Não tendo podido vos convidar para a bênção
Nupcial, que lhes fora dada na montanha do Carmelo, aos 8 de setembro de 1890
(pois só a corte celeste foi aí admitida), sois, não obstante, solicitados a
estar presentes no Regresso das Núpcias, que acontecerá Amanhã, Dia da
Eternidade, quando Jesus, Filho de Deus, virá sobre as Nuvens do Céu no brilho
de sua Majestade, para julgar os Vivos e os Mortos.
Sendo a hora ainda incerta, sois convidados a
estar prontos e a velar
(MA.77v)
18.SOMENTE COM O
AMOR
Quando Santa Teresinha escreveu a sua
Autobiografia, já se encontrava em alto estado de perfeição. Nas páginas da
história de sua vida, ela vai, pouco a pouco, revelando-nos toda sua caminhada
até chegar a formar as linhas mestras da sua espiritualidade. Neste texto,
nossa Santa apresenta mais algumas facetas dessa espiritualidade, que é o
espelho da sua própria vida.
Aqui, Teresa se apresenta com uma pessoa
normal, que dorme e se distrai nas orações, apesar de todo seu esforço.
Todavia, aparece logo o que lhe é peculiar, a saber, que sua caminhada é de
amor, não de temor, e por isso, ela não se desencoraja. Pelo contrário, voa.
Ademais, chegou mesmo a descobrir coisas maravilhosas, como o fato de que suas
faltas não fazem mal ao bom Deus.
Não posso dizer que, tenha tido, muitas
vezes, consolações durante minhas ações de graças, é talvez o momento em que as
tenho menor...Acho isso muito natural, pois que eu me ofereci a Jesus não como
uma pessoa, que deseja receber sua visita para sua própria consolação, mas, ao
contrário, para o prazer dAquele que se dá a mim. -Eu imagino minha alma como
um terreno livre e peço à Virgem Santíssima para tirar os entulhos que pudessem
impedi-lo de ser livre, em seguida suplico-lhe para que ela mesma construa uma
vasta tenda digna do Céu, que a orne com seus adornos e, depois, convido todos
os Santos e os Anjos a virem fazer um magnífico concerto. Parece-me, quando
Jesus desce ao meu coração, que Ele está contente ao se ver tão bem recebido e
eu fico contente também...Tudo isso não impede que as distrações e o sono
venham me visitar, mas, ao sair da ação de graças, vendo que a fiz tão mal,
tomo a resolução de ficar durante todo o resto do dia em ação de graças... A
senhora vê, minha Madre querida, que estou longe de ser conduzida pelo caminho
do temor, sei sempre encontrar o meio de ser feliz e de aproveitar de minhas
misérias...sem dúvida, isso não desagrada a Jesus, pois parece que Ele me encoraja
neste caminho.
.............................................................
O Bom Deus, querendo me mostrar que era Ele
só o diretor de minha alma, serviu-se justamente desse Padre(1), que só foi
apreciado por mim...Tinha,então, grandes provações interiores de todas as
espécies (até me perguntar, às vezes, se existia um Céu). Sentia-me disposta a
não dizer nada a respeito das minhas disposições íntimas, não sabendo como
exprimi-las,mas, tendo apenas entrado no confessionário, senti minha alma se dilatar.
Depois de ter dito poucas palavras, fui compreendida de uma maneira maravilhosa
e até adivinhada...minha alma era como um livro no qual o Padre lia melhor que
eu mesma...Ele me lançou a velas soltas sobre as ondas da confiança e do amor,
que me atraíam tão fortemente, mas sobre as quais eu não ousava
avançar...Disse-me que minhas faltas não incomodavam ao Bom Deus, que, estando
no seu lugar, ele me dizia, em seu nome, que Ele estava muito contente
comigo...
Oh!como fiquei feliz ouvindo essas consoladoras
palavras!...Jamais ouvira dizer que, as faltas podiam não desagradar ao bom
Deus, essa segurança encheu-me de alegria, fez-me suportar pacientemente o
exílio da vida...
..............................................................
Sou de tal natureza que o temor me faz
recuar; com o amor não somente avanço, mas vôo.
..............................................................
... reconheci, pela experiência, que a
felicidade não consiste senão em se esconder, em ficar na ignorância das coisas
criadas. Compreendi que, sem o amor, todas as obras são apenas nada, mesmo as
mais brilhantes, como ressuscitar os mortos ou converter os povos...
NOTA
(1) -Trata-se do Padre Alexis Prou,
franciscano, que pregou o retiro entre 8 e 15 de outubro de 1891. Nossa Santa
guardará uma bela recordação desse religioso santo, que morreu aos 15 de
outubro de 1914. Já bem doente, Teresinha se recordava ainda das palavras do
Pe.Prou e dizia, que ele lhe fizera um grande bem.
19.COMO É DOCE O
CAMINHO DO AMOR!
Ah! quanto motivos não tenho eu para
agradecer a Jesus, que soube realizar todos os meus desejos!...
Agora, já não tenho outro desejo senão o de
amar Jesus até à loucura...Meus desejos infantis se foram, sem dúvida gosto
ainda de preparar flores para o altar do Menino Jesus...
Não desejo mais o sofrimento, nem a morte e,
contudo, eu os amo a todos os dois, mas é só o amor que me atrai...Durante
muito tempo eu os desejei; possui o sofrimento e acreditei ter chegado às
praias do Céu, acreditei que a florzinha seria colhida na sua
primavera...agora, é só o abandono que me guia, não tenho absolutamente outra
bússola!... Não posso pedir mais nada com ardor, exceto o cumprimento perfeito
da vontade do Bom Deus em minha alma, sem que as criaturas possam aí colocar
obstáculos. Posso dizer estas palavras do cântico espiritual de N.Pai São João
da Cruz: "Bebi na bodega interior de meu amado e, quando saí por toda essa
planície, não sabia mais nada e perdi o rebanho, que seguia antes...Minha alma
se empregou, com todo seu ardor, ao seu serviço; já não cuido do rebanho, nem
tenho mais outro ofício, porque só em amar está meu exercício!..." ou
ainda: "Faz tal obra o amor, desde que o conheci, que, se há bem ou mal em
mim, tudo o faz de um sabor e transforma a alma em si!"Oh! minha Madre
querida! como é doce o caminho do amor! Sem dúvida,a gente pode cair, pode
cometer infidelidades, mas, sabendo o amor tirar proveito de tudo, consumiu bem
depressa tudo o que pode desagradar a Jesus, não deixando senão uma paz humilde
e profunda no fundo do coração... (M A, 82v-83r)
NOTAS
(1) -São João da Cruz, Cântico
Espiritual, estrofes 26 e 28.
(2) -São João da Cruz, Glosa ao Divino.
Traduzimos diretamente do original, por isso, nossa tradução difere um pouco
daquela proposta por Santa Teresinha.
(3) -"sabendo o amor tirar proveito
de tudo", essa é a tradução que nossa Santa coloca nos seus Manuscritos,
no lugar de "tudo faz de um sabor".No final,o sentido das duas
traduções é o mesmo.
20. O AMOR
MISERICORDIOSO
Santa Teresinha não é apenas uma santa
qualquer, nem mesmo uma mística, ou mestra de espiritualidade. Não. Teresa de
Lisieux‚ mesmo uma teóloga. Suas páginas abordam, com uma simplicidade toda
natural e com uma clareza extraordinária, problemas dificílimos de teologia. E
Ela, com a iluminação do Espírito Santo, sempre sabe dar-lhes uma resposta
conveniente e até oferecer exemplos para nossa melhor compreensão.
No texto, que segue, Teresa examina os
chamados atributos de Deus e os coloca, de uma maneira fantástica, a todos sob
a luz, o sentido e a força englobante do amor.
Por outro lado, a Santa descobre o tipo de
amor, que Deus pode nos ter. É um amor, diz Ela, voltado para nós, que somos
miseráveis. É um amor dirigido à miséria da criatura.Portanto, conclui, é um
Amor Misericordioso. E, o mais interessante é que, a Santa não deduz de tudo
isso uma conseqüência negativa, mas, pelo contrário, se o Amor de Deus‚ desse
tipo, logo, conclui Ela, devemos estar felizes e confiantes, porque Deus está
todo voltado para nós e nos compreende tais como somos e, por isso, perdoa-nos
e nos leva, se quisermos, às profundezas de sua vida trinitária.
Ó minha Madre querida! após tantas graças,
não posso eu cantar com o salmista: "Como o Senhor é BOM, como sua
MISERICÓRDIA é eterna"? (1) Parece-me que, se todas as criaturas tivessem
as mesmas graças que eu, o Bom Deus não seria temido por ninguém, mas amado até
à loucura, e que por amor, e, não, temendo, jamais alguma alma consentiria em
desagradá-lo... Compreendo, contudo, que todas as almas não podem se
assemelhar, é preciso que haja diferentes famílias entre elas, a fim de honrar
especialmente cada uma das perfeições do Bom Deus. A mim Ele deu sua
Misericórdia infinita e é através dela, que contemplo e adoro as outras
perfeições Divinas!... Então, todos me parecem brilhantes de amor, a própria
Justiça ( e talvez ainda mais do que qualquer outra) me perece revestida de
amor...
Que doce alegria ‚ pensar que, o Bom Deus é
Justo, isto é, que Ele leva em conta as nossas fraquezas, que conhece perfeitamente
a fragilidade de nossa natureza. Do que, portanto, teria eu medo? Ah! o Deus
infinitamente justo, que se dignou perdoar,com tanta bondade, todas as faltas
do filho pródigo, não deve ser Justo também para comigo, que "estou sempre
com Ele"? (2) Este Ano, no dia 9 de Junho, festa da Santíssima Trindade,
recebi a graça de compreender mais do que nunca quanto Jesus deseja ser amado
(3). Pensava nas almas, que se oferecem
como vítimas à justiça de Deus, é a fim de desviar e atirar sobre elas os
castigos reservados aos culpados; esse oferecimento me parecia grande e
generoso, mas estava longe de me sentir levada a fazê-lo. "Ó meu Deus!
exclamei no fundo do coração, só vossa Justiça receber almas, que se imolam
como vítimas?... Vosso Amor Misericordioso não tem ele também necessidade
dessas almas? Por todos os lados ele ‚ desconhecido, rejeitado; os corações,
aos quais desejais oferecê-lo, voltam-se para as criaturas pedindo-lhes a
felicidade com suas miseráveis afeições, ao invés de se jogarem nos vossos braços
e de aceitarem vosso Amor infinito... Ó meu Deus! vosso amor desprezado vai
ficar no vosso Coração? Parece-me que, se encentrásseis almas, que se
oferecessem como Vítimas de holocaustos ao vosso Amor, vós as consumiríeis
rapidamente; parece-me que serieis feliz por não comprimir as ondas de
infinitas ternuras que estão em vós... Se vossa Justiça gosta de se
descarregar, ela que só se estende sobre a terra,quanto mais vosso Amor
Misericordioso não deseja abrasar as almas, pois que vossa Misericórdia se eleva
até os Céus... (4) Ó meu Jesus! que seja eu essa feliz vítima, consumi vosso
holocausto com o fogo do vosso Divino Amor!..."
Minha Madre querida, a senhora que me
permitiu que me oferecesse assim ao Bom Deus, a senhora conhece os rios ou,
antes, os oceanos de graças, que vieram inundar minha alma... Ah! desde aquele
dia feliz, parece-me que o Amor me penetra e envolve-me, parece-me que, a cada
instante, esse Amor Misericordioso me renova, purifica minha alma e não deixa
nela nenhuma sombra de pecado, por isso não posso temer o purgatório...Sei que,
por mim mesma, não mereceria nem mesmo de entrar nesse lugar de expiação, já
que só as almas santas podem aí entrar, mas sei também que, o Fogo do Amor‚
mais santificante do que o do purgatório, sei que Jesus não pode desejar para
nós sofrimentos inúteis e que Ele não me inspiraria os desejos que sinto, se
não os quisesse realizar...
Oh! como ‚ doce o caminho do Amor!... Como
quero me aplicar a fazer sempre, com o maior abandono, a vontade do Bom
Deus!...
(M A, 83v-84v)
NOTAS
(1) -Salmo,118,1. Como sempre, a tradução
oferecida pela Santa não é literal.
(2) -Lucas, 15,3.
(3) -Com efeito, Santa Teresinha se
ofereceu, como vítima de holocausto, ao Amor Misericordioso, aos 9 de junho de
1895.
(4) -A Santa se refere ao Salmo 36,6,
mas, novamente, sua citação.
21. A CIÊNCIA DO
AMOR
Santa Teresinha não é contra o estudo e a
ciência. O que ela afirma neste texto é que, pela experiência própria, ela
absorvera toda a espiritualidade da sua caminhada, que é na base do amor,
mediante Jesus.
Ademais, Teresa inculca o fato que, para se
receber essa Ciência do Amor‚ é necessário ser humilde, ser pequeno. Portanto,
a grande lição do texto é a necessidade de ser pequeno, de ser humilde diante
de Deus, para que Ele possa conceder-nos a Ciência do Amor.
Ademais, aparece também outra grande
mensagem, a saber, Deus não precisa de nossas obras, mas de nosso amor. E,
aqui, Teresinha, mais uma vez, penetra nos umbrais dos grandes problemas
teológicos, que tratam das obras e dos méritos.
Teresa, sem negar a doutrina tradicional da
Igreja, nem muito menos querendo optar pelas vias da teologia protestante,
insiste, todavia, no peso do amor, porque só ele dá sentido às nossas obras;
porque só assim elas têm certo valor diante de Deus.
Não creia que eu nade nas consolações, oh!
não! minha consolação‚ de não tê-la sobre a terra.Sem se mostrar, sem fazer
ouvir sua voz, Jesus me instrui em segredo (1), não‚ por meio dos livros,pois
não compreendo o que leio,mas muitas vezes uma palavra como esta, que colhi ao
final da oração (depois de ter ficado no silêncio e na segura) vem me consolar:
"Eis o mestre que te dou, ele te ensinar tudo que deves fazer. Quero te
fazer ler no livro de vida, no qual está contida a ciência do AMOR" (2). A
ciência do Amor, ah! sim! essa palavra ressoa docemente ao ouvido de minha
alma, só desejo essa ciência. Por ela, tendo dado todas as minhas riquezas,
julgo, como a esposa dos cânticos sagrados, não ter dado nada(3)... Compreendo
tão bem que só o amor pode nos tornar agradáveis ao Bom Deus, que esse amor‚ o
único bem que ambiciono. Jesus se apraz em me mostrar o único caminho que
conduz a essa fornalha Divina, esse caminho‚ o abandono da criancinha que
adormece, sem temor, nos braços de seu Pai... "Se alguém é pequenino, que
venha a mim" (4), disse o Espírito Santo pela boca de Salomão e esse mesmo
Espírito de Amor disse ainda que é misericórdia ‚ dada aos pequenos (5). Em seu
nome, o profeta Isaías nos revela que, no último dia "O Senhor conduzir’s
seu rebanho às pastagens, que ele reunirá os cordeirinhos e os apertar sobre
seu peito"(6), e, como se todas essas promessas não bastassem, o mesmo
profeta, cujo olhar inspirado mergulhava já nas profundezas eternas, exclama em
nome do Senhor: "Como uma mãe acaricia seu filho, assim eu vos consolarei,
levar-vos-ei sobre meu peito e acariciar-vos-ei sobre meus joelhos"(7). Ó
Madrinha querida! após semelhante linguagem, a única coisa a fazer ‚ calar,
chorar de gratidão e de amor... Ah! se todas as almas fracas e imperfeitas
sentissem o que sente a menor de todas as almas, a alma de sua Teresinha, nem
uma só desesperaria de chegar ao cume da montanha do amor, pois que Jesus não
pede grandes ações, mas somente o abandono e o reconhecimento, já que disse no
Salmo 50: "Não tenho necessidade dos bodes de vossos rebanhos, porque
todos os animais das florestas me pertencem e os milhares de animais que pastam
sobre as colinas, conheço todos os pássaros das montanhas... Se tivesse fome,
não é a vós que diria, pois a terra e tudo o que ela contém me pertencem. Por
ventura devo comer a carne dos touros e beber o sangue dos bodes?... IMOLAI a
DEUS SACRIFÍCIOS de LOUVORES e DE A™ES DE GRAçAS" (8).
Eis tudo quanto Jesus reclama de nós, ele não
tem absolutamente necessidade de nossas obras, mas somente de nosso amor, pois
esse mesmo Deus que declara não ter, de modo nenhum, necessidade de nos dizer
se tem fome, não teme mendigar um pouco d`água à Samaritana. Ele tinha sede...
Mas, dizendo: "dai-me de beber" (9), era o amor de sua pobre criatura
que o Criador do universo reclamava. Ele tinha sede de amor... Ah! sinto, mais
do que nunca, que Jesus está sedento, ele só encontra ingratos e indiferentes
entre os discípulos do mundo e entre seus próprios discípulos ele encontra ah!
poucos corações , que se entregam a ele sem reserva, que compreendem toda a
ternura de seu Amor infinito.
(M b, v.1r-1v)þ
NOTAS
(1) -Esta passagem nos lembra o salmo 51,
quando o salmista diz:"Eis que amas a verdade no fundo do ser, e me
ensinas a sabedoria no segredo". É verdade que, as traduções diferem neste
ponto, todavia parece que o significado verdadeiro está na explicação de
Teresa, isto é, Deus instrui as pessoas sem alarde e no fundo do coração,
quando elas se abrem … luz do Espírito Divino.
(2) -Trata-se de palavras dirigidas a
Santa Margarida Maria Alacoque por Nosso Senhor. Elas se encontram em um
livro,conservado nos Arquivos do Carmelo de Lisieux e do qual
nossa Santa se serviu. O nome do livro é
"Pequeno Breviário do Sagrado Coração de Jesus".
(3) -Cântico dos Cânticos 8,7. Aqui, a
Santa faz apenas uma referência e com suas próprias palavras.
(4) -Santa Teresinha se refere ao livro
dos Provérbio, 9,4. O texto original bíblico diz: "Os ingênuos venham
aqui..."
(5) -Sabedoria, 6,7. Nossa Santa segue a
tradução da Vulgata, pois o texto original‚ diferente.
(6) -Isaías, 40,11. Como sempre, a
tradução citada por Teresa‚ é livre e segue seu pensamento.
(7) -Isaías 66,13 e 12. O texto teresiano
é, como sempre, muito livre.
(8) -Salmo 50,9-13. Teresa segue de perto
a Vulgata, pois o texto original é diferente.
(9) -João 4,7.
22. MINHA VOCAÇÃO
O AMOR
Com a devida distância e o devido respeito,
podíamos dizer que, assim como o famoso capítulo treze da primeira Carta aos
Coríntios‚ é o grande poema de Paulo, assim também o texto teresiano, que se
segue, é‚ certamente, o grande poema de amor, escrito por Teresa.
Sente-se aí que a alma de Teresa extravasa. O
amor em Teresa é tão alto, é tão sublime, que ele encerra em si todas as
vocações, todos os desejos, todos os dons, todos os carismas.
Certamente, aqui se tem uma das mais belas
páginas teresianas e, ao mesmo tempo, uma das mais ricas e das mais belas entre
as tantas que santos e místicos da Igreja escreveram através dos séculos.
O melhor comentário deste texto deve ser
feito por cada um de nós, que o leia e o medite profundamente.
Ó meu Bem-Amado! essa graça (1) era apenas o
prelúdio de graças maiores, com as quais querias me cumular; deixa-me, meu
único Amor, tas relembrar hoje... hoje, o sexto aniversário de nossa
união...(2) Ah! perdoa-me, Jesus, se eu deliro ao querer redizer meus desejos,
minhas esperanças que tocam o infinito, perdoa-me e cura minha alma dando-lhe o
que ela espera!!!...
Ser tua esposa, ó Jesus, ser carmelita, ser,
por minha união contigo, a mãe das almas, isso deveria me bastar...não
‚assim... Sem dúvida, esses três privilégios dizem bem a minha vocação,
Carmelita, Esposa e Mãe, contudo sinto em mim outras vocações, sinto-me com a
vocação de GUERREIRO, DE PADRE, de APÓSTOLO, de DOUTOR, de MÁRTIR; enfim, sinto
a necessidade, o desejo de realizar por ti, Jesus, todas as mais heróicas
obras...Sinto em minha alma a coragem de um Cruzado, de um Zuavo pontifício,
quisera morrer no campo de batalha pela defesa da Igreja...
Sinto em mim a vocação de PADRE; com que
amor, ó Jesus,eu te levaria nas minhas mãos, quando, … minha voz, tu descerias
do Céu... Com que amor dar-te-ia …às almas!...Mas ah! mesmo desejando ser
Padre, admiro e invejo a humildade de São Francisco de Assis e me sinto com a
vocação de imitá-lo, recusando a sublime dignidade do Sacerdócio.
Ó
Jesus! meu amor, minha vida...como aliar esses contrastes? Como realizar os
desejos de minha pobre alminha?
Ah! malgrado minha pequenez, queria
esclarecer as almas como os Profetas, os Doutores, tenho a vocação de ser
Apóstolo... quisera percorrer a terra, pregar teu nome e plantar sobre o solo
infiel tua Cruz gloriosa, mas, ó meu Bem-Amado, uma só missão não me bastaria,
quisera, ao mesmo tempo, anunciar o Evangelho nas cinco partes do mundo e at‚
nas mais remotas ilhas. Quisera ser missionária não somente durante alguns
anos, mas quisera ter sido desde a criação do mundo e sê-lo até à consumação
dos séculos... Todavia, quisera acima de tudo, ó meu Bem-Amado Salvador,
quisera derramar meu sangue por ti até à última gota...
O Martírio, eis o sonho da minha juventude,
esse sonho cresceu comigo nos claustros do Carmelo...Mas ainda aí, sinto que
meu sonho‚ uma loucura, pois não saberia me limitar a desejar um gênero de
martírio... Para me satisfazer, ser-me-iam necessários todos...Como tu, meu
Esposo Adorado, quisera ser flagelada e crucificada...Quisera morrer esfolada
como São Bartolomeu...Como São João, quisera ser mergulhada no óleo fervendo,
quisera sofrer todos os suplícios infligidos aos mártires... Com Santa Inês e
Santa Cecília, quisera apresentar meu pescoço … espada e como Joana D'Arc,
minha irmã querida, quisera na fogueira murmurar teu nome, ó JESUS...Pensando
nos tormentos, que serão a partilha dos cristãos no tempo do Anticristo, sinto
meu coração pular e quisera que esses tormentos me fossem reservados... Jesus,
Jesus, se quisesse escrever todos os meus desejos, ser-me-ia necessário pedir
emprestado teu livro da vida, aí estão relatadas as ações de todos os Santos e
essas ações quisera tê-las realizado por ti...
Ó meu Jesus! que vai s responder a todas
minhas loucuras?...H uma alma menor, mais impotente do que a minha?...Contudo,
por causa mesmo de minha fraqueza, aprouve-te, Senhor, realizar meus pequenos
desejos infantis, e queres hoje atender a outros desejos maiores do que o
universo...
Durante a oração, meus desejos fazendo-me
sofrer um verdadeiro martírio, abri as epístolas de São Paulo,a fim de buscar
alguma resposta. Os capítulos XII e XIII da primeira epístola aos Coríntios
caíram sob meus olhos... Li, então, no primeiro, que todos não podem ser
apóstolos, profetas, doutores, etc... que a Igreja ‚ composta de diferentes
membros e que o olho não poderia ser ao mesmo tempo a mão... A resposta era
clara, mas não atendia aos meus desejos, não me dava a paz... Como Madalena,
abaixando-se sempre junto ao túmulo vazio, terminou por encontrar o que
buscava, assim, abaixando-me até às profundezas do meu nada, elevei-me tão alto
que pude atingir meu objetivo... Sem me desencorajar, continuei minha leitura e
esta frase me aliviou: "Procurai, com ardor, os MAIS PERFEITOS DONS, mas
vou vos mostrar ainda uma via mais excelente". E o Apóstolo explica como
os mais PERFEITOS dons não são nada sem o AMOR... Que a Caridade ‚ a VIA
EXCELENTE que conduz seguramente a Deus.
Enfim encontrara o repouso... Considerando o
corpo místico da Igreja, não me reconhecera em nenhum dos membros descritos por
São Paulo, ou, antes, queria me reconhecer em todos... A Caridade me deu a
chave da minha vocação. Compreendi que,se a Igreja tinha um corpo composto de
diferentes membros, o mais necessário, o mais nobre de todos não lhe faltava,
compreendi que a Igreja tinha um Coração, e que esse Coração era ARDENTE de
AMOR. Compreendi que, só o Amor fazia agir os membros da Igreja, que se o Amor
viesse a se extinguir, os Apóstolos não anunciariam mais o Evangelho, os
Mártires recusariam derramar seu sangue... Compreendi que,o AMOR ENGLOBAVA
TODAS AS VOCAÇÕES, QUE O AMOR ERA TUDO, QUE ELE ABRAÇAVA TODOS OS TEMPOS E
TODOS OS LUGARES...EM UMA PALAVRA, QUE ELE É ETERNO!...
Então, no excesso de minha alegria delirante,
exclamei: Ó Jesus, meu Amor... minha vocação, enfim eu a encontrei, MINHA
VOCAÇÃO É O AMOR!...
Sim, encontrei meu lugar na Igreja e esse
lugar, ó meu Deus, fostes vós que mo destes... no Coração da Igreja, minha Mãe,
eu serei o Amor... assim,serei tudo... assim, meu sonho será realizado!!!...
Por que falar de uma alegria delirante? Não,
essa expressão não é justa, é antes, a paz calma e serena do navegador
percebendo o farol, que deve conduzi-lo ao porto... Ó Farol luminoso do amor,
sei como chegar até a ti, encontrei o segredo de me apropriar de tua chama.
Sou apenas uma criança, impotente e fraca,
contudo, minha fraqueza mesmo, que me d a audácia de me oferecer como Vítima ao
teu Amor, ó Jesus! Outrora, só as hóstias puras e sem mancha agradavam ao Deus
Forte e Poderoso. Para satisfazer à Justiça Divina, eram necessárias vítimas
perfeitas, mas … lei do temor sucedeu a lei do Amor, e o Amor me escolheu para
holocausto, eu, fraca e imperfeita criatura... Essa escolha não é digna do
Amor?... Sim, para que o Amor seja plenamente satisfeito, é necessário que se
abaixe, que se abaixe até o nada e que transforme em fogo esse nada...
Ó Jesus, eu o sei, o amor só se paga com
amor, por isso busquei, encontrei o meio de aliviar meu coração, retribuindo-te
Amor com Amor. -"Fazei amigos com o Dinheiro da iniqüidade, a fim de que,
no dia em que faltar, eles vos recebam nas tendas eternas" (3). Eis,
Senhor, o conselho que dás a teus discípulos, após ter-lhes dito que, "Os
filhos das trevas são mais hábeis nos seus afazeres do que os filhos da
luz". Filha da luz, compreendi que,meus desejos de ser tudo, de abraçar
todas as vocações, eram riquezas que poderiam muito bem me tornar injusta,
então me servi deles para me fazer amigos... Lembrando-me da oração de Eliseu a
seu Pai Elias, quando ousou pedir-lhe SEU DUPLO ESPÍRITO, apresentei-me diante
dos Anjos e dos Santos, e disse-lhes: "Sou a menor das criaturas, conheço
minha miséria e minha fraqueza, mas sei também como os corações nobres e
generosos gostam de fazer o bem, suplico-vos, pois, ó Bem-aventurados habitantes
do Céu, suplico-vos que ME ADOTEIS COMO FILHA, só para vós ser a glória que me
fareis conquistar, mas dignai-vos ouvir minha prece, ela ‚ temer ria, eu o
sei, contudo ouso vos pedir que me obtenhais: VOSSO DUPLO AMOR".
Jesus, não posso aprofundar meu pedido, temeria
ser esmagada sob o peso de meus desejos audaciosos... Minha desculpa é que sou
uma criança, as crianças não refletem no alcance de suas palavras, contudo seus
pais, quando são colocados em tronos, quando possuem imensos tesouros, não
hesitam em contentar os desejos dos pequenos seres, que eles amam tanto quanto
a si mesmos; para lhes dar prazer, fazem loucuras, chegam até à fraqueza...
Pois bem! eu sou a Filha da Igreja, e a Igreja é Rainha, pois que ela é tua
Esposa, ó Divino Rei dos Reis... Não são as riquezas e a Glória (mesmo a Glória
do Céu), que reclama o coração da criancinha... A glória, ela compreende que
ela pertence, de direito, a seus Irmãos, os Anjos e os Santos... Sua glória é
ser o reflexo daquela que jorra da fronte de sua Mãe. O que ela pede é o
Amor... Ela só sabe uma coisa, amar-te, ó Jesus... São-lhe proibidas as obras
brilhantes, não pode pregar o Evangelho, derramar seu sangue...
mas,
que importa? seus irmãos trabalham em seu lugar e ela, criancinha, ela fica
pertinho do trono do Rei e da Rainha, ela ama pelos seus irmãos que combatem...
Mas, como testemunhar seu Amor, pois que o Amor se prova com as obras. Pois
bem, a criancinha jogar flores, perfumar com suas fragrâncias o trono real,
cantar , com sua voz Argentina, o cântico do Amor...
Sim, meu Bem-Amado, eis como se consumir
minha vida... Não tenho outro meio para te provar meu amor senão te jogar
flores, isto é, não deixar escapar nenhum pequeno sacrifício, nenhum olhar,
nenhuma palavra, aproveitar todas as menores coisas e fazê-las por amor...
Quero sofrer por amor e mesmo gozar por amor, assim jogarei flores diante do
teu trono; não encontrarei uma só que não a desfolhe para ti... depois, jogando
flores, cantarei, (poder-se-ia chorar ao fazer uma tão alegre ação?), cantarei,
mesmo quando me for necessário colher minhas flores no meio dos espinhos e meu
canto ser tanto mais melodioso quanto mais os espinhos forem longos e picantes.
Jesus, para quê te servirão minhas flores e
meus cantos?... Ah! eu o sei muito bem, essa chuva perfumada, essas pétalas
frágeis e sem nenhum valor, esses cantos de amor do menor dos corações te
encantarão, sim, esses nadas te darão prazer, farão sorrir a Igreja Triunfante,
ela recolher minhas flores desfolhadas por amor e fazendo-as passar por tuas Divinas
Mãos, ó Jesus, essa Igreja do Céu, querendo brincar com sua filhinha, jogará
também ela, essas flores, que adquiriram, por teu toque divino, um valor
infinito, jogá-las-á sobre a Igreja padecente, a fim de apagar as chamas,
jogá-las-á sobre a Igreja militante, a fim de fazê-la conquistar a vitória!...
Ó meu Jesus! eu te amo, amo a Igreja, minha
Mãe, lembro-me de que: "O menor movimento de PURO AMOR é-lhe mais útil do
que todas as obras reunidas" (4), mas, o PURO AMOR está mesmo no meu
coração?... Não serão um sonho, uma loucura os meus imensos desejos?... Ah! se
‚ assim, Jesus, ilumina-me, tu o sabes, busco a verdade...se meus desejos são
temerários, fá-los desaparecer, pois esses desejos são para mim o maior dos
martírios... Contudo, eu o sinto, ó Jesus, após ter aspirado às mais elevadas
regiões do Amor, se me for necessário não as atingir um dia, terei
experimentado mais doçura no meu martírio, na minha loucura que experimentarei
no seio das alegrias da pátria, a menos que, por um milagre, tu me tires a
lembrança de minhas esperanças terrestres. Então, deixa-me gozar, durante meu
exílio, as delícias do amor... Deixa-me saborear as doces amarguras do meu
martírio...
Jesus, Jesus, se é tão doce o desejo de te
amar, como não o é o de possuir, de gozar do Amor?... Como uma alma tão
imperfeita como a minha, pode aspirar a possuir a plenitude do Amor?... Ó
Jesus, meu primeiro, meu único Amigo, tu, a quem amo unicamente, dize-me qual ‚
esse mistério?... Por que tu não reservas essas imensas aspirações às grandes
almas, às águias que planam nas alturas?... Eu, eu me considero como um fraco
passarinho coberto somente com uma leve penugem; não sou uma guia, dela tenho
apenas os olhos e o coração pois, malgrado minha extrema pequenez, ouso fixar o
Sol Divino, o Sol do Amor e meu coração sente nele todas as aspirações da
águia... O passarinho quisera voar para esse Sol brilhante, que encanta seus
olhos, quisera imitar as águias, seus irmãos, que ele vê se elevar até à
fornalha Divina da Santíssima Trindade... ah! tudo o que ele pode fazer é
levantar suas asinhas, mas levantar vôo, isso não está no seu pobre poder! Que
vai acontecer com ele? morrer de tristeza em se vendo tão impotente?... Oh!
não! o passarinho nem sequer vai se afligir. Com um abandono audacioso, ele
quer ficar contemplando seu Sol Divino; nada poderia atemorizá-lo, nem o vento
nem a chuva, e, se nuvens sombrias vêm esconder o Astro de Amor, o passarinho
não muda de lugar, ele sabe que além das nuvens seu Sol brilha sempre, que seu
brilho não poderia se eclipsar por um só instante. . às vezes, é verdade, o
coração do passarinho se encontra assaltado pela tempestade, parece-lhe não
crer que existe outra coisa a não ser as nuvens que o envolvem; é então, o
momento da alegria perfeita para o pobre e fraco pequeno ser. Que felicidade
para ele ficar l apesar de tudo, fixar a luz invisível que se oculta … sua
fé!!!... Jesus, até o presente, compreendo teu amor pelo passarinho, pois que
ele não se afasta de ti... mas eu o sei e tu o sabes também, muitas vezes, a
criaturinha imperfeita, mesmo ficando em seu lugar (isto é, sob os raios do
Sol), deixa-se distrair um pouco de sua única ocupação, pega um grãozinho à
direita e à esquerda, corre atrás de um vermezinho... depois, encontrando uma
pocinha d'água, molha suas penas ainda em formação, vê uma flor que lhe agrada,
então seu espiritozinho se ocupa com essa flor... enfim, não podendo planar com
as águias, o pobre passarinho se ocupa ainda com bagaletas da terra. Contudo,
após todos seus malfeitos, ao invés de ir se esconder em um canto para chorar
sua miséria e morrer de arrependimento, o passarinho se dirige para seu
Bem-Amado Sol, apresenta aos seus raios benfazejos suas asinhas molhadas, geme
como a andorinha e no seu doce canto ele confia, conta, em detalhes, suas
infidelidades, pensando, com seu temer rio abandono,conquistar assim mais
império, atrair mais plenamente o amor dAquele, que não veio chamar os justos
mas os pecadores... Se o Astro Adorado fica surdo aos gorjeios queixosos de sua
criaturinha, se ele continua velado... pois bem! a criaturinha fica molhada,
aceita ficar transida de frio e se alegra ainda com esse sofrimento, que,
entretanto, mereceu... Ó Jesus! como teu passarinho ‚ feliz em ser fraco e
pequeno, que seria dele se fosse grande?... Jamais teria a audácia de
comparecer na tua presença, de sonecar diante de ti...Sim, está aí ainda uma
fraqueza do passarinho, quando quer fixar o Sol Divino e as nuvens lhe impedem
de ver um só raio, malgrado seu fecham-se seus olhinhos, sua cabecinha se esconde
sob a asinha e o pobre pequeno ser adormece, acreditando sempre fixar seu Astro
Querido. Quando se acorda, não se desola, seu coraçãozinho fica em paz,
recomeça seu ofício de amor, invoca os Anjos e os Santos, que se elevam como
águias para a Fornalha devoradora, objeto de sua inveja e as águias, tendo pena
de seu irmãozinho, protegem-no, defendem-no e afugentam os abutres que queriam
devorá-lo. Os abutres, imagens dos demônios, o passarinho não os teme, ele não
está destinado a se tornar sua presa, mas a da águia, que ele contempla no seio
do Sol de Amor. Ó Verbo Divino, és tu quem, vindo … terra do exílio, quis
sofrer e morrer, a fim de atrair as almas até o seio da Fornalha Eterna da
Trindade Bem-aventurada; és tu quem,voltando … Luz inacessível que ser
doravante tua morada, és tu quem fica ainda no vale de lágrimas, escondido sob
a aparência de uma hóstia branca... águia Eterna, queres me alimentar com tua
divina substância, a mim, pobre pequeno ser, que voltaria ao nada, se teu
divino olhar não me desse a vida a cada instante... Ó Jesus! deixa-me,no
excesso de meu reconhecimento, deixa-me te dizer que teu amor vai até …
loucura... Como queres, diante dessa Loucura, que meu coração não se lance para
ti? Como minha confiança teria limites?... Ah! por ti, eu o sei, os Santos
fizeram também loucuras, fizeram grandes coisas, já que eram …guias... Jesus, sou muito pequena para fazer grandes
coisas...e minha própria loucura é esperar que teu Amor me aceite como vítima...
Minha loucura consiste em suplicar às águias, meus irmãos, que me obtenham o
favor de voar em direção ao Sol do Amor, com as próprias asas da águia
Divina...
Tanto tempo quanto quiseres, ó meu Bem-Amado,
teu passarinho ficar sem forças e sem asas, ficar sempre com os olhos fixos em
ti, ele quer ser fascinado por teu olhar divino, quer se tornar a presa de teu
Amor... Um dia, eu o espero, águia Adorada, virás buscar teu passarinho, e
subindo com ele … Fornalha do Amor, tu o mergulharás para a eternidade no
Abismo ardente dEsse Amor, ao qual ele se ofereceu como vítima.
Ó Jesus! que eu possa dizer a todas as almas
pequeninas quando tua condescendência é inefável...sinto que se, por
impossível, encontrasses uma alma mais fraca, menor do que a minha, terias o
prazer de cumulá-la com favores ainda maiores, se ela se abandonasse, com
inteira confiança, à tua misericórdia infinita. Mas, por que desejar comunicar
teus segredos de amor, ó Jesus, não foste tu somente que mos ensinaste e não
podes revelá-los a outros?... Sim, eu o sei, e te conjuro a fazê-lo, suplico-te
que abaixes teu olhar divino sobre um grande número de pequenas almas... Eu te
suplico que escolhas uma legião de vitimazinhas dignas de AMOR!...
(M B, 2v-5v)
NOTAS
(1) -Santa Teresinha se refere ao sonho
que tivera com a Madre Ana de Jesus, a fundadora do Carmelo na França. Nesse
sonho, nossa Santa se sentiu muito amada pela reverenda Madre e dela ouviu a
afirmação de que, Deus estava contentíssimo com ela.
(2) -Teresa se refere ao aniversário de
sua profissão religiosa, realizada aos 8 de setembro de 1890.
(3) -Lucas 16,9. Nossa citação está um
pouco diferente do texto teresiano, que segue a Vulgata e não traduz todo o
texto original.
(4) -São João da Cruz, Cântico
Espiritual. Explicação da estrofe XXIX.
23.SER UMA SANTA
Este é o conhecido texto do ascensor divino.
Aqui, Santa Teresinha enfrenta a questão crucial da santidade, ou seja, como o
homem, fraco e imperfeito, pode se aproximar dAquele que é o Santíssimo.
Nossa Santa não se preocupa muito, neste
caso, com a questão das obras, embora reconheça que são necessárias, uma vez
que amor se paga com amor, todavia, a grande mensagem teresiana é exatamente
que o homem, reconhecendo-se fraco e pequenino, ou seja, humilde, lance-se, com
toda confiança e completo abandono, nos braços de Deus.
Há, aqui, uma problemática teológica, ou
seja, como o homem pode se apropriar de Deus? Teresa não discute a questão
teológica; ela simplesmente propõe a solução do problema. Em uma palavra,
seguindo o evangelho, ela ensina que, o homem não pode desanimar diante da sua
fraqueza e pobreza, pelo contrário, deve aproveitar esses limites e fazer deles
um trampolim para a força e amor de Deus. Aliás, é a graça divina que salva; é
a misericórdia de Deus que nos santifica, por isso, o importante é agarrar-se a
Deus e caminhar com Ele. É evidente que isso requer uma opção e muito esforço
daquele que deseja sinceramente caminhar na santidade de Deus.
A senhora o sabe, minha Madre, sempre desejei
ser uma santa, mas ah! sempre constatei, quando me comparei aos santos, que há
entre eles e eu a mesma diferença que existe entre uma montanha, cujo cimo se
perde nos céus, e o obscuro grão de areia calcado sob os pés dos passantes; em
vez de me desanimar, disse para mim: O Bom Deus não poderia inspirar desejos irrealizáveis,
posso, pois, apesar da minha fraqueza, aspirar à santidade; crescer, é
impossível, devo me suportar tal qual eu sou com todas as minhas imperfeições;
mas vou procurar um meio para ir ao Céu por um caminhozinho bem direto, bem
curto, um caminhozinho todo novo. Estamos em um século de invenções, agora não
vale mais a pena subir os degraus de uma escada, na casa dos ricos um ascensor
a substitui vantajosamente. Quisera encontrar um ascensor para me elevar até
Jesus, pois sou pequena demais par subir a rude escada da perfeição. Então,
procurei nos livros santos a indicação do ascensor, objeto de meu desejo, e li
estas palavras saídas da boca da Sabedoria Eterna: "Se alguém é pequenino,
que venha a mim"(1). Então, vim, adivinhando que achara o que buscava e
querendo saber,ó meu Deus! o que faríeis ao pequenino que respondesse ao vosso
apelo, continuei minhas pesquisas e eis o que encontrei: -Como uma mãe acaricia
seu filho, assim eu vos consolarei, levar-vos-ei sobre o meu peito e vos
balançarei sobre meus joelhos! (2)Ah! jamais palavras mais ternas, mais
melodiosas vieram alegrar minha alma, o ascensor que deve me elevar até o Céu
são os vossos braços, ó Jesus! Por isso, não tenho necessidade de crescer, ao
contrário, é preciso que fique pequena, que me torne pequena cada vez mais. ó
meu Deus, passastes além da minha expectativa e eu quero cantar vossas
misericórdias."Vós me instruístes desde minha juventude e até o presente
anunciei vossas maravilhas, continuarei a publicá-las na mais avançada idade"(3).
Qual será para mim essa idade avançada? Parece-me que poderia ser agora, pois
2.000 anos não são, aos olhos do Senhor, mais do que 20 anos...do que um só
dia...Ah! não creia, Madre bem-amada, que sua filha deseja deixá-la... não
creia que ela julga ser uma graça maior morrer na aurora antes que no declínio
do dia. O que ela estima, o que ela deseja unicamente, é dar prazer a Jesus...
Agora, que Ele parece se aproximar dela para a atrair à morada de sua glória,
sua filha se alegra. Desde muito tempo, ela compreendeu que, o Bom Deus não tem
necessidade de ninguém (ainda menos dela do que dos outros) para fazer o bem
sobre a terra.
(M C, 2v-3v)
NOTAS
(1) -Provérbios 9,4. O texto original é
diferente. A idéia, porém, é bíblica.
(2) -Isaías, 46, 13 e 12. Também aqui , o
texto original é diferente. Teresa segue mais a tradução da Vulgata.
(3) -Salmo 70,17-18. A citação de Santa
Teresinha é, como sempre, livre e isso provavelmente por força dos textos dos
quais ela se servia.
24.O POEMA DA
PRIMEIRA CHAMADA
Em geral, teme-se a morte. Em geral,
procura-se fazer tudo para evitar a morte. Em geral, o homem comum,diante do
anúncio de sua morte em um futuro próximo, sente um abalo interior bem
profundo. É por tudo isso, que esse texto teresiano merece uma consideração à
parte. Teresa não é neurótica; não é uma desiludida; não é uma nervosa. Ela tem
paz; ela ama profundamente; ela vive a vida. Todavia, quando tem a primeira
hemoptise, quando sente que o Esposo adorado está se aproximando, alegra-se de
uma maneira incomum e suspira pelo doce encontro tão esperado e sonhado.
É, pois, um texto atual e digno de ser lido
com atenção, pois é o reflexo de uma alma de fé, para quem a morte é apenas o
momento esperado para o encontro tão suspirado com a realidade sonhada e amada,
que é a vida eterna na Casa do Pai; que é o encontro suspirado com o único e
verdadeiro amor da sua vida.
Para Teresa, morte e vida se confundem, ou
melhor, a morte é realmente o começo da verdadeira vida.
Ah! se a provação que sofro há um ano (1)
aparecesse aos olhares, que espanto!...
Madre bem-amada, a senhora conhece essa
provação; contudo vou lhe falar dela ainda, pois a considero uma grande graça,
que recebi no seu Priorado bendito.
No ano passado, o Bom Deus me concedeu a
consolação de observar a Quaresma em todo seu rigor(2); jamais me sentira tão
forte e essa força se manteve até à Páscoa. Entretanto,na Sexta-feira santa,
Jesus quis me dar a esperança de ir em breve vê-lo no Céu... Oh!como me é doce
essa lembrança!... Após ter ficado junto do Túmulo(3) até meia-noite, entrei na
nossa cela, mas apenas tivera o tempo de por minha cabeça no travesseiro que
senti como uma golfada que subia, subia fervendo até meus lábios. Não sabia o
que era, mas pensava que talvez fosse morrer e minha alma estava inundada de
alegria... Entretanto, como nossa lanterna estava apagada,disse-me que era
necessário esperar a manhã para me certificar de minha felicidade, pois me
parecia que era sangue,que vomitara.A manhã não se fez esperar por muito
tempo(4), ao despertar, pensei imediatamente que tinha algo alegre a saber e,
ao me aproximar da janela, pude constatar que não me enganara... Ah! minha alma
ficou plena de uma grande consolação, estava intimamente persuadida de que
Jesus, no dia aniversário de sua morte, queria me fazer ouvir um primeiro
apelo.Era como um doce e distante murmúrio, que me anunciava a chegada do
Esposo...
Foi com um fervor bem grande que assisti à
Prima e ao capítulo dos perdões(5). Tinha pressa de ver chegar minha vez a fim
de poder, ao lhe pedir perdão, confiar-lhe, minha Madre bem-amada, minha
esperança e minha felicidade; mas acrescentei que não sofria absolutamente(o
que era realmente verdade) e lhe supliquei, minha Madre, para não me dar nada
de particular. De fato, tive a consolação de passar o dia de Sexta-feira Santa
como o desejava.Jamais as austeridades do Carmelo me tinham parecido tão
deliciosas, a esperança de ir para ao Céu me transportava de alegria. Chegando
a noite desse dia bem-aventurado, foi preciso repousar,mas, como na noite
anterior, o bom Jesus me deu o mesmo sinal de que minha entrada na vida Eterna
não estava distante...Gozava, então, de uma fé tão viva, tão clara, que o
pensamento do Céu fazia toda a minha felicidade, não podia crer que houvesse
ímpios sem fé.Acreditava que eles falavam contra seu pensamento ao negar a
existência do Céu, do belo Céu onde o próprio Deus queria ser a recompensa
eterna deles. Nos dias tão alegres do tempo pascal, Jesus me fez sentir que há
verdadeiramente almas, que não têm a fé, que, por abuso das graças, perdem esse
precioso tesouro, fonte das únicas alegrias puras e verdadeiras. Ele permitiu
que minha alma fosse invadida pelas mais espessas trevas e que o pensamento do
Céu, tão doce para mim, não fosse mais que um motivo de combate e de
tormento...Essa provação não devia durar alguns dias, algumas semanas, não
devia extinguir-se senão na hora marcada pelo Bom Deus e... essa hora ainda não
chegou... Quisera poder exprimir o que sinto, mas ah! creio que é impossível. É
preciso ter viajado por esse túnel sombrio para compreender sua escuridão. Vou,
contudo, tentar explicá-lo com uma comparação.
Suponho que nasci em um país envolto por um
espesso nevoeiro, jamais contemplei o aspecto risonho da natureza, inundada,
transfigurada pelo sol brilhante; desde minha infância, é verdade, ouço falar
dessas maravilhas, sei que o país onde estou não é minha pátria, que há outro
ao qual devo incessantemente aspirar. Não é uma história inventada por um
habitante do triste país onde estou, é uma realidade certa, pois o Rei da
pátria de sol brilhante veio viver 33 anos no país das trevas; ah! as trevas
não compreenderam mesmo que esse Divino Rei era a luz do mundo...Mas, Senhor,
vossa filha compreendeu vossa divina luz, ela vos pede perdão pelos seus
irmãos, ela aceita comer, tanto tempo quanto vós quiserdes, o pão da dor e não
quer absolutamente se levantar dessa mesa plena de amargura , onde comem os
pobres pecadores, antes do dia que marcastes... Mas, também não pode ela dizer
em seu nome, em nome de seus irmãos: Tende piedade de nós, Senhor, porque somos
pobres pecadores?...(6) Oh! Senhor, despedi-nos justificados... Que todos
aqueles que não são de fato esclarecidos pelo luminoso facho da Fé, vejam-no
enfim luzir... ó Jesus, se é necessário que a mesa manchada por eles seja
purificada por uma alma que vos ama, quero mesmo, sozinha, comer nela o pão da
provação até quando quiserdes me introduzir no vosso luminoso reino. A única
graça que vos peço é de jamais vos ofender!...
(M C, 4v-6r)
NOTAS
(1) -Teresa se refere à provação da fé,
que começara na Páscoa de 1896. Essa provação da fé, tão bem descrita neste
texto, não deve ser interpretada como uma neurose diante da realidade da morte.
Não. Os místicos têm falado dessa provação como sendo o momento de uma
purificação, aqui na terra, para um amor mais alto e mais sublime em preparação
à grande e profunda união com Deus, iniciada já aqui neste mundo. S. João da
Cruz compara essas provações como noites da alma. Na verdade, Teresa, no final
de sua vida, já estava em alto grau de união mística com Deus.
(2) -Nesse tempo, as carmelitas faziam
apenas uma refeição, que era ao meio-dia e à noite comiam apenas um pouco de
pão com frutas cruas e uma bebida.
(3) -Trata-se do local onde ficava o
Santíssimo desde a Quinta-feira santa.As carmelitas passavam , em oração, ao
menos uma parte da noite.
(4) -O despertar era às cinco horas da
manhã.
(5) -A Santa se refere a um antigo
costume dos Carmelos, na França. Na Sexta-feira santa, a Madre Priora reunia um
capítulo e fazia uma alocução às irmãs sobre a caridade e, depois,pedia- lhes
perdão. Estas, por sua vez, iam diante da Priora, ajoelhavam-se e a abraçavam.
As irmãs pediam perdão entre si.
(6) -Lucas 18,13..
25. AMAR COMO DEUS
NOS AMOU
Os ensinamentos de Santa Teresinha são
diferentes dos ensinamentos que lemos em muitos livros, porque nossa Santa
parte da sua própria vida. Ela nos ensina, fazendo, ou melhor, dizendo como
ela, por primeiro, o fez. É, pois, uma experiência vivida e bem vivida.
Se Teresa de Lisieux ‚ a santa do amor,
evidentemente sua vida deve ter sido toda ela um ato de amor. Por isso, a
caridade, aqui, neste texto, é vista sob o prisma existencial e de uma maneira
humana e sem rodeios.Teresa não enfeita, nem faz simples exclamações poéticas.
Suas palavras são a expressão de sua vida simples e humana, vivida na base do
amor a Deus e aos homens.
Este ano, minha Madre querida, o bom Deus me
deu a graça de compreender o que ‚ a caridade; antes, eu a compreendia, é
verdade, mas de uma maneira imperfeita, não aprofundara esta palavra de Jesus:
"O segundo mandamento ‚ SEMELHANTE ao primeiro: tu amar s teu próximo
como a ti mesmo" (1). Aplicava-me, sobretudo, a amar a Deus e é, em o
amando, que compreendi que era preciso que meu amor não se traduzisse somente
por palavras, pois: "Não são aqueles que dizem: Senhor, Senhor! que entram
no reino dos Céus, mas os que fazem a vontade de Deus" (2). Jesus deu a
conhecer essa vontade muitas vezes, deveria dizer quase a cada página do seu
Evangelho; mas, na última ceia, quando Ele sabe que o coração de seus
discípulos arde com um amor mais ardente por Ele, que acaba de se dar a eles no
inefável mistério de sua Eucaristia, esse doce Salvador quer lhes dar um
mandamento novo. Ele lhes diz com inexprimível ternura: Eu vos dou um novo
mandamento, é que vos ameis reciprocamente, e que COMO EU VOS AMEI,AMAI-VOS UNS
AOS OUTROS. A marca pela qual todo o mundo saber que sois meus discípulos, é se
vos amardes reciprocamente (3). Como Jesus amou seus discípulos e por que os
amou? Ah! não eram suas qualidades naturais que podiam o atrair, havia entre
eles e Ele uma distância infinita. Ele era a ciência, a Sabedoria Eterna; eles
eram pobres pecadores, ignorantes e cheios de pensamentos terrestres. Contudo,
Jesus os chama seus amigos, seus irmãos. Quer vê-los reinar com Ele no reino de
seu Pai e para lhes abrir esse reino quer morrer em uma cruz, pois disse: Não
há maior amor do que dar a vida por aqueles que se ama (4). Madre bem-amada, meditando essas palavras de
Jesus, entendi quanto meu amor por minhas irmãs era imperfeito; vi que não as
amava como o Bom Deus as ama. Ah! compreendo agora que a caridade perfeita
consiste em suportar os defeitos dos outros, a não se admirar de modo nenhum de
suas fraquezas, a se edificar com os menores atos de virtude que se ver
praticar, mas sobretudo compreendi que, a caridade não deve absolutamente ficar
escondida no fundo do coração: Ninguém, disse Jesus, acende um lâmpada para
colocá-lo debaixo do alqueire, mas se a põe sobre o candelabro, a fim que
ilumine a TODOS que estão na casa (5), sem excetuar ninguém.
Quando o Senhor ordenara a seu povo para amar
seu próximo como a si mesmo, Ele ainda não viera à terra; por isso, sabendo bem
quanto se ama a si mesmo, não podia pedir a suas criaturas um amor maior para o
próximo. Mas, quando Jesus deu a seus apóstolos um mandamento novo, SEU PRÓPRIO
MANDAMENTO, como o diz mais adiante, não ‚ mais para amar o próximo como a si
mesmo que Ele fala, mas para amá-lo como Ele, Jesus, o amou, como o amar até à
consumação dos séculos.
Ah! Senhor, sei que não ordenais nada de
impossível, conheceis, melhor do que eu, minha fraqueza, minha imperfeição,
sabeis bem que jamais poderia amar minhas irmãs como as amais, se vós mesmo, ó
Jesus, não as amásseis ainda em mim. É porque queríeis me conceder essa graça,
que destes esse mandamento novo -Oh! como o amo, porque me dá a segurança de
que vossa vontade é de amar em mim todos os que me ordenais de amar!...
Sim, eu o sinto, quando sou caridosa, é Jesus
só quem age em mim; quanto mais estou unida a Ele, tanto mais amo todas minhas
irmãs. Quando quero aumentar em mim esse amor, quando sobretudo o demônio tenta
colocar diante dos olhos da alma os defeitos de tal ou tal irmã que me é menos
simpática, apresso-me a procurar suas virtudes, seus bons desejos, digo-me que,
se a vi cair uma vez, ela pode muito bem ter tido um grande número de vitórias
que esconde por humildade, e mesmo o que me parece uma fraqueza pode muito bem
ser, por causa da intenção, um ato de virtude.
.......................................
Há na comunidade uma irmã, que tem o talento
de me desagradar em todas as coisas, suas maneiras, suas palavras, seu caráter
me parecem muito desagradáveis. Contudo, é uma santa religiosa, que deve ser
muito agradável ao bom Deus, por isso não querendo ceder à antipatia natural
que experimentava, disse-me que a caridade não devia consistir em sentimentos,
mas nas obras; então me apliquei a fazer por essa irmã o que faria pela pessoa
que mais amo. Cada vez que a encontrava, rezava ao bom Deus por ela,
oferecendo-LHE todas suas virtudes e seus méritos. Sentia muito bem que isso
dava prazer a Jesus, pois não existe artista que não goste de receber louvores
a suas obras e Jesus, o Artista das almas, fica feliz quando não se para no
exterior, mas quando, penetrando até o santuário íntimo que Ele escolheu para
sua morada, admira-se sua beleza. Não me contentava em rezar muito pela irmã,
que me causava tantos combates, procurava prestar-lhe todos os serviços
possíveis e, quando tinha a tentação de lhe responder de uma maneira
desagradável, contentava-me de lhe fazer meu mais amável sorriso e procurava
mudar a conversa, pois está escrito na Imitação: Vale mais deixar cada um no
seu sentimento do que pôr-se a contestar (6).
Muitas vezes também, quando não estava na recreação (quero dizer durante
as horas de trabalho),tendo algumas relações de trabalho com essa irmã, quando
meus combates eram demasiado violentos, fugia como um desertor. Como ela
ignorava absolutamente o que sentia por ela, jamais supôs os motivos de minha
conduta e continua persuadida de que seu caráter me é agradável.Um dia, na
recreação, ela me disse, mais ou menos, estas palavras, com um ar muito
contente: "Queria me dizer, minha Irmã Teresa do Menino Jesus, o que a
atrai tanto para mim, cada vez que você me olha, eu a vejo sorrir?" Ah! o
que me atraía, era Jesus escondido no fundo de sua alma... Jesus que torna doce
o que há de mais amargo... Respondi-lhe que sorria porque estava contente por
vê-la (bem entendido, não acrescentei que era do ponto de vista espiritual).
Minha Madre bem-amada, eu lho disse, meu
último meio de não se vencida nos combates, é a deserção; eu já empregava esse
meio durante meu noviciado, ele sempre me saiu perfeitamente bem.
............................................
Notei (e ‚ muito natural) que, as irmãs mais
santas são as mais amadas, busca-se sua conversação, presta-lhes serviços sem
que ela os peça, enfim, essas almas capazes de suportar faltas de atenção, de
delicadezas, vêem-se cercadas da afeição de todas. Pode-se aplicar-lhes esta
palavras de nosso Pai São João da Cruz: Todos os bens me foram dados, quando
não os procurei mais por amor próprio (7).
As almas imperfeitas, pelo contrário, não são procuradas, sem dúvida,
procede-se com elas nos limites da polidez religiosa, mas temendo, talvez, de
lhes dizer algumas palavras pouco amáveis, evita-se a sua companhia. - Dizendo
almas imperfeitas, não quero falar somente das imperfeições espirituais, já que
as mais santas só serão perfeitas no Céu, quero falar da falta de juízo, de
educação, da susceptibilidade de certos caracteres, coisas que não tornam a
vida muito agradável. Sei bem que essas enfermidades morais são crônicas, não
há esperança de cura, mas sei, também, que minha Madre não deixaria de tratar
de mim, de tentar de me aliviar, se ficasse doente toda a minha vida. Eis a
conclusão que tiro: devo procurar, no recreio, nas licenças, a companhia das
irmãs, que me são menos agradáveis, fazer a vez do bom Samaritano junto dessas
almas feridas. Uma palavra, um sorriso amável, bastam, muitas vezes, para
desanuviar uma alma triste; mas, não é absolutamente para atingir esse objetivo
que quero praticar a caridade, porque sei que, em breve, estaria desencorajada:
uma palavra, que teria dito com a melhor intenção será, talvez, interpretada
totalmente ao contrário. Por isso, para não perder meu tempo, quero ser amável
com todo mundo (e, particularmente, com as irmãs menos amáveis) para alegrar
Jesus e responder ao conselho que Ele dá no Evangelho com estes termos, mais ou
menos: "Quando fizerdes uma festa, não convideis vossos parentes e vossos
amigos, para que não vos convidem por sua vez e que assim tenhais recebido
vossa recompensa; mas convidai os pobres, os coxos, os paralíticos e ficareis
felizes porque eles não poderão vos retribuir, pois vosso Pai, que vê no
segredo, vos recompensará (8).
Lembro-me de um ato de caridade, que o Bom
Deus me inspirou a fazer, quando era noviça, era pouca coisa, contudo nosso Pai
que vê no segredo,que olha mais a intenção do que a grandeza da ação, já me
recompensou, sem esperar pela outra vida. Era o tempo em que a Irmã São Pedro
ia ainda ao coro e ao refeitório. Durante a oração da noite, ela ficava diante
de mim: 10 minutos antes das 6 horas, era necessário que uma irmã, saísse para
conduzi-la ao refeitório, pois as enfermeiras tinham, então, doentes demais
para poderem vir buscá-la. Custava-me muito me propor para fazer esse pequeno
serviço, pois sabia que não era fácil contentar essa pobre irmã São Pedro , que
sofria tanto que não gostava de mudar de condutora. Contudo, não queria perder
uma tão bela ocasião para exercer a caridade, lembrando-me que Jesus dissera: O
que fizerdes ao menor dos meus ‚ a mim que tereis feito (9).Ofereci-me, pois, bem
humildemente, para conduzi-la: não foi sem dificuldade que consegui fazer
aceitar meus serviços! Enfim, pus-me … obra e tinha tanta boa vontade que me
sai perfeitamente bem.
Cada tarde, quando via minha Irmã São Pedro
balançar sua ampulheta, sabia que isso queria dizer: partamos! É incrível como
me custava sair, sobretudo no início; contudo o fazia imediatamente, e,depois,
começava todo um cerimonial. Era necessário remover e puxar o banco de uma
certa maneira, sobretudo não se apressar, em seguida começava o passeio.
Tratava-se de seguir a pobre enferma sustentando-a pela cintura, fazia-o com a
maior doçura que me era possível; mas se, por infelicidade, ela dava um passo
em falso, logo lhe parecia que eu a sustentava mal e que ela ia cair.
-"Ah! meu Deus! Você vai depressa demais, vou me quebrar". Se tentava
ir ainda mais docemente -"Mas, siga-me! não sinto sua mão, você me largou,
vou cair; ah! bem que dissera que você era demasiado jovem para me
conduzir". Enfim, chegávamos, sem acidente, ao refeitório; aí vinham
outras dificuldades, tratava-se de fazer que a Irmã São Pedro se assentasse e
de fazê-lo acertadamente para não feri-la, em seguida, era necessário levantar
suas mangas (ainda de uma certa maneira), depois, estava livre para ir-me. Com
suas pobres mãos estropiadas, ela arranjava seu pão na sua tigela, como podia.
Logo me apercebi disso e, cada tarde, só a deixava depois de ter lhe prestado
ainda esse pequeno serviço. Como ela não mo pedira, ficou muito sensibilizada
com minha atenção e foi por esse meio, que não procurara expressamente, que
ganhei inteiramente suas boas graças e, sobretudo (soube-o mais tarde) porque,
após ter cortado seu pão, dava-lhe, antes de partir, o meu mais belo sorriso.
Minha Madre bem-amada, talvez a senhora
esteja admirada porque eu lhe escrevo sobre esse pequeno ato de caridade já
passado h tanto tempo. Ah! se o faço é porque sinto que me é preciso cantar,
por causa dele, as misericórdias do Senhor. Ele se dignou me deixar a
lembrança, como um perfume que me leva a praticar a caridade. Recordo, às
vezes, certos detalhes, que são para minha alma como uma brisa primaveril. Eis
aqui um que se apresenta … minha memória: Numa tarde de inverno, realizava,
como de costume, meu oficiozinho, fazia frio, era quase noite... de repente,
ouço bem distante o som harmonioso de um instrumento musical, então me
representei um salão bem iluminado, brilhando com adornos dourados, jovens
elegantemente vestidas trocavam cumprimentos e delicadezas mundanas; depois,
meu olhar se voltou para a pobre doente que eu sustentava; ao invés de uma
melodia eu ouvia, de vez em quando, seus gemidos queixosos, no lugar dos
dourados, via os tijolos de nosso claustro austero apenas iluminado por uma
fraca claridade. Não posso exprimir o que se passou na minha alma, o que sei é
que o Senhor a iluminou com raios da verdade, que ultrapassaram de tal modo o
brilho tenebroso das festas da terra, que não podia crer na minha felicidade...
Ah! para gozar mil anos das festas mundanas, não teria dado os dez minutos empregados
a cumprir meu humilde ofício de caridade... Se já no sofrimento, no meio do
combate, pode-se gozar por um instante de uma felicidade, que ultrapassa todas
as felicidades da terra, ao pensar que o bom Deus nos retirou do mundo, como
ser no Céu, quando virmos, no seio de uma alegria e de um repouso eternos, a
graça inefável que o Senhor nos concedeu em nos escolhendo para habitar na sua
casa, verdadeiro pórtico dos Céus?...
Não foi sempre com esses transportes de
alegria que tenho praticado a caridade, mas no início de minha vida religiosa,
Jesus quis me fazer sentir como é doce vê-lo na alma de suas esposas; por isso,
quando conduzia minha Irmã São Pedro, fazia-o com tanto amor que me teria sido
impossível de fazer melhor se devesse conduzir o próprio Jesus. A prática da
caridade não me foi sempre doce, dizia-lo há pouco, minha Madre querida; para
lhe provar, vou lhe contar certos pequenos combates, que certamente vos farão
sorrir. Durante muito tempo, na oração da tarde, foi colocada diante de uma irmã,
que tinha uma curiosa mania, e penso...muitas luzes, pois ela se servia
raramente de um livro. Eis como me apercebia: Assim que essa irmã chegava,
começava a fazer um estranho barulhozinho, que se parecia com o que se faria
esfregando-se duas conchas uma contra a outra. Somente eu me apercebia disso,
pois tenho o ouvido extremamente fino ( um pouco demais, às vezes).
Dizer-lhe,
minha Madre, quanto esse barulho me cansava, é coisa impossível: tinha muita
vontade de virar a cabeça e de olhar a culpada que, certamente, não se
apercebia de seu tique, era o único meio de despertá-lo; mas, no fundo do
coração, sentia que valia mais sofrer isso por amor de do bom Deus e para não
causar sofrimento irmã. Ficava, pois, tranqüila, tentava me unir ao bom Deus,
esquecer-me do barulhozinho... tudo era inútil, sentia o suor que me inundava e
era obrigada a fazer simplesmente uma oração de sofrimento, mas embora
sofrendo, procurava o meio de não fazê-lo com aborrecimento, mas com alegria e
paz, pelo menos no íntimo da alma. Então, tentava gostar do barulhozinho tão
desagradável; ao invés de procurar não ouvi-lo (coisa impossível) punha minha
atenção em escutá-lo bem, como se ele fosse um maravilhoso concerto e toda
minha oração (que não era a de quietude)se passava a oferecer esse concerto a
Jesus.
Outra vez, estava lavando roupa diante de uma
irmã, que me lançava água suja no rosto cada vez que levantava os lenços na sua
lavanderia; meu primeiro movimento foi o de recuar enxugando-me o rosto, a fim
de mostrar à irmã, que me aspergia, que ela me prestava um serviço ficando
tranqüila, mas logo pensei que era bem tola ao recusar os tesouros que me eram
dados tão generosamente e tomei o cuidado para não transparecer meu combate.
Fiz todos meus esforços para desejar receber muita água suja, de tal sorte que,
ao final, tomara verdadeiramente gosto por esse novo gênero de aspersão e
prometi a mim mesma voltar a esse lugar feliz, onde se recebiam tantos
tesouros.
Madre bem-amada, a senhora está vendo que sou
uma alminha, que só pode oferecer ao bom Deus coisas muitas pequenas, ainda me
acontece, muitas vezes, de deixar escapar esses pequenos sacrifícios, que dão
tanta paz à alma; isso não me desencoraja, suporto ter um pouco menos de paz e
procuro ser mais vigilante na próxima vez.
NOTAS
(1) -Mateus 22,39
(2) -Mateus 7,21
(3) -João 13,34-35
(4) -João 15,13
(5) -Mateus 5,15
(6) -Imitação de Cristo, L. III, cap.V. 3
(7) -Sentença que está na representação
simbólica do Monte da
Perfeição, desenhado por São João da Cruz.
(8) -Lucas 14,12-14 e Mateus 6,4
(9) -Mateus 25,40
26.AMOR E POBREZA
O amor verdadeiro exige do amante um profundo
despojamento. O amante de verdade não pode se apegar a nada, que venha
atrapalhar a felicidade do amado. Eis por que o verdadeiro amor, a caridade portanto,
está ligado intimamente à pobreza em espírito, de que fala o evangelho. Com
efeito, o amante sabe que o amado pode dispor, a qualquer momento, de tudo que
ele possui e isso significa que o espírito do amante está sempre disposto a se
despojar do que possui para a paz e a felicidade do amado
Foi assim que Santa Teresinha entendeu a
pobreza em espírito evangélica e foi assim que viveu o seu amor pelas irmãs,
com as quais conviveu.
Lembrando-me
de que a Caridade cobre a multidão de pecados(1), uso desta mina fecunda, que
Jesus abriu diante de mim. No Evangelho, o Senhor explica em que consiste: seu
mandamento novo. Ele diz em São Mateus: "Ouvistes o que foi dito: amarás
teu amigo e odiarás teu inimigo. Eu,porém vos digo:amai os vossos inimigos e
orai pelos que vos perseguem"(2). Sem dúvida, no Carmelo não se encontram
inimigos, mas, enfim, há as simpatias, sente-se atraída para tal irmã, enquanto
outra vos levaria a fazer uma longa volta para evitar que a encontre, assim,
sem mesmo o saber, ela se torna um sujeito de perseguição. Pois bem! Jesus me
diz que é preciso amar essa irmã, que é necessário rezar por ela, mesmo quando
sua conduta levar-me-ia a acreditar que não me ama: "Se amais os que vos
amam, que graça alcançais? Pois até mesmo os pecadores amam aqueles que os
amam"(3). E não é bastante amar, é preciso prová-lo. Naturalmente fica-se
feliz ao dar um presente a um amigo, gosta-se sobretudo de fazer surpresas, mas
isso, isso não é absolutamente a caridade,pois os pecadores o fazem também. Eis
o que Jesus me ensina ainda: "Dá a quem te pedir e não reclames de quem
tomar o que teu" (4). Dar a todas aqueles que pedem é menos doce do que
oferecer-se a si mesmo pelo movimento do coração; ainda, quando se pede
gentilmente não custa dar, mas se, por acaso, não se usa de palavras bastante
delicadas, logo a alma se revolta se não está firme na caridade.Encontra mil
razões para recusar o que se pede e só quando se convenceu a pedinte de sua
indelicadeza é que dá enfim por graça o que reclama, ou lhe presta um serviço ,
que teria exigido vinte vezes menos tempo para ser feito do que foi necessário
para fazer prevalecer direitos imaginários. Se é difícil dar a qualquer um que
pede, é-o muito mais deixar pegar o lhe pertence sem reclamá-lo.; ó minha
Madre, digo que é difícil, deveria antes dizer que parece difícil, pois O jugo
do Senhor é suave e leve(5). quando se o aceita, sente-se logo sua doçura e se
exclama com o Salmista: "Corri no caminho dos vossos mandamentos desde que
dilatastes meu coração"(6). Só a caridade pode dilatar meu coração. ó
Jesus, desde que essa doce flama o consume, corro com alegria no caminho do
vosso mandamento NOVO... Quero correr nele até o dia bem-aventurado em que,
unindo-me ao cortejo virginal, puder vos seguir nos espaços infinitos, cantando
vosso cântico NOVO, que deve ser o do Amor.
Dizia: Jesus não quer que eu reclame o que me
pertence; isso deveria me parecer fácil e natural, pois que não tenho nada. Os
bens da terra, eu os renunciei pelo voto de pobreza, não tenho pois o direito
de lamentar se me tiram uma coisa que me pertence, devo, pelo contrário,
alegrar-me quando me acontece sentir a pobreza. Outrora, parecia-me que não me
apegava a nada, mas desde que entendi as palavras de Jesus, vejo que na prática
sou muito imperfeita. Por exemplo, no ofício de pintura nada me pertence, sei-o
muito bem; mas se, pondo-me à obra, encontro pincéis e tintas em desordem, se
um régua ou um canivete desapareceu, a paciência quase vai embora e devo
segurar minha coragem com as duas mãos para não reclamar com amargura os
objetos que me faltam. É preciso, muitas vezes, pedir coisas indispensáveis,
mas ao fazê-lo com humildade não se peca contra o mandamento de Jesus; ao
contrário, age-se como os pobres que estendem a mão, a fim de receber o que lhes
é necessário, se eles são repelidos, não se admiram, ninguém lhes deve nada.
Ah! que paz inunda a alma, quando ela se eleva acima dos sentimentos da
natureza... Não, não há alegria comparável àquela de que goza o verdadeiro
pobre em espírito. Se pede, com desprendimento, uma coisa necessária e quando
não somente aquilo lhe é recusado,mas ainda se tenta tirar-lhe o que tem, segue
o conselho de Jesus: Abandonai mesmo vossa túnica àquele que quer pleitear para
ter vossa veste...(7)
Abandonar
sua túnica, é, parece-me, renunciar a seus últimos desejos, é se considerar
como a serva, a escrava dos outros. Quando se deixa sua túnica, é mais fácil
caminhar, correr, por isso Jesus acrescenta: E se alguém te obriga a andar mil
passos, caminha com ele dois mil"(8). Assim não é bastante dar a qualquer
um que pede, é preciso adiantar-se aos desejos, apresentar o aspecto de muito
penhorado e de muito honrado para prestar serviço e se tiram uma coisa do meu
uso, não devo ter o ar de lamentação, mas, ao contrário, parecer feliz por
ficar livre dela.Minha Madre querida, estou bem longe de praticar o que
compreendo e, contudo, só o desejo que tenho me dá a paz.
NOTAS
(1) -Prov.10,12. O texto original diz:
"o amor cobre todas as ofensas".
(2) -Mateus 5,43-44
(3) -Lucas 6,32
(4) -Lucas 6,30
(5) -Mateus 11,30
(6) -Salmo 119,32
(7) -Mateus 5,40
(8) -Mateus 5,40
27.O PINCEL DE
DEUS
O que realmente opera na pessoa é a graça de
Deus. A Trindade, por um misterioso processo de amor trabalha na alma de cada
um de nós, transformando-nos e santificando-nos. Somos, pois, resultado e
produto da graça, que supõe, é claro, nossa colaboração.
Na verdade, nós apenas aderimos e
colaboramos, mas o fruto da santificação nas pessoas provém diretamente de
Deus. Em suma, somos apenas instrumentos no processo transformador dos homens.
Foi isso que Teresinha entendeu e procurou nos explicar com o texto seguinte.
Por sermos pincéis nas mãos de Deus, não
podemos fazer o que queremos, nem podemos tentar desfazer o que o Espírito de
Deus quer realizar com uma pessoa. Somos pincéis de Deus e, por isso, devemos
nos contentar em ser o que somos e não querer passar dos nossos limites, nem
tão pouco querer nos eximir da nossa participação. Somos instrumentos de Deus.
Nada mais do que instrumentos. Mas, devemos fazer tudo para sermos bons
instrumentos, ótimos pincéis nas mãos de Deus.
Madre bem-amada, escrevia ontem que, os bens
da terra não me pertencendo, não deveria achar difícil jamais reclamá-los se
algumas vezes mos tiravam. Os bens do Céu não me pertencem também, eles me são
emprestados pelo Bom Deus, que pode mos retirar sem que tenha o direito de
lamentar.Contudo, os bens que vêm diretamente do bom Deus, os impulsos da
inteligência e do coração, os pensamentos profundos, tudo isso forma uma riqueza,
na qual ninguém tem o direito de tocar... Por exemplo, se, durante a licença,
diz-se a uma irmã alguma luz recebida durante a oração e, pouco tempo depois,
essa irmã, falando com outra, comunica-lhe, como se ela mesma o tivesse pensado
o que lhe tinha sido confiado,parece que ela toma o que não é seu. Ou então, no
recreio diz-se, baixinho, a sua companheira uma palavra cheia de graça e
proposital; se ela a repete bem alto sem dar a conhecer a fonte donde veio,
isso parece também um roubo à proprietária que não reclama, mas que queria
muito bem fazê-lo e aproveitará da primeira ocasião para fazer
saber,finamente,que se serviram de seus pensamentos.
Minha Madre, não poderia lhe explicar tão bem
esses tristes sentimentos naturais, se não os tivesse sentido no meu coração e
gostaria de me alimentar da doce ilusão que eles só visitaram o meu, se a
senhora não tivesse me ordenado escutar as tentações de vossas queridas
noviçaszinhas.Aprendi muito cumprindo a missão que me confiou, sobretudo me vi
forçada a praticar o que ensinava aos outros; assim, agora, posso dizê-lo,
Jesus me concedeu a graça de não ser mais apegada aos bens do espírito e do
coração do que àqueles da terra. Se me acontece de pensar ou dizer uma coisa,
que agrada às irmãs, acho bem natural que elas se sirvam dela como de um bem
próprio. Esse pensamento pertence ao Espírito Santo e não a mim, pois que São
Paulo diz que, não podemos, sem esse Espírito de Amor,dar o nome de
"Pai" ao nosso Pai, que está nos Céus.Ele é,pois, bem livre para se
servir de mim para dar um bom pensamento a uma alma; se acreditasse que esse
pensamento me pertence, seria como "O asno levando as relíquias", que
acreditava que, as homenagens prestadas aos Santos se endereçavam a ele.
Não menosprezo os pensamentos profundos que
alimentam a alma e a unem a Deus, mas já faz muito tempo que compreendi que,
não é preciso se apoiar sobre eles e fazer consistir a perfeição em receber
muitas luzes. Os mais belos pensamentos não são nada sem as obras; é verdade
que as outras podem tirar muito proveito deles, se humilham e testemunham ao
bom Deus o seu reconhecimento porque Ele lhes permite participar do festim de
uma alma, a qual lhe apraz enriquecer com suas graças,mas se esse alma se
compraz nos seus belos pensamentos e faz a oração do fariseu, torna-se
semelhante a uma pessoa morrendo de fome diante de uma mesa bem guarnecida,
enquanto todos seus convidados encontram aí abundante alimentação e,às vezes,
lançam um olhar de inveja sobre o personagem possuidor de tantos bens. Ah! como
realmente só o Bom Deus conhece o fundo dos corações...como as criaturas têm
pensamentos curtos!... Quando vêem uma alma mais esclarecida do que as
outras,logo concluem que Jesus as ama menos que aquela alma e que elas não são
chamadas à mesma perfeição. -Desde quando o Senhor não tem mais o direito de se
servir de uma de suas criaturas para dispensar às almas ,que ama, o alimento
que lhes é necessário? No tempo de Faraó, o Senhor tinha ainda esse direito,
pois na Escritura diz a esse monarca: "Elevei-vos, expressamente, para
fazer a brilhar em vós MEU PODER, a fim de que se anuncie meu nome por toda a
terra"(1). Os séculos se sucederam desde que o Altíssimo pronunciou essas
palavras e desde então sua conduta não mudou, sempre se serviu de suas criaturas
como de instrumentos para fazer sua obra nas almas.
Se a tela pintada por um artista pudesse
pensar e falar, certamente não se lamentaria de ser incessantemente tocada e
retocada por um pincel e não invejaria, de modo nenhum, a sorte desse
instrumento, pois saberia que não é ao pincel mas ao artista que a faz, que
deve a beleza de que é revestida. O pincel, por seu turno, não poderia se
gloriar da obra-prima feita por ele, sabe que os artistas não são embaraçados,
que brincam das dificuldades e se comprazem em escolher, por vezes,
instrumentos fracos e defeituosos...
Minha Madre bem-amada, sou um pincelzinho que
Jesus escolheu para pintar sua imagem nas almas, que a senhora me confiou. Um
artista não se serve apenas de um pincel, são-lhe necessários pelo menos dois;
o primeiro é o mais til, é com ele que dá as tintas gerais, que cobre
completamente a tela em pouco tempo, o outro, menor, serve-lhe para os
detalhes...eu, eu sou o pequenino(pincel), do qual Ele se digna se servir, em
seguida, para os menores detalhes.(2)
(M C, 19r-20v)
NOTAS
(1) -Êxodo 9,16
(2) -Teresa se ocupou das noviças a
partir de fevereiro de 1893 até sua morte.
28.O SANTUÁRIO
HUMANO
A direção espiritual sempre foi considerada
muito importante na espiritualidade cristã. Um irmão ajudando a outro,
dando-lhe sua experiência e orientando-o nos caminhos do Espírito Santo é já
uma tradição profundamente cristã e universalmente aceita em toda a Igreja.
Essa direção espiritual, porém, tem suas exigências e suas dificuldades, além
dos maravilhosos benefícios que produz.
No texto que segue, nossa Santa, com
admirável luz espiritual e profunda psicologia, dá-nos lições práticas e
vividas sobre a direção espiritual. Ninguém pode deixar de admirar como uma
jovem tenha conseguido tanta luz na direção das suas discípulas. Com efeito,
suas mensagens são reais, psicológicas, existenciais e profundamente
impregnadas de Deus.
Quando me foi dado entrar no santuário das
almas (1), vi imediatamente que a tarefa estava acima das minhas forças, então
me coloquei nos braços do bom Deus como uma criancinha e, escondendo meu rosto
nos seus cabelos, disse-Lhe: Senhor, sou pequena demais para alimentar vossas
filhas; se quiserdes dar-lhes por mim o que convém a cada uma, enchei minha
mãozinha e sem deixar vossos braços, sem virar a cabeça, darei vossos tesouros
à alma que vier me pedir seu alimento. Se ela a achar conforme seu gosto,
saberei que não é a mim mas a vós que ela o deve; ao contrário, se ela se
lamenta e acha amargo o que lhe apresento, minha paz não ficará perturbada,
tentarei persuadi-la que esse alimento vem de vós e tomarei cuidado para não
procurar outro para ela.
Minha Madre, depois que compreendi que me é
impossível fazer alguma coisa por mim mesma, a tarefa que a senhora me impôs
não me pareceu mais difícil, senti que a única coisa necessária era unir-me
cada vez mais a Jesus e que o resto me seria dado por acréscimo. De fato,
jamais minha esperança foi enganada, o Bom Deus se dignou encher minha mãozinha
tantas vezes quantas fossem necessário para alimentar a alma de minhas irmãs.
Confesso-lhe, Madre bem-amada, se eu me tivesse apoiado o menos possível sobre
minhas forças, teria logo lhe entregado as armas...De longe tudo parece róseo
fazer o bem às almas, fazê-las amar mais a Deus, modelá-las segundo suas óticas
e seus pensamentos pessoais. De perto, é tudo o contrário, a rosa
desapareceu...sente-se que fazer o bem é coisa tão impossível, sem o socorro do
bom Deus, quanto fazer brilhar o sol durante a noite... Sente-se que é
absolutamente necessário esquecer seus gostos, suas concepções pessoais e guiar
as almas pelo caminho que Jesus lhes traçou, sem tentar fazê-las caminhar pelo
seu próprio caminho. Mas, não é ainda o mais difícil; o que me custa acima de
tudo, é observar as faltas,as mais leves imperfeições e lhes travar uma guerra
mortal. Ia dizer: infelizmente para mim! ( mas não, seria fraqueza), digo pois:
felizmente para minhas irmãs, desde quando me coloquei nos braços de Jesus, sou
como a sentinela observando o inimigo da mais alta torre de um castelo
fortificado.Nada escapa a meus olhares; às vezes fico admirada de ver tão claro
e acho o profeta Jonas-+ muito desculpável por ter fugido ao invés de ir
anunciar a ruína de Nínive. Preferiria mil vezes receber repreensões a fazê-las
aos outros, mas sinto que é muito necessário que isso me seja um
sofrimento,pois, quando se age pela natureza, é impossível que a alma à qual se
quer descobrir suas faltas, compreenda seus erros, ela só vê uma coisa: a irmã
encarregada de me dirigir está zangada e tudo recai sobre mim, que estou cheia,
contudo, das melhores intenções
Sei que vossos cordeirinhos me acham severa.
Se lessem estas linhas, diriam que não parece que me custa absolutamente correr
atrás deles, falar-lhes com um tom severo, mostrando-lhes seu belo velo
manchado, ou então levar-lhes algum leve floco de lã, que deixaram rasgar com
os espinhos do caminho. Os cordeirinhos podem dizer tudo que quiserem; no
fundo, sentem que os amo com um verdadeiro amor, que jamais imitarei o
mercenário que, ao ver o lobo vir, deixa o rebanho e foge(2). Estou pronta a
dar minha vida por eles, mas minha afeição é tão pura que não desejo que a
conheçam. Jamais, com a graça de Jesus, tentei atrair para mim seus corações,
compreendi que minha missão era de conduzi-los a Deus e fazer-lhes compreender
que, aqui na terra, a senhora é, minha Madre, o Jesus visível que eles devem
amar e respeitar.
Eu lhe disse, Madre querida, que instruindo
os outros, aprendi muito. Primeiramente, vi que todas as almas têm, mais ou
menos, os mesmos combates, mas que elas são, por outro lado, tão diferentes que
não tenho dificuldade em compreender o que dizia o Padre Pichon: "Há, na
verdade, mais diferença entre as almas do que existe entre os rostos". Por
isso, é impossível agir com todas da mesma maneira. Com algumas almas, sinto
que é preciso fazer-me pequena, não temer mesmo de me humilhar, confessando
meus combates, meus defeitos; vendo que tenho as mesmas fraquezas que elas,
minhas irmãzinhas me confessam , por sua vez, as faltas que se reprovam e se
alegram que as compreenda por experiência. Com outras, vi que é preciso, ao
contrário, para lhes fazer o bem, ter muita firmeza e jamais voltar sobre uma
coisa dita.Abaixar-se não seria, então, humildade, mas fraqueza. O bom Deus me
deu a graça de não temer a guerra, é preciso que cumpra meu dever a qualquer
preço. Mais de uma vez,ouvi isto:-"Se a senhora quer obter alguma coisa de
mim, é preciso me pegar pela doçura; pela força, não terá nada".Eu sei que
ninguém é bom juiz na sua própria causa e que uma criança, à qual o médico faz
suportar uma dolorosa operação, não deixará de dar altos gritos e de dizer que
o remédio é pior do que o mal; contudo, se ele se cura alguns dias depois, é
bem feliz de poder brincar e correr. É a mesma coisa com as almas, logo eles
reconhecem que um pouco de amargura é, por vezes, preferível ao amar e não
temem confessá-lo. Algumas vezes, não posso deixar de sorrir interiormente ao
ver que mudança se opera de um dia para outro, é feérico... VÊm me dizer: -"A
senhora tinha razão, ontem, de ser severa, no começo eu me revoltei, depois me
lembrei de tudo e vi que a senhora era muito justa...Escute: ao sair, pensava
que estava tudo acabado, dizia-me: "Vou encontrar nossa Madre e lhe dizer
que não irei mais falar com minha irmã Teresa do Menino Jesus". Ma senti
que era o demônio que me inspirava isso e, depois, pareceu-me que a senhora
rezava por mim, então fiquei tranqüila e a luz começou a brilhar imediatamente
e é por isso que volto". A conversação se trava bem depressa; eu fico
muito feliz em poder seguir a inclinação do meu coração não servindo nenhuma
iguaria amarga. Sim, mas...percebo logo que não é preciso avançar demais,uma
palavra poderia destruir o belo edifício construído com lágrimas. Se tenho a
infelicidade de dizer uma palavra, que parece atenuar o que disse na véspera,
vejo minha irmãzinha tentar se agarrar aos ramos, então faço, interiormente,
uma oraçãozinha e a verdade triunfa sempre. Ah! é a oração e o sacrifício que
formam toda a minha força, são as armas invencíveis que Jesus me deu, elas
podem, muito mais do que as palavras, tocar as almas, já fiz muitas vezes essa
experiência.
(M C,22r-24v)
NOTAS
(1) -Como já dissemos, Santa Teresinha se
ocupou com as noviças desde fevereiro de 1893 até sua morte.
(2) -João 10,12.
29.HUMILHAÇÃO
Diante de tudo que é Deus, o homem se sente
pequeno e impotente. Humilha-se, então, diante da verdadeira e grande
Realidade. Isso é o que chamamos de humildade, que, como disse santa Teresa de
Ávila, é a verdade.
Há momentos na nossa vida, porém, em que essa
humildade é posta à prova, isto é, quando alguém nos provoca menosprezando-nos,
ou desprezando-nos, ou relegando-nos, ou nos esquecendo ou tomando outra
qualquer maneira de nos diminuir perante as outras realidades. Isso é o que
chamamos de humilhação.
A humildade vem de nós mesmos. É ação
subjetivamente produzida, embora, é claro, suponha a graça divina. A humilhação
parte dos outros e supõe a humildade e para ser aproveitada pela humildade
requer, é evidente, a graça divina.
Teresinha, aqui, fala-nos da humilhação na
sua vida e nos mostra como ela aproveitou de pequenas coisas para, mediante a
humildade, provar o seu amor.
Não posso dizer que Jesus me fez caminhar,
exteriormente, pela via das humilhações. Ele se contenta em me humilhar no
fundo da minha alma; aos olhos das criaturas tudo me sai bem sucedido. sigo o
caminho das honras, tanto quanto isso é possível na vida religiosa(1).
Compreendo que não é por mim, mas para os outros, que é preciso que caminhe por
essa via , que parece tão perigosa. Com efeito, se eu passasse aos olhos da
comunidade como uma religiosa cheia de defeitos, incapaz, sem inteligência nem
discernimento, ser-lhe-ia impossível, minha Madre, ser ajudada por mim. Eis por
que o Bom Deus lançou um véu sobre todos meus defeitos interiores e exteriores.
Esse véu, por vezes, traz-me alguns cumprimentos da parte das noviças, sinto
que elas não o fazem por adulação, mas que são a expressão de seus sentimentos
ingênuos; verdadeiramente isso não poderia me inspirar a vaidade, pois tenho,
sem cessar, presente no meu pensamento, a lembrança daquilo que sou.
Entretanto, algumas vezes, vem-me um desejo bem grande de ouvir outra coisa que
não seja louvores. A senhora sabe, minha Madre bem-amada, que prefiro o vinagre
ao adoçar; minha alma também se cansa de um alimento açucarado demais. e Jesus
permite, então, que lha sirvam uma boa saladinha, bem avinagrada, bem picante,
nada faltando a não ser o óleo, o que lhe dá um sabor especial... Essa boa
saladinha me é servida pelas noviças no momento em que menos espero. O bom Deus
levanta o véu , que esconde minhas imperfeições, então minhas queridas
irmãzinhas, vendo-me tal qual eu sou, não me acham mais perfeitamente a seu
gosto. Com uma simplicidade que me encanta, elas me contam todos os combates
que lhes provoco, o que lhes desagrada em mim; enfim, elas não se preocupam
mais do que se fosse com outra, sabendo que me dão um grande prazer, agindo
assim. Ah! verdadeiramente, é mais do que um prazer, é um festim delicioso ,
que enche minha alma de alegria. Não posso me explicar como uma coisa, que
desagrada tanto à natureza, pode causar uma tão grande felicidade; se não a
tivesse experimentado, não poderia acreditar... Um dia, no qual desejara
particularmente ser humilhada, aconteceu que uma noviça(2) se encarregou tão
bem de me satisfazer que logo pensei em Semei, amaldiçoando Davi(3), e me
dizia: Sim, é mesmo o Senhor quem lhe ordena me dizer todas essas coisas... E
minha alma saboreava deliciosamente o alimento amargo, que lhe era servido com
tanta abundância.
É, assim, que o bom Deus se digna tomar conta
de mim. Ele não me dá sempre o pão fortificante da humilhação exterior, mas, de
vez em quando, permite me alimentar das migalhas que caem da mesa DOS FILHOS (4).
Ah! como sua misericórdia é grande, só poderei cantá-la no Céu...............
(M C, 26v-27v)
NOTAS
(1) -Na verdade, santa Teresinha gozava
de certo prestígio entre as irmãs. Assim é que algumas irmãs mais velhas a
consultavam de vez em quando. A irmã Maria-Emanuel chegou a dizer que ela tinha
tal maturidade que gostaria que fosse Priora, se tivesse mais de 22 anos.
(2) -Essa noviça foi sua própria irmã,
Celina, chamada, no mosteiro, de irmã Genoveva.
(3) -II Samuel 16,5
(4) -Marcos 7,28
30.AMOR QUE ATRAI
AMOR
O santo é um apaixonado por Deus. Mas sua
paixão não é apenas sentimento passageiro. Ele ama , sente-se amado e vive por
e para esse amor.
Teresa de Lisieux nos dá, aqui, uma lição da
psicologia do amor. Sua alma, apaixonadamente perdida de amor por Deus,
sente-se atraída por Ele, deixa-se atrair e leva consigo outras tantas almas,
que, pelo caminho, vai encontrando.
O amor é comunicativo, entusiasmante,
atraente. É assim o amor de Teresinha.
Para as almas simples, não necessários meios complicados;
como sou desse número, uma manhã, durante minha ação de graças, Jesus me deu um
meio simples de cumprir minha missão. Ele me fez compreender esta palavra dos
Cânticos: "Atraí-nos, nós corremos ao odor de vossos perfumes"(1). Ó
Jesus, não é, pois, mesmo necessário dizer: "Em me atraindo, atrai as
almas que amo!" Esta simples palavra:"Atraí-me" basta. Senhor,
eu o compreendo, quando uma alma se deixou cativar pelo odor inebriante de
vossos perfumes, não poderia correr sozinha, todas as almas, que ela ama, são
arrastadas nas suas pegadas; isso se faz sem constrangimento, sem esforço,, é
uma conseqüência natural de sua atração por vós. Assim como uma torrente,
jogando-se com impetuosidade no oceano, leva consigo tudo quanto encontrou na
sua passagem, do mesmo modo, Ó meu Jesus, a alma que mergulha no oceano sem
praias de vosso amor, arrasta consigo todos os tesouros que possui...Senhor,
vós o sabeis, não tenho absolutamente outros tesouros fora das almas que vos
aprouve de unir à minha; esses tesouros fostes vós que mos confiastes, por isso
ouso tomar emprestado as palavras que dirigistes ao Pai Celeste, na última
tarde que vos viu ainda na terra, viajante e mortal. Jesus , meu Bem-Amado, não
sei quando meu exílio terminará...mais de uma tarde deve me ver ainda cantar,
no exílio, vossas misericórdias, mas, enfim, para mim virá também a última
tarde; então, quisera poder vos dizer, Ó meu Deus: "Eu vos glorifiquei
sobre a terra; cumpri a obra que me destes para fazer; fiz conhecer vosso nome
àqueles que me destes: eles eram vossos e vós mos destes. É agora que eles
sabem que tudo que me destes vem de vós; pois lhes comuniquei as palavras que
me comunicastes, eles as receberam e acreditaram que fostes vós que me
enviastes. Rezo por aqueles que me destes, porque eles vos pertencem. Não sou
mais do mundo; quanto a eles, ainda estão aí e eu volto para vós. Pai Santo,
conservai, por causa do vosso nome, aqueles que me destes. Vou, agora, para
vós, e é a fim de que a alegria, que vem de vós, seja perfeita neles, que digo
isto enquanto estou no mundo. Não vos peço para que os tireis do mundo, mas
para que os preserveis do mal. Eles não são absolutamente do mundo, da mesma
maneira que não sou mais do mundo. Não é somente por eles que rezo, mas é ainda
por aqueles, que crerão em vós por aquilo que eles lhes dirão.
Meu Pai, desejo que onde eu estiver, estejam
comigo aqueles que me destes, e que o mundo conheça que vós os amastes como me
amastes a mim mesmo"(2)
Sim, Senhor, eis o que quisera repetir depois
de vós, antes de voar para vossos braços. É, talvez, temeridade? Mas, não,
desde muito tempo me permitistes ser audaciosa convosco. Como o pai do filho
pródigo, falando a seu filho mais velho, dissestes-me: "Tudo que é meu, é
teu"(3). Vossas palavras, ó Jesus, são minhas e posso me servir delas para
jogar sobre as almas, que me são confiadas, os favores do Pai Celeste. Mas,
Senhor, quando digo que, onde eu estiver, desejo que os que me foram dados por
vós ai também estejam, não pretendo que eles não possam chegar a uma glória bem
mais elevada do que aquela que vos aproverá de me conceder, quero pedir
simplesmente que, um dia, estejamos todos reunidos no vosso belo Céu. Vós o
sabeis, ó meu Deus, jamais desejei outra coisa a não ser vos amar, não
ambiciono outra glória. Vosso amor me preveniu desde minha infância, cresceu
comigo, e, agora, é um abismo, cuja profundidade não posso sondar. Amor atrai
amor, por isso, meu Jesus, o meu se lança para vós, ele queria encher o abismo
que o atrai, mas ah! não é mesmo uma gota de orvalho perdida no oceano!... Para
vos amar como me amais, é preciso que tome emprestado vosso próprio amor, só
então encontro repouso. Ó meu Jesus, é talvez uma ilusão, mas me parece que não
podeis cumular uma alma com mais amor do que cumulastes a minha; é, por isso,
que ouso vos pedir para amar os que me destes como me amastes. Um dia, no Céu,
se descubro que as amais mais do que a mim, alegrar-me-ei, reconhecendo, desde
agora, que essas almas merecem vosso amor muito mais do que a minha; mas, aqui,
na terra, não posso conceber uma maior imensidade de amor do que aquela que vos
aprouve me prodigar, gratuitamente, sem nenhum mérito de minha parte (4).
Minha Madre querida, enfim volto a vós; estou
muito admirada com o que acabo de escrever, porque não tinha a intenção, e já
que está escrito, é preciso que fique...
Minha Madre, creio que é ainda necessário que
lhe dê algumas explicações sobre a passagem do Cântico dos Cânticos: -
"Atraí-me, nós corremos", pois, o que quis dizer sobre isso me parece
pouco compreensível. "Ninguém, disse Jesus, pode vir a mim se o Pai, que
me enviou, não o atrair"(5). Em seguida, mediante sublimes parábolas e
mesmo sem usar esse meio tão familiar ao povo, Ele nos ensina que basta bater
para que abram, procurar para encontrar e estender, humildemente, a mão para
receber o que se pede...Ele diz ainda que, tudo que se pede a seu Pai em seu
nome, Ele o concede. É por isso, sem dúvida, que o Espírito Santo, antes do
nascimento de Jesus, ditou esta prece profética: Atraí-me, nós corremos.
Que é, pois, pedir para ser Atraído, senão
para se unir, de uma maneira íntima, com o objeto que cativa o coração? Se o
fogo e o ferro tivessem inteligência e se esse último dissesse ao outro:
Atrai-me, não provaria que desejava se identificar com o fogo de maneira que o
penetrasse e o embebesse com sua ardente substância e que parecesse não fazer
senão um com ele? Madre bem-amada, eis aí minha oração, peço a Jesus para me
atrair para as chamas de seu amor, para me unir tão estreitamente a Ele, que Ele
viva e aja em mim. Sinto que quanto mais o fogo do amor queimar meu coração,
tanto mais direi: Atraí-me,tanto mais também as almas que se aproximarem de mim
(pobre pedacinho de ferro inútil, se me afastasse da fornalha divina),
correrão, rapidamente, ao odor dos perfumes de seu Bem-Amado,pois uma alma
embrasada de amor não pode ficar inativa; sem dúvida, como santa Madalena, ela
fica aos pés de Jesus, escuta sua palavra doce e inflamada. Parecendo não dar
nada, dá muito mais que Marta, que se atormenta com muitas coisas e queria que
sua irmã a imitasse.Jesus não censura os trabalhos de Marta, a esses trabalhos
sua divina Mãe se submeteu, humildemente, durante toda sua vida, pois que devia
preparar as refeições da Sagrada Família. É somente a inquietação de (6) sua
ardente hospedeira que queria corrigir. Todos os santos o compreenderam e, mais
particularmente, talvez aqueles que encheram o universo com a iluminação da
doutrina evangélica. Não foi verdadeiramente na oração que os santos Paulo,
Agostinho, João da Cruz, Tomás de Aquino, Francisco, Domingos e tantos outros
ilustres Amigos de Deus beberam essa ciência Divina, que encanta os maiores
gênios? Um Sábio disse: "Dai-me uma alavanca, um ponto de apoio, e eu
levantarei o mundo". O que Arquimedes não pôde obter, porque seu pedido
não se endereçava a Deus e porque era feito só no ponto de vista material, os
Santos obtiveram em toda sua plenitude. O Todo-Poderoso lhes deu por ponto de
apoio: ELE MESMO e Só ELE; por alavanca: A oração, que abrasa como um fogo de
amor, e foi assim que eles levantaram o mundo; é assim que os Santos, ainda
militantes, o levantam e que, até o fim do mundo, os Santos vindouros o
levantarão também.
Minha Madre querida, agora quisera lhe dizer
o que entendo pelo odor dos perfumes do Bem-Amado. -Uma vez que Jesus subiu ao
Céu, não posso segui-lo a não ser pelas pegadas que deixou, mas como essas
pegadas são luminosas, como são perfumadas! Devo apenas lançar os olhos sobre o
Santo Evangelho e logo respiro os perfumes da vida de Jesus e sei por que lado
correr... Não é no primeiro lugar, mas no último que me lanço; em lugar de
avançar como o fariseu, repito, cheia de confiança, a humilde prece do
publicano; mas, sobretudo, imito a conduta de Madalena, sua admirável ou,
antes, sua amorosa audácia, que encanta o Coração de Jesus, seduz o meu. Sim,
eu o sinto, mesmo quanto tivesse na consciência todos os pecados que se pode
cometer, iria, o coração partido de arrependimento, jogar-me nos braços de
Jesus, pois sei quanto ele quer o filho pródigo, que volta para Ele. Não é
porque o bom Deus, na sua previdente misericórdia, preservou minha alma do
pecado mortal, que me elevo até Ele pela confiança e pelo amor.
NOTAS
(1) -Cântico dos Cânticos 1,3.
(2) -João 17,4 ss. Como quase sempre,
Teresa faz citações muito livres.
(3) -Lucas 15,31
(4) -Santa Teresinha entra, aqui, mais
uma vez, numa questão teológica muito discutida entre católicos e protestantes,
isto é, a questão dos méritos do homem diante de Deus. O protestantismo nega
que o homem possa ter possibilidade de ter algum mérito diante de Deus. Segundo
Lutero, a salvação é só pela graça. O catolicismo, de sua vez, afirma que o
homem, por graça divina, pode e deve ter algum mérito, embora tudo seja graça
de Deus. Teresinha é filha da Igreja e, embora ela ressalte sempre que não tem
mérito, viveu segundo todos os postulados católicos,para que alguém tenha algum
mérito diante de Deus. Teresa, na sua humildade e também na sua paixão amorosa
por Deus, recorre apenas a essa linguagem, que é fruto da seu amor
desinteressado, afirmando que seu amor não está preocupado com mérito. Em suma,
Teresa ressalta o outro lado da questão, proposta pela teologia católica, isto
é, que, no fundo, tudo é graça, embora o homem deva colaborar com essa graça
divina.
(5) -João 6,44.
(6) -Aqui, Teresinha não pôde mais
levantar a caneta e foi obrigada a escrever a lápis. É impressionante ver nos
seus "Manuscritos" a letra, já toda deformada, que a Santa emprega
num esforço tremendo para conseguir escrever mais algumas palavras. É admirável
ver como uma pessoa, já tão debilitada pela doença e sofrendo tanto, possa
escrever coisas tão lindas e tão sublimes.
31.O SONHO DA
MONTANHA
As Cartas de Santa Teresinha merecem um
estudo à parte. Com efeito, ai nossa Santa, falando mais simplesmente ainda e
com as pessoas a quem ela quer um bem enorme, abre seu coração e descreve
sentimentos, expõe idéias e ensina a sua espiritualidade da simplicidade, da
confiança, do abandono e do amor. Por outro lado, enquanto o leitor vai
seguindo a caminhada de Teresinha, pode, ao mesmo tempo, acompanhá-la mos seus
mais profundos sentimentos, como amor, saudade, tristeza, provação na fé,etc.
Estes textos de uma carta de Teresa, datada
de março de 1888, mostra sua vontade imensa de subir a montanha do Carmelo e,
ao mesmo tempo, como ela sofreu para realizar seu ideal. Digno de nota é a
visão clara que ela já define para sua missão espiritual na vida de
carmelita:dar-se todinha a Deus; sofrer por Ele; ação missionária na procura de
colaborar no mistério da redenção dos homens.
Ó Paulina! é bem verdade que é preciso que a
gota de fel se misture em todos os cálices, mas acho que, as provações ajudam
muito a se desapegar da terra, elas fazem olhar mais alto do que este mundo.
Aqui, na terra, nada pode nos satisfazer, só se pode gozar um pouco de repouso,
quando se está pronto a fazer a vontade do Bom Deus.
O meu barquinho tem dificuldade para chegar
ao porto, faz tempo que percebo a margem e sempre me encontro distante; mas, é
Jesus que guia meu naviozinho e estou segura de que no dia em que ele
quiser,poderá fazê-lo chegar, felizmente, ao porto. ó Paulina! quando Jesus me
tiver posto na praia bendita do Carmelo, quero me dar toda inteira a Ele, só
quero viver para ele Oh! não, não temerei seus golpes, pois, mesmo nos mais
amargos sofrimentos, sente-se sempre que é sua doce mão, eu a senti muito bem
em Roma no momento exato, em que acreditei que a terra teria podido desaparecer
sob meus pés.
Não desejo senão uma coisa, quando estiver no
Carmelo, é sofrer sempre por Jesus. A vida passa tão depressa, que
verdadeiramente vale mais ter uma belíssima coroa e um pouco de mal do que ter
uma ordinária sem nenhum mal. E,depois, quando penso que, por um sofrimento
suportado com alegria, amar-se-á mais a Deus, por toda a eternidade! Ademais,
sofrendo, pode-se salvar as almas. Ah! Paulina se, no momento de minha morte,
pudesse ter uma alma para oferecer a Jesus, como seria feliz, haveria uma alma
que seria arrancada ao fogo do inferno e que bendiria a Deus por toda a eternidade!
32.ELE PEDE TUDO!
As passagens, que seguem, são de uma carta de
Teresinha, dirigida a Celina e datada de 23 de julho de 1888. A Santa já está
no Carmelo. Ela tem, agora, um grande desejo: trazer também Celina para o
Mosteiro.Nessa intenção, ela vai escrever, com certa sofreguidão, muitas vezes,
a sua irmã, tentando ajudá-la a se libertar de tudo que possa impedir sua
entrada no Carmelo.
Ao mesmo tempo, Teresa expõe, aqui e acolá,
seus temas prediletos, como, a fugacidade da vida, o sofrimento e a glória
eterna, as exigências do amor a Deus.
No texto,é relevante a idéia de que Deus pede
tudo. Essa idéia, tão carmelitana, é conseqüência também de toda a
espiritualidade teresiana do amor.
Jesus pede tudo a seus dois lírios, ele não
quer lhes deixar nada além dos seus vestidos brancos, TUDO, a Imortal(1)
compreendeu sua irmãzinha?...
A vida, muitas vezes, é pesada, que
amargura...mas, que doçura!Sim, a vida custa, é penoso começar um dia de
labor,o fraco botão o sentiu como o belo lírio; se, ao menos, se sentisse
Jesus, oh! far-se-ia muito bem tudo para ele, mas, não, ele parece estar a mil
léguas, estamos sozinhas conosco mesmas. Oh! que enfadonha companhia, quando
Jesus não está lá. Mas, que faz, pois, esse doce amigo? Ele não vê nossa angústia,
o peso que nos oprime? Onde está ele? Por que não vem nos consolar, já que só
temos ele como amigo? Ah! ele não está longe, está aí, bem perto, e nos olha,
nos mendiga essa tristeza, essa agonia, ele tem necessidade dela para as almas,
para nossa alma, quer nos dar uma recompensa muito bela, suas ambições para nós
são tão grandes!Mas, como ele dirá: "minha vez"(2), se a nossa não
chegou, se não lhe demos nada. Ah! custa-lhe saciar-nos de tristezas, mas ele
sabe que é o único meio para nos preparar a "conhecê-lo como ele se
conhece e a tornarmo-nos Deuses nós mesmos"(3). Oh! que destino! Como
nossa alma é grande!
Elevemo-nos acima do que passa, fiquemos a
distância da terra, mais alto, o ar é puro! Jesus se esconde,mas advinha-se,
derramando lágrimas enxugam-se as suas e a Santíssima Virgem sorri, pobre Mãe,
sofreu tanto por nossa causa, é justo que a consolemos um pouco, chorando e
sofrendo como ela...
Li, esta manhã, uma passagem do Evangelho, em
que se diz:Não vim trazer a paz, mas a Espada"(4).Só nos resta combater,
quando não tivermos a força, é,então, que Jesus combate por nós...Ponhamos,
juntas, o machado à raiz da árvore...
..................................................
Jesus te pede TUDO,TUDO.TUDO, tanto quanto
pode pedir aos maiores Santos.
(LT 57)
NOTAS
(1) -Nome atribuído a Celina por irmã
Inês de Jesus.
(2) -Sentença muita querida por Teresa. É
tirada do livro do Padre Arminjon, "Fim do mundo presente e mistérios da
vida futura"(2ª ed.,São Paulo,1882).Nos Manuscritos, aparece o entusiasmo
de Teresinha por esse livro, que exerceu muita influência na sua adolescência e
até mesmo durante toda sua vida.
(3) -Cfr. Arminjon, op.cit.p.290.
(4) -Mateus 10,34.
33.O AMOR PODE
TUDO!
A espiritualidade de Teresinha inclui, além
dos temas básicos, uma gama de idéias, que são,também, fundamentais, para se
poder compreender todo o edifício, proposto por ela. Assim, é que, como
conseqüência do amor, linha mestra do pensamento teresiano, estão alguns temas,
que aparecem na carta que segue, dirigida a Celina, aos 20 de outubro de 1888.
Com efeito, aqui aparecem, entre outras
coisas, as idéias da unidade com Jesus; a força do amor, que nos ajuda a
superar qualquer obstáculo; o valor do sofrimento e o despojamento de tudo, que
não seja o ideal, ou seja, Deus. Teresa insiste sempre nessas idéias básicas,
sobretudo quando escreve a Celina, que será, mesmo antes de entrar no Carmelo,
sua grande discípula.
É, pois, amanhã o dia da festa (1). Oh! como
quisera ser a primeira a te felicitar. Se isso não é possível, pelo menos posso
fazê-lo no meu coração. Para tua festa, que queres que te ofereça? Se desse
ouvidos a mim mesma, pediria a Jesus para me enviar todos os desgostos, todas
as tristezas, os aborrecimentos da vida de minha Celina querida, mas veja, eu não
me dou atenção, pois teria medo que, Jesus me diga que sou uma egoísta;
quereria que ele me desse tudo o que há de melhor, sem deixar um pouco para sua
noivinha, que ama tudo. É para lhe provar seu amor, que lhe faz sentir a
separação(2), por essa razão, não posso pedir isso a Jesus. E, mesmo, ele é tão
rico, tão rico, que tem muita coisa com que nos enriquecer a nós duas....
Quando se pensa que, se o bom Deus nos desse
o universo inteiro, com todos seus tesouros, isso não seria comparável ao mais
leve sofrimento! Que graça, quando, de manhã, não sentimos nenhuma coragem,
nenhuma força para praticar a virtude, é, então,o momento de por o machado à
raiz da árvore, ao invés de perder seu tempo a ajuntar palhazinhas, se extraem
diamantes. Que proveito no fim do dia!... é verdade que, algumas vezes,
deixamos, durante alguns instantes, de ajuntar nossos tesouros, é , então, o
momento difícil em que se é tentado a deixar tudo, mas, em um ato de amor,
mesmo não sentido, tudo fica reparado e muito mais, Jesus sorri,ajuda-nos sem
dar a impressão de fazê-lo e as lágrimas, que os maus lhe fazem derramar, são
enxugadas pelo nosso pobre e fraco amorzinho. O amor pode fazer tudo, as coisas
mais impossíveis não lhe parecem difíceis. Jesus não olha tanto a grandeza das
ações, nem mesmo as suas dificuldades, quanto ao amor que faz fazer esses
atos...
Encontrei, há algum tempo, uma palavra que
acho muito bela. Ei-la, creio que te dará prazer:"A resignação é ainda
distinta da vontade de Deus, há nisso a mesma diferença que existe entre a
união e a unidade. Na união se é ainda dois, na unidade só se é um"(3).Oh!
sim, sejamos apenas um com Jesus, desprezemos tudo que passa, nossos
pensamentos devem se elevar para o Céu, porque está lá a morada de Jesus.
Pensei, outro dia, que não devemos nos apegar àquilo que está a nossa volta,
pois poderíamos estar em outro lugar que não aquele em que estamos, nossas
afeições e nossos desejos não seriam os mesmos...
(LT 65)
NOTAS
(1) -Teresa se refere ao onomástico de
Celina, pois se comemorava o dia litúrgico de Santa Celina, companheira de
Santa Genoveva.
(2) -A separação da própria Teresa, que
já estava no Carmelo.
(3) -O pensamento é de Madame Swetchine.
Esse pensamento ajudou muito nossa Santa durante a doença do senhor Martin.
34.SECURA E SONO
Nesta carta, datada, provavelmente, do dia 6
de janeiro de 1889, quando Teresa fazia seu retiro de três dias para a sua
Tomada de Hábito, no dia 9 do mesmo mês, voltam temas prediletos de nossa
Santa. Todavia, aqui, como sempre acontece nas Cartas, o estilo é tão humano,
tão simples, tão livre, que a espiritualidade existencial e vivida de Teresa
vem até nós com um peso maravilhoso, isto é, o peso da fraqueza e das
dificuldades humanas.
Teresa retoma a temática da
"bolinha", mas, agora, a bolinha está num total abandono espiritual,
isto é, ela está sofrendo as conseqüências de sua fraqueza. Por outro lado,
Jesus dorme também, como ela. Mas, apesar de tudo, a Santa insiste no seu
completo abandono nas mãos de Deus; no seu desapego das criaturas, na sua
vontade irresistível de só fazer a vontade de Deus.
Em suma, este texto é rico e belo, porque a
grande Santa aparece bem semelhante a nós.
Peça (1) a Jesus que eu seja bem generosa
durante meu retiro.Ele me criva de picadas de alfinete, a pobre bolinha não
pode mais, de todos os lados ela tem buraquinhos, que a fazem sofrer mais do
que se ela só tivesse um grande!...Nada, junto de Jesus, secura!... Sono!...
Mas, pelo menos, é o silêncio!...o silêncio faz bem à alma...Mas, as criaturas,
oh! as criaturas!... A bolinha estremece ao pensar nelas!... Compreenda o
brinquedo de Jesus!... Quando é o próprio doce amigo, que pica sua bolinha, o
sofrimento só é doçura, sua mão é tão doce!... Mas, as criaturas!... As que
estão a minha volta são muito boas, mas há não sei o quê que me repele!...Não
posso lhe dar explicação, compreenda sua alminha. Estou, contudo, MUITO feliz,
feliz por sofrer o que Jesus quer que sofra, se ele não pica diretamente sua
bolinha, é certamente ele que sustenta a mão de quem o faz!...Visto que Jesus
quer dormir, por que eu o impedirei? Estou demasiado feliz porque ele não se
preocupa comigo, mostra-me que não sou uma estrangeira ao me tratar assim, pois
lhe asseguro que ele não se importa para vir conversar comigo!...(2)
Se a senhora soubesse quanto quero ser
indiferente às coisas da terra! Que me importam todas as belezas criadas? Seria
infeliz, se as possuísse, meu coração seria vazio!...É incrível como meu
coração me parece grande, quando considero todos os tesouros da terra, pois que
vejo que, todos reunidos, não poderiam contentá-lo, mas, quando considero
Jesus, como me parece pequeno... Quisera amá-lo tanto!Amá-lo mais do que jamais
foi amado!...Meu único desejo é fazer sempre a vontade de Jesus, enxugar as
lagrimazinhas que os pecadores lhe fazem derramar!... Oh! não quero que Jesus
sofra no dia de meu noivado, quisera converter todos os pecadores da terra e
salvar todas as almas do purgatório...
O Cordeiro de Jesus vai sorrir, vendo esse
desejo do grãozinho de areia!...(3) Sei que é uma loucura, contudo quisera que
assim fosse, a fim de que Jesus não tenha uma só lágrima para derramar.
Reze para que o grão de areia se torne um
ÁTOMO sensível somente aos olhos de Jesus!...
(LT 74)
NOTAS
(1) -Esta carta foi dirigida à Irmã Inês
de Jesus.
(2) -Aqui, aparece o estado de alma de
nossa Santa. Por outro lado, aparece também a vontade de Teresa em fazer sempre
a vontade Deus, mesmo que não tenha disposição sensível. Os místicos explicam
esses estados de secura. No caso de nossa Santa, parece que se trata, também,
de um estado natural, que todos sentem, algumas vezes. Santa Teresinha não se
apavora com essas coisas, que ela não quer, nem procura. Mas, também não
desanima, nem se acomoda. Ela simplesmente continua sua vida de esforço, de
luta, mas tudo na paz e no amor.
(3) -Assim, nossa Santa se denomina
muitíssimas vezes, sobretudo nas suas Cartas. A expressão é rica de significado
pela humildade que quer dizer.Ser pequeno, para Teresinha, é a base de sua
caminhada de amor.
35.CORAÇÃO
SENSÍVEL
Santa Teresinha está nas vésperas de sua
Tomada de Hábito, quando escreve esta carta à Irmã Inês de Jesus. Era o dia 7
de janeiro de 1889. Ela está com 16 anos de idade. Sua caminhada, porém, já
está muito além desses poucos anos de vida. Todavia, não é uma caminhada
excepcional, quase extravagante. Teresa caminha como qualquer um dos mortais,
só que ela ama, ama com toda a intensidade de seu coração e com esse amor ela
voa na sua intimidade e união com Deus.
Porém, fica sempre bem humana e, por isso,
sente as securas, as faltas de consolação espiritual. Encontra, todavia, nisso
tudo um élan para amar ainda mais.
Há um ponto, porém, que a Santa sublinha
sempre: o desapego das criaturas. Ela sabe que tem um coração sensível,
amoroso. Poderia, de fato, se apagar a qualquer coisa, que lhe desse qualquer
sombra de felicidade. Luta para esse desapego, porque só quer mesmo a Deus e,
por Ele e nEle, é que amará todas as criaturas.Esse desapego, tão apregoado por
São João da Cruz, é fundamental, para que a pessoa fique livre e possa
realmente voar.Com efeito, um passarinho, mesmo amarrado apenas por um fio de
cabelo e numa só perninha, jamais conseguirá ser livre e voar.
A senhora compreende alguma coisa da conduta
de Jesus?...Bem que lhe dizia eu que, as crianças não sabem o que querem, Jesus
age assim com sua bolinha. Ela achou, sem dúvida, que a data de 9 era por
demais encantadora, ele não quer nada de encantador para ela!...(1) Eu sei
muito bem por quê, é que somente ele é encantador em toda a FORçA do termo, e
ele quer mostrar a sua bolinha, que ela se enganaria se procurasse, noutro
lugar, uma sombra de beleza, que tomasse pela beleza mesma!...
Como é bom para mim aquele que será, em
breve, meu noivo! Como é divinamente amável ao querer não me permitir me apegar
a NENHUMA coisa criada, ele sabe muito bem que, se me desse somente uma sombra
de FELICIDADE, eu me apegaria a ela com toda a energia, toda a força do meu
coração, essa sombra ele me recusa, prefere me deixar nas trevas do que me dar
um falso clarão, que não seria ele!...Visto que não posso encontrar nenhuma
criatura,que me contente(2), quero dar tudo a Jesus, não quero dar à criatura
nem um átomo de meu amor, possa Jesus me fazer sempre compreender que, somente
ele é a felicidade perfeita, mesmo quando parece ausente!...
Hoje, mais do que ontem, se isso é possível,
estive privada de qualquer consolação. Agradeço a Jesus que acha isso bom para
minha alma, e, mesmo, talvez, se ele me consolasse, eu parasse nessas doçuras,
mas ele quer que tudo seja para ele!... Pois bem, tudo será para ele, tudo,
mesmo quando não sentir nada para poder lhe oferecer, então, como hoje à tarde,
oferecer-lhe-ei esse nada!...
Se Jesus não me dá consolação, ele me dá uma
paz tão grande, que me faz mais bem!...
Reze, para que sua filhinha não recuse a
Jesus um átomo do seu coração.
(LT 76)
NOTAS
(1) -A Santa se refere à mudança de data
da sua Vestição de Hábito. Por motivo da morte do Vigário Geral honorário, o
Bispo mudou o dia da Tomada de Hábito de Teresa para 10 de janeiro. Na verdade,
essa cerimônia já fora bastante adiada, por causa da doença do senhor Martin.
Teresa adorara a data de 9 de janeiro, porque os nove meses desde sua entrada
no Carmelo correspondiam aos nove meses da permanência de Jesus no seio de
Maria. A mudança repentina tocou a sensibilidade de Teresa, embora ela saiba
logo tirar proveito do acontecido.
(2) -Aqui, a aparecem o coração humano de
Teresa e a consciência existencial da Santa diante de seu próprio ser. Ela sabe
que coração possui; sabe perfeitamente quem é; aceita a realidade; não tem
vergonha nem cerimônia em declarar sua sensibilidade e suas tendências humanas,
mas, ao mesmo tempo, numa perfeita harmonia, procura dirigir todo o manancial
de amor e sensibilidade humana para a própria Beleza e a própria Felicidade,
que é Deus.
36.A PÁTRIA!... A
PÁTRIA!...
Para olhos pagãos, pode parece doentio o
sonho constante de Teresa com o céu. A Santa, a cada passo de suas Cartas,
exclama, pressurosa, pela Pátria, com que tanto sonha. Na verdade, não se trata
de uma válvula de escape, ou de um estado doentio.Teresa era perfeitamente
equilibrada. Nela, havia uma harmonia, quase perfeita, entre o humano e o
divino; entre o corpo e o espírito.
Para se entender esse grito constante pelo Céu,
é preciso lembrar que, Teresinha foi, pouco a pouco, se apegando tanto a Deus
pelo amor, que quase já vivia sonhando com a Casa do Pai, o céu. Por outro
lado, não podemos negar que, sem nenhum índice de desequilíbrio, nossa Santa
encontrou no pensamento do céu, como ensina São Pedro, um motivo forte para
superar os sofrimentos passageiros desta vida. Assim, na esperança da Pátria,
mesmo quando essa esperança não era sentida, Santa Teresa de Lisieux encontrou
o bálsamo para aliviar suas dores e, ao mesmo tempo, uma razão para enfrentar
dificuldades e obstáculos, inclusive os sofrimentos, já que havia sempre a
esperança de que tudo passaria e chegaria, um dia, o momento do regresso à Casa
do Pai, onde não haverá mais choro e ranger de dentes, mas só paz, alegria e
amor.
...o brinquedo de Jesus é a própria fraqueza,
se Jesus não o leva, ou não jogo ele próprio sua bolinha, ela ficará inerte no
mesmo lugar!
Mais um dia e serei a Noiva de Jesus, que
graça!...(1) Que fazer para agradecê-lo, para me tornar menos indigna de um tal
favor?...
Oh! a pátria...a pátria!...(2) Como tenho
sede do Céu, lá onde se amará Jesus sem reserva!...
Mas, é preciso sofrer e chorar para lá
chegar...pois bem,quero sofrer tudo o que aprouver a Jesus e deixá-lo fazer o
que quiser de sua bolazinha.
(LT 79)
NOTAS
(1) -Este bilhete foi escrito no dia 8,
ou 9, de janeiro, de 1889, e foi dirigido a irmã Maria do Sagrado Coração.
(2) -Essas palavras estão cheias de
lembranças na intimidade da Família Martin. Encontram-se vários documentos,de
pessoas diferentes, que repetem essas mesmas palavras, cheias de suspiro pelo
céu. Isso demonstra a atmosfera familiar Martin, onde se insistia, realmente,
com o pensamento das coisas do alto, como aconselha São Paulo(Col 3,1-4; Fil
3,20-21).
37.SOFRIMENTO,
PROVA DO AMOR
Nesta carta,de 28 de fevereiro de 1889,
quando Santa Teresinha já estava no Noviciado, aparece mais uma de suas grandes
mensagens, a saber, quando alguém sofre muito, apesar de ser um grande amigo de
Jesus, é prova de que é amado por Deus. Teresa repetirá muito a idéia de que a
mão de Jesus é chagada e molhada de sangue e que, portanto, quem ela toca ou
aperta, fica também molhado de sangue.
O sofrimento, então, recebido com
generosidade, é prova da predileção de Deus. Há aí um pensamento totalmente
contrário ao pensar comum das pessoas, que não entendem o mistério da cruz,
sobretudo quando se trata de uma pessoa muito boa. Há sempre uma associação
entre dor e castigo, quando, pelo mistério da cruz de Cristo, o sofrimento deve
ser visto como prova de amor, como meio de expiação, como caminho de redenção,
como nos diz a Escritura (Heb 9,22).
...Jesus é um esposo de sangue(1)...Ele quer
para Ele todo o sangue do coração...
Ah! irmãzinha querida(2), longe de me
lamentar a Jesus pela cruz que nos envia, não posso compreender o amor infinito
que o levou a nos tratar assim... É preciso que nosso Pai querido seja muito
amado por Jesus por ter que sofrer assim, mas não acha você que a infelicidade,
que o fere, é justamente o complemento de sua bela vida?... Sinto que, digo
verdadeiras loucuras, mas não importa, penso ainda muitas outras coisas sobre o
amor de Jesus, que são, talvez, muito mais fortes do que o que lhe digo...Que
felicidade ser humilhada, é o único caminho que faz os santos!... Podemos
duvidar, agora, da vontade de Jesus sobre nossas almas?... A vida é apenas um
sonho, logo nos acordaremos, e que alegria!... Quanto mais nossos sofrimentos
são grandes, tanto mais nossa glória será infinita...Oh! não percamos a
provação que Jesus nos envia, é uma mina de ouro a ser explorada, perderemos a
ocasião?...O grão de areia quer se por à obra, sem alegria, sem coragem,sem
força e são todos esses títulos que lhe facilitarão a empresa(3), ele quer
trabalhar por Amor.
É o Martírio que começa...
(LT 82)
NOTAS
(1) -Essa expressão tornou-se conhecida
no Carmelo mediante o Pe.Pichon.Outras irmãs também a usaram.
(2) -Esta carta é dirigida a Celina, que
se encontrava em Caen, para cuidar do Sr. Martin, cujo estado de saúde tinha se
agravado.
(3) -Esse é o pensamento do apóstolo
Paulo (I Cor 1,25; II Cor,12,10; Fil 4,13)
38.PAZ E ALEGRIA
Nesta carta, dirigida a Celina e escrita aos
4 de abril de 1889, nossa Santa, apesar de toda a sublimação do documento
anterior, confessa sua fraqueza, ou seja, sua tristeza humana diante do
sofrimento de seu pai.
Além dessa belíssima confissão de sentimento
humano, tão natural em qualquer criatura, há uma grande lição neste texto, a
saber, a relação existente entre sofrimento,a paz e a alegria. Teresa não
confunde as coisas. Cada uma está no seu devido lugar. É preciso sofrer sempre
em paz, mas paz não quer dizer, diretamente, alegria, pelo menos alegria
sentida.Ou seja, para se estar em paz não é preciso sentir alegria. Mesmo
sofrendo sensivelmente, podemos e devemos estar em paz. Esse pensamento será
repetido,mais tarde, quando nossa Santa estiver muito doente. Ele é rico,
profundo e humano. Não é preciso, pois, deixar de ser criatura humana para
estar em paz, durante o sofrimento.O segredo de tudo é o amor.
Sua carta pôs uma grande tristeza na minha
alma! Pobre Paizinho!... (2) Não, os pensamentos de Jesus não são os nossos e
seus caminhos não são os nossos caminhos...(2)
Ele nos apresenta um cálice tão amargo quanto
nossa fraca natureza o pode suportar!... Não retiremos nossos lábios desse
cálice preparado pelo mão de Jesus...
Vejamos a vida sob seu dia verdadeiro...É um
instante entre duas eternidades... Soframos em paz!...
Confesso que essa palavra paz me parecia um
pouco forte, mas, outro dia, refletindo sobre isso, encontrei o segredo de
sofrer em paz... Quem diz paz não diz alegria, ou, pelo menos, alegria
sentida...Para sofrer em paz, basta querer mesmo tudo o que Jesus quer... Para
ser a esposa de Jesus, é preciso assemelhar-se a Jesus; Jesus está todo
ensangüentado, está coroado de espinhos!...
Não, não cantemos os cânticos do Céu às
criaturas...mas, como Cecília, cantemos no nosso coração um cântico melodioso a
nosso bem-amado!...(3)
O cântico do sofrimento unido a seus
sofrimentos é o que encanta mais seus coração!...
Jesus arde de amor por nós...olhe sua Face
adorável!... Olhe seus olhos apagados e abaixados! Olhe essas chagas...Olhe
Jesus na sua Face...Aí verá como ele nos ama.
(CT 87)
NOTAS
(1) -Entre os dias 15 e 23 de março, o
sr. Martin teve certa melhora, devida a um xarope, mas logo a melhora passou e
no final do mês a situação é grave.
(2) -Cf. Isaías 55,8
(3) -Esse é o pensamento de Santo
Agostinho, em um dos seus Comentários sobre os Salmos, que é lido justamente na
festa litúrgica de Santa Cecília.
39.SANTIDADE!? QUE
É?
Há dois pontos interessantes da mensagem
teresiana nesta carta dirigida a Celina, para cumprimentá-la pelos seus vinte
anos de idade, aos 26 de abril de 1889. O primeiro é a relação, que nossa Santa
faz, entre o amor e sofrimento, tema, aliás, sumamente debatido e estudado em
toda sua correspondência. O segundo é a posição de Santa Teresinha sobre o
conceito, ou a essência mesma de santidade. Aqui, a Santa une santidade com
sofrimento. Isso pode espantar muita gente, justamente por dois motivos.
Primeiro, porque considera a espiritualidade teresiana como flor de laranja e,
portanto, alienada e alienante, o que, diga-se logo, é prova de ignorância.
Segundo, porque Teresa vai muito além do que se costuma dizer sobre a
santidade. Ela enxerga claro e define a santidade pelo que ela exige em última
análise, isto é, uma verdadeira revolução. Portanto, sem sangue, sem dor, sem
sofrimento, não pode haver conversão, mudança de vida, opção verdadeira por
Deus, em uma palavra,amor profundo, sincero, autêntico e completo por Deus e
pelos homens.
Sim, Jesus tem suas preferências. Há no seu
jardim frutos que o Sol de seu amor amadurece quase num abrir e fechar de
olhos... Por que somos desse número? ...Questão cheia de mistério... Que razão
Jesus pode nos dar? Ah! sua razão é que ele não tem razão!...Celina!...usemos
da preferência de Jesus, que nos ensinou tantas coisas em poucos anos; não
negligenciemos nada do que pode lhe dar prazer!...Ah! deixemo-nos bronzear pelo
Sol de seu amor!...São Francisco de Sales diz: "Quando o fogo do amor está
em um coração, todos os móveis voam pelas janelas"(1) Oh! não deixemos
nada...nada no nosso coração senão Jesus!...
Não creiamos poder amar sem sofrer, sem
sofrer muito...nossa pobre natureza é assim! e ela não é assim para nada!... É
nossa riqueza, nosso ganha pão!... Ela é tão preciosa, que Jesus veio à terra
expressamente para possuí-la.
Soframos com amargura, sem coragem!... (Jesus
sofreu com tristeza! Sem tristeza será que a alma sofreria?...)(2). E nós
queríamos sofrer generosamente, grandemente!...Celina! que ilusão!... Queríamos
jamais cair?... Que importa, meu Jesus, se caio a cada instante, vejo assim
minha fraqueza e é para mim um grande ganho...Vós vereis,assim, o que posso
fazer e, agora, sereis mais tentado a me levar nos vossos braços...Se não
fazeis assim é que vos agrada me ver por terra... então, não vou me inquietar,
mas estenderei sempre para vós os braços suplicantes e cheio de amor!... Não
posso acreditar que me abandonais!...
(Os Santos, quando estavam aos pés de Nosso
Senhor, é então que encontravam sua cruz)!...(3)
Se você conhecesse minha miséria!... oh! se
você soubesse... A Santidade não consiste em dizer belas coisas, ela não
consiste nem mesmo em pensá-las, em senti-las!... ela consiste em sofrer e em
sofrer de tudo. (A Santidade! é preciso conquistá-la à ponta de espada, é
preciso sofrer... é preciso agonizar)!...(4)
Um dia virá em que as sombras desaparecerão
e, então,só ficará a alegria, o inebriamento...
Aproveitemos de nosso único momento de
sofrimento!... vejamos apenas cada instante!... um instante é um
tesouro...(5)um só ato de amor far-nos-á conhecer melhor a Jesus...ele nos
aproximará dEle por toda a eternidade!... (CT 89)
NOTAS
(1) -Frase citada pelo Pe.Pichon, na
segunda instrução, do sétimo dia de retiro, precisamente no dia 13 de outubro
de 1887.
(2) -Citação do Pe.Pichon,no retiro do
ano de 1887.
(3) -Citação do Pe.Pichon, do retiro de
maio de 1888.
(4) -Citação do Pe.Pichon, no retiro de
maio de 1888.
(5) -Essa idéia de sofrer a cada
instante, sem a preocupação do que virá depois, vai aparecer em uma das belas
poesias de Santa Teresinha, que se encontra neste livro à página . É uma idéia
riquíssima tanto espiritual, quanto psicologicamente. Na verdade, o sofrimento,
por gotas, está proclamado por Jesus (Mt 6,34) e é, realmente, um antídoto
humano ao desespero e à angústia,sobretudo em momentos muito dolorosos da nossa
vida.
40.O MARTÍRIO DO
ESCRÚPULO
O escrúpulo, verdadeiramente, é uma anomalia
psicológica muito perigosa para a vida espiritual. Ele pode criar um mundo
fantástico, no qual a pessoa se perde de tal maneira que pode chegar às raias
da loucura. E o pior de tudo é que o escrúpulo, ao invés de aproximar a pessoa
de Deus, distancia-a, podendo até afastá-la quase completamente.
Teresinha sofreu o mal do escrúpulo. Foi
feliz por ter podido superá-lo. Posteriormente, com seu crescimento no amor,
compreendeu que o amor traz liberdade, e, não, opressão e angústia.
Nesta carta, dirigida a sua prima, Maria
Guérin, datada de 30 de maio de 1889, ela se mostra uma doutora na psicologia
espiritual. Sua confiança e sua experiência autorizavam-lhe a falar com
destimidez e coragem.
Você fez bem em me escrever, compreendi
tudo...tudo, tudo, tudo!...
Você não fez a sombra do mal, sei muito bem o
que são essas espécies de tentações, que posso lhe assegurar sem medo, ademais,
Jesus mo diz no fundo do coração... É preciso desprezar essas tentações, não
lhes dar atenção.
Devo lhe confiar uma coisa, que me causou
muita pena?...
É que minha Mariinha deixou suas
comunhões...no dia da Ascensão e no último dia do mês de Maria!...Oh! como isso
causou pesar a Jesus!...
É preciso que o demônio seja muito esperto
para enganar assim a uma alma!...mas, não sabe, minha querida, que está aí todo
o objetivo de seus desejos? O pérfido sabe bem que, não pode fazer pecar uma
alma, que queria ser toda de Jesus, por isso tenta apenas fazê-la crer. Para
ele já é muito fazer confusão nessa alma, mas para sua raiva é necessária outra
coisa, quer privar Jesus de um tabernáculo amado, não podendo entrar nesse
santuário, quer, pelo menos, que fique vazio e sem mestre!... Ah! que será
desse pobre coração?... Quando o diabo conseguiu afastar uma alma da Santa
Comunhão, ganhou tudo...E Jesus chora!...
Ó minha querida, pense,portanto, que Jesus
está ali no tabernáculo justamente para você, para você somente, arde do desejo
de entrar no seu coração...vá, não escute o demônio, mangue dele e vá, sem
medo, receber o Jesus da paz e do amor!...
Mas, ouço-a dizer: "Teresa diz isso,
porque ela não sabe...ela não sabe como o faço expressamente... isso me
diverte...e, depois, não posso comungar, visto que creio está fazendo um
sacrilégio etc..." Sim, tua pobre Teresinha sabe bem, digo-lhe que ela
advinha tudo, ela lhe assegura que você pode ir receber, sem medo, o seu único
verdadeiro amigo...Ela também passou pelo martírio do escrúpulo(1), mas Jesus
lhe deu a graça de comungar mesmo assim, mesmo quando ela acreditava ter feito
grandes pecados...pois bem, asseguro-lhe que ela reconheceu que era o único
meio de se desembaraçar do demônio, pois, quando ele vê que está perdendo seu
tempo, deixa-nos em paz!...
Não, é IMPOSSÍVEL que um coração "que
não repousa senão vendo o tabernáculo", ofenda Jesus a ponto de não poder
recebê-lo. O que ofende Jesus, o que o fere no coração é a falta de
confiança!...
Seu coração é feito para amar Jesus, para
amá-lo apaixonadamente, reze muito a fim de que os mais belos anos de sua vida
não se passem em temores quiméricos.
Nós só temos os curtos instantes de nossa
vida para amar Jesus, o diabo o sabe bem, por isso, tenta consumi-la com
trabalhos inúteis...
Irmãzinha querida, comungue muitas vezes,
muitíssimas vezes...(2) Eis o único remédio, se você quer ficar curada, não foi
por nada que Jesus pôs esse atrativo na sua alma. Não tema amar demais a
Santíssima Virgem, jamais a amará bastante, e Jesus ficará muito contente, pois
a Santíssima Virgem é sua Mãe. (CT 92)
NOTAS
(1) -Santa Teresinha, quando garota,
sofreu muito do martírio do escrúpulo. De maio de 1885 até o outono de 1886,
nossa Santa foi vítima desse mal. Todavia, graças a Deus e à ajuda de Maria,
sua irmã, pôde superá-lo. Aqui, pois, ela fala com conhecimento de causa.
(2) -Aos 29 de outubro de 1910, Monsenhor
de Teil, vice-postulador da Causa de Beatificação de irmã Teresa do Menino
Jesus, em audiência particular com Pio X, pediu-lhe para ler essa carta, e
disse-lhe:"Santíssimo Padre, essa santinha fez o comentário antecipado do
decreto de vossa Santidade sobre a comunhão freqüente". No curso da
leitura, o Papa exprimiu sua satisfação, dizendo:"É oportuníssimo! É uma
grande alegria para mim". No final, Pio X disse: "É preciso faze
rápido este Processo".
41.SER APÓSTOLO!
Há duas idéias fundamentais nesta carta,
dirigida a Celina, aos 14 de julho de 1889. A primeira é a do martírio
escondido e desconhecido de cada dia, que é a expressão máxima do amor. A
segunda, que está coligada com a primeira, é a do aproveitamento de todos os
curtos instantes desta vida para ser apóstolo de Jesus. A primeira idéia tem
sido já focalizada em outros textos; a segunda, embora não seja novidade,
aparece,aqui, com muito relevo. Na verdade, Teresinha convida Celina a
serem,juntas, apóstolas em cada instante, aproveitando de tudo e de todos os
instantes, e ela sublinha, com cuidado, alguns pontos de seu apostolado. Os
Padres merecem, então, um zelo especial. Por experiência, na grande viagem a
Roma, nossa Santa descobriu que os padres não são tão santos como ela pensava e
que, portanto, precisam muito de oração.
Minha alma não a deixa... ela sofre o exílio
com você!... Oh! como custa viver, ficar nesta terra de amargura e de
angustia...Mas, amanhã...em uma hora, estaremos no porto, que felicidade! Ah!
como será bom contemplar Jesus face à face, durante toda a eternidade! sempre,
sempre mais amor, sempre alegrias mais inebriantes... uma felicidade sem
nuvem...
Como foi que Jesus fez para nos desapegar
dessa maneira de todo o criado? Ah! ele feriu com um grande golpe... mas, é um
golpe de amor, Deus é admirável,mas, sobretudo, é amável,
amemo-lo,pois...amemo-lo bastante para sofrer por ele tudo o que ele quiser,
mesmo os sofrimentos da alma, a aridez, as angústias, as friezas aparentes...
ah! é um grande amor amar Jesus sem sentir a doçura desse amor... é um
martírio...Pois bem, morramos mártires! Oh! minha Celina...o doce eco da minha
alma, compreende você?... o martírio ignorado, conhecido só por Deus, que o
olho da criatura não pode descobrir, martírio sem honra, sem triunfo... Eis aí
o amor levado até o heroísmo,,, Mas, um dia, o Deus reconhecido exclamará
:Agora, é minha vez"(1) Oh! que veremos,então? Que é essa vida, que não
terá mais fim? ... Deus será a alma de nossa alma...mistério insondável... O
olho do homem não viu absolutamente a luz incriada, seu ouvido não ouviu as
incomparáveis harmonias e seu coração não pode pressentir o que Deus reserva
àqueles que ele ama(2). E tudo isso acontecerá em breve, sim, apressemo-nos
logo a fazer nossa coroa, estendamos a mão para apanhar a palma e se amarmos
muito, se amarmos Jesus com paixão, ele não será cruel para nos deixar por
muito tempo nesta terra de exílio... Celina, durante os CURTOS INSTANTES, que
nos restam, não perdamos nosso tempo... salvemos as almas, as almas, elas se
perdem como flocos de neve(3) e Jesus chora, e nós...nós pensamos em nossa dor,
sem consolar nosso noivo...Oh! minha Celina, vivamos para as almas...sejamos
apóstolas... salvemos, sobretudo, as almas dos Padres(4), essas almas deviam
ser mais transparentes do que o cristal...Ah! quantos maus padres, padres que
não são bastante santos... Rezemos, soframos por eles e no último dia Jesus
será agradecido. Nós lhe daremos almas!... (CT 94)
NOTAS
(1) -Frase das conferências do
Pe.Arminjon, na obra já anteriormente citada.
(2) -Cf. I Cor 2,9.
(3) -É pensamento do Pe. d'Argentan. É
curioso como esse pensamento tenha tocado nossa Santa, que se preocupa mais com
o amor, com o céu, com a confiança. Vê-se, então, que mesmo nos seus vôos de
liberdade, Teresa estava ligada ao seu tempo, isto é, à preocupação de tirar as
almas do inferno. Na verdade, o que é próprio de Teresinha em tudo isso é
que,ela não vive do temor do inferno, mas, por amor, não quer que ninguém vá
para lá.
(4) -Esse tema de rezar pelos padres se
tornou um leit-motivo na correspondência de Teresa com Celina no período
1889-90. Aqui, ele aparece pela primeira vez nos escritos de Teresa. Em 1895,
na sua Autobiografia, ela data de sua viagem a Itália (novembro de 1887), a
compreensão de um dos fins do carmelo reformado, que é justamente rezar pelos
padres.No exame canônico de 2 de setembro de 1890, ela dirá: "Vim para
salvar as almas e,sobretudo, a fim de rezar pelos padres".
(5) -É evidente que Teresa é filha do seu
tempo e, por isso, usa a terminologia da sua época.Portanto, dirá sempre
"salvar almas", como se dizia e pensava então. O que importa, porém,
não é a terminologia,mas a intenção. Com efeito, nossa Santa queria salvar seus
irmãos, os homens do mundo inteiro, por isso, foi uma autêntica apóstola, uma
grande missionária pela oração e pelo sacrifício.
42.GRÃO DE AREIA
Irmã Inês de Jesus está no seu retiro anual.
Era, talvez, o dia 4 de maio do ano de 1890. Teresa escreve um bilhete a sua
irmã querida. Contempla-a, como sempre, com os olhos de admiração. Aproveita da
ocasião para relembrar um dos seus temas prediletas, quando falava de si mesma,
isto é, o do grão de areia.
Todavia, aqui, ela aprofunda mais o sentido e
a extensão de ser um grão de areia diante de Deus e do mundo. Não se trata de
um sentimento anormal psicologicamente, como se ela se reconhecesse como uma
fracassada. Pelo contrário, Teresa descobre sua insignificância por força da
sua humildade, pelo seu crescimento na perfeição. Quanto mais ela se desenvolve
espiritualmente, tanto mais aprofunda sua espiritualidade baseada na humildade
do "ser pequeno" diante do Todo-Poderoso. Só assim ela se sente real
e verdadeira e Só assim ela desenvolve todo seu caminho da simplicidade, da
pequenez, da humildade.
Cordeirinho querido, meu coração o segue na
solidão(1), a senhora sabe (cotoviazinha leve) que tem um fio na pata e por
mais alto que suba, é necessário carregar seu fardo... mas, um grão de areia
não é pesado e, depois, ele será mais leve se a senhora o pedir a Jesus... Oh! como
ele deseja ser reduzido a nada, de ser desconhecido de todas as criaturas,
pobrezinho, não deseja mais nada, nada fora do ESQUECIMENTO(2) não os
desprezos, as injúrias, seria demasiado glorioso para um grão de areia. Se o
desprezassem, seria necessário mesmo vê-lo. Mas, o ESQUECIMENTO!....Sim, desejo
ser esquecida e não somente pelas criaturas, mas também por mim mesma, quisera
ser de tal modo reduzida a nada, que não tivesse nenhum desejo... A glória de
meu Jesus, eis tudo; a minha eu lha abandono, e se ele parece me esquecer, pois
bem ele é livre, visto que não me pertenço, mas sou dele... Ele se cansará mais
depressa de me fazer esperar do que eu de o esperar!...
Diga a Jesus para olhar para mim, que as
"boas-noites" penetrem, com seus raios luminosos, o coração do grão
de areia, e se não é pedir demais, que também a Flor das flores entreabra sua
corola e que o som melodioso que dela escapa faça vibrar, no meu coração, seus
melodiosos ensinamentos...
Cordeiro querido, não esqueça o grão de
areia!... (CT 103)
NOTAS
(1) -Irmã Inês estava em retiro
espiritual anual. Teresinha, com sua delicadeza feminina, tratava, as vezes, as
pessoas por apelidos carinhosos e familiares.
(2) -Essa é uma idéia muito cara a
Teresa. O Esquecimento, para ela, é mais precioso e mais atraente do que o
desprezo, que supõe certa atenção por parte de quem despreza. Confira, neste
livro, o Bilhete de Profissão, à página
(3) -Aqui, nossa Santa faz referência a
uma oração de Irmã Inês à santa Face. Nessa oração, os traços de Jesus(olhos,
boca,etc.) são comparados às flores, formando, no conjunto, um ramalhete de
festa.
43.A MONOTONIA DO
SACRIFÍCIO
Nas Cartas de Santa Teresinha, encontramos,
aqui e acolá, fragmentos importantes, que juntos, podem nos dar um conjunto de
toda sua caminhada espiritual, que, no fundo, é também a sua mensagem
espiritual. Catando, com cuidado,nas suas Cartas, podemos formar, pois, um
quadro, mais ou menos perfeito, do pensamento espiritual teresiano.
Neste belíssimo bilhete, dirigido à Irmã Inês
de Jesus, no dia 10 de maio de 1890, Teresa releva mais dois pontos importantes
de sua mensagem. O primeiro é a preferência pela monotonia do sacrifício. Sim,
a vida de uma carmelita é, de certo modo, monótona, enquanto é o seguimento
cotidiano de uma regra, até certo ponto, pesada. É claro que isso faz parte da
vida de penitência de uma carmelita. Cada um de nós, por sua vez, tem também
sua monotonia do sacrifício. É preciso, como ensina Teresa, não perder esse
tesouro e saber transformar essa monotonia do sacrifício num canto contínuo de
louvor e alegria.
O segundo ponto é a questão do silêncio. Mais
de uma vez, nossa Santa se refere ao silêncio. Para ela, ele é a linguagem do
céu; Só ele pode traduzir o que se passa no seu coração. Com efeito, os santos,
quando chegam a um certo grau de elevação espiritual, sentem, realmente,
dificuldade para traduzir, em palavras, seus sentimentos e suas idéias
luminosas. A verdade é que, em certos momentos, é melhor calar, porque Só o
silêncio diz tudo que queremos dizer.
Como sou feliz por ser para sempre
prisioneira no Carmelo, não tenho gana de ir a Lourdes para ter êxtases(1).
Prefiro a monotonia do sacrifício!Que felicidade estar tão bem escondida, de
tal maneira que ninguém pensa em você!...ser desconhecida até mesmo das
pessoas, que vivem com você...
Cordeiro querido, como agradeço a Jesus de me
ter dado à senhora, de fazer que a senhora compreenda tão bem a minha alma!...
Não posso lhe dizer tudo que penso...Ah! o CÉU!!!!!! Então, um Só olhar e tudo
estará dito e compreendido!...
O Silêncio, eis a única linguagem que pode
lhe dizer o que se passa na minha alma!...
(CT 106)
NOTA
(1) -Provavelmente, aqui, Teresa se
refere às consolações recebidas por Celina em Lourdes. Nossa Santa não tem
inveja de nada que pareça extraordinário. Sua vida, como sua mensagem, serão
simples, humanas, bem comuns, salvo algum ponto próprio daqueles que alcançaram
alto grau de perfeição, como é o caso de Teresa. Nossa Santa nunca se sentiu
atraída por êxtases, consolações especiais, visões ou outras coisas
maravilhosas. Ele viveu e amou o que era simples, não procurando nem desejando
o que é fora do comum. Se alguma vez algo maravilhoso lhe aconteceu, ela o
recebeu com toda simplicidade e humildade.
44.O PEQUENO NADA
São João da Cruz é, sem dúvida, um dos
maiores místicos da Igreja Católica. E um dos pontos básicos de sua mensagem
espiritual é exatamente a dicotomia do Tudo e do nada. Basta ver a descrição
belíssima, que ele faz da subida do Monte Carmelo. Com efeito, na subida a
pessoa vai deixando tudo, ficando sem nada, para poder alcançar o Tudo.
Nesta carta,dirigida a Maria Guérin, nos
finais de julho de 1890, nossa Santa assume essa doutrina e a explica a sua
prima com elegância feminina e, ao mesmo tempo, tira dela logo as conseqüências.E
a grande conseqüência é, sem dúvida, a exigência do amor. Aniquilado no Tudo, o
nada se perde nEle apaixonadamente, já que Só por amor é que se tornou nada e
mergulhou,confiante e abandonadamente, no Tudo.
Maria, se você não é nada, é preciso não esquecer
de que Jesus é tudo, por isso é preciso perder seu pequeno nada no Seu infinito
tudo e não pensar mais a não ser nesse tudo unicamente amável...Também não é
necessário desejar ver o fruto recolhido de seus esforços. Jesus se apraz
guardar para ele Só esses pequenos nadas, que o consolam...Você se engana,
minha querida, se crê que sua Teresinha caminha sempre com ardor no caminho da
virtude, ela é fraca, e bem fraca, todos os dias ela tem disso uma pequena
experiência, mas, Maria, Jesus se apraz a lhe ensinar, como a São Paulo, a
ciência de se gloriar nas suas fraquezas, é essa uma grande graça e peço a
Jesus que lha ensine, pois somente aí se encontram a paz e o repouso do
coração, quando a gente se vê tão miserável, não quer mais se considerar e Só
olha o único Bem-Amado!...
Minha querida Mariazinha, eu não conheço
outro meio de chegar à perfeição senão o Amor... Amar, como nosso coração é bem
feito para isso!... Às vezes, procuro outra palavra para exprimir o amor, mas,
na terra do exílio, as palavras são impotentes para exprimirem todas as
vibrações da alma, por isso é preciso se ater a essa palavra única: Amar!...
Mas, a quem nosso pobre coração faminto de
Amor o prodigalizará?...Ah! quem será bastante grande para isso?... um ser
humano poderá compreendê-lo?... e,sobretudo,poderá retribuí-lo?... Maria, Só há
um ser, que possa compreender a profundeza dessa palavra: Amar!... Só nosso
Jesus sabe nos retribuir infinitamente mais do que lhe damos...
Maria do Santíssimo Sacramento!...(1) seu
nome lhe diz sua missão... Consolar Jesus, fazê-lo amado pelas almas... Jesus
está doente e é preciso notar que, a doença do amor Só se cura com amor!...(2)
Maria, dê mesmo todo seu coração a Jesus, ele tem sede e fome dele, teu
coração, eis o que ele ambiciona a ponto de, para tê-lo para Ele, consentir se
alojar sob um ambiente sujo e escuro!...(3) Ah! como não amar um amigo, que se
reduz a uma tão extrema indigência? Como ousar alegar ainda sua pobreza, quando
Jesus se torna semelhante a sua Noiva?...Ele era rico e se fez pobre, para unir
sua pobreza à pobreza de Maria do Santíssimo Sacramento...Que mistério de
amor!... (CT 109)
NOTAS
(1) -Marie-Louise-Héléne Guérin era prima
legítima de Santa Teresinha. Antes de entrar no Carmelo, fora-lhe escolhido o
nome de Maria do Santíssimo Sacramento. Todavia, quando entrou no
Carmelo(15-08-95), recebeu o nome de Maria da Eucaristia.
(2) -Cfr. São João da Cruz, Cântico
Espiritual, Explicação da estrofe XI. Note-se que Teresinha inverte a citação
joanina, pois, segundo S.João da Cruz, é a alma que está doente de amor.
(3) -A Santa se refere ao tabernáculo da
igrejinha, que existia na aldeia vizinha à mansão da Musse, onde a família
Guérin passava o verão.
45.A MONTANHA DO
AMOR
A Montanha do Amor, eis a subida da
perfeição, segundo o itinerário místico de São João da Cruz. Santa Teresinha é
uma carmelita e é uma filha autêntica de Santa Teresa e de São João da Cruz.
Aqui, nesta carta bonita, dirigida à Irmã
Inês de Jesus e datada do final de agosto de 1890, nossa Santa se mostra uma
verdadeira carmelitana na exposição de sua caminhada espiritual. Seu caminho,
de fato, é a subida do Monte Carmelo e a subida do Monte Carmelo é a subida da
Montanha do Amor.
Há, porém, um particular. Aqui, Teresa fala
da sua experiência pessoal e, naquele momento da carta, era uma experiência de
secura, de escuridão. A subida da Montanha do Amor era no silêncio, no
solidão,como se fosse num grande subterrâneo. Teresa segue apenas um guia: o
próprio Jesus. E é preciso uma vontade de ferro para não voltar, para não
desistir. Só o amor pode fazê-la caminhar sem parar; avançar sempre, nunca
retroceder. Só o amor, não sentido, é capaz de lhe dar toda a força necessária
para caminhar sem paradas, sem desânimos, sem titubeios. Só o amor!
Mas, é preciso que a solitariazinha lhe diga
o itinerário de sua viagem. Ei-lo. Antes de partir, seu Noivo pareceu lhe
perguntar a que país ela queria viajar, que caminho desejava seguir,etc...A
Noivinha respondeu que Só tinha um desejo, o de subir ao cume da montanha do
Amor.Para aí chegar muitas estradas se lhe ofereciam, e havia tantas perfeitas
que ela se via incapaz de escolher, então disse ao seu divino guia: "Vós
sabeis aonde desejo ir, sabeis por quem quero subir a montanha, por quem quero
chegar ao termo, vós conheceis aquele que amo e aquele que quero contentar
unicamente, é Só por Ele que empreendo essa viagem , conduzi-me, pois, pelos
atalhos que ele gosta de percorrer, se ele ficar contente, estarei no cúmulo da
felicidade. Então, Jesus me tomou pela mão, fez-me entrar em um subterrâneo,
onde não faz frio nem calor, onde o sol não brilha e que nem o vento nem a
chuva visitam, um subterrâneo, onde não vejo nada senão uma claridade semi
velada, a claridade que os olhos abaixados da Face de meu Noivo espalham a seu
redor!...
Meu Noivo não me diz nada e eu, eu não lhe
digo nada também a não ser que eu o amo mais do que a mim e sinto, no fundo do
meu coração, que é verdade, pois sou mais dEle do que de mim!...
Não vejo se avançamos em direção ao termo da
montanha, visto que nossa viagem se realiza sob a terra, contudo me parece que
nos aproximamos sem saber como. O caminho que sigo não é de nenhuma consolação
e,contudo, me traz todas as consolações, visto que foi Jesus quem o escolheu e
porque desejo consolá-lo Só a ele,Só a ele!... (CT 110)
46.DISTANTES
INFINITOS
Distantes infinitos são os panoramas do céu,
onde não haverá mais choro nem dor alguma. Aqui, na terra, o amor é feito, é
provado, é sustentado no sofrimento. Um dos grandes sofrimentos é a morte. Teresa
falará da morte muitas vezes. Aqui, em se tratando da possível morte de Celina,
sua irmã querida, ela sustenta toda a conseqüência de sua fé nos distantes
infinitos.
Como a solução de tudo, para Teresa, é o
amor, ela se depara com um problema sério, que é o da própria vida, isto é, é
uma vida longa que agrada mais, porque se pode amar mais? Além disso, a vida
traz também a problemática do pecado, da ofensa ao Amado e, para quem ama,
ofender ao Amado é inaceitável. Como fazer, se a criatura humana é tão frágil?
Nossa Santa encontra uma solução: podem existir faltas, que não ofendem ao
Amado!
Cordeiro querido,(1)sim, para nós as alegrias
serão sempre misturadas com o sofrimento. A graça de ontem (2) pedia um
coroamento e foi à senhora que Jesus o deu e, depois, a mim, ao mesmo tempo,
pois tudo o que a faz sofrer, fere-me profundamente!...(3)
A senhora acredita que Celina vai morrer de
verdade?...(4). Ontem, prometi-lhe fazer profissão por nós duas, mas não terei
a coragem de pedir a Jesus que a deixe aqui na terra, se essa não é sua
vontade. Parece-me que o amor pode suprir uma vida longa. Jesus não olha o
tempo, visto que ele já não existe no Céu. Ele Só olha o amor. Peça-lhe para mo
dar muito também, não peço amor sensível, mas somente sentido por Jesus. Oh!
amá-lo e fazê-lo amado, como é doce!...Diga-lhe também para me levar no dia da
minha profissão, se devo ofendê-lo ainda depois, pois quisera levar para o céu
o vestido branco de meu segundo batismo sem nenhuma mancha, mas me parece que
Jesus pode muito bem dar a graça de não mais ofendê-lo, ou então, ...não fazer
senão faltas que não o OFENDEM, mas Só fazem humilhar e tornar o amor mais
forte. Se a senhora soubesse como iria longe, se tivesse palavras para exprimir
o que penso, ou, antes,que não penso, mas que sinto!... mas, no fundo da alma,
sente-se que haverá um dia de DISTANTES infinitos, DISTANTES que farão
esquecer, para sempre, as tristezas do deserto e do exílio...
o grãozinho de areia (5) (CT 114)
NOTAS
(1) -Esta carta é dirigida à Irmã Inês(a
palavra Inês significa cordeiro) e foi escrita no dia 3 de setembro de 1890.
(2) -A Santa se refere a uma Bênção de
Leão XIII, que chegara no dia anterior.
(3) -Talvez esta cara seja uma resposta a
uma correspondência de Irmã Inês. Como essa última correspondência desapareceu,
não temos informações a respeito do sofrimento, ao qual a Santa se refere.
(4) -Durante o ano de 1890, Celina
apresentou certas perturbações cardíacas, de origem nervosa, tudo devido ao
estado de saúde do senhor Martin.
(5) - Esta é a última vez que Teresa fará
uso desse simbolismo na sua correspondência.
47.ATÉ AS ALEGRIAS
NATURAIS!
Refletindo sobre o que pôde provocar, no
mundo inteiro, a onda imensa de admiração e devoção a santa Teresinha, não
podemos negar que um dos motivos principais foi, certamente, porque os homens
do nosso tempo, finalmente, viram um santo igual a eles, isto é, humano como
eles, simples e fraco como eles, sentindo o que eles sentem, e mostrando, ao
mesmo tempo, que,mesmo assim, é possível ser um santo, ou seja, alguém que ama
apaixonadamente a Deus e aos seus irmãos.
Nesta carta, de 30 de setembro de
1890,dirigida a Celina, Teresa extravasa sua alma, bem humana, cheia de
tristeza, porque não pode ter seu querido Pai junto de si, na solenidade de
Tomada de Hábito, no dia 24 de setembro. Teresa, então, sente-se órfã de
verdade; sente uma tristeza humana profunda, mas logo encontra uma resposta e
um consolo para tudo isso. É que até as alegrias naturais lhe são negadas! Por
quê? Ela não sabe bem, porque é tudo um grande mistério. Todavia, o amor
procura compreender e consolar. Um amor puro e desinteressado. E é isso que
conta, no final de tudo.
Oh! Celina, como lhe dizer o que se passa na
minha alma?... Ela está despedaçada, mas sinto que essa ferida é feita por uma
mão amiga, por uma mão divinamente ciumenta!...
Tudo estava pronto para minhas bodas, não
acha que faltava alguma coisa para a festa? É verdade que, Jesus já pusera
muitas jóias na minha corbelha, mas faltava, sem dúvida, uma de uma beleza incomparável
e esse diamante precioso Jesus mo deu hoje...Celina...ao recebê-lo, minhas
lágrimas rolaram...elas rolam ainda e quase me reprovaria, se não soubesse
"Que existe um amor, do qual as lágrimas são o único penhor"(1) Foi
Só Jesus quem conduziu esse negócio, foi Ele, e reconheci seu toque de amor...
Você sabe como desejava ,esta manhã, rever
nosso Pai querido, pois bem, agora, vejo claramente que a vontade do bom Deus é
que ele não esteja aqui. Ele permitiu isso simplesmente para provar nosso
amor... Jesus me quer órfã, quer que eu esteja Só com Ele Só para se unir ,
mais intimamente, a mim e Ele quer também me dar, na Pátria, as alegrias, tão
legítimas, que me recusou no exílio!... Celina, console-se. nosso esposo é um
esposo de lágrimas e, não, de sorrisos, demos-lhe nossas lágrimas para
consolá-lo e, um dia, essas lágrimas se mudarão em sorrisos de uma doçura
inefável!...
Celina, não sei se você vai compreender minha
carta. Sustento a caneta com dificuldade...e, depois, outra dar-lhe-ia muitas
explicações sobre o parlatório com meu Tio, mas sua Teresa não sabe lhe falar
senão a linguagem do Céu.
A provação de hoje é uma dor difícil para se
compreender. Vemos uma alegria, que nos é oferecida, ela é possível, natural,
avançamos a mão... e não podemos pegar essa consolação tão desejada... mas,
Celina, como tudo isso é misterioso!...não temos mais asilo(2) aqui na terra,,
ou, pelo menos, você pode dizer como a Santíssima Virgem "Que asilo",
sim, que asilo... mas não foi uma mão humana que fez isso, foi Jesus, foi seu
olhar velado, que caiu sobre nós!... Recebi uma carta do Padre exilado(3) e eis
aqui uma passagem dela: "Oh! meu aleluia é impregnado de lágrimas. Nem um,
nem outro de seus pais estará aí para oferecê-la a Jesus. É preciso lastimá-la
muito aqui na terra, quando no alto os anjos a felicitam e os santos a invejam?
É sua coroa de espinhos, que os torna invejosos. Ame, pois, suas furadas, como
outras tantas provas de amor do divino esposo".
Celina, aceitemos, de bom coração, o espinho
que Jesus nos apresenta, a festa de amanhã será uma festa de lágrimas para nós,
mas sinto que Jesus ficará tão consolado! Ah! se pudesse lhe comunicar a paz,
que Jesus colocou na minha alma, no auge das minhas lágrimas!
Celina!...as sombras declinam e a figura
desse mundo passa, logo, sim, logo veremos o rosto desconhecido e amado, que
nos encanta pelas suas lágrimas. (CT 120)
NOTAS
(1) -Citação de uma poesia de Celina,
intitulada "O Divino Charme".
(2) -Nossa Santa se refere à situação dos
Buissonnets. Com efeito, em outubro de 1889, os móveis dos Buissonnets foram
retirados para dar lugar a novos inquilinos. Existe uma lembrança muito bonita
de Celina a respeito dessa ocasião, quando o fiel Tom (cachorro de
Teresinha),fez a maior festa.
(3) -Trata-se do Pe.Pichon, que se
encontrava no Canadá.
48.SIMPLICIDADE
COM A MÃE
Santa Teresinha tem uma poesia, que se
encontra nesta coleção(veja página ), na qual ela expõe as razões do seu
bem-querer à Virgem Santíssima.
Nesta carta, de 18 de outubro de 1892,
dirigida a Celina, o que encanta é a simplicidade como ela trata a Mãe de Deus.
Aliás, esse é o cunho da devoção teresiana a Maria: a simplicidade. Santa
Teresinha enxergava a Virgem Santíssima com os olhos de uma criança, que ama
apaixonadamente sua mãe. Sem rodeios, sem mistérios, sem muitos enigmas, Teresa
criou um relacionamento autêntico e evangélico com Maria. Este texto é um
exemplo desse relacionamento encantador entre filha e Mãe.
Jesus atraiu-nos juntas, embora por caminhos
diferentes, juntas ele nos elevou acima de todas as coisas frágeis deste mundo,
cuja figura passa(1). Ele colocou, por assim dizer, todas as coisas sob nossos
pés. Como Zaqueu subimos em uma árvore para ver Jesus... Então, podíamos dizer
com São João da Cruz: "Tudo é meu,tudo é para mim, a terra é minha, os
céus são meus, Deus é meu e a Mãe de meu Deus é minha"(2).
A propósito da Virgem Santíssima, devo lhe
confiar uma das minhas simplicidades com ela. Às vezes, surpreendo-me a lhe
dizer: "Mas, minha boa Santíssima Virgem, acho que sou mais feliz do que a
senhora, pois a tenho como Mãe, e a senhora não tem a Santíssima Virgem par
amar... É verdade que, a senhora é a Mãe de Jesus, mas a senhora nos deu
inteiramente esse Jesus... e Ele, na cruz, no-la deu como Mãe. Assim, somos
mais ricos do que a senhora, visto que possuímos Jesus e a senhora é nossa
também. Outrora, na sua humildade, a senhora desejava ser, um dia, a servazinha
da feliz Virgem, que teria a honra de ser a Mãe de Deus(3) e eis que eu, pobre
criaturinha, sou não sua serva, mas sua filha, a senhora é a Mãe de Jesus e
minha Mãe". Sem dúvida, a Santíssima Virgem deve sorrir de minha
ingenuidade e, contudo, o que lhe digo é muito verdadeiro!...
(CT 137)
NOTAS
(1) -I Cor 7,31
(2) -S.João da Cruz, Oração da alma
abrasada de amor.
(3) -Entre outras fontes possíveis desta
opinião, pode-se citar o "Ano Litúrgico", de Dom Guéranger, na
meditação do dia 9 de dezembro.
49.GOTA DE ORVALHO
Todos sabem que a mensagem teresiana é,
basicamente, a mensagem da pequenez, da simplicidade, da humildade envolvida no
amor. Pois bem, para explicitar essa pequenez, nossa Santa usou de vários
símbolos. Entre eles, um é o da gota de orvalho. Nesta carta, dirigida a
Celina, e escrita aos 25 de abril de 1893, ela pergunta:"Que há de mais
simples e mais puro do que uma gota de orvalho?" Então, é preciso ser uma
gota de orvalho! Assim, nossa Santa explicita suas idéias sobre a pequenez e a
simplicidade diante de Deus.
Uma gota de orvalho, que há de mais simples e
de mais puro? Não foram as nuvens que a formaram, visto que, o orvalho desce
sobre as flores, quando o azul do Céu está estrelado. Ela não é comparável à
chuva, que ela supera em frescura e beleza. O orvalho Só existe durante a
noite, assim que o Sol dardeja seus raios quentes, faz destilar as encantadoras
pérolas, que cintilam na extremidade das hastes das ervas do prado e o orvalho
se muda em um vapor ligeiro.
Feliz gotinha de orvalho, Só conhecida por
Jesus!...(1) não pare para considerar o curso dos rios ruidosos, que provocam a
admiração das criaturas. Não inveje nem mesmo o ribeiro cristalino, que
serpenteia nos prados. Sem dúvida, seu murmúrio é bem doce... Mas, as criaturas
podem ouvi-lo... e, depois, o cálice da flor dos campos não poderia
contê-lo.Ele não pode existir Só para Jesus. Para ser dEle, é preciso ser
pequeno, pequeno como uma gota de orvalho!... Oh! como há poucas almas, que
aspiram a ficar assim pequenas!...(2) Mas, dizem elas, os rios e os riachos não
são mais úteis do que a gota de orvalho? que faz ela? não serve para nada a não
ser para refrescar, por alguns instantes, uma flor dos campos que existe hoje
e, amanhã, terá desaparecido... Sem dúvida, essas pessoas têm razão, a gota de
orvalho Só serve para isso, mas elas não conhecem a flor campestre, que quis
habitar na nossa terra de exílio e aí ficar durante a curta noite da vida.Se
elas a conhecessem, compreenderiam a censura que Jesus fez, outrora, a Marta...
Nosso Bem-Amado não tem necessidade de nossos belos pensamentos, de nossas
obras brilhantes. Se ele quiser pensamentos sublimes, não tem os anjos, suas
legiões de espíritos celestes, cuja ciência supera infinitamente a dos maiores
gênios da nossa triste terra?... Não foi, portanto, o espírito e os talentos
que Jesus veio buscar aqui na terra.. Ele se fez a flor dos campos para nos
mostrar quanto adora a simplicidade. O Lírio do Vale não aspira senão por uma
gotinha de orvalho...
Durante a noite da vida, ela(3) deverá ficar
escondida a todo olhar humano, mas quando as sombras começarem a declinar,
quando a flor dos campos se tornar o Sol da justiça, quando Ele vier para
completar sua corrida de gigante, irá se esquecer de sua gotinha de orvalho?...
Oh! não! desde quando aparecer na sua glória, sua companheira de exílio aí
aparecerá também. O divino Sol fixará sobre ela um dos seus raios de amor e,
logo, mostrar-se-á aos olhares dos anjos e dos santos deslumbrados a pobre
gotinha de orvalho, que cintilará como um diamante precioso que, refletindo o
Sol da justiça, tornar-se-á semelhante a Ele. Mas, não é tudo! O astro divino,
ao olhar sua gota de orvalho, atrai-la-á para Ele, ela subira como um ligeiro
vapor e irá se ficar, para a eternidade, no seio da fornalha ardente do amor
incriado(4) e, para sempre, ficará unida a Ele. Assim como na terra foi a fiel
companheira de seu exílio, de seus desprezos, assim no Céu reinará
eternamente...
Em que estupefação ficarão então mergulhados
aqueles que, neste mundo,consideraram como inútil a gotinha de orvalho!... Sem
dúvida, terão uma desculpa, o dom de Deus não lhes fora revelado, não aproximaram
seus corações ao da flor dos campos e não ouviram estas palavras arrebatadoras
"Dá-me de beber"(5). Jesus não chama todas as almas a serem gotas de
orvalho.(6) Ele quer que existam licores preciosos, que as criaturas apreciem,
que as aliviem nas suas necessidades, mas para Ele reserva uma gota de orvalho.
Eis toda sua ambição...
Que privilégio ser chamada para uma tão alta
missão!... Mas, para correspondê-la é preciso permanecer simples... Jesus sabe
muito bem que, na terra é difícil se conservar puro, por isso quer que suas
gotas de orvalho se ignorem a si mesmas, Ele se compraz em contemplá-las, mas
Só Ele as olha e elas, não conhecendo seu valor,estimam-se abaixo das outras
criaturas... Eis o que deseja o Lírio dos valeszinhos.
(CT 141)
NOTAS
(1) -Nesta carta, Santa Teresinha compara
Celina a uma gota de orvalho. Portanto, aqui, refere-se a sua irmã, Celina.
(2) -É a primeira vez que aparece, nos
escritos teresianos, a expressão "ficar pequeno". Mais adiante, em
outro texto, nossa Santa vai explicar o que significa para ela "permanecer
pequeno".
(3) -Aqui, a Santa se refere ainda a
Celina.
(4) -São João da Cruz fala da gota de
orvalho, que é transformada num vapor imperceptível. Não se sabe, porém, que
influência o texto joanino teve sobre o pensamento teresiano. Por outro lado, é
de notar que a expressão "amor incriado" Só aparece esta vez nos
escritos de nossa Santa. Ela, diferentemente de Santo Tomás de Aquino, que usa
dessa expressão para designar o Espírito Santo, indica, aqui, a Jesus.
(5) -João 4,7. Entre os anos 1889-90,
Teresinha pensa mais na sede de Jesus crucificado(Jo 19,28). Em 1893, a Santa
se refere mais à sede do epiSódio da Samaritana, como é, aqui, o caso. A
partir, porém, de 1895, combinará os dois temas evangélicos.
(6) -Aqui, Santa Teresinha se mostra uma
doutora de espiritualidade. Com efeito, ela esclarece, imediatamente, que cada
pessoa tem sua missão e, assim, tem sua própria vocação, sua própria
espiritualidade, que depende, por outro lado, também, da sua personalidade.Teresa
não quer, a bem da verdade, que todas as pessoas sigam seu caminho, nem julga
que ele é o único para todo o mundo. Esta é, sem dúvida, uma visão clara e
profunda dos caminhos de Deus na direção das pessoas.
50.NA BANCA DO
AMOR
Em geral, as cartas dirigidas a Celina, como
esta, são cheias de ensinamentos e mensagens. Teresa fala a Celina como uma
mestra fala a sua discípula. Isso é muito bom, porque, assim, a espiritualidade
teresiana vem, pouco a pouco, sendo apresentada, de tal maneira que, no conjunto
das cartas, podemos ter uma visão de muitas facetas do caminho espiritual
teresiano.
Nesta carta, partindo da idéia da Banca do
Amor, onde Teresa foi instruída por Jesus mesmo a jogar, nossa Santa fala sobre
vários temas espirituais e até temas teológicos correlatos. Assim, analisa a
questão dos méritos pessoais diante de Deus; do sentido e essência da
perfeição, que já comentara anteriormente(p. ); da mirra na nossa vida; da
famosa gota de orvalho e, finalmente, como arremate e sentido de tudo, do amor,
a única e necessária coisa a se fazer para agradar a Deus, ou, como diz Teresa,
a Jesus.
Agora, eis-nos todas as cinco,(1) no nosso
caminho. Que felicidade poder dizer: "Estou segura de fazer a vontade do
bom Deus".
"É verdade, (pensa,talvez, minha
Celina), mas, enfim, faço menos que as outras pelo bom Deus, tenho mais
consolações e, por conseguinte, menos méritos".-(Meus pensamentos não são
vossos pensamentos, diz o Senhor) (2). O mérito não consiste em fazer nem em
dar muito, mas, antes, em receber, em amar muito...(3). Diz-se que, é bem mais
doce dar do que receber(4), e é verdade, mas então, quando Jesus quer tomar
para si a doçura de dar, não seria gracioso recusar. Deixemo-lo tomar e dar
tudo o que quiser. A perfeição consiste em fazer sua vontade, e a alma que se
entrega inteiramente a Ele, é chamada pelo próprio Jesus "Sua Mãe, Sua
Irmã" e toda sua família(5). E, alhures: "Se alguém me ama, guardará
minha palavra(isto é, fará minha vontade) e meu Pai o amará, e viremos a ele e
faremos nele nossa morada" (6). ó Celina! como é fácil agradar a Jesus,
encantar seu coração! Basta amá-lo sem olhar para si mesmo, sem examinar demais
seus defeitos.Sua Teresa não se encontra nas alturas neste momento, mas Jesus
lhe ensina "a tirar proveito de tudo, do bem e do mal que ela encontra em
si" (7). Ele lhe ensina a jogar na banca do amor, ou, antes, Ele joga por
ela sem lhe dizer como se arranja, porque esse é seu negócio e ,não, o de
Teresa.O que lhe diz respeito é de se abandonar, de se entregar sem reservar
nada, mesmo a alegria de saber quanto lhe rende a banca (8). Mas, depois de
tudo, ela não é o filho pródigo. não vale a pena que Jesus lhe faça um festim
"pois ela está sempre com Ele"(9). Nosso Senhor quer deixar as
ovelhas fiéis no deserto"(10). Como isso me diz muito!... Ele está seguro
delas; não poderiam mais se desgarrar, pois são cativas do amor, por isso,
Jesus lhes encobre sua presença sensível para dar suas consolações aos
pecadores, ou então, se as conduz ao Tabor é por poucos instantes, o vale é,
muito mais vezes, o lugar de seu repouso. É lá que ele toma seu repouso ao
meio-dia(11). A manhã de nossa vida passou, gozamos das brisas perfumadas da
aurora, então, tudo nos sorria, Jesus fazia-nos sentir sua doce presença, mas
quando o Sol ficou forte, o bem-Amado nos conduziu ao seu jardim, fez-nos
recolher a mirra da provação, separando-nos de tudo e dEle mesmo. A colina da
mirra (12) nos fortificou com seus perfumes amargos, por isso Jesus nos fez
descer e,agora, estamos no vale. Ele nos conduz docemente ao longo das
águas...(13).
Ah! sejamos sempre a gota de orvalho de
Jesus, aí está a felicidade, a perfeição... Felizmente é a você que falo, pois
outras pessoas não poderiam compreender minha linguagem e confesso que ela não
é verdadeira senão para poucas almas. Com efeito, os diretores fazem avançar na
perfeição, mandando fazer um grande número de atos de virtudes e têm razão, mas
meu diretor, que é Jesus, não me ensina a contar meus atos(14). Ensina-me a
fazer tudo por amor, a não lhe negar nada, a estar contente quando me dá uma
ocasião de Lhe provar que o amo, mas isso se faz na paz, no abandono, é Jesus
quem faz tudo e eu não faço nada(15)
(CT 142)
NOTAS
(1) -Leônia entrara no Convento da
Visitação, de Caen, aos 23 de junho de 1893.
(2) -Isaías 55,8
(3) -É curioso como Santa Teresinha,
muitas vezes, se adentra em questões teológicas, mesmo sem ter estudo teologia.
É que os santos têm a luz da inspiração particular, pela união profunda com
Deus. Aqui, mais uma vez, nossa Santa enfrenta um tema teológico e um tema
muito discutido: o mérito. Entre católicos e protestantes há aqui uma diferença
imensa, porquanto os primeiros afirmam que o homem pode e deve ter méritos
diante de Deus, enquanto que os segundos negam qualquer possibilidade de mérito
da parte do homem decaído pelo pecado original. Ora bem, Teresinha, aqui,
apresenta um conceito de mérito, catolicamente verdadeiro, que soluciona a
questão para todos. Na verdade, o mérito não é, propriamente, uma questão de
justiça, mas uma questão de amor. Tudo é graça e o próprio mérito é graça.
Logo, a essência do mérito não é, propriamente, dar, fazer, mas saber receber,
corresponder, ou seja, amar. Quem olha o mérito como uma ação Só do homem,
engana-se. O mérito é obra bipolar, isto é, de Deus e do homem. É nesse amor
mútuo, nessa correspondência que está a essência do chamado mérito.
(4) -Atos dos Apóstolos 20,35
(5) -Mateus 12,50; Marcos 3,35; Lucas
8,21
(6) -João 14,23
(7) -S.João da Cruz, Glosa sobre o
divino.
(8) -Talvez nossa Santa tenha aprendido
essa expressão "jogar na banca" na casa dos Guérin-La Néele.
Encontramos a expressão em uma carta de Joana La Néele a Leônia.
(9) -Lucas 15,31.
(10)-Mateus 18,12
(11)-Cântico dos Cânticos 1,7
(12)-Cf. Cântico dos Cânticos 4,6
(13)-Cf. Salmo 23,2
(14)- É interessante que Santa Teresinha,
vivendo a norma de São Paulo de participar dos sentimentos dos irmãos, em
breve, voltará à sua antiga prática do "terço de práticas", para
estimular uma religiosa do seu Carmelo.
(15)-Entenda-se esse "não faço
nada" dentro do contexto teresiano da noção de graça e de mérito. Teresa
viveu uma vida intensa de sacrifícios, de lutas, de penitências, de esforço
para ser uma santa, todavia, ela sabia que tudo era graça de Deus, e,por isso,
procurou, coerentemente, reconhecer-se pequena, humilde, impotente, dependente
totalmente de Deus pelo abandono e a confiança. No fundo, toda essa dialética
espiritual e teológica é conseqüência do amor.
51.OS NADAS
IMPORTANTES
Santa Teresinha insistiu sempre que a
perfeição não consiste em fazer grandes coisas. Pelo contrário, às vezes, são
pequenos nadas, que se tornam muito importantes na nossa vida. Aliás, isso
acontece até na vida natural do relacionamento com as pessoas. Um sorriso, um
tapinha no ombro, às vezes, mudam todo um pensar, desanuvia toda uma tristeza
profunda. Assim, diz nossa Santa, há pequenos nadas, que são muito importantes
na nossa vida espiritual, sobretudo quando nos sentimos incapazes de algo mais
forte, mais elevado.
Essa é a doutrina também de S.João da Cruz,
que chega a nos falar da oração do homem, algumas vezes, como se fosse apenas
uma presença de um pobre animal diante de Deus, tal são a fraqueza, a
insensibilidade e a impotência nossa em muitas ocasiões da vida. Teresinha,
como grande mística, pela própria experiência, descobriu o sentido dessa
doutrina joanina e aproveitou-a em toda sua profundidade, já que ela é também
uma conseqüência lógica de toda sua mensagem espiritual.
Celina (1), o bom Deus não me pede mais
nada...no começo, Ele me pedia uma infinidade de coisas. Pensei, durante algum
tempo, que,agora, já que Jesus não pedia nada, era preciso ir, docemente, na
paz e no amor, fazendo somente o que Ele pedia... Mas, tive uma luz. Santa
Teresa diz que é preciso entreter o amor(2). A lenha não se encontra a nosso
alcance, quando estamos nas trevas, nas securas, mas, ao menos, não estamos
obrigadas a por aí pequenas palhas? Jesus é bastante poderoso para, sozinho,
conservar o fogo, contudo ele fica contente em nos ver colocar nele um pouco de
alimento, é uma delicadeza que lhe dá prazer e, então, Ele joga no fogo muita
lenha, não o vemos, mas sentimos a força do calor do amor. Tenho tido
experiência disso, quando não sinto nada, quando sou INCAPAZ de rezar, de
praticar a virtude, é, então, o momento de procurar pequenas ocasiões, nadas
que dão prazer, mais prazer a Jesus do que o império do mundo, ou mesmo, do que
o martírio sofrido generosamente, por exemplo, um sorriso, uma palavra amável,
quando teria vontade de não dizer nada, ou de mostrar uma cara aborrecida,etc...
Não é para fazer minha coroa, para ganhar
méritos, é a fim de dar prazer a Jesus...Quando não tenho ocasiões, quero, pelo
menos, dizer-lhe muitas vezes que o amo. Não é difícil e isso alimenta o fogo.
Mesmo quando me parecesse que estaria apagado esse fogo de amor, quisera lançar
nele alguma coisa e Jesus saberia, então, reacendê-lo. Celina, temo medo de não
ter dito o que é preciso, talvez, você vai crer que faço sempre o que digo. Oh!
não! não sou sempre fiel, mas jamais me desencorajo, abandono-me nos braços de
Jesus.(3). A gotinha de orvalho se afunda mais ainda no cálice da Flor dos
campos e aí ela reencontra tudo que perdeu e bem mais ainda.
(CT 143)
NOTAS
(1) -Esta carta, datada de 18 de julho de
1893, é dirigida a Celina.
(2) -Vida, cap.30
(3) -A nenhum leitor de Santa Teresinha
passa despercebida sua devoção,toda particular, a Jesus. Ele é o centro de toda
sua atenção. Na verdade, a Santa concentra seu amor ao bom Deus em Jesus, pois,
Ele é, como diz São Paulo, o único mediador entre Deus e os homens. Teresa
quase não se refere a Cristo e ao Espírito Santo. O centro de sua atenção é, de
fato, Jesus,concreto, histórico, real,que viveu e morreu e que continua vivo na
Eucaristia.
52.AS FLORES DO
CAMINHO
Um pouco atrás(p. ),vemos como Santa Tersinha
se mostrou profundamente humana, diante da dor de não poder ter, ao seu lado,
seu querido pai, no dia da sua tomada de hábito. Na dramática carta dirigida a
Celina, ela se mostrou como realmente era,isto é, uma criatura humana, feminina,
cheia de sentimentos e que sofria pela falta de uma alegria tão natural como
era rever seu velho, doente e querido pai.
Nesta carta, também dirigida a Celina, em
outubro de 1893, nossa Santa volta ao mesmo tema. Aqui, ela usa o simbolismo
das flores do caminho. Flores do caminho são as pequenas e bonitas coisas, que
podemos encontrar às margens da estrada da nossa vida.São florzinhas
encantadoras e simples, que não fazem mal a ninguém e Só servem para enfeitar e
alegrar o caminhar do peregrino. Todavia, também com relação a essas flores,
nossa Santa exige um desapego total. Com efeito, nada, absolutamente nada deve
impedir nossa ligeira marcha no amor exclusivo para Deus.É evidente que, Santa
Teresinha não quer dizer que devemos nos esquecer do mundo e das pessoas. Ela
quer assinalar, apenas, a liberdade, a libertação e o desapego de todo aquele
que quer, realmente, amar a Deus sobre todas as coisas.
Oh! sim, somente Ele entende quando nada nos
responde(1)...Somente Ele dispõe os acontecimentos de nossa vida de exílio; é
Ele quem nos apresenta, às vezes, o cálice amargo. Mas, não o vemos. Ele se
esconde, oculta sua mão Divina e não podemos perceber senão as criaturas ,
então, sofremos, visto que a voz de nosso Bem-Amado não se faz ouvir e a das
criaturas parecem nos menosprezar... Sim, o sofrimento mais amargo é de não ser
compreendida... Mas, esse sofrimento não será jamais o de Celina e de Teresa,
jamais, pois seus olhares vêem mais alto que a terra, elas se elevam acima do
criado, quanto mais Jesus se esconde, tanto mais sentem que Jesus está perto
delas. Na sua fina delicadeza, Ele caminha adiante,desviando as pedras do
caminho, afastando os répteis; isso não é nada ainda, Ele faz vibrar aos nossos
ouvidos vozes amigas, essas vozes nos advertem de não marchar com demasiada
segurança... E por quê? Não foi Jesus mesmo quem traçou nossa rota? Não é Ele
quem nos ilumina e se revela a nossas almas?... Tudo nos leva para Ele, as
flores que crescem às margens do caminho não cativam nossos corações(2), nós as
olhamos, amamo-las, pois nos falam de Jesus, de seu poder, de seu amor, mas
nossas almas ficam livres, por que perturbar assim nossa doce paz? Por que
temer a tempestade, quando o Céu está sereno?... Não são os precipícios que é
preciso evitar, estamos nos braços de Jesus e, se vozes amigas nos aconselham
temer, é o nosso Bem-Amado mesmo que o quer assim e por quê?... Ah!no seu amor,
escolheu para suas esposas o mesmo caminho que escolheu para Si...Ele quer que
as mais puras alegrias se mudem em sofrimentos, a fim de, não tendo, por assim
dizer, nem sequer o tempo de respirar à vontade, nosso coração se volte para
Ele, pois Só Ele é nosso Sol e nossa alegria...
As flores do caminho são os prazeres puros da
vida, não há nenhum mal em gozá-los, mas Jesus é ciumento de nossas almas. Ele
deseja que todos os prazeres sejam para nós misturados de amargura...E,contudo,
as flores do caminho conduzem ao Bem-Amado, mas é um caminho desviado, é a
placa ou o espelho que reflete o Sol, mas não é o próprio Sol...
(CT 149)
NOTAS
(1) -Esta frase é atribuída a Santo
Agostinho.
(2) -Talvez, aqui, tenhamos uma lembrança
de S.João da Cruz, Cântico Espiritual, estrofe III, verso 3: "Buscando
meus amores, irei por esses montes e ribeiras, nem colherei as flores...".
53.A PALAVRA E A
VERDADE
Aos 7 de julho de 1894, Teresa escreveu uma
longa carta a Celina. Nesta carta,nossa Santa fala sobre uma série de questões
importantes para a vida espiritual. É como se estivéssemos diante de uma
bandeja cheia de belas frutas. É difícil saber escolher o que há aí de melhor.
Todavia, com certo esforço, podemos assinalar alguns pontos interessantes.
Um desses pontos é a referência à Palavra e à
Verdade. Palavra e Verdade, que são o próprio Jesus. Terie ama as Escrituras e
vê nelas o campo cheio de tesouros. Se fosse padre, disse, estudaria grego e
hebraico para ler a Palavra de Deus tal como Ele se dignou escrever em
linguagem humana. Com efeito, seus escritos são cheios de citações ou
referências bíblicas, e isso em um tempo em que não havia tantas edições das
Escrituras e quando era quase impossível possuir uma Bíblia Só para si.
Eis aí muito bem a imagem de nossas almas;
muitas vezes descemos aos vales férteis, onde nosso coração gosta de se
alimentar; o vasto campo das Escrituras(1) que, tantas vezes, se abriu diante
de nós para derramar em nosso favor seus ricos tesouros, esse vasto campo nos
parece ser um deserto árido e sem água... Não sabemos mais onde estamos, ao
invés da paz, da luz Só encontramos a perturbação, ou, ao menos, as trevas...
Que apelo o do nosso Esposo!... O quê! não
ousávamos mais nem sequer olhar para nós, tanto pensávamos estar sem brilho e
sem enfeites e Jesus nos chama, quer nos considerar à vontade, mas Ele não está
Só, com Ele as duas outras pessoas da Santíssima Trindade(2) vêm tomar posse de
nossa alma... Jesus o prometera, certa vez, quando estava perto de retornar a
seu Pai e nosso Pai(3). Ele dizia com uma inefável ternura: "Se alguém me
ama, guardará minha palavra e meu Pai o amará e viremos a ele e faremos nele
nossa morada"(4). Guardar a palavra de Jesus, eis a única condição de
nossa felicidade, a prova de nosso amor por Ele. Mas, que é essa palavra?...
Parece-me que a palavra de Jesus é Ele mesmo... Ele, Jesus, o Verbo, a Palavra
de Deus!(5)Ele no-lo diz, mais adiante, no mesmo evangelho de S.João, rezando a
seu Pai pelos seus discípulos. Ele se exprime assim: "Santificai-os pela
vossa palavra, vossa palavra é a verdade"(6); em outro lugar, Jesus nos
ensina que Ele é o caminho, a verdade, a vida(7).Sabemos, pois, qual é a
Palavra, que devemos guardar; não perguntaremos a Jesus, como Pilatos:
"Que é a Verdade?"(8). Nós possuímos a Verdade.Guardamos Jesus nos
nossos corações!...
Muitas vezes, como a Esposa, podemos dizer
que "Nosso bem-Amado é um ramalhete de mirra"(9), que Ele é para nós
um esposo de sangue... Mas, como nos será doce ouvir, um dia, esta palavra tão
doce sair da boca de nosso Jesus: "Fostes vós que permanecestes
constantemente comigo em todas as provações que tive, por isso, eu vos preparei
meu reino como meu Pai mo preparou"(10). As provações de Jesus, que
mistério! Ele também tem as suas provações? Sim, Ele as tem e, muitas vezes,
está Só a pisar o vinho no lagar, busca consoladores e não os pode
encontrar...Muitos servem a Jesus, quando Ele os consola, mas poucos consentem
fazer companhia a Jesus dormindo sobre as ondas ou sofrendo no jardim da
agonia! Quem,pois, vai querer servir Jesus por Ele mesmo? Ah! seremos nós!...
(CT 165)
NOTAS
(1) -Imitação de Cristo, L.III, cap.LI,
n.2
(2) -Teresa tinha uma devoção toda
especial à Santíssima Trindade. Na verdade, ela, quando escreve, refere-se mais
a Jesus, mas todo seu ideal é caminhar para a Trindade.Em certos grandes
momentos, ela se dirige mesmo à Trindade, como foi o caso do Ato de Consagração
ao Amor Misericordioso.
(3) -O título de "Pai", dado a
Deus, encantava Teresinha. Certo dia, chegou a chorar, enquanto rezava o
"Pai-Nosso", tanta foi a emoção ao meditar que Deus era seu Pai!
Aliás, está bem dentro da sua espiritualidade a consideração de Deus como Pai.
Ela se considerava a filha querida de Deus e, como nos tempos de criança
sustentava, sem receios, na mão de seu pai, enquanto caminhava, assim ela quer,
durante toda sua vida, abandonar-se, sem medo, nos braços de seu Pai do Céu.
(4) -João 14,23
(5) -Por aqui podemos entender como Santa
Teresinha punha todo seu relacionamento com Deus em Jesus, pois Ele é o Verbo,
a Palavra de Deus, portanto, o Caminho, a Verdade, a Vida de todos nós.
(6) -João 17,17
(7) -João 14,6
(8) -João 18,38
(9) -Cântico dos Cânticos 1,13
(10)-Lucas 22,28-29
54.O MARTÍRIO DO
CORAÇÃO
Durante muito tempo, Santa Teresinha sonhou
com o martírio de sangue, para dar a Deus uma prova de seu amor. Com o tempo,
ela descobriu outro tipo de martírio muito mais profundo, o martírio do
coração.
O martírio do coração é, como diz a Santa, o
sofrimento íntimo da alma. É aquele sofrimento, que ninguém vê, nem sabe que
existe. É aquele sofrimento escondido, que sofremos sozinhos. É aquela morte
psicológica, que parece que nos arrasa completamente, sobretudo quando não
ouvimos voz por perto, nem vemos uma mão que se estenda para nos ajudar.
Martírio do coração, eis o martírio muito mais profundo e penoso, porque junto
dele não há barulho, não há choro, não há compaixão, não há companhia. Mas,
esse martírio, quando é bem sofrido, Só traz a paz e a alegria.
Não estou surpresa com suas provações(1),
passei por elas no ano passado e sei o que são!... O bom Deus quis que eu
fizesse meu sacrifício, fi-lo e, depois, como você, senti a calma no meio do
sofrimento(2).
Mas, senti ainda outra coisa, é que, muitas
vezes, o bom Deus Só quer nossa vontade, Ele pede tudo e, se nós lhe recusamos
a menor coisa, ele nos ama demais para nos ceder, mas, desde que a nossa
vontade se conforme à sua , que ele veja que é somente Ele que buscamos, então,
porta-se a nosso respeito como outrora com Abraão...
As cruzes exteriores, que são elas?
Poderíamos nos separar uma da outra sem sofrer, se Jesus consolasse nossas
almas... O que é uma cruz verdadeira é o martírio do coração, o sofrimento
íntimo da alma, e essa cruz que ninguém vê, poderemos carregá-la sem jamais nos
separar.
Quando a tempestade é muito forte na terra,
todo o mundo diz: "Não há nada a temer pelos barcos, pois a tempestade não
ruge mais agora no mar"(3). Pois bem, eu digo a Celina- A tempestade
passou sobre minha alma, ela visita agora a sua, mas não temo, logo a calma vai
renascer, uma grande serenidade vai suceder à tempestade.
(CT 167)
NOTAS
(1) -Esta carta é dirigida a Celina e foi
escrita aos 18 de julho de 1894.
(2) -A Santa se refere ao sacrifício das
afeições familiares, diante da possível ida para um Carmelo, nas Missões do
Oriente.
(3) -É um adágio local.
55.QUEM É
REALMENTE LOUCO?
Celina se preparava para entrar no Carmelo.
De seus primos, sente uma reação contra sua entrada. Comunica, então, tudo a
Teresa. Esta, por sua vez, aproveita da ocasião, para expor seu pensamento
sobre a vocação da contemplativa. Sem ofender ninguém, mas também sem omitir
alguns acusadores, nossa Santa procura dar uma resposta simples. Não entra
propriamente no mérito da questão, mas suas palavras têm a força de uma
pregação vibrante, porque provoca o leitor a refletir e a discutir consigo
mesmo o problema.
Não estou admirada com a tempestade que ruge
em Caen. F. e J.(1) escolheram um caminho tão diferente do nosso, que eles não
podem compreender a sublimidade de nossa vocação!... Mas, rir melhor, quem rir
por último... Após esta vida de um dia, eles compreenderão quais de nós ou
deles terão sido os mais privilegiados...
Estou muito feliz, minha Celina, irmãzinha,
que você não sinta atrativo sensível ao vir para o Carmelo, é uma delicadeza de
Jesus, que quer receber de você um presente. Ele sabe que, é bem mais doce dar
que receber(2). Só temos o curto instante da vida para dar ao bom Deus... e Ele
já se prepara para dizer: "Agora, é minha vez..."(3). Que felicidade
sofrer por Aquele que nos ama loucamente e passar por loucas aos olhos do
mundo. Julga-se os outros segundo si mesmo e, como o mundo é insensato, pensa,
naturalmente, que nós somos insensatas!... Mas, depois de tudo, não somos as
primeiras, o único crime que foi imputado a Jesus por Herodes foi o de ser
louco e penso como ele!... sim, era loucura procurar os pobres coraçõeszinhos
dos mortais para fazer deles seus tronos, justamente Ele, o Rei da Glória, que
está assentado sobre os querubins... Ele, cuja presença não pode encher os
Céus...(4) Era louco nosso Bem-Amado para vir à terra procurar pecadores para
fazer deles seus amigos, seus íntimos, seus semelhantes, Ele, que era
perfeitamente feliz com as duas adoráveis pessoas da Trindade!... Não poderemos
jamais fazer por Ele as loucuras, que Ele fez por nós e nossas ações não
merecerão esse nome, pois são apenas atos muito razoáveis e bem abaixo do que
nosso amor quisera realizar. É, pois, o mundo que é insensato, visto que ignora
o que Jesus fez para salvá-lo; é ele que é um açambarcador que seduz as almas e
as leva a fontes sem água.
Não somos também mandrionas, pródigas. Jesus
nos defendeu na pessoa de Madalena. Ele estava à mesa, Marta servia, Lázaro
comia com Ele e os discípulos. Quanto a Maria, ela não pensava em se alimentar,
mas em dar prazer Àquele que ela amava, por isso, ela tomou um vaso cheio de um
perfume de grande valor e o derramou sobre a cabeça de Jesus, quebrando o vaso,
então toda a casa ficou perfumada com a fragrância, mas os APósTOLOS murmuraram
contra Madalena...(5) É a mesma coisa conosco, os mais fervorosos cristãos, os
padres acham que somos exageradas, que devíamos servir com Marta ao invés de
consagrarmos a Jesus os vasos de nossas vidas com os perfumes que aí estão
guardados... E, contudo, que importa que os nossos vasos sejam quebrados, visto
que Jesus é consolado e que, mesmo sem querer, o mundo é obrigado a sentir os
perfumes, que se exalam e que servem para purificar o ar envenenado, que ele
não cessa de respirar.
(CT 169)
NOTAS
(1) -Francis e Joana. São o casal La
Néele, que deplorou, em Caen, a entrada de Celina no Carmelo.
(2) -Atos dos Apóstolos 20,35
(3) -Citação já conhecida. É do Pe.
Arminjon
(4) -I Reis 8,27
(5) -Santa Teresinha junta Marcos 14,3-6
com João 12, 1-8. Discute-se, se tal junção seja possível, mas existem os que a
sustentam.
56.UMA CRIANCINHA
Teresa amou e amou apaixonadamente. Partindo,
então, desse amor, ela procurou um meio de se unir,cada vez mais, a Deus.
Encontrou-o, pela experiência, pelas leituras bíblicas, por reflexões, na
pequenez, ou seja, no querer ser e permanecer pequena, como uma criancinha,
diante de Deus. Foi daí que surgiram, como conseqüências, a confiança, o
abandono, a simplicidade, a alegria, a paz, o fazer simplesmente pequenas
coisas para agradar a Deus. Foi daí que surgiram, também, expressões, como dar
prazer a Jesus, suspiros de amor, pequenas ações, jogar-se nos seus braços,
simples olhar, etc. Foi daí que surgiram, ainda, idéias fortes como não ter
medo, pecados que não ofendem, lei do amor, dormir nos braços de Deus,etc. Foi
daí que surgiram, outrossim, mensagens vividas, como a superação e o entendimento
do sofrimento pelo amor e pelo ciúme de Deus, o esquecimento de si mesmo para
felicidade dos outros,etc.
Nesta carta de 12 de julho de 1896, dirigida
a sua irmã Leônia, nossa Santa retoma alguns desses pontos de sua
espiritualidade e, com toda a simplicidade, dá-nos um pouco mais de luz para
entendermos o que é realmente ser uma criancinha diante do nosso Pai do céu.
Eu lhe asseguro que o Bom Deus é bem melhor
do que você o crê. Ele se contenta de um olhar, de um suspiro de amor... Quanto
a mim, acho a perfeição bem fácil para ser praticada, porque compreendi que,
não há nada a fazer a não ser pegar Jesus pelo Coração... Olhe uma criancinha,
que acaba de aborrecer sua mãe, encolerizando-se ou, então, desobedecendo-lhe,
se ela se esconde em um canto com um ar amuado e grita com medo de ser punida,
sua mamãe não o perdoará certamente pela sua falta, mas se ele vem lhe estender
seus bracinhos, sorrindo e dizendo: "Abraça-me, não recomeçarei
mais", será que sua mãe poderá não apertá-lo contra seu coração com
ternura e esquecer suas malícias infantis?... Contudo, ela sabe muito bem que,
seu querido pequeno recomeçará na primeira ocasião, mas isso não importa, se
ele a pegar ainda pelo coração, jamais será punido...(1)
No tempo da lei do temor, antes da vinda de
Nosso Senhor, o profeta Isaías dizia já, falando em nome do Rei dos Céus:
"Pode uma mãe esquecer seu filho?... Pois bem, mesmo quando uma mãe
esquecesse seu filho, eu não vos esquecerei jamais"(2) Que promessa
encantadora! Ah! nós, que vivemos na lei do amor, como não aproveitar das
amorosas propostas, que nos faz nosso Esposo... como temer Aquele que se deixa
prender por um cabelo, que voa no nosso pescoço?...(3)
Saibamos, pois, retê-lo como prisioneiro a
esse Deus, que se torna o mendigo de nosso amor. Ao nos dizer que, é um cabelo
que pode operar esse prodígio, ele nos mostra que as menores ações, feitas por
amor, são as que encantam seu coração...
Ah! se fosse necessário fazer grandes coisas,
quanto seríamos para lastimar!... Mas, como somos felizes, visto que Jesus se
deixa aprisionar pelas menores...
Não são os sacrificioszinhos que lhe faltam,
minha querida Leônia, sua vida não é composta deles?... É tão doce ajudar
Jesus, pelos nossos leves sacrifícios...
Parece-me que, se os nossos sacrifícios são
cabelos que cativam Jesus,também as nossas alegrias o são, para isso basta não
se concentrar em uma felicidade egoísta, mas oferecer a nosso Esposo as
pequenas alegrias, que ele semeia ao longo do caminho da vida, para encantar
nossas almas e elevá-las até Ele...
Você me pede notícias da minha saúde. Pois
bem! minha querida irmãzinha, não tusso mais de jeito nenhum. Está contente?...
Isso não impedirá o Bom Deus de me levar, quando Ele quiser; pois que faço
todos meus esforços para ser uma criancinha, não tenho preparativos para
fazer.O próprio Jesus deverá pagar todas as despesas de viagem e o ingresso de
entrada no Céu...
(CT 191)
NOTAS
(1) -"Pegar pelo coração", eis
mais um mote típico da espiritualidade teresiana. Talvez, tenha sido fonte de
todo esse simbolismo da criança o livro "Avisos espirituais para a
santificação das almas"(autor anônimo), no qual, à página 355, do tomo I,
da edição de 1883, encontram-se palavras bem semelhantes às de nossa Santa.
(2) -Isaías 49,15
(3) -Cântico dos Cânticos 4,9
57.JOGANDO FLORES
Este bilhete de Santa Teresinha,escrito nos
meados de setembro de 1896, e dirigida à irmã Maria de São José, resume, de
certa maneira, uma idéia fundamental da espiritualidade teresiana, isto é,
fazer coisas simples, que cativam o coração de Deus, mas que têm grande valor,
porque são transformadas pelo poder e pela bondade de Jesus. A conclusão, pois,
é esta: nada de inquietações, de desespero, pois, mesmo dormindo, pode-se amar
e o sonho amoroso da criancinha Só traz prazer ao seu pai querido.
Estou encantada com o Meninozinho e aquele
que o leva nos seus braços está ainda mais encantado do que eu...(1) Ah! como a
vocação do Meninozinho é bela! Não é uma missão que ele deve evangelizar, mas
todas as missões.(2) Como é isso?... É dormindo, amando, JOGANDO FLORES a
Jesus, enquanto ele dorme. Então, Jesus pegará essas flores e, comunicando-lhes
um valor inestimável, jogá-las-á, por sua vez; ele as fará voar sobre todas as
regiões e salvará as almas, com as flores, com o amor do meninozinho, que não
verá nada, mas sorrirá sempre, mesmo através de suas lágrimas!...Um menino
missionário e guerreiro, que maravilha!
(CT 194)
NOTAS
(1) -Irmã Maria de São José dava a si
mesmo este apelido. O "aquele" refere-se a Nosso Senhor.
(2) -Há,aqui, provavelmente, uma
referência a uma possível partida para uma missão no Oriente. No segundo
semestre de 1896, havia no Carmelo de Lisieux uma expectativa sobre uma
eventual ida de alguma religiosa para Saigon ou Hanoi. Em novembro desse ano,
chegou-se mesmo a falar da viagem da própria irmã Teresa do Menino Jesus.
58.A CONFIANÇA, SÓ
A CONFIANÇA
Faltava pouco mais de um ano para a morte de
Teresa, quando ela escreveu, no dia 17 de setembro de 1896, esta carta a sua
irmã Maria do Sagrado Coração.
Podemos partir de uma idéia da carta: ser
vítima de amor! Ora, ser vítima de amor é ser consagrado totalmente a Deus para
amá-lo e fazê-lo mais amado ainda. O programa, pois, é grandioso, pode até
espantar algumas pessoas. Santa Teresinha, então, procura explicar como é fácil
realizá-lo, apesar de toda nossa pequenez, de todas as nossas fraquezas. Daí
surge mais uma mensagem típica de Teresa: é a confiança, Só a confiança, que
deve nos conduzir ao Amor!Para se entender bem esta carta, é preciso, porém, ter
lido antes a carta que Teresa dirigira a sua irmã Maria,que lhe pedira para que
ela pusesse,por escrito,"todos os sentimentos de seu coração"
Minha Irmã querida, não estou embaraçada para
lhe responder...(1) Como a senhora pode me perguntar, se lhe possível amar o
Bom Deus como eu o amo?...
Se a senhora tivesse compreendido a história
de meu passarinho, não me teria feito essa pergunta. Meus desejos do martírio
não são nada, não são eles que me dão a confiança ilimitada, que sinto em meu
coração. São, para dizer a verdade, as riquezas espirituais, que tornam
injusta, quando se repousa nelas com complacência e quando se crê que elas são
alguma coisa de grande... Esses desejos são uma consolação, que Jesus concede,
às vezes, às almas fracas como a minha ( e essas almas são numerosas), mas,
quando ele não concede essa consolação é uma graça de privilégio, recorde essas
palavras do Padre(2):"Os mártires sofreram com alegria e o Rei dos
Mártires sofreu com tristeza". Sim, Jesus disse:"Meu Pai, afasta de
mim esse cálice"(3). Irmã querida, como pode dizer, após isso, que meus
desejos são a marca de meu amor?... Ah! sinto muito bem que não é isso, de modo
nenhum, que agrada ao Bom Deus na minha alminha, o que lhe agrada é de me ver
amar minha pequenez e minha pobreza, é a esperança cega que tenho na sua
misericórdia... Eis aí meu único tesouro.
A senhora não está pronta a sofrer tudo o que
o Bom Deus quiser? Sei muito bem que sim; então, se deseja sentir alegria,
sentir atração pelo sofrimento, é sua consolação que procura, visto que, quando
se ama uma coisa, o sofrimento desaparece.(4). Asseguro-lhe que se fôssemos,
juntas, para o martírio nas disposições em que nos encontramos, a senhora teria
um grande mérito e eu não teria nenhum, a menos que aprouvesse a Jesus mudar
minhas disposições.
ó minha Irmã querida, peço-lhe, compreenda
sua filhinha, compreenda que, para amar Jesus, ser sua vítima de amor, mais se
é fraco, sem desejos, sem virtudes, mais se é próprio às operações desse Amor,
consumante e transformante...(5) Só o desejo de ser vítima, basta, mas é
preciso consentir ficar sempre pobre e sem força e eis ai o difícil, pois
"O verdadeiro pobre de espírito onde o encontrar? É preciso procurá-lo bem
longe", diz o salmista...(6) Ele não diz que é preciso procurá-lo entre as
grandes almas(7), mas "bem longe", isto é, na baixeza, no nada... Ah!
fiquemos , pois, bem longe de tudo que brilha, amemos nossa pequenez, amemos
não sentir nada, então, seremos pobres de espírito e Jesus virá nos procurar,
por mais longe que estejamos, ele nos transformará em chamas de amor... Oh!
como quisera poder fazê-la compreender o que sinto!... É a confiança e nada a
não ser a confiança, que deve nos conduzir ao Amor... O medo não conduz à
Justiça?...(8)Já que vemos o caminho, corramos juntas. Sim, eu o sinto, Jesus
quer nos dar as mesmas graças, ele quer nos dar, gratuitamente, seu Céu(9).
ó minha Irmãzinha querida, se a senhora não
me compreende,é porque é uma grande alma...ou,antes, é porque me explico mal,
pois, estou segura de que, o Bom Deus não lhe daria o desejo de ser POSSUÍDA
por ELE, por seu AMOR MISERICORDIOSO, se não lhe reservasse esse favor...ou,
antes, ele já lho deu, já que a senhora se entregou a Ele, já que a senhora
deseja ser consumida por Ele e porque jamais o Bom Deus dá desejos, que não
possa realizar.
(CT 197)
NOTAS
(1) -Esta carta é uma resposta a um
bilhete de Irmã Maria do Sagrado Coração, dirigido a Teresa, depois que lera
uma carta ,que Teresa lhe enviara,atendendo a um seu pedido, a qual foi redigida
entre 14 e 15 de setembro de 1896,e se tornou, mais tarde, o Manuscrito B.(Veja
p. ).
(2) -Refere-se a Santa ao Pe.Pichon. Sua
citação foi feita durante o retiro pregado no Carmelo de Lisieux e justamente
no dia 30 de outubro de 1887.
(3) -Mateus 26,39
(4) -Cf. Santo Agostinho, De bono
viduitatis, 21,26
(5) -Longe da doutrina de Santa Teresinha
toda e qualquer espécie de quietismo. Sua luta, seus esforços, suas
penitências, sua ascese, tudo, enfim, na sua vida recusa qualquer sentimento de
quietismo. Teresa insiste, porém, na confiança, no abandono, na fé em Deus,
justamente para que a pessoa possa subir, caminhar e até voar na montanha do
amor, que é a perfeição pessoal.
(6) -Na verdade, a citação é da Imitação
de Cristo, II,11,4, que cita o livro dos Provérbios, 31,10
(7) -Note-se que, Teresinha jamais
desprezou as grandes almas. Pelo contrário, ela sempre admirou os grandes
santos. Admirou grandes almas, como a de seu próprio pai, de seu tio, etc. O
que nossa Santa quer dizer é que, ela e todas as pessoas, que quiserem
segui-la, sentindo-se pequenas e fracas, devem aceitar serem assim e até gostar
de permanecer pequenas e fracas. Não há, pois, nenhum desprezo pelos grandes
valores, da parte de nossa Santa.
(8) -Santa Teresinha acrescentou, depois,
a seguinte nota:"À justiça severa, tal qual a representam aos pecadores,
mas não a essa Justiça, que Jesus terá para com aqueles que o amam".
(9) -Provavelmente, Santa Teresinha se
refere a Romanos 3,24. Tome-se toda essa afirmação dentro do contexto da
doutrina teresiana, ou seja, não se nega o mérito do homem e, por conseguinte,
a necessidade de que cada um se esforce para colaborar com a graça divina, mas
há uma insistência, e isso é própria de Santa Teresinha, na gratuidade da
graça, do amor misericordioso de Deus para com as criaturas.
59.O EXÍLIO OU A
PÁTRIA?
Os textos, que se seguem, são de uma carta de
Santa Teresinha dirigida ao Pe. Belliere, pelo qual recebera da sua Priora a
incumbência de rezar. Era, pois, esse sacerdote missionário seu irmão espiritual.
Teresa levou muito a sério sua
responsabilidade de irmã espiritual de um missionário. Rezou, rezou muito e se
sacrificou por ele, pelas suas atividades missionárias e também por outro
sacerdote, do qual se tornou também irmã espiritual.
Nos fragmentos da carta, que aqui é
transcrita, aparece claro o espírito missionário de Teresa através da oração e
do sacrifício. E esse espírito é tão forte, que nossa Santa . 2 chega a dizer
que, se no céu não pudesse continuar realizando-o, preferiria ficar no exílio a
ir para a Pátria celeste.
Uma vez que Ele mesmo (Jesus) me escolheu
para ser sua irmã, espero que Ele não olhará minha fraqueza, ou, antes, que Ele
se servirá dessa fraqueza mesma para realizar sua obra; pois,O Deus Forte gosta
de mostrar seu poder, em se servindo do nada. Unidas nEle, nossas almas poderão
salvar muitas outras, pois esse doce Jesus disse: "Se dois de vós
estiverem de acordo na terra sobre qualquer coisa que queiram pedir, isso lhes
será concedido por meu Pai" (1) Ah! o que lhe pedimos, é trabalhar para
sua glória, é amá-lo e fazê-lo amado...
O senhor me prometeu rezar por mim durante
toda sua vida,sem dúvida ela será mais longa do que a minha e não lhe é
permitido cantar como eu: -"Tenho esperança, meu exílio será
curto!..." (2), mas não lhe é permitido também esquecer sua promessa. Se o
Senhor me levar cedo com Ele, peço-lhe para continuar, cada dia, a mesma
oraçãozinha, pois desejarei no Céu a mesma coisa que na terra: Amar Jesus e
fazê-lo amado.
Reverendo Senhor, o senhor deve me achar bem
estranha, talvez lamente ter uma irmã, que parece querer ir gozar do repouso
eterno e deixá-lo trabalhar sozinho...mas, sossegue, a única coisa que desejo é
a vontade do Bom Deus, e confesso que, se no Céu eu não puder mais trabalhar
para sua glória, preferiria o exílio à pátria.
Não conheço o futuro, contudo se Jesus
realizar meus pressentimentos, prometo-lhe continuar sua irmãzinha lá em cima.
Nossa união ao invés de ser quebrada, tornar-se-á mais íntima, pois então, não
haverá mais clausura, mais grades e minha alma poderá voar com o senhor para as
distantes missões. Nossos papéis continuarão os mesmos, ao senhor as armas
apostólicas, a mim a oração e o amor...
(CT220)
NOTAS
(1) -Mateus 18,19
(2) -Ver a poesia "Viver de
amor", estrofe 9, à p.
60.A JUSTIÇA
DIVINA
Santa Teresinha referiu-se, algumas vezes, à
Justiça divina, mas enquanto é considerada como a que exigirá uma reparação
pelas faltas cometidas contra Deus. Nesta carta,datada de 9 de maio de 1897, e
dirigida ao Pe.Adolfo Roulland, um dos seus irmãos espirituais, nossa Santa diz
sua opinião sobre a Justiça Divina, enquanto é a recompensadora , ou seja,
enquanto é aquele atributo divino,que dará a cada um dos fiéis amantes de Deus
a recompensa devida e saberá, pois, compreender cada um daqueles que, apesar de
fracos e pecadores, procuraram, com todos os esforços, amar a Deus sobre todas
as coisas e aos seus irmãos como a si mesmos. Portanto, trata-se da Justiça,
que sabe enxergar o íntimo do coração do homem, conhecer suas mais profundas
intenções, e dar-lhes, no momento oportuno, a ajuda necessária e a recompensa
adequada.
Meu Irmão, os inícios do seu apostolado estão
marcados com o selo da cruz, o Senhor o trata como privilegiado; é muito mais
pela perseguição e pelo sofrimento do que por brilhantes pregações que Ele quer
assegurar seu reino nas almas.
Não compreendo, meu Irmão, porque você parece
duvidar de sua entrada imediata no Céu, se os infiéis lhe tirem a vida. Sei que
é preciso ser bem puro para comparecer diante do Deus de toda Santidade, mas
sei também que, o Senhor é infinitamente justo e é essa justiça, que amedronta
tantas almas, que é o objeto de minha alegria e de minha confiança. Ser justo
não é somente exercer a severidade para punir os culpados, é ainda reconhecer as
intenções retas e recompensar a virtude. Espero tanto da justiça de Deus,
quanto da sua misericórdia.É porque é justo que "Ele é compassivo e cheio
de doçura, lento para punir e abundante em misericórdia; pois ele conhece nossa
fraqueza, lembra-se que somos apenas pç. Como um pai tem ternura para com seus
filhos, assim o Senhor tem compaixão de nós"!!... (1)
Ó meu Irmão, ao ouvir essas belas e
consoladoras palavras do Profeta-Rei, como duvidar que, o bom Deus não possa
abrir as portas de seu reino a seus filhos, que o amaram a ponto de sacrificar
tudo por Ele, que não somente deixaram sua família e sua pátria para fazê-lo
conhecido e amado, mas ainda desejam dar suas vidas por Aquele que amam...
Jesus tinha mesmo razão em dizer que não há maior amor do que esse!(2) Como,
pois, Ele se deixaria vencer em generosidade? Como purificaria Ele nas chamas
do purgatório almas consumadas pelos fogos do amor divino? (3) É verdade que,
nenhuma vida humana está isenta de faltas, Só a Virgem Imaculada se apresenta
absolutamente pura diante da Majestade Divina. Que alegria pensar que essa
Virgem é nossa mãe! Visto que ele nos ama e conhece nossa fraqueza, que temos a
temer? Eis aí muitas frases para exprimir meu pensamento, ou, antes, para não
conseguir fazê-lo, queria simplesmente dizer que, me parece que todos os
missionários são mártires pelo desejo e pela vontade e que, por conseguinte,
nenhum deveria ir ao purgatório. Se existe nas suas almas, no momento de
comparecer diante de Deus, algum resto de fraqueza humana, a Santíssima Virgem
lhes obtém a graça de fazer um ato de amor perfeito e, depois, dá-lhes a palma
da coroa, que eles tão bem mereceram.
Eis aí, meu Irmão, o que penso sobre a
justiça do bom Deus; meu caminho é todo ele de confiança e de amor, não
compreendo as almas, que têm medo de um tão terno Amigo. Às vezes, quando leio
certos tratados espirituais, em que a perfeição é apresentada através de mil
entraves, rodeada de uma multidão de ilusões, meu pobre espiritozinho se cansa
muito depressa, fecho o sábio livro, que me quebra a cabeça e que me desseca o
coração, e tomo a Escritura Sagrada. Então, tudo me parece luminoso, uma Só
palavra revela à minha alma horizontes infinitos, a perfeição me parece fácil,
vejo que basta reconhecer seu nada e se abandonar, como um menino, nos braços
do bom Deus. Deixando às grandes almas, aos grandes espíritos os belos livros,
que não posso compreender, ainda menos por em prática, alegro-me por ser
pequena, visto que Só as crianças, e os que se lhes assemelham, serão admitidos
ao banquete celeste. Estou muito feliz que haja muitas moradas no reino de
Deus, pois, se Só houvesse aquela, cuja descrição e caminho me parecem
incompreensíveis, não poderia entrar nele.
(CT 226)
NOTAS
(1) -Salmo 102,18,14,13
(2) -João 15,13
(3) -É curiosa essa opinião de Santa
Teresinha sobre o purgatório. Podemos resumi-la em três pontos . Primeiro,ela
não nega a opinião tradicional de que no purgatório exista realmente fogo. Ela
não o afirma, mas dá a entender que aceita a opinião geral. Segundo,
antecipando-se a alguns teólogos modernos, ela se refere à purificação da
pessoa através do fogo do amor e,aqui, aparece uma opinião teológica
interessante, isto é, o fogo do amor purifica, a ausência do amor purga.
Terceiro, Teresinha jamais teve medo do purgatório. Pelo contrário, ela
demonstra uma certeza bem segura de que não passará por essa purgação após a
morte.E, como se vê nesta carta, ele acredita que algumas pessoas não passarão
por esse suplício de purgação. Santa Teresinha é, realmente, admirável nesses
seus arrazoados!
61.SÓ CONTO COM O
AMOR!
É curioso como há pouco menos de quatro meses
para sua morte, Santa Teresinha fala tanto sobre alegria. Na verdade, ela foi
alegre até à morte. Aqui, neste pequeno bilhete de 6 de junho de 1897,dirigido
à irmã Maria da Trindade, sua prima, ela se alegra com a carta recebida da
prima e faz uma declaração maravilhosa: ela Só conta mesmo é com o amor!Com
efeito, à pergunta sobre a alegria de ir para o céu, ela responde com um
axioma,que resume todo o seu caminho espiritual. Só o amor conta!
Minha querida Irmãzinha, sua bela cartinha me
alegrou a alma; vejo bem que não me enganei ao pensar que o Bom Deus a chama
para ser uma grande santa, mesmo ficando pequena e assim se tornando cada dia
mais.
Uma coisa, que me dá prazer é constatar que,
a tristeza não a torna melancólica, não pude deixar de rir ao ler o fim de sua
carta. Ah! como é que você manca de mim?
Você quer saber, se sinto alegria em ir para
o Paraíso? Teria muito, se fosse para lá, mas... não conto com a doença, é uma
condutora muito lenta. Só conto com o amor, peça ao Bom Jesus que todas as
orações, que são feitas por mim, sirvam para aumentar o Fogo, que deve me
consumir...
(CT 242)
62. O ÚLTIMO LUGAR
Santa Teresinha para satisfazer a um pedido
de sua irmã, Celina, estivera, durante muito tempo, fazendo pose para ser
fotografada, embora estivesse exausta. Celina se impacientou, mas Teresa não.
Posteriormente, Celina falou com Teresa sobre o assunto e esta lhe mandou este
bilhete, cuja nota dominante é nunca procurar aparecer grande aos olhos do
mundo, mas ficar, feliz, no último lugar, que ninguém deseja.
Irmãzinha bem-amada, não procuremos jamais o
que parece grande aos olhos das criaturas.
A única coisa que não é invejada, é o último
lugar; Só esse último lugar é que não é, de modo nenhum, vaidade e aflição de
espírito...
Contudo, "o caminho do homem não está em
seu poder" (1) e, por vezes, surpreendemo-nos a desejar o que brilha.
Então, coloquemo-nos, humildemente, entre os imperfeitos, consideremo-nos
alminhas, que o Bom Deus deve sustentar a cada instante; desde que Ele nos veja
bem convencidas do nosso nada, estende-nos a mão. Se queremos ainda tentar
fazer alguma coisa de grande, mesmo sob pretexto de zelo, o Bom Jesus nos deixa
Sós, "mas desde que eu disse: "Meu pé vacilou, vossa misericórdia,
Senhor, me fortificou!...Salmo 93". Sim, basta se humilhar, suportar, com
doçura, suas imperfeições. Eis aí a verdadeira santidade! (2) Demo-nos a mão,
irmãzinha, e corramos ao último lugar...ninguém virá disputá-lo conosco...
(CT 243)
NOTAS
(1) -Jeremias 10,23
(2) -Aqui, Santa Teresinha não somente
nos dá uma mensagem de vida espiritual, mas também nos transmite uma verdadeira
aula de psicologia. Suportar-nos; aceitar-nos como somos, embora procuremos a
perfeição, eis aí um antídoto a tantas angústias e a tantos desesperos, que
acontecem hoje em dia. A não aceitação de si; o descompasso com a própria
realidade, tem levado muita gente à loucura.
63.É PRECISO
CANTAR SEMPRE
Já dissemos que Teresa foi uma alma alegre,
mesmo com todos seus sofrimentos. Foi alegre até à morte.Ela tinha dons
naturais para ser alegre e fazer os outros alegres.
Unida à alegria, ele sempre quis o belo
canto. Cantar, cantar sempre, cantar, porque o coração está cheio de amor;
cantar bem, porque Deus merece nossos melhores cânticos. Em suma, para quem
ama, é preciso cantar sempre e nunca ser triste.
A esposinha de Jesus não deve ser triste,
pois Jesus o seria também. Ela deve cantar, em seu coração, o cântico do amor.
Ela deve esquecer suas peninhas, para consolar as grandes penas de seu esposo.
Irmãzinha querida, não seja uma jovem triste,
ao ver que não a compreendem, que a julgam mal, que a esquecem, mas imite todo
o mundo, procurando fazer como os outros, ou, antes, fazendo para si mesma o
que os outros fazem por você, isto é, esqueça tudo que não é Jesus, esqueça a
si mesma por seu amor!...Irmãzinha querida, não diga que é difícil, se falo
assim, é sua culpa, você me disse que amava muito Jesus, e nada parece impossível
à alma, que ama (1).
(CT 251)
NOTA
(1) -Este bilhete foi escrito a lápis. A
letra tremida leva-nos a pensar no enfraquecimento da Santa, pela
doença.Todavia, é aqui que ela fala de alegria e de canto!
64.SOFRIMENTO,
CONFIANÇA, ABANDONO, AMOR!
Aos 18 de julho de 1897, já bem doente e sem
muita força para escrever, santa Teresinha escreveu, apesar de tudo, uma longa
carta ao seu irmão espiritual, Pe. Maurício Bartolomeu Belliere. É uma carta de
consolação, mas a Santa aproveitou da ocasião, como era seu costume, e não
perdeu tempo. Ela lhe escreveu também para lhe ensinar, mais uma vez, as linhas
mestras da sua espiritualidade.
Aqui, nossa Santa repete o que podemos
encontrar em outros textos, todavia, vale a pena reler fragmentos desta carta,
porque é uma mensagem de despedida de quem está às portas da morte.E uma
mensagem preciosa,que deve ser relida!
Sua dor me toca profundamente, mas veja como
Jesus é bom, permite que possa lhe escrever ainda, para tentar consolá-lo.
Sem dúvida, expliquei-me mal na minha última
cartinha, visto que você me diz, meu queridíssimo irmãozinho "para não lhe
pedir essa alegria, que sinto à aproximação da felicidade". Ah! se, por
alguns instantes, você pudesse ler na minha alma, como ficaria surpreso! O
pensamento da felicidade celeste, não somente não me causa nenhuma alegria, mas
ainda me pergunto, às vezes, como me será possível ser feliz sem sofrer. Jesus,
sem dúvida, mudará minha natureza, do contrário sentiria falta do sofrimento e
do vale das lágrimas. Jamais pedi ao bom Deus para morrer jovem, isso me teria
parecido covardia, mas Ele, desde minha infância, dignou-se dar-me a persuasão
íntima que, meu curso, aqui na terra, seria curto.É, pois, apenas o pensamento
de fazer a vontade do Senhor, que faz toda minha alegria.
Sim, estou certa disso que, após minha
entrada na vida, a tristeza de meu querido irmãozinho mudar-se-á em uma alegria
cheia de paz, que nenhuma criatura poderá lhe arrebatar. Eu o sinto, devemos ir
ao Céu pelo mesmo caminho, o do sofrimento unido ao amor. Quando estiver no
porto, ensinar-lhe-ei, querido irmãozinho de minha alma, como você deve navegar
sobre o mar encapelado do mundo, com o abandono e o amor de uma criança, que
sabe que seu Pai a ama e não poderia deixá-la Só na hora do perigo. Ah! como
quisera fazê-lo compreender a ternura do Coração de Jesus, o que Ele espera de
você. Na sua carta do dia 14, você fez meu coração exultar docemente;
compreendi, mais que nunca, a que ponto sua alma é irmã da minha, visto que ela
é chamada a se elevar para Deus pelo ASCENSOR do amor e, não, a subir a escada
rude do temor...
Quisera tentar fazê-lo compreender, por uma
comparação bem simples, quanto Jesus ama as almas, mesmo imperfeitas, que
confiam nEle. Suponho que um pai tenha dois filhos, travessos e desobedientes,
e que vindo para os castigar, vê um que treme e se afasta dele com terror,
tendo, portanto, no fundo do coração, o sentimento de que merece ser punido; e
que seu irmão, ao contrário, joga-se nos braços do pai, dizendo que lamenta tê-lo
feito sofrer, que o ama e que, para provar, será bem comportado a partir de
então, depois, se esse filho pede a seu pai para puni-lo com um beijo, não
creio que o coração do feliz pai possa resistir à confiança filial de seu
filho, do qual ele conhece a sinceridade e o amor. Ele não ignora, contudo,
que, mais de uma vez, seu filho recairá nas mesmas faltas, mas está disposto a
perdoá-lo, se sempre seu filho o pegar pelo coração... Não lhe digo nada do
primeiro filho, meu querido irmãozinho, você deve compreender, se seu pai pode
amá-lo tanto e tratá-lo com a mesma indulgência como ao outro.
Mas, por que lhe falar da vida de confiança e
de amor? Explico-me tão mal, que me é necessário aguardar o céu para lhe falar
sobre essa vida feliz.
(CT 258)
65.DELICADEZA
FILIAL
No dia 8 de setembro, de 1897, alguns dias
antes de morrer, Santa Teresinha escreveu no verso de uma imagem de Nossa
Senhora das Vitórias, seu último autógrafo. Ele foi dirigido à Santíssima
Virgem e demonstra uma simplicidade filial encantadora. Com efeito, para com
Maria, a quem ela gostava mais de olhar como mãe do que como rainha,nossa Santa
tinha uma devoção simplesmente filial e familiarmente simples.
Neste autógrafo aparece uma delicadeza rara
de Teresinha para com sua Mãe do céu, mas, ao mesmo tempo, nossa Santa
demonstra como era desprendido e sublime seu amor para com Maria Santíssima.
Ó Maria, se eu fosse a Rainha do Céu e a
senhora fosse Teresa, quisera ser Teresa a fim de que a senhora fosse a Rainha
do Céu!!!.....
66.A ESPADA DO
ESPÍRITO
Santa Teresinha levou a sério a palavra de
Deus. Essa palavra estava sempre no seu coração e, embora não fosse uma
missionária da pregação, jamais deixou de levar a palavra de Deus a quem ela
podia ou devia. E, nesse ponto, ele nos dá uma grande lição: evitar o desânimo.
Com efeito, às vezes, somos levados a querer parar no meio do caminho. Teresa
insiste, dizendo que isso é covardia. É preciso ir até o fim da estrada!
Que a espada do espírito, que é a palavra de
Deus esteja sempre na nossa boca e em nossos corações" (1). Se estamos às
voltas com uma alma desagradável, não desanimemos, não a deixemos jamais.
Tenhamos sempre "a espada do espírito" na boca para repreendê-la
pelos seus erros; não deixemos as coisas caminharem à solta, para conservar
nosso repouso; combatamos sempre, mesmo sem esperar ganhar a batalha. Que
importa o sucesso? O que o bom Deus nos pede é não parar com as fadigas da
luta; é não nos desencorajar, dizendo: "Tanto pior! não há nada a fazer
com ela, deve ser abandonada". Oh! isso é covardia; é preciso cumprir seu
dever até o fim.
(CA-2.4.87)
NOTA
(1) -Efésios 6,17.
67.TUDO É GRAÇA
Tudo é graça! É uma afirmação fantástica na
pena de um jovem carmelita, no final do século passado! Na verdade, ela
haurira, pela experiência e pela luz do Espírito Santo, toda uma sabedoria
admirável de coisas profundas, que muito teólogos sentem dificuldade em
entender.
Santa Teresinha, pelo caminho da simplicidade
de uma criança, descobriu que tudo vem de Deus, como afirma o apóstolo
Paulo.Tudo! Tudo, mesmo! É verdade que, temos de colaborar com a graça divina,
mas mesmo essa colaboração exige a graça divina.
Dessa idéia básica, pode-se muito bem chegar
à conclusão de um relacionamento confiante com o Deus, que é Pai, e que nos dá
tudo de graça. Teresa percorreu essa estrada e, por isso, exclamou: Tudo é
graça!
Se, em uma manhã, a senhora me encontrar
morta, não tenha pena: é que Papai, o bom Deus, terá vindo, simplesmente, me
buscar (1). Sem dúvida, é uma grande graça receber os Sacramentos; mas, quando
o bom Deus não o permite, está bem mesmo assim, tudo é graça.
(CA-5.6.4)
NOTA
(1) -Os "Cadernos Verdes"
acrescentam: "como um pai, que leva seu filho para sua casa, sem embaraço,
porque ele tem todo o direito".
68.VIA SACRA
Santa Teresinha foi uma santa simples e viveu
a vida como uma flor, nasceu, cresceu, desabrochou, murchou, morreu. Todavia,
apesar de toda a sua extraordinária simplicidade, teve seus momentos fortes na
sua vivência com Deus. Recebeu graças extraordinárias, porque um santo é sempre
alguém extraordinário, por mais simples que o seja.
Um dos momentos bonitos da vida de Teresinha
foi o seu mergulho no fogo do amor, certo dia, durante a realização da Via
Sacra. Foi tão forte, que a Santa diz que não poderia ter resistido por muito
tempo. São coisas que Deus reserva para os que o amam de verdade. Comumente, os
olhos não vêem, nem o coração sente, mas, é certo, estão reservadas!
Pois bem, comecei minha Via Sacra, e eis que,
de repente, fui tomada por um violento amor pelo bom Deus e não posso explicar
isso senão dizendo que, era como se tivessem me mergulhado, inteiramente,no
fogo(1). Oh! que fogo e que doçura, ao mesmo tempo! Eu queimava de amor e
sentia que por um minuto, um segundo a mais não teria podido suportar aquele
ardor sem morrer. Compreendi, então, o que dizem os santos sobre esses estados,
que experimentaram tantas vezes. Quanto a mim, Só o provei uma vez e apenas por
um instante, em seguida caí logo na minha secura habitual.
Desde a idade de 14 anos, tive também muitos
assaltos de amor. Ah! como amava o bom Deus! Mas, não era, absolutamente, como
depois do meu oferecimento ao Amor, não era uma verdadeira chama que me
queimava.
(CA-7.7.2)
Nota
(1) -Os "Cadernos Verdes"
acrescentam: "Eu sentia, no coração, como uma ferida, que me teriam feito
com um dardo de fogo".
69.GOTA D'ÁGUA
A confiança de quem ama verdadeiramente não
tem limites. Uma confiança, que cria exceções, não é autêntica. Com Deus ou se
confia, ou não se confia. Não pode haver meio termo com um Ser, que é
onipotente, onisciente, suma bondade, sumo amor.
É exatamente isso que Teresinha quer nos
ensinar com as palavras do texto. Falta pouco tempo para ela morrer, e, mais do
que nunca, ela confia, totalmente, no seu Deus amado.
Poder-se-ia crer que, é porque eu não pequei,
que tenho uma confiança tão grande no bom Deus. Diga mesmo, minha Madre, que,
se eu tivesse cometido todos os crimes possíveis, teria sempre a mesma
confiança; sinto que, toda essa multidão de ofensas seria como uma gota d'água
jogada em uma fornalha ardente. Conte, em seguida, a história da pecadora
convertida, que morreu de amor; as almas compreenderão imediatamente, pois é um
exemplo tão marcante do que quisera dizer, mas essas coisas não podem se
exprimir(1)
(CA-11.7.6)
NOTA
(1) -Nos "Novíssima Verba"
encontra-se a história, a que a Santa faz referência. Com efeito, ela mesma
contou que, na vida dos padres do deserto lê-se a história de uma pecadora
pública, que, seguindo o santo que a convertera, para fazer uma grande
penitência no deserto, morreu durante a viagem pela impetuosidade do seu
arrependimento cheio de amor e o eremita viu, no mesmo instante, sua alma ser
levada pelos anjos para Deus
70.AJUDAR TODA A
IGREJA!
Santa Teresinha conseguiu ser equilibrada em
tudo. Nela não encontramos exageros. Em tudo, ela esteve no lugar certo.
Um exemplo típico do que dissemos acima é seu
equilíbrio, pouco antes de morrer. Mesmo sabendo que suas palavras estavam
sendo anotadas, ela tem uma lucidez maravilhosa, e não quer enganar ninguém a
respeito do que ela era na realidade. Seus sentimentos de alegria, de tristeza,
de dor vêm à tona com toda simplicidade. Em tudo, ela se mostra normal,
simples, perfeita.
As palavras, que seguem, dão uma prova de
tudo isso. A Santa fala claro e diz somente o que pensa, o que é e o que
realmente deseja.
Não creiam que, quando eu estiver no Céu,
far-lhes-ei descer calandra assada na boca... Não é o que tive, nem o que
desejei ter. Vocês terão, talvez, grandes provações, mas lhes enviarei luzes,
que as farão apreciar e amar. Vocês serão obrigadas a dizer como eu:
"Senhor, vós nos cumulais de alegria por tudo que fazeis"(1).
Não imaginem que eu provo, para morrer, uma
alegria viva, como, por exemplo,eu sentia outrora ao ir passar um mês em
Trouville ou em Alençon; não sei mais o que são as alegrias vivas. Aliás, não
faço festa por me alegrar, não é isso que me atrai. Não posso pensar muito na
felicidade, que me espera no Céu; uma Só expectativa faz bater meu coração, é o
amor que receberei e o que poderei dar. E, depois, penso em todo o bem que
quisera fazer após minha morte: fazer batizar as criancinhas, ajudar os padres,
os missionários, toda a Igreja...
(CA-13.7.16-17)
NOTA
(1) -Salmo 92,5.
71.COMUNHÃO DOS
SANTOS
O dogma da Comunhão dos Santos é, certamente,
um dos menos falados e, ao mesmo tempo, é, seguramente, um dos menos
incompreendidos. Todavia, é também, certamente, um dos mais vividos, mesmo que
não seja conhecido nem estimado.
Teresa viveu muito esse dogma e dele nos falou
com muita emoção. Com efeito, ela sabia que muitas graças devia a outras
pessoas, mas sabia também- e sempre quis viver essa realidade- que podia
influenciar em todo o Corpo Místico da Igreja, através desse dogma.
Foi,assim, que saíram de sua pena páginas
fantásticas, como a que transcrevemos neste livro à página, quando a Santa
fez,provavelmente, o seu mais belo poema.
Comunhão dos Santos significa repartir,
dividir, receber, comungar; significa que nada é meu Só, que tudo é de todos.
Como isso está bem dentro da espiritualidade teresiana!
Irmã Maria da Eucaristia queria acender umas
velas para uma procissão; não tinha fósforos, mas vendo a lamparina que queima
diante das relíquias, aproxima-se. Ah! ela a encontra meio apagada, não há mais
nada senão uma fraca luz sobre o pavio carbonizado. Ela consegue, contudo,
acender sua vela e, com essa vela, todas as da Comunidade foram acesas.
Foi,pois, essa lamparina, de meia luz, que produziu aquelas belas chamas que,
por sua vez, podem produzir uma infinidade de outras e até abrasar o universo.
Contudo, seria sempre à lamparina que se deveria a primeira causa desse
abrasamento. Como as belas chamas poderiam se gloriar, sabendo disso, de ter
feito semelhante incêndio, visto que elas foram acesas apenas pela
correspondência com a faísquinha?...
É a mesma coisa com a Comunhão dos Santos.
Muitas vezes, sem o saber, as graças e as luzes que recebemos são devidas a uma
alma escondida,porque o bom Deus quer que os Santos se comuniquem, uns com os
outros, a graça pela oração, a fim de que, no Céu, eles se amem com um grande
amor, com um amor muito maior ainda do que aquele da família, mesmo da família
mais ideal da terra. Quantas vezes pensei que, podia dever todas as graças, que
recebi, às orações de uma alma, que mas teria pedido ao bom Deus, e que não
conhecerei a não ser no Céu.
Sim, uma faísquinha poderá fazer nascer
grandes luzes em toda a Igreja, como doutores e mártires, que estarão, sem
dúvida, muito acima dela no Céu; mas, como poder-se-ia pensar que a glória
deles não será a sua?
No Céu não se encontrarão olhares
indiferentes, porque todos os eleitos reconhecerão que, eles se devem, entre
si, as graças que lhes mereceram a coroa.
(CA-15.7.5)
72.MINHA MISSÃO
VAI COMEÇAR
É impressionante como, à medida que santa
Teresinha vai se aproximando da morte, ela toma, cada vez mais fortemente,
consciência de muitas coisas futuras, especialmente de sua missão após a morte.
Com efeito, mais de uma vez, ela afirma,categoricamente, que vai trabalhar
muito, lá no Céu e aqui na terra, depois que partir deste mundo.
Apoiada no dogma da Comunhão dos Santos e
inflamada pelo seu grande amor e, portanto, pelo seu espírito missionário,
Teresinha não Só deseja, mas o afirma,com segurança, que sua eternidade será,
até o dia do juízo final, toda ela a trabalhar na terra pelos seus irmãos da
Igreja militante. Ela estará presente em todos os tempos e em todos os lugares!
Sinto que vou entrar no repouso... Mas,
sinto, sobretudo, que minha missão vai começar, minha missão de fazer amar o
bom Deus como o amo, de mostrar meu caminhozinho às almas. Se o bom Deus ouvir
meus desejos, meu Céu se passará na terra até o fim do mundo. Sim, quero passar
meu Céu a fazer o bem sobre a terra. Isso não é impossível, visto que, no
próprio seio da visão beatífica, os anjos velam por nós.
Não posso fazer festa por gozar, não posso
repousar enquanto houver almas para salvar...Mas, quando o Anjo disser: "O
tempo não existe mais!"(1), então, repousarei, poderei gozar, porque o
número dos eleitos estará completo e todos terão entrado na alegria e no
repouso. Meu coração exulta com esse pensamento...
(CA-17.7.)
NOTA
(1) -Cfr.Apocalipse 10,6
73.A OPINIÃO DAS
CRIATURAS
Toda pessoa, que se destaque, de algum modo,
em algum lugar, deve estar preparada para ser alvo de críticas boas e más. Ora
bem, santa Teresinha foi uma religiosa que se destacou pela sua vida exemplar,
no Carmelo de Lisieux. É natural, pois, que tenha sido vítima de críticas, boas
e más. Teria sofrido ou gozado com isso, a nossa Santa?
O texto, que segue, dá-nos uma resposta. Uma
resposta,que vem de um fato, de um fato simples, do qual nossa Santa tirou,como
costumava fazer, uma bela lição.
As opiniões das pessoas são tão variadas e
variáveis, quanto o são as próprias pessoas humanas. Por isso, triste daquele
que se apoiar sobre essas opiniões, e mais triste ainda quem sofrer por causa
de injúrias provocadas por essas opiniões, ou mesmo, quem quiser viver feliz
apenas com essas,variáveis e variadas, opiniões.
Escute uma historiazinha bem cômica. Um dia,
depois da minha Vestição(1), Irmã São Vicente de Paulo me vê com a nossa Madre
e exclama: "Oh! que aparência de prosperidade! É forte essa jovem!"
Eu me ia toda humilhada pelo cumprimento, quando Irmã Madalena me para,diante
da cozinha, e me diz: "Mas, que é que vai ser de você, minha pobre
irmãzinha Teresa do Menino Jesus? Vocês está emagrecendo, à vista d'olhos! Se
você continuar assim, com essa aparência que faz tremer, você não seguirá, por
muito tempo, a regra!" Eu não podia chegar a entender, uma após outra,
apreciações tão opostas. Desde esse momento, não dei mais nenhuma importância à
opinião das criaturas e essa impressão se desenvolveu de tal modo em mim que,
no presente, as censuras, os cumprimentos, tudo passa por mim sem deixar a mais
leve marca.
(CA-25.7.15)
NOTA
(1) -Tomada de Hábito, ou Vestição, que
aconteceu aos 10 de janeiro de 1889.
74.PERMANECER
PEQUENO
Certo dia, à noite, durante a recitação de
Matinas, Irmã Inês perguntou a Santa Teresinha o que ela queria dizer pela
expressão "permanecer criancinha diante do bom Deus. A Santa não se fez
esperar e lhe deu uma resposta, que é a síntese da base de toda sua mensagem
espiritual.
Com efeito, ser e permanecer pequeno diante
de Deus é, por amor, reconhecer-se tal como se é, portanto, é humilhar-se, é
esperar, então, tudo de Deus, é entregar-se nos seus braços, é gloriar-se nas
suas fraquezas, porque a força de Deus toma conta da pessoa,é, no fundo, amar
como uma criancinha ama seu Pai adorado, mesmo na sua pobreza, na sua
impotência e na sua imprudência.
É reconhecer seu nada, esperar tudo do bom
Deus, como uma criancinha espera tudo de seu pai; é não se inquietar com nada,
não ganhar, absolutamente, fortuna. Mesmo entre os pobres, dá-se à criança o
que lhe é necessário, mas logo que cresce, seu pai não quer mais alimentá-la e
lhe diz: "Trabalhe agora, você pode se bastar a você mesma".
É para não ouvir isso que não quis crescer,
sentindo-me incapaz de ganhar minha vida, a vida eterna do Céu.Permaneci, pois,
sempre pequena, não tendo outra ocupação senão a de colher as flores, as flores
do amor e do sacrifício, e de oferecê-las ao bom Deus para seu prazer.
Ser pequeno é, ainda, não atribuir, de modo
nenhum, a si mesmo as virtudes que se pratica, crendo-se capaz de alguma coisa,
mas reconhecer que, o bom Deus põe esse tesouro na mão de seu filhinho, para
que ele se sirva, quando tiver necessidade; mas, é sempre o tesouro do bom
Deus. Enfim, é não se desencorajar, de modo nenhum, com suas faltas, pois, as
crianças caem muitas vezes, mas são demasiado pequenas para se fazerem muito
mal.
(CA-6.8.8)
75.O TRONO E O
POBRE
Várias vezes, Santa Teresinha fala sobre a
pobreza. Ela levou a sério o voto de pobreza, que fizera. Por outro lado, desde
pequena, sempre se preocupou com os pobres, com aqueles que não tinham o que
ela tinha em família. Assim, não Só amava ajudar os necessitados e lhes dar
alguma ajuda, mas, de vez em quando, dirigia-se a eles com amor e carinho.
Aliás, sua doutrina espiritual é toda ela
fundamentada na verdadeira pobreza evangélica e, por isso, é assentada na
pequenez, na humildade, na pobreza em espírito, na fraqueza, nas enfermidades
pessoais.
Por outro lado, nossa Santa não foi
demagógica, não aproveitou dos pobres para fazer propaganda; ela, simplesmente,
procurou ser pobre na sua vida religiosa. Pobre em espírito e pobre em bens
materiais. Despojou-se de tudo, e assim, materialmente, preparou-se para o
despojamento espiritual.
É esse o sentido da pequena história, que ela
contou, em agosto de 1897, a sua irmã, Celina
Havia, uma vez, uma" senhorita",
possuidora de riquezas, que tornam injusta e às quais ela dava muito valor.
Ela tinha um irmãozinho, que não possuía nada
e, contudo, ela vivia na abundância. Esse meninozinho caiu doente e disse a sua
irmã: -"Senhorita,se quisesse, você jogaria ao fogo todas suas riquezas,
que Só servem para inquietá-la, e tornar-se-ia minha criadinha, rejeitando seu
título de "senhorita" e eu, quando estiver no país encantador, para o
qual devo ir em breve, voltarei para buscá-la, porque você terá vivido pobre
como eu, sem se inquietar do dia de amanhã.
A "senhorita" compreendeu que seu
irmãozinho tinha razão, tornou-se pobre como ele, fez-se sua criadinha e nunca
mais foi atormentada pelo cuidado das riquezas perecíveis, que jogara ao
fogo...
Seu irmão cumpriu a palavra, veio buscá-la,
quando chegou no país encantado, onde o bom Deus é o Rei, a Santíssima Virgem ,
a Rainha, e todos os dois viverão, eternamente, sobre os joelhos do bom Deus;
foi o lugar que escolheram, porque , sendo pobres, não puderam merecer
tronos..."
(CA.8.8.2)
76.A SAGRADA
FAMÍLIA
Santa Teresinha viveu simplesmente e toda sua
espiritualidade é baseada na simplicidade, por isso, todas suas devoções foram
simples e feitas com simplicidade. Assim, seu amor e seu respeito pela Sagrada
Família foram impregnados de sinceridade e de simplicidade.
Pelo amor que tinha a Jesus, ela amava muito
a Sagrada Família, mas seu olhar penetrava profundamente no Lar de Nazaré e aí
enxergava não as maravilhas humanas, que alguns gostariam que tivessem
acontecido, mas as durezas da vida comum e normal de uma família pobre e as
dificuldades e simplicidades de uma família humilde, que se regia pelas normas
do dia a dia dos mortais.Assim, a espiritualidade teresiana fazia uma teologia
bem simples, sem muita elucubração, mas,certamente, bem conforme ao espírito do
evangelho.
Como será agradável conhecer no Céu o que se
passou na Sagrada Família! Quando o Menino Jesus começou a crescer, talvez ao
ver a Santíssima Virgem jejuar, dizia-lhe: "Eu quisera também
jejuar". E a Santíssima Virgem respondia: "Não, meu Menino Jesus!
você é muito pequeno ainda, você não tem a força". Ou então, talvez, ela
não ousava impedi-lo.
E o bom São José? Oh! como o amo! Ele não
podia jejuar por causa dos seus trabalhos.
Vejo-o a aplainar e, depois, enxugar a fronte
de vez em quando. Oh! como me dói! Como me parece que suas vidas eram simples!
As mulheres do lugar vinham falar,
familiarmente, com a Santíssima Virgem. Algumas vezes, pediam-lhe para lhes
confiar seu pequeno Jesus para ir brincar com seus filhos. E o pequeno Jesus
olhava para a Santíssima Virgem, para saber se devia ir. Algumas vezes até, as
boas mulheres iam diretamente ao Menino Jesus e lhe diziam sem cerimônia: "Vem
jogar com meu filhinho" etc.
...O que me faz bem, quando penso na Sagrada
Família é imaginar uma vida toda ordinária. Nada daquilo que nos contam, de
tudo que supõem. Por exemplo, que o Menino Jesus, depois de ter modelado
pássaros de barro, soprava sobre eles e lhes dava a vida. Ah! mas, não, o
pequeno Jesus não fazia milagres inúteis como esse, mesmo para dar prazer a sua
Mãe. Pois bem, então, por que não foram transportados ao Egito por um milagre,
que teria sido,por outra lado, necessário e tão fácil ao bom Deus? Em um bater
de olhos, eles teriam sido levados até lá. Mas, não, tudo nas suas vidas se fez
como na nossa.
E quantas penas, decepções! Quantas vezes
fizeram censuras ao bom São José! Quantas vezes recusaram pagar seu trabalho!
Oh! como ficaríamos admirados, se soubéssemos tudo o que eles sofreram! etc.
(CA- 20.8.14)
77.UM SERMÃO
DIFERENTE
A ninguém passa despercebida a vontade que
Santa Teresinha tinha de ser padre. Uma vontade que, segundo ela mesma, podia
até não se realizar, se isso fosse permitido, porque ela, como São Francisco,
podia até preferir ficar como diaconisa, tanta era alta a dignidade sacerdotal,
segundo o que ela concebia.
Em uma das vezes, em que nossa Santa afirma
sua vontade de ser padre, se fosse, evidentemente, um homem, ela diz
expressamente que seria para poder pregar sobre a Santíssima Virgem. Mas,
pregar de um modo diferente. Seria, pois, um sermão todo diferente! Como?
Seria um sermão baseado na verdade, na
simplicidade da vida de Maria. Um sermão sem exageros, sem fatos
extraordinários, sem milagres inúteis. Um sermão bem conforme sua doutrina
espiritual.
Como eu teria gostado de ser padre, para
pregar sobre a Santíssima Virgem! Uma Só vez me teria bastado, para dizer tudo
o que penso a esse respeito.
Primeiramente, eu teria feito compreender a
que ponto se conhece pouco sua vida.
Não seria necessário dizer coisas
inverossímeis, ou que não se sabe; por exemplo, que, ainda pequenina, com três
anos, a Santíssima Virgem foi ao Templo se oferecer a Deus com sentimentos
ardentes de amor e totalmente extraordinários; enquanto que ela lá se foi,
talvez, bem simplesmente, para obedecer a seus pais.
Por que dizer ainda, a propósito das palavras
proféticos do velho Simeão, que a Santíssima Virgem, a partir daquele momento,
teve, constantemente, diante dos olhos, a paixão de Jesus? "Uma espada de
dor transpassará seu coração" dissera o ancião(1). Não era, pois, para o
presente, a senhora vê bem, minha Madrezinha; era uma predição geral para o
futuro.
Para que um sermão sobre a Santíssima Virgem
me agrade e me faça bem, é preciso que veja sua vida real, e, não, sua suposta
vida; e estou seguro de que, sua vida real devia ser inteiramente simples.
Mostram-na inabordável; seria necessário mostrá-la imitável, fazer sobressair suas
virtudes, dizer que ela vivia de fé como nós, e dar as provas pelo Evangelho,
no qual lemos "Eles não compreenderam o que lhes dizia"(2). E essa
outra passagem, não menos misteriosa: "Seus pais estava admirados do que
diziam sobre ele"(3). Essa admiração supõe certo espanto, não acha, minha
Madrezinha?
Sabe-se bem que a Santíssima Virgem é a
Rainha do Céu e da terra, mas ela é mais Mãe que rainha, e não é preciso dizer,
por causa de suas prerrogativas, que ela eclipsa a glória de todos os santos,
como o sol, ao nascer, faz desaparecer as estrelas. Meu Deus! como isso é
estranho! Uma Mãe, que faz desaparecer a glória de seus filhos! Eu penso
inteiramente ao contrário, creio que ela aumentará de muito o esplendor dos
eleitos.
É bom falar sobre suas prerrogativas, mas não
se deve falar Só sobre isso, e se, em um sermão, se é obrigado, do começo ao
fim, a exclamar e a fazer Ah! ah!, é demais! Quem sabe, se alguma alma não
chegaria mesmo a sentir, então, certo distanciamento de uma criatura tão
superior e não diria: "Se é assim, é melhor ir brilhar como se puder, em
um cantinho!".
O que a Santíssima Virgem tem mais do que
nós, é que ela não podia pecar, era isenta do pecado original, mas, por outro
lado, teve bem menos chances do que nós, visto que não teve a Santíssima Virgem
para amar; e isso é uma grande doçura a mais para nós, e uma grande doçura a
menos para ela!
Enfim, disse no meu Cântico: "Porque te
amo, ó Maria!" tudo o que pregaria sobre ela (3).
(CA- 21.8.3*)
NOTAS
(1) -Lucas 2,35
(2) -Lucas 2,50
(3) -Lucas 2,33
(4) -Quanto a esse Cântico, pode-se
lê-lo, neste livro, à p. . Note-se, outrossim, que os "Novíssima
Verba" acrescentam algumas palavras a este texto, mas que não são tão
importantes que mereçam, aqui, uma tradução, para completar o sentido do texto
apresentado. Ademais, os mesmos "NV" apresentam este texto no dia 23
de agosto e como se fora dito em momentos diferentes.
78.NÃO JULGAR, MAS
SALVAR!
Irmã Inês disse a Santa Teresinha que, no
recreio, as irmãs tinham comentado o fato de que o Pe. Youf tinha medo da
morte. Ademais, acrescentou irmã Inês, as irmãs tinham falado sobre a
responsabilidade daqueles que têm encargos de almas e que vivem muito tempo.
Nossa Santa aproveitou da deixa e, mais uma
vez, falou sobre as conseqüências futuras para quem é e quer permanecer
pequeno. Segundo ela, os pequeninos serão julgados com grande doçura;antes,
serão, simplesmente, salvos!
...Quanto aos pequenos, eles serão julgados
com uma extrema doçura. E pode-se mesmo permanecer pequeno, mesmo nos mais
notáveis cargos, e mesmo vivendo muito longamente. Se eu morresse com 80 anos,
se tivesse estado na China(1), em todas as partes, teria morrido, sinto-o bem,
tão pequena quanto hoje. E está escrito que "no fim, o Senhor se levantará
para salvar todos os mansos e os humildes da terra"(2). Ele não diz
julgar, mas salvar.
(CA-25.9.1)
NOTAS
(1) -Os "Cadernos Verdes, os
"Novíssima Verba" e o "Processo do Ordinário", dizem assim:
"Se eu morresse aos 80 anos, tivesse estado em vários mosteiros,
encarregada disso ou daquilo, teria morrido ..."
(2) -A Santa se refere ao salmo 76,10,
que diz assim: "Quando Deus se levanta para julgar e salvar todos os
pobres da terra".Como se vê, nossa Santa gostava de fazer aplicações
bíblicas bem conforme a seu pensar!
79.AMAR, AMAR,
AMAR...
Santa
Teresinha, nos últimos dias de sua vida, viu aumentar, dentro de si, o desejo
incontido de voltar à terra, após sua morte. Pois bem, certo dia, conta-nos
irmã Genoveva, Celina, em uma carta a sua tia, a senhora Guérin, que estava lendo
para nossa Santa uma passagem sobre a felicidade do céu, quando foi
interrompida por ela. O pequeno diálogo, que então se seguiu, mostra, muito
bem, como Teresa sonhava apenas em amar: amar no céu, ser amada, e voltar à
terra,evidentemente, para amar e ser amada.
Pode haver maior e melhor ideal?
-Não é isso, que me atrai...(1)
-Que é, então? perguntei.
-Oh! é o Amor! Amar, ser amada e voltar à
terra(2).
(CA.7.4)
NOTAS
(1) - A Santa se refere à felicidade do
céu.
(2) -No texto de Irmã Genoveva lê-se,com
palavras cortadas,em continuação: "para fazer amar o Amor...".
Todavia, sabemos, hoje, por intermédio da própria irmã Genoveva, que não foi
Santa Teresinha quem pronunciou essas últimas palavras, mas que elas foram
acrescentadas por outra irmã.
80.SÓ PARA HOJE
Na primavera de 1894, Santa Teresinha e sua
madrinha, a irmã Maria do Sagrado Coração, entretêm-se conversando sobre a
brevidade da vida. Da conversação nasceu um dos mais bonitos e bem feitos
poemas de Teresinha, como presente de festa para sua irmã mais velha.
Só para hoje, uma tradução mais livre de
"nada a não ser para hoje", expressa toda a liberdade e libertação da
alma poética de Teresinha. Nada de preocupações inúteis sobre o passado e sobre
o futuro; nada de incômodos,porque se é fraco; nada de perturbações, porque
Jesus é o piloto, Maria cobre com seu manto protetor, os anjos protegem com
suas asas. Enquanto alguns choram, porque Só têm o dia de hoje, Teresa de
Lisieux Só quer viver- e viver bem- o dia de hoje, porque Só ele conta.
81.MEU CANTO DE
HOJE
Minha vida é um instante, uma hora passageira
Minha
vida é um Só dia,que escapa e que foge
Tu
o sabes, ó meu Deus, pra te amar na terra
Eu Só tenho Só hoje!
Oh! eu te amo,Jesus, minh'alma suspira por ti
Sê,
por um dia apenas, meu doce apoio
Vem
reinar no meu coração, dá-me teu sorriso
Só
por hoje!
Que
m'importa,Senhor,se o futuro é sombrio
Rezar
pelo amanhã? Oh! não, eu não posso!
Conserva
puro meu coração,cobre-me com tua sombra
Só
por hoje.
Se
penso no amanhã, temo minha inconstância
Sinto
nascer no coração a tristeza e o enjôo
Mesmo
assim, meu Deus, quero a prova e o sofrimento
Só
por hoje.
Devo
te ver em breve nas praias eternas
Ó
Piloto Divino! cuja mão me conduz
Sobre
as ondas encapeladas guia em paz meu barquinho
Só
por hoje.
Ah!
Deixa-me, Senhor, me esconder na tua Face
Lá
não ouvirei mais do mundo o vão barulho
Dá-me
teu amor, conserva-me tua graça
Só
por hoje.
Perto
do teu Divino Coração,esqueço tudo que passa
Não
temo mais os receios da noite
Ah!
dá-me,Jesus, nesse Coração um lugar
Só
por hoje.
Pão
vivo, Pão do Céu, divina Eucaristia
Ó
Mistério sagrado, que o Amor produziu!...
Vem
habitar no meu coração, Jesus,minha Hóstia branca
Só
por hoje.
Digna-te
unir-me a ti, Vinha Santa e sagrada
E
meu fraco ramo te dará seu fruto
E
poderei te oferecer um cacho dourado
Senhor,
desde o dia de hoje.
Esse
cacho de amor, cujos grãos são as almas
Pra
formá-lo eu Só tenho esse dia, que foge
Ah!
dá-me, Jesus, de um Apóstolo as chamas
Só
por hoje.
ó
Virgem Imaculada! És tu minha Doce Estrela
que
me dá Jesus e que a Ele me une
ó
Mãe! deixa-me descansar sob teu manto
Só
por hoje.
Meu
Anjo guardião, cobre-me com tua asa
Ilumina
com tua luz a estrada que sigo
Vem
dirigir meus passos...ajuda-me, te peço
Só
por hoje.
Senhor,
quero te ver sem véu e sem nuvens
Mas
ainda exilada, longe de ti desfaleço
Que
não me seja ocultado teu amável rosto
Só
por hoje.
Voarei
bem longe para teus louvores cantar
Quando
descer na minh'alma o dia sem ocaso
Então,
eu cantarei com a lira dos Anjos
O
eternal dia de hoje!...
82.VIVER DE
AMOR!...
Irmã Genoveva considerava esse poema como
sendo o rei de todas as composições poéticas de nossa Santa. O certo é que ele
sintetiza, em poucas estrofes, todo o caminhar espiritual de Teresinha. Com
efeito, ela viveu de amor!
Mas, o amor de Teresa tem suas
características, características humanas e divinas e, por isso, vale a pena
ler, com atenção, esse poema-mensagem.
Ele nasceu como fruto de algumas horas
ardentes de adoração, diante do Santíssimo Sacramento, na Semana Santa de 1897.
Na tarde do dia 26, terça-feira, ele escreveu quatorze estrofes, do total de
quinze do poema. Depois, escreveu a quarta estrofe, a pedido de irmã Genoveva.
Saía, assim, como um jato de amor o poema-síntese de sua vida de amor!
Na
tarde do Amor, falando sem parábolas
Jesus
dizia: "Se alguém quer me amar
Que
guarde minha Palavra em toda sua vida
Meu
Pai e eu viremos visitá-lo.
E
de seu coração fazendo nossa morada
Vindo
a ele, o amaremos para sempre!...
Cheio
de paz, queremos que ele more
Em
nosso Amor!..."
Viver
de Amor é te guardar a Ti
Verbo
Incriado, Palavra de meu Deus,
Ah!
tu o sabes, Divino Jesus, eu te amo
O
Espírito de Amor me abrasa com seu fogo
É
te amando que atraio o Pai
Meu
fraco coração o guarda sem reserva
ó
Trindade, vós sois Prisioneira
De
meu Amor!...
Viver
de Amor é viver de tua vida,
Rei
glorioso, delícia dos eleitos.
Vives
para mim, escondido em uma hóstia
Eu
quero por ti me esconder, ó Jesus!
Aos
amantes é necessária a solidão
Um
coração a coração, que dure noite e dia
Só
teu olhar me dá felicidade
Eu
vivo de Amor!...
Viver
de Amor não é na terra
Fixar
sua morada no cume do Tabor.
Com
Jesus, é subir o Calvário,
E
ver a Cruz como um tesouro!...
No
Céu a minha vida será prazer
Então
a provação pra sempre fugirá
Mas
exilada, quero no sofrimento
Viver
de Amor.
Viver
de Amor é dar sem medida
Sem
reclamar o salário aqui na terra
Ah!
sem contar eu dou estando bem segura
Que
quando se ama, jamais se calcula!...
Ao
Divino Coração, transbordante de ternura
Eu
tudo dei...velozmente eu corro
Não
tenho mais nada senão minha única riqueza
Viver
de Amor.
Viver
de Amor é banir todo medo
Toda
a lembrança das faltas passadas.
Dos
meus pecados não vejo mais vestígio,
Em
um instante queimou tudo o amor...
Chama
divina, ó docíssima Fornalha!
Na
tua casa eu fixo minha morada
É
no teu fogo que canto à vontade:
"Eu
vivo de Amor!..."
Viver
de Amor é guardar em si mesmo
Um
grande tesouro em um vaso mortal
Amado
meu, minha fraqueza é extrema
Ah!
estou longe de ser um anjo do céu!...
Mas
se caio a cada hora que passa
Me
levantando tu vens a meu socorro,
A
cada instante tu me dás tua graça
Eu
vivo de Amor.
Viver
de Amor é navegar sem cessar
Semeando
paz e alegria em todos os corações
Piloto
Amado, a caridade me incita
Pois
te vejo nas almas minhas irmãs
A
Caridade, eis minha única estrela
À
sua luz, eu flutuo sem rodeios
Na
minha vela eu gravei minha divisa:
"Viver
de Amor".
Viver
de Amor, quando Jesus dormita
É
o repouso sobre as ondas encapeladas
Oh!
não tema, Senhor, qu'eu te acorde
Espero
em paz as praias lá do céu...
A
Fé em breve rasgará seu véu
Minha
Esperança é de te ver um dia
A
Caridade enche e sopra minha vela
Eu
vivo de Amor!...
Viver
de Amor é, ó meu Divino Mestre
Te
suplicar para expandir teu Fogo
Na
alma santa e sagrada de teu Padre
Que
ele seja mais puro que um Serafim do céu!...
Ah!
glorifica tua Igreja Imortal
Não
sê surdo, Jesus, a meus suspiros
Eu,
sua filha, eu me imolo por ela
Eu
vivo de Amor.
Viver
de Amor é enxugar tua Face
É
obter dos pecadores o perdão
ó
Deus de Amor! que voltem a tua graça
E
que pra sempre abençoem o teu Nome...
Até
no meu coração ressoa a blasfêmia
Para
apagá-la, quero cantar pra sempre:
"Teu
Nome Sagrado, eu o adoro e o amo
Eu
vivo de Amor!..."
Viver
de Amor é imitar Maria,
banhando
de lágrimas e perfumes preciosos,
Teus
pés divinos, que encantada ela beija
Enxugando-os
com seus longos cabelos...
Depois
levantando-se, audaciosamente
Teu
Doce Rosto embalsama também.
Pra
tua Face o perfume que tenho
É
meu Amor!...
"Viver
de Amor, que estranha loucura!"
Me
diz o mundo, "Ah! pare de cantar,
Não
perca teus perfumes, tua vida,
Utilmente
procura os empregar!..."
Te
amar, Jesus, que perda fecunda!...
Todos
meus perfumes são teus, sem reserva,
Quero
cantar ao sair deste mundo:
Eu
morro de Amor!"
Morrer
de Amor, é dulcíssimo martírio
É
aquele que quisera sofrer.
ó
Querubins! acordai vossas liras,
Pois
eu o sinto, meu exílio vai terminar!...
Chama
de Amor, consume-me sem trégua
Vida
de um instante, teu fardo me é bem pesado!
Divino
Jesus, realiza meu sonho:
Morrer
de Amor!...
Morrer
de Amor, eis minha esperança
Quando
os meus laços eu vir se quebrarem
Meu
Deus será minha Grande Recompensa
Não
quero nunca possuir outros bens.
De
seu Amor quero ser abrasada
Quero
vê-Lo e a Ele pra sempre me unir
Eis
meu Céu...eis meu destino:
Viver
de Amor!!!...
83.UMA ROSA
DESFOLHADA
É maio de 1897. A primavera chegou. As flores
apareceram por toda a parte, dando um ar de graça, de alegria e de beleza. As
noviças do Carmelo de Lisieux vão jogar flores ao Crucifixo do claustro. Teresa
não está presente. A tuberculose está avançando dentro dela. As forças estão
sendo, pouco a pouco, minadas. A Santa resiste, mas sabe que seu fim se
aproxima. É nesse clima trágico e dramático que aparece o poema "Uma Rosa
desfolhada".
Esse poema é um grito aubiográfico. Na
verdade, em toda sua dor e quase decomposição física, Teresinha, dentro do
contexto de sua espiritualidade, julga-se, de fato, uma rosa que vai, pouco a
pouco, se desfolhando. Só que não é um desfolhamento de morte e de tristeza. "é
uma desfolhamento de amor!
Nesse poema, nossa Santa, enquanto expressa
sua doutrina de abandono, de paz, de doação e de amor, vive seu próprio drama
físico e esse drama é o pano de fundo de todo seu cantar.
Jesus,
quando te vejo sustentado por tua Mãe
Deixar
seus braços
Ensaiar,tremendo,
na nossa triste terra
Teus
primeiros passos
Diante
de ti quisera uma rosa desfolhar
Em
seu frescor
Para
que teu pezinho docemente repouse
Sobre
uma flor!...
Essa
rosa desfolhada é a imagem fiel
Menino
Divino
Do
coração que por ti sem reserva imolar deseja
A
cada instante.
Senhor,
sobre teus altares mais de uma fresca rosa
Anela
brilhar
Ela
se dá a ti...mas eu sonho outra coisa:
"É
me desfolhar!..."
A
rosa, com seu brilho, pode embelezar tua festa
Gentil
Menino,
Mas,
a rosa desfolhada simplesmente a jogam
Ao
sabor do vento.
A
rosa desfolhada sem pretensões se dá
Para
não mais existir
Como
ela com alegria a ti eu me abandono
ó
Menino Jesus.
Caminha-se,sem
pena, sobre as folhas de rosa
E
esses destroços
São
um simples ornamento que sem arte se dispõe
Já
o compreendi.
Jesus,por
teu amor eu entreguei minha vida
Meu
futuro
Aos
olhos mortais sou rosa pra sempre murcha
Eu
devo morrer!...
Por
ti,devo morrer, Menino,Beleza Suprema
Que
sorte feliz!
Quero
desfolhando-me provar-te que te amo
ó
Tesouro meu!...
Sob
teus passos infantis, quero com mistério
Na
terra viver
Quisera
também no Calvário adoçar
Teus
derradeiros passos!...
84.A NOSSA SENHORA
DO PERPéTUO SOCORRO
A devoção a Nossa Senhora do Perpétuo Socorro
certamente não fazia parte relevante dos amores marianos de Santa Teresinha.
Todavia, tudo que dizia respeito a Maria, interessava profundamente a nossa
Santa. Por isso, atendendo a um pedido da irmã Maria da Trindade, que era muito
devota da Virgem do Perpétuo Socorro, Teresa escreveu este poema, tão simples,
que retrata os pensamentos daquela Irmã, mas é também uma imagem complementar
do que a Santa pensava da Virgem Mãe e que expôs, tão belamente, no seu grande
poema:"Porque te amo,Maria".
Mãe
querida, desde minha tenra juventude
Tua
doce Imagem soube encantar meu coração
No
teu olhar eu lia tua ternura
E
junto a ti encontrava a felicidade
Virgem
Maria, nas praias celestes
Após
o exílio, eu te verei pra sempre
Mas
aqui na terra tua doce Imagem
É
meu Perpétuo Socorro!...
Quando
era gentil e obediente
Me
parecia ver que tu socorrias
E
se, por vezes, era um pouco má
Acreditava
ver-te sobre mim chorar...
E
ouvindo minha ingênua prece
Tu
me mostravas teu amor materno
Te
contemplando encontrava na terra
Um
antegozo das delícias do céu.
Quanto
luto, ó minha Mãe querida
No
combate meu coração tu fortificas
Pois
tu bem sabes, na tarde desta vida
Quero
oferecer muitos Padres ao meu Senhor!...
Sempre
e sempre Imagem de minha Mãe
Tu
serás minha alegria e meu tesouro.
E
quisera na hora derradeira
Em
ti ainda meu olhar poder parar
Depois,
voando p'ros prados celestes
Nos
teus joelhos, ó Mãe, irei me assentar
Então
poderei sem partilhas
Os
doces beijos teus já receber!...
85.POR QUE TE AMO,
ó MARIA!
Santa Teresinha tinha um sonho a realizar
antes de partir deste mundo. Escrever, em canto poético, tudo que pensava sobre
sua Mãe querida do céu. Pois bem, em maio de 1897, já fraca por causa da
tuberculose, nossa Santa expõe, em 200 versos alexandrinos, todo seu pensamento
sobre Maria. Aí estão seus afetos filiais e sua teologia Mariana.
No poema passa a vida de Maria e se reflete
sobre seus sentimentos e pensamentos profundos. E de tudo, Teresa de Lisieux
tira suas conclusões. Conclusões da simplicidade da vida Mariana, da
participação da Virgem no mistério de seu Filho, da simplificação na prática
das virtudes, do modelo simples e ideal em que a Mãe se tornou.
Esse poema é o canto do cisne das obras
poéticas de Teresinha. É um canto de adeus, sim, mas é muito mais,é um grito de
amor, é uma lição à porta aberta, é a mensagem complementar da espiritualidade
teresiana.
Oh!
quisera cantar, Maria, por que te amo
Por
que teu nome tão doce faz meu coração exultar
E
por que o pensamento de tua grandeza suprema
Não
poderia a minha alma inspirar o temor
Se
eu te contemplasse na tua sublime glória
E
ultrapassando o brilho de todos os bem-aventurados
Que
fosse tua filha eu não poderia crer
ó
Maria, diante de ti, eu baixaria os olhos!...
É
preciso pra que um filho possa amar sua mãe
Que
ela chore com ele, participe de suas dores
ó
minha Mãe querida, na terra estrangeira
Para
me atrair pra ti, quantas lágrimas versaste!...
Meditando
tua vida no santo Evangelho
Ouso
te olhar e me aproximar de ti
Crer-me
tua filha, não me é difícil
Pois
te vejo mortal e sofrendo como eu...
Quando
do céu um anjo te oferece ser Mãe
Do
Deus que deve reinar para a eternidade
Te
vejo preferir, ó Maria, que mistério!
O
inefável tesouro da virgindade.
Compreendo
que tua alma, ó Virgem Imaculada
Seja
mais cara ao Senhor que a divina morada
Compreendo
que tua alma, Humilde e Doce Vale
Pode
conter Jesus, o Oceano do Amor!...
Oh!
eu te amo,Maria, declarando ser serva
Do
Deus que encantas com tua humildade
Essa
virtude escondida te torna onipotente
Ela
atrai pra teu coração a Santíssima Trindade
Então
o Espírito de Amor te cobrindo com sua sombra
O
Filho igual ao Pai em ti se encarnou...
De
seus irmãos pecadores bem grande será o número
Pois
ele será chamado: Jesus, o unigênito!...
ó
Mãe bem-amada, apesar da minha pequenez
Como
tu, eu possuo O Todo-Poderoso
Mas,
não temo em vendo minha fraqueza:
O
tesouro da mãe pertence ao filho
E
eu sou tua filha, ó minha Mãe querida
Tuas
virtudes, teu amor, não me pertencem?
Por
isso quando no meu coração desce a branca Hóstia
Jesus,
teu Doce Cordeiro, crê repousar em ti!...
Tu
mo fazes sentir, não é impossível
De
andar nos teus passos, ó Rainha dos eleitos,
Do
céu o estreito caminho tu tornaste visível
Praticando
sempre as mais humildes virtudes.
Perto
de ti, Maria, quero permanecer pequena,
Vejo
as vaidades das grandezas da terra,
Na
casa de Isabel, recebendo tua visita,
Aprendo
a praticar a ardente caridade.
Lá
escuto encantada, Doce Rainha dos anjos,
O
cântico sagrado que jorra do teu coração.
Tu
me ensinas a cantar os divinos louvores
A
me glorificar em Jesus, meu Salvador.
São
rosas místicas tuas palavras de amor
Que
devem perfumar os séculos futuros
Em
ti fez grandes coisas o Todo-Poderoso
Quero
meditá-las a fim de bendizê-la.
Quando
o bom São José ignora o milagre
Que
querias esconder na tua humildade
Tu
o deixas chorar perto do Tabernáculo
Que
esconde do Salvador a divina beleza!...
Oh!
como amo, Maria, teu silêncio eloqüente,
Para
mim é um concerto doce e melodioso
Que
me diz a grandeza e a onipotência
De
uma alma que Só espera seu socorro dos Céus...
Mais
tarde em Belém, ó José e Maria!
Vos
vejo repelidos por todos os habitantes
Ninguém
quer receber em sua hospedaria
pobres
estrangeiros,pois o lugar é pros grandes...
O
lugar é pros grandes e é num estábulo
Que
a Rainha dos Céus deve um Deus dar à luz.
ó
minha Mãe querida, como te acho amável
Como
te vejo grande em um lugar tão pobre!...
Quando
vejo o Eterno envolvido em faixas
Quando
do Verbo Divino ouço o fraco grito
ó
minha Mãe querida, não invejo mais os anjos
Pois
o seu Poderoso Senhor é meu Irmão querido!...
Como
te amo, Maria, tu que na nossa terra
Fizeste
surgir essa Divina Flor!...
Como
te amo escutando os pastores e os magos
E
guardando tudo zelosa no teu coração!...
Eu
te amo misturando-te com as outras mulheres
Que
para o templo santo seus passos dirigem
Eu
te amo apresentando o Salvador de nossas almas
Ao
felizardo Ancião, que o aperta em seus braços,
No
início sorrindo eu ouço o seu cântico
Mas
logo seus acentos chorar já me fazem.
Um
olhar profético no futuro estendendo
Simeão
te apresenta uma espada de dores.
ó
Rainha dos mártires, até à tarde de tua vida
Essa
espada dolorosa transpassará teu coração
Deves
logo deixar o solo de tua pátria
Para
evitar de um rei o ciumento furor.
Jesus
dorme em paz sob as pregas de teu manto
José
vem te pedir para partir num instante
E
tua obediência logo aparece
Partes
sem demora e sem arrazoados.
Na
terra do Egito, parece-me, ó Maria,
Que
na pobreza teu coração permanece alegre,
Pois
Jesus não é Ele a mais bela Pátria?
Que
te importa o exílio? Tu possuis os Céus...
Mas
em Jerusalém, uma amarga tristeza
Como
um vasto oceano vem inundar teu coração
Jesus,
por três dias, se esconde de tua ternura
Então,sim,
é o exílio em todo seu rigor!...
Enfim
tu o vês e a alegria te transporta,
Dizes
ao belo Menino, que os doutores encanta:
"ó
meu Filho, por que,pois, agis desta sorte?
Eis
que teu pai e eu em lágrimas te buscávamos."
E
o Menino Deus responde (oh! que profundo mistério!)
À
Mãe querida que lhe estende seus braços:
"Por
que me procuráveis?...Às obras de meu Pai
Eu
devo me empregar; não sabíeis por certo?"
O
Evangelho me ensina que crescendo em saber
A
José e Maria, Jesus ficava submisso
E
meu coração me revela com que ternura
Ele
obedece sempre a seus pais tão queridos.
Agora,
eu entendo o mistério do templo,
As
palavras escondidas de meu Amável Rei.
Mãe,
teu doce Filho quer que tu sejas o exemplo
Da
alma que O busca na noite da fé.
Visto
que o rei dos Céus quis que sua Mãe
Mergulhasse
na noite, na angústia do coração;
Maria,
é, pois, um bem o sofrer nesta terra?
Sim,sofrer
amando é a mais pura felicidade!...
Tudo
que Jesus me deu pode retomá-lo
Diz-lhe
para nunca se preocupar comigo...
Ele
pode mesmo se esconder, consinto esperá-lo
Até
o dia sem ocaso, quando se extinguirá minha fé...
Eu
sei que em Nazaré, Mãe cheia de graça
Tu
vives bem pobremente, não querendo nada a mais
Nada
de arrebatamento, de milagres e de êxtases
Eles
não embelezam tua vida, ó Rainha dos Eleitos!...
O
número dos pequenos é bem grande nesta terra
Eles
podem, sem temer, para ti os seus olhos levantar
É
pela estrada comum, incomparável Mãe
Que
te apraz caminhar para os guiar para o Céu.
Esperando
o Céu, ó minha Mãe querida,
Quero
viver contigo, seguir-te cada dia
Mãe,
na tua contemplação eu mergulho encantada
Descobrindo
no teu coração os abismos do amor.
Teu
maternal olhar afugenta meus temores
Ele
me ensina a chorar, ele me ensina a gozar.
Ao
invés de desprezar as alegrias puras e santas
Tu
queres as partilhar, te dignas abençoar.
Dos
esposos de Caná vendo a inquietude
Que
não podem esconder, pois o vinho lhes falta
Ao
Salvador tu o dizes na tua solicitude
Esperando
o socorro do seu poder divino.
Jesus
parece, de início, recusar tua prece
"Que
importa", diz ele, "mulher, a vós e a mim?"
Mas,
no fundo de seu coração, Ele te chama minha Mãe
E
seu primeiro milagre, Ele opera por ti...
Um
dia em que os pecadores escutam a doutrina
DAquele
que quisera nos Céus os receber
Eu
te encontro com eles, Maria, na colina
E
alguém diz a Jesus que tu querias o ver,
Então,
teu Divino Filho diante de todo o mundo
De
seu amor por nós mostra a imensidade
Ele
diz: "Quem é meu irmão e minha irmã e minha Mãe?"
"É
Só aquele que faz minha vontade"
ó
Virgem Imaculada, a mais terna das mães
Não
te entristeces, ouvindo Jesus
Mas
te alegras porque Ele nos faz entender
Que
na terra sua família é noss'alma
Sim,
te alegras porque Ele nos dá sua vida,
Os
tesouros infinitos de sua divindade!...
Como
não te amar, ó minha Mãe querida
Ao
ver tanto amor e tanta humildade?
Tu
nos ama, Maria, como Jesus nos ama
E
aceitas, por nós, ficar longe dEle.
Amar
é dar tudo e se dar a si mesmo
Quiseste
prová-lo ficando nosso apoio.
O
Salvador conhecia tua imensa ternura
Ele
sabia os segredos de teu coração maternal,
Refúgio
dos pecadores, é a ti que Ele nos deixa
Quando
deixa a Cruz para nos esperar no Céu.
Maria,
tu me apareces no cume do Calvário
De
pé, perto da Cruz, como um Padre no altar
Oferecendo
para apaziguar a justiça do Pai
Teu
bem-amado Jesus, o doce Emanuel...
Um
profeta o disse, ó Mãe desolada,
"Não
existe dor igual a tua dor!"
ó
Rainha dos Mártires, ficando no exílio
Tu
prodigas por nós todo o sangue de teu coração!
A
casa de São João se torna teu único asilo
O
filho de Zebedeu deve substituir Jesus...
É
o último detalhe que nos dá o Evangelho
Da
Rainha dos Céus ele não fala mais.
Mas
seu profundo silêncio, ó minha Mãe querida,
Não
revela que o Verbo Eterno
Quer
Ele mesmo cantar os segredos da tua vida
Para
encantar teus filhos, todos os Eleitos do Céu?
Em
breve ouvirei essa doce harmonia
Bem
logo no belo Céu eu te verei
Tu
que vieste me sorrir na manha de minha vida
Vem
me sorrir ainda...Mãe...a tarde já chegou!...
Não
temo mais o brilho de tua glória suprema
Contigo
eu sofri e agora eu o quero
Cantar
sobre teus joelhos,Maria, por que te amo
E
repetir pra sempre que eu sou tua filha!...
86.BILHETE DE
PROFISSÃO
Era costume, no tempo de Santa Teresinha, que
a noviça no dia de sua vestição, ou a professa no dia de seu votos trouxesse,
sobre seu coração um bilhete, em que ela pedisse, para ela e para seus amigos,
as graças que desejasse obter. Havia até uma crença que toda oração feita no
momento da prostração sobre o tapete, com os braços em cruz, era ouvida.
Teresa,pois, segue uma tradição, quando, no dia 8 de setembro de 1890, festa de
sua profissão religiosa, levava, sobre seu peito, o bilhete famoso, que segue.
Os pedidos podiam ser subscritos por qualquer
carmelita, mas, no caso de Teresinha, eles têm uma conotação toda especial,
porque revelam toda o seu caminhar. E a caminhada de Teresa está aí: pureza, Só
Deus, a paz, o amor infinito, o martírio, cumprimento perfeito dos votos,
esposa ideal, não pesar à comunidade, ser esquecida por todos, grão de areia,
cumprimento da vontade divina, a glória celeste, salvação das almas, Só querer
alegrar e consolar Jesus.
Está evidente que semelhantes pedidos, frutos
de um verdadeiro querer vivê-los e mesmo já de uma vivência, Só poderiam partir
de uma grande Santa.
ó Jesus, meu divino esposo! que eu não perca
jamais a segunda veste do meu batismo. Toma-me antes que eu cometa a mais leve
falta voluntária. Que eu não busque nem encontre jamais outra coisa senão a ti
somente, que as criaturas não sejam nada para mim e que eu não seja nada para
elas, mas que tu, Jesus, sejas tudo!...Que as coisas da terra não possam jamais
perturbar minha alma e que nada perturbe minha paz. Jesus, outra coisa eu não
te peço senão a paz e também o amor, o amor infinito sem outro limite senão tu,
o amor que não seja mais eu, mas tu, meu Jesus. Jesus, que por ti eu morra
mártir, o martírio do coração ou do corpo, ou, antes, de ambos os dois...
Concede-me cumprir meus votos em toda sua perfeição e faze-me compreender o que
deva ser uma esposa para ti. Faze que eu não seja nunca uma carga para a
comunidade, mas que ninguém se ocupe comigo, que seja olhada como algo pisado
com os pés e esquecida como um teu grãozinho de areia, Jesus.
Que tua vontade seja realizada em mim
perfeitamente, que eu alcance o lugar que foste já preparar para mim...
Jesus, faze que eu salve muitas almas, que
hoje não haja uma Só condenada e que todas as almas do purgatório sejam
salvas... Jesus, perdoa-me se digo coisas, que não devem ser ditas, Só quero te
alegrar e te consolar.
87.ATO DE OFERTA
COMO VÍTIMA DE HOLOCAUSTO AO AMOR MISERICORDIOSO DO BOM DEUS
Nos textos, que neste livro, foram
apresentados, ficou clara a posição de Teresa de Lisieux a respeito da Justiça
divina e do Amor Misericordioso de Deus. Sua predileção sempre foi pelo Amor e
pelo amor de misericórdia, enquanto que nossa Santa via a justiça divina
justamente sob a ótica do próprio amor, isto é, porque justo, Deus seria
compreensivo e compassivo com aqueles que, diante dele, se julgassem fracos,
imperfeitos e pequenos, colocando-se, assim, totalmente, nos seus braços.
Pouco a pouco, diante do fato que algumas
pessoas se ofereciam à justiça divina, como vítimas de holocausto e de expiação
pelos pecados e maldades dos homens, Teresinha concebeu a idéia de se
consagrar, inteiramente, ao amor misericordioso de Deus. Na sua Autobiografia
está registrado o desenrolar dessa idéia. E foi assim que, aos 9 de junho de
1895, festa da Santíssima Trindade, ela se ofertou, totalmente, como vítima de
holocausto ao amor misericordioso de Deus.
O que esse ato de oferecimento encerra de
teologia e de espiritualidade, a reflexão pessoal e, sobretudo, a vivência de
cada um poderão dizê-lo melhor do que qualquer comentário. Com efeito, se amor
atrai amor e se todo amor exige a consumação e fusão total dos amantes, esse
ato de oferta é a seqüência e conclusão lógicas do puro, autêntico e mais
profundo amor de uma criatura ao seu Deus de amor.
ó meu Deus! Trindade bem-aventurada, eu
desejo vos Amar e vos fazer Amar, trabalhar para a glorificação da Santa
Igreja, salvando as almas, que estão na terra e libertando as que sofrem no
purgatório. Desejo cumprir perfeitamente vossa vontade e chegar ao grau de
glória, que me preparastes no vosso reino. Em uma palavra, desejo ser Santa,
mas sinto minha impotência e vos peço, ó meu Deus, que sejais vós mesmo minha
Santidade.
Posto que me amastes até me dar vosso Filho
único para ser meu Salvador e meu Esposo, os tesouros infinitos de seus méritos
me pertencem; eu vo-los ofereço, com alegria, pedindo-vos que não me olheis a
não ser através da Face de Jesus e no seu Coração abrasado de Amor.
Ofereço-vos, ainda, todos os méritos dos
santos (que estão no Céu e na terra), seus atos de Amor e os dos Santos Anjos;
ofereço-vos, enfim, ó bem-aventurada Trindade, o Amor e os méritos da
Santíssima Virgem, minha Mãe querida. A Ela entrego minha oferta, pedindo-lhe
que vo-lo apresente. Seu Divino Filho, meu Esposo Bem-Amado, nos dias de sua
vida mortal, disse-nos: "Tudo que pedirdes ao meu Pai, em meu nome, Ele
vo-lo dará!" Estou, pois, certa que ouvireis meus desejos; eu o sei, ó meu
Deus, quanto mais quereis dar, tanto mais fazeis desejar. Sinto no meu coração
desejos imensos e é, com confiança, que vos peço que tomeis posse de minha
alma. Ah! não posso receber a Santa Comunhão tantas vezes quantas desejo, mas,
Senhor, não sois Todo-Poderoso?... Ficai em mim como no tabernáculo, não vos
separeis mais de vossa pequena hóstia...
Quisera vos consolar da ingratidão dos maus e
vos suplico que me tireis a liberdade de vos desagradar. Se, por fraqueza, eu
cair alguma vez, que logo vosso Divino Olhar purifique minha alma, consumindo
todas as minhas imperfeições, como o fogo que transforme tudo nele mesmo...
Eu vos agradeço, ó meu Deus, por todas as
graças que me concedestes, particularmente a de me ter feito passar pelo crisol
do sofrimento. Será, com alegria, que vos contemplarei no último dia,
carregando o cetro da cruz. Posto que vos dignastes dar-me, como herança, essa
cruz tão preciosa, espero parecer-me convosco no Céu e ver brilhar no meu corpo
glorificado as sagradas estigmas de vossa Paixão...
Após o exílio da terra, espero ir gozar de
vós na Pátria,mas não quero juntar méritos para o Céu, Só quero trabalhar para
vosso Amor, com o único fim de vos dar prazer, de consolar vosso Sagrado
Coração e de salvar almas , que vos amarão por toda a eternidade.
Na tarde desta vida, comparecei diante de vós
com as mãos vazias, pois, não vos peço, Senhor, que conteis minhas obras. Todas
as nossas justiças têm manchas aos vossos olhos. Quero, pois, revestir-me de
vossa própria Justiça e receber de vosso Amor a posse eterna de Vós mesmo. Não
quero absolutamente outro trono e outra coroa a não ser Vós, ó meu
Bem-Amado!...
A vossos olhos, o tempo não é nada, um Só dia
é como mil anos, vós podeis, pois, em um instante, preparar-me para comparecer
diante de vós...
A fim de viver em um ato de perfeito Amor, eu
me ofereço como vítima de holocausto a vosso Amor misericordioso,
suplicando-vos me consumir sem cessar, deixando transbordar na minha alma as
vagas de ternura infinita, que estão presas em vós e que, dessa maneira, eu me
torne mártir de vosso Amor, ó meu Deus!...
Que esse martírio, depois de me ter preparado
para comparecer diante de vós, faça-me, enfim, morrer, e que minha alma se
jogue , sem demora, no abraço eterno do Vosso Misericordioso Amor...
Quero, ó meu Bem-Amado, a cada batida do meu
coração, renovar-vos essa oferta um numero infinito de vezes, até quando,
tendo-se dissipado as sombras, possa repetir-vos meu Amor em um Face a Face
Eterno!...
ÍNDICE
APRESENTAçÃO.....................................
I
AS
PREFERÊNCIAS DE DEUS.......................... 1
EU
ESCOLHO TUDO.................................. 3
TUDO
ME SORRIA NA TERRA.......................... 5
AMOR
E TERNURA................................... 7
RELIGIÃO
E VIDA.................................. 10
MAR,
SOL E GRAçA................................. 13
O
SORRISO DE MARIA............................... 15
VIDA
E Glória.................................... 17
ORAçÃO...........................................
19
EUCARISTIA
E CONFIRMAçÃO......................... 20
EXIGÊNCIAS
DO CORAçÃO............................ 24
AMIZADE
E CRESCIMENTO............................ 26
O
BRINQUEDO FURADO E A BOLINHA ABANDONADA........ 28
O
SACRIFÍCIO DA SEPARAçÃO........................ 32
UM
NOVO CAMINHO SE ABRE.......................... 34
PREPARANDO
UM CASAMENTO.......................... 40
UM
CONVITE DE CASAMENTO.......................... 44
SOMENTE
COM O AMOR............................... 45
COMO
É DOCE O CAMINHO DO AMOR!................... 47
O
AMOR MISERICORDIOSO............................ 49
A
CIÊNCIA DO AMOR................................ 52
MINHA
VOCAçÃO É O AMOR........................... 55
SER
UMA SANTA.................................... 62
O
POEMA DA PRIMEIRA CHAMADA...................... 64
AMAR
COMO DEUS NOS AMOU.......................... 67
AMOR
E POBREZA................................... 73
O
PINCEL DE DEUS................................. 75
O
SANTUÁRIO HUMANO............................... 77
A
ORAçÃO......................................... 80
HUMILHAçÃO.......................................
82
AMOR
QUE ATRAI AMOR.............................. 84
O
SONHO DA MONTANHA.............................. 87
ELE
PEDE TUDO!................................... 88
O
AMOR PODE TUDO!................................ 90
SECURA
E SONO.................................... 92
CORAçÃO
SENSÍVEL................................. 94
A
PÁtRIA!... A PÁTRIA!... ....................... 96
SOFRIMENTO,
PROVA DO AMOR........................ 98
PAZ
E ALEGRIA.................................... 99
SANTIDADE!?
QUE É?............................... 101
O
MARTÍRIO DO ESCRÚPULO.......................... 103
SER
APósTOLO!.................................... 105
GRÃO
DE AREIA.................................... 107
A
MONOTONIA DO SACRIFÍCIO........................ 109
O
PEQUENO NADA................................... 111
A
MONTANHA DO AMOR............................... 113
DISTANTES
INFINITOS.............................. 114
ATÉ
AS ALEGRIAS NATURAIS!........................ 116
SIMPLICIDADE
COM A MÃE........................... 118
GOTA
DE ORVALHO.................................. 119
NA
BANCA DO AMOR................................. 121
OS
NADAS IMPORTANTES............................. 124
AS
FLORES DO CAMINHO............................. 126
A
PALAVRA E A VERDADE............................ 128
O
MARTÍRIO DO CORAçÃO............................ 130
QUEM
É REALMENTE LOUCO?.......................... 131
UMA
CRIANCINHA................................... 133
JOGANDO
FLORES................................... 135
A
CONFIANçA, Só A CONFIANçA...................... 136
O
EXÍLIO OU A PÁTRIA?............................ 138
A
JUSTIçA DIVINA................................. 139
Só
CONTO COM O AMOR!............................. 141
O
ÚLTIMO LUGAR................................... 142
É
PRECISO CANTAR SEMPRE.......................... 143
SOFRIMENTO,
CONFIANçA, ABANDONO, AMOR!........... 144
DELICADEZA
FILIAL................................ 146
A
ESPADA DO ESPÍRITO............................. 147
TUDO
É GRAçA..................................... 148
VIA
SACRA........................................ 149
GOTA
D'ÁGUA...................................... 150
AJUDAR
TODA A IGREJA!............................ 151
COMUNHÃO
DOS SANTOS.............................. 152
A
OPINIÃO DAS CRIATURAS.......................... 154
PERMANECER
PEQUENO............................... 155
O
TRONO E O POBRE................................ 156
A
SAGRADA FAMÍLIA................................ 157
UM
SERMÃO DIFERENTE.............................. 158
NÃO
JULGAR, MAS SALVAR!.......................... 160
AMAR,
AMAR, AMAR................................. 161
MEU
CANTO DE HOJE................................ 162
VIVER
DE AMOR.................................... 164
UMA
ROSA DESFOLHADA.............................. 167
A
NOSSA SENHORA DO PERPÉTUO SOCORRO.............. 169
POR
QUE TE AMO, ó MARIA!......................... 170
BILHETE
DE PROFISSÃO............................. 175
ATO
DE OFERTA AO AMOR MISERICORDIOSO............. 176
* É doutor em teologia e Vigário Geral da Arquidiocese de Maceió