OS
ANJOS NA TRADIÇÃO DA IGREJA
Da mesma
forma que a Sagrada Escritura confirma a existência real dos anjos, a Tradição
o faz. Vamos conferir as palavras dos mais destacados representantes dessa
Tradição. São Clemente, de Roma, foi o terceiro sucessor de S. Pedro na Sé de
Roma, na época dos imperadores Domiciano e Trajano (92 a 102). Viu os apóstolos
e com eles conversou, havendo recebido diretamente deles os ensinamentos que
pregou. Com esta autoridade ele afirmava que: "os Anjos se acham a serviço
de Cristo e são superiores aos homens". São Policarpo, de Esmirna,
martirizado no ano 156, em suas cartas revelava fé esclarecida na existência de
Anjos e demônios. Atenágoras, chamado de "o filósofo cristão de
Atenas", para provar que os cristãos não eram ateus, dizia, na Súplica
pelos Cristãos: "Não somos ateus; cremos em Deus Pai, Filho e
Espírito Santo, mas ensinamos também que existe uma multidão de Anjos
servidores, ministros de Deus criador e ordenador do mundo nas coisas que aí se
encontram e na sua ordem". Atribuía à influência do demônio, a difusão da
idolatria, da mitologia pagã, as perseguições e a astrologia. Atenágoras foi o
primeiro filósofo cristão que tratou de provar a existência de Deus por argumentos
da razão. Escreveu a ApoIogia dos cristãos, dirigida ao imperador romano Marco
Aurélio. . Esse grande apologeta, ensinava que um Anjo superior havia sido
criado (Apol. 1335). Era soberano sobre a matéria e encarregado de governá-la.
O orgulho o fez prevaricar em sua missão. Isto provocou sua queda e castigo.
Outros Anjos que haviam sido criados para determinadas missões particulares no
mundo o acompanharam em seu orgulho . São Justino, mártir no ano 165, foi o
mais famoso dos apologetas do século II. Em sua Apologética, cap.1,6 afirma
praticamente o mesmo que Atenágoras, acrescentando que os Anjos foram criados
antes dos homens. Uns Anjos se conservaram fiéis a Deus e outros apostataram.
Chama de Satanás e Serpente ao demônio e, afirma que este recebeu um castigo
eterno. Os demônios estariam condenados ao fogo eterno, mas só depois do último
juízo é que desceriam ao inferno. Afirma que os anjos bons ajudam aos mártires
no suplício e acompanham suas almas ao Céu. Sua função especial no Céu é cantar
louvores a Deus. "Nós adoramos a Deus e a seu Filho por Ele gerado e ao
Espírito Profético, e que nos ensinou, bem como aos Anjos, que lhe são
obedientes e semelhantes" . Taciano, nascido no "país dos
assírios", convertido por São Justino, escreveu o Diatessaron, uma fusão
dos quatros evangelhos. Segundo Taciano, o primogênito dos Anjos rebelou-se.
Cedeu a seu orgulho e quis ser igual a Deus. Por isso foi transformado em
demônio, juntamente com os que com ele se solidarizaram. Foram todos
precipitados no inferno eterno. Acreditava na espiritualidade dos Anjos e dela
tirou a conclusão quanto à eternidade do castigo dos demônios. Taciano refutou
a opinião dos que admitiam que os homens condenados se transformariam em
demônios. Santo Irineu de Lião (130-208), foi discípulo de São Policarpo,
que por sua vez foi discípulo de São João evangelista; é considerado o maior
defensor da Igreja contra o gnosticismo, e quem pela primeira vez apresentou
uma sólida doutrina, na qual tem lugar a existência dos Anjos e dos demônios.
Antes de Irineu, são encontradas apenas poucas e valiosas referências aos anjos
nos escritos cristãos. "Deus é criador do céu e da terra e de todo o
mundo, e formador dos Anjos e dos homens. Só Ele é Pai, Deus criador, formador
e moldador. Ele criou e formou ambas as coisas, tudo: o visível e o invisível,
neste mundo e no céu." "Por conseguinte, criou também os seres
espirituais. O universo não foi criado nem formado pelos Anjos; Deus não
necessitava deles para esse fim". "Os Anjos são espirituais, não
possuem carne". Santo Irineu narra a queda dos anjos maus e como foram
castigados. "O pecado que cometeram teria sido a inveja dos homens,
uma vez que Adão colocado como senhor da Terra, seria também senhor dos Anjos
que estavam sobre a Terra." (cf. Sb 2, 24) Santo Irineu evidencia a
posição singular ocupada pelo Verbo, Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, de
quem tudo o mais depende no existir, isto é, o céu, os Anjos e a terra. Ele
acabou com a imagem gnóstica do mundo, como sendo uma série de "eones celestes"
que emanam do "princípio primeiro". São Clemente de Alexandria
(150-213), nasceu em Atenas. Converteu-se ao cristianismo, cuja doutrina pregou
com grande zelo; afirmou: "Aquele que crê, reza com os Anjos, mesmo que
reze sozinho. Porque, com ele se reúne o coro dos santos que ficam em sua
companhia". Orígenes (183-254), apresentou inúmeras contribuições para a
devoção aos anjos, embora sua doutrina em outros pontos tenha merecido reparos
e até condenações por parte da Igreja. "Conforme o grau de iluminação que
receberam, os Anjos possuem funções diversas na administração do Universo. As
Dominações, Virtudes e Potestades são destinadas a dirigir os outros Anjos. Os
Anjos têm portanto uma certa subordinação entre si". "Onde quer que
exista uma Igreja dos homens, ali haverá também uma Igreja de Anjos".
"O culto que se deve aos Anjos é de veneração e não de adoração".
"Cada diocese é dirigida por dois bispos, um secular e um Anjo".
"Cada assembléia eclesiástica compreende também uma parte celestial
formada por Anjos, os mensageiros de Deus, que habitam entre nós, que rezam com
os homens e levam suas orações ao céu. Apesar disso, os Anjos nunca abandonam a
presença de Deus. Sua amizade conosco, é um sinal de nosso bom relacionamento
com Deus". "Os Anjos são diferentes uns dos outros". "Estão
em toda a parte. Vigiam e governam a natureza". "Se somos merecedores
da presença dos Anjos bons, estes nos assistem e nos inspiram bons pensamentos
e se comunicam com nossa alma durante o sono. "Um homem iluminado com a
luz do conhecimento sobrenatural, percebe a presença dos Anjos; vê os Anjos e a
seu chefe Miguel. O mesmo com relação aos Arcanjos, Tronos, Dominações,
Potestades e as Virtudes Celestes". "Os demônios são Anjos que
pecaram por orgulho. Pecaram voluntariamente e agora são habitantes do
inferno." "Satanás, príncipe dos demônios, e que era a coroa da
beleza do Paraíso, a estrela da manhã, é agora o príncipe deste mundo, cuja
liberdade Deus respeita. Não pode exercer nenhum poder sobre aqueles que o
rechassam." O universo para Orígenes, é assediado por demônios. Afirmava
que apesar dos cristãos repudiarem o demônio ao serem batizados, são todavia
por ele tentados e podem em conseqüência vir a cair no pecado. Essa doutrina é
a que a Igreja sempre admitiu, quando caracterizou uma das formas pelas quais o
homem pode ser induzido ao pecado. "Não é apenas o Sumo Sacerdote que ora
com aqueles cuja oração é sincera, mas, há também os Anjos que rejubilam no
céu. É de crer-se que lá (local de oração, onde os fiéis se reúnem), as
potências angélicas participam das assembléias dos fiéis. É de fato lá, que
desce a força do Senhor Nosso Salvador e se reúnem os espíritos dos santos...
Se temos o direito de nos referirmos aos Anjos graças ao adágio: "O Anjo
de lahweh, acampa entre seus fiéis e os assiste." (Ps. 34,8), e se Jacob
ao mencionar o "Anjo que o salvou de todo o mal" (Gen. 48,16)
referia-se não apenas a si próprio, mas a todas as pessoas devotas, é então
verdade que quando várias pessoas se encontram reunidas para louvar a Cristo, o
Anjo encarregado de proteger e conduzir cada um, rodeia aqueles que crêem em
Deus. Assim, quando pessoas santas se acham reunidas, acham-se em presença uma
da outra, duas igrejas: a dos homens e a dos Anjos. Se Rafael, afirma a Tobias
que havia oferecido sua súplica diante da Glória do Senhor (Tobias 12,12), bem
como as de Sara que se tornaria esposa do jovem Tobias - o que não se passará,
quando um número grande se reúne num mesmo local animado da mesma intenção e
formando um só corpo com Cristo?" (Orígenes, De Oratione). "Junto a cada homem existe
sempre um Anjo do Senhor que o ilumina, o guarda e o protege de todo o
mal", (Comentários a Mt18, 10). São Gregório, o Taumaturgo (213-270),
discípulo de Orígenes, foi bispo de Neocesaréia, no Ponto. Fala com grande amor
dos "Santos Anjos de Deus, que desde minha juventude me tem
protegido". (Oratio a Originem IV) Entre os eremitas e ascetas que viviam
nos desertos, havia grande devoção aos Anjos, aos quais recorriam para
afugentar as tentações dos demônios. Eusébio de Cesaréla (265-340), afirma:
"Anjos, Arcanjos, Espíritos, Forças divinas, Exércitos Celestes, Virtudes,
Tronos, Dominações, são orientados pelo Espírito Santo. Eles cantam o
"Laudate Dominum de coelis" para exaltação da glória de Deus. A fé reconhece
estas potestades divinas para o serviço e a liturgia de Deus todo
poderoso". (Praeparatio Evangélica VII) Santo Atanásio (295-373), Bispo de
Alexandria, doutor da Igreja, foi o principal defensor da fé ensinada no
Concílio de Nicéia, contra os Arianos. Afirmava que: "Os Anjos vêem a face
do Pai por uma participação no logos, por uma graça do Espírito Santo".
Acreditava que cada Ordem de Anjos é formada de Anjos de igual categoria
(Oratio II contra Arianos XLIX) e diz ainda que "as hierarquias celestes
encerram muitos mistérios" (carta a Serapion 1,13). "Os Anjos
foram criados antes do Cosmos" (Carta a Serapion 111,4). São Basílio Magno
(330-369), doutor da Igreja, foi monge e mais tarde bispo de Cesaréia;
refere-se aos Anjos da guarda no tratado De Spiritu Sancto", XIII 29, que
dedicou a Anfilóquio, bispo de Icônio. Santo Ambrósio (340-395) doutor da
Igreja, que batizou Santo Agostinho em Milão, fala muitas vezes do anjo da
Guarda (Expos. Ps. 38,32), e faz outras afirmações: "No batismo, o
sacerdote atua na missão de um Anjo" (De Mysteriis 11,6). "Deus não
tinha necessidade dos Anjos, porém o homem deles tem necessidade. Enquanto os
homens foram criados à imagem de Deus, os Anjos o foram segundo o ministério de
Deus" (Expos. Ps. 108). "Todos aqueles que seguem a Cristo têm acesso
aos Anjos" (De Sacramentis 1,6). Santo Ambrósio recomendava a devoção
popular aos Anjos (De viduitate, IX, 15), "Os Anjos foram criados antes do
mundo material" (ln Exodum XXVII, 185). Afirmava Santo Ambrósio,
acompanhando S. Cirilo e São Gregório de Nazianzo, que, no batismo, a renúncia
a Satanás, se realiza na presença dos Anjos: "Isto não deve ser
ignorado nem negado: é um Anjo quem anuncia o reinado de Deus e a vida
eterna". "Sozinha (a Virgem Maria) no interior da casa, apenas um
Anjo haveria de encontrar aquela que homem algum veria; só, sem companhia; só,
sem testemunha, afim de não se macular no trato com os demais; é um Anjo quem a
saúda. Aprendei ó virgens a evitar a dissipação das palavras; Maria temia até
mesmo a saudação de um Anjo." (Comentário ao Ev. S.Lucas) São Jerônimo
(340-420), doutor da Igreja, combateu a idéia de que as almas na vida futura se
transformam em Anjos e que os demônios se converterão em Anjos. Afirmou que :
"Os Anjos cuidam e velam até pelos pormenores do cosmos (Comm. in Eccles.
10,20) e de forma especial, pelos homens (Comm. in 16.6,14)". São João
Crisóstomo (= boca de ouro) (349-407), doutor da Igreja, Patriarca de
Constantinopla, escreveu: "Os Serafins louvam a Trindade. Rodeiam o altar
celestial do qual a Igreja é modelo neste mundo". Acreditava que os Anjos
não teriam condições de desvendar o mistério da Criação. "Que espírito
pode explicar este favor sobrenatural e majestoso privilégio que foi conferido
à nossa natureza? Que Anjo, que Arcanjo seria capaz de saber? Ninguém no Céu
nem na terra". (Homília XI in Joannem) "Os Anjos não conheciam o
mistério que estava oculto em Deus, ao longo dos séculos, até que foi revelado
pela Igreja" (Homília VII em Éfeso). "O ar que nos rodeia, está cheio
de Anjos". Segundo São João Crisóstomo, é muito natural que os Anjos devam
ajudar os homens. "Na capital celeste, Jerusalém, nossa mãe comum, estão
os Serafins, Querubins, muitos milhares de Arcanjos e inumeráveis Anjos"
(Homília in Seraphin, 1). "Saber que o lugar dos Serafins é junto a
Deus é mais importante que o conhecimento de sua natureza" (Hom. in
Seraphin 2). "Que há de melhor, diga-me? Falar do vizinho e da vida
alheia, bisbilhotar tudo, ou se entregar com os Anjos e com as coisas feitas
para nos enriquecer? (Homilia in Jo. homi. 18). Na
chamada Missa de São João Crisóstomo, rito oriental, os Anjos são citados 16
vezes. São Cirilo de Jerusalém (315-386), doutor da Igreja, falando da
grandeza do Sacramento do Batismo, declara: "Todos os coros celestiais
tomam parte em cada batismo e cantam sobre o novo cristão".
(Protocatechesis) "Não podemos sondar a natureza dos Querubins; nem sequer
conheçemos a diferença entre Tronos, Dominações, Virtudes, Potestades, Poderes
e Anjos; só sabemos que a diferença implica em graus diversos do conhecimento
angélico de Deus". Achava São Cirilo que só Deus era puro espírito mas que
"os Anjos podem entretanto, chamar-se spiritus, se a palavra designa algo
que não é formada de matéria bruta". São Cirilo de Alexandria (380-444),
doutor da Igreja que se tornou célebre por sua luta contra Nestório, no
Concilio de Éfeso (431), afirmou sobre os anjos: "Anjos e Arcanjos servem
a Deus e o adoram em hinos sempiternos". (Contestação ao imperador Juliano
III) "Os sacerdotes e os cantores ocupam durante a celebração da
Eucaristia o posto dos Anjos" (Cat. XIII. 26; pg. 33, 804 5 - Ed. Reisch - Rupp II - 84-86). "Os
Anjos foram criados também à imagem de Deus, inclusive, incomparavelmente mais
do que nós, em razão de sua espiritualidade superior à nossa." (Resposta a
Tiberium Sociosqua 14) Santo Agostinho (354-430), doutor da Igreja, também
estudou a questão dos anjos e rejeitou definitivamente idéias fantasiosas sobre
eles; como as de que o pecado dos anjos castigados em demônios teria sido
pecado sexual. No Livro IV do Genesi ad litteram, fez muitas considerações
sobre os Anjos. Focalizou sobretudo o tema do conhecimento angélico. Para ele,
os anjos fiéis a Deus desde a sua criação, conheceram o mistério da Redenção e
aderiram ao Verbo Eterno, Criador, conhecendo o Verbo e se conhecendo Nele, bem
como conhecendo todas as coisas. Eis algumas afirmações de Santo Agostinho em
relação aos Anjos: "Encontramos nas escrituras, que os Anjos apareceram a
muitas pessoas e achamos portanto, que não é racional duvidar de sua
existência". (ln psal. 103) "Aos Anjos não se oferece sacrifício;
somente os veneramos com amor". (De Civitate Dei X,7) "Aos Anjos
celestes, que possuem a Deus na humildade e o servem na bem-aventurança, está
submetida toda a natureza corporal e toda a vida irracional" (Livro VIII
cap. 24, n. 45). "Os demônios foram Anjos castigados por sua soberba e não
por inveja, pois esta é subordinada ao orgulho e não pode ser considerada
principal". (De Gen. ad litt. XI
145) "No céu os homens terão um corpo angélico de luz e éter."
(De div. quaest. 83) "Juntamente com os Anjos, formamos uma só e mesma
Cidade de Deus". (De Civitate Dei, X, 7) Com Santo Agostinho a doutrina
sobre os Anjos atingiu seu ponto culminante. Nos séculos seguintes houve
estudos sobre os Anjos, mas eram quase sempre repetições de teses e afirmações
dos Padres da Igreja, e somente na Idade Média, retomando as doutrinas de Santo
Agostinho e de Pseudo-D ionisio, foi que reacendeu o interesse pela teologia
angélica. São Gregório Nazianzeno (280-374), doutor da Igreja, nas
"Orationes Theologicae" afirma: "Os Anjos contemplam a face do
Pai, mas a íntima profundidade do mistério lhes está oculto. Os Anjos e
Arcanjos vêem apenas a glória de Deus, não sua própria natureza, que está
oculta por trás dos Querubins." Quando São Gregório deixou Constantinopla,
despediu-se com tristeza dos "Anjos custódios desta Igreja, de minha
presença e de minha viagem" (Supremum vale 27). "Satanás se fez
excessivamente soberbo por seu elevado conhecimento de Deus, dai se originando
seu pecado" (Sermones theologici, 11,12). São Dionisio o Areopagita,
mártir do século I, era membro do Areópago de Atenas. Foi convertido por São
Paulo, e foi o primeiro bispo de Atenas. Foram-lhe atribuídas várias obras de
teologia mística, especialmente o Livro sobre a hierarquia celeste, a
Influência da filosofia. neoplatônica e a Ascensão mística das almas a Deus.
Estudos exegéticos entretanto, levaram à conclusão que os livros atribuídos a
Dionísio foram escritos no começo do século VI, daí serem conhecidos como de
autoria de um Pseudo Dionísio. Esta obra, mesmo sem a certeza absoluta sobre o
seu verdadeiro autor, exerceu uma grande influência nos estudos teológicos
sobre os espíritos celestes e na devoção aos mesmos. No livro, A hierarquia
Celeste, Dionisio ou Pseudo-Dionísio, supõe que o mundo supracelestial da
Santíssima Trindade se manifesta pelo mundo criado por irradiação da Santíssima
Trindade. Essa irradiação ilumina em primeiro lugar as hierarquias celestes, e
em seguida, a hierarquia da Igreja aqui na terra. Os seres angélicos ocupam
assim, uma posição intermediária entre a da teologia propriamente dita, que se
refere a vida de Deus, e a Igreja, como realização da teologia na terra. Os
seres espirituais formam como que uma hierarquia, um poder sacerdotal,
traduzido pela mediação e comunicação do poder divino. O universo angélico
constitui a imitação da ordem íntima da vida de Deus. Essa imitação se realiza
pelo conhecimento de Deus, por uma iluminação concedida por Deus, e por uma
ação pela qual cada categoria da hierarquia celeste se relaciona com as outras.
Deve-se a ele a concepção trinitária sobre a hierarquia angélica; isto é, a
divisão da hierarquia celeste em três ordens ou hierarquias, composta cada uma
de três coros:
1ª ordem:
Três coros: Serafins; Querubins; Tronos.
2ª ordem:
Dominações ou Soberanias; Virtudes; Potestades.
3ª. Ordem:
Principados ou Autoridades; Arcanjos; Anjos. S. João Cassiano (350-432), que
foi monge e diácono de São João Crisóstomo, depois de haver passado dez anos
nos desertos do Egito, fixou-se em Marselha. Nos livros VII e VIII de sua
Coliationes (Conferências) analisou a vida dos anjos e dos demônios, afirmando
que os demônios não podem arrepender-se; que são cruéis, e que Lúcifer caiu
quando se recusou a reconhecer que sua própria beleza era obra do Criador. Uma
terça parte dos Anjos o teria acompanhado. Ensinou que a lenda do casamento de
Anjos e mulheres é totalmente falsa e completamente impossível e absurda, e que
cada homem tem a seu lado um Anjo bom e também um mau (demônio) que o tenta.
São Leão Magno (400-461), Papa e doutor da Igreja, aquele que conseguiu que
Átila, rei dos Hunos deixasse a Itália (452) e que os Vândalos sob Genserico
respeitassem os habitantes de Roma (455), em suas Cartas e Sermões fala dos
anjos e do demônio, a quem Jesus venceu, como homem, para libertar a humanidade
de suas garras. Veja este belo texto de S. Leão sobre a Redenção:
"Mas, o fato, caríssimos, de Cristo ter escolhido nascer de uma virgem não
parece ditado por uma razão muito profunda? Isto é, que o diabo ignorasse que a
salvação tinha nascido para o gênero humano, e, escapando-lhe que a concepção
era devida ao Espírito, acreditasse que não tinha nascido diferente dos outros
aquele que ele não via diferente dos outros. Com efeito, aquele no qual ele
constatou uma natureza idêntica à de todos tinha, pensava ele, uma origem
semelhante à de todos; ele não compreendeu que estava livre dos laços do pecado
aquele que ele não viu isento das fraquezas da mortalidade. Porque Deus, que,
em sua justiça e em sua misericórdia, dispunha de muitos meios para elevar o
gênero humano, preferiu escolher para isso a via que lhe permitisse destruir a
obra do diabo, apelando não a uma intervenção de poder, mas a uma razão de
equidade. Porque, não sem fundamento, o antigo inimigo, em seu orgulho,
reivindicava direitos de tirano sobre todos os homens e, não sem razão, oprimia
sob seu domínio aqueles que ele tinha prendido ao serviço de sua vontade, depois
que eles, por si mesmos, tinham desobedecido aos mandamentos de Deus. Por isso
não era de acordo com as regras da justiça que ele cessasse de ter o gênero
humano como escravo, como o tinha desde a origem, a não ser que fosse vencido
por meio do que ele mesmo tinha reduzido à escravidão. Para esse fim, Cristo
foi concebido de uma virgem, sem intervenção de homem... Ele [o demônio] não
pensou que o nascimento de uma criança gerada para a salvação do gênero humano
não lhe estava sujeito como o estava o de todos os recém-nascidos. Com efeito,
ele o viu vagindo e chorando, viu-o envolto em panos, submetido à circuncisão e
resgatado pela oferenda do sacrifício legal. Mais tarde, reconheceu os
progressos normais da infância, e até na idade adulta nenhuma dúvida lhe
aflorou sobre o desenvolvimento conforme a natureza. Durante este tempo ele lhe
infligiu ultrajes, multiplicou injúrias, usou de maledicências, calúnias,
blasfêmias, insultos, enfim, derramou sobre ele toda a violência do seu furor e
o pôs à prova de todos os modos possíveis; sabendo com qual veneno tinha
infectado a natureza humana, ele jamais pôde crer que fosse isento da falta
inicial aquele que, por tantos indícios, ele reconhecia por um mortal. Ladrão
atrevido e credor ávaro, ele se obstinou em levantar-se contra aquele que não
lhe devia nada, mas exigindo para todos a execução de um julgamento geral
pronunciado contra uma origem manchada pela falta, ultrapassou os termos da
sentença sobre a qual se apoiava, porque reclamou o castigo da injustiça contra
aquele no qual não encontrou falta. Tornando-se, por isso, caducos os termos
malignamente inspirados na convenção mortal, e, por causa de uma petição
injusta, que ultrapassava os limites, a dívida toda foi reduzida a nada. O
forte é atado com os seus próprios laços, e todo o estratagema do inimigo cai
sobre a sua cabeça. Uma vez amarrado o príncipe deste mundo, o objeto de suas
capturas lhe foi arrancado. Nossa natureza, lavada de suas antigas manchas,
recupera sua dignidade, a morte é destruída pela morte, o nascimento é renovado
pelo nascimento, porque, ao mesmo tempo, o resgate suprime nossa escravidão, a
regeneração muda nossa origem e a fé justifica o pecador." (Sermão XXII ,
segundo Sermão do Natal) São Gregório Magno (540-604), Papa e doutor da Igreja,
foi monge, e como Papa assinou uma trégua com os bárbaros Lombardos;
influenciou a vida medieval com seus escritos. Escreveu muitas Cartas e
Homilias e a obra Moralia in Job, em 35 livros, na qual fez uma notável análise
da luta humana contra o demônio, partindo de considerações sobre o Livro de Jó.
São afirmados nessa grande obra: "Os Anjos são incomparavelmente mais
íntimos de Deus que os homens". "São espíritos e somente espíritos,
enquanto o homem é espírito e carne" (Moralium 1. IV, c III, n 8). "Contemplam
a Deus face a face". "Comparados com nossos corpos materiais, são
espíritos, mas comparados com Deus, que é espírito ilimitado, são de certa
forma materiais." "Satanás foi o primeiro e mais poderoso Anjo.
Corresponde ao "Behemoth" que aparece no Livro de Jó."
"Depois de haver caído por sua soberba, Satanás ainda conserva sua
natureza angélica, porém perdeu sua felicidade, e vagueia pelo mundo tentando
os homens." Santo Isidoro de Sevilha (560-636), Bispo e doutor da Igreja,
Arcebispo de Sevilha, São Gregório de Tours, bispo, historiador (538-594) e
grande defensor da Igreja; São Beda o Venerável (Doutor da Igreja 670-735),
também ensinaram sobre os anjos. São João Damasceno (650-749), sacerdote e
doutor da Igreja, de Damasco, na Síria, considerado como o último dos
"Padres da Igreja", foi o principal defensor do culto das imagens.
Sua doutrina exposta em Sumas é até hoje a teologia oficial das igrejas
orientais ortodoxas. No capítulo 3 da obra Pegé gnóseos (Fonte da ciência),
afirma: "Os Anjos foram criados do nada. São incorpóreos quando
comparados com os homens, porém não possuem o mesmo grau de espiritualidade de
Deus (puro espírito). Sua exata natureza só pode ser conhecida por Deus".
"Estão em um lugar determinado, embora não no espaço: como não são como os
homens tridimensionais, a bilocação é para eles um fenômeno de ordem
espiritual." "Os Anjos estão, onde atuam, isto é, onde exercem seu
poder." "São imortais pela graça. Contemplam a Deus pela iluminação
própria que Deus lhes concede." São João Damasceno aceita que haja
distinção de graus de iluminação entre eles, e aceita também os nove coros de
Anjos. "A obra dos Anjos no Céu consiste em louvar a Deus; na terra servem
o Senhor e revelam seus mistérios. "O conhecimento do futuro lhes advém unicamente
da revelação de Deus." "Os Anjos foram criados antes dos homens e
antes mesmo do cosmos." "O demônio escolheu livremente o mal que era
uma espécie de obscuridade no âmbito do inteligível, e negou dessa maneira sua
própria natureza. Uma multidão de Anjos que estavam sob seu comando o seguiu na
revolta. Esta queda representou para os demônios o que a morte representa para
os homens. Já não podem arrepender-se, como não o podem fazer os homens depois
da morte. Os demônios não possuem maior poder sobre os homens e as coisas, que
aquele que Deus permite."Não possuem nenhum conhecimento do futuro."
São João Damasceno, e outros padres gregos, segundo a tese da dormição de Nossa
Senhora e a sua imediata Assunção ao céu, afirmou: "Não apenas Anjos e
Arcanjos, Potestades e Virtudes, mas também os Tronos, Querubins e Serafins, os
supremos das hierarquias angélicas, rodeiam o corpo de Maria e cheios de
alegria cantam seus louvores" (Homilia I in Dormitionem) "Maria é
mais santa que os Anjos, mais bela que os Arcanjos, mais venerável que os
Tronos, mais poderosa que as Dominações, mais pura que os Poderes, mais radiosa
que os Querubins, mais digna de respeito que os Serafins". (Na Homília in
Jaudem Deiparae) São Bernardo - doutor da Igreja (1090-1150), em muitos de seus
340 sermões enaltece o culto e a devoção aos Anjos e descreve a contemplação
dos mesmos à majestade divina e as homenagens que prestam à glória de Maria.
(PL 182, 863 -872. 878 - 884; Serm. 1-2 para a festa de São Miguel: PL 183, 447
- 454: Serm. sobre a Assunção de Maria). É importante saber que o Sínodo
Permanente de Constantinopla, no ano 543, cujas conclusões foram sancionadas
pelo Papa Virgílio, condenou a idéia de que o céu, o sol, a lua, as estrelas e
as nuvens fossem forças materiais animadas, isto é, uma espécie de Anjos
interiores e a opinião de que os demônios tenham sido castigados apenas por um
determinado tempo e que no final, se reconciliariam com Deus.
Fonte:
Prof. Felipe Aquino - Editora Cléofas
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