| UMA SEMANA ESPECIAL |

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09/04/03

MONS. PEDRO TEIXEIRA CAVALCANTE *

       A celebração da Páscoa sempre existiu entre nós, os cristãos. Já no Novo Testamento, com o próprio Cristo se inicia o processo celebrativo que, através dos séculos, continua vivo até nossos dias. É claro que as solenidades atuais não são as mesmas dos primeiros tempos. Houve uma evolução nas celebrações, embora o sentido tenha sido sempre o mesmo: recordar e viver a paixão e morte do Senhor Jesus e a nossa passagem e libertação da morte para a vida, assim como os judeus a celebram recordando a passagem pelo mar Vermelho, na caminhada da libertação da escravidão no Egito e na marcha em demanda à Terra prometida.

            O centro de toda a Semana Santa é o tríduo pascal. Para ele tudo converge e nele o topo é a Vigília Pascal da noite do Sábado Santo, mas isto é mais um motivo para que todos os católicos vivam intensamente cada dia da Semana Santa. A partir do Domingo de Ramos, quando a Liturgia recorda a entrada triunfante de Jesus em Jerusalém até a Vigília noturna do Sábado Santo, devemos reviver todos os passos da caminhada de Jesus  até à sua ressurreição, passando pela sua Paixão e Morte.

            O evento pascal é tão importante e sublime, que exige de cada um de nós não somente uma atenção especial, mas uma reflexão que leve à vivência de cada ato, de cada fato, de cada mensagem. Mesmo nos dias menos importantes, como a segunda-feira, terça-feira e quarta-feira, somos chamados à meditação do Mistério do Senhor, de tal modo que, no Tríduo sagrado, estejamos preparados para um verdadeiro mergulho na Páscoa.

            É triste e até vergonhoso ver muitos católicos olharem para a Semana Santa com um olhar indiferente, ou seja, vendo nela apenas mais uns dias de descanso e abusando desse descanso para festinhas profanas, regadas com álcool e guloseimas de toda e espécie. Até mesmo na  Sexta-feira santa, muitos católicos passam o dia nas praias, bebendo e comendo, sem pensar na Paixão e Morte do seu Salvador; sem pensar no jejum que lhes é imposto pela Igreja; sem pensar nos “Cristos”, que estão, hoje em dia, sendo crucificados pela fome, pela miséria, pela penúria, pelas doenças para as quais não têm meios para se defender.

            Católico de verdade, católico sério - e só pode existir esse tipo de católico - não pode perder esse tempo valioso da Semana Santa para se purificar, para, meditando seriamente o mistério pascal, acelerar a marcha para sua transfiguração, que terminará na Páscoa eterna do dia sem ocaso, na casa do Pai do céu.

            Como dissemos, o ponto máximo da Semana Santa é o tríduo pascal, que começa com a celebração da Missa da última ceia do Senhor, ou, como o povo a chama, Missa do Lava-pés. “A liturgia da noite da Quinta-feira Santa  é marcada sobretudo pela comemoração da Última Ceia de Jesus e da instituição da Eucaristia realizada nessa mesma ocasião, mas também pelo rito do lava-pés que teve lugar nessa oportunidade, como símbolo do amor de Jesus a serviço dos homens. Toda a comunidade deve participar da missa da ceia do Senhor”.  Nessa Missa, canta-se o Glória, tocam-se os sinos, que devem silenciar, logo em seguida, para voltarem a soar na noite da Vigília sagrada. O rito do lava-pés, além de evocar a ação humilde do Mestre, é também uma demonstração simbólica do múnus de servidor do sacerdote, representante de Jesus. O Padre está sempre a serviço da comunidade, como o pastor está a serviço do seu rebanho, dele cuidando com amor e por ele dando cada minuto de sua vida.

            A Sexta-feira santa é marcada pelo pensamento da Paixão e da Morte do Senhor. “A Sexta-feira da Paixão como dia da morte de Cristo (14 de Nisã, que caiu, então, numa sexta-feira) tem sido sempre  um dia de pesar e de jejum, de participação na Paixão, também dito jejum de pesar... Ao passo que os três primeiros séculos do cristianismo não tinham uma liturgia especial  para a Sexta-feira santa, no século VI desenvolveram-se três formas diferentes de liturgia não-eucarística... A reforma de 1955 manteve a divisão tradicional em três partes, mas abandonou de novo muitos ritos e rubricas, particularmente na celebração da comunhão, entre os quais a proibição de dar a comunhão aos fiéis”.

            A Vigília pascal da noite do Sábado é, como já dissemos, o topo da pirâmide. “Na Igreja dos primeiros tempos, o Sábado Santo era um dia sem liturgia própria, como dia de repouso de Cristo no sepulcro”. Hoje, com a reforma litúrgica de 1951, a “mãe de todas as vigílias sagradas” tornou-se, depois que os fiéis passam o sábado no silêncio junto ao sepulcro do Senhor, a grande festa da cristandade.

            Oxalá que os católicos se conscientizem da beleza e da grande do tríduo pascal e, sobretudo, vivam a liturgia desses três dias! Só assim a liturgia da Semana Santa terá sido vida para nós e essa mesma Semana Santa terá sido uma semana toda especial. 


* É DOUTOR EM TEOLOGIA E VIGÁRIO-GERAL

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