carta, datada de 18 de julho de 1893, é dirigida a Celina.

(2) -Vida, cap.30

(3) -A nenhum leitor de Santa Teresinha passa despercebida sua devoção,toda particular, a Jesus. Ele é o centro de toda sua atenção. Na verdade, a Santa concentra seu amor ao bom Deus em Jesus, pois, Ele é, como diz São Paulo, o único mediador entre Deus e os homens. Teresa quase não se refere a Cristo e ao Espírito Santo. O centro de sua atenção é, de fato, Jesus,concreto, histórico, real,que viveu e morreu e que continua vivo na Eucaristia.

 

 

52.AS FLORES DO CAMINHO

 

 Um pouco atrás(p. ),vemos como Santa Tersinha se mostrou profundamente humana, diante da dor de não poder ter, ao seu lado, seu querido pai, no dia da sua tomada de hábito. Na dramática carta dirigida a Celina, ela se mostrou como realmente era,isto é, uma criatura humana, feminina, cheia de sentimentos e que sofria pela falta de uma alegria tão natural como era rever seu velho, doente e querido pai.

 Nesta carta, também dirigida a Celina, em outubro de 1893, nossa Santa volta ao mesmo tema. Aqui, ela usa o simbolismo das flores do caminho. Flores do caminho são as pequenas e bonitas coisas, que podemos encontrar às margens da estrada da nossa vida.São florzinhas encantadoras e simples, que não fazem mal a ninguém e Só servem para enfeitar e alegrar o caminhar do peregrino. Todavia, também com relação a essas flores, nossa Santa exige um desapego total. Com efeito, nada, absolutamente nada deve impedir nossa ligeira marcha no amor exclusivo para Deus.É evidente que, Santa Teresinha não quer dizer que devemos nos esquecer do mundo e das pessoas. Ela quer assinalar, apenas, a liberdade, a libertação e o desapego de todo aquele que quer, realmente, amar a Deus sobre todas as coisas.

 

 

 Oh! sim, somente Ele entende quando nada nos responde(1)...Somente Ele dispõe os acontecimentos de nossa vida de exílio; é Ele quem nos apresenta, às vezes, o cálice amargo. Mas, não o vemos. Ele se esconde, oculta sua mão Divina e não podemos perceber senão as criaturas , então, sofremos, visto que a voz de nosso Bem-Amado não se faz ouvir e a das criaturas parecem nos menosprezar... Sim, o sofrimento mais amargo é de não ser compreendida... Mas, esse sofrimento não será jamais o de Celina e de Teresa, jamais, pois seus olhares vêem mais alto que a terra, elas se elevam acima do criado, quanto mais Jesus se esconde, tanto mais sentem que Jesus está perto delas. Na sua fina delicadeza, Ele caminha adiante,desviando as pedras do caminho, afastando os répteis; isso não é nada ainda, Ele faz vibrar aos nossos ouvidos vozes amigas, essas vozes nos advertem de não marchar com demasiada segurança... E por quê? Não foi Jesus mesmo quem traçou nossa rota? Não é Ele quem nos ilumina e se revela a nossas almas?... Tudo nos leva para Ele, as flores que crescem às margens do caminho não cativam nossos corações(2), nós as olhamos, amamo-las, pois nos falam de Jesus, de seu poder, de seu amor, mas nossas almas ficam livres, por que perturbar assim nossa doce paz? Por que temer a tempestade, quando o Céu está sereno?... Não são os precipícios que é preciso evitar, estamos nos braços de Jesus e, se vozes amigas nos aconselham temer, é o nosso Bem-Amado mesmo que o quer assim e por quê?... Ah!no seu amor, escolheu para suas esposas o mesmo caminho que escolheu para Si...Ele quer que as mais puras alegrias se mudem em sofrimentos, a fim de, não tendo, por assim dizer, nem sequer o tempo de respirar à vontade, nosso coração se volte para Ele, pois Só Ele é nosso Sol e nossa alegria...

 As flores do caminho são os prazeres puros da vida, não há nenhum mal em gozá-los, mas Jesus é ciumento de nossas almas. Ele deseja que todos os prazeres sejam para nós misturados de amargura...E,contudo, as flores do caminho conduzem ao Bem-Amado, mas é um caminho desviado, é a placa ou o espelho que reflete o Sol, mas não é o próprio Sol...

 

 (CT 149)

 

NOTAS

 

(1) -Esta frase é atribuída a Santo Agostinho.

(2) -Talvez, aqui, tenhamos uma lembrança de S.João da Cruz, Cântico Espiritual, estrofe III, verso 3: "Buscando meus amores, irei por esses montes e ribeiras, nem colherei as flores...".

 

 

53.A PALAVRA E A VERDADE

 

 

 Aos 7 de julho de 1894, Teresa escreveu uma longa carta a Celina. Nesta carta,nossa Santa fala sobre uma série de questões importantes para a vida espiritual. É como se estivéssemos diante de uma bandeja cheia de belas frutas. É difícil saber escolher o que há aí de melhor. Todavia, com certo esforço, podemos assinalar alguns pontos interessantes.

 Um desses pontos é a referência à Palavra e à Verdade. Palavra e Verdade, que são o próprio Jesus. Terie ama as Escrituras e vê nelas o campo cheio de tesouros. Se fosse padre, disse, estudaria grego e hebraico para ler a Palavra de Deus tal como Ele se dignou escrever em linguagem humana. Com efeito, seus escritos são cheios de citações ou referências bíblicas, e isso em um tempo em que não havia tantas edições das Escrituras e quando era quase impossível possuir uma Bíblia Só para si.

 

 

 Eis aí muito bem a imagem de nossas almas; muitas vezes descemos aos vales férteis, onde nosso coração gosta de se alimentar; o vasto campo das Escrituras(1) que, tantas vezes, se abriu diante de nós para derramar em nosso favor seus ricos tesouros, esse vasto campo nos parece ser um deserto árido e sem água... Não sabemos mais onde estamos, ao invés da paz, da luz Só encontramos a perturbação, ou, ao menos, as trevas...

 Que apelo o do nosso Esposo!... O quê! não ousávamos mais nem sequer olhar para nós, tanto pensávamos estar sem brilho e sem enfeites e Jesus nos chama, quer nos considerar à vontade, mas Ele não está Só, com Ele as duas outras pessoas da Santíssima Trindade(2) vêm tomar posse de nossa alma... Jesus o prometera, certa vez, quando estava perto de retornar a seu Pai e nosso Pai(3). Ele dizia com uma inefável ternura: "Se alguém me ama, guardará minha palavra e meu Pai o amará e viremos a ele e faremos nele nossa morada"(4). Guardar a palavra de Jesus, eis a única condição de nossa felicidade, a prova de nosso amor por Ele. Mas, que é essa palavra?... Parece-me que a palavra de Jesus é Ele mesmo... Ele, Jesus, o Verbo, a Palavra de Deus!(5)Ele no-lo diz, mais adiante, no mesmo evangelho de S.João, rezando a seu Pai pelos seus discípulos. Ele se exprime assim: "Santificai-os pela vossa palavra, vossa palavra é a verdade"(6); em outro lugar, Jesus nos ensina que Ele é o caminho, a verdade, a vida(7).Sabemos, pois, qual é a Palavra, que devemos guardar; não perguntaremos a Jesus, como Pilatos: "Que é a Verdade?"(8). Nós possuímos a Verdade.Guardamos Jesus nos nossos corações!...

 Muitas vezes, como a Esposa, podemos dizer que "Nosso bem-Amado é um ramalhete de mirra"(9), que Ele é para nós um esposo de sangue... Mas, como nos será doce ouvir, um dia, esta palavra tão doce sair da boca de nosso Jesus: "Fostes vós que permanecestes constantemente comigo em todas as provações que tive, por isso, eu vos preparei meu reino como meu Pai mo preparou"(10). As provações de Jesus, que mistério! Ele também tem as suas provações? Sim, Ele as tem e, muitas vezes, está Só a pisar o vinho no lagar, busca consoladores e não os pode encontrar...Muitos servem a Jesus, quando Ele os consola, mas poucos consentem fazer companhia a Jesus dormindo sobre as ondas ou sofrendo no jardim da agonia! Quem,pois, vai querer servir Jesus por Ele mesmo? Ah! seremos nós!...

 

 (CT 165)

 

 

NOTAS

 

(1) -Imitação de Cristo, L.III, cap.LI, n.2

(2) -Teresa tinha uma devoção toda especial à Santíssima Trindade. Na verdade, ela, quando escreve, refere-se mais a Jesus, mas todo seu ideal é caminhar para a Trindade.Em certos grandes momentos, ela se dirige mesmo à Trindade, como foi o caso do Ato de Consagração ao Amor Misericordioso.

(3) -O título de "Pai", dado a Deus, encantava Teresinha. Certo dia, chegou a chorar, enquanto rezava o "Pai-Nosso", tanta foi a emoção ao meditar que Deus era seu Pai! Aliás, está bem dentro da sua espiritualidade a consideração de Deus como Pai. Ela se considerava a filha querida de Deus e, como nos tempos de criança sustentava, sem receios, na mão de seu pai, enquanto caminhava, assim ela quer, durante toda sua vida, abandonar-se, sem medo, nos braços de seu Pai do Céu.

(4) -João 14,23

(5) -Por aqui podemos entender como Santa Teresinha punha todo seu relacionamento com Deus em Jesus, pois Ele é o Verbo, a Palavra de Deus, portanto, o Caminho, a Verdade, a Vida de todos nós.

(6) -João 17,17

(7) -João 14,6

(8) -João 18,38

(9) -Cântico dos Cânticos 1,13

(10)-Lucas 22,28-29

 

 

54.O MARTÍRIO DO CORAÇÃO

 

 

 Durante muito tempo, Santa Teresinha sonhou com o martírio de sangue, para dar a Deus uma prova de seu amor. Com o tempo, ela descobriu outro tipo de martírio muito mais profundo, o martírio do coração.

 O martírio do coração é, como diz a Santa, o sofrimento íntimo da alma. É aquele sofrimento, que ninguém vê, nem sabe que existe. É aquele sofrimento escondido, que sofremos sozinhos. É aquela morte psicológica, que parece que nos arrasa completamente, sobretudo quando não ouvimos voz por perto, nem vemos uma mão que se estenda para nos ajudar. Martírio do coração, eis o martírio muito mais profundo e penoso, porque junto dele não há barulho, não há choro, não há compaixão, não há companhia. Mas, esse martírio, quando é bem sofrido, Só traz a paz e a alegria.

 

 

 Não estou surpresa com suas provações(1), passei por elas no ano passado e sei o que são!... O bom Deus quis que eu fizesse meu sacrifício, fi-lo e, depois, como você, senti a calma no meio do sofrimento(2).

 Mas, senti ainda outra coisa, é que, muitas vezes, o bom Deus Só quer nossa vontade, Ele pede tudo e, se nós lhe recusamos a menor coisa, ele nos ama demais para nos ceder, mas, desde que a nossa vontade se conforme à sua , que ele veja que é somente Ele que buscamos, então, porta-se a nosso respeito como outrora com Abraão...

 As cruzes exteriores, que são elas? Poderíamos nos separar uma da outra sem sofrer, se Jesus consolasse nossas almas... O que é uma cruz verdadeira é o martírio do coração, o sofrimento íntimo da alma, e essa cruz que ninguém vê, poderemos carregá-la sem jamais nos separar.

 Quando a tempestade é muito forte na terra, todo o mundo diz: "Não há nada a temer pelos barcos, pois a tempestade não ruge mais agora no mar"(3). Pois bem, eu digo a Celina- A tempestade passou sobre minha alma, ela visita agora a sua, mas não temo, logo a calma vai renascer, uma grande serenidade vai suceder à tempestade.

 (CT 167)

 

 

NOTAS

 

(1) -Esta carta é dirigida a Celina e foi escrita aos 18 de julho de 1894.

(2) -A Santa se refere ao sacrifício das afeições familiares, diante da possível ida para um Carmelo, nas Missões do Oriente.

(3) -É um adágio local.

 

 

55.QUEM É REALMENTE LOUCO?

 

 

 Celina se preparava para entrar no Carmelo. De seus primos, sente uma reação contra sua entrada. Comunica, então, tudo a Teresa. Esta, por sua vez, aproveita da ocasião, para expor seu pensamento sobre a vocação da contemplativa. Sem ofender ninguém, mas também sem omitir alguns acusadores, nossa Santa procura dar uma resposta simples. Não entra propriamente no mérito da questão, mas suas palavras têm a força de uma pregação vibrante, porque provoca o leitor a refletir e a discutir consigo mesmo o problema.

 

 

 Não estou admirada com a tempestade que ruge em Caen. F. e J.(1) escolheram um caminho tão diferente do nosso, que eles não podem compreender a sublimidade de nossa vocação!... Mas, rir melhor, quem rir por último... Após esta vida de um dia, eles compreenderão quais de nós ou deles terão sido os mais privilegiados...

 Estou muito feliz, minha Celina, irmãzinha, que você não sinta atrativo sensível ao vir para o Carmelo, é uma delicadeza de Jesus, que quer receber de você um presente. Ele sabe que, é bem mais doce dar que receber(2). Só temos o curto instante da vida para dar ao bom Deus... e Ele já se prepara para dizer: "Agora, é minha vez..."(3). Que felicidade sofrer por Aquele que nos ama loucamente e passar por loucas aos olhos do mundo. Julga-se os outros segundo si mesmo e, como o mundo é insensato, pensa, naturalmente, que nós somos insensatas!... Mas, depois de tudo, não somos as primeiras, o único crime que foi imputado a Jesus por Herodes foi o de ser louco e penso como ele!... sim, era loucura procurar os pobres coraçõeszinhos dos mortais para fazer deles seus tronos, justamente Ele, o Rei da Glória, que está assentado sobre os querubins... Ele, cuja presença não pode encher os Céus...(4) Era louco nosso Bem-Amado para vir à terra procurar pecadores para fazer deles seus amigos, seus íntimos, seus semelhantes, Ele, que era perfeitamente feliz com as duas adoráveis pessoas da Trindade!... Não poderemos jamais fazer por Ele as loucuras, que Ele fez por nós e nossas ações não merecerão esse nome, pois são apenas atos muito razoáveis e bem abaixo do que nosso amor quisera realizar. É, pois, o mundo que é insensato, visto que ignora o que Jesus fez para salvá-lo; é ele que é um açambarcador que seduz as almas e as leva a fontes sem água.

 Não somos também mandrionas, pródigas. Jesus nos defendeu na pessoa de Madalena. Ele estava à mesa, Marta servia, Lázaro comia com Ele e os discípulos. Quanto a Maria, ela não pensava em se alimentar, mas em dar prazer Àquele que ela amava, por isso, ela tomou um vaso cheio de um perfume de grande valor e o derramou sobre a cabeça de Jesus, quebrando o vaso, então toda a casa ficou perfumada com a fragrância, mas os APósTOLOS murmuraram contra Madalena...(5) É a mesma coisa conosco, os mais fervorosos cristãos, os padres acham que somos exageradas, que devíamos servir com Marta ao invés de consagrarmos a Jesus os vasos de nossas vidas com os perfumes que aí estão guardados... E, contudo, que importa que os nossos vasos sejam quebrados, visto que Jesus é consolado e que, mesmo sem querer, o mundo é obrigado a sentir os perfumes, que se exalam e que servem para purificar o ar envenenado, que ele não cessa de respirar.

 (CT 169)

 

 

NOTAS

 

(1) -Francis e Joana. São o casal La Néele, que deplorou, em Caen, a entrada de Celina no Carmelo.

(2) -Atos dos Apóstolos 20,35

(3) -Citação já conhecida. É do Pe. Arminjon

(4) -I Reis 8,27

(5) -Santa Teresinha junta Marcos 14,3-6 com João 12, 1-8. Discute-se, se tal junção seja possível, mas existem os que a sustentam.

 

 

 

56.UMA CRIANCINHA

 

 

 Teresa amou e amou apaixonadamente. Partindo, então, desse amor, ela procurou um meio de se unir,cada vez mais, a Deus. Encontrou-o, pela experiência, pelas leituras bíblicas, por reflexões, na pequenez, ou seja, no querer ser e permanecer pequena, como uma criancinha, diante de Deus. Foi daí que surgiram, como conseqüências, a confiança, o abandono, a simplicidade, a alegria, a paz, o fazer simplesmente pequenas coisas para agradar a Deus. Foi daí que surgiram, também, expressões, como dar prazer a Jesus, suspiros de amor, pequenas ações, jogar-se nos seus braços, simples olhar, etc. Foi daí que surgiram, ainda, idéias fortes como não ter medo, pecados que não ofendem, lei do amor, dormir nos braços de Deus,etc. Foi daí que surgiram, outrossim, mensagens vividas, como a superação e o entendimento do sofrimento pelo amor e pelo ciúme de Deus, o esquecimento de si mesmo para felicidade dos outros,etc.

 Nesta carta de 12 de julho de 1896, dirigida a sua irmã Leônia, nossa Santa retoma alguns desses pontos de sua espiritualidade e, com toda a simplicidade, dá-nos um pouco mais de luz para entendermos o que é realmente ser uma criancinha diante do nosso Pai do céu.

 

 

 Eu lhe asseguro que o Bom Deus é bem melhor do que você o crê. Ele se contenta de um olhar, de um suspiro de amor... Quanto a mim, acho a perfeição bem fácil para ser praticada, porque compreendi que, não há nada a fazer a não ser pegar Jesus pelo Coração... Olhe uma criancinha, que acaba de aborrecer sua mãe, encolerizando-se ou, então, desobedecendo-lhe, se ela se esconde em um canto com um ar amuado e grita com medo de ser punida, sua mamãe não o perdoará certamente pela sua falta, mas se ele vem lhe estender seus bracinhos, sorrindo e dizendo: "Abraça-me, não recomeçarei mais", será que sua mãe poderá não apertá-lo contra seu coração com ternura e esquecer suas malícias infantis?... Contudo, ela sabe muito bem que, seu querido pequeno recomeçará na primeira ocasião, mas isso não importa, se ele a pegar ainda pelo coração, jamais será punido...(1)

 No tempo da lei do temor, antes da vinda de Nosso Senhor, o profeta Isaías dizia já, falando em nome do Rei dos Céus: "Pode uma mãe esquecer seu filho?... Pois bem, mesmo quando uma mãe esquecesse seu filho, eu não vos esquecerei jamais"(2) Que promessa encantadora! Ah! nós, que vivemos na lei do amor, como não aproveitar das amorosas propostas, que nos faz nosso Esposo... como temer Aquele que se deixa prender por um cabelo, que voa no nosso pescoço?...(3)

 Saibamos, pois, retê-lo como prisioneiro a esse Deus, que se torna o mendigo de nosso amor. Ao nos dizer que, é um cabelo que pode operar esse prodígio, ele nos mostra que as menores ações, feitas por amor, são as que encantam seu coração...

 Ah! se fosse necessário fazer grandes coisas, quanto seríamos para lastimar!... Mas, como somos felizes, visto que Jesus se deixa aprisionar pelas menores...

 Não são os sacrificioszinhos que lhe faltam, minha querida Leônia, sua vida não é composta deles?... É tão doce ajudar Jesus, pelos nossos leves sacrifícios...

 Parece-me que, se os nossos sacrifícios são cabelos que cativam Jesus,também as nossas alegrias o são, para isso basta não se concentrar em uma felicidade egoísta, mas oferecer a nosso Esposo as pequenas alegrias, que ele semeia ao longo do caminho da vida, para encantar nossas almas e elevá-las até Ele...

 Você me pede notícias da minha saúde. Pois bem! minha querida irmãzinha, não tusso mais de jeito nenhum. Está contente?... Isso não impedirá o Bom Deus de me levar, quando Ele quiser; pois que faço todos meus esforços para ser uma criancinha, não tenho preparativos para fazer.O próprio Jesus deverá pagar todas as despesas de viagem e o ingresso de entrada no Céu...

 

 (CT 191)

 

NOTAS

 

(1) -"Pegar pelo coração", eis mais um mote típico da espiritualidade teresiana. Talvez, tenha sido fonte de todo esse simbolismo da criança o livro "Avisos espirituais para a santificação das almas"(autor anônimo), no qual, à página 355, do tomo I, da edição de 1883, encontram-se palavras bem semelhantes às de nossa Santa.

(2) -Isaías 49,15

(3) -Cântico dos Cânticos 4,9

 

 

 

57.JOGANDO FLORES

 

 

 Este bilhete de Santa Teresinha,escrito nos meados de setembro de 1896, e dirigida à irmã Maria de São José, resume, de certa maneira, uma idéia fundamental da espiritualidade teresiana, isto é, fazer coisas simples, que cativam o coração de Deus, mas que têm grande valor, porque são transformadas pelo poder e pela bondade de Jesus. A conclusão, pois, é esta: nada de inquietações, de desespero, pois, mesmo dormindo, pode-se amar e o sonho amoroso da criancinha Só traz prazer ao seu pai querido.

 

 

 Estou encantada com o Meninozinho e aquele que o leva nos seus braços está ainda mais encantado do que eu...(1) Ah! como a vocação do Meninozinho é bela! Não é uma missão que ele deve evangelizar, mas todas as missões.(2) Como é isso?... É dormindo, amando, JOGANDO FLORES a Jesus, enquanto ele dorme. Então, Jesus pegará essas flores e, comunicando-lhes um valor inestimável, jogá-las-á, por sua vez; ele as fará voar sobre todas as regiões e salvará as almas, com as flores, com o amor do meninozinho, que não verá nada, mas sorrirá sempre, mesmo através de suas lágrimas!...Um menino missionário e guerreiro, que maravilha!

 (CT 194)

 

 

NOTAS

 

(1) -Irmã Maria de São José dava a si mesmo este apelido. O "aquele" refere-se a Nosso Senhor.

(2) -Há,aqui, provavelmente, uma referência a uma possível partida para uma missão no Oriente. No segundo semestre de 1896, havia no Carmelo de Lisieux uma expectativa sobre uma eventual ida de alguma religiosa para Saigon ou Hanoi. Em novembro desse ano, chegou-se mesmo a falar da viagem da própria irmã Teresa do Menino Jesus.

 

58.A CONFIANÇA, SÓ A CONFIANÇA

 

 

 Faltava pouco mais de um ano para a morte de Teresa, quando ela escreveu, no dia 17 de setembro de 1896, esta carta a sua irmã Maria do Sagrado Coração.

 Podemos partir de uma idéia da carta: ser vítima de amor! Ora, ser vítima de amor é ser consagrado totalmente a Deus para amá-lo e fazê-lo mais amado ainda. O programa, pois, é grandioso, pode até espantar algumas pessoas. Santa Teresinha, então, procura explicar como é fácil realizá-lo, apesar de toda nossa pequenez, de todas as nossas fraquezas. Daí surge mais uma mensagem típica de Teresa: é a confiança, Só a confiança, que deve nos conduzir ao Amor!Para se entender bem esta carta, é preciso, porém, ter lido antes a carta que Teresa dirigira a sua irmã Maria,que lhe pedira para que ela pusesse,por escrito,"todos os sentimentos de seu coração"

 

 

 Minha Irmã querida, não estou embaraçada para lhe responder...(1) Como a senhora pode me perguntar, se lhe possível amar o Bom Deus como eu o amo?...

 Se a senhora tivesse compreendido a história de meu passarinho, não me teria feito essa pergunta. Meus desejos do martírio não são nada, não são eles que me dão a confiança ilimitada, que sinto em meu coração. São, para dizer a verdade, as riquezas espirituais, que tornam injusta, quando se repousa nelas com complacência e quando se crê que elas são alguma coisa de grande... Esses desejos são uma consolação, que Jesus concede, às vezes, às almas fracas como a minha ( e essas almas são numerosas), mas, quando ele não concede essa consolação é uma graça de privilégio, recorde essas palavras do Padre(2):"Os mártires sofreram com alegria e o Rei dos Mártires sofreu com tristeza". Sim, Jesus disse:"Meu Pai, afasta de mim esse cálice"(3). Irmã querida, como pode dizer, após isso, que meus desejos são a marca de meu amor?... Ah! sinto muito bem que não é isso, de modo nenhum, que agrada ao Bom Deus na minha alminha, o que lhe agrada é de me ver amar minha pequenez e minha pobreza, é a esperança cega que tenho na sua misericórdia... Eis aí meu único tesouro.

 A senhora não está pronta a sofrer tudo o que o Bom Deus quiser? Sei muito bem que sim; então, se deseja sentir alegria, sentir atração pelo sofrimento, é sua consolação que procura, visto que, quando se ama uma coisa, o sofrimento desaparece.(4). Asseguro-lhe que se fôssemos, juntas, para o martírio nas disposições em que nos encontramos, a senhora teria um grande mérito e eu não teria nenhum, a menos que aprouvesse a Jesus mudar minhas disposições.

 ó minha Irmã querida, peço-lhe, compreenda sua filhinha, compreenda que, para amar Jesus, ser sua vítima de amor, mais se é fraco, sem desejos, sem virtudes, mais se é próprio às operações desse Amor, consumante e transformante...(5) Só o desejo de ser vítima, basta, mas é preciso consentir ficar sempre pobre e sem força e eis ai o difícil, pois "O verdadeiro pobre de espírito onde o encontrar? É preciso procurá-lo bem longe", diz o salmista...(6) Ele não diz que é preciso procurá-lo entre as grandes almas(7), mas "bem longe", isto é, na baixeza, no nada... Ah! fiquemos , pois, bem longe de tudo que brilha, amemos nossa pequenez, amemos não sentir nada, então, seremos pobres de espírito e Jesus virá nos procurar, por mais longe que estejamos, ele nos transformará em chamas de amor... Oh! como quisera poder fazê-la compreender o que sinto!... É a confiança e nada a não ser a confiança, que deve nos conduzir ao Amor... O medo não conduz à Justiça?...(8)Já que vemos o caminho, corramos juntas. Sim, eu o sinto, Jesus quer nos dar as mesmas graças, ele quer nos dar, gratuitamente, seu Céu(9).

 ó minha Irmãzinha querida, se a senhora não me compreende,é porque é uma grande alma...ou,antes, é porque me explico mal, pois, estou segura de que, o Bom Deus não lhe daria o desejo de ser POSSUÍDA por ELE, por seu AMOR MISERICORDIOSO, se não lhe reservasse esse favor...ou, antes, ele já lho deu, já que a senhora se entregou a Ele, já que a senhora deseja ser consumida por Ele e porque jamais o Bom Deus dá desejos, que não possa realizar.

 

 (CT 197)

 

 

 

NOTAS

 

(1) -Esta carta é uma resposta a um bilhete de Irmã Maria do Sagrado Coração, dirigido a Teresa, depois que lera uma carta ,que Teresa lhe enviara,atendendo a um seu pedido, a qual foi redigida entre 14 e 15 de setembro de 1896,e se tornou, mais tarde, o Manuscrito B.(Veja p. ).

(2) -Refere-se a Santa ao Pe.Pichon. Sua citação foi feita durante o retiro pregado no Carmelo de Lisieux e justamente no dia 30 de outubro de 1887.

(3) -Mateus 26,39

(4) -Cf. Santo Agostinho, De bono viduitatis, 21,26

(5) -Longe da doutrina de Santa Teresinha toda e qualquer espécie de quietismo. Sua luta, seus esforços, suas penitências, sua ascese, tudo, enfim, na sua vida recusa qualquer sentimento de quietismo. Teresa insiste, porém, na confiança, no abandono, na fé em Deus, justamente para que a pessoa possa subir, caminhar e até voar na montanha do amor, que é a perfeição pessoal.

(6) -Na verdade, a citação é da Imitação de Cristo, II,11,4, que cita o livro dos Provérbios, 31,10

(7) -Note-se que, Teresinha jamais desprezou as grandes almas. Pelo contrário, ela sempre admirou os grandes santos. Admirou grandes almas, como a de seu próprio pai, de seu tio, etc. O que nossa Santa quer dizer é que, ela e todas as pessoas, que quiserem segui-la, sentindo-se pequenas e fracas, devem aceitar serem assim e até gostar de permanecer pequenas e fracas. Não há, pois, nenhum desprezo pelos grandes valores, da parte de nossa Santa.

(8) -Santa Teresinha acrescentou, depois, a seguinte nota:"À justiça severa, tal qual a representam aos pecadores, mas não a essa Justiça, que Jesus terá para com aqueles que o amam".

(9) -Provavelmente, Santa Teresinha se refere a Romanos 3,24. Tome-se toda essa afirmação dentro do contexto da doutrina teresiana, ou seja, não se nega o mérito do homem e, por conseguinte, a necessidade de que cada um se esforce para colaborar com a graça divina, mas há uma insistência, e isso é própria de Santa Teresinha, na gratuidade da graça, do amor misericordioso de Deus para com as criaturas.

 

 

59.O EXÍLIO OU A PÁTRIA?

 

 Os textos, que se seguem, são de uma carta de Santa Teresinha dirigida ao Pe. Belliere, pelo qual recebera da sua Priora a incumbência de rezar. Era, pois, esse sacerdote missionário seu irmão espiritual.

 Teresa levou muito a sério sua responsabilidade de irmã espiritual de um missionário. Rezou, rezou muito e se sacrificou por ele, pelas suas atividades missionárias e também por outro sacerdote, do qual se tornou também irmã espiritual.

 Nos fragmentos da carta, que aqui é transcrita, aparece claro o espírito missionário de Teresa através da oração e do sacrifício. E esse espírito é tão forte, que nossa Santa . 2 chega a dizer que, se no céu não pudesse continuar realizando-o, preferiria ficar no exílio a ir para a Pátria celeste.

 

 Uma vez que Ele mesmo (Jesus) me escolheu para ser sua irmã, espero que Ele não olhará minha fraqueza, ou, antes, que Ele se servirá dessa fraqueza mesma para realizar sua obra; pois,O Deus Forte gosta de mostrar seu poder, em se servindo do nada. Unidas nEle, nossas almas poderão salvar muitas outras, pois esse doce Jesus disse: "Se dois de vós estiverem de acordo na terra sobre qualquer coisa que queiram pedir, isso lhes será concedido por meu Pai" (1) Ah! o que lhe pedimos, é trabalhar para sua glória, é amá-lo e fazê-lo amado...

 O senhor me prometeu rezar por mim durante toda sua vida,sem dúvida ela será mais longa do que a minha e não lhe é permitido cantar como eu: -"Tenho esperança, meu exílio será curto!..." (2), mas não lhe é permitido também esquecer sua promessa. Se o Senhor me levar cedo com Ele, peço-lhe para continuar, cada dia, a mesma oraçãozinha, pois desejarei no Céu a mesma coisa que na terra: Amar Jesus e fazê-lo amado.

 Reverendo Senhor, o senhor deve me achar bem estranha, talvez lamente ter uma irmã, que parece querer ir gozar do repouso eterno e deixá-lo trabalhar sozinho...mas, sossegue, a única coisa que desejo é a vontade do Bom Deus, e confesso que, se no Céu eu não puder mais trabalhar para sua glória, preferiria o exílio à pátria.

 Não conheço o futuro, contudo se Jesus realizar meus pressentimentos, prometo-lhe continuar sua irmãzinha lá em cima. Nossa união ao invés de ser quebrada, tornar-se-á mais íntima, pois então, não haverá mais clausura, mais grades e minha alma poderá voar com o senhor para as distantes missões. Nossos papéis continuarão os mesmos, ao senhor as armas apostólicas, a mim a oração e o amor...

 (CT220)

 

 

NOTAS

 

(1) -Mateus 18,19

(2) -Ver a poesia "Viver de amor", estrofe 9, à p.

 

 

60.A JUSTIÇA DIVINA

 

 Santa Teresinha referiu-se, algumas vezes, à Justiça divina, mas enquanto é considerada como a que exigirá uma reparação pelas faltas cometidas contra Deus. Nesta carta,datada de 9 de maio de 1897, e dirigida ao Pe.Adolfo Roulland, um dos seus irmãos espirituais, nossa Santa diz sua opinião sobre a Justiça Divina, enquanto é a recompensadora , ou seja, enquanto é aquele atributo divino,que dará a cada um dos fiéis amantes de Deus a recompensa devida e saberá, pois, compreender cada um daqueles que, apesar de fracos e pecadores, procuraram, com todos os esforços, amar a Deus sobre todas as coisas e aos seus irmãos como a si mesmos. Portanto, trata-se da Justiça, que sabe enxergar o íntimo do coração do homem, conhecer suas mais profundas intenções, e dar-lhes, no momento oportuno, a ajuda necessária e a recompensa adequada.

 

 Meu Irmão, os inícios do seu apostolado estão marcados com o selo da cruz, o Senhor o trata como privilegiado; é muito mais pela perseguição e pelo sofrimento do que por brilhantes pregações que Ele quer assegurar seu reino nas almas.

 Não compreendo, meu Irmão, porque você parece duvidar de sua entrada imediata no Céu, se os infiéis lhe tirem a vida. Sei que é preciso ser bem puro para comparecer diante do Deus de toda Santidade, mas sei também que, o Senhor é infinitamente justo e é essa justiça, que amedronta tantas almas, que é o objeto de minha alegria e de minha confiança. Ser justo não é somente exercer a severidade para punir os culpados, é ainda reconhecer as intenções retas e recompensar a virtude. Espero tanto da justiça de Deus, quanto da sua misericórdia.É porque é justo que "Ele é compassivo e cheio de doçura, lento para punir e abundante em misericórdia; pois ele conhece nossa fraqueza, lembra-se que somos apenas pç. Como um pai tem ternura para com seus filhos, assim o Senhor tem compaixão de nós"!!... (1)

 Ó meu Irmão, ao ouvir essas belas e consoladoras palavras do Profeta-Rei, como duvidar que, o bom Deus não possa abrir as portas de seu reino a seus filhos, que o amaram a ponto de sacrificar tudo por Ele, que não somente deixaram sua família e sua pátria para fazê-lo conhecido e amado, mas ainda desejam dar suas vidas por Aquele que amam... Jesus tinha mesmo razão em dizer que não há maior amor do que esse!(2) Como, pois, Ele se deixaria vencer em generosidade? Como purificaria Ele nas chamas do purgatório almas consumadas pelos fogos do amor divino? (3) É verdade que, nenhuma vida humana está isenta de faltas, Só a Virgem Imaculada se apresenta absolutamente pura diante da Majestade Divina. Que alegria pensar que essa Virgem é nossa mãe! Visto que ele nos ama e conhece nossa fraqueza, que temos a temer? Eis aí muitas frases para exprimir meu pensamento, ou, antes, para não conseguir fazê-lo, queria simplesmente dizer que, me parece que todos os missionários são mártires pelo desejo e pela vontade e que, por conseguinte, nenhum deveria ir ao purgatório. Se existe nas suas almas, no momento de comparecer diante de Deus, algum resto de fraqueza humana, a Santíssima Virgem lhes obtém a graça de fazer um ato de amor perfeito e, depois, dá-lhes a palma da coroa, que eles tão bem mereceram.

 Eis aí, meu Irmão, o que penso sobre a justiça do bom Deus; meu caminho é todo ele de confiança e de amor, não compreendo as almas, que têm medo de um tão terno Amigo. Às vezes, quando leio certos tratados espirituais, em que a perfeição é apresentada através de mil entraves, rodeada de uma multidão de ilusões, meu pobre espiritozinho se cansa muito depressa, fecho o sábio livro, que me quebra a cabeça e que me desseca o coração, e tomo a Escritura Sagrada. Então, tudo me parece luminoso, uma Só palavra revela à minha alma horizontes infinitos, a perfeição me parece fácil, vejo que basta reconhecer seu nada e se abandonar, como um menino, nos braços do bom Deus. Deixando às grandes almas, aos grandes espíritos os belos livros, que não posso compreender, ainda menos por em prática, alegro-me por ser pequena, visto que Só as crianças, e os que se lhes assemelham, serão admitidos ao banquete celeste. Estou muito feliz que haja muitas moradas no reino de Deus, pois, se Só houvesse aquela, cuja descrição e caminho me parecem incompreensíveis, não poderia entrar nele.

 

 (CT 226)

 

 

NOTAS

 

(1) -Salmo 102,18,14,13

(2) -João 15,13

(3) -É curiosa essa opinião de Santa Teresinha sobre o purgatório. Podemos resumi-la em três pontos . Primeiro,ela não nega a opinião tradicional de que no purgatório exista realmente fogo. Ela não o afirma, mas dá a entender que aceita a opinião geral. Segundo, antecipando-se a alguns teólogos modernos, ela se refere à purificação da pessoa através do fogo do amor e,aqui, aparece uma opinião teológica interessante, isto é, o fogo do amor purifica, a ausência do amor purga. Terceiro, Teresinha jamais teve medo do purgatório. Pelo contrário, ela demonstra uma certeza bem segura de que não passará por essa purgação após a morte.E, como se vê nesta carta, ele acredita que algumas pessoas não passarão por esse suplício de purgação. Santa Teresinha é, realmente, admirável nesses seus arrazoados!

 

 

61.SÓ CONTO COM O AMOR!

 

 É curioso como há pouco menos de quatro meses para sua morte, Santa Teresinha fala tanto sobre alegria. Na verdade, ela foi alegre até à morte. Aqui, neste pequeno bilhete de 6 de junho de 1897,dirigido à irmã Maria da Trindade, sua prima, ela se alegra com a carta recebida da prima e faz uma declaração maravilhosa: ela Só conta mesmo é com o amor!Com efeito, à pergunta sobre a alegria de ir para o céu, ela responde com um axioma,que resume todo o seu caminho espiritual. Só o amor conta!

 

 Minha querida Irmãzinha, sua bela cartinha me alegrou a alma; vejo bem que não me enganei ao pensar que o Bom Deus a chama para ser uma grande santa, mesmo ficando pequena e assim se tornando cada dia mais.

 Uma coisa, que me dá prazer é constatar que, a tristeza não a torna melancólica, não pude deixar de rir ao ler o fim de sua carta. Ah! como é que você manca de mim?

 Você quer saber, se sinto alegria em ir para o Paraíso? Teria muito, se fosse para lá, mas... não conto com a doença, é uma condutora muito lenta. Só conto com o amor, peça ao Bom Jesus que todas as orações, que são feitas por mim, sirvam para aumentar o Fogo, que deve me consumir...

 

 (CT 242)

 

 

62. O ÚLTIMO LUGAR

 

 Santa Teresinha para satisfazer a um pedido de sua irmã, Celina, estivera, durante muito tempo, fazendo pose para ser fotografada, embora estivesse exausta. Celina se impacientou, mas Teresa não. Posteriormente, Celina falou com Teresa sobre o assunto e esta lhe mandou este bilhete, cuja nota dominante é nunca procurar aparecer grande aos olhos do mundo, mas ficar, feliz, no último lugar, que ninguém deseja.

 Irmãzinha bem-amada, não procuremos jamais o que parece grande aos olhos das criaturas.

 A única coisa que não é invejada, é o último lugar; Só esse último lugar é que não é, de modo nenhum, vaidade e aflição de espírito...

 Contudo, "o caminho do homem não está em seu poder" (1) e, por vezes, surpreendemo-nos a desejar o que brilha. Então, coloquemo-nos, humildemente, entre os imperfeitos, consideremo-nos alminhas, que o Bom Deus deve sustentar a cada instante; desde que Ele nos veja bem convencidas do nosso nada, estende-nos a mão. Se queremos ainda tentar fazer alguma coisa de grande, mesmo sob pretexto de zelo, o Bom Jesus nos deixa Sós, "mas desde que eu disse: "Meu pé vacilou, vossa misericórdia, Senhor, me fortificou!...Salmo 93". Sim, basta se humilhar, suportar, com doçura, suas imperfeições. Eis aí a verdadeira santidade! (2) Demo-nos a mão, irmãzinha, e corramos ao último lugar...ninguém virá disputá-lo conosco...

 

 (CT 243)

 

 

NOTAS

 

(1) -Jeremias 10,23

(2) -Aqui, Santa Teresinha não somente nos dá uma mensagem de vida espiritual, mas também nos transmite uma verdadeira aula de psicologia. Suportar-nos; aceitar-nos como somos, embora procuremos a perfeição, eis aí um antídoto a tantas angústias e a tantos desesperos, que acontecem hoje em dia. A não aceitação de si; o descompasso com a própria realidade, tem levado muita gente à loucura.

 

 

 

63.É PRECISO CANTAR SEMPRE

 

 Já dissemos que Teresa foi uma alma alegre, mesmo com todos seus sofrimentos. Foi alegre até à morte.Ela tinha dons naturais para ser alegre e fazer os outros alegres.

 Unida à alegria, ele sempre quis o belo canto. Cantar, cantar sempre, cantar, porque o coração está cheio de amor; cantar bem, porque Deus merece nossos melhores cânticos. Em suma, para quem ama, é preciso cantar sempre e nunca ser triste.

 

 

 A esposinha de Jesus não deve ser triste, pois Jesus o seria também. Ela deve cantar, em seu coração, o cântico do amor. Ela deve esquecer suas peninhas, para consolar as grandes penas de seu esposo.

 Irmãzinha querida, não seja uma jovem triste, ao ver que não a compreendem, que a julgam mal, que a esquecem, mas imite todo o mundo, procurando fazer como os outros, ou, antes, fazendo para si mesma o que os outros fazem por você, isto é, esqueça tudo que não é Jesus, esqueça a si mesma por seu amor!...Irmãzinha querida, não diga que é difícil, se falo assim, é sua culpa, você me disse que amava muito Jesus, e nada parece impossível à alma, que ama (1).

 (CT 251)

 

 

NOTA

 

(1) -Este bilhete foi escrito a lápis. A letra tremida leva-nos a pensar no enfraquecimento da Santa, pela doença.Todavia, é aqui que ela fala de alegria e de canto!

 

 

 

64.SOFRIMENTO, CONFIANÇA, ABANDONO, AMOR!

 

 

 Aos 18 de julho de 1897, já bem doente e sem muita força para escrever, santa Teresinha escreveu, apesar de tudo, uma longa carta ao seu irmão espiritual, Pe. Maurício Bartolomeu Belliere. É uma carta de consolação, mas a Santa aproveitou da ocasião, como era seu costume, e não perdeu tempo. Ela lhe escreveu também para lhe ensinar, mais uma vez, as linhas mestras da sua espiritualidade.

 Aqui, nossa Santa repete o que podemos encontrar em outros textos, todavia, vale a pena reler fragmentos desta carta, porque é uma mensagem de despedida de quem está às portas da morte.E uma mensagem preciosa,que deve ser relida!

 

 

 Sua dor me toca profundamente, mas veja como Jesus é bom, permite que possa lhe escrever ainda, para tentar consolá-lo.

 Sem dúvida, expliquei-me mal na minha última cartinha, visto que você me diz, meu queridíssimo irmãozinho "para não lhe pedir essa alegria, que sinto à aproximação da felicidade". Ah! se, por alguns instantes, você pudesse ler na minha alma, como ficaria surpreso! O pensamento da felicidade celeste, não somente não me causa nenhuma alegria, mas ainda me pergunto, às vezes, como me será possível ser feliz sem sofrer. Jesus, sem dúvida, mudará minha natureza, do contrário sentiria falta do sofrimento e do vale das lágrimas. Jamais pedi ao bom Deus para morrer jovem, isso me teria parecido covardia, mas Ele, desde minha infância, dignou-se dar-me a persuasão íntima que, meu curso, aqui na terra, seria curto.É, pois, apenas o pensamento de fazer a vontade do Senhor, que faz toda minha alegria.

 Sim, estou certa disso que, após minha entrada na vida, a tristeza de meu querido irmãozinho mudar-se-á em uma alegria cheia de paz, que nenhuma criatura poderá lhe arrebatar. Eu o sinto, devemos ir ao Céu pelo mesmo caminho, o do sofrimento unido ao amor. Quando estiver no porto, ensinar-lhe-ei, querido irmãozinho de minha alma, como você deve navegar sobre o mar encapelado do mundo, com o abandono e o amor de uma criança, que sabe que seu Pai a ama e não poderia deixá-la Só na hora do perigo. Ah! como quisera fazê-lo compreender a ternura do Coração de Jesus, o que Ele espera de você. Na sua carta do dia 14, você fez meu coração exultar docemente; compreendi, mais que nunca, a que ponto sua alma é irmã da minha, visto que ela é chamada a se elevar para Deus pelo ASCENSOR do amor e, não, a subir a escada rude do temor...

 Quisera tentar fazê-lo compreender, por uma comparação bem simples, quanto Jesus ama as almas, mesmo imperfeitas, que confiam nEle. Suponho que um pai tenha dois filhos, travessos e desobedientes, e que vindo para os castigar, vê um que treme e se afasta dele com terror, tendo, portanto, no fundo do coração, o sentimento de que merece ser punido; e que seu irmão, ao contrário, joga-se nos braços do pai, dizendo que lamenta tê-lo feito sofrer, que o ama e que, para provar, será bem comportado a partir de então, depois, se esse filho pede a seu pai para puni-lo com um beijo, não creio que o coração do feliz pai possa resistir à confiança filial de seu filho, do qual ele conhece a sinceridade e o amor. Ele não ignora, contudo, que, mais de uma vez, seu filho recairá nas mesmas faltas, mas está disposto a perdoá-lo, se sempre seu filho o pegar pelo coração... Não lhe digo nada do primeiro filho, meu querido irmãozinho, você deve compreender, se seu pai pode amá-lo tanto e tratá-lo com a mesma indulgência como ao outro.

 Mas, por que lhe falar da vida de confiança e de amor? Explico-me tão mal, que me é necessário aguardar o céu para lhe falar sobre essa vida feliz.

 

 (CT 258)

 

 

65.DELICADEZA FILIAL

 

 

 No dia 8 de setembro, de 1897, alguns dias antes de morrer, Santa Teresinha escreveu no verso de uma imagem de Nossa Senhora das Vitórias, seu último autógrafo. Ele foi dirigido à Santíssima Virgem e demonstra uma simplicidade filial encantadora. Com efeito, para com Maria, a quem ela gostava mais de olhar como mãe do que como rainha,nossa Santa tinha uma devoção simplesmente filial e familiarmente simples.

 Neste autógrafo aparece uma delicadeza rara de Teresinha para com sua Mãe do céu, mas, ao mesmo tempo, nossa Santa demonstra como era desprendido e sublime seu amor para com Maria Santíssima.

 

 

 Ó Maria, se eu fosse a Rainha do Céu e a senhora fosse Teresa, quisera ser Teresa a fim de que a senhora fosse a Rainha do Céu!!!.....

 

 

 

 

66.A ESPADA DO ESPÍRITO

 

 Santa Teresinha levou a sério a palavra de Deus. Essa palavra estava sempre no seu coração e, embora não fosse uma missionária da pregação, jamais deixou de levar a palavra de Deus a quem ela podia ou devia. E, nesse ponto, ele nos dá uma grande lição: evitar o desânimo. Com efeito, às vezes, somos levados a querer parar no meio do caminho. Teresa insiste, dizendo que isso é covardia. É preciso ir até o fim da estrada!

 

 

 Que a espada do espírito, que é a palavra de Deus esteja sempre na nossa boca e em nossos corações" (1). Se estamos às voltas com uma alma desagradável, não desanimemos, não a deixemos jamais. Tenhamos sempre "a espada do espírito" na boca para repreendê-la pelos seus erros; não deixemos as coisas caminharem à solta, para conservar nosso repouso; combatamos sempre, mesmo sem esperar ganhar a batalha. Que importa o sucesso? O que o bom Deus nos pede é não parar com as fadigas da luta; é não nos desencorajar, dizendo: "Tanto pior! não há nada a fazer com ela, deve ser abandonada". Oh! isso é covardia; é preciso cumprir seu dever até o fim.

 

 (CA-2.4.87)

 

NOTA

 

(1) -Efésios 6,17.

 

 

67.TUDO É GRAÇA

 

 Tudo é graça! É uma afirmação fantástica na pena de um jovem carmelita, no final do século passado! Na verdade, ela haurira, pela experiência e pela luz do Espírito Santo, toda uma sabedoria admirável de coisas profundas, que muito teólogos sentem dificuldade em entender.

 Santa Teresinha, pelo caminho da simplicidade de uma criança, descobriu que tudo vem de Deus, como afirma o apóstolo Paulo.Tudo! Tudo, mesmo! É verdade que, temos de colaborar com a graça divina, mas mesmo essa colaboração exige a graça divina.

 Dessa idéia básica, pode-se muito bem chegar à conclusão de um relacionamento confiante com o Deus, que é Pai, e que nos dá tudo de graça. Teresa percorreu essa estrada e, por isso, exclamou: Tudo é graça!

 

 

 Se, em uma manhã, a senhora me encontrar morta, não tenha pena: é que Papai, o bom Deus, terá vindo, simplesmente, me buscar (1). Sem dúvida, é uma grande graça receber os Sacramentos; mas, quando o bom Deus não o permite, está bem mesmo assim, tudo é graça.

 

 (CA-5.6.4)

NOTA

 

(1) -Os "Cadernos Verdes" acrescentam: "como um pai, que leva seu filho para sua casa, sem embaraço, porque ele tem todo o direito".

 

 

68.VIA SACRA

 

 Santa Teresinha foi uma santa simples e viveu a vida como uma flor, nasceu, cresceu, desabrochou, murchou, morreu. Todavia, apesar de toda a sua extraordinária simplicidade, teve seus momentos fortes na sua vivência com Deus. Recebeu graças extraordinárias, porque um santo é sempre alguém extraordinário, por mais simples que o seja.

 Um dos momentos bonitos da vida de Teresinha foi o seu mergulho no fogo do amor, certo dia, durante a realização da Via Sacra. Foi tão forte, que a Santa diz que não poderia ter resistido por muito tempo. São coisas que Deus reserva para os que o amam de verdade. Comumente, os olhos não vêem, nem o coração sente, mas, é certo, estão reservadas!

 

 Pois bem, comecei minha Via Sacra, e eis que, de repente, fui tomada por um violento amor pelo bom Deus e não posso explicar isso senão dizendo que, era como se tivessem me mergulhado, inteiramente,no fogo(1). Oh! que fogo e que doçura, ao mesmo tempo! Eu queimava de amor e sentia que por um minuto, um segundo a mais não teria podido suportar aquele ardor sem morrer. Compreendi, então, o que dizem os santos sobre esses estados, que experimentaram tantas vezes. Quanto a mim, Só o provei uma vez e apenas por um instante, em seguida caí logo na minha secura habitual.

 Desde a idade de 14 anos, tive também muitos assaltos de amor. Ah! como amava o bom Deus! Mas, não era, absolutamente, como depois do meu oferecimento ao Amor, não era uma verdadeira chama que me queimava.

 

 (CA-7.7.2)

 

 

Nota

 

(1) -Os "Cadernos Verdes" acrescentam: "Eu sentia, no coração, como uma ferida, que me teriam feito com um dardo de fogo".

 

 

69.GOTA D'ÁGUA

 

 A confiança de quem ama verdadeiramente não tem limites. Uma confiança, que cria exceções, não é autêntica. Com Deus ou se confia, ou não se confia. Não pode haver meio termo com um Ser, que é onipotente, onisciente, suma bondade, sumo amor.

 É exatamente isso que Teresinha quer nos ensinar com as palavras do texto. Falta pouco tempo para ela morrer, e, mais do que nunca, ela confia, totalmente, no seu Deus amado.

 

 

 Poder-se-ia crer que, é porque eu não pequei, que tenho uma confiança tão grande no bom Deus. Diga mesmo, minha Madre, que, se eu tivesse cometido todos os crimes possíveis, teria sempre a mesma confiança; sinto que, toda essa multidão de ofensas seria como uma gota d'água jogada em uma fornalha ardente. Conte, em seguida, a história da pecadora convertida, que morreu de amor; as almas compreenderão imediatamente, pois é um exemplo tão marcante do que quisera dizer, mas essas coisas não podem se exprimir(1)

 

 (CA-11.7.6)

 

 

NOTA

 

(1) -Nos "Novíssima Verba" encontra-se a história, a que a Santa faz referência. Com efeito, ela mesma contou que, na vida dos padres do deserto lê-se a história de uma pecadora pública, que, seguindo o santo que a convertera, para fazer uma grande penitência no deserto, morreu durante a viagem pela impetuosidade do seu arrependimento cheio de amor e o eremita viu, no mesmo instante, sua alma ser levada pelos anjos para Deus

 

 

70.AJUDAR TODA A IGREJA!

 

 Santa Teresinha conseguiu ser equilibrada em tudo. Nela não encontramos exageros. Em tudo, ela esteve no lugar certo.

 Um exemplo típico do que dissemos acima é seu equilíbrio, pouco antes de morrer. Mesmo sabendo que suas palavras estavam sendo anotadas, ela tem uma lucidez maravilhosa, e não quer enganar ninguém a respeito do que ela era na realidade. Seus sentimentos de alegria, de tristeza, de dor vêm à tona com toda simplicidade. Em tudo, ela se mostra normal, simples, perfeita.

 As palavras, que seguem, dão uma prova de tudo isso. A Santa fala claro e diz somente o que pensa, o que é e o que realmente deseja.

 

 

 Não creiam que, quando eu estiver no Céu, far-lhes-ei descer calandra assada na boca... Não é o que tive, nem o que desejei ter. Vocês terão, talvez, grandes provações, mas lhes enviarei luzes, que as farão apreciar e amar. Vocês serão obrigadas a dizer como eu: "Senhor, vós nos cumulais de alegria por tudo que fazeis"(1).

 Não imaginem que eu provo, para morrer, uma alegria viva, como, por exemplo,eu sentia outrora ao ir passar um mês em Trouville ou em Alençon; não sei mais o que são as alegrias vivas. Aliás, não faço festa por me alegrar, não é isso que me atrai. Não posso pensar muito na felicidade, que me espera no Céu; uma Só expectativa faz bater meu coração, é o amor que receberei e o que poderei dar. E, depois, penso em todo o bem que quisera fazer após minha morte: fazer batizar as criancinhas, ajudar os padres, os missionários, toda a Igreja...

 

 (CA-13.7.16-17)

 

 

NOTA

 

(1) -Salmo 92,5.

 

 

71.COMUNHÃO DOS SANTOS

 

 O dogma da Comunhão dos Santos é, certamente, um dos menos falados e, ao mesmo tempo, é, seguramente, um dos menos incompreendidos. Todavia, é também, certamente, um dos mais vividos, mesmo que não seja conhecido nem estimado.

 Teresa viveu muito esse dogma e dele nos falou com muita emoção. Com efeito, ela sabia que muitas graças devia a outras pessoas, mas sabia também- e sempre quis viver essa realidade- que podia influenciar em todo o Corpo Místico da Igreja, através desse dogma.

 Foi,assim, que saíram de sua pena páginas fantásticas, como a que transcrevemos neste livro à página, quando a Santa fez,provavelmente, o seu mais belo poema.

 Comunhão dos Santos significa repartir, dividir, receber, comungar; significa que nada é meu Só, que tudo é de todos. Como isso está bem dentro da espiritualidade teresiana!

 

 

 Irmã Maria da Eucaristia queria acender umas velas para uma procissão; não tinha fósforos, mas vendo a lamparina que queima diante das relíquias, aproxima-se. Ah! ela a encontra meio apagada, não há mais nada senão uma fraca luz sobre o pavio carbonizado. Ela consegue, contudo, acender sua vela e, com essa vela, todas as da Comunidade foram acesas. Foi,pois, essa lamparina, de meia luz, que produziu aquelas belas chamas que, por sua vez, podem produzir uma infinidade de outras e até abrasar o universo. Contudo, seria sempre à lamparina que se deveria a primeira causa desse abrasamento. Como as belas chamas poderiam se gloriar, sabendo disso, de ter feito semelhante incêndio, visto que elas foram acesas apenas pela correspondência com a faísquinha?...

 É a mesma coisa com a Comunhão dos Santos. Muitas vezes, sem o saber, as graças e as luzes que recebemos são devidas a uma alma escondida,porque o bom Deus quer que os Santos se comuniquem, uns com os outros, a graça pela oração, a fim de que, no Céu, eles se amem com um grande amor, com um amor muito maior ainda do que aquele da família, mesmo da família mais ideal da terra. Quantas vezes pensei que, podia dever todas as graças, que recebi, às orações de uma alma, que mas teria pedido ao bom Deus, e que não conhecerei a não ser no Céu.

 Sim, uma faísquinha poderá fazer nascer grandes luzes em toda a Igreja, como doutores e mártires, que estarão, sem dúvida, muito acima dela no Céu; mas, como poder-se-ia pensar que a glória deles não será a sua?

 No Céu não se encontrarão olhares indiferentes, porque todos os eleitos reconhecerão que, eles se devem, entre si, as graças que lhes mereceram a coroa.

 (CA-15.7.5)

 

 

 

72.MINHA MISSÃO VAI COMEÇAR

 

 É impressionante como, à medida que santa Teresinha vai se aproximando da morte, ela toma, cada vez mais fortemente, consciência de muitas coisas futuras, especialmente de sua missão após a morte. Com efeito, mais de uma vez, ela afirma,categoricamente, que vai trabalhar muito, lá no Céu e aqui na terra, depois que partir deste mundo.

 Apoiada no dogma da Comunhão dos Santos e inflamada pelo seu grande amor e, portanto, pelo seu espírito missionário, Teresinha não Só deseja, mas o afirma,com segurança, que sua eternidade será, até o dia do juízo final, toda ela a trabalhar na terra pelos seus irmãos da Igreja militante. Ela estará presente em todos os tempos e em todos os lugares!

 

 

 Sinto que vou entrar no repouso... Mas, sinto, sobretudo, que minha missão vai começar, minha missão de fazer amar o bom Deus como o amo, de mostrar meu caminhozinho às almas. Se o bom Deus ouvir meus desejos, meu Céu se passará na terra até o fim do mundo. Sim, quero passar meu Céu a fazer o bem sobre a terra. Isso não é impossível, visto que, no próprio seio da visão beatífica, os anjos velam por nós.

 Não posso fazer festa por gozar, não posso repousar enquanto houver almas para salvar...Mas, quando o Anjo disser: "O tempo não existe mais!"(1), então, repousarei, poderei gozar, porque o número dos eleitos estará completo e todos terão entrado na alegria e no repouso. Meu coração exulta com esse pensamento...

 (CA-17.7.)

 

NOTA

 

(1) -Cfr.Apocalipse 10,6

 

 

 

73.A OPINIÃO DAS CRIATURAS

 

 Toda pessoa, que se destaque, de algum modo, em algum lugar, deve estar preparada para ser alvo de críticas boas e más. Ora bem, santa Teresinha foi uma religiosa que se destacou pela sua vida exemplar, no Carmelo de Lisieux. É natural, pois, que tenha sido vítima de críticas, boas e más. Teria sofrido ou gozado com isso, a nossa Santa?

 O texto, que segue, dá-nos uma resposta. Uma resposta,que vem de um fato, de um fato simples, do qual nossa Santa tirou,como costumava fazer, uma bela lição.

 As opiniões das pessoas são tão variadas e variáveis, quanto o são as próprias pessoas humanas. Por isso, triste daquele que se apoiar sobre essas opiniões, e mais triste ainda quem sofrer por causa de injúrias provocadas por essas opiniões, ou mesmo, quem quiser viver feliz apenas com essas,variáveis e variadas, opiniões.

 

 

 Escute uma historiazinha bem cômica. Um dia, depois da minha Vestição(1), Irmã São Vicente de Paulo me vê com a nossa Madre e exclama: "Oh! que aparência de prosperidade! É forte essa jovem!" Eu me ia toda humilhada pelo cumprimento, quando Irmã Madalena me para,diante da cozinha, e me diz: "Mas, que é que vai ser de você, minha pobre irmãzinha Teresa do Menino Jesus? Vocês está emagrecendo, à vista d'olhos! Se você continuar assim, com essa aparência que faz tremer, você não seguirá, por muito tempo, a regra!" Eu não podia chegar a entender, uma após outra, apreciações tão opostas. Desde esse momento, não dei mais nenhuma importância à opinião das criaturas e essa impressão se desenvolveu de tal modo em mim que, no presente, as censuras, os cumprimentos, tudo passa por mim sem deixar a mais leve marca.

 

 (CA-25.7.15)

 

NOTA

 

(1) -Tomada de Hábito, ou Vestição, que aconteceu aos 10 de janeiro de 1889.

 

 

74.PERMANECER PEQUENO

 

 Certo dia, à noite, durante a recitação de Matinas, Irmã Inês perguntou a Santa Teresinha o que ela queria dizer pela expressão "permanecer criancinha diante do bom Deus. A Santa não se fez esperar e lhe deu uma resposta, que é a síntese da base de toda sua mensagem espiritual.

 Com efeito, ser e permanecer pequeno diante de Deus é, por amor, reconhecer-se tal como se é, portanto, é humilhar-se, é esperar, então, tudo de Deus, é entregar-se nos seus braços, é gloriar-se nas suas fraquezas, porque a força de Deus toma conta da pessoa,é, no fundo, amar como uma criancinha ama seu Pai adorado, mesmo na sua pobreza, na sua impotência e na sua imprudência.

 

 

 É reconhecer seu nada, esperar tudo do bom Deus, como uma criancinha espera tudo de seu pai; é não se inquietar com nada, não ganhar, absolutamente, fortuna. Mesmo entre os pobres, dá-se à criança o que lhe é necessário, mas logo que cresce, seu pai não quer mais alimentá-la e lhe diz: "Trabalhe agora, você pode se bastar a você mesma".

 É para não ouvir isso que não quis crescer, sentindo-me incapaz de ganhar minha vida, a vida eterna do Céu.Permaneci, pois, sempre pequena, não tendo outra ocupação senão a de colher as flores, as flores do amor e do sacrifício, e de oferecê-las ao bom Deus para seu prazer.

 Ser pequeno é, ainda, não atribuir, de modo nenhum, a si mesmo as virtudes que se pratica, crendo-se capaz de alguma coisa, mas reconhecer que, o bom Deus põe esse tesouro na mão de seu filhinho, para que ele se sirva, quando tiver necessidade; mas, é sempre o tesouro do bom Deus. Enfim, é não se desencorajar, de modo nenhum, com suas faltas, pois, as crianças caem muitas vezes, mas são demasiado pequenas para se fazerem muito mal.

 

 (CA-6.8.8)

 

 

75.O TRONO E O POBRE

 

 Várias vezes, Santa Teresinha fala sobre a pobreza. Ela levou a sério o voto de pobreza, que fizera. Por outro lado, desde pequena, sempre se preocupou com os pobres, com aqueles que não tinham o que ela tinha em família. Assim, não Só amava ajudar os necessitados e lhes dar alguma ajuda, mas, de vez em quando, dirigia-se a eles com amor e carinho.

 Aliás, sua doutrina espiritual é toda ela fundamentada na verdadeira pobreza evangélica e, por isso, é assentada na pequenez, na humildade, na pobreza em espírito, na fraqueza, nas enfermidades pessoais.

 Por outro lado, nossa Santa não foi demagógica, não aproveitou dos pobres para fazer propaganda; ela, simplesmente, procurou ser pobre na sua vida religiosa. Pobre em espírito e pobre em bens materiais. Despojou-se de tudo, e assim, materialmente, preparou-se para o despojamento espiritual.

 É esse o sentido da pequena história, que ela contou, em agosto de 1897, a sua irmã, Celina

 

 

 Havia, uma vez, uma" senhorita", possuidora de riquezas, que tornam injusta e às quais ela dava muito valor.

 Ela tinha um irmãozinho, que não possuía nada e, contudo, ela vivia na abundância. Esse meninozinho caiu doente e disse a sua irmã: -"Senhorita,se quisesse, você jogaria ao fogo todas suas riquezas, que Só servem para inquietá-la, e tornar-se-ia minha criadinha, rejeitando seu título de "senhorita" e eu, quando estiver no país encantador, para o qual devo ir em breve, voltarei para buscá-la, porque você terá vivido pobre como eu, sem se inquietar do dia de amanhã.

 A "senhorita" compreendeu que seu irmãozinho tinha razão, tornou-se pobre como ele, fez-se sua criadinha e nunca mais foi atormentada pelo cuidado das riquezas perecíveis, que jogara ao fogo...

 Seu irmão cumpriu a palavra, veio buscá-la, quando chegou no país encantado, onde o bom Deus é o Rei, a Santíssima Virgem , a Rainha, e todos os dois viverão, eternamente, sobre os joelhos do bom Deus; foi o lugar que escolheram, porque , sendo pobres, não puderam merecer tronos..."

 

 (CA.8.8.2)

 

 

76.A SAGRADA FAMÍLIA

 

 

 Santa Teresinha viveu simplesmente e toda sua espiritualidade é baseada na simplicidade, por isso, todas suas devoções foram simples e feitas com simplicidade. Assim, seu amor e seu respeito pela Sagrada Família foram impregnados de sinceridade e de simplicidade.

 Pelo amor que tinha a Jesus, ela amava muito a Sagrada Família, mas seu olhar penetrava profundamente no Lar de Nazaré e aí enxergava não as maravilhas humanas, que alguns gostariam que tivessem acontecido, mas as durezas da vida comum e normal de uma família pobre e as dificuldades e simplicidades de uma família humilde, que se regia pelas normas do dia a dia dos mortais.Assim, a espiritualidade teresiana fazia uma teologia bem simples, sem muita elucubração, mas,certamente, bem conforme ao espírito do evangelho.

 

 

 Como será agradável conhecer no Céu o que se passou na Sagrada Família! Quando o Menino Jesus começou a crescer, talvez ao ver a Santíssima Virgem jejuar, dizia-lhe: "Eu quisera também jejuar". E a Santíssima Virgem respondia: "Não, meu Menino Jesus! você é muito pequeno ainda, você não tem a força". Ou então, talvez, ela não ousava impedi-lo.

 E o bom São José? Oh! como o amo! Ele não podia jejuar por causa dos seus trabalhos.

 Vejo-o a aplainar e, depois, enxugar a fronte de vez em quando. Oh! como me dói! Como me parece que suas vidas eram simples!

 As mulheres do lugar vinham falar, familiarmente, com a Santíssima Virgem. Algumas vezes, pediam-lhe para lhes confiar seu pequeno Jesus para ir brincar com seus filhos. E o pequeno Jesus olhava para a Santíssima Virgem, para saber se devia ir. Algumas vezes até, as boas mulheres iam diretamente ao Menino Jesus e lhe diziam sem cerimônia: "Vem jogar com meu filhinho" etc.

 ...O que me faz bem, quando penso na Sagrada Família é imaginar uma vida toda ordinária. Nada daquilo que nos contam, de tudo que supõem. Por exemplo, que o Menino Jesus, depois de ter modelado pássaros de barro, soprava sobre eles e lhes dava a vida. Ah! mas, não, o pequeno Jesus não fazia milagres inúteis como esse, mesmo para dar prazer a sua Mãe. Pois bem, então, por que não foram transportados ao Egito por um milagre, que teria sido,por outra lado, necessário e tão fácil ao bom Deus? Em um bater de olhos, eles teriam sido levados até lá. Mas, não, tudo nas suas vidas se fez como na nossa.

 E quantas penas, decepções! Quantas vezes fizeram censuras ao bom São José! Quantas vezes recusaram pagar seu trabalho! Oh! como ficaríamos admirados, se soubéssemos tudo o que eles sofreram! etc.

 

 (CA- 20.8.14)

 

 

77.UM SERMÃO DIFERENTE

 

 A ninguém passa despercebida a vontade que Santa Teresinha tinha de ser padre. Uma vontade que, segundo ela mesma, podia até não se realizar, se isso fosse permitido, porque ela, como São Francisco, podia até preferir ficar como diaconisa, tanta era alta a dignidade sacerdotal, segundo o que ela concebia.

 Em uma das vezes, em que nossa Santa afirma sua vontade de ser padre, se fosse, evidentemente, um homem, ela diz expressamente que seria para poder pregar sobre a Santíssima Virgem. Mas, pregar de um modo diferente. Seria, pois, um sermão todo diferente! Como?

 Seria um sermão baseado na verdade, na simplicidade da vida de Maria. Um sermão sem exageros, sem fatos extraordinários, sem milagres inúteis. Um sermão bem conforme sua doutrina espiritual.

 

 

 Como eu teria gostado de ser padre, para pregar sobre a Santíssima Virgem! Uma Só vez me teria bastado, para dizer tudo o que penso a esse respeito.

 Primeiramente, eu teria feito compreender a que ponto se conhece pouco sua vida.

 Não seria necessário dizer coisas inverossímeis, ou que não se sabe; por exemplo, que, ainda pequenina, com três anos, a Santíssima Virgem foi ao Templo se oferecer a Deus com sentimentos ardentes de amor e totalmente extraordinários; enquanto que ela lá se foi, talvez, bem simplesmente, para obedecer a seus pais.

 Por que dizer ainda, a propósito das palavras proféticos do velho Simeão, que a Santíssima Virgem, a partir daquele momento, teve, constantemente, diante dos olhos, a paixão de Jesus? "Uma espada de dor transpassará seu coração" dissera o ancião(1). Não era, pois, para o presente, a senhora vê bem, minha Madrezinha; era uma predição geral para o futuro.

 Para que um sermão sobre a Santíssima Virgem me agrade e me faça bem, é preciso que veja sua vida real, e, não, sua suposta vida; e estou seguro de que, sua vida real devia ser inteiramente simples. Mostram-na inabordável; seria necessário mostrá-la imitável, fazer sobressair suas virtudes, dizer que ela vivia de fé como nós, e dar as provas pelo Evangelho, no qual lemos "Eles não compreenderam o que lhes dizia"(2). E essa outra passagem, não menos misteriosa: "Seus pais estava admirados do que diziam sobre ele"(3). Essa admiração supõe certo espanto, não acha, minha Madrezinha?

 Sabe-se bem que a Santíssima Virgem é a Rainha do Céu e da terra, mas ela é mais Mãe que rainha, e não é preciso dizer, por causa de suas prerrogativas, que ela eclipsa a glória de todos os santos, como o sol, ao nascer, faz desaparecer as estrelas. Meu Deus! como isso é estranho! Uma Mãe, que faz desaparecer a glória de seus filhos! Eu penso inteiramente ao contrário, creio que ela aumentará de muito o esplendor dos eleitos.

 É bom falar sobre suas prerrogativas, mas não se deve falar Só sobre isso, e se, em um sermão, se é obrigado, do começo ao fim, a exclamar e a fazer Ah! ah!, é demais! Quem sabe, se alguma alma não chegaria mesmo a sentir, então, certo distanciamento de uma criatura tão superior e não diria: "Se é assim, é melhor ir brilhar como se puder, em um cantinho!".

 O que a Santíssima Virgem tem mais do que nós, é que ela não podia pecar, era isenta do pecado original, mas, por outro lado, teve bem menos chances do que nós, visto que não teve a Santíssima Virgem para amar; e isso é uma grande doçura a mais para nós, e uma grande doçura a menos para ela!

 Enfim, disse no meu Cântico: "Porque te amo, ó Maria!" tudo o que pregaria sobre ela (3).

 (CA- 21.8.3*)

 

NOTAS

 

(1) -Lucas 2,35

(2) -Lucas 2,50

(3) -Lucas 2,33

(4) -Quanto a esse Cântico, pode-se lê-lo, neste livro, à p. . Note-se, outrossim, que os "Novíssima Verba" acrescentam algumas palavras a este texto, mas que não são tão importantes que mereçam, aqui, uma tradução, para completar o sentido do texto apresentado. Ademais, os mesmos "NV" apresentam este texto no dia 23 de agosto e como se fora dito em momentos diferentes.

 

 

78.NÃO JULGAR, MAS SALVAR!

 

 Irmã Inês disse a Santa Teresinha que, no recreio, as irmãs tinham comentado o fato de que o Pe. Youf tinha medo da morte. Ademais, acrescentou irmã Inês, as irmãs tinham falado sobre a responsabilidade daqueles que têm encargos de almas e que vivem muito tempo.

 Nossa Santa aproveitou da deixa e, mais uma vez, falou sobre as conseqüências futuras para quem é e quer permanecer pequeno. Segundo ela, os pequeninos serão julgados com grande doçura;antes, serão, simplesmente, salvos!

 

 ...Quanto aos pequenos, eles serão julgados com uma extrema doçura. E pode-se mesmo permanecer pequeno, mesmo nos mais notáveis cargos, e mesmo vivendo muito longamente. Se eu morresse com 80 anos, se tivesse estado na China(1), em todas as partes, teria morrido, sinto-o bem, tão pequena quanto hoje. E está escrito que "no fim, o Senhor se levantará para salvar todos os mansos e os humildes da terra"(2). Ele não diz julgar, mas salvar.

 

 (CA-25.9.1)

 

NOTAS

 

(1) -Os "Cadernos Verdes, os "Novíssima Verba" e o "Processo do Ordinário", dizem assim: "Se eu morresse aos 80 anos, tivesse estado em vários mosteiros, encarregada disso ou daquilo, teria morrido ..."

(2) -A Santa se refere ao salmo 76,10, que diz assim: "Quando Deus se levanta para julgar e salvar todos os pobres da terra".Como se vê, nossa Santa gostava de fazer aplicações bíblicas bem conforme a seu pensar!

 

 

79.AMAR, AMAR, AMAR...

 

Santa Teresinha, nos últimos dias de sua vida, viu aumentar, dentro de si, o desejo incontido de voltar à terra, após sua morte. Pois bem, certo dia, conta-nos irmã Genoveva, Celina, em uma carta a sua tia, a senhora Guérin, que estava lendo para nossa Santa uma passagem sobre a felicidade do céu, quando foi interrompida por ela. O pequeno diálogo, que então se seguiu, mostra, muito bem, como Teresa sonhava apenas em amar: amar no céu, ser amada, e voltar à terra,evidentemente, para amar e ser amada.

 Pode haver maior e melhor ideal?

 

 -Não é isso, que me atrai...(1)

 -Que é, então? perguntei.

 -Oh! é o Amor! Amar, ser amada e voltar à terra(2).

 

 (CA.7.4)

 

NOTAS

 

(1) - A Santa se refere à felicidade do céu.

(2) -No texto de Irmã Genoveva lê-se,com palavras cortadas,em continuação: "para fazer amar o Amor...". Todavia, sabemos, hoje, por intermédio da própria irmã Genoveva, que não foi Santa Teresinha quem pronunciou essas últimas palavras, mas que elas foram acrescentadas por outra irmã.

 

 

80.SÓ PARA HOJE

 

 

 Na primavera de 1894, Santa Teresinha e sua madrinha, a irmã Maria do Sagrado Coração, entretêm-se conversando sobre a brevidade da vida. Da conversação nasceu um dos mais bonitos e bem feitos poemas de Teresinha, como presente de festa para sua irmã mais velha.

 Só para hoje, uma tradução mais livre de "nada a não ser para hoje", expressa toda a liberdade e libertação da alma poética de Teresinha. Nada de preocupações inúteis sobre o passado e sobre o futuro; nada de incômodos,porque se é fraco; nada de perturbações, porque Jesus é o piloto, Maria cobre com seu manto protetor, os anjos protegem com suas asas. Enquanto alguns choram, porque Só têm o dia de hoje, Teresa de Lisieux Só quer viver- e viver bem- o dia de hoje, porque Só ele conta.

 

 

81.MEU CANTO DE HOJE

 

 Minha vida é um instante, uma hora passageira

Minha vida é um Só dia,que escapa e que foge

Tu o sabes, ó meu Deus, pra te amar na terra

 Eu Só tenho Só hoje!

 

 Oh! eu te amo,Jesus, minh'alma suspira por ti

Sê, por um dia apenas, meu doce apoio

Vem reinar no meu coração, dá-me teu sorriso

Só por hoje!

 

Que m'importa,Senhor,se o futuro é sombrio

Rezar pelo amanhã? Oh! não, eu não posso!

Conserva puro meu coração,cobre-me com tua sombra

Só por hoje.

 

Se penso no amanhã, temo minha inconstância

Sinto nascer no coração a tristeza e o enjôo

Mesmo assim, meu Deus, quero a prova e o sofrimento

Só por hoje.

 

Devo te ver em breve nas praias eternas

Ó Piloto Divino! cuja mão me conduz

Sobre as ondas encapeladas guia em paz meu barquinho

Só por hoje.

 

Ah! Deixa-me, Senhor, me esconder na tua Face

Lá não ouvirei mais do mundo o vão barulho

Dá-me teu amor, conserva-me tua graça

Só por hoje.

 

Perto do teu Divino Coração,esqueço tudo que passa

Não temo mais os receios da noite

Ah! dá-me,Jesus, nesse Coração um lugar

Só por hoje.

 

Pão vivo, Pão do Céu, divina Eucaristia

Ó Mistério sagrado, que o Amor produziu!...

Vem habitar no meu coração, Jesus,minha Hóstia branca

Só por hoje.

 

Digna-te unir-me a ti, Vinha Santa e sagrada

E meu fraco ramo te dará seu fruto

E poderei te oferecer um cacho dourado

Senhor, desde o dia de hoje.

 

Esse cacho de amor, cujos grãos são as almas

Pra formá-lo eu Só tenho esse dia, que foge

Ah! dá-me, Jesus, de um Apóstolo as chamas

Só por hoje.

 

ó Virgem Imaculada! És tu minha Doce Estrela

que me dá Jesus e que a Ele me une

ó Mãe! deixa-me descansar sob teu manto

Só por hoje.

 

Meu Anjo guardião, cobre-me com tua asa

Ilumina com tua luz a estrada que sigo

Vem dirigir meus passos...ajuda-me, te peço

Só por hoje.

 

Senhor, quero te ver sem véu e sem nuvens

Mas ainda exilada, longe de ti desfaleço

Que não me seja ocultado teu amável rosto

Só por hoje.

 

Voarei bem longe para teus louvores cantar

Quando descer na minh'alma o dia sem ocaso

Então, eu cantarei com a lira dos Anjos

O eternal dia de hoje!...

 

82.VIVER DE AMOR!...

 

 Irmã Genoveva considerava esse poema como sendo o rei de todas as composições poéticas de nossa Santa. O certo é que ele sintetiza, em poucas estrofes, todo o caminhar espiritual de Teresinha. Com efeito, ela viveu de amor!

 Mas, o amor de Teresa tem suas características, características humanas e divinas e, por isso, vale a pena ler, com atenção, esse poema-mensagem.

 Ele nasceu como fruto de algumas horas ardentes de adoração, diante do Santíssimo Sacramento, na Semana Santa de 1897. Na tarde do dia 26, terça-feira, ele escreveu quatorze estrofes, do total de quinze do poema. Depois, escreveu a quarta estrofe, a pedido de irmã Genoveva. Saía, assim, como um jato de amor o poema-síntese de sua vida de amor!

 

Na tarde do Amor, falando sem parábolas

Jesus dizia: "Se alguém quer me amar

Que guarde minha Palavra em toda sua vida

Meu Pai e eu viremos visitá-lo.

E de seu coração fazendo nossa morada

Vindo a ele, o amaremos para sempre!...

Cheio de paz, queremos que ele more

Em nosso Amor!..."

 

Viver de Amor é te guardar a Ti

Verbo Incriado, Palavra de meu Deus,

Ah! tu o sabes, Divino Jesus, eu te amo

O Espírito de Amor me abrasa com seu fogo

É te amando que atraio o Pai

Meu fraco coração o guarda sem reserva

ó Trindade, vós sois Prisioneira

De meu Amor!...

 

Viver de Amor é viver de tua vida,

Rei glorioso, delícia dos eleitos.

Vives para mim, escondido em uma hóstia

Eu quero por ti me esconder, ó Jesus!

Aos amantes é necessária a solidão

Um coração a coração, que dure noite e dia

Só teu olhar me dá felicidade

Eu vivo de Amor!...

 

Viver de Amor não é na terra

Fixar sua morada no cume do Tabor.

Com Jesus, é subir o Calvário,

E ver a Cruz como um tesouro!...

No Céu a minha vida será prazer

Então a provação pra sempre fugirá

Mas exilada, quero no sofrimento

Viver de Amor.

 

Viver de Amor é dar sem medida

Sem reclamar o salário aqui na terra

Ah! sem contar eu dou estando bem segura

Que quando se ama, jamais se calcula!...

Ao Divino Coração, transbordante de ternura

Eu tudo dei...velozmente eu corro

Não tenho mais nada senão minha única riqueza

Viver de Amor.

 

Viver de Amor é banir todo medo

Toda a lembrança das faltas passadas.

Dos meus pecados não vejo mais vestígio,

Em um instante queimou tudo o amor...

Chama divina, ó docíssima Fornalha!

Na tua casa eu fixo minha morada

É no teu fogo que canto à vontade:

"Eu vivo de Amor!..."

 

Viver de Amor é guardar em si mesmo

Um grande tesouro em um vaso mortal

Amado meu, minha fraqueza é extrema

Ah! estou longe de ser um anjo do céu!...

Mas se caio a cada hora que passa

Me levantando tu vens a meu socorro,

A cada instante tu me dás tua graça

Eu vivo de Amor.

 

Viver de Amor é navegar sem cessar

Semeando paz e alegria em todos os corações

Piloto Amado, a caridade me incita

Pois te vejo nas almas minhas irmãs

A Caridade, eis minha única estrela

À sua luz, eu flutuo sem rodeios

Na minha vela eu gravei minha divisa:

"Viver de Amor".

 

Viver de Amor, quando Jesus dormita

É o repouso sobre as ondas encapeladas

Oh! não tema, Senhor, qu'eu te acorde

Espero em paz as praias lá do céu...

A Fé em breve rasgará seu véu

Minha Esperança é de te ver um dia

A Caridade enche e sopra minha vela

Eu vivo de Amor!...

 

Viver de Amor é, ó meu Divino Mestre

Te suplicar para expandir teu Fogo

Na alma santa e sagrada de teu Padre

Que ele seja mais puro que um Serafim do céu!...

Ah! glorifica tua Igreja Imortal

Não sê surdo, Jesus, a meus suspiros

Eu, sua filha, eu me imolo por ela

Eu vivo de Amor.

 

Viver de Amor é enxugar tua Face

É obter dos pecadores o perdão

ó Deus de Amor! que voltem a tua graça

E que pra sempre abençoem o teu Nome...

Até no meu coração ressoa a blasfêmia

Para apagá-la, quero cantar pra sempre:

"Teu Nome Sagrado, eu o adoro e o amo

Eu vivo de Amor!..."

 

Viver de Amor é imitar Maria,

banhando de lágrimas e perfumes preciosos,

Teus pés divinos, que encantada ela beija

Enxugando-os com seus longos cabelos...

Depois levantando-se, audaciosamente

Teu Doce Rosto embalsama também.

Pra tua Face o perfume que tenho

É meu Amor!...

 

"Viver de Amor, que estranha loucura!"

Me diz o mundo, "Ah! pare de cantar,

Não perca teus perfumes, tua vida,

Utilmente procura os empregar!..."

Te amar, Jesus, que perda fecunda!...

Todos meus perfumes são teus, sem reserva,

Quero cantar ao sair deste mundo:

Eu morro de Amor!"

 

Morrer de Amor, é dulcíssimo martírio

É aquele que quisera sofrer.

ó Querubins! acordai vossas liras,

Pois eu o sinto, meu exílio vai terminar!...

Chama de Amor, consume-me sem trégua

Vida de um instante, teu fardo me é bem pesado!

Divino Jesus, realiza meu sonho:

Morrer de Amor!...

 

Morrer de Amor, eis minha esperança

Quando os meus laços eu vir se quebrarem

Meu Deus será minha Grande Recompensa

Não quero nunca possuir outros bens.

De seu Amor quero ser abrasada

Quero vê-Lo e a Ele pra sempre me unir

Eis meu Céu...eis meu destino:

Viver de Amor!!!...

 

 

 

83.UMA ROSA DESFOLHADA

 

 É maio de 1897. A primavera chegou. As flores apareceram por toda a parte, dando um ar de graça, de alegria e de beleza. As noviças do Carmelo de Lisieux vão jogar flores ao Crucifixo do claustro. Teresa não está presente. A tuberculose está avançando dentro dela. As forças estão sendo, pouco a pouco, minadas. A Santa resiste, mas sabe que seu fim se aproxima. É nesse clima trágico e dramático que aparece o poema "Uma Rosa desfolhada".

 Esse poema é um grito aubiográfico. Na verdade, em toda sua dor e quase decomposição física, Teresinha, dentro do contexto de sua espiritualidade, julga-se, de fato, uma rosa que vai, pouco a pouco, se desfolhando. Só que não é um desfolhamento de morte e de tristeza. "é uma desfolhamento de amor!

 Nesse poema, nossa Santa, enquanto expressa sua doutrina de abandono, de paz, de doação e de amor, vive seu próprio drama físico e esse drama é o pano de fundo de todo seu cantar.

 

 

Jesus, quando te vejo sustentado por tua Mãe

Deixar seus braços

Ensaiar,tremendo, na nossa triste terra

Teus primeiros passos

Diante de ti quisera uma rosa desfolhar

Em seu frescor

Para que teu pezinho docemente repouse

Sobre uma flor!...

 

Essa rosa desfolhada é a imagem fiel

Menino Divino

Do coração que por ti sem reserva imolar deseja

A cada instante.

Senhor, sobre teus altares mais de uma fresca rosa

Anela brilhar

Ela se dá a ti...mas eu sonho outra coisa:

"É me desfolhar!..."

 

A rosa, com seu brilho, pode embelezar tua festa

Gentil Menino,

Mas, a rosa desfolhada simplesmente a jogam

Ao sabor do vento.

A rosa desfolhada sem pretensões se dá

Para não mais existir

Como ela com alegria a ti eu me abandono

ó Menino Jesus.

 

Caminha-se,sem pena, sobre as folhas de rosa

E esses destroços

São um simples ornamento que sem arte se dispõe

Já o compreendi.

Jesus,por teu amor eu entreguei minha vida

Meu futuro

Aos olhos mortais sou rosa pra sempre murcha

Eu devo morrer!...

 

Por ti,devo morrer, Menino,Beleza Suprema

Que sorte feliz!

Quero desfolhando-me provar-te que te amo

ó Tesouro meu!...

Sob teus passos infantis, quero com mistério

Na terra viver

Quisera também no Calvário adoçar

Teus derradeiros passos!...

 

 

 

84.A NOSSA SENHORA DO PERPéTUO SOCORRO

 

 A devoção a Nossa Senhora do Perpétuo Socorro certamente não fazia parte relevante dos amores marianos de Santa Teresinha. Todavia, tudo que dizia respeito a Maria, interessava profundamente a nossa Santa. Por isso, atendendo a um pedido da irmã Maria da Trindade, que era muito devota da Virgem do Perpétuo Socorro, Teresa escreveu este poema, tão simples, que retrata os pensamentos daquela Irmã, mas é também uma imagem complementar do que a Santa pensava da Virgem Mãe e que expôs, tão belamente, no seu grande poema:"Porque te amo,Maria".

 

 

Mãe querida, desde minha tenra juventude

Tua doce Imagem soube encantar meu coração

No teu olhar eu lia tua ternura

E junto a ti encontrava a felicidade

 

Virgem Maria, nas praias celestes

Após o exílio, eu te verei pra sempre

Mas aqui na terra tua doce Imagem

É meu Perpétuo Socorro!...

 

Quando era gentil e obediente

Me parecia ver que tu socorrias

E se, por vezes, era um pouco má

Acreditava ver-te sobre mim chorar...

 

E ouvindo minha ingênua prece

Tu me mostravas teu amor materno

Te contemplando encontrava na terra

Um antegozo das delícias do céu.

 

Quanto luto, ó minha Mãe querida

No combate meu coração tu fortificas

Pois tu bem sabes, na tarde desta vida

Quero oferecer muitos Padres ao meu Senhor!...

 

Sempre e sempre Imagem de minha Mãe

Tu serás minha alegria e meu tesouro.

E quisera na hora derradeira

Em ti ainda meu olhar poder parar

 

Depois, voando p'ros prados celestes

Nos teus joelhos, ó Mãe, irei me assentar

Então poderei sem partilhas

Os doces beijos teus já receber!...

 

 

85.POR QUE TE AMO, ó MARIA!

 

 Santa Teresinha tinha um sonho a realizar antes de partir deste mundo. Escrever, em canto poético, tudo que pensava sobre sua Mãe querida do céu. Pois bem, em maio de 1897, já fraca por causa da tuberculose, nossa Santa expõe, em 200 versos alexandrinos, todo seu pensamento sobre Maria. Aí estão seus afetos filiais e sua teologia Mariana.

 No poema passa a vida de Maria e se reflete sobre seus sentimentos e pensamentos profundos. E de tudo, Teresa de Lisieux tira suas conclusões. Conclusões da simplicidade da vida Mariana, da participação da Virgem no mistério de seu Filho, da simplificação na prática das virtudes, do modelo simples e ideal em que a Mãe se tornou.

 Esse poema é o canto do cisne das obras poéticas de Teresinha. É um canto de adeus, sim, mas é muito mais,é um grito de amor, é uma lição à porta aberta, é a mensagem complementar da espiritualidade teresiana.

 

 

Oh! quisera cantar, Maria, por que te amo

Por que teu nome tão doce faz meu coração exultar

E por que o pensamento de tua grandeza suprema

Não poderia a minha alma inspirar o temor

Se eu te contemplasse na tua sublime glória

E ultrapassando o brilho de todos os bem-aventurados

Que fosse tua filha eu não poderia crer

ó Maria, diante de ti, eu baixaria os olhos!...

 

É preciso pra que um filho possa amar sua mãe

Que ela chore com ele, participe de suas dores

ó minha Mãe querida, na terra estrangeira

Para me atrair pra ti, quantas lágrimas versaste!...

Meditando tua vida no santo Evangelho

Ouso te olhar e me aproximar de ti

Crer-me tua filha, não me é difícil

Pois te vejo mortal e sofrendo como eu...

 

Quando do céu um anjo te oferece ser Mãe

Do Deus que deve reinar para a eternidade

Te vejo preferir, ó Maria, que mistério!

O inefável tesouro da virgindade.

Compreendo que tua alma, ó Virgem Imaculada

Seja mais cara ao Senhor que a divina morada

Compreendo que tua alma, Humilde e Doce Vale

Pode conter Jesus, o Oceano do Amor!...

 

Oh! eu te amo,Maria, declarando ser serva

Do Deus que encantas com tua humildade

Essa virtude escondida te torna onipotente

Ela atrai pra teu coração a Santíssima Trindade

Então o Espírito de Amor te cobrindo com sua sombra

O Filho igual ao Pai em ti se encarnou...

De seus irmãos pecadores bem grande será o número

Pois ele será chamado: Jesus, o unigênito!...

 

ó Mãe bem-amada, apesar da minha pequenez

Como tu, eu possuo O Todo-Poderoso

Mas, não temo em vendo minha fraqueza:

O tesouro da mãe pertence ao filho

E eu sou tua filha, ó minha Mãe querida

Tuas virtudes, teu amor, não me pertencem?

Por isso quando no meu coração desce a branca Hóstia

Jesus, teu Doce Cordeiro, crê repousar em ti!...

 

Tu mo fazes sentir, não é impossível

De andar nos teus passos, ó Rainha dos eleitos,

Do céu o estreito caminho tu tornaste visível

Praticando sempre as mais humildes virtudes.

Perto de ti, Maria, quero permanecer pequena,

Vejo as vaidades das grandezas da terra,

Na casa de Isabel, recebendo tua visita,

Aprendo a praticar a ardente caridade.

 

Lá escuto encantada, Doce Rainha dos anjos,

O cântico sagrado que jorra do teu coração.

Tu me ensinas a cantar os divinos louvores

A me glorificar em Jesus, meu Salvador.

São rosas místicas tuas palavras de amor

Que devem perfumar os séculos futuros

Em ti fez grandes coisas o Todo-Poderoso

Quero meditá-las a fim de bendizê-la.

 

Quando o bom São José ignora o milagre

Que querias esconder na tua humildade

Tu o deixas chorar perto do Tabernáculo

Que esconde do Salvador a divina beleza!...

Oh! como amo, Maria, teu silêncio eloqüente,

Para mim é um concerto doce e melodioso

Que me diz a grandeza e a onipotência

De uma alma que Só espera seu socorro dos Céus...

 

Mais tarde em Belém, ó José e Maria!

Vos vejo repelidos por todos os habitantes

Ninguém quer receber em sua hospedaria

pobres estrangeiros,pois o lugar é pros grandes...

O lugar é pros grandes e é num estábulo

Que a Rainha dos Céus deve um Deus dar à luz.

ó minha Mãe querida, como te acho amável

Como te vejo grande em um lugar tão pobre!...

 

Quando vejo o Eterno envolvido em faixas

Quando do Verbo Divino ouço o fraco grito

ó minha Mãe querida, não invejo mais os anjos

Pois o seu Poderoso Senhor é meu Irmão querido!...

Como te amo, Maria, tu que na nossa terra

Fizeste surgir essa Divina Flor!...

Como te amo escutando os pastores e os magos

E guardando tudo zelosa no teu coração!...

 

Eu te amo misturando-te com as outras mulheres

Que para o templo santo seus passos dirigem

Eu te amo apresentando o Salvador de nossas almas

Ao felizardo Ancião, que o aperta em seus braços,

No início sorrindo eu ouço o seu cântico

Mas logo seus acentos chorar já me fazem.

Um olhar profético no futuro estendendo

Simeão te apresenta uma espada de dores.

 

ó Rainha dos mártires, até à tarde de tua vida

Essa espada dolorosa transpassará teu coração

Deves logo deixar o solo de tua pátria

Para evitar de um rei o ciumento furor.

Jesus dorme em paz sob as pregas de teu manto

José vem te pedir para partir num instante

E tua obediência logo aparece

Partes sem demora e sem arrazoados.

 

Na terra do Egito, parece-me, ó Maria,

Que na pobreza teu coração permanece alegre,

Pois Jesus não é Ele a mais bela Pátria?

Que te importa o exílio? Tu possuis os Céus...

Mas em Jerusalém, uma amarga tristeza

Como um vasto oceano vem inundar teu coração

Jesus, por três dias, se esconde de tua ternura

Então,sim, é o exílio em todo seu rigor!...

 

Enfim tu o vês e a alegria te transporta,

Dizes ao belo Menino, que os doutores encanta:

"ó meu Filho, por que,pois, agis desta sorte?

Eis que teu pai e eu em lágrimas te buscávamos."

E o Menino Deus responde (oh! que profundo mistério!)

À Mãe querida que lhe estende seus braços:

"Por que me procuráveis?...Às obras de meu Pai

Eu devo me empregar; não sabíeis por certo?"

 

O Evangelho me ensina que crescendo em saber

A José e Maria, Jesus ficava submisso

E meu coração me revela com que ternura

Ele obedece sempre a seus pais tão queridos.

Agora, eu entendo o mistério do templo,

As palavras escondidas de meu Amável Rei.

Mãe, teu doce Filho quer que tu sejas o exemplo

Da alma que O busca na noite da fé.

 

Visto que o rei dos Céus quis que sua Mãe

Mergulhasse na noite, na angústia do coração;

Maria, é, pois, um bem o sofrer nesta terra?

Sim,sofrer amando é a mais pura felicidade!...

Tudo que Jesus me deu pode retomá-lo

Diz-lhe para nunca se preocupar comigo...

Ele pode mesmo se esconder, consinto esperá-lo

Até o dia sem ocaso, quando se extinguirá minha fé...

 

Eu sei que em Nazaré, Mãe cheia de graça

Tu vives bem pobremente, não querendo nada a mais

Nada de arrebatamento, de milagres e de êxtases

Eles não embelezam tua vida, ó Rainha dos Eleitos!...

O número dos pequenos é bem grande nesta terra

Eles podem, sem temer, para ti os seus olhos levantar

É pela estrada comum, incomparável Mãe

Que te apraz caminhar para os guiar para o Céu.

 

Esperando o Céu, ó minha Mãe querida,

Quero viver contigo, seguir-te cada dia

Mãe, na tua contemplação eu mergulho encantada

Descobrindo no teu coração os abismos do amor.

Teu maternal olhar afugenta meus temores

Ele me ensina a chorar, ele me ensina a gozar.

Ao invés de desprezar as alegrias puras e santas

Tu queres as partilhar, te dignas abençoar.

 

Dos esposos de Caná vendo a inquietude

Que não podem esconder, pois o vinho lhes falta

Ao Salvador tu o dizes na tua solicitude

Esperando o socorro do seu poder divino.

Jesus parece, de início, recusar tua prece

"Que importa", diz ele, "mulher, a vós e a mim?"

Mas, no fundo de seu coração, Ele te chama minha Mãe

E seu primeiro milagre, Ele opera por ti...

 

Um dia em que os pecadores escutam a doutrina

DAquele que quisera nos Céus os receber

Eu te encontro com eles, Maria, na colina

E alguém diz a Jesus que tu querias o ver,

Então, teu Divino Filho diante de todo o mundo

De seu amor por nós mostra a imensidade

Ele diz: "Quem é meu irmão e minha irmã e minha Mãe?"

"É Só aquele que faz minha vontade"

 

ó Virgem Imaculada, a mais terna das mães

Não te entristeces, ouvindo Jesus

Mas te alegras porque Ele nos faz entender

Que na terra sua família é noss'alma

Sim, te alegras porque Ele nos dá sua vida,

Os tesouros infinitos de sua divindade!...

Como não te amar, ó minha Mãe querida

Ao ver tanto amor e tanta humildade?

 

Tu nos ama, Maria, como Jesus nos ama

E aceitas, por nós, ficar longe dEle.

Amar é dar tudo e se dar a si mesmo

Quiseste prová-lo ficando nosso apoio.

O Salvador conhecia tua imensa ternura

Ele sabia os segredos de teu coração maternal,

Refúgio dos pecadores, é a ti que Ele nos deixa

Quando deixa a Cruz para nos esperar no Céu.

 

Maria, tu me apareces no cume do Calvário

De pé, perto da Cruz, como um Padre no altar

Oferecendo para apaziguar a justiça do Pai

Teu bem-amado Jesus, o doce Emanuel...

Um profeta o disse, ó Mãe desolada,

"Não existe dor igual a tua dor!"

ó Rainha dos Mártires, ficando no exílio

Tu prodigas por nós todo o sangue de teu coração!

 

A casa de São João se torna teu único asilo

O filho de Zebedeu deve substituir Jesus...

É o último detalhe que nos dá o Evangelho

Da Rainha dos Céus ele não fala mais.

Mas seu profundo silêncio, ó minha Mãe querida,

Não revela que o Verbo Eterno

Quer Ele mesmo cantar os segredos da tua vida

Para encantar teus filhos, todos os Eleitos do Céu?

 

Em breve ouvirei essa doce harmonia

Bem logo no belo Céu eu te verei

Tu que vieste me sorrir na manha de minha vida

Vem me sorrir ainda...Mãe...a tarde já chegou!...

Não temo mais o brilho de tua glória suprema

Contigo eu sofri e agora eu o quero

Cantar sobre teus joelhos,Maria, por que te amo

E repetir pra sempre que eu sou tua filha!...

 

86.BILHETE DE PROFISSÃO

 

 Era costume, no tempo de Santa Teresinha, que a noviça no dia de sua vestição, ou a professa no dia de seu votos trouxesse, sobre seu coração um bilhete, em que ela pedisse, para ela e para seus amigos, as graças que desejasse obter. Havia até uma crença que toda oração feita no momento da prostração sobre o tapete, com os braços em cruz, era ouvida. Teresa,pois, segue uma tradição, quando, no dia 8 de setembro de 1890, festa de sua profissão religiosa, levava, sobre seu peito, o bilhete famoso, que segue.

 Os pedidos podiam ser subscritos por qualquer carmelita, mas, no caso de Teresinha, eles têm uma conotação toda especial, porque revelam toda o seu caminhar. E a caminhada de Teresa está aí: pureza, Só Deus, a paz, o amor infinito, o martírio, cumprimento perfeito dos votos, esposa ideal, não pesar à comunidade, ser esquecida por todos, grão de areia, cumprimento da vontade divina, a glória celeste, salvação das almas, Só querer alegrar e consolar Jesus.

 Está evidente que semelhantes pedidos, frutos de um verdadeiro querer vivê-los e mesmo já de uma vivência, Só poderiam partir de uma grande Santa.

 

 

 ó Jesus, meu divino esposo! que eu não perca jamais a segunda veste do meu batismo. Toma-me antes que eu cometa a mais leve falta voluntária. Que eu não busque nem encontre jamais outra coisa senão a ti somente, que as criaturas não sejam nada para mim e que eu não seja nada para elas, mas que tu, Jesus, sejas tudo!...Que as coisas da terra não possam jamais perturbar minha alma e que nada perturbe minha paz. Jesus, outra coisa eu não te peço senão a paz e também o amor, o amor infinito sem outro limite senão tu, o amor que não seja mais eu, mas tu, meu Jesus. Jesus, que por ti eu morra mártir, o martírio do coração ou do corpo, ou, antes, de ambos os dois... Concede-me cumprir meus votos em toda sua perfeição e faze-me compreender o que deva ser uma esposa para ti. Faze que eu não seja nunca uma carga para a comunidade, mas que ninguém se ocupe comigo, que seja olhada como algo pisado com os pés e esquecida como um teu grãozinho de areia, Jesus.

 Que tua vontade seja realizada em mim perfeitamente, que eu alcance o lugar que foste já preparar para mim...

 Jesus, faze que eu salve muitas almas, que hoje não haja uma Só condenada e que todas as almas do purgatório sejam salvas... Jesus, perdoa-me se digo coisas, que não devem ser ditas, Só quero te alegrar e te consolar.

 

87.ATO DE OFERTA COMO VÍTIMA DE HOLOCAUSTO AO AMOR MISERICORDIOSO DO BOM DEUS

 

  Nos textos, que neste livro, foram apresentados, ficou clara a posição de Teresa de Lisieux a respeito da Justiça divina e do Amor Misericordioso de Deus. Sua predileção sempre foi pelo Amor e pelo amor de misericórdia, enquanto que nossa Santa via a justiça divina justamente sob a ótica do próprio amor, isto é, porque justo, Deus seria compreensivo e compassivo com aqueles que, diante dele, se julgassem fracos, imperfeitos e pequenos, colocando-se, assim, totalmente, nos seus braços.

 Pouco a pouco, diante do fato que algumas pessoas se ofereciam à justiça divina, como vítimas de holocausto e de expiação pelos pecados e maldades dos homens, Teresinha concebeu a idéia de se consagrar, inteiramente, ao amor misericordioso de Deus. Na sua Autobiografia está registrado o desenrolar dessa idéia. E foi assim que, aos 9 de junho de 1895, festa da Santíssima Trindade, ela se ofertou, totalmente, como vítima de holocausto ao amor misericordioso de Deus.

 O que esse ato de oferecimento encerra de teologia e de espiritualidade, a reflexão pessoal e, sobretudo, a vivência de cada um poderão dizê-lo melhor do que qualquer comentário. Com efeito, se amor atrai amor e se todo amor exige a consumação e fusão total dos amantes, esse ato de oferta é a seqüência e conclusão lógicas do puro, autêntico e mais profundo amor de uma criatura ao seu Deus de amor.

 

 

 ó meu Deus! Trindade bem-aventurada, eu desejo vos Amar e vos fazer Amar, trabalhar para a glorificação da Santa Igreja, salvando as almas, que estão na terra e libertando as que sofrem no purgatório. Desejo cumprir perfeitamente vossa vontade e chegar ao grau de glória, que me preparastes no vosso reino. Em uma palavra, desejo ser Santa, mas sinto minha impotência e vos peço, ó meu Deus, que sejais vós mesmo minha Santidade.

 Posto que me amastes até me dar vosso Filho único para ser meu Salvador e meu Esposo, os tesouros infinitos de seus méritos me pertencem; eu vo-los ofereço, com alegria, pedindo-vos que não me olheis a não ser através da Face de Jesus e no seu Coração abrasado de Amor.

 Ofereço-vos, ainda, todos os méritos dos santos (que estão no Céu e na terra), seus atos de Amor e os dos Santos Anjos; ofereço-vos, enfim, ó bem-aventurada Trindade, o Amor e os méritos da Santíssima Virgem, minha Mãe querida. A Ela entrego minha oferta, pedindo-lhe que vo-lo apresente. Seu Divino Filho, meu Esposo Bem-Amado, nos dias de sua vida mortal, disse-nos: "Tudo que pedirdes ao meu Pai, em meu nome, Ele vo-lo dará!" Estou, pois, certa que ouvireis meus desejos; eu o sei, ó meu Deus, quanto mais quereis dar, tanto mais fazeis desejar. Sinto no meu coração desejos imensos e é, com confiança, que vos peço que tomeis posse de minha alma. Ah! não posso receber a Santa Comunhão tantas vezes quantas desejo, mas, Senhor, não sois Todo-Poderoso?... Ficai em mim como no tabernáculo, não vos separeis mais de vossa pequena hóstia...

 Quisera vos consolar da ingratidão dos maus e vos suplico que me tireis a liberdade de vos desagradar. Se, por fraqueza, eu cair alguma vez, que logo vosso Divino Olhar purifique minha alma, consumindo todas as minhas imperfeições, como o fogo que transforme tudo nele mesmo...

 Eu vos agradeço, ó meu Deus, por todas as graças que me concedestes, particularmente a de me ter feito passar pelo crisol do sofrimento. Será, com alegria, que vos contemplarei no último dia, carregando o cetro da cruz. Posto que vos dignastes dar-me, como herança, essa cruz tão preciosa, espero parecer-me convosco no Céu e ver brilhar no meu corpo glorificado as sagradas estigmas de vossa Paixão...

 Após o exílio da terra, espero ir gozar de vós na Pátria,mas não quero juntar méritos para o Céu, Só quero trabalhar para vosso Amor, com o único fim de vos dar prazer, de consolar vosso Sagrado Coração e de salvar almas , que vos amarão por toda a eternidade.

 Na tarde desta vida, comparecei diante de vós com as mãos vazias, pois, não vos peço, Senhor, que conteis minhas obras. Todas as nossas justiças têm manchas aos vossos olhos. Quero, pois, revestir-me de vossa própria Justiça e receber de vosso Amor a posse eterna de Vós mesmo. Não quero absolutamente outro trono e outra coroa a não ser Vós, ó meu Bem-Amado!...

 A vossos olhos, o tempo não é nada, um Só dia é como mil anos, vós podeis, pois, em um instante, preparar-me para comparecer diante de vós...

 A fim de viver em um ato de perfeito Amor, eu me ofereço como vítima de holocausto a vosso Amor misericordioso, suplicando-vos me consumir sem cessar, deixando transbordar na minha alma as vagas de ternura infinita, que estão presas em vós e que, dessa maneira, eu me torne mártir de vosso Amor, ó meu Deus!...

 Que esse martírio, depois de me ter preparado para comparecer diante de vós, faça-me, enfim, morrer, e que minha alma se jogue , sem demora, no abraço eterno do Vosso Misericordioso Amor...

 Quero, ó meu Bem-Amado, a cada batida do meu coração, renovar-vos essa oferta um numero infinito de vezes, até quando, tendo-se dissipado as sombras, possa repetir-vos meu Amor em um Face a Face Eterno!...

 


ÍNDICE

 

 

 

APRESENTAçÃO..................................... I

AS PREFERÊNCIAS DE DEUS.......................... 1

EU ESCOLHO TUDO.................................. 3

TUDO ME SORRIA NA TERRA.......................... 5

AMOR E TERNURA................................... 7

RELIGIÃO E VIDA.................................. 10

MAR, SOL E GRAçA................................. 13

O SORRISO DE MARIA............................... 15

VIDA E Glória.................................... 17

ORAçÃO........................................... 19

EUCARISTIA E CONFIRMAçÃO......................... 20

EXIGÊNCIAS DO CORAçÃO............................ 24

AMIZADE E CRESCIMENTO............................ 26

O BRINQUEDO FURADO E A BOLINHA ABANDONADA........ 28

O SACRIFÍCIO DA SEPARAçÃO........................ 32

UM NOVO CAMINHO SE ABRE.......................... 34

PREPARANDO UM CASAMENTO.......................... 40

UM CONVITE DE CASAMENTO.......................... 44

SOMENTE COM O AMOR............................... 45

COMO É DOCE O CAMINHO DO AMOR!................... 47

O AMOR MISERICORDIOSO............................ 49

A CIÊNCIA DO AMOR................................ 52

MINHA VOCAçÃO É O AMOR........................... 55

SER UMA SANTA.................................... 62

O POEMA DA PRIMEIRA CHAMADA...................... 64

AMAR COMO DEUS NOS AMOU.......................... 67

AMOR E POBREZA................................... 73

O PINCEL DE DEUS................................. 75

O SANTUÁRIO HUMANO............................... 77

A ORAçÃO......................................... 80

HUMILHAçÃO....................................... 82

AMOR QUE ATRAI AMOR.............................. 84

O SONHO DA MONTANHA.............................. 87

ELE PEDE TUDO!................................... 88

O AMOR PODE TUDO!................................ 90

SECURA E SONO.................................... 92

CORAçÃO SENSÍVEL................................. 94

A PÁtRIA!... A PÁTRIA!... ....................... 96

SOFRIMENTO, PROVA DO AMOR........................ 98

PAZ E ALEGRIA.................................... 99

SANTIDADE!? QUE É?............................... 101

O MARTÍRIO DO ESCRÚPULO.......................... 103

SER APósTOLO!.................................... 105

GRÃO DE AREIA.................................... 107

A MONOTONIA DO SACRIFÍCIO........................ 109

O PEQUENO NADA................................... 111

A MONTANHA DO AMOR............................... 113

DISTANTES INFINITOS.............................. 114

ATÉ AS ALEGRIAS NATURAIS!........................ 116

SIMPLICIDADE COM A MÃE........................... 118

GOTA DE ORVALHO.................................. 119

NA BANCA DO AMOR................................. 121

OS NADAS IMPORTANTES............................. 124

AS FLORES DO CAMINHO............................. 126

A PALAVRA E A VERDADE............................ 128

O MARTÍRIO DO CORAçÃO............................ 130

QUEM É REALMENTE LOUCO?.......................... 131

UMA CRIANCINHA................................... 133

JOGANDO FLORES................................... 135

A CONFIANçA, Só A CONFIANçA...................... 136

O EXÍLIO OU A PÁTRIA?............................ 138

A JUSTIçA DIVINA................................. 139

Só CONTO COM O AMOR!............................. 141

O ÚLTIMO LUGAR................................... 142

É PRECISO CANTAR SEMPRE.......................... 143

SOFRIMENTO, CONFIANçA, ABANDONO, AMOR!........... 144

DELICADEZA FILIAL................................ 146

A ESPADA DO ESPÍRITO............................. 147

TUDO É GRAçA..................................... 148

VIA SACRA........................................ 149

GOTA D'ÁGUA...................................... 150

AJUDAR TODA A IGREJA!............................ 151

COMUNHÃO DOS SANTOS.............................. 152

A OPINIÃO DAS CRIATURAS.......................... 154

PERMANECER PEQUENO............................... 155

O TRONO E O POBRE................................ 156

A SAGRADA FAMÍLIA................................ 157

UM SERMÃO DIFERENTE.............................. 158

NÃO JULGAR, MAS SALVAR!.......................... 160

AMAR, AMAR, AMAR................................. 161

MEU CANTO DE HOJE................................ 162

VIVER DE AMOR.................................... 164

UMA ROSA DESFOLHADA.............................. 167

A NOSSA SENHORA DO PERPÉTUO SOCORRO.............. 169

POR QUE TE AMO, ó MARIA!......................... 170

BILHETE DE PROFISSÃO............................. 175

ATO DE OFERTA AO AMOR MISERICORDIOSO............. 176

 

 

* É doutor em teologia e Vigário Geral da Arquidiocese de Maceió