24/10/04
MONS. PEDRO TEIXEIRA
CAVALCANTE *
Liguei a televisão e, por
poucos momentos, vi cenas terríveis, em que duas pessoas se digladiavam
até a morte, uma procurando sobreviver à outra. Fiquei entediado,
enojado e quase revoltado. Mudei de canal e fui ver a vida dos animais. E
foi pior! Vi cenas também horríveis. Fortes e poderosos perseguindo e
matando fracos e indefesos. Até entre os animais, que parecem, de longe,
bonitos e bondosos, existem a rixa, o ódio, a briga, a indiferença
diante da vida do outro! Sobrevivência? A lei natural da luta pela
sobrevivência? Pode ser e até que eu a compreendo, mas não poderia ser
diferente entre os homens? Há mesmo necessidade que os homens se matem
para sobreviver? Que exista tal lei entre os irracionais eu posso
entender, mas entre os racionais, que têm instrumentos e razão para
descobrirem novos meios de sobrevivência, isso é sumamente inconcebível.
Nenhum motivo pode ser encontrado e apresentado, a não ser a legítima
defesa, que justifique a briga, a luta, o duelo, a morte em favor da vitória
sobre o outro. Aliás, será que já não está no tempo, com o progresso
tecnológico que estamos usufruindo, de o homem encontrar novos meios de
subsistência que não seja através da morte dos animais? Quem sabe se
isso não poderá acontecer num futuro próximo? A verdade é que se
confunde constantemente a lei da violência com a lei da sobrevivência. E
o que não pode mesmo acontecer é a violência desenfreada, em que o
homem é um lobo para outro homem, como dizia Hobbes.
Nenhuma religião aceita tamanha degradação do ser
humano, mas até mesmo o simples uso da razão é capaz de nos provar que
a sobrevivência natural de alguém não deve ser adquirida à custa da
violência contra o outro. E o pior é quando uma pseudo-sobrevivência é
apresentada como desculpa para uma violência cruel e desalmada.
Precisamos sobreviver, mas seja condenada toda e qualquer crueldade em
nome da sobrevivência, sobretudo quando a violência camufla o egoísmo,
interesses escusos e paixões desordenadas.
* É DOUTOR EM TEOLOGIA E VIGÁRIO-GERAL
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