Proto Evangelho de Tiago
Este escrito também foi
chamado de ´Natividade de Maria´. Não se sabe quem foi o seu autor, certamente não
foi São Tiago, embora use o seu nome. É provavelmente um escrito do primeiro
século, e gozou de grande estima entre os primeiros cristãos, como S. Clemente
de Alexandria, São Justino, Orígenes, etc. Muito influenciou na Liturgia e na
Mariologia da Igreja. Começa com o nascimento de Maria Santíssima, sua
consagração no Templo, o casamento com José, a concepção de Jesus, a visita dos
Reis Magos e a perseguição e matança das crianças inocentes. Fala dos nomes dos
pais de Maria: Joaquim (I,1) e Ana (II,1), que era estéril); fala da
consagração de Maria no Templo aos 3 anos de idade (VII,2) e lá fica até
completar os 12 anos (VIII,2); fala de José escolhido para ser o esposo de
Maria (IX,1), embora já velho, com filhos e viúvo (IX,2); fala da anunciação do
Arcanjo Gabriel;(XI); fala da visita de Maria a sua parente Isabel (XII); fala
do parto de Maria numa caverna e uma parteira é chamada para os serviços de
parto (XVIII,1); fala que Maria permanece virgem mesmo após o parto de Jesus
(XIX e XX); fala da visita dos Magos, fala da mantança de Herodes às crianças.
PROTO EVANGELHO DE TIAGO
I
1. Conforme as memórias
das Doze Tribos de Israel, existia um homem riquíssimo chamado Joaquim. Suas
oferendas eram sempre em dobro e dizia: ´A sobra ofereço para todo o povoado e
o que devo ofereço ao Senhor, para expiar os meus pecados e conquistar´Lhe as
boas graças´. 2. Quando chegou a grande festa do Senhor, onde os filhos de
Israel oferecem seus donativos, Rubem pôs´se diante de Joaquim e disse´lhe:
´Como não geraste um rebento em Israel, não te é lícito oferecer donativos´.
3. Então Joaquim
mortificou´se e foi até os arquivos de Israel para consultar o censo
genealógico para confirmar que teria sido o único no povoado que não tivera
descendentes. Examinando os pergaminhos, certificou´se que todos os justos
tiveram descendentes. Lembrou´se, então, que o Senhor dera ao patriarca Abraão,
em seus últimos anos de vida, um filho: Isaac.
4. Joaquim ficou muito
triste e não voltou para sua mulher, retirando´se para o deserto. Lá armou sua
tenda e jejuou por 40 dias e 40 noites. Disse a si próprio: ´Daqui não sairei,
nem para comer ou beber, até que o Senhor meu Deus me visite. Sirvam as minhas
orações por comida e bebida´.
II
1. Ana, sua mulher,
chorava e lamentava em dor: ´Ficarei chorando a minha viuvez e a minha
esterilidade´.
2. Quando afinal chegou a
grande festa do Senhor, Judite, sua criada, disse´lhe: ´Até quando humilharás a
alma? Eis que chegou a grande festa e não podes entristecer´te. Pega este véu
com selo real que a dona da tecelagem me deu pois não posso usá´lo já que sou
simples serva.´
3. Disse´lhe Ana:
´Afasta´te de mim pois nada fiz. O Senhor me humilhou o suficiente para que eu
possa usá´lo. Acaso algum ímpio to deu para me fazerdes cúmplice do pecado?´.
Respondeu Judite: ´Por que iria eu maldizer´te se o próprio Senhor já te
amaldiçoou a não deixardes descendente em Israel?´
4. Mesmo estando
profundamente triste, Ana retirou seus trajes de luto, pôs o véu e os trajes de
bodas. À hora nona, desceu ao jardim e foi passear. Então, assentou´se sob a
sombra de um loureiro e orou ao Senhor: ´Ó Deus dos nossos pais: ouvi´me e
bendizei´me como fizeste com o ventre de Sara, que concebeu a Isaac´.
III
1. E olhando para o céu,
observou um ninho de passarinhos existente no loureiro. Voltou então a
lamentar´se, dizendo: ´Ai de mim! Por que nasci? Em que hora fui concebida? Vim
ao mundo para ser terra maldita entre os filhos de Israel, pois me injuriam e
me expulsam do Templo do Senhor.
2. Ai de mim! A que posso
comparar´me? Certamente não posso me comparar às aves do céu porque elas
fecundam na tua presença, ó Senhor. Ai de mim! A que posso comparar´me? Não
posso comparar´me às feras da terra porque esses animais irracionais
reproduzem´se diante dos teus olhos, ó Senhor.
3. Ai de mim! A que posso
comparar´me? Certamente não posso me comparar sequer a estas águas porque
também elas são férteis perante ti, Senhor. Ai de mim! A que posso comparar´me?
Não posso ao menos comparar´me à terra porque ela é fecunda e produz frutos a
seu tempo, bendizendo´te, ó Senhor.´
IV
1. Eis que apareceu´lhe
um anjo do Senhor e disse´lhe: ´Ana, Ana! O Senhor ouviu as tuas preces. Eis
que conceberás e darás à luz. Da tua família se falará por todo o mundo´. Ana
respondeu: ´Glória ao Senhor, meu Deus! Se for´me dado menino ou menina, fruto
de Sua bênção, ofertá´lo´ei ao Senhor e a Seu serviço estará por todos os dias
de sua vida´.
2. Então chegaram dois
mensageiros com o seguinte recado para ela: ´Joaquim, teu marido, voltou com
todo o rebanho, pois um anjo veio até ele e disse´lhe: ´Joaquim, Joaquim! O
Senhor ouviu as tuas preces. Ana, tua mulher, conceberá em seu ventre´´.
3. Saindo Joaquim,
ordenou que seus pastores trouxessem´lhe dez ovelhas imaculadas. Disse então:
´Estas são para o Senhor´. [Mandou trazer´lhe também] doze novilhas de leite. E
disse: ´Estas são para os sacerdotes e o Sinédrio´. E mandou distribuir cem
cabritos para todo o povoado.
4. Chegando Joaquim com
seus rebanhos, Ana, que estava à porta, o viu; correu e atirou´se em seu
pescoço, dizendo´lhe: ´Agora percebo que o Senhor me bendisse abundantemente.
Eu era viúva e deixei´se de sê´lo. Era estéril e agora conceberei em meu
ventre´. Nesse primeiro dia, Joaquim repousou em sua casa.
V
1. Ao ir, no dia
seguinte, oferecer seus bens ao Senhor, disse para consigo mesmo: ´Se vir o
éfode do sacerdote, saberei que Deus me será favorável´. Ao oferecer o
sacrifício, notou o éfode do sacerdote, quando este estava próximo ao altar de
Deus. Não encontrando qualquer pecado em sua consciência, disse: ´Agora vi que
o Senhor me perdoou todos os pecados´. Joaquim desceu justificado do Templo e
voltou para casa.
2. Cumprindo´se o tempo
para Ana, concebeu no nono mês. E perguntou à parteira: ´A quem dei a luz?´
Respondeu a parteira: ´A uma menina´. Exclamou Ana: ´Eis que minha alma foi
exaltada!´. E colocou a menina no berço. Quando cumpriu´se o tempo definido
pela Lei, Ana purificou´se e deu de mamar à menina. E pôs´lhe o nome de Maria.
VI
1. A menina se fortalecia
a cada dia que passava. Quando atingiu os seis meses, sua mãe a colocou no chão
para ver se conseguia ficar de pé. Ela andou sete passos e voltou para o colo
de sua mãe. Pegando´a, disse [Ana]: ´Glória ao Senhor! Não andarás mais nesse
chão até que eu te apresente ao Templo do Senhor´. Fazendo um oratório em casa,
não permitia que nada de vulgar ou impuro se lhe tocassem nas mãos [de Maria].
Convocou também algumas meninas hebréias, todas virgens, para brincarem com
ela.
2. Completando a menina
seu primeiro ano, ofereceu Joaquim um grandioso banquete. Convidou os
sacerdotes, os escribas, o Sinédrio e todo o povo de Israel. Apresentando a
menina, os sacerdotes a abençoaram com estas palavras: ´Ó Deus de nossos pais:
bendiz esta menina e que seu nome seja glorioso e eterno por todas as
gerações´. O povo todo respondeu: ´Amém, amém, amém´. Joaquim também apresentou
a menina aos príncipes e [sumos] sacerdotes que a abençoaram assim: ´Ó Deus
altíssimo: volta teus olhos para esta menina e conceda´lhe uma bênção perfeita,
não sendo´lhe necessária qualquer outra [bênção] no futuro´.
3. Sua mãe levou´a para o
oratório e deu´lhe de mamar. Entoou então um hino ao Senhor Deus: ´Farei um
cântico ao Senhor, meu Deus, porque me visitou / Afastou de mim as injúrias dos
inimigos e me deu um fruto santo que é único e múltiplo a Seus olhos / Quem
levará aos filhos de Rubem a notícia de que Ana amamentou? / Ouvi! Ouvi, ó Doze
Tribos de Israel! Ana está amamentando!´ E deixando a menina repousar na câmara
existente no oratório, saiu e passou a servir os convidados; terminada a ceia,
[os convidados] saíram alegres e louvando ao Deus de Israel.
VII
1. Os meses foram
passando para a menina e quando ela completou dois anos, Joaquim disse a Ana:
´Vamos levá´la ao Templo do Senhor para cumprirmos a promessa que fizemos, para
que o Senhor não reclame e nossa oferenda se torne inaceitável a seus olhos´.
Ana respondeu: ´Vamos esperar que ela complete três anos, para que não venha
sentir saudade de nós´. E Joaquim respondeu: ´Vamos aguardar´.
2. Quando completou três
anos, Joaquim disse: ´Chame as meninas hebréias, virgens, e que, duas a duas,
tomem uma lâmpada acesa para que a menina [Maria] não olhe para trás e seu
coração se prenda por algo fora do Templo de Deus´. E assim foi feito e subiram
ao Templo do Senhor. Então o sacerdote a recebeu, a beijou e abençoou´a. E
disse [à Maria]: ´O Senhor engrandeceu o teu nome diante de todas as gerações.
No final dos tempos, manifestará em ti Sua redenção aos filhos de Israel´.
3. Então fez [Maria]
sentar´se no terceiro degrau do altar e o Senhor derramou Sua graça sobre ela.
Ela dançou e cativou toda a casa de Israel.
VIII
1. Então seus pais foram
embora cheios de admiração e louvaram ao Senhor porque a menina não olhou para
trás. E Maria passou a ficar no Templo como uma pequena pomba, recebendo seu
sustento das mãos de um anjo.
2. Entretanto, quando
completou doze anos, os sacerdotes se reuniram e disseram: ´Maria atingiu os
doze anos no Templo. O que devemos fazer para que ela não macule o Santuário?´
Então disseram ao sumo sacerdote: ´O altar está a tua disposição. Entra e ora
por ela pois o que o Senhor te revelar, isso será o que deveremos fazer´.
3. O sumo sacerdote
colocou então o manto com as doze sinetas, adentrou ao santo dos santos e orou
por ela. Mas eis que um anjo do Senhor lhe apareceu e disse: ´Zacarias,
Zacarias! Sai e chama todos os viúvos do povoado; que cada um traga um bastão e
a quem o Senhor mostrar um sinal, este será o seu esposo´. Então os mensageiros
percorreram toda a Judéia e se apresentaram ao soar da trombeta.
IX
1. José separou seu
bastão e se reuniu aos demais [viúvos]. Então cada um pegou seu bastão e foram
procurar o sumo sacerdote. Este pegou todos os bastões e, adentrando ao Templo,
pôs´se a orar. Ao concluir as orações, pegou os bastões e devolveu´os aos seus
respectivos donos, mas em nenhum deles manifestou sinal algum. Contudo, quando
José pegou o último bastão, uma pomba saiu dele e pôs´se a sobrevoar´lhe a
cabeça. Então o sacerdote disse: ´A ti caberá receber sob teu teto a Virgem do
Senhor´.
2. Mas José respondeu:
´Tenho filhos e já estou avançado na idade; ela, porém, ainda é uma menina. Não
quero ser zombado pelos filhos de Israel´. Então argumentou o sacerdote: ´Tema
ao Senhor, teu Deus, e recorde do que Ele fez com Datã, Abiron e Coret: a terra
se abriu e eles foram enterrados em virtude de sua rebelião. Tema também tu
agora, José, para que o mesmo não aconteça à tua casa´.
3. Então ele, cheio de
temor, recebeu [Maria] sob seu teto. Depois disse´lhe: ´Tomei´te do Templo e
deixo´te agora na minha casa, mas prosseguirei as minhas obras. Voltarei em
breve, mas o Senhor te protegerá´.
X
1. Os sacerdotes se
reuniram e decidiram fazer um véu para o Templo do Senhor. O sacerdote disse: ´Chama
as moças imaculadas da Tribo de Davi´. Os ministros saíram e após procurarem,
encontraram sete virgens. Então o sacerdote recordou´se de Maria e os
mensageiros a buscaram.
2. Depois que foram
levadas para dentro do Templo, disse o sacerdote: ´Vejamos quem bordará o ouro
e o amianto, o linho e a seda, o zircão, e o escarlate e a púrpura real´. O
escarlate e a púrpura real couberam a Maria; esta as tomou e levou para sua
casa. Nessa época, Zacarias ficou mudo e foi substituído por Samuel até que recuperasse
a voz. Maria tomou o escarlate em mãos e pôs´se a tecê´lo.
XI
1. Um dia, Maria tomou um
cântaro para enchê´lo de água. Mas ouviu uma voz que lhe dizia: ´Salve, cheia
de graça! O Senhor está contigo, bendita és entre as mulheres´. Então ela olhou
ao seu redor, à direita e à esquerda, para ver de onde provinha aquela voz.
Amedrontada, fugiu para sua casa e abandonou ali mesmo a ânfora. Pegou a
púrpura, sentou´se e voltou a tecê´la.
2. Porém, um anjo de
Senhor apareceu à sua frente e disse: ´Não temas, ó Maria! Alcançaste graça
diante do Senhor Todo´Poderoso e conceberás por Sua graça´. Ela, ao ouvi´lo,
ficou admirada e disse consigo mesma: ´Conceberei por graça do Deus vivo e
darei à luz como as demais mulheres?´
3. Respondeu´lhe o anjo:
´Não, Maria, pois a graça do Senhor te cobrirá com Sua sombra e o santo fruto
que nascerá de ti será chamado Filho do Altíssimo. Deverás chamá´lo ´Jesus´
porque Ele salvará seu povo das iniqüidades.´ Então Maria disse: ´Eis aqui a
serva do Senhor! Faça´se em mim conforme a sua palavra´.
XII
1. Terminado o trabalho
com a púrpura e o escarlate, [Maria] levou´o ao sacerdote, que a abençoou
assim: ´Maria: o Senhor enalteceu o teu nome! Serás bendita entre todas as
gerações da terra´.
2. Radiante de alegria,
Maria se dirigiu à casa de sua parente, chamada Isabel, e chamou´a da porta. Ao
escutá´la, Isabel deixou o escarlate e correu para a porta. Abrindo [a porta] e
vendo Maria, louvou´a dizendo: ´Quem sou para que a mãe do meu Senhor venha até
minha casa? O fruto do meu ventre pôs´se a pular dentro de mim para
bendizer´te´. Como Maria se esquecera das palavras do anjo Gabriel, elevou os
olhos ao céu e disse: ´Quem sou eu, Senhor, para que todas as gerações me
bendigam?´
3. E ficou durante três
meses na casa de Isabel. Como dia após dia seu ventre crescia, ficou preocupada
e pôs´se à caminho de casa. Ficava escondida dos filhos de Israel e possuía
dezesseis anos quando estas coisas aconteceram.
XIII
1. Quando Maria atingiu o
sexto mês de gravidez, José retornou de suas obras e, ao chegar em casa,
percebeu que ela estava grávida. Então bateu em seu próprio rosto e atirou´se
no chão, sobre uma manta, chorando amargamente: ´Como me apresentarei ao
Senhor? Como orarei por esta menina que recebi virgem do Templo do Senhor e que
não soube vigiar? Acaso o que ocorreu com Adão ocorreu também comigo? Pois
enquanto Adão orava veio a serpente e, vendo Eva sozinha, a enganou... Teria o
mesmo ocorrido comigo?´
2. Então José se levantou
e chamou Maria. Disse´lhe: ´O que fizeste, tu que eras a predileta de Deus?
Como tiveste coragem de fazer isso? Esqueceste do teu Deus? Como manchaste a
tua alma, tu que foste criada no santo dos santos, recebendo o sustento das
mãos do anjo?´
3. Ela chorou amargamente
e disse: ´Permaneço pura pois não conheço varão´. Respondeu José: ´Então de
onde vem o que carregas em teu seio?´. Respondeu Maria: ´Juro pelo Senhor, meu
Deus, que não sei como isto se sucedeu´.
XIV
1. Então José ficou muito
preocupado e deixou Maria, pensando o que deveria fazer com ela. Disse para si
mesmo: ´Se omito o seu erro, estarei contra a Lei do Senhor... Se a denuncio ao
povo de Israel e o que lhe aconteceu foi devido à intervenção de anjos, estarei
condenando uma inocente à morte. O que farei? Irei mandá´la embora às
escondidas...´ E logo veio a noite.
2. Mas um anjo do Senhor
apareceu´lhe em sonho e disse´lhe: ´Não se preocupe com esta menina. O que ela
traz em seu ventre é devido ao Espírito Santo. Ela dará à luz um filho e
colocar´lhe´ás o nome de ´Jesus´, porque Ele salvará seu povo do pecado´.
Levantando´se, José glorificou ao Deus de Israel por conceder tamanha graça e
continuou com Maria.
XV
1. Entretanto, Anás, o
escriba, veio até sua casa e lhe disse: ´Por que deixaste de comparecer à
reunião?´ Respondeu José: ´Estava exausto da viagem e resolvi descansar o
primeiro dia´. Virando´se, Anás percebeu a gravidez de Maria.
2. Então correu até o
sacerdote e disse´lhe: ´José cometeu falta grave e tu respondes por ele´.
Perguntou o sumo sacerdote: ´O que estás dizendo?´. Respondeu Anás: ´Ele violou
a virgem que recebeu do Templo de Deus e fraudou seu casamento, não
declarando´o ao povo de Israel´. Disse o sacerdote: ´Estás certo de que
realmente José fez isso?´ Respondeu Anás: ´Manda a comissão e confirmará a
gravidez da menina´. Então os enviados saíram e encontraram [Maria] tal como
Anás dissera. E a levaram ao Tribunal, juntamente com José.
3. O sacerdote tomou a
palavra e disse: ´Por que fizeste isso, Maria? Por que manchaste tua alma,
esquecendo do Senhor, teu Deus? Tu, que foste criada no santo dos santos e
recebias o sustento das mãos do anjo, que ouviste os hinos e dançaste diante de
Deus: por que fizeste isso?´ Ela passou a chorar amargamente e disse: ´Juro
pelo Senhor, meu Deus, que permaneço pura diante Dele! Não conheci varão
algum!´
4. Então o sacerdote
disse a José: ´Por que fizeste isso?´ Respondeu José: ´Juro pelo Senhor, meu
Deus, que permaneço puro perante ela´. Esbravejou o sacerdote: ´Não jures em
falso! Fala a verdade: fraudaste o teu matrimônio, não declarando´o ao povo de
Israel; e não inclinaste tua cabeça sob o braço forte de Deus, que bendisse a
tua descendência´. E José se calou.
XVI
1. O sacerdote disse [a
José]: ´Devolve a virgem que recebeste do Templo de Deus´. Os olhos de José
encheram´se de lágrimas. O sacerdote disse ainda: ´Bebereis da água da prova do
Senhor e esta te mostrará aos olhos os teus pecados´.
2. E fez José beber a
água e o enviou para a montanha. Porém, retornou são e salvo. Fez o mesmo com
Maria, enviando´a também para a montanha. Também ela retornou sã e salva. Então
a cidade toda se admirou, por não encontrar pecado neles.
3. Disse o sacerdote:
´Visto que o Senhor não indicou o vosso pecado, também eu não vos condenarei´.
A seguir, os liberou. José tomou Maria e a levou de volta para sua casa, alegre
e louvando a Deus de Israel.
XVII
1. Chegou, então, uma
ordem do imperador Augusto, obrigando que todos os habitantes de Belém da
Judéia participassem do censo. Disse José: ´Posso recensear os meus filhos, mas
e esta menina? O que informarei no censo? Que é minha esposa? É vergonhoso. Que
é minha filha? Todos os filhos de Israel sabem que não é. Faça´se a vontade do
Senhor, pois este é o seu dia´.
2. Colocou a sela na
jumenta e acomodou Maria sobre ela. Um de seus filhos ia conduzindo o animal
pelo cabresto enquanto José simplesmente os acompanhava. Ao chegarem a três
milhas [de Belém], José notou que Maria estava triste e disse a si mesmo: ´Deve
ser porque a gravidez a incomoda´. Olhando novamente, porém, viu que ela sorria
e disse´lhe: ´Maria: o que está acontecendo? Às vezes te vejo triste, outras
sorridente...´ Ela respondeu: ´Dois povos foram´me apresentados aos olhos: um
que chora e se desespera; e outro que se alegra e rejubila´.
3. Atingindo a metade do
caminho, Maria disse a José: ´Desça´me porque o fruto de meu ventre anseia por
vir à luz´. Então [José] ajudou´a a descer da jumenta e disse´lhe: ´Para onde
te levarei para esconder a tua nudez, uma vez que nos encontramos em campo
aberto?´
XVIII
1. Descobrindo uma caverna, conduziu´a para dentro e a deixou com seus filhos enquanto se dirigiu para Belém a fim de buscar uma parteira hebréia.
2. E eu, José, andava mas
não avançava; olhei para o espaço e o ar parece´me assombroso; olhei para o céu
e tudo estava parado, inclusive os pássaros do céu; olhei para a terra e vi um
vasilhame no chão e uns trabalhadores sentados, como se estivessem comendo já
que suas mãos estavam sobre o vasilhame; porém, embora parecessem comer, não
mastigavam e quem parecia pegar a comida, não a retirava do prato e, ainda, os
que pareciam levar os manjares à boca, não o faziam porque olhavam para o alto.
Havia também ovelhas sendo capturadas, mas não fugiam e o pastor levantou seu
cajado para bater´lhes, porém, manteve sua mão no ar. Então olhei para o rio e
notei que os cabritos punham seus focinhos nele mas não bebiam da água. Por
certo tempo tudo parou.
XIX
1. Então a mulher que
descia a montanha me perguntou: ´Onde vais?´ Respondi: ´Procuro por uma
parteira hebréia´. Ela disse: ´Sois de Israel?´ Respondi: ´Sim´. Então ela
disse: ´Quem está dando à luz na caverna?´ Disse´lhe: ´Minha esposa´. Ela
replicou: ´Mas não é tua mulher?´ Respondi´lhe: ´É Maria: aquela que foi criada
no Templo do Senhor. De fato, foi´me dada por mulher, mas não o é, e agora
concebe por obra do Espírito Santo´. Disse a parteira: ´Isso é verdade?´ José
respondeu: ´Vinde e vede´. Então a parteira foi com ele.
2. Chegando à caverna,
pararam, pois estava coberta por uma nuvem luminosa. Disse a parteira: ´Minha
alma foi agraciada pois meus olhos viram coisas incríveis e a salvação para
Israel nasceu!´ Então a nuvem saiu da caverna e de dentro brilhou uma forte
luz, de forma que nossos olhos não conseguiam ficar abertos. E [a luz] começou
a diminuir e viu´se que o menino mamava no peito de sua mãe, Maria. E a
parteira gritou: ´Hoje é meu grande dia! Vi com os meus olhos um novo milagre´.
3. E, saindo da gruta,
veio ao seu encontro Salomé. Disse a parteira: ´Salomé, Salomé! Preciso
contar´lhe uma maravilha jamais vista: uma virgem deu à luz. Como sabes, isso é
impossível para a natureza humana´. Respondeu´lhe Salomé: ´Pelo Senhor, meu
Deus, não acreditarei enquanto não puder tocar os meus dedos em sua natureza
para examinar´lhe´.
XX
1. Então a parteira
entrou [na caverna] e disse a Maria: ´Prepara´te porque existe uma dúvida sobre
ti entre nós´. E Salomé pôs seu dedo na natureza [de Maria] e soltou um grande
grito: ´Ai de mim! Minha malícia e incredulidade são culpadas! Eis que minha
mão foi carbonizada e desprendeu´se do meu corpo por tentar ao Deus vivo!´
2. E, se ajoelhando
diante de Deus, pediu: ´Ó Deus de nossos pais: recorda´te de mim, pois sou
descendente de Abraão, Isaac e Jacó! Não me tornes exemplo para os filhos de
Israel! Cura´me para que possa continuar a me dedicar aos pobres, pois bem
sabes, Senhor, que curava em teu Nome e recebia diretamente de Ti o meu
salário´.
3. Então um anjo do céu
apareceu´lhe e disse: ´Salomé, Salomé! Deus te ouviu! Toque o menino e terás
alegria e prazer´.
4. E Salomé se aproximou
e pegou o menino. E disse: ´Adoro´te porque nasceste para ser o Grandioso Rei
de Israel´. Sentiu´se, então, curada e pode sair em paz da caverna. E ouviu´se
uma voz que dizia: ´Salomé, Salomé! Não digas a ninguém as maravilhas que
presenciaste até que o menino vá para Jerusalém´.
XXI
1. E José partiu para a
Judéia. Ocorreu então grande tumulto em Belém pois chegaram um magos dizendo:
´Onde está o Rei dos judeus recém´nascido, pois vimos sua estrela nascer no
Oriente e viemos adorá´lo´.
2. Ouvindo isto, Herodes
ficou perturbado e enviou seus mensageiros aos magos. Convocou os príncipes e
os sacerdotes e fez´lhes a pergunta: ´O que está escrito sobre o Messias? Onde
deverá nascer?´ Eles responderam: ´Em Belém da Judéia, conforme as Escrituras´.
Dispensou´os e perguntou aos magos: ´Que sinal vistes indicando o nascimento
desse rei?´ Responderam os magos: ´Um grande astro brilhou entre as demais
estrelas de forma a ocultar´lhes [a luz]. Soubemos, então, que em Israel havia nascido
um rei e viemos para adorá´lo´. Disse Herodes: ´Ide e buscai´o para que também
eu possa adorá´lo´.
3. Nesse mesmo instante a
estrela que haviam visto no Oriente voltou a brilhar e foram guiados até a
caverna; [e a estrela] parou sobre a entrada [da caverna]. Então os magos se
aproximaram do menino e de sua mãe e ofertaram´lhe presentes: ouro, incenso e
mirra.
4. Porém, foram
advertidos por um anjo para que não retornassem à Judéia e voltaram para suas
terras por outro caminho.
XXII
1. Quando Herodes
percebeu que fora enganado pelos magos, encheu´se de fúria e mandou que seus
soldados assassinassem todos os meninos com menos de dois anos.
2. Chegando à Maria a
notícia da matança das criança, encheu´se de medo e, envolvendo seu filho em
panos, colocou´o numa manjedoura.
3. Quando Isabel ficou
sabendo que também procuravam sem filho João, pegou´o e foi para as montanhas,
procurando esconderijo. Como não encontrava nenhum lugar ideal, em soluços orou
em alta voz: ´Ó Montanha de Deus: recebe em teu seio uma mãe com seu filho´.
4. Nesse momento, a
montanha se abriu para recebê´los. Uma grande luz os acompanhou pois um anjo do
Senhor foi guardá´los.
XXIII
1. Como Herodes continua
perseguindo Josão, mandou seus mensageiros interrogarem Zacarias: ´Onde
escondeste teu filho?´ Mas ele respondeu: ´Cuido do serviço de Deus e por isso
estou sempre no Templo. Não sei onde se encontra meu filho´.
2. Os mensageiros
informaram o ocorrido a Herodes e ele, furioso, disse para si mesmo:
´Provavelmente será seu filho que reinará em Israel´. E enviou outro recado [a
Zacarias]: ´Diga´nos a verdade. Onde se encontra o teu filho? Do contrário,
sabes muito bem que o teu sangue está sob as minhas mãos´.
3. Maz Zacarias
respondeu: ´Então serei mártir do Senhor porque te atreves a derramar o meu
sangue. Mas a minha alma será recolhida pelo Senhor já que uma vida inocente
será ceifada no vestíbulo do santuário´. E Zacarias foi assassinado quando veio
a aurora, mas os filhos de Israel não perceberam o crime.
XXIV
1. Quando os sacerdotes
se reuniram à hora da saudação notaram que Zacarias não veio ao encontro deles
para abençoá´los, como era de costume. Ficaram, porém, esperando´o para
saudá´lo na oração e para glorificar o Altíssimo.
2. Como demorava muito,
passaram a ficar amedrontados. Um deles, tomando a iniciativa, entrou e viu
sangue já coagulado ao lado do altar. Então ouviu uma voz que dizia: ´Zacarias
foi morto e seu sangue não deverá ser limpo até que chegue o vingador´. Ao
ouvir a voz, encheu´se de medo e saiu para contar aos sacerdotes.
3. Tomando coragem, estes
entraram e testemunharam o ocorrido. Então os fundamentos do Templo rangeram e
rasgaram as vestes de alto a baixo. Porém, o corpo [de Zacarias] não foi
encontrado, mas apenas o sangue já coagulado. Cheios de medo, saíram e contaram
a todo povo que Zacarias fora assassinado. E a notícia se espalhou por todas as
tribos de Israel, que choraram e guardaram luto por três dias e três noites.
4. Terminado o tempo [de
luto], os sacerdotes se reuniram para decidir quem ocuparia o lugar [de
Zacarias]. A sorte caiu sobre Simeão, aquele que o Espírito Santo lhe dissera
que não provaria a morte até que visse o Messias Encarnado.
XXV
1. E eu, Tiago, escrevi
esta narrativa quando surgiu um grande tumulto em Jerusalém em virtude da morte
de Herodes. Retiro´me para o deserto até que cesse o tumulto e glorifico ao
Senhor, meu Deus, que me concedeu a graça e a sabedoria para escrever esta
narração.
2. Que a graça esteja com
todos os homens que temem a Nosso Senhor Jesus Cristo, a quem deve ser dada
glória por todos os séculos dos séculos. Amém.
Fonte:
Prof. Felipe Aquino - Editora Cléofas
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