| A NOVA ENCÍCLICA DO PAPA |

Ecclesia de Eucharistia

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30/04/03

MONS. PEDRO TEIXEIRA CAVALCANTE *

       No último 17 de abril, Quinta-feira santa, o Santo Padre, João Paulo II, no vigésimo quinto ano do seu Pontificado e neste Ano do Rosário, deu ao mundo mais uma obra-prima: uma Encíclica sobre a Eucaristia, Ecclesia de Eucharistia.

            O texto, com mais de trinta páginas e no estilo próprio de João Paulo II, mistura doutrina com recomendações e, sobretudo, com insistente convite para uma vida de amor à Eucaristia. Com efeito, o Papa, enquanto fala sobre os ensinamentos teológicos ortodoxos da Igreja Católica sobre a Eucaristia, não perde a oportunidade de advertir certas tendências hodiernas que não estão de acordo com esses ensinamentos e, ao mesmo tempo, com muito entusiasmo e fervor místico, incita seus leitores, até mesmo com exemplos de sua vida a viverem o Mistério Eucarístico.

            A Encíclica tem uma Introdução e seis capítulos, assim distribuídos. Primeiro capítulo: Mistério da Fé. Segundo Capítulo: A Eucaristia edifica a Igreja. Terceiro Capítulo: A Apostolicidade da Eucaristia e da Igreja. Quarto Capítulo: A Eucaristia e a Comunhão Eclesial. Quinto Capítulo: O Decoro da Celebração Eucarística. Sexto Capítulo: Na Escola de Maria, Mulher “Eucarística”. Uma Conclusão termina a Documento papal.

            Fiquemos, hoje, com a Introdução. Nesta, o Santo Padre focaliza a importância da Eucaristia no mistério redentor e, conseqüentemente, na Igreja: “a Igreja, ao mesmo tempo que apresenta Cristo no mistério da sua Paixão, revela também o seu próprio mistério: Ecclesia de Eucharistia. Se é com o dom do Espírito Santo, no Pentecostes, que a Igreja nasce e se encaminha pelas estradas do mundo, um momento decisivo da sua formação foi certamente a instituição da Eucaristia no Cenáculo. O seu fundamento e a sua fonte é todo o Triduum Paschale, mas este está de certo modo guardado, antecipado e « concentrado » para sempre no dom eucarístico. Neste, Jesus Cristo entregava à Igreja a atualização perene do mistério pascal. Com ele, instituía uma misteriosa « contemporaneidade » entre aquele Triduum e o arco inteiro dos séculos.”

            Lembra o Papa o desenvolvimento do amor à Eucaristia com as várias Encíclicas papais sobre o assunto e com os ensinamentos do Vaticano II, mas, escreve ele, não pode esquecer as sombras que também se abatem sobre este Sacramento: “A par destas luzes, não faltam sombras, infelizmente.De fato, há lugares onde se verifica um abandono quase completo do culto de adoração eucarística. Num contexto eclesial ou outro, existem abusos que contribuem para obscurecer a reta fé e a doutrina católica acerca deste admirável sacramento. Às vezes transparece uma compreensão muito redutiva do mistério eucarístico. Despojado do seu valor sacrificial, é vivido como se em nada ultrapassasse o sentido e o valor de um encontro fraterno ao redor da mesa. Além disso, a necessidade do sacerdócio ministerial, que assenta na sucessão apostólica, fica às vezes obscurecida, e a sacramentalidade da Eucaristia é reduzida à simples eficácia do anúncio. Aparecem depois, aqui e além, iniciativas ecumênicas que, embora bem intencionadas, levam a práticas na Eucaristia contrárias à disciplina que serve à Igreja para exprimir a sua fé. Como não manifestar profunda mágoa por tudo isto? A Eucaristia é um dom demasiado grande para suportar ambigüidades e reduções.”

            Dois pontos ainda merecem considerações na Introdução. O primeiro é a relevância do Tríduo Pascal e, conseqüentemente, a ligação da Eucaristia com o evento fundamental da nossa fé, que é o evento pascal. Este tema é profundamente teológico. Na Introdução, o Papa o coloca como base do seu discurso para aprofundá-lo no primeiro capítulo. O segundo é o papel que a Eucaristia exerceu e exerce na sua vida sacerdotal. Aqui, o Papa evoca sua vida desde simples padre até o seu estado atual no ministério petrino e o faz com emoção e muito amor: “Quando penso na Eucaristia e olho para a minha vida de sacerdote, de Bispo, de Sucessor de Pedro, espontaneamente ponho-me a recordar tantos momentos e lugares onde tive a dita de celebrá-la. Recordo a igreja paroquial de Niegowić, onde desempenhei o meu primeiro encargo pastoral, a colegiada de S. Floriano em Cracóvia, a catedral do Wawel, a basílica de S. Pedro e tantas basílicas e igrejas de Roma e do mundo inteiro. Pude celebrar a Santa Missa em capelas situadas em caminhos de montanha, nas margens dos lagos, à beira do mar; celebrei-a em altares construídos nos estádios, nas praças das cidades... Este cenário tão variado das minhas celebrações eucarísticas faz-me experimentar intensamente o seu caráter universal e, por assim dizer, cósmico. Sim, cósmico! Porque mesmo quando tem lugar no pequeno altar duma igreja da aldeia, a Eucaristia é sempre celebrada, de certo modo, sobre o altar do mundo. Une o céu e a terra. Abraça e impregna toda a criação.”

            Nota-se, já na primeira leitura, nesta Introdução, certa ânsia do Papa para mostrar a importância da Eucaristia na vida do cristão e para demonstrar a ligação profunda entre a Eucaristia e o mistério da nossa salvação.

 

        O segundo capítulo da nova encíclica de João Paulo II intitula-se “Mistério da Fé”. Mistério da Fé, porque: “Esta tem indelevelmente inscrito nela o evento da paixão e morte do Senhor. Não é só a sua evocação, mas presença sacramental.”

            Mistério da fé, porque a Eucaristia não somente revive a morte do Senhor, mas também a sua ressurreição: “O sacrifício eucarístico torna presente não só o mistério da paixão e morte do Salvador, mas também o mistério da ressurreição, que dá ao sacrifício a sua coroação. Por estar vivo e ressuscitado é que Cristo pode tornar-Se « pão da vida ».” 

            Mistério da fé, porque Cristo não está simplesmente presente na Eucaristia, mas, no sacrifício da Missa, a hóstia e o vinho se transformam substancialmente no corpo e no sangue de Cristo: “Reafirma-se assim a doutrina sempre válida do Concílio de Trento: « Pela consagração do pão e do vinho opera-se a conversão de toda a substância do pão na substância do corpo de Cristo nosso Senhor, e de toda a substância do vinho na substância do seu sangue; a esta mudança, a Igreja católica chama, de modo conveniente e apropriado, transubstanciação ». Verdadeiramente a Eucaristia é mysterium fidei, mistério que supera os nossos pensamentos e só pode ser aceite pela fé, como lembram freqüentemente as catequeses patrísticas sobre este sacramento divino.”

            Mistério da fé, que os teólogos podem e devem estudar e analisar, mas, escreve o Papa, a advertência de Paulo Vi continua de pé: “Permanece o limite apontado por Paulo VI: « Toda a explicação teológica que queira penetrar de algum modo neste mistério, para estar de acordo com a fé católica deve assegurar que na sua realidade objetiva, independentemente do nosso entendimento, o pão e o vinho deixaram de existir depois da consagração, de modo que a partir desse momento são o corpo e o sangue adoráveis do Senhor Jesus que estão realmente presentes diante de nós sob as espécies sacramentais do pão e do vinho”.

            Esse Mistério da Fé é um dom e um dom muito especial de Deus aos homens: “A Igreja recebeu a Eucaristia de Cristo seu Senhor, não como um dom, embora precioso, entre muitos outros, mas como o dom por excelência, porque dom d'Ele mesmo, da sua Pessoa na humanidade sagrada, e também da sua obra de salvação.”

            Na Eucaristia, que é verdadeiro sacrifício, enquanto memorial, no sentido bíblico, da morte e ressurreição do Senhor, há de se considerar o amor permanente de Jesus, portanto, sua presença adorável de amor e sua oferta como alimento. Eucaristia, portanto, é presença e é banquete: “A eficácia salvífica do sacrifício realiza-se plenamente na comunhão, ao recebermos o corpo e o sangue do Senhor. O sacrifício eucarístico está particularmente orientado para a união íntima dos fiéis com Cristo através da comunhão: recebemo-Lo a Ele mesmo que Se ofereceu por nós, o seu corpo entregue por nós na cruz, o seu sangue... A Eucaristia é verdadeiro banquete, onde Cristo Se oferece como alimento.”

            Como sacrifício, que é a oferta de Cristo por nós ao Pai, a Eucaristia é também oferta da Igreja, que é Cristo continuado na terra: “Ao entregar à Igreja o seu sacrifício, Cristo quis também assumir o sacrifício espiritual da Igreja, chamada por sua vez a oferecer-se a si própria juntamente com o sacrifício de Cristo.”

            Pela Comunhão, a Eucaristia tem uma dimensão universal, enquanto é oferta para todos sem diferença: “Este aspecto de caridade universal do sacramento eucarístico está fundado nas próprias palavras do Salvador. Ao instituí-lo, não Se limitou a dizer « isto é o meu corpo », « isto é o meu sangue », mas acrescenta: « entregue por vós (...) derramado por vós.»”

            O Papa salienta ainda alguns aspectos fundamentais da Eucaristia, enquanto sacrifício e banquete, como, por exemplo, que na Eucaristia recebemos também o Espírito Santo: “Assim, pelo dom do seu corpo e sangue, Cristo aumenta em nós o dom do seu Espírito, já infundido no Batismo e recebido como « selo » no sacramento da Confirmação.

            Outro aspecto salientado por João Paulo II é a tensão escatológica que está na Eucaristia, ou seja, toda ela é dirigida para nosso objetivo final, nosso termo terreno na caminhada para a casa do Pai: “A Eucaristia é tensão para a meta, antegozo da alegria plena prometida por Cristo (cf. Jo 15, 11); de certa forma, é antecipação do Paraíso, « penhor da futura glória ». A Eucaristia é celebrada na ardente expectativa de Alguém, ou seja, « enquanto esperamos a vinda gloriosa de Jesus Cristo nosso Salvador ». Quem se alimenta de Cristo na Eucaristia não precisa de esperar o Além para receber a vida eterna: já a possui na terra, como primícias da plenitude futura, que envolverá o homem na sua totalidade. De fato, na Eucaristia recebemos a garantia também da ressurreição do corpo no fim do mundo.”

            Esse primeiro capítulo é muito rico e forte, enquanto o Papa recorda alguns dados teológicos tradicionais e ortodoxos da doutrina católica e aborda com relevância mística  alguns pontos conseqüentes da Eucaristia, enquanto memorial sacrificial e banquete do pão da vida eterna. Continuaremos nosso estudo.

 

       O terceiro capítulo da encíclica Ecclesia de Eucharistia se intitula “ A Eucaristia edifica a Igreja”. Neste capítulo, o Papa mostra e prova como a Eucaristia é fonte e origem da formação da Igreja.

            De início, diz o Papa que a Igreja nasce e cresce pelo poder de Deus na obra da redenção. Ora, conclui ele, na Missa realiza-se essa mesma obra da redenção e realiza-se de modo admirável pela unidade dos comungantes: “Pelo sacramento do pão eucarístico, ao mesmo tempo é representada e se realiza a unidade dos fiéis, que constituem um só corpo em Cristo (cf. 1 Cor 10, 17) ».

            O Papa vai  mais longe e aprofunda o nexo causal entre Igreja e Eucaristia com dois argumentos. O primeiro: os apóstolos, construtores da Igreja, estavam presentes na instituição da Eucaristia, fortificando-se com ela e com ela já participando do mistério salvífico no evento pascal. Segundo: na última ceia, Jesus lançou as bases do povo da nova aliança: “Ao oferecer-lhes o seu corpo e sangue como alimento, Cristo envolvia-os misteriosamente no sacrifício que iria consumar-se dentro de poucas horas no Calvário. De modo análogo à aliança do Sinai, que foi selada com um sacrifício e a aspersão do sangue, os gestos e as palavras de Jesus na Última Ceia lançavam os alicerces da nova comunidade messiânica, povo da nova aliança.” Por outro lado, pela comunhão sacramental também nós, os cristãos de hoje, entramos, como os apóstolos em comunhão com o Cristo crucificado: “No Cenáculo, os Apóstolos, tendo aceite o convite de Jesus: « Tomai, comei   Mas, continuando a análise da temática do capítulo, João Paulo II lembra que, a Eucaristia continua o batismo, que é a porta de entrada na Igreja. Pela Eucaristia, Deus entra em nós e nós em Deus. Assim, a Eucaristia é o aprofundamento do batismo, enquanto o leva a uma vivência autêntica e conclusiva, isto é, à divinização do homem. Assim também, a Eucaristia está na origem da constituição da Igreja: “A argumentação é linear: a nossa união com Cristo, que é dom e graça para cada um, faz com que, n'Ele, sejamos parte também do seu corpo total que é a Igreja. A Eucaristia consolida a incorporação em Cristo operada no Batismo pelo dom do Espírito (cf. 1 Cor 12, 13.27).”

            A missão principal da Igreja é evangelizar. Pela evangelização, a Igreja difunde e anuncia o Reino de Deus, no qual todo cristão encontra a salvação. Podemos dizer, então, “que a Igreja tira a força espiritual de que necessita para levar a cabo a sua missão da perpetuação do sacrifício da cruz na Eucaristia e da comunhão do corpo e sangue de Cristo. Deste modo, a Eucaristia apresenta-se como fonte e simultaneamente vértice de toda a evangelização, porque o seu fim é a comunhão dos homens com Cristo e, n'Ele, com o Pai e com o Espírito Santo.”

a “EucO efeito gerador de unidade, que provém da Eucaristia, é de máxima importância no nosso mundo moderno tão esfacelado por divisões e tão repartido por grupos de todas as espécies e qualidades. Nosso mundo diz-se globalizado, mas é nitidamente marcado por barreiras e separações. A Eucaristia nos une a Deus e com toda a humanidade:  Aos germes de desagregação tão enraizados na humanidade por causa do pecado, como demonstra a experiência quotidiana, contrapõe-se a força geradora de unidade do corpo de Cristo. A Eucaristia, construindo a Igreja, cria por isso mesmo comunidade entre os homens.”

            Foi em Pentecostes que, a Igreja fortalecida e iluminada pelo Espírito Santo, iniciou sua arrancada de difusão pelo mundo afora. Essa mesma Igreja, conforme promessa do seu Fundador, Jesus Cristo, é, foi e será sempre guiada pelo Espírito Santo. Pois bem, na Eucaristia recebemos também o Espírito de Jesus Cristo que, destarte fortalece, unifica e ilumina a Igreja de Jesus Cristo: “A ação conjunta e indivisível do Filho e do Espírito Santo, que está na origem da Igreja, tanto da sua constituição como da sua continuidade, opera na Eucaristia... A Igreja é fortalecida pelo Paráclito divino através da santificação eucarística dos fiéis... Pela comunhão do corpo de Cristo, a Igreja consegue cada vez mais profundamente ser, « em Cristo, como que o sacramento, ou sinal, e o instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o gênero humano ».

            Por fim, o Santo Padre relembra que, além da Santa Missa, a Eucaristia é sacramento de presença contínua e duradoura nas nossas igrejas e, por conseguinte, o culto eucarístico fora da Missa é muito precioso para toda a Igreja. Ele deve ser estimulado  e vivido e, neste ponto, os nossos irmãos, os Santos. João Paulo II, neste particular, não recusa oferecer-nos seu próprio exemplo, dizendo do quanto tem sido favorecido por essa adoração silenciosa diante do Santíssimo Sacramento: “O culto prestado à Eucaristia fora da Missa é de um valor inestimável na vida da Igreja, e está ligado intimamente com a celebração do sacrifício eucarístico... Compete aos Pastores, inclusive pelo testemunho pessoal, estimular o culto eucarístico, de modo particular as exposições do Santíssimo Sacramento e também as visitas de adoração a Cristo presente sob as espécies eucarísticas... Se atualmente o cristianismo se deve caracterizar sobretudo pela « arte da oração », como não sentir de novo a necessidade de permanecer longamente, em diálogo espiritual, adoração silenciosa, atitude de amor, diante de Cristo presente no Santíssimo Sacramento? Quantas vezes, meus queridos irmãos e irmãs, fiz esta experiência, recebendo dela força, consolação, apoio!... Desta prática, muitas vezes louvada e recomendada pelo Magistério, deram-nos o exemplo numerosos Santos.”

 

Hoje, comentaremos o terceiro capítulo da Encíclica “Ecclesia de Eucharistia”, a mais recente Encíclica do Papa, João Paulo II. Trata-se de um dos mais belos capítulos da Encíclica, justamente porque, além dos dados digamos teóricos, o Papa escreve sobre assuntos de natureza prática, ou seja, ele contempla a mística da Eucaristia e a reflete na vida da comunidade e, sobretudo, dos padres. É realmente um capítulo forte e rico para sérias e profundas meditações sacerdotais.

            O Papa inicia dizendo que, se a Eucaristia edifica a Igreja e a Igreja faz a Eucaristia, podemos aplicar os atributos da Igreja à Eucaristia, ou seja, que ela é una, santa, católica e apostólica. O Santo Padre, então, diz querer se deter no capítulo no exame da apostolicidade da Eucaristia.

            Lembrando que o Concílio Vaticano II aponta três sentidos da apostolicidade da Igreja, ele também examina a apostolicidade da Eucaristia sob os mesmos três ângulos conciliares. Assim, diz o Papa, a Igreja é apostólica, primeiramente, porque foi fundada e continua sendo sobre o alicerce dos apóstolos. Por essa mesma maneira, a Eucaristia é apostólica, porque remonta a Cristo, aos apóstolos e foi por eles que ela nos foi transmitida. Em segundo lugar, continua o Romano Pontífice, a Igreja é apostólica, porque guarda o depósito da fé dos apóstolos. Neste mesmo sentido, a Eucaristia é apostólica, porque é celebrada de acordo com a fé dos apóstolos e a Igreja sempre lutou para defender o verdadeiro significado da Eucaristia segundo os ensinamentos apostólicos. Por fim, conclui o Papa, em terceiro lugar, a Igreja é apostólica enquanto continua a ser  santificada e ensinada pelos apóstolos nas pessoas dos bispos, coadjuvados pelos sacerdotes em união com o sucessor de Pedro. Mas, para a legítima sucessão dos apóstolos, requer-se o sacramento da Ordem. Ora, conforme o Vaticano II, os fiéis concorrem para a oblação da Eucaristia pelo seu sacerdócio, mas somente os que têm o ministério ordenado podem realizar o sacrifício eucarístico, por isso somente o padre celebrante pode dizer a Oração eucarística: “Se a Eucaristia edifica a Igreja e a Igreja faz a Eucaristia, como antes recordei, conseqüentemente há entre ambas uma conexão estreitíssima, podendo nós aplicar ao mistério eucarístico os atributos que dizemos da Igreja quando professamos, no Símbolo Niceno-Constantinopolitano, que é « una, santa, católica e apostólica ». Também a Eucaristia é una e católica; e é santa, antes, é o Santíssimo Sacramento. Mas é principalmente sobre a sua apostolicidade que agora queremos concentrar a nossa atenção... É em continuidade com a ação dos Apóstolos e obedecendo ao mandato do Senhor que a Igreja celebra a Eucaristia ao longo dos séculos... Por isso se prescreve no Missal Romano que seja unicamente o sacerdote a recitar a oração eucarística, enquanto o povo se lhe associa com fé e em silêncio.”

            Depois de apresentar estes dados fundamentais da fé, o Papa passa para um lado mais prática e, também, mais místico e diz que o sacerdote realiza o sacrifício eucarístico in persona Christi, isto é, não apenas faz as vezes, ou estar no lugar de Cristo, mas numa verdadeira identificação sacramental com o Sumo Sacerdote, que não pode ser substituído por ninguém. Por isso, o poder de celebrar a Eucaristia é um dom divino, que supera qualquer poder da assembléia e é, ao mesmo tempo, insubstituível para ligar a Eucaristia ao sacrifício de Cristo. Por isso, a Assembléia do Povo de Deus não tem Eucaristia sem o ministro ordenado, mas só existe verdadeiro ministro ordenado quando ele assim foi feito por um bispo, também consagrado na verdadeira linha da sucessão apostólica. Mas, adverte João Paulo II, para tirar dúvidas e desconfianças, o fato de que só o ministro ordenado possa consagrar a Eucaristia não é rebaixamento dos demais membros do Povo de Deus, porque a Eucaristia redunda em benefício de todos.

            Neste ponto, a Encíclica entra na questão ecumênica e relembra que esta doutrina  da Igreja sobre a Eucaristia tem sido tema das conversações ecumênicas nos últimos tempos, que, certamente, darão bons frutos no futuro. Todavia, quanto à participação da comunhão nas celebrações de certas comunidades eclesiais surgidas após o século XVI e separadas da nossa Igreja, embora “quando na santa Ceia comemoram a morte e a ressurreição do Senhor, elas confessem ser significada a vida na comunhão de Cristo e esperam o seu glorioso advento... os católicos não podem participar da comunhão por eles distribuída e nem podem substituir a celebração dominical da eucaristia por atos ecumênicos.”

            Depois desta advertência geral, o Papa dirige-se diretamente aos padres, e lhes lembra que a “Eucaristia é centro e vértice do sacerdócio, que nasceu com ela e que, por isso mesmo, para evitar a dispersão de atividades, o padre tem como princípio de unidade a caridade pastoral, mas esta deve provir da Eucaristia. O Padre deve celebrar, pois, diariamente a santa Missa, mesmo sem assistência de fiéis, de tal modo que os seus dias sejam dias eucarísticos.

            Mas, diz o Papa, não são somente os padres que devem concentrar suas atividades na Eucaristia, mas também o próprio movimento das Obras das Vocações Sacerdotais deve ser todo ele eucarístico. A Eucaristia deve ser central na Obras das Vocações Sacerdotais. Primeiro, porque a oração eucarística é a melhor para a união com o Sumo sacerdote; segundo, porque na participação viva da Missa os jovens podem despertar para o sacerdócio.

            No final do capítulo, o Papa, como pastor supremo da Igreja, faz umas conclusões verdadeiramente pastorais. Diz ele que de tudo isso se conclui que é triste uma paróquia sem padre. Os leigos podem fazer celebrações dominicais, quando for necessário, mas estas devem apenas provisórias e passageiras. Tais situações devem estimular a todos a  rezar pelas vocações sacerdotais sem querer, porém, ceder à tentação de minimizar as condições de um verdadeiro padre. Como palavra final, o Papa recomenda que também as comunidades que não têm padre, devem manter a fome da eucaristia e quando aparecer um padre, não impedido pelo direito, que elas procurem logo a celebração da santa Missa.

 

A “Eclesiologia da comunhão” foi a idéia fundamental do Vaticano II. Com efeito, compete à Igreja tem de conservar e desenvolver uma dupla comunhão, a saber, a comunhão com a Trindade e a comunhão dos fiéis entre si. Para isto, tem a Palavra e os sacramentos, especialmente a Eucaristia, que até manifesta essa comunhão, tanto assim que  a palavra “comunhão” é um dos nomes próprios da Eucaristia.

            A Eucaristia é o sacramento perfeito para a união com Deus, porque leva até à culminância essa união, identificando-nos por ele com Jesus. Daí o incentivo à comunhão espiritual, tão recomendada por muitos santos, especialmente por Santa Teresa.

            Existe a dimensão invisível da comunhão, a saber, a comunhão com o Pai, por meio de Jesus no Espírito Santo e entre nós; e a dimensão visível, a saber, a comunhão com a doutrina apostólica, com a Igreja  e nos sacramentos. A Eucaristia não antecede essas comunhões, ela as supõe, consolidada e desenvolve. Para se celebrar, pois, a Eucaristia deve haver a existência dessas duas ordens de comunhão, o que é próprio da Igreja, como sacramento geral de salvação.

            A Comunhão invisível, por sua vez, exige a graça santificante e a prática das virtudes teologais. E não basta a fé, é preciso que o corpo e o coração estejam na Igreja, ou seja, que vivamos a graça. Faz-se mister uma fé viva e atuante na caridade.

            A integridade dos vínculos invisíveis é um dever moral concreto do cristão que queira participar plenamente na Eucaristia, comungando o corpo e o sangue de Cristo”, isto é, só se pode comungar, quando se está  bem preparado pela comunhão invisível com Deus.

Por isso, continua de pé a advertência do Concílio de Trento: se alguém está em pecado mortal, deve, antes da comunhão, confessar-se, como adverte o CIC. Deste modo, os sacramentos da Eucaristia e da Reconciliação estão profundamente ligados. A Eucaristia supõe a conversão, dada pela Reconciliação, para desenvolvê-la e consolidá-la.

            É claro que a avaliação da consciência pertence a cada pessoa, mas a Igreja deve intervir quando se trata de uma falta grave pública, ostensiva e duradoura, como diz o cânon 915, do Código de Direito Canônico.

            Antes de aprofundar a ligação entre a comunhão visível e a Eucaristia, o Papa lembra um ensinamento do Vaticano II: “São plenamente incorporados à sociedade que é a Igreja aqueles que, tendo o Espírito de Cristo, aceitam toda a sua organização e os meios de salvação nela instituídos, e que, pelos laços da profissão da fé, dos sacramentos, do governo eclesiástico e da comunhão, se unem, na sua estrutura visível, com Cristo, que a governa por meio do Sumo Pontífice e dos Bispos”.

            A Eucaristia como”suprema manifestação sacramental da comunhão na Igreja”exige também  essa comunhão visível. Portanto, quem não é batizado não pode comungar; quem rejeita a integridade da fé sobre a Eucaristia também não pode comungar. Ademais, “em virtude do caráter próprio da comunhão eclesial”, a comunidade que celebra a Eucaristia não pode se fechar, mas ela está em comunhão com toda a Igreja. Na prática isto quer dizer que, para se celebrar dignamente a Eucaristia é preciso a união com o Bispo, princípio de unidade na sua diocese, e com o Papa, princípio de unidade de toda a Igreja. Com efeito,  “a Eucaristia cria comunhão e educa para a comunhão.” Não se pode celebrar a Eucaristia em desunião. São Paulo já advertia os Coríntios sobre este ponto.

            “Esta eficácia peculiar que tem a Eucaristia para promover a comunhão é um dos motivos da importância da Missa dominical.”  É preciso, pois, lembrar que os fiéis têm obrigação de ir à missa dominical, a menos que haja um impedimento grave, e os pastores têm o dever de oferecer a possibilidade dessa presença dos fiéis na missa. A missa dominical, na verdade, é ocasião muito propícia para a unidade da e na Igreja.

            Ademais, porque a Eucaristia é o grande sacramento da unidade, merece o maior respeito, Assim, a Igreja deve “determinar as condições objetivas nas quais se deve abster de administrar a comunhão.” E isto a Igreja o faz, porque “o cuidado com que se favorece a sua fiel observância torna-se uma expressão efetiva de amor à Eucaristia e à Igreja.”

            Falando de unidade e de celebração da Eucaristia, era oportuno que o Papa se referisse ao movimento ecumênico e ele o faz, não só lembrando que nestas últimas décadas, o movimento ecumênico surgiu e cresceu muito, mas também dizendo que não podemos esquecer que a Eucaristia, enquanto sacramento da unidade, tem íntima relação com esse empenho ecumênico.

            Escreve o Sumo Pontífice que, na Missa, pedimos ao Pai que, pelo Espírito Santo, formemos um só corpo e um só espírito. E acreditamos na eficácia da nossa oração, porque é a Esposa que, na missa, une-se ao sacrifício redentor e infinitamente rico do seu Esposo.

            Todavia, para que se busque sinceramente a unidade dos cristãos, não se pode  celebrar a Eucaristia com quem não tem a plena comunhão de fé conosco. A unidade tem de ser feita na verdade, sem ambigüidades. Essa abstenção, porém, não significa que não tenhamos, como de fato devemos ter, a vontade ardente de um dia celebrar todos juntos a Eucaristia do Senhor.

            Não devemos esquecer, contudo, que, em casos especiais, pode-se administrar a Eucaristia a pessoas, que não estejam em plena comunhão conosco, porque nestes casos não se trata de intercomunhão, mas de atender a uma grave necessidade em ordem à salvação. O Papa recorda que já na sua Encíclica Ut unum sint  manifestara seu agrado com esta determinação da nossa Igreja: “É motivo de alegria lembrar que os ministros católicos podem, em determinados casos particulares, administrar os sacramentos da Eucaristia, da Penitência e da Unção dos Enfermos a outros cristãos que não estão em plena comunhão com a Igreja Católica, mas que desejam ardentemente recebê-los, pedem-nos livremente e manifestam a fé que a Igreja Católica professa nestes sacramentos. Reciprocamente, em determinados casos e por circunstâncias particulares, os católicos também podem recorrer, para os mesmos sacramentos, aos ministros daquelas Igrejas onde eles são válidos.” Nesses casos, é preciso atender bem às condições requeridas, sobretudo a existência do ministério sacerdotal ordenado. O cumprimento dessas condições é imprescindível como prova da verdade e, portanto, do respeito aos irmãos separados, do amor à Eucaristia e do verdadeiro e sincero desejo de unidade.

 

O quinto capítulo da Encíclica “Ecclesia de Eucharistia” trata do “Decoro na Celebração Eucarística”. De início, o Santo Padre relembra a última ceia celebrada pelo Senhor com seus discípulos e salienta a simplicidade e a  dignidade com que tudo foi feito.  O Papa relembra que o episódio da unção feita por Maria é  diz que ele é o prelúdio da instituição da Eucaristia e tal fato nos chama a atenção, porque Jesus o aceita e o defende, como “como uma antecipação daquelas honras de que continuará a ser digno o seu corpo mesmo depois da morte, porque indissoluvelmente ligado ao mistério da sua pessoa.”

            Ademais, é de notar como Jesus procurou preparar com cuidado e esmero a última ceia, quando da instituição da Eucaristia. O Mestre seguiu, segundo as narrações evangélicas, a páscoa hebraica, mas com clara declaração de que se tratava do seu corpo e do seu sangue. Na Quinta-feira Santa aparece claramente uma sensibilidade litúrgica, modulada no judaísmo e remodulada na Igreja nascente segundo o sentido da Páscoa.

            Como na unção de Betânia e na procura “dos discípulos por uma “grande sala”, para a última ceia do Senhor,  a Igreja nunca temeu desperdiçar suas riquezas para o decoro e a beleza da celebração eucarística.  Partindo das palavras e gestos de Jesus, nasceram a grandeza e  a beleza da liturgia cristã eucarística. A Eucaristia é banquete, o que nos sugere simplicidade e intimidade, mas é banquete sagrado, onde se come o pão dos anjos. Portanto, não pode ser banalizada. Merece todo respeito e a humildade do Centurião (Mt 8,8; Lc 6,6).

            Por causa de sua profundidade misteriosa, a Eucaristia requer não somente  uma “atitude interior de devoção”, mas também “uma série de expressões exteriores”, que dela sejam dignas. Assim nasceu lenta e progressivamente “um estatuto especial de regulamentação da liturgia eucarística” nas várias tradições eclesiais, sobre o qual tem surgido um “um rico patrimônio de arte” nos seus vários ramos, como a música, a pintura, a arquitetura e a escultura. Basta lembrar a existência das grandes basílicas, das inconfundíveis catedrais e das inumeráveis igrejas, pequenas e grandes, do nosso tempo. Basta lembrar o canto gregoriano e a numerosas melodias polifônicas em honra do augusto sacramento. Basta lembrar as obras de arte nos objetos, vasos e paramentos sagrados. Assim, podemos dizer que a Eucaristia plasmou a Igreja, sua espiritualidade e incidiu igualmente sobre a cultura dos povos, especificamente, na estética. Nesse sentido houve como que uma espécie de sã competição entre o Ocidente e o Oriente. Aqui, os artistas, cheios do sentido do mistério, não só usaram do seu gênio, mas puseram-se num “autêntico serviço à fé”. Esse maravilhoso patrimônio dos cristãos é um grito para a vivência da Eucaristia na unidade da fé. Lembremos a Trindade de Rublëv, na qual se vê a Igreja eucarística imersa na unidade trinitária, tornando-se assim um ícone da própria Trindade Santa.

            Mas, para que essa arte tenha de fato seu sentido religioso, a Igreja, mesmo respeitando a liberdade dos artistas, sempre procurou regulamentar “a construção e o adorno dos  edifícios sacros”. Com efeito, a arte figurativa e a música devem ser capazes de exprimir o sentido do mistério, por isso devem seguir as orientações pastorais das autoridades competentes. Como aconteceu nos primeiros tempos, também ainda hoje nas novas terras evangelizadas, precisa-se, como salientou o Vaticano II, de uma “sã e necessária inculturação”, pois, a Eucaristia não é alimento apenas das pessoas, mas dos povos e de suas culturas.

            O tesouro eucarístico é precioso demais para que se corra o risco de improvisações sem cuidado e sem as orientações das autoridades religiosas competentes. Além disso, o mistério da unidade da fé requer  a “estreita relação com a Santa Sé”, e não pode ficar a mercê das Igrejas locais isoladas da Igreja universal.

            Numa reação ao formalismo, muito inventaram novos caminhos da celebração eucarística  nem sempre corretos  e às vezes não aprovados, criando muitos lamentáveis abusos.  Compete aos sacerdotes, neste particular, grave responsabilidade.

            A Eucaristia não é propriedade privada; ela é da Igreja. Portanto, todos devem observar as normas da Igreja sobre sua celebração, para que ela indique a profunda união e unidade com a Mãe Igreja. Por isso, o Papa pediu aos dicastérios que preparassem um documento sobre o assunto, “incluindo também referências de caráter jurídico”. O Santo Padre, como Pastor supremo da Igreja de Cristo,  não pode, como São Paulo fez com a Comunidade de Corinto, permitir que a Eucaristia seja tratada “a livre arbítrio” de cada um. Todos devem respeitar seu “caráter sagrado” e “sua dimensão universal”.

 

* É DOUTOR EM TEOLOGIA E VIGÁRIO-GERAL

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