| Em espírito e verdade |

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28/07/02

MONS. PEDRO TEIXEIRA (*)


Certo dia, Jesus encontrou-se com uma mulher da Samaria. Era meio-dia. Fazia um calor intenso e o Mestre tinha sede. Foi o suficiente para que, passando por cima das regras e normas de crenças e costumes, Jesus estabelecesse um diálogo fantástico com aquela mulher, que, segundo os padrões morais da pregação de Jesus e os ditames sócio-religiosos da época, não somente vivia no pecado, mas também nem sequer deveria conversar a sós com um Rabi.
     Às tantas do diálogo, a mulher, agora interessada pela mensagem que ouvia, demonstra profunda admiração, porque o profeta desconhecido lhe dissera que era em Jerusalém que se devia adorar. Foi quando Jesus, aproveitando a deixa, replicou: “Vem a hora, e já chegou, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e verdade. Porque são esses adoradores que o Pai procura. Deus é espírito; e em espírito e verdade é que o devem adorar os que o adoram” (Jo 4,23-24).
     Adorar em espírito e verdade significa adorar a Deus no íntimo do coração, de tal maneira que nossa fé viva da verdade e não se realize com coisas secundárias, superficiais e aparentes. Em espírito e verdade significa uma crença feita de verdades verdadeiras, que se expressa na retidão dos costumes e na justiça das ações.
     Em espírito e verdade significa que o autêntico adorador de Deus não vive de sensacionalismo e de novidades. Em espírito e verdade significa que a fé deve ser autêntica, original, feita de verdades puras e, não, de invencionismos e sentimentalismos. Em espírito e verdade significa que nossa fé deve partir do íntimo de um coração reto e se expressar numa vida íntegra e conforme os ditames da mensagem evangélica.
     Em espírito e verdade significa coerência da fé com a vida e não sincretismo de crenças e mistura de teses e teorias com sabor de esoterismo e mundanismo. Em espírito e verdade significa muita coisa ainda, mas tudo se resume numa religião pura e imaculada, vivida e manifestada num culto de fé, que não é apenas sentimento nem tão pouco um ato racional sem alma.
     Ainda hoje a palavra de Cristo ressoa forte e tem seu sentido e importância como se ontem fora dita. Com efeito, muitos cristãos querem fazer a adoração como se fosse uma extravasão sentimental, enquanto outros dissociam completamente a fé da sua vida, vivendo uma dicotomia funesta, perigosa e condenável.
     Jesus não via necessidade nem de gritos, nem de muitas palavras, nem de publicidade para uma verdadeira oração. Ademais, taxou, em poucas palavras, o que desejava e requeria do coração de um verdadeiro adorador: “Bem-aventurados os que têm coração puro, porque estes verão a Deus” (Mt 5,8). No cristianismo de Jesus, a fé guia a vida e a vida esquenta e aumenta a fé.
Muitos cristãos estão a ver coisas sensacionais e nelas se deliciam, enquanto outros vivem anunciando comunicações interiores do Espírito, mas vivem longe da fé e dos ensinamentos de Jesus. Não é o lugar, não é o tempo, não são os gestos e as formas, não é o exterior nem o acidental, não é nada disso que marca o verdadeiro adorador, que adora a Deus em espírito e verdade.
     O que caracteriza o verdadeiro adorador de Deus é a pureza de coração, é a simplicidade da manifestação de sua fé, é a fusão do seu crer com seu viver, é a procura da verdade nua e crua, é um culto cujo primado está no espiritual, no divino, no sagrado.
     Aquele que faz da fé um alarde espalhafatoso ou apenas um meio de extravasar seu ego deprimido e complexado ainda não compreendeu as palavras evangélicas que devemos adorar a Deus em espírito e em verdade.
(*) É DOUTOR EM TEOLOGIA E VIGÁRIO GERAL

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