Por que o APOCALIPSE
já aconteceu ???
A Apóstolo João, escritor
do livro do Apocalipse, morreu por volta do ano 100 d.C. e escreveu o livro do
Apocalipse pouco tempo antes de morrer, no exílio na ilha de Patmos, no período
compreendido entre os governos de Nero, Vespasiano e Domiciano,
respectivamente.
A palavra Apocalipse quer
dizer revelação (Ap 1,1). Este livro, portanto, é uma mensagem
reveladora. O autor (o apóstolo João) procura revelar o mistério (Ap
10,7) do que está acontecendo e do que vai acontecer: Deus vai agir na
história, julgando e destruindo o mal, para implantar definitivamente o seu
Reino entre os homens (Ap 11,15). A revelação do futuro que o apocalipse fala é
do futuro breve para os cristãos daquela época, do momento em que eles
passavam. Mas a mensagem e o sentido de vitória do Apocalipse se estendem para
todas as épocas, inclusive para o nosso futuro.
O Apocalipse é de
compreensão difícil, porque o autor faz largo uso de imagens, símbolos, figuras
e números misteriosos. Isso pode ser facilmente entendido, quando vemos que o
livro nasce dentro de uma situação difícil: o povo de Deus está sendo oprimido,
perseguido e vigiado pelas estruturas do poder. Em tais circunstâncias não se
pode falar claro principalmente porque o autor pretende mostrar a situação real
e traçar uma estratégia de resistência e ação. As comunidades a que ele se
dirige entendem essa linguagem, pois estão familiarizadas com o Antigo
Testamento, onde o autor vai buscar os símbolos. Podemos comparar essa
afirmação com a nossa história, onde durante a ditadura militar nos anos 60, a
censura perseguia implacavelmente cantores, atores e revolucionários. Para “driblar”
a censura, os grandes compositores, como Milton Nascimento, Gilberto Gil e
Caetano Veloso, em suas músicas colocavam símbolos que, para quem os ouviam
sabiam o que significavam. Por exemplo a música: “Caminhando e cantando, e
seguindo a canção...”.
Dois grandes motivos
levaram o autor a dirigir sua mensagem às comunidades cristãs: as igrejas da
Ásia Menor:
1- O Sincretismo
religioso = As conquistas de Alexandre Magno e, mais
tarde, a dominação romana, unificaram numerosas nações, misturando culturas,
costumes e religiões. Para o cristianismo nascente, isso podia significar o
desvirtuamento interno, a perda da identidade, a desagregação das comunidades
e, conseqüentemente, a ausência de testemunho corajoso contra a idolatria,
principalmente a idolatria de um poder político absoluto e tirânico.
2- A dominação
romana e a religião imperial = No tempo do imperador
Nero (54-68 d.C.), os cristãos foram perseguidos pela primeira vez, mas só em
Roma, e não por causa da fé. Era tempo de decadência do império romano, e a
autoridade do imperador estava seriamente abalada. Para reafirmar-se, o
imperador Vespasiano (69-79 d.C.) criou a religião imperial, isto é, todos eram
obrigados a prestar culto aos imperadores mortos, além de atribuir a si mesmo
títulos divinos, como o “salvador”, “benfeitor”, “senhor”.
Domiciano (81-96 d.C.) foi imperador tirano e, para manter o império unido,
impôs essa religião imperial a todos os povos dominados, exigindo inclusive o
culto ao imperador vivo. Quem recusasse tal culto, era considerado inimigo, e
por isso perseguido e morto. Daí você pode imaginar o que os cristãos sofreram
ao recusar-se adorar uma pessoa humana para adorar somente a Cristo. Por isso
vemos o autor usando símbolos para denominar tais imperadores como o Dragão, a
Besta, a Fera...
João queria advertir os
cristãos quanto aos perigos internos e externos e fortalecer as comunidades
para os momentos difíceis que iriam passar por causa da fé. Era necessário que
as comunidades se convertessem, voltando à opção original pelo seguimento e
testemunho de Jesus. Desse modo, elas estariam preparadas para testemunhar corajosamente
a fé, resistindo às perseguições e desenvolvendo uma ação libertadora, que
manifestasse ao mesmo tempo uma decidida crítica à situação de opressão e firme
esperança de uma sociedade nova.
Os cristãos da Ásia
Menor, que esperavam uma libertação próxima pelo retorno glorioso do Cristo,
vivenciavam com tristeza que esse retorno demorava e que seu termo era quase
indefinidamente adiado. Tomados de angústia, começavam a perder a esperança de
encontrar um dia a independência religiosa. O apóstolo João, fazendo de seu
livro uma mensagem de reconforto e encorajamento lança mão de um recurso
literário muito usado entre os judeus, do qual se vê um exemplo no livro de DANIEL.
Esse gênero apresenta aos olhos do leitor uma série de visões, ou revelações
muito simbólicas, tendo um sentido oculto. Não se trata de dar uma descrição
antecipada de acontecimentos futuros, mas de apresentar uma mesma realidade sob
vários símbolos diferentes. O cordeiro simboliza o Cristo; a mulher simboliza a
igreja cristã, como também Maria; o dragão significa as forças hostis ao Reino
de Deus; as duas feras representam o império romano e o culto imperial (Ap 13);
a fera simboliza o próprio imperador Nero (Ap 17); a Babilônia significa a Roma
pagã; as veste brancas: a vitória; o número 3 e meio significa coisa caduca,
nefasta (Ap 11). Entretanto os símbolos não são exclusivos: o Cristo é às vezes
mostrado como “o Filho do Homem” ou o “cavaleiro” (Ap 9).
O livro de João é
alimento para a fé e fortalecimento para a esperança do povo oprimido. Para
esse povo, a salvação não consiste simplesmente em melhorar a situação, mas em
transformá-la radicalmente, fazendo nascer um novo mundo de justiça,
fraternidade e partilha, isto é, o julgamento definitivo do mundo presente e a
vinda do reino de Deus. João mostra, porém, que esse julgamento e reino se
realizam através do seguimento e testemunho de Jesus.
Vejamos uma passagem do
livro do Apocalipse com uma explicação rápida seguinte do sentido figurado: “E
viu-se um grande sinal no céu: uma mulher vestida do sol, tendo a lua debaixo
dos seus pés, e uma coroa de doze estrelas sobre a sua cabeça. E estando
grávida, gritava com as dores do parto, sofrendo tormentos para dar à luz.
Viu-se também outro sinal no céu: eis um grande dragão vermelho que tinha sete
cabeças e dez chifres, e sobre as suas cabeças sete diademas; a sua cauda
levava após si a terça parte das estrelas do céu, e lançou-as sobre a terra; e
o dragão parou diante da mulher que estava para dar à luz, para que, dando ela
à luz, lhe devorasse o filho. E deu à luz um filho, um varão que há de reger
todas as nações com vara de ferro; e o seu filho foi arrebatado para Deus e
para o seu trono.” (Ap 12, 1-5)
Preste atenção na
seqüência e compare com o trecho do Apocalipse: Maria, virgem sem pecado,
revestida de pureza (revestida de sol), como também a igreja de Cristo,
recém formada, revestida do Espírito Santo. Ambas portadoras de Cristo, e nos
dias do “parto” (gritavas as dores), os imperadores perseguidores do
povo cristão: Nero, Vespasiano e Domiciano, o rei Herodes (o Dragão vermelho)
procurava Jesus para matá-lo (devorar o filho), não o encontrou (e
mandou matar todos os meninos de dois anos para baixo que havia em Belém, e em
todos os seus arredores (Mt 2, 16)). Os imperadores perseguiam e matavam os
cristãos. Maria deu à luz a Jesus (varão que há de reger todas as nações com
vara de ferro) mas Jesus conseguiu escapar de Herodes e cresceu, pregou,
ensinou o amor, foi condenado, crucificado e morto. A igreja também conseguiu
sobreviver a todas as perseguições, e creceu e fé, em número e em graça. Os
apóstolos conseguiram firmar a igreja, escapar das perseguições de Nero,
Vespasiano e Domiciano, dando suas próprias vidas em nome da fé em Cristo. Mas
Jesus também conseguiu escapar do Dragão da Morte imposta pelo Dragão Pilatos,
e Jesus ressuscitou e subiu para junto de Deus (o filho foi arrebatado para
Deus e para o seu trono) [At 1,9].
Portanto, o Apocalipse
não deve ser tomado como uma história contemporânea escrita no tempo futuro;
ele não é tampouco uma revelação clara e definitiva do futuro: ele anuncia aos fiéis
a impossibilidade de escapar à luta e ao sofrimento, às perseguições e ao
fracasso aparente no plano terrestre, à realidade da salvação que lhe será
concedida no meio de suas obrigações, e à vitória final, obra de Cristo
ressuscitado que venceu a morte. Por isso, o Apocalipse já aconteceu, mas sua
mensagem de coragem, seus ensinamentos, suas orientações se perduram pelos
séculos sem fim pois, assim como dizia Dom Bosco, “o mal só vence
quando o bem recua”.
* Irapuan Medeiros Barros Júnior – médico generalista, paroquiano do Divino Espírito Santo – Jatiúca – MACEIÓ/AL - irapuan@bol.com.br
Fonte:
Paróquia do Sagrado Coração de Jesus – Maceió-AL
Home Page: http://www.geocities.com/irapa3
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